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CURSO LIVRE

DE TEOLOGIA.

IGREJA
BATISTA
HISTÓRICA.

Pentateuco.
PENTATEUCO.
ÍNDICE.

Introdução.......................................................................... 3

Cap 1. Aspectos Contextuais do Pentateuco..................... 4

Cap 2. Autoria do Pentateuco. ....................................... 15

Cap 3. Esboço do Pentateuco. ........................................ 30

Cap 4. Análise de cada Livro. ........................................ 34

Referências Bibliográficas. ............................................. 54

2
Introdução.

Se tudo que existe tem uma origem, um começo, assim também, as Sagradas
Escrituras possuem seu volume inicial, volume este que contém os atos criadores de
Deus, a libertação e peregrinação do povo escolhido por Deus, as leis que Deus
estabeleceu para que esse povo seguisse, narrativas sobre a formação deste povo como
nação e o estabelecimento de tal povo na terra que Deus lhes prometera. Essas coisas,
porém, não nos vem de forma mágica, e sim, pela infinita graça de Deus. Só temos
ciência dessa origem por causa do que chamamos de “pentateuco”. A palavra
pentateuco vem de dois vocábulos gregos, “pente” de onde vem nosso termo em
português “penta” que significa cinco, e “teuchos” que era um estojo para o rolo de
papiro, ou seja, cinco rolos. Esse termo diz respeito aos cinco primeiros livros da Bíblia,
tanto da Bíblia judaica quanto da Bíblia Cristã. Nessa parte da Bíblia está contido quem
é o Deus que servimos, como ele criou todas as coisas, como se deu a queda do homem
e consecutivamente o plano da redenção, a escolha de Deus da linhagem de Abraão, o
êxodo e o estabelecimento da nação na terra de Canaã.
Podemos nos perguntar, qual a relevância do Pentateuco para o Cristianismo? A
resposta é simples: relevância total. Sem o Pentateuco não saberíamos a origem de
nossa fé, não saberíamos os atos criadores de Deus, nem teríamos ciência do
protoevangelho de Gn 3.15. Tudo está diretamente relacionado com o Cristianismo,
todo cristão necessita conhecer, e conhecer bem o Pentateuco, pois, o mesmo nos aponta
para os atos redentores de Deus em favor do ser humano.

3
Capítulo 1.

Aspectos Contextuãis do Pentãteuco.

Contexto religioso Babilônico.


Temos que levar em conta que o Pentateuco foi dado ao povo Israelita no
período pós-escravidão Egípcia, 430 anos nos quais os Israelitas, depois da morte de
José, acabaram ficando escravos da nação egípcia quando veio um faraó que não
conhecia José.

Depois de 40 anos de preparo Moisés volta ao Egito e faz exigências para que o
Faraó libertasse o povo. Faraó endurece o coração, vem ás pragas e, após a última
praga, faraó deixa o povo ir. Quando saem dali, muitas coisas maravilhosas acontecem
na peregrinação rumo à terra prometida e, do ponto de vista revelacional, a coisa mais
maravilhosa que acontece é quando Moisés está no monte Sinai recebendo toda a
revelação que depois 1colocaria em um livro.

Por volta do ano 1440-1450 a.c., esses livros são dados ao povo nas campinas de
Moabe, no momento anterior a morte de Moisés. Então, sob a liderança de Josué, o
povo entra na terra prometida em posse desses livros, como uma espécie de fundamento
de sua fé e, também, como uma espécie de guia apologético.

É importante notar o que estava na mente do povo no momento em que


receberam essa lei. Era todo o contexto religioso em que viviam a cerca de 400 anos.
Em quê eles criam? Qual era a fé dos Israelitas? Será que era só em YHWH que eles
criam? Vemos na própria leitura do Pentateuco que o povo estava apegado a muitas
idolatrias, a muitos outros deuses. De onde veio essa crença em deuses? A história
anterior todos conhecemos bem. Cerca de 400 anos antes, havia José, que era filho de

1
No Sinai, podemos afirmar que foi revelado o que concerne à aliança. A narrativa do êxodo. Foi um
registro inspirado, não um texto recebido, nem uma visão.

4
Jacó, que era filho de Isaque, que era Filho de Abraão. Esse fora chamado por Deus do
meio de um povo totalmente idolatra. Abraão era filho de Terá, que era filho de outro, e
de outro, e de outro que lá atrás, chegava-se a Sete. Todas essas gerações passam por
Noé e por Sem, Cam e Jafé. Temos relato da criação de tudo, Adão e Eva e seus filhos.
Posteriormente, algumas gerações que temeram a Deus e outras que não, são
diferenciados entre filhos de Deus e filhos dos homens, fazendo diferenciação entre os
que andavam com Deus e os que não andavam. Dentre os que andavam com Deus
sobrou apenas um, por nome de Noé e, depois do dilúvio, seus descendentes povoaram
a terra e um descendente de Noé se destaca. Cam tem um filho chamado Cuxe, que tem
um filho chamado Ninrode. Ninrode começa aquilo que é a base principal de toda a
religião Babilônica.

Quem foi Ninrode?


Segundo alguns estudiosos Judeus, alguns talmudes e alguns estudiosos gerais, é
possível que Sargão de Acádia, acerca de quem, muitos historiadores antigos afirmam
que foi o primeiro rei da Babilônia, possa ter sido o Ninrode, que significa: “devemos
nos rebelar”. Muitas pessoas nos tempos antigos tinham mais do que um nome.

Em hebraico, existe uma palavra “ninr-id” expressão relacionada à rebeldia, o


Ninrode seria mais ou menos rebelde, por isso alguns especialistas creem que Ninrode
não era um nome, mas sim, um título. Era muito comum nessa época as pessoas
receberem outro nome dado pela sociedade, por si mesmos, ou por historiadores futuros,
baseado naquilo que foram.

Gn 10. 1-10 genealogia de Noé.

Após o Dilúvio a civilização recomeça, os povos se espalham e, segundo alguns


historiadores, quem começa a “mandar”, “governar”, sendo o primeiro “rei”, foi Sargão
de Acádia, que foi o fundador de Babel, Nínive, Reobote-ir, Calá, Resém, e também o
fundador das maiores e mais terríveis cidades da antiguidade. O interessante é que esse
homem e nome que está atrelado a fundação dessas cidades está atrelado na palavra de
Deus a um homem chamado Ninrode.

Ninrode fundou a cidade de Babel, e nesse contexto a própria Babilônia foi o


princípio do seu Reino, (vs 10). Ninrode foi um dos homens mais poderosos da

5
antiguidade, foi o primeiro rei após o dilúvio e isso, não apenas com base no texto
bíblico, mas também com base nos textos extra bíblicos. Foi Filho de Cuxe, que era
Filho de Cam, que era filho de Noé; ou seja, o Ninrode era bisneto de Noé, segundo a
tradição extra bíblica e segundo o texto revelado. Encontramos essa tradição nos
próprios livros da antiguidade relacionados à Babilônia, livros que estão relacionados à
história da religião babilônica. A religião babilônica permeou a nação de Israel durante
toda a sua existência. Em Apocalipse, Jesus diz a João que a Babilônia é a mãe de todas
as abominações, é a grande meretriz, a grande prostituta. (Ap 17-18)

Nos livros da própria tradição babilônica, a origem da religião babilônica é relatada.

Existe um talmude, o Erubim 53ª, um dos livros do grande talmude babilônico,


que diz o seguinte: “e ele foi chamado Ninrode porque incitou todo mundo a se rebelar contra
a sua soberania”.2

A expressão grande caçador diante do Senhor, não está relacionada a caçador de


animais. Quando se fala “grande caçador diante do Senhor”, temos que entender dois
termos: “caçador” e “diante do”. “Caçador” se refere á caçador de pessoas, ele foi o
primeiro homem a escravizar pessoas na história da humanidade. A história da
escravidão remonta ao tal Sargão de Acádia, que tem sua história muito parecida com o
Ninrode Bíblico. Esse homem não foi apenas um grande caçador de homens. A
expressão “diante do Senhor” não significa que ele vivia diante da face do Senhor
Deus, nem que ele servia a Deus. “Diante de” significa contra esse alguém. É como
quando se diz que um time de futebol está diante do outro; ou seja, um contra o outro.
Quando o texto bíblico diz que ele está diante do Senhor, é como se dissesse que ele
está competindo com o Senhor, fato atestado pelos próprios judeus. Flávio Josefo diz
que Ninrode, pouco a pouco, transformou o estado de coisas numa tirania, sustentando
que a única maneira de afastar os homens do temor a Deus era fazê-los continuamente
dependentes de seu próprio poder. Ele ameaçou vingar-se de Deus se este quisesse
novamente inundar a terra, porque construiria uma torre mais alta do que poderia ser
atingida pela água e vingaria a destruição dos seus antepassados. O povo estava ansioso
de seguir este conselho achando ser escravidão submeter-se a Deus, e a torre subiu com
rapidez além de todas as expectativas.3 Então, segundo a tradição dos próprios judeus e

2
Enciclopédia de interpretação bíblica de Menahém Kasher.
3
História dos Hebreus, Flávio Josefo. Editora CPAD, 2012, Pgs 84, 85.

6
a tradição dos babilônicos, Ninrode desejava reunir toda a humanidade em torno de si
mesmo. A intenção dele era que essa torre chegasse até o céu com o argumento de que
ninguém mais seria tragado pelo dilúvio de novo, e que eles seriam unidos e conhecidos
por gerações (Gn 11.4). Segundo a tradição judaica e babilônica, Ninrode ficou
conhecido como o príncipe dos céus. Segundo essas mesmas tradições, Ninrode, que era
filho de Cuxe, acabou se casando com uma senhora chamada Semíramis.4 Ele casa-se
com essa mulher e se intitula como o Deus Sol. Semírames, segundo alguns estudiosos,
seria a mãe dele. As tradições judaicas e babilônicas divergem em relação a isso. Ele se
tornou o príncipe dos céus e ela tomou para si a alcunha de princesa da lua, ou deusa da
lua, como uma espécie de incorporação ou encarnações das supostas divindades vistas
no céu. Segundo a tradição, por causa dessa loucura, depois da morte de seu
filho/marido5, Semíramis fica grávida e, ao ser indagada quanto á gravidez, diz que ele,
Ninrode, não havia morrido. Ela os incita a se lembrar de que ele era o príncipe dos céus
e que quando ele morre, ele na realidade volta para o seu lugar e todas as manhãs ele
retorna para os aquecer, iluminar e proteger. Ela diz que enquanto o sol nascer, Ninrode
estará com eles; ele é o deus sol.

Ela afirma estar grávida do deus sol, e não de qualquer homem. Ela, com isso, se
torna um símbolo de grande poder e autoridade. Em todo aquele contexto babilônico ela
é chamada de “A rainha da Liberdade”. Semíramis se torna na antiguidade o grande
símbolo da liberdade. À medida que essa religião começa a se espalhar mundo afora,
Semíramis começa a mudar de nome. Ela é conhecida como “Ish-tar”, uma palavra
persa que está relacionada com estrela. À medida que a religião vai avançando, o nome
vai mudando, mas, sempre com a ideia da mulher que tem o poder, o símbolo da
libertação, o símbolo da liberdade 6.

O filho de Semíramis nasce e ela coloca o nome de Tamuz. O nome Tamuz está
na Bíblia (Ez 8.14). O codinome dela como “rainha dos céus” está na Bíblia (Jr 44.25).
O próprio deus sol está na Bíblia. Segundo a tradição, quando a criança nasce, ela diz
ser essa criança a encarnação do deus sol que a engravidou. Esse filho cresce e na época
de sua juventude é atacado por um porco selvagem quando caçava no campo e morre.

4
Esse argumento está em praticamente todos os escritos antigos sobre a religião babilônica, sobre os
princípios do governo, da religião e da história desse povo.
5
Provavelmente ele tenha sido morto por seu tio avô, chamado Sem.
6
Estátua da liberdade: A original está na França, e a cópia foi dada de presente pelos franceses aos
americanos, fica em Nova Iorque e é mundialmente conhecida.

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Semíramis une todo o povo num jejum de 40 dias no qual ela invocava o espírito do
deus sol junto com outras sumo-sacerdotisas. Após os 40 dias, passou a dizer que o
menino ressuscitou e voltou para estar com ela.

Anualmente, dentro da religião babilônica, que depois foi para o Egito, Assíria,
Grécia, e Roma, a imagem permaneceu, e a imagem que se perpetuou nessa antiguidade
foi a imagem dela com a criança. A associação que se fazia era da mãe que conseguiu,
por meio da sua intercessão, ressuscitar o seu filho e fazer dele alguém que agora
pudesse corroborar, comprovar, a veracidade dessa religião. Nasce então o mistério da
mãe com a criança. Essa imagem da mãe com a criança perpassa por toda a antiguidade,
e assim nasce a trindade profana: Ninrode o pai, Semíramis a mãe e Tamuz o filho.
Rapidamente essa religião se estendeu pelo mundo, assim nasce a religião Babilônica.
Qual a importância de toda essa história? Essa era a religião que influenciou os
egípcios, que por sua vez influenciou os Judeus, que agora, no contexto da entrada em
Canaã, precisavam se desligar de tudo isso pra crerem em YHWH, o único Deus. Essa
religião se expande por todo o mundo, os nomes mudam, mas o culto à mãe com o filho
era o mesmo. Semíramis e Tamuz recebem variados nomes como: Astarote e Baal na
Fenícia; na Síria, eles recebem os nomes de Ish-tar e Inana; no Egito Ísis e Osíris, e
Hórus associado a Ninrode; na Grécia, Afrodite e Heros; em Roma, Vênus e Cupido.
Os nomes mudam mas a religião é essencialmente a mesma iniciada com Ninrode e com
sua mãe/esposa. Estátuas dessas divindades foram encontradas em escavações no
território Israelita que datam do período pós exílico babilônico, os denominados ídolos
do lar.

