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SOUZA, Roberto Acizelo de. Iniciação aos Estudos Literários. São Paulo: Martins
Fontes, 2006, pp.149-57.

RETÓRICA

A gênese da retórica explica-se usualmente por uma circunstância histórica bem


precisa, de ordem sociopolítica. Na Sicília do século V a.C., dois tiranos – Gelon e
Hieron - , visando povoar Siracusa, transferem populações, expropriam e redistribuem
terras; depostos numa rebelião, abrem-se processos para a devolução das propriedades
aos antigos donos, mobilizando-se assim grandes juízes populares. Convinha então às
partes em litígio a maior eficácia possível no uso do discurso, para persuadir de suas
razões os julgadores; com a utilidade desse modo posta em voga, os recursos da
eloquência começam logo a ser sistematizados, tornando-se objeto de uma arte, no
sentido antigo deste termo. Ainda no mesmo século V a.C. a retórica seria introduzida
na Ática, onde se desenvolveria favorecida por uma situação social e política
semelhante à de Sicília, marcada pela livre reivindicação de direitos por via judiciária
(cf. Barthes, in Cohen et alii, 1975 [1970], p. 151).

Mas é provável que não sejam assim tão simples os fatores implicados na origem
da disciplina; se tudo se reduzisse à mera determinação por uma conjuntura histórica
particularíssima, como seria possível explicar a permanência não só das técnicas
retóricas, mas de verdadeira mentalidade de conformação retórica ao longo de toda a
histórica ocidental, portanto muito para além da extinção completa da circunstância que
a teria gerado? Como não se cabe aqui o aprofundamento dessa questão, assinalemos
apenas que o problema dos fatores que teriam determinado a gênese da retórica parece
bem mais complexo; assim, sem negar a ação pontual dos fatos político-sociais
referidos, é preciso reconhecer que a disciplina em causa tem raízes mais fundas, como
indiciam, por exemplo, a valorização da linguagem na poesia homérica – seus heróis
são pródigos em discursos longos e pomposos, e a narrativa com frequência comporta
enunciados metalinguísticos, referindo-se constantemente à própria língua e a noções
conexas – e sua transformação em tema filosófico privilegiado desde as cogitações de
pensadores anteclássicos.

Publicado anteriormente em: SOUZA, Roberto Acízelo de. O império da eloquência – retórica e poética
no Brasil oitocentista. Rio de Janeiro: Eduerj/ Niterói: Eduff, 1999, pp. 6-12.
Voltemos, no entanto, ao terreno historiográfico, ainda que, no caso que nos
ocupa, os “fatos” quase se diluam na lenda, sendo precariamente reconstituídos a partir
de relatos de escritores antigos.

Estabelecida na Sicília no século V a.C., a retórica teve como primeiros cultores


Empédocles, Córax e Tísias, ainda nesse mesmo século. Já nesse momento nebuloso de
suas origens, a disciplina teria conhecido duas orientações: constituir-se numa
demonstração técnica e racional do verossímil e atuar como uma psicagia (literalmente,
“condução da alma”), isto é, exploração do potencial de sedução da palavra, aquém ou
além da inteligibilidade. A primeira orientação aspira tornar mais potente e válido o
discurso sob uma perspectiva lógica, tendo como fontes Córaz, Tìsias e Protágoras
(século V a.C.); a segunda, mergulhada em princípios pitagóricos – distinção entre a via
da verdade e da opinião –, pretende trabalhar o fascínio enganador a que se presta a
palavra, originando-se no pensamento de Empédocles (século V a.C.), para daí passar a
Górgias (séculos V-IV a.C.) e depois Isócrates (séculos V-IV a.C.) (cf. Plebe, 1978
[1968], pp. 3-6, passim).

Em fins do século V a.C. a retórica entra num período mais bem documentado,
podendo-se dizer, contudo, que a controvérsia referida, entre a arte da palavra como
embalagem do raciocínio ou como encantamento e ilusionismo, se transforma em
verdadeiro mote do debate filosófico que atravessaria os séculos. Neste período,
destacam-se as obras de Platão e de Aristóteles. Ao passo que o primeiro, em seus
diálogos, ora reagiu contra a retórica enquanto hipertrofia da linguagem como forma
sedutora, ora a avaliou positivamente, desde que identificada com a dialética, o segundo
lhe dedicou um tratado específico – Arte retórica – destinado a ampla influência,
concebendo-a como técnica rigorosa de argumentação e como arte de estilo, além de
estuda-la dos pontos de vista do éthos do orador e do páthos dos ouvintes.

No âmbito grego a retórica seguiria sua carreira: teve muita importância entre os
estóicos (séculos IV-III a.C.), floresceu na época de Augusto (séculos I a.C.-I d.C.) e
conheceu o ocaso com a chamada segunda sofística, entre os séculos II e IV d.C. (cf.
Plebe, 1978 [a968], cap. IV a VI).

