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Conseguiremos sair da jaula de ferro?

O Olhar de Marx e Weber Acerca do uso da Técnica na Sociedade Moderna

Roberta de Sousa Mélo15

A sociologia clássica nos apresenta elementos instigantes que certamente poderão


contribuir para uma investigação sociológica da técnica.
A interpretação do desenvolvimento do capitalismo, feita por Marx de um lado,
e, de outro, por Weber, traz elementos que nos apontam para a visão desses autores
acerca do uso da técnica, visão esta que constitui o objetivo da presente investigação.
Ambos despertam interesse na interpretação da crise de valores advinda da
estrutura capitalista de produção. A obra de Marx apresenta-nos uma reflexão sobre o
uso da técnica em que esta parece mais “materializada” na descrição que ele faz da
estrutura maquinária e do espaço da fábrica. A preocupação marxista é também com a
relação entre o homem e a máquina. Numa análise profunda, por diversas vezes Marx se
refere aos efeitos físicos degradantes que o uso das máquinas, enquanto posse da classe
burguesa, trazia aos indivíduos. Refere-se a um processo de tortura que “exaure os
nervos ao extremo”, limitando o trabalhador a um fatigante trabalho mecânico.
Entretanto, embora pareça paradoxo, o uso dessa própria técnica, como veremos, é tido
por Marx como a solução para acabar com as desigualdades existentes no modo
produtivo comandado pela burguesia.
Em Weber, o uso da técnica exprime-se principalmente no que ele chama de
“desencantamento do mundo”, um processo de intelectualização entrelaçado ao
desenvolvimento do capitalismo racional, que teve como alguns de seus alicerces o
comportamento ascético e sistematizado dos protestantes calvinistas. A partir de então,
o mundo passou a ser dominado por uma técnica burocrática que aparece em seus

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Doutoranda em Sociologia da Universidade Federal de Pernambuco. O presente trabalho foi produzido
ao final da disciplina “Teoria Sociológica”, durante o curso de mestrado da autora na mesma instituição.
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escritos num tom apocalíptico, uma vez que tal expressão da racionalidade destrói mais
e mais a magia da vida e a criatividade humana.
Ao que parece, ambos os autores pareciam incomodados com a posse dos meios
de produção (a técnica produtiva), por parte de uns poucos indivíduos, que terminavam
por dominar os demais, gerando assim uma crise de valores. Se, no entanto, a luta de
Marx é pela inversão da posse, ou seja, o desejo de que os meios de produção
passassem das mãos da burguesia para as mãos do proletariado, Weber continua a
acreditar que, sob o domínio de quem quer que seja, a tecnologia sempre será um
instrumento que ajudará seu possuidor a manter o domínio sobre os demais, tolhendo-
lhes a liberdade.
O USO DA TÉCNICA NA CONCEPÇÃO MARXISTA
A concepção marxista estabelece uma relação fundamental entre a organização
social e econômica dos homens e o modo como eles se relacionam com o meio. Sua
atuação sobre este, no intuito de criar bens em função de suas necessidades, configura-
se num processo histórico. Ou seja, as técnicas produtivas são, de acordo com Marx,
determinadas por estruturas econômicas, sociais e políticas de cada época (Marx, 1974).
Ao tratar do modo de produção capitalista, Marx constrói justamente uma crítica
às configurações sociais por ele geradas. O autor não desmerece a capacidade produtiva
advinda do desenvolvimento da indústria moderna que caracteriza aquele sistema; ao
contrário, atribui-lhe um caráter revolucionário, principalmente ao considerar que tal
técnica produtiva veio atender às necessidades dos indivíduos numa época em que elas
cresciam cada vez mais diante das transformações que estavam ocorrendo: o antigo
modo de produção feudal, então em decomposição, mostrava-se incompatível com as
novas configurações que se estabeleciam diante de fenômenos como a descoberta da
América e a circunavegação da África, por exemplo. Tais acontecimentos abriam um
novo campo às ações da burguesia nascente, surgida das ruínas do feudalismo (Marx,
1980). No decorrer desses processos, a indústria moderna se impõe cada vez mais
enquanto potência. Assim, diz Marx:
“A burguesia desempenhou na história um papel
revolucionário. (...) Em seu domínio de classe de apenas
cem anos, a burguesia criou forças produtivas mais
poderosas e colossais do que todas as gerações passadas
em conjunto. Subjugação das forças da natureza,
maquinaria, aplicação da química na indústria e na
agricultura, navegação a vapor, ferrovias, telégrafo elétrico,
arroteamento de continentes inteiros, navegabilidade dos
rios, populações inteiras brotadas do solo como que por
encanto – qual século anterior poderia suspeitar que
semelhantes forças produtivas estivessem adormecidas no
seio do trabalho social?” (Marx e Engels, 1990: 71).

