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Psicanálise em debate

O papel do analista

Dr. Sérgio Telles


Psicanalista do Departamento de Psicanálise de Instituto Sedes Sapientiae
e escritor, autor de MERGULHADOR DE ACAPULCO (1992 – Imago – Rio)

Qual seria o papel do analista? Essa é uma sugestiva questão que implica
significados que nos são muito pertinentes. Recorrendo ao dicionário, vemos que
"papel" é a "parte que o ator desempenha no teatro, no cinema, na televisão"; é "o
personagem representado pelo ator" e, mais ainda, "atribuição de natureza moral,
jurídica técnica, etc".

"Interpretação", "representação", "atribuição de valores" - de fato, tudo isso


está diretamente ligado ao ofício do analista. O analista interpreta e representa
um drama do qual, de início, só em largas pinceladas tem idéia, pois é o paciente
quem vai distribuir os papéis, ao reencenar com ele toda a sua vida.

Ao interpretar e representar este papel, o analista o "encarna" mas também


o torna compreensível, explicável, dá-lhe um sentido e uma significação que até
então escapavam ao paciente. Em assim fazendo, está exercendo sua principal
função, seu principal papel no processo terapeutico e o faz a partir do mundo das
representações e do simbólico, em pleno campo da linguagem.

Assim, o papel mais importante do analista é o de interpretar e construir. A


interpretação é tida por todos como o fundamento da terapia psicanalítica.
Interpretar é, a partir do que o analisando nos comunicou, dar-lhe uma explicação
de algo que ele desconhece a respeito de si mesmo, proporcionando-lhe, assim, um
alargamento da compreensão de seu próprio psiquismo, um aumento de seu auto-
conhecimento. Interpretar é dar uma nova conexão de significados, é estabelecer
novas e insuspeitas correlações, é evidenciar o sentido latente existente nas
palavras e no comportamento manifestos de uma pessoa. A partir das
interpretações, o analista vai reconstruindo, em seus aspectos reais e
fantasmáticos partes da história infantil do indivíduo, como dizem Laplanche e
Pontalis(1).

O pressuposto da interpretação e da construção é, evidentemente, a existência


do inconsciente, esta dimensão do psiquismo que Freud descobriu e do qual fez o
inventário em trabalhos como Estudos sobre a Histeria (2), A Interpretação dos
Sonhos (3), Psicopatologia da Vida Cotidiana (4), Chistes e sua relação com o
Inconsciente(5). Neles, Freud propõe seus primeiros modelos do aparelho psíquico,
revelando o inconsciente enquanto instância psíquica estruturada, regida pelo
processo primário. É aí onde Freud prova que nada que ali ocorre - no Inconsciente
- é arbitrário. Tudo é determinado, sobredeterminado e estruturado a partir de um
núcleo de experiências infantis arcaicas, organizadas em torno dos complexos de
castração e de Édipo, regidas pelo desejo inconsciente que incessantemente põe
em movimento o aparelho, em busca de uma impossível satisfação.

Nestes trabalhos inaugurais, Freud mostra como detecta as formações do


inconsciente primordialmente através discurso do paciente, disposto em
associação livre, à qual o analista oferece sua escuta baseada na atenção
flutuante.
Para compreender qual é o papel do analista para Freud, parece-me
interessante comparar dois de seus trabalhos: Estudos sobre a Histeria ,
especialmente seu último capítulo, intitulado Psicoterapia da Histeria (1), trabalho
de 1895, e um dos últimos escritos de Freud, Construções em Psicanálise, de 1937
(6).

É claro que entre estes dois extremos de sua obra, há um longo elaborar
teórico mas há duas coisas que Freud não muda.

A primeira é que Freud não cessa de enfatizar que, longe de ser o caos, o
primitivo, o inarticulado, o desorganizado, o mero funcionamento degradado do
cérebro fora da consciência - como se pensava até sua descoberta - o Inconsciente
é algo inteiramente estruturado dentro de leis próprias que seguem uma lógica
especial baseada na condensação e no deslocamento. É uma lógica que preside a
sobredeterminação, com seu interjogo de causas e significações superpostas, que
levam ao encadeamento das representações-meta conscientes e inconscientes,
organizadas em cadeias associativas que vão constituir as fantasias. É essa lógica
que o analista deve captar e desenvolver, descobrindo conexões, estabelecendo
ligações, as quais dará para o analisando como interpretações e construções.

