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Negritude, masculinidade, homoerotismo e espacialidade em James Baldwin:

uma leitura brasileira1


Alex Ratts
A vida sabe o revés de uma tentativa
mas o incêndio da voz atenua a solidão
e o medo de um país incompreensivo.
Arde para resistir ao não e revelar-se
a alma que mais dentro do desespero
percebe o mundo e seu absurdo: só um blues
é justo e completo como um abraço.

Edimilson de Almeida Pereira – Nova Orleans

Após os primeiros estudos e orientações com foco na mobilidade espacial e social


de intelectuais e trabalhadores/as negros/as e em meio à pesquisa acerca dos
deslocamentos socioespaciais de mulheres negras, a exemplo da historiadora Beatriz
Nascimento (RATTS, 2007a) e da socióloga Lélia Gonzalez (RATTS & RIOS, 2010),
começo a voltar os olhos para as trajetórias de homens negros. Por acaso, mas não
muito, retomo o contato com parte da obra de James Baldwin (1926-1987), distribuída
entre ensaios e romances, acrescida de entrevistas.2
Publicado em português no Brasil à época da ditadura militar, é surpreendente
descobrir a quantidade de obras traduzidas, o que demonstra o interesse de um público
variado: pessoas “de esquerda”, negras e homossexuais 3. Na leitura tanto dos ensaios
políticos, escritos no calor do Movimento pelos Direitos Civis do qual ele é uma voz ativa,
como dos romances, é notória a abordagem da sexualidade masculina. Nestes últimos,
os personagens gays, negros e brancos, têm destaque inclusive como protagonistas.
Uma questão emerge da escrita de Baldwin: a espacialidade destes personagens gays,
situados em geral entre os anos 1950 e 1960, tempo de total restrição às afirmações da
identidade homossexual e à demonstração pública de afeto entre homens. Devo notar
que o autor quase nunca afirmou sua homossexualidade, mas discutiu a questão gay. No
entanto, entre aqueles/as que abordam sua trajetória, alguns/umas se referem a ele
como um “autor gay”, caminho que trilho aqui.
Nos ensaios e nos romances de Baldwin o lugar do indivíduo (negro) na nação traz
uma questão que é acompanhada de uma dimensão espacial explícita, que passa por
locais como quartos, bairros, ruas, cidades e países. Sua insatisfação com o racismo,

1
Este artigo, reescrito para este livro, foi inicialmente uma comunicação apresentada na III Reunião da
Associação Brasileira de Estudos Homoeróticos (Belo Horizonte, UFMG, 2006) e no IV Congresso Brasileiro de
Pesquisadores Negros (Salvador, UNEB, 2006). Publicado em: SILVA, Joseli Maria; ORNAT, Marcio José A&
CHIMIN, Alides Baptista (Org.) Espaço, Gênero e Masculinidades Plurais. Ponta Grossa, Todapalavra, 2001, p.
261 – 289.
2
Havia lido O Racismo ao vivo (BALWIN & MEAD, 1973) em disciplina ministrada pelo prof. Kabengele Munanga
na USP. Devo a Jarbas Ernandes de Oliveira e a Matheus Gato de Jesus a localização e o empréstimo de um
exemplar o livro Da próxima vez o fogo que deflagrou a nossa busca pelas obras do autor. Dedico este artigo
aos dois e a outros irmãos e camaradas: Rodrigo Reduzino, Joilson Santana, Welberg Bonifácio e Rinaldo
Teixeira.
3
À semelhança de ativistas e estudiosos contemporâneos, prefiro o termo gay a homossexual que, por sua vez,
deriva de um discurso médico do século XIX (COSTA, 2002). No entanto, o utilizo quando estou centrado no
período entre os anos 1950 e 1970, quando o uso do termo gay no Brasil era muito restrito. (TREVISAN, 2004,
GREEN, 2000).
2

especialmente com a segregação racial e espacial, leva-o a um exílio voluntário em Paris,


que reaparece particularmente nas trajetórias dos seus personagens. Por extensão, a
leitura de Baldwin faz pensar nos espaços restritos das pessoas gays, neste caso dos
homens negros, e nos seus lugares possíveis de vivência do afeto homoerótico, além dos
quartos e do “armário”, muitas vezes sufocantes.
A recepção de seus textos no Brasil ditatorial quando o movimento negro e outros
movimentos sociais se (re)organizavam me leva a refletir acerca de um dilema que
encontro no discurso de intelectuais ativistas negros/as do período: as questões da
subjetividade e da individualidade, da pessoa negra, mas também da nação e do
território nacional marcados pelo escravidão e pelo racismo. Com alguém que conhece
uma parte deste processo, relembro que pensávamos em nós como jovens, como
homens, mulheres, discutíamos nossa sexualidade, mas também o país, sua formação e
seu destino.
Antes de dialogar com a obra de Baldwin em suas traduções para o português e
com referência em alguns/umas comentadores/as, indico alguns pontos que permeiam
desse estudo: qual o lugar da representação da experiência homoerótica de pessoas
negras na ciência e na arte? No caso em foco: qual o lugar da representação textual e
imagética da experiência homoerótica de homens negros? Quais as imagens de homens
negros nos estudos de gênero e estudos gays e nas obras de homotextualidade?
Será o lugar da invisibilidade e do não-dito? Serão os “ardis da imagem” (PEREIRA
& GOMES, 2001) ou as “imagens de controle” (COLLINS, 1991) restritas no caso dos
homens negros aos quadros de violência, brutalidade, frieza e hipersexualidade (hooks,
2004)? E os homens negros gays? Em quais e quantas páginas, fotografias ou filmes há a
sua representação adequada?
A meu ver, é com as intelectuais negras feministas estadunidenses e brasileiras
que se constitui a possibilidade de abordar de maneira qualificada a intersecção entre
raça, gênero, sexualidade e afetividade (DAVIS, 1983; hooks, 1988; COLLINS, 1991,
GONZALEZ, 1983; NASCIMENTO, 1990). É também com algumas delas que se abrem
perspectivas para discutir heteronormatividade e homoerotismo entre pessoas negras.
Poucos autores negros colocam as relações homoeróticas no centro de seus textos de
maneira adequada. É aí que James Baldwin tem um lugar específico e especial.
Neste artigo tento responder em parte às indagações postas pensando a trajetória
socioespacial do autor e de suas personagens fazendo a interseccionalidade entre raça,
gênero, sexualidade e espaço por meio da categoria lugar que tem passado por uma
discussão complexa mas, que, de passagem, pode ser pensada como lócus de referência,
por vezes identitário, passível de apropriação pelo indivíduo e por um grupo social, além
da segregação forçada.
3

Cabem as últimas ressalvas: mesmo se tratando de uma leitura brasileira da obra


de Baldwin editada em português, faço uso de referências de estudos estadunidenses
acerca do autor em foco. Em geral não me refiro a problemas na tradução das suas
obras, ainda que tenha consultado as versões em inglês. Para a compreensão dos
argumentos utilizados, por vezes, longas citações dos textos em estudo se fazem
necessárias.

