Você está na página 1de 552

COROGRAFIA

PORTUGUEZ A

E DESCRIPÇAM

TOPOGRÁFICA

DO FAMOSO REYNO DE PORTUGAL, COM AS NO-


ticias das fundações das Cidades,Villas,ScLugarcs,que contem;
Varoés illuftres,Genealogias das Famílias nobres,fundações
de Conventos, Catálogos dos Bifpos, antiguidades,
maravilhas da natureza, edifícios, 8c outras
curio fas obfervaçoens.

TOMO PRIMEYRO,

Oferecido

A ELREY D PEDRO II
NOSSO SENHOR,
AUTHOR

O P. ANTONIO CARVALHO DA COST/


Clérigo do Habito de S. Pedro, Mathematico,natural de Lisboa.

LISBOA»

Na officina de VALENTIM DA COSTA DESLANDEí


Impreííor de Sua Magcftade,& áfua cuíla impreílo.
Com todas as listr^as neccfíanas. Anno M DCC. VL

wtr/dsk, Ciivaiho dt Miranda


! t

r , r - "»

í ■•' ■ Ji

.
• • -: n - ." ' -if
■ -v .- '* K i

* I "r-V' •? /- " v >

' v"
1
' 4. • -

'
.
'
A MAGESTADE

DO SERENÍSSIMO REY

DOM PEDRO R

I ^ MOSSO SENHOR-

E a grande^ dos Trirtcipcrfe nan uniffe com a bene-

iolencia, receofos os humildes com aquellc rejpeito que


jmpre parece terror, naofe atreveríaÕ a invocar o feu,

lugujlonome , nem a taofublime esfera chegariao as.

fuas votes fMas como V. cfMagejlade, Senhor, entre as fobe-

ranas virtés,de qm fe adornarem como dominante a da clemên-

cia,juslaneite Ie alerta a minha indignidade a bufe alo por Trote-


ãor de hun livro, em pue de algum modo pareceria desleal,Je o nao
ojjerecejfe a V»^SSttag» porque comprehendendo esle a exacla dej~

cripçao dovijfo domínio de V^.zS^dag* em Europa, a quem com

mais rataipoàaotocdr efias individuaes noticias, fe nao ao fob e-


rano ó\dmvca, de quanto nefla obrafe inclue?
Sfamnoro, Smhor, que na dilatada compre henfao de V.

tSMag. iwfira now algum dos curiofos defcobrimentos, quefi£

■ com o traklk de matos annos nos mais antigos Archivos dejle


%eyno, comido a myor parte delle, &• examinando com os meus

olhos os domentos, tue tantas vetgs chegao, ou confufos, oufal-


fificados aoMvidos.

He HaSHag. senhor de tantas povoações, qne nao podia ef-

treitarfê a)ia ii fcripçaõ a hum fó volume, &■ iflo me obrigou a di-


§ ij vidir
yidir cfia Corografia em dous tomos ,parecendome\uíonad efque-
cer, quanto pude alcançar de noticias ate gora nuncjcferidas, ç>

rompendo antes pelo perigo de parecer dijjujo, í/o quwporme ao re-


paro de ficar diminuto, íowojy ^ difficil emprega fido na efperan-

ça dogrande patrocinio do Heroea quem a dedico,ódo verdadey-

r o amor dapatria,que me fefinter poli ar os eíludos kjlronomcos,


a que me inclinava com mayor fympatia o génio, & curiófidade,

fogeitandome às apertadas obrigaçoens de Hiftoriaá', &- trocan-


do pelos infalhveis computos daEi fera os duvido)os jumentos da

Hijloria.z5M.as tambehcesfera a deferipçao deToitgal, diga-o

a catholic a emprega do Senhor bRcy 'D. z5S/íanoely dilatado do-


mínio com que abraça as quatro partes do mundo; ú f obre tudo o
generojo Sol, fnappfi^L VfzlMag. foberanamcik a illumma.
ÍA Corografia hiflorica defte %eyno hc todo o apego de fie li-
vro'. nelleverà V.zSMag.o numero das Cidades fixfrtzmtamag-

nificência tem engrandecido com obrasfumptuofas, tn ajfegurado

Comfortificaçoens inexpugnáveis: as VMasque com mima benig-

nidade tem illuflrado com privilégios: os Lugares, fie tem erigi-


do em VMas, &■ a que tem ampliado os ternos: os curtos, a q tem

feito maisferteis a providencia, boa difribuiçdiá frutos: os

rios, a que para efic fimje tem detido as correntes, fmdo a mda-

groja attençao de V. zSAdag. ou retrocedeis, oumífas: os por-


tos, que como Empórios, recebem os tributos, q pagák íV.zfXfág.

tantos pakes fobjugados pelas triunfantes armas cPrtuguezas>

guarnecidos efies portos com bem municiada fortaleza, em quefe

regifido tantos navios, quefazçma esle d\em abundàite Mo mais


rico comercio: os Vajjalios,que obedecem a E.zLMbgem t ao gra-

de numero, que naofoy o menor trabalho pocer numerJlos, C7* to-


dos efies tão bem regidos pela Augufla direaao de VfiAíag. que

najua equidade vem obfervada fem rigor ajufiiça, igual com

ajufitça a clemência, prevenidos para agucracomtxcla difcipli-

na> & gomando da paçgcom fehcefegurança: veràV z5Mag. fi-

nalmente,
vdmente, nefie'livro os Templos, que compitfjima %eligiao tem
fundado.reedificado, O* enriquecido, eternos, &fegurosTadroes

do Cathdiço %lo,com q.ue V.zCMag. attende ao culto divino com

firmifjimafè bem empregada magnificência.

Tudo isto penhor,ver a F^zSMag.ou por melhor di^er, veria

neste livro , fe a capacidade do feu £Author corrcfpondefje d gran-

dc%a do alfumpto; mas como nao pey doei a trabalho, ejludo, ou dif -
pendio,para q efta CorografiaJahi/fe apurada,efpero que aospès de

V. éÁ/hg. ache,fenao aceitaçaõ, ao menos de/culpa do %lo, com

qke aeferevi, &• do defejo, com q qui^ra ampliala, vendo aumen-

tar contra os infiéis o Império de V.^VLag. que o Ceo queira dila-


tar com tad largos confins,&• perpetuar por tantosfeculos,que o que

he hoje Corografia,venha a fir (geografia TortuguetafDeos guar-


de a JÍ&lTeffoa èrV-z éMag. por tantos annos, que de-
/empenhem efies vaticínios, & ejles dejejos.

O P. Antonio Carvalho da Cofta.

* t. i j'\j Jli'Jm. x.riil*

U PRO-
!
»»" . ■' k
\

PROLOGO

Ste livro íahe a luz, depois de muitos annos de efperaí


doj&de defejado difteramosftenaõ fe equivocara a utili*
dadedaobra com a iníufficiencia do Author; emne*
nhum tempo pudéramos recear mais a ceníura dos cri-

tic os < ue noem


i n , » l que fe imprime, p°rqueo menor re*
paro baíU para deftrmr ao mayor artifice,fem advertirem que aqui
o eltilo he hum accidente,que não oífende a eííencia,pois fe não de-
vem bufcar neíh obra mais que asnoticias, ouíe nos he licito dizei-
lo affim, hOa anomia do Rebele Portugal, em q le veraõ min*
damente delineadas as partes interiores, de que fe cônoem efte gran*
dé corpo, ategora tao pouco examinadas dos AutKbF^T-mjrfocarao
elta materia, que nos não foy neceíTario menos eftudo para emendar
os erros de alguns, q parafupprir a falta de outros.
Rodrigo Mendes Silva na fba Poblacion General de Eípanha ie
moftrou mais antiquário que Geógrafo, dando melhores noticias das
antiguidades, que das fituações das Villas, naõ fazendo menção de
giande numero delias, nem das muitas particularidades, q nefta obra
ajuntamos. A efte íeguioa Geografia Bíaviana , & outros Eftran^ei-
ros, entre os quaes he o q melhor trata do hiftorico 8c da Corografia
deite Reyno Pedro de Aviti no feu Mundo,acrefoentado por Rocol*
Jes: das alturas o famofo P. Joaõ Bautifta Ricciolo da Companhia
de Jeíus, Baudrand na fua Geografia , 8c entre os Mappas tem o pri-
meiro lugar o de Sanfaõ. Mas todos eftes Authores, como foraõ eí-
trangeiros, eftão cheyos de muitos defcuidos,que naõ deftroem aTua
capacidade, porque eícreveraõ de hum paiz, que não viraõ,fiados em
relações, que coftumaõ fer fabuloías.
Pura as antiguidades tivemos melhor foccorro nos Authores da
Monaiquia Lufitana,no Illuftriflimo D. Rodrigo da Cunha,em Gaf-
pai Eftaço.em ^eorge Cardozo, Luiz Marinho de Azevedo, Andre
e Refende, Manoel Sevenm de Faria, & em todos os mais,que com
auto acerto forao curiofos indagadores dos monumentos Luíitanos:
mas hum dos noffos prmeipaes intentos foy naõ repetir do q os ou.

tros
Eros jà referirão,fenaõ ó eííencial pata o noiío contexto, allegândo-OS
em todas as partes, em que era precifo , & acfeíeentandolhé todas àS
noticias, que laboriofamente defcobrimos.
Das fundações dos Conventos , & dos outros edifícios públicos,
dizemos o que podemos alcançar , ainda que de algumas naõ achâ*
mos memorias. Os catálogos dos Arcebifpos, 8c Bifpos tiramos dos
Cartórios das Sès,& das Hiftorias Ecclefiafticas. As Genealogias das
familias illuftres tresladamos dos livros mais fidedignos, nao íe repa*
rando nas muitas illuftres, de ^ nao tratamos , porque ío o fazemos
dos que tem algum fenhorio nas Villas, Sc lugares,que defcrevemos,
para fe ver ao mefmo tempo a mudança do domínio, que ti verão , 8c
como a grandeza dos noííos Reys as repartio por tao beneméritos
Vaííallos, cujos deícendentes ao prefente as pofluem.
Com hum largo giro, que fizemos por todo efte Reyno, obiei*
vamos a arrumação de fuas povoaçoens , as diftancias entre humas,
& outras, as alturas das principaes , fétvindtfftõs muito a efte hm o
eftudo, que femprecultivamos das Mathematicas. Os olhos nos m*
formarão do eftado prefente de tudo o que fe deícreve: asethimolo*

pias dos nomes, as tradições dos fucceflos, os milagres que naõ eftaõ
approvados, & as maravilhas da natureza, que ieferimos, nem defen-
demos, nem condenamos, mas ingenuamente expomos ao juizo , 8c
credulidade dos Leitores, que piadoíamente devem perdoar todas as
omiííoens em taõ vafta materia , em que nos foy preciío-fiar de in-

formações, que nem fempre faÕ verdadeiras,& de que procurámos as


quenóS pareceraõ melhor intencionadas.

Ifto he o que podçmos dizer defta obra,que ãgõra fe não efta per-
feita , fe ve ao menos terminada , tendoa principiado muito grandes
Authores, entre os quaes fe confervão com grande magoa de fe naõ
continuarem poucos cadernos do Atlas Lufítano , que doutamente
efereviao muito illuftre no fangue , 8c no talento D. Antonio Alva-
rez da Cunha, & para que defta fua obra vieíkmos a perder tudo,
nem efta introducção tivemos a fortuna de ver. O Padre Joaõ dos
Reys da Companhia de Jeíus, Alemaõ,bom Mathematico,& infigne
na Perfpeétiva, & Pintura,delineou a Topografia de Portugal com
todo o acerto , & defejaramos poder unir eftas plantas com as nolTa.
deferipçoens, para que não ficàra qUe defejar aos curiofos , o que fa-
remos,podendo-o confeguir, íe efta obra for bem aceita, na fegunda
imprefiaõ,como também alguns Mappas com mais exacção ^ os que
fe tem impreífo.
v ^o devemos reílituição ao publico ein fazçr quanto eíleVeem
nos, para que íahiííeeftaóbra ícm defeito-; 8c. podemos dizer que
perdemos a íaude, o deícanço , & o cabedal no exceíTivo trabalho,
gr'andedeivelo , & muito difpendio , que tfàzem com figo jornadas,
exames, & treslados: mas tudo daremos por bem logrado, íe fe reco*
nhecei que o zelo , & não o interefle nos obrigou a tomar tão ardua
em preza. Efta eíperamos ver confeguida na íègunda Parte, que Te
legue, logeitando-nosa todas asceníuras,queos Leitores livremente
fazem,íem que valha contra o leu rigor nem a fiacei idade,nem a fub-
(luílao.
J
f r«. ■ ■ ' * í . ' \
tJCri ; \ 3CnT:temc
, • Valléè exab .

mof.bl l ..grrtfia omoc.b. ?rr>;.


:
ú msitfr
SEN-
SENTIMENTO SOBRE A TOPOGRAFIA
Portugueza, com que fahe a luz o muito Reverendo Padre
Antonio Carvalho da Cofta,

PELO DOUTOR GASPAR LETT AM DA FONSE€ 4


i
natural da Tdia de Lhornar^

NEfte volume Geógrafo,que menfurado aqui reconheço pe-


la compaçoía penna de V. M. f íe me naõ engano) veio

memorias, que o efquecimento lhe ufurpava:com aue nío r?°lu ã


f

no fe 305 golpes da efpada


Xt£S&° g0S da T ' ' ««
ll 1/ .j PJuma' 1ue 0 ccerniza. Sò fey que a V M
ruir eíla
ruína, a0fmay0raEEl?af0
ft o defenrertTpS 'p0rqUerea<
a memoria.
uella 0
Nai eftimação
deícobrio para
dos mafs Ima'
perios he o noíTo pouco mayor 4 efte volume , em cujo eftvlo m-ír"
os monres altiveza, deleitação os valles, coríenwza os Z f, /
mento as povoaçoens, & finalmente valentia os Hernpc vi "/■a"
â
omnipotência do Rey fupremo fe vem a recopilar LnT
nor esfera,defle modo a esfera dos Senhores Revs I,. r> 1M mC
f
Deos defende como lua, também na limitação que occup^qul^
clarar que era aflento de taõgloriofo Monarca comovi • T
arnente
o demolir» nas gravadas divifas do feu Eftendàrte •
taõ breve termo, fó V.M. podia medir muitas grandezas ^ Ti™
togai fejà pelo valor dos feus Campeões fe tLladou de Europa° a
Afnca, a Afia, a America, deíde agora todo o mnnrU f - n ^ #
porque em volumes virá a occupaf a r• dondez»tot
Portugal defendido à força das armas & ísTh 1 ,A e
g°« %
à razaõ das letras, os feuslmazeSt
Tuas efpadas; que na verdade as linhac c • * pinmas as

ssstóasssiSSS
Monarquia tao agradavel nefta ToPograpTa hJ-
por regalo,quepor obediência não venhaa^lr o foliol Zd"?3^
tofojugo? (abendo V. M. mais conciliar coZ narração "

y V;M 0 £az tao


• ' Pohtlco> q«e nefta ImpreíTaõ lhe enfina a
M ir pagar-*
- Wrlhe aos feus ivifita. Ainda corn os naturaes V. M. o deixa

íS^So * rodos fern a pejo


frr s abrindo efte livro-

topa cada qual o lugar, bndefoy nacido.


idade hi devorado, aqui rena ° a "giftrar
agradecido com os leytoies , p ' 3 • fe vè lo<*orecom«
efte volume para ap.plaudir hua acçaota > ^ exanplo feja
peníado ouvindo os crec.«os a ua ou^ ^ y ^ 0 Jcixa tao
toda a alma da hiftona, & ette tao i . refufcitaos feus He*
dócil, que paffa a ^^t^^cirTuisX^hfdis honras, mod
ròes antepaflados, ah. Ure meta nelteso c,ra ^ ^
trandolhos laureados do mereci c_e(fe tvaC a para a doutrina.
quãdo affitn ™ g™"eote g
n fto u lL
Ate ' H '^ ' d ^ ere tcírtra por coftume produzir junta-
aonoito .ey ,p artes & esforços,he tal efta eftampa, que

mentecomas u. n wPndo a Portugalde maravilhas ^eftà re-

ainda quando efta engrandecendo a . g


P
veftindo de prerogat.vas a feus ifiU«*poikr. efte Q lhe deve a
na natureza com o or.gtnaiComque^ y n£fta

Kvi^,d»

guarde a VM. Thomar,&c.

Gajpdr Ltytau dc& FOV[M&'

fuM .ÍTlll-rÍ2C
Oiii
Eft
EM LOUVOR DA TOPOGRAFIA PORTUGUEZA

idílio

DO DOUTOR GASPAR LE1TAM DA FONSECA*

EM elegante Mappa demarcada,


Confinando coma meíma eternidade)
Aqui commageftade
Torna à idade dourada
A noíTa Luíitania celebrada,
Recordando foberba por vangloria
Hum novo mundo jà em cada memoria.
Efta he a nova Heípanha,
Que do Colon tentou a induftria eftranha,
Eíla a íempreluzida
America florida,
Oh foberano engenho,
Que inda por paílatempo
Conquiftas a razão, vences o tempo!
Jà Portugal agora
He força na grandeza ter melhora,
Porque le eftà medido
Por tua penna, bem tenho entendido,
Que já nos Annaes ande
Elie muito crecido,
Pois por medida tem penna taõ grande.
Eterno efte tranfunto
Dando à pofteridade
Renacida a mayor antiguidade,
Em toda a redondeza
Vivirá, pois que agora por aífunto,
E mais por alta empreza,
Toma as coníervaçoens da eternidade,
Deixandode profundo
A Portugal, com taõ fútil grandeza,
Eterno, & Portugal eterno ao mundo.'

V ,s§ij Ao
AO LIVRO DA DESCRIPÇAM DE PORTUGAL QUE
coro louvável zelo , & alca erudição eícreve o Senhor

ANTONIO CARVALHO DA COSTA,

SONETO.
OS celebres Varoens da antiga idade
Em osíilveftres troncos vegetáveis
Efcritas as Hiftorias memoráveis
Encomendavaõ á pofteridade.
Mas hoje, por mayor celebridade.
Do Reyno Portuguez as admiráveis
Defcripçõés, neftas folhas veneráveis
Efcritas fe propoem à eternidade
Folhas íaõ de huma Planta peregrina,
Planta. fecunda, naõjilyeftre planta,
Racional, & naõ vegetativa:
Laminas cedaõ de efmeralda fina,
Pois Lufitaniaquer, que hiftoria tanta
Em folhas de Carvalho efcrita viva.
♦ ' o -

AO SENHOR ANTONIO CARVALHO DA COSTA,

SONETO.
SE fazemfer illuflre,& afamada
A Feliz felva Arabica abundante,
A planta que licor íua fragante,
E a Ave que entre as chamas he gerada.
A felva Luntana, celebrada
Será por vós, Carvalho, que elegante,
Planta Íbis pelo nome viridante,
Sois Ave pela penna remontada. t ;
, Suaftes com trabalho eftudioíô
Aroma, que em fragancias exalado
Enche çla Fama o Templo funtuofo:
E em zelo ardente Feniz abrazado,

Fazendo o patriôTgiiho gloriôío, '


VoíTo nome deixais eternizado. > ccun^:

„ Salvador Soares Cotrim»


LICEN-
LICENÇA S.

Do Santo Officio.

O Padre M.Fr. Joaõ de Saõ Domingos Qualificador do S. Offi-


cio veja os livros de que efta petição trata,& informe com feu
parecer. Lisboan.de Janeyrode 1701.

Carney»- Moniz. Fr.Gonçalo. Monteiro. 'Duarte.

LI os dous livros que contem a primeira Parte da Corografia


Portugueza,& Defcripç*aÕ"Topograficado Reyno de Portugal
compoftos pelo Padre Antonio Carvalho daCofta, Clérigo do ha*
bito de S. Pedro, & nelles naõ achey coufa alguma contra noíía S.Fè,
ou bons coftumes. S. Domingos de Lisboa 16. de Junho de 1701.
Fr. João de Sa» Domingos.
O Padre Doutor Fr. Jeronymo de SantiagoQualificadordo San*
to Officio veja os livros deque efta petição trata , & informe
çom feu parecer. Lisboai8.de Junho de 1701.

Carneiro. Moniz. Fr.Gonçalo. Haffe. Duarte.

ILLUSTRISSIMO SENHOR:
POr mandado de V. Illuftriífima li os dous tomos de q fe corn-
poem a primeira Parte daCorografia Portugueza,&Defcripçaõ
Topográfica do Reyno de Portugal, Author o Padre Antonio Car-
valho da Cofta .* naõ contem coufa alguma, que encontre noíía San-
ta Fè, ou bons coftumes; antes ledeve muito à nimia curiofidade de
fèu Author, pois fendo a materia de inveftigar, & apurar antiguida-
des taõ difficultofas,ellea facilitou com a viveza de feu engenho, &
as declarou, diftinguio, & individuou com a incaníavel porfia de feu
trabalho.Parecem-medigniífimos deque fedem ao prelo,para que fe
anime a continuar híía obra que cede em taõ grande credito de noíía
patria. V.Illuftriífima fará o que for fervido. Collegio da Eftreíla em
18.de Agoftode 1701.
O Doutor Fr, Jeronymo de Santiago.
Vlftasas informações,pode-fe imprimir a primeira Parte da Co-
1 rografia Portugueza, de que efta petição trata,& imprefla tors
fiara para fe conferir, & dar licença que corra, & íèm ella naõ corres
rà. Lisboa 19. de Agofto de 1701.
Carney o. Moniz, Fr. Gonçalo. Haffe. Monteiro. Duarte.
' Do
11
„ " -
7

.(
I

. • t. ■ v
«* 3,;>,
z '

' 1
.
I > /. Í 01'. ■


*' gfc—- 1
: '• - til .{fc? jftlST; '
i '. ■ • • ás
1
J

; t-sy?? ím#a' ■ J
" -:c ; ■ . -c o •

■ t ; ( i > . ' '


\ > >"• i«1 fjv
*,{ - • J J x ... f
i •• K

\ ,r
.
U '< . V . ^

- »

ÍOÇ-.J .; *' • I '• 'Di T© Vi


I
ill
-
JK viFii
,
I
&>•/ :S "As 7 " Cv > '1
I . -1* j
; r v
• '• • '• --'" mc V!Í5Í!j3':-/ "»•-
• èo?! :;b c. ;.Vv'

* V é'' 1
Í
J i S 7 ,• " •
r /
TOMO PRIMEIRO

COROGRAFIA

PORTUGUEZA

INT ROT)UCC,AM.

Deferi pcaõCorografica doReyno de Portugal lie o aíTum-


pto delia obra. eííâ íituado na parte mais Occidental de Eu-
ropa,) & no melhor clima do mundo. A fua latitud, ou altu-
rafe eftendedeió.grãos,38.minutosatè 42.grãos ; &a
fualongitudhe de 9. grãos, 13. minutos até 13. grãos, & 12.
minutos. He hlim dos mais notáveis Reynos de Efpanha ,
^ tanto pela fertilidadedefeu terreno, quanto pelo valor -, oc
^ esforço de léus naturaes, que naõ íó vencerão, & expulfá-
raõ os Mouros das próprias terras , mas defcobríraõ mares
nunca de antes navegados, & vencendo grandes dificuldades, dilatàraõ feu do-
mínio na Africa,na Afia, & flíAmerica; & continuando com fua larga derrota,
defcobríraõ as vaftiífimas Regioens do Oriçnte, aonde arvorando o eftendarte
da Fé de ChriíIo,foraõinfinitas as gentes, que militàraõ debaixo delle, alcançan-
do muitos a palma do martyrio por meyo de tam gloriofas conquiíias.
Naõ paràraõ aqui os féus progreífos, innumeraveis foraõ as vitorias, que
confegu íraõ,eflupendas as façanhas,qfizeraõ,& inauditas as navegaçoens que
profeguíraõ; porque paífando duas vezes a Zona tórrida, que a imperícia dos
Antigos fazia mhabitavel, chegàraõ à China,8c Japaõ,em cujas dilatadas viagens
affirmáraõ haver Antípodas, que mui tos contradiziaõ;coufa tam certa, & evi-
4
dente aos fei entes nas Mathematicas.
Chamoufe efte Reyno antigamente Lufitania, de Lufo cõpmhciro deDio-
nyíio Bacho, & Lvíitania de Lvfias, que alguns affirmaõ fer o mefmo Lufo,& ou-
tros filho feu. Depois tomou o nome de Portugal dos rallos Celtas,q defembar-
candonas ribeiras do Douro, fundirão a Cidade do Porto, que chamaraÕ 'Par-
tus Galha, ou Porto Gallo, corrupto hoje em Portugal, cujo nome fe eftendeo
depois à Cidade de Braga, &fuas terras, a que os Geógrafos chamavaõ Bra-
charos ;& depois osReys de Leaõ, quando foraõ conquift ando aos Mouros va-
rias terras, lhepunhao o mefmo nome, até fe divulgar por jtodo o Reyno« ^
2 TOMO PRIMEIRO
Termina-ieeiIeReyno.pelapartc.doOi- ente com CaRelIaa velha , & pela
cio Norte com o Rey no de Galliza , St parte do de Leaõ. Pela parte doSuIfe
termina com a Província de Andaluzia, St mar Oceano , & pela do Occiclente
com o melmo mar Oceano, que o cinge dei de o rio Minho atè o Cabo de Saõ Vi-

jCCmk^0as^ecomPrid° pela cofta marítima, quefecontaõ do dito


"ábo de Sao Vicente ate a Villa de Caminha , St peia parte da terra noventa Sc
cinco, dei de a Villa de Caítro Marim atè a Cidade de Miranda : tem de largo pe-
la parte do Norte cincoenta legoasda Elia de Caminha até a Cidade deMiían-
da, Sc pela do Sul no Reyno do Algarve tem vinte St oito, que fe contaõ da Villa
de ^aitro Marim ate a de Sagres; com advertência , que todas eítas legoas fc
contaopor linha recia, St não por circular, porque então feri io mais , como fe
i e aa cncunierenciadoReyno,a qual he de 19^ legoas a rei peito das voltas
que o cercão-
... piyítk-íc efte Reyno em feis Províncias , quefaõade Entre Douro St
a ras os
il a , ^ Montes, a da Beira, a» do Alentejo, o Revno do Algarve, & a
da hítremadura. Começaremos primeiro pela deícri peão da Província de Eiitre
Douro& Minho, St logo a de Tras os Montes, as quaes comprehende eile Pri-
meiro 1 omo; & no fegundo tratargmos das Províncias da Beira, Alenteío, Algar-
ve, St Litre madurai ■

«ff»«£§» «f §0 «£■ «||o.: 4fo»of§».4 §p: offo-«ff»<*£ 3» .»<>

TRATADO I. :

Da Drovincia de Entre Douro &

Minho.
■#*> k
Omeça efta fértil Província defde a Cidade do Porto atè a Villa de
V alença do Minho, St feu deílr éio: tenjdeNorte a Sul 18. legoas
de comprido, St de Nafcente a Poente j z. de largo na mayor diíian-
cia , porque em muitas partes não tem mais de oito- Peia parte do
Norte a divide o no Minho, St o Reyno de Galliza por eípaço de' dez *
-Cgoas, St no reft ante a grande ferra de Geres : pela do Nafcente a divide o rio
Tamega, & a inacceííivel ferra do Maraõ: pela do Sul o rio Douro, St pelo Poen-
te ie termina com ornar. Chama-fe e fia Provinda de Entre Douro St Minho,
por citar íituada entre eftes dous riçs Minho, & Douro; dividindoa efte da Pro-
víncia da Beira, St aquelle do Reyno de Galliza 5 St da Provinda de Trás os Mo-
tes a fepara a já nomeada ferra do Maraõ. Divide fe em cinco Comarcas,a faber,
a de Guimaraens, a de Viana da Foz do Lima, a de Valença do Minho , a de Bar-
ceIlos^&; a do Porto, as quaes defereveremos em qinco Livros com o numero'
das Villas, St Lugares, quecontêm cada huma deitas Comarcas, começando pri-
meiro pela de Guimaraens, primeira Corte dos Reys de Portugal. ' -•

LI-
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. $

L I V R O I.

Da Comarca de Guimaraens.

CAPITULO I.

Da topografia da folia de Guimaraens.

NO Arcebifpado de Braga ,tres legoas ao Nafcente defta Cidade , tem feu ^


affento a muito nobre, & leal Villa de Guimaraens, fundada pelos Gados
Celtas quinhentos annos antes da vinda de Chrifto, com tantos nomes , ôc ety-
mologiaSj quantasforaõasNaçoens,quc a occupàraõ- Algõs Authores lhe cha-
mão Araduça,que quer dizer, Cidade de letras: outros Leobriga , que lignifica
Cidade forte: outros Latitâ,Cidade efcondida, ou Laílis, pela Relíquia que tc
do leite da Virgem '- crhorn ncíTh. Alguns a nomeão Columbina, & muitos ae
chamão Cidade de Santa Maria, a refpeito da fagrada Imagem de Nona Senhora
da Oliveira. , 4 4l , , „ .
O feu primeiro fitio foy entre os dous rios Ave,& Avizella ao pe do mote Lati
to,c hoje vemos dividido em dous nomes,no de Santa Maria , & Monte largo
entre o Norte, & Nafcente, em hum lugar altifljmo, que fuppofto íaudavel para
a vida, era falto de aguas ; & no mais alto delle ie fundouhuma torre toda fecha-
da, cuja elevada altura fe manifefta a lugares muy remotos : tem a fua porta da
entraaa 2 f. palmos levantada da terra, &. ao entrar delia a maõ elquerda elcul-
pidasemhuma pedra as letras feguintes ,Via maris-, donde querem alguns Au-
thores, que deitas letras tomàra a Villa o nome, que teve muitos annos- ^
Era efta Villa de limitado circuito,porque não tinha de circumvnliaçao mais
que mil & cento & doze paííòs, cercada dehua muralha bruta pouco alta, & iem
ameyas fobre huma barbacã, que inda hoje exifte. Tem fua Igreja Parochial da
invocarão de Saõ Miguel, que fendo na dignidade a primaz do Arcebifpado cc
Braga, ficou muito diminuta na renda, ètmoftra na architect ura a fua muita an-
tiguidade : divide a Capella mer do corpo da Igreja hum arco de pedra, íobre que
encoílaõ dous Altares, hum de cada parte, o dapartedoEuangelhohe deNol-
fa Senhora da Graça, queheCapeUaannexa ao Morgado, queinflitUÍo Dom Mar-
tinho Paes, Chantre de Coimbra,que jazfepultadoaopè da mefina Capella , &
por não haver defcendencia defta familia, houve ElRey a adminiftraçao deLe
Morgado. He o outro Altar da parte da Epiftola, de Santa Margarida, por quem
efta Igre ja he hoje mais nomeada, que pelo feu orago Saõ Miguel: he admimítra-
do pelos feus Confrades, & fenhoras da terra, que tem tomado efta Santa por ad-
vogada em feus partos.
De todas as ruas defta Villa velha fó permanece a do Caftello, chamada an-
tigamente a rua de Santa Barbara, cujo nome ainda conferva a fua porta da mura-
lha, que eftá parao Norte; com que todo o mais deftricto eftá hoje repartido em
quintaesde particulares, em cuja cultura feachão muito-s alicerfes , veftigiosde
que fora bem occupado de cafas: nelle para a parte do Nafcente mandou o lenhor A
Dom AfFonfo,primeiro Duque de Bragança , fundar hum Palacio na mageitadc
lem
A íj
4 TOMO PRIMEIRO
fern fegundo,& o primeiro na Architeclura, feito em quadro com tam iníigne ar-
te, que deixa íufpenfo o difcurfo, & a villa embaraçada na repartição da iua fa-
brica : naõ chegou a aperfeiçoarfe de rodo, por fe acabar primeiro a vida de feu
fundador.
Aíliílirãoneíle Palacio alguns defcendentes do fenhor Dom Affonfo, de que
foy o ultimo o fenhor Dom Duarte Duque de Guimaraens, & nelle falleceo a fe-
nhora Dona Confiança de Noronha, fegunda mulher do Duque Dom Affonfo.
Junto da Igreja Parochial de Saõ Miguel exifleinda hoje hum Hofpital com
huma Capella do mefmo Arcanjo, para recolhimento de pobres neceíhtados , de
que faõ aaminiílradores os Abbades daquella igreja. Tem cada hum dospobres,
quçnelle;aíTiífe, certa efmolaem todas as fellas do anno , &navefporado Natal
hum carro de lenha para huma fogueira. Atèqui a defcripção da Villa velha de
Guimaraens.
Agora para tratar da nova Villa, he neceffario trazer a eíle lugar a Dom Her-
menegildo Mendes Conde de Tuy,& do Porto, Governador de toda a Província
de Entre Douro, & Minho, Mordomo mór da Cala Real em tempo delRey Dom
Affonfo o Terceiro de Leaõ, o qual teve fua habitação em huma quinta chamada
Sallas abaixo do monte Cordova, que hoje chamão Salanana Freguezia de Saõ
Miguel do Couto de SãõTyrfo- Eíle foy cafado cõ Dona Hermenezenda Arias,
& teve delia a Dom Gutierre Arias, Conde de Cella nova , & General das Armas
dos Reys de Leaõ, com quem tinha grande parentefco, o qual caiou com aCon-
deça Dona Aldara, de quem teve ao Bemaventurado Saô Rozendò, Bifpo de Du-
me, Mondonhedo, & Compoílella, como diz Yepesno quinto tomo de lua Chro-
nica. Foy também filho do Conde Dõ Hermenegildo Mendes, & de fua mull; er
a Condeça Dona Hermenezenda Arias, Dom Gonçalo Mendes , cafado com
Dona Therefa,que habitàraõ na dita quinta,& delles nafceo Dom Hermenegildo
Mendes, que cafou com Mumadona,tia, & collaça delRey Dom Ramiro o Segu-
do de LeaÕ, & foraõ grandes fenhores em Entre Douro, & Minho, principalme-
teem terras de Guimaraens: tiverão quatro filhos, Gonçalo, Diogo, Ramiro, &
Nuno, & duas filhas, a primeira Dona Arriana, & a fegunda Dona Oneca , que hc
a que ferve para o noífo intento.
F fiando Dom Hermenegildo para morrer, ordenou feu tell amento, & para
teílemunhas do que nelle difpunha, mandou chamar algumas peífoas nobres , &
diante delias por fua devoção ordenou , que a Condeça Mumadona fua mulher
pudeffe difpender a quinta parte de fua fazenda com pobres, peregrinos, viuvas,
orfaõs, ou Igrejas; ao que elladeufeuconfentimento , como diz Gafpar Ellaç o
no livro das Antiguidades de Portugal cap.i • num.4.
Morto Dom Hermenegildo,tratou logo Mumadona de fazer partilhas de
fuas fazendas entre fi, & feus filhos, & coube à parte de Dona Oneca a quinta de
Guimaraens, & a ella a quinta de Creixomil, & como eíla fenhora determinava
viver recolhida, & morrer fantamente,quiz fundar Convento, em que fe reco-
IhefTe; & porque a quinta de Guimaraens era íitio, & lugar accõmodado para elle,
fez contrato com fua filha Dona Oneca, & lhe deu a quinta de ( reixomií pela de
Guimaraens, de que era fenhora, como confia do contrato, que anda annexo ao
livro de Mumadona , que fe guarda no Archivo da Real Collegiada de Guima-
raens.
Feita a troca,& Mumadona de poífe da quinta de Guimaraens, impetrou li-
cençajde feu fobrinho,&collaçoElRey Dom Ramiro o Segundo de Leão , para
dar principio à fundação do feu Moílciro, o qual não fomente lha concedeo,mas
o dotou de trinta lugares,os mais delles entre os rios Ave,& Avizclla, & lhe deu
o feu
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. f
&
o leu Mofteiro de S.Joaô da Ponte, em 8- de junho do anno de Chrifto de 9» 7-
em 18-de Mayo de 951 .lhe fez outra doação da fua quinta de Mellares junto ao
rio Douro com feus cafaes, em que aílinou o mefmo Rev, & a Rainha D- Urraca
fua mulher,& feus filhos> como diz Eftaço no capitulo 1.11.2 i • das Antiguidades
de Portugal-

CAP. II.

t)a fundação do Mo feiro de Mumadona, & como d fua fombra fé


foy povoando eHa

TAnto cjiie Mumadona teve licença para dar principio ao feu Mofteiro , o
fundou à honra, & louvor do Salvador do mundo,& da Virgem Santa Ma-
ria fua May , &dos Santos Apoftolos , ao pè da Villa velha em diftancia de
feifcentos & vinte & cinco paffos : foy a Tua fundação dcReligíofos , & Freiras
de S- Bento, cuja Regra guardavãocom grande obfervancia, tendo as cííicinas, &
recolhimentos feparados,mas huma fó Igreja, & hum Abbade , que governava
tudo : nelle morreo a fua fundadora, que o deixou dotado de muitas rendas , &
peças de prata de muito valor, quatro finos, livros do Coro, camas , quanto ga-
do tinha, trintacavallos,eincoentamachos,feífentaegoas , & outrasriquezas,
como condado feu teftamento feito aos 26.de janeiro do anno de Chrifto de
pç 9. que anda junto ao dito livro.
Quando elRey Dom Fernando foy a cercar Coimbra , & lançar fóra òs
Mouros daquella Cidade, Dom Pedro, fendo Abbade defte Mofteiro, o acom-
panhou cõ muitos de feus Frades, & em quanto durou o fitio, que puzerão à
Cidade, com elleíe aquartelou em hum lugar perto delia , que depois por efte
refpeitofe chamou Cellas de Guimaraens, cujo nome inda hoje conferva. Sa-
bendo Mumadona que os Mouros nam ceffavaô em perfeguir aos Chr iftãos, &
continuamente andavão fazendo eiitradas por Galliza, invadindo fuas terras ,
fundou em huma penha forte no alto da Villa velha entre oNorte , & Nafcente
humCaftello para guarda,& dcfenfa do feu Mofteiro, a quem poz onome S- Ma-
mede , & lhe ficou fervindo de contramuralha pela parte do Norte a murálha
velha, ficando entre huma, & outra hum terreno cie vinte & cinco paffos de «lar-
go : pela parte do Sul nam tem contramuralha, por lhe ficar fervindo de defenfa ,
& guarda amefmaVilla-
Tem efte Caftello de terreno dentro da fua muralha de Nafcente a Poente fcf-
fenta & nove paffos, & de Norte a Sul trinta & feis, & 110 meyo delle lhe eftá fer-
vindo de penacho a torre da Villa velha, que fe a domina com a fua altura , ellas
com a valentia, & fortaleza da fua nova muralha a defaffuftão do rifcordâs bata-
rias, por fer a fua architedlura mais forte 5 porque as fortalezas , & Caftellos fe
reforção conforme o ufo das armas com que faõ combatidos , & a inventiva
dos Homens nunca fedefcuidou de obrar novos inftrumentos çle expugnação
com novas fortificações para a fua defenfa,por fer coufa no mundo tam ufada,co-
moo manifeftãoos Authoresdas Fortificaçoens , fobre que fe tem comporto
tantos volumes, & quanto mais antigos os tempos , então menos fortificados
vivião os povos.
E aífim como no tempo da antiga Guimaraens havia menos armas para pe-
A iij lejar,
6 TOMO PRIMEIRO
lejar , & combater , & poucos os ardis da guerra , neceífitava de mu-
ralhas menos fortes, com que bailava para fua fegurança aquellá torre alta,com
quefe armou, por fercoftume entre os Antigos, para fe defenderem de feus cõ-
trarios, fazerem cafàs fortes, ôc da fua altura fia vão a fua defenfa , &. delias ef-
tao muitas pelo mundo, principalmente na Provincia do Minho, aonde íaó pou-
cos os Concelhos, Coutos, & Honras , que não tenhãofua torre ; & como da
fundação da torre à do CafteUotinhãopaffados tantos tempos ,em 'que fe pele-
java com armas violentas , mandou fazer a CondeçaMumadona huma muralha
forte,coroada de ameyas,com tres torres altas fundadasnella , &íócom duas
portas, huma para o Norte, & outra para o Sul, ot cada huma delias guardada en-
tre dous baluartes terraplenados.
Tem efteCaftello dentro do feu circuito huma cadea para os prezos que
forem da Villa, ou do feu termo, & da parte do Norte humaCapella deSaõ Joaõ
Bautifta, aonde fe lhes diz Miffa todos os Domingos, & dias Santos , & da parte
do Poente hum Palacio, de que não ha hoje mais que as paredes , que foy morada
do Conde Dom Henrique,quando em Guimaraens affentou lua Corte. Em quan-
to efte Caftello foy aíliftido de feus primeiros Reys, elles mefmos eraõ Os feus
Alcaydes móresiaodepoisíeusfucccííòres oentregavão por homenagem,& pu-
nhão nelle Alcaydes para fua defenfa, que muitos annos o habitàrão , fazendo
fua morada no Palacio Real, que depois com a fua aufencia chegou a ver muv bre-
ve fua ruína- He hoje feu Alcayde mor o Conde da Caftanheira, fern a preemi-
nência dos gados de vento, porque eífa pertence ao Reguengo , que as Rainhas
tem nefta Villa, & lhes foy julgado por fentença. No terreno, que fica entre a
muralha,& contramuralhã defteÇaítello , eftáhuma cifterna toda por dentro
de pedra bem lavrada, &: de profunda altura- Efte he o Caftello , queaCondeça
Mumadona mandou fazer para guarda do feu Mofteiro, de que trata Eftaço no
cap. 5. num-2. ^
1 . ; _ t

C A P. III.

Das Doaçoens cçue fe fixeraõ a efe A/Iofetro.

TAnto que a Condeça Mumadona teve acabado o leu Mofteiro com fuas of-
ficinas, & toda a maiscommodidade,fe recolheo nelle com os feus Mon-
ges, & Monjas, entre as quaes foy também fua filha Dona Oneca, que perfeverou
pouco tempo naquella vida, por lhe parecer melhor a de cafada, a que pafíbu ; le-
vàraõcomíigoafagrada Imagem daVirgem Maria, & acollocàraõ nelle MofteL
ro, aonde a continuação de feus milagres fez tanta concurrencia de Catholicos,.
que de Reynos,& lugares muy remotos era vifitada de muitos, aílim gente po
pular, como Reys, ôtfenhores grandes: fazendolhe muitas doaçoens , & dadf
vas, para lhe enriquecerem feu Mofteiro, como foy elRey Dom Ramiro o Segun-
do, que lhe doou o que já diffemos : depois feu filho ElRey Dom Ordonho lhe
fez doaçaõ da quinta de Moreira, com muitos privilégios, & Dom Bermudo Se-
gundo, filho defte Dom Ordonho, vindo em romaria a cfte Mofteiro , lhe con-
firmou tudo quanto feu Pay lhe tinha dado; & ElRey Dom Affoníò o Quinto de
Leaõ vindo também a elle com a Rainha Geloirafuamãy,& eftando na Igreja de
Saõ Miguel das Caldas,lhe foraõ alli levadas pelos Frades todas as eferituras, &
privilégios, & elle os confirmou na era deCRrifto de 10x4.-
1
- - ElRey
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. 7
EIRey Dom Fernando de Leaõ, quefoy oprimeiro de C ail ell a , & a Rainha
Dona Sancha fua mulher, vindo também de romaria a eíle Moíleiro, lhe confira
màraõ luas efcrituras,& privilégios , & de novo concederão ao Abbade Dom
Pedro, que o Vigario do Moíleiro tiveíTe jurifdicção no eivei, õt crime em toaa a
terra dentre Ave, & AviíTclla, & em toda a terra deS. Torcato- Foy iílo no an-
no do Senhor de 1049. Dona Fiamula, fobrinha da Condeça Mumadona, tilan-
do na fuá terra de Lalim muito enferma, fe mandou trazer a eíle Moíleiro, a(>n-
de melhorando de feus males, femeteo Freira, & fazendo feu teílamento , lhe
deixou as fuas Villas de Conde,&Faõ, como diz Eílaço no cap-11. num- 2-J-+-
& y- • • - .
Eílas Villas do Conde, & Faõ foraõ depois trocadas pelo Prior, & Conegos
da Real Collegiada de Guimaraens com as Freiras da mel ma \ illa de Conde, que
lhes deraõ por ellas a fua Igreja de Murça com í uas annexas , que fao treze Ví-
gairarias íimultaneas comos Priores, ík Cabido, que lhes rendem ( trazendoas
por Rendeiros) tres mil & quinhentos cruzados, emqueos Priores tem ameta-
de, & quando asmandaõ recolher por feus adminiílradores,lhes rendem mais-
Como os Religiofos, & Rcligiofas do Moíleiro da Condeça Mumadona vi-
viaõ tam recolhidos, &fantamente, foraõ motivo para que muitas peífoas lar-
gafTem o mundo, & fecuiflem aqutlle caminho virtuofo, como o fizcraÕ Pedro
Onecòjfc lua mulher Fafa,q dc con.nmm confentimento recolherão nelle, &
lhe fizeraõ doação de certas terras, como fevè dehum pergaminho, que fe guar-
da 110 Archivo da Real Collegiada de Guimaraens, que começa: Leixo meai erda-
des juxta Cretxomtl Frau ibus , &mulieribus S. Bierte in honras S. Marine , ej tia
dixit meus Abunculus, S. Mana apparuit in fuo tempore, &c. Pedro Gneco, & Fa-
fa,era 'B-CCCCXUU- a qual doaçaõ pela firma do pergaminho moílra fer feita
dous annos depois da fundação do Moíleiro 5 & eíle Creixomil, de que falia,
naõ era a quinta, em que a Condeça Mumadona o fundou, fenaõ hum lugar perto
delia que tem o mefmo nome,& eílá fituado na Freguezia de Saõ Vicente de Maf-
cotellos termo de Guimaraens.
Com a muita concurrtncia de Romeiros , & devotos, que vinhao viíitar a
fagrada Imagem da Virgem Santa Maria, fe ediffcàraõ junto do leu Moíleiro al-
gumas cafas, que aílim como podiaõ fer para recolhimento, & agafalho dos que
vinhaõ a viíitar eíla Senhora, também podiaõ fer para morada de alguns feus de-
votos 5 & como ellas foraõ fundadas contiguashumas com outras, lhepuzeram
o nome de Burgo, & a feus moradores o de Burguezes-
Eíle foy o primeiro fundamento da nova Villa de Guimaraens, & eíle o feu
principio, q foy muitos annos depois da Villa velha, como tenho moilrado pelos
Authores citados,& o reforça, &: verifica eíla verdade; q antes da V illa velha ex-
perimentar fuas ultimas ruínas, tinha jurifdiçaõ dividida da nova, ,& ambas eraõ
governadas por differentes Miniílros; tantoaífim, quemda hoje em humaPro-
ciífaõ, que coíluma fazer todos os annos a Camara ao Anjo Cuílodio na terceira
Dominga de Julho, que faheda Igreja Collegiada com o leu Cabido , & mais
Clérigos da ferventia delia, vaõ os Vereadores com fuas varas em corpo de Ca-
mara acompanhados de feu Procurador, Miíleres, & Efcrivaõ , &os Minifrros
de Juíliça, Corregedor, Provedor, & Juiz de fora, & entraõ na Villa velha, & na
fua Igreja de Saõ Miguel reza o Cabido certas oraçoens; & quando eíla Procil-
faõ fahe da Collegiada, leva o Juiz de fora hum pendaõ de cor vermelha, & nclle
hum painel do Santo Anjo, & chegando ao deítrito da Villa velha, o entrega ao
Vereador mais velho , em razão deílç naõ poder entrar com vara alçada aonde
naõ tinha jurifdiçaõ ; & de prefente fe éílá obfcrv ando eíle eílylo. .
A iiij He
8 . TOMO PRIMEIRO
He tradição antiga , que a caufa mayor que efta Villa velha teve paraíe
defpovoar, Sc feus moradores irem habitar a nova,fora o não ter fontes, (como
já diífemos) nem lugar viíinho donde pudeífem levar agua , por naõ tertm ou-
tra mais, que as de poços tam fundos,que para as tirarem do íeu centro,lhes cu-
ftava muito trabalho; Sc não ha motivo mayor para fe defpovoarem lugares, que
a falta delia, como a muitos tem fuccedido.

CAP. IV.

Do Foral que o Conde Dom Henrique deu à nova Hill a de


Guimaraens.

COnfervoufe o fanto Mofteiro de Mumadona com os feus F rades , & F rei-


ras até o tempo do Conde Dom Henrique, o qual quando tomou poífe de
Portugal (q lhe foydado em dote por elRey D- Affonfo o Sexto de Caftella cÕ
a Rainha Dona Therefa fua filha , pelo ajudar a lançar fóra os Mouros de Efpa-
nha) fez feu primeiro aílento na Villa velha, como fica dito, Sc já nefte t empo a-
chou a Villa nova principiada no feu Burgo, Sc lhe deu Foral com o nome de
Guimaraens, que eftá na Torre do lombo no livro 2. das coufas de Entre Dou-
ro, Sc Minho foi- 7o-ScdizoForal; NMoCavallario non habeat poufadam m El-
mar anes mfi per amor em Domini fut> & nullum fagionem non ft attjus intrarein ra-
fa deBurge per malavoluntate &c. quer dizer , que nenhum Cavalleiro tenha
oufada em Guimaraens fenão por vontade de feu dono, Sc nenhum Sagião (que
comefmoque Miniftrode juftiça , como diz Morales parte g- liv- 1. §. 35.)
feja oufado entrar emcafadeBurges contra fua vontade- Nefte Foral moflra o
Conde feparadaa Villa do Burgo, ou que o Burgo tinha o nome da Villa de Gui-
maraens ; porque fallando do Burgo, fempre lhe havia de dar o feu nome , Sc faí-
lando da Vília velha, fempre lhe havia chamar Guimaraens 5 mas o certo he que o
Burgo tomou onome da quinta, aonde eflava íituado o Moffeiro , Sc a quinta o
tomou da Villa de Guimaraens, a que efiava tão viíinha-
E bem fe moftra; porque Burgo teve principio depois da fundação do Mo-
ffeiro, Sc ja então havia Guimaraens, Sc no tempo do Conde Dom Henrique foy
continuando a fundação da nova Villa,como elle diz na doação feguinte: In 'Dei
nomine ego Comité V. Enrico titia pariter cum vxore mea Infanta D 'Terefa pla-
cuit nobis pro bona pace, & voluntate-, quod facimus cariam de bonos foros ad vos ho-
mines-, qui veniTtis populat e Vimaranes, & adillos, qui ibi habitare voluerint. Fife
Foral he o principio do que atraz fica feito menção, que vai tanto, como fe dif-
fera: Nenhum Cavalleiro poífaapofentarfe por força em cafade nenhum mora-
dor da minha V illa velha, Sc nenhum official de juftiça poífa entrar por força em
cafa de nenhum Burges, para que efte Burgo novamente introduzido não rendo
efta fogeição, poífa crefcer, Sc aumentarfe- Defta doação fe colhe , que a nova
Villa de Guimaraens foy continuando , Sc crefcendo no tempo do Conde Dom
Henrique depois de caiado com a Rainha Dona Therefa , os quaes para afaze-
rem mais honrada, Sc ir em aumento fua povoação, lhe concederão tam amplo
Foral-
Para reforçar a minha opinião de que efta nova Villa tomou o nome da an,-
tigua Guimaraens, me valho do que dizem comummente os Authores, que todas
as
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. 9
as Cidades, Villas, & lugares tomarão o nome de feus primeiros habitadores,
como também ha muitos appellidos, que os primeiros que delles ufárão , os to-
màrãodas Cidades, Villas, &: lugares, donde erão moradores, &: defies ha mui-
tas famílias nefte Reyno, como faõ Chaves, Coimbrãs, Guimaraens, Mirandas,
&c. aífim também he veriiimel, que a quinta , em que fe fundou o Mofieiro de
Mumadona,fe chamafTe Guimaraens,pois eftava ao pê das muralhas defia Villa;
& o Burgo, que nella fe fez, mudaífe o nome, como mudou, & tomafle o da quin-
ta, porque o de Burgo o não fufientou, fenão atè o tempo delRey Dom Aífonfo o
Segundo de Portugal,& ainda nefie tempo não foy comum,porque em parte lhe
chamavão Guimaraens, & em parte Burguezes de Guimarães, como fevè de hua
compoíição antiga, que fe guarda no Archivo da Collegiada de Guimaraens, fei-
ta em tempo do dito Rey, entre partes o Arcebifpo de Braga, & feu Cabido , &
da outra parte o Prior, Conegos, & Porcionarios da Real Collegiada, por have-
rem de fcrizentas as Igrejàs do Burgo, & fora delle de pagarem certo cenfo à Sè
de Braga; & dizem as palavras delia: In EccleJijs autem ali) s extra Bur pi mm qui-
bus Cimarat enfis Ecelefia jus obimet patronatus; querem dizer: Nas outras Igre-
jas fóra do Burgo, nas quaes a Igreja de Guimaraens tem direito de Padroado; &
nefta mefma compofíção lhe chama Burguezes de Guimaraens, & continua: Pre-
tere a aã um fuit, ut ft Burgueufes Vimaranenfes m quajtione, quam dicunt fe habere
contra Ai chiepifcopum Br achare femptonpotuermt per jejuei per commes amicos con-
cur dare, Prior, & Ca >0 ri Vimaranenjes fine offen fa Archtepifcopi juventeos ; que
querem dizer; Alemdiftotratoufe , que fe os feutguezes de Guimaraens na du
vida, que dizem ter contra o Arcebifpo de Braga, não puderem per fi , 011 por
amigos communs concordarfe, o Prior, & Conegos de Guimaraens os ajudsm
femoffenfa do Arcebifpo. Foy feita efta compoíição em Benavente a *5. ae Ou-
tubro do anno doSeiihorde I2i6.&nellafe ve dizer em hua parte Guimaraés,
& em outra Burguezes de Guimarães, levando fempre a prepoíição de, que indica
hiiacoufa nafcidade outra ; & do tempo delRey D-Aífonfo o Segundo perdeo
eíla Villa o nome de Burgo, & até hoje conlervou fempre o de Guimaraens.
Quando o Conde DomHérique tomou poífe de Portugal, q foy pelos annos
do Senhor de 1090. logo mandou convocar de todas as Cidades, Villas , & lu-
gares, que lhe obedeciaõ, as peíToas mais nobres daquelies povos,para nella fazer
Cortes, em que affiftio o Arcebifpo de Braga Saõ Giraldo, que nellas aílinou, co-
mo confia das liçoens do Officio defie Santo, que a Igreja Bracharenfe canta aos
5. dias de Dezembro; &já então não affiftião Freiras no Mofieiro deMumadc-
na, fenão Frades, & Clérigos; porque fe a primitiva Igreja tinha tolerado que
houveífeMofieiros,emque moraíTem Frades, & Freiras, ainda que com fua dt-
vifaõ;comtudo S. Gregorio Papa confiderando os perigos, que podiaó fucceder
defia união, os prohibio, como diz Santo Antonino na 2 • parte de fuaHifioria
titulo 12.capitulo 3. §. 14.
Nãoefperàrão as Monjas do Mofieiro de Mumadona,para fe extinguirem
da cõpanhia dos feus Religiofos, outra admoeftação, como aepoisveyo do Papa
Pafcoal Segundo ao Bifpode SantiagoDiogo Gelmires,em q entre outras coulas
lhe diziaofeguinte: Aquilio de todo ponto he indecente, que em vofja terra, fegutt-
do fomos informados,mor em juntamente Monges,&Monjas,o qual deve procurar de ef-
torvar tua experiência-, para que os que aoprejente eflao juntos fejao feparados em mo-
radas muy diver fas, co for me ao juízo de pefíoas Religiofas,& para odiate fe nam ufe
de femelhante liberdade. Dado tm Later ano, amo do Senhor 1103. _ „
E como o Burgo no tempo da polfe do Conde Dom Henrique tinha já algu
principio, & na fua compoft ura dava mofiras de contin uar a grande povoação,
aflim
IO TOMO PRIMEI RO r'
aífim pelaconcurrencia de todos os Grandes de Portugal virem bufcar a Corre
do feu Principe, como pela continuação dos fieis devotos, que vinhão vifitar o
Moíteiro de Mumadona ; edificou no Burgo perto delle Cafa de Relação, Caía
dos Contos, & Torre do Tombo, aonde fe recolhião os papeis de confideraçao,
como froje ic faz 11a de Lisboa y para onde forao mudados os cjue licita eítav ao?
por mandado delRey Dom Manoel, por proviíaõ de 13. de Mayo de 1511. que
íe guarda no Cartorio da Camara.
Ainda hoje a Cafa da Camara,a das Audiências,& a dos Contos , que todas
eítaomjfticas, & contíguas,confervãoo feu antigo nome. Também fundou húa
caia de prifaõ, a que chamão Pertiga, que tem lemprc muitos delinquentes, &
he huma prifaõ, quefó em tres partes deite Reyno íe ufa delia,a faber neíta Villa,
na Cidade de Lisboa, & na de Évora, por fer huma das regalias mayores dos po-
vos, em que moítrão a fua muita antiguidade.

cap. y.

