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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA SOCIAL

Rebeldes, zelosos, patriotas: Estado, Sociedade Civil e


identidades políticas na periferia do Império do Brasil
(Província de Mato Grosso, 1820-1850).

Autor: André Nicacio Lima


Orientadora: Monica Duarte Dantas
São Paulo/Diamantina, dezembro de 2012.
Bolsa pleiteada: CAPES/CNPq
Nível: doutorado
1

SUMÁRIO
Apresentação e justificativa ........................................................................ p. 02
Objetivo e hipóteses ..................................................................................... p. 08
Metodologia e documentação ...................................................................... p. 17
Fontes a serem trabalhadas ........................................................................ p. 20
Bibliografia citada ....................................................................................... p. 23

RESUMO

Esta investigação tem por objeto um movimento político ocorrido na província de Mato
Grosso no ano de 1834, conhecido como Rusga. Iniciado com a tomada do quartel dos
guardas municipais e com saques às lojas pertencentes a cidadãos de origem portuguesa,
o movimento desdobrou-se no controle do poder provincial pelos rebeldes durante cerca
de três meses. Embora os episódios ligados à eclosão da revolta sejam conhecidos pela
historiografia dedicada à província no século XIX, muito pouco se sabe sobre seus
desdobramentos, pois não existem até hoje estudos específicos a este respeito,
fundamentados em consistente base documental. O objetivo da pesquisa é a análise do
movimento à luz dos processos de construção do Estado em sua dimensão jurídica e
coercitiva; da ampliação da esfera pública e organização da Sociedade Civil; e da
formação da identidade nacional brasileira.
2

Apresentação e justificativa
Às oito horas da noite de 30 de maio de 1834, duas fileiras de soldados tomaram o
quartel dos guardas municipais de Cuiabá, de onde retiraram três peças de artilharia,
bem como passaram a distribuir a pólvora e as balas lá encontradas a um grande
concurso de pessoas que se reuniam em frente ao edifício. Ao soar das badaladas da
meia noite, tambores e salvas de tiros anunciaram que deveria ter início uma
mobilização, algumas residências e lojas foram cercadas e saqueadas e alguns
indivíduos assassinados. O vice-presidente da província, João Poupino Caldas, que
exercia o poder executivo em Mato Grosso há apenas quatro dias, convocou o conselho
provincial ainda na madrugada para deliberar sobre a reivindicação apresentada pelos
que tomaram o quartel: a expulsão de todos os indivíduos nascidos em Portugal
residentes em Mato Grosso, com menos de 60 anos de idade, no prazo de 24 horas. O
argumento, frequentemente repetido dali em diante, era o de que os “brasileiros
adotivos” (designação dos portugueses que se tornaram cidadãos do Império nos marcos
da Carta de 1824) tramavam o assassinato de membros da Guarda Nacional na
província, como parte de um plano do Partido Restaurador para derrubar a regência
estabelecida na Corte três anos antes, promovendo assim o retorno de d. Pedro I ao
trono brasileiro. Apesar da imediata aceitação da pauta pelos conselheiros e das
tentativas de Poupino e do bispo de Cuiabá no sentido de refrear a mobilização, ela
ganhou força e, com base na suposta ilegalidade da presença de “adotivos” na província
dali por diante, escoltas mantiveram as ações armadas na capital e no interior por cerca
de três meses, período no qual pelo menos trinta e um indivíduos foram mortos pelos
rebeldes.
A explosão de violência ocorrida naquela madrugada pode ser reconstruída em
detalhes por ser este um dos episódios mais lembrados nas narrativas históricas sobre
Mato Grosso.1 Contudo, muito do que se diz sobre o “Trinta de Maio” é ainda uma
reprodução das narrativas elaboradas no século XIX, sendo provavelmente a matriz de
todas elas aquela de Augusto Leverger, que presidiu a província décadas depois e
apresentou o episódio como a ação de “um grupo de facinorosos, a que se juntou a
plebe, iludida em parte, e em parte movida pelos mais ignóbeis sentimentos”. Capazes

1
São muito pequenas as divergências sobre os fatos narrados acima, seja na documentação reunida por
Elizabeth Madureira SIQUEIRA (Rusga em Mato Grosso: edição critica de documentos históricos.
Dissertação de mestrado apresentada no departamento de história da FFLCH-USP. São Paulo, 1992, 3
vols.), nas crônicas do século XIX, ou ainda nas narrativas ligadas ao Instituto Histórico de Mato Grosso.
3

de “atrocidades inauditas”, incluindo estupros, além da mutilação e incineração das


vítimas, os “amotinados” são caracterizados pela irracionalidade e pela crueldade 2 .
Porém, nem os documentos da repressão, hoje em grande parte publicados, nem os
poucos historiadores que abordaram o movimento como parte de investigações com
enfoques diversos, endossam a visão daqueles eventos como redutíveis a uma
madrugada de saques e atos de crueldade praticados por uma turba enfurecida.
Em primeiro lugar porque - como insistiu, à sua maneira, a literatura histórica
regionalista, ao procurar negar a violência como parte de sua trajetória3 – as práticas e
as ideias que emergiram no “Trinta de Maio” cuiabano em muito se assemelhavam às
do Sete de Abril fluminense, sendo parte de um contexto muito mais amplo de
mobilizações políticas, armadas ou não. “Dia trinta de maio ás oito horas da noite
arvoroçou-se [sic] nesta cidade o pendão do patriotismo”, escreveu numa carta um dos
indivíduos que acorreram à rua naquela ocasião. Segundo ele, nem o presidente em
exercício nem o bispo eram capazes de parar o movimento “porque a Soberania
Nacional residia na massa popular, pois quantos se reuniam eram a favor da causa, de
modo que em uma hora tínhamos mais de oitocentos homens”4. São esses os termos que
emergem da documentação do calor da hora e mesmo os que eram avessos à

2
Augusto LEVERGER. Apontamentos cronológicos da Província de Mato Grosso. Cuiabá: IHGMT -
2001. (Publicações avulsas, nº 19), pp. 160-161. Além desta obra, redigida provavelmente entre 1856 e a
década de 1860, existem outros dois pequenos relatos oitocentistas sobre os acontecimentos de 30 de
maio de 1834. O primeiro deles consta da Notícia sobre a Província de Mato Grosso, seguida dum
roteiro da viagem da sua capital a São Paulo , publicada em 1869 por Joaquim Ferreira MOUTINHO
(São Paulo: Typ. de Henrique Schroeder, 1869. - disponível em suporte digital, no portal do IEB-USP).
Português residente em Cuiabá, Moutinho tratou mais da memória da “carnificina de 1834” em seu tempo
do que do fato em si, chegando a afirmar que teve parte na destruição de fontes sobre o movimento.
Alfredo d’Escragnolle TAUNAY foi autor de um relato mais extenso da “carnificina de 30 de maio de
1834”, publicado em 1891 e baseado principalmente em depoimentos de pessoas que haviam vivido o
acontecimento ou que o conheciam pela tradição oral. A narrativa é, sem dúvida, a mais interessante
dentre as deixadas no século XIX, pelo tom dramático (e exagerado na escala, com um número de mortos
entre 100 e 400 indivíduos) que o relato ganha na pena de um reconhecido escritor épico; por ser a
primeira tentativa de se explicar as razões e as consequências do acontecimento para além da
irracionalidade e crueldade (apesar de estas características serem muito presentes); e, finalmente, por
tratar, mais detidamente que Moutinho, da memória do movimento, incluindo também menções à
destruição deliberada de fontes. A cidade do ouro e das ruínas: Matto-Grosso, antiga Villa-Bella, o rio
Guaporé e a sua mais illustre victima. São Paulo: Comp. Melhoramentos de S. Paulo, 1923. As três
obras têm em comum o fato de não terem sido escritas por pessoas que viviam em Mato Grosso em 1834,
mas sim que residiram ou visitaram a província nas décadas seguintes.
3
As obras ligadas ao IHGMT que nos interessam mais diretamente são Datas mato-grossenses, de
Estevão de MENDONÇA (Niterói: Escola Typ. Salesiana, 1919), por ser um livro central na formação do
regionalismo historiográfico mato-grossense; a edição do centenário do evento na Revista do IHGMT,
toda voltada para a interpretação do movimento e que parece ter estabelecido um cânone a seu respeito,
inclusive quanto à denominação “Rusga”; e a História de Mato Grosso, de Virgílio CORRÊA FILHO
(Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, Ministério da Educação e Cultura, 1969), que é a obra mais
importante desta historiografia.
4
“Carta do tenente Eusébio Luís de Brito incorporada ao processo da Rusga”. in Elizabeth Madureira
SIQUEIRA. Rusga em Mato Grosso, op. cit. p. 198-201.
4