Alguns textos Bíblicos nos quais essas figuras são mencionadas: Ez 8.5-18; Jr 44.14-19.

“As religiões de mistério assumiram muitas formas diferentes, retrocedendo milhares


de anos. Diversos ensinos e superstições que essas religiões propagavam eram comuns
a cada uma de suas ramificações. Evidentemente, todas elas estavam interligadas por
doutrinas comuns e a evidência aponta para a mesma origem: Babilônia. Todo o falso
sistema de adoração originou-se nas religiões de mistério da Babilônia, pois todos
esses falsos sistemas religiosos começaram na torre de Babel, que é a primeira
representação da religião falsa sofisticada e organizada (Gn 11.1-9). Ninrode, neto de
Cam e bisneto de Noé, foi o patriarca apóstata que organizou e dirigiu a construção da

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torre. Todas as falsas religiões subsequentes provém da religião de Babel, de modo que
a heresia babilônica permanece viva até hoje.” Jonh MacArthur .

Com isso conseguimos ver o porquê do povo de Israel ter se desviado tanto e se
enchido tanto de idolatrias a ponto do Senhor dar-lhes um livro para quebrar essa mente
cheia de idolatrias. O Pentateuco, em si, tem como uma das suas principais finalidades,
quebrar toda essa grossa casca de idolatria e de religiosidade pagã que se formou ao
longo dos 400 anos no Egito e de outros tantos anos perdidos por aí.

Contexto cultural e Cosmogonia presente no período da escrita do


Pentateuco.
Cosmogonia: vem de dois vocábulos Gregos, “kosmo” (cosmo) que significa
“mundo, criação”, “gonia” (gonia) traz a ideia de geração, então o termo traz a ideia de
mostrar como nasceu o mundo, como surgiram as coisas criadas.

Nessa época antiga alguns livros se destacam: Enuma Elish, que é um mito
antigo encontrado no Egito e está relacionado com a criação; Utnapishtim, um mito que
relata um dilúvio universal e é muito antigo (alguns o dizem ser anterior ao livro de
Gênesis); e, claro, o Gênesis, que traz não apenas o relato da criação, como também o
relato do dilúvio.

Além desses livros, cada nação possuía sua própria visão sobre a origem de
todas as coisas e sobre certos eventos cataclísmicos que aconteceram à humanidade, tal
como o dilúvio. Em alguns povos, mais de uma visão era ensinada; ou seja, entre um
mesmo povo, se acreditava em visões diferentes sobre a origem do mundo, todos crendo
que divindades estavam por trás das origens.

Os Hebreus estavam cercados por todos esses conceitos. É possível que muitos
Israelitas se deixaram levar por diversos conceitos de cosmogonia distintos do que foi
ensinado pelo Deus de Abraão, Isaque e Jacó na revelação do Pentateuco. Após várias
gerações, mesmo durante a escravidão, não se perdeu a crença em Deus. Porém, foram
acrescentados a essa crença diversos conceitos diferentes por causa da forte influência
das religiões babilônicas, e posteriormente egípcias. Levando em conta que não havia
um livro escrito pra orientar o povo, não havia sacerdotes para guiar o povo, nem uma
liderança institucionalizada, cada um andava segundo o seu bel prazer. Temos, no

9
contexto da peregrinação, várias provas do quanto o povo de Israel estava influenciado
pelo paganismo e idolatria do Egito.

Cosmogonia Mesopotâmica.
Na região da Mesopotâmia (entre rios), se encontrou a pedra chamada Enuma-
Elish. Segundo ela, há vários deuses que representam os aspectos do mundo físico.
Temos o “Ápso”, que é o deus da água doce. Sua esposa se chamava “Tiamat”. Eles
criaram os deuses tempestuosos, que são deuses briguentos, violentos. Então Ápso
decide mata-los. Entretanto, “Ea”, um deles, descobre o plano e o antecipa, matando
Ápso. Posteriormente, “Dankma” esposa de Ea dá a luz a “Marduque”. Tiamat,
enraivecida pelo assassinato de seu marido, jura vingança e cria onze monstros para
executar uma vingança, casa-se com “Kingu” e o coloca a frente de seu exército para
levar a cabo seu plano de vingança. Ea mais uma vez descobre o plano, porém dessa vez
possivelmente é derrotado (a pedra nessa parte está danificada). “Gaga”, que era
ministro de “Anshar”, é encarregado de vigiar as atividades de Tiamat e de informar-lhe
da vontade de Marduque de a enfrentar. Os deuses, então, reúnem um conselho para
testar os poderes de Marduque e após este passar no teste, o trono lhe é entregue e
Marduque é encarregado de lutar contra Tiamat. Com a autoridade do conselho,
Marduque reúne as armas, os 4 ventos e os 7 ventos da destruição e segue para o
confronto. Ele consegue prender Tiamat numa rede e liberta o vento do mal contra ela.
Com Tiamat incapacitada, Marduque a mata com uma flecha no coração e captura os
deuses e os monstros aliados a ela. Marduque então divide o corpo de Tiamat ao meio, e
das suas entranhas ele cria a terra. Marduque cria residências para todos os deuses. À
medida que esses vão ocupando seus lugares, vão sendo criados os dias, os meses, as
estações do ano, as fases da lua, e da saliva de Tiamat, Marduque cria a chuva. Dessa
chuva, é criada a cidade da Babilônia, e a Babilônia se torna a matriz da adoração a
Marduque, curiosamente conhecido como o deus sol. Ele decide então criar os seres
humanos e, para isso, precisava de sangue para fazê-lo. Apenas um dos deuses poderia
morrer para que tal criação fosse feita e, após consultar ao conselho, decide-se matar
Kingu, que era o segundo marido de Tiamat, e do sangue de Kingu, é criado o homem. 7

7
Vemos possibilidades dos Hebreus terem sido influenciados por todo esse contexto religioso, uma vez
que esse contexto influenciou o Egito e os Hebreus eram escravos no Egito.

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Contexto Religioso Egípcio.
O povo Judeu não foi influenciado apenas pela religião babilônica. Foi
influenciado também pela religião egípcia, visto que no tempo em que receberam o
Pentateuco, o receberam tendo saído do Egito após terem vivido ali por muitas
gerações, onde pais, avós, bisavós, tataravós, foram aprendendo e ensinando para sua
prole tudo o que aprenderam de seus antepassados. Assim sendo, aquela religião dos
antepassados que nasceu na Babilônia e agora recebe todo o recheio da religião egípcia,
entra na mente do povo Judeu.

Cosmogonia Egípcia.
Os filhos de Abraão viveram em um mundo pagão, foi assim com Isaque, Jacó e
seus filhos e, como já vimos, durante a escravidão também foi assim. Só os Israelitas
adoravam YHWH, as demais nações possuíam seus próprios deuses e deusas e
possuíam, de igual sorte, seus próprios relatos da criação, suas próprias cosmogonias.
Alguns relatos da criação foram encontrados em escrita cuneiforme e, no Egito, os
relatos da criação são atribuídos a diversas divindades. Segundo a crença egípcia,
muitas divindades haviam criado todas as coisas. Cada uma das cidades de Mênfis,
Hermópolis e Heliópolis no grande Egito antigo tinham os seus próprios relatos sobre a
criação. Em cada uma delas se ensinava de um modo diferente, isto dentro do mesmo
país.

Mesmo com as diferenças, há uma crença básica. A base da crença é que as


águas primordiais, denominadas “Nun”, são a origem da criação. Tudo surge dessa água
que, para eles, é uma divindade. Eles não creem que houve um deus que criou as águas,
mas que as águas, em si, são um deus com força, abrigo, proteção e alimento. Uma ideia
muito forte era que “Atum” o deus criador, ás vezes chamado de “Amon-Ré” ou
“Amon-Rá”, havia saído das águas e que, após sair das águas, passa a criar todas as
coisas. Era basicamente como se “Nun” desse origem a “Amon-Rá” e que este desse
origem aos demais deuses e deusas que representam a natureza.

Vejamos algumas cosmogonias dos egípcios:

Heliópolis – A cidade ficava ao sul da moderna cidade de Cairo e era o centro da


adoração ao deus “sol”. Por isso, os gregos posteriormente deram-na esse nome
“Heliópolis”. A principal divindade era “Rá”. “Rá” era conhecido como o grande

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criador de todas as coisas. O nome dele, em alguns momentos, está associado com
outros, como por exemplo: “Amon-Rá”, “Rá-Aton” e não havia consenso entre eles se
eram 3 divindades ou se um incorporava o outro. A ideia principal era que essas
divindades estavam por trás de toda a criação, e é como se “Rá”, a grande divindade
criadora, habitasse em sua criação, tornando a própria criação divina. Ou seja, a criação
não vive sem ele e, por isso, ela é divina. Ele permanece ele mesmo, ou aparece em
outras combinações, fazendo tais combinações serem divinas, assim como ele mesmo o
é. Eles acreditavam que “Rá-Atom” havia criado todas as coisas por três maneiras
possíveis: pela saliva, pela masturbação, ou pelo vômito, sendo as duas primeiras teorias
as mais fortes. Então ele gera o “Shu” (que significa atmosfera) e “Tefnut” (que
significa umidade), que juntos geram “Guebi” (que é a terra) e “Nut” (que é o
firmamento).

Mênfis – A grande divindade de Mênfis era “Ptá”, que era a divindade mais importante
dessa cidade. Era, para eles, o deus do império. Foi o primeiro a ser considerado o
criador de todas as coisas. Dizia-se que ele criou tudo através da palavra, ou através de
uma atividade sexual, com outra divindade ou sozinho. Na mentalidade deles a criação
era concebida como uma atividade artística; ou seja, quando ele cria, ele se preocupa em
criar com beleza, vendo que tudo o que criara era bom, diferentemente de “Rá”, cuja
criação acontece mais como um processo natural, automático.

No “British Museum” encontra-se a “Pedra de Shabaká”, que é datada do


período do antigo império egípcio, período pouco anterior à escravidão dos israelitas
pelos egípcios. Nela está contido um pouco da cosmogonia Egípcia: “ Aquele que se
manifestou no coração, aquele que se manifestou com a língua sob a aparência de Atom, esse é Ptá, o
muito importante, que deu a vida a todos os deuses e a seus káas. Por esse coração e por essa língua,
através das quais Hórus e Tot se tornaram Ptá, assim foram criados todos os trabalhos e a arte e
atividade das mãos, o caminhar das pernas, o funcionamento de cada membro, segundo a ordem que o
coração concebeu e que se exprimiu pela língua e que é executada em todas as coisas. Portanto,
denomina-se Ptá o autor de tudo o que fez os deuses existirem, porque foi ele quem pôs os deuses no
mundo dos quais todas as coisas provém, alimento e nutrição, oferendas divinas, tudo é maior do que a
dos outros deuses. Assim Ptá ficou satisfeito após tudo ter feito, ter feito toda a palavra de deus”.
Podemos perceber alguma semelhança com o relato de Gênesis.

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Contexto Apologético.
Entramos então no contexto apologético de Gênesis. O contexto apologético de
Gênesis apresenta um Deus que quer ensinar o seu povo a verdadeira fé, a verdadeira
criação, o verdadeiro Deus. Deus com o Pentateuco, especificamente com a parte da
criação, queria colocar na mente dos Israelitas que havia um único Deus, que
pessoalmente criou o ser humano, e que todas as demais coisas, ao invés de serem
divinas, como no Egito se cria, eram criações Suas. Deus, em Gênesis, quer mostrar que
Ele é maior que todas as coisas, por ser Ele o Criador de todas as coisas.
Aparentemente, Ele busca quebrar toda a falsa religiosidade que era mantida na mente e
no coração do povo. Deus, com o Pentateuco, estava desfazendo tudo o que havia de
falso no pensamento do povo por cerca de 400 anos.

Ainda hoje, cosmogonia é um debate na humanidade. A cosmogonia da pessoa


influirá em tudo mais que ela crê. Com isso, o criacionismo exclui totalmente qualquer
crença evolucionista. Ou a pessoa crê em uma coisa, ou crê na outra. São teorias
excludentes, mesmo que alguns tentem fazer um sincretismo.

Em meados do séc. XVIII, a interpretação do Pentateuco tomou alguns rumos


diferentes com o método histórico crítico de Robert Lowth. Ele escreve em seu livro
que é possível haver um pouco de poesia no livro de Gênesis, e não somente relatos
históricos. Ele não defendia que fosse um mito, mas insinuava que, possivelmente,
Moisés estivesse se referindo a algo acontecido, porém, de uma forma poética. Então
um de seus alunos, chamado Raine, desenvolveu para mito a teoria de Lowth, e um
discípulo de Raine aplicou essas teorias ao Antigo Testamento todo. Em 1779, Raine
lançou a primeira introdução ao Antigo Testamento, onde dizia que o Antigo
Testamento estava repleto de mitos, principalmente no livro de Gênesis. A partir de
então, se desenvolveram duas escolas interpretativas do A.T., a escola conservadora e a
escola mítica. A primeira entende que a cosmogonia de Gênesis deve ser lida e
interpretada literalmente, por se tratar de uma narrativa histórica de fatos. Eduard
Young escreve o seguinte: “Não devemos considerar esse capítulo como reedição da Escola
Sacerdotal de um mito comum à tradição antiga. Pelo contrário, o capítulo apresenta história séria.
Ainda que o livro de Gênesis não se proponha a servir de compêndio de ciência, não obstante, quando
toca em questões científicas, mostra-se exato. A ciência jamais descobriu quaisquer fatos que estejam em
conflito com as declarações de Gênesis 1.”