Como Portugal conferuou fempre o nome de Reyno.

ENgano foy de quem quiz affirmar que Portugal fora dado em dote ao Co-
de Dom Henrique com titulo de Condadoj porque repartindo ElRey Dom
Fernando o Magnc) feus Reynes entre ieus filhos, deuaomais velho , que foy
Dom Sancho, o Reyno de Caítella, St parte do de Leão atè o rio Ebro: a Dom A f-.
fonío, que foy o fegundo, deu o Reyno de Leão: & a Dom Garcia, que foy o ter-
ceiro, deu o Reyno de Portugal, & Galliza: a fua filha Dona Urraca fez fenhora
da Cidade de C,amora,com ametade do Infantado do Reyno de Leão : & a Dona
Elvira fez fenhora da outra ametade com a C idade de Toro.
E como foy coítume, que ficou por natureza aos Príncipes herdeiros cio Rey-
rocc Caítella ferem ambiciofos,&afpiraremaunir a fy todos os mais Reynos
de Ejpanha,ôt com anciofo animo trabalharão de adquirir o vinculo daLufíta-
nia para fua Coroa; aífim o affeftou neite tempo ElRey Dom Sancho , filho pri-
meiro delRey Dom Fernando o Magno , fahindo a conquiítar com violência as
terras, que feu pay tinha repartido com feus irmãos, & defpojando delias a feu
AíFonfo , o fez violentamente meter em huma Religião no anno de
Chrií .0 de 1071. no Moíleiro de Sahagum, apoderandofe do Revno de Leão &
Altunas, património, que feu Pay lhe tinha deixado.
Com feu irmão terceiro Dom Garcia rompeo Dom Sancho em cruéis guer-
ras, fazendo entradas no Reyno de Portugal com poderofo exercito, aonde" jun-
to a Coimbra o eítava efperando (em hum lugar , que chamão Agua de Mayas)
aque evalerofo^Capitão Dom Rodrigo Eorjàs, que o fez retirar desbaratado a
. an tarem 5 mas q muito, fe foy tam diígraçado, que fe encotrou com aouclle,c;ue
toy tronco de quem foy açoute de foberbos Caitelhanos ? & peço ao Lei tor me
de licença para fazer neíle lugar huma breve memoria de huma particularidade ,
que nao merece a deixemos ficar em filencio.
. _Entràrão neíle Reyno dous Revs Caitelhanos (além de outros, q aqui nos
nao lervem luas memorias.) com mão armada, para o fugeitarem por armas, &
azerem-fe delle Reysabfolutos , & ambos elles forão desbaratados por dous.
Capitaens dehuma mefma familia,tão zelofos deite Reyno, como quem eítava
prevendo a efeolha, que Deos tinha feito em feu defccndente ElRey Dom João o
- Quar-

DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. II
Quarto, por não haver defepârar de tal linhagem a Coroa de Portugal- Eni ra
neite Revoo, comotcmos dito, Dom Sancho com hum fcbcrbo exercito, & he
desbaratado por Dom Rodrigo Forjas em Aguade Mayas- i' az tiahi a 514.. an-
nos entrada com fimefmo intento EiReyDom João o Primeiro de Caítella,o qual
nos c ampos de Aljubarrota toy desbaratado , & vencido pelo invençivel Doiti
N uno* Alvarez Pereira, oitavo neto de Dom Rodrigo F orjàs-
E ambos çílesReys depois de vencidos, & desbaratados feguírão o cami-
nho de Santarém imas com diverfa fortuna, porque ElRey Domjoão o Primeiro
de Caílella,chegando àquella Villa, fugio logo para o feuReynoAonoflò ficou
Rey de Portugal, que foy Dom João o Primeiro; & ElRey Dom Sancho, de que
hiamos fallando, fizera o mefmo,fe não efperàrajpelo Cid Ruy Dias, que lhe a-
cudio; rr.as os Portuguezes confiantes lhe íeguirão o paífo, & comellè tiverão
fegunda batalha, na qual o prenderão, & fendo entregue a certos Portuguezes,
elíes o deixàrão fugir, o como,he liifpci tofo ; porque ie elles different que foy cõ
medo das bandeiras do Cid, qUe vinhão já apparecendo, he defeu1 pa, que le não
achou nunca cm boca de Portuguezes, por ler Nação,q nunca foube temer, &
nas occaíioês, em que ie achão com menos partido, efiqs acometem côm mayor
deliberação, & mais confiados; fc fó podem efizer, que forão com promeífas cõ-
quiliados, por fer coufa, -ue aexperiencia nos tem moilrado -.porque já o nofto
Príncipe dos Poeta. Luis de Camoens noCanto *4,- oitava 33.0 diffc aífim:
O tu Sa taru y 0 nobre Coriolano,
Catilina, & 1 ófoutros ds antigos,
6)ue contravoffas patrtas com profano
Coraçaõ, vospzefles inimigos:
Se lá no Reyno ejenro de Somam ,
Recebe fies grandiffim.s caftigos,
DizeUhe,que tatnbem dos Portuga* zes
Alguns tredores ouve algumas -vezes.
Tanto que ElRey Dom Sancho fe vio livre da prizão, fe foy ajuntar com o Cid, *c
pondo fua gente em ordem de peleja, voltàrão fobre os Portuguezes, que eftavão
cançados da primeira batalha, & lhe prenderão a feu Rey Dom Garcia, que leva-
do ao Gallello de Luna em Gãlliza, nelle morreo , & foy fepultado em Santo Iíi-
doro de Leão, & tem emfua fepulturahuma figura de meya talha com griihoens,
& cadeas,& hum letreiro, que mofira fer por treição a fua prizão 5 o qual tradu-
zido de Latim em Portuguez, diz aífim: Aqui defeança Dom Garcia Rey de for'
Jugal, & Gainza,flho do grande Rey Dom Fernando, o qual por engano de feu ir~
mão morreo na rizao na trade 112S que Hema fer a zi. de Abril do anno do Se-
nhor de topo. '
Não vio a prizão do feu ReyovalerofòDomRodrigoForjis , pòrquede-
pois de entregar prezo o Rey Caílelhano Dom Sancho nas mãos delRey Dõ Gar-
cia feu irmão, morreo à fua vifla; cuja morte foy o principio das dífgraças do
ícuRey : que o-valor de 11 a lingular, 5c efctarecida famiiia foy fempre como co-
luna, 5c muralha para feus Reys, & Reynos, como fe vio , 6c experimentou neíle
com o invicto braço do grande Dom Nuno Alvarez Pereira,progenitor dos fo-
beranos Duq ues de Bragança, Rev s de Portugal -
Não aquietou ElRey Dom Sáncho feu animo com fe appellidar Rey de Caf-
tella, Portugal, & Galliza; poVque quizmoílrar que as glorias, que alcãçou por
induílria, fabia adquirir por armas,&eílasmoveo contra fuas irmãs , que lhe
faltavão para vencer, 6c ver-fe fenhor abfoíuto de todos os Reynos , & Ellados
de feu Pay, & foy conquiftar às pobres irmans feus patrimónios, pondo cerco a
Dona
ii TOMO PRIMEIRO r
DoiiaUrraca,que eltava na Cidade de C,amora,com deliberação de lhe dar o fí m,
que deuafeu írnão Dom Garcia: mas enga oufe, porque quando fe confldcra-
va vencedor de huma mulher irmã íua,fe achou rendido , & poftrado aos pés
dehum treidor, que eflando elle apertando com ofitioapraça, para ver breve-
mente corfeguido o fim, que defejava, dentro delia fahio Bellido Dolfos , & o
matou à treição, havendo feisannos, que governava, & tendo vinte de idade,
apptllidardofe Rey de Csíklla, Leão, Portugal, & Galliza.
Não cuífou a Bellido Dolfos a deliberação tam barata, que por ella não fofle •,
atado aos pés de quatro ligeiros cavallos , que rigorofamente caítigados forão
verdugos do treidor, que a breves pafíòs o efquartejàrão, arraílandoo pela cã-
panha de C,an.ora,cm fatisfaçãode feu atrevimento j porque cofluma Deos não
dilatar o caftigo a treidores, como neíla occaíião o vemos, em que Dom Sancho
fendo treidor a feus irmãos,os defapoffoude feus patrimónios,dando valor, &
animo a Bellido Dolfos para o matar à treição , & fendo efle morto pelo modo
referido, não ficarão ambos fern call igo-
Com a morte delRey Dom Sancho favoreceo Deos a caufa de feu irmaõ fe-
gundo Dom Affonfo, que lahindo da Religião, em que cntràra por força, fe aco-
lheo ao amparo do Mouro Almenon Rey ae Toledo, aonde lhe chegou a nova do
que fuccedia naquelles Reynos, de que logo veyo tomar poffe, & fechamou Dom
Aflonfo o Sexto, ficando abfoluto ftnhor dot. Filados de feu pay , & como fe in-
titulava Rey de Callella, Navarra, Lead, Portugal, & Galliza , foy chamado Em-
perador 5 ainda que muitos querem, cue elleadquir fíecíle titulo por ganhar aos
Mouros a Imperial Cidade de 1 oledo j & por íér Principe muito liberal,(que por
iífo lhe chamàraõ o das maõs furadas) querem outros Efcntores que lhe defícm o
titulo de Emperador.
Foy efle Principe efcclí ido per Decs para tronco da illufire progenie dos
Reys da Chriífãndade: foy caiado r. titãs vezes, & entre as mulheres legitimas ,
que teve na opinião do noífo Chrcniíi a Brandaõ, na terceira parte da Monarchia
Luíitana,liv.8.cap. i 2. & 1foy huma delias Dona Ximena Nunes deGtifni^Ó,
appçllidofatal,quefempreoCto teve deftinadoparaRainhas de Portugal; nam
fó para mãy da primeira deílcReyno, que fe principiava Monarchia , mas de
prefente, em que moílra dar principio a hum império nos defeendentes de ou-
tra do mefmo tronco, Òtappellido, a fenh ora Dona LuizaFrancifca de Gufmaõ,
filha do excellentiílimo Dom Joaõ Manoel Peres de Quf^ao , oitavo Duque de
Medina Sidónia,mulher do Sereniflimo Rey Dom Joaõ o Quarto de Portugal. .
Muitos Authores quere q a Rainha Dona X imena Nunes de Gufmaõ naõ foíTc
legitima mulher delRey Dom Affonfo o Sexto de Cafteila , chamado o Empera-
dor i humdelles he Rodrigo Mendes Sylva, Chroqifta mòr de Phihppe oQuar-
to,no Catalogo Real de Ffpanha &Frey Bernardo de Britto nos Elogios dos
Reys de Portugal, dizendo, que muitos Authores aílimo efcrevèraõ; o que nam
importava que a noffa Rairl a fofle baílrrda,ou legitima •, porque hia pouco
riífo, quando muito depois delia tivemos outra, mulher delRey Dom Affonfo o
Terceiro, q foy filha baftarda delRey D. Aflonfo Decimo de Caílella, & naõ dei-
xou por iflo de fer mãy delRey Dom Diniz , que foy hum dos famofos Reys da
C hriftandade.
Mas examinando o ponto com toda a verdade, o Padre Frey Antonio Bran-
daõ na terceira parte,liv-8-cap.i2.& 13. de lua Hiftoria,diz,que fora fua mu-
lher legitima 5 & pata aílimpaffirmar , tem hum fundamento grande do Breve
do Papa Gregorio Septimo'", queelle repeteno capitulo 1 $• do lugar citado, que
diz eífas palavras: Vires rejume ilUciUmconmbium^uodfum uxorts tua con/àn-
DA COROGRAFIA PORTUGUE Z A. *1
■guinea im/H,penitusrefpue:qvalemo'mefmoqfediffe'ra-.AnirhaivosAtotalmen-
te vos apartay do matrimonio íllicito, quecelebraiies com a parenta de votTá
mulher. Cem que claramente confia deifa Bulla annullar o Papa o cafàmento
delRey Dom Affonfo o Sextocõ DonaXimena por califado parèntefcb, que
tinha com huma,&outra mulher do mefmo Rey ; porque naq uelle tempo era
tam difficliltofo aos Summos Pontífices diífimularem corn os Reys caiarem cõ
parentas., como paffarem difpenfas em taes matérias ; ótailim q'ue nullootfivt-
trinlbhio,tomada o primeiro Efcritor niffo motivo para dizer, que naô era le-*
giuim áínoífa Rainha Dona 1 herefa. • L ' ófi».",

• . • 1 ' ■ 'i-Tliji^lr. :
UVJ3
cap. Vi»1 is 1
11-jijp.'
rrto^Ishf "• l
Em que fe frofepte d legitimidade da nofsa Rainha Dona Dherefa ,
fe trata da ncjbreyt do Conde Dom Henrique feu marido.
ilfj [ ) j7». . » ><* /■>*} _ Í - V.rr ; .
MUitos fundamentos acho, que façaõ a. favor da legitimidade da nofla
Rainha: o primeiro he, ver que o Conde Dom Henrique feu marido de-
pois demorto feu fbgro EIRey Dom Affonfo o Sexto, fez oppoíiçaõ aos Rey-
nos de Caiiella,'& Leaõ, adquirindo por armas muitas terras em Qalliza , &
Leaõ,queperfcveràraõjio senhorio de Portugal depois de fua morte, do qual
diz o Conde Dom Pedro no feu livro das Famílias titulo y^que nprmra em
Aítargái eJftando de acordo com aVilladeLeaõ fehaverde entregar ^ fc oEin-
peradoii a naô ioccorreífe em quatro. mezes,como diz Branda© parte j • liv-' 8-
cap. 14. O fegundo. fundamento he.y ifer a nofla Rainha Dona Therefa fempre
nomeada por efligntulo, que náquelle tempo fó fc dava às filhas legitimas dos
Reyspelo contrario, que nem com o titulo de Donas fe appellidavaõ as que
:
eraõ baftardas>em que concorre toda a torr« nrè dos Aiwhóres-
O tçrccirofundamento he> que tendo EIRey Dom Affonfo o Sextò clè fua
terceira mulher Ma dama Confiança, tia do nolfo Conde. Dom Henrique, huma
filha chajrada DonaUrraca, &dcfua quarta mulher MadammBretã.outras #»
lhasjmma chamadaDona Saiicha, & out raDonaElvira, a nenhuma deRas deu
o Rtynode Portqgálifendo legitimas ; porquetie à primeira Dona Urraca por
mais velha,&-naoter:irmaõslhe pertencia ò Reyno ae.Caftella,bem podia feu
pay darode Porçygál,Sc Galli za aDonaiiichapua Dona Elvira fuas meyas ir-
mãs, & filhas também legitimas de feu pay & naô bufear a Dona Therefa fud
filha, a quem querem faz^tbaftarda, para lhos dar- Edadocafo q foífe baliar-
dãj,ScElRey feu pay,por feu affeiçoado lho quizefle dar por amor,& não de ju1-
í!;ça,asquc.er4ajegitimas,&:feus maridospor força de armas lho havião de
querer tirar, penrção poder fucçeder nelle fendo bafbaxda 5. o- que vemos que
não foyjuem n^HilIodãftlgunia que o manifefte; antes nos conda que o.Cam
d^ppiíj Henri que. feu marido fez guerra ao Reyno deCailctla, Sc ao, de Leaõ.
Com que he-foiiCAqnedigamos.de duas huma, ou qde a Rainha DonaThereíã
era legitima,ou que entre as filhas legitimas, Sc'baflardas dos Reys , naquelle
tempo, nenhuma differença havia- ,
Efç houvenquem diga contra a legitimidade da noíTa Rainfe Dona ffhe-
refa, que 1 u£ mãy Dona Ximeua Nunes de Gufmão fora caiada primeiro.com
I,-,, ,'v ' B Dom
«4 . TOMO PRIMEIRO
DomMoninho da Maya, de quem tivera a Dona Gontrode Moniz , mulher de
Dom Sueiro o Bom da Maya, & que não ficando viuva de outro Rey, ou Prin-
cipe, nSo havia EIRey Dom Affonfo o Sexto de caiar com tila; Te refponde,que
a Rainha Dona Mecia Lopesde Haro fendo viuva, fem í er dc Rey, nem Princi-
pe, cafára com EIRey Dom Sancho o Segundo de Portugal, & EIRey Dom F er~
nando com a Rainha Dcnaleonor Telles de Menezes , lendo mulher de joaõ
Lourenço da Cunha; porque cs appetites, & vontades dos Reys fe não podem
coarciar. .
Tenho moíirado com Authores,& razoens evidentes , como Portugal
fem pre confervou o nome de Reyno, & nao de Condado, como muitos Autno-
res querem que fofle dado em dote com eíte titulo ao Conde Dom Henrique j
como também a legitimidade de fua mulher aRainhaDonaTherela; agora di-
rey do Conde o que pude alcançar da nobreza dt feu fangue, como tronco illu-
flre dos Reys de Portugal.
Ha muitas opinioens fobre a caufa, que teve o Conde Dom Henrique para
com outros Principes,&mais gente fua aggregada virem a Corte delRey j >om
Affonfo o Sexto de Caíiclla. Di?em alguns, fora a do cafamento dcíieRey cõ
fua terceira mulher Madama Confiança, tia do noíTo Conde Dom Henrique, a
quem elle viera acompanhar. Outros dizem , vieraó ajudar ao dito Rey nas
g uerras, que trazia com os Mouros, ou na occaíiaõ cm que tomou a Cidade de
Toledo, que foy huma dascoufas mayores daquelles tempos; & eíia opiniam
he a mais certa, como confia de Juliano Acipreíle ^e Santa Juíia, que dtz, que
o Conde Dom Ravmundo, & o Conde Dom Henrique^arcntes, & depoi s gen-
ros do Emperador, vierao ao cerco de Toledo , & nellcfe achàraoprefei tes 5
pelo que podemos averiguar por mais certo, que o noílo Conde com ícus com-
panheiros vieraó ajudar ao Emperador DõAffonfo no dito cerco,porfercoufa
tam grande, quechegouo feu nome a terras muv remotas :&como eíla guerra
era tam fanta, por fer contra Mouros, muitos Príncipes Chriíiaõs fe queriam
achar prefentesnella. 4. .
DiíTehum AuthorldosnoíTos tempos em hum livro,que anda irr,preito,que
onoffo Conde era hum foldado da fortuna, que por ganhar nome, & fama , fe
fogeitàra ao rifco das guerras, & asbuícàra em l i panha, aonde naquelIe tem-
po as havia muy cruéis contra os Mouros. Naõíe enganou em lhe chamar fol-
dado, porque o foy tam grande, comoefclarecido Principe. Outros variaõ,
a/fim na fua progénie, como na patria, mas todos teftemunhaõ de í ua nobreza,
dizendo, que era de fangue Real de França, Inglaterra, Alemanha, Borgontia,&
Aragaõ;& todos dizem bem, porque de todas cíias itiuífres Caías teve o feu

- & A patria verdadeira do noíTo Conde foy Borgonha , porque foy filho de
Henrique Duque de Borgonha, & de fua mulher Elia de Semier , neto de Ro-
berto,& de fuafegunda mulher Mengrada de Samurque, que teve a inveíiidu-
ra dos Eftados de Borgonha: bifneto delRev Henriquede Frimça , & de fuá
mulher Anna :terceironeto de Roberto,& de fua mulher a Rainha Dona Con-
fiança a Candida Reys de França: quarto neto de Hugo Capeto Rey de Fian-
ça, & de fua mulher Dona Branca. Com que fuppoíio que o noíTo Conde te-
nha tanta parte do fangue Real de França - comtudo a fua principal patria foy
Borgonha, pois forão E fiados de feu pay, & avós.
Foy o nòffo Conde o filho poílhumodefeus pays, porque o primeiro, a
quempor direitopertenciãofeusEíiados,fe meteoMonge,& os largou a feu
t) A COROGRAFIA PO RT UG tÍE2 A. 15
fe'-Qdo irmaõ chamado Odo, cjuc foy fundador do infignc Mollciro de Cifter;
& o noffo Conde com fervoroío«zclo de fervir a Dcos na fanta guerra,que El-
Rey Dom Affònfo o Sexto fazia aos Mouros em Efpanha , o veyo ajudar com
ftus companheiros , St todos com entranhavcl detejo dc vcn«.er muni
gos da Fe de Chrifio, fc houveraõ tam valerofamente nefta guerra, que ElRey
com lua ajuda alcançou dos Mouros gloriofas vistorias ; & entre outras lhe
ajudàraõ a tomar Lisboa, que depomos Mouros recuperàraõ, cõ q ficou tam
temido, St podtrofo, que muitos dclles defemparàraõ as terras, que havia- mui-
tos anrios poffuhiaô; St outros, q da fúria de feu vi&oriofo braço íe viaõ livres,
fe metiaõ aebaixo de feu jugo.
Nam era o noíTo Conde Dpm Henrique entre os tres Príncipes compa-
nheiros o que tinha o menor lugar de nobreza, & es forço «nem no galardaõ de .
fuas obras ficou inferior a nenhum dçlles; porque fuppôilo que ao Conde Do
Raymaõ, filho de Guilhelmo fegundo Çonde de Borgonha, deíTe ElRey Dom
Affonfo o Sexto fua filha primeira Dona Urraca prima do noffo Conde,por íct
filha de Madama Confiança fua tia , irmã de feu pay, St terceira mulher do di-
to Rey : íeria, porque o parentefeo lhe impediífe o matrimonio com o noffo
Conde; St cafçffe também Dona Elvira Affonfo deGufmaõ fua filha primeira,
Sc de DonaXin .enàNunes de Gufmaõ fua fetima mulher, Sc irmã mais velíia da
noffa Rainha Dona Therefa, como Conde de Tolofa, St S. gU ; chamado 'tam-
bém Dom Ray n on, dandolhe em dote muita prata, Sc ouro, com que compri-
raõ o d .to Condado de Tolofa; nem pOiffffo o noffo Conde Dom Henrique fi-
cou menos aventajado com Dona Therefa afegtiridafilha de Dona Ximena Nu-
nes de Gufmaõ, porque lhedeucomella o Rey no de Portugal com as terras,
que nelle eraõ poffuidas de Chrifiaõs, como foifaõ as Cidades de Coimbra,Bra-
^a, Porto, Viíeii, Sc Lamego, com toda a mgis Comarca da Beira , Sc 1 ras os
Montes,Sc toda a mais terra, que efiá de Guimaraens ate [oCaftello de Lobei-
ra alem de Pontevedra em Galliza; concedendolhe também que toda a mais ter-
ra, que ellc em Efpaiihaconquifiaffe aos Mouros , de Coimbra ate o no Gua-
diana (que divide o Alentejo de Cafielia) a pudeffe fenhoreaf como fua j q qual
foy tam gloriofo património paraiai*defccdentes,q o tiveraõ por mayor, pois
delle uláraõ,Sc fe gloriàraõmais,que de toda a riqueza , Scnobrezado mun-
do ; ainda que à cufia de feu Tangue, Sc perigo de fuas vidas, como faò todas as
çoulãs grandes, que com honra fe alcançaõ.
E como a terra de Portugal mais que outra nenhuma efiava pôr mar, Sc ter-
ra fogeita ao impeto das armadas, Stexcrcitos dos infiéis, Sc fó o valor do noí-
fo Conde os podia rebati* lha entregou; Sc naõ fe enganou niffo; porque ellc,
Sc feus defeendentes a fouberaõ defender taóbem, que fizeraõ mais verdadeiro
o intento do vicloriofo Rey logro, do que elle o podia imaginar , quando lhe
fez o dote. . r
• Quando o noffo Conde veyo ajudar a ElRey Dom Affonfo o Sexto feu fo-
<*ro nas guerras, que trazia contra Mouros, já entaõ fe intitulava Conde; por-
que era cofiume nos Príncipes daCafa de Borgonha chamarem-fe Condes os
filhos fegunâos , afiim como fe ufa em algumas Calas de Alemanha intitu-
larem-fe Duques, como os de Bfviera , Sc Auftria , aonde naõ íb os filhos fe
dizem Duques, Sc Archiduques; mas as filhas buque2as, ScArchiduquezas-
Que elle já fe chamaffe Conde antes de feu cafamento, fe prova oe Juliano Aci-
• prefte de Toledo atráz referido,& de Manoel de Faria Sc Soufa na plana 4.S • no
Uvro f • ao Conde Dom Pedro por .efias palavras 1 2 por efias dosrazoms jun-
B ij taSj
16 TOMO PRIMEIRO
tiSyfe liam ou Conde deTcrtvgal Von Wenriqre honcode fusFeys , & vao por-
que elde Cafhlla le mm brafie ajjim U áaríe acpwllas tierras en dote ccn ju hija.
Ido mefmo prova Brandaõ na g- parte liv. & ,cap. 10. E fora coula indecente í
ElRev DomAfionfo o Sexto, quando dava em dote ao noíío Conde o Reyno
de Portugal com iua filha Dona Therefa, mudarllie o nome cie Rey no em Con-
dado, tirandolhe o de Rey no, que elle tinha havia muitos annos,como foy em
feu tempo, &. de feus irmãos Dom Sancho, & DomGarcia, & de leu pay EIRey
Domf ernando o Magno 5 & de tempo mais antigo conda ler a Cidade de Bra-
ga aíTento da Corte dos Rey s de Portugal. O Conde Dom Pedro chama a El-
Rey Dom Aífonfo o Catholico,Dom Aítonfode Braga , como conda de hum
privilegio conoedido à Sè de Braga em F evereiro do anno * de 909. E Argote
de Molina liv.2.cap.$y. da Nobreza de Andaluzia,diz que o nofíb Conde le-
vou emdoteoReynode Portugal, com que ficafemduvidaconfervar fempre
o nome de Reyno, & nam p titulo de Condado; & por ilíò a Rainha Dona The-
refa fempre foy nomeada por Rainha, ôc nunca por Condeça-
■ " '' * r H*

C A. P. VII.
• . . *

De como a filia de Guimaraens foy o primeiro afjento da Corte do,


noíp>o Cende Dom Henrique.

C|H Afado o Conde Dom Henrique com a Rainha Dona Therefa no arino de
Chridode 1090. como jà diflemõs, foraõ viver na anngâ Guimaraens ,
luoar que lhe foy dedinado por ElRev Dom Aftonfo feu fogro, que como na-
quella Villa tinha edado, lhe pareceo accommodada para o feu intento de con-
tinuar a guerra aos Mouros, para os lançar fóra dos lugares, que edavam po-
voando no Revno de Portugal, aonde com tanto zelo, oc fervorofo defejo dp
fervir a Deos (aífim que tevecõpoda fua cafa, & Corte) fez taes obras contra
os infiéis, que claramente modrou o illuifre fangue,de que defceiidia, & as vir-
tudes, de que era dotado, merecedoras de outro maycftr Império :, mas como
Principe esforçado começou logo a trabalhar pelo accrefcentar, aífim nascou-
fas temporaes, como nas Ècclefiadicas 5 & como Príncipe Catholico redaurou,
& edificou as fuas Igrejas Cathedraes, reftituindoas pelo direito podliminio
aos feus antigos Bifpados, que em tempo dos Godos trveraõ , como foraõ Bra-
ga, Coimbra^ Porto, Vifeu, & Lamego; dando com eda obra catholico princi-
pio aofenhorio de Portugal, cuja cabeça no efpirituai era a Cidade de Braga ,
& no temporal a de Coimbra, que por muito tempo foy Corte de feus antigos
Rcys* *
' Concluidas edas,& outras obras pias, que o noíTo Conde da fua Corte
de Guimaraens fazia no feu Reyno, dignas de fua peíToa, & naÕ fe dando por fa-
tisfeito com a continua guerra, que trazia'com os Mouros de Efpanha íeus vi-
íinhos, determinou de a irbufear ao Orient^ ajudando aos Príncipes Chri-
daõsnas fantas conquidas ultramarinas, & juntamente porvifitaros lugares
fagrados da fanta Cidade de Jerufalem; com que no anno, do- Senhor de 11 o
acompanhado de muita gente do feu Reyno,partio de Guimaraens em compa-
nhia de Ugo de Lufignano irmaõ de Dom Raymonfeu cunhado, & parente, òt
DA corografia PORTUGUEZA. i7
fe ajuntara© com outros muitos Príncipes,St Cavalleiros I' rancezes, & Ale-
maens, St com outra muita gente de diverfas partes , que com o mefmo íanto
intento queriaõ fervir aDeos naquelle caminno j os quaes chegando a Conitã-
tinop!a,aonde reynava otyrannoEmperaaor AleixoComeno,tiche foraõ bé re-
cebidos no que no exterior parecia, mas interiormente vendidos : porque a-
traveífando o exercito de Conílantinopla, St paíTando a Aíia menor, 1 c div ídi-
raõ os Príncipes Chriftaõs por coníelho daquelle tyranno Emperador , toman-
do cada hum feu caminho, aonde foraõ falteados pelos Turcos, que elle rogà-
ra, St induzira, que naõ permitiffem paffar tantas gentes à Afia, porque redun-
dava em grande dano de todos- ^
Neila treiçaÔ, que aquelle tyranno teceo âos Chriíla&s,foraõ delles pre-
zos, St mortos pelos Turcos mais de cjncoenta mil ; & os mais que ficaiaõ li-
vres, entre os quaes foy o noíTo Dom Henrique, fe recolhèraó com muito tra- .
balho em Tarfis, & dah'i a Cidade de Antiochia, St fendo nella melhor hofpeda-
dos que em Conilantinopla, paffáraõ avante , aonde o noffo Conde achou leu
cunhado Dom Raymon de Tolofa , & unidos ambos, tomàraõ Ivuma Cidade
marítima chamada Tortofa, quederaõpor conientimento de todos ao Conde
Dom Raymon, pelo muito que na conquiíla árriícàra lua peíToa, & v ida.
Em quanto Dom Raymon ficava compoudo a fua Cidade de Tortofa,par-
tioo noifo Conde Dom Henrique a vifitar a fanta Cidade de]erufalem, aonde-
fe occupoii em outras guerras, St aèlos de Catholica milícia 3 St depois de ter
vifitado os lugares fagrados daquellas Províncias, fe partio para o leu Reyno,
tra zendo condigo muitas relíquias,8t entre ellashú braço do Euangeliíla Saõ
Lucas, que lhe deu oEmperador AleixojComeno, quando tornou por Conjftã-
tinopla, que collocou na Sè de Braga, aonde fe venera com grande devoção.
Adoeceo o Conde Dom Henrique na Cidade de Aílorga em Galliza,St co-
nhecendo fer de morte, mandou aGuimaraens chamar feu filho Dom Affonfo
Henriques,St como verdadeiro pay lhe lembrou naquella ultima hora ás coufas,
que devia fazer para fervir a Deos, a quem entregou fua alma no anno de 1112.
havendo 21 • que gozava do feu Reyno, mandando enterrar feu corpo na Sè de
Braga,em huma Capella pequena,com toda a humildade , donde depois foy
tresladado para a C apella mér da ir.efma Sè por Dom Diogo de Soufa , lendo
Arcebifpo delia,em hum magnifico monumento,que da parte do Euangelho mã-
dou fabricar.
Nafceo ElRey Dom Affonfo Henriques nos Paços da Villa velha de Gui-
maraens pelos annosde 1094.. St na fua Igreja de Saõ Miguel foy bautizado
pelo Arcebifpo de Braga Saõ Giraldo na Pia, que fe tresladou para a Real Colle-
giada de Guimaraens, aonde por credito, St honra delia Villa fe venera , pois
mereceoa gloriadonafcimentodo primeiro Rey de Portugal , dos que nelle
conlfituíraõ fua defcendencia, ficando Reys abfolutos independentes , o que
naõ tiveraõos pafíados.
Trouxe efte Principe no feu nafeimento as pernas pegadas por detráz hua
na outra; aleijaõ que aos pays deu tanto fentimento, que por fua deformidade
o naõ queriaõ dar a criar a Dom-Egas Moniz muito feu valido, tendolho aííim
prometido antes de nafeer: mas movidos de feus rogos lhoentregàraõ, a quem
obomvaíTailo criou com tanto cuidado , como fenaotiveífe amenorlefaõ)
mas a Virgem N. Senhora, como fonte que he de mifericordias , apiedandofe
de quem cila fabia que na vida lhe havia de fazer grandes ferviços, St os haviaõ
de continuar depois de fua morte feus defeendentes de maneira, que naõ con-
B iij tentes

\
,8 TOMO PRIMEIRO
.tentes com fazerem reverenciar feu fanto nome em muitas partes deEfpanha,
aonde o contrario naquelle tempo fe fazia,naõ defcançariaõ ate que aos mais
remotos moradores das terras Onentaes o naõ fizeffem conhecido, & venera-
do, paffando neftas conquiftas tantos trabalhos,como admira a fama, & tefte-
munhaõ as Hiftorias: & afíim ouvindo as deprecaçoens , &piedofas lagrimas
dos pays do Principe menino, appareceo a Dom Egas Moniz.em fonhos, & llie
diffe, que folie ao lugar de Carquere junto à Cidade de Lamego , & que man-
dando ahi cavar, achariaõnellehuma igreja, que antigamente fora principiada
em feu nome com huma lua Imagem, & que confertando tudo, & fazendo nella
vigília, puzeffe o menino fobre o Altar, & que logo fararia. E o que mais he
para notar, dizem os Chroniftas , .que lhe encomendàra a Virgem Mãy de
Deos,quedahiem diante ocnaffecomo mefmo cuidado, que ate entaõ tivera;
porque feu amado Filho tinha determinado por elle, & leus deleendentes dc-
ruir muitos inimigos de feu nome. E como podia faltar poder a quem ifto di-
zia para o effeduar? Fazédo Egas Moniz o que em fonhos lhe fora mandado,
tudo fuccedeo melhor do que fe podia defejar 5 porque o Principe menino ficou
de todo i llefo fem deformidade alguma.
Por efte milagre, 8t pela grande devoção, que o Conde Dom Henrique te-
ve fempreà Virgem Senhora nofía, mandou naquelle lugar edificar hum Moí fei-
ro dedicado ao feu fant o nome, aonde depois eftiVeraõ os Conegos Regrantes
de Santo Agoftinho, & hoje eftaõ os Religiofos da Companhia de Jefus 5 & foy
efte milagre no anno do Senhor de 1099. anno aflinalado, em que os Príncipes
Chriftaõs do Occidenteganhàraõ aos Sarracenos a fanta Cidade dejeruialem,
& levantàraõ por Rey delia ao famofo Godofredo de Bulhão, Duque de Lotha-
ringia, parente muy^chegado do noífo Conde Dom Henrique, por fer o primei-
ro que na inveftidura da fanta Cidade íubio aos feus altos muros, & lançando
por terra (a pezar dos Mouros) as infirmas de feu falfo profeta , arvorou no
mais alto lugar o Real Eft endarte da jioífa redempçaõ.
Com a nova faude do noífo milagrofo Principe ficaraõ os pays tarn ale-
gres, como todos feus vaífaÚos animados com a prometo da Virgem Maria,que
por elle feveriaõ livres do iníquo jugo da gente Mauritana 5 & como a palavra
deft,a Senhora era eferitura viva, que feu amado Filho fazia aos Portuguezes ,
começou logo o nofso novo Principe nos mais tenros annos de fua idade a en-
trar na efcolade Marte,metendolhena maô o A, B,C, das Armas ElRey Dom
Affonfo o Septimo de Caftella pelos annos do Senhor de 112 8- quando perdeo
a batalha de Valdevez ainda em vicia eja Rainha fua may , & ficou a gente do
Principe vencedora, como diz Eftaco cap. 23. num. i . .
Ao depois no anno do Senhor de 11 ;o. fendo ja falecida a Rainha Dona
Therefa fua mãy, & eftando o Principe Dom Affonfo feu filho defapercebido,
o cercou na Villa deGuimaraensomefmoRey Dom Affonfo o Septimo, dan-
do por caufa que o Principe feu primo lhe naõ queria reconhecer vaífallagem ;
aoncle valeo a induftriade Dom Egas Moniz feu Ayo 5 com que depois por
naõ fatisfazer à promeífa,que ao Rev fez , para levantar o cerco, que tinha
pofto à Villa, fe partio de Guimaraens com fua mulher, & filhos veltidos de
linho com baraços ao pefcoço,& entrando em Toledo, fe foraõ aprefentar ao
Rey offerecendolhe a vida de tantos pela culpa de hum fó , que compadecido
daquelles efpeclaculõs, lhe louvou a acçaõ, & lhe perdoou o caftigo, como di-
zem Eft aço cap. 13. num* 8. & Duarte Galvão cap. 1
Continuou o Principe Dom Affonfo-Henriques a fua Corte em Guima-
raens.
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. 19
raens, aumentando o Mofteiro de Mumadona em lua Capella Real, como o ti-
nhaõ feito até aquelle tempo feus pays, aonde o concurío das peííòas , q ud a
ellevmhaó, foraõ acrefcentando o Burgo de GUimaraens '• & vendole já de 18.
annos, idade mais propria para divertimentos, que para trabalhos, cfferecendo
ao pezo das armas feus tenros,&. delicados hombros,fe partio de Guimaraens
com muitos de feus moradores a dilatar o fenhorio de Portugal, que naquelle
tempo naõ comprehendia mais que a Província de Ei itre Douro & Minho , &
Trás os Montes, com as terras de entre Douro , & Mondego , & algumas de
Galliza. E primeiro que fahiífe da dita V illa, ouvio Miffa na lua Collegiada no
Altar da Virgem Senhora noíla, no qual mandou pôr as fuas armas, & acabada
ella, as pedioà mefmaSenhora,dizendo: Senhora,comaquejlasarmas , que me
vos dais, as quaes eu hty por tomadas da vofíà mad, confio eu , & efper o em vofía
merce,& virtude gane ar nome de Rey & Reyno, em honra, & louvor de nofio Se»
nhor JefuChrifto vofío bento Filho» Eftaçocap.t^.n. í.
Com cilas efperanças fe partio de Guimarães o noffo Principe Dom Affon-
fo H enriques, & fez (eu primeiro affento em Coimbra , donde conquiftou aos
Mouros toda a terra, que vay deft a Cidade até a Villa de Cintra , & também o
Alentejo, & fogeitou o Algarve, & algumas terras de Andaluzia, as quaes de-
pois fe rcbellàraõ , por naõ fer o numero dos Portuguezes baftante pa-
ra as habitarem, & preftdiarem, como diz a Hiftoria dos Godos fallando del-
Rey Dom Aífonfo Henriques por eftas palavras : DilatavifDominus per eum
fines Lhrijtiariorum, & auxit términos fidelwm populorttm à flumme Mon deco,
qui difcurrit jnxta muros Colmbria,<ujque adfluviumde Alpivir, qui vaditper
Hijpalimcivitatem,&c. . » _
Se a Villa velha de Guimaraensficou chorando o fentimento da aufenciâ
do feu Principe Dom Affonfo Hcriques,naõ pádeceo ó fanto Mofteiro de Mu-
madona diminuição nas attençoes de feus devotos; porque affim como o Prin-
cipe hia defpojando do feu Reyno os infiéis^ficavaõ as terras livres para os Ca-
tholicos poderem fazer fua romagem femíifco à Virgem Santa Maria de Gui-
maraens. Com que fe no tempo da aíiiítécia do Principe naquella Villa era mui-
ta a fua concurrencia, muito mayor foy depois que lhe franqueou as eftradas ,
por cuja caufa crefceo o Burgo de tal maneira,q em poucos annos fe fez húa
grande povoaçaõ, por onde adquirio o nome de Villa ; & para dar conta de fua
grandeza, quero primeiro fazelloda antiga Imagem da Virgem Senhora noífa
collocada no fanto Mofteiro de Mumadona.

CAP. VIIL

Da mtlagroja Imagem de N. Senhora da Olheira da Filia


de Guimaraens.