mobilização não a despolitizavam, então, da forma como Leverger e outros autores


viriam a fazer. Fenômeno político, a explosão de violência daquela noite estava inserida
em alinhamentos e oposições que perpassavam o Império do Brasil.
Em segundo lugar, o movimento se estendeu para muito além do “Trinta de Maio”
e envolveu a tomada violenta do poder provincial por uma junta estabelecida no quartel
de Cuiabá por um período de três meses. É surpreendente perceber que um fato tão
notável, comprovado por ampla base documental e conhecido pelos historiadores que
estudaram a trajetória mato-grossense, não seja digno de mais do que uns breves
comentários nas narrativas que abarcam o movimento. 5 Tal silêncio se deve, ao menos
em parte, à falta de acesso público ao auto-sumário crime, principal fonte da repressão6.
Antes de ser comprado pela Universidade Federal de Mato Grosso, em 1988, o conjunto
documental mais importante para a historia do “Trinta de Maio” permaneceu em mãos
de particulares, sendo o último de seus proprietários o historiador regionalista Rubens
de Mendonça. Publicado em 1992 numa edição crítica, junto a uma série de documentos
sobre o movimento, o processo criminal é peça fundamental para uma análise que vá
além da tomada do quartel e dos saques e assassinatos7. Por outro lado, em meio ao
silêncio quase completo por parte da historiografia que se debruçou sobre o período de
atuação da junta, temos notícia da eclosão de movimentos semelhantes em vilas e
arraiais do interior da província, e que não mereceram sequer uma linha narrando tais
acontecimentos, muito menos uma análise de suas relações com os fatos da capital.
Vazio que o processo criminal não preenche, por agir numa jurisdição que abrangia
apenas os distritos urbanos de Cuiabá, com o que, neste ponto, a história do movimento
permanece completamente inexplorada. À parte disso, o auto-sumário crime é a
principal base para a análise da repressão e da reorganização política a partir de
setembro de 1834, com a chegada do novo presidente de província nomeado pela

5
Exemplo disso é que, mesmo reconhecendo a importância do período de atuação da “Regência do
Quartel” – um dos nomes que se usou para designá-la –, Valmir Batista Corrêa dedica sete paginas de seu
livro ao “Trinta de Maio” e apenas uma aos três meses subsequentes. Valmir Batista CORRÊA. História
e violência em Mato Grosso, 1817-1840. Campo Grande: Ed. UFMS, 2000.
6
Apesar de o livro de Valmir Batista CORRÊA, História e violência em Mato Grosso, 1817-1840 (op.
cit.), ter sido publicado em 2000, o autor não incorporou nenhuma fonte ou bibliografia desde a redação
de sua dissertação, de 1976. Ron L. SECKINGER “The politics of nativism: ethnic prejudice and political
power in Mato Grosso, 1831-1834”. In: The Americas. Washington, v. XXXI, april, 1975, number 4, pp.
393-416. Trabalho acadêmico pioneiro sobre o “Trinta de Maio”, este artigo procurou entender o evento
como manifestação nativista própria das sociedades pós-coloniais e, ao mesmo tempo, questionar os
interesses da elite provincial na instrumentalização do discurso anti-lusitano.
7
Elizabeth Madureira SIQUEIRA. Rusga em Mato Grosso, op. cit. A edição crítica elaborada como
dissertação de mestrado inclui, além do auto-sumário crime (peça documental extensa, que ocupa todo
um volume do trabalho) uma grande quantidade de documentos complementares, e uma introdução em
que se discute a memória da Rusga, além finalmente de um dicionário biográfico dos envolvidos.
5

Regência, Antonio Pedro de Alencastro. Afinal, da mesma forma que o movimento não
se resumiu a uma noite, seus desdobramentos não se detiveram aos meses de
permanência da junta.
Uma das consequências da dinâmica política deste período como um todo, e que
em boa parte diz respeito à repressão, foi notada numa pesquisa recente, que tem por
objeto a disputa partidária em Mato Grosso entre 1834 e 1870. Trata-se do
desaparecimento das principais autoridades e lideranças da cena política após a
repressão e sua consequente substituição por outros indivíduos8; levando, portanto, a
uma reconfiguração quase completa do poder provincial. Até pelo menos 1837 – ano da
fuga da maioria dos condenados para a Bolívia e do assassinato, em Cuiabá, de um dos
principais personagens da revolta, João Poupino Caldas – consideramos imprevidente
dar por encerrada a luta política que teve como principal marco a tomada do quartel.
Em terceiro lugar, o “Trinta de Maio” foi o principal, mas não o primeiro marco
dessa luta política. Até pela forma como se deram os fatos naquela noite fica claro que
se tratava de um plano que se colocava então em execução, algo que vinha sendo
arquitetado há algum tempo. Quanto a isso, Ron Seckinger aponta para articulações e
oposições entre os que ocupavam postos políticos na província desde muito antes; uma
luta entre as facções dominantes da província que viriam a participar ativamente do
movimento de 18349.
Através da extensa documentação, quase toda criminal, reunida por Elizabeth
Madureira Siqueira, é possível perceber que dentre os indiciados estavam não apenas
soldados e indivíduos pobres, mas oficiais da Guarda Nacional, juízes de paz, o
promotor, o juiz municipal e o professor de filosofia de Cuiabá. Figurava em meio aos
condenados o único deputado eleito por Mato Grosso para a legislatura que então se
iniciava na Câmara dos Deputados, Antônio Luís Patrício da Silva Manso. Autor, em
1835, de um dos primeiros projetos de abolição da escravidão no Brasil, Silva Manso
havia sido fundador e presidente da Sociedade dos Zelosos da Independência, sediada
em Cuiabá, criada em 1833 e tida na repressão como a associação que arquitetou a
revolta10.