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Essa era a visão conservadora. Tudo o que está no Gênesis é história real,
embora entendamos que o propósito de Gênesis não é científico, propriamente. Deus
não pretendia ensinar ciência para aqueles milhões, cuja maioria sequer sabia ler. O
autor queria ensinar a verdade sobre as grandes questões da existência humana. Eles
estavam interessados no “quê” e no “porquê” das coisas, mais que no “como”. Por isso,
não nos deve surpreender que o livro de Gênesis não empregue linguagem científica. O
que importa é que seu relato é verídico.

14
Capítulo 2.
Autoriã do Pentãteuco
O Pentateuco é uma obra contínua, completa, produzida por um só autor
inspirado. É possível que se tenha feito o uso de fontes orais e escritas sob orientação
divina.

Negação da Autoria Mosaica.

Origem do Desenvolvimento da Teoria Documentária

Alguns movimentos como o Deísmo8 e Racionalismo9 forneceram o


cenário, e contribuíram para o surgimento da Teoria Documentária. Estas duas correntes
de pensamento, embora diferentes, concordam numa coisa: a negação de uma relação
sobrenatural de Deus com o homem.

Negando a premissa sobrenatural, não se pode sustentar a doutrina da inspiração,


profecias, a providência divina, etc. A Bíblia torna-se um livro meramente humano. Foi
quando começaram a questionar a autoria mosaica, e a sua data de escrita, como
também a veracidade de seu conteúdo.

Thomas Hobbes em sua obra Leviathan (1651) afirmou que o Pentateuco havia
sido editado por Esdras a partir de fontes antigas.

Benedicto Spinoza declarou em Tractatus Theologico-Politicus (1670) que


Esdras havia editado o Pentateuco com interpolação de Deuteronômio, questionando a
autoria mosaica.

8
O deísmo (do latim, deus) é uma posição filosófica naturalista que acredita na criação do universo por
uma inteligência superior (que pode ser Deus, ou não), através da razão, do livre pensamento e da
experiência pessoal, em vez dos elementos comuns das religiões teístas como a revelação direta,
ou tradição.
9
O Racionalismo é uma corrente filosófica baseada nas operações mentais para definir a viabilidade e
efetividade das proposições apresentadas.

15
Teoria Documentária Primitiva

Jean Astruc, médico francês, foi o primeiro a dar expressão literária a essa teoria
(em 1753). Limitou suas dúvidas apenas a autoria de Gn 1. Sua tese era que Moisés
havia compilado o livro de Gênesis a partir de duas memórias (memoires), e outros
documentos menores. Astruc identificou 2 fontes principais: Fonte A, com o uso da
palavra Elohim, e fonte B, o uso da palavra Yahweh. Todavia, aceita Moisés como autor
do livro todo. Alegava ter encontrado em Gênesis mais de dez fontes e outras
interpolações textuais!

Johann G. Eichorn em sua Einleitung (1780-1783), expandiu as idéias de Astruc


a todo o Pentateuco e não apenas a Gênesis. Negou a autoria mosaica. Dividiu Gênesis e
Êxodo 1-2 em fontes designadas J e E, e afirmou que estas foram editadas por um autor
desconhecido.

Teoria Fragmentária

Alexander Geddes, padre católico escocês, investigou as “memoires” de Astruc.


Em 1792-1800 desenvolveu a teoria fragmentária. Segundo a Teoria Fragmentária o
Pentateuco consiste em fragmentos lendários, desconexos entre si e de muitos autores
desconhecidos, mas possuindo apenas um redator. Foi o primeiro a sugerir a existência
de um Hexateuco. Segundo Geddes, o Pentateuco foi compilado por um redator
desconhecido a partir de numerosos fragmentos que tiveram sua origem em círculos
diferentes, um elohístico, e o outro javístico. A data da composição final do
“Hexateuco” teria ocorrido em Jerusalém, durante o reinado de Salomão.

J. Vater (1802-1805) fez a divisão do Pentateuco em 39 fragmentos. A data da


composição final do Pentateuco foi no exílio babilônico, sendo que nesta época adquiriu
a forma que hoje conhecemos.

A.T. Hartmann foi o primeiro a dizer que a escrita era desconhecida no tempo de
Moisés entre os israelitas (1831). Segundo ele, o Pentateuco era constituído de um
grande número de pequenos documentos pós-mosaicos, a que foram feitas adições, de
tempos em tempos, até se tornarem nos cinco livros. Considerava o Pentateuco como
lenda e mito.

16
Teoria suplementar

Wilhelm M. L. De Wette (1780-1849) em 1805 escreveu um livro acerca de


Deuteronômio, dando este livro como pertencente ao tempo de Josias e escrito um
pouco antes da sua reforma religiosa, em 621 a.C.

Heinrich Ewald (+1875) rejeitou a autoria mosaica. Segundo ele o Pentateuco é


composto de muitos documentos, mas enfatizando o documento E como sendo básico.

Tuch foi quem deu expressão clássica à teoria. Deu ênfase a dois documentos
básicos, o E e o J, tendo datado o E no tempo de Saul, e o J no tempo de Salomão.
Representa uma volta a Teoria Documentária primitiva. Segundo essa teoria, o
documento básico, original era um só, o documento E (elohista), combinado com um
suplemento principal que era o documento J (jeovísta) formavam a base para o
Pentateuco. No decorrer dos séculos novas adições foram feitas a estes documentos,
terminando na cristalização do atual conjunto de cinco livros.

Todos estes críticos negaram a autoria mosaica do Pentateuco.

Teoria Documentária Modificada

Esta teoria defende que de três a quatro documentos principais e contínuos


foram combinados por um redator.

Hermann Hupfeldt, em 1853, ensinou que, além do Deuteronômio, havia três


documentos contínuos que eram J,E1 e E2, combinados por um único redator.

E. Riehm (1854) defendeu que os documentos contínuos eram quatro e não três.
Foi o primeiro a apresentar um quarto documento principal, chamado D. A forma dos
documentos seria E1, E2, J, D.

Teoria Documental em seu Estado Final

Segundo esta teoria, quatro ou cinco documentos principais, mais outros


documentos secundários foram combinados por quatro redatores principais e mais
outros redatores secundários.

17
Reuss (1850) acreditava em cinco documentos principais J, E1, E2, d, P. Foi o
primeiro a sugerir o documento P como sendo documento básico e também como sendo
o último deles. Atribuiu ao tempo de Esdras como data final da redação do Pentateuco.

Karl H. Graff, em 1865, afirmou que a literatura de Êxodo, Levítico e Números,


não pertenciam ao período de Josias, mas ao cativeiro babilônico. Rejeitou o documento
E1 como sendo um documento independente. Para ele o E1 é igual ao P, um documento
procedente do período do reinado de Josias. Para Graff a ordem dos documentos seria
P–histórico, E, J, D, P-legal.

Abraham Kuenen (1869-1870) desenvolveu a teoria de Graff e a difundiu,


principalmente na Alemanha. Em sua obra “A Religião de Israel” (1869) argumentou
que o P-histórico não poderia ser separado do documento P-legal. Sua teoria resultou
em J, E, D, P.

Julius Wellhausen foi quem deu uma popular formulação literária à teoria, em
sua obra Die Composition des Hexateuchs, em 1876. Com ele a teoria adquiriu o nome
de Graff-Kuenen-Wellhausen. Causou um grande impulso ao criticismo moderno.

Teoria Documentária no Século XX

Herman Gunkel (1862-1932) e Hugo Gressmann (1877-1927) posicionaram-se


contra as tendências do wellhausenismo clássico. Os grandes expoentes na crítica das
fontes defendiam a necessidade de se descobrir o Sitz im Leben (contexto vital).

Otto Eissfeldt, em sua Einleitung in das Alte Testament (1934) defendia a


classificação da literatura do AT em vários gêneros e categorias.

 Tenta traçar o desenvolvimento (a influência pré-história literária) dos diferentes


documentos.
 Propõem existência de um documento L (fonte leiga).
 Não possui uma concepção adequada da revelação,
 Considera a literatura do AT como de origem meramente humana.

R.H. Pfeiffer em Introduction to the Old Testament (1941) mostra erudição e


apologia, basicamente anti-cristã. Ensinou a existência de um documento S (Sul ou

18
Seir), mas obteve aceitação popular. Nega a revelação, milagres, etc., que, segundo
Pfeiffer, são cousas subjetivas, sem prova científica.

Gerhard Von Rad (1934) defendeu a existência de mais dois documentos: Pa e


Pb. Propôs a teoria do Hexateuco.

Aage Bentzen publicou, em 1941, uma obra que expôs o método histórico-
crítico que presta dedicada atenção ao estudo das supostas formas da literatura do AT.

Atualmente, o liberalismo predomina nos estudos do AT em alguns meios


acadêmicos. Todavia, há vozes conservadoras que se fazem ouvir com vasta erudição.

Características dos “supostos” documentos

Resumidamente, segue abaixo um resumo sobre os supostos documentos que


compõe o Pentateuco, segundo os adeptos da teoria documentária.

Documento J (Jeová, Jeovista)

1.Data: 950 ou 850 a.C.

2.Local escrita: Judá

3.Autoria: É atribuído a um historiador desconhecido, pertencente ao reino do Sul.

4.Conteúdo: Começa com a criação e vai até o fim do reino de Davi (Gn 2 a Nm 22-24).

5.Natureza: Uma coleção de literatura épica, demonstrando forte sentimento


nacionalista. Contém dramatização vívida, apresentações antropomórficas de Deus, em
que Deus é descrito em termos humanos. Prefere usar o nome Yahweh para Deus.
Ressalta a continuidade do propósito de Deus desde a criação, passando pelos
patriarcas, até o papel de Israel como seu povo. Essa continuidade leva ao
estabelecimento da monarquia com Davi.

19
Documento E (Elohista)

1.Data: 850 ou 750 a.C.

2.Autoria: Atribuída a um sacerdote desconhecido de Betel (Reino do Norte), ou a um


profeta, sob a influência de Elias.

3.Local escrita: Efraim

4.Conteúdo: Começa com Abraão e termina com Josué.

5.Natureza: Usa-se a história na forma épica. Este documento possui uma variedade de
detalhes, grande interesse no ritual e uma teologia mais abstrata, que evita
antropomorfismo e usa visões e anjos como meios de revelação. É a narrativa da
tradição de Israel (reino do Norte) em paralelo com documente J. Prefere Elohim como
nome de Deus até a revelação de seu nome Yahweh a Moisés (Êx 3), depois disso passa
a empregar ambos os nomes de Deus.

Documento D (Deuteronomista)

1.Data: 650 a.C.

2.Autoria: Atribuída a um sacerdote desconhecido.

3.Local escrita: Jerusalém

4.Conteúdo: É o material núcleo do livro de Deuteronômio.

5.Natureza: Tem interesse teológico pelo Templo de Jerusalém, e forte oposição contra
a idolatria. O estilo literário é prosaico, prolixo, paranético (repleto de exortações ou
conselhos). Seria o tal livro descoberto no reinado do rei Josias no ano 621 a.C.

Documento P (do inglês Priestly[Sacerdotal])

1.Data: 525 ou 450 a.C.

2.Autoria: desconhecida

3.Conteúdo: Composto de tradições mosaicas antigas depois do Exílio.

20
Uma avaliação crítica da Teoria Documentária.

Devemos considerar algumas implicações da Teoria Documentária em afirmar a


formação final do Pentateuco num período pós exílico (entre 500-400 a.C.), quando a
religião de Israel já estava bem desenvolvida.

1. A Teoria Documentária não prova a não autoria de


Moisés. Falando francamente, esta teoria nem sequer
conseguiu provar a sua própria veracidade científica, para
tirar de sobre si o estigma de “teoria” a que está vinculada
durante todos esses séculos.

2. Mesmo entre os adeptos desta teoria não há


concordância acerca da identificação e classificação dos
textos e dos grupos documentais a que eles supostamente
pertencem.

3. Aceitar a teoria JEDP anula a credibilidade do


Pentateuco. Segundo a Teoria Documentária a história
bíblica é forjada. O Deut foi inventado pelos profetas para
reforçar a ideia da centralização. O uso do nome de
Moisés no Pentateuco, era simplesmente para dar
autoridade ao texto, mas ele nada tinha a ver com a
composição histórica do mesmo. O documento P,
composto para assegurar a aceitação do sistema sacerdotal
por parte do povo, fora baseado em lendas e crendices
folclóricas. Como observa Stanley A. Ellisen “rejeitar a
autoria de Moisés é rejeitar o testemunho universal dos
escritores bíblicos e solapar a credibilidade do Pentateuco
e do resto da Bíblia. É da autoria de Moisés, e não apenas
um ‘mosaico’ de diferentes”.

4. Retira todo o caráter normativo do Pentateuco. Não teria


qualquer valor para o povo da época, já que nada
acrescentaria ao judaísmo. Se o Pentateuco fosse apenas

21
um produto de uma religião tardiamente desenvolvida, e
não o princípio regulador, não faria sentido chamá-lo de
“a Lei”. Se ele não foi o princípio regulador para os
primeiros leitores, não teria valor algum para os crentes
de outras épocas, uma vez que os conceitos humanos
mudam e o que não foi normativo para um povo, pode
não ser para outro.