HE opinião provável queoApoftolo Santiago erítrou nas Éfpanhas , &


como Sol defterrou delias as efeuridades da idolatria , &na Provinda
de Galhzaj & de Entre Douro & Minho entrou pelos annos de Chrifto 36. cõ-
fórme a conta de juliano,Dextro,& Faria tomo i. parte 3. cap. j. As Igrejas
Cathedraes Bracharenfe,Eborenfe,Granatenfe, Acitana , &Abulenfenaíua
Reza o confirmaõ com Santo líidoro, S- Bráulio, Lipomano, & a torrente dos
AuthoteSi Ex-
SO ' * TOMO PRIMEIRO
Expreffamente diz o farto Papa Califto Segundo, que vindo neífe anno
de 56. o ApaftoloSantiago aeflaProvíncia,ajuntara nove difcipulos, fendo
a mayor parte de Entre Douro & Minho, &: delles foraõ dous os mais celebra-
dos, & do Santo Apoftolo mais mimofos. Foy o primeiro o glorioío Sam Pe-
dro,a quem o íagrado Apoftolo refufcitou em Rates, para o fazer primeiro Bif-
po de Braga-Diz Santo Athanafio Bifpo de C,aragoça (quafi do tempo dos Apo-
ilolos:) Ego novt Sanãurn Peti um pnmtm Br achar enfim Epijcopum, quem an-
tiquum tr< pbetatn jujeitavit lacobus Zebedai film magifier meus, &c. & com
elle Sandoval no Catalogo dos Bifpos de Tuy foi. 11.
O fegundofoy o gloriofo Saõ Torcato, a quem reduzio emGuimaraens,
dandolhe a graça pelo Bautifmo,& o fez primeiro Bifpo de Citania,ou Guania,
(como muitos queremfoífechamada) Cidade antiga , fituada junto ao rio
Ave duaslegoas de Guimaraens 'para a parte do Norte 5 de quem o tempo nam
deixou de fua grãdeza, mais que huns breves veftigios de feus aliceíTes.
Saô Torcato, & feus companheiros, quando vieraõ de Roma , entràraõ
pela parte, que agora he o Reyno de Granada, por huma Cidade, que chamavaõ
Acci,&agoraGuadis. Ambroíio de Morales liv-9-cap. 15. o Breviário Bra-
charenfe/& o Doutor Beuter dizem, que Acci fe chama agora Guadis; &, omef-
mo diz o Officio de S. Segundo, approvadopelo Papa Clemente Oitavo no an-
no do Senhor de 1594. que traz Antonio de Ciança no fim daHiftoria deSaõ
Segundo*
Defta Cidade Acci,ou Guadis foy S-Torcato Bifpo, como teítifica o Me-
íireVazeo nas palavras ieguinta»: Sanffus-Torcatus Epifcopus Accitanus, vulgo
Guadis, in Rpgno Gt anatenfu Vazatus tom* 2 • anno Domini 44. & Ciança , Hi- •
fioria de S. Segundo liv.i-cap.i8.de que aquella Igreja Cathedral tem fua Re-
za, & Officio particular do Bemaventurado Santo, como primeiro Bifpo delia,
novamente ordenado, & confirmado pelo Papa Xiífo Quinto no anno do Se-
nhor de 15 90. E eítá tam indubitável tradiçaõ diífo na Cidade de Guadis,que
Dom Affonlo de Mofcofo Bifpo delia procurou haver para aquelia Igreja huma
preciofa relíquia deSaõ Torcato feu primeiro Bifpo, & com grande trabalho,
& contradiçoens a pode alcançar do Mofteiro de Cella Nova em Galliza ; de
que o louva encarecidamente Frey Athanafiode Loberano leu livro das Gran-
dezas deLeaõ cap.20
Morreo o gloriofo S. Torcato em Acci aos 1 y. dias do mez de Mayo, &
ahi fov fepultado feu corpo, aílim como o de feu companheiro Santo Eufrazio
na Cidade de Andujar, donde foy Bilpo,& outros por muy diverfos lugares,
como diz Eftaço cap. 34. num-1. E quando os Mouros entràraõ em Efpanha,
&queimàraõas imagens,& relíquias dos Santos, algunsChriftaõs devotos
tomàraõ as relíquias quepuderaõ,& fugindo com ellas, as enterravaõ , para
que da fúria dos Mouros ficaffem melhor efeondidas; atè que depois permitio
Deos, que por vários modos miraculofos appareceíTem, & fofsern collocadas
nas Igrejas, como foy o corpo de S.Eufrazio,q fe achou em Galliza no afpero
monte de Valdemao junto de Saõ Juliao de Samos Mofteiro de Saõ Bento, co-
mo diz Frey Antonio de Yepes na Chronica de S. Bento parte 3. anno de Chri-
flo 779.cap. 3. j- ~ r
O corpo do Bemaventurado S- Torcato, conforme a tradição, le achou
afaílado de Guimaraens huma legoa para o Nafcente em parte, que doCeo fe
viaõcahircomohumasEftrellas, de que admiradas as gentes, & indagando o
myÁerio, rompendo aqueUesafperos^ôc intricados matos , achàraõ aauelle
fanto
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. it
fanto corpo em huma cova, donde fahià hum admirável cheiro , indicio da-
quelle preciofo thefouro ; o qualaílim que foy defenterradocoma vcneraçam»
devida, deixou em feu lugar huma caudaloia fonte, que foy reme lio de mui-
tos enfermos, que com fe vinhaõbufcar luas aguas*
Naquelle fanto lugar fe levantou huma Ermida, em que eítá á imagem dc-
fie Santo, a que indahoje chamaõ S.aõTorcato o velho; de dentro de l uas pa-
redes ficou recolhida a lua milagrofa fonte com huma bica fora delias para co-
municara todos fua virtude- Neila Ermida eífeveocorpode Saõ Torcato atd
fe fazer o Moíleiro de fua ínvocaçam,o qual foy duplex de Frades, St Freiras
da Ordem de Saõ Bento, &. o fundou Dom Rodrigo Forjás , contemporâneo
dciRey Dom Fernando o Magno, chamado o Emperador , o qual fez doaçam
deíle Moíleiro ao da Condeça Dona Mumadona, concedendolhe , Sc a Ríílnha
fua mulher, quando a ellavieraõ pelos annos do Senhor de 104.9. privilegio,»
& jurifdição no eivei, & crime; aonde diz, que o homicidio, furto, St qualquer
calumnia, que acontecer na terra do Moíleiro da Condeça, Dijcurrant per ma-
ws Vicari) ipfms Ccenobtj, &in omnem ter ram SmtU Torquati fimúiter facianU
Eíleve o Moíleiro de Saõ T orcato annexo ao da Condeça Dona Mumado-
na,q já entaõ era da apreientaçaõ Real com titulo de Collegiada com Prior,Di-
gnidades", & Conegos, c nelle vivjaõ ainda.recolhidos, até o tempo dclRey D.
Afton[o Henriques,que delle o defmlbrou,ôc deu aos Frades de Santo Agoíli-
nho, como fe vè da doaçam fegpinte. hm ntme do Padre, & do Pilho, & do hf-
pirito Santo, ame*:> hjta he a Lai ta do couto, ou do tefiamento , que eu ^/Jffonfo
Riy dos Portvgutstes juntamente com meu filho ElRey "Dom Sancho , & minha fi-
lha a Rainha ponaTherefa por amor de Deos, & remifiaoâe meus peccados faço
a Igreja de Santa Maria, Cr de Soo 'Torcato, & de outros Santos, cujns, relíquias ef ■
taõnamefma Igreja,&avosE)om Pelayo Prior da mefma Igreja ; & aos maiS
brades vo[jos,a(JtmpreIentes, como futuros, que na dita Igreja bem viverem , &
perseverarem em fanta converfação. conforme a Regra de Santo /Igofhnho: do -.vos^
& concedovos,& por virtude da prefente efcrituravos confrmo a mefma Igreja co
as luas quintas adjacentes,&ç, Foyfeitaefta Carta do couto, ou do teílamento
em 6. das Kalendas de Mayo, era MCXI. que he a#ao-de.Abril do anno do Se-
nhor de 1 : 75. EuElRey Dom Aftoníbjuntamente com meus filhos,Stc.
. Ainda que ElRey Dom Affonfo Henriques deu novo titulo de Santa Ma-
ria ao Moíleiro de Saõ Torcato na doaçaõ aos Frades de Santo Agoílinho, cõ-
tudo o povo nam permittio fe lhe efqueceífe o de Saõ Torcato- , porque fen>
pre foy viíitado , St nomeado por elle; & os Romeiros, que vinhaõ a vifitar
feu fagrado corpo, ao feu nome faziaõ fua romagem. Ao depois pelo difeurfo
do tempo paffou eíle Moíleiro ao dominio de P ;ores feculareS , até
vir a dar no devoto, St pio Varaõ Joaõ de Barros, Corugo 11a Sé de Braga, que
porauthoridade do Papa X iílo Quarto o fez annexar à Collegiada deGuima-
raens no anno do Senhor de 14.7 v por doaçam confirmada pelo Arcebifpo dc
Braga Dom Luis, comojdiz Eílaço cap. $ f. n. 4..
Tem t ile Moíleiro de Saõ Torcato a fua fundaçam em hum lugar eminen-
te,afaíladb de Guimaraens huma pequena legoa para a parte do Norte: he Igre-
ja grande, teve feu clauílro, St nomeyo delle hum chafariz , St ao redor do
clauílrohuma alpendrada fobre colunas de pedra, encoílada da outra parte
às paredes dc feus dormitórios, que tudo eílà arruinado , permanecendo fó
huma pequena parte delles, que ferve de agafalho aos feus Vigários. Para eíle
Moíleiro fe tresladou o corpo de Saõ Torcato,aonde foy dcpoficado, veílido»
li TOMO PRIMEI ROO ")
de Pontifical, em hum monumento de pedra tofca, mas grande, & de ínageíh-
de, affentado fobre quatro-colúnas, cercado de grades de ferro, dentro de hua
Capella-, que eflá à entrada da porta principal.
Muito trabalhou tlRey Dõ Maneei, para que fe recolheffem às Igrejas das
Cidades) & Villas as Relíquias dos Santos, quenâs Aldeãs fe achavaõ , por lhe
parecer, que nellasfenao tidas commenos vcneraçam , que nos lugares gran-
des 3 & para que o corpo de Saõ Torcato foífe venerado, & afliítido com toda a
devoçam , mandou aos Conegos da Collegiada deG uimaraens o ccllocaííem
Kella, como conda de huma carta do dito Rey Dom Manoel, que fe guarda no
Archivo da mefma Collegiada.
• Tratou o Cabido com aCamara, & poyo de dar à cxecuçam a vontade
de teu Rev, & affentando dia com os Miruítros, para fe fazer a tresladaçam do
corpo de Saõ Torcato com toda a folemnidade , tiverão cita noticia os mora-
dores daquella F reguezia; & Couto, & os das mais circumviíinhas; & quando
o Cabido, Clérigos , Frades,&povocomfuas danças chegàrãopertodaquel-
leMoíieiro, acharão hum exercito de gaite armada para a defenla do feu in-
tento , & havendo vários requerimentos de humayk outra parte, fizerao os La- \
vradores íeus proteftos, alEm às j uftiças, con,o ao Cabido, & povo ,. & no fim
delles refolutamentc differão, que antes naqqelle lugar deixanão as vidas, do [
que confentir lhe tiraffemo feu Santo, porque eílava entre Catholicos,para lhe
fazerem toda a veneração. Come ,t_v,fto por todos a íua deliberada dctermi-
naçam, &. receando o perigo, em que aouelie-negocio efhva, fe recolherão pa-
ra a Villa 3 & os Lavradores defeonfiados deque tornariãoa querer confeguir
a tresladação do Santo, (achandoos deícuiaados ) muitos tenipos eíliveram
em fua guarda de dia,& de noite.
Ao depois dido, fendo Arcebifpode Braga Dom Frey Agoílinho de Jefus
pelosannos'de x 597. fahio hum dia daquella Cidade acompanhado demuiu
gente*, Achegando ao Moíieiro de Saõ Torcato, quiz abrir o feu fepulchro,
dizendo que era para examinar o fagrado corpo ; repicàrão os finos 1 eus fre-
guezes, acudirão todos, & muitos dás Freguezias vifinhas, todos armados co-
mo puderão, & chegando aonde eílava òArcebifpo com a íua gente , lhe fize-
rão vários requerimentos,'ate chegar aviiò ao povo de Guimaraens, que a to-
da a preíía lhe fizerão , & todos com a mefma foraõ a defender o feu Santo do
intento do Arcebifpo, que era de o collocar na Sè de Braga, como ao depois íe
foube. • ■
Em 22. de Junho de 171 j. foy o Doutor Ruy Gomez Golias , fendo
Meílre-efcola da Collegiada de Guimaraens, com outros Conegos ao .Moílei-
• rode Saõ Torcato, & juntamente com o Vigário, que então era daquella Igre-
ja, o Licenciado Jerony mo Coelho, abrirão todos o fepulchro, onde eftà de-
pofitado o fanto corpo, & com tochas acefas o examinarão , & virão muito
particularmente, fem acharem nelle corrupção alguma, fenão todo perfeito, &
luas fagradas yeíliduras intadlas fem offenfa dos tempos.
Neila occafião o Doutor Ruy Gomee Golias fe animou atirar efeondida-
mente daquelle fanto corpo hum tornozello de hum pè , & quando lho arran-
cou, fahio com fangue claro, como inda hoje tcm,&Ievãdo eíha fanta relíquia
para íua cafa, experimentou em íi tantas mifenas,& enfermidades , que pare-
cendolhefercaftigo do Santo, por não querer que huma coufa profana foífe
facrario daquella fagrada relíquia fahida de feu fanto corpo, a mandou collo-
car no Santuário da'Collegiada de Guimaraens, aonde fe venera em hum reli-
cário
DA COROGRAFIA PORTUCUF.Z A. 1}
cario erande de prata dourado merido entre duas vidraças , por cnue íc cita
vcndo aqutllefagrado oíTo manchado de vivo langue- ;
Sendo Thefoureiro mórda Collegiad^de cuimâraens Nicolao Dias de
Matos, revolvendo o Cartorio daquella Igreja, achou em hum pergaminho an-
tigo, que mal fe pôde ler, mas no que delle pode conjedturar , foy dizer que
10 Morteiro de Saõ Torcato eftaõ muitas relíquias efcondidas por varias par-
tes de fuas paredes 5 & mdo a examinar o que tinha lido com o Meítre-elcola
Domingos Pinto de Araujo, & o Çonego Miguel de Freitas da Ouiha , acha-
jaó as reliquias, que fe comem na certidaõ feguinte , <}ue íe guarda no Carto-
rio*
AnnodoNafcimentode north Senhor JefuChrifto de i68y- ãnnos aos
7. de Novembro no Morteiro de Saò Torcato, termo da Villa de Guimaraens,
adonde foraó vindôs os Reverédos Nicolao Dias de Matos Theíoureiro mor,
& Domingos Pinto de Araujo Meftre-efcola, & Miguel deFreitas daCunha,
Dignidades, & Conegos da infigne Collegiada da dita Villa,&bem aíiim o Pa-
dre Paulo Gomez, Protonotario Aportolico , &: eu o Padre Joâõ Fernandez
Luis,Notário Aportolico do Santo Officio , para eífeito de no dito Moí íc.io
bufearem os corpos fantos>&mais reliquias, que havia metidas nas paredes,
que por memorias anti gas havia tradiçam,&noticia,&ifto com licença do e-
nhor Arcebifpo Primaz Dom Luis de Soufa,Stc. & chegando ao dito Moí ei-
ró com o Meftre Joaõ da Corta, & Domingos .de Oliveira, & Franciíco Antu-
nes, ofliciaes de pedraria, o Reverendo Conego Miguel deFreitas,aífima de-
clarado . fe revert 10, & diíTe Mifía cantada ao Efpirito Santo, & acabada cila, to-
raõ os fobreditos ofíiciaes, & abríraõ o Altar mor, que eftava de pedraria , &
indo desfazendo em húa pedra, que no meyo acliàraõ, que tinha quatro paln.os
& mevo de comprido, & dous & mevo de largo, & de groffo hum palmo,& cous
dedos, pedra que jâ havia íervidoem outra obra, com molduras pelas cabeças,
no meyo da qual eftava hum buraco de palmo & dous dedos cm q uadi o por ca
da banda, com huma rapadura de pano, & ao redor abatumada cÕ breu ; & logo
o Padre Paulo Gomez atráz declarado meteo hum ferro de aííentar, & o abrio,
& aberta ella, achamos as reliquias,de que adiante le fará exprcífa, & dcclara-
damençaõ;& viftas por todos, & mais povo, que fe achou prelente, nos pu-
zemos de giolhos, & cantamos Te Deitm laudawus ;&dahi depois delle canta-
do, tomamos a lobredita pedra, & a puzemos fobre dous bancos com duas to-
chas accefasy& tornandofe a abrir,nclla achamos as reliquias íeguintes.
Primeiramente achàraõ-fe oito caixinhas depao tofeo , em que entrava
huma lavrada, & na primeira, que fe abrio, fe achou hum eferitó em papel, &
outro na mefma caixa, que ambos contem o feguinte •• Dedicata eft Ecclefia
ijia à domino Feitio Br achar er/Ji Archtepifcopo tti honor e Sanãt Salv atoris .San-
tia Marta, S. Michaelis,San£íi Petri Apojloli, SanRiJorcati amo ab Irkar nano-
ne Domini millefmo centeftmo trigefimo fecundo : & dentro eftavaõ huns fios
de feda, quemaldeclinavaõacor,&cõ huns pedacinhos , que moftravaõ fe-
rem oífinhos, & outros bocadinhos, que naõ declinavaõ o que eraõ; & abrindo-
» fe a fegunda, nella fe achouhú papel, que dizia o feguinte: Relíquia Santti Cof-
ma, & Damiani, & omefmo rotulo na mefma caixa, & abrindofe dentro acha-
mos embrulhado em huma feda preta atados osdous oflinhos dos ditos San-
tos ; & abrindofe o terceiro lavrado, fe achou hum eferito, que dizia o feguin-
te -.Relíquia de Eigno Domini, ô- Co fina,& Damiani Sanbli Tor cat i; & den-
tro neile eftavaõ tamfónientc huns pedacinhos de fedas de cores, quemoftra^
14 / \ TOMO! PRIMEIRO" - '
vaõfer de algumas veftiduras de cor verde, & amarela, humdentro do outro >
& outro bocadinho de feda em dobras atado com hum fio de retroz, que pare-
cia gemado, & outro bocado de pijeto, no qual oitava hum bocadinho, que pa-
recia de fita verde; & abrindofe o quarto, q tinira tres repar cimentos,çm hum
tinha hum eícrito, que naõ continha mais, que as palavras feguintes : Relíquia,
Saniti loannts, & outros,que fe naõ podem ler: & em outrò repartimento , que
tinha hum efcritinho,que diz: Relíquia Sãch lacobi Apoftolt: & dentro acha-
mofchpns bocadinhos de oífos miúdos com hum panofinho enrolado com hum
poi]to,em que moftrava efíarem embrulhados abrindoieo q uinto,fe achou
hum eferito, que dizia: Relíquia Sanih Telagij, & outros, que fe naõ puderam
ler, & dentro eftava hum pedacinho de fedá velha, & outros fios de íeda mais
efeura fenr mais outra couia; & vifto o fexto,tinha hu letreiro, q mal fe lia,por
fora na madeira, que dizia ao parecer, Saõ Maxencio, & dentro delle citava
,huma pequena de feda vermelha atada com hum fio branco. £ abrindofe o feptn
nlOjirelle eftava hum eferito, que dizia: thefunt Relíquia Saneia Maria Oir-
gihisdentro eftava hum pedaço de leda carmezina,& dentro delia outro mais
vermelho que parecia fer de lã: & no oitavo eftava hum eferito , que dizia:
Relíquia Saili Stepham martyris,& Sanita Enlalia Virgmis , & mar Oris , &
dentro.fe achàraõ dous oílinhos, hum mayor que outro, &huma migalha de
feda tecida com lã atada com hum fio de retroz vermelho ; & naõ continhaõ
mais as ditas caixas aflima declaradas, de que fiz efte termo por mandato , &
vifta de ditos, que afiiney, dia, mez, & anno, ut J»pra• João Fernandez Luis.
Hecfte Santo muito venerado doshabitadoresdaquelles montes, & jun-
tamente dos daquella Vilia de Guimaraens, efpccialmente no dia de fua fefta,&
delle fecontaõmuitos milagres. . : i
Repartioofagrado Apoftoloaos feusdifei pulos por diverfas partes acõ-
verter a Gentilidade, & depois de aílim o ter difpofto, felby a C,aragoça,abn>
de levantou aprimeira AraFfpanholaàfagrada imageín , que hoje de venera
com titulo de Noífa Senhora do Pilar, & tornando aBraga,colloccu outra em
certa gruta junto do Templo da DeofaIris,& em Guimaraens çftá , que hoje
veneramos com titulo da Senhorada01iveira,nofimulaçhro de GeresyManoel
déFaria & Soufa tom. 1. parte 3. cap. 1 .fazmençaõdelias duas primeiras ima-
gensr& da Senhora da Oliveira temos a tradiçaõ dos .antigos Beneficiados de-
lia Igreja, os Monges de S. Bento, primeiros Cappellaens da Senhora, noticias
juftificadas, &" Archivos antigos. Os Padres, Fr. Bernardo de Braga, Fr- Joaõ
do Apocaly pfe, & Fr- Gd de Saõ-Bento fazem mençaõ de hum epitáfio Gotico,
que eltava no Templo , que foy de Ceres: as palavras formaes de Fr. Bernar-
do faõ as feguintes. * * "
No Rocio, ou Praça de Guimaraens eftà hum Templo, que fov da Genti-
lidade, he de obra moy faica, magellofo, & antiquiífimo, & as noticias, que te-
nho, foy dedicado a Çeres: a efte deftruío Santiago vindo a efta terra, aonde
bautizoua Saõ Torcato, & lançando por terra aos falfos ídolos, collocou no
Altar a Virgem Senhora noífa, cuja imagem he hoje a Senhora da Oliveira; &
bem fe colhe, diz o Author, de hum letreiro, que vi, & fe achou no interior da
parede junto à torre, quando efta fe começou a arruinar pelos annos do Senhor
de 1559. Cahiohuma pedra, & porque fepartio , fe fez ajuntar,para fe lerem
as letras ,&diziaõ: In hoc fimulachro Cet eris collocavit lacobus filtuS Zebedai
Germanus loannis imaginem Sanita Maria 111S.C1S X- Era o letreiro Gotico,
& em breves, mas a fuftançia era efta; & tãbem fe achàraõ medalhas, por onde
cr,,- dpms
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. ij
algun.-, Efcritores tomàraõ motivo para dizerem que o Templo fora de Miner-
va ; Sc continua, dizendo, que no Cartorio do Cabido daquella Real Collegia-
da achara claras noticias, donde fe infere eifa verdade. Foyefta Igreja dedi-
cada a N. Senhora, Sc depois a dedicou o povo a Santiago, por elle fer o primei-
ro, quenella levantou Altar. Teve cita IgrejaRaçoeirOs,como confia dos plei-
tos, que com a Real Collegiada teve, que fe vê cios papeis, que fe guardaõ em
feu Cabido: nam fe acha noticia em que tempo fe defannexàraõ fó fey que a
dignidade de Meífre-efcola fe intitula Abbade de Santiago > & recolhe os fo-
ros, que a cila Igreja fepagaõ. A Imagem da Senhora fe coníervou até o anno
do Senhor de 4.17. em que entràraõ Alanos, Sc Suevos ejn Galliza,& outras na-
çoens barbaras , que queimàraô os corpos , & imagens dos Santos. O Ar-
cebifpo de Braga Pancracio mandou efeondererta , conforrtie huma memoria
confufa, que achei no Archivo Bracharenfe: o lugar, aonde foy depoíitada, foy
poucos paífos fora de Guimaraens em hum pequeno monte , que fe chamava
Latito. Atèqui íaõ palavras formaes do Author citado^
Elie monte ertà hoje dividido por dous nomes : monte de Santa Maria,
por fer thefouro daquella fagradâ Imagem de N. Senhora, quehe a parte mais
vifinha da fua Igreja,Sc a outra parte fe appeiiida monte Largo,derivado do pri-
meiro nome Latito: eílaõ hum, & outro contíguos , fervindo de coroa a cila
Villa, fituados entre o Norte,Sc Nafcente.
O Arcebifpo de Braga Pancracio, que foy fúcceíTor de Saõ Paterno , Sc
anteceíTor de Balconio, convocou alguns Bifpos, que andavaôaufentes de fuas
Igrejas, para fazer em Braga Concilio Provincial, em que fe ordenou, que cada
hum na fua Diocefe fizeffe occultar as fagradas Imagens em lugares , de que
entre huns, Sc outros ficaffe memoria, atè quando, ferenado o Ceo, tiveíTe me-
lhor fortifna a Chriftandade. E he de crer que pertencendo Guimaraens à
Diocefe Bracharenfe, o Arcebifpo Pancracio occultaffe ella fagrada Imagem ,
por fer tam prodigioía em todos os feculos. Os Padres > que affinàraõ no Cõ-
cilio, foraõ Gelafio de Agueda, Elipando de Coimbra, Pamerip de Idanha, Arif-
berto do Porto, Deus deditde Lugo, Potamio de Merida , Tiburciode Lame-
go, Agatio de Iria, Pedro de Numancia- Faria tomo 1. parte 3. cap. 10. Sc alii.
No Cartorio de Pombeiro, Murteiro de Saõ Bento, ertá hum pergaminho
Gõtieo , que leo o Padre Fr. Bernardo de Braga , fendo o primeiro Abbadc
triennal nelle, pelos annos de 1 ypo- que faz meiíçaõ de hum Monge, chamado
Martim Pires, que floreceo pelos annos de Chrirto de 1380.0 qual havia mui-
tos, queviviaenfermodefortequemais parecia tronco immovel , quecorpo
vivente: affim maltratado de feus males, íe fez levar à fonte dá faude, que he
a V irgem N. Senhora de Guimaraens, que ouvindolhe fuas deprecaçoens, o re-
rtituío à fua primeira faude, Sc em memoria defteprodigiofo milagre , fezef
crever nerte pergaminho as palavras feguintes : Aos xvt. de Setembro anu.
CCCLXXX. antes da peite tença me catar ao a Guimaraens, para ver a Santa Ala-
ria, &por talguiza me eudereitou o braço, & coube faude, que eftava ene olb eito,
é- com gr ao folga ajfiney com el, logo o Chantre, Conigos, & clegosj fifgo procifíao a
Santiago, donde me dtfgo, que vino S: Maria la antiga, que fizo Santiago, borao te-
ftemunhas Alartin 'Domingueso Alvim Martim Moreira, o Arcebifpo Dom Gonça-
lo Pet eira, & Affonfo Feres Tabalhao e[crivo efte milagre ,&c. O Padre Fr. Joaõ
do Apocaly pfe faz menção delle nos feus efcritos,que vioo Padre Frey Bento
de Santa Maria,Prégador na fua Religião Bcnedidlina-
O Padre Frey Gil de Saõ Bento, hum dos grandes Chronirtas, depois de
C ter
16 TOMO primeiro
ter dado à eílampa a fua Apologética} compoz hum Tomo, que intitulou , Co-
roa de Portugal, o qual nam chegou a imprimir, por lho atalhar a morte, efian-
do revolvendo o Cartorio do Morteiro de Santa Marina da Coíia da Ordem de
Saõ Jeronymo junto a Guimaraens, aonde eflá fepultado- Tratava elle Author
no capitulo primeiro do feu Tòmo,da Villa de Guimaraens, como patria do fe-
nhor Rey Dom Affonfo Henriques, de Saõ Damafo, St do Cardeal Albano Go-
vernador da Guerra facra, Theíòureiromórque tinha fido da Real Collegiada
deGuimaraens , St diz, que afagrada Imagem deN. Senhora da Oliveira fora
aquella antiga, que Santiago collocàra no templo de Ceres, & para iíTo allega os
fundament os referido#,& com o Licenciado jeronymo Coelho , Vigário que
foy de S. Torcato, bem conhecido pelas fuas obras poílhumas, que andaõ im-
preífas.
Permanecco efie Templo muitos fcculos,St fe não foy em todos com o no-
me de Ceres, foy em muitos com o de Santiago, ate que no anno do Senhor de
1607. experimentou de todo fuas ruínas,& na pequena Igreja de Santiago, que
fe reedificou no mefmo fitio, a que hoje chamao Praça do peixe, fe efculpio em
huma pedra fobre á porta principal eíle epitáfio :
Magna dotous quondam penitus fubmerfa ruim,
Dum jacetjtn brevms detiuo jurgit opus.
St como eílá patente aos olhos de todos, elles nos dão a melhor authoridade.
Deíie Templo foy tresladada a Imagem da Virgem N. Senhora para o Mo-
íleirode Mumiadona,queficãoemdiliancia hum do outro oitenta partos, o de
Ceres para a parte do Suduefte,St o de Mumadona para a do Norderte; com que
ficou adquirindo novo titulo, porque le atèaquelle tempo fe chamou Morteiro
do Salvador, depois que nelle entrou a fagrada Imagçm da Vxrge Senhora nof-
fa, ficou co'onome de Santa Maria, tomando nova forma, 8t novo ertylo, por-
que em quanto teve o primeiro, foy de Monges, St Monjas, ao depois de Clé-
rigos Beneficiados, mudado a Capella Real cõ o nome de Collegiada dosReys
dePortiigal,aquemelles devem efte titulo, St feusvaíTallos o íòcegr. de fuas
terras, St bens, que poffuem com a feguranCa, que do Reyno lhes deu.

CAP. IX.

Da Real Collegiada de Guimaraens, Qf dos Priores que teve


atè oprefente.

O Conde Dom Henrique lhe deu o primeiro principio da fua mu-


dança, extinguindolhe os Monges com que o achou , quando pelo feu
matrimoniocom a Rainha Dona Therefa na Villa de Guimaraens aíTentàraõ fua
Corte, &conrtituíonelle Clérigos, dandolhe principio de Collegiada com o
titulo de Capella Real, aprefentãdo em primeiro Prior delia ao feu F ifíco mor
Dom Pedro Amarello.
Depois defte Dom Pedro Amarello fuccedèrão alguns Priores nerta Real
Collegiada ç mas o defeuido de feus Conegos, em não fazerem delles memoria,
as deixou entregues ao efquecimento ate Dom Payo Domingues , o qual foy
Deaõ daSè de Évora, aprefentado por ElRey D.Diniz no anno do Senhor de
1334. Affonfo
DA CO RO GRAFIA PORTUGUEZA. 27
Affonfo Sueiro fuccedco a Dom Payo Domingues , &foy aprefentado
pelo dito Rey Dom Diniz no anno de 13 39*
Dom Henrique Coutinho fuccedeo a Affonfo Sueiro, reynando ElRey Dô
Affonfo Quarto-
Ruy Pays.
O Doutor Affonfo Vaz.
Miguel Vivas ,quc defle Priorado foy eleito Bifpo de Vileu.
Dom Diogo Alvarez, que deite Priorado foy eley to para Bifpo de Évora,
& dahi A rceb i fpo de Li sboa no anno de 1407 •
Affonfo Martins.
Gonçalo Telles em tempo delRey Dom Pedro.
Ruy da Cunha filho de Vafco Martins da Cunha , fenhor da terra de Lâ-
nhofo, que foy hum dos Embaixadores inviado ao Papa Eugen io Quarto com
Frey Joaõ Provincial do Carmo, Bifpo de Ceuta, & ultimamente da Guarda a
petição do Infante Dom Pedro, Regedor dos Reynos de Portugal, para defan-
nexar in perpetuum do Bifpadode Tuy toda a Comarca, que he de Valença do
Minho.
Dom Affonfo Gomez de Lemos em tempo delRey Dom Joaõ o Segundo no
anno do Senhor de 14.33.
Dom Fernando Coutinho.
Dom Diogo Pinheiro, que foy Commendatario doMoíteiro de Carvoei-
ro, & de SaõSimaõ da Junqueira da Ordem dos Conegos Regrantes de Santo
A golfinho do Arcebifpado de Bragado qual fez a claultra da dita Collegiada,
& a torre dos finos: deite Priorado foy promovido para Prelado de Thomar, &
daqui para primeiro Bifpo do Funchal na ilha da Madeira, confirmado pelo Pa-
pa Leaõ Decimo no anno de 1514.
Dom Sebaítiaõ Lopes. Dom Gomes Affonfo.
Dom Fulgencio, filho de Dom Jaimes quarto Duque de Bragança-
Dom Joaõ de Bragança, filho do Marquez de Ferreira , Arcediago de So-
bradello, premudado a Bifpo de Vifeu. *
Dom Alexandre, filho de Dom Joaõ o Primeiro do nome , & fexto Duque
de Bragança, & da fenhora Dona Catherina, neta delRey Dom Manoel, filha do
Infante Dom Duarte, irmaõ delRey Dom Joaõ o Terceiro, & da Infanta Dona
Ifabel, irmaõ do Duque Dom Theodofio ç foy promovido para Arcebifpo de
Évora, & Inquifídor Geral de Portugal.
Dom Pedro de Caítro,que foy promovido a Bifpo de Leiria, Prefidente
do Paço, Capellaõ Mor,& Inquifidor Geral, & Vifo-Rey de Portugal.
Dom Fernando Martins Mafcarenhas, Reytor da Univerfidade de Coim-
bra, Bifpo do Algarve, 6t Inquifidor Geral deite Reyno.
Dom Bernardo de Ataide filho do Conde de Caítrodairo.
Dom Antonio de Ataide,Doutor em Cânones pela Univerfidade de Coim-
bra, 5t nella Collegial do Collegio mayor de Saõ Pedro , Deputadb do Ordi-
nário, & na Inquifíçaõ de Lisboa, & em Caitella Bifpo.
Dom Joaõ Lobo de Faro, filho de Dom eítevaõ de Faro Conde de Faro , &
defuamulher Dona Guiomar deCaítro,porElRey Dom Joaõ o Quarto, fendo
Doutor em CarTones pela Univerfidade de Coimbra.
Dom Diogo Lobo da Sylveira, Meitre na fagrada Theologia pela Univer-
fidade de Coimbra, & nella Ccllegial do Collegio mayor de Saõ Pedro, & Si?-
milher de Cortina delRey DÕ Affonfo o Sexto,qoprovèo naqutlle Priorado.
C ij Dom
*8 TOMO PRIMEIRO
• Dom André Furtado de Mendoça, Reytor da Univeríidade de Coimbra,
6c depois Prior, foy promovido ao Bilpado deVifeu pelo Principe Dom Pe-
dro Regente do Rey no de Portugal. *
Dom Jofcph de Menezes, Reformador da Univeríidade de Coimbra , &
depois de Prior fòy promovido ao Biípado do Algarve,& cícíle ao de Lamego,&
daqui para Arcebilpo de Braga.
Dom Pedro deScUfa,filhodeDomFrancifcode Soufa primeiro Marquez
das Minas, Embaixador em Roma pelo Príncipe Dom Pedro, hoje Rey de Por-
tugal, o Segundo do nome.
Qoando o Principe DõAffonfo Henriques paffou com feu exercito ao
Alentejo, donde veyo feito Rey no anno do Senhor de 11?9- acabou de aper-
feiçoar neíia Igreja a forma de CoHegiada Real com o feu Prior , Dignidade s,
& Conegosytanto por honra de N. Senhora, a quem devia a Coroa de Rey,com
que vinha coroado, 6c na cabeça lha pueera feu amado , 6c bento Filho Chri.ilo
jefu na miiagrofa batalha cio Campo de Ourique , como por engrandecer eila
fua patria, a quem por tantas vias citava obrigado; o que bem fe deixa ver nas
muitas honras, que fez a cila Igreja, engrandecendoa com fe fazer Padroeiro
delia, donde todos os Reys feus defeendentes, 6< fucctffores aíhm fe confervà-
raõ fempre, 6c como taes aprefentaõ a mayor Dignidade delia, q he o Prior. E
deixou EIRey Dom Afionfo Henriques tam introduzida nos coraçoens dos
Reys feus defeendétes a devoção da Virgc Senhora noiíaneíla fua Igreja,que
até o prefente eflaõ continuando, & perfeverando nella •, porque fuppoilo os
modernos tenhap faltado nas Romagens, 6c vifitas, que o? antigos vinhão pef-
foalmente fazer a eíia Igreja,não fe defeuidão em a aumentar com honras, pri-
vilégios, 6c liberdades, ôc com muitas dadivas para feu aumento.

CAP. X.

Btn que fe defereve a Igreja de A. Senhora da Oliveira,


Ermanecco eft a Igreja no rrefmc,eflado emque adeixou aCondeçaMu-
P, madona fua primeira fundadora até o tempo delRey Dom joaõ o Primei-
ro , que a mandou reedificar no anno de 14.19 • encomendando ao Mcít re af-
íimoviílofo da architeclura, como o mageílofo da grandeza , para que cor*
refpondelfe tudo à vontade grande, que tinna dea ennobrecer,6c engrandecer,
ôcporclle lhe defobedecer, pagou cõ a vida odefeuidodaobra, porque a fez
de tres naves, 6c nam tem de cõpndo da porta principal ate o arco, que divi-
de a Capella mór do corpo da Igreja, mais que quarenta 6c novepaífos , 6c a
Capella mór ficou muito limitada,*6taíTimoeíleveatè o anno de 1670.em que
o Principe Dom Pedro, hoje Rey de Portugal, a mandou fazer de novo toda de
abobeda de pedra apainelada, & no painel, que baliza o meyo delia , eílaõ ef-
culpidas as Armas Reaes. _
Muito trabalhàraõ o Meílre de pedraria, 6c os Conegos , para que cita
Capella aflim no comprimento, como na largura ficaffe mayor dt queeítà; mas
con,o por cabeceira paraa parte doNorte topou com hua alpendrada do clau.
firo daquella Igreja, 6c das ilhargas emduas Capellas de abobeda collateraes,
r*sp fe podia eflender, nem alargar mais fem rifco, .6c deformidade de todas;
DA COROGRAFIA PORTUGUESA. >9
mas o que lhe faltou na grandeza, lhe fuprio na compolf ura A alegria, porque
as duas boas vidraças a fazem muito clara.
Na parede da fua cabeceira, aonde eftàencoftadoo Altar mor, fizerão hua
tribuna^ aonde eftá a fagrada Imagem deN- Senhora , ôepor dentro das pare-
des da Capella fizerão elcadas de pedra para fervent ia dei la; & para fe expor o
Santiífimo nas cccaíicens de fefta. Ao pè do Altar móréfiá hum patim para
ondefe fobe por degraos de pedra bem lavrados , & nelle junto do Altar da
parte do Euangelho eftá debaixo dehú arco o fitial dosPriores,& deírõtedelles
outro arco da parte da Epifbla •, aonde fe aflentáo os Miifa-cantantes; 6c a-
baixo do patim de hum,6c outro lado da Capella eítáo duas ordens de cadei-
ras,em q fe affentão os Conegos,quãdo naquelleCoro coftumão rezar as horas
Canónicas, 6c faõ todas de pao preto, 6cos encoftos das paredes embutidos de
pao amarellobem viítofas , 6c de cuflo , tudo procedido de huma grande ef-
mola, que o fenhor Rey D- Pedro o Segundo deu a efta Igreja no anno de 16 89»
Eftá fechada efta Capella com grades de ferro torneadas, pintadas, 6c doura-
das-
Tem efta Igreja de largo trinta paífos, 6c he toda azulejada, 6c nas partes,
aonde fe não pode aíTentar o azulejo, he pintada, 6c dourada : tem nas pare-
des de huma, 6c outra parte da nave do meyo painéis da vida de N- Senhora , 6c
por'toda ella vidraças muito claras com muitas imagens pintadas,6c douradas,
6c em todas ellas as Armas delRey Dom João o Primeiro, 6c da Rainha fua mu-
lher, que faõ as Reaes de Inglaterra- Tem o feu Coro de cimafobre a porta
principal da Igreja, 6c fobre ella hum bom efoelho de vidraças ; he a fervenr ia
defte Coro por huma efeada de pedra encoftada à fua párede da parte do Euan-
gelho, pela qual fe fervem também para a torre dos finos, que fica ao entrar da
porta principal da Igreja à mão efquerda , a qual tem cento 6c trinta
palmos de altura, cercada de amevas, com feu zimborio muito alto , 6c por re-
mate hum Alijo armado, moftrador dos ventos ,6c para oPoente hum campa-
nário de Relogiq , cuja fabrica corre por conta da Camara : tem feis finos de
bom tamanho, principalmente o de N- Senhora.
Efta torre não foy a primeira, que teve efta Igreja , porque eífa fe derru-
bou no anno de 1515. 6c deu principio a eft a nova o Doutor Pedro Elie ves Co-
gominho, Ouvidor das terras do Duque de Bragança , 6c fua mulher Iíabel Pi-
nheira ,de que procede os Pinheiros,6c forão t ronco illuftre das melhoresCafas
defte Reyno ; ôc 110 primeiro fundamento defta torre edificou hua Capella de
abobeda , 6c no meyo delia dous monumentos de pedra levantados com duas
efígies de meya talha, huma fua, 6c outra de fua mulher, 6c em cada huma o feu
nome, cercados eftesdous monumentos com huma grade de ferro alta, 6c nas
fuas cabeceiras para o Poente hum Altar cõ a Imagem de N-Senhor crucifica-
do, com a Santiflima Virgem fua Mãy,6c o fagrado Euangelifta ao pè da Cruz,
aonde fe diz Miífa todos os Domingos, 6c dias Santos, q 1 e ouve da rua, 6c das
cafas fronteiras por huma porta de arco fechada com grades de ferro, fobre
a qual eftá huma pedracomoefcudode fuas Armas.
Namderão eftes nomeados fim à torre, a quem derão o principio,porque
delia não fizerão mais que o primeiro terço , em que fundàrão a fua Capella,
que tem a ferventia pára a Igreja por baixo da eicada do Coro , porque os
dous terços últimos acabou feu filho o Doutor Diogo Pinheiro, Cõmeudata-
riodos Mofteirosde Carvoeiro, de S. Simão da Junqueira , 6c deCaftro de
Avelans, Prelado de Thomar, Dom Prior de Guimaraens, 6c ultimamete Bifpo
C iij do
5o \ TOMO PRIMEIRO
do Funchal , oqual jaz fepultado çm Thomar na Igreja, de Santa Maria
dos Olivaes. Sendo o Doutor Diogo Pinheiro Dom Prior de Guimaraens deu
o ultimo fim á efta torre, em que poz òseícudos das Armas, de que ufava , que
he hum pinheiro eom hum Leão ao pé, com chapeo,&cordoens , como he ufo
nos Eceleíiâíficos.
Aopédeíla torre par ao Poente eílá hum tanque de tres bicas, qiie cada
humadeUasoftereceáquelle povo liberalmente quantidade de agua excellen-
te: ferve de frontifpieio à bica do meyo a grade da porta da Capella , & a da
mão efquerda tem o feu frontispício de pedra fina muito bem lavrado , & no
meyo delle huma Imagem de petlra de N. Senhora encoílada â hua oliveira, que
faõ as Armas de Guimaraens: na terceira bica da mão direita tem o feu fron-
tispício pela mefma fórma, que tem a da mão efquerda, & no meyo delle hum
cfcudo das Armas de Portugal, pintadas, & douradas. Todas as pelfoas (não
fendonaturaes daquella Villa) íe enganão com a agua defte tanque , porque
cftáencoílado à torre por tal arte, que lhe parece fer nativa dentro nella, fen-
do que he trazida a elle por canos de diílânciade humalegoa: mas eftâ metida
por tal modo , que fe não dá a conhecer , fenão aquém particularmente fe
chega a elle, & a examina.
A entrada da porta principal daquella Igreja à mão direita da parte de fóra
eílà hum efcudo das Armas delRey Dom João o Primeiro, feu reedificador, il-
luminâdo,& dourado entre doús Anjos,& por timbre hu Serafim,fuílétando cõ
ás mãos a Coroa Real, & abaixo do efcudo huma pedra com o letreiro fegum-
te t Era de M.CCCCXXV annos 6• do mehde Mayo foy começada eíla obra por
mandado dei Rey <DomIoao dado pela graça de'Deosa elle Rey no de Fortugal:eJte
Rey 'Dom load houve batalha real com El key D om hão ae Cejlella nos campos de
Aljubarrota,&foy delia vencedor, & a honra da vttlo ia, que lhe deu Santa Mar ia %
mandou fazer eíla obra por loao Garcia Mejlre da pedraria.
Tem eíla Igreja duas portas traveíTas,huma paraoNorte, & outra para
ô Sul, & por detráz da fua Capella mór tem hum clauílro com. huma alpendra-
da,por onde os Conegos fazem fuas prociífoens ordinárias , & fe recolhem
à Igreja pelâ porta traveífadoSul: fuílentafe pela parte da Igreja fobre colu-
nas de pedra , & pela outra parte corre encoílada às paredes da cafa dos
Priores;& entre a igreja,& cila alpédrada eílà hu Rocio, aonde fe enterraõ os
pobres, que morrem nos Hofpitaes, aíiim da fanta Mifericordia , como do
Anjo.
Eílão em toda a redondeza deíla alpendrada as Capellas de N. Senhora
da Pombinha, de S. Roque, dos Santos Cófme, & Damião, & a Capella de Saõ
Pedro da Irmandade dos Clérigos daquella Villa, que fica por baixo dasca-
fas dos Priores, & tem a fua ferventiapof huma porta de arco nas paredes da
mefma cafa: a Capella de Saõ Luis annexá ao Morgado, que inífituío Manoel
deValladares,quetem junto delia hum monumento metido na parede levan-
tado, & cuberto cõ huma pedra, em que eílá efculpida em meya talha a efígie
de feu iníf ituidor, & tem no meyo hum efcudo de fuas Armas, & abaixo deíle
monumento eílá a porta daferventiada caía do Cabido , & Cartorio da
Igreja.
j unto da porta do Cabido eílá huma Capella de abôbeda, da invocação de
S- Braz, annexa ao Morgado, que inílituío Alvaro Gonçalves de Frei tas. Jun-
to a eíla Càpella,&encoílada à fua parede eílà hum Altar de S. André, aonde
Os Cónegos faõ obrigados a rezar as Speciofas de Gonçalo Romeu , que faõ
♦ - cin-
DA COROGRAFIÀ PORTUGUEZA. j|
eincoenta & oito, que começãode dia de Pafcoa da Refurreição, & acabao vef-
pora da S ant íílima Trindade ; & ju nto a eík Altaf edà huma porta > que fahe
dede clauftro para a rua doPodigo.
Dentro da Igreja no feu cruzeiro edao duas portas, huma para o Sul, que
he a ferventia da Sancriftiada Irmandade do jSantiflimo,& outra para o Norte,
que he a fahida para o claudro, & cafa dos Priores, & para hum corredor para
aSancriítiados Conegos, a qual he muito alegre, &beitt ornada, & a faz mais
viftofa huma Capella, que neila fe feznoànno de 1686.em que edáhuifiaima-
gem de pincel da Virgem Senhora noifa, que no tempo delRey Dom Diniz foy
levada à Igreja de Guinvaraens, a qualíe manifefta'huma vez no annóem dia de
P aícoa: entra o Cabido depois de ter rezado Noa na fua Sancridia cõ os mais
Clérigos daferventia do feuCoro, & em prociífaõ com Cruz levantada can-
tando a Antifona Regina Geli, &c. trazem a fanta Imagem à Igreja com grande
muíica, & repiques de finos, aonde lhe tem adornado hum Altar, & alli Vão oS
Capitulares por fua antiguidade fazerlhe reverencia, & depoi s vay o povo, que
por devoção antiga que tem, fe acha muito naquelle dia,&naquelle lugar edá
por toda a Oitava, & dia de Pafcoela depois de vefpora a recolhem na dita Ca.
pcllacom a mefma folemnidadc.
Da tradição defta fanta Imagem tratahum pergaminho pequeno , que fe
guarda no A rchivo da Real Collegiada , de q ue conda que hum Payo Domin -
gues Prior de Guimaraens, & Deão de Évora fora a Roma, & a trouxera de lá,
& a puzera neda Igreja, Òc mandara ao feu procurador no temporal, que a todo *
o Çonego, que dia de Pafcoa ante a Vcfperafoífe à Igreja com fobrepelliz deA
pois dc le tanger hum fino acantar Regina Cali , & a Salve Regina diante da
fanta Imagem, lhe deífem quatro foldos; & a todo o Sacerdote, que vieífe de fo-
ra, na melmaforma deífedous foldos;& a todoo Diácono,& Subdiacono hum
foldo; & a todo o Melachino feis dinheiros. Fov feita em 14. de Mayo do an-
no do Senhor de 12 9 5. Edaçocap. 40- n.4.
Também neda Capella da Sancridia fe venera com muita devoção huma
cabeça fanta, que o delcuidodos Antigos nos não deixou nomeado de quem
fofle; fómente fabemos que he muy vifitada de gente mordida de cães dana-
dos ; & a ella vem benzer pados para os gados; & não fe tem ouvido, que de
todas as peífoas, que a ella tem vindo, morrefle alguma daquelle mal. Quando
ElRey Dom joão o Primeiro foy mordido na quinta doCurbal da cadeila da-
nada, logo veyo a viíitar Santa Maria de Guimaraens, prometendolhe de fe pe-
zar a prata, &. darlha deefmola, fe o livrafle daquelle grande mal ; & pode fef
foífe lembrança de que naquella fua Igreja edava eda fanta cabeça , porque
delia não ha outra memoria fenão do inventario, que fe guarda no Arcnivo da
Real Collegiada,feito no anno de 15-27. que diz edaà palavras:^?# outra arca
de marfil chapeada de arame dourado, aonde ejlá a cabeça de hum Santo, que prefta
para mordeduras-de cacs danados-
Em huma memoria antiga efcritá pelo Conego Pedro de Mefquita^rebc-
dado na Real Collegiada de Guimaraens , fallando deda cabeça fanta diz
o feguinte: Houve hum homem virtuofo,qtte viveona freguefta de R'tllacdva jttrr-
toaLixa Concelho de Felgueiras da Comarca de GuimaPaes ,q floreceo pelos annos
do Senhor de 1480. por cujas oraçoens no(lo Senhor dava faude a homens , & ani-
mães mordidos de cais danados & depois que elle mOrreo, & foy enterrado, os de-
votos do lugar trouxer ao afua cabeça a Guimaraens a caja de hum Ourives chamat
do Pedro Alvarez, que foy avo do Conego Manoel daSylva,& de feu irmaS *Dtogo

\
3i TOMO PRIMEIRO
da S)lva,o qual Ourives tirou da cabeça os queixos de baixo,& engafloaàos em pra-
ta à fita cujla, os deu aos devottts, que a trazião, por lhe deixarem a demais cabeça, a
qual guardou em fua caja, aonde os doentes a hiao tocar, & recebiap (ande } & por
fua morte a mandou trazer para a Igreja de N. Senhora da Oliveira, aonde ao pre-
fente ejlá na JuaSãcriftia guarnecida de prata,& metida em híia cai* a de marfim
tem virtude para Jar ar os mordidos de caés danados, & para outras muitas enfer-
midades. E não diz mais a dita memoria, queeílá em poder do Conego Fernão
Machado em livro delias manu-eícrito-
Muito authoriza , & engrandece aeflaSancriftia hum retabolo de prata
dourado do Prefepio de N. Senhor Jeíu Chriílo, que ElRey Dom João o Primei-
ro deu de cfmola a N- Senhora , em gratificação da batalha , que venceonos
campos de Aljubarrota contra ElRey Doin João o Primeiro deCaflella, aqug
nella foy tomado com mais doze Anjos de prata da fua Capella Real,& outras
peças de fua recamara. Dos doze Anjos íe desfizerão onze em caíliçaes , cal-
deiras,hylope, turibulo,&naveta,& outras coufas para a lerventia deíla Igre-
ja, & o que ficou ferve de ir debaixo do palio naprocifíaõ do Anjo , que a ,
Camara faz na terceira Dominga de Julho. Todos eíles Anjos tinhão hum le-
treiro, que dizia : Eft a obra mandou fazer et noble fenhor Rey'Dom Henrique:!!*
todos erão do mefmo feitio dos vultos dourados, & efmaltedas imagens que
tem o retabolo, & tudo obrado com todo o primor da arte , o qual fe poem no
Altar mór em dia da feílado Nafcimento de N- Senhor Jefu Chriílo , & de
N. Senhora, & nelle aífiíle atè o dia oitavo d? Epiphania , em que fe-torna a re-
colher ao feu lugar, & delle não torna a fahir íenão em outro tal dia.
Diz Eílaço no capitulo 48. n. j. que eile retabolo fe fizera de prata, a que
fe pezou E lRey Dom Joaõ o Primeiro, &. deu de efmola a N. Senhora , no que
recebeo notável engano,que devia proceder de ver nelle efmaltadas as Armas
deílcRey, que os Conegosda Real Collegiada mandàrão nelle illuminar pa-
ra final, que ficaífe aos vindouros, que fora dadiva fua ; no que andàrãomal I
aconfelhados;porquafe nifíòmoilràrão amerce, que o Rev lh es fez, efcurecè-
rão a gloria, ccfn que foy alli trazido 5 & fé tile Author conferira o Anjo , de
que trata no mefmo capitulo num. 5. & diz fora tomado na mefma batalha, não
houvera de manifeílaraomundoofeu engano; & juntamente quando confefía
que era da Capella Real de Caílella 5 porque he certo que ElRey Dom João o
Primeiro de Caílella não havia de trazer em fua companhia os Anjos, que nella
fervião de ceriaes, fem trazer o retabolo, a que elles allumiavão.,
Com grandifiima devoção fe venerãono Santuário deíla Sancriília as
relíquias fantas, que nelle eílão encerradas, que faõ as feguintes: o fanto Le-
nho em hum relicário de prata dourado, o leite de N. Senhora em huma am-
bula de criílal,huma maífaroca da mefma Senhora,hum tomozello do pé de Saõ
Torcato,as relíquias de Saõ Sebaílião,de Celeílino,Donato,Theodora, De-
fiderio, Clemência, Benediéla Martyres. Também eílão nefta Collegiada os
oífos de S Pedro Martyr,q trouxe a cila de Roma Dom Pedro de Soufa, Prior
daditaIgreja,SumilherdaCortinadelReyDomPedrooSegundo , os quaes
eílão em hum tumulo rico de vidraças engaílado em prata.
Depois de Eílaço tèrefcrito o feu livro de varias Antiguidades de Portu-
gal,em q deu diílinéta conta das coufas de Guimaraens, & muito particularmé-
.te da fua Igreja Collegiada, & de feu thefouro,accrefcèrão nelle muitas joyas,
& peças de ineftimavel valor, com que os devotos de N. Senhora oquizerão
mais engrandecer, como faõ oito tocheiras de prata , que pezão duzentos &
»• qua-


DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. 3$
quarenta 8c tres marcos, com as Armas de Luis Alvarez deTavor'a, Conde de
São }cão daPefqueira, primeiro Marquez de Tavora , que fervindodejuiz
muitos annos na Confraria defta Senhora, fe mandàrão fazer com o dinheiro
de íuas efmolas, 8c de outros particulares, com feispiviteiros grandes muito
bem obrados, que pezão doze marcos, 8c tres onças-
Dom João da Sylva 8cSalzedo, natural da Fregiiezia de São Cláudio,ter-
mo de Guimaraens, 8c foldado da fortuna , que^jor feu valor íubio afer Go-
vernad or do Porto de Santa Mana daquelle Reyno, mandou a eíla Senhora húa
cadea deourode excellentiffimo feitio,8chumaCruzdomefmo,toda cuber-
ta de efmeraldas, que fe avaliàrão em feifcentos mil reis 5 8c inftitu ío naquella
Collegiada huma MiíTa quotidiana com efmola de feifcentos reis, para o que
mandou dinheiro, que fedèífe a razão de juro , oufe empregalfe em bens de
raiz, que rendeííem a mefma quantia;nomeando porCapellão delia a hú Clé-
rigo feu parente, 8c por mortedelle ficaria a adminiílração delia correndo por
conta da Irmandade de N- Senhora, para eleger Capellão, que a diga pela efmo-
la coíTumada, 8c o ifiais red ante ficaííe para aumento da Irmandade-
Temeílethefourohum caliz grande dourado com íeis campainhas, 8c cõ
fua patena dourada, & tem à roda feus capiteis na maçã, o qual deu o Chantre
daquella Collegiada Fernando Alvarez: peza oito marcos menos huma onça
de prata» /
Outro caliz dourado, que ferve nas MiíTas da Terça, que deu de efmola
Antonio Martins Penteado, com fua patena dourada, & tem no pê quatro Se-
rafins : peza tres marcos, 8c duas onças de prata-
Outro caliz de prata dourado com feus efmaltes no pè , & íeis 11a maçã
do meyo, 8c hum efmaltenomeyo da patena, com a figura daSanrifíima Trin-
dade, que peza cinco marcos & meyo, & he tradição que com elle dizia MiíTa
S- Torcato.
Hum gomil com fuas carrancas, & boca dourada, que peza fete marcos 8c
meyo8c hum prato de agua às mãos chão, dourado pelas molduras , que peza
fete marcos, 8c duas onças de prata, que tudo deu deelinola a N-Senhora o Co-
negojeronymo Martins ;8c dons mais, que pezão quatro marcos-
Huma Cruz grande de prata branca, toda aberta, 8c bem lavrada,que deu
oConegoGonçaleanes, que peza fetenta& hum marcos & meyo-
Huma Cruz de prata dourada, com a prizão de Chriílo, que peza trinta 8c
feis marcos. Outra Cruz de prata,que peza treze marcos, 8c vinte & quatro oi-
tavas, a qual eílá continuamente no Altar mor, para as MiíTas que nelle fe di-
zem-
Huma Cruz pequena de prata dourada com criftal no meyo, debaixo do
qual eftá o Santo Lenho , 8c a afpa direita he. do que havia antigo naquella
Igreja, & a que atraveíTa,hedo que Dom Fr- Agoflinho dejefus Arcebifpo de
Braga deu àquella Igreja, 8c não ferve eftaCrjaz , fenão no feu dia at resde
Mayo, & na fexta feira da Paixão de Chriílo: não conda o feu pezo do inven-
tario-
Huma arca de prata mociííà com as Armas dos Cunhas , que deu o Dom
Prior daquella CollegiadaRuy daCunha, a qual tem dentro muitas reliquias,
de que fe não fabe os Santos de que faõ> 8c outras, que trouxe de Roma o Aci-
prefte Fernão Gonçalves: tem de pezo vinte 8c fete marcos, 8c duas onças , 8c
ferve nas pròciíToens-
Huma cuftodiadotornozellodobemaventuradoSaòTorcato,que deuo
Dom
34 TOMO PRIMEIRO
Dom Prior Dom Diogo Lobo da Sylveira, a qual peza feis marcos.
Hum Caliz antigo, de que ha tradição, dizia MiíTa com elle Saõ Torca-
to^ o qual peza cinco marcos & tres onças: ferve de Relíquia,&não de ufo.
Huma maífa do Porteiro do Cabido com quatro cadeas de prata, & hum
Relicário de prata com a Imagem deN. Senhora , que tudo peza dezoito mar-
cos, & duas onças.
Seis cafliçaes grandes de prata lavrados, & em cada hum a Imagem de N.
. Senhora, que pezão cento & vinte & tres marcos; & mais feis caíiiçacs lizos,
& grandes, que pezão dezafeis marcos, & duas onças , que tem as Armas dos
Tavoras: dousmais domefmo tamanho fem as Armas , que pezão quatro
marcos,& fete onças.
Dezoito caííiçaes pequenos, que pezão vinte & nove marcos : & oito
mais do mefmo tamanho,que pezão dez marcos, & feis onças : & feis mais do
mefmo tamanho, que pezão quatro marcos,& tres onças.
Huma coroa de prata, que peza tres marcos: huma eftante, & hum Euan-
gelho de S. João com as Armas dos Tavoras, que peza tudo dezafete marcos ,
& fete onças.
Humas galhetas grandes com feu prato, que pezão quatro marcos,& feis
onças :& outras pequenas com prato , que pezão tres marcos, & duas on-
ças.
Quatro cetros, que pezão cincoenta & tres marcos, & huma vara , que
peza tres marcos, & feis onças :& quatro varas mais, que faõ da charola de
N- Senhora, que pezão vinte & tres marcos, & quatro onças: & hum bordão,
que a rcefma Senhora leva na Prociífaõ da Vifitação de Santa Ifabel, que peza
hum marco, & duas onças.
Onze cálices pequenos, em que entrão cinco dourados , que todos fa5
do ufo da Igreja, que pezão todos com fuas patenas trinta & tres marcos.
Tem outras peças miúdas, de que fe não tirou pezo, por ferem de ouro ,
aljôfares, & efmaltes, como faõ humas gargantilhas, hum afogador, huma joya
com dezafete botoens efmaltados guarnecidos de aljôfar , & cada hum peza
mil &fetecentos&'oitentareis. E continua o inventario defta Igreja, dizen-
do:
Hum Agnus Dei, que trouxe de Roma o Aciprefte Fernao Gonçalves, en-
gaftacío em pao , que ferve no Altar mor depois da Pafcoa.
Huns corporaes lavrados com fio de ouro, que forão delRey de Caftella,
& tem a fua effigie, & a da Rainha com coroas,& as fuas Ar mas,que fe tomarão
com o retabolo na batalha dc Aljubarrota, & os deu ElRey Dõ Joam o Primei-
ro com o mefmo retabolo.
Huma imagem deN. Senhora com feu bento Filho no collo, ambos de pra-
ta dourada fobre huma penha fermofa dourada, & efmaltada , que tem as Ar-
mas dos Pereiras, que tudo pezít dezafeis marcos, & quatro onças.
Huma imagem de S. Sebaftião de prata , que tem huma Cruz de ouro pe-
gada no pècõreliquia de S- Lourenço,q deu de efmólaa efta Igreja o Doutor
Balthefar Vieira, a qual peza dezafete marcos, & tres onças menos duas oita-
vas.
Huma Cuítodia grande de excellente feitio de prata dourada, & bem la-
vrada, que deu o Conego Gonçaleanes., q peza vinte & cinco marcos & meyo,
& duas oitavas. Outra Cuftodia de prata dourada, que ferve aos enfermos,que
peza nove marcos.
Hum
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. , 35
Hum turibulo de prata, que deu ElRey Dom Manoel deefmola a N- Se-
nhora, que peza fete marcos, & tres onças : outro turibulo de prata de obra
Romana, que peza nove marcos- Huma naveta de prata,que peza quatro mar-
cos, & feis onças,que deu ElRey Dom Manoel.
Dous lampadários, hum, one deu ElRey Dom João o Primeiro, que peza
fet l ta & tres marcos, duas onças & rríeya Oitava, que eftáfempre allumiando
a N - Senhora: & outro, que deu o Conego Luis Mendes , que peza cincoenta
& hum marco & meyo,&duas oitavas. ^
Outro lampadaflo, que também allumea a N- Senliora por obngaçao do
Morgado, que inftituío Dom Jorge da Guerra, Bifpo de Angola, que hoje ad-
miniftra Manoel Velho do Couto , o qual peza feífenta & hum marco & tres
oitavas, & foy dado pelo'mefmo Bifpô.

CAP. XI.
*

Em que fe profegue a defcrtpçao da Igreja de N. Senhora da Olivei-


ra , Qffe moHra que efia Real Collegiadafoy femprè imwe-
* diatà aos Summos Pontífices.