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Portanto, Marx chega mesmo a enaltecer a forma como a burguesia demonstra a
capacidade da atividade humana de realizar coisas extraordinárias. No entanto, o que o
incomoda é a estrutura de relações sociais que alicerça a burguesia e sua técnica
produtiva, destituindo de sentido vários aspectos da vida humana:
“Onde quer que tenha chegado ao poder, a burguesia (...)
não deixou subsistir entre homem e homem outro vínculo
que não o interesse nu e cru, o insensível ‘pagamento em
dinheiro’. (...)Fez da dignidade pessoal um simples valor de
troca e no lugar das inúmeras liberdades já conhecidas e
duramente conquistadas colocou unicamente a liberdade de
comércio sem escrúpulos” (Marx e Engels, 1990: 68).

A burguesia vem a desarranjar laços sociais baseados na tradição. Enquanto as


épocas anteriores se apoiavam numa estrutura de classes determinadas e fixas, a época
burguesa vem exigir justamente o abalo constante de todas as condições sociais. O
contínuo revolucionamento é a sua condição. A burguesia exige pressa, exige que tudo
se modifique para a sua atuação e triunfo. As relações cristalizadas e seus valores
passam a ser dissolvidos. O novo envelhece antes mesmo de se consolidar. “Tudo que é
sólido e estável se torna volátil”, o sagrado se torna profano, enfim, “os homens são
obrigados a encarar com sobriedade e sem ilusões sua posição na vida, suas relações
recíprocas” (Marx e Engels, 1990: 69).
Com o estabelecimento da grande indústria e do mercado mundial, a burguesia
conseguiu também o domínio político exclusivo. Para Marx, o poder político moderno
se constitui num “comitê” para administrar os negócios burgueses. A supra-estrutura
(inclusive o direito) faz parte desse favorecimento. Em suma, o arcabouço da burguesia
se encontra no Estado. Através dele, ela busca manter seu poder.
À medida que se desenvolve a burguesia, desenvolve-se também a classe dos
operários modernos:
“(...) A classe dos operários modernos, os quais vivem
apenas na medida em que encontram trabalho, e só
encontram trabalho na medida em que o seu trabalho
aumenta o capital. Tais operários, obrigados a se vender
peça por peça, são uma mercadoria como qualquer outro
artigo do comércio e estão, portanto, expostos a todas as
vicissitudes e concorrências, a todas as flutuações do
mercado”. (Marx, e Engels, 1990: 72).

O modo de produção na sociedade industrial moderna passa a ser caracterizado


pelo uso de potentes máquinas. Esse poder da maquinaria passa a materializar a
dominação burguesa em tal estrutura de classes. E, mais ainda, essa dominação não é
apenas econômica: trata-se de uma dominação ideológica também:

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“O que demonstra a história das idéias senão que a produção
intelectual se transforma com a produção material? As idéias
dominantes de uma época sempre foram apenas as idéias da
classe dominante” (Marx e Engels, 1990: 85).

O próprio “Manifesto do Partido Comunista” contém passagens onde Marx e


Engels tentam reverter os efeitos da disseminação dessa ideologia burguesa na
sociedade, tentando incentivar os leitores a uma análise crítica de tal realidade, e, ao
mesmo tempo, se defendendo das acusações de que estariam desejando o fim de alguns
elementos que, de acordo com os valores da época, por si só caracterizariam a dignidade
do ser humano, tal como a religião, a família, o direito à propriedade, etc. Eles
respondem sabiamente a tais acusações:
“(...) Não discutais conosco aplicando à abolição da
propriedade burguesa o padrão de vossas concepções
burguesas de liberdade, cultura, direito, etc. Vossas próprias
idéias são um produto das relações burguesas de produção e
de propriedade, assim como vosso direito é apenas a vontade
de vossa classe erigida em lei, vontade cujo conteúdo é
determinado pelas condições materiais de existência de vossa
classe” (Marx e Engels, 1990: 83).