A partir do século I a.C. torna-se também latina: Cícero (séculos II-I a.C.)
desenvolve a prática da retórica aristotélica e postulo a natureza intercomplementar das
relações entre retórica e filosofia; o tratado de autoria anônima Rhetorica ad Herennim
(século I a.C.) divulga e populariza as fontes gregas, firmando a terminologia retórica
em latim; Quitiliano (séculos I-II d.C.) estabelece a pedagogia da retórica aristotélica
em Roma.

Nessa altura, através de sucessivas retomadas, a arte de bem dizer, definição


proposta por Quitiliano – “[...] rhetoricen esse bene dicendi scientiam [...] (s.d., p. 254)
–, já se apresenta sob a forma de uma unidade, verdadeira superinstituição ocidental,
cujo poder de modelização, extrapolando a circunscrição originária constituída pelos
discursos públicos orais em geral, alcança a conversação e os diversos tipos de
composição escrita. Nessa vasta rede de conceitos e preceitos tornaram-se consensuais
algumas distinções.

Inicialmente, existe a diferenciação entre os grandes gêneros da eloquência, segundo a


categoria dos destinatários e a situação da causa em referência ao tempo: o judiciário,
próprio dos tribunais, cujos ouvintes se pronunciam em veredicto sobre certos fatos
situados no passado; o deliberativo, das assembleias populares políticas, em que a
audiência se manifesta sobre os rumos futuros a observar na vida civil; o epidítico ou
demonstrativo, inerente às cerimônias públicas e aos rituais, atento a uma situação
presente que induz o louvor ou a censura por parte de quem fala, cabendo aos ouvintes o
papel de espectadores das habilidades do orador.

Há também a distinção entra as partes da retórica, que visa das contas das fases
percorridas na elaboração e execução de um discurso, nomeadas com os seguintes
termos tradicionais gregos e latinos heúresis ou inventio (invenção; achar o que dizer);
táxis ou dispositio (disposição; pôr em certa ordem o que se tem a dizer); léxis ou
elocutio (elocução; colocar os ornamentos do discurso); hypókrisis ou pronuntiatio
(pronunciação; proferir o discurso, tendo em vista a dicção e a gesticulação adequadas);
mnéme ou memoria (memória; confiar o discurso à memória).

Mas, conquanto a retórica tenha efetivamente assumido essa feição de unidade,


sobretudo em suas versões mais didáticas, é preciso ter em conta o caráter apenas
aparente dessa unidade, ou de construção a posteriori: “[...] falamos hoje de ‘a
Retórica’, mas é bastante seguro dizer que a prática retórica efetiva nunca teve,
enquanto prática datada e situada, a generalidade formal pressuposta na expressão”
(Hansen, 1994, p.9).
Retomemos agora o percurso histórico da retórica, com base na cronologia
estabelecida por Roland Barthes (in Cohen et alii, 1975 [1970], pp. 223-4).

Nos séculos IV e, respectivamente Ausônio e Sidônio Apolinário transmitem à


Idade Média a chamada neo-retórica, elaborada duranto o período da segunda sofística;
Santo Agostinho (séculos IV-V) e Cassiodoro (séculos V-VI) põem a retórica a serviço
do pensamento e proselitismo cristãos, e Beda (séculos VII-VIII) a aplica à Bíblia;
Marciano Capela (século V) a inclui entre as sete artes liberais ( com gramática,
dialética, geometria, aritmética, astronomia e música), e Alcuíno (século XI), na sua
reforma das escolas que introduz o septennium, conserva-lhe um lugar no trivium (junto
com gramática e dialética), no que seguia o sistema que já tinha precedentes em Boécio
(séculos V-VI) e Santo Isidoro de Sevilha (séculos V-VII); Boécio é ainda o responsável
pelo primeiro retorno a Aristóteles nos tempos medievais (estudo da lógica restrita), a
que se seguiriam a tradução árabe do século IX e sua segunda retomada, processada no
século XII pelo estudo da lógica integral.

Tais são alguns dos nomes e eventos que promovem a continuidade da retórica
por toda a Idade Média. Seus reveses, porém, então têm início: o lugar da preeminência
que conservou no trivium entre os séculos V e VII passa a ser ocupado primeiro pela
gramática, do século VIII ao X, e depois pela dialética, do século XI ao VV (cf. Barthes,
in Cohen et alii, 1975 [1970], p. 167); por fim, no limiar dos tempos modernos, Petrus
Ramus (século XVI) propõe uma redução do seu campo, argumentando que a inventio e
a dispositivo na verdade pertenciam à dialética, cabendo à retórica apenas a elocutio, a
pronuntiatio e a memoria (cf. Dixon, 1971, p. 46). Assim, a partir da difusão das idéias
ramistas, a retórica tem a influência progressivamente reduzida, a retórica tem a
influência progressivamente reduzida, podendo-se dizer que sua posição de relevo não
ultrapassa o século XVIII. Vejamos as causas e os estágios desse processo de
esvaziamento.