*T*Enho dado conta das coufas exteriores da igreja Collegiada deN- Se-
nhora ; agora a darey de feus Altares, & Capella mor, f qual tem de cada
lado huma de abobeda de pedra cõ as Armas delRey Dom João o Primeiro rios
fechos delias,& ambas damefmatraça, & architedura comos corpos pára o
clauftro , afGm como o tem a mefma Capella mór, com portas de arco\para a
Igreja, "uardadas com grades de ferro, que fechão todo o arco, & amba s azu-
lejadas : a da parte da Epiftolahe do Santiflimo, que o Conego Gonçaleanes or-
nou à fuacuÍTadefacrario, retabolo, Altar,imagens, & grades, que neila ef-
tão, & aunexou a hum vinculo,quê inftituío dás fuas herdades de Segade, & o
deixou a feu fobrinho João AfFonfo dos Quintos. _
Encoftada à parede defta Capella para a parte do Sul eftá a Capella de San-
ta Catherina Martyr, que inftituío Jo5o Lopes da Ramada, & annexou ao í eu
Morgado. 'He hoje Altar de Santa Anna , que fabricão feus Confrades."' Ní
parede da Igreja para o Sulfe abrio hum nicho, em que fe recolheo a pia, aonde
foy bautizado ElRey Dom AffonfoHenriques,& eftá fechada com grades de
ferro, com letreiro, que diz: Neftapiafoy bautizado ElRey'Dom Affonfo IJe-
' ' naves pelo Jrcebifpo de Braça S Giraldo: &nofrizo do nicho outro, que diz :
Efla obra mandou fazer Dom D togo Lobo da Sylveira, indigno Pr.or desfa Igre-
ja) no atino do Senhor de 1664,.
Abaixo defte nicho na mefma parede eft á a Capella de N• Senhora da ConJ
ceiçáo annexa ao Morgado deNefpereira, que inftituío PedroCardo 1 o o Ve-
lho aonde tem feu jazigo: tem Altar privilegiado por Breve do Papa para Mif-
lás de corpo prefente ditas pelos Conègòs,& não por oiitro qualquer Sacer-
dote 5 fccha-1 e efta Capella com huma grade de ferro, & tem por remate hum
efeudo de ferro, & nelle illufninadas as Armas dos Cardofos: abaixo dexla eíta
a porta traveífa, que vay para o clauftro-
.A outra Capella, que eftá da parte do Euangelho da Capella mór , he da
$6 TOMO PRIMEIRO
mefma architetflura da do Santilíimo,& tem a image de N.Selihor crucificado:
foy dada pelo fenhor Dom Duarte da fereniflima Caía de Bragança ao Conego
daquella CollegiadaFrancifco de Mefquita, que annexou ahum Morgado , q
inífituío naquella Villa , a quem também annexou os feus terços Brites Men-
des de Carvalho, mulher do Doutor Fernão de Mefquitâ, com obrigaçam de
quatro MiíTas fomanarias t he toda fechada com grades de ferro , Sc
no remate delias em efcudodomefmo illuminadas as Armas dos Mefquitas.
Encoílado à parede deíla Capella junto à porta, que vay para a Sancriíl ia,
eíl á o Altar do El pinto Santo, quefabricão feus Confrades, de que faõ fempre
juizesos Mmiílros de Juíliça, que fervem naquella Villa. Abaixo da porta ,
que vay para a Sãcriília,no lado da parede da parte do Euangelho fe âbr io hum
arco de pedra para a Capella de Saõ Nicoláo Bifpo, que inílituírão os Eíl udàn-
tes daquella V ilia, Sc a fabricão por lua Confraria: he toda azulejada de abobe-
da de pedra apainelada cem o corpo fora das paredes ,&no frizo do arco hum
letreiro, que diz '..Ella Capella.mandàraô Jazer os Eíludantes deft a Cilia no anno
do Sei horde i66j. abaixo delia eftá a porta "traveíTa deft a Igreja, que vay para
o Norte , & tem a fua ferventiã para a Praça. A entrada da porta principal da
Igreja à mão efquerdâ, entre ella,& aporta da Capella dos Pinheiros da torre
dos finos, eílá a pia Bautifmal fechada com grades pintadas, Sc douradas.
A Capella mor, que antigamente tinha eíla Igreja, antes da que hoje tem,
fov fagrada por Dom João Bifpo de Coimbra, por mandado delRey Dom j oão
o Primeiro, com licença de Dom Martinho de Miranda Arcebifpo de Braga,
que eílá fepultado na Igreja de S- Chriílovão de Lisboa, a que eiteve prefente
Dom João Manrique Arcebifoo de Santiago, & Dom Rodrigo Bifpo de Ciudad
Rodrigo, Sc afiiftírão a eíla íolenidade o mcfmo Rey J & a Rainha fua mulher
Dona Filippa de Alencaíire, Sc feus filhos o Infante Dom Duarte, Dom Pedro,
Dom Henrique, Sc Dom Aífonfo-; & foy celebrada a 2 5. de janeiro do anno de
Chriílodc 14.00. Cuarda-fe a cartadcílafagraçãono Archivodo Cabido ,na
qualfevè affinado ]oão Bifpo de Coimbra.
Depois depaífar hum anno fcfagrou o'corpo da Igreja àos mefmos 23.
dias de janeiro por mandado do dito Rey Dom João o Primeiro , & de fua
mulher Dona F ííippa de Alencaíire. Sagrou-a o Bifpo -do Porto Dom João de
Azambuja, o qual foy Arcebifpo de Lisboa, & Cardeal da Sãta Igreja Romana,
com o titulo de São Pedro ad Vincula, & vindo para eíle Revno taleceo na V il-
ia de Burguez do Condado de Flandes em 13. de Janeiro do annO'deChriilo
de 141 f. & fofão tresladados feus oífos para o Coro de cima do Moíleiro do
Salvador de Lisboa de Reli giofas Dominicas, de que foy fundador.
A Igreja de S. Miguel, Parochia da Villa Velha,eraimmediata a© Papa; Sc
eílamcfma creaçao oblervou o Moíleiro de Santa Maria, fundação daConde-
ça Mumadona, aífim fendo de Monges, & Monjas, como depois que o Conde
Dom Henrique aífentou naquella Villa fua Corte, & a inílituío em fua Capella
Real, aprefentando nella Priores, & neíla poífc a confervou fempre (depois de
fua morte) a Rainha Dona Therefa fua mulher, Sc o Infante Dom Affonfo Hen-
riques feu filho antes, & depois que foy Rey , como também feu filho F.lRey
Dom Sancho: Sc em fuas vidas teve eíla Igreja a voz, Sc titulo de fua Capella
Real, como ainda tem, Sc com elle fempre foy venerada, fem reconhecerem em
alguma maneira por fuperiores aos Arcebifpos de Braga, por ferem immedia-
tas ao Papa, porque no tempo dos Monges, Sc Monjas os Abbades vifitavão a
fua Igreja, & depois que ellapaffou a Priores, & no tempo delRey Dõ Sancho
DA COROGRAEIA PORTUGUEZA. pi
4 efta Villa fe achava com mais a Igreja Parochial de Saõ Payo. Ficarão cites
ufando damefma jurifdtção, como Prelados ordinários dos Conegos ^ Por-
cionarios, & Clérigos, & dos feus freguezes. & fuas annexas, fazendo as vifi-.-
tas das ditas Igrejas , como Prelados ieus , iem fe entremearem nelias os
Arcebifpos de Braga, o que bem notoii o Arcebifpo SaõGiraldoS admirandoib
da juriíEçãodos Prelados defia Igreja fer independente da fuá : mas comtu-
do nada fez contraella. -Ertaço cap. z y.n 3. r. j' i »
O mefmo fez o Arcebifpo de Braga Dom Mauricio leu fucceffor , o qual
efiando de poffe do Arcebifpado pelos annos do Senhor de 1 u r & fendo muy
zelofo das jurifdiçoens, nunca oufou perturbar aos Pf iores de Guimaraens da
que ufavão na fua Igreja,&fuas annexas. A Dom Mauricio fuccedeo O Arce-;
bifpo D- Payo Medo no anno do Senhor 1118 - que faleceo no de 1 ify fem
obrar coufa alguma contra a jurifdição dos priores; & o mefmo fez Dom João
o Primeiro, q lhe fuccedeo no anno do Senhor de 1139.& morreo no de 1173.
o qualfoy Legado Apoftolico, como diz Mariana iiv- 10. cap. 14.. & contem-
porâneo delRev Dom Affonfo Henriques, que com elle aifinou a doação , que
cite Rey fez aos Religiofos de Santo Agoftinho do Morteiro de S. Torcato.
Se°uio-fe ao Arcebifpo Dom João o Primeiro o Beato Godinho no ánno
do Sei hor de 117 y- que morreo no de 11S8. a quemfe fe^uioDom Martinho
Segundo no anno 1188-& faleceo no de iziq.de quem fe faz menção em hua
doação, que ElRey Dom Sancho fez do cafal de Moucos na Freguezia de Saõ
Miguel de Creixomil termo de Guimaraens, a Gonçalo Pires , em que afíinou
eíieArcebifpo , que eílà no Tombo dos Reguengos, & no Livro dos Privilé-
gios de N. Senhora foi. s6. Por morte defte Arcebifpo Dom Martinho Segu-
do entrou no mefmo anno de 1219- Dom Pedro I erceiro, que íloreceo até o
de 11 z 7 • fem haver entre todos elles, & os Priores de Guimaraens diíTenfam,
nem controverfia alguma contra a confervação de fua jprifdição, q quando não
foífe nacido de fua boa condição, por fe contentarem com o fcu, feria por ref-
peito,ou medo de feus Revs, que tinhao fua Cortenaquella Villa.
Para ElRey bom Affonfo Henriques conquiftar melhor as terras da
Ertremadura, & Alentejo, que os Mouros occupavão, mudou a fua Corte pa-
ra a Cidade de Coimbra, lev ando comfigo aos Vimarinenfes, de quem muito
fe fiava ;& com a fua aufencia ficou a fua Igreja, & Capella Real de Guimarães
defemparada do feu favor, & os Arcebifpos de Braga com oufadia para a molef-
tarem,&conquiftarem por armas, para fe fazerem Prelados delia, como o fez
Dom Eftevaõ Soares da Sylva, q 14c fendo provido no A rcebiípado de Braga por
falecimento do Arcebifpo Dom Pedro o Quinto do nome , acometeo aquella
Igreja com muita gente, que o feguioj & o Prior, Conegos, & mais Clérigos fe
defenderão com armas, & houve de ambas as partes algumas mortes,& danos ,
nas fazendas. Reynavanefte tempo em Portugal Dom Affonfo o Segundo, &
era SummoPontificeInnocencioTerceiro,que interpondo fua authoridade,
cõmetteo a caufa a dous Arcediagos para a decidirem,que foy o Arcediago de
C,amora,& o de Artorga,os quaes fizerão entre ertas partes huma Cõcordata,
que confirmou o Papa Honorio, em quefcafíentouofeguinte: Que os Priores
fofiern Prelados ordinários da Igreja de Guimaraens, & tive fiem jurifdiçam nos
Beneficiados, & Clérigos delia, como a tem os Bifpos & fomente reconhecerem aos
Jrcebtipos de Braga como Metropolitanos-, masque nam pude fem os Priores co-
nhecer dos caf os que por direito merecerem depofiçam,ou [ufpenfao perpetua p & que
em tudo o maisjofiem os Priores como Bijpos fttffraganeos,tendo nos feus Conegos,<r

* W
J8 ./.S3W TOMO PRIMEIRO- o D Ail
'poròoiiarios aqttellajurifdiqad, qift q->duutr Bi(po tem m* pus, & maÇuA VioceÇe
atjval Concordat*foy celebrada no anno do Senhor de liió.&.to »fornada pela fan•
tá Se /JpoJttíUca. ; < j -.caBiii - ò . -O i- ■
<!Q r Eftandoatfi m correndo a Airifdiçãc >dcík Igrojaymapdou o Papa Gregorio
JX.sDO anno do Senhor dfcTi* ->• a João Rrfpo, Sc Carded Sabiifenfo, Legado à
Latcreya Efpsnfaáa tratar hegocios de muita importância , como diz joão de
Mariana na foa Hiftoria parte primeira liv.ti. c- ^.^.qtiaLDekgado veyo.a
Guifi.&racns ,ôcvifitou AporfStolicamcnteafua Collegíada, Prior, Dignidades ,
Beneficiados) & Clérigos delh,& entre outras coulas.de importância, que or?
denouna fuavífitMoy, mandar pòr authoridade ApodMica, qucos Conegos,
6cmaisBeneficiadosdaquella IgrejativeítemporfeitQrdinario àoPrior delia,
& lhe obedeceffem em tudo^onfirmando outra vez a Concordata referida, d a
qual faz menção na fua vifita, que fe conferva no Cartório da dita'Igrcja, & foy>
lançada na Torre do To mbo deík Rey no, por fer coufa notável; & a fiim o Prior
da quel la Igreja ficou confirmado por Prelado ordinário delia, & de feus Bene?
ficiados, & Clérigos , fendo Rey de Portugal Dom Sancho o Sçgtindo do no- I
me» ' -1'' ■
Logràrão cfla paz, & concórdia os Priores,& feu Cabido muitos annos,
reconhecendofemente aos Arctbifpos de Braga na juriídição Metropolitana
nos cafos de appellação como feus fuitiíaganecs 5 & íc alguma hora os Arcebif-
posvifitavão adita Igreja, eta, como Metropolitanos, quando vifitavão a lua
Província, & feus fuftragancos do Porro,iCoimbra ,• & Vifcu, depois de te-
rem viíitado todo o feu Avcebifpado. Correndo depois o tempo , alguns Ar?
cebifpos de Braga perttndcrão v ditar cila Igreja, não corno Metropolitanos,
fenão como Prelados ordinários, achando, que por eílar tam vifinha à Cidade
de Braga, desfazia na fua jurifdiçãonãofervifitada por ellcs;oque não pude-
rão acabar, por fer contra a pofíc immemor.al, privilegio, concordata, confir-
mação, &vifítaçãode mandado da Santa Sè Apoífolica, como fica dko.
Succedeo fer provido no Arccbifpado de Braga o fenhor Infante Dom
1
Henrique, (q depois foy Rey ckde Reyno) o qual cõ poder ileal entrou na Villa
de Guimaracns, & por força, a que le não pode refill ir, vifitou âquella Igreja : o
Prior, Dignidades, & mais Beneficiados refiíHraõ appellando, ôt aufentando-
fe da dita Villa; lua appellação foy devoluta à Sè Apoítolica , de que impetrà-
raõ referiptos para juizes, que conhecèraõ da caufa inhibindo , & citando as

5 1
Renunciou o fenhor Infante o Arccbifpqdo, em que tinha entrndó, 110 an-
uo de 15 2*. &nellerefidioatè ode 1540. & lhe fuccedeo Dom Diogo da Syl-
va ntíle anno de 1540. & no í 5-4.1- falecco,& fe lhe feguio o fenhor Dõ Duarte,
filhodelRey Dom Joaõ oTerceiro,no annode 1541. que faleceo no de 15-43-
a quem fuccedeo Dom Manoel de Soufa no mefmo anno de 1543. & nenhum
delles oufou vifitar a dita Igreja, aífim por não perturbarem a fua jurifdição,
como pela caufá de appellação correr no juizo Apoífohco.
Por falecimento de Dom Manoel de Soufa fuccedeo na Mitra Archiepif-
copal de Braga Dom Balthefar Limpo, pelos annos de tf o. que por fer muito
privado delRey,&mimofo do Cardeal Infante Dom Henrique,entrou cõ mão '
armada na Villa de Guimaraens. O Prior, Conegos, & Beneficiados fechàrão.
as pdrtas da fua Igreja,& porque nam podiaõ refiílir com armas cõtra tanto po-
der, como traziaoArcebifpo, lhe mandou quebrar as portas da Igreja , & do
Sacrário, & maisofficinas; ao,que acudio o Prior por Procurador com as ínhi-
, * bitorias
DA COROGRAFIA PORTUGUESA. 39
bitorias paliadas, & novas appellaçoens, em que debaterão tanto tempo, que o
Cardeal Infante os ajuíiou,& portais apontamentos por elle aífinados > que
fe confervão no Cartório da dita ígreja,íe fez nova Concordata entre os Arce-
bifpos, Prior, Conegos, & mais Beneficiados daqueila Igreja, íía qual fe aífctou
o feguinte.
Que os Arcebifpos de Braga pudeífem peíToalmcnte, & não por peíToa al-
guma Vffitar nostempos determinados por direito a Igreja Matriz Collegiada
da dita Víilade Guimaraens, & quat ro Igrejas filiaes fuas no temporal, & efpi-
ritual,aífim, & da maneira q podem vifitar as Igrejas do feu Arcebilpado: & que
pudeífem dcfpachar as culpas dos Conegos, & Beneficiados da dita Igreja, que
11a vifita fe achaífem, quando ellas fe pudeífem defpachar fummariamcnte; por-
que então logo as remeterião ao Dom Prior, como Prelado ordinário, & juiz
dos ditos Conegos, & Beneficiados os quaes as determinarião conforme ao
direito, dando appellação,&aggravo para ante os ditos Arcebifpos , como
Metropolitanos 5 & fendo cafo que os ditos Arcebifpos não foíTem peífoalmen-
te vifitar aquella Villa nos tempos inílituidos por direito, não pudeífem man-
dar V ditadores a vifitar a dita Igreja Matriz, ne ao Prior, nem aos Conegos,
& jkneficiados delia no efpiritual, nem no temporal ; nem os taes Vilitadores
pudeífem contender em coufa alguma, que tocaífe âdita Igreja Matriz.
Ella Concordata foy celebrada em Lisboa no anno de isf?- aos 3. de
Julho: por ella ficàrão os Arcebifpos de Braga Vifítadores ordinários da Col-
legiada de Guimaraens, & dos Priores, & Beneficiados delia , quando vieífem
peífoalmente vifitala, & das quatro Igrejas filiaes 5 & os Priores ficãraõ perden-
do a vifitação ordinária das ditas Igrejas, que dantes tinhão, & a vifita de todos
os anitos, fem os Arcebifpos terem para iífo direito, nem poífe, que fe não con*
tradiífeífe.
Aífentou-fe mais neíla Concordata, que não fazendo os Arcebifpos pef-
foalmente a vifita nas ditas Igrejas nos tempos determinados por direito, â vi-
fita da dita Collegiada, aífim no temporal, como no efpiritual, ficaífe devoluta
ao Dom Prior, que vifitaífe a dita Igreja , aífim co'mo os Arcebifpos a podião
vifitar,fe peífoalmente a ella foífem.
Do relatado femoftra que os Arcebifpos de Braga não faõ Prelados ordi-
nários da Igreja de Guimaraens, mas fó podem vifitar pellbalmente como Vili-
tadores, & não como ordinários; &. quando elles o não fazem peíToalmente , a
vifita ordmaria he dos Priores daqueila Igreja, & não dos Arcebifpos , & íeus
Vditadores, que de nada podem conhecer, que toque à dita Igreja no temporal,
& efpiritual, que tudo pertence por direito , & não por cõmiílaõ alguma aos
Priores. Emais propriamente fc pode dizer que os Arcebifpos faõ Vifítado-
res dos Priores; porque quando elles vem peífoalmente vifitar , & acabão fua
vifita, mandão entregar aos Priores as culpas, que delia refultão,de feus fubdi-
tos, paraqueellesasfentenceem,&lhedemappellação,& aggravo ; pelo que
diífe num Prior ahum Arcebifpo •. VoíTa Senhoriahe meu Vifitador neíla Igre-
ja, & eu Prelado delia. He vprdade, que os Priores recebem o «itulo de fua cõ-
firmai, ão da mão dos Arcebifpos de Braga , & por eíie refpeito no que toca a
fuas peífoas não tem izençào, & os Arcebifpos conhecem de fuas caufas : mas
nem por ella depende a jurifdição dos Priores, nem fe deriva , nem participa
por mod o algum da jur iídição dos A rcebifpos, & todas lhe pertencem por di-
reito ao feu Priorado; do qual tanto que tomãcpoífe, logo ficão ordinários, &
fuff raganeos, como faõ os Bifpos do Porto,Coirtibra, Vifeu,& Miranda.
D ij Deíh
v
40 TOMO PRIMEIRO
Deíla maneira he que 09 Arcebifpos de Braga recebem as letras do leu Ar-
cebifpado , & provifaô dellc da mão dos Summos Pontífices ; &; tanto que
tornão poffe de feu Arcebifpado, uíaõ da jurifdição fecular, que eftà annexa a
elle, aflim da Cidade de Braga, como de doze Villas,& lugares, que faõ annexos
ao Arcebifpado: a qual jurifdição fecular nam depende, nem fe deriva da Santa
Sè Apoítolica direitamente, mas he Real; derivada comode fonte, da que tem
cs Rey s de Portugal, que lha concederão por íuas cartas 5 ót para elles, & para
feus Tribunàes vão as appellaçoens, que nos cafos cabem, &. nam para a Sànta
Sé Apoftolica. Iítomefmofemoítra claro nas jurifdiçoens annexas aos Eíta-
dos, & dignidades, que não dependem dos confirmadores,fenão do direito ra-
dicado neiles: do qualufaõoDeaõ, Chantre, Meílre-efcola, Aciprefle de Val-
devez, Arcediagos do Couto, de BarrofoJ de Bermòim, de Neiva, de Labruja,
& de Villanova cie Cerveira; os quaes todos faõ confirmados pelos Arcebifpos
de Braga, & faõ Vi fitadores ordinários das terras, povos , & Freguefías dos
deílri&os de luas Dignidades , fem ter dependência alguma a fua jurifdiçam
dos Arcebifpos de Braga: & o mefmo fe moíira nas Dignidades , & Cabido da
Villa de Valença do Minho, que faõ Vifitadores ordinários cte muitas Igrejas
do Arcebifpado de Braga.
De tudoo aflima apontado fe moíira , que o Priôrado de Guimaraens he
Beneficio Curado,como faõos Bifpados; porque feus Priores faõ Prelados or-
dinários, Cabeças, & Paíiores das Dignidades, Conegos, & Porcionarios da
dita Igreja: conhecem de íuas eonfiífoens no efpiritual, cenfuras, & culpas, &
delles depende o governo da Igreja, como cabeças delia : &os ditos Priores
faõ obrigados a refidir na fua Igreja, para conhecerem de fuãs ovelhas, de que
ftõ verdadeiros Paíiores, & Prelados ordinários com jurifdição efpiritual, &
contenciofa, com Tribunal de Vigário Geral, Efcrivaõ,Meirinho, & Miniltros
de juítiça.
Nam paràrão ainda aqui as inítancias dos Arcebifpos deBraga em querer
tirar de todo àCollegiada de Guimaraens a pouca jurildiçaõ , que lhe tinha fi-
cado da muita, que unhão ôs feus Priores ; porque entrando por Arccbifpo
Dom Affonfo F urtado de Mendoça no anno de 1619- mandou no de 16 2 i. o
feuBifpo de Annel cõmuitos Officiaes de juíliça Ecclefíaílica,para vifitar a-
quella Collegiada, & fuas Igre jas filiaes. Entrou o Bifpo , & mandou aífentar
fua Mefa de vifita ; foy o Cabido, & Camara a fazerlhe feus requerimentos ,
cada hum pela parte que lhe tocava, os Conegos pela jurifdição de fua Igreja,&
a Camara pela jurifdição Real. Não queria o Bifpo ceder da diligencia,que lhe
fora encomendada,& por meyo de eXcõmunhoens per tendi a atalhar os reque-
rimentos, de que huns, & outros áppeUando lhe levantàrão a mefa da vi fita, &
o Bifpo fe levantou, mas não defenganado; porque deíla Igreja fe foy à de Saõ
Sebaílião, huma das filiaes da Collegiada, aonde mandou per mefa, & acompa-
nhado de feus Officiaes, & de outra mais gente, que trazia em fua companhia,
quiz dar principio à fua vifita naquelle lugar , aonde a Camará foy continuar
com feus requerimentos, que de fua parte forão muitos , & da outra as cenfu-
ras, de que os Vereadores, & OfficiaeS da Camara appellàrão , & jâ com pala-
vras mal foantes lhe derrubarão as mefas por terra.
Quiz o Bifpo moífrar ao feu Prelado o quanto defejava fazerlhe ogoflo,
&profeguindo o feu intento, mandou levantar mefa na Igreja dasFreyras de
Santa Clara, & acompanhado d*e feus Officiaes, & gente, quiz continuar fua vi-
fita, ao que tornou a acudir a Camara, & povo , & fiem outros requerimentos
r • lhe
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. 4t
lhe quebrarão a mefa, fobte que houvera de haver huma grande revolta , por-
que de huma, & outra par te houve armas; ficfuppoftoeitiveffem alguns natu-
res da mefma Villa, a quem o Arcebifpo tinha com promeíTas obrigados a fa-
vorecerem o feu intento, comtudo huns, & outros achàrao de melhor partido
fugirem para Braga. Refultou difto, que fendo o ArcebifpoDom Affonfo F ur-
tado de Mendoca promovido ao Arcebifpado cie Lisboa no anno de 1617- ft-
voreceo tanto aos Vereadores , que tam bem fouberam defender a u-
rifdição, & regalia de fua tetra, & a delRcy, queosfez fer /ereadores feis a ^
nos, louvandolhes muito por fuas cartas a íua acçao, & nos íeus particulares
lhes moftrou que a approvàra,nam lhe faltando em lhes fazer munas honras,
como cada hum delles experimentou em íeus requerimentos no tempo, em qt e
efte Arcebifpo governou efte Reyno. a .
Das duvidas,que houve fobre efta vilíta com a Camara , & o Arcebifpq,
procedeo o Decreto delRey Dom Filippe, de que o teor he o feguintc- E»E.-
Rey faço (aber a vos Licíciado ManoelMõtez Godinho Fr ovedor da to*ar ca da Villa
de GuLaraens, que tanto que efte vos for apre fintado, notifiqueis da minha fartep
Officiaes da Camara de fia Villa,que na forma do/agrado Concilio Tpepno^Co-
cordata feita com os Arcebiffos de Braga, deixem vi fitar ao Arceh/fo <Dom/fifort-
fo Furtado de Mendoça,do meu Confelho de bfiadojerft a peJSoaa Igreja deitada
de N Senhor a da Oliveira da dita Villa-,& f as mais Igrejas delta dnxcmvijitar ao
dito Arcebifpo ,oh porfi, ou por feus Vifit adores, Jem lheforem a ifjo ouvida, cu im-
pedimento ahum; por quanto o hey ajjim por/erviçode cDeos,& me*, pa, a que cefj

tentico ao dito Arcebifpo-, &eíteíe cumprira corno [efoje Carta feita em meu, nome
pZZlA/a, & ih A fr minha Cha
ZZiâfidasòfieCçoemlmconirario Manoel de Fana a ,roem MM a 6
de lunho de 1611 E eu Francxfco Pereira de Betancor afiz efcrevei Rhl.
Ao dcíáL ioto de Junho do anno de . 67 <• entrou por Arcebifpo de Bra-
ga Dom Vcnfíimo de Alencaftre,(que fov Cardeal da Santa Igreja Romana, Sc
WtdorGernl)
mRe/S^SdeN.SenhoramCapeUadeS.NtolaoBif^;&msrregm-

fias de S. Payo,& S. Sebaftião fe puzerão outras n]fab.P/raL^ da


continuando a viíita delias no mefmotcpo, emq elle \i ita a « &
Collegiada, & eflando emmeya vifita fingiohumaaufencia aOdadedeB &a,
deixando por ordem aos feus Vifitadores foífem continuan -jufercia
tas ; ooue fez mai s )*ira experimentar fe o povo confentia queemfua aufetxia
elles fkaíTem vifítando, 'do que obrigado de negocio particular- Maspomo
quelle povo he tam attento à regalia da fua terra, tanto que o Arcebifpo ícpoz
fora daquella Villa,no mefmo inftante mandou a Camara
dores* que tinha deixado, que paraffem com fua viíit ,<q de huma í
gar. Sobre afli mo fazerem, ou ião,.houve vários
outra parte, em que prevalecerão os do povo,que ju Quieto lhes fazia temer
algum tumulto; com que pararão com a vifita , ate o leu rcL

^ Depois do Cardeal Sabinenfe Dom João a juftar a Concordatacomos Ar-


cebifpos de Braga, & os Priores de Cuunaracns, como atrnz diífcmos, toy o ^
/

4* TOMO PRIMEIRO
tro àqueila Vilia para vifitar a fua Real Ccllegiada , & por em melhor ordem
luascoufascomauthoridade Apcílolica,&nellaelíeve,&viíítou peffoalmen-
te aquella Igreja, & decretou o modo,& ordem dos Officios divinos , & as dif- I<
tribuiçoens das Horas Canónicas , não cbftante que naquelle tempo erão os
Conegos Regulares, como fe entende dà Carta de fua vifitação, que fe guarda
no feu Archivo:& mais ordenou que os Priores puzeífem Curas naquella Igre-
ja,de que refultou pedirem elles ao Papa,que lhes conccdeífe a primeira Cone-
zia que vagaífe, para fe repartir por dous Curas daquella Igreja ; o que affim
lhes fov concedido, & os Curas poftos, &; aprefentados pelos Priores.
Ordenou mais efle Delegado, quefeaprefentaífe naquella Real Collegia-
da hum Mcíhre de Gramatica , & que para íflo fepediífe a Sua Santidade a pri-
meira Conezia que vagaífe, & em quanto a não houveífe, fe tiraífe de todas as
Prebendas huma porção de-certos cruzados para hum Leitor de Grãmatica;
deque refultou haver hoje naquella Real Collegiada a Conezia Magilhral, que
por não fe occupar a ler Theòlogia Moral,dá huma cerra porção aos Religiofos
de S* Domineos para a irem lerá Capella deS. Pedro, ficuada no clauítro da-
quella Real dollegiada 5 que he tarn antigo nefla Villa o eíludo dâ lingua Lati-
na, que precede em tempos às Efcolas de Lisboa> & Coimbra; o que íuccedeo
em tempo delRey Dom Sancho o Segundo.

CAP. XII.
* *
DorprrviUgics,iyençoens, & liberdades, que os Reysde Portugal con?
cedêraõ a Real Collegiada de Guimaraens.
• •
O Conde Dom Henrique, &feu filho ElRey Dom Affonfo Henriques nos
moílrao hoje a grande devoção, que tiverão. à Virgem S^j.ta Maria de
Guimaraens, no muito que honràraõ a fua Igreja, &feus Priores , Conegcs,
criados, & cafeiros, & todos os mais fervidores delia com muitos privilégios,
izençoens, & liberdades: o que confia de hum, que diz, que tódos os caleiros
de Santa Maria de Guimaraens,&os criados de feus Priores, & Conegos , &
todos os mais fervidores de fua Igreja foífem izentos, & livres de irem àguer-
ra*, & não pcífac a iífo fer obrigados, nem para ella pagar tributo algum , nem'
poífaõ fer conftrangidos para algum encargo contra fua vontade, como fe vê da
carta, que ElRey Dom Aftonfo o Segundo efcreveo a feu favor, cujo teor he o
feguinte- *
%ylffonfo per graça deDeos Rey dos Portugvez(s,a'todcs os do fetr Reyno , a
a ja noticia ejta corta chegar , faude. Sabei que tlRey Dom Affonfo de excelien«
ti/sim a memoria, meu avo^v.e [anta gloria haja , Joy Padroeiro da Igreja de ò anta
Alaria de Guimaraens, & amou muito effa Igreja, & ao Vrior, & Conegos delta, &
os amparou, & teve fempre debaixo de [ua mao com todas as coujas, que a dita Igre-
ja tmha em Jeu Reyno; & (emelkantemente eu fou Padroeiro feu, & amo muito e(ta
Igi eja, & ao Prior, & Conegos delia, & defejo muito de os amparar cm todas as fuás
coujas, que a ditd Igreja tem muitas vezes em meu Reyno. Felo que fabey que eu re-
cebo entre as coujas, que muito amo, & de minha protecção,a Igreja de Guimaraens,
& ao Prior, & Conegos della com feus homens, & comfuas ridas,& com quanto a
Igreja [,
DA COROGRAFIA PORT U G UE Z A. 43
hrcja de Guimaraens temem todo o men Rejno & ponho tal pnbtkf* a todo* ot
que lhe fizerem mal algum, que qu m lho fi zer, me pagar * quinhentos
a etíes.refará perfeitamente o dano,que Ih sfizer , cr demais d: [fo lenhavJop t
meu tmrmoo ■ para que elles pofiao melhor defende' a/t, cr as fitas canjas, dy-U. ^

6. de Setembro do atino do Senhor de 1217. _ r


Nam forão baftantes os ameaços, com queEIRey Dom Affonfo o oMm-
do quiz impeaitamole«ia,qucfeusMm1ftros&aao^c«prwJeg«to, pra-
ieiros de N-por
ço,deque Senhora, para os deixarem de moleilar,
feus privilégios,elk,&feu & obrigar a fazer o lcm.
pay,&avoostmhaoizemaà), co-

mo fe vio, quando EiRcy Don. João o Primeiro t.nha ae firoaQ«^<*Tu£


cm que os feus Miniftros de Guimaraens obrigarão aos.aforosdcH Sc _cr
ralcv.iffem cm carros mantimentos acucllc arrayal > ',
elles eráo dos feus-privileg.ados,n«o quiz aceitare«"
antes pagandolhes o feu trabalhosos torrou a n.ai ai , ■ • |* '
veyo o díto Rev dar graças à Ser hera,& à porta principal<da ma Igreja dilie em
voz alta o feguinte: Ser, hora , (fies meus O/jiciaes, & fie He Concelho nam
rando ave -vos fois aqttella, que combateis, defendeis, velais, cr t old eats, namceJam
de quebrantar os privilégios, izençcens, & liberdades, qutee«
dos demos a eãavoffa hreja, fazendofervir aos privilegiados delia no qtteb.es apraz,
porem eu vos prometo*que fe elles daquiem diante outra talvos fizerem,que eu enfiar-

Villa obri°àraoaos cafeirosde N,Senhora,que o paguem,quebrantandolhes


mrâiffoa ízenção de feus privilégios , de que o Cabido fe deu por muito ag-
ravado' & fe queixou a EIRèy:o qual querendo faber
^uantoscaíaes,cafeiros,lavradores,domeílicos^, miudamente quaes , &
Sclervidorestuiha^^idk

larria Prior £c Cabido, cõmeteo por feu Álvara ao Doutor I eroLltcves co


gominhOj Cavalleiro, * Ouvidor das terras do Duque de tog^a , & a^~
Goncalves Efcriváo, que de tudo ízeflem inteira inquirição, que affim ocurm
pr^o muitodeclaradaméte;a qualElReyÍCTténaoucomosMmillros de^^
Fazenda ,& o pronunciou cm fua Center,ça: gm a dita ler r,a fora, fempre fiar-
dados feus privilégios,& fieus ca feires izentes de lodos os pedidos,& enr/r&or(cxcf*°
onzecafaes) que por nam ferem libertados, eílavaoem partede[povoados, ffisJf
ThZfiaZpor frr aífin razao^fazer qffimeímoUadit*»£
bemlenturadaN. SenhoraSanto Maria, onze
privilegiados,com, o, outro,. Eajfim queria,& m
vradofes, domejlicos,&-ferviam,contei,dos
pio, concedido, tom todas a, Zr
o,mmo»trdatStmd>9Í0emfettmUrMtt.àt«ct>*eda*«ltyjM^tf**lt'

ÍS®»»itó65^k«6í*Êgrt
11 Sboa aos 2 T. dias do mez de julho do annode 14.55.8 qual ElRey afimou , *

ma
tn\o^
de pergaminho,que fe guarda no Arehivo da Real CollegiacL - de
44 TOMO PRIMEIRO
tic fera parte do livro eílão todos em.humas taboas pintadas de vermelho, que
feguardão rio Cabido, & Caía da Camara , por onde comummente fecha mão
Privilegiados das taboas vermelhas. Guarda-fe eíta taboa na Camara , para
nella fe faber quaes, & quantos faõ, para que cites féjão izentos dos encargos,
a que,cs que não faõ privilegiados,eítão obrigados a fervir nella; & para"lhes
ferem inteiramente guardados feus privilégios, tem os Corregedores da Co- L*
, marca provifaõ de feus Confervadores.
Não paràrão aqui as vexaçoens, que fe fazião aos privilegiados de N-
Senhora, porque mandando ElRey Dcm Manoel fazer hum pedido por todo o
feu Reyr,o, elegerãonaquella Villa de Guimaraens para o lançamento delle as I'
peífeas, que melhor o pudeífem fazer , as quaes não izentàrão para o feu paga- |
mento aos privilegiados de N. Senhora; para o que foy neceífario ao Prior
Conegos de fua Ccllegiada fazerem certo requerimento, que lhe outorgou o
dito Rey Dom Maneei, concedendo ao Prior,Dignidades,& Cabido tudo o que §
lhe pedirão para confervação de feus privilegiados, cafeiros, criados, & dome-
íticos,ccnhrmandolhesfuasizençcens, & bberdadesccmncvacartade con- '
firmação, que fe guarda no Archivo daquella R eal Collegiada , com,o todas as
dos Rcys paífados, & dos que fe lhes feguírão,que fem duvida, nem reparo al-
gum lhas cutcrgàrão , & confirmarão atè o fent or Rey Dcm Pedro o Segun-
do , o oual no ar no de 1686. concedeo a Dom Pedro de Soufa , que naquelle
anno fe achava Prior daquella Real Collegiada, vários* privilégios para a fabri-
ca dos Paços da morada dos Priores.
O Palacio, em que morão os Priores daquella Real Collegiada, fica por de-
trííz da.Capella mór daquella Igreja entre o Norte , & Nacentc , & não
faõ tam pouco nobres,que nam ferviíTem de apofento a ElRey Domjoaõ o Pri-
meiro, quando tomou aquella Vilia a Ayres Gomes da Sy Iva , que a citava de-
1
fendendo por ElRey Domjoaõ o Primeiro de CaíUlla,(aquempordefgraçati-
nha cahido nas mãos.) A ferventia deite Palacio he pela rua de Santa Maria ,
aonde tem huma porta grande, que fecha hum patio, em que cítà huma cicada
de pedra, que he lerventia daquellas cafas: & por cita m.efma efeada , & pátio
tem os Priores a ferventia para o clauítroda lua Igreja, dor de paíTaõ para el-
la pela parte, qu.cvay jpara a Sancriflia; &ncsdias"em queos Priores querem [
aíliítirno Coro, faõ obrigados hum Prebendado , & hum meyo Prebendado a
ir bufcalo, & acompanhalo, naõ fendo dia de feita; porque nos dias folenes vaõ
huma Dignidade, hum Prebendado.

- CAP. XIII.

Das Igrejas que aprefentaõ os Priores da Collegiada de Gumaraensy


& das que aprejentau as fuas Dignidades, 0" de Juas rendas.

ANtigamente tinhaõ os Priores deíta Real Collegiada muitas Igrejas, que


por íi in folidum aprefentavaõ , -como foraõ Saõ' Martinho de Moreira de
Rey, que hoje he Commcnda de Chriíto, Sac Eerthokn.eu de Villacova , Saõ
Joaõ de Sarafaõ, Santa Maria de Souto,S cõ Jcaõ de Pencello, Seõjcaõ de Gon-
dar, Saõ João das Caldas, Santa Maria de Villafria, Saõ Thcir.è cc Avaçam,
Sag
DO COROGRAFIA PORTUGUEZA: 45
Sap Romão de Meifao frio, & tqdas ellas a que mais longe ficava afaíl ado dâ
dica Collegiada. era huma legoa: as quaes DomGQmes Aífonfo , feudo Prioí
deita Collegiada, defannexou daquelle Beneficio , &fez doação delias à In-
fanta Dona Iiabcl aos i 2. dias de julho de 155?* com Breve de Sua Santidade,
que fe guarda no Archivo deíla Collegiada, & toda s eítão encorpòrádas nò pa-
trimónio da Coroa Real. Com que ficoueile Priorado muito diminuto na rc-
da, & feus Priores com menos que dar.
Não rende hoje eíle Priorado mais que cinco mil & quinhentos cruzados,
Scfe alguns annós excede feífé rendimento, he porque os frutos eítão cm alto
preço; & não lhe fkàrão de fua aprefentação infolidummak que o Thefoura-
do mór fora dos mezes da referva ficando por renunciar , & as duas meyas
Prebendas dos feus Curas, a Vigairaria de Santa Eulalia de Fremontoens , &
de S.Martinho de Fareja. ' .
Aprefentavão os Priores deita Real Collegiada fimultâneâmente com o
feu Cabido todos os Canonicatos fôra dos mezes da referva, & a Igreja de San-
to Andre de Murça com treze annexas, a Abbadia de S- Miguel, que foy Ma-
triz da Villa velha-, que hojechamãoS. Miguel do Caíieilo, a Igreja deSaõSe-
baft ião, & a de S- Payò, que ambas faõ Vigairarias da Villa,& a de S- Vicente de
MafcotcHos, todas viíitadaspelos Priores.
He a primeira Dignidade deita Real Collegiada (excepto o Prior) o Cha-
trado, que prefide no Coro, não affiíl indo nelle os Priores: tem da fua aprefeik
tação a Vigairaria de Saõ Payo de Moreira dos Conegos , & S. Miguel de Crei-
xomil; temo feu rendi mento conforme o valor dos frutos , mas hum anno por
outro paífa de feifeentos mil reis.
O Thefoureiromor te duasVigairarias annexas, S.Fulalia de Nefpercira,&
• Santa Maria deMatamá,com que paífa o feu rendimento de quatrocentos &
cincoenta mil reis cada anno conforme o valor dos frutos*
O Arcediago de Villacova, que antigamente tinha duas Prebendas, & hoje
huma, rende hum anno por outro duzentos & vinte mil reis*
O Arcediago de Sobradello,Beneficio fimplez , que rende trezentos mil
reis,tem o Cabido alternativa com a Coroa Real na fua apreíentação- •
O Meítrc-efcola tem duas Prebendas, & annexe a Igreja de Santiago/lon-
defe chama Abbade,® tem de renda hum anno por outro quatrocentos & fef-
fenta mil reis.
O Acipreíle tem duas Prebédas, & de renda quatrocentos & qua.-enta mil
reis.
Não rendião as Prebendas defb Real Collegiada nosféus princípios mais
quetres mil reis, hoje rendem conforme o valor dos frutos ; com que muitos
annoschegão a duzentos & trinta mil reis. Atèotempo, em que fe defanne-
xou a Prebenda do Arcediago, erão quatorze Prebendas , & agora faõ quinze
com oito meyas Prebendas, em que enrrão as duas dos Curas deíla Igreja,que
fuppoílo faõ de mais rendimento que as outras, em razão das offtrtas , faõ de
mayor trabalho com o exercício dos Sacramentos-
Aprefcntão os Conegos deíla Real Collegiada infolidum , concorrendô
os Priores com o feu voto para iífo, a Igreja de Santo Andre deTolaens cõ fiias
annexas, que antigamente foy Moíleiro cia Religião ^ Santo Agoflinho, por
doação da Rainha Dona Mafaída mulher delRey Dom Aífonfo Henriques , o
qual Moíleiro foy fundado por Dom Rodrigo Forjas no anno do Senhor de
8S7.5c fendo ultimo Commendatario delle o devoto de N. Senhora, João de
. , Barros,
4<s : TOMO PRIMEIRO
Barros, Conego da Sède Braga , fez delle doação à Igreja de Santa Maria de
Guimaraensno anno do Scrjhor de i+ v fendo Summo Pontífice o Santo Pa-
dre Xiíto Quarto* que paífou as Bulias defuaanhexação; & fendo Arcebifpo
de Braga Dom Luis o primeiro do nome, que entrou naquelle Arcebiípado pe-
los annos do Senhor de 146 7■ & faleceo no de 14^0- o qual confirmou a doa-
ção feita deita Igreja à Real Collegiada, como delia fevè.
O Moíteiro de S. Gens de Monte Longo com os feus tres Beneficies fim-
pliçes, que rende cada hum cem mil reis, que foy também initituído pelo dito
Dom Rodrigo For jàs,& dado pelaRamha Dona Mafalda aos Religiofos de S.
A golfinho 5 & fendo também delle Commendatario João de Barros, com a mef-
ma doação,& Bulla o annexou àquella Collegiada; & o mefmo fez ao de S .Tor-
cato, de que tenho já tratado.
Toda a terra deite Moíteiro de Saõ Torcato, que fe divide por marcos, he
priv ilegiada, & couto deita Real Collegiada , em que o feu Cabido aprefenta
Ouvidor, que conhece do eivei,& crime por doação do Conde Dom Henrique,
confirmada por feu filho ElRey Dom Atfonfo Henriques no anno do Senhor
de 10451. que fe guarda no Archivo de leu Cabido.
Aprefentão mais o Moíleiro de'ST. jonõ da Ponte, qtle foy antigamente da
Congregação de S- Bento,& foy dado ao íánto Molteiro da Condeça Mumadc-
napor feu fobrinho,&collaço ElRey Dom Ramiro o Segundo de Leão em 8.
de Junho do anno do Senhor de 9 2 7. como delia coníta, que fe guarda no mef-
mo Archivo: Santo Eítevão de Urgefes, S. Pedro de Azurey, que antigamente
fora aprefentação dos Priores, & a trocàrão com o Cabido pela pedra das ef-
molas do Padrão: Saõ Mamede de Aldão, S- Martinho de Candofo , S- Marti-
nho de Çonde, S. Miguel do Paraifo, Santa Maria de Sylvares, & S; Julião.
Para ferventia deita Real Collegiada aprefentão os Priores feis Clérigos,
a que chamão Capinhas, que rezão no Coro as Horas Canónicas com os mef-
mos Conegos, com íobrepelizes, & murças como elles ; mas com differença ,
que eítas as trazem desforradas, & os Conegos , &meyos Conegos forradas
de vermelho. Servem eítes Capinhas também de dizerem as Epiftolas,& Euan-
gelhos,& algumas Miífas cantadas de defuntos da obrigaçam daquella Igreja
fem Diácono, & Subdiacono ; porque as da Terça íaõ ditas conforme a folem-
nidade do dia, Sc eítaõ por*repartiçaõ pelas Dignidades % & Conegos por feu
oyro; deforte que quandohuma Dignidade diz Miífada feita , diz hum Pre-
bendado oEuangelho, & o meyo Prebendado a Epiftola: & quando hum Conc-
ho diz Miífa, hum meyoConego diz o Evangelho , &o Capinha a Epiftola.
Coítumava antigamente o Cabido deita Igreja acompanhar com Cruz
levantada os defuntos feus ffeguezes, & todos os mais que faleciaõ nas fuas
fregueziasannexas ;&por terem niíto muito trabalho,& pouca authoridade,
inífituírão huma Communidade de quarenta & feis Clérigos , dos quaes aos
feis chamão Títulos, que coítumão levar as capas de Afperges , & cetros nas
prociifoens. Chamão a eíta Communidade a Coraria, & elegem entre íi hu, a
que chamão Prioíte, a quem obedecem, os quaes debaixo de fua Cruz com fo-
brepelizes vão acompanhar os defuntos, fazendo o officio de Parochos, como
os Conegos coítumavão fazer, para o que lhes largàrão todos os beneces , que
tinhão por coítume lev^f pelos taes acompanhamétos, & lhes encarregarão to-
dos os legados de MiíTa s, & Officios, que o mefmo Cabido era obrigado a fatif-
fazer,& os mais que de novo fe fizeffem.
Nenhuma Irmandade, ou Confraria pode naquella Villa, ou arrabalde ler
van;
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. 4?
vantar Cruz, fenao efta Communidade, alftm para enterros , como para outra
qualquer função; nem a Irmandade da Mifencordia pode fahir comaíua tu-
ba a enterrar aMm defunto , ainda que fejainrâo feu,fem ler acompanhado
por cltaCorr munidade, como Parocho de toda a Villa, excepto aospobres do
Hofpital,a quem acompanha o Capellão mor daquella fanta Caía debaixo de
íua bardeira. Tem efta Corsmumdade de efmola em cada acompanhamento >
que faz dentro dos murosda Villa,ou junto a eUes,feifcentosreis ; porque
fendo de frais longe, fica a efmola a arbítrio do íeuPnofte } & fendo cafo que
notai acompanhamento vá outra I rmandade, de que o deiunto nao íeja irmão,
leva cita Coraria dez todoens de efmola. . , .
E fuccedendo morrer alguma peffoa, que nam feja freguez das cinco fre-
•guezias do deftri&o deda Villa, (como fàõ as duas da Collegwda, Sao Miguei
do Cadello, Saô Payô, Saõ Sebadiaô) & fe vàfepultar feu corpo a algum Ma-
deiro, Igreja, ou Capella , fituados no dedricdo de alguma dedasíreguezias
nomeadâinampóde entrar no dedrido de qualquer delias,debaixo fo da Cruz •
da Parodia, de que era freguez, fem que venha acompanhado da Communida-
de da Coraria. E como em algumas freguezias do termo.de Guimaraens entra
o feu deftrifto nos arrabaldes delia, aonde cem freguezes , como 1 ao,S. Man-
rha d? Coda, Santo Edevão, Sao Miguel de Cre:xomii,&: S- Pedro de Azurey,
uuando delles morre algum, vaõ os feus Parochos bufear feus c§o», & os le-
vaó debaixo de fua Cruz a enterrar à fua Parochia: & lendo calo , que algum
delles deixe por obrigaçaõafeus herdeiros , que lhe fepultem feu corpo cm
al< uma Igreja, ou Modeiroda Vida, nedes termos A acompanha a Coraria, &
dekaixo de fua Cruzlhe affifteo feu Parocho, fem a Cruz da Parochia, de que
era freguez: mas os Officios, & mais ufos , Ôccodumeslhe fazoParocho da
fUa
^m nenhum Convento, Parochia, ou Capella, fituados no deftri&o das
ditas cinco frcgucziasdaVilJ.a.^fc podem fazer Officios de dv.eíintos íern aífi-
ftcncia da Coraria , & lhe pagaõ conforme á difpoíiçam dos Officios >porque
tem dos de nove liçoens cantados de canto deorgãodous mil reis , & dos de
canto chaô dez todoens, & fendo de hum Nocturno feis ; & fuccedendo, que
em algum dos ditos Medeiros, Igrejas, ou Capella* fe faça por oevoçaõ qual-
ouer prociífaÒde fedeio, ou funeral, como coduma fazer todos os annos a
Irmandade da Santa Mifericordia em dia de Todos os Sãtos,naõ pode qualquer
delias fer acompanhada de alguma Communidade, Confraria, ou Irmandade,
fem que a edas aílida a Coraria, indo as taes prociflòcns debaixo de fua Cruz.
He eda Communidade muito rica pelos legados, que lhe ocixarao ; cc os
Priofles delia tem obrigaçam de ir todas as manhãs à Capella de S- Pedro, que
edà no claudro daquella Igreja, (antes que os feus Conegos entrem no Coro )
a repartir por todos os Padres a MiíTa,que cada hum delles ha de dizer naquel-
la manha. . > • ., « j ^
Tem eda Real Collegiada defronte da fua porta principal hum Padrao,
& entre die, & a porta diítancia de dezafete pálios eftá num pátio dç paíleyo,
& de rccreacaô^adrilhado com afiemos encodados à torre dos finos, Scà pare-
de da Igreja,ábndecontinuamentefe acha converfaçaô , principalmente nas
manhãs , por fer hora , em que todo aquellè povo tem devoç am de ir \ di-
tar a N. Senhora, & ouvir Miífa na fua Igreja, pela grande fe, que tem no íeu
patrocinio para todas as fuas necefíiáades. Foy feito cite Padraõ em tempo
delReyDoro Affonfo o Quarto,de abobeda de pedra em quatro arcos tunda-
48 ' TOMO PRIMEIRO
dos fobre Quatro pedeítaes, & faõ de moldaras muito bem lavrados , & cada
hum delles no alto tem huma ponta de diamante,que ficaõ mais altas que o te-
clo de abobeda ; & no pano da parede de cada hum deites A*cos eítá hum ef-
cudo das Armas do dito Rey. Eítá encoítado ao arco , que fica defronte
da porta da Igreja,hum Altar com a imagem da Virgem N. Senhora com ò titu-
lo daVitorfa,pela que deu a EIRey Dom Joaõ o Primeiro nos campos de Alju-
barrota. Tem eíte Altar o feu fundamento no alto fobre os mefmos pede d a es,
em que fe fundou a abobeda, com que fica por baixo lugar, & ferventia para fe
poder andar livremente, comofe anda, & fe ferve por baixo de todos.
Aopè do Altar deita Senhora da Vitoriateitàefculpidaemmeyatalhana
madeira a effigie do Licenciado Pedro de Lobaõ, o qual lendo Advogado na-
quell a Vília, tomou por empreza querer derogar os privilégios, izençoens, &'
liberdades dos cafeiros, & fervidores de N- Senhora, &feus Priores , & Có-
negos, & o fazia com tanta inítancia, & paixaõ, queeítando huma manhã con-
♦ verfando junto deite Padraõ com o Abbade de Freitas, & Lui»Gonçalves,am-
bos Conegos daquella Collegiada , elles o reprehendèraõ diante de outras
mais peíToas da perfeguicaõ, que fazia aos taes privilegiados, & que íé naquel-
lenegocio continuava, fcguardaífe da ira de Deos. Aoq ellerefpondeo, que
nam eraoDiabo tam feyo, como o pintavaõ, que em quantoviveí!e(fem embar-
go do q lhe (JÉ^aõ)naõ havia de abnrmaõdiífcgaqual palavra elle naõ tinha a-
cabado de pronunciar,quando repentinamente cahio quaíimortocm terra cõ
a lingua fóra da boca, mordendoa, & com a falia de todo perdida, & roíto tam
disforme, que mais paredía fantafma,quehomem,& aífim foy levado afuacafa,
aonde logo efpirou.
Foy eíte cadaver levado afepultar ao Moiteiro de S. Francifco, donde fe
feguio outro fucceífo naõ menos maravilhofo; porque morrendo fua mulher
depois delle 33. annos,fe mandou enterrar no mefmo jazigo , o qual fendo
aberto para eííe effeito,íe achou nelle o corpo de lçu marido todo inteiro,fóme-
te com o gorgomillo gaitado, & as mortalhas. Foy aílim tirado da cova, & po-
ílo à viíta de todo o povo encoftado à parede da Igreja , até ir o corpo de fua
mulher para fe recolher na fepultura, aonde foy outra vez fepultado com ella ;
& para exemplo, que moítrafle ao mundo o muito que N. Senhora quer , lhe
fejãohonrados íeus privilegiados, &confervados feus privilégios, fe mandou
ncíte lugar tão publico retratar neíte miferavel eitado a eíte feu pcríeguidor,&
eferever em pergaminho eíte prodigiofo fucceíTo,para ficar em memoria no Ar-
chivo deita Collegiada.
Dentrodeíte Padrão eítá hum Cruzeiro de pedra dourado, & pintado cõ
a imagem do Senhor crucificado, & a de N. Senhora, & S. João ao pè da Cruz,
& junto à imagem de N-. Senhora eítá outra de S. Damaf© , Sr junto ao fagrado
Euangeliíta a imagem de S.Torcato. Da outra parte da Cruz virada parao Al-
tar de N. Senhora da Vitoria, fe vè huma imagem de N. Sephora do Rofario,&
ao pè delia à mão efquerda deita Senhora, outra de S. Filippe Apoítolo , & da
outra par# à mão direita a imagem de S- Guálter. Tem elta Cruz fagrada hum
pedeítal de efeadas, aonde a gente daquelle povo fe affenta, & converfa.
Na haítia da Cruz da parte donde eítá a imagem do Senhor Crucificado,&
abaixo das imagens, que eítãoáo feu pè,fevé o ftguinte letreiro efculpido em
huma lamina de bronze.

A Aonra
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. 49

A Aonra * d*Deus*& d *Sca

* Maria * & por * efta * Villa *

mais* onrada * Seer * & o poboo *

fez * fazer * efta * obra * Pero Ste-

ves * de Guimaraens * mercador *

morador * em Lisboa * filho d .* Ef-

tevao * Geia * & de Mta * Pèz * na

* E * M * CCC * LXXX * annos-

* VIII * dias * d * Setembro

* M.L.ROFE.X*

Nefte lusrar fazia Deos muitos milagres por interceíTaõ de fua Mãy Santiííima,
pelos quaes fe verifica fer efta obra delle muito aceita; muitos eftãoem perga-
minhos, que fe guardão no Archivo defta Collegiada, eicritos por hum Tabe-
lião daqueUe tempo, que fe chamava Affonfo Peres, donde tirey o fegumte, por
fervir para eíte intento :& começaelie: Senhor Afonfo Peres Tabaltaõ navofia
Villa de Guimaraens Jaço faber a voffa merce, que na era de M.CCCLXXX. an-
vos, oito d,as de Setembro foy pofia a Cruz na Abafaria de Guimarães,& adnceu ht
Pero Efieves nojSo natural, filho que foy de E(levo Gracia, em outro tempo merca*
d'T d* Guimaraens, a qual Cruz Gonçalo E ff eves, irmão do dito Peio L ff eves,
diz que foy vontade de *Deos, que lhe deu a entender , que fofie a Normandia Ana-
frol, & que compra fie a dita Ctuz, & aduceffea efle lugar de Guimaraens e/U
a (fintada a? ar da Oliveira, a qual OU veira,quandoe(la Cruz apar delia affentar ao,
era feca, & dáquel dia a tres dias começou de reverdecer , & deitar ramos , & eu
Affonfo Teres Tabaliao e/lo e/crevi. E fte milagre tresladei fomente do livro,
aonde eftáo muitos eferitos, que fe guardáo no Archivo daquella Igreja , para
dizer que do dia dellefedeu a efta Senhorao titulo de Santa Mana da Olivei-
ra, que hoje conferva. n , C C í\
Pela certidão do Tabelião Affonfo Peres fe moftra,que quando fe fez eíte
Padrão, & fe poz nelle a Cruz,jâ neffe tempo cftava plantada a Oliveira, a qual
he tradição antiga,q viera paraefte lugar ae junto ao Moftcirode S.Torcato,
& que dofeuoleo fe allumiava a alampada defte Santo, & que do lugar , aonde
tfiava, ic arrancara, & fora tranfplantada nefte, em que eftava feca , quando
N. Senhor fez nella o milagre de a reverdecer, & lançar ramos 5 & por não ha-
ver tradição, que no lugar,aondeella fe plantou,fe plantaffe outra ; geralmente
fc tem por fé, que eftahe a mefma Oliveira milagroía , de queN-Senhora to
r n
E mou
5& ./ fOMO PRIMEIRO
mou o titulo. No tem podas guerras ultimas ie experimentava iflro melhor,
porqtie, ós Soldados de tòda a qualidade íe armavão com íems ramç>s, tendo por
te q eraó as fficthòres,& riiais defeníivas armas párãiui^vttht$,& 'aiitSa hoje efta
permanece,jbòrquc aquelles,quelc embarcão , para fazeren) fua viagem fem
perigo, oS levão em fua companhia, para que, como:a pdiiiba da Arca de Noé, í
ponhão os pés na.terra firme, que v.ãobuicar 5 & Como a experiência lhe tem :
moftrado os favores, que N". Senhora rém feito a muitos por meyo dos ra-
mos defta fua Oliveira, totlo> com grande devoção ,& confiança fe armão dei.
les. • t '
Tinha efte Padrão antigamente de pilar a pilar duma grade de pao, coque
fe fechava / & «aquelle tempo naò havia ferventia por dentro delle , co-
moho]eha. Tmhaaopédo Cruzeiro, que dentro <lelle fepozy h.ua pedra va-
zia" por dentro-,& fechada com huma cubeVtura de ferro com hkiín buraco, por
onde os devotos defta Senhora feoffertavão , & os Romeiros com fuasefmo-
las| as quaes eraõde repartiçab do Cabido, & rendiâõ tanttqquc-fendo a Igre-
ja de S. Pedro de Azurey dos Priores in fpíidum, trocàraõo rendimento del-
ia,"dantjpa ao Cabido pelo rendimeto daquella pedra,cujo contrato fe guarda no
feu Cartorio; & como fe acabou a devoção , fe acabou com ella o rendimento
da pedra,que ainda hoje eftá no meímo lugar.
Tem a fobredita Oliveira ao pé hum pilar de pedra mageílofo, todo cer-
cado de aífentos a modo de efeadas,&eífá plantada no meyo da praça mayor,
que toda he ladrilhada dè pedra muv viiWa pela^aflift encia, que tem deN. Se-
nhora da Vitoria 110 feu Padrão, & alegre pelo ruído que as tres bicas de agua
do feu tanque fazem para divertimento de feu s moradores. He toda efta Pra-
ça cercada de cafas de alpendrada fabre colunas de pedra , fechada de entre o
Norte, & Nafcente com a RealColleginda,Scda parte de entre o Poente , ôt
Norte com as cafas da Camara, & Audiências,as quaes faõ coroadas de amevas,
St 110 alto de fuas paredes tem dous efeudos das Armas Reaes eurre duas esfe-
ras douradas, & pintadas, que fazem frente para a Oliveira, & Padrão.