A crescente divisão de trabalho da sociedade moderna foi vista por Marx como
um processo gerador de relações de exploração e alienação. Tal divisão expressaria,
segundo ele, modos de desigualdades sociais, sendo reflexo do surgimento de um
excedente de produção, bem como da apropriação dos meios de produção por alguns
indivíduos, os quais passaram, assim, a estabelecer algum tipo de direito sobre o
produto, e sobre os trabalhadores. (Em outras palavras, constituiu-se a exploração de
uma classe de produtores não possuidores por parte de uma classe de proprietários). O
trabalho é dividido cada vez mais entre os operários. O operário, que antes fazia um
objeto inteiro, passa então a fazer parte desse objeto, o que, segundo Marx, reduz a
atividade de cada um desses indivíduos a um movimento mecânico muito simples,
constantemente repetido, enfim, alienante. Ocorre assim um processo de subordinação
técnica do trabalhador ao ritmo uniforme da aparelhagem burguesa.
Além disso, a alta capacidade produtiva da maquinaria, posse da burguesia,
permitia que os produtos pudessem ser fabricados mais rapidamente, desvalorizando
assim o papel do operário. Seu trabalho tornava-se “volátil”. As máquinas passaram a
ser suas mais fortes concorrentes. Assim, as condições de vida dos operários tornavam-
se cada vez mais precárias, o que levou Marx a considerar a Inglaterra, a que ele se
refere como o “país das máquinas”, o lugar “onde mais vergonhosamente se dilapida a
força humana de trabalho em tarefas miseravelmente pagas” (Marx, 1980: 449).
O operário, ao limitar-se ao desenvolvimento de seu trabalho mecanizado, é
impedido de enxergar outras dimensões da existência humana e de desenvolver seu

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intelecto. Quanto a isso, Marx lamenta um distanciamento entre a vida intelectual e as
forças produtivas materiais. Ou seja, o homem de saber e o trabalhador produtivo se
separam completamente. Em contraposição, a burguesia fazia da ciência “uma força
produtiva independente de trabalho, recrutando-a para servir ao capital” (Marx, 1980:
414).
Marx desperta seu interesse, também, quanto aos efeitos negativos provocados
pelo emprego da tecnologia de produção na agricultura. Por um lado, ele analisa que o
uso da maquinaria no espaço agrícola não produziu os prejuízos físicos sofridos pelo
trabalhador na fábrica. Mas, em compensação, atuou mais agressivamente na
agricultura, no sentido de tornar supérfluos os trabalhadores:
“A indústria moderna atua na agricultura mais
revolucionariamente que em qualquer outro setor, ao
destruir o baluarte da velha sociedade, o camponês;
substituindo-o pelo trabalhador assalariado. (...) os métodos
rotineiros e irracionais da agricultura são substituídos pela
aplicação consciente, tecnológica, da ciência” (Marx, 1980:
577).

No entanto, como veremos mais adiante, Marx se mostra esperançoso quanto a


possibilidade de se usar o alto grau produtivo das máquinas para uma revolução na
agricultura, onde se produza muito mais, e tal produção seja igualmente distribuída.
Assim, ele cria boas expectativas em torno da união da agricultura e da indústria.
O que podemos perceber é que a grande crítica de Marx não é quanto à técnica
em si, mas à intenção de quem estava fazendo uso dela. Tais forças produtivas não eram
maléficas. Os danos causados à condição humana através delas devia-se à sua
manipulação por parte de uma classe dominante cujos interesses próprios estavam
acima da coletividade. O problema é que a técnica era apropriada por uma classe que
estava única e exclusivamente preocupada em acumular lucro. Seria necessário,
portanto, a tomada desse poder.
Marx e Engels propõem, então, a revolução da classe proletária, através da qual
o proletariado se constituiria na classe dominante. Mas essa classe só teria agência
social a partir de uma conscientização política. Ou seja, não bastaria o operariado para
se ter a revolução. Seria fundamental um operariado consciente. Os proletários
arrancariam, aos poucos, todo o capital à burguesia, e os instrumentos de produção
seriam centralizados na mão do Estado, que depois seria abolido. Assim, ocorreria a
instauração de uma nova ordem social, onde aquelas mesmas técnicas de produção
continuariam a sendo desenvolvidas, sendo esse desenvolvimento, no entanto, orientado
por outras intenções: a produção, ao ser distribuída igualmente entre todos, deveria
satisfazer as necessidades dos indivíduos, de modo que cada um deles tivesse a