1.James Baldwin: leituras brasileiras

Escritor e ativista do movimento pelos direitos civis negros nos EUA, James Arthur
Baldwin, nascido em 2 de agosto de 1924, em New York, e falecido em 1 de dezembro de
1987 em St. Paul de Vence, na Riviera francesa, tem uma obra significativa (ensaísta,
romancista, teatrólogo e poeta) que foi em parte traduzida no Brasil por editoras das
cidades do Rio de Janeiro e São Paulo entre os anos de 1960 e 1980. Baldwin é
relativamente conhecido por militantes da esquerda e do movimento negro e
homossexual nascentes. No entanto, a leitura segmentada – autor negro / gay – em
conjunto com a não tradução e não reedição de suas obras depois deste período
prejudica uma compreensão da unicidade e multiplicidade de seus escritos em que as
questões de negritude, masculinidade e sexualidade aparecem como centrais nos ensaios
e nos romances, além do homoerotismo na obra ficcional. A vida no Harlem, as viagens
para o Sul, o exílio em Paris, o retorno aos EUA, são acompanhados das suas vivências
espirituais (a ruptura com a instituição igreja), políticas (o ativismo negro) e afetivas
(famílias, amigos/as, amores não nomeados), que, de certo modo. Reaparecem nas
experiências homo, hetero e bissexuais de seus personagens masculinos negros ou
brancos.
As traduções de James Baldwin no Brasil e em Portugal entre os anos 1960 e
1980, de textos escritos e publicados nos EUA entre 1950 e 1970, apontam para uma
recepção de temas e abordagens, ainda que não completamente inéditos, mas
certamente polêmicos para os/as leitores/as tendo em vista a ditadura militar vigente no
país. O autor é publicado por editoras das cidades do Rio de Janeiro e São Paulo. Há
também textos publicados pela Dom Quixote de Lisboa.
Dentre os escritos de cunho político os dois primeiros traduzidos o são por
editoras pequenas e hoje desconhecidas: Da próxima vez, o fogo (1967) pela Biblioteca
Universal Popular (coleção da Editora Civilização Brasileira) e a coletânea de entrevistas
para a TV O protesto Negro: James Baldwin, Malcom X, Martin Luther King (1969) pela
Laemmert, acrescida de um escrito de Leon Trotsky a respeito da “autodeterminação dos
negros americanos”. A Hemus, de São Paulo, edita os romances Um homem à minha
4

espera/Going to Meet The Man (1969) e O preço da glória/Tell Me How Long the Train’s
Been Gone (1969) 4.
Mais de 15 anos após sua publicação nos EUA, Giovanni (1972) vem a público no
Brasil, no mesmo período, por uma editora de renome, a Abril Cultural, e segue sendo o
livro mais reeditado de Baldwin em português 5. Posteriormente a editora Brasiliense
edita E pelas praças não terá nome (1973). Somente depois é editado mais um romance
Numa terra estranha (1984), escrito mais de vinte anos antes. Não houve edição
brasileira de seus trabalhos publicados nos EUA nos anos 1980 e dos póstumos.
Na recepção brasileira dos livros de Baldwin, difundidos a partir do eixo Rio – São
Paulo, posso inferir que as editoras o ressaltam como “escritor negro”, autor de “ensaios
políticos” e que alguns livros são considerados “romances de protesto” por tratarem de
temas como relações raciais e homossexuais, dentre outros:

James Baldwin, romancista, crítico e ensaísta, é um dos grandes


polemistas pelos direitos civis dos negros nos EUA. Neste livro, ele faz uma
análise contundente dos costumes & maneiras da sociedade “branca”
americana, assim como a exegese definitiva das iniqüidades a que os
negros são submetidos. Trata-se de um dos grandes ensaios humanistas
do nosso tempo, leitura indispensável para os que desejam conhecer a
fundo esse problema, que representa uma chaga na civilização dos EUA.6
James Baldwin, considerados um dos maiores escritores negros
americanos, notabilizou-se por seus vigorosos e polêmicos ensaios sobre a
questão racial nos Estados Unidos. Este romance marcou devidamente uma
etapa de sua evolução literária. (...) Sem nunca abandonar o tom subjetivo
e a extrema sensibilidade, Baldwin mostra também a dificuldade de se
encontrar um caminho próprio de inserção social. 7

São obras publicadas durante a ditadura militar brasileira (1964-1985), quase


todas nos anos mais duros do regime (1964-1974), quando os movimentos negro e
homossexual estão em formação, sem grandes correlações entre si. Parece-me que
Baldwin é bastante lido, mas de forma cindida: os ensaios Da próxima vez o fogo e Pelas
praças não terá nome por um público “de esquerda” e negro, e o romance Giovanni pelo
público homossexual também vinculado ao mesmo campo político.
Baldwin foi entrevistado nos Estados Unidos pelo jornalista brasileiro Paulo Francis
para o periódico O Pasquim, em 1972, o que indica seu interesse pelo público “de
esquerda”. Cabe ressaltar que Baldwin é pouco referido por intelectuais negros/as

4
As edições da Hemus apresentam problemas: não há índices dos capítulos, o conto Sonny’s Blues está sem
título na coletânea denominada em português de Um homem à minha espera (1968), expressão que, em
conjunto com as capas, permite uma leitura erótica e distorce uma obra que focaliza tensões raciais.
5
Giovanni foi encenado em 1987, em São Paulo, no antigo Teatro do Bexiga, pelos atores Caíque Ferreira e
Hugo Della Santa nos papéis de Giovanni e David. www.spescoladeteatro.org.br.
6
Texto da contracapa de Da próxima vez o fogo (1967), edição da Biblioteca Universal Popular.
7
Texto da contracapa de Giovanni (1987), edição da Rocco.
5

brasileiros/as, a exemplo de Abdias Nascimento que, em artigo de 1978, rememora ter


lido em português Giovanni, Numa terra estranha e Da próxima vez, o fogo (2002: p.
22). Por ocasião da morte de Baldwin, Nascimento aponta que o escritor “era uma das
personalidades que a comunidade negra brasileira esperava para as discussões sobre o
centenário da abolição da escravatura” (FOLHA DE SÃO PAULO, 1987). Com exceção de
Giovanni, não há edições recentes das suas obras no Brasil. Para ter acesso aos seus
livros é necessário ir a bibliotecas públicas ou adquiri-los em sebos. Nos sítios eletrônicos
em português há algumas referências bibliográficas, fotografias e vídeos de suas
entrevistas.
Negro, gay, escritor, ativista, Baldwin é portador de uma voz contundente, que
provoca sulcos e vincos na mente de leitores e leitoras, negros/as ou brancos/as, sendo
referência contemporânea para intelectuais e artistas negros dos EUA como pensadora
feminista bell hooks (2004, 2001), o estudioso das culturas negras Paul Gilroy (2001) e o
cineasta Spike Lee (filme A Hora do Show - Bamboozled). No Brasil, segue sendo um
ilustre desconhecido.