8
Ernesto Cerveira de SENA. Entre anarquizadores e pessoas de costumes - A dinâmica política e o
ideário civilizatório em Mato Grosso - (1834-1870). Tese de Doutorado em História; UnB, 2006. Trata-
se de um estudo da dinâmica política e partidária no espaço provincial mato-grossense, sobretudo das
relações entre a Assembleia e os presidentes de província.
9
Ron L. SECKINGER “The politics of nativism…”, op. cit.
10
Elizabeth Madureira SIQUEIRA. Rusga em Mato Grosso, op. cit.
6

Assim, tratava-se de uma dissensão entre frações dominantes, mas não apenas
isso, pois também os soldados – sem dúvida a categoria mais presente dentre os
revoltosos – vinham de uma experiência de conflitos e, neste caso, com importantes
vitórias. Em 1831 ocorreram levantes nas cinco principais guarnições da fronteira mato-
grossense, sendo que em pelo menos quatro delas o comandante foi deposto pelos
amotinados. No final do ano, a mobilização da tropa chegou a Cuiabá e foi novamente
vitoriosa, ao forçar a demissão de todos os “brasileiros adotivos” empregados na
Província. No ano seguinte ocorreram mais dois levantes em Albuquerque (atual
Corumbá) e a tropa de Cuiabá, suspeita de tramar uma rebelião, foi remetida para a
fronteira. Em 1833, aconteceram dois levantes no Forte Príncipe da Beira, sendo um
deles reprimido, quando também houve uma mobilização da tropa da cidade de Mato
Grosso, demandando soldos atrasados11.
Percebe-se, portanto, que sob a narrativa de uma noite de horrores supostamente
perpetrados pela “plebe iludida” se oculta um movimento político fundado numa longa
experiência de conflitos, articulando diversos grupos sociais e capaz de tomar o poder
provincial, mesmo que por alguns meses, alterando drasticamente a correlação de forças
políticas em Mato Grosso. Trata-se de um movimento praticamente ausente das
narrativas históricas do Brasil e sobre o qual nunca se empreendeu uma pesquisa
fundada em sólida base documental e no diálogo com a historiografia. É esta lacuna
que, antes de tudo, a presente investigação vem preencher. Ademais, ela pretende
contribuir para um expressivo avanço nas interpretações dos conflitos ligados à
formação do Estado nacional brasileiro e para análise de toda uma conjuntura de
grandes mobilizações políticas e de guerras civis na primeira metade do século XIX, tais
como a Revolução Pernambucana de 1817, a Independência (com seus desdobramentos
locais e regionais e as guerras civis na Bahia, Piauí, Maranhão e Grão-Pará), a
Confederação do Equador (1824), a Guerra dos Cabanos (1832-35), a Cabanagem
(1835-40), a Guerra dos Farrapos (1835-45), a Sabinada (1837-38), a Balaiada (1838-
41), os movimentos liberais de Minas Gerais e São Paulo (1842) e a Rebelião Praieira
(1848 - 1850).
Vistas em conjunto, essas conflagrações compõem (ao lado de muitas outras,
incluindo a “Rusga”) o cenário do pré e pós-Independência e, assim, da formação de um
Estado nacional brasileiro de marca liberal, ainda que cindido em projetos de grupos

11
Valmir Batista CORRÊA. História e violência em Mato Grosso, 1817-1840, op. cit. Parte II.
7

distintos que projetavam organizações diferenciadas, senão mesmo concorrentes, para o


país recém-independente. Assim, tais conflitos se relacionam a momentos e situações
específicas da formação do Estado nacional, expressando diferentes contradições e
tensões e envolvendo alinhamentos e oposições entre grupos políticos, fossem aqueles
de corte local ou provincial, fossem os que ultrapassavam esses limites.
Analisando esses e outros movimentos do período, diversos autores têm atentado
para as complexas relações entre os processos gerais e as dinâmicas políticas
12
específicas , tendendo a superar as tradicionais caracterizações das “revoltas
regenciais” (cujo pressuposto básico é o de que a fragilidade do regime entre 1831 e
1840 explicaria um ciclo revolucionário que se iniciara muito antes de 1831 e se
encerrou muito depois de 1840) e das “revoltas provinciais” (que pressupõe uma
diferenciação rígida entre uma ordem política nacional e oposições de caráter
particularista, quando não “separatista” nas diversas províncias, quando o projeto de
unidade do Império do Brasil estava ainda por se consolidar). Esta nova historiografia
aponta, por exemplo, para a centralidade do ideário liberal, nas suas mais diversas
apropriações e reelaborações, perpassando a experiência política dos agentes envolvidos
nesses movimentos; para a importância das formas associativas e da imprensa na
formação de um espaço público, ligando-se os conflitos à definição e redefinição de
campos políticos ou “partidos” com importantes diferenças em termos de abrangência
social, de projetos de futuro e de ideologias; e para as múltiplas formas de atuação dos
grupos subalternos (sobretudo de homens livres pobres e libertos), desde a simples
arregimentação por grupos dominantes até a formulação de projetos com considerável
autonomia.
É para uma melhor compreensão de questões como estas e para uma interpretação
mais consistente do ciclo revolucionário liberal no Brasil que esta pesquisa sobre o
“Trinta de Maio” cuiabano virá a contribuir. Extrapolando os fatos ocorridos naquela

12
Nesse sentido, destaco as análises de Mathias Assunção sobre o Maranhão entre a Independência e a
Balaiada, de Marcello Basile sobre as agitações políticas na Corte fluminense na década de 1830, de
Marcus Carvalho sobre os movimentos que eclodiram em Pernambuco de 1817 a 1848 e de André
Machado sobre o Grão-Pará entre a guerra civil na Independência e a Cabanagem. Mathias Röhring
ASSUNÇÃO. “‘Sustentar a Constituição e a Santa Religião Católica, amar à Pátria e o Imperador’.
Liberalismo popular e o ideário da Balaiada no Maranhão.” In: Mônica DANTAS (org.), Revoltas,
motins, revoluções: homens livres pobres e libertos no Brasil do século XIX. São Paulo: Alameda, 2011,
pp. 295-327. Marcello BASILE. “Revolta e cidadania na Corte regencial”. Tempo. Revista do
Departamento de História da UFF. v. 22, p. 65, 2007. CARVALHO, Marcus Joaquim Maciel de;
CÂMARA, Bruno Augusto Dornelas. A Insurreição Praieira. Almanack Brasiliense, São Paulo, n.8, p.30,
2º semestre de 2008. André Roberto de A. MACHADO. A quebra da mola real das sociedades: a crise
política do Antigo Regime Português na província do Grão-Pará (1821-25). São Paulo: Hucitec /
FAPESP, 2010.
8

noite – mas evidentemente atenta a eles -, a investigação tem por objeto um movimento
político ainda quase ignorado pela historiografia. Movimento que, do ponto de vista da
repressão empreendida pelo Estado, consistia em um conjunto de crimes, políticos,
como a sedição, e comuns, como os roubos e assassinatos. Já na visão de algumas de
suas lideranças, tratava-se provavelmente, de um projeto que visava a alterar a situação
política no espaço da província por meio de uma ação que partia de associações como a
Sociedade dos Zelosos da Independência, portanto na esfera do que poderíamos definir
como a Sociedade Civil. Ao mesmo tempo, e possivelmente para todos os envolvidos –
da elite política aos soldados despossuídos, dos que saquearam e assassinaram aos que
foram alvo dos saques e assassinatos, dos que atuaram na repressão aos que foram
punidos por ela – era um movimento que dizia respeito às definições de nação e de
cidadania no Império do Brasil. Para aqueles que a compreendiam como uma
“revolução patriótica” contra os restauradores, ou, da parte contrária, como ataque à
nação, por desrespeitar os critérios de cidadania estabelecidos em 1824, é provável que
todos pensassem que se estava tratando da pátria.
Fossem rebeldes, zelosos ou patriotas, em algum momento os indivíduos que
tomaram as ruas e o quartel de Cuiabá em 1834 tornaram-se, na memória, apenas
rusguentos, ou ainda os “facinorosos” e a “plebe iludida”, nas palavras de Augusto
Leverger. Nesse sentido, importa lembrar que o termo depreciativo “rusga” é apenas
uma das muitas designações coevas para os fatos daquele período, e que está muito
longe de ser a predominante na documentação. Foi principalmente a data da eclosão do
movimento que marcou a maneira com que os diferentes agentes se referiram a esses
acontecimentos, ou bem como “terrível”, ou então a “patriótica” noite de 30 de maio.
Não se trata de propor o abandono de uma denominação consagrada pelo uso desde,
pelo menos, o centenário do movimento, celebrado pelo Instituto Histórico de Mato
Grosso em 1934. Trata-se, isso sim, de chamar a atenção para processos mais amplos,
envolvendo Estado, Sociedade Civil e identidades políticas, e que acabaram por ser
obscurecidos pela memória da “terrível noite” da “Rusga”.