5. Invalida o esforço de composição. O relato do


Pentateuco é rico em detalhes e informações. Possui
informações das origens e desenvolvimento dos povos,
em especial do povo de Israel. Os supostos autores teriam
se dado a um imenso trabalho de imaginação para
simplesmente manter uma ordem que já estava
estabelecida.

6. Devemos considerar a ausência de evidências histórica,


ou manuscritológicas, de que estes supostos documentos
(JEDP) tenham circulado em alguns períodos soltos uns
dos outros.

7. Considera o autor mal intencionado. A Teoria


Documentária implica que um autor (ou autores), com um
sentimento profundamente religioso e com o intuito de
conduzir o povo diante de Deus, tenha se rebaixado a
abandonar valores que quer ensinar e redigir uma mentira,
colocando na boca de Deus, o que Ele não disse,
inventando “estórias” e fazendo com que todos a
considerassem como verdadeiras!

8. Trata como impossibilidade o sobrenatural no AT.


Consequentemente a intervenção divina é negada:
revelação, inspiração, encarnação, milagres, etc.

22
9. Trata-se de uma negação da revelação especial. A Bíblia
torna-se meramente uma referência literária semítica. Um
livro antigo como outro qualquer, deixando de ser a auto
revelação proposicional de Deus.

Argumentos em favor da Autoria Mosaica do Pentateuco

Não há no Pentateuco uma declaração objetiva de que Moisés tenha escrito o


Pentateuco. Todavia, há um testemunho suficiente, que apóia a sua autoria.

A ausência do nome do autor harmoniza-se com a prática do AT em particular, e


com as obras literárias antigas em geral. No antigo Oriente Médio, o “autor” era
basicamente um preservador do passado, limitando-se ao uso de material e metodologia
tradicionais, conforme já foi observado.

Evidências Internas

1. Êx 17:14 indica que Moisés estava em condições de escrever.

2. Êx 24:4-8 refere ao “Livro da Aliança” (Êx 21:2-23,33).

3. Êx 34:27 pela segunda vez a ordem de escrever. Refere-se a


Êx 34:10-26, o 2º Decálogo.

4. Nm 33:1-2 Moisés anotou a lista das paradas desde o Egito


até Moabe (caminhada pelo deserto).

5. Dt 31:9,24 referência aos 4 livros anteriores do Pentateuco.

6. Dt 31:22 refere-se a Dt 32.

7. Narra detalhes de uma testemunha ocular. O número de


fontes e palmeiras (Êx 15:27), a aparência e paladar do maná
(Nm 11:7-8).

8. Em Gênesis e Êxodo, o autor exprime um detalhado


conhecimento do Egito, e do percurso do êxodo.

23
9. Conhecimento de palavras e nomes egípcios. O autor possuí
uma noção estrangeira da Palestina. Os termos usados para as
estações, tempo, fauna, flora são egípcios, não palestinos. O
autor estava familiarizado com a geografia egípcia e sinaítica.
Menciona quase nada sobre a geografia palestina, o que
evidencia seu pouco conhecimento da região.

Evidências Externas

1. Livro de Josué repleto de referências a Moisés como autor do


Pentateuco Js 1:7-8; 8:31; 22:9; 23:6; etc.

2. Jz 3:4 declara “...por intermédio de Moisés.”

3. Expressões frequentes nos livros históricos: “lei de Moisés”,


“livro da lei de Moisés”, “livro de Moisés”, etc. 1 Rs 2:3; 2 Rs
14:6; 21:8; Ed 6:18; Ne 13:1; etc.

Evidências do NT

1. Cristo menciona passagens do Pentateuco como sendo de


Moisés. Mt 19:8; Mc 10:4-5.

2. O texto sobre a circuncisão (Gn 17:12) mencionado no NT


(Jo 7:23) como fazendo parte da Lei de Moisés.

3. Restante do NT em harmonia com Cristo. At 3:22-23; 13:38-


39; 15:5,21; 26:22; 28:23; Rm 10:5,19; 1 Co 9:9; 2 Co 3:15; Ap
15:3.

Moisés Era Qualificado Para Escrever o Pentateuco

Alguns críticos questionam não somente a autoria de Moisés, mas inclusive até
mesmo a sua historicidade. Acham inconcebível como tamanhos desastres puderam
atingir um povo tão desenvolvido e organizado, como eram os egípcios, e ainda assim
não existir nenhum registro desses fatos? Respondemos mencionando a contribuição do
arqueólogo Alan Millard que declara:

24
“Os faraós, e isso não é surpresa, não apresentam descrições
das derrotas sofridas diante dos seus vassalos ou sucessores.
Se os monumentos reais não podem ajudar, os distúrbios
vividos pelo Egito com as pragas e a perda da mão-de-obra
poderiam ter gerado mudanças administrativas. Como
qualquer estado centralizado, o governo do Egito consumia
grandes quantidades de papel (papiro), e boa parte da
documentação era arquivada para consulta. Mas isso também
não ajuda, pois, como já vimos, praticamente todos os
documentos pereceram, e a probabilidade de recuperar algum
que mencione Moisés ou as atividades dos israelitas no Egito
é risível”.

Moisés é reconhecido como o homem erudito na antiguidade bíblica. Nos dias


de Moisés o Egito era a maior civilização do mundo, tanto em domínio, construções e
conhecimento. Moisés teve a oportunidade de ter sido educado na corte real egípcia,
recebendo a instrução de disciplinas acadêmicas que no Egito já eram tão
desenvolvidas, incluindo a arte da escrita, que há muito tempo era usada, de comum uso
dos egípcios, inclusive entre os próprios escravos.

Como historiador, soube coletar as informações da rica tradição oral de seu


povo. Mas além da tradição oral, Moisés dispôs, enquanto esteve no palácio real
egípcio, do seu acervo literário.

Era possuidor de um vasto e detalhado conhecimento geográfico. O clima,


vegetação, a topografia, o deserto tanto do Egito como do Sinai, e os povos
circunvizinhos lhe eram familiares.

O modo como o autor do Pentateuco descreve os eventos e lugares, indica que


ele não era palestino. Alguns fatos contribuem para esta conclusão: 1) conhecia lugares
pelos nomes egípcios; 2) usa uma porcentagem maior de palavras egípcias do qualquer
outra parte do AT; 3) as estações e tempo que se mencionam nas narrativas são
geralmente egípcias e não palestinas; 4) a flora e a fauna descritas são egípcias; 5) os
usos e costumes relatados que o autor conhecia eram comuns em seus dias.

25
Moisés, como fundador da comunidade de Israel, também exerceu o papel de
legislador, educador, juiz, mediador, profeta, libertador, sacerdote, pastor, historiador,
entre outros. Possuía vários motivos, segundo as funções que exerceu, para prover ao
seu povo alicerces morais concretos e religiosos, e era preciso registrar e distribuir a Lei
entre o povo, de modo que ela fosse acessível a todos.

Como escritor, teve tempo mais que suficiente. O Êxodo durou quarenta árduos
e longos anos de peregrinação pelo deserto do Sinai. Apesar de sua ocupação ativista,
este seria um tempo mais do que suficiente para que pudesse escrever todo o Pentateuco
e, ainda, se necessário, alfabetizar todo o povo.

Ele mesmo reivindicou escrever sob orientação de Deus (Êx 17:14; 34:27; Dt
31:9, 24). Nenhum outro autor da antiguidade foi assim identificado.

O Que se Entende Por Autoria Mosaica?

1. Não significa que Moisés tenha pessoalmente


escrito originalmente cada palavra do Pentateuco.
Certamente ele lançou mão da “tradição oral”;

2. É possível que ele tenha empregado porções de


documentos previamente existentes;

3. Talvez tenha escrito junto com escribas ou amanuenses;

4. Moisés foi o autor fundamental ou real do Pentateuco;

5. Sob a orientação divina, talvez tenha havido pequenas


adições secundárias posteriores, ou revisões (Dt 34);

6. Substancial e essencialmente, o Pentateuco é obra de


Moisés. O Dr. Wilson comenta “que o Pentateuco,
conforme se encontra, é histórico e data do tempo de
Moisés; e que Moisés foi seu autor real, ainda que talvez
tenha sido revisado e editado por redatores posteriores,
adições essas tão inspiradas e tão verazes como o restante,
não existe dúvida”.

26
Unidade

Unidade Literária/Textual

Pequenas adições e mudanças no Pentateuco podem ser admitidas sem que se


negue a unidade literária e autoria mosaica da obra.

O Pentateuco é tanto uma combinação de livros individuais como uma narrativa


contínua e que apresenta uma história completa desde a criação até a morte de Moisés.
A leitura dos seus livros sob apenas uma dessas óticas geraria distorções do seu texto.
Por um lado, a seu modo, cada livro orientou Israel no êxodo do Egito, rumo à
conquista de Canaã. Gênesis se distingue em função do seu enfoque literário singular
sobre os primórdios e o período patriarcal, criando assim o pano de fundo para o êxodo
e a conquista. Êxodo destaca a liderança de Moisés, e a lei e o tabernáculo; Levítico é
claramente um manual sacerdotal para o culto em Israel; Números focaliza Israel como
exército do Senhor marchando em direção a Canaã; e Deuteronômio é constituído de
três discursos de Moisés nas campinas de Moabe, nos quais ele explica a lei e dirige
uma renovação da aliança.

Ao mesmo tempo, os livros são ligados de modo a formar uma narrativa


contínua. Êxodo, por exemplo, é ligado a Gênesis pela referência ao número de
Israelitas que foram para o Egito (Gn 46.26,27; Êx 1.1). Na ocasião do êxodo, Moisés
cita o pedido de José para que os israelitas levem seus ossos embora do Egito quando
Deus os libertar (Gn 50.25; Êx 13.19). Levítico 1–9 pode ser lido praticamente como
um apêndice de Êx 25–40. O último texto legitima a construção do tabernáculo
enquanto o primeiro autentica o seu ritual. O culto de ordenação dos sacerdotes é
esboçado em Êx 29, mas só é realizado em Lv 8–9. As restrições alimentares de
Levítico são baseadas no relato do êxodo (Lv 11.45). Números é ligado de várias
maneiras a Êxodo e Levítico. Partes extensas das narrativas desses três livros centrais do
Pentateuco se passam no deserto do Sinai e os livros apresentam prescrições litúrgicas e
interesses semelhantes. No início do seu primeiro discurso em Deuteronômio, Moisés
resume a história de Israel desde o Sinai até Moabe, seguindo o registro de Números e,
no seu segundo discurso, se refere com frequência a Êxodo, chegando a repetir, apenas
com ligeiras modificações, tanto os Dez Mandamentos quanto a resposta de Israel. (Êx
20; Dt 5).

27
Não há nenhuma evidência histórica ou manuscritológica de que vários redatores
tenham “costurado” os livros do Pentateuco. Não existe nenhuma evidência que em
algum período da história, o Pentateuco tenha circulado como “pedaços” (fontes JEDP),
e que algum redator, ou redatores, tenha compilado e dado sua formação final, como
propõe a teoria documentária. Os rabinos judeus desconhecem tal coisa.

Unidade Histórica

O Pentateuco possui uma linha histórica que se desenvolve. A ligação


cronológica entre os cinco livros, transmite-nos a ideia de que é somente um livro de
cinco capítulos. Podemos resumir a história de Israel registrada no Pentateuco da
seguinte forma:

1. Deus é o Criador de toda a raça humana, e dela formou


para si um povo.

2. Deus escolheu Abraão e seus descendentes, e lhes


prometeu dar a terra de Canaã.

3. Israel foi para o Egito, e caiu na escravidão, da qual o


Senhor os livrou.

4. Deus conduziu Israel a Canaã conforme prometeu.

Unidade Temática

1. Em Gênesis vemos a origem do universo e a aliança com Israel.

2. Em Êxodo vemos a escravidão e libertação de Israel.

3. Em Levítico vemos a santificação de Israel.

4. Em Números vemos a recontagem do povo de Israel.

5. Em Deuteronômio vemos a renovação da aliança com a nova geração de


Israel.

28
Divisões

O Pentateuco é uma unidade em cinco livros.

O pensamento crítico mais antigo defendia que Deuteronômio não termina o


Pentateuco, mas culmina com o livro de Josué. Esta tese formulada por Julius
Wellhausen e Gerhard Von Rad, é conhecida como “teoria do Hexateuco”
(Gn+Êx+Lv+Nm+Dt+Js).

O pensamento crítico mais recente defende que Deuteronômio é uma introdução


teológica à subsequente “História Deuteronomística”. Segundo a “História
Deuteronomística” o livro de Deuteronômio faz parte de sequência de livros compilados
por redatores. Formulada por Martin Noth:

Tetrateuco “História Deuteronomística”

Gn Êx Lv Nm Dt Js Jz Sm Rs

As teorias críticas de G. Von Rad e Martin Noth negam tanto a autoria, quanto a
unidade do Pentateuco. Seguimos a divisão tradicional em cinco livros. Não há
evidência de que o Pentateuco tenha sido “mutilado” ou “acrescentado” como querem
sustentar os defensores de um “Tetrateuco” ou “Hexateuco”. Algumas evidências da
unidade estrutural dos cinco livros, ou Pentateuco:

1. O Pentateuco Samaritano.

2. A Septuaginta (LXX).

3. Filo, filosófo judeu de Alexandria (Egito).

4. Flávio Josefo, historiador judeu.

5. Designações judaicas posteriores se referiam ao Pentateuco como “os cinco quintos


da Lei” (Talmud de Jerusalém, Sanhedrin 10:1 e Koheleth rabba Ec 12:11).