2. Escrita negra, masculina, gay e espacialmente situada

Auto-exilado em Paris, Baldwin publica em 1953, aos 27 anos, o romance Go tell


it on the Mountain, em grande parte autobiográfico, e, dois anos depois, a coletânea de
ensaios Notes of a Native Son que se inserem no contexto estadunidense do pós-guerra
e do início da mobilização pelos Direitos Civis da população negra. Com a publicação e
tradução do romance Giovanni, em 1956, aos 30 anos, e posteriormente dos ensaios Da
próxima vez o fogo (1967) e Pelas praças não terá nome (1973), respectivamente em
1963 e 1972, o autor se torna conhecido em seu país, em parte da Europa e em alguns
países das Américas.
Giovanni consiste em um drama situado em Paris, com personagens brancas, no
qual o jovem italiano que dá nome ao livro atrai afetiva e sexualmente, o estadunidense
David que, por sua vez, se divide entre ele e Hella, sua noiva e conterrânea. Os ensaios
Da próxima vez o fogo (1967) e Pelas praças não terá nome (1973) trazem sua crítica ao
racismo e à segregação nos EUA, contêm elementos de sua infância, adolescência e
juventude no Harlem, a participação no Movimento pelos Direitos Civis, as viagens
ativistas para o Sul dos Estados Unidos, e focalizam a desumanização de homens e
mulheres negros provocada pelos mecanismos racistas e também sexistas
Cada vez mais James Baldwin inscreve sua presença no mundo como escritor e
ativista através de sua identificação racial e dos temas de seus ensaios, da coletânea de
contos Um homem à minha espera (1969), de alguns romances como Marcas da Vida
(1979) e Numa Terra Estranha (1984). Torna-se um escritor negro que trata de
masculinidade, sexualidade e especialmente de relações raciais e sexuais (homo ou
6

heterossexuais) entre casais negros, brancos ou inter-raciais, em narrativas situadas em


New York, muitas vezes no Harlem, no Sul estadunidense e em Paris, França.
Nestas obras, distintas em gêneros literários e temáticas abordadas, Baldwin
comparece por inteiro e com sua escrita veemente, trazendo elementos comuns de suas
obras, sejam autobiográficos ou não, que, no entanto, passam a ter recepção
diferenciada. Como disse anteriormente, Giovanni é lido como um “romance gay” e os
ensaios são assinalados como de autoria de um “escritor negro”. Para leitores/as,
admiradores/as e comentadores/as, Baldwin é um homem negro estadunidense, artista e
ativista, e, ainda que praticamente não tenha feito seu outing, é visto com gay.
James Campbell em À margem esquerda (2000) trata de intelectuais e artistas
estrangeiros, alguns deles negros e/ou homossexuais estadunidenses que vivem em
Paris entre os anos 1940 e 1960. O autor diz que, por ocasião da sua primeira chegada à
cidade, em novembro de 1948, James Baldwin é um homem jovem tenso, franzino, com
gestos de mão extravagantes e uma expressão facial marcante que “em apenas um
minuto de conversa, podia ir do trágico ao cômico, abrangendo enquanto isso todas as
nuances intermediárias” (p. 39)”. Baldwin, que leva uma vida modesta, por vezes
precária, tem um ponto de encontro com colegas escritores “radicais jovens fugitivos e
clientes habituais”: o bar La Reine Blanche conhecido como um local de homossexuais
qualquer que fosse a orientação de seus clientes. Campbell retrata, a partir de
informações de outrem, um dos locais de hospedagem do escritor, um hotel na Rue de
Verneuil, chamando atenção para as pessoas, inclusive rapazes, que ali eram vistas na
companhia do jovem artista estadunidense exilado (2000: 34).
Em seu texto Campbell segue fazendo uma espécie de outing de James Baldwin
quando nomeia um de seus amores, cuja ruptura, teria contribuído para o retorno de
Baldwin aos EUA, em conjunto com o apelo que sentiu para se envolver com o
Movimento pelos Direitos Civis (2002: 34). Em relatos autobiográficos, Baldwin, com
razões próprias, insiste no motivo político de seu retorno. Neste processo ele conhece
pensadores/as militantes afro-estadunidenses de várias gerações como Malcom X, Martin
Luther King, Huey Newton e Ângela Davis.
Baldwin tinha 24 anos, quando chega à capital francesa e fica por 13 anos no seu
primeiro exílio. Em 1949 publicou um ensaio – Preservation of Innocence – não traduzido
para o português, onde fazia críticas à representação da masculinidade em romances
estadunidenses (CAMPBELL, 2000, p. 46-48). Àquela época, apesar do escritor ser
apontado como homossexual, ou mesmo “veado” (p. 47) Campbell aponta que este
termo “com todas as suas conotações de facciosismo, era exatamente a palavra errada
para o relacionamento ainda em desenvolvimento, ainda exploratório, de Baldwin com a
própria sexualidade” (p. 48). O autor conclui que: “A busca de si mesmo era uma missão
que ele empreendia com uma espécie de fervor religioso” (p. 48).
7

Em entrevista ao periódico The Paris Review Baldwin afirma que era impossível
para ele naqueles anos 1950 tratar da questão negra e homossexual na mesma obra, daí
Giovanni’s Room, ter apenas personagens brancas:

Eu certamente não poderia possivelmente ter — não nesse momento na


minha vida — segurado o outro grande peso, o "problema negro". A luz da
moral sexual era uma coisa difícil de lidar. Eu não podia lidar com ambas
as proposições no mesmo livro. Não havia espaço para isto. Eu poderia
fazer diferente hoje, mas então, ter uma presença negra no livro, naquele
momento, e em Paris, estava completamente fora do meu poder
(ELGRABLY, 1984) (Tradução livre).