Objetivo e hipóteses
O objetivo desta investigação é a análise da sedição cuiabana de 1834 a partir de
três eixos, ligados às transformações vividas no Brasil, sobretudo entre a experiência do
constitucionalismo vintista e a consolidação do Estado nacional em meados do século
9

XIX. As hipóteses que sustentam tanto a definição dos eixos analíticos quanto o recorte
cronológico adotado merecem uma breve exposição.
Entre 1820 e 1824, o Brasil não apenas instituiu-se como Estado independente,
como passou por profundas e variadas transformações políticas e sociais. Naqueles
anos, como resultado da eclosão e irradiação da Revolução do Porto e das experiências
constitucionais de Lisboa e do Rio de Janeiro, foram lançadas as bases do sistema
representativo brasileiro, formalizadas com a outorga da Constituição do Império.
Firmava-se um arranjo dinástico e constitucional articulado a partir da Corte
fluminense, com o projeto de se reunir sob a mesma soberania os antigos domínios
portugueses na América. Por outro lado, ainda no ano de 1824 a nova ordem política
sofria sua primeira grande contestação, com a Confederação do Equador a demonstrar o
quanto era frágil o arranjo em torno de d. Pedro I.13
Mas não é apenas no plano da organização do Estado que ocorreram tais
transformações. O período de lutas em torno da constitucionalização da monarquia
portuguesa e da Independência e a fundação do Império do Brasil é também
fundamental para pelo menos dois outros processos: a formação da esfera pública e a
construção da identidade nacional brasileira. Quanto ao primeiro, seus marcos mais
visíveis são a liberdade de imprensa decretada pelas Cortes e a crescente legitimidade
de formas modernas de associação política – em especial as sociedades e os
“partidos.” 14 Se antes da Revolução do Porto eram frequentes as transgressões às
normas, padrões de sociabilidade e ideias políticas do Antigo Regime - tendo ocorrido
até mesmo uma ruptura revolucionária, em 1817 -, foi a partir do vintismo que novas
normas, padrões e ideias ganharam corpo. Fora dos limites político-institucionais,
tratava-se da organização da Sociedade Civil, estreitamente articulada ao processo de
formação do Estado em sua dimensão jurídica e coercitiva 15 . No que se refere à

13
Sobre o processo de Independência existe uma ampla e variada historiografia. Para um panorama geral,
ver o volume “O processo de emancipação” da História Geral da Civilização Brasileira, organizada por
Sérgio Buarque de HOLANDA (Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003), e as coletâneas 1822: Dimensões
e Independência do Brasil: História e Historiografia, organizadas respectivamente por Carlos Guilherme
MOTA (São Paulo: Perspectiva, 1972) e por István JANCSÓ (São Paulo, Fapesp /Hucitec, 2005). Sobre
a nova ordem política e jurídica aberta com o constitucionalismo e a Independência e suas transformações
nas décadas seguintes, existem interpretações as mais diversas, sendo que a perspectiva aqui adotada
dialoga mais diretamente com a obra de Andréa SLEMIAN, Sob o Império das Leis: Constituição e
unidade nacional na formação do Brasil (1822-1834), São Paulo: Hucitec, 2009.
14
O processo de abertura da esfera pública no Brasil apenas muito recentemente ganhou a atenção dos
historiadores, destacando-se a obra de Marco MOREL, As Transformações dos Espaços Públicos:
Imprensa. Atores Políticos e Sociabilidades na Cidade Imperial (1820-1840). São Paulo: Hucitec, 2005.
15
Entendo aqui Estado e Sociedade Civil a partir do diálogo com as proposições de Antonio Gramsci,
para quem a distinção rígida entre essas esferas era parte da ideologia liberal, identificada como defesa
10

construção da identidade nacional brasileira, ainda que seja um equívoco a redução da


Independência a esta problemática, é hoje inegável que ela foi uma de suas dimensões.
A fundação do Império do Brasil associou um projeto de nação a um novo corpo
político soberano, conjugando elementos dinásticos e nacionais na definição de um
povo, de um território e de seu centro de poder, a Corte fluminense.16 Será nos marcos
desse Estado que, no decorrer do século XIX se procurará formular narrativas e
estabelecer tradições que naturalizaram relações construídas socialmente. Antes, porém,
desse nacionalismo “oficial”, o anti-lusitanismo emergiu como uma primeira
manifestação de politização da identidade nacional brasileira, com grande abrangência
social e marcada pelas discussões sobre os critérios de cidadania presentes na Carta de
1824 - portanto referida ao Estado.
Formação do Estado, ampliação da esfera pública e construção da nacionalidade
são, portanto, processos distintos no plano da análise, mas intimamente ligados na
prática social. Processos complexos que tiveram na Independência um marco de
primeira grandeza, sem que se encerrassem com a fundação do Império, nem se
restringissem aos eventos ocorridos em seu centro político. Ponto de chegada de uma
pesquisa de mestrado concluída em 2010, e ponto de partida desta investigação, a crise
aberta com o vintismo foi marcada, na província estudada, pela disputa entre as cidades

das atividades espontâneas da Sociedade Civil, sem intervenção do Estado. Historicamente, para o autor,
inexiste tal distinção, uma vez que o próprio liberalismo havia sido instituído “por caminhos legislativos e
coercitivos”, sendo “um fato de vontade consciente dos próprios fins, e não a expressão espontânea,
automática, do fato econômico”. No lugar da dicotomia consagrada, propunha então o conceito de
“Estado ampliado”, em que os antigos pólos aparecem em uma “unidade-distinção”. Agora, fundidos na
história, separam-se apenas na análise. Esse conceito de Estado acrescenta à clássica definição dos
monopólios coercitivos (extração do fisco, regramento da conduta, exercício da violência) as instituições
ditas privadas (partidos, sociedades políticas, imprensa, escolas, igrejas, sindicatos, etc.), que, associadas
a grupos sociais de interesses específicos, divulgam valores pretensamente universais. O “Estado
ampliado” pressupõe, assim, tanto a força (Estado stricto sensu) como o consenso, tanto o domínio como
a direção. É fácil perceber que o “Estado ampliado”, concebido a partir das experiências europeias do
final do XIX, tinha morfologia e modus procedendi próprios. Por esta razão, entendemos que é a partir da
análise concreta da trajetória do Brasil oitocentista que se deve compreender a relação entre Estado e
sociedade, sendo os conceitos propostos por Gramsci ferramentas para a formulação das questões
relativas a um campo ainda quase inexplorado pela historiografia brasileira. Antonio GRAMSCI.
Maquiavel, a política e o Estado moderno. 6. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1988. Importa
lembrar que essas reflexões foram possíveis graças à interlocução estabelecidas nos últimos anos no
grupo de estudos Império Expandido.
16
Sobre a trajetória das identidades políticas até a Independência, István JANCSÓ & João Paulo G.
PIMENTA. “Peças de um mosaico ou apontamentos para o estudo da emergência da identidade nacional
brasileira”. in: Carlos Guilherme Mota (org.). Viagem Incompleta: a experiência brasileira (1500-2000).
Formação: Histórias. São Paulo, Editora Senac, 2000. Para uma proposta de interpretação da associação
entre Estado e Nação na formação da ordem política imperial, a qual partilho, Ilmar. R. de MATTOS.
“Construtores e herdeiros. A trama dos interesses na construção da unidade política”. Almanack
Braziliense, São Paulo, n. 1, 2005. p. 8-26.
11