CAP. XIV.

Das 1lua'Sy Praças& Rocios da Vitta de Gtúmaraens.

P Ara tratar das ruas, que tem efta Villa dentro de feus muras , farey de
fua Praça mayor hum tronco, donde nafeem os ramos, deque todas pro-
cedem- Sahè defta Praça para o Norte a rua de Santa'MarZa, de qubm proce-
de na mefma corrente árua dalnfefta, que tem o feu fim no dcftriéto da Villa
vãhá, & a fua fervenfia pela porta da Garrida, a que hojechamão de Santo An-
tonio- Daruáda Irtfefta fahe para oNaícentc a rua do Sabugal, que tem a fua
fe^vehtih pela^orta de Santa Cruz, eme aittiga mente fe chamava da Frieira.
Sah'e também da Praça mayor a rua dos Acoutados, q lhe derão efte no-
me, porque feus moradores não venvpaffar por ella outras peffoas: corre entre
ó ÍJòrte, & Poente, & acaba 11a rua dos Pafteleiros. Tem a Praça mayor por
baixo dos arfcôs da cafa da Câmara, Sc. Audiências a fervtíntia da Praça do pei-
5fe,que lhe fiéacntre o Norte, & Naieente: he Praça.pequena,&no meyo delia
u , eftá
DA COROGRAFIA PORTUCUEZA. ji
eíiá fituatla a Igreja de Santiago: he toda cercada de cafas, St hiura delias, que
fica contigua com a cafa das Audiências,he a que antigamente foy dos Contos..
Todas as mais cafas, de que elià cercada, faõ de elialagens, St tendas-
Delia Praça do peixe fahe para a parte de entre o Norte, Sc Nafcente a rua
dos Pafteleiros, que tem a fua fahida para a rua de Santa Maria, Sc para a parte
do Sul fahe a rua Efcura, que tem a fua fahida na rua dos Mercadores: St para o
Poente fahe outra rua, que chamão do Efpirito Santo, St antigamente da ju-
diaria, (por nella eliarem fechados os que então lhe derão o nome) a qual tem
alua ferventia para o terreiro da Mifericordia,St rua da Cadea.
Sahc da mefma Praça do peixe para a parte de entre o Norte , St Pôente a
rua dos Fornos, que lhe derão cite nome os que nella havia públicos. Na mef-
ma corrente continua a rua do Gado, que perde o nome na rua do Poço , que fe
vay encontrar no deliriéto da Vilk velha com a rua da Infeíia, fazendo a mef-
ma fahida pela porta de Santo Antonio-
Torno à Praça mayor, donde fahirey para a parte de entre o Sul, Sc Poente
pela rua dos Mercadores , atème encontrar com a rua Sapãteira, deixando
à mãodireira a rua Efcura, & feguindo a rua Sapateira, íàhirey pela porta de
S-Domingos.
Na rua Sapateira eílá o terreiro da Miferieordia, q fe fez de.cafas, Sc quin-
taes,quc feus moradores derão de efmola àquella fanta Cafa, & outras,que cõ
prou a fualrmãdadeihe todo cercado de caías nobres,& nelle da parte de entre
o Norte, & Nafcéte defembocão a rua do Efpirito Santo, & a da Cadea 5 Sc pela
parte de entre o Norte, Sc Poente principia a rua de Val de Donas , que tem a
fua fahida pela porta de N- Senhora da Graça, & antes delia fe communica com
a rua do G ado. fern eíia rua htia traveífa para a parte de entre o Norte,& Nafcé-
te*povoai la de cafas, a que chamão o terreiro do Meíire-efcola, por onde fe co-
munica com a rua dos Fornos-
Torno a bufcar o paíTeyo da Praça mayor, para fahir delia caminhando para
o Sul pela rua do Poíiigo a bufcar a porta da Senhora da Guia, muito conheci-
da pelo nome da porta do Campo da feira. Delia rua para a parte do Sul conti-
núa a rua nova do Muro, que le vay encontrar com a rua de Alcobaça,& ambas
fazem fua fahida pela portada torre velha. No meyo delia rua nova para o
Poente principia a rua de Donaés, que defemboca na rua dos Mercadores.
Delia mefma vil a nova vay h uma ferventia para hum Rocio , que chamão
do Forno,por eíiar nelle a cafa do forno publico,a q chamão da Villa, em que
faõ obrigados os que vendem a cozer nelle, Sc não em outros , quetenhão em
fuas cafas- He Rocio pequeno, mas todo povoado de cafas com ferventia para
outro, que chamão da tulha , aonde da parte do Norte defemboca também a
rua dos Mercadores, quando fe topa com a rua Sapateira. Communica-fe eíie
Rocio com a rua Sapateira por huma traveífa, que chamão do Anjo , Sc para
a parte do Sul defemboca nelle a rua da Ferraria.
Ha dentro delia Villa outro terreiro, que chamão de SaõPayo , aonde
eíià fituada a Igreja Parochial de feu nome com a porta principal para entre o
Sul, Sc Poente, Sc outra porta traveífa para o Sul ; a fua Capella môr he toda
azulejada, Sc por cima dourada, Sc pintada em painéis 5 divide-a do corpo da
Igreja hum arco de pedra dourado , Sc encoíiadoaelleda parte doEuangelho
hum Altar deN- Senhor crucificado com N- Senhora, Sc o Evangeliíia fagrado
ao pê da Cruz: corre a fabrica delle por conta de feus.Cõfrades; abaixo delle
cila húa Sancriíf ia com porta para a Igreja,Sc abaixo delia porta eíiá hum Altar
E ij das
51 . TOMO PRIMEIRO '
das Almas comfua Confraria muito rica,com dezMiífas quotidianas, & do .
primeiro dia de Novembro atè o ultimo Miífas geraes, &. rule hum Tfnciode
canto de crgão com MiíTaíolemne>&pregação. Quandotiia irmandade íahc
fora, vão feus Irmãos com veftias brancas , &murças verões debaixo ueleu
guião verde guarnecido de vermelho , & tem fua Sancriftia bem fabricada no
mefmo lado da parede abaixo do íeu Altar, & abaixo delia a pia bautilmal. Da
parte da Epiítola encoftado à parede do arco da Capella mor cila oAltatde N.
Senhora da Mifericordia com fua Confraria, & abaixo delle eilà a porta traveí-
fa, & no mefmo lado da parede o Altar de S. Bom Homem com lua Contraria ,
cujos Irmãos , quando fahem fora, vão com veftias brancas debaixo do íeu
guião damefmacor. . .
He eíte terreiro de São Payo grande,& bem povoado de vizinhos , lahe
delle para a parte do Norte huma rua, que defemboca no Rocio da bulha, que
ch amão da Ferraria, & do meyo delia atravelfa para a parte do Sul outra,que íe
ajunta com a rua nova do Muro, que chamão de Alcobaça, & ambas tem lua 1 a-
hida pela porta da torre velha. „ _,
Da ruade Alcobaça juntoàporta datorrevelha lahe para entre o Sul , &
Poente a rua do Anjo, que vay defembocar no terreiro de S. Payo topando nos
açougues daquella Villa,qeítão no mefmo terreiro encoílados aos muros para
a parte do Sul; & continuando cõ os açougues por detráz das cafas, que tapão
o terreiro, corre outra encoftada ao mefmo muro, que chamao a rua de Traz
dos açougues, que tem a fua fahida pelo poítigo de S.Payo.
Sahe deile terreiro de S. Payo para entre o Norte , & Poente outra rua,
que chamão de Traz da Mifericordia , que tem a fua fervenna pelo corredor,
que fica debaixo das fuas cafas do deíbacho, por onde fe. comunica cõ o feu ter-
reiro, & rua Sapateira. Também deite terreiro fahe outra rua, que chamão de
Arrochela, que defemboca na rua Sapateira , & ambas tem fua 1 ah ida pela por-
ta, & torre de S-Domingos. Tem o terreiro de S. Payo a fua fahida para fo-
ra dos muros por huma porta, que chamão de S- Payo , por eítar dei ronfé da-
quella Igreja, a que tamben chamão porta nova, por fe abrir depois da muralha
eítar feita. , . ' ,
Eítasíaõ as ruas, que eítão dentro dos muros deGuimaraens; he neceíía-
rio que refiramos òs muros, & torres, qtijp a cercão, dando a cada hum leu no-
me, para darmos noticia dos arrabaldes, nomeando as fuas ruas, & declarando
primeiro que quando eíta Villa íe murou , a antiga Guimaraens o eltava tam-
bém, como fica dito, & os muros delia, que eítavão para onde a nova tomou o
feu principio, fe árruinârão, & a pedra deiles fe deu aos F rades de Saõ Domin-
gos para fazerem o dormitorio do feu Convento, a que chamão o novo ; &: os
nòvos muros tomàrão feu principio na ruína dos velhos.
Uniraofe os novos muros com os velhos pela parte do Nafccnte em hum
torrilhao terraplenado na mefma altura deiles , & abaixo delle na muralha a
pòrta da Fr ieira, que hoje chamão de Santa Cruz, por eítar defronte delia hum
Cruzeiro com efeadas no pedeítal, que por eítar em fitio alto, efpaçofo, bc ale-
gre, nuncaeítádefoccupadode gente,que aellefevay recrear ; & deite torri-
lhao corre a muralha coroada de ameyas para a parte doSulemdiítãcia de 4.90.
pados a topar na torre, que chamão dos Cats , & da fua porta atêà dita torre
tapa eíta muralha acerca das Freiras de S-Clara, quetemefcáda para irem co-
lher acima delia o fruto das fuas parreiras.
No tempo, em aue fe fundou eíta torre dos Cats, eítava nella huma arca de
agua,
DA COROGRAFIA PORTOGUEZA. 53
agua, que hia por canos para o Convento de S. F rancifco 5 Sc por fer vontade
delRev D. loão o Primeiro íeil fundador, qnaquelle lugar ficaífe cila para me-
lhor dèfenfaõ da Villa 5 foy neceífario ao fazer delia, quequnto aos- feus alicef-
fes ficaíTe huma porta de arco por baixo da terra para a pãrte doVeiVdaVal, por
onde fe pudeífe ir alimpar a arca dá agua , a qual com afabrxa'-ite 'obra dan-
çou aos Frades; & vendo o Duque Dom Affonfo, & lua mulher aDuqueza Do-
na Confiança de Noronha afuàneccííidade, mandarão dent roda torre ajuntar
a meíma agua em húa arcade pedra finabem lavrada, coque a fcguràrão delor-
te, que nunca mais lhe faltou; St por ler obra magnifica de muita charidade,mã-
darão pòr na arca os efeudos de 1 uas Armas-
Deíla torre dos Caens contínúão 162. paífos de muralha dâ mefmá altura,St
forma da primeira,atè topar na torre da Senhora da Guia,q vulgarmete chamãô
do Campo da Feira. Tapa,Sc defende eira torre a porta da muralha , q chamão
do Poíligo > por onde té para fora delia a fua ferventia a rua do feu nome." Faz
cila torre frente ao Sul,Sc encoílada a ella na parte de dentro para o Poente eílá
huma Capella da mefma Senhora, que lhe deu o nome. Correm deíla torre do
Campo da F eira para a que chamão torre velha(que faz também frente ao Sul)
3 60. pa(Tos : he toda fechada fem.porta,Sc no alto delia junto às ameyas , de
que he coroada, tem hum nicho, que recolhe huma imagem de S- F rancifco, por
ellar defronte delia o feu Convento em diílaticia de 140. paífos.
Tem a torre velha diílancia de muralha atè a torre, que chamão da Alfan-
dega, fechada fem ferventia,(que também faz frente ao Sul) 34.0 paífos, Sc no
mevo deíla muralhâeílà aporta da torre velha, para onde tem a fua fahida para
fóra delia a rua nova do Muro, & a de Alcobaça; para cima deíla muralha tem
ferventia todas as cafas, que eílão encoíladas a ella da rua do Anjo. Encoíla-
das na frente deíla torre para o Sul eílãohuas cafas ,q tem logeasde tendas,
Sc na face da meíma torre para o Naícente eílão outras cafas, que fabrica , &
aluga a Camara aaquella Villa»
Do canto das paredes da frente deílas cafas continua para oNafcente hú
Rocio fechado cõ o muro, em que eílão encoítados os açougues, & as cafas da
rua do Anjo, & da parte do Sul c©m huma parede, Sc no meyo delia huma porta
fraude da ferventia deíleRoèio, Sc íòbre ella no alto da parede hum remate cõ
um efeudo das Armas Reaes pintadas, Sc douradas entre duas pirâmides de
pedra,Sc fobre a Coroa Real das Armas outra pirâmide, Sc todas douradas , Sc
pintadas. Encoílada a eíla parede corre huma alpendrada^que da outra parte
fe fuílenta em columnas de pedra, Sc debaixo delia eílão varias tendas.
Do canto deíla alpenarada atè o muro pela parte do Nafcente fecha eíle
Rocio outra parede com porta de ferventia delle. Tem eíle Rocio dentro de fi
huma rua de cafas terreiras, humas delias fão dadas pela Camara a peíToas, que
fe obrigão a venderem naquelle lugar toda a qualidade de peixe frefco,Sc feco :
outras a quem ncllas vende toda a caíla de pão em grão : Sc outras fervem de
recolher as fazendas, que vem de fóra a venderfeneíle lugar. Encoílado à pa-
rede deíla torre da parte de entre o Poente, Sc Norte eílá hum tanque de huma
fóbica de agua, aonde bebem as beílas.
Deíla torre da Alfandega continuando para a parte de çntre o Poente, Sc
Norte 2 oo' paífos de muro, fe encontra com a torre de S- Domingos , fendo o
feu proprio nome da Senhora da Piedade: ferve de defenfa , Sc guarda à porta
da muralha do feu mefmo nome, por onde tem ferventia para fóra dos muros as
peífoas , que vem da rua Sapateira,terreiro da Mifericordia , Sc rua dc Arro*
E iij che-
54 ; TOMO PRIMEIRO O;» \ ;
r
cheia- Dentro deft a torre ençoftadaaelLa para PrPoepfe ,&.çkf onte daporta
da muralha eítá a Capella deN- Senhora da P»e43.$fto>: & wvfo® torre a íua
porta dç fe^yentia parp-g Sul pela alegre Praça doTpural• JShfftamuralha , que
eorre da tQf;rje.da Alfandega para a de S- Domingos , íe aotio huma porta dç-
p<^sdelia£$fta?qchamãQ aporta npv^ôtvulgarmente o pofrigo de S- Payo,
pqnfçr fçrvçptia do terreiro^em que eítá fie nada a igreja Par^phial deite Sãto 5
ôc papa cjma ddta muralha.tem íerventia todas as calasda.rn<jda Arrochela. |
Da pprta de S-Domingos caminhando a buí car a porta de. Santapyzia
3^. paifos da muralha, a encontrão, fazendo frente para ebtte o Sul, &,Ppenr
te- Com a melma valentia de todas as outras defende elf a torre a porta da ler-
yçntia da muralha do feunome, por pnde tem iahida os moradores da rua de |
Val de Donas- O nome proprio deíla torre he de N- Senhora da Graça, por ci-
tar dentro delia encoíl adanp lua parede a 1 na Capella, aonde no ladrilho delia
eífá htrmburaço, donde fe rira terra para fe dar abebera peffoas , que em luas
doenças tem faffio , & nas melhoras tem a experiência mollrado a lua grande ]
virtude-Te eíta torre a íua porta para o Sul A deito te delia hu Cruzeiro de pet
dra com aífentos ao pè, & no alto da Cruz a imagem de N- Senhor crucificado.
Para cima da muralha que corre deíla torre para a que fica detráz de N- Senho-
ra da Piedade,tem íerventia todos os moradores da rua das Flores, & os da rua
deValde Donas,
Caminhando coita acima íahe a muralha da torre de N- Senhora da Graça
a bufear o Norte, aonde a eílão efperando os- muros da V illa velha , & tendo
andado feifeentos & doze paffos íe encerrarão no torrilhão baixo , & terraple-
nado, que chamão da Garrida, aonde antes de chegar a clle, lhe abrio a mura-
lha a porta de feu nome, que deixou peló de Santo Antonio , para dar fahida à
ruadalnfeíla, que junta com a do Poço , por ellapfíao a fazer romaria ao
Convento defte Santo, Sobre cila porta da parte de foraíe abrio hum nicho na
muralha, aonde fecollocou huma imagem de Santo Antonio- Para cima deíla
muralha tem as caías dos moradores da rua do Gado, & do Poço íerventia ? &
debaixo das fombras das pafreiras, que tem por cima delia, iógrão huma ale-
greviíla- •
Tenho referido o que toca aos fortes , & éxcellentes muros de pedra da
nova Villa, para o tempo em que fe fabricàrão, feitos por EIRey Dom Diniz, &
feufilho Dom Affonfoo Quarto, como fevè dos efeudosde fuas Armas, que
mandarão pôr pela parte de fóra delles fobre as portas daTua ferventia, & to-
dos forão feitos primeiro que as torres, porque eílas forao obradas por man-
dado delRey Dom João o Primeiro, como fe vè dos elcudos de fuas Armas,que
eífão encoífadas aos muros: faõ todas muy altas, bem obradas , & coroadas
de ameyas, como o f ao os muros.

CAP.
DA COROGRAFIA PORTUGUEZÀ, #

C A Pt XV.
; }
juy ; obi JUp' t;' .'iOq. "4*tf*.P ' :í'r>i'. «'.J> 'í->
Dos Arrabaldes de Gaimaracns , ©*' Igrejas que nelles
.eftao jituadas.
níniomtb gelar»>,*y ' 'òbna '■ . jp<ííBflp.: Tjíbíft.V ,'j^ ..tacj , :
j >■'.
1
Í" Ora dos muros deíf a Vília entre o Norte, & Naícente ficáo a rua , a que
'dat onome huma Capellu dainvocaçãrí.dó Salvador *o aonde cftá fituadp.
a auinta do Verdelho conTuas nobres caías , quepoíTuc Jeronymo de Matos
Feyo, Cavalleiro do Habltodethriltojfidalgo da Caía dei Rey , Scjuiz dds
feus Reguengos. A rua do Cano com o leu tanque mal provídode agua , que
topa na. 1'uave fonte da Douradinha.
Ficão para a rqefma parte mais enqoíiadaâ ao Naícente a rua nova de Al toa-
da, & na fua igualdade defeendo pàraaVillaa rua de Arcela, & a rua do Cano
de cima, a que antigamente chamavão das Gafas, que a divide da rua da Ar cela
a Capella de Santo Antonio,que inifituío Antonio Cardofo da Sylva, Thefou-
reiro mer de Valença- Na mefma igualdade defeendo para a Villa continua a
rua das Oliveiras-, primeiro lugar, em que os Padres de Santo Antonio íeaga-
falharão nefta Villa, vindo a fazer nella o feu Convento; J
O Burgo de Santa Cruz, que por ficar junto da Capella deíle nome , delia
tomou o feu, tem a fua ferventia para dentro da Villa pela porta da Frieira. A >
rua do Fato, que fica entre o Naícente, & o Sul tem a fua fahida para o Moftei-
ro de S. Marina da Coifa, & a ferventia para a V illa pela rua Carrapatofa, & de-
ita topa na rua da Pupaatè fahirao Campo da Feira. i
A rua dos Triages, que fica junto à torre dos Caes , & contigua a ella a
rtia das Hortas do Prior, &deífh a rua, que chamão do Poço das hortas. A rua
do Postello das hortas, que fica junto da torre, oc porta da Senhora da Guia.
ò Campo da Feira, para onde tem a fahida a torre , & porta de feu nome,
(que tem no principio huma Cruz de pedra, dourada , & pintada com a ima-
gem deN. Senhor crucificado) he campo grande, & alegre, & femprebem po-
voado, por fer a melhor fahida daquella Villa, & o atraveífa hum regato, a quem
no feu cicílrido emprcflou feu nome, para nelle fe chamar o rio do Campo da
Feira , que corre por baixo dehuma ponte terraplenada igual comomefmo
campo, que tem de largo trinta paifos, &eneoftados às fuas guardas de huma,
& outra parte aífentos de pedra : tem de comprido efta ponte cento & vinte
paífosatè topar em hum Cruzeiro de pedra com fuas cicadas , que eftá entre
ella, &: a Capella de N• Senhora da Confolação.
Eftá eíta Capella íituada em hum campo largo ( que he ametadedo que &
ca dito) bem povoado de arvores, a cuja íbmbra fe faz huma feira de beílas no
primeiro Domingo de Agoílo, que dura tres dias: eftãonelletres:ruàs , a fi-
ber, a das Pretaspara o Naícente, a da Barroca para o Sul, & a da Ramada para
entre o Sul, & Poente. Sahindo da torre, & Campo da Feira )] St caminhando
à mao direita para o Poente continua a rua de Tráz do muro, até topar com a
rua de S- Damafo, que perde o feu nome an hum campo largo , que chamão i
Carreira, ou Pelourinho. .
Quemfaheda porta da torre velha, fe acha alegre neífe campo ,-por em-
pregar aviftaemverdes prados, & arvoredos : ficão nelle encoftadas ao muro
da
■j6 TOMO PRIMEIRO . ;
tia porta da torre velha as cafas da rua, que chamão de Trás de Alfandega, to- •
das de alpendradas fobre columnas de pedra. Por baixo de fie campo para o Sul
eftá íituado o Burgo, que chamão rua dc Couros, que fe compoem de tres , a
dofeu nome, a rua de S- Francifco, & a dalém, que lhe chamão aílim, porque a
dividedas outras o regato, que corre do Campo da Feira, que largando aqui
o nome, que trazia de cmpreftimo, tpmou o de rua de Couros, por eftes lerem
confervados nelle pelos Sapateiros, aonde naquelle lugar tem íeus pcíàmes, &
nellepaífa efte regato por baixo de huma ponte de pedra com guardas de huma,
& outra parte,& já tam cheyo de aguas,que paffando por tres cafas de moinhos,
faz trabalhar em cada huma duas mós- Na lua mefma corrente fe ajunta o cã-
poda Carreira cõ o terreiro de S. Sebaftião , que eftá defronte da alpendrada
da Alfandega, òc contíguo com ella para a parte do Sul , aonde eftà íituada a
Igreja de S- Sebaftião, que lhe deu o nome , a qual he huma das cinco Paro-
chias da Villa. Tem eft a Igreja diante da fua porta principal huma alpendrada,
he toda azulejada, & a divide da Capella mórhum arco de pedra , que tem en.
coftado à íua parede da parte do Euangelho hum Altar dc S-jofenh, que fabri-
ca a fua Confraria, cujos Irmãos, quando fahem fora, levão veftias brancas, &
murças azues debaixo do feu guião azul, & branco-
' Abaixo defte Altar, no lado da parede da mefma parte do Euangelho tem
huma porta traveífa com ferventia para o terreiro da Alfandega , & fobre ella
em hum nicho da parede fe poz huma imagem de N. Senhora ,& defronte defta
porta nomeyo do terreiro entre a Igreja, & a Alfandega eftá huma Cruz de pe-
dra com a imagem de N- Senhor Jefu Chriflo crucificado, & da outra parte a de
N- Senhora. Logo junto à porta traveífa no mefmo lado da parede eftá o Altar
de N. Senhora do Soccorro, que fabricão feus Confrades •, fov inftituídopor
devoção de Antonio Paes do Amaral, Cavalleiro do habitode Chrifto. Enco-
ftadoao arco da Capella mór da parte da Epiftola eftá a Capella de Jefus, que
adminiflrão feus Confrades , os quaes quando fahem fóra , levão veftias
brancas debaixo do feu guião da mefma cor. Abaixo defte Altar no lado da pa-
rede da Igreja eftá huma porta da Sancriítia da Confraria do Santiflimo, & jun-
to a ella no mefmo lado da parede eftá o Altar de S- Filippe Nen, que fabricão
feus Confrades, & devotos.
Por baixo do terreiro de S. Sebaftião , & portas da mefma Igreja para a
parte do Sul eftá a rua do Guardai,& a q chamão deTrás de S.Sebaftião, q fe co-
munica com a rua Caldeiroa; & defronte da porta principal da dita Igreja cor-
rendo para entre Sul, & Poente, vay a rua aeTráz dos Oleiros a deíembocar
na rua nova das Oliveiras. Ccmmunicafe o terreiro de S- Sebaftião para a par-
te de entre o Poente & Norte com a Praça do Tourai , íituada ao pe da mura-
lha, que corre da torre da Alfandega para a de S. Domingos. He efta Praça cer-
cada de cafas de alpendrada fobre colunas de pedra, excepto as do Vendaval, &
da parte de entre o Norte, & Nalcente he cercada da dita muralha- O cuftofo,&
viftofo das feftas, que na'dita Praça fe tem feito,tem eftendido pelomundo feu
nome, & fama: os aífentos , & efeadas do pé da muralha fe occupão de tanta
gente nefta occafião, que a variedade das galas faz com que a vifta fique fem re-
foluçao para a efeolha das cores.
Nos dias de feus feftejos fe vè efta Praça guarnecida de muitas danças, &
clarins, que depois de a pâífearem, dão final para que a occupem ginetes , que
guiados da (jeftra mão formão com intricadas voltas inveftidas , & retiradas
tão fugitivas, que deixão as viftas confufas para fe poder julgar o cuftofo das
DA COROGRAFIA EORTUGUEZA. j?
galas, de quem os domava. Tem eftà Praça entre fi, & as cafas, que a cercão da
parte do Sul, hum chafariz de feis bicas,cuja agua vem do tanque daPraça ma-
yor, & lha envia por canos limpa, & clara : he chafariz grande de duas taças
muy viftofo, & aprazível,tem no alto por remate huma esfera de bronze dou-
rada, & ao pè delia em hum efcudo illuminadas, & douradíts as Armas Reaes >
&nas cofias defle efcudo outro com huma Águia negra coroada de ouro com
hum letreiro ao pè, que diz, /inneáe 15 88» he todo cercado de aíTentos,& ef-
cadas de pedra.
Entre efta Práça do Toural, & as cafas , que a cercão da parte de entre ò
Norte, & Poente, eftà hum Cruzeiro de pedra muito alto, & foberbo, lavrado
com todo o primor da arte fobre hum pedeftal , que aífenta em hum patim de
pedra, para onde fe fobe por cinco efcadas, & tem à roda do pedeftal por baixo>
aonde eftá firmada a hafte da Cruz,hum letreiro, que diz : ESÍa obra mandbu
fazem Iwz, & Irmandade de N Senhora do Rofario no anno de 1650.
He efta Praça do Toural hum tronco, de que procedem muitas ruas do
Arrabalde daquella Villa; porque junto dofeu chafariz para a parte do Ven-
daval fahe a rua das Lages, que junto com a ruadeTráz dos Oleiros, de que
já falíamos, ambas embocãonaruanova das Oliveiras , quevay parar em hum
Cruzeiro de pedra de vinte & cinco palmos de hafte tão delgada , que não tem
de groífura em roda mais que palmo &meyo, firmada em hum pedeftal, que af-
fenta fobre hum patim dè efcadas à roda; he efte Cruzeiro todo dourado , ôc
pintado, & na Cruz não tem imagem alguma. Aqui perde a rua nova das Oli-
veiras o feu nome,& delia fahe para a parte de entre o Poente , & Norte a rua
Traveífa, que divide a rua de S-Domingos da rua de Gatos.
Sahe também da rua nova das Oliveiras outra para o Vendaval, que cha-
mão a rua das Molianas, quevay parar no rio da Maaroa , para onde palia por
huma ponte fem guardas. Efte lugar da Madroa hc hum Rocio pequeno,& bem
Êovoaao de vifinhos ; eftá no meyodelle hum tanque de duas bicas , que por
em cheas de agua, fatisfazem a muita gente, que de longe a vem bufcar. He
tanque alto, & tem por remate huma Cruz entre duas pirâmides de pedra.
Sahe defte Rocio huma trhveífa, que vay bufcar o Sul, aonde topa com o
lugar de V illanova, a que vulgarmente chamão dos 1 intureiros , onde por ci-
ma de huma ponte de arco fem guardas faz feu caminho pela borda do rio âcima
ate toyjarnarui Caldeiroa-Sahindo do Rocio da Madroa cofta acima para a par-
te do Vendaval, que he a fahida daquella Villa para a Cidade do Porto ) fe en-
contra com as ruas da Cruz da pedra, & Montinho, que as divide huma da ou-
tra huma Cruz de pedra pintada. Defcendoda rua do Montinho para a parte
dentre o Poente, & Norte, fe topa com a rua de Trãz da Gaya, & defta fe conti-
nua a de Gay a,que fica huma nas cofias da outra no mefmo fítio.
Tornandoà Praça do Toural, fahe delia para a parte dentre o Vendaval, &
Poente a rua de S. Domingos, que continua atè fe ajuntar no mefmo curfo com
a rua de Gatos,que as divide huma da outra a ruaTraveffa com o Cruzeiro de
pedra pintado,firmado no feu pedeftal,q aífenta fobre hQ patim cercado de efca-
das de pedra, q correfpondc ao em que dá fim a rua nova das Oliveiras-Conti-
núa a made Gatos no mefmo curfo, que tomou a rua de S- Domingos, atè pa-
rar no Rocio de S. Lazaro , aonde no meyo delle eftá fituado hum Padrão de
abobeda 4c pedra, que recolhe a Capella dos Santos Reys Magos , & debaixo
da abobcda>áefte Padrão eftá huma Cruz de pedra mármore com a imagem de
Chrifto crucificado , com N. Senhora, & o Sagrado Euangelifta- He efta CaJ
58 ./• TOMO PRIMEIRO
pclla fabricada pelos Confrades, & devotos de N- Senhora da Aprefentação.
Dcftc Rocio para a parte dentre o Vendaval ,& Poente fe continua a eft rada, ,
cue vay daquella Vilia para a de Vília de Conde-
Divide o Rocio de S- Lazaro da rua da Gaya pela parte do Sul o rio da Ma-
droa.q naquelle lu|arlheofferece hua ponte de pedra para a lua comunicação,
& nelie mefmo deixando o nome de rio da Madroa , que lhe tinha pofto o Ro -
cio, por onde tinha paíTado,feappeilidou no de S- Lazaro 3.que confervou arê
dar volta por detráz da Capella dcfte Santo, & feu Hofpital , de que também
tomou o nome aquelle Rocio, em que eíhá fituada,&encontrandofe allicom o
prio de bom nome, fez cada hum delles naquelle lugar depoíko do nome , que
Strazia, & formando ambos hum corpo, fe appellidou Celinho, que regando os
dilatados, & ferteis campos da Porcarice, fe vay meter no rio Celho-
No mefmo lugar, donde a Praça do Toural deu principio à rua de S. Do-
mingos, o deu também para a parte de entre o Poente, & Norte a outra , que
chamão de Traz do Moíteiro. Tambem da celebrada Praça doToural fahe pa-
ra a mefma parte a rua da Fonte nova , que vay parar na rua de S. Luzia , a
quaieílá j unto à torre de feu nome, & continuando para o Poente topa no Ro-
cio da mefma Santa- Do principio defta rua de S. Luzia fahe huma travciTa
para a rua do Bimbal.
No Rocio de S- Luzia eftá fituada a Capella deita Santa , & junto a ella
bum tanque de huma fóbica. Delle continua para o Poente a rua, que chamão
da Calçada, que he a eílrada commua para a Cidade de Braga. Do mefmo Ro-
cio de iS- Luzia fahe outra rua para a parte do Norte , que chamão do Picoto-
AruadeSoalhaes fica entre hortas por detráz do Cõvcto de S-Francifco entre
a rua de S - Damafo, & a da Ramada.
Eflas faõ as P raças, Rocios, & ruas povoadas, que aquella Villa tem fo-
ra da circumvallação dos muros em feus arrabaldes. Agora para medir fua grã- j
deza, digo que a muralha, que cerca, & deíènde aílim a Villa velha, como a no-
va, tem cm todo o feu circuito tresmil & feifeentos & oitenta & cinco pálios
communs, com nove portas de ferventia repartidas por ella, & fete torres altas,
que afortificão,& fazem refpeitar,excepto doús torrilhoens terraplenados,
que não tem mais altura que a muralha, como tenhp manifeílado por feus no-
mes. Tem cila Villa dentro dos feus muros feifeentos & oitenta & tres vi li-
nhos,& em feus arrabaldes mil & duzentos & oitenta , que'fazem foma.de mil
& novecentos & feífenta Sc tres-

CAP. XVI.

Dos Mofleirosy Igrejas, Hof-pitaes,& Capellas, que tem a Villa de


Guimaraens dentro dos feus muros, nos arrabaldes.

HE a primeira a Igreja de S. Miguel do Caftello, Parochia da Villa velha,


em que muitas vezes tenho fall ado, mas còmo foy a primaz de todas as
do Arcebifpado dè Braga, he obrigação lhe demos em tudo o primeiro lugar,
como fe deve.tambem ao feu Hofpital do Anjo, que como he tão antigo,fe lhe
não acha fundação.
ACa-
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. 59
A Capella dcN- Senhora da Boa Hora, que inftituírão osConegos Anto-
nio Dias Pimenta, & feu irmão j crony mo da Cofta Pimenta nas fuas caías, em
que vivem no fim da ruadalnfefta.
Na mefma rua fedeu principio no anno de 1685- ao Convento de SI he-,
refa, q hojefevè acabado com toda a perfeição,& grandeza, aífiftirio de Reco-
lhidas, por não terem ainda a confirmação de Religiofas ; eftáenv tanto fegre-
do o feu fundador, que fazendofe grandes diligencias , fenão pode alcançar.
Foy lançada a primeira pedra aos 26. de Março de i68y & em 8. de Abril de
168 5. fedíffe na Capella a primeira Miffa : aos 13.de Marco de 1687. toma-
rão o habito com licença do Padre Provincial dosCarraelitas Fr. Pedro da Pu-
rificação, fendo Arccbifpo de Braga Dom Luis de Soufa.
A Capella de N. Senhora da Graça, que he Morgado dos Figueiroas, que
iníhtuío joão de Figueiroa no íoftr de Outis, que hoje poífue com o dos Mef-
quitas Pantalcão de Sá, & M*ello, com tribuna para fuas cafas fituadas na rua
da Infefta. . , - .
No principio defta rua, &fim da de Santa Mana fe ve hum terreiro lar-
go com hum Cruzeiro de pedra do Mofteiro de S- Clara, aonde afliftem hoje
feífenta & duas Religiofas, cuja Igreja he grande, & toda azulejada , forrada
de- madeira, & apamelada; divide a Capella mór hum arco de pedra , que tem
por remate huma imagem de Noffo Senhor crucificado com N. Senhora, &. o fa-
dado Evnnaelifta, todo dourado, & pintado, & encoftado à parede defte arco
da parte doEuangelhohum Altar de N- Senhora da Conceição, & da parte da
Epiftola outro de\S- joão Bautifta, ambos fabricados com toda a perfeição por
fuas devotas Religiofas* Tem a porta da fua Igreja para a parte do Sul , & 110
frontifpicio delia metido em hum nicho a imagem de S. Clara, com hum letrei-
ro, que diz, Anr.oáe 1561-
Foy fundado eftc Mofteiro por Balthafar de Andrade , Mefire-efcola da
Collegiada de Guimaraens, que lhe lançou a primeira pedra dia de S. Miguel do
anno do Senhor de 15 tP' com o Cabido da me', ma Collegiada,& Religiocns da-
quella Villa; & em dia de S. Clara anno de 1^61. entràrão nelíe fuas Rcligio-
fas,quevierãodo Mofteiro de S- Clara de Amarante, as quaes erão filhasdo
dito Balthafar de Andrade.
Defronteda portatravefla , que ficaparaaparte doNorteda Igreja da
Real Collegiada, 110 principio da rua de S. Maria elta fituada a Capella de San-
to Ffíevãotquehe da Coroa, de que he hoje admmiftrador o Padre Paulo Go-
mes Protonotario Apoftolico-
A Albergaria de S-Miguel eíhà fituada na rua Sapateira , que tem íua Ca-
pella da invocação do mefmo Anjo com cafas de Recolhimento de pobres ad-
mitidos pelos Sapateiros daquella Villa, quefaõ os Adminiftradores delia, cõ
Confraria de Juiz,& Officiaes, que admirem as petiçoens, precedendo infor-
mação de pobreza dos quenelle íe recolhem 5 & todo o pobre, que nelle falece,
he levado pelo Cabido a fepultar no clauftro da fua Collegiada fem interefic
algum dõ Hofpital, por contrato que os Conegos fizerão comosfeus Admini-
ftradoresnoannode 1459* t .
Na mefma rua Sapateira abaixo defta Albergaria efta fituada a Igreja da
Mifericordia com fuas cafas de defpacho. T em o leu frontifpicio mageftofo de
obra Romana, & no alto dclle huma tribuna fundada em colunas de pedra, aon-
de eft á huma imagem de N. Senhora encoftada a hum efpelho de vidraças, que
xU luz ao feu Coro^ que eftá fobre a porta principal,que fica entre o Poente, &
Nor-
6o TOMO PRIMEIRO
Norte,,& fe fobe do feu terreiro (querem defronte) para ellapor humas eiça-
das muito largas, & bem lançadas- He Templo grande , & alegre, & o divide
hum muito levantado; & largo arco de pedra dourado; &. pintado da lua Capel-
la n.ór, para onde fe fobe do corpo da Igreja por duas cfcatias de pedra ; huma
da parte da Epiítola, & outra do Euangelho, fechadas com grade de pao preto
bronzeada, que mandou fazer Dom Joíeph de Menezes; fendo Dom Prior da
Real Collegiada, & Provedor deita Santa Cafa.
A Capella mór deita Igreja he cubertadeabobedade pedra apainelada com
feu retabob; que cobre toda a largura da parede com a fua grandeza , em que
fe formão tres Altares :no do meyo eítà o Sacrario: no da parte da Epiítola N-
Senhora da Mifericordia: & no da parte do Euangelho S- Eloy - Abaixo do arcO;
que divide o corpo da Igreja da Capella mor;no lado da parede da parte do
Euangelho fe abriohuma Capella em arcodfc^edra da invocação de S- Bento,
que mandou fazer o Doutor João Carneiro de Mofaes, que a dotoU; & fabricão
feusdefcendentes- Do outrò lado da Epiítola abaixo do mefmo arco fe abrio
outra Capella defronte da primeira da invocação de N- Senhora da Paz, a qual
mandàrão fazer Francifco Jorge Mendez, & lua mulher Maria Thomas > & a
dotarão de muitos bens com duas MifTas quotidianas-Junto a eita Capella eít a
huma porta traveífadeita Igreja, que defce para hum pátio de lerventia dc to-
das as officinas da Cafa-
Temascafas do defpachoâ fua galaria degrades de ferro para o feu ter-
reiro, manifeítando cm fua grandeza a muita char idade , quefe tem introdu-
zido na devoção de feus Irmãos, para que a cuíta de fuás fazendas não faltem
ao magnifico de fua Igreja, ao aceyd do nobre, & mageitofo de fua» calas, & a
todo o provimento do feu Hofpital. Alem de outros muitos Capellaens, a que
eítãc encarregadas as Miíías dos legados deita Cafa, tem quatorze , que faõ
obrigados a rezar no Coro as Horas Canónicas, & hum, que tem apoíentadoria
no mefmo Hofpital, a cuja piedade eítà recomendado não falecer nelle enfermo
algum fem todos os Sacramentos- . •
Eítava antigamente eita Santa Irmandade da Mifericordia fituada noclau-
ítroda Collegiada dc N- Senhora da Oliveira na Capella de S- Braz , que inda
hoje tem o nome de Mifericordia velha, & foy o primeiro fundador da Igreja
aonde de prefente afliíte, Pedro de Oliveira, Cavalleiro do habito de Santiago
lio anno de 1 < 8< - que foy natural daquella Villa, & delia foy também natural o
Doutor Paulo de Mefquita Sobrinho, que inítituío os primeiros Capellaes do
Coro, fendo Defembargador, & Juiz dos Cafamentos na Cidade de Braga-
A Capella de N- Senhora dasMerces com Recolhimentp de oitenta Ter-
ceiras veítidas no habito de Religiofas da Santi ílima Trindade", que inítituío na
rua do Gado o Doutor Paulo de Mefquita Sobrinho, aceitas pela Irmandade! da
Mifericordia,com obrigação de lhes darem para feu fuítento certa porção de di-
nheiro todos os dias por conta dos bens, que deixou à mefma Irmandade.
A Capella do nome de Jefus,que inítituíonaruadosFornosoDefembar-
aador João de Guimaraens, Enviado a Suécia, &01anda, com tribuna para el-,
lanascafasdefcu Morgado, que hoje poífue Manoel Peixoto dos Guimaraens
feu Pq • taj s payo fituãdo no terreiro deite Santo com a fua Capella dc