O sentido depreciativo da palavra retórica já se acha bem fixado no início do


século XVII; a disciplina sucumbe a um ataque simultaneamente moral e estético, que
tem no Górgias de Platão referência fundamental (cf. Dixon, 1971, p.64). Contribuíram
ainda parra o descrédito da retórica os seguintes fatores: o contraste entre “pensamento
real” e “ornamento insubstancial”, a que se vincula a proposição de Petrus Ramus
mencionada acima; a crítica rejeicinista de Montaigne e Bacon, defendendo a
precedência de res (as coisas) sobre verba(as meras palavras); a disseminação do
espírito científico, valorizando a pesquisa e a descoberta, contra a autoridade e a
imitação, e erigindo a clareza, entendida como eliminação de ornamentos, em novo
padrão do estilo da prosa, especialmente adequado aos relatórios científicos e
discussões, segundo proposta da Royal Society of London no século XVII, o empenho
de John Locke em defender o caráter essencialmente comunicativo de linguagem, cuja
clareza se veria prejudicada pela obscuridade das figuras; a combinação de gêneros –
que a retórica pretendia puros – promovida pela tragédia burguesa e pela comédia
sentimental; a mudança do conceito de poesia operada pelo Romantismo: esta deixa de
ser um arte pública sujeita a julgamento por critérios externos de ordem moral, para
tornar-se expressão íntima, sem nenhum fim ulterior e autônoma do ponto de vista
moral; a posição proposta por John Stuart Mill entre retórica e poesia; o pensamento de
Benedeto Croce, condenando a classificação por gêneros e exaltando a indivisibilidade
da arte e a intuição; os “esquemas de caráter” impostos pelo treinamento retórico, que
teriam conduzido a uma visão dos seres humanos segundo estereótipos, refratários
portanto a qualquer a qualquer complexidade psicológica e ética; a impugnação das
formas retóricas por sua inadaptabilidade ao debate e à controvérsia, já que reduziram
os argumentos a oposições polares, donde a decidida opção contemporânea por
expressões como diálogo e diálogo contínuo, que nomeiam práticas mais aptas para a
acomodação dos pontos de vista conflitantes do que as antigas disputações retóricas; a
perda de confiança na eficácia do próprio ensinamento flagrante nos manuais de retórica
dos século XIX, que se tornam por isso prudentes e repetitivos (cf. Dixon, 1971, pp. 65-
70); o crescente prestígio da história da literatura a partir do início do século XIX,
processo que conduziria tal disciplina, em meados desse século, a assumir a posição de
principal referência nos estudos literários, distinção que por tantos séculos coubera à
retórica.

Nesse desabamento generalizado, salvam-se porém alguns compartimentos do


grandioso edifício da retórica. Das cinco operações que a princípio comportava, com o
abandono daquelas de natureza não essencialmente linguística – inventio, dispositivo,
pronunciatio e memoria –, acaba sobrando apenas a elocutio, com uma “[...] teroria do
afastamento, desvio ou rupturas discursivas, que passam a fazer parte dos manuais de
gramática com o nome geral de ‘Tropos e figuras’ ou ‘Figuras de estilo’” ( Hansen,
1994, p.37). Também sobrevive uma das virtudes da elocução capituladas pela retórica –
a clareza –, absorvida pela mentalidade científica como antídoto contra o ornato, outra
virtude do mesmo preceituário retórico. Assim, como um treinamento apropriado para a
obtenção de clareza e ordem nos escritos, a retórica continuará sendo básica na
educação secundária e universitária, pelo menos até o final do século XVIII. No entanto,
a partir do século XIX sua presença se retrai de modo drástico; perdendo posição no
sistema de ensino, e sendo impugnada sua jurisdição sobre a literatura com o triunfo das
ideias românticas de expressão e subjetividade, ela parece reverter a dimensões
anteriores à absolutização do seu espaço: “Começa a parecer que a retórica refluiu de
uma vez por todas aos domínios originais ou a seus equivalentes modernos: o púlpito e
os tribunais, a tribuna política e o salão de conferências” (Dixon, 1971, p. 70; tradução
nossa).