de Cuiabá e Mato Grosso pela condição de centro político 17 . Entre 1821 e 1823,
coexistiram dois governos provisórios que se pretendiam legítimos para a todo o espaço
da antiga capitania, dualidade que se encerrou em favor, sucessivamente, de Mato
Grosso (1823) e de Cuiabá (1825), mas que só foi definitivamente superada em 1835,
com a instalação da Assembléia Legislativa Provincial e a aprovação, por seus
deputados, de uma lei a confirmar a legitimidade da capital. Além disso, o período de
atuação das juntas foi caracterizado pelo colapso financeiro da província, dependente de
recursos externos que tiveram seu fluxo interrompido graças à crise política aberta com
o constitucionalismo. Finalmente, foram nesses anos que tiveram início diversas
agitações e rebeliões principalmente nos corpos militares, movimentos que
incorporaram crescentemente demandas políticas e um discurso anti-lusitano.18
Após 1825, com o fim da experiência das juntas governativas, a posse do primeiro
presidente e o início do funcionamento do Conselho Provincial e das duas casas do
Parlamento Imperial, nos marcos da Constituição, Mato Grosso ingressava na nova
ordem política de forma relativamente estável. Porém, os problemas da definição da
capital e da dependência de recursos do poder central não estavam resolvidos e a
insubordinação da tropa ganhava ainda mais força. Com alterações profundas nos
processos de construção do Estado, de ampliação da esfera pública e de formação da
identidade nacional, a passagem para a década de 1830 marcou um novo período de
reconfiguração política e social, permeado de tensões.
No que se refere ao Estado em sentido estrito, entre 1828 e 1834 a organização
política, administrativa, judiciária e militar das províncias do Império foi radicalmente
reformulada. Primeiras alterações de fundo neste período, as leis de 22 de setembro e de
1º de outubro de 1828 alteravam não só a organização interna dos municípios do
Império, como os trâmites e a própria lógica da divisão do território 19 . A primeira,

17
Foi no decorrer da pesquisa sobre a formação das províncias de Goiás e Mato Grosso entre a
incorporação dessas áreas à Monarquia portuguesa e a Independência do Brasil que surgiram alguns dos
problemas e hipóteses que orientam esta investigação. André Nicacio LIMA. Caminhos da integração,
fronteiras da política: a formação das províncias de Goiás e Mato Grosso. Dissertação de mestrado em
História Social. São Paulo: FFLCH-USP, 2010.
18
André Nicacio LIMA. Caminhos da integração, fronteiras da política, op. cit. Capítulo 5.
19
Os códigos também têm uma importância central para o estudo deste e de outros movimentos por terem
sido os fundamentos jurídicos para a repressão, o que no caso da Rusga (mas não apenas nele) envolveu
problemas de interpretação, conflitos de jurisdição e acusações de inatividade ou de abuso de poder por
parte das autoridades, num momento em que esta legislação acabara de ser criada, não havendo uma
longa experiência acumulada de aplicação de seus artigos “Lei de 22 de setembro de 1828 – Extingue os
Tribunais das Mesas do Desembargo do Paço e da Consciência e Ordens e regula a expedição dos
negócios que lhes pertenciam e ficam subsistindo.” E “Lei de 1º de Outubro de 1828 – Dá nova forma às
Câmaras Municipais, marca suas atribuições, e o processo para a sua eleição, e dos Juízes de Paz”.
12

extinguia o Desembargo do Paço, com o que caberia aos Conselhos de Províncias o


encaminhamento à Assembleia Geral de projetos para a criação de vilas e cidades,
dependendo ainda de confirmação do Poder Moderador; a segunda anulava boa parte
das vastas atribuições das câmaras coloniais, tornadas instituições meramente
administrativas, sujeitas ao poder provincial. Já o Código Criminal, de 1830 e o Código
de Processo Criminal, de 1832, alteraram profundamente a organização do judiciário,
substituindo não só o Livro V, mas também outras normas formuladas nas Ordenações
Filipinas, até então vigente. Essas reformas resultaram num novo ordenamento da
justiça, com amplas atribuições nas mãos dos juízes de paz, instituídos por lei anterior.20
Por fim, no que diz respeito à organização dos corpos militares, de particular
importância numa província com grande participação de soldados profissionais no total
da população, as reformas foram igualmente profundas. Diversas medidas, como a
organização do Corpo de Ligeiros e da Guarda Municipal em Cuiabá, além da
redistribuição das forças na província foram acompanhadas pela mais importante
mudança nos corpos militares em todo o Império: a criação da Guarda Nacional, em
substituição às milícias e ordenanças, em 1831. Reformas que, como vimos, ocorreram
num momento marcado por rebeliões nas guarnições de Mato Grosso – doze, no total,
entre 1831 e 1833 – e que alteravam hierarquias, criavam e suprimiam espaços de
poder.21
É uma hipótese desta investigação que a implementação de uma série de reformas
que subvertiam profundamente as estruturas de poder nos âmbitos local e provincial -
nas esferas política, administrativa, judiciária e militar - foi um dos fatores

Coleção das Leis do Império - www.camara.gov.br . Sobre a “aniquilação dos corpos municipais”, ver
Sérgio Buarque de HOLANDA. “A herança colonial – sua desagregação”. In História Geral da
civilização brasileira, op. cit , tomo II. Uma análise mais detida da distribuição e redistribuição do poder
na formação do Império, entre o centro, as províncias e os municípios encontra-se em Miriam
DOLHNIKOFF. O Pacto Imperial: Origens do Federalismo no Brasil. Globo, 2005; especialmente o
Capítulo 2.
20
Sobre as reformas no judiciário e suas motivações e conseqüências políticas, Thomas FLORY. El juez
de paz y el jurado en el Brasil imperial. Mexico: Fondo de Cultura Económica, 1986. A respeito do
enquadramento dos crimes políticos nas repressões após as reformas, Monica Duarte DANTAS,
“Introdução” in Mônica Duarte DANTAS (org.), Revoltas, motins, revoluções: homens livres pobres e
libertos no Brasil do século XIX. São Paulo: Alameda, 2011.
21
A respeito das mudanças na organização militar em Mato Grosso, Valmir Batista CORRÊA, História e
violência em Mato Grosso, 1817-1840 , op. cit. Parte II. Quanto à criação da Guarda Nacional, Jeanne
Berrance de CASTRO. A Milícia Cidadã: A Guarda Nacional, de 1831 a 1850. São Paulo: Brasiliana,
1979. Sobre a relação entre as reformas na organização militar e as mobilizações da tropa na Corte, Paulo
Pereira de CASTRO, “A 'experiência republicana' 1831-1840”, História. Geral da Civilização Brasileira,
op. cit., t.II, v. 2, especialmente p. 9-24. Para a análise da questão das reformas nos corpos militares e da
criação da Guarda Nacional, e suas relações com outra revolta do período, a Sabinada, Hendrik KRAAY.
Race, State, and Armed Forces in Independence-Era Brazil: Bahia, 1790s-1840s. Stanford: Stanford
University Press, 2001.
13

determinantes para a eclosão violenta de um movimento político no ano de 1834.