N- Senhora, de que faõ adminiítradores os Padres da Coraria, que cobrão feus


foros, & recolhem nelle com informação de fua pobreza aos neceílitados.
A Capella do Anjo com o feu Recolhimento de Beatas de S-Francifco ad-
» * mitidas
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. 61
mitidas pclo Commiffario dos Terceiros do feu Convento,que cftá .fituada na
r ua do An jo, de quem tomou o nome-
A Igreja de Santiagoda Praça do Peixe, annexa com léus foros ao Meltre-
efcoladoda Real CoUegiada de N- Senhora da Oliveira com que dou fim aos
Morteiros, Igrejas,Hofpitaes, Sc Capellas , que aquella Villa tem dentro de
feus muros. „ . , , .r ,
Aílim como os arrabaldes faõmayores, Sc mais povoados de vifinhos que
a mefma Villa dentro de feus muros; o faÕ também mais illuftrados de Mortei-
ros, Igrejas, Sc Capellas, em que darey principio na de N. Senhora da Madre de
Deos, fituada na Freguefia de S. Pedro de Azurey,com alpendrada, que reco-
lhe a ília porta, que tem para o Norte ao pè do monte largo na eftrada, que vay
nara S- Torcato. Adminiftraefta Capella F ilippe de Soufade Carvalho, fidal-
go da Cafa Real, CavaUeiro da Ordem de Chrifto,Sc Alcayde mor de Víllapou-
ca de A guiar, por fer annexa ao íeu Morgado- ,
V indo derta Capella para a Villa velha pela rua do Cano fe topa na rua do
Salvador em huma Capella, que lhe deu o nome , fituada em hum largo terrei-
ro debaixo de frefcas fombras de carvalhos , aonde continuamente fe achao
devotos feus : tem a porta principal cuberta com huma alpendrada iobre co-
lunas de pedra, fazendo frente para entre o Vendaval, Sc Poente, Sc correfpon-
dencia à porta da Villa velha, que chamão de S- Barbara- He efta Capella fabri-
cada pelo Cabido derta Villa. * j
S ah indo derta Capella do Salvador, cercando a Villa pela parte de entre o
Norte, Sc Poente, fe topa com o Convento de Capuchos da Província de Santo
Antonio em hum fitio alegre,q fe pouco abundante de agua para as l uas hortas,
tem a de huma cifterna para as officinas, Sc a de huma fonte excellence para o leu
regalo. Fúndoufe com efmolas dos devotos do feu Santo no anno de \ 664.. em
que lançou a primeira pedra Dom Diogo Lobo da Sylveira , l endo Prior da
Real Collegiada de Guimaraens, acompanhado do feu Cabido , Sc mais keli-
oioens da Villa item a fua porta principal para o Sul, fazendo frente a porta da
muralha da'Vilia, a que antigamente chamavão a Garrida , Sc agora em razao
derte Morteiro lhe chamão de Santo Antonio: aífirtemnelle quinze Religiolos,
Sc he tão falutifero, que he nomeado entre elles por cafa da Saúde-
A Capella de N. Senhora da Conceição com a porta principal para o Ven-
daval cubcrta com huma alpendrada, Sc duas traveílãs , huma para entre o Sul,
Sc Nafcente, Sc outra para entre o Poente, Sc Norte : he Capella grande co San-
crirtia, Sc lhe divide a Capella mór do corpo da Igreja hum arco de pedra, Sc en-
cortado a elle da parte do Euangelho hum Altar de N- Senhor crucificado, Sc da
parte da Epiftola outro de S. Caietano : eftà bem fabricada pelos devotos de
N. Senliora, Sc derte Santo: tem Miffa foléne com canto de orgao todos os íab-
bados por devoção devotos derta Senhora , quenerta fua Igreja íe achao
continuamente de romaria, Sc oração -.corre a limpeza , Sc concerto por conta
do feu Ermitão,que vive junto a ella, em huma cafa , que os mefmos devotos
lhe mandarão fazer. He éfta Capella da Real Collegiada, obrigado o feu Cabi-
do à fabrica delia: eftà fituada na freguezia de S.Pedro de Azurey junto da el-
trada, cue fahe daquella Villa para a Cidade de Braga pela rua da Calçada.
A Capella de S. Luzia fit uada no meyo de hum terreiro com a porta prin-
cipal cuberta de alpendrada para a parte dentre o Nafcente, Sc Norte , Sc duas
portas traveffas, huma parao Vendaval,. Sc outra para entre o Poente,Sc Norte:
he bem aífiftida de Romeiros, principalmente no feu dia : he da Collegiada de
F N.
6i TOMO PRIMEIRO
N. Senhora da Oliveira, & o feu Cabido obrigado à fabrica delia. ,
 Capella de N. Senhora da Luz,fituada nolugar do Miradouro da fregue-
fía de S. Miguel deCreixomil junto da eílrada, que fahe daquella V ilia para a
da Villa de Conde; com a porta principal para entre o Vendaval; & Poente,cu-
berta de alpendrada fobre colunas de pedra; he também da Real Collcgiada; cu-
ja fabrica corre por conta de feus Confrades.
A Capella de S-Lazaro com o leu Hofpital, em que ferecolhião antigamc-
te huns enfermos, que chamavão Gafos, ou mal de S- Lazaro , doença, que fe
extinguio pelas razoens, que os Authores de Hiítorias naturaes curiofamente
apontão. Tinha a Camara daquella Villa antigamente a adminiílração , & fa-
brica deíla Capella, & feu Holpital, & recolhia feus foros, que faõ muitos , &
forao hoje mais, fe naquelle tempo não tiverão defeaminhos, para andarem a-
gorafonegados; & como no Hofpital da Santa Mifericordiafe curão todas as
enfermidades,impetrou a fua Irmandade no anno de 1671. huma Provifaõ del-
Rev, em que lhe deu a adminiílração delia Igreja,& feu Hofpital, & elegem Ca-
peílão para naquella Capella dizer Miífa todos os Domingos, & dias fantos por
obrigação ; & no Holpital, em que fe curavão os enfermos, fe recolhem hoje
pobres neceííitados.
Na rua Traveífafe fundou o Convento de S. Rofa de Religiofas de S. Do-
mingos no anno de 1680. comefmolas,queporfua induflria ajuntou o Padre
Frey Sebaílião, fendo Pridir no mefmo anno do Convento de São Domingos de
Viana, concorrendo para iífo algumas peífoas da Villa de Guimaraens, que que-
rião recolher fuas filhas a pouco cuílode fua fazenda, aonde viveífem em clau-
fura honeíla, & religiofamente- Ne lie lugar eífava antigamente huma Alber-
garia de pobres paffageiros com huma Capella de S. Roque , que ferve hoje de
Igreja ao novo Moíleiro. Junto a eíle Moíleiro fe comprárao humascafas para
recolhimento dos paffageiros, a que com authoridadedajuíliça le aggregàrão
os foros, que aquella Albergaria çinha para fua fabrica.
Na entrada da rua de S. Domingos foy a ultima fundação, que teve o Cõ-
Vcnto, que lhe deu o nome; porque o primeiro íitio,em que feus fundadores fe
recolh èrão neíla Villa, foy na dita Albergaria de S. Roque , aonde chegàrão à
petição dos povos daquella Villa em 12. de Dezembro do anno do Senhor de
1270. reynando em PortugalElRey Dom Affonfoo Terceiro , & ajuntandofe
todos os do Confelho com os Religiofos fundadores ( que forao Frey Alvaro
Prior do Convento de S. Domingos da Cidade do Porto, Fr. Eílevão Mendes>
& Fr. Diogo de Frandes) na Igreja de Santiago da Praça do Peixe, alli lhe deu
licença a Villa para edificarem o Convento , & o fundàrão aonde agora eílà a
torre da Senhora da Piedade; para o que concorrerão muitos particulares,dan-
do de efmola para a fua fundação campos, cafas, & quintaes.
Exiílio eíle Convéto naquella fua fundação iy j. annos>porq no do Senhor
de 1323. fe mandou derrubar por ElRey, D. Diniz, quando feufilho D. Affonfo
fe levantou contra elle, querendo tomar eíla Villa de Guimaraens , que feus
moradores com o Capitão mor Mem Rodriguez de Vafconcellos defendèrão
com grande valor- Para a fegúda fundação no lugar,aonde hoje eílá eíle Moílei-
ro, concorreo o Arcebifpo de Braga Dom Lourenço com grandes efmolas,das
quaes fe fez o Moíleiro,Coro,& Sãcriília defde o anno de 13 7 y-atè ode 1397.
Nas vidraças do efpelho,q eílá fobre o arco da fuaCapella mór,fe cõfervão ainda
as Armas, de que ufava eíle Arcebifpoyque naquelle lugar as mandou por illu-
minadas. Também concorreo para a fundação deíle Convento Dona Maria
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. 63
de Berredo, mulher de RuyVaz Pereira, como o manifefta hum letreiro , que
eftá na Capella de S. Pedro Martyr ao entrar para a Sancrtftia, que he dosPerci-
ras Marramaques» . ó ,
He a fua Igre ja detres naves repartidas com arcos de pedra fundados em
firmes pedeftaes,com a porta principal para entre ò Vendavàl, & Poente. Tem
a fua Capella mór toda azulejada de abobeda de pedra dourada, & pintada,jcò*
mo o arco que a divide do corpo da Igreja, & fechada de cuftofas grades de pao
pretQ bronzeadas. Foy inftituída por Dona Branca de Vílhena, filha do Con-
de Dom Henrique Manoel, & de fua mulher a Condeça Dona Brites de Soufa,
& a dotou de quatorze mil, & quatrocentos reis por obrigação de Miffa quo-
tidiana., de que he hoje adminiftrador o Conde de Unirão,que nos lados defuas
paredes tem authorizadas fepulturas. •
Eftá efta Capella'no meyo de duas também de ábobeda de pedra com ar-
cos, que as dividem do corpo da Igreja: a da parte da Epiftola he deN. Sénho-
ra d as Neves, & por outro nome de NoíTa Senhora a Fermofaj foy inftituída
por Gonçalo Affonfo do Cem, que a dorou de fazendas, que o Convento ooííiie
por obrigação de feíTentaMiffas,& nella jaz fepultado; paíTou ã admimftração
a Nieolao de Faria, & eftá hoje no Almotacel mór. Abaixo deft a Capella enco-
ftadonoladoda Igrejaparaaparte doSui eftá o.Altar de S. Frey Pedro Gon-
çalves, que fabricãoitus Confrades j fica no Cruzeiro da Igreja defronte do
deN-Senhora do Rofario. •
A Capella deN. Senhora do Amparo, que efta no mehno lado da parede
para a parte do Sul,foy inftituída por Joanna Luis, mulher de Sebaftião Gon-
calves mercador, & a dotou dehuma fazenda, que o Convento poífue por obri-
gação de feis Miífas : he hoje adminiftrador delia T orca to de Andrade & Al-
mada, m.orador na Villa de Barcelíos.
A Capella deN- Senhora do Defterro,&por outro nome de S. Jofeph, que
fica do melmo lado da parede abaixo da porta traveíta defta Igreja, que vay para
o Sul, fõy inftituída por Iíabel Coelha de Morgade, que a dotou de três xVI ifas
cada fomâna: he hoje adminiftrador delia João Leite Pereira»
A Capella de S-1 homàs, que fica encoftada à parede dó arco da Capella mór,
entre cila, & a deN. Senhora das Neves, em que eftá hum tumulo com os oitos
do Beato Lourenço Mendes, fov inftituída pelo Licenciado Manoel Barbofa ,
que a dotou de quinze medidas de trigo por obrigação de feis Miífas cantadas :
he adminiftrador delia JerOny mo Vieira de Caftro Morgado de Aldao, como o
he também da Capella.de S- Luóas , que eftá fit nada na igreja de S. Thomè de
Lisboa, que inftituíoOzenda Annes Leonardes, mulher que foy de Payo Sal-
vadores, 11a era do Senhor de 13 4.0. & a annexou ao leu Morgado dos Vieiras >
que anda annexo ao dos Pintos , inftituído por Alvaro Pinto, & fua mulher v
Dona Catherina de Faria no anno de ifto» que tem fua Capella no Convento
de S.Doningos da Cidade do Porto, de S. Catherina Martyr ; & he tâmbem fe«
nhor do Morgado, que ififtituiona mcfmâ Cidade Catherina Carneira, &. feu
marido Diogo Garcez fem Cajpella.
A Capella de S- Pedro MTartyr toda de abobeda de pedra, que efta da par-
te do Euangelho da Capella mqr com arco de pedra, que a divide do corpo, da
Igreja , & defta fe entra por ella para a Sancriftia. Foy inftituída por Dona
Mana de Berredo, mulher que foy de Ruy Vaz Pereira, que nella jazem ambos
fepultados. Foy dotada em dez mil & tantos reis por obrigação de cem Mif-
fas: he adminiftrador defta Capella D. Gaftão Coutinho, fenhor de Regalados.
F ij A
64 / \ TOMO P/RiLMEIfU>K.O ACI
A Capella de N. Senhora doRofano, qinélefiá da fíar&adc) Luangelho én ,
coitada à parede do Cruzeiro, he^fabricadapela fua IxmartEáde^ cUjos Irmãos-
quando fahemfóra , levão veítias brancas debaixo do feu guião da-.mefnaa
COr. 'T . --7-F-, ; • ~ -
; j A Capella de S. Catherina Martyr, & S. Gonçalo, quõiCÍtá encofiada àpa-
rédedameíina parte dade Uíi-SpnhoradoRofario ? ôc aifinbrda porta trayeífa,
que vay para o clauítro, hc faiíiicada pelos Confrades deliía;Santa,& Sai to»
A CapelladeS- Catherimde ScnayquefabricãofeusConfrades. Tciçcíta
Safara feito muitos milagresjieík Convento > com que hebcirnaíliitidade Ro-
meiros, principalmente no primeiroJDofningo de Mayo, emque fe fefteja.
A Capella de S. Jacintoyagora de N. Serlhora do Terçp , admmiítrada por
f
feuslrmaos. . "
. l A Capella -do Capitulo, que inítituío f ernao de Soufa , & a dotou com
tresmilreis, que fe pagão do Morgado de Ayrão- He hoje adminiitrador deita
Capella, & do dito Morgado o Conde de Avintes. •
n-: Tem o Santuário da Sancriítia deite Convento muita s relíquias de San-
tos, &humamilagrofa do Santo Lenho eftvhnm relicário de prata, & todas ci-
las vierao a eíte Convento miraculofament<í£porque fendo Lrey Lourenço Me*
desReligiofo delle,aondeenwfou fendo jáde mayor idade, trabalhou muito,
& fez grandes ferviçòs a Deos com lua pregação, & em lua vida iezNoílo Se-
nhor por elle grandes milagres. Com efmolas, que eíte lanto Religiolb ajun-
tou pelos fieis thriítãos, fez aponte de Caves no rio Tamega, aonde fe divi-
dem a Província do Minho,& a de Trázos Montes. Quando os Officiaes anda-
vão trabalhando ndíta ponte, c-ahio Hum delia abaixo , &.-dando em humas pe-
dras, ficou logo morto; laítim^dos os companheiros, & fentindo com gritos,
& lagrimas fua defgraça,a elles acudio o fantbReligiofo,& chegandofe ao cor-
po defunfo,&tocandolhe com hum bordão, que levava, togo refuícifou, & le
levantou com vida* Admirados todos delta maravilha, ôt. milagre tão patente
a feus olhos, dalli por diante o ficarão venerando por Santo.
Enão foyfó nefte milagreaemqueosfeus Pedreiros examinirão o mui-
to que eíte Santaera favorecido dc Deos; porque quando não tinhão peixe, fe
hião laltimar ao Santo Religiofo,o qual metendo o bordão nono, fe ajunta*
yão tantos, que fatisfaziao a lua neceííidade ; & quando lhès faltava pão ,' lhe
faziãoíuas deprecaçoes, & fem verem donde lhes vinha,o Santo os remediava;
& o mefmo fazia na falta de vinho, azeite-, ^vinagre; porque faltandolhes al-
guma coufa deitas, eítavaoduas fontes da bandâ dalém da ponte na demarca-
ção de Tráz os Montes, que cadahuma delias lançava,pata iatisfação dos feus
Pedreiros, o que pelo Santo Religiofo lhes era mandadò.'- Exiftem ainda hoje
eftas fontes no mefmo lugar, & com a fédemilagrofaspor cita tradição*
c 1 PrègándohumaQuarefmaefte SantoReligiofo na Villa de Chaves, & ef-
tando na fua veiga hum dia em oração, chegou hum homem à fuaprefença, que
fefa companheiro, que delle eftava afíftado vio, & em hum inftante não vio ho-
mem algum, nem logar, aonde fe pudeífe efeonder, por não fer poífivel que por
dia. palfe coufa,que não feja vifta de todas as partes, por fér delcuberta,& plai-
na ? &efpantandofe difto o companheiro,fe íoy« ao lugar, aonde éírav a Fr.Lou-
renço Mendes, & lhe perguntou que homem era aquefleque eftivera fallando
corn elle, & por ondeie fora, porque da viíta lhe defapparccèra* O Santp Reli-
giòfo lherefpondeo, & diffe: Irmão, muitas graças podes dar a Deos , que te
tfliumioudofeu lume; efle homem, que viítes, pareceme que. he Anjo feu ; elle
4. ' me
DA COROGRAFIA PORTUGUEZÁ. 65
me deu eífã arca, que aqui eífá, & me diffequenellaeftavão muitas relíquias de
muitos Santos; & porque os inimigos da Fe tomàrão hum lugar, em que efta-
vão muitas de tempo antigo, & para que os infiéis as não dei acataffem, as man-
dou Deos efpalhar por muitas partes do Mundo, & dar aosfeusfervos, que as
guardafíem,&honr^ífem5 &mediíTe queprazia aDeosque eifa arca me foíTe
dada, para que a puzeífe em o Cõvento de S. Domingos de Guimaraens. Derão
os dou* fervos de Deos muitas graças aN. Senhor,& poflos ambos a caminho,
forão fazer entrega da arca ao Convento, aonde forão mandados, &n"elle com
grade veneração forão recolhidos na fua Sancriftia; & porq muitos Sancriífães
davao daqueilas fantas relíquias a quem lhes parecia , 'divertindo muitas del-
lasdacmelle lu£ ar-.procurou Fr. Pedro de Freitas prata,&ouro , & toda a
defpeza para federem em humas taboas, aonde eífiveíiem bem feguras; & por-
que nellas não couberão todas,Cearão as demais na mefma arca com muitas re-
liqi ias das Onze mil Virgens, que trouxe de Bolonha o Doutor Frev Affonfo
do Rego, com mais difcís bocetas de chumbo com oleo de S- Nicolao , & de S.
Catherina. r,
Morreo o Santo Religiofo Frey Lourenço Mendes no Convento de Guima-
raens, & nelle foy fepultado,& depois feusoífos forão metidos na parede en-
tre o Altar de N, Sen hora do Rofario,&o de S- Catherina Martyr pelo Padre
Frev joão de Braga no anno de 14.1 j.&naquelle lugar fez N. Senhor por elle
mui tos milagres. Daqui os mandou tirar o Licenciado Manoel Barbofa , pay
do infigne Agoífinho Éarbofa,& collocou na Capella de Santo Thomás, aonde
eílão venerados em hum tumulo de pedra, como fica dito.
No fim do terreiro daCarreira,ou Pelourinho, caminhando para o Naf-
cente fe topa cõ hum Calvário de tres Cruzes fobre arcos de pedra , que di-
vide tile terreiro de outro, que chamão dos Carvalhos de S- F rancifco , que
fendo adro daquelle Convento, lhe derão eífe nome, por eífar à fombra deíias
arvores: por baixo delias fe paffa para a rua de Soalhais, & para o dito Conven-
to de S. F rancifco.
Teve eífe Convento duas fundaçoens primeiro que tomaffe a ultima no fí-*
tio, em que hoje eífá: foy a primeira em Víllaverde no deiTridLo da freguezia
de Santo Elf evão de Urguezes, lugar que agora chamão a Fonte fanta , & alli
lhe deu principio o mefmo S. Francifco paflfandoem romaria por aqueila Villa
para Santiago de Galhzacon\o feu difeipulo S- Guálter , ao qual deixou nella
com outro companheiro,reynando em Portugal Dom Affonfo o Segundo, que
naquella Villa os mandou refidir pelos annos do Senhor de 1114. como fe vè
da Chronica de S. Francifco parte 1 liv. 6. cap. 30. & naquelle lugar perma-
neceo o dito Convento em pequena cafa por efpaço de 80. annos.
A fegunda fundação deífe Convento foy dentro da Villa de Guimaraens
junto à torre velha, em hum Fiofpital, que chamão do Anjo, fituado na rua de
feunome,que he hoje Recolhimento de Beatas da Ordem de S-Francifco, don-
de o mandou derrubar ElRey Dom Diniz pelos annos do Senhor de 1 2< o. em
razão do dãno,que delle fizerãoàs fuas gentes no'cerco que naquella V illa poz
o Infante Dom Affonfo feu filho nas differenças que teve com elle ; & querem
dofe tratar da fua ultima fundação no lugar, em que hoje eífà, lhe forão poflos
embargos pelo Cabido da Collegiada de Guimaraens , que fe guardão em feu
Arch Ivo- Mas fem embargo do impedimento continuou a dita fundação,a que
lançou a primeira pedra o Arcebifpo de Braga Dom Frey Tello,Religiofo deíla
Ordem,com muita folênidadeno anno do Senhor de 1290-& deu muita parte
F iij do
66 TOMO PRIMEIRO
do dinheiro, que fe gaitou na obra, como diz Gonzaga no feu livro da Religião
Seraíica foi. *73.
Eftá eito Convento abaixo da torre velha para a parte do Sul, & tem a por.
ta principal para entre o Vendaval, & Poente : junto delia fica a Capella dos
Terceiros de S. Francifco,com porta parao terreiro dos Carvalhos, & outra
traveffaparahuma alpendrada, que divide eito Capella da Igreja de São Fran-
cifco. •
1
Tem eito Igreja de S. Francifco a fua Capella mór toda dc abobeda de pe-
dra, &eíluque, de que faõ Padroeiros os Duques de Bragança : he Capella gra-
de, & mageítofa com hum arco de pedra muito largo, & alto , que a divide do
corpo da Igreja; tem das ilhargas duas Capellas de abobeda de pedra , ambas
de N. Senhor crucificado, com arcos de pedra, que os divide do corpo da Igre-
ja; a da parte da Epiítola tem porta por onde fe fervem os Religiofos para a fua
5ancr;ftia. Metida na parede do lado da Igreja da parte da Epiitola eito a Ca*
pella dos Santos Marty res de Marrocos, que inftituío Francií ca da Svlva , de
que he hoje adminiftrador Antonio Correa Soufa Montenegro.
A Capella de N- Senhora do O, que eito no mefmo lado da parede da parte
da Epiitola, de que faõ adminiftradores feus Confrades , & recolhem feus fo-
ros. Abaixo deito Capella eftá a de N. Senhora da Embaixada annexa ao Mor-
gado, que inftituío o Licenciado Antonio Jorge da Guerra. A Capella de São
F rancifco, &. São João Bautift a, que fabricão feus Confrades. A Capella de S.
Anaftaiia, que inftituío Filippe Ribeiro , de que he hoje adminiftrador Pero
Coelho de Miranda»
A Capella de jefus, que eftá junto da Capella mór da parte do Euangelho,
que inftituío Pedro Alvarez de Almada, & annexouco feu Morgado. Metida
na parede do lado da Igreja da parte do Euangelho eftà a Capella do Defcendi-
mento, que inftituío Simão de Mello do Confelho delRey. Na mefma parede
da Igreja da parte do Euangelho fe abrio hum arco de pedra, aonde fe fundou a
Capella de Santo Antonio, que mandou fazer o Doutor Diogo Lopes de Car-
valho, & a annexou ao feu Morgado.
A Capella de S. Guálter, que fica abaixo da de Santo Antonio, encoftada
à parede da Igreja, que antigamente era hum tumulo de abobeda de pedra dou-
rado,& pintado fobre colunas de nedra, &debaixo da abobeda outro tumulo
pequeno também de pedra douraaa em que eftãoos oitos deito Santo , ôt por
fóra delle hum letreiro, que diz : Gualteri te^it hoc venerabilis o fia fepulchnm.
Parecendo aos devotos, & Confrades de São Guálter que eíte Altar,que
os antigoslhefundàrãoparaveneraçãodefeu corpo, nãoeftava com a magef-
tade, com que a fua devoção o defejava ter, omanaàrão defmanchar, & no feu
lugar aífentàrão outro de madeira; cjue fe a obra correfpondèra ao cufto, ficàra
fatisfeita a vontade,com queparaelle difpenderãofuasefmolas , &com me-
nos nota a fua fabrica fogeitaà brevidade que promete de fua ruína apouca fir-
meza de fua fundação.
A Capella das Chagas de Chrifto, que adminiftraa fua Cõfraria,que cha-
mão do Cordão, cujos Confrades,quando fahem fóra, levão veftias brancas,
&murças pardas debaixo do feu guião da mefma cor. Encoftada à parede do
arco da Capella mór, que a divide d&de jefus, da parte do Euangelho eftá a Ca-
pella de N. Senhora da Conceição,que adminiftrão feus Confrades, os quaes,
quando íahem fóra, levão veftias brancas, & guião da mefma cor. Fov inftituí-
da no anno de 16 7 8. & em quantò a não havia , corria a fabrica deita Capella
pelos devotos de N. Senhora. So-
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. <57
Sobre a potta defte Convento eftào Coro de feus Religiofos fufientado
em hum arco de pedra, que por muito comprido, & delgado , toda a peffoa faz
reparo nelle, & o julga por gravilha. Debaixo delle ]unto a porta principal cm
cadaparededos lados da Igreja eltáhuma porta traveffa : huma que fahe para
entre o Poente, & Norte: & outra para o clauftro do Convento , que he todo
cercado de varandas fobrecolúnas de pedra , fcnomeyo delle hum chafariz
bem provido de agua, que lhe vem por canos da torre dos Cacs.
Kftáo no clauftro defteConvento para a parte_ do Sul duas CapeUas de-
baixodo dormitorio dos Religiofos. A primeira, q hedofeuCapitulo, ínftl-
tuío Gonçalo Dias de Carvalho, & a annexou ao feu Morgado. A legunda he de
N. Senhora, que inftituírão,Coindousareos de pedra para o clauftro , Pedro
y ievra da Maya, & fua mulher Brites Lopes de Carvalho. , , ,.
' Affiftem nefte Convento muitos Religiofos, por fer Cafa grande,» de No
viços; St por muitas vezes tem lido Çollegio- He tradição entre ox^eus Fra-
des, quenelle jaz fepul tado o corpo de S. Rodrigo: mas o feu defcu.donao dei-
xou memoriadolugar aondeefteja,&fenaquel!e tempofebalizou, fe perdeo
efta lembrança, & cbm ella para elles huma grande gloria; porq ue a mayor das
Religioens he a que lhe dão os feus Santos, & ainda para os povos, aonde aflil-
tem,i econfolaçio, regalia, & utilidade.
Fallando Gonzaga defte Santo Rodrigo no livro v cap. ?. da origem da
Religião Francifcana , diz que o coroo defte Santo eltava fepultado na Real
Colilmadadc Guimaraens , aonde lhe affinou lugar , que fazendofe ne -
le expíriencia pelo Arcebifpo de Braga Dom Frey Agoftmho de Jefus , nel-
le fe não achou mais que huma caveira fem letreiro , nem titulo para fepouer
conhecer, do que muitos tomàrão motivo para dizerem que a cabeça lanta, que
fe venera no slntuario daquella Coilegiada, he de S. Rodrigo; & nao vc]o caufa
para que fendo efte fanto Religiofo Francilcano , & morrendo nefte feu Con-
vento, levaffem feu corpo a fepultar a Igreja alhea , quandojanaquelle tempo
tinháo nelle o corpo de S. Guálter, de cuja vida direyo que pudealcançar.
Foy S. Guálter Francez de nação, & entrou em Guimaraens, aonde no lu-
gar, que tenho apontado, fez huma limitada morada para íí, & feus companhei-
ros , mas delle pouco habitada , porque o feu exercício era andar cu-
rando enfermos pelos Hoípitaes , extirpando viciqs , plantando virtudes,
& reformando coftumes,fazendo neftafua occupaçao em vida tantos mi-
lagres, como fez na morte. _ 1

Naquella fua apertada morada entregou a vida ao feu Creador; & quando
feus companheiros fe mudarão daquelle lugar parao Hofpital do Anjo, ficou
o í'eu corpo noOratorio de Villaverde,^ como eítava defemparado de guardas,
tratouoCabidodaquellaCoUegiadadeolevar com todo o fegredo para a lua
Igreja, &pondo por obra eíle feu intento, não foy poílivel que com todas as
forças bem applicadas podeflemmover a fepultura do Santo , como diz Gon-

Z
'^a NãoCfoyCo mgredo da tenção do furto tão guardado naquelle Cabido, q
nãochegaíle ànoticia dos Religiofos feus companheiros, para porem^m me-
lhor cautela a guarda daquelle feu milagrofo thefouro; com que a toda a prefla
o recolherão, levantãdo com muita facilidade o que os outros com muitas tor-
ças não puderão fazer, & comfigo o levàrão para o feu ultimo Convento, aon-
deo oleo, que manava de fua fepultura, deu laude a muitos enfermos.
Na rua de S. Damafo, que uca entre a torre velha , & terreiro dos Carva-
íwímvsemw

6% ' TOMO PRIMEIRO


lhos de São Fráncifco, eítá fituada a Capella deite Santo Pontífice, a qual he
■de obra Moyfajca,otnafua mageítade, & grandeza era mais capaz para Igreja
de hum Real Convento, que para Capella de Hofpital : tem a l ua porta princi-
pal para entre o Norte.» & Poente, & fiobre ella hum excellente Coro de el tuque
muy alegre,& viítofo. T odo o corpo da Igrejahe deabobeda de eltuque,que a
divide da Capella mór hum excellente arco de pedra , & toda ella apainelada
em abobeda de pedra de muy viltofas molduras. Não fe acabou cita Igreja de
aperfeiçoar no leu adorno, & foy tão mal fabricada, que olhandofe para oma-
geítofo da obra, juntamente fe vè o perigo de fua ruína, que da porta principal
atèo fim da Capella mór abrirão as paredes, & abobedas de tal maneira, quele
naô entra naquella igreja fem muito rifeo.
He o Hofpital de S- Damafobemafliítidodetodoo neceífario para reme-
díó da faude de feus enfermos, que nelle fe curão com toda a limpeza,, que co-
tfiofoy inítituídopara Clérigos,paífageiros,& neceílitados, razão era que folfe
differente dos comuns. Foy fundado com a fua Igreja no anno de 164.1. por
Lucas Rabeilo Abbadede Santa Comba de Regilde, que o dotou de muitos
bens & juros, nomeando para a fua adminiítração a Irmandade do Cordão, cu-
jos Irmãos faõ obrigados cafarem todos os annos húa Orfã na freguezia, don-
de o inítituidor fora Abbade, & repartirem pelos pobres delia em hum certo
dia do mez de Dezembro quantidade de medidas de pão , tudo â conta da fa-
zenda, que lh e d e i atou.
A ^Capella de N. Senhora da Confolação , que inítituío Duarte Sodré no
Cãpo da Feira à fombra de feus copados carvalhos da banda dálem da ponte pa-
ra a parte do Sul: não he grande a Capella em fi, mas tem húa alpendrada mui-
to grande com aífentos de pedra, q ue a faz parecer. Della coítuma fahir a pro-
ciífaõdos Palfos,que a fua Irmandade da Confolação faz à fua culta na quarta
Dominga da Quarefma; & a ella coítumavão também os Conegos da Real Col-
legiada ir em prociífaõ na Dominga in Palmis a benzer os ramos ; & todas as
fextas feiras cia Quarefma de tarde ha pregação nella, em que le maniíeítão ao
povo os fete Paífos de Noífo Senhor jefu Chrilto.
Venera fe neíta Capella com grande devoção huma imagem de Noífo Se-
nhor Jefu Chrilto muy devota: delia fe conta por tradição , que fendo Juiz
da Irmandade da Confolação , Manoel da Cunha Maranhas,natural daquella
Vília, citando em certa terra fora deite Rcyno, St nella vendo huma devota ima-
gem de Noífo Senhor, & querendo mandar fazer outra femelhante para eíta Ir-
mandade,chamounãofómenteosOfficiaes efeul tores da terra, mas ainda ou-
rros dediveríàspartes,&dando a todos a informação, q na fua idea trazia re-
prefentado.da fanta imagem, que tinha viíto,lhe forão feitas muitas com toda a
perfeição 3 mas querendoas accõmodarno fanto corpo, todas ficavão nelle def-
proporcionadas, St o devoto Juiz com notável defconfolação : comquefucce-
deo , que eítando,em fua cafa recolhido a horas de Ave Marias, forão a ella dous
homens, & lhe diíferão que elles erão Oificiaesdaquelle miniíterio, St que lhes
diífeífe o modo, com que queria foífe feito aquelle fanto Roíto, porque elles o
fariãode maneira, queficaífe muito a feucontento, & quando afiim não foíTe,
não querião lucro do feu trabalho.
Informados os dous homens do devoto Juiz para darem à execução a o-
bra, a que fe offerecèraõ; fe defpedíraõ delle ; & tornando dahi a poucos tem-
pos a cafa do mefmo Juiz de noite, lhe entregàram o miraculofo Roíto embru-
lhado emhum veo, & lhe diíferam que ao outro dia-tornariaõ a bufear a fatis-
façaón
da corografia PORTUGUEZÁ. 69
facão. Dfcfembrulhou odèvotooDivino Rofto,quc vinha já elic«rmdo,& tao
fermoíb, que lhe pareceo fer o mefmo que na fua idea trazia reprclcntado. No
ila confuíaõ de diícurfos efperouo.oia . & fthicá maiiifellaraosniais Irmãos
aquella maravilha, kpornão tornarema apparçcermais os (eus Artífices , fi-
cou confirmada pormiraculoía. Publicouíepelo:pgvoofuccfiíTOí& anila do
. /- ■ Hr-màvao no ianto coroo ene Rol to milaero
quehcoutRO umao,ovccmipuiivi„ >
trc hum, & outro 5 & nam ha peffoa, que vendo aquella lama imagem naofique
admirada de fua devoç£o< Oveo,cm que vinha guardo çíkíanto Rodo, fe
rccolheo em hum cofre oom grande veneraçani, no qual leve hunia notável par-
ticularidade, porque feeftà palpando, & vendo, & nenhuma peffoa pode diffe-
rencar fehe de lã , oudcRda , fendo de furtacores, ahouado , roxo, azul,
& branco, & fendo de muitas, ninguém pôde. averiguar lua qualidade. „
Pôr cima do Campo daFeira para o Vendaval eftáo campo, ^ue chamai)
dó Gallego, & hoje fundamentalmente fe pode chamar Rolai de Santa Ilabel^
por nelle fe fundar o Moôejro das fuasReligioías no anqode 1681 com efinp=
las, que para iffo ajuntou o Padre Frey Francilco do Salvador , Commiffario
naq^lle tempo dos Terceiros de S.Francifco de Gunnaraens , fcehgioío de
tanta virtude, & efpirito , como fe eftá coiiliecendo em Lisboa nefte amo de
K 97 • no Convento de fua Religião com a mefma occupaçao de CommiíTano ,
nomeado para efte lugar antes que entregaffe a alma ao í eu Creador o Padre Fr.
Domingos da Cruz, que ainda em vivo fez N- Senhor porfuas virtudes mui-

t0b
'o principalmotivodeftáfundaçaõ foraô humas Moças deboa vida , <jue
infpiradas do amor Divino quizpraõ gafíar fuaslegitimas, & bens virtuofa,
& recolhidamente em ferviço deDcosj parao que compraram dentro aos mu-
ros daqucllaVillahumascafasna ruade Val deDonas , & nellas deílituidas
dos bens do mundo começàram na agricultura dos do Ceo, em que he í cm fim
a permanência, & veftidas de hum fayal tofco, começaramxoma frequência da
confiífam de lançar a primeira pedra í undamental com o ãliceíTe de fuas virtu-
des,& cingidas como cordaõ deS- Franofco fizeraoafua primeira profiffam
* na Ordem Terceira, cm que o feu Commiffario no crifol do Coteffionario> toy
apurando o ouro de fuas coneienaas; & vendo que íeus efpiritos hiao ci efcen-
docom eíle primeiro leite da penitencia, lhes bufeou Mc tra,para que das por-
. tas a dentro com o feu exemplo fbífèmfeguindo o verdadeiro caminho dafal-

V
ERava no Recolhimento do Anjo das Terceiras de S. Francifco Catherina
das Chacras, que como filha efpiritual dp feu CommiíTario, conhecia do leu ta-
lento fufficienciá para encaminhar na vinhâ do Senhor aqueUas novas Agricub
toras, que entregandolhe as vontades à fua obediência, lhe derao o titulo de
Recente. Fundàraõ na mefma cafahú Oratorio da invocação de b.Ifabel , &
íe veRífao do feu traje, trazendo hum cilicio por camifa, aonde e Ri ver ao ate
quatro do mez de Abril de ió8*.dia aílinalado de Quarta feira ne Trevas, do
deíahiíãô emprociffaõ acompanhando com o Cabido , & mais Religiões ao
Santiílimo Sacramento, que foraõ recolher no feupovo Moífeiro do campo do
Callero, aonde pregou o leu Padre CommiíTario , encarregando a .guarda da-
quelle Divino Penhor aodefveloda lua penitente milícia , repamndolhe as
Horas Canónicas nas doxlia, & noite,para que no baluarte do leuCoro lejam
vigilantes fintinellas da fua obfervan'cia< f&ftd
7o TOMO 1> ROMEIRO % O O
Nerta união de virtudes ertão cm voluntária claufura guardando a Regrâ
deSMfabel doze Serafins humanos 7 í zendo cada quakaiuos extremos pelo
an.or de Deos, quemoftrão nos leus exceíTos ferem mais do Ceó , que do
mundo 5 Dadecendo nella a defconfolação de não terertj ate gora alcançado a
obrigatória claufura, que chegou cOmellas a tanto o defejo de ieverem encer*
radas por obrigação de Breve de Sua Santidade, que vendo, que por alheas di-
ligencias fe lhes dilatava odeípachoda lua pertenção , íãhio do leu Recolhi-
mento no anno de i6<)0« alua primeira Regente Catherina das Chagas 7 & ar-
mada de efpirito, & valor, fe poz a caminho em traje de Ermitlio. Chegou a Lib
boa, & na primeira embarcação, que lc lhe offcreceo, partio para Roma, aonde
erteve átè o anno de 1691. trabalhando por confeguir o feu negocio, a que não
pode darfim, para virlograr da companhia defuasvirtuofas Irmãs; & voltan-
do para Portugal, deixando em boa altura a fua pertenção, morreó junto aPã-
plona, Cidade Metropolitana do Reyno de Navarra , & da lua morre efcrevè-
íão ao Commiffario os Padres da Companhia de Jefu raras maravilhas. Ertá
crte Recolhimento com fua Igreja, & todas as mais otucinas neceíiarias excel-
lentemente acabado; porque quer Noffo Senhor que aflim como nelle por a-
quellas fuanjfervas he com toda a devoção louvado,feja em tudo perfeito.
Não longe derte Recolhimento para a parte do Sul menos de hum quarto
de légoa efíà íituada em lugar eminente a Ermida de S. Roque com a porta para
o Poente; òt em hum dilatado terreno de feu valle elVao muitas feplilturas, de
que foy á caufa huma grande perte,quc houveemGuimaráens no anno de 1507.
que durou dous annos ;& retirandofe a mayor parte da gente da Villa para al-
quelle lugar, forao tantos os mortos, que inda hoje fe ertão vendo as fepultu-
ras junto de huma galharda fonte, que chamãp dos Impedidos.
Ficou a Villade Guimaraens defpovoada de forte neita occafíão, que não
ficou dentro delia coufa vivente, porque cada qual bufcou retiro, onde pudef-
fem efcapar daquelle grande caliigo; que paraNofso Senhor o haver de apla- • I
car,lheoffereceo aquelle povo para fempre quatro dias de Ladainhas : o pri-
meiro a S. Migueldc Creixomil, fahindo o Cabido, Camara, & Povo em pro-
cifsaõ rezando a Ladainha , & chegando àquella Igreja, fe dizia huma Mifsa
cantada com preces, & acabada ella, fe tornavão em procifsaõ a recolher à mef-
maCollegiada. E como naquellestepos havia antiguidades ridículas , direy
huma, que algunsannosfe continuou neifa procifsaõ; hião hunsMoçosdiã-
te delia cantãdo, 8t deprecãdo:5l.-Mi^wí'/ ae (■ reixttnil damos ft, vas,&pn rexil,ca •
ftãnhinhas temolas nos, Deos ouvinos a nos, Santiago es que de thrift 0^ Apoftolo es,
Magdalena rogo a vós, que rogueis a Deos por rios- Derte cântico fe nao ufa já ho- j
je>nemcfta procifsãovay àquella Igreja, porque de muitos annos a efta parte
vay aoConvento de S. Domingos.
Hia efta procifsaõ no fegundo dia de Ladainhas à Capella dc Santo Andre,
que he huma Igreja, que fica por detràz da rua da Cruz para a parte do Sul,que
antigamente teve humHofpital,q fe extinguio,& cobraõ leus foros osCõfrades
de N. Senhora do O- Também fe mudou efia procifsaõ para o Morteiro de S.
Francifco, aonde hoje vay. No terceiro dia cortumayaõ ir ao Morteiro de S.
Torcato, donde mudàraõ para a Capella da Madre de Déos , & depois para a
do Salvador,&defta para o Convento de S. Clara, aonde agora vaõ. No quar-
to dia hiaõcõ erta procifsaõ ao Morteiro de S- íoaoda Ponte, donde a mudà-
raõ para a Capella de Santa Luzia; porque mudaõ os tempos ainda os mefmo3
votos, quefe prometem a Deos.
E já
bA COROGRAFIA PORTUGUESA. ?í
E já que tenho fallado nefte contagiofo mal, de que Deos nos livre,direy
nefte limar quantas vezes a Villa deGuimaraens experimentou o teu rigor:
a primeira foy no anno de 148 9. que fov antes da que tenho acima fallado, &
por refpeito delia fe ordenou hum rolo de cerei branca^ eomcjue o ( < bioo^Câ-
irara, & Povo ccrcàraõ em prociífaõ toda a V illa, 8c o der ao de oiferta ao Efpi-
rito Santo, 8c ficou de obrigaçaõ para íempre 5 com que todos os annosem
velpora defta fefta faz o Cabido com todas as mais Religioens , a que afíiite a
Camara, huma feftiva prociífaõ, & fahem do Convento de S. Domingos hum
anuo, 8c outro do de S. Francifco com o rolo de cera enlaçado de forte, que fica
hum retrato da torre dos finos de Noífa Senhora da Oliveira, aíTentado em
hum andor todo cuberto , & guarnecido de ramos, 8c flores de varias cores*
tudo de cera,cõ a pomba doEfpirito Santo,5c as Armas Reaes,& cõ ella entraõ
em procifsaõ dentro da Igreja Collegiada, aonde ofterecem o rolo , 8c toda a
mais cera ao Efpirito Santo, que feus Confrades reèolhem.
Neftaprocifsãofeobfervainda hoje huma antiguidade, que cònfiíte em
dar por conta delRey a Camara ao feu Procurador do Concelho certos alquei-
res de trigo, que elle manda cozer em paészmhos redondos , 8c enche quanti-
dade de alfaiates,cubertos,8c enramados de muitas flores,& os entrega a outras
tanta* mocas das mais bem parecidas da terra, que adornadas, Sc iuftrofàmen-
te veftidas os levão à cabeça diante da prociffão,& chegando ao padrão de Nv
Senhora da Vitoria,nelle eíiàadornãdo hum Altar, defronte do qual fe poem as
ditas moças; Sc em quanto o Cabido, Religioens , 8c Camara levão o rolo no
feu andor a oíferecer dentro da Igreja ao Efpirito Santo , hum dos Capellaens
ficano padrão benzendo o pão , Sc acabada a ceremonia lobem as moças com
elle à Camara com o Procurador, Alcayde, 8c Mifteres, 5c eftes da fua galaria,
que pára eito função tem bem alcatifada, o diftribuem ao povo , que naquella
occafião fe ajunta muito naquelle lugar da Praça mayor, Senos encontros das
porfias de qual mais apanhará, fazem aquella tarde alegre»
No anno do Senhor de 1575. houve nefta Villa tanta mortandade de gen-»
te, que defde o mez de Abril atè o de Agofto morrerão duas milpeíToas, 5c no
termo cinco mil ; 8c diz o Licenciado Manoel Barbofa , pay do grande Agoíh-
pho Barbofa,nos feus manu-eferitos que não havia nos adros das Igrejas luga-
res, aonde fe enterraífem os mortos; o que fuceedeo em feu tempo, 5c que pro-
cedera eík contagio da grande fome, que no anno antecedente houve , em que
morreo muita gente. _
A uíti ma pefte foy no anno de 15 9 < • que durou tres mezes , 8c nao tez
grande mortandade de gente, pela muyta cautela, que o povo teve na fua guar-
da ; porque tanto que os primeiros feridos delia morrerão com a prefteza, com
cue ella coíiuma matar, impedirão logo fuas cafas, puzerão guardas nas por-
tas da Villa, & feus moradores logo fe fahirão, cada hum para a parte donde ti-
nirão fu<* fazendas, & neilaseftavão com grande cautela, como quem defejava
efeaparà morte; &os que ficàrão na Villa com perfumes defenfivos, veftidos
de bocachim quafi todos fe defenderão ; 8c no ferviço da Vília de dentro pará
fora o não fazião fenáo peífoas conhecidas , 8c eftás, que andavaõ de dent r o
dos muros,naõ Cahiaõ tora delles, 8c os de fóra nam entravaõ para dent ro; pa-
ra o q ue fe elegèraõ por guardas as peffoas mais qualificadas,8c de reipeito,queí
nella havia- , à r
Padeceo efta Villa, 8c feu termo , 8c Comarca outro anno de tome 1 eme-
lhanteao.de 1694. quefoyode 1680. em que houve tanta fáta de pao, vinho*
n TOMO PRIMEIRO
& legumes, que foy caufa de muitos perderem a vida, principalmente as gentes
das montanhas; com que aspefsoas, quetinhaõoscelleirosde paõ , aprovei-
tandofe da miieria do anno para mell or valiadelle,o puzcraõ cm preço tam al-
to, que foy neceíTario taxarlho ElRey , para que a ambiçaõ daqueiles naõ fof-
fe eftorvo do remedio da miferia dos outros : mas podendo com aquelles mais o
interefsc, que as neceílitadas lagrimas, defpendiaõ o que tinhaõ occultamente,
por não e'ncorrerem nas penas da taxa, pelo mais alto preço, que podião ; &
porque os Miniftros tiverão noticia de que Havia peífoas, que occultavão pão,
mandandoo vender fóra dos limites do termo; puzerãofintinellas pelas eitra-
das, em que muy to foy tomado , & vendido por fua authoridade aos pobres
pelo preço da taxa.
Não feaproveitàrão todos da occafíão parafeguirem aquelle avarento ca-
minho ; porque movidos mais do amor de Deos, que do intereífe proprio , ti-
rando do que tinhão o neceíTario para fuíTento de fua família, trocàrão o de-
mais a lagrimas dos pobres, repartindoopor elles a pedaços, conforme a necef-
fídade, que fe lhes reprefentava. Pelos prados, & matos fe vião ranchos de po-
bres arrancando hervas agreftes, para com ellas poderem remediar as vidas,
que receavão perder no rigor da fome. Acodio NoíTo Senhor a remedialos cõ
o anno de 16b i. dandolhe tanta abundancia de todos os frutos, que antes de fe
chegarem a lograr,já com as fuas efperanças tinhão as lagrimas enxutas, alimé-
tando com a fartura efperada a neceflidade prefente.
Entre as fepulturas do Valie de S. Roque, de que atráz fiz menção ; fun-
dou hum devoto Ermitão huma pobre cafa terrea para feu agazalho,& nella por
lhe parecer feria muito agradavel a Deos eníinaràquelles Aldeães feusyifinhos
a doutrina Chriíiã, de que neceflitavão,lheoffereceo aquelle exercício, a qué
fogeitou a fua paciência pelo feu amor, & continuando nelle, fe eftendeo tanto
a fua noticia, que muitos da Villa, querendo dar boa criação a feus filhos , os
mandavão fogeitar à fua obediência; porque a lição do bom Medre fempre foy
proveitofa aos coftumes da vida.
Conhecendo o Padre Francifco Ferreira , Clérigo de bons coíhimcs, a
penitente, & exemplar vida deíTc Ermitão, deixou os defenfados da Villa,& pa-
ra melhor fervir a Deos, lhe foy fazer companhia naquelle retiro ; & como
não era defemparado de património, & bens, tudo applicou à honra, & ferviço
de Deos, fabricando moradas para melhor o fervirem; & ambos viv erão alguns
annos juntos tam unidos nas vontades, como femelhantes na penitente vida,
até que NoíTo Senhor foy fervido levar para fi a alma do bom Ermitão. Na fal-
ta fua foy fuflítuir o feulugar,& lograr amigavel companhia do P. Francifco
Ferreira outro Sacerdote chamado Leandro Correa, que fazendo entre fi am-
bos huma conforme união , vinculo fizerão de fuas vontades, que fendo húá
mefma, tudo fofle proprio, ficando iguaes na difpoíição para fundarem alli hua
Capella, que intitulàrãooBomJefus doCalvario, a que unirão juros», oc ren-
das,para que o adorno, com que a acabàrão,foífe fempre coníèrvado , & am-
parado das ruínas do tempo,& para quem na falta delles, & em todos os fecu-
los nos feus lugares fuccedefle, lhe nam faltaffe Milfa quotidiana , applicando
para tudo tam bom património, que não faõ poucos os fogeitos, que eíTe lugar
pertendem.
Cultivando huma pequenapartedaquelle valle junto à fua Capella, formà-
rãohum jardim bem curiofo, tam aprazível nas aguas, como deleitofo nas flo-
res ; aonde em frefeos bofques aflHTem devotas imagens, que fabricadas nas
> • offici-
DA COROGRAFIA PORTUGUESA.
ófficinasde feu Meftre Francifco Ferreira, ficàrão obradas da fua curioíidadè
com tal perfeição, como o amor, & vontade, com que as fervia, & naquelle ver-
gel a pouco cufto com viftofas fontesofferecemem criftalinas corrctes vários
divertimentos aos fentidos, & continuas lagrimas a huma imagem da peniten-
te Magdalena,que aos pésde Chriílo crucificado entre verdes murtas lhema-
nifefta pelos olhos o arrependimento de fuas culpas- Nam longe delia fe vê
o arrependido Saõ Pedro, que diftillando lagrimas de feus olhos , convida aos
peccadores, que o imitem nellas , moftrando emteftemUnhodefuadorhuma
letra, que diz: Jam non fum Tetrus, fed mifer fenex.
Retirado em hiima lapa, por não fazer publica fua penitencia, fe efconde
S- Jerony mo > & prendendo com hua maô a hú devoto Crucifixo, com lagrimas
penitentes manifeftaõ feus olhos o pezar de feus delitos , abrindo ao coraçam
no peito com huma dura pedra bocas, por onde publique o grande fentimento
de o haver offendido, fazendo línguas de feu fanêue, pelas quaes publica, como
o Profeta Rey: Tibi foli peccavt- Tem para guarda fegura efte vergel aprazível .
ao divino Paftor, que em cabana tecida de alecrins floridos , deitado em bem
me queres, & adormecido entre amores perfeitos , nos quer moftraí que até
dormindo hc perfeito para comnofco o íeu amor , como diz a letra: Ego dor-
mio, cor metim vigilai.
Efte monte de fantidade fe recolhe todo emhuma parede alta, & pela par-
te do Norte de Nafcente a Poente he a parede, que o cerca , dividida em Capel-
linhas,em que fe manifeftaõ os PatTos da Paixão de Chrifto do Horto até o Cal.
vario, coma ferventia por dentro da.cerca dos devotos Clérigos, com jauella»
fechadas com grades de ferro para o povo fazer fua oraçã© da parte de fóra.
Inftituírão por Padroeiro de fua Capella dò Bom Jefus do Calvário eftes
dous Sacerdotes a Dom Francifco de Soulia terceiro Conde do Prado , & pri-
meiro Marquez das Minas, no tempo que eftava para fazer embaixada a Roma,
para que elle pudeffe depois de fuas mortes , & de outro Padre companheiro,
que já ao tal tempo tinhão,aprefentar naquella Capella os Capellaens,que qui-
zeffe- Dahi a poucos tempos, que fe fez ít nomeação,mor reo o Padre Leandro ,
Correa, ficando a difpofição de feu companheiro mais livre para obrar o que a
fua virtude, & zelo do amor de Deos lhe ditava fem vangloria. Inftituío duas
obras de charidade, que cada huma delias não pôde deixar de ter para com N.
Senhor grandes merecimentos- Foy a primeira hum contrato, que fez comas
Religions de S- Clara, em que ellas fe obrigàrão a dar aos prezos das cadeas
huns tantos alqueires de pão cozido todas as fomanas , mandandoo repartir
porpeíToas,quepiedofamente o d.ftribuiífem por todos igualmente; Alegun-
da obra foy, que as mefmas Religiofas ferião obrigadas mandarem todos os
dias oito cantaros de agua aos mefmos prezos > que foyhum legado de grande
charidade, & piedade, procedido do feu grande eípirito-
Muito amou a charidade efte penitente Clérigo, & tanto defejava favore-
cer aos prezos, que dous dias na fomana fahia do feu retiro para a Villa, aonde
pelas ruas com huma alcofa nas mãos pedia em voz alta efmola pelo amor de
Deos para os prezos, & o que ajuntava lhes hia peíToalmerite repartir * & aífim
acabou a Vida cõ tantas circunftancias de Bemaventufado , que foy hum por-
tento de admiraçoens aos que lhe aflift irão na morte- Foy feu corpo depofíta-
do na fua Capella do Bom Jefils do Cal vario , aonde fe efpera que as virtudes
de fua vida exemplar obriguem a N- Senhor fazer por efte feu fervo muitos mb
lagres. ,
G - Deite
74 TOMO PRIMEIRO
Defta Capella do Bom jefus do Caivano fe fobe para a parte do Sul ao ul-
timo extremo da ferra de S. Catherina a huma Capella delia Santa Martyr,que
deu o nome âqíiella ferra , de cuja ennnete altura fe eftão vendo quebrar as
ondas do mar nas coftas da Cidade do Porto, & Villa do Cõde.He efta C apella
bem aífiftida de Romeiros no dia de fua Santa, & fabricada pelos Religiolos de
S- Marinha da Cofta, que aprefemão nella Ermitão*
A Capella de Santa Cruz fituada junto aporta da Frieira, que vulgarmen-
te chamão de Santa Cruz, com a fua porta principal para o Poente cuberta de
huma alpendrada fobre colunas dc pedra aopedabarbacã da Villa velht ,para
onde tem huma porta travelfa. Fov feita no anno de 16351.& hebem fabricada
pelos feus Confrades, a quem faõ concedidos grandes privilégios , & indul-
gências por Bulla de Sua Santidade no dia de fua fefta a 3. de Mayo ; tem de-
fronte de fua alpendrada hum Cruzeiro de pedra grande fundado cm hum pe-
deftal, que aífenta fobre hum patim de pedra com efcadas ao rçdor, que fervem
. de affento a muita gente,que vay efpairecer àquelle lugar, por fer alegre.
Defronte deita Villa para o Nafcente eftá íituado o Mofteiro de Sãta Ma-
rinha da Cofta de Frades Jeronymosao pè da ferra de S. Catherina, diftante da
Villa meyo quarto de legoa cofta ailima, por cujacaufa lhe chamão Mofteiro da
Cofta- He convento grande, em que aífiftem trinta & mais Religiofos ; tema
fua Igreja feita ao moderno com excellentes Capellas recolhidas nas paredes
das naves com todo o concerto ornadas, com hum arco, que divide o corpo da
Igreja da Capella mór^ com todo o primor obrado, & a Capella mor de abobe-
da de pedra apainelada muito digna dc reparo pelafua boa architedura : tema
porta principal para o PoCte eiffjhúa eminência,em q melhor mamíefta a fua ma-
geftade- Te Guimarães nefte Mofteiro hua alegre,&fermófa vift^principalme-
te depois do feu dormitorio novo, q fe obrou no anno dc t6?i cò toda a grade*
za,& nãohe menos agradavel,& aprazível aos olhos overdc>& irondofo arvo*
redo de fua coutada,q tudo'fe manifefta àquelle povo,fem que haja còufa, q lhe
firva de embaraço àvifta.
Foy efte Mofteiro inftituído, & dotado pela Rainha Dona Mafalda , &
dado por ella aos Concgos Regulares de Sãto Agoftinho, que o poífuírãa qua*
trocentos annos.: depois fe deu em Comenda ao Duque Dom Jaymes , que o
deuaos Religiofos de São Jeronymo por Breve do Papa Clemente VII. como
cofta da Chronica dos Conegos Regulares de S* Agoftinho. Cõcorreo na doa-
ção, q o Duque fez aos Religiofos, ElRey D. João o Terceiro, que nefte Mof-
teiro ordenou huma Univeríidade com Lentes de Humanidades , Artes, &
Theologia, aonde aprenderão eftas faculdades o Senhor Dom Antonio , filho
do Infante Dom Luis, & o fenhor Dom Duarte filho illegitimo do ditoRey D-
João o Terceiro, os quaes ajudavãoàs Miífas, & fervião no refei torio aos Reli-
giofos, de que procedeo chamarem-fe hoje os moços, que fervem na Sancriftia,
Moços fidalgos. O ultimo Prior, que teve efte Mofteiro de Conegos Regula- j
res, foy o Meftre João de Chaves, que foy Guardião do Mofteiro de S* Fran-
cifco de Guimaraens, donde foy para Bifpo de Vifeu. Ha nefte Convet^hum
caliz de prata dourado cõ humletrciroao pe,que dizo feguinte:^ /. AíCcAXò
Rex Sanei,& KepmeD. Ulcma.offkunt cahcemtflumbUia Marin* de'Cdfla.X
quehe á peça mais antiga,que tem.
Eftes faõ os Mofteiros, Igrejas, Capellas,& Ermidas, que os arrabaldes da
Villa de Guimaraens tem fituadosno feu deft rido. Agora daremos noticiados
Morgados, &Vinculos,que forãoinftituidos,&poífuem feus moradores-
O Mor-
DA COROGRAFIA P0RTUGUE2A. ft
O Morgado daPoufada, que inftituío Gonçalo Gonçalves Peixoto Cbne-
go na Sè de Braga, Abbadc deTolocs, Raçoeiro de S. Geris, & ConegodeGui-
maraens , Abbade de Unhão no anno do Senhor de j * 2 3 . tem fua Capella rio
C apitulo do Mofteiro de Pombeiro da Congregação de São Bento. Poífue ho-
je tile Morgado Manoel Peixoto de Carvalho feu parente : he cabeça delle a
quinta da Poufada, fita na freguefia de São Pedro de Azurev-
O Morgado, que inftituío Dom Bertholameu Bifpo da Guarda,da geração
dos V ieiras, com tres Capeílas, huma no Mofteiro de Vicira,outra no Mofteiro
de S. Torcato, & outra 11a Sè de Braga: he adminiftrador delle feu parente G&-
çalo Barbolã morador no Concelho da Ribeira de Sòãs.
O Morgado,que inftituío Dom Martim Paes Chantre da Sè de Coimbra,
còm fua Capella de N. Senhora da Graça, fituadaria Igreja de S.Miguel da Vil-
la velh a,aonde eft à íepultado; & por não haver defcendccia delia familia,tem a
adminiílração delle a Coroa Real. >
O Morgades que inílituío Gonçalo Lobo , & fuá mulher Doria Urraca
Paes, que eíião fepultados no Moíleiro de S. Gens de Monte longo; tem a ad-
miniílração delle os filhos, que ficàrão d&FruCluofo de Freitas , & ellá def-
truído,& muita parte delle.alheada. •
O Morgado, que inftitifío Dom Diogo Pinheiro ,Cõmmendador do Men
fteiro deCarvoeiro,& de S- Simão da junqueira, & do de Caílro de Avelans,
Prelado de Thomar, Dom Prior-de Guimaraens,& Bifpo do Funchal, çom fua
Capella na Torre dos finos da Real Collegiada de Guimaraens. Aggregòu-o aò
de léus pay s o poucor Pedro Eíleves, & Ifabel Pinheira, de que he hoje admi-
niftrador Luis Pinheiro de Lacerda, filho deRuy Pinheiro de Lacerda , mora-
dor na Villa de Barcellos.
O Morgado, que inftituío o Doutor Pedro Nunes de Caula,de que he ad-
miniftrador feu defcendente Francifco Lopes de Carvalho , Moço fidalgo de
Sua Mageftade, & Cavalleiro do Habito de Chrifto. He cabeça defte Morga
do a quinta chamada de Ruivães, que antigamente fe chamava de Nomães.
O Morgado dos Cavalleiros , que inftituío Eft evão Ferreira o Velho no
appellido .de Ferreira com Capella no Mofteiro deS. Simão da Junqueira , de
que he adminiftrador feu defcendente Manoel Ferreirâ d' Eça, fidalgo da Cafa
dclRey, & Cavalleiro do Habito de Chrifto. Foy o dito Mofteiro de S. Simão
da junqueira inftituído por Dom Payo Guterres da Cunha.
O Morgado de Reçozinhos, & Terrozo, que inftituío Martim Annes cã
Capella 110 Mofteiro de Mancellos , de que he também adminiftrador Manoel
Ferreira d'Eça. Foy efteMofteiro deManceilosinftituídoporMemGoriçal-
ves da Fonfeca, & fua mulher Dona Maria Pires de Tavares.
O Morgado, que inftituío Antonio Pereira da Sylva o Velho emRefoyos
de Lima com Capella no mefmo Mofteiro de Refoyos de Lima, que fundou D.
Mendo Aífonfo de Refoyos , fendo Conde naquelle lugar por mercê delRey
Dom Affonfo Henriques^ &elle,& feu pay Aífonfo deAncemondcso derão à
Ordem de Santo A goftinho de Conegos Regrãtes no anilo do Senhor de 1161.
& nelleeftão fepultados. He adminiftrador defte Morgado o mefmo Manoel
Ferrei ra d' Eça, que tem nobres caías na rua de S. Maria.
O Morgado dos Mefquitas,que inftituío Fernão de Mefquitâ o Velho, &
S^Conego Diogo de Mefquita, com Capella, que a efte Conego deu o Duque
e Bragança Dom Fernando na Real Collegiada de Guimaraens, de quehehoje
adminiftrador Francifcode Soufa da Sylva, Moço fidalgo da Cafa delRey, def-
G íj cen-
?<5 V TOMO PRIMEIRO t>
cendente de Fernão'de Mefquita o Velho.
O Morgado dos Figueiroas, que inftituío João de Figueiroa no Solar de
Outis com Capella de Nofía Senhora da Graça nas fuás caías da rua de S- Ma-
ria, que traz por prazo,& neilas vtve Simão Lobo Machado , fidalgo, da Cafa
deiRey; hc boje adminiflrador defte Morgado Lourenço de SI & Mello-
O Morgado, que inftituío Francifco Soares , fidalgo da Caiado Infante
Dom Fernando, na fua quinta de Gor^inhaés na freguefia de S. Miguel das Cal-
das, coutada, & honrada antigamente por ElRey Dom João o Primeiro, dé que
he hoje adminiftrador feu defcendente Pedro Vas Cirne de Soufa, fidalgo dá
CafadeSuaMageíhde.
O Vinculo, que fez Diogo Machado da quinta de Villa-pouca fita na fre-
guefia de S.Sebaffião ao pé da ferra de S.Catherina , & poriktràz da Capella
tícN. Senhora da Confolação no Campo da Feira emhuni lugar eminente, don-
de fazendo mais publica, & manifefta a niageftade de fuiS caías, nella inculca a
nobreza de íeusjpoífuidotfes, he mui oxcellente o fitio de íua Lgndação, &> tam
aprazível pelos íeus bofques,fõtes,prados,& jardins, q ferve de lifonja aos o*
lhos de todos, & de refpeito a fua nobre Capella de S. Antonio, a quem o inili-
tuídor dotou de tres Miífas fomanarias* He hoje adminiftrador, & pofíuidor
delle feu defcendente Francifco de Soufa da Sylva*, Moço fidalgo da Cafa dei-,
Rey.
O Morgado, que inftituío Antonio Machado de Almada, Commendador
de S. Martinho dos Chãos junto a Lamego,da Ordem dq Chrifto , & fcus ir-
mãos na quinta da Calva, & fuas annexas , de que he adminiftrador o mefmo
Francifcode Soufa da Sylva feudefcendente.
O Morgado, que inflituío o Doutor Gonçalo Dias de Carvalho 11a família
dos Carvalhos com Capella nò Capitulo do Mofteiro de São Francifco de Gui-
marães, de que he adminiflrador feu delcendete F ilippe de Soufa de Carvalho
fidalgo da Cafa delRey,Cavaileiro daOrde de Chrift o,& Alcaide rnór de Villa-
pouca de Aguiar 5 tem fuas cafas annexas ao Morgado na ruft de S.Maria.
Ó Morgado , que inflituío Gonçalo Annes, Conego da Real Collegiada
de N. Senhora da Oliveira, das fuas herdades de Segade, que annexou á Capel-
la do Sacramento da rnefma Collegiada , que poffue hoje o mefmo Filippe de
Soufa de Carvalho. ^ .
O Morgado de Ayrão junto a cuimaraens, que inflituío Fernão de Soufa
com Capella no Cap itulo do Mofteiro dcS- Domingos da rnefma Villa , deque
he hoje adminiftrador o Conde de Avintes.
O Morgado, que inftituío Simão de Mello do Confelho deiRey com Ca-
pella do Deícendimento da Cruz no Mofteiro de S. Francifco de Guimarães,
de que foy adminiflrador Dom Jorge Mafçarenhas,&até o anno de 1691- lua
filha Dona Jeronyma Freira no Mofteiro da Elperança em Lisboa & eftá hoje
de poífe delle Dom Fradique de Menezes , ác corre demanda com Francifco
Freire de Andrade & Soufafobrea fucceífaõ delle-
O Morgado dos Manoeis,&Vilhenas , que inftituío Dona Branca de Vi-
lhena Manoel com a Capella mór do Mofteiro de S. Domingos de Guimaraens,
de que hc hoje adminiftrador o Conde de Unhão.
j O Morgado dos Carvalhos, que Inftituío o Doutor Diogo Lopes de Car-
valho Defembargador do Paço, que por não cafar, deixou nomeado nelle a feu
fobrinho o Doutor Gafpar de Carvalho, Chançarel mór do Reyno , teftamen-
te:ro deiRey Dom João o Terce iro, que lhe mandou a macieira dè Evano, com
• • que
DA COROGRAftA PORTUGUEZA, n
que forrou as cafas dofeu Morgado,tão magcftofas, como nobres , com huma
torre de amey as íituada no terreiro da Mifericordia, que annexou à fua Capel-
la de S. Antonio no Mofteirode S. Francifco deGuimaraens. He hoje admini-
ftrador delle Gonçalo Lopes de Carvalho CaftroSt Camões , Moço fidalgo
daCafa delRey, Cavalleiro do Habito de Chrifto, fenhor dos Coutos de Aba-
dim, St Negrelos, aonde tem jurifdição no eivei ,& crime > & he também admi-
niftrador do Morgado dos Camoés emEvora.
O Morgado, que inftituío Dom Manoel AíFonfo da Guerra, Bifpo de Ca-
bo verde, de que he hoje adminiftrador Manoel Velho do Couto, por caiar cò
Briana da Guerra adminiftradora delle: não tem Capella, fenão obrigação de
allumiar huma alampada diante daimagem de N. Senhora da Oliveira: tem ca-
fas na rua dos Fornos.
O Morgado, que inftituío o Licenciado Antonio Jorge da Guerra, com
Capella de N- Senhora da Embaixada no Mofteiro de São Francifco de Guima-
raens. He hoje adminiftrador delle João Machado Fagundes morador na Ci-
dade de Braga: tem cafas na rua do Póftigo.
O Morgado, que inftituío Fernão Martins de Almeida na fua quintá do
Pinheiro, fita na freguefia do Salvador do Pinheiro , com Capella deNoííò Se-
nhor crucificado no Mofteiro de S. Francifco deGuimaraens, indo da Capella
mor para à fua Sancriftia,dequehe hoje adminiftrador delia Gonçalo Peixoto
da Sylva Macedo St Almeyda, fiçlalgo da Cafa delRey, Sc Cavalleiro do Habito
de Chrifto, Donatário das terras de Penafiel, St Soufa , por defeendente dos
fenhores da Calçada, A dais móres defteReyno; como também he adminiftra-
dor do Morgado dos Macedos de Alenquer,com a protecção do Mofteiro das
Freiras da mefma Villa, com lugares delle de propriedade; o qual também he
adminiftrador dos Morgados da Taipa em Lamego, do Morgado do Juizo jun-
to a Marialva,do de Folladaens,St Pereira junto a C idade deV ifeu,& do de Ca-
medes, & honra de Lamaçaes junto da mefma Cidade i tem fuas cafas na rua
efeura do Morgado do Pinheiro. • • #
O Morgado,que inftituío Francifca da Sylva cóm Capella dos Santos
Martyres de Marrocos no Mofteiro de S-Francifco de Guimaraèns, de que he
hoje feu adminiftrador Antonio de Soufa Monte Negro.
O Morgado, que inftituío Pedro Alvarez de Almada, Cavalleiro da Gor-
rotea de Inglaterra no anno de 1507. com Capella de Noífo Senhor crucifica-
do da par te do Euangelho no Convento de São Francifco de Guimaraèns, com
Miífa quotidiana,com fuas cafas,cóm torres no Rocio da Tulha, de que he ho-
je adminiftrador feu defeendente Miguel Leitão de Almada.
O Morgado, que inftituío Gil Lourenço de Miranda, Efcrivão da Purida-
de delRey Dom João o Primeiro, Alcayde mor de Miranda do Douro , de que
tomouo appellido, que ficou a feus defeendentes com cafa, & torre na rua das
Flores, que feus defeendentes deixàrão arruinar , & perder as honras, que o
mefmo Rey lhe tinha concedido; porque tinhão eftas cafas à fua porta duas co-
lunas de mármore prezas de huma parte à outra com huma cadea de ferro , cõ
privilegio, que toda a peííòa,que fugindo à juftiça por qualquer crime,exceptos
os das Mageftades divina, St humana, fe recolheífe dentro da dita cadea , ou fe
pegaíTe a ellâ, ficalfe acoutada, St não poderia fer preza ; Sc que todas as vezes
quehouvefie morte de Rey> fe lhe quebraífe hum efeudo à porta; Sc quando foí-
fe a açoutar , ou a padecer morte natural qualquer culpado , fe lhe não déífe
pregão à vifta dacafa; Sc todas as danças, que na prociífaõ do Corpo de Deos
G iij can-
f,i TOMO PRIMEIRO
cantaflem, & bailaíTem, o fizcíTcm à fua porta , ainda que por eUanáopaflafle »
dita prociffaó. Todas eítas honras, liberdades, & privilégios deixou perc cr
o detcuido de fetis defcendentes, & ainda a pedra da mefma cala vende ráo para
.-oHofpital novo da Mifericordia, tendo a mayor parte de masrçndas no ter-
mo daquella Villa. He hoje admimítrador deite Morgaao, que fe chama de S,
Miguel, feu defcendente João Pereira do Lago.
O Morgado , que mitituío Antonio Machado de Villasboas com Capella
na Collegiada de Bar cellos, de que he hoje feu adminiftrador Pedro Machado
de Miranda,fidalgo da Cafa de Sua Mageítade, côm cafas na rua de Domes.
O Morgado, que inítituío o Doutor Jorge do Valle Vieira, Arcediago fe
Fonte Arcada, nomeado Bilpo de Angola, que não quiz aceitar, com lua lepub
tura na Igreja Collegiada de Guimaraens com obrigação de Miífas noOratoi lo
da Camara. He hoje adminillrador delle Manoel Pereira de Azevedo Vieyra,
fidalgoda Cafa delRey, como também he adminiítrador do Morgado de Alva-
res: tem fua cafa na Praça mayor.
O Morgado de Sezirn, que inítituío Aífonfo Vafques Peixoto cm i"-dç
Dezembro de 1+51> comcafas nobres,& Capella unida a clias na lua quinta
de Sezim hum quarto delegoa junto a Guimaraens para o Poente : he hoje ad-
miniítrador delle feu defcendente Dionyfio do Amaral Freitas &Barbola, Ca-
valleiro do Habito de Chriíto: tem cafas na rua da Infcíta, aonde vive, cõ íer-
ventia para oterreiro das Freiras dcS-Clara. _
O Morgado , que inítituío Alvaro Gonçalves deFreitas com Capella de
S. Braz no cíauítro da Collegiada de Guimaraens , de que também he adminií-
trador o mefmo Dionyfio do Amaral Freitas £c Barbofa-
A Capella da Cafa nova no Concelho de Cabeceiras de Balto, Comarca de
Guimaraens, que inítituío Aífonfo deFreitas , de que também he adminiít ra-
dor o meímo Dionyfio do Amara! Freitas & Barbofa.
O Morgado, q inítituío o Doutor Gonçalo de Faria, que tnorreo Dcíerm
barmdor tib Porto fem geração , & deixou nomeado nclle a feu fobr inho João
de Faria deAndrade, Cavalleiro do Habito de Chriífo. H e hoje admimítra-
dor delle feu filho Bertholameu de Faria & Andrade, com cafas na rua nova do