Mesmo o departamento retórico da elocução, contudo, sofreria ainda reduções,


como assinala Gérard Genette em suas considerações sobre o que chama “o grande
naufrágio da retórica” (Genette, in Cohen et alii, 1975 [1970], p. 139): confina-se, já
nos séculos XVIII e XIX, aos tropos e às figuras, ou, mais rigorosamente, à fusão dessas
categorias sob a égide da primeira; e no século XX, com os formalista Eikhenbaum e
Jakobson, chega-se ao par metáfora/metonímia, enquanto outras teorias poéticas, indo
mais fundo na redução e supervalorizando a idéia de analogia, preservam apenas a
metáfora como último resíduo da retórica, apresentando essa figura como essência final
da linguagem poética e até da linguagem em geral, o que teria conduzido e um emprego
abusivo e conceitualmente esvaziado das noções de imagem e de símbolo (Genette, in
Cohen et alii, 1975 [1970], pp 131-45, passim).

Mas, ainda que virtualmente extinta como o conjunto de práticas referidas por
Roland Barthes (Barthes, in Cohen et alii, 1975 [1970], pp. 148-9) – uma arte (no
sentido clássico do termo), um ensino, uma ciência, uma moral uma instituição social,
uma atividade lúdica –, a retórica, ou mais precisamente, alguns de seus fragmentos,
sobrevive, sob a forma de objeto ou motivação de certos empreendimentos intelectuais
do século XX bastante heterogêneas. Vejamos alguns, que recolhemos em indicações de
Roland Barthes, Michèle Lacoste e Franz Gunthner (in Cohen et alii, 1975 [1970]), bem
como de João Adolfo Hansen 91994): a estilística; o formalismo eslavo; o new
cristicism anglo-norte-americano; o estruturalismo e semiologia dos anos 1960; a
psicanálise; o pensamento dito pós-estruturalista de Derrida, Foucault, Deleuze,
Lyotard; a pedagogia da redação; a filosofia analítica ; a teoria da argumentação.
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SOUZA, Roberto Acizelo de. Iniciação aos Estudos Literários. São Paulo: Martins
Fontes, 2006, pp.158-64.

POÉTICA

(*Publicado anteriormente em: Souza, Roberto Acízelo de. O império da eloquência – retórica e
poética no Brasil oitocentista. Rio de Janeiro: Eduerj. Niterói: Eduff, 1999, pp. 12-6).

Falar da poética como uma das disciplinas clássicas dos discursos implicará
constante referência à retórica, na qual muitas vezes a poética se achará subsumida, sem
embargo de se poder apontar também certo empenho de distinção relativa deste em face
daquela. Assim, as antigas artes retóricas sempre reconheceram os poetas – cujas
composições em princípio deveriam ficar no âmbito da poética – como pioneiros e
modelares, deles extraindo exemplos ilustrativos, que apresentavam a vantagem de ser
ao mesmo tempo concisos, memoráveis e muitas vezes já familiares (cf. Dixon, 1971,
p.51); depois, contudo, com a generalização da retórica – que já na Antiguidade deixa
de ater-se à persuasão para ocupar-se com o bem-dizer em geral – , ocorre um inversão:
“Tenho aprendido da poesia, especialmente em assuntos de estilo, a retórica aceitou os
poetas como seus discípulos aptos e predispostos” (Dixon, 1971, p. 52; tradução nossa).

Esse influxo da retórica sobre a poesia e sobre outras modalidades discursivas


distintas da oratória acha-se amplamente comprovado por inúmeras evidências, das
quais podem-se destacar-se as seguintes: 1ª) por via da educação recebida – de base
retórica, da Antiguidade ao século XVIII –, os poetas (e os escritores em geral)
conduziram muitos elementos retóricos para a sua produção, entre eles os tópicos ou
lugares-comuns; 2ª) no sistema de ensino medieval, que não incluiu a poética entre suas
disciplinas, a posição da poesia no trivium oscilava entre retórica e gramática; 3ª)
diversos gêneros literários caracterizam-se pela cooperação entre as duas disciplinas
clássicas do discurso, desde aqueles em que a importência da persuasão e da
argumentação é evidente – sátira, obras éticas, poemas didáticos, epistolografia –, até os
que implicam certas adaptações ou absorção de atributos de extração retórica: o
panegírico poético, procedente das orações demonstrativas; o interlúdio dramático e a

Publicado anteriormente em: Souza, Roberto Acízelo de. O império da eloquência – retórica e poética
no Brasil oitocentista. Rio de Janeiro: Eduerj. Niterói: Eduff, 1999, pp. 12-6.
peça de moralidade, que absorvem o “debate” retórico; o aforismo moral, decorrente da
discussão aristotélica dos lugares-comuns e máximas; os poemas líricos,
frequentemente, por exemplo, verdadeiras miniaturas de orações demonstrativas que
têm por sua causa a beleza feminina; o romance epistolar, de certo modo expansão do
gênero retórico das cartas familiares (cf. Dixon, pp. 45-58, passim).