A segunda é a forma como entende o tratamento, o trabalho do psicanalista


como aquele que dá sentido, cria significados ao tornar consciente o inconsciente,
ao preencher as lacunas da memória, ao recuperar lembranças e vivências
reprimidas, dando assim acesso ao analisando a seu próprio desejo, reinstalando-o
dentro de sua história simbólica.

É na fala do analisando, em seu discurso, que o analista tem acesso às


formações do inconsciente. Neste sentido, tudo aquilo que atrapalha e impede este
discurso é tido como resistência, pois Freud logo se deu conta de que poderosas
forças inconscientes se organizam no analisando, impedindo ou dificultando o
desdobrar de seu discurso. A maior delas foi descrita como a transferência. Em "A
dinâmica da transferência"(7), a descreve como um obstáculo ao trabalho de
rememoração, pois o paciente faz uma falsa conexão e na sequência associativa,
justamente aquela associação mais reprimida aparece como transferida para o
analista, como que desconectada com a cadeia a que pertence. Aparece como algo
atualizado, atuado com a pessoa do analista.

Tal visão da transferência não mais vai ser abandonada e sim amplificada.
Freud oscila entre ver a transferência como obstáculo e resistência à rememoração
- e o é de fato, na medida em que interrompe a rememoração verbal, quando se
constitui então em resistência de transferência - e, ao mesmo tempo, entendê-la
como a via regia para a recuperação do passado do paciente.

Dizendo de outra forma, Freud vai entender que o paciente repete na


transferência para não lembrar, por ser impossível lembrar. A transferência
é uma forma especial de recordar, vai dizer Freud em Recordar, repetir e
elaborar(8).

O paciente está repetindo protótipos infantis, atualizando seus desejos


inconscientes infantis nas relações atuais, especialmente com o analista,
desenvolvendo então uma neurose de transferência.

Vê-se então que as falhas do discurso, as impossibilidades de mantê-lo, desde


que parte dele deixa de ser comunicação verbal e se transforma em um viver e
atuar na transferência, são repetições e urge interpretá-las, pois é justamente
atentando para tais repetições e tendo-as como centrais no processo terapeutico
que é possível transformá-las em rememorações, simbolizá-las, integrá-las.

Ao aparecimento da transferência por parte do paciente, o analista responde


com sua contra-transferência, uma série de fantasias, desejos, pensamentos
desencadeados pelo paciente em seu psiquismo, que também serão importantes na
elaboração da interpretação.

O processo analítico terá então três referenciais ineludíveis: o discurso do


analisando, suas vivências em relação ao analista em posição de transferência e a
captação e manejo da contra-transferência por parte do analista. Freud apesar de
logo ter compreendido que é na transferência onde vão ser travadas as batalhas
decisivas da análise, nunca deixou de enfatizar que o analista deve limitar a
neurose de transferência, através da rememoração. Ou seja, Freud insistia que o
objetivo da análise era a rememoração do passado e, quando este nÃo era
rememorado e sim "transferido", interpretava e construia para preencher suas
lacunas.

A importância da transferência e da contra-transferência pode levar a algumas


distorções como a excessiva preocupação com a interpretação do aqui e agora.
Desconsidera-se então a interpretação do passado e a elaboração de construções
como racionalizações e intelectualizações que visariam a negar o que efetivamente
estaria ocorrendo no "aqui e agora", na "transferência" e a "contra-transferência".
Contra estas distorções é importante lembrar que uma exaltação da relação
transferencial em si, como bem lembram Laplanche-Pontalis(9), é um equívoco no
qual Freud nunca incorreu.

A este respeito diz Etchegoyen: "No momento atual, há uma grande discussão,
que vem de longe, entre os que reivindicam a construção como o verdadeiro
instrumento de análise e os que, ao contrário, a desqualificam ou não a levem em
conta... Indo agora ao fundo da questão, direi que há, sem dúvida, divergências
técnicas entre os analistas que põem ênfase no atual e os que prestam atenção ao
passado. Aqueles interpretam (e interpretam fundamentalmente a transferÊncia),
estes constroem. Existe, por certo, dois tipos polares de analistas, que Racker
(1958) caracterizou como os que usam a transferência para compreender o
passado e os que usam o passado para compreender a transferência. Na mesa
redonda que se realizou na Associação Psicanalítica Argentina em 1970, um
decidido partidário da construções, como Avenburg, diz que estamos intoxicados de
transferência"(10).(grifos do autor).