Quanto a isso, importa ressaltar que as tensões entre a Guarda Nacional, a Guarda
Municipal de Cuiabá e as tropas regulares, bem com entre praças e oficiais (sendo
grande parte destes “brasileiros adotivos”), foram frequentemente evocadas nos autos da
repressão22. Responsáveis pela desconstrução e reconstrução de espaços e instrumentos
de poder, estas reformas também produziram os marcos legais e institucionais da
repressão e da reconfiguração política após a sedição. Aprovado na Corte meses após a
Rusga e implementado em Mato Grosso no ano seguinte, o Ato Adicional à
Constituição fechava um conjunto de transformações na esfera do Estado que, pelas
razões indicadas, temos por fundamentais na análise dos fatos que antecederam e se
seguiram à noite de 30 de maio de 1834.
O período das reformas na esfera do Estado é também aquele no qual a Sociedade
Civil se desenvolveu num ritmo até então inédito na trajetória brasileira. Nesse sentido,
importa lembrar que a formação de associações e periódicos e a definição de campos
políticos se processou de forma acelerada desde antes do Sete de Abril, ganhando ainda
mais força nos anos subseqüentes. Prevista na Constituição de 1824, a regência
instituída após a abdicação do imperador não era uma mudança de regime, como pode
sugerir a expressão “experiência republicana” consagrada por Paulo Pereira de Castro23,
mesmo que várias reformas e alterações políticas tenham sido impulsionadas neste
período, total ou parcialmente, por mobilizações, armadas ou não, nas ruas da Corte e
nas diversas províncias. Mais ainda, houve uma aceleração das transformações e uma
maior abertura da esfera pública, definindo-se os campos partidários sobretudo através
das sociedades políticas, da imprensa e da política parlamentar, sendo que nos dois
primeiros casos, trata-se de instituições que não compunham o Estado em sentido
estrito.24

22
Cf. Elizabeth Madureira SIQUEIRA. Rusga em Mato Grosso, op. cit.
23
Paulo Pereira de CASTRO, “A 'experiência republicana' 1831-1840”, op. cit.
24
Desde a contribuição fundamental de Ilmar R. de MATTOS, em O Tempo Saquarema (5ª.ed. São
Paulo: Hucitec, 2004), muito se avançou na compreensão sobre a formação e a dinâmica partidária no
Império. Entendemos que os partidos foram instrumentos cruciais nas relações entre Estado e sociedade
no Brasil oitocentista e que sua formação envolveu tanto a prática política nos espaços institucionais do
Estado, quanto as relações nos espaços “ditos privados”, como as associações, a imprensa e as redes
familiares. Quanto à historiografia recente, dentre os que privilegiam a dinâmica parlamentar e suas
lideranças, destaca-se Jeffrey D. NEEDELL, “Formação dos partidos brasileiros: questões de ideologia,
rótulos partidários, lideranças e prática política, 1831-1888”. Almanack Brasiliense, n. 10, novembro de
2009. Quanto aos que dão maior destaque às articulações fora deste espaço institucional, mas sem de
forma alguma ignorá-lo, Marco MOREL, As Transformações dos Espaços Públicos, op. cit. Wlamir
SILVA. Liberais e povo: a construção da hegemonia liberal-moderada na Província de Minas
Gerais(1830-1834). São Paulo: Hucitec.
14

Ao contrário do que se possa depreender da concentração de estudos sobre a


imprensa, as sociedades e os partidos nos grandes centros, sobretudo a Corte, esses
instrumentos organizativos da Sociedade Civil se disseminaram pelo território do
Império, sobretudo na passagem para a década de 1830 – ainda que evidentemente em
escala e ritmo diversos. Em Mato Grosso, tanto a Sociedade dos Zelosos da
Independência, que acabou por ser responsabilizada pela sedição, quanto a Sociedade
Filantrópica, sua adversária, que congregava boa parte dos que foram assassinados após
o “Trinta de Maio”, foram organizadas na esteira do Sete de Abril. Ainda que não se
contasse com uma tipografia na província, desde o ano de 1830 era publicado em Goiás
o periódico A Matutina Meyapontense, que incluía em suas edições uma sessão
denominada Miscelânea Cuyabanense, que publicou notícias, cartas, leis, debates e
artigos referentes a Mato Grosso, como também os próprios estatutos da Sociedade dos
Zelosos da Independência sediada em Cuiabá, cidade que, como informava a Matutina
desde o primeiro número, possuía um ponto de venda do jornal25. Percebe-se, além da
presença desse instrumento em Mato Grosso, a existência de vínculos estreitos entre os
grupos políticos que se formavam nas duas províncias que, em ambos os casos,
tomavam por referência os alinhamentos mais gerais no Império e sobretudo a dinâmica
da Corte. As identidades partidárias, formadas no diálogo entre Estado e Sociedade
Civil, se fizeram muito presentes na Rusga, movimento justificado como uma ação
contra as maquinações do Partido Caramuru (ou Restaurador).
É, portanto, uma hipótese aqui colocada que a difusão e a legitimação de
“instituições ditas privadas” como as sociedades políticas, a imprensa e os partidos
desde a crise do Primeiro Reinado tiveram importância central na eclosão do
movimento de 1834. Além disso, mesmo não sendo espaços “ditos privados”, os corpos
militares talvez tenham cumprido um papel não desprezível nesse desenvolvimento da
Sociedade Civil, ao criar vínculos de solidariedade e ambientes de sociabilidades para
indivíduos quase sempre provenientes das classes populares, que encontravam poucas
oportunidades de ingresso ou influência direta nos espaços políticos institucionais, tanto
no âmbito provincial (o Conselho e depois a Assembléia), quanto no geral (a Câmara e
o Senado). Em diversos momentos, esses corpos, que legalmente não deveriam exercer
funções propriamente políticas, aparecem, tanto quanto a imprensa ou as sociedades,

25
A Matutina Meyapontense. 13 de novembro de 1833. O periódico está integralmente disponível em
versão digital fac-similar, tendo como suporte um CD-ROM, o qual foi possível copiar no Arquivo
Histórico Estadual de Goiás (AHEG) durante a pesquisa de Mestrado.
15

como representantes de interesses de parcelas da população, levando suas


reivindicações às autoridades instituídas.
Finalmente, parece-nos claro que qualquer análise consistente da Rusga passa pela
compreensão da questão nacional. Trata-se, afinal, de um movimento de conteúdo
claramente anti-lusitano, o que se expressa não apenas na reivindicação, nas palavras de
ordem e nos depoimentos dos rebeldes, como também nas conseqüências concretas da
explosão de violência. Os números se contradizem segundo os autores, mas as fontes
judiciais reunidas por Elizabeth Madureira Siqueira dão conta de 31 mortos, dos quais
apenas um era nascido no Brasil – e o assassinato deste foi sempre justificado à parte
pelos depoentes 26 . É evidente que não se tratava de um surto de xenofobia
indiscriminada, pois na mesma documentação fica claro que o anti-lusitanismo era
apenas um dos elementos dessas oposições, que envolviam, como dissemos há pouco, a
disputa política no espaço provincial, a tensão nos corpos militares e a composição de
campos partidários. Ademais, todos os 31 nomes arrolados eram de indivíduos
envolvidos no comércio cuiabano, coincidência que também merece atenção. Ainda
assim, entendemos que não se deve enxergar o discurso anti-lusitano apenas como um
mascaramento das verdadeiras motivações dos rebeldes, mas sim como parte das
tensões em torno da definição dos critérios de cidadania, com base na Constituição de
1824, pois era com referência à situação dos “brasileiros adotivos” que essas oposições
surgiam. Acima de tudo, o corte nacional nos alinhamentos e oposições parece ter sido
resultado de uma instrumentalização de identidades políticas coletivas construídas no
encaminhamento de tensões e conflitos desde antes da Independência.
Entendemos que a construção da identidade nacional brasileira não foi apenas
uma consequência da ação do Estado ou de um grupo restrito de intelectuais a ele
diretamente ligados, mas o resultado de um processo societário, que envolveu de formas
distintas os mais diversos grupos, sobretudo em sua atuação nos fenômenos de natureza
política.27 Afinal, fosse a nação obra exclusiva de letrados do Império, o que explicaria
a enorme força do anti-lusitanismo como arma política antes que fossem instituídos os
cânones do nacionalismo oficial? Pois à época do Sete de Abril não existia Instituto
26
Elizabeth Madureira SIQUEIRA. Rusga em Mato Grosso, op. cit. Dados retirados do dicionário
biográfico, vol. 3; depoimentos nos autos, vol. 1.
27
Pierre VILAR – “Reflexiones sobre los fundamentos de las estructuras nacinales.” In Hidalgos,
amotinados y guerrilleros. Barcelona: Editorial Crítica, 1982. Sobre o caso brasileiro, István JANCSÓ &
João Paulo G. PIMENTA. “Peças de um mosaico...”, op. cit. Um exemplo de interpretação fundada na
idéia de que a nação foi obra de letrados ligados ao Estado está em Lília Moritz SCHWARCZ. “Estado
sem nação: a criação de uma memória oficial no Brasil do Segundo Reinado”. In: Adauto NOVAES
(org.). A crise do Estado-nação. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2003, p. 384.
16