Ainda quanto às origens das relações entre retórica e poética, um marco sempre
invocado é o papel atribuído pela tradição antiga ao sofista Górgias (séculos V-IV a. C.),
que, ao estender à prosa a linguagem elaborada e ornamental em princípio apanágio da
poesia, determina uma confluência entre as duas esferas, podendo-se considerar
portanto o seu Defesa de Helena tanto uma arte retórica quanto uma arte poética pré-
aristotélica (cf. Barthes, in Cohen et alii, 1975 [1970], pp. 152-3; Eudoro de Soussa, in
Aristóteles, 1966, p. 165; Plebe, 1978 [1968], pp. 12-3; Dixon, 1971, p.35).

Em Aristóteles, porém, a separação relativa entre as duas disciplinas configura-


se no fato de ele ter escrito dois tratados distintos dedicados a cada uma delas, ainda que
as remissões recíprocas presentes nas suas Retórica e Poética apontem também para a
proximidade entre as disciplinas em questão. Assim, considerando o modelo
aristotélico, pode-se dizer que, enquanto a retórica se ocupa sobretudo com oratória,
raciocínio e persuasão, a poética lida principalmente com poesia, mímesis,
verossimilhança e catarse.

Cícero (séculos II-I a.C.), por sua vez, embora reconhecendo os pontos de
contato, esforça-se em demonstrar as diferenças entre eloquência e poesia, a ele se
atribuindo a autoria da sentença que se tornou proverbial: “Nascimur poetae, fimus
oratores” (cf. Rónai, 1980, pp. 115 e 140) Seu quase contemporânea Ovídio (séculos I
a.C.-Id.C.), no entanto, é explícito quanto ao reconhecimento da interpretação entre as
artes retórica e poética, tendo declarado numa epistola em versos dirigida a um
professor de retórica: “[...] assim como minhas cadências recebem vigor da tua
eloquência, eu proporciono brilho às tuas palavras” (Ovídio, apud Dixon, 1971, 0.52;
tradução nossa).

Outros testemunhos antigos importantes da interpenetração entre as dias


disciplinas encontram-se em dois pequenos e influentes tratados escritos sob a forma de
epístola, a Arte poética (não obstante o título) de Horácio (século I a.C.), e o Sobre o
sublime, cuja autoria, por muito tempo creditada a Longino, é hoje geralmente atribuída
a certo Hermágoras, do século I d.C. (cf. Plebe, 1978 [1968], pp.76-7). Por fim, ainda
no que concerne à Antiguidade, cabe referência às posições de Tácito (séculos I-II d.C.)
e de Quitiliano (séculos I-II d.C.), que assinalam os laços estreitos que vinculam
eloquência e poesia, reconhecendo no entanto as diferenças que separam as duas artes
(cf. Plebe, 1978 [1968], pp. 71-2; Barthes, in Cohen et alii, 1975 [1970], pp. 161-2);

Durante a Idade Média, domina a identidade entre retórica e poética, ou, em


termos talvez mais precisos, o “[...] campo [retórico] engloba três cânones de regras,
três artes” (Barthes, in Cohen et alii, 1975 [1970], p. 168): artes sermocinandi (área da
retórica stricto sensu, isto é, arte oratória, então representada pela sermonistítica cristã);
arte dictandi (área da correspondência administrativa, impulsionada pela organização da
administração pública sob Carlos Magno); artes poeticae (área da criação poética em
sentido estrito, constituída por retóricas com matéria adicional sobre versificação (cf.
Dixon, 1971, p.52).

Mas no limiar da Idade Moderna começaria a se esforçar a distinção entre


retórica e poética. Em fins do século XV já se observa oposição entre a primeira
retórica (ou retórica geral) e a segunda retórica (ou retórica poética), da qual teriam
derivado as artes poéticas do classicismo moderno (cf. Barthes, in Cohen et alii, 975
[1970], p.168). Tendo em vista, no entanto, o caráter acentuadamente retórico de tais
poéticas – ver, por exemplo, a de Bileau (L’art poétique, 1674) e a de Pope (Essay on
Cristicism, 1711) –, pode-se pôr em dúvida a diversificação de esferas apontada. Nesse
sentido, parece mais aceitável outra sugestão de Barthes (in Cohen et alii, 1975 [1970],
pp. 174-5): com a entusiástica redescoberta da Poética de Aristóteles ocorrida em fins
do século XV, a arte poética torna-se o código da “criação” literária, sendo cultivada por
autores e críticos, ao passo que a arte retórica, tendo por objetivo o “bem escrever”, se
restringe ao âmbito do ensino, sendo um domínio de professores, especialmente jesuítas.