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possibilidade de desenvolver e exercitar plenamente todas as suas capacidades. Nas
palavras de Quintaneiro (1999: 83):
“Para Marx, a evolução da sociedade se daria, neste
processo que combina o esgotamento das possibilidades de
expansão das forças produtivas de uma dada formação
social com a dissolução das estruturas econômicas, sociais e
políticas ligadas a ela, bem como a criação de uma nova
estrutura com base em elementos já presentes na formação
recém-extinta”.

Com isso, os antagonismos sociais originados no processo produtivo da indústria


moderna deixariam de fazer sentido, uma vez que todos ganhariam por igual. Com o fim
da propriedade privada, tudo funcionaria mais harmoniosamente. Na mesma lógica, não
teria mais sentido se falar em uma divisão social do trabalho.
O intuito de Marx era demonstrar a possibilidade de se superar o poder dos bens
materiais sobre a vida humana, uma vez que, a partir de então, o indivíduo se
preocuparia com outras atividades, e não mais se limitaria a produzir cegamente o que
lhe foi estabelecido. Através de um trabalho dito intelectual, ele passaria a uma
condição de liberdade para sua auto-realização.
A técnica empreendida pela burguesia nos modos de produção, paradoxalmente,
proporcionaria, de acordo com Marx, uma sociedade de homens livres. Ou seja, a
burguesia trazia consigo elementos de sua própria destruição, tendo criado um terreno
propício para uma nova ordem social, mais justa:
“O reino da liberdade só começa quando se deixa de
trabalhar por necessidade e condições impostas
desde o exterior; por natureza, então, encontra-se
depois da esfera da produção material propriamente
dita” (Marx, 1980: 802).

O USO DA TÉCNICA NA CONCEPÇÃO WEBERIANA

A contribuição weberiana ao estudo da técnica se dá principalmente em sua


análise do processo de racionalização burocrática da sociedade capitalista moderna.
A idéia de Weber, em linhas gerais, é de que a história humana, de alguma forma,
por fatores que não se pode explicar, tem uma confluência no Ocidente que leva ao
desenvolvimento de uma racionalidade que perpassa por todas as esferas da vida. Das
manifestações políticas as manifestações artísticas, todas, no Ocidente, são
caracterizadas por esse processo de racionalização. Não foi diferente com a economia
ocidental.

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Ao concentrar-se nas particularidades das sociedades ocidentais que levaram ao
desenvolvimento de uma situação propícia ao desenvolvimento do capitalismo racional,
Weber chega à seguinte conclusão:
“Decisivamente, o capitalismo surgiu por meio da empresa
permanente e racional, da contabilidade racional, da
Técnica racional e do Direito racional. A tudo isso se deve
adicionar ainda a ideologia racional, a racionalização da
vida, a ética racional na economia” (Weber, 1980: 169).