O Morgado, que inítituío João Lopes da Ramada com Capella de S. Ca-


therina Martvr na Real Collegiada de Gdim^taens, que he hoje de S. Anna. São
adminiítradores delle Diogo Lopes de Carvalho, & feu irmão Manoel Peixoto
da Rocha, moradores em Villaviçofa '• tem cafas na rua dos Palteleiros. , que

^ O Morgado, que inítituío Salvador Lopes da Rocha, de que hoje he ad-


miniítrador FernãoRabellode Mefquita como dos Coitas doCõcelho deLa-
uhofo: tem fua caia na rua das Oliveiras, aonde vive. r

O MorgadodeNefpereira, quehe dos Cardofos , que inítituío Pedro


Cardofo do Amaral na fua quinta da Nefpereira fita na freguefia deite nome,
com Capella de N- Senhora da Conceição na Collegiada de Guimaraens : tem
cafas nobres na mefma quinta,aonde vive feu parente Antonio Cardofo tie Me-
nezes adminiítrador delle.
O Morgado, que inítituío Duarte Sodre com Capella de N- Senhora da
Confolação no Campo da Feira, de quehe adminiítrador leu parente Coime de
Sá Peixoto,Commendador da Ordem de Chriíto da Commenda de Santiago
de Montalegre: tem fuas cafas nobres na rua Caldeiroa.
O Mor-
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. 79
O Morgado, que inftituio Manoel de Valladares com Capella de S- Luis
no Clauftro da CoUegiada de Guimaraens, aonde tem feu jazigo , 8c cafas oa
rua dos Fornos, em que vive nobremente feu defcendente Antonio de Vallada-,
res & Vafconcellos adminiíirador delle.
O Vinculo, que inílituio Pedro Lagarto, 8c fua mulher Margarida Affon-
fo de Freitas, que por não terem filhos , o nomearão em feu fobrmhoRuy de
F reitas de Caftro,cõ jazigo nobre detráz da Capella de N-Senhora do O no
Convento de S. Franciíco. He hoje adminiíirador delle Bernardo de Freitas
de S. Payo defcendente de Ruy de Frey tas de Caítro : tem í ua caia no Campo
daFeira,aondevive. • . L , .
O Morgado, que inftituio Antonio de V alladares Abbade de Rio mao aim
Capella de N. Senhorada Conceição annexa à mefma Igreja, de que he admini-
íirador feu parente João de Azeredo 8c faria , com cafas na rua de Santa Ma-
fiâ*
' o vinculo, que inftituio Antonio Dias Pimentá, & fua mulher Maria Pei-
xota com Capella deN. Senhora daPorciuncula noCcnvento de S.Francifco
de Guimaraens, que por não teremfilhos, deixarão nomeado nelle a feufobri-
nho Simão Dias Pimenta. He hoje adminiíirador delle jolcph da CoftaPimé-
ta, defcendente de Sin.ão Dias Pimenta: tem fuas cafasna rua de S> Maria, em

í]UCV
OMoryado, que inftituio Gonçalo Pinto, cujos defcendentes vivem hoje
na índia , & correo muitos annos com a adminiftração delle a Irmandade da
Miíericordia defta Vília; tem fuas cafas nobres na rua de S- Maria- _
O Morgado, que inftituio o Doutor Ruy comes Gohas , que deixou no.
meado nelle a feu fobrinho o Doutor João de Guimaraens, Defembargador dos
Aacrravos em Lisboa, Deputado da Mefa da Coní ciência, Enviado a Suécia, 8c
Olanda, fidalgo da Cafa Real3 8c Commendador de Caparrofa, que por não ter
filhos de fua mulher Dona Maria dos Guimaraens, avmculou também feus bes,
que erao muitos.? ao iuefrno Morgado^ & Capella do nome de jefus com tribu-
na para as íuas cafas nobres na rua dos Fornos > em que vive feu parente Ma-
noel Peixoto dos Guimaraens^ fidalgo da Cafa delRey.? & Cavalleiro do Habito
de Chrifto,adminiftrador delle- ' • . .
O Morgado, que inftituio Manoel de Moura Coutinho,de que hoje he ad
miniftrador Nicolaode Arrechcla Lebrão 8c Almeida: tem cafas na rua Cab
deiroa,em que vive- _' -
O Morgado, que inftituio Bernardo do Amaral & Caftellobrancõ, fidalgo
da Cafa do Senhor Dom Duarte,filho delRey Dom Manoel, feu teftamenteiro,
com fua mulher Dona Paveia da Sylva a 27.de Janeiro de i6cd. Hehoje ad-
miniílrador delle feu defcendente Dom Antonio do Amaral 8c Cafíellobranco,
com cafas na rua dos Fornos, aonde vive nobremente.
O Morgado, que inftituio Thomas Pereira do Lago, Abbade do Salvador
de Real, Concelho de Villa meã, com Capella de N. Senhora da Conceição,com
tribuna para as fuas nobres, 8c mageftoias cafas na quinta do Barrozão fituada
IX) Concelho de Cabeceiras de Bafto, que nomeou em feu cunhado João Rabeb
lo Leite,fidalgo da Cafa delRey, 8cCavalleiro doHabito deChnfto. He hoje
adminiílrador delle Antonio Leite Pereira, fidalgo da Cafa de Sua Mageftade ,
8c Cavalleiro do Habito de Chrifto, defcendente de João Rabello Leite , com
cafas na rua de S. Luzia. i . ^
O Vinculo, que inftituio Domingos Pereira, Abbade dcLíturaosnoCo
celho

I
8o TOMO PRIMEIRO /
celho de Monte longo, que nomeou em feu Íobrinho Jofeph Pereira Leite, que
he hoje adminiftrador delle, Sc Abbade da mefma Igreja , com cafas na rua c.e

O V incu!o,q inftituíoAntonio de Caftro de F reitas,St fua mulherMargarida


Alvarez de Novaes, de que he hoje adminiftrador F ranciíco Lopes de Carva-
lho^ Cavalleiro do Habito de Chrifto, Sc fidalgo da Cafa delRey.
O Vinculo, que inftituío Gafpar de F reitas, Abbade de Revelhe no Con-
celho de Monte longo, de que he hoje adminiftrador feu parente Lourenço dos
Guimaraens Peixoto, que vive no Concelho de Felgueiras.
O Morgado, que inftituío o Abbade Gafpar de S. Payo Coelho, & leu ir-
mão João Coelho Leite, Prior q foy da Igreja de Muge, Sc fua irmã Ifabfel Coe-
lha de Morgade, com Capella de N-' Senhora do Defterro no Convento tie São
Domingos de Guimaraens: he hoje adminiftrador delle feu íobrinho João Lei-
tie Pereira.
O Morgado de Aldão, que inftituío o famofo Jurifconfulto Manoel Bar-
bofa, com Capella de S.Thomàs, para onde tresladou os oflfos do Beato Frey
Lourenço Mendes,de que he hoje adminiftrador Jerony mo fieyra cie Caftro,
como também o he da Capella de S. Lucas , íituada na Igreja de São Thomé de
Lisboa, que inftituío na familia dos Vieiras Ofenda Annes Leonardes, mulher
•que foy de Payp Salvadores,no anno do Senhor de 13 4C* hlc também adminif-
trador do Morgado dos Pintos, que inftituío Alvaro Pinto, St fua mulher Do-
na Catherina de Faria no anno dei fio* com Capella de S-Catherina Martyr no
Convento de S. Domingos da Cidade do Porto. Também adminiftra o Mor-
gado, que inftituío Diogo Garces, & lua mulher Catherina Carneira; vive na
fua quinta deAldãonafregueíiade S- Mamede de Aldão,aonde tem luas ca-
fas nobres, Sc antigas, nas quaes fe achouhua pedra lavrada do tempo dos Ro-
manos com humas letras, que dizem*. Dedicavit Titús Flavins (Jaudianus Ar*-
chelaus leg. Aug.
O Vinculo, que inftituío Joanna Luis , por não lhe ficarem filhos de íeu
marido Sebaftião Gonçalves, que adquirio muitos ben5 pela mercancia , com
Capella de N. Senhora do Amparo , de que he hoje adminiftrador Torcato de
AndradeSt Almada, que vive na Villa de BarceUos. -V $
O Morgado, que inftituío Bras de\eiva Prego,fidalgo Gallego, que viveo
em Guimaraens, com Capella de N-Senhora da Conceição no Mofteiro de San-
ta Clara da mefma Villa, aonde tinha feu tumulo metido na parede, em que eft a-
vão os oífos do feu inftituidor ; St fazendo feus defeenden te s huma C apella
na fua quinta da Mota humalegoa de Guimaraés para a parte do Norte de que
erãofenhores,tresladàrão os oífos daquelle tumulo para ella, St as Freiras ma*
dàrão tapar o lugar do tumulo, Sc felevantàrãocomaCapel!a,a que tinhãoan-
nexadocento St oitentamil reis de juro , quefe lhe Pagão na Cidade dc Fuy
em Galliza, além de outras mais fazendas, que hoje adminiftra João Coelho de
Vafconcellos, fenhor da quinta da Mota, que vive em Guimarães na rua da Car-
rapatofa-
O Morgado, que inftituío o Doutor Jorge Vieira, Defembargador da Re-
lação de Braga em tempo do Arcebifpo Dom Agoftinho dejefus , queopro-
veo na Igreja de S-Payo de Riba deViífela,na fua quinta deBriteiros, fita na
freguefia do Salvador de Briteiros termo de Guimaraens, a que annexou o. fe-
nhorio do Couto de Pedraydo, que depois deixàrão perder os adminiftradores
com mais rendas no mefmo, que polTuem com outras na Cidade de Brága , que
tudo'
DA COR O CR AFIA PORTUGUEZA. 81
tudo nomeou em feu irmão Francifco Vieira de Andrade , q uelTojepoffUfi íefa
defcendcnte Pedro Ribeiro de Vafconcellos,que mora na mefma quinta delin-
teiros em cafas nobres. - ' o r '

O Morgado, que inftituítão Pedro Víeira da Maya , & lua mulher ornes
Lopes de Carvalho, com Capella de U. Senhora noclauitro do Convento dtó
Francifco de Gu-imaraens , aonde tem nobres jazigos ;& por não rerenituhosi,
onomeàrao emleufobtmho Pedro Vieira da Maya, que hoje o poífue, coimei
fas, em que vive na rua dobado. .
O Morgado, que inftituío João do Valle Peixoto no termo de Guimarães,
que por não terem defceiíderaèS, nomeou nelle lua íóbrinha DohaViolãtc, niu-
' lher de Dom Luis de Noronha Monteiro mor do Duque de Bragança, & Ven-
dor dcfuá Cafa>8t depois Capitão da Guarda delRey Dom João o Quátro y^ne
por não lhe ficar defcendencia, ficou com adminiítraçãó deite Morgado'IJàwà
joanna de Lacerda, Freyra noMoíteiro de S-Clara de Guimaraens,que era uy
mã da í obre dita Dona Violante; & por morte deftaFreiratem hoje a adrnmd-
tracãddelle Francifco de Magalliaens de Sòuta, que vive em Villa Rcah • ••
J
Eftesfaõ os SolaresiCafeôt Morgados, que os Antigas moradores, da
Villadè ouhíí&raerts inftituirãonella, 3cem icu termo,em que lemoltra áltia
muita antiguidade, nobreza, 5c fidalguia, donde ífc communicou por todas as
mats CMadesyí* Villas ddrc-Reyno, quedclktiràrão o efmalte pdra illufrraí
rem o ouro de luas famílias.
"<Cf ' ) • ■ V ' - > A ' ' 1 4. J l . # r í *

úmmm-mrnmm

• CAP. XVIL
t- . >S \ y . . . . KIO^. CVIflZ 3>|

Dos Varoens illttBres ém virtude, Jantidáde, Qf letras t que fó) io


naturaes de GuimãraenSi ■

ASfim como o Sol do Oriente efpalha, & reparte pelo mundo feus rayos,cô
que o allumea : afíím ele a iliuftre Villa cm todos os feculos repamo por
ellefeus filhos, para que em todas as faculdadesf eí plandeceííem, & como Soes
apartaíTem delle as efcuridàdes, com que eftava manchado dos inimigos da e
de Chrifto,extirpando herefías com a fantidade , dando exemplo com a peni.
tencia, para que leu fan to cantinho feja continuado deBemaventuraaos , ex-
plicando com fuãs letras nas cadeiras das Univerfidades a [agrada Theologian
enfinahdo o verdadeiro camitiho da Fer&: nas Leys a redhdao da Jultiça, para
que feus Miniftros não faltem ao ferviço de Deos, & de feu Rey com a boa ad
íniniftração deUa. • ..... ~ ^ -
Foy o primeiro Santo natural defta V ília o Papa S. Damafo, como o can-
tão duas Igrejas Catherines em Portugal: he huma a Igreja de Braga Primaz
das Efpanhas, & outra a de Evòra; & aflim o dizem, & vemos nos Breviários d c
ambasi Na Igrejàde Evctfa ha hum livto antigo, que o faz deOuimaracns , a
qual allega o Doutor André de Rezende na Epiftola a Kebedo Conegode JTq-
ledo para elte propolito,ôc prefere-o a Onuphrio,qiiê ofazEgitanenfe ; & mais
he de notar, que eltedoutiíTimo Varão diz no lugar allegado, qucGuimâraens
antigamente fora Cidade, & diz por eftas-palavras i Ifitcr Vtjfella, & Avi cofr
° • fluentes
Sa TOMO PRIMEIRO
fluentes Vtmaranenfts eftcivitas Saneii Damaft Pontificis quondamPatria : quer
dizer: Entre as correntes do rio Viífella,& Aveeità a Cidade de Guimaraens,
patna antigamente do Santo Papa Damafo- Nefta opinião acho eu hum fun-
damento, que muito corrobora a minha^ aonde no principio delta obra tratey
da antiguidade de Guimaraens, dizendo a ue houve primeira^, & fegunda do
mefaio nome/com que aqui íe moítra queS. Damalo foy natural da primeira
Guimaraens, que teve o nome de Cidade, & não foy da fegunda ,* nem o podia
fcr.o que fe aíhrma das palavras, quondam tat na; donde fc infere que Guima-
raens teve duas povoaçoens. • .
Baítavão eftas tresopinioens para que os filhos de Guimaraens tivellem
cita ventura poriemduvida, quanto mais queGafpar Barreiros , Conego de
Évora nâfua Corografia, Titulo de Madrid , Vazeo, & Morales affirmão,que
S. Damafo fora natural de Guimaraens, & confirma todas eltâs opinions por
verdadeiras (quando.nellas houvera duvida) oPadreMeltre frey f ílippede
la Gandara no feu livro intitulado: Armas, y 1 riunfos de los lujos de Gahzia,
no capitulo 17. num- 3 -por eftas palavras: Pujo fu Corte él.^tnde 7). Ben tu
que en la muy noble Villa de Guimaraens, l anada de los AWgUos Araduça, clartjfi-
ma (fegun la mas fana opinion ) del gran Pontífice S. Damafo- Nefte Author
achamos que a mais provável opinião entre os Efpanhoes era , que efte Santo
foy natural de Guiitaraens, & da V illa velha 3 <kçomoelles opertendião para
fi querendo que foífc leu natural,he teftemunha contra producentcm-
• Dom Luis de Soufa eftando por Embaixador em Roma, donde veyo para
Arcebifpo de Braga, diife, indo de vifita a Guimaraens , por fua cunojidade
fora ver naqueila Curia o Catalogo dos Pontifices, & que nelle achara o noíTo
S. Damafo nomeado por natural de Guimaraens, & afíim fc manifeftaya no lu-
gar da fua fepultura, q também vira, & juntamente a d3 mãy, & de húa irmã def-
te Santo Pontífice. Hoje provão evidentemente efta opinião dous Authorés
Caftelhanos muito doutos, Dõ G^F1" lbanes Marquez de Mondecar nas Dif.
fertaciones Ecclcíiafticas,8cD.NicQlasna Biblioteca Hifpanica, que deu a luz
1
0 Cardeal Aguirre. '' . . _ .
Foy efte Santo hum dos mayores, que afliftirao na Cadeira Pontifical, con-
temporâneo de S. Jeronymo, & S. Ambroíio, & a elle 1 e deve , & a eiiesdous
Santos a inftituição do Breviário, & Horas Canónicas , como diz Marcello
Francolino no livro, que intitulou,doTempo das Horas Canónicas cap. 13. n.
1 f. aonde diz,que S. Damafo efereveo a S.Jeronymo,q lhe mandaffe o mododa
Pfalmodia dos Gregos, & q elle lhe mandou o Pfalterio dividido em fete dias
da fomana, para que cada hum dos dias tiveífe feunumerode Pfalmos ; & que
por efta ordem de mandado de Saõ Damafo fe cante agora os Pfalmos em
todas as Igrejas; para o que allega efte Author huma Epiftola de S. Damafo ci-
crita a S.]eronymo,que anda no primeiro tomo dos Concílios,&_do mefmo pa-
recer he Polidoro Virgilio liv-ó-cap. 2 .de Inventories rerum,& oThelouro
Sacerdotal parte tit. de OflicijsDivihis, cap. 5.
Não ha duvida, que o cantar Pfalmos, Hvmnos, & Cânticos na Igreja Gre-
ga, & Romana, hecoufa antiquiflima,encomendada por S. Paulo, & exercitada
pelos primeirosChriftãos Alexandrinos,feitos, & mftruidospor S. Marcos,
comoefcrevem Philo,Eufebio, & S. Jeronymo. Depois S. Ignacio terceiro
Bifpode Antiochia, que converfou comos Apoftolos,vio huma vilaode An-
jos, que louvando a Santiflima Trindade, cantavão alternadamente , & então
deu efta fórmadecãtar àfua Igreja,& delia foy para todas as do Oriente, do q
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. 83
faõ Authorcs Socrates lib-6- cap. 8- Caífiodoro Hiftorin Tripart. lib-10. cap.
S>. &c. Nicephoro lib-13. cap-8- E diz Caífiodoro na fua Hiítoria lib- ç • cap. 8,.
que Floriano, & Diodoro Monges Anticchenosforão os primeiros que ac-
cõmodàrão aquelle modo de canto alternado de Sànto Ignacio aos Pfalmos de
David 5 & que da Igreja Antiochena, aonde iíto começou, feeítendeo por todo
o mundo. • ., . -
Santo Ambroíio na fua Igreja de Milão fòy o primeiro que no Occidente
in troduzio canto alternado, Hymnos, & Vigílias , como diz Paulinona íua
vida 5 Santo Agoftinho,que entãoeílavaem Milão, odiztambcmno livro 9-
cap.6.& 7. das luas Confiífoens.De forre que SãoDamafo introduzio as Horas
Canónicas; & o Papa Pelagio primeiro obrigou aos Sacerdotes adizellas cada
dia,como fentem Volater-liv. 2 2. in Pelag. Maurol. in Martyr. 27. Augufti,
iGenebrardo,& Pamelio. O Papa Urbano Segundo mãdou rezar o Cilicio de
Noifa Senhora no Cecílio de Claramente no anno de \o96. conforme S- Anto-
nino, Gcnebrardo,& outros , do qual officio foy inftituidor o Cardeal S. Pedro
Damião, ou o primeiro que o fez rezar no Mofteiro, em que vivia,como diz o
Cardeal B aromo. -
Governou eíie Santo Pontífice a Igreja Romana dezoito atinas, tres me-
zes, & oito dias, & mor reo aos 11 -dias de Dezebro no anno do Senhor de 3 8 f 1
tendo oitenta de idadç, imperando Theodofio o mais velho *. foyfepultaciOjun-
tamente com fua m'av,& hiima irmana Via Ardeatina no Templo que elle fun-
dou ; depois forãQtresladadfc fuas relíquias para o deS. Lourenço , que elle
também fez, aonde a Igreja celebra a feita do dia de í ua morte. Fez Notto Se-
nhor por elle muitos milagres, farando enfermos, lançando Demonios, & dan-
do vida a cegos. . _ . : _ _r
Muitos Varoens iníignes em virtude, & letras florecerao no Pontificado
deite Santo, como foy São jeronymo, que o ajudou nas cartas Ecclefiaílicas, &
xefpondia às confultas Synodaes do Oriente, & Occidente* Santo Ambroíio,
Santo A golfinho, Santo Hilário, São Baíilio., São Gregorio Nazianzeno , São
Petronio, SantoEufebioBifpo Vercelleuíe , São Martinho Btípo Turoneníe,
S. Amphilôquio Bifpo, S. OnuphriO, S. Ephrem Diácono, S. Eulogio Presbyte-
ro, S* Epifânio, S-Cvrillo BiípO de jerufalem, S. Hilarion, S. Macario, &. o Sa-
to Abbade Arfenio Diácono da Igreja Romana , que toy Medre dos filhos do
Emperador Thepdofio, mandado para eíie officio peio mefmo Papa S.Damafo,
como diz Nicephoro na fua Hiítoria Eccleíiaitica liv-i %• cap.23.
No tempo deite Santo Pontífice padecerão as onze mil Virgens o feu glo-
riofo marty rio pela Fé de Chriíto, & guarda da fuá virgindade na Cidade de
Coloniaem Alepianha às mãos da tyrannia dosHunnos a 21. de Outubro do
anno do Senhor de 383. como dizo Martyroiogio Romano, & o Cardeal Ba-
ronio. Finalmente por eftes Santos, & Santas Virgens foy o Pontificado de S.
Damalo gloriofo: & por eílefer o que mais fe aífinalava entre todos na lantida-
de, & delenfa da Fè, lhe chamou o fexto Concilio de Conftantinopla Diamante
da Fé, como diz Caífiodoro Hiítoria T ripart.liv-8.cap. io- & para cm tudo cite
feu feculo fer perfeito, com elle concorrerão quatro excelientes Emperadòres,
que forão joviniano, V alçntiniano, Graciâno, & Theodoíio.
É como erão admiradas no mundo fuas virtudes, & a todo elle fervia de et-
panto a fua fantídade,em muitas partes delle o pertendèrão para Patrão feu,
como foy aVilla de Madrid, a Cidade de Tarragona em Catalunha, & outras,
qup çQm fúteis opinioens o querião roubar a Guimaraens, aonde deíde o dia
84 TOMO PRIMEIRO
de feu gloriofo tráíito o venerao como Patrão, feílejando o feu dia de onze de
Dezembro com huma folemne prociífaõ, quefahe da Real Collegiada com o leu
Cabido,, a que affiíle a Camara , Miniítros , & povo , &vãoá fua Igreja,
& fe recolhem outra vez na mefma Collegiada, & naquelle território reza o Êc-
clcfiaílicoo feu Officio Divino com Oitavario,como he eílylo.
Nam fe pôde duvidar que o grande Rey Dom Affonfo HenrRjues foy na-
tural de Guimarães,& que da primeira hora de feunafcimetoatê o ultimo bo-
cejo de fua vida íe viraõ em todo o difcurfo delia obrasíinaes de fantidade,&
depois atèhoje húa vulgar opinião entre toda a Chriílandade de Santo ,& por
eífe tido, & conhecido,como 1'evè da Chronica dos Conegos Regrantes de San-
to Agoíiinho part- 2. liv- 9. cap- 31 • ufque ad finem , & da Terceira Parte da
Monarchia Luíitana.
Outro Varaò Santo natural deGuimaraens fíoreceo, & morreo na índia
fia Cafaprofeffa dos Padres da Companhia do Bom ]efus de Goa no anno de
164.5- chamado o Irmão Pedro de Bailo, Coadjutor temporal da mefmà Com-
panhia, como confta de fua vida efcrita pelo Padre Fernão de Qneiròs Religio-
fo da mefma Companhia, em que fe manifeíl ão fuas virtudes, & os muitos mi-
lagres, que Noífo Senhor obrou por ellas. Foy eíie V arão Santo filho de An-
tonio Machado Barbofa, & de fua mulher Fílippa de Moura Peixota , originá-
rios da Villa de Guimaraens, & moradores no Concelho de Cabeceiras de Baf-
to, Comarca da mefma Villa, em huma quinta nobre, & antiga, que chamaõ do
Sobrado, fita na freguefia de Santa Senhorinha, divididas huma da outra com
o feu pequeno rio, & ponte de madeira: he cafa nobre , & bem conhecida pela
antiga nobreza de feus poífuidores : nella nafceo o Jrmaõ Pedro de Bailo nó
anno de 1570. com taes íinaes de fantidadenos tenros annos de fua infância,
que por onde os outros Santos acabaõ o curfo dos favores celeíliaes na prefen-
tevida, começou elle tam favorecido com mimos , & regalos do Ceo, comô
perfeguido,& vexado do inferno; que he caufa porque em huma,& outra con-
íideraçãofe via perplexo o difcurfo de muitos, mas no noífo Irmaõ Pedro de
Bailo fempre per fever ou aconílancia.
Sendo ainda de tenra idade , quenaôfabia conhecer as mercês de Deos
por Angulares, fe enfayavanas villas do Ceo a defprezar as da terra ; & coníi-
derando que as vifoens, que Deos lhe moílrava, eraõ comuas , as publicava,
porlheparecer que todos viaõ,&ouviaõ o que Deos lhe moílrava,& dizia, co-
mo melhor fe pode ver da fua vida-
Nam he tençaõ minha querer roubar aos Francezes o honrado nafcimento
de S-Guálter, para o fazer natural de Guimaraens pelo feu tranfito: mas co-
mo elle foy compatriota de feus moradores tantos annos na vida , & ainda de-
pois de morto, nam quiz delles apartar feusoifos: motivos faõ que me defcul-
pao para*3 nomear por Santodaquella Villa , aonde a fua dilatada affiílencia
entre elles adquirio em feus coraçoens tanto amor, adoraçocns, & honras,que
em todos os feculos,& ainda neíle he nomeado por feu Santo; & affim honre-fe
muito embora França do feu nafcimento, que Guimaraens com a gloria do di-
vino Thefouro de feus oíTos,& cabellos logra as prerogativas de feu , & as
honras de fua companhia, que nos feilejos do cultó Divino, com que o veneraõ
feus naturaes, moflram os affeêlos de o fervirem, agradecidos aos continuados
favores de feus milagres.
Nam quizera que o Beato Fr. Lourenço Mendes tenha queixa de mim de
o não nomear por natural deGuimaraens; pois] para ir viver, & morrer na-
quella
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. 8^
quellâ Villa, fahio da fua patria nos têrosannos de fua idade,& pedindo o habi-
to do Patriarca S» Domingos naquelle feuCoiívento , nelleviveotamfanta-
mente todd o mais reftante de fua vida, que porfuas virtudes fez Noffo Se-
nhor em feus moradores, & em outras muitas partes grandes milagres, como
já tenho referido ;& para honra daquella Villa, & Convento , aonde muitos
annos foy morador, petmittio Deos queneUe lhe cntregaffe fua alma, & alli
deixaíTe feusoffos para confolaçaõ de feus devotos, & teftcmunho verdadeiro
de a efcolher por patria fua, que como tal o honra, & venera» ^
Atègoranao tenhodadonoticiado milagrofo Sao Gonçalo, q Vulgatmetc
chamáo £ Amarante, fendo q fc naquelle Convento tem feu corpo fepultado,
o feu nafcimento foy junto a Guimaraens na ribeira de Viiella, huma legoa dl*
ft ante daquella Villa, para que o poíTamos com mais razao nomear delia , que
lhe deu o nafcimento, do que donde teve a íepultura. ... ,
Por tradicaõ antiga fe tem que efte Santo foy Religiofo da Ordem de S.
Domingos,& 5 antes de entrar nella fervira a hú Arcebifpo de Braga, q o pro-
veo na Abbadia da Igreja de S. Payo de Riba de Viffella, huma legoa deuuima-
raens, & que nafcèra em hum cafal, que chamao da Arnconha, fito na fregueíia
do Salvador de Tagilde , que parte com a de S» Payo. Dizem mais que foy a
Roma,& dahi a jer ufalem , deixando encarregado o Curado da fua Igreja a
hum lob»inho, & que tornando dahia quatorze annos, o dito fobrinho o nam
quizera recolher, & que vendofe desfavorecido, fe refolvera entrar em huma
Religião; & fendolhe revelado que foffe naquella, em que as Horas Canónicas
comecatfem, & acabafiem por Ave Maria, fe foy ao Convento de S. Domingos
deGuimaraens, aonde ackra que os Officios Divinos fe faziao na forma da
revelação, & que ahi recebera o habito, fendo Prior S. Frey Pedro Gonçalves

Tdll
E por fe não faber o tempo, em que S» Gonçalo foy Abbade, nem o nome do
ArcebiTpo, que o proveo no beneficio de S Payo, deu motivo aos Religiofos de
S. Bento, para affirmarem que foraFrade da fua Ordem,mandando o pintar cõ
o feu habito, & moverem demanda aos Frades de S- Domingos , dizend o que
tomàra o habitonoMofteirodeS- Maria do Pombeiro, que eira da caía, onde
nafceo,huma pequena legoa. E dizem mais , que naquelle Morteiro do i om-
beiro havia huma Kalenda, em que fè fazia commemoração do Santo , & que
fora Frade da fua Ordem , & que a dita Kalenda defapparecera depois que o
Morteiro de S. Gonçalo fora dado à Ordem de S. Domingos, que coita ler da-
do no anno de i y4.0. como refere o Padre Fr. Fernando de Caftíiho na Hiítorid
da Ordem de S« Domingos part, i.liv.». cap61 • • t. ,
Dizem mais, que S.Gonçalo não podia receber o.habito no Convento de
Guimaraens da mão de S. Frey Pedro Gonçalves Telmo ; porque quando efte
Convento fe fundou, havia muitos annos que era morto S. Frey Pedro Gon-
çalves, por falecer no de 1146. & fe fundar o Convento de S. Domingos no de
12 70. como acima fica dito- Trazem mais da ponte de Amarante ter as Annas
Rcaes fem caftellos , queElRey DomMonfoTerceiroaccrefcentou às ditas
Armas por caufa do Rey no do Algarve, queElRey Dõ Affonfo Oitavo de Caf-
telladeuemdote ao dito Rey Dom Affonfo o Terceiro com Dona Brites lua
filha ;& trazem mais outras coufasfobre a dita ponte fermais antiga que São
Gonçalo, referidas pelo Padre Frey Bernardo de Braga da fua Ordem, grande
inverti aador de antiguidades» Tambem dizem que fe S- Gonçalo fora da Or
dem de°S. Domingos, houverão os Frades do Convento de Guimaraens procu-
86 TOMO P R. I M E I, R. O >: ( • / (
rar de o levarem para elle, o que namfizerão, nem conftápertenderem,nem quç
o nomeaffem por Frade feu falvo depois que houver ao^p dito Conycnto de
Amarante. vir; i >. f tm.fb'; * , 1
A iftorefpondem os-FradesDominiços^que de tempo immemorial a efta
parte fempre S- Gonçalo foy -tido, St nomeado por Santo ck fua Ordem , aífim
nefta Comarca de Entre Douro & Minho, como na índia <, & em outras partes
daChriftandade, aonde dsnaturaesdeGuimaraens levarão fua imagem vefti-
da no habito de S. Domingos, & tem NoíTo Senhor por féus mereci meafots feito
grandes milagres -,St o Conego Cairafco. infigne Poeta na Ilha da GraÒ Çanaria
fez muitos poemas em louvor dcíle Santo. Pois que diremos do. milagre da po-
te, em que o Santo acudio no anno de 1400» veil ido no habito de S. Domingos,
a defviar hum grande madeiro, que eftava ãtraveflado nos olhaes da ponte, St a
tinha pofto em perigo de fe arrumar por caufa de huma glande enchente do rio
Tamega, St defviandoocôm o cajadmho, com que o pintão , fe tornou a reco-
lher no feu Convento?
Na Cidade de Lisboanà riia Nova eíiá humaErmida de N.Senhora da Oli-
veira, que mandàram fazer Pedro Eft eves, St fua mulher Clara Giraldes,ambos
naturaes de Guimaraens > St ahi eftão fepultados fobre o chafariz dos Cavai-
los , aífim chamado por dousdc bronze , que ahi eftavaõ, como diz Duarte
Nunes de Leaõ na Chronica delRey DomFernando foi. *05 • Efta Srmida fe
fundou por devoção da Igreja Collegiada de NoíTa Senhora da Oliveira de Gui-
maraens, St nella fe fez hum Altar a S. Gonçalo com o habito de S- Domingos \
fuccedeo cahir hum menino no cano real, que paffa pela dita Cidade j & por
fer em tempo de Inverno, foy levado éom-a força da agua ao mar, aonde vaõ dar
as aguas do dito cano, St là íãhio fem Ifefão alguma 3 8t perguntado como eíca-
pára, refpondeo, que o Fradinho, que eftà em Noífa Senhora da Oliveira , ò
guardàra, St tirara fóra do rio 3 St lendolhe moftraciona dita Ermida> diffe que
aquclle era. , -9
Para o tempo, em que efte Santo viveo, ha muitas conjecturas i que foy
poucos annos depois da fundaçam do dito Cõvento de Guimaraens, St que de-
via, ter feu pav alguma razaõ de parenteíco com o Meftre Pedro Juliano , que
elegeo o Cabido de Braga por feu Arcebifpo no principio do anno de 1172. &
que vagando a dita Igreja de S. Payo perto "da caía onde nafcèra, lha devia nú-
dar pedir, St facilmente o proveria nella, Sc lhe mandaria as letras , St depois
de faber que era feito Papa, determinaria de o ir viíitar , St haver delle outro
beneficio de mais importância , St quando láchegaffe o devia achar jà r
falecido; & com efte defgofto tendovifitadoos lugares fantos de Roma , fc
iriaajerufalem, St gaftanalá osquatorze annos, que efteve aufente da fua
Igreja,defde oanrio de 1277. atè o de 1290. em q tornou,St fov do fobririho
lançado fóra, St efcandalizado, St no dito anno de 1290. iria pedir o habito ao
Convento de S. Domingos de Guimaraens.
Naõ podedo S. Gonçalo aceitar o habito da maõ de S. F ríPedro Gonçalves,o
poderia aceitar de S.Frey Lourenço Mendez, ou de outro algum Religiofo; &
fe foy a Viterbo pelas novas que teve dè fer eleito Papa feu parente o Meftre
Pedro Juliao, gaftandopor lá osquatorze annos, devia tornar para a fua Igre-
ja no anno de 1290. em que fe podia andar na obra do Cõvento, que fe mu-
dou: St dahi iria para a dita Ermida de Amarante prègar à gétc daquella Co-
marca a palavra de Deos, como faziaõ os mais Fraaes, conforme a inftituiçaõ
da Ordem. -
Tinha-
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. 87
Tinha, fegundo ouVi, S. Gonçalo razaõde pafentcfco com os Motas,,que
o Conde Dom Pedrodiz morarem.no Concelho de Cerolico deBaflo , que
parte com o termo da Villa de Amarante, que forao os que fundaram o Mojlei-
ro de Gundar, que eflá meyalegoa alem de Amarante, de que ainda na Cidade
do Porto ha defeédentes ;& do dito Nobiliário cõílano titulo 60,dos de Gun-
dar, que Ruy Gomes da Mota foy filho de Dom MemGundar, Alcayde mor de
Cerolico de Balio,&deviaó tomar elle appeUido da Mota,de huma quinta cha-
mada da Mota,fita na fteguefia de S.Miguel de Fervença do dito Concelho de
Cerolico de Balio. E confia da geraçam dos Barbofas , que anda no.livro pe-
oueno das geraçoens às foi. 2. que Gonçalo Fernandes de Barbofa teve tres
filhos, & hum delles fe chamouFernaó Gonçalves Barbofa,& os dous tomarao
o apelidodosMotas,queforaóJoaódaMota,&AlvarodaMota : demodo

que le prezàraõ mais dos Motas, que dos Baiboías.


E por Saõ Gonçalo ter eftes Motas leus parentes ao redor de^Amarante, 8c
no Mofteiro de Gundar ,*]ue naquelle tempo era deFreyras , &.fora fundado
por leus avós, ôt por D-Toda cieGundar, que o Conde chama D. Toda Lou
renço, 8c poder haver nelle algumas parentas fuas Freyras > como leria Dona
Tareia Lourenço, que o Conde diz que foy âhi Abbadeça ; fe podia o Santo ir
por aquellas partes, para enfmar agenteruftica,quepor alli vivia, & lhe pre-
gar : & por ler a cifrada de muita paíTagem , &perigofa naquelle paffo do rio,
mandara fazer a ponte, que hoje eftá fobre o Tamaga 5 8t falecendo, o nao dei-
xariaò os parentes, & mais povo daquella terra trazer a Guimaraens; por que
fe fora F rade do Pombeiro, mais perto ficava do leu Mofteiro , por nam ficar
delle mais que tres legoas de diftancia,&de Guimaraens cinco: & por o Santo
eft ar naquelle lugar, fe concedeo à Ordem de Saõ Domingos, da qual fora Fra-
de o firio em que fundàraÕ Mofteiro com uniaÕ da Igreja de SaÕ Venífimo , &
dos Mofteiros de Mancelos, & de Freixo, queforamda Ordem de Santo Agof-
tmho , em que o Mofteiro de Villa Real da dita Ordem de Sao Domingos tem
também certa parte do rendimento. . . M
Quanto a S.Frey Lourenço Medes nam refiro aqui fua vida, 8c milagres,
por eftar là relatada; mas digo que o pergaminho, que treslade-y, f©} eicrito no
anno de 1111 • & devia acontecer a entrega das Relíquias a Saõ Frey Lourenço
• Mendes no anno de 1274* que foy quatro annòs depois da fundaçaõ do Con-
vento ; porque provavelmente fe tem que o lugar,onde eftavaõ eltas Reliq uias,
foy a Cidade de Antiochia, que naquelle anno foy entráda pelos infiéis, lendo
de Chriftaõs; 8c diz o fupplcmento,que Bondegar Soldaõ do Egypto naquelle
anno de 12 7 4.. deft ruío,8c levou delà vinte mil cativos,&Chnftaõs-0 mefmo de
fer deftruidanefte anno refere IlhefcasnaHift-Pontif. i.part-livç- cap.4.0.
A gcracaõ defte Santo, diz o pergaminho, que era dos de Chacim, que foy
muito nobre nefte Reyno, 8c delia faz mençaõ o Conde Dom Pedro no titui. 3 8 *
do leu Nobiliário, onde diz , que Dom Nuno Martins de Chacim foy homem
muito honrado, 8c privado delRey Dom Dinis , 8c leu Adiantado em Entre
Douro & Minho, & 11a Beira; mas nos que delle defcendèraõ, ou de leu payDo
Martim Pires de Chacim (de que também faz mehçaõArgote no livro da No-
breza de Andaluzia) nam acho feita mençaõ defte Religiofo ; pelo que parece
que devia fer parente, pois o pergaminho declara fer defta familia, 8c Chacim
he huma Villa cm Trás os Montes; que os Mefquitas de Guimaraens , Villa
Real, 8c Elvas faõ defeendetes dos de Chacim, porq -Martim Gõçalv es Pi metei
foy cafado com Ines deMefquita,a qual era filha de Eftevaõ Pires de Mefqui-
1
H ij
. .i ..^ n iyi i imMmt

88 TOMO PRIMEIRO;
ta , & de Alda Nunes de Meireles filha de Joaò de Chacim Commçndador da
Ordem de Chrifto,& Senhor de Chacim. . T

Efte milagre da entrega , que fe fez defta arca aó Santo Frey Lourenço
Mendes , efíava pintado na parede do Moíleiro entre os Altares de Noíia Se-
nhora do Rofario,õc de Saõ Gonçalo; & devendo os Religiofos do dito Moítei-
roconfervar eíla memoria, &c nam confentir que fc apagaíTe , a fizeraõ cobrir
de cal ao tempo,que fe apincelouo Molleiro-
No lugar, aonde agora eílá o ret abolo de S. Frey Pedro Gonçalves., ei te-
ve fepultacío eíte Santo, & tinha no tumulo huns buracos,pelos quaes_tocavaõ
contas, & outras coufas de devoção, & íc cobrio o dito lugar com íe fazer alli
Altar, & retabolo, deixando por memoria pintado no banco do retabolo a ima-
gem do Santo deitada ao comprido, com eíte verfo, que diz afíim:
JHic fita Laurenú Mendes funt ofja tíeatu
Nam ferà razaõ que neftelugar deixede nomear a devota Ifabel de Saõ Pe-
dro, porque quem fov tam penitente na-vida, permiteDeos íeja bemaventura4
da na gloria. Foy eíla ferya do Senhor natural de Guimaraens , que luppoílo
filha áe pays humildes, foy muy nobre nas virtudes ; fora moradora na Praça
• do peixe, & tam amiga de fervir a Deos , que guiada do Divino Efpir ito fe re-
folveoá ir vifitaras EítaçoensfantasdeRoma,&os lugares fantos de Jerufa-
lem. Tanto que chegou a Roma, que fov no anno de 1599. áhi pedio o habito
da Venerável Ordem Terceira de Saõ Francifco,& veftida de hum tofeo burel
profe-Juio a jornada, que tinha deftinado, donde voltou à fua terra, trazendo
de ofterta a NoíTa Senhora da Oliveira hua riquifíima Cruz de pao de reliquias,
que fe venera no feu Santuário- Nameima Villa viveo ornais reftante de lua
vida, fazendofe muy conhecida por fuas grandes penitencias, & virtudes, em
qug fempre perfeverou, ate entregar íuaditofa alma nas mifericordiofas maos
do Senhor, jaz fepultada na,Igreja de NoíTa Senhora da Oliveira,& í c cor, fer V á
inda hoje fua fama com opinião de Santa, como cõfta daHiftoria Sei afica part»
i.liv.i.fol.iRj» . < , ■
Da Villa de Guimarães,podemos dizer,era natural,pelos muitos annos q neJla
viveo,ã fenhora 13. Cõitaça de Noronha, fegúdamulher do Senhor Dõ Affonlo
primeiro Duque de Bragãça, a qual fe entregou tanto ao ferviço de Deos, q naõ
1
faltado às obrigaçoensdefeuEftado,foube disfarçar com o mageítolo das
0 galas o penitete dos cilícios; & quando no mundo apparecia com as regalias de
Princcza, no Ceò fe habilitava para os prémios de virtuofa» Chegou o tempo,
em q em fua paciência foportou a morte de feu marido na fua Villa de Barcel-
los, donde acabadas de fazer as devidas honras funeraes,fe partio para a Villa
de Guimaraens, em que viveo muitos annos em religiofo recolhimento , de-
dicando todas as fahidas de fua çafa para o feu Convento de Saõ Francifco, de
que era Padroeira, & nelle aífiftia aos Officios Divinos, derramando muitas la-
grimas diante das imagens veneradas em feus Altares- Pedio aos feus Religio-
fos lhe lançaífem o habito da Ordem Terceira , emque profeíTou , fazendo
tanta eftimaçaõ delle, que o trazia publico, venerandoo com rigorofas penitc-
cias. _ .
Como efte habito lhe facilitava todos os affos de piedade , curava por
fuas maõs aos enfermos, & a mayor parte de fua fazenda gaftava em os Hofpi-
taes, & pobreza, a quem continuamente eftava foccorrendo com efmolas, com
que parecia mais o feu Palacio Hofpital de pobres, que cafa de Princeza; & para
disfarçar a virtude,cõ que curava a muitos pobres, lhes applicava lavatórios,
DA COROGRAFIA PORTUGUEZÀ.
& cozimentosdebumaherva,quenafciano territoriocio íeuPalacio , a que
chamavaõ, &chamão indahoje herva daDuqueza Santa,cõ que quafi milagro-
famente faravaõ de muitas enfermidades quantidade de enfermos- • Aílim ricia
de merecimentos faleceono anno de i com vulgar opinião de Santa; foy
fepultado feu corpo na Capella mor de S. Francifco junto aos degraos do Altar
mor; tresladàrão depois os Frades a fepultura para o presbyterio da parte da
Epirtola, aonde eftà a fuaíigura em meyà talha com o habito, & cordão, & tou-
ca íoqueixadaamodode Beatas Terceiras,&naquella pedra fe vè ainda hu bu-
raco, pelo qual com contas, outras coufastocavaõ luas reiiquias; & comcf-
te meirno traje depois de morta appareceo a hum enfermo, que em íua doença a
invocou. Defía penitente Duqueza trata, além de muitos, a Hiítoria Seraíica
foi. 18o. aonde fe referem alguns milagres autenticados no anno de 14.88.
Salvador de Meira Peixoto foy hum Cavalleiro natural de Guimaraens, &
hum dos principaes defta Villa, cafado com Maria Nunes de Carvalho; tiverão
dous filhç>s,hum que morreonas índias de Caftella , para onde fe embarcou
por crimes de homicídio: & outro chamado Joaõ do Valie Peixoto,que morreo
Beneficiado de S-Gens, o qual por morte de feuspays ficou em companhia de
fete irmãs, vivendo todos juntos tam unidos em huma fraternal amizade, que
nam havia entre elles fenaõ huma vontade. Mortooirmaõ , ficàraõ as irmãs
obfervando a mefmâuniaõ, vivendo tam recolhida, &. honcílamente 3 que era
a fuacafa centro de virtudes, & reparo da pobreza,a porta fempre aberta para
a efmola, & charidade, &. as vontades de todas fempre liberaes , para que ne-
nhuma peífoa, que a ellas pediífe, foífe defconfolada ; & como viviaõ em hum
retiro junto ao Morteiro das Capuchas de Santa Ifabel,fahiaõda fua cafa to-
das as manhãs muitos peregrinos,que nas noites nella tinhaõ agafalho, & para
effe effeito tinhão recolhimentos com o melhor commodo , que a fua poflibili-
dade^odft 0jiabit() deTerceiras de S.Francifco; masfólfabel Pei-

xota a mais velha o trazia publico, como gala de leu mayor affeéio. De fua pe-
nitente vida dará boa informação o Padre Frey Francifco do Salvador, Cõmif-
fario dos Terceiros em Lisboa, porque foy feu Padre efpiritual muitos annos
naquella Vília, aonde teve a mefma occupação. Fov muy devota de Noífa Se-
nhora, &todos os Sabbados, fem que o ruim tempo lho impediífe , hiavifitar
defcalça a fua Capella do Monte, que fica diftantehuma grande legoa de fua ca-
ía : todos os dias corria as cafas. do Sacramento , fem faltar aos Ohicios Divi-
nos no Convento do feu Seráfico Patriarcha S- Francil co; & as mais das tardes
com o feubordão, a que chamava companheiro, hia vifitar o Bom Jefus do Cal-
vário. Neftes exercícios,fem faltar à difciplina,& jejum,viveo noventa annos,
& morreo no de 16 8 $ • cõ tal opinião de virtude,que diífe Frey Pedro da Cruz,
feu Padre efpiritual muitos annos,q para lhe dar aabfolvição nas fuas cõfiíioés,
era neceífarid recordar venialidades de outras, que tinha feito ; & comoerta
ferva de Deos entregou a alma ao feu Creador em companhia defteReligiofo,-
excellencias manifefta de fíia morte. . . .
Muitos fogeitos aífim homen s, como mulheres falecerão nefta Villa,que fc
fuas noticias vivem hoje fepultadas com elles, ha N-Senhor de permitir> que o
que obràrao na vida pelo feu amor, ha de fer merecimento para que algum dia
fejão manifeftas fuas virtudes, &fayão debaixo daquellas pedras finaes, que
publiquem a gloria, que eftao poifuindo em fua companhia.

H iij CAP.
9o
TOMO PRIMEIRO

CAP. XVIII.
m

De outros fogeitos naturaes da Villa de Guimaraens , que illuflràratn


efle Rey no, & outras partes do Mundo.