Na mesma linha da hipótese de Barthes quanto ao caráter moderno da separação


entre retórica e poética pronuncia-se João Adolfo Hansen. Inicialmente, ele mostra que,
sem embargo da diferenciação antiga entre mímesis utilitária da oratória e a mímesis
concentrada da poesia, também o poeta visava à persuasão do público, razão por que
tanto o discurso oratório quanto o poético se retoricizam; depois, sobre o fortalecimento
dessa distinção, tão esbatida no mundo antigo, conclui: “A nossa distinção de
retórica/poética talvez seja [...] também um produto terminado no século XVIII:
desaparece a retórica, a poética se torna a disciplina da autonomização da arte como
estilística de efeitos desinteressados” (Hansen, 1994, p.59).

Parra concluir, será conveniente situar tanto a superação histórica da poética


quanto os modos renovados de sua presença.

Tendo verificado a persistência dos vínculos entre retórica e poética, que afinal
implicou verdadeiro sincretismo dessas duas artes, deve-se inferir que o processo de
descrédito da poética como uma das disciplinas clássicas dos discursos coincide com
aquele que conduziu à ruína da retórica. A propósito disso, portanto, remetemos o leitor
às considerações feitas no capítulo precedente, em que tratamos da obliteração das
práticas retóricas (ou, talvez mais precisamente, retórico-poéticas).

Quanto aos modos de permanência da poética, podem eles ser observados pelo
exame dos sentidos que se atribuem ao termo poética depois da superação histórica da
disciplina que incialmente essa palavras nomeava, isto é, sentido correntes do século
XIX em diante.

Observe-se de saída que, se o termo retórica assumiu um significado pejorativo,


o mesmo não se passou com o vocábulo poética. Acreditamos poder associar essa
contingência à observação de João Adolfo Hansen há pouco referida, segundo a qual,
extinta a retórica no século XVIII – ou, mais precisamente, vendo-se rebaixada à
condição de responsável por um palavreado rotineiro e oco –, a poética apresenta-se
como sua sucessora, consumando-se desse modo a distinção entre as duas disciplinas,
até então impossível praticamente de ser estabelecida. Assim, o fato de ter herdado a
parte da retórica que conservou o interesse – a elocução, concebida, em chave
romântica, como resultado de dispositivos linguísticos aptos à manifestação da
criatividade e da subjetividade autorais – talvez explique a circunstância de o termo
poética não ter sofrido a mesma depreciação semântica que afetou a palavra retórica.
Desse modo, o termo conserva dignidade de sentido, credenciando-se para designar a
disciplina que tem por objeto uma elocução reconhecida pelo subjetivismo romântico. A
palavra poética então se desvencilha da ideia de preceptística, receituário retórico de
poesia, passando a designar a investigação sistemática da natureza e funções não só da
poesia, passando a designar a investigação sistemática da natureza e as funções não só
da poesia mas da literatura em geral – à medida que esta, conforme a concepção do
Romantismo, define-se como criação subjetiva –, nomeando assim a disciplina nuclear
dos estudos literários.

Os demais significados que marcam o curso da palavra a partir do século XIX


encontram unidade nessa acepção ampla – investigação sistemática da natureza e
funções da literatura em geral, segundo, orientações conceituais as mais diversas –,
acepção de que constituem derivações mediante redução da generalidade. Desse modo,
poética significará também determinado entendimento de poesia – ou de literatura em
geral – característico de certo autor, época ou gênero literário, depreensível das obras
por meio de análise, donde expressões como “poética de Gonçalves Dias”, “poética do
modernismo”, “poética do romance”. Finalmente, em âmbito ainda mais
particularizante, a palavra designa poemas em que um poeta expõe, em tom de
manifesto, seu modo específico de conceber e praticar poesia, podendo tais poemas
receber títulos variados ou a denominação explícita de “poética” ou “arte poética” (entre
inúmeros exemplos, citemos “Antífona”, de Cruz e Sousa; “Poética”, de Manuel
Bandeira; L’art poétique”, de Verlaine)*.

(nota de rodapé)*A palavra poética, em uso ultimamente muito difundido, também se


emprega em relação às mais diversas atividades, quando concebidas em chave estética,
numa extensão do seu sentido de estudo ou concepção de poesia e literatura; daí
expressões como “poética da pintura”, “poética da música”, “poética da fotografia”,
“poética do cotidiano”, etc. Registre-se ainda um emprego bastante particular do termo
– e que nos parece um tanto especioso –, devido a Jonathan Culler: “[...] há uma
distinção básica, negligenciando demasiado frequentemente nos estudos literários, entre
dois tipos de projetos: um, modelado pela linguística, considera os sentidos como aquilo
que tem de ser explicado e tenta resolver como eles são possíveis. O outro [...] começa
com as formas e procura interpretá-las, para nos dizer o que elas realmente significam.
Nos estudos literários, este é um contraste entre poética e hermenêutica. A poética
começa com os sentidos ou efeitos comprovados e indaga como eles são obtidos. [...] A
hermenêutica [...] começa com os textos e indaga o que ele significam, procurando
descobrir interpretações novas e melhores” (Culler, 1999, pp. 64-5).
TAVARES, Hênio. Teoria Literária. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2002, p. 323-4.