Portanto, Weber descarta que tal processo tenha suas raízes num determinismo
econômico, rejeitando, assim, as teses materialistas que ele considerava deterministas,
embora não negue a importância de fatores econômicos. Mas a isso ele acrescenta, “em
parte, o jogo de idéias e a meditação dos ideólogos alheios ao mundo, em parte,
interesses fantásticos ou dirigidos ao além, em parte, problemas extra-econômicos”
(Weber, 1991: 39). É assim que, em sua grande obra “A Ética Protestante e o Espírito
do Capitalismo”, ele aborda, como um dos impulsos iniciais para a formação do sistema
capitalista, todo um conjunto de valores e crenças que estimularam os protestantes a
agirem em termos de uma dedicação religiosa, a qual passa a ser exteriorizada na esfera
do trabalho diante de uma ética própria que vai gerir seu comportamento. Essa não
separação entre vida religiosa e vida cotidiana termina por favorecer o surgimento de
uma vida disciplinada, organizada, rígida, enfim, racionalizada, propícia à lógica
burguesa.
No entanto, passado esse impulso dos valores, o capitalismo racional dissocia-se
de um espírito religioso que o fundamentou:
“Passado o agudo entusiasmo inicial puramente religioso,
quando então a intensidade da busca pelo Reino de Deus
começava a se transformar gradualmente em sóbria virtude
econômica (...), as raízes religiosas esvaem-se lentamente
para dar lugar à mundanidade econômica” (Weber, 2003:
137).

A partir de então, a lógica capitalista foi se alastrando e envolvendo cada vez


mais a vida das pessoas:
“O puritano quis trabalhar no âmbito da vocação, e fomos
todos forçados a segui-lo. Pois quando o ascetismo foi
levado para fora das celas monásticas, se fez introduzir na
vida cotidiana e começou a dominar a moralidade laica, fê-
lo contribuindo poderosamente para a formação da moderna
ordem econômica. Essa ordem está até hoje ligada às
condições técnica e econômica da produção pelas
máquinas, que determina com força irresistível a vida de
todos os indivíduos nascidos sob este regime, e não apenas
os envolvidos diretamente na aquisição econômica”
(Weber, 2003: 134-35).

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Weber conclui que em nenhum outro lugar se experimentou, tal como no
Ocidente, a absoluta e completa dependência em relação a sua existência, de suas
condições econômicas, políticas e técnicas, em relação a uma organização de
funcionários especialmente treinados: “As funções mais importantes da vida diária da
sociedade são desempenhadas por funcionários públicos treinados técnica, comercial e
acima de tudo legalmente” (Weber, 2003: 25).
Percebemos então um Weber angustiado pelo cotidiano gerenciado por uma
“racionalização intelectualista”, pela qual as forças mágicas são banidas enquanto
explicação da vida dos homens. Práticas tradicionalistas são abandonadas. Tal
racionalização, a seu ver, não significava mais conhecimento, e sim menos magia,
menos encanto:
“Significa (...) que não há forças misteriosas incalculáveis,
mas que podemos, em princípio, dominar todas as coisas
pelo cálculo. Isto significa que o mundo foi desencantado.
Já não precisamos mais recorrer aos meios mágicos. (...) Os
meios técnicos e cálculos realizam o serviço. Isso, acima de
tudo, é o que significa intelectualização” (Weber, 1974:
165).