O que está em jogo, na verdade, é a existência de divergentes linhas teóricas


pós-freudianas, que levam inevitavelmente a alterações na técnica, na prática
clínica, estabelecendo diferentes visões do processo analítico, a diferentes enfoques
no manejo da transferência.

Willy Baranger sintetiza bem este problema, ao estabelecer um divisor de


águas entre as escolas kleiniana e a freudiana de corte francês, as duas mais
influentes e atuantes em nosso meio. Pela clareza e poder de síntese com que
expõe o problema, vou citá-lo um tanto extensamente.

Diz ele: "O conjunto de fantasias descoberto por Melanie Klein com Édipo
primitivo enriquece sem dúvida nosso conhecimento do mundo imaginário humano;
a elaboração teórica deste descobrimento leva a uma desvirtuamento implícito da
teoria freudiana do Édipo e a uma modificação profunda e muito discutível da
técnica."
Continua: "A correta colocação recíproca da relação dual e do triângulo, do
Édipo tardio e do precoce, não é um problema acadêmico, mas que, ao contrário,
orienta basicamente nossa atitude analítica e nosso posicionamento na situação
analítica. A preeminência absoluta acordada na órdem cronológica e lógica (pela
aplicação extrema do enfoque genético) à relação com o peito, nos pode fazer
supor que, no fundo, toda relação transferencial se reduz à relação dual com o
peito ou com a mãe. Basicamente, a transferência se colocaria dentro de um
marco materno de nursing ou de holding, o que corretamente nos pode incitar a
dualizar em forma sistemática constelações que, na verdade, são triádicas, quer
dizer, a forçar abusivamente a transferência materna. Esta maternalização da
relação pode levar a privilegiar a linguagem oral nas interpretações, em detrimento
da problemática especificamente edípica. Maternalização, oralização,
dessexualização (no sentido da sexualidade genital), tais podem ser as
consequencias de uma exagerada enfase sobre o enfoque genético.

"Ao contrário, a função específica do analista nos parece se colocar no registro


essencialmente paterno (independente de seu sexo efetivo, naturalmente), já que
se situa no limite mesmo que separa e define a órdem imaginária e a ordem
simbólica. .... Por isso a função do analista aparece como vinculada de forma
intrínseca à função do pai como instituidor da castração. O analista se pode prestar,
por sua presença atenta, à criação de todo tipo de fantasias e sentimentos de
índole diádico, mas cada vez que interpreta, rompe com a díada e reduz ao nível de
ilusão sua anterior participação no vínculo diádico. Repete, ao interpretar, o que fez
o pai ao proibir o incesto"(11).

A crítica que Lacan (12) faz da compreensão e manejo da transferência presas


excessivamente ao aqui e agora da sessão analítica e no uso abusivo da contra-
transferência, baseia-se no pressuposto de que, em fazendo assim, o analista fica
preso a uma situação dual, imaginária, especular, narcísica. Esta situação
corresponde exatamente ao desejo do paciente. Ao analista compete interpretar e
não atuar esta situação fruto daquele desejo. Para tanto não pode ocupar aquele
lugar, deve dele sair, ocupando o lugar do Outro, simbolizando, construindo.

Ainda quanto a este ponto referente a modificações profundas e discutíveis da


técnica, Etchegoyen faz uma interessante observação: "Os analistas que em
Buenos Aires abandonaram a teoria kleiniana para retornar a Freud ou dirigir-se a
Lacan, registram eles próprios que uma de suas primeiras mudanças foi começar a
colocar menos ênfase na transferência. Essa mudança na praxis é sustentada com
vários argumentos teóricos, por exemplo, que se deve atentar mais à história que
ao presente, isto é, que se deve reconstruir mais que interpretar, que se deve
interpretar as transferências com as figuras importantes da realidade não menos
que com o analista, etc"(13).

A meu ver, é um exagero separar tão radicalmente interpretação e construção,


coisa que o próprio Freud não faz, a ponto de descrevê-las como momentos
diversos de uma mesma operação, ou estabelecendo uma relação entre parte
(interpretação) e o todo (construção).