29
Capítulo 3.
Esboço do Pentãteuco.
O Pentateuco é formado por cinco livros que, juntos, abrangem um período de
tempo que se estende desde a Criação até a chegada do povo de Israel aos limites de
Canaã.

1. História primitiva com um contexto histórico amplo....Gn 1-11

2. História dos Patriarcas.................................................Gn 12-50

3. Opressão de Israel e preparativos para o Êxodo..............Êx 1-9

4. O Êxodo e a chegada ao Sinai......................................Êx 10-19

5. O Decálogo e o Pacto no Sinai.....................................Êx 20-24

6. Tabernáculo e o sacerdócio Aarônico...........................Êx 25-31

7. A violação idolátrica do Pacto......................................Êx 32-34

8. Acréscimo de leis acerca do Tabernáculo....................Êx 35-40

9. A lei das oferendas..........................................................Lv 1-7

10. Consagração dos sacerdotes e oferendas iniciais........Lv 8-10

11. As leis da purificação................................................Lv 11-15

12. O Dia da Expiação.........................................................Lv 16

13. Leis acerca da moralidade e pureza..........................Lv 17-26

14. Votos e dízimos.............................................................Lv 27

30
15. Censos e leis...............................................................Nm 1-9

16. A Viagem desde o Sinai até Cades-Barnéia...........Nm 10-20

17. Peregrinações até Moabe........................................Nm 21-36

18. Primeiro discurso.........................................................Dt 1-4

19. Segundo discurso com uma introdução exortativa.....Dt 5-11

20. Coleção de estatutos e direitos.................................Dt 12-26

21. Maldições e Bênçãos................................................Dt 27-30

22. Ascensão de Josué e a morte de Moisés..................Dt 31-34

Importância.
Aspecto social

O Pentateuco funcionou como uma constituição da teocracia de Israel. Antes de


refletir os costumes nacionais, o Pentateuco tencionou ditá-los. G.L. Archer escreve que
“estes seriam os alicerces morais e religiosos nos quais a sua nação haveria de cumprir o
seu destino”. Quando Deus deu a Moisés a Lei, Ele forneceu o princípio regulador que
nortearia toda uma nação.

Aspecto Científico

A origem do universo com um ato criativo de Deus. O Movimento Criacionista


tem desenvolvido argumentos consistentes numa tentativa de explicar cientificamente a
origem do universo à partir de pressupostos bíblicos encontrados, especialmente, no
livro de Gênesis. Apresenta Deus como a “primeira causa eficiente”, como também
transformações que podem ser explicadas pelo evento de um dilúvio universal.

31
Aspecto Teológico

Raízes do cristianismo e judaísmo estão profundamente firmadas no Pentateuco.


Tudo se firma, ou tudo cai, com a autoridade do Pentateuco.

No Pentateuco, encontramos informações e pressupostos para o


desenvolvimento da teologia: origem do universo, vida humana, pecado, “Proto-
Evangelho”, conceito cerimonial, culto, nomes de Deus, aliança, início de Israel, etc.

Aspectos Históricos

Esses livros são os únicos a traçar uma linha contínua a partir de Adão. Todavia,
não é sua intenção apresentar uma história completa de todas as gerações e raças, mas,
sim, um relato altamente especializado da implantação do reino teocrático no mundo.
Não é mera história, mas a história da redenção do ser humano pecador. História
especial com um motivo teológico por trás. História apontando para Cristo.

Aspectos Étnicos

Os livros do Pentateuco descrevem o começo e a expansão das divisões raciais


do mundo.

Aspectos Proféticos

O Pentateuco é o fundamento para os temas proféticos mais importantes da


Bíblia. As profecias preenchem a interpelação histórica através das demais revelações.

Propósito

Esta obra não é um mero ensaio literário, mas o registro histórico de uma grande
família, a descendência de Abraão. Toda a história gira em torno deste povo. A sua
identidade étnica se delineia nestes cinco livros. O Pentateuco procura situar o povo de
Israel dentro do mundo, especialmente em Gênesis, apresentando suas origens e a
origem dos povos que posteriormente viriam a cruzar o seu caminho. Tal conhecimento
da história nacional seria tão importante para o povo no deserto, quanto para o povo já
estabelecido em Canaã.

32
O Pentateuco foi escrito para apresentar o Deus que libertou o povo de Israel. De
modo que o povo pudesse adorar e obedecer a Deus, sabendo que Ele é verdadeiramente
o único Deus e que é poderoso, santo e glorioso.

Rev. Ewerton Barcelos Tokashiki

O Conceito de Torá.
O Pentateuco é conhecido pelos Judeus como “Torá”. O termo “Torá”
originalmente tem o significado puramente de “Ensino”. A Torá é o livro da Lei dos
judeus. Nela está contida todas as regras que a nação de Israel devia seguir para agradar
o Criador.
A Bíblia hebraica é dividia em: Leis, Escritos, (Salmos) e Profetas. A Lei, ou a
Torá, na divisão ocupa o primeiro lugar, assim como na nossa Bíblia cristã, e para os
judeus é a parte mais importante de toda a Escritura Sagrada. Recheado de Leis,
Estatutos, Regras individuais e coletivas, o Pentateuco é uma leitura interessantíssima
de como Deus agiu com esse povo peculiar que Ele mesmo escolheu. Nestes cinco
primeiros livros encontramos um perfil histórico, desde a criação do mundo e da
humanidade até os discursos de Moisés nas planícies de Moabe, onde este morreu e foi
sepultado.

Capítulo 4.
33
Anãlise de cãdã livro.

Gênesis.

Visão geral.
Autor: Moisés
Propósito: Ensinar aos Israelitas o propósito de Deus para eles como uma nação, tendo
como pano de fundo o início da história do mundo e a vida de seus patriarcas
Data: c. 1446-1406 a.C.
Verdades fundamentais:

 Embora o pecado tenha corrompido o mundo ideal que o Deus de Israel tinha
criado, a redenção viria por meio do povo escolhido por ele.
 As vidas de Abraão, de Isaque e de Jacó fornecem muitos vislumbres da
natureza da aliança de Deus com o seu povo, bem como as esperanças deles
quanto ao futuro.
 A vida de José e a de seus irmãos revelam como o povo de Deus deve se
relacionar entre si e com o mundo.10

Autoria.
Como esse livro faz parte do Pentateuco unificado, a sua autoria não pode ser
estabelecida separadamente da composição de Êxodo, Levítico, Números e
Deuteronômio. Evidências no próprio livro de Gênesis sugerem que, como em todo o
Pentateuco, Moisés, sob inspiração do Espírito Santo, deu ao livro o seu conteúdo
essencial; portanto, ele pode ser corretamente chamado de seu autor. Posteriormente,

10
É de maior importância a ênfase no cuidado de Deus por essa família. Vale lembrar as palavras de
José: Genesis 50:20 “Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem,
para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida.” Isso explica todos os ocorridos
dos anos da vida de José e seus irmãos como sendo soberanamente conduzido por Deus e com o fim de
cumprir um plano claro, conservar a família da aliança, os descendentes de Abraão e Isaque e Jacó. Me
parece que este é o objetivo claro da narrativa. (Pr. Adriano Elias)

34
editores inspirados modernizaram-no e complementaram-no em vários pontos para
formar o livro como o temos hoje.

Data e ocasião.
Analisando as evidências que relacionam Gênesis e o seu conteúdo a Moisés e a
sua época, podemos aceitavelmente concluir que a forma essencial básica e o conteúdo
do livro datam aproximadamente 1400 a.C. Embora palavras conhecidas como tendo
sido usadas somente na metade do segundo milênio a.C., ocasionalmente apareçam no
texto, os leitores devem observar que a gramática e os nomes dos lugares em Gênesis,
como em todo o Pentateuco, foram atualizados. Além disso, a lista de reis em Gn 36.31-
43 parece ser um adendo acrescentado após a época se Saul.
Não há evidências suficientes que determinem com precisão quando Moisés
escreveu o livro de Gênesis. Ele pode tê-lo escrito como um meio de chamar a primeira
geração do êxodo para fora do Egito ou, mais provavelmente, em conjunto com o resto
do Pentateuco, para a segunda geração do êxodo enquanto as pessoas se preparavam,
nas planícies de Moabe, para a conquista de Canaã.

Público original.
O livro de Gênesis foi escrito para encorajar os israelitas enquanto estes
enfrentavam inúmeros desafios ao deixar o seu passado de escravidão no Egito e
seguiam para conquistar a Terra Prometida. As narrativas fornecem um prólogo para as
responsabilidades que a nação enfrentaria nos dias de Moisés. Por exemplo, Gênesis
enfoca, explicitamente, o ritual da circuncisão (17.9-14) e a observância do sábado (2.2-
3). E, o mais importante, Gênesis relata as origens de Israel, remontando ao início da
história da humanidade e ao conflito entre o reino de Deus e o reino da serpente,
conflito no qual a nação de Israel teve um papel crucial. Gênesis também relata a
escolha de Israel para uma aliança de relacionamento exclusivo com o único Deus. De
acordo com essa aliança, os descendentes dos patriarcas se tornariam uma grande nação
na Terra Prometida, por meio dos quais os gentios seriam abençoados.

35
Propósito e características.
Segundo o antigo costume de nomear livros de acordo com suas primeiras
palavras, o título hebraico bereshith, “no princípio”. Com base no conteúdo do livro, o
título grego é geneseos que significa “origem”. Os dois títulos são apropriados, uma vez
que o livro versa sobre a origem da história sagrada.
Um estudo da estrutura literário de Gênesis revela os seguintes destaques. O
prólogo (1.1-2.3) é destacado por meio de um artifício usado no início e na conclusão
do livro: no texto hebraico a ordem das palavras em 1.1 (em que “os céus e a terra”
precede “a obra da criação”). Após o prólogo, Gênesis divide-se em dez partes
marcadas pela fórmula “são estas as gerações de...”. Esse título é seguido por uma
genealogia da pessoa referida e/ou por relatos envolvendo os seus descendentes mais
notáveis. Os três primeiros “relatos” pertencem ao período pré-diluviano; os sete
últimos ao pós-diluviano. Os relatos da era pré-diluviana e os três primeiros da pós-
diluviana formam um paralelo entre si: eles incluem histórias sobre o desenvolvimento
universal da humanidade na criação a partir das caóticas água primitivas e da recriação
após o dilúvio (relatos 1 e 4); a genealogia das linhagens da redenção por meio de Sete e
Sem (relatos 2 e 5); e as histórias sobre os acordos memoráveis de aliança com Noé e
Abraão (relatos 3 e 6). Os dois pares finais de relatos expandem a linhagem Abraâmica,
contrastando as histórias sobre seus filhos rejeitados, Ismael e Esaú (relatos 7 e 9), com
histórias sobre os eleitos, Isaque e Jacó (relatos 8 e 10). A chave para a compreensão da
narrativa é geralmente dada numa revelação de abertura; por exemplo, a promessa a
Abraão (12.1-3), o presságio pré-natal da rivalidade entre Jacó e Esaú (25.22-23) e os
sonhos de José (37.1-11). Uma seção de transição é encontrada ao final de cada relato:
por exemplo, 4.25-26; 6.1-8; 9.18-29; 11.10-26. A seção que conclui a última narrativa
contém fortes vínculos com o livro de Êxodo, terminando com um juramento que José
obteve de seus irmãos de que levariam consigo o seu corpo embalsamado quando Deus
viesse socorrê-los e os reconduzisse a Canaã (50.24-25; Êx 13.19).
O enfoque do livro nas origens de Israel, se desdobram sobre um pano de fundo
de preocupações com assuntos que afetam o mundo. Moisés nos diz que antes que Deus
elegesse os patriarcas, a humanidade declarou sua independência de Deus ao desafiar a
sua ordem (caps. 2–3). Os seres humanos demonstravam a sua corrupção por um
desvirtuamento da religião, pelo fratricídio e pela vingança incontida (representada por
Caim no cap. 4); pela tirania, pelos haréns e pela contínua maldade (representada pelos