O processo de desencantamento ao qual a ciência estava atrelada como força


propulsora era constituído pelo controle de nossas vidas, onde tudo passava a ser
calculado, desde os objetos externos até as nossas atividades (Weber, 1974). Esse
controle técnico exacerbado, na ânsia de prever e controlar tudo, esgotava cada vez mais
a criatividade humana.
A burocracia das sociedades, segundo Weber, nada mais é do que o
fortalecimento dessa tendência à racionalização. O fortalecimento da burocratização só
se fez mediante um aparato institucional, através do qual a burocracia exercia um
domínio baseado em leis estabelecidas. Em suma, o poder se burocratiza na forma do
Estado Moderno. Por delegação ou tutela, homens se submetem a outros nesse processo.
Tal como Giddens (1997: 58) vem perceber, a intelectualização característica do
capitalismo moderno, de acordo com Weber, termina por impor um racionalismo da
conduta humana em um segundo sentido, especialmente como se manifestaria na
divisão do trabalho burocratizada. O trabalho passa então a ser cada vez mais
organizado e disciplinado racionalmente. A calculabilidade exigida afasta da esfera do
trabalho qualquer elemento de afetividade que pudesse colocar em risco os objetivos
planejados. A rotinização destitui de sentido a vida dos indivíduos.
Weber conclui que em nenhum outro lugar se experimentou, tal como no
Ocidente, a absoluta e completa dependência em relação a sua existência, de suas
condições econômicas, políticas e técnicas, em relação a uma organização de
funcionários especialmente treinados: “As funções mais importantes da vida diária da
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sociedade são desempenhadas por funcionários públicos treinados técnica, comercial e
acima de tudo legalmente” (Weber, 2003: 25).
É interessante notar um certo paradoxo que a visão de Weber apresenta quanto a
esse aspecto: a razão, a própria idéia de ‘intelectualização’, ao ser impregnada no dia a
dia, tornava os homens cada vez mais medíocres.
Essa rigidez nas normas e a estrutura da divisão dos trabalhadores como meros
técnicos atuantes em um processo monótono e limitado incomodava Weber a ponto dele
dizer que cada vez mais as pessoas tornavam-se prisioneiras da Gehäuse der Hörigkeit,
a “jaula de ferro”. A medida em que se dava a exacerbação da técnica, Weber tinha
menos esperanças quanto ao futuro. Seu pessimismo o fez desacreditar na idéia de
“homem livre” do discurso humanista. Ao contrário, para ele, uma nova forma de
servidão estava sendo delineada:
“O limitar-se ao trabalho especializado, com a renúncia à
faustiana universalidade do homem por ela subentendida, é
uma condição para qualquer trabalho válido no mundo
moderno; daí que a realização e a renúncia, hoje,
inevitavelmente se condicionam uma à outra” (Weber,
2003: 134).

O que fazer então diante da mutilação da liberdade de alguns indivíduos que são
submetidos a outros que detém o poder burocrático? A democracia não se apresentava a
Weber como solução, uma vez que sua extensão necessitaria fundamentalmente da
formulação de novos regulamentos burocráticos, a fim de assegurar sua impessoalidade
diante de todo e qualquer indivíduo. Portanto, a técnica continuaria a possibilitar o
domínio de uns sobre outros.
O estado socialista como alternativa também demonstrava dificuldades, uma vez
que ele seria incumbido de um número ainda maior de tarefas, ou seja, tenderia a uma
burocratização ainda maior. Então, só haveria uma escolha: Democracia dotada de
liderança com a ‘máquina’ ou democracia carente de liderança – isto é, dominação de
‘políticos profissionais’ sem vocação, sem as qualidades carismáticas inerentes que, por
si sós, fazem um líder. Esse seria um modo de se controlar, ao menos parcialmente, a
burocratização.
UM CONFRONTO DAS DUAS CONCEPÇÕES
Weber e Marx compartilham o mesmo interesse quanto à temática do Capitalismo
Ocidental, numa perspectiva histórica.
Em se tratando do capitalismo que caracterizou a sociedade moderna, já se
delineia uma diferença entre a concepção de Marx e Weber em se tratando dos
elementos que eles indicam como originários daquele modo de produção. Como já foi
visto, em Marx, o aspecto econômico é a base sobre a qual ele se estruturará. Weber,

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por sua vez, parte das idéias para explicar a realidade econômica, embora reconheça que
adiante a própria lógica racional capitalista se autonomiza.
Marx estabelece uma periodização – o capitalismo vem depois do feudalismo.
Mas para Weber o capitalismo sempre existiu. A novidade seria o capitalismo racional.
Ele não acreditava que necessariamente o capitalismo estivesse caminhando para algum
lugar. Já Marx sustenta a hipótese de que ele estava rumando para sua própria
destruição, dando lugar a uma estrutura social sem classes.
Tanto a perspectiva marxista quanto a weberiana estabelecem uma relação, a seu
modo, e em certa medida, entre os aspectos que vêem como negativos na moderna
sociedade industrial e o uso da técnica. Ambos os autores enxergam naquele arranjo
social uma divisão social do trabalho cujos efeitos são mutiladores da condição de
indivíduo, apontando para seu caráter inibidor das capacidades intelectuais.
Entretanto, sob o ponto de vista de Marx tais malefícios não são provocados pelo
forças produtivas em si. Ao contrário: para Marx, a tecnologia que caracterizava o modo
capitalista de produzir demonstrava a imensa capacidade que o homem tinha para
produzir riqueza. A forma como a técnica vinha sendo manipulada é que não agradava
Marx. Mas, em boas mãos (nas mãos do proletariado), ela seria capaz de satisfazer as
necessidades de todos, e não só as necessidades imediatas. Tal visão otimista acerca do
uso das tecnologias não era nem de longe vista por Weber. O que ele conseguia
enxergar era o desenfreado domínio da técnica burocrática, o qual trazia consigo um
desencantamento que se alastrava na vida dos indivíduos, e do qual se tornava mais e
mais difícil de escapar.
O modo como a tecnologia viria a libertar o ser humano se faria através de sua
posse por meio da revolução proletária. Para tanto, fazia-se fundamental a junção da
ação dos homens a um cunho científico que a orientasse. Todo o esforço do Manifesto
do Partido Comunista foi em elaborar um plano intelectual com vistas a oferecer ao
homem da ação uma visão crítica da realidade. Nas palavras de Marx:
“Os filósofos se limitaram a interpretar o mundo
diferentemente, cabe transformá-lo. (...) Toda vida social é
essencialmente prática” (Marx, 1974: 58).