III – Histórico

Até praticamente o século XIX, as figuras e os tropos faziam parte da Retórica,


disciplina cujo âmbito era por demais complexo e extenso. Constituíam as “flore
rhetoricales”, que mereceram dos antigos particular atenção. Aristóteles na “Poética”,
Cícero no “De Oratore”, Quitiliano em “Institutio Oratoria”, dentre outros, cuidaram do
assunto com especial interesse, mormente esse último que chegou mesmo a estabelecer
o sistema então tradicional e fixo.

Daí a natural reação operada no século XIX, coincidente com o eclodir da


estética romântica, que se consubstanciava na liberdade da forma e inspiração,
favorecendo os processos de ampla pesquisa e renovação. As figuras consideradas como
“adornornos voluntários” mereceram de artistas e estudiosos franca repulsa, como se
fossem meros artifícios que tornavam falsas e inautênticas as pretensas obras de arte.
Isso foi o que levou o romântico Coleridge a dizer:

“– Figurer and metaphors converted into mere artífices of connection na


ornament constitute the caracteristic falsity in the poetic style of the moderns”.

Pelo entender do passado, o brilho ou valor literários, – um repto de eloquência,


por exemplo, – assentava-se tão somente no uso dos chamados adornos, e as análises e
críticas concentravam-se apenas no apontar a presença de tais elementos. É o que nos
lembra um René Radouant, quando escreve sobre Pierre La Ramée, célebre filosófo e
gramático francês do século XVI, mas conhecido como “Ramus”.

Hoje em dia não se permitem tais excessos. A moderna estilística, já no entender


de um Charles Bally, veio substituir a retórica não para aboli-la de vez, como quiseram
alguns radicais iconoclastas, mas para coloca-la em seu devido lugar, aproveitando,
outrossim, aquilo que de útil legou à sistemática da teoria literária, atualizando-lhe e
arejando-lhe os métodos. Se a retórica é a estilística dos antigos, como afirma Pierre
GUiraud (“La Estilística”, pag. 29), seu campo delimitou-se à elocução e ao emprego
expressivo da palavra articulada (v. g. – a eloquência), tendo, não obstante, assumido
para muitos espíritos mal informados uma significação depreciativa, conforme adverte
Afrânio Coutinho:

“Outra palavras que corre mundo inteiramente deformada pelo sentido


pejorativo é “retórica”. A cada momento surge ela usada para designar estilo empolado,
abusivamente ornado, ou vazio de ideias, prejudicadas pelo excesso formal. Há quem
chegue, com esse critério, a distinguir os escritores em retóricos e não retóricos. Mal
nos ocorre que sem retórica não há literatura, pois a retórica é uma parte inseparável da
realização das grandes obras-primas, e não é possível compreender Shakespeare,
Cervantes, Swift, sem a devida formulação do que deveram, eles e todos os grandes
escritores, à retórica, entendida, não daquela maneira simplista que a identifica ao
formalismo, porém como o conjunto de regras que conduzem à boa realização de uma
obra de arte, graças ao domínio dos recursos que a tornaram artisticamente eficiente na
conquista e persuasão do público.” (In “Da Crítica e da Nova Crítica”, págs. 116-117.)

TAVARES, Hênio. Teoria Literária. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2002, p. 330.

2. Anáfora – Repetição da mesma palavra ou expressão no início de frases, períodos ou


versos. Exemplos:

“Qual do cavalo voa, que não desce;

Qual, co’o cavalo em terra dando, geme;

Qual vermelhas as armas faz de brancas;

Qual co’os penachos do elmo açoita as ancas.” ( Camões, L VI, 64)

TAVARES, Hênio. Teoria Literária. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2002, p. 345.

3. Amplificação – consiste esta figura em explanar as particularidades do assunto,


desenvolvendo-o pormenorizadamente. Entre os vários processos podemos lembrar: o
desenvolvimento da definição, o emprego dos exemplos, o uso das comparações e
contrastes, o auxílio das provas e razões, a glosa (especialmente no verso) etc. A
amplificação é também estudada na técnica redacional como um dos tipos de
composição. Exemplos:

“A vida é o dia de hoje,

A vida é ai que mal soa,

A vida é sombra que foge,

A vida é nuvem que voa.

A vida é sonho tão leve,

Que se desfaz como a neve

E como o fumo se esvai;

A vida dura um momento,

Mais leve que o pensamento,

A vida leva-a o vento,

A vida é folha que vai!” (João de Deus, in “A Vida”, do Campo de Flôres, v.1)

TAVARES, Hênio. Teoria Literária. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2002, p. 347.