36
perversos reis no cap. 6.1-8); e por erguer seu próprio reino contra Deus (representado
pela torre de Ninrode em 10.8-12). O veredicto de Deus sobre a humanidade declara: “é
mau o desígnio íntimo do homem desde a sua mocidade” (8.21). Por trás dessa história
sombria está o pai espiritual da humanidade caída: o malévolo e astuto Satanás.
Da mesma maneira milagrosa e indubitável que Deus soberanamente
transformou o caos sombrio e misterioso do princípio da terra no glorioso habitat para a
humanidade e trouxe-lhe descanso, assim também Deus soberanamente elegeu o seu
povo da aliança em Cristo para derrotar Satanás e para abençoar o mundo corrompido.
Ele elegeu incondicionalmente os patriarcas Abraão, Isaque, Jacó, e prometeu a eles e a
seus descendentes eleitos a nação destinada a abençoar a terra. Antes de Jacó nascer ou
de ter praticado o bem ou o mal, Deus escolheu a ele e não a Esaú, o seu irmão gêmeo
mais velho (25.21-23). Deus usou até mesmo a ofensa escandalosa de Judá contra
Tamar, assim como o próprio ardil ousado de que ela lançou mão, para levar adiante a
linhagem messiânica (cap. 38). O Rei celeste demonstrou seu glorioso governo ao
preservar milagrosamente as matriarcas em meio a haréns pagãos (12.10-20; 20.1-18) e
ao abrir os seus ventres estéreis (17.15-22; 18.1-15; 21.1-7; 25.21; 29.31; 30.22).
Repetidas vezes, ele ignorou os costumes humanos normais e escolheu o filho mais
novo, e não o mais velho, para herdar a bênção. Profecias irracionais e tipos sutis são
testemunho legítimos de que Deus dirige a História. Por exemplo, Noé profetizou a
submissão de Canaã a Sem, e Abraão tipificou o grande êxodo liderado por Moisés
quando Deus libertou Abraão e Sara da opressão do Egito com riquezas.
Deus inclinou o coração de seu povo a confiar em suas promessas e a obedecer
aos seus mandamentos. Contra toda esperança, Abraão confiou em Deus para abençoá-
lo com uma descendência incontável e o narrador diz que Deus creditou essa fé como
sendo o mesmo que a obedecer à lei (15.6). confiante nas seguras promessas de Deus,
Abraão renunciou aos seus direitos sobre a terra (13), e mais tarde Jacó, apegando-se
somente a Deus, devolveu simbolicamente o direito de primogenitura a Esaú (cap. 33).
No começo da história de José, Judá vendeu-o como escravo, mas, no fim, o ex-
mercador de escravos se dispôs a tornar-se escravo no lugar do seu irmão. Certo da
verdade de que o desígnio soberano de Deus previa pecados tão horríveis como as
tentativas de assassinato contra ele e a sua escravidão pelas mãos se seus irmãos, José
os perdoou sem recriminações.
Deve-se reconhecer que existe uma resistência da parte de muitos em relação à
mensagem desse livro em nossos dias em função da tensão entre Gênesis e algumas

37
propostas de cientistas modernos com relação à origem do universo e das espécies.
Entretanto, devemos lembrar que a ciência humana é imperfeita. Haverá harmonia entre
cientistas e a Bíblia desde que ambos estejam afirmando aquilo que é verdade, ainda
que de diferentes perspectivas.

Cristo em Gênesis.
O que começou em Gênesis é cumprido em Cristo. A genealogia iniciada no cap.
5 prosseguiu no cap. 11 e termina com o nascimento de Jesus Cristo (Mt 1; Lc 3.23-28).
Ele é o legítimo descendente prometido a Abraão (17.15-16; Gl 3.16). Os crentes são
abençoados nele devido à sua obediência ativa, pela qual satisfez as exigências da lei, e
por sua disposição em desistir de seus direitos de igualdade com Deus, morreu no lugar
deles. Todos os que são batizados em Cristo são descendentes de Abraão (Gl 3.26-29).
As ousadas profecias e os sutis tipos em Gênesis mostram que Deus estava escrevendo
uma história que se completaria com Jesus. No limiar da profecia bíblica, Noé predisse
que os jafetitas encontrariam a salvação por meio dos semitas (9.27), uma profecia que
se cumpriu no Novo Testamento (Rm 11); e o próprio Deus proclamou que o
descendente da mulher destruiria satanás. Esse descendente é Cristo e sua igreja (Rm
16.20). O sacerdócio de Melquisedeque é semelhante ao do Filho de Deus. O paraíso
perdido pelo primeiro Adão é restaurado pelo último Adão. Essa história sagrada,
maravilhosamente unificada, certifica que o foco de Gênesis é, em última análise,
Cristo.

ÊXODO.
Visão Geral.
Autor: Moisés.
Propósito:

- Registro do resgate de Israel do Egito.

- Mensagem da superioridade de Deus sobre divindades pagãs.

- Registro do estabelecimento da aliança com Israel.

- Instruir sobre a construção do tabernáculo e elementos ligados a ele.

38
Data: c.1446 – 1406 a.C.
Verdades Fundamentais:
 O Senhor deu autoridade a Moisés como líder de Israel para trazer a bênção da
libertação do Egito.
 As leis da aliança dadas por meio de Moisés foram divinamente autorizadas para
levar bênçãos ao povo de Deus.
 As regulamentações de Moisés para a adoração no tabernáculo foram
divinamente ordenadas para trazer bênçãos ao povo de Deus.

Autor.
Moisés foi o escritor principal de Êxodo. Algumas partes do livro declaram
explicitamente a sua origem Mosaica. Os dez mandamentos foram originariamente
“escritos pelo dedo de Deus” em tábuas de pedra (31.18; veja também 32.15-16;
34.1,28), mas Moisés entregou essas leis para Israel. Moisés escreveu também o “livro
da aliança” (isto é, 20.18 – 23.33; veja 24.4,7; 34.27). além disso, Js 8.31 se refere as
palavras de 20.25 como tendo sido “escritas no livro da lei de Moisés”. Além do mais,
Jesus chamou o livro de Êxodo de o “livro de Moisés” (veja Mc 7.10; 12.26; Lc 2.22-
23). É provável que Moisés tenha empregado escribas e que possa ter havido uma
edição posterior, mas o próprio livro e outras escrituras confirmam a visão tradicional
de que Moisés foi o autor desse livro.
O nome Êxodo é a forma latina do grego exodos, que significa “saída” (Lc 9.31). O
livro recebeu esse nome a partir do seu acontecimento central: a saída do povo de Israel
do Egito, registrada nos primeiros quinze capítulos. O Êxodo não recomeça diretamente
a narrativa de Gn 50, mas a sua introdução começando com “são estes os nomes...”, é
uma alusão a Gn 46.8-27, em que os nomes dos Israelitas que foram para o Egito estão
registrados. O livro de Êxodo é uma obra distinta, mas, faz parte da estrutura do
Pentateuco.

Data e ocasião.

Embora o enredo principal de Êxodo se entenda do tempo da escravidão Israelita


no Egito até o recebimento das leis de Deus no monte Sinai, pelo menos dois

39
comentários indicam que o livro tenha chegado à sua forma final numa data posterior.
Êx 16.35 afirma: “E comeram os filhos de Israel maná quarenta anos, até que entraram
em terra habitada; comeram maná até que chegaram aos limites da terra de Canaã” (veja
também Js 5.10-12). De modo semelhante, Êx 40.38 afirma: “De dia, a nuvem do
Senhor repousava sobre o tabernáculo, e, de noite, havia fogo nela, à vista de toda a casa
de Israel, em todas as suas jornadas”. Essas referências sugerem fortemente que Moisés
tenha dado a forma final a esse livro na segunda geração do êxodo, enquanto o povo
esperava nas planícies de Moabe (veja Dt 1.5). Por essas razões, o livro pode ser datado
em torno de 1446-1406 a.C., o tempo dos quarenta anos da peregrinação israelita no
deserto.
A data e a rota do êxodo têm sido temas de consideráveis debates. A cronologia
bíblica fixa o acontecimento do êxodo em quatrocentos e oitenta anos antes do reinado
de Salomão (1 Rs 6.1) – em torno de 1440 a.C. Essa data mais antiga é coerente com Jz
11.26, que afirma que trezentos anos tinham se passado desde a entrada de Israel em
Canaã. A data de 1440 a.C. é também confirmada em 12.40-41, que afirma que a
permanência dos Israelitas no Egito durou quatrocentos e trinta anos. Sendo assim, o
Faraó da época do êxodo teria sido provavelmente Tutmés III ou Amenotepe II.
Os que defendem uma data bem posterior a essa recorrem ao nome de Ramessés
como sendo uma das cidades-celeiro construídas com o trabalho israelita (1.11).
Ramessés II (1290-1224 a.C) é considerado o Faraó da época do êxodo; portanto, isso
determina a data do livro em aproximadamente 1270 a.C. acredita-se que essa
interpretação seja mais coerente com a ausência de um assentamento mais antigo na
Transjordânia. Descobertas mais recentes nesse local e uma nova avaliação da
destruição de Jericó têm enfraquecido o argumento em favor de uma data posterior.
A rota do êxodo começou em Ramessés, cuja localização é tema de grande
controvérsia, embora Tell-el-Daba (atual Qantir) seja a localização mais provável. Dali,
os hebreus viajaram para o sul até Sucote (13.20). Ali, aparentemente sem condições de
seguir em frente, eles se desviaram para o norte (14.2). Três lugares são mencionados:
Baal-Zefom, Migdol e Pi-Hairote. Baal-Zefom é associado com Tafnes, ás margens do
lago Menzalé, um dos lagos de água salgada entre o Mediterrâneo e o golfo de Suez.
Havia três possíveis rotas de fuga para os israelitas: o caminho da terra dos filisteus
ligava o Egito a Canaã por uma rota litorânea muito bem fortificada. A segunda rota, o
caminho de Sur, começava próximo ao Uádi Tumilat, na região do delta, cruzando
Cades-Barneia até chegar a Canaã. A muralha de Sur, na região do Sinai, o Senhor não

40
apenas o levou para o monte que havia indicado a Moisés como também o afastou de
um contato mais estreito com os egípcios.
A península do Sinai tem extensão aproximada de 240 Km de norte a sul e 420
Km de leste a oeste. É ladeada por dois braços do mar Vermelho: o golfo de Suez e o
golfo de Ácaba (Elate). Os hebreus prosseguiram para o sul ao longo da costa oeste do
Sinai. As águas amargas de Mara (15.22-25) são, geralmente, identificadas com a atual
Ain Hawarah, cerca de 75 a 80 Km ao extremo sul do golfo de Suez, mas talvez Ain
Musa fosse o mais correto. Elim, com suas inúmeras nascentes e árvores, tem sido
identificada como Uádi Garandel, o acampamento junto ao mar Vermelho (Nm 33.10),
cerca de 11 Km ao sul da atual Ain Hawarah. O deserto de Sim seria mais corretamente
identificado como Debet er-Ramleh, uma planície arenosa ao longo do limite do
planalto do Sinai. Se a localização do monte Sinai for a tradicional, em Jebel Musa,
então os israelitas se dirigiram para o interior do país por uma série de vales até Jebel
Musa, viajando pelo deserto de Refidim, onde lutaram contra os amalequitas (17.8-16).
Refidim foi o último acampamento no deserto do Sinai antes da chegada à montanha
sagrada. Em seguida, eles prosseguiram até o monte Sinai (cap. 19), onde receberam a
lei. Dt 1.2 confirma a localização do Sinai. Depois, os israelitas seguiram o caminho da
Parã a Cades.

Propósito e características
O livro de Êxodo tem vários temas importantes. O primeiro conta como o
Senhor libertou o povo de Israel do Egito para cumprir a aliança com os patriarcas. O
segundo tema importante do livro é a revelação da aliança do Sinai. O terceiro é um
resultado dos dois primeiros: O estabelecimento do tabernáculo como a morada de Deus
com os israelitas. Cada um desses temas apresenta um triunfo da graça de Deus. Ao
libertar o seu povo, o verdadeiro Deus julgou os deuses e os governantes do Egito, falou
aos homens no Sinai e manifestou a sua presença no tabernáculo, o qual ele havia
instruído o povo a construir. O desdobramento desses temas também revela a santidade
e a graça do Senhor na sua lei da aliança e no simbolismo cerimonial da vida e do culto
de Israel.
No centro de todos esses atos divinos está Moisés, o servo escolhido de Deus.
Ele foi o mediador do juízo divino contra o Egito (4.1-17) e, por meio dele, Deus
libertou os israelitas passando pelo mar Vermelho (14.31). O Senhor entregou a sua

41
revelação no Sinai (20.19) por intermédio de Moisés, o qual também recebeu e revelou
as regulamentações para a construção do tabernáculo (caps. 32-34). “O livro apresenta
Deus como o libertador. Essa é sua ênfase. Moisés é o servo. Deus é o libertador e o
Salvador. O cântico de Moisés marca essa consciência por parte dele próprio.” (Pr.
Adriano Elias)

Cristo em Êxodo.
Os cristãos podem aprender a respeito de Cristo ao longo de todo o livro de
Êxodo de várias maneiras. Em primeiro lugar, numa escala maior, a maneira pela qual
os israelitas foram libertos da dura escravidão no Egito para a Terra Prometida de
bênçãos divinas apresenta uma importante metáfora da obra da salvação de Deus através
da história. Deus redimiu o seu povo escolhido do cativeiro egípcio e da idolatria,
reivindicando o seu povo como o seu primogênito, para ser uma nação santa e um reino
de sacerdotes em meio ao qual ele habitava. O modelo da divina vitória sobre os
inimigos, o estabelecimento de um lugar para habitação divina e a abundância de
bênçãos encontram a sua maior realização na primeira e na segunda vindas de Cristo.
Em segundo lugar, o tabernáculo e seus serviços apontavam para Cristo. Em
termos gerais, assim como o tabernáculo era o local da presença acessível de Deus na
terra, Jesus “habitou” (lit., “tabernaculou”) entre nós (Jo 1.14-17). Além disso, a
provisão de animais sacrificiais como solução temporária para o pecado de Israel
antecipou o sacrifício da morte de Cristo, no qual o pecado foi punido de uma vez para
sempre (24.8; Mt 26.27-28; Jo 1.29; Hb 12.24; 1Pe 1.2). Assim, o importante
acontecimento da Páscoa é cumprido em Cristo (1Co 5.7).
O Papel principal que Moisés representou nesse livro também aponta para
Cristo. Assim como os Israelitas foram “batizados... com respeito a Moisés” (1Co 10.2),
quando conduzidos através do Mar Vermelho, os cristãos são batizados em Cristo.
Moisés foi o grande servo do Senhor que recebeu as palavras de Deus diretamente dele.
Assim como Moisés estava disposto a morrer pelo bem de seu povo (32.10), Jesus
serviu de substituto para o seu povo. A Glória de Deus que se refletiu na face de Moisés
(34.29; 2Co 3.7) é agora refletida naqueles transformados pelo Espírito de Cristo (2Co
3.18).