Em outra ocasião o autor participa de um evento gay interracial e afirma que na


adolescência lhe chamaram de faggot (“bicha”), assim como na vida adulta foi vítima de
homofobia. A notícia é intitulada Baldwin comes out, ou seja, Baldwin “sai do armário”
(TYNNER, S/D). Além disso, estudiosos de sua obra, o reconhecem como um “autor gay”
sem que para isso tenham que destrinchar sua bioografia.
bell hooks (2001) aponta que nos anos 1950, antes de se formarem comunidades
gays, havia certa tolerância nas comunidades negras segregadas com pessoas
homossexuais, especialmente com artistas e religiosos/as. A autora não deixa de
assinalar situações de homofobia nesta ampla coletividade, inclusive com James Baldwin,
confrontado por Eldridge Cleaver, dos Panteras Negras, que o acusa de traidor, de
submeter-se política e afetivamente aos brancos, de atacar a masculinidade negra em
face de sua homossexualidade que o autor considera uma doença 8.
Diante de tudo isso, em síntese, o que importa é que Baldwin, após sua morte, é
relido como um autor gay por aficionados/as e estudiosos/as de sua obra que não
necessitam esmiuçar sua vida pessoal (hooks, 2001; SHIN & HUDSON, 1998). Ser um
autor gay não implica em um processo único, monolítico:

Muitas são as opções. Ser um escritor, gay é afirmar uma afetividade que
longe de acentuar o isolamento e a alienação do homem contemporâneo, é
uma forma de redefinir práticas políticas marcadas pelo cotidiano, de uma
ética de um sujeito plural, como defende Jurandir Freire Costa, de uma
estética da existência, para lembrar uma vez mais Foucault (2002: p. 19).

Denílson Lopes segue afirmando o lugar dessa escritura gay dos anos 1990 que
nos permite rememorar o texto de Baldwin:

8
O ensaio Notas sobre o filho nativo pertence ao livro Alma no exílio publicado no Brasil (CLEAVER, 1971). Não
encontrei referências de alguma repercussão destas ideias entre intelectuais ativistas do período no Brasil.
8

Não mais a estética, nem mesmo a crítica, apenas a escritura. Na volta do


autor, nos anos 90, a experiência se sobrepõe ao lugar da identidade.
Entre relato de leituras e a autobiografia é o lugar em que quero estar hoje
nesta estação chamada estudos gays. Não é um lugar tranqüilo de se
estar, não se trata de nenhum país das maravilhas. Frágil, perplexo,
humilde me aventuro, aprendendo a balbuciar como uma criança em meio
aos ruídos deste fim de século (2002: p. 20).

Baldwin pertence a uma época anterior, mas também experimentou este lugar
intranquilo. Recusa e afirma identidades sexuais de forma compreensível. Seus
personagens masculinos são homens negros (Léo, Rufus, Arthur, Jimmy) e brancos
(Giovanni, David, Eric) que têm seus relacionamentos homossexuais, por vezes, hétero
ou bissexuais, intra e/ou inter-raciais, compõem um universo da experiência do sujeito
que se desloca entre experiências e identidades raciais, de gênero, sexuais e espaciais,
sem essencializá-las ou negá-las. No entanto, num mundo heteronormativo e
hegemonicamente branco, a escrita de Baldwin torna-se negra e gay.

Masculinidade negra, sexualidade e a possibilidade do amor

James Baldwin pode ser inserido no rol de escritores afro-estadunidenses que


trataram da masculinidade negra seja por um viés autobiográfico e/ou literário : Black
Boy de Richard Wrigth (1993) e O homem invisível de Ralph Ellison (1990), datados
originalmente de 1945 e 1947. Tais temas não têm merecido maiores e mais
aprofundados estudos e debates.
A primeira parte do ensaio Da próxima vez, o fogo é constituída por uma carta
endereçada ao sobrinho homônimo do autor e foi escrita por ocasião do aniversário de 15
anos do rapaz e do centenário da emancipação em 1963. Baldwin vincula seu quadro de
vida próximo, familiar, ao contexto aparentemente distante da nação, tendo como tema
o racismo e a situação da população negra:

Este inocente país lançou-o num gueto no qual, de fato, desejava que você
perecesse. Deixe-me traduzir exatamente o que quero dizer com isso, pois
o essencial da questão está neste ponto e a raiz da minha pendência com o
meu país. Você nasceu onde nasceu e se defrontou com o futuro com que
se defrontou porque era negro e por nenhum outro motivo. Esperava-se
que os limites da sua ambição fossem, assim, fixados para sempre. Você
nasceu numa sociedade que traduzia numa clareza brutal, e no maior
número de formas possível, que você era um ser humano sem valor. Não
se esperava que aspirasse à perfeição: esperava-se que fizesse as pazes
com mediocridade. Para onde quer que você tenha se voltado James, no
curto espaço de tempo em que se encontra neste mundo, disseram-lhe
aonde podia ir e o que deveria fazer (e como podia fazer) e onde podia
morar e com quem podia casar. (BALDWIN, 1967: p. 24. Grifo do autor)
9

Refletindo acerca dos mecanismos de desumanização provocados pelo racismo e


pela segregação historicamente prolongados, Baldwin suscita o sobrinho a preparar-se
com firmeza e também com afeto para sobreviver ao emparedamento racial, espacial e
social. No princípio do longo ensaio Ao pé da cruz: carta de uma região da minha mente
(BALDWIN, 1967: p. 27-111), contido no mesmo livro, encontramos a imagem do
adolescente e jovem negro que cresce no gueto e cujas pressões de uma masculinidade,
que podemos denominar de heteronormativa, aliada ao risco da criminalidade, são
percebidas com agudeza. Baldwin rememora sua adolescência, por volta de 1940, de
uma maneira que consideramos tratar-se de uma correlação entre raça, gênero e
espaço:

O que vi em torno de mim naquele verão no Harlem foi o que sempre vira:
nada mudara. Mas agora, sem qualquer aviso, as prostitutas, rufiões e
malfeitores da Avenida tinha-se tornado uma ameaça pessoal. Antes não
me ocorrera que eu poderia transformar-me num deles, porém agora
compreendia que havíamos sido gerados pelas mesmas circunstâncias.
Muitos dos meus camaradas tomavam nitidamente o rumo da Avenida e
meu pai dizia que eu estava no mesmo caminho. Meus amigos começavam
a beber e a fumar, e aventuravam-se – de início com avidez, depois a
gemerem – em suas carreiras sexuais. (1967: p.31-32)

Mencionando as transformações que podem ocorrer também com as garotas,


Baldwin àquela época muito envolvido com a igreja, parece extremamente preocupado
com o que se denomina em termos contemporâneos de vulnerabilidade e risco para
ambos os gêneros:

(...) algo existia de mais profundo que essas modificações; e menos


definível, que me aterrorizava sobremodo. Era um fato possível de
constatar que nos rapazes quer nas moças, embora de certa forma mais
patentes entre os primeiros. No caso das moças, era como se tornassem
matronas antes de se tornarem matronas ou mulheres. Começavam a dar
mostras de uma curiosa e perturbadora estreiteza de espírito. (...) Pois as
moças tinham consciência também do que se passava na Avenida, sabiam
o preço que teriam que pagar por um passo em falso, sabiam que tinham
que ser protegidas e que nós representávamos a única proteção possível,
acreditavam ter que atuar como chamarizes de Deus, salvando as almas
dos rapazes para Jesus e sujeitando-lhes os corpos através do casamento.
(p. 32-33)