Histórico e Geográfico, não havia literatura romântica de caráter nacionalista, nem um


projeto sistemático de propagação de símbolos e produtos culturais através do sistema
educacional ou das forças armadas, mas já se politizava a identidade nacional brasileira
na defesa de direitos e nos mais diversos conflitos que atravessam o território do
Império. Assim, importa recuperar a experiência dos embates políticos para que se
perceba a construção e a politização dessas identidades. E isso sem perder de vista o que
se passava para além da província, pois essas experiências fluíam no Império e mesmo
fora dele. Apenas a título de exemplo, importa mencionar que os primeiros envolvidos
na Rusga a serem punidos foram três ex-membros do batalhão de Periquitos,
participantes num primeiro momento da guerra de Independência e, a seguir, dos
conflitos que agitaram Salvador no contexto da repressão à Confederação do Equador,
incluindo o assassinato do comandante das armas da Bahia. Presos e degredados para o
Mato Grosso em decorrência de sua participação em mobilizações que colocavam em
questão as autonomias provinciais e os critérios de cidadania na fundação do Império,
chegaram a uma província que, por sua situação de fronteira, frequentemente recebia
presos, políticos ou não, de muitas partes do Brasil, e que em geral eram integrados (ou
re-integrados) às tropas28.
Ainda no que diz respeito às identidades políticas coletivas, interessa perceber no
estudo da Rusga a trajetória da antiga polarização entre as cidades de Cuiabá e de Mato
Grosso durante o Império. Parte importante da análise empreendida na dissertação de
mestrado, a antiga oposição entre os núcleos urbanos e a disputa, no período da
Independência, pela condição de capital, são questões que não se resolveram antes de
1835. Sendo assim, importa perceber não apenas o encaminhamento institucional da
definição da capital, como a persistência ou não de uma polarização entre as duas
cidades mato-grossenses, o que envolve a articulação e oposição de interesses na
construção do espaço político provincial, bem como a questão das identidades29. Por
fim, outras linhas de corte podem ter tido importância no movimento, como aqueles de
natureza racial que aparecem em alguns depoimentos da repressão.30

28
Sobre os graves conflitos políticos ocorridos na Bahia em 1824, que levaram João Antonio Pereira,
Antonio da Silva Pamplona e Simplício José para o degredo na província de Mato Grosso, João José
REIS e Hendrik KRAAY “The Tyrant Is Dead!” The Revolt of the Periquitos in Bahia, 1824. Hispanic
American Historical Review 89:3. P. 399-434.
29
André Nicacio LIMA. Caminhos da integração, fronteiras da política, op. cit.
30
Elizabeth Madureira SIQUEIRA. Rusga em Mato Grosso, op. cit. Vol. 1. Ver os seguintes
depoimentos: “Depoimento de Francisco Xavier de Fontes, 18 de dezembro de 1834” p. 222.
“Depoimento de Gregório Ribeiro do Nascimento, 18 de dezembro de 1834” p. 226. “Depoimento de
José Caetano Metelo. 18 de dezembro de 1834”. p. 228. Neste, por exemplo, acusa-se um dos indiciados
17

Tratando mais especificamente de um movimento que ocorreu entre maio e


setembro de 1834, esta pesquisa tem por balizas cronológicas um período mais amplo
(1820-1850), o que se justifica pela inserção dos fatos imediatos da Rusga em processos
que os ultrapassam. Quanto ao recorte adotado, se o ano de 1820 representa a crise
aberta com a Revolução Constitucionalista do Porto como marco para os três eixos de
questões a serem desenvolvidas na investigação, resta explicitar os critérios para a
adoção do ano de 1850. Neste caso, o marco adotado tem caráter provisório, servindo de
referência para a delimitação de parte das fontes a serem trabalhadas, sendo que apenas
o desenvolvimento da pesquisa poderá indicar a opção mais adequada. Dito isso,
importa ressaltar que, além de representar o fim da repressão ao último dos grandes
movimentos armados de inspiração liberal no Brasil oitocentista – a Rebelião Praieira -,
1850 marca o início do longo governo de Augusto Leverger em Mato Grosso. Período
de profundas transformações políticas na província, com a acomodação das tensões
entre a assembleia provincial e os sucessivos presidentes31, mas também das primeiras
narrativas sobre o “Trinta de Maio”, sendo o próprio Leverger o pioneiro no registro da
memória sobre o movimento.

Metodologia e documentação
Apresentados o objetivos e algumas hipóteses da investigação, importa expor o
plano de trabalho e os principais conjuntos de fontes a serem trabalhados.
Primeiramente, parte-se da leitura da bibliografia geral e específica, bem como da
riquíssima documentação reunida nos três volumes da dissertação de mestrado de
Elizabeth Madureira Siqueira, incluindo o auto-sumário crime que documenta a
repressão. Desenvolvida desde o início do doutorado, em julho de 2011, esta etapa está
sendo concluída neste momento. Além dos documentos mencionados, estão sendo
consultados os relatórios e discursos dos presidentes de província Antonio Pedro de
Alencastro, José da Silva Guimarães, Antonio José da Silva, José Antonio Pimenta
Bueno, Estevão Ribeiro de Resende, Zeferino Pimentel Moreira Freire, Ricardo José
Gomes Jardim, João Cipriano Soares, Manoel Alves Ribeiro, Joaquim José de Oliveira

de afirmar que “visto nós já termos retirado os adotivos, bom seria agora reduzirmos tudo a uma, 2
espécies = pelo que ele testemunha conhece a nova tentativa contra cores brancas porque já se principiava
a vozear, que se pretendiam acabar com os Caiados = Termos estes de que se serviam os Anarquistas de
cores inferiores [...]”.
31
Ernesto Cerveira de SENA. Entre anarquizadores e pessoas de costumes - A dinâmica política e o
ideário civilizatório em Mato Grosso - (1834-1870), op. cit.
18