42
Levítico.
Visão Geral.
Autor: Moisés
Propósito: Conduzir os israelitas nos caminhos da santidade para que eles se
mantivessem separados do mundo e recebessem bênçãos em vez de julgamento,
enquanto vivessem nas proximidades da presença especial de seu Deus Santo.
Data: c. 1446-1406 a.C.
Verdades fundamentais:
 Deus é santo e exige santidade do seu povo.
 O povo de Deus não conseguia cumprir perfeitamente as exigências de
santidade, mas podia obter expiação simbólica por meio do sistema sacrificial.
 Deus chamou o seu povo para buscar a santidade em todos os aspectos da vida
em gratidão pela misericórdia que ele havia demonstrado para com eles.
 Deus ofereceu bênçãos maravilhosas e ameaçou trazer julgamento, caso o seu
povo não se arrependesse e se comprometesse com ele.

Autor.
A conclusão de que Moisés é o autor de Levítico é inferida pela data e ocasião
do livro e por referências do Antigo e do Novo Testamento a Moisés como autor do
Pentateuco.

Data e ocasião.
Levítico relata as palavras de Deus a Moisés e a seu irmão, Arão, mas não diz
como essas palavras foram registradas na forma escrita. Esse fato torna a data do livro
um tanto incerta. A maioria dos intérpretes críticos dará Levítico no período do exílio
(c. Séc 4 a.C), vários séculos depois de Moisés. Esse ponto de vista é improvável, pois
Levítico não se encaixa em um período tão recente: o culto no segundo templo era
bastante diferente das prescrições de Levítico e o conteúdo do livro é pressuposto ou
citado em livros mais antigos, como Deuteronômio, Amós e, mais claramente, Ezequiel.
Levítico reflete os ideais de adoração e santidade reconhecidos em Israel, do tempo de
Moisés até a queda de Jerusalém em 587 a.C.

43
O livro de Levítico relata vários acontecimentos que tiveram lugar, em sua
maioria, no monte Sinai. Por esse motivo, é possível que Moisés o tenha compilado para
a primeira geração do êxodo. No entanto, é provável que o tenha concluído – bem como
o restante do Pentateuco – nas campinas de Moabe, com a finalidade de instruir a
segunda geração do êxodo sobre como viver na Terra Prometida.

Público original.
Levítico, a forma latina do título grego do livro, significa “acerca dos levitas”.
Levi era a tribo de origem dos sacerdotes e cabia aos levitas manter o culto em Israel. O
título é apropriado, uma vez que o livro trata principalmente do culto e do que era
próprio para ele. No entanto, não é dirigido apenas aos levitas, mas também aos
israelitas leigos, dizendo-lhes como oferecer sacrifícios e como ser puro, um requisito
para entrar na presença de Deus em adoração.

Propósitos e características.
Talvez nenhum outro livro do Antigo Testamento seja tão desafiador para o
leitor moderno quanto Levítico, sendo necessário exercitar a imaginação para visualizar
as cerimônias e os ritos que constituem grande parte do livro. No entanto, é importante
entender os rituais de Levítico por dois motivos. Em primeiro lugar, de modo geral, os
rituais preservam, expressam e ensinam os valores e os ideais mais preciosos de uma
sociedade. Embora vários aspectos dos rituais de Levítico pareçam obscuros para os
leitores modernos, os israelitas do Antigo Testamento sabiam o motivo pelo qual
determinados sacrifícios eram oferecidos em ocasiões específicas e o que certos gestos
significavam. Ao analisarmos as cerimônias descritas em Levítico, podemos aprender
sobre os conceitos mais importantes para o povo de Israel do Antigo Testamento. Em
segundo lugar, esses mesmos conceitos foram fundamentais para a teologia do Novo
Testamento. As concepções de pecado, sacrifício e expiação encontradas em Levítico
são essenciais para a interpretação da morte de Jesus no Novo Testamento.
Levítico faz parte da lei da aliança dada no Sinai. Os conceitos que norteiam toda a
aliança mosaica também se encontram pressupostos nesse livro, incluindo a graça
soberana de Deus na escolha de Israel e sua exigência de lealdade. Certos temas são
particularmente proeminentes em Levítico. Primeiro, Deus está presente com o seu

44
povo. Segundo, Deus é santo e o seu povo também deve ser santo. Terceiro, a expiação
pelo pecado por meio da oferta de sacrifícios é de suma importância. Esses temas
podem ser elaborados da seguinte maneira:
1. A Presença divina. Todos os atos de adoração eram realizados “perante o
Senhor” (p. ex., 1.5), o qual habitava com o seu povo na tenda da congregação.
Devido à presença de Deus no Santo dos Santos, ninguém tinha acesso a essa
parte do tabernáculo senão o sumo sacerdote, que podia entrar ali uma vez por
ano, no Dia da Expiação (16.17). apesar da presença de Deus normalmente ser
invisível, em ocasiões especiais (p. ex., na ordenação dos sacerdotes) ele se
tornava visível da forma de fogo (9.23-24). A maior dádiva de Deus para o seu
povo é que ele se dignou habitar no meio deles (26.12).
2. A santidade. O tema de Levítico é “vós sereis santos, porque eu sou santo”
(11.45). Os seres humanos foram criados para ser como Deus quanto ao caráter,
o que significa que devem imitar Deus na vida diária. Uma vez que Deus é
santo, também é fonte de vida perfeita (a vida nas suas dimensões físicas e
morais). Os animais oferecidos a ele em sacrifício deviam ser perfeitos (1.3), e
os sacerdotes, que representavam o povo diante de Deus não deviam ter defeitos
físicos (21.17-23). Aqueles que sofriam de algum tipo de fluxo ou doença de
pele desfiguradora não podiam participar do culto enquanto não fossem curados
(caps 12-15). A saúde física parece simbolizar, portanto, a perfeição da vida
divina. No entanto, a santidade também é uma questão interior de atitudes
expressas em um comportamento moral. O tema da santidade é enfatizado em
particular nos caps. 17 – 25, que tratam principalmente da conduta ética pessoal,
e resumido em 19.18, com a ordem “amarás o teu próximo como a ti mesmo”.
3. A expiação por meio do sacrifício. Uma vez que ninguém conseguia viver
perfeitamente de acordo com a lei de Deus, era necessário prover um meio de
expiação para que os lapsos morais e as falhas físicas pudessem ser perdoados. É
com esse objetivo que Levítico apresenta as descrições mais completas de
sistema sacrificial (caps. 1 – 7), do papel dos sacerdotes (caps. 8 – 10, 21 – 22) e
das grandes festas nacionais (caps. 16,23,25) no Antigo Testamento. Essas
cerimônias importantes tinham a finalidade de possibilitar a coexistência do
Deus santo com o seu povo pecaminoso por meio da expiação simbólica dos
pecados. Os sacrifícios não possuíam nenhum poder em si ou de si mesmos para

45
expiar os pecados; ao contrário, apontavam para os méritos da expiação futura a
ser realizada por Cristo (Jo 14.6; Hb 9.15; 10.11)

Cristo em Levítico.
Por meio de seus símbolos e ritos, Levítico apresenta uma descrição do caráter
de Deus que é pressuposta e aprofundada na mensagem do Novo Testamento sobre
Cristo. Esse livro ensina que Deus é a fonte da vida perfeita, que ele ama o seu povoi e
quer habitar no meio dele. Vemos nisso uma prefiguração da encarnação na qual “o
verbo se fez carne e habitou entre nós” (Jo 1.14). Levítico também mostra claramente a
pecaminosidade humana: tão logo os filhos de Arão haviam sido ordenados, eles
profanaram o seu ofício sacerdotal e morreram, numa demonstração terrível de
julgamento divino (cap 10). Aqueles que sofriam de doenças de pele e fluxos, bem
como aqueles que possuíam imperfeições eram incompatíveis com o Deus santo e
perfeito (caps. 12 – 15). Por meio desse simbolismo, Levítico ensina a universalidade
do pecado humano, uma doutrina afirmada também por Jesus (Mc 7.21-23) e Paulo (Rm
3.23). Preso entre a santidade divina e a pecaminosidade humana, a maior necessidade
do ser humano é receber expiação. É nesse ponto que o livro se mostra mais instrutivo
para o cristão, pois seus conceitos se cumprem na obra expiatória de Cristo. Ele é o
Cordeiro sacrificial perfeito que tira o pecado do mundo (1.10; 4.32; Jo 1.29). Sua
morte é o resgate por muitos (Mc 10.45) e o seu sangue purifica de todo o pecado (4;
Hb 9.13-14; 1Jo 1.7). Acima de tudo, Jesus é o sumo sacerdote perfeito que entra, não
no tabernáculo terreno uma vez por ano no dia da expiação (Lv 16), mas no templo
celestial para sempre. Cristo não ofereceu um mero bode pelos pecados de seu povo,
mas sim, a sua própria vida (Hb 9 – 10). Quando o véu do templo se rasgou na
crucificação de Jesus, ficou claro que sua morte abriu o caminho para Deus de modo
que todos que cressem tivessem um acesso mais pleno (Mt 27.51; Hb 10.20). Além do
mais, enquanto Levítico se concentra na importância de manter Israel separado dos
povos vizinhos, o Novo Testamento abre o reino para todas as nações e, desse modo,
revoga a observância das leis alimentares (Mc 7; At 10) sem, no entanto, abrir mão dos
princípios morais simbolizados nas mesmas (Jo 17.16; 2Co 6.14 – 7.1). o Deus santo de
Levítico é mostrado nos Evangelhos como sendo Cristo, que oferece vida, saúde e
santidade a todos os que estão dispostos a segui-lo.

46
Números.
Visão Geral.
Autor: Moisés.
Propósito: Conclamar a segunda geração do êxodo a servir a Deus como seu exército
santo na conquista da Terra Prometida, evitando os erros do passado e permanecendo
fiéis aos preceitos de Deus.
Data: c. 1406 a.C.
Verdades fundamentais:
 Deus preparou o seu povo plenamente para servi-lo e ser bem-sucedido na
conquista da Terra Prometida. Os membros da primeira geração fracassaram
porque foram ingratos para com ao graça que Deus havia lhes demonstrado e
temeram o poder dos cananeus.
 Deus levantou outra geração para conquistar a Terra Prometida; mas, para que
fossem bem-sucedidos, eles também teriam de ser fiéis ao Senhor.

Autor.
Como o restante do Pentateuco, Números foi escrito por Moisés, embora seja possível
que alguns trechos tenham sido acrescentados posteriormente.

Data e ocasião.
Pode-se datar o livro como sendo do período posterior à peregrinação pelo
deserto e anterior à morte de Moisés, por volta de 1406 a.C. O livro começa com os
preparativos para a entrada em Canaã (veja 22.1; 26.3,63; 31.12; 33.48,50; 34.15; 35.1;
36.13). Números foi escrito para a geração de israelitas nascida no deserto enquanto eles
estavam nas campinas de Moabe, do lado oposto de Jericó. Moisés incentivou a nova
geração a perseverar na fé e na obediência, o que seus pais não haviam feito. No
momento em que os israelitas se preparavam para conquistar Canaã, esse livro os
chamou a avançar como o exército santo do Senhor.

47
Propósito e características.
Na Bíblia hebraica, o título do livro é derivado da quinta palavra hebraica do
primeiro versículo, que pode ser traduzida como “no deserto”, uma descrição apropriada
do conteúdo do livro. Quando o Antigo Testamento foi traduzido para o grego (a
Septuaginta), seus livros receberam títulos gregos. Nesse caso, foi adotada uma palavra
grega que descreve apenas as listas dos homens de guerra: arithmoi ou “números”.
Pelo menos três temas são fundamentais na mensagem de Números. Em
Primeiro lugar, o livro descreve vividamente a misericórdia e a fidelidade de Deis para
com o seu povo. Ele mostra Deus dirigindo o seu povo enquanto este se preparava para
a jornada pelo deserto, consolando-o nas suas dificuldades, tratando de seus medos e
castigando-o apenas depois de se mostrar extremamente paciente. Os erros dos israelitas
são contrastados com a perfeição de Deus sempre fiel à sua aliança.
O segundo tema mais importante em Números é o poder soberano de Deus de
realizar os seus propósitos. O livro mostra o fracasso da primeira geração e o
julgamento severo de Deus sobre ela. No entanto, também oferece esperança para a
segunda geração do êxodo: Deus continuava conduzindo a história rumo ao seu objetivo
de levar Israel à Terra Prometida. Os propósitos de Deus não falharão, mesmo quando o
seu povo fracassa.
O terceiro tema fundamental é a responsabilidade do povo de Deus de ser fiel ao
chamado que ele lhe fez. O livro termina de modo repentino, mostrando a segunda
geração se preparando para entrar em Canaã e não registra nenhuma batalha travada do
outro lado do Jordão. Ele foi escrito para chamar a segunda geração a avançar na
conquista da terra.
Uma das questões mais controversas na interpretação desse livro é o grande
número de soldados relacionados nas listas (veja caps. 1,26). Se os números forem
tomados literalmente, indicam que havia mais de dois milhões de Israelitas. Uma
comparação entre essa população numerosa e o tamanho das cidades cananeias da época
traz certas dificuldades arqueológicas. Além disso, outros números (como os
primogênitos em 3.43) parecem discrepantes ao serem comparados com esse total
elevado.
Ao longo da história da interpretação Bíblica, os que creem na veracidade das
Escrituras assumiram pelo menos cinco posições principais em relação a esse problema:
1. Os números são considerados literalmente, apesar das dificuldades aparentes.