5. Antítese – Também chamada de “contraste”. É a oposição entre duas ou mais


ideias, ou dois pensamentos. Segundo La Bruyère é a “oposição de duas verdades uma
dando vida à outra”. Figura basilar do pensamento e sentir: nascimento x morte; amor x
ódio; dia x noite; alegria x dor. Exemplos:

“Abaixo – via a terra – abismo em treva!

Acima – o firmamento – abismo em luz!” (Castro Alves, in “O vôo de gênio”)

“E no perpétuo ideal que te devora,

Residem juntamente no teu peito

Um demônio que ruge e um deus que chora.” (Bilac, in “Dualismo”)


TAVARES, Hênio. Teoria Literária. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2002, p. 368-9.

2. Metáfora – é uma comparação elíptica, ou “um símile comprimido” (Murry).


Exemplos:

“Mas vejo aquela cujo olhar são perilampos,” (Antônio Nobre)

“E o Universo – Bíblia imensa

Que Deus no espaço descreveu?” (Castro Alvez, in “Adeus, meu canto”)

TAVARES, Hênio. Teoria Literária. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2002, p. 374-5.

6. Metonímia – É a substituição do sentido de uma palavra pelo de outra que com ela
apresenta relação de constraste.

Exemplo literário:

“iam-se as sombras lentas desfazendo

Sobre as flores da terra frio orvalho,” (L. II, 92)

b) O autor é empregado pela obra. Exemplo: Leio Rui Barbosa.

“Lia Alexandre e Homero;” (L V, 96)

c) o inventor é usado pelo invento. Exempos:

“Gaetaninho ficou banazando bem no meio da rua. O Ford quase o derrubou e ele não
vio o Ford.” (Alcântara Machado, in “Gaetaninho”)

d) o possuidor pela coisa possuída. Exemplo : Netuno embraveceu.

“Cesse tudo o que a Musa antiga canta” (L. I, 3)

E também o reverso: a coisa possuída pelo possuidor. Exemplo:

As sotainas civilizaram o Brasil.

e)o lugar ou a marca pelo produto. Exemplos : Beber Caxambu, Porto etc.
“Acendeu um goiano.” (Alcântara Machado)

f) O efeito pela causa. Exemplos: A cãs dão dignas de respeito.

“Teme agora que seja sepultado

Seu tão célebre nome negro em caso

Da água do esquecimento, se lá chegam” (L. I, 32)

g) O continente pelo conteúdo. Exemplos: O Brasil venceu a guerra. Bebi um copo


d’água.

“Ninhos cantando! Em flor a terra toda!” (O. Bilac, in “In Extremis”)

h) O sinal pela cousa significada. Exemplos: toga (magistratura), balança (justiça),


espada (lei), cruz (fé) etc.

“Sempre a láurea lhe cabe no litígio...

Ora uma c’roa, ora o barrete-frígio

Enflora-lhe a cerviz,” (Castro Alves)

Coroa: Reino. Barrete –frígio: República

i) O concreto pelo abstrato. Exemplos: O marfim (alvura) de teus dentes; em rapaz (na
juventude; era meu braço direito (amparo) etc

“...da safira

Desse olhar...” (Raimundo Corrêa, in “Flor Azul”)

TAVARES, Hênio. Teoria Literária. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 2002, p. 374.

5. Alegoria – É uma sequência de metáfora, ou seja, a exposição do pensamento


ou emoção sob ampla forma tropológica e indireta, pela qual se representa um objeto
para significar outro. A alegoria, segundo já ensinava Quitiliano, pode ser “pura” (quase
confundindo-se com o enigma) e “mista”, quando propicia indicações que possibilitem a
associação do que foi figurado com o que está subentendido. Na pintura, na escultura,
enfim nas artes plásticas é a alegoria bastante empregada com o valor de símbolo. Uma
figura de mulher, com uma balança numa das mãos e uma espada na outra, é a alegoria
de Têmis, ou seja, a Justiça.

Em literatura a alegoria informa determinadas espécies genéricas como a fábula,


o apólogo e a parábola, nas quis as coisas abstratas ou inanimadas personificam-se.
Obras há cujo assunto e personagens são puramente alegóricos. Exemplos: o “Romance
da Rosa”, da literatura francesa; o “Pilgrim’s Progress”, de John Bunyan, na literatura
inglesa; o “Compêndio Narrativo do Peregrino da América”, do nosso Nuno Marques
Pereira.

Eis um exemplo de narração alegórica:

“A morte tem duas portas: uma de vidro, por onde se sai da vida; outra de
diamante, por onde se entra à eternidade. Entre estas duas portas se acha subitamente
um homem no instante da morte, sem poder tornar atrás, nem parar, nem fugir, nem
dilatar, senão entrar por onde não sabe, e para sempre. Oh, que transe tão apertado! Oh,
que passo tão estreito! Oh, que momento tão terrível!” (Vieira)

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