Baldwin rememora que, para repetir esta situação, busca manter-se na escola e
entrega-se à igreja, à vivência religiosa, com a qual ele rompe depois. Menos que a
reprodução de estereótipos raciais, sexuais e de classe, com base na moral cristã e na
heteronormatividade, posso inferir que o que está em questão é a preocupação com os
10

destinos da juventude negra e com suas possibilidades restritas em uma sociedade


racista segregada.
Nos seus ensaios políticos publicados no Brasil, Baldwin além de tratar da
masculinidade negra, traz cenas que focalizam a hipersexualização do corpo do homem
negro, um conteúdo relativamente incomum para a época no que diz respeito a um
escrito deste cunho. No ensaio Leve-me para a água que constitui a primeira parte do
livro E pelas praças não terá nome (BALDWIN, 1973:p. 9-62) o autor trata de outra
situação-tema que interessa no tocante ao vínculo entre raça e gênero: o fetiche
falocêntrico em relação aos homens negros. Baldwin evoca uma cena ocorrida nos dias
de ativismo pleno em que um homem branco poderoso de uma cidade do Sul toca seu
corpo, seu pênis, sem consentimento:

Eu escrevi sobre aqueles primeiros dias no Sul, mas de uma distância mais
ou menos impessoal. Eu nunca escrevi, por exemplo, sobre meu
inacreditável choque, quando percebi que estava sendo alisado por um dos
homens mais poderosos de um dos Estados que eu visitei. Ele se achava
suado de bêbado a fim de conseguir o seu desesperado gozo. Com os olhos
úmidos fitando minha cara e suas mãos úmidas alisando o meu pau, nós
estávamos, ambos, abruptamente, no bolso anal da história. Era muito
assustador – não o gesto em si mesmo, mas a degradação disso, e a
hipótese de uma cumplicidade rápida e repugnante: como minha
identidade estava definida pelo seu poder, conseqüentemente minha
humanidade deveria ser colocada à disposição de suas fantasias (1973:
p.49).

O autor nos situa melhor diante do poderio daquele homem branco face à prática
de prisões e linchamentos de pessoas negras, durante a mobilização pela dessegregação:

Este homem, com um telefonema, podia prevenir ou provocar um


linchamento. Este era um dos homens para quem você telefonava (ou um
amigo seu telefonava) a fim de pedir para tirar seu irmão da prisão.
Conseqüentemente, era preciso ser muito amável: mas o preço disso era
seu pau (1973: p. 49).

Em seguida o autor nos remete ao período escravista em que a sexualidade dos


homens negros escravizados era limitada pela presença e intervenção dos homens
brancos senhores:

O escravo sabe, muito embora o seu mestre [senhor] possa ficar desiludido
nesse ponto, que ele é chamado um escravo porque sua masculinidade foi,
ou pode ser, ou será, tomada dele. Ser escravo implica ter a masculinidade
engajada numa dúbia batalha, e este duro fato não é alterado por qualquer
que seja a devoção que alguns mestres [senhores] e alguns escravos
podem ter chegado em seus relacionamentos um com o outro. (1973: 49)
11

Essa limitação se estende aos relacionamentos entre mulheres e homens negros e


deixa marcas para além do período escravista:

No caso da escravidão americana, o direito de um negro para com suas


mulheres, bem como seus filhos, era simplesmente tomado dele, e por
mais bastardos que o homem branco gerasse nos corpos das mulheres
negras, estes tomavam a condição de suas mães. Os negros não eram os
únicos garanhões nas fazendas de escravo! E um dos muitos resultados
dessa conspiração lucrativa e sem amor era que, dando aos mestres todas
as concebíveis lições sexuais e comerciais, também libertava-se de
qualquer responsabilidade humana – para suas mulheres, para seus filhos,
para suas esposas, ou para com eles mesmos. Até hoje os resultados desta
blasfêmia neste país ressoam em todos os níveis sociais públicos e
privados. (1973: p. 49-50)

Ainda que, nesta última citação, Baldwin esteja circunscrito ao universo


heteronormativo é importante destacar que ele levanta a correlação entre racialização,
sexualização e gênero na formação do país que nos remete ao processo denominado por
Carneiro (2003) de subalternização do gênero segundo a raça em que mulheres e
homens negros, em face do ônus da desvalorização social, estética e cultural, não
correspondem aos ideais de mulher e de homem. Devo destacar que tais questões,
aparentemente esquemáticas, devem ser interpretadas de acordo com contexto histórico
e geográfico em pauta.
Baldwin volta ao caso do homem branco que o tocara sem consentimento,
anunciando que considera “qualquer toque sem amor uma violação”:

Quando um homem segurou meu pau, eu não pensei nele como uma
bicha, não pelo fato de ele ter uma esposa, filhos, casa, carros e uma
posição respeitosa e poderosa na sociedade, que tudo isso não significa
nada, mas pelo fato de que na verdade ele não era: eu olhava para os
olhos dele, pensando, com grande tristeza, A vida não examinada não vale
a pena ser vivida. O desespero entre os não amados é que eles precisam
narcotizar-se antes de tocar qualquer ser humano. Eles então fatalmente
tocam a pessoa errada, não porque estão cegos, ou perderam o censo do
tato, mas porque não têm mais nenhuma maneira de saber que qualquer
toque sem amor é uma violação. (p. 50. Grifo do autor)

Na leitura que procedo de inúmeros textos de autores/as e ativistas negros/as


brasileiros/as dos anos 1970 e 1980, não encontro nenhuma linha acerca dessas
questões, nem mesmo menção a tais passagens da obra de James Baldwin. Minha
hipótese é que se tratava de um tema tabu, em face de um quadro de hegemonia
masculina e heterossexual no movimento negro, além da existência de homofobia na
comunidade negra, o que é quebrado a partir da organização das mulheres negras e
mais recentemente de grupos negros LGBTT (RATTS, 2007b). Noto que outras obras
12

literárias de autores afro-estadunidenses que tratam da masculinidade negra foram


publicadas em português nos anos 1990, a exemplo dos livros dos mencionados Richard
Wright e Ralph Ellison.
Ainda no ensaio Leve-me para a água, editado em E pelas praças não terá nome
(1973), Baldwin aborda sua trajetória, o racismo e a mobilização pelos direitos civis nos
EUA, e o seu exílio em Paris. Falando de si, aos 46 anos, o autor nos dá indicações de
sua difícil inserção social, o que inclui sua sexualidade: “Eu tinha percorrido o meu
caminho e a vida concluiu a sua inexorável matemática – e o que no mundo era eu
agora, exceto um maduro, solitário, dúbio sexualmente, ultrajado politicamente,
indescritível aleijão instável?” (1973: p. 21). No ensaio, Baldwin principia a falar de
amor, em parte se desculpando por abordar um tema que parece inusitado para o
propósito do livro:

Meu amor não é assunto deste livro, e contudo, honestamente vejo-me


obrigado a colocá-lo entre os detalhes, porque – acho que sei – que minha
estória (sic) seria muito diferente se o amor não tivesse me forçado a
experimentar a mim mesmo (1973: 24)

Vinculando amor e tensões sociais e afirmando que “amor não tem cor”
(pensamento que em parte se modifica em seus escritos posteriores), Baldwin evoca o
lugar ideal do afeto entre duas pessoas como um sentimento alternadamente forte e
frágil, livre e preso, face aos “problemas do mundo”:

De qualquer forma, então, o mundo muda, e muda para sempre. Porque se


você ama um ser humano, você vê o mundo diferente da maneira pela
qual você o tinha visto antes – talvez, eu só pretendia dizer que você
começa a ver – e ambos são mais fortes e mais vulneráveis, ambos livres e
amarrados. Livre, paradoxalmente, porque, agora, você tem uma casa – os
braços do seu amante. E amarrado: para aquele mistério, precisamente
uma amarra que o liberta para alguma coisa da glória e do sofrimento do
mundo (1973: 24-25).

Na obra ensaística de Baldwin encontramos o afeto – mas não o sexo – entre


homens negros, entre irmãos e a possibilidade do amor. É o que ele anuncia para o seu
sobrinho como um dos elementos de contraposição à desumanização provocada pelo
racismo. O amor entre irmãos, não sem a dureza das relações familiares, aparece com
nitidez neste contexto:

(...) carreguei seu pai em meus braços e nos ombros, beijei-o e espanquei-
o e vi-o a prender a caminhar (...) Outras pessoas não podem ver o que
vejo sempre que contemplo o rosto do seu pai, porquanto por detrás do
13

rosto dele como é hoje encontram-se todos aqueles rostos que também
foram dele um dia. Quando ri, vejo um porão do qual seu pai não se
recorda e uma casa de que guardo na lembrança, e ouço no seu riso de
hoje o de quando era criança. (...) Mas não há quem possa limpar as
lágrimas que hoje ele verte às escondidas, que se pressente no seu riso e
na sua voz, e nas suas canções. Bem sei o que o mundo fez com o meu
irmão e com que dificuldade ele a tudo sobreviveu. (BALDWIN, 1967: p.
22).

Posso inferir que Baldwin, por ter experimentado o auto-exílio, pensa naqueles/as
que se limitavam ao quadro espacial e social restrito. O afeto entre parentes e
9
semelhantes, aqui entre irmãos, é colocado na arena política . Reencontramos em
algumas de suas obras ficcionais, essa possibilidade de uma relação potencilamente
horizontal frente aos impasses e assimetrias da vida. Observamos nelas tanto o afeto
entre irmãos, quanto o amor e o desejo entre homens.

Afeto e sexo entre homens negros: um país de irmãos

Além de Giovanni, acima comentado, outros romances de Baldwin trazem


personagens brancas que, por vezes, se relacionam com personagens negras. No
romance Another Country, traduzido como Numa terra estranha (1984), alguns
personagens masculinos e femininos, negros e brancos se interrelacionam em New York,
cidade que representa metonimicamente o país inteiro com o qual todos se sentem
insatisfeitos, porque experimentam vidas incompletas: Rufus, um músico negro
conhecido nos bares e clubes de jazz, que se suicida; Eric, um jovem ator branco em
ascensão, originário do Sul, de onde migrou por não conseguir viver seus
relacionamentos homoeróticos e inter-raciais; Ida, irmã de Rufus, uma jovem negra que
trabalha como garçonete e depois se torna uma cantora de jazz; Vivaldo, um homem
branco adulto, empregado em uma livraria e escritor inédito, amigo de Rufus e depois
namorado de Ida; Cass, uma mulher branca, que parece ser “somente” dona de casa e
mãe bastante entediada, que chega a ter um relacionamento com Eric; e, por fim
Richard, seu marido, também branco, um “tedioso escritor iniciante” que atende aos
apelos do mercado.

Neste romance, os relacionamentos inter-raciais hétero ou homossexuais são


repletos de tensões raciais e de gênero: em New York Rufus conhece Leona, uma mulher
branca vinda do Sul, que foge de um marido violento e posteriormente sofre agressões
físicas do mesmo Rufus, o que a leva a graves transtornos mentais e a uma internação

9
Ideia retomada por hooks (2001) e outras autoras, no que se refere às relações de gênero na comunidade
negra estadunidense e às suas fissuras internas. O artigo de nascimento (1990) tem sentido similar para o
Brasil.
14

num centro psiquiátrico. Os momentos de diálogo e sexo que marcam o relacionamento


de Ida e Vivaldo são racialmente tensos. Por sua vez, Eric, ainda menino no Sul, sente
uma atração que não compreende bem por Henry um trabalhador da sua casa que perde
o emprego devido a essa aproximação. Na adolescência Eric e LeRoy, um jovem negro e
pobre, têm sua atração mútua ameaçada pela segregação racial. Por fim, Eric chega a
fazer amor com Rufus que, uma vez, lhe agride verbalmente.
Em Marcas da vida (1984) os personagens centrais são todos negros e sua saga
se estende entre New York, o Sul dos Estados Unidos e a França. O narrador Hall
Montana, um publicitário negro, narra a história de seu irmão mais novo Arthur, um
cantor gospel que participa de um grupo musical que se envolve na luta pelos direitos
civis e neste grupo experimenta o amor e o sexo com outro colega. Hall, de passagem,
também relembra que se relacionou de maneira fortuita com colegas brancos do exército
por ocasião da Guerra da Coréia. Em O preço da glória, o protagonista, o ator negro de
teatro Léo Proudhamer, tem mais de um relacionamento com mulheres brancas,
especialmente com Bárbara uma colega de companhia, antes de se envolver com
Christopher, um ativista negro.
Na sua obra ficcional destaco um aspecto que Keith Clark (2004) denomina de
Brother’s Country, que numa tradução livre pode significar um país de irmãos, um lugar
de afeto entre irmãos, no caso de Baldwin, irmãos negros. É o que se observa em Marcas
da Vida um dos textos que traz as cenas mais longas e não estereotipadas de amor e
desejo entre homens negros. Cabe destacar que o narrador do romance é Hall Montana,
o irmão mais velho do personagem principal Arthur. Hall descreve e interpreta com
acuidade e carinho o desenrolar dos afetos do irmão mais novo.
No conto Sonny’s Blues,incluído na coletânea Um homem à minha espera, o
argumento é a preocupação de um homem negro com o destino do seu irmão mais
jovem. Cabe ressaltar que tanto Hall e o professor de matemática, irmão de Sonny, são
homens que se inserem no quadro da masculinidade negra senão hegemônico, almejável
para muitos: prestam serviço militar, casam, tem filhos e profissão definida, como
observa Clark (2004).
Na trajetória homoerótica de Arthur, narrada por Hall, em meio a uma turnê,
Arthur, por volta dos seus 18 ou 19 anos, se apaixona por Croc, um pouco mais velho e
também mais escuro e mais alto que ele. Quando fazem amor, em cena descrita com
sutilezas, sentem “um movimento amistoso, alegre”, como algo “tão alto que não se
possa passar sobre ele” (BALDWIN, 1984: p. 198) e igualmente “tão baixo que não se
possa passar sob ele” (p. 199), um estado de êxtase e completude. Os outros dois
amigos do grupo de cantores, Amendoim e Ruivo, percebem e comentam o enlace de
Arthur e Croc: “riam abraçados às vezes, felizes demais para recear” (p. 200). O
narrador assinala este amor nascente nos indicando que está ameaçado:
15