48
2. Os números encontrados atualmente na Bíblia hebraica são explicados como o
resultado de corruptelas do texto ocorridas durante a história da sua transmissão.
3. O termo hebraico traduzido como “mil” pode ser um termo técnico que se refere
a unidades consideravelmente menores que “mil”.
4. O termo hebraico traduzido como “mil” pode ser alterado para “chefes”.
5. Os números devem ser entendidos como hipérboles, exageros intencionais do
autor, e devem ser vistos pelos leitores com um modo de ressaltar a graça
extraordinária de Deus para com Israel.

Cristo em Números.
Números apresenta um retrato histórico que aponta para Cristo de cinco modos
principais. Em primeiro lugar, em termos gerais, o livro descreve Israel se preparando,
fracassando e se preparando novamente para a conquista de Canaã. Os leitores cristãos
são lembrados de que Cristo nos introduzirá em novos céus e a nova terra. Em segundo
lugar, o livro volta o seu foco repetidamente para a fidelidade do povo de Deus,
lembrando aos cristãos não apenas da salvação que se dá por meio da obediência
perfeita de Cristo (2Co 5.19), mas também do seu chamado para que seus seguidores
busquem a santidade (Hb 12.14). Em terceiro lugar, Cristo também é revelado em
alguns tipos específicos em Números. A obra de Cristo, por exemplo, é prefigurada pela
tipologia da novilha vermelha (cap. 19; Hb 9.13), pela água que jorrou da rocha (20.11;
1Co 10.4) e pela serpente erguida, que da morte trouxe vida (21.4-9; Jo 3.14-15). Em
quarto lugar, a profecia específica sobre as conquistas de Davi, que derrotaria os
inimigos de Israel (24.15-19), prefigura Cristo que, como o grande filho de Davi, um
dia será reconhecido como o maior Rei de todos. Por fim, a centralidade do tabernáculo
também prefigura Cristo. Em sua primeira vinda, Jesus veio habitar (lit. “tabernacular”)
no meio da humanidade (Jo 1.14) e, por meio de sua morte e ressurreição, abriu
caminho para que todo aquele que crê entre na presença de Deus (Mc 15.38; Hb 6.19;
10.20). O apóstolo Paulo ensinou que a igreja é o templo de Deus e que o mesmo pode
ser dito de cada cristão (1Co 3.16; 6.19-20; Ef 2.19-22). Na segunda vinda, a habitação
de Deus com a humanidade será plena e os cristãos não precisarão mais de um templo
para Deus, pois o cordeiro será o templo (Ap 21.3,22).

49
Deuteronômio.
Visão Geral.
Autor: Moisés.
Propósito: Estimular uma renovação da aliança mediada por Moisés, quando Israel
estava prestes a entrar na Terra Prometida sob a liderança de Josué.
Data: c. 1406 a.C
Verdades fundamentais.
 Os israelitas que se encontravam nas campinas de Moabe deveriam aprender, a
partir das experiências da geração anterior, a importância da fidelidade à aliança.
 As leis de Moisés foram estabelecidas com a finalidade de beneficiar o povo de
Deus em sua entrada na Terra Prometida sob a liderança de Josué.
 A fidelidade à aliança seria recompensada com bênçãos, enquanto a
desobediência seria castigada com maldições.
 Os israelitas deveriam renovar o compromisso com a aliança enquanto
esperavam nas campinas de Moabe e depois de entrar na Terra Prometida.

Autor
Como o restante do Pentateuco, a maior parte de Deuteronômio foi escrita por
Moisés. É evidente que algumas partes do livro (p. ex., o relato da morte de Moisés no
cap. 34) foram acrescentadas mais tarde e outras foram editadas em ocasiões
posteriores. Não obstante, o livro deve sei lido como um texto do tempo de Moisés.

Data e ocasião.
É provável que Deuteronômio tenha sido escrito, em sua maior parte, nas
campinas de Moabe, por volta de 1406 a.C., enquanto os israelitas se preparavam para
entrar na Terra Prometida. No entanto, é bem possível que só tenha sido completado no
tempo de Josué, quando foram acrescentados elementos como o relato da morte de
Moisés (cap. 34).

50
Público original.
Moisés escreveu para a segunda geração do êxodo. A primeira geração havia
morrido toda no deserto sob castigo divino (Nm 21. 10-13). Mas Deus havia poupado
esses filhos para preservar o seu povo santo e cumprir as promessas feitas aos seus
antepassados. Uma vez que Moisés não teve permissão de liderar o povo em sua entrada
na Terra Prometida (1.37-38), ele reiterou a lei de Deus a fim de dirigi-los numa
renovação da aliança sob a liderança de Josué.

Propósito e características.
Uma vez que a primeira geração do êxodo já não mais existia, Moisés precisou
exortar a nova geração a evitar os pecados de seus pais e se sujeitar à lei a fim de
receber bênçãos no futuro. Deuteronômio é constituído, em sua maior parte, de três
grandes discursos e um compêndio legal fornecido por Moisés no final de sua vida. O
livro resume os discursos dirigidos à nação nos quais Moisés conclama o povo a
renovar a aliança com Deus não apenas antes, mas também depois de entrar na terra.
Tem sido observado que o conteúdo de Deuteronômio apresenta semelhanças com os
elementos centrais dos tratados do antigo Oriente Médio. Os tratados entre grandes reis
(suseranos) e seus vassalos continham vários elementos típicos e o livro segue esse
padrão amplamente atestado: o preâmbulo (1.1-4), o prólogo histórico (1.5-4.43), as
condições (4.44 – 26.19), a ratificação (27.1 – 30.20) e a sucessão na liderança (31.1 –
34.12). Alguns intérpretes exageram essas ligações, pois essas seções de Deuteronômio
apresentam apenas uma vaga semelhança com os elementos dos tratados.
Deuteronômio pode ser entendido de modo mais adequado como uma série de
discursos que foram reunidos em sua forma atual. O discurso de abertura (1.5 – 4.43)
relata as experiências de Israel sob a liderança de Moisés. Deuteronômio não fala do
confronto entre Moisés e Faraó, nem dos milagres das dez pragas que obrigaram Faraó a
deixar o povo ir. Ainda assim, Moisés se refere ao êxodo repetidamente e relata o
cuidado providencial e miraculosos de Deus com seu povo durante a jornada do Egito
até Horebe. Em seguida, descreve em detalhes a derrota espiritual e militar que eles
sofreram em Cades-Barneia, referindo-se a acontecimentos registrados em Números. A
exemplo de Números, Deuteronômio não diz quase nada sobre os acontecimentos
durante os quarenta anos de peregrinação. A jornada ao redor de Edom rumo à

51
Transjordânia é mencionada, e a derrota de Seom e Ogue é registrada com mais detalhes
do que em Números. Na sequência, há a divisão da terra na Transjordânia entre Rúbem,
Gade e a meio tribo de Manassés. A narrativa termina com uma referência à súplica
pessoal de Moisés para entrar em Canaã, pedido este que Deus não atendeu. Moisés
conclui o seu discurso com exortações para que o povo fosse leal ao Senhor.
A primeira parte do Segundo Discurso (4.44 – 11.32 é constituída de exortações
e começa com os Dez Mandamentos. Esses mandamentos foram dados diretamente pela
voz de Deus, enquanto o restante da lei foi mediado por Moisés. Os caps. 6 – 11
apresentam as grandes questões que norteiam um relacionamento pactual com Deus. O
cap. 6 registra o famoso Shemá “Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus, é o único Senhor”
(v.4) – com exortação para amar a Deus a Deus de todo o coração (v.5), seguida de uma
exortação para ensinar, lembrar e obedecer (vs. 6-25). Os capítulos seguintes
apresentam vários exemplos do cuidado e dos julgamentos de Deus desde a saída do
Egito – todos eles são alusões a episódios relatados em Êxodo e Números. O objetivo
desses exemplos era alertar os israelitas a confiar no Senhor, e não em sí mesmos. Esses
capítulos fazem uma transição para uma promessa de sucesso nas guerras futuras em
Canaã.
As leis da segunda parte do segundo discurso (12.1 – 26.19) incluem prescrições
a respeito da adoração, dos alimentos puros, dos escravos e das dívidas, das festas
anuais, dos Juízes, das cidades de refúgio e de várias outras questões referentes à
conduta. A maioria dessas leis tem paralelos em livros anteriores do Pentateuco.
O Terceiro Discurso (27.1 – 30.20) é uma exortação enérgica para que Israel
obedeça às leis do Senhor. Inclui as instruções para a cerimônia solene que seria
realizada no vale entre o monte Ebal e o monte Gerizim, perto de Siquém, depois que
Israel tivesse estabelecido uma posição segura em Canaã. Essa cerimônia, devidamente
conduzida por Josué (Js 8.30-35), traz à memória a cerimônia de aliança de Êx 20.1 –
24.8. Alguns intérpretes afirmam que o Terceiro Discurso é, na verdade, uma conclusão
do discurso anterior, o qual, segundo eles, é apresentado na forma de um tratado. De
qualquer modo, essas leis e exortações foram dadas por Moisés com forte ênfase sobre a
obrigação de Israel, diante de Deus, de ouvir e obedecer à lei do Senhor.
As seções finais do livro são igualmente importantes e vigorosas (31.1 – 34.2).
Elas abrangem: a investidura de Josué como sucessor de Moisés; o cântico de Moisés
celebrando a grandeza de Deus e o seu cuidado para com o seu povo da aliança (cap.

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32); a bênção de Moisés sobre as doze tribos, semelhante a de Jacó sobre seus doze
filhos (Gn 49); e o obituário que descreve a morte de Moisés (cap. 34).
O título do livro vem da Septuaginta, que o chamou Deuteronomion, “ a segunda
lei”. Um significado mais apropriado do seu título seria “a repetição da lei”.

Cristo em Deuteronômio.
Moisés, o fundador da teocracia de Israel, foi o mediador da antiga aliança e,
como tal, prefigurou Jesus Cristo, o Filho de Deus e o mediador da nova aliança (Jr
31.31-34). O conteúdo moral das alianças é o mesmo, mas os modos como são
administrados apresentam diferenças significativas. Sua semelhança principal fica
evidente na maneira como Paulo associou a mensagem do evangelho ao apelo de
Moises para que Israel renovasse a aliança. Em Deuteronômio, a graça precede a
obrigação humana de exercitar a fé, e a obediência humana é a prova da fé autêntica.
Essas mesmas verdades podem ser vistas nos ensinamentos do Novo Testamento.
Ainda assim, Deuteronômio representou um estágio da relação pactual de Deus
com seu povo que prefigurou as realidades mais exaltadas da aliança de Cristo. A antiga
aliança foi selada com o sangue de animais; a nova aliança eterna com o sangue eficaz
de Cristo (Jr 32.40; Hb 9.11-28). Moisés conclamou o povo para uma religião de
coração (6.6; 30.6), mas ela falhou por causa da fraqueza humana e se tornou obsoleta
(Rm 8.3; Hb 8.13). Jesus Cristo, por meio do Espírito Santo, transforma o coração
humano.
Cristo também é antevisto em Deuteronômio em vários de seus temas
específicos. Em Deuteronômio, o estabelecimento do um único santuário (cap.12)
antevê o conceito neotestamentário de Cristo como o único que pode salvar. Os detalhes
dos sistema sacrificial prefiguram o sacrifício de Jesus. A ênfase de Deuteronômio
sobre a vida da Terra Prometida antevê a esperança de novos céus e nova terra que
Cristo oferece a todos os que creem nele. Assim como Moisés chamou os israelitas à
fidelidade para que pudessem entrar na Terra Prometida e tomar posse dela, Cristo
também nos chama a fidelidade a ele para que possamos entrar no mundo vindouro e
desfrutar de suas bênçãos eternas.

53
Referenciãs Bibliogrãficãs.
Edward J. Young, Introdução ao Antigo Testamento (São Paulo, Ed. Vida Nova, 1964),
p. 47

D. Roos, Isagoge do Antigo Testamento: Pentateuco (São Paulo, Escola Superior de


Teologia da IELB, 1993), p. 4

Stanley A. Ellisen, Conheça Melhor o Antigo Testamento (São Paulo, Ed. Vida, 1996),
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O.T. Allis, The Five Books of Moses, p. 10

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Alan Millard, Descobertas dos Tempos Bíblicos (São Paulo, Ed. Vida, 1999), p. 80

G.L. Archer,Jr., Merece Confiança o Antigo Testamento?, pp. 499-507

Edward J. Young, Introdução ao Antigo Testamento, p. 52

O.T. Allis, The Five Books of Moses (New Jersey, Presbyterian and Reformed
Publishing Company, 1964), pp. 12-14

Robert D. Wilson, A Scientific Investigation of Old Testament, p.11

R.K. Harrison, Introdución ao Antiguo Testamento (T.E.L.L., 1988), vol. 2, p.4

G.L. Archer, Merece Confiança o Antigo Testamento? (São Paulo, Ed. Vida Nova,
1991), p.508

Bíblia de Estudo de Genebra. 2ª edição ampliada.

54