Nesse sentido, a ciência teria um papel benéfico de orientar a ação dos indivíduos
em prol de sua liberdade. Não seria mais uma ciência submetida ao capital, dono das
técnicas de produção, e sim passaria a estar a serviço da humanidade. Weber vai rejeitar
totalmente essa aproximação entre o conhecimento científico e a ação humana. Sua
busca pela objetividade científica expressa bem essa posição:
“(...) É nossa opinião de que jamais pode ser tarefa de uma ciência empírica
proporcionar normas e ideais dos quais se possa derivar
‘receitas para a prática’. (...) Ela (a decisão) é própria do
homem da ação: ele escolhe, entre os valores em questão,

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aqueles que estão de acordo com sua cosmovisão pessoal.
(...) Uma ciência empírica não pode ensinar a ninguém o
que deve fazer; só lhe é dado – em certas circunstâncias – o
que quer fazer” (Weber, 1992: 111).

Weber toma como ingênua essa crença marxista de que a ciência seria o caminho
para a liberdade humana:
“Depois da devastadora crítica feita por Nietzsche aos
‘últimos homens’ que ‘inventaram a felicidade’, posso
deixar totalmente lado o otimismo ingênuo no qual a
ciência – isto é, a técnica de dominar a vida de quem
depende da ciência – foi celebrada como o caminho para a
felicidade. Quem acredita nisso? – à parte, algumas poucas
crianças grandes que ocupam cátedras universitárias ou
escrevem editoriais” (Weber, 1974: 169).

Aproveitando a idéia marxista de que o proletário deveria ser uma classe para si
(ou seja, com capacidade de migrar para uma consciência de classe e, a partir daí, para o
engajamento político), podemos nos deter agora sobre a análise dos dois autores quanto
ao conceito de “classe social”. Ambos os pensadores o relacionam a algum tipo de
posse, economicamente falando. Em primeiro lugar, Marx tende a uma polarização de
duas classes fundamentais: a burguesia e o proletariado. Sua concepção de classe está
basicamente fundamentada na forma como as pessoas se relacionam como os meios de
produção. A burguesia, por ser dona das técnicas produtivas, é a classe dominante. O
proletariado, por sua vez, vende sua força de trabalho nesse sistema produtivo.
Weber tem uma concepção pluralista de classe. Assim como em Marx, um
critério fundamental na concepção weberiana de classe social é a propriedade. Mas não
se define uma classe a partir da simples propriedade ou não: ele também leva em conta
o tipo de propriedade (terras, máquinas, homens...). É isso que vai definir a situação de
classe.
Um outro aspecto: enquanto a concepção marxista se volta para a consciência de
classe e uma possível agência social por parte dela (estabelecendo, em outras palavras,
uma correlação necessária entre “classe” e “consciência de classe”), para Weber o termo
“classe” sempre vai se referir a interesses de mercado, independente da consciência que
os indivíduos tenham de sua situação. Assim, em Weber, “classe não é comunidade”, ou
seja, não é base de significação para uma ação comum. Os membros de uma classe
participam tipicamente de outro tipo de ação: a ação societária, baseada em interesses
racionalmente motivados.
Se, por um lado, Marx empolga-se com a possível conquista da democracia
mediante a elevação do proletariado à classe dominante por meio da revolução, Weber
se mostra pessimista com uma configuração democrática: a seu ver, isso só iria manter o