Eram jovens demais para recear. Pelo que sabiam, pelo que se
importavam, o que acontecia entre eles jamais acontecera em toda a
história do mundo. Os outros têm palavras para o que quer que seja, muito
ruins, muito tristes – eles não seriam encontrados nesse dicionário.
Andavam na luz dos olhos um do outro, absolutamente conscientes de
brancos e de pretos, acordando às vezes nos braços uns dos outros, sem
saber em que cidade se encontravam, sem se importarem: eram chamados
‘periquitos’, eram chamados ‘Romeu e Romeu’ por estarem sós, distantes
dos demais, em perigo (p. 200).

Mais uma vez Baldwin procura o lugar seguro, tranquilo, para o afeto e o sexo, o
safe place a que bell hooks (2001) se refere. As longas páginas de afeto e sexo entre
homens negros desta obra parecem ainda não ter correlação na literatura negra que
circula no Brasil, publicada originalmente em inglês ou português.
O protagonista de O preço da glória (1970), Léo Proudhamer, ator maduro, um
dos mais famosos artistas negros de sua época, rememora sua infância no Harlem, parte
de sua juventude vivida pelas ruas, a entrada como auxiliar de uma companhia teatral, a
amizade e o relacionamento com Bárbara, atriz branca também iniciante. O narrador
relembra os momentos em que colocou sua figura pública a favor do Movimento pelos
Direitos Civis, quando encontra Christopher, um jovem negro ativista radical, com quem
se envolve afetivamente. É nesse cenário que ele descobre o amor, na sua relação com o
jovem, quando ambos têm cerca de 40 e 20 anos respectivamente:

(...) encontrei-me resistindo e lutei contra o fato de que alguma coisa


havia acontecido comigo.
Eu digo alguma coisa porque eu estava relutando em dizer a palavra amor
– a palavra me atingiu como água fria e fez-me prender a respiração e me
sacudiu. Certamente não me tinha ocorrido que o amor tivesse o
descaramento de chegar como uma carga preta, pesado e perigoso. De
qualquer maneira, amor não era exatamente o que parecia. Eu não sabia
com o que se parecia o amor. (BALDWIN, 1970: p. 379)

Ao nomear o sentimento que estava nutrindo por outro homem, depois de


procurar em sua memória ou em seus sonhos algo semelhante, o protagonista reflete
acerca de como a sociedade, o mundo, o nomeia:

Eu não podia mesmo me refugiar em qualquer termo onde o mundo


pudesse me chamar. O mundo já havia me chamado de muitos nomes e
enquanto eu não sabia que minha indiferença [para com o mundo] não era
tão grande ou tão profunda como a de Christopher – não era mesma
quantidade, de maneira alguma – o mundo nunca seria capaz de me
intimidar daquela maneira. (p. 380)

Na mesma sequência, tomando ciência de sua reputação pública, ao caminhar nas


ruas com Christopher, o personagem repensa sua imagem aos olhos dos outros:
16

Algumas pessoas me consideravam um coroa, outras um herói; para


outros, finalmente, era um pederasta, homossexual ou apenas o titio.
Minha fama me prejudicava algumas vezes, porém procurava não me
entreter muito com esse pensamento. (p. 380)

Sem insistir em correlacionar por demais vida e obra, observo que a postura
reflexiva de Léo se parece com aquela de Baldwin de pensar como “o mundo” lhe vê.
Inúmeras pessoas gays, em diversas fases de sua vida, indagam-se como são vistas e
acabam por ver a si mesmas como um corpo estranho, uma figura abjeta, contrária às
normas sociais.
Observo que nos textos em que a condição racial e a homossexual de suas
personagens é fundamental, James Baldwin constrói relacionamentos horizontais como
possibilidade de rompimento com as assimetrias masculino/feminino, homem/mulher,
heterossexual/gay, branco/negro.

Outros quartos, outras cidades, outros países: deslocamentos espaciais

Imagens do Harlem, um dos bairros negros nova-iorquinos, são comuns na


literatura estadunidense. Baldwin o retrata nos ensaios como seu espaço próximo, em
várias fases de sua vida (1973; 1967) e o contrapõe ao quadro nacional. Nos seus
romances é um topos constantemente referido com afeto e, às vezes, com repulsa.
Um repertório de espaços, em várias escalas, emerge em sua obra: quartos,
guetos, ruas, cidades, países que podem, com o devido cuidado, ser abordados tendo em
mente a categoria lugar. De um lado, além da diferenciação e correlação explicitada no
pensamento geográfico crítico entre lugar social e geográfico (SANTOS, 1987, p. 81, 11),
também há quem proponha as análise como passível de apropriação pelo corpo
(CARLOS, 1996, p. 20-21). De outro, pode-se pensar o lugar na vertente humanística
que o elabora como ligado à experiência (TUAN, 1983) e como espaço de referência
pessoal e coletiva em várias escalas, indo da casa/lar até ao país (CARNEY, 2007).
Na geografia contemporânea os estudos de gênero e sexualidade e de relações
raciais e étnicas podem recuperar parte destas reflexões posto que adentram e
reelaboram a discussão excessivamente polarizada e naturalizada entre espaço público e
privado, entre a condição social dos indivíduos e grupos e outras particularidades que se
tornam diferenciações. No entanto, a primeira abordagem referida pouco reflete (ou
refletia) as dimensões étnica, racial e de gênero e a segunda muitas vezes abstrai ou
remete para segundo plano o quadro de desigualdade e de conflito que marcam os
diferenciados indivíduos e grupos sociais.
17