Diz Freud: O analista completa um fragmento de construção e o comunica ao


sujeito da análise, de maneira a que possa agir sobre ele; constroi então um outro
fragmento a partir do novo material que sobre ele derrama, lida com este da
mesma forma e prossegue, desse modo alternado, até o fim. Se nas descrições da
técnica analítica se fala tão pouco sobre construções isso se deve ao fato de que,
em troca, se fala nas interpretações e seus efeitos. Mas acho que construções é de
longe a descrição mais apropriada. Interpretação aplica-se a algo que se faz a
algum elemento isolado do material, tal como uma associação ou uma parapraxia.
Trata-se de uma construção porém quando se põe perante o sujeito da análise um
fragmento de sua história primitiva, que ele esqueceu....(14).

Para mim fica claro que quando Freud fala de construções, não se refere
apenas às grandes construções sobre o passado histórico do paciente, mas
maneiras de construir o próprio material da sessão, pois as construções são uma
decorrência inelutável da logica paradoxal própria do Inconsciente, a lógica da
fantasia, do desejo.

Darei em seguida uma visão de como entendo a transferência, a interpretação,


a construção, a revelação do inconsciente do analisando.

A maneira que escolhi para fazê-lo é mostrando fragmentos de material


clinico. O objetivo aqui não é apresentar uma sessão inteira ou mesmo mostrar
respostas do paciente às interpretações e construções, sabidamente a única forma
que temos para validá-las ou não. Tento captar o analista em seu papel, em seu
ato e ação, ao dar sentido e significação àquilo que aparentemente não o tem.

Como já vimos, a interpretação e a construção são hipóteses organizadas a


partir dos referenciais teóricos do analista. Desta forma, não é por acaso que os
materiais escolhidos evidenciam muitas vezes a problemática da castração,
conceito teórico de suprema importância no aparato teórico freudiano e neo-
freudiano francês, com o qual muito me identifico.

(*) – Este texto, ligeiramente modificado, faz parte de um trabalho


apresentado no simpósio FREUD E JUNG – 90 ANOS DE ENCONTROS E
DESENCONTROS, realizado sob os auspícios da Sociedade Brasileira de Psicologia
Analítica no Museu da Imagem e do Som de São Paulo (MIS-SP), em 17 e 18 de
maio de 1996 e publicado na revista JUNGUIANA (no. 14).

BIBLIOGRAFIA

1. Laplanche, J. - Pontalis, J.-B. - Vocabulário da Psicanálise - Moraes


Editores - 3a. edição - 1976
2. Freud, S. - Estudos sobre a Histeria - vol. II - Edição Standard -
Imago
3. Freud, S. - A Interpretação dos Sonhos - vols. IV e V - Edição
Standard - Imago
4. Freud, S. - A Psicopatologia da Vida Cotidiana - vol. VI - Edição
Standard - Imago
5. Freud, S. - Chistes e sua relaçaão com o Inconsciente - vol. VIII -
Edição Standard - Imago
6. Freud, S. - A Dinâmica da Transferência - vol. XII - Edição Standard -
Imago
7. Freud, S. - Construções em Psicanálise - vol.XXIII - Edição Standard -
Imago
8. Freud, S. - Recordar, repetir, elaborar - vol. XII - Edição Standard -
Imago
9. Laplanche, J. - Pontalis, J.-B. - Vocabulário da Psicanálise - Moraes
Editores - 1976- pg. 674
10. Etchegoyen, R. Horácio - Fundamentos da Técnica Psicanalítica -
Artes Médicas - 1987 - pg. 199
11. Baranger, Willy - El "Edipo temprano" y el "Complejo de Edipo"-
Revista de Psicoanalisis - vol. 33 - 303-314
12. Lacan, J. - La dirección de la cura y los princípios de su poder -
Escritos I - Siglo Veintiuno Editores - 1971
13. Etchegoyen, R. Horácio - Fundamentos da Técnica paicanalítica -
Artes Médicas - 1987 - pg. 109
14. Freud, S. - Construções em Psicanálise - vol. XXIII - Edição Standard
- Imago
15. Smirnoff, Viktor - O Modo Interpretativo in "Como a interpretação
vem ao analista" organizado por René Major - Escuta - 1995
16. Lacan, J. - La significación del Falo - Escritos I - Siglo Veintiuno -
1971