e João José da Costa Pimentel (um conjunto de dezoito peças documentais produzidas
entre 1835 e 1850 e disponíveis na Internet). Com base nesses conjuntos de fontes e na
bibliografia, estão sendo consolidados dois importantes instrumentos de pesquisa – uma
cronologia detalhada dos eventos relacionados à Rusga e um banco de dados de
personagens, já iniciado no mestrado a partir do dicionário biográfico de Elizabeth
Madureira Siqueira, e que tem servido para mapear as trajetórias dos a) pronunciados e
condenados (21 entradas); b) vítimas e supostamente ameaçados pelos rebeldes (36
entradas); c) testemunhas do processo (21 entradas); d) subscritores de representações
pela punição dos rebeldes (77 entradas). Evidentemente um e outro instrumentos de
pesquisa serão continuamente revistos nos passos seguintes da investigação.
Num segundo momento, no ano de 2013, serão consultados acervos documentais
nas cidades de Cuiabá e Rio de Janeiro. No Arquivo Público de Mato Grosso (APMT)
serão digitalizados livros manuscritos e documentação avulsa referentes: a) à
administração provincial e municipal, como os registros de correspondências oficiais e
as atas das câmaras municipais (cidades de Cuiabá e Mato Grosso e vilas de Diamantino
e Poconé), do conselho e da assembleia provincial; b) à organização militar da
província, com especial atenção às reformas do início da década de 1830, bem como
atentando para os levantes das tropas, desde a Independência; c) à organização do
judiciário na província, principalmente no que se refere à implementação dos códigos de
1830 e 1832 e à repressão da Rusga. Ainda em Cuiabá serão consultados os acervos do
Núcleo de Documentação e Informação Histórica Regional (NDIHR/UFMT) e do
Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso (IHGMT). No Arquivo Nacional (AN),
no Rio de Janeiro, deverão ser consultados conjuntos documentais referentes à
Província de Mato Grosso, bem como aos ministérios da Guerra e da Justiça. Nesta
cidade, serão também visitados os acervos da Biblioteca Nacional (BN) e do Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB).
A metodologia para a análise da documentação parte do diálogo com a
bibliografia teórica que compreende as relações entre Estado e Sociedade de forma
integrada, evitando-se assim tanto a separação rígida entre dinâmica institucional e
processos sociais e econômicos, quanto a determinação mecânica entre uma e outra
esfera32. A atenção às mediações, característica de parte importante da historiografia

32
Especialmente Antonio GRAMSCI. Maquiavel, a política e o Estado moderno. (6. ed. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 1988) e Cadernos do Cárcere (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001).
19

sobre a política no período imperial 33 , envolverá a análise da configuração e das


reconfigurações de campos políticos entre a crise aberta com o vintismo e a
estabilização da província após a Rusga, tendo em conta os espaços institucionais, como
o Conselho e a Assembleia Provincial e, ao mesmo tempo, a dinâmica das articulações
em outros espaços, com especial atenção às sociedades (dos Zelosos da Independência e
Filantrópica) e ao papel exercido pelos corpos militares como instâncias de prática
política. Nesse sentido, a documentação pertinente à Rusga e às demais mobilizações
ocorridas no período (caso dos motins de tropas) será objeto de uma leitura atenta aos
indícios de organização dos grupos subalternos e de suas relações com as disputas
travadas nas instâncias políticas provinciais, bem como às demandas, ideologias e
identidades presentes nas falas dos diferentes grupos envolvidos nas contestações ou na
repressão a elas, com destaque para as possíveis apropriações e releituras do ideário
liberal e para o discurso anti-lusitano, muito presente nos relatos do “Trinta de Maio”34.
Ainda em diálogo com este conjunto de referências teóricas e historiográficas,
serão analisadas as articulações do movimento para além dos limites da província de
Mato Grosso, pois entendemos que é nos quadros do processo mais amplo de formação
do Estado nacional que os alinhamentos, as oposições e os conflitos ganham
inteligibilidade. A princípio, esta terceira etapa (a ser desenvolvida em 2014,
paralelamente ao trabalho com as fontes recolhidas no ano anterior) inclui: a) a consulta
e análise seriada do periódico goiano A Matutina Meyapontense (1830-34), bem como
dos efêmeros jornais de Mato Grosso na década de 1840 e de títulos selecionados do
Rio de Janeiro, São Paulo e Grão-Pará, num período a ser definido a depender das
conclusões parciais da pesquisa, objetivando-se com isso o mapeamento de articulações
políticas, de eventuais influências recíprocas entre essas províncias e da repercussão da
Rusga como um todo; b) a consulta e análise dos Anais da Câmara dos Deputados, com
o fim de conhecer a atuação do deputado tido pela repressão como principal cabeça da
Rusga, Antonio Luís Patrício da Silva Manso (1834-1837) e de seus sucessores até a
década de 1840, além de eventuais repercussões do movimento no Parlamento Imperial;
c) consulta a acervos de São Paulo, Goiás e/ou Pará, apenas na medida em que tiverem
sido encontrados indícios de articulações políticas e influências recíprocas nas fases

33
Em particular, Ilmar Rohloff de MATTOS, O Tempo Saquarema, op. cit.
34
Sobre as apropriações populares do liberalismo no periodo estudado, Mathias Röhring ASSUNÇÃO.
“‘Sustentar a Constituição e a Santa Religião Católica, amar à Pátria e o Imperador’. Liberalismo popular
e o ideário da Balaiada no Maranhão.” In: Mônica Dantas (ed.), Revoltas, motins, revoluções: homens
livres pobres e libertos no Brasil do século XIX. São Paulo: Alameda, 2011, pp. 295-327.
20

anteriores da pesquisa; por não serem descartadas articulações dos envolvidos na Rusga
com a Bolívia (destino da maior parte dos foragidos), também não se descarta uma
busca por fontes naquele país, caso ela se mostre importante para a investigação.
Finalmente, entre 2014 e 2015 serão trabalhados conjuntamente os documentos e
redigidos os capítulos da tese.

Fontes a serem trabalhadas

• Fontes manuscritas

Arquivo Público de Mato Grosso (Cuiabá-MT)


Registro de Ofícios da Junta Governativa Provisória da Província de Mato Grosso: 1822 – 1823.
Atas da Junta Governativa: 1822 – 1825.
Registro de Assinaturas para o juramento da Primeira Constituição do Império Brasileiro: 1824 – 1827.
Registro de Ofícios Expedidos ao Ministério dos Negócios da Guerra, do Império: 1825 – 1831.
Registro de Ofícios Provinciais dirigidos às Secretarias de Estado dos Negócios do Império: 1825 – 1832.
Registro de Ofícios Expedidos ao Ministério da Fazenda, Marinha, Justiça e Estrangeiros: 1825 – 1834.
Registro de Ofícios Expedidos ao Imperador através do Tribunal do Conselho Supremo Militar: 1825 –
1858.
Registro de Cartas, Alvarás, Atos Imperiais, 1825-1870
Registro da Correspondência da Secretaria com a Assembléia Legislativa Provincial
Registro da Correspondência do Governo com o Ministério do Império
Registro de Ofícios expedidos pelo presidente da província aos ministérios dos negócios do Império
Correspondência oficial da presidência com o Ministério do Império
Registro de Avisos Reservados recebidos dos Ministérios dos Negócios da Guerra, da Marinha, do
Império, da Justiça, da Fazenda e Estrangeiros
Documentos Avulsos. (latas referentes aos anos 1820-1850)

Arquivo Nacional (Rio de Janeiro-RJ)


Série Interior – Negócios de Províncias e Estados
Série Ministérios - Mato Grosso
Secretaria do Governo da Província de Mato Grosso
Série Guerra - Guarda Nacional

Biblioteca Nacional (Rio de Janeiro-RJ)


Série “Mato Grosso (1743-1872)”
21

• Fontes impressas e obras da época

ALINCOURT, Luiz d’. Memória sobre a viagem do Porto de Santos à Cidade de Cuiabá. São Paulo:
Martins, 1954.

ALINCOURT, Luiz d’. Reflexões sobre o systema de defesa que se deve adoptar na Fronteira do
Paraguay, em consequencia da revolta e dos insultos praticados ultimamente pela nação dos Guaicurus
ou cavalleiros. In Revista do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, tomo XX. Rio de Janeiro, 1857.

ANNAES do Sennado da Camara de Cuyabá: 1719-1830. Transcrição e organização de Yumiko


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Relatórios Ministeriais (Fazenda, Justiça, Império, Relações Exteriores e Guerra) - http://www.crl.edu/

• Periódicos
A Matutina Meiapontense (1830-34)
Themis Mato Grossense (1839-1840)
O Cuiabano Oficial (1842-43)
O Cuiabano (1843-45)
A Gazeta Cuiabana (1847-48)
Echo Cuiabano (1847 e 1850).
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