Em um artigo de um campo que se excetua aos seus estudos, Carlos (1996)


focaliza os guetos e capta seus múltiplos significados entre local segregado e lócus
identitário. No entanto, a geografia, especialmente a brasileira, pouco discute as
espacialidades “pequenas”, “privadas” e “fechadas” – a casa e suas partes (sala, quarto,
cozinha, etc.), o palco e seus anexos (o camarim, por exemplo) – a não ser entre
estudiosas e estudiosos da diferença, como as geógrafas feministas que problematizam
os espaços e os lugares do que é referido constantemente ao privado (MCDOWELL,
1999; SILVA, 2009).
10
O “quarto de dormir” é um dos espaços freqüentes na obra de James Baldwin .
Quarto em que o amor homoerótico, impossível lá fora, parece sufocar a vida de dois
homens brancos ou ao menos de um deles. Giovanni’s Room. O quarto de Giovanni.
Quarto de dormir ou “de morrer”, como diz Peter, um jovem ator negro em busca de
emprego numa New York que ele diz odiar, personagem do conto A condição prévia
publicado na coletânea Um homem à minha espera (1969). O protagonista, na iminência
de um despejo pensa sozinho: “Na pior das hipóteses o que pode acontecer? Você não
ter mais o quarto. Afinal o mundo está cheio de quartos” (p.100).
As obras referidas até aqui foram escritas em tempos correlatos à formação de
espaços homossexuais muito limitados – bares e outros pontos públicos de encontro. O
amor, de certo modo, mal ousava dizer seu nome. No entanto, mais de duas décadas
após a morte de Baldwin, algumas coisas mudaram, outras nem tanto. Parece que o
quarto ainda é o lócus do existencialismo homoerótico, local das dúvidas atrozes e
íntimas, em contraste com os espaços externos, locais de outras indagações:

Bombas explodem em mascaras no céu. O sol é uma cabeça a rodar no


horizonte. Nuvens. Ondas. Flores caindo num palco monumental. Meu
corpo verga, gira, dilacerado ainda se move. Sangue. Perfume. Cores.
Mergulho no ar. Tudo é artificial aqui no meu quarto. Escuro. Escrito. O
rumor de cabelos pelas minhas mãos. O sol brilha no peito. Embora o
tempo me fira, eu continuo. Morte (LOPES, 2002: 48).

O exílio em Paris foi um tempo de experiências amargas, como a ruptura com


Richard Wright, o principal escritor afro-estadunidense que lhe antecedera e lhe apoiara,
e da emergência como um autor relativamente reconhecido (CAMPBELL, 2000). O
retorno aos Estados Unidos em 1957 pode ser caracterizado, rememorando a expressão
de Rimbaud, como “uma estação no inferno”: conflitos raciais abertos e explosivos,
desaparecimento, prisão, linchamento e assassinato de lideranças negras. Para o escritor
é um período de intensa criação ficcional e não ficcional.

10
Outros espaços de pequena área comparecem em sua obra, mas, por falta de “espaço”, não posso abordá-
los nesse texto. É o caso do camarim e do palco para o ator de teatro Léo Proudhammer no romance O preço
da glória (BALDWIN, 1970) e também do bar e do palco para músico Sonny no conto Sonny’s Blues (BALDWIN,
1969). Nos palcos dos teatros, a todo tempo, espacialidades são recriadas nas encenações.
18

Posso depreender que em Numa terra estranha (1984), escrito no início dos anos
1960, Baldwin vincula envolvimentos socialmente interditados com o próprio contexto
socioespacial onde ocorrem – New York / EUA – em que todos almejam um outro país
(Another Country), como o título original do romance. Dentre as “saídas” mais pungentes
estão o suicídio de Rufus e os transtornos psíquicos de Leona. Eric apenas consegue viver
um relacionamento mais estável com Yves, outro jovem branco, quando reside na
França. Nesta obra, Baldwin toca de perto os impasses da aproximação entre pessoas
negras e brancas nos Estados Unidos.
O primeiro exílio para a França não implica apenas em sair do país, é deixar o
local da experiência vivida, da segregação racial. Tal deslocamento leva na outra ponta a
uma situação de não se sentir-se em casa, a semelhança de imigrantes e outros exilados
em que oriundos de colônias francesas na África e negros estadunidenses se
encontravam assemelhados e distintos na visão de Baldwin (1973: p. 24-32). Nos anos
1970, Baldwin se auto-exila novamente em Paris, mas continua a escrever tendo sua
“estranha” terra natal como contexto de suas obras, ficcionais ou não, até sua morte.
Neste retorno ele também estranha a cidade (BALDWIN, 1973: p. 32). Os deslocamentos
não implicam necessariamente em ruptura com o sentido de lugar (MCDOWELL, 1999).
Baldwin (ou algum personagem seu) entra e sai dos espaços fechados,
fisicamente restritos e socialmente confinados como quartos de hotel, bares
segmentados, bairros segregados, como qualquer outra pessoa em seu trânsito afetivo e
sexual, e aborda esse deslocamento em seus textos ficcionais, no desejo de alargar o
repertório de possibilidades das pessoas, personas, personagens.
A obra de James Baldwin, ficcional e não-ficcional, bastante estudada nos EUA,
merece atenção no Brasil em face de sua importância para os estudos de relações
raciais, sexualidade, gênero e, no meu entendimento, espaço. Trata-se de um pensador
das espacialidades restritas para indivíduos e grupos específicos, figuarndo ele mesmo
pessoas negras, em especial para homens negros gays, o autor solitária.

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21

Apêndice

Obras de James Baldwin publicadas em inglês e traduzidas para o português

Título em inglês 1ª. ed. Título em português 1ª. ed. Editora Cidade Gênero
Giovanni’s room 1956 Giovanni 1972 Abril Rio de Romance
Cultural Janeiro
The fire next time 1963 Da próxima vez, o fogo 1967 Biblioteca Rio de Ensaio
Universal Janeiro
Popular
Going to meet the 1965 Um homem à minha 1969 Hemus São Paulo Contos
man espera
The Negro Protest 1963 O protesto negro 1969 Laemmert Rio de Entrevista
Janeiro
Tell Me How Long the 1968 Preço da Glória 1970 Hemus São Paulo Romance
Train’s Been Gone
The Amen Corner 1968 Esquina do Amém 1972 Lidador Rio de Teatro
Janeiro
A Rap on Race 1971 O racismo ao vivo 1973 Lisboa Dom Entrevista
Quixote
No name in the street 1972 E pelas praças não terá 1973 Brasiliense São Paulo Ensaio
nome
Just above my head 1979 Marcas da vida 1980 Nova Rio de Romance
Fronteira Janeiro
Another country 1962 Numa terra estranha 1984 Globo Rio de Romance
Janeiro