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domínio burocrático na vida cotidiana das pessoas, o que ele vê como aprisionador dos
indivíduos.
CONCLUSÕES
A revolução do proletariado não aconteceu. Os modos de produção continuam
estruturados numa lógica de busca incessante pelo lucro. Seu projeto está longe de ser a
satisfação das necessidades de todos os indivíduos. Pelo contrário, pesquisadores e
teóricos da sociedade de consumo falam de uma sociedade hedonista ou narcisista, onde
o indivíduo consome não mais por pura necessidade, mas também em busca de seu
prazer e satisfação pessoal.
O modo e as possibilidades de uso que o homem faz do seu meio atinge
proporções que Marx sequer supunha. As tecnologias contemporâneas, destacando-se a
informática, as telecomunicações e as biotecnologias, demonstram particularidades
instigantes quanto à apropriação da natureza pelo homem. Fenômenos como a
clonagem, reprodução artificial, advento das novas tecnologias de comunicação etc.,
apontam para novas orientações da nossa relação com a técnica. Surgem novas
configurações em que já não é possível distinguir onde termina o humano e onde
começa a máquina. Para autores como Haraway (2000), todos somos ciborgues, todos
experimentamos em nosso corpo e em nossa subjetividade o rompimento de fronteiras
entre o natural e o artificial.
As transformações trazidas pelas novas tecnologias perpassam os mais diversos
setores de nossa existência.
A íntima relação entre as novas tecnologias e o mercado prova que não se realizou
o sonho marxista de que a ciência passasse do domínio do capital para servir ao projeto
de libertação da condição humana. Assim, a técnica continua dominando nosso
cotidiano.
Numa perspectiva mais próxima da weberiana, a burocracia e a racionalização
parecem manter sua força em nossos dias: cada vez mais ocorre uma “mecanização” à
nossa volta. Tudo parece depender agora do sistema de informatização cujo discurso é
de possibilitar mais segurança e um melhor planejamento e das nossas necessidades.
Assim, por exemplo, ao surgir algum tipo de imprevisto em que necessitamos de um
“dinherinho extra”, é quase certo de que perto de nós teremos um caixa eletrônico para
nos socorrer, ou simplesmente retirarmos o extrato da nossa conta bancária para nos
basear e fazermos um melhor planejamento de nossos cálculos. Nesse caso, a
impessoalidade que caracteriza o sistema faz com que nosso contato com a máquina
seja através da nossa senha. Nossa identidade diante da máquina de auto atendimento do
banco passa a ser construída por meio de um número que nos caracteriza e nos torna
diferentes dos demais diante dela.

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Na esfera do trabalho, os profissionais também especializam-se cada vez mais. Na
área médica, por exemplo, é cada vez maior o número de especialidades. Além disso,
cobra-se cada vez mais que o profissional recicle sempre seus conhecimentos na área,
atualizando-se a fim de ter seu espaço ao menos garantido no mercado.
Tornou-se quase que óbvio falar da necessidade do profissional atual em saber
lidar com a informatização que gere nosso cotidiano.
Por outro lado, utilizando outro exemplo do impacto burocrático em nossa vida,
ainda faz parte da nossa tradição a idéia de que a ocupação de cargos públicos, ou de
vagas em órgãos federais (universidades, por exemplo), deve ser mediada por meio da
impessoalidade nos concursos cuja exigência, ao menos teoricamente, seja a mesma
para todos. Mas, ao que parece, atualmente, longe disso soar como traço de uma certa
esfera democrática, as pessoas que concorrem entre si fazem parte de um sistema
desigual, que dá oportunidade a apenas uma minoria, cujas chances só tendem a crescer,
enquanto a minoria fica cada vez mais presa a essas limitações do sistema. O
conhecimento termina por ser um instrumento que, num sistema altamente competitivo,
coloca alguns indivíduos em vantagem sobre os demais, tal como percebeu Weber.

REFERÊNCIAS

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