O Primeiro Varão, de q poífo dar noticia, foy Payo Galvão, filho único, &
herdeiro de Pedro Galvão, & de íua mulher Dona Maria Paes , o qual
tocado dos auxilios do Ceo, deixou a cafa de feus pays , & fe meteo Religiofo
noConvento de Santa Marina da Colla de Conegos Regrantes de Santo Agob
tinho pelos annos do Senhor de 1178. em que naquelle tempo era Pjrior delle
o Padre Dom Mendo 5 o qual vendo a viveza, engenho , & virtude do novo
Religiofo, o mandou para a Univerfidade de Paris a eftudar,c©mo era coí! ume
naquelle tempo nos Padres deíla Ordem, por terem naquella Univerfidade Me-
dres feus, que eníinavão as lagradas letras.
Entrou nella o novo Religiofo Dom Payo Galvão em tam boa occafiao,
que lia naquella Univerfidade com grande fama Dom Lothario Conego Re-
grante de Santo Agoítínho do Moíleiro Lateranenfe de Roma, peífoa de muita
qualidade,l& authoridâde dos Condes de Cygnia em Italia, que daquella Uni-
verfidade foy chamado para Cardeal, donde em poucos annos foy Papa,cha-
mado Innocencio Terceiro , o qual era tam afteiçoado a Dom Payo Galvão,
que quando de Roma o mandàrão chamar,para lhe lançarem o Capelio de Car-
deal, o quiz levar em fua companhia ; mas como não tinira licença dfc feu Pre-
lado,nem acabados os feús efludos, fe efcufou,&nao aceitouoque tanto lhe
convinha. „ _ , .
Recebeo Dom Payo Galvão o grao de Meítre deTheologia na Univerfi-
dade de Paris , & querendo ir aRomavifítar feuMeílre o Cardeal Dom Lo-
thario, o não pode confeguir , por fer chamado para, o feu Moíleiro por carta
do feu Prelado. Chegado a elle , foy recebido de feusRelígiofos com grande
«ofto, & alegria de todos, & como nefte tempo a Igreja de Santa Maria de Gui-
maraens ainda era de Conegos de Santo Agoftinho, como diz Eflaço cap. 2 4.
de varias Antiguidades de Portugal, & nella Prior Pedro Amarelo 5 tanto que
fbube que o Meftre Dom PavoGalvao era chegado ao feu Moftciro da Coita,
lhe foy dar as boas vindas, & juntamente aofferecerlhe a dignidade de Meihrc-
efcola, que eftava vaga por morte de Dom Vafeo V ivar, que elle com licença dc
feu Prelado aceitou de boa vontade, & na clauílra daquella Real Collegiada leo
Theologia MoraH que para eftefim fe inftituío a dignidade de Meftre-efcola
nasCollegiadas,&Cathedraes.
Eftando neftaoccupação o Meftre-efcola Dom Payo Galvao, chegarao no-
vas a Portugal que era falecidoo Papa Callifto Terceiro , & que em feulugar
fora eleito a 8. de Janeiro do anno do Senhor de 1198. o Cardeal Dom Lo-
thario Meftre donoífo Dom Payo Galvão, que fe chamou Innocecio Terceiro;
& como nefte tempo reynava em Portugal Dom Sancho o Primeiro, elegeopara
lhe mandar dar obediência ao dito Dom Payo Galvão , por fer Varão perfeito
aílim em letras, conto em authoridade; occupação que elle muito eftimou, tan-
to
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. pi
to por fua regalia, como por ir bçijar o pè a feu Meftre na Cadeira Pontifical:
& dcfpedindofe por carta de todos os Prelados dos Mofteiros da fua Ordem ,
fe partio para Roma, aonde foy bem recebido do Pupa Innocencio Tercéiro,feu
Meftre,quecommuitabcnevolencia,&moftrasde aífeiçãoouyio fua embai-
xada, que lhe foy tão bem aceita , comofe colhe dacartaemrepoftaàdelRey
Dom Sancho,cuja copia relata Brandão na quarta parte da Monarc.Lufit-liv.12
cap. 2i- em que toma o Reyno de Portugal debaixo da protecção da Santa Sc
Apoftolica- .
Pela grande affeição que o Papa Innocencio Terceiro tinha ao noífoDom
Payo, não confentio que elle fe fahiífe de Roma , por lhe fer neceífaria a fàa cõ-
panhia, pelo conhecimento que tinha de fuas muitas letras, & prudência para o
bõ governo da Santa Igreja,& aíTimo fe'/ feu Vice-cancellario,& depois no anno
do Senhor de 1206. na quinta creação deCardcaeso fez Cardeal Diácono do
titulo de Santa Maria in Septifolio, como fe pôde ver emFrey AfFonfo Chacon
no livro dos Summós Pontifices, fallando do Papa Innocencio Terceiro; & de-
pois pelos annos de 1211.0 levantou à dignidade de Presbytero Cardeal de
Santa Cecilia, & no de 1115.0 fez Bii po Albanenfe.
Muito fentio o Cardeal Dom Payo a morte de feu Meíire o Papa Innocen-
cio III. por lhe parecer pararião cõ ella os feus accrefcentametos: mas como os
feus méritos erão tão grandes,nenhum Pontífice poderia fucceder, que fenão
aproveitaífe da fua doutrina, & prudência ; & aífim fuccedeo : porque juntos
os Cardeaes, elegerão em Summo Pontifice a Dõ Cencio, Conego Regrãte La-
teranenfe de nação Romana, aos 18. de Julho de n\6. o qual fechamou Ho-
norio III.& co efta eleição aliviou o nolfo Cardeal em parte o fentimc to da n íor-
tede feu Meftre Innocencio Terceiro, por fer o Papa novamente eleito tãbem
feu amigo particular 5 em tal maneira que o Padre São "Domingos o tomou por
valia,para que omefmoPapa lhe paTaTeaBulla da confirmação da Ordern aos
Pregadores, como aílim.o fez no primeiro anno de feu ?ontincado nella alli-
nou o noífo Cardeal Bifpo Albanenfe com mais dezaíete Cardeaes.
Huma das coufas principaes, que o novo Papa Honorio Terceiro inten-
tou fazer no principio ae feu governo, foy aconquifta da Terra Santa de Jeru-
falem,efcrevendo para iífoatodosos Reys,& Príncipes Chriftãos cartas, em
que os exortava para efta empreza,& para que delia trataífem com boa vonta-
de, paífou a Bulla da Santa Cruzada com notáveis graças, & indulgências para
todos os q ue neft a conquifta fe q uizeffem achar. De grande gofto foyparato-
dos os Príncipes Catholic.os efta refolução do Papa Honorio í erceiro; par-
que de todas as partes da Chriftandadefe ajuntou hum poderofo exercito por
mar,& terra,de que oSummo Pontifice fez General a João Breno,que eftava eley-
to Rey de jerufalem, por fei* na guerra muy experimentado Capitão , & para
efta empreza nomeou por feu Legado Apoftohco ao noífo Cardeal Dom Payo,
por conhecer neile hum defejo ardente de recuperar aquella fanta C idade. O
qnefta guerra fuccedeo fe pode vernaChronica dos Conegos Regrantes de S.
Ágoftinho 2• part.liv. ii-cap.2.
O Doutor Qafpar de Carvalho Chançarel môr do Reyno , do Confelho
delRev Dom João o Terceiro, & feu Embaixador aCaftella a tratar o cafamé-
to da Princeza Dona Maria fua filha comElRey Dom Filippe o Prudente, & tã-
bem teftamenteiro do dito Rey Dom João oTerceiro.
O Doutor Balthalar de Azeredo, Defembargador da Supplicação.
O Padre Frey Paulo do V alie da Ordem de São Bento > Meftre na fagrada
Theolo-
BBKRIRI

01 tomo primeiro
Theologia na Univeríidade dc Coimbra, aonde deixou itanta fama,como letra s

O Doutor Diogo Lopes de Carvalho,fenhor dos CoutoS de Abadim , &


Negrellos, Moço fidalgo da Cafa deiRey, & feu Defembargador do Paço.
O Doutor Gonçalo Dias de Carvalho, que foy o primeiro Legiíta Pprtu-
guez, que começou a edudar em Guimaraens , quando os eíxudos eitavão
110 Moíleiro de Santa Marina da Coda de Frades Jeronymos , & o primeiro
Doutor , que na U niverfidade de Coimbra tomou o grao do Doutoramento;
foy Defembargador dos A agravos, & Deputado da Mefa da Confciencia.
O Doutor Balthafar Vieira, Moçoíidalgo da Caía deiRey, que toy Corre-
gedor da Corte. ^ ... . j
O Licenciado Manoel Barbofa, cuja famafemprevivtra na memoria dos
homens pelos Volumes, que eícreveo à Ordenação; com que foy tão aouto nas
letras, como antiquário, & dos Genealogidas o de mais credito*
O iníigne Doutor Agodinho Barboía feu filho, Biípo de Gifgento , que
não he neceífario para encarecer fuas letras mais que nomeallo,& fie a coi hecido
não fó em Portugal , mas em todos os Reynos eílranhos, onde fe eitimao os
feus livros, alfim no fecular, como no Eccleíiaíiico,pela reputação de íua dou-
trina
O Doutor Símao Vaz Barbofa Medre em Artes, filho também do JurifcÕ-
fulto Manoel Barbofa, que fendo Conego naCollegiada de Guimaraens, fez o
feu livro do Axioma, para moftrar não degenerar de tal tronco.
O Doutor Antonio Pereira Cardote, que deu tanto credito a Portugal, oc
à fua Univeríidade de Coimbra, que as podillas, que nella leo, fe forão ler à tie
Salamanca :&fe não tivera dado de fi outro parto a Villa de Guimaraens, baí-
tavaedefogeito para o feu mayor crçoito. . • -
O Padre Frey Antonio da Luz,Religiofo de S. Bento, iníigne TheologoA
Lente na Uuiverfidadede Coimbra. \r
O Reverendo Padre Medre Frey Jofeph de Oliveira, Religiofo dos Eremi-
tas de Santo Agodinho, Lente de Theologia em Coimbra, que por luas muitas
letras, authoridade, Sc virtude o fez Bifpo de Angola ElRey Dom Pedro o Se-

O Doutor Gafpar de Abreu de Frey tas , Defembargador , & Con-


felheiro da Fazenda, Moço fidalgo da Cafa deiRey, & feu Enviado a Olanda,In-
glaterra, & Roma, & Commendador da Ordem de Chrido.
D
i O Defembargador João de Guimaraens, Embaixador duas vezes a Sué-
cia^ Inglaterra, & Olanda, Moço fidalgo da Cafa deiRey, Commendador de Ca-
parrofa na Ordem de Chrido, & Deputado da Mefa da Conferencia.
O Doutor João de G°uvea da Rocha, Chançarel na Relaçao do Porto,Def-
embargador dos Aggravos em Lisboa, & do Paço , Moço fidalgo da Cafa dei-
Rey, & Cavalleiro profeífo do Habito de Chrido.
O Doutor Pedro da Rocha de Gouvea, Defembargador do Braíil, & de-
pois da Supplicação, Cavalleiro da Ordem de Chrido, irmão do Doutor João
de Gouvea da Rocha. ,
O Doutor Jofeph Peixoto de Azevedo, Defembargador dos Aggravos em

O Doutor Jeronvmo Vaz Vieira, que actualmente eda fervindo" de Juiz


das Ordens Militares, Deputado da Mefa da Confciencia,Defembargador dos
A ot>
agravos, Juizda Coroa, & Defembargador do Paço-
Dom
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. 93
Dom Gabriel da Annunciação Cónego de São João Evangelifta , que foy
Bifpo de Annel do Arcebifpado de Évora- ,
Dom Manoel Affonfo da Guerra, Bifpo de Cabo Verde , que o mereceo
por fuas letras, & virtudeS.
E ft as faõ as peffoas, que em noffos tempos pude alcançar, que em todas as
faculdades de letras oecupàrão nefte Reyno,& fora delle os melhores lugares;
& fó me falta dizer dos queforão muy doutos na Medictna, como foy o Dou-
tor Pedro de Soufa, Lente de Vefpora, o Doutor Chriftovão de Azeredo Fifí-
comór defte Rey no, $00 Doutor FrancifcoCibrão múy to conhecido na Corte
de Lisboa. ...
Também na Arte Poética hecoufa muito cõmua> que o primeiro homem,
que nefte Reyno fez trovas, foy Manoel Gonçalves o Trovador, natural defta
Villa, & nella morador no Burgo da rua de Couros ; & como os filhos de Gui-
maracns fe prezàrão em todos os feculosde imitarem aos primeiros invento-
res de todas as Artes liberaes, & cançarem.fe em querer exceder huns aos ou-
tros nas fciencias 5 muitos Poetas, &Humaniftas excedentes haveria depois
do Trovador Manoel Gonçalves, mas de todos feefqueceo a memoria depois
que ManoelThomás deu a luz as fuas obras de Oitava Rima, que compoz,para
dar noticia das guerras de Entre Douro & Minho , & das peflbas, que nellas
militarão naturaes de Guimaraens, como também do defcobrimento das Ilhas
aonde morreo •• porém aflim huns, como os outros eferitos, fenão perderão 0
credito de fua muita erudição, todosficàrão fufpendidos , &poftos de parte
depois queofamofo Manoel de Faria & Soufa manifeftou ao mundo fuas o-
bras, dando claras, & verdadeiras noticias não Iodas antiguidades de Portu-
gal, mas também da Africa, Afia, & America , dando noticia a todos por feus
efer itos daquelles dilatados Impérios, Reynos,& Senhorios, & fucceífos del-
les com tanta erudição, certeza, & verdade , que nenhum Author, por mais
apurado que foffe naquellas matérias,lhe poz objecção,que elle não refolveífe
com doutrina tão clara, como a luz do Sol; com que fó Guimaraens fe pode cõ
razão jaàar de ter por natural hurfi Chronifta como efíe, pois mereceo ter no-
me em todo o univerfo : & fe nas fuas muitas obras o deixou efculpido para
as eternidades, também o imprimio no coração , & memorias de íeus natu-
raes, para chorarem fua falta 1'obre a fepulturado Moftciro do Pombeiro de
Frades Bentos com o epitáfio de feu nome (que ferámais perdurável no bran-
- do fentir dos homens , que na dureza da pedra) ao entrar da porta principal
pela nave da mão direi ta, junto à porta traveífa doclauftro,ao pé do mageíto-
í'o tumulo de Dom João de Mello & Sampayo , antigo Commendatario da-
quelle Mofteiro. j
E como tenho coroado a todos os mais fogeitos feientes , & doutos na
faculdade das Hiftórias,cõ efta coroa irey dando conta dos Naturaes de Gui-
maraens, que coma efpada defenderão a Fé, defterràrão Gentios, & inftnigos
de NoíTo Senhor Jefu Chrifto,para que Portugal ficaffe povoado de Chriftãos,
& com ella defendèrão naõ fó a feus Reys, & Reyno,mas eftendèraõ por muitos
Reynos, & Provincias feu nome, & fama.
E quem nos ha de dar principio a tambons defenfores da Fè de Jefu Chri-
fto, fenão o noíTo melhor aumentador delia,& acérrimo perfeguidor de feus ini-
migos o bom Rey Dom Affonfo Henriques , que com fua efpada lançou fóra
do feu Reyno a tanta multidão de Infiéis, que oeftavaõ povoando, deixandoo
livre daquella Mauritana gente, nam os conquiftando, & perfe guindo fó nelle,
fenaõ
94 TOMO PRIMEIRO) r> '
feuaõ ainda fóra dos feus limites ? & cemo a cabeça do Rtyno naquelle tempo
era a Villa de Guimaraens, pois nella tinha affentado íua Corte o Conde Dom
Henrique feu pay,que na mefmaoccupação íc exercitou mui tos annos na guer-
ra dos Mouros, em que era força que da mefma Villa os acompanhaffem vale-
rofos Capitaens, que de fuas noticias nam ficou memoria •, porque traziaõ a
maõ occupada com a efpada,& lança, & nam com a penna , fazendo mais edi-
maçaõ dc luas façanhas para o íerviço de Deos, a quem defendiao, & a leu Key,
do que do nome, & fama, que podiaõ adquirir.
Em tempo delRey Dom Sancho o Primeiro fahio de Guimaraens aquclle
militante Santo,& fabio Cardeal Dom Payo GalvaÕ,quc tanto com í uas letras,
como com a efpada foy continuo perfeguidor dos inimigos cia Fè de Cnrif-
to: com as letras exortando aos Summos Pontífices , & Príncipes Chnitaos
para ver livre do poder de infiéis a Santa Cidade de Jerufalerh; & com a ei pa-
da na Campanha fazendo officio de General na facra guerra pelo Papa Hono-
rio T erceiro: trocando q defeanço da Curia Romana, aonde a ilidia , pel o t ra-
balho das armas, com que lhe parecia fazia melhor ferviço a Deos.
Aquelle famofo guerreiro Martim Ferreira, que acompanhado dos ieus ,
íáhindo da illuftrc Caía dos Cavallciros, invedio o exercito Caítelhano, que
edava alojado na Veiga das Favas junto a Guimaraens , para per íitio a cila
Villa: mas antes que puzeffe em execução íeu intento , fobreelle cahio aquclle
ravo de Marte, que iazendolhe virar cara, & fugir com toda a preífa por terra
de Chaves, fe recolheo nas fuas de Cadella (aonde chegou muito desbaratado)
deixando as edradas de Portugal bem povoadas de mortos, & feridos. Honra-
do tedemunho deda vitoria foy huma cutilada , que trouxe no rodo oiioífo
Adiantado Capitão Martim Ferreira, que lhe fervio de tanto nome , que daili
por diante fempre foy appellida do por Martim Narizes,por lhe ficar nelles o fi-
nal da ferida. ■
Fm todos osfeculos ede illudre Cafal dos Cavallciros os produzio em
armas muy exercitados, que ray os forão, que contra infiéis, & inimigos de ícus
Reys, tanto no Reyno, como fóra delle, fempre forão os primeiros nas ínvelh-
das. Sendo fenhor deda antiga Cafa Manoel Machadode Miranda, fidalgo ta-
to conhecido, como poderofo no feu Palacio do arco na rua de Santa Maria,por
não faltar à regalia de feus paífados, que tinháo como por tributo de trazerem
no ferviço de feus Reys, & em fuás conqitidas, quem roííe nomeado filho dtllc:
não fó deu hum, mas muitos a ede exercício por fuas varias conquidàs-
Mandou para a índia feus filhos Manoel Machado, & Francifco Machado;
o primeiro morreo em huma batalha naval peleijando com os Turcos tam va-
lerofamente,queprefumindoeclipfarfuas Luas comos rayosdc.íua efpada >
padeceo mortal ccliplc lua vida. O fegundo livrou na íua fuda para chorar
1'audades do irmão defunto, & vindo ao Reyno a negocios daquelle Ldado,pa-
ra elle fe tornou, aonde Deos lhe tinha decretado a morte fendo Capi tão de In-
fantaria, & hum dos que lhe tinhão feito muito ferviço contra feus inimigos,
&afeuRey. ** _ '
Nãofizerão menos ferviço a Deos, & ao feu Grão Medre cia Religião dc
S. joão de Rodes, em qué forão Cavalleiros profeífos, Fr. Guálter Machado,
& Fr. Martim Pereira d' Eça, ambos filhos do dito Manoel Machado de Miran-
da. Morreo o primeiro peleijando com os Turcos com tanto valor ^ , que
ferrío de exemplo para que muitos de feus companheiros à lua imitação per-
^deífem as vidas cm hum aífalto. O fegundo fe embarcou para o Reyno , que
achou
DA COREOGRAFIA PORTUCUEZÀ $>j
achou em guerras contraCafteHa , & não lhe permit ilido feu animo que def-
cançaffe do trabalho, dc que vinha,hufeou logo o exercido m ili tar na Provín-
cia do Minho, occupando o poílo de Meílre de Campo de hum Terço de V o*
lantes, cm tempo que aquella Próvincia eítava tam defmantclada, que não tinha
mais quehum de lnfanteria,& por lhe parecer fazia melhor ferviço a feu Rey,
fendo Capitão de huma Companhia de Cavallos , a ella paffóu com o titulo de
Couraças. Celebradas aspazes entre eiles do us Reynos para defcãço de fuas
milícias,entrou Fr.Martim Pereira em novas fadigas esom osnegocios da fua
Religião, que fuppofto de muito credito, erão de grande trabalho, & de muita
inquietação para os achaques, com que tinha fahido do ferviço delRey. i
Foy primeiramenteoccupado em Viíitador dasCommendas da fua Reli»
giãoj donde paffou a Recebedor delias, & eftando nefta occupação foy por al-
guns tempos Governador do Priorado do Crato por morte do Prior Dom João
de Souíã: faleceo ha Cidade de Lisboa fendo Commendador da Commenda de
S. João da Carvoeira em Tras os Montes,hua das de bom lote da fua Religiam,
em que foy melhorado da Commenda de Torres Vedras.
Teve mais o dito Manoel Machado de Miranda outros dous filhos , João
Machado d'"Eça, que fervio rio Alentejo combo a facisfaçio, & Gregorio Fer-
reira d' Eça, que foV Capitão morda Villa de Guimaraens , & Governador dc
fua Comarca , em que lhe fez tantos ferviços, como feandàra com as armas na
mão nas campanhas, aonde também fe achava , quando não era impedido com
as ordens de feu Rey, ou Generaes. Foy fidalgo da Cafa delRey, & Cavalleiro
profeffo do Habito de Chriílo.
Pedro Alvarez de Almada foy hum Cavalleiro valerofo natural deíla ViL-
la, que tinha as cafasdoíeu Morgado no Rocio da Tulha,o qual defejando que
as noticias de feu nome, & valor não foífem fómtte fabidas nos Reynos de Por-
tugal , .& Caftella , em que fervia a feus Reys , fe paffou a fervirâElRey
Henrique de Inglaterra nas guerras , que trazia com os Mouros pelos mur-
ros, & grandes ferviços, quenellaslhe fez, & para honrar feu muito valor, lhe
paffou o prefente Alvará , que diz : Henrique por graça de'Deos Rey de In-
glaterra de França,&ftnhor de Hybernia, a todos, & a cada hum dos fieis Chrifi-
tais, a que efias no fias prefentes publicas letras forem prefentadas,fiaude, & profpe-
ridade> Foy fempre ufonofo, que os que vemos mais aventajados em alguma virtu-
de, ou fejao no fios not urdes, oueftrangeiros,de muito boa vontade cem-nófjot favo-
res, &graças os honramos, & os havemos por merecedores de nojja liberalidade , &
Real franqueza. Feia qualcoufa como o nobre Faraó 'Pedro Alvarez de /ilmada,
fidalgo da Cfia do llluftriJfimo,& potitiffimo Principe *D ■ Manoel Rey de Portugal,
& dos Algarves, & fenbor de Guine,no fio Parété, & chariJJimo amigo, feja de Nós
a [Sa zbe conhecido por Faraó na verdade prudente, & grave. & principalmente comd
fomos certificados [érmuy valerofo nas armas, & exercido militar , tem propofito>
& por empreza fazerguerra aos Mouros-, defejando Nós muito honraln com tnerce
no fia, afim particular, para q fua virtude, & grddeza de animo fique mais clara,
lhe entregamos, &■ livremente doamos parte determinada de nofias Armas Reaes; a
faber, ametade de huma fiar delírio de ouro, & ametadede huma rofa vermelha em
campo dividido em duas partes, & em duas cores, corno he de huma parte de ver de,&
da outra de prata]para que elle,& todos feus defcendtntes, & parentes , afjim con-
junclos por fangue, ou afinidade pofiax) nfar dasmejmas Armas figura , & livre-
mente, aonde cada humquizer,ajffim como [efofiem fuas próprias Armasi emfc,&
testemunho da qualnoffa entrega ,. Irure doapai mandamos fer feita eíia noffâ
•; prefenti
9<S TOMO PRIMEIRO
prefente publica carta por Nh affinada, & authorizadapornop n andado cm noj-
(o particular fello pendente , dada cm nop Corte de Ricomonieem ijeMnrjo do
dnne do Senhor de 1501. Henrique Rey. Pedro Catnehano ajtz for mandado de
Sua Alteza. Não fervio dc pouca honra, & gloria aos defcendentes de edi o
Alvarez de Almada o feu valor, & esforço, com que qrnz mamfeftarfe nam fo-
mente em Portugal, & Caftella, fenão ainda no Reyno de Inglaterra, aonde lhe
ganhou com fua aifpofiçaõ militar muitas vitorias , que foy de muito credito

^3ra Fcr|^ade Mcfq^taíhamado o Velho^ que morou nas fuas cafas da rua da
Infcfta, com fua Capella de NoíTa Senhora da Graça , acompanhou com grande
difpendio de fua fazenda ao Duque de Bragança Dom Jaimes 11a tomada de Aza-
mor, em que moílrou no valor com que fe portou naquella empreza , no anno
de xç 11a illuflre nobreza de feu langue ; & como bom detenfordaFe de
Chrifto, tanto que chegou de Azamor, fe partio para a índia, aonde procedeo
com tanta valentia noexerciciodas armas;como omanifeftaa Chronica delRey
Don^Manodnocjitulo4^ ^filhodofobredltoFernaõ de Mefquita, acom-

panhou ao Infante Dom Luis, filhodelRey Dom Manoel, a tomadade Tunes,


aonde com as ihoftras de feu muito esforço fez o feu nome immortal, & Jo-
riofa a fua patria 5 & depois de ganliada T unes, paífou a índia, aonde fez obi as
d t rnâ
e
" Ddfe fòy filho Fernão de Mefquita & Li ma o Novo, que nam fo herdou
de feu pay os Morgados, & cafa, mas também o valor, & esforço, de que toy do-
tado, porque nam tendo roais que dezoito annos de idade , tinha vencido na
oUerra de Tangere huma Commendada Ordem de Chrifto, & dahi a dous an-
nos foy Capitaõ mór da Coifa, aonde fez grandes ferviços ao leu Rey. .
Foy também filho de Ruy Mendes de Mefquita, Diogo Lopes de Mefqui-
ta, que fe embarcou para a índia, para naquelle Eftado aliviar as faudadcj, que
nelle ficàraõ de feu irmão Fernaõ de Mefquita & Lima, & do quenelle obrou,
feachàrao por bem pagos da fua chegada, &fatisfeitos de feu valor , que mof-
trou na for t aleza de Maluco, de que foy Capitaõ ; & cafando nella teve hum
filho chamado Miguel Lopes de Mefquita, queveyo para o Reyno a herdar os
Morgados de feus avôs, & fuas cafásna rua da Infcfta ? aoj^e ^°>' h^P^de
o Infante Dom Luis,filho delRey Dom Manoel,em Agofto do anno do Senhor

dC 1
Nãoparàrão aquieftes Mefquitas deGuimaraens em publicarem feu no-
me nas acçoens referidas, porque ainda temos a Diogo de Mefquita , filno de
Fernaõ de Mefquita o Velho, que melhor que todos realçou, & eternizou leu
nome: efte paífou à índia, fendo Vifo-Rey Nuno da Cunha,, que o mandou por
Embaixador a hum Rey Mouro; & fendo cativo delRey de Cambava , por
não querer arrenegar, foy pofto na boca de huma peça de artilharia,para verem
fe com o medo da morte o fazia: mas elle conftante fempre na Fè de Jefu Chrif-
to,não fe lhe dava de perder por die a vida ; mas como foy fo para apurarem
fua conftancia, o puzerão a preço para o refgate , em que fe fez muito di pen-
dio: mas fahindo delle matou aElRey de Cãbaya, q era fervor de tres Reynos,
& por efte feito fe acrefcentàraõ às fuas Armas tres coroas, & hum altange,co
diz Diogo do Couto na Década 4. liv-^- cap-p.
Com igual valor continuou o ferviço delRey no mefmo Eftado da índia
feu filho Manoel de Mefquita, que pelo muito quenelle obrou, foy húmidos
DA COROGRAFIA PORTUGUESA. 97
Capitaens de fama, que no feu tempo militavão; com que por feus grandes fer-
viços foy dei pachado com a fortaleza de Chaul; & não tinha menos opinião de
valor feu irmão Fernão de Mefquita no ferviço delRey Dom Sebaíhão , que o
occ upou muitas vezes em Armadas, & galês ; com que fó deita família dos
Mefquitas deu a Villa de cuimaraens muitos Varoens ílluítresnas armas.
Antonio Pereira da Sylva, fidalgo daCafadelRey , & Morgado rico com
cafas nobres na rua de Santa Maria , acompanhou a EIRey Bom Sebaíhão na
batalha de Alcacere, aonde foy cativo 5 & fendo refgatado, com o zelo de perfe-
guir aos inimigos da Fé de Chriíto, fe embarcou para a Índia , para fervir na-
quella guerra, que os Portuguezes fazião aos Turcos, aonde procedeo como
bom Cavalleiro. , . , r - s ~
No mefmo Eítado da índia íervio muitos annos com grande fatisfaçao
feu filho natural, Salvador Pereira da Sylva, que foy Meítre de Campo em Cei-
lão fendo General Dom jeronymo de Azevedo, & depois foy Capitão mor da
Armada, que foy ao cerco de Malaca, fendo Governador dã índia o Arcebifpo
de Goa Dom Aleixo de Menezes; & neítas occupaçoens fez tantos ferviços a
Deos, como quem no zelo de aumentar fua fanta F e trazia todo o feu cuidado.
Antonio Peixoto de Carvalho fendo moço fidalgo da Cafa delRey, & dei-
xando o feu Morgado da Poufadacom cafas na rua de Val de Donas, com zelo
daFè fe embarcou para a Índia, aonde fervio com tanta fatisfacão como a von-
tade, com que foy movido de fervir a Deos na guerra contra os infiéis , em que
acabou Vy^u^ qU€iargancJ0acafa, & Morgado da Poufada , de

que fez doação a feu irmão para fervir a Deos na guerra contra os Turcos, to.
mou o habito de S.João de Rodes, & nas guerras de Malta exercitou muy bem
o feu valor, para que fua fama ficaífe eternizada entre os Cavalleiros daquella
Ordem, de que foy Commendador.
João de Soufa Alcaforado moço fidalgo da Cafa delRey, deixando fua mu-
lher, & filhos, & o Morgado, & cafa de Villa Pouca, obrigado mais do amor de
Deos, que do da mulher, filhos, & fazenda, fe embarcou para a índia , levando
em fua companhia a feus filhos Manoel de Soufa da Sylva, &Francifco de Soufa
Alcaforado, que fervindolhe de exemplo o valor do pay, o tiveífepara perder a
vida na defenfa da honra de Deos, & na exaltação de feu nome, em que pay , &
filho tanto trabalhàrão,atè por elle entregarem a vida a feus inimigos, & as al-
mas à fua piedade, para que lhe déífe o premio da Gloria, acrefcentando com a
valentia ae fuas façanhas excellencias nas nobrezas de feus defcendentes.
Simão Rabelo de Valadares, que movido do proprio amor de fervir a Deos
nas guerras, que os Portuguezes faziaõ na India a feus inimigos, fe embarcou
para aquellas partes fem licença de feu pay João de Valadares, que vivia na rua
de Santa Maria; & fendo hum dos mais valentes foldados do feu tempo,como o
manifeflou ha efcala de Ceilão, aonde deixando os braços de dentro da mura-
lha, tornou a defcer o corpo morto ao peda efcada , por onde tinha lubido,
entregando a alma a feu Creador.
João Martins, Annadel mor dos Efpingardeiros na Villa de Guimaraens,
fendo fenhor do Morgado do Pinheiro, deixãdo mulher, & filhos, fretou húã
Naoàfua cuíla cõ gente,& armas, & metendofe nella cõfeu irmão Fernão Mar-
tins, feforãp oíferecer a ElRey Dom Affonfo o Quinto, para o acompanharem
na jornada, que fazia a Azamor,& chegando àquella praça obrarão com tanto
valor, & esforço no ferviço de Deos, & de feu Rey',contra os Mouros, que me-
I recerão
98 TOMO PRIMEIRO
recèrão lhes fizéíTem muito grandes merces, & honras, que fervirão de grande
luftre à fua nobreza, & credito a feus aefcendentes.
Sahio de fua cafa da rua de Santa Maria Pedro Coelho com armas, & cavai-
los para acompanhar feu Rey Dom Sebaftião na jornada de Africa S & ficando
cativo naquella batalha, fogeitou a fua paciência à efcravidão dc dous fenhores,
a que fov vendido 5 & experimentando os rigores daquelles infiéis Mauritanos,
a quem íervio com tantos exceífos de caftigos, que a não eft ar muito amparado
do amor dí Deos, & confiante na fua Fè, o podiao obrigar os tormentos, que
padeceo, a negala: mas elle, que antes queria morrer pelo feu amor em todo o
martyrio,quelhedeíTem, fofreo todo o caftigo, que de inflame a inftante lhe
faziãoj& como elle não pode disfarçar fua nobreza pelo modo, que intentou,
com muito trabalho, & difpendio de fua fazenda foy refgatado, para tomar o
Habito de Chrifto, em que foy profeífo , & conhecido por hum dos bons Sol-
dados, que daquellajnfeliz, & fempre chorada batalha efcapàrãocom vida.
Salvador da Cofta & Almada, hum dos authorizados Cavalleiros deGui-
maraens, St morador nã rua nova do Muro, para melhor illuftrar fua nobreza,
nome, & fama, fe embarcou para a índia, aonde fendo Cabo de tres fuftas , que
o Governador Máthias de Albuquerque mandou à Cofta de Ceilão, depois de
peleijarem muitas horas com os Turcos,forão de todo deftroçados,& mortos,
dando primeiro muita perda àquelles Barbaros.
Gregorio da Cofta do Valie, que tinha fua cafa na mefma rua nova do Mu-
ro, tio do referido Salvador da Cofta & Almada, foy Capitão da Cofta por El-
Rey Dom Manoel, & morreo na Indiá cóm grande valor , peleijando com Tur-
cos.
Gafpar Leite Pereira, que teve fua cafa na rua do Cano das gafas, defejan-
do ajudar feus naturaes nas guerras, que na índia fazião áos inimigos da Fe de
Chrifto, fe embarcou no anno de 1 559- &por feu valor foy provido no cargo
de Tanaydar, & Manorá nas terras de Baçaim 5 & depois por mandado delRey
Dom Sebaftião foy à Cofta de Guínè por Capitão do Navio S- Nicolao , em cu-
ja jornada faleceo com grande nome, & fama de bom Capitão.
Antonio Leite de Azevedo, fobfinho de Gafpar Leite Pereira, paífou à ín-
dia , aonde achando a grande fama de feu tio, o quiz imitar 5, procurando as oc-
cafioens de mayor rifeo, em que moftraíTe o amor, & zelo, cõ que fervia a Deos,
& a feu Rey naquella guerra de feus inimigosj & o bem, que nella obrou, o ma-
nifeftaavidado lrmaõ Pedro de Bafto liv-2.cap.T3. fol.i 79.
Nos tempos mais antigos vindo ElRey Dom Henrique II. de Caftella a
pôr cerco à Villa de Guimaraens,&afsentando feu exercito na Veiga das Fa-
vas *, foy Gonçalo Paes de Meira, que vivia na rua de Santa Barbara, cóm Mar-
tim Ferreira, & o fizeraõ fugir outra vez para Caftella com muito menos gente,
da que trouxe. Foy efte Gonçalo Paes de Meira filho de Payode Meira, Meiri-
nho mor de Entre Douro, & Minho no tempo delRey Dom Ajjfonfo :o Quarto
de Portugal, & foy fidalgo muito valerofo , como o moftfóuoefta oecaíiaõ da
Veiga das Favas-
Efte mefmoíGonçalo Paes de Meira,quando o dito Rey Dom Henrique II.
de Caftella tinha ido a cercar Guimaraens no anno do Senhor de n ? i. fe lan-
çou dentro com feus filhos,Eftevaõ Gonçalves de Meira , St Fernaõ Gonçalves
de Meira, com quarenta de cavallo, & fahindo a efearamuçár com o exercito
de Caftella, lhe matàraõ muita gente, & ElRey levantou o cerco , pelà nam po-
der tomar. •
Affonfo
DA COROGRAFIA PORTUGUESA.
Affonfo Lourenço de Carvalho, hum dos mais honrados Cavalleiros de
Guimaraens (eftandoefta Villa pela voz delReyDomJoaõ o Primeiro de Caf-
tella, & fendo feu Alcayde mór Ayres Gomez da Sylva, que tinha feito pleito >
& omenagemdelia ao mefmo Rey )huma madrugada a tomou por aííalto ElRey
Dom Joaõ o Primeiro de Portugal por traçado dito Affonfo Lourcço de Car-
valho, que fez abrir a porta do poftigo, dizendo ao porteiro, & guarda delia,
que queria meter por cila huma cuba em hum carro parafua cafa. Concedeolhe
o porteiro o que lhe pedio, & tanto que teve a licença , & confeguido a mayor
difíiculdade para o feu intento, deu parte a ElRey Dom Joaõ o Primeiro dePor-
tugal, que eftavacom o feu exercito na ponte, que hoje chamaõ do Sueiro, húa
legoa de Guimaraens junto à ponte de Servas , o qual com toda a preífa mar-
chou^ cõ trezentos de cavallo entrou pela dita porta, & recolhendofe os de
dentro da Villa ao Caftello, ElRey com os feus o começou de combater , & fi-
cou fenhor da Villa. . .
Manoel de Valadares Vieira foy dos primeiros Soldados filhos de G uima-
raens, que na Província de Entre Douro ôc Minho affentou praça , deixando o
intereífe de feu Morgado, de que era único herdeiro,*por naõ faltar ao ferviço
de feu Rey Dom Joaõ o Quarto na fua feliz Acclamaçaõ, & naquella Província
teve o primeiro pofto de Alferes de Infantaria, donde pafibu ao deCapitaõ,
&defte ao de Sargento mór de Infantaria, que largou por humTerçO de Vo-
lantes, donde foy a governar a praça de Montalegre na Provinda de Trás os
Montes , logrando fempre com grandes ferviços os créditos de bom Solda-
do.
Nam fofrendo obellicofoanlmo de André Pinto Barbofa lograr ociofoas
delicias de fua patria Guimaraens, bufeou as conquiftas do Reyno Ultramar, &
fe embarcou para o Brafil , aonde o Olandez empregava os tiros de fua ambi-
ção, & naquellas guerras íervio no pofto de Alferes de Infantaria com honrada
fatisfaçaõ ; & vindo para as guerras do Reyno fervio no pofto deCapitaõ de
Infantaria em Trás os Montes, de que paífou ao de Sargento mór pago, & defte
a Meftre de Campo com a occupaçaõ de Governador da praça de Miranda , &
ultimamente morreo em Lisboa, vindo de Provedor mór de Pernambuco.
Francifco de Meira Peixoto fervindoemduas Armadas,fe pozem terras
do Alentejo, aonde fervio com fatisfaçaõ 5 & avifinhandofe à fua patria , fervio
na Província de Trás os Montes , donde paífouà do Minho, occupando o po-
fto de Capitaõ de Infantaria.
Joaõ Leitede Oliveira deixando o exercício da Agricultura, a que ò con-
vidava o retiro da fua quintadePombeiro,fe foy adeftrar na milícia de Flan-
des, aonde pelo feu valor em breve tempo mereceo o pofto de Capitaõ de In-
fantaria, & pelo achar mal empregado em Reyno eftranho na Acclamaçam de
Portugal, fe paiTou a efte, aonde fervindo na Província do Alentejo de Sargen-
to mór de Infantaria , morreo no pofto de General da artilharia com grande
nome, & fama.
Sebaftiaõ Salgado de Faria goftando mais do paõde muniçaõ da frontei-
ra do Minho, que dos regalos da mefa de feu pay Jeronymo Salgado de Faria ,
fe foy de pouca idade oftcrecer àquelle exercício militar , aonde os tiros da s.
balas devendo diffuadillo de feu intento, o incitàraõ a mais valòr, qUe naõ pode
executar em Portugal pela terrível inquietação de feu animo 5 porque fazendo
hGa morte;em q a fua vida nam ficou fegura cõ a prefença das par tes,fe paífou a
Flandes, aonde militou com tam grande opinxaõ , quefoyhum dosCapitaens
X íí dc
IOO TOMO PRIMEIRO
de cavallo de couraças daquelle exercito do melhor nome.
Jeronymo de Figueiredo, que foy hum dos valerofos foldados, que no ex-
ercício militar luftràraõ nos exércitos da Província do Alentejo: morreo no
poíio de Tenente de Mefíre de Campo General, peleijando valerofamente cõ
os Caftelhanos.
Dionyíio da Ctmha fervindona Província do Aletejo no pofío de Alferes
de Infantaria, paliou à de Trás os Montes, aonde ocCupou o de Capitão , dc
que paffou ao de S argento mór de Vdantes, de que fe retirou a fua cala , tro-
cando o exercício militar pelo de Ecclefiaftico, em que vive em fua cafa na Víl-
ia de Guimaraen\ fua patria.
Pedro Coelho de Miranda, fendo herdeiro da cafa de feus pays, quiz her-
dar de feusavòs o exercício das armas, lendo Capitaõdos Privilegiados de
Ncíía Senhora da Oliveira da Villa de Guimaraens, como a elleslhcs faltava a
doutrina de Soldados para ^campanha, & o valor de feu Capitaõ era merece-
dor de pofíos, em quenellesíemanifefíafíe , foy provido pelos Generaes em
huma Companhia de Infantaria, quê eftava vaga no Terço do Mefíre de Cam-
po Manoel Nunes Leitaõ,tiovernador do forte de SaõFrancifco da Portela de
V éz, procedendo em huma, & outra occupaçaõ com grande valor.
Joaõ Rebello Leite,que no primeiro rebate,que os Gallegos deraÕ na fron-
teira do Minho, indo aelle na Companhia da Ordenança, de que feu pay joaõ
Rebello Leite era Capitaõ na feliz Acclamaçaõ , foy levado priíicneiro pelos
Gallegos com oito feridas ao Cafíello de Compofíella , donde fazendo numa
fugida valerofa depois dedezoitomezesde Orizaõ , foy aífentar praça à Pro-
víncia do Alentejo no feu exercito, cm que íervio com grande reputaçaõ , &
depois na Província do Minho, onde occupou vários pofíos até odtMefíre de
Campo,& com laftimofa defgraça morreo de veneno.
O mefmo fuccedeo a Joaõ Machado de Miranda, que largando os bens,em
que fuccedia, (que eraõ muitos ) fe foy exercitar na Província do Alentejo na
difciplina militar, & nclla manifefíou taõbemofeu valor,que em breves tem-
pos paífando pelos pofíos de Alferes de Infantaria , & Capitam, entrou no
de Capitaõ de cavallos dos de melhor opinião da quelle exercito , que
exercitou por tempo de anno &meyo, no fim do qual foy provido no pofío de
Medre de Campo de Infantaria, & indo a Santarém reformar o feu Terço,huma
mulata, de que le fervia, tendo certa defeonfiançâ delle,lhc preparou hum man-
jar, com que feu fenhor ficou cativo da morte, & ella na liberdade da vida.
Foy bem fentido joaõ Machado de Miranda naquelle exercito, porque as
fuas prendas, esforço, & fciencia militar era motivo, para que todos fentiílem
fua falta, & ainda o mefmo Reyno ,* porque prometia naquelles annosde mili-
tante grandes efperanças de hum grande Cabo da Milícia, porque fó efles daõ
nome ao Reyno, em que fervem, & o fazem temido de feus inimigos, & com el-
les pode mais para os render , & poftrar hum coraçaÕ traidor , & aleivofo,
do que lanças , & bailas contrarias ; & por eíte modo entregou a alma
a feu Creador o valerofo joaõ Machado de Miranda, deixando feu pay , & ir-
mans em continuas faudades , & a fua patria com o pezar de tam bom defen-
for.
Efíes faõ os fugeitos naturaes de Guimaraens, que em polios mayores nam
fómente ferviraõ a feus Reys, & Reyno, fenaõ ainda nos efíranhos , bufeando
conquifías, cm que íllufíraífem com o nome de'filhos de tal may , & como tem
aprerogativade conquifíadorss,nam houveCavalleiro naquella Villa (ainda
aquelles
DA COROGRAFIA PORTUGUEZÀ. *01
aquelles dc que mais neceílitava fua cafa de lhe aílíftir) que nam foíTc militar na
defenfa de feu Rey ; & fem fallar no plebeo, me dè licença o Ley tor para nomear
aqui osqoccupàraõ poífosde Capitacs de Volantes no exercito da Provinda
do Minho, fendo todos das principaespeíToasdaquella Villa, a faber, Fernão
Ferreira da Maya, Jofeph Peixoto de Soufa, Francifco de Macedo, Joaõ Barro-
fo de Azevedo, Jacinto Leite Pereira, André de Soula Homem, Jofeph Macha-
do Pinto, Manoel Velho do Couto , Diogo de Freitas Capitaõ de Infantaria,
Antonio Paes do Amaral, Cavalleiro do Habito de Chriífo , Ajudante da ca-
vallaria, Antonio de Andrade & Valle Ajudante de Infantaria, loaõ de Soufa Sc
Lima Alferes do Meftre de Campo de Infantaria, Pafcoal da Cofta Capitaõ de
Infantaria, Francifco Machado de Miranda Capitaõ de Infantaria, & Antonio
de Barros Capitaõ de Volantes.
Nam foraõ poucos os Fidalgos, Sc Cavalleiros de Çuimaraens , que fem
fogeitarem a fua liberdade aos aífentos de Soldados, obrigàraõ fuas vidas , Sc
difpendios de fuas fazendas ao ferviço de feu Reyno voluntariamente, & a obe-
diência à ordem dos Cabos, em cujos Terços com piques ferviaõ, St na cavál-
laria com a efpada na maõ; Sc pela fidelidade , amor, zelo, com que em todos os
fectilos os filhos, St naturaes deíla Villa fervíraõ a feus Reys,elles lho agradecè-
raô, St gratificàraõ com os privilégios, honras, liberdades, St ifençoens , que
pelos Reys paífados lhes foraõ concedidos,& pelos prefentes confirmados, co-
mo fe vé no feguinte Capitulo- n

CAP* XIX.

Privilégios, Honras, Qf Ifençoens^ que os Reys de Portugal con-


cederão aos moradores da Hilla de Guimaraens.

PRivilegio do Conde Dom Henrique, & de fua mulher Dona Therefa, Sc de


feu filha Dom Affonfo Henriques no anno de 1166. porque faz mercê aos
moradores de Guimaraens, que por todo o feu Reyno nam paguem paíTagem, nê
coílumagem-
Confirmação delRey Dom Diniz, pqrque manda fe guarde o Privilegio
da portagem aos moradores de Guimaraens por grande façanha, q ue por elle ã-
zeraõ, tendo eífa Vília de íitio feu filho o Infante Dom Affonfo , dada no anno
de 13 60.
Privilegio, q omefmo Rey Dõ Diniz deu aos moradores de Guimaraens, q
todo o homem, & peíToas, que por todos fetis Reynos differ mal, onde eftar ho-
mem de Guimaraens, morra por ello morte de traidor. O privilegio da porta-
gem eífà confirmado por todos os Reys, & o tem por foral, Sc mercê feita por
ElRey Dom Manoel no anno de 1 c 17.
Privilegio do Conde Dom Henrique,& de fua mulher Dona Therefa, por-
que manda que nenhum fidalgo edifique cafa, nem more neífa Villa contra võ-
tade dos moradores no anno de 1168-ElRey Dom Joaõ o Terceiro o confir-
mou no anno de 15:29-
Privilegio delRey Dom Affonfo o Quarto , & de feu filho ElRey Dom Pe-
dto, para que eífa Villa eleja Juiz dos Reguengos,no anno de 13 8 3 - eftá eonfir-
I iij inado
,0i TOMO PRIMEIRO
mado no annodc 1419. por ElRey Dom Fernando.
PrivilegiodelRey Dom Affonfo o Quarto,em que manda, que os mora-
dores de Guimaraens, nem feu termo vaõ com prezos, nem os levem, no anno

C 1
Prfvilegio da Rainha Dona Leonor, governando Dor morte delRey Dom
Fernando feu marido, em que manda que os Corregedores nam confintam ef-
tar nenhum fidalgo, nem poderofo em Camara, quando fe fizerem as eleiçoens,
nemjriõfintaõ haver fobornonellas, & condenem aos culpados, como lhes pare-
cer,anno 1411- ' ,
Privilegio dos Infançoens defta Villa confirmado por leatença da mayor
alçada, anno 1618-
Privilegio delRey Dom ]oaõ o Primeiro, em que manda que os moradores
da V illa de Cerolico de Bailo, & Monte Longo venhaõ velar, & guardar a efla
Villa,quando for tempo,&neceífario, 110 annode 1422. eftá confirmado por
ElRey Dom Joaõ o Terceiro anno de 1529- & ja dates defies Rey s o tinha co-
cedido ElRey Dom Diniz,& diífo ha fenrenças no cartorio, & aílim as juiticas
de Guimaraens os compelliraõ a iífo. *
Privilegio delRey Dom joaõ o Primeiro para que os moradores de Gui-
maraens poífaõ tirar todos os mantimentos da Cidade dol oito fcm levaram
carga, & aílim os poífaõ tirar por todo o feu Reyno, anno de 14 29.
Privilegio delRey Dom Joaõ o Primeiro paranefta Villa haver portagem,
como fempre houve, anno de 1438- eílá cõfirmado por ElRey Dom Joaõo III-
. annode 1520. .
Privilegio delRey Dom Joaõ o Primeiro para que os moradores de Gui-
maraens poífaõ mandar penhorar fe..s caiemos pelas rendas que lhes deverem,
fem mandado de Jufiiçâ,anno 1433*
Privilegio delRey Dom Fernando, em que manda, que os moradores de
Guimaraens poíTaõ trazer armas por todo o feu Reyno , todas as que quize-
rem, poífo que fejaõ defezas, & lhes naõ poffam fer tomadas, anno de 1421. _
Privilegio delRey Dom Joaõ o Primeiro, porque manda à Villa eleja Juiz
das Sizas, & aílim q fe naõ pague fiza entre os irmaõs herdeiros,anno de 1433.
Privilegio domefmo Rey Dom Joaõ porque manda fe naõ tom# para â guer-
ra aos lavradores do termo.deGuimaraens hum filho, oao tendo, outro , anno
de 143d. . , ,
Privilegio delRey Dom Affonfo o Quinto, em que manda , que todos os
moradores de Entre Douro, & Mimho venhao a ferir feus pezos, & medidas a
eífa Villa pelos Padroens delia , como fempre foy cuftume antigo , anno de

1
* Provi faõ delRey Dom Joaõ o Primeiro,em que manda que nenhum mora-
dor deíia Villa, nem feu termo feja Tutor fora delia, anno de 143 8-
Privilegio delRey Dom Affonfo Quinto,em que faz merce aos moradores
de Guimaraens, que jamais em tempo algum fe ja a dita Villa defannexada da
Coroa Real de feus Reynos, falvopara o feu filho Principe primogénito, & ou-
tra peffoa alguma naõ, por de grande exceliencia que íeja; & manda aos Reys
léus fucceífores, que fob pena de fuabençaõ o cumpraõ aílim , anno de 1462'
Eôá confirmado por ElRey Dom Filippe no annode iy8i.&já o eílava pelos
Reys feus anteçeífores- .
ConfirmaçaõdelRey Dom Joaõ o Terceiro, em que confirma o Privilegio
delRey Dom Fernando, porque monda que os moradores de Cerolico , & do
Con.
DA COROGRAFIA PORTUGUESA. ro$
Concelho de Rocas, Vieira , Villaboa,&Guilhofrey> venhaõ velar, rondar, &
guardar efia Villa, quando forneceffario j&aífimfejaõ obrigados a pagar para
os concertos, & refazimentos dos muros, torres , & fortalezas delia , anno
de i 30.
Confirmação delRey Dom joaõ o Terceiro,em que confirma o Privilegio,
que a efta Villa concedeo EiRev Dom Pedro, porque manda que os cafeiros da
Ordem do Hofpital paguem as talhas, & mais coufas, que pagaõ os moradores
do termo da Villa, í em embargo de feu Privilegio, que tem, anno 1 f 30.
Confirmação delRey Dõ Joaõ o Terceiro,em que manda confirmar o Pri-
vilegio, que ElRey Dom Joaõ o Primeiro concedeo a efta Villa, de nam fer obri-
gada a dar ao Alcay dedo Caftello gente, nem ordenado para o guardar, fenam
que elle feja obrigado à fua cufta a guardar os prefos delle , como fempre foy
cuíiume,annode 1529.
Confirmação delRey Dom Joaõ o Terceiro, em que confirma o Privilegio,
que a eíla Villa concedeo ElRey Dom Diniz, que nam houveffe nella , nem em
feu termo relego, como de antes havia ,& ha por bem que nunca mais o haja,
anno de 1529-
Confirmação delRey Dom Joaõ o Terceiro, em que confirma o Privilegio,
que ElRey Dom Manoel concedeo a efta Villa, que haja no mez de Agofto nel-
la huma feira forra, & franca, que dure oito dias, começando aos onze do mef-
mo mez, como fempre foy, anno de 1 f 16.
Provifaõ delRey Dom Joaõ o Segundo,em que manda que os Mifteres nám
tenhaõ voto na Camara; fomente podem requerer pelo povo, por fer eíleoTeu
officio, anno de 1 491-
Tem efta Villa tres Provifoens delRey Dom Joaõ o Terceiro para os Al-
motaceis fervirem tres mezes, Sc levarem as almotaçarias cuftumadas, fem em-
bargo da Ordenaçaõ, concedidas nos annos de 15-22. ifz ;• ifd?»
Tem efta Camara Provifaõ delRey para eleger juizes efpadanos nas fre-
gueíías do termo delia paffandodelegoa , quando lhe parecer fer neeeífario>
fem embargo da Ordçnaçaõ, anno de 1563-
Provifaõ delRey Dom Joaõ o Primeiro,em que manda, que os Vereadores
da Villa de Barceliosvaõ varrer a praça, & açougues de Guimarâens todas as
vefperas das feftas da Camara daquella Villa, q vem a fer nas vefperas das fef-
tas da Natividade de N-Senhor, da fua gloriofa Reíurreiçaõ, do Efpirito Santo,
de Corpus Chrifti, de Saõ Joaõ Bautifta, da Vifitaçaõ de S. Ifabel, de S. Guál-
ter, de N- Senhora da Aífumpçaõ, Sc de S. Miguei o Anjo.
A caufa porque clRey Dom Joaõ o Primeiro deu à Villa de Barceiíos tam
aniquilado tributo, foy, que indo efte Rey a tomar a Cidade de Ceuta aos Mou^
ros , como tomou no anno do Senhor de 1414,# aos 21. dias do mez de
Agofto do dito anno, repirtioas eftancias da muralha da Cidade pelos mora-
dores das Cidades, & Víllas, que com elle foraõ, & o ajudarão nefta cmpreza,
para que cada hum defendeífe a que fe lhe entregava. OsMourosfe refizeram,
Sc tornando com grande força para recuperarem a Cidade, que tinhaõ perdida,
a inveftirãocom grande fúria, & alaridos àefcala, de que defanimados os de
Barcellos, Sc atemorizados feus ânimos, fugirão, Sc deixàrao de todo livre a ef-
tanciã, que fe lhes tinha encarregado para defenderem; vendo-a os de Guima-
raens de todo defemparada,fe dividirão em dous troços, hum com que a forão
occupar, & defender, & outro com que defenderão alua , que lhes eftava en-
tregue ; Sc com tanto valor o fizeraõ em huma, Sc outra eftancia, que fó delles,
aquelles
104 TOMO PRIMEIRO
aquelles inimigosfeforaomais'queixofcs- CaftigouElRey a fraqueza dos dc
Barcellos com lhes mandar, que fofíem varrer a praça, & açougues aos de Gui-
maraens,a quem gratificou com efla honra a valentia , comqueobràraõnade-
fenfadaquella Cidade, & em todas as mais occafioens, em que com ellefe acha-
rão.
Por efpaço de mais de fetenta annos cõtinuárão neíta fervidão os Vereado- ,
res da Villa de Barcellos nas Vefperas dasfeftas aífima dita -,da forte q lhes foy
mandado,com hum barrete vermelho na cabeça,huma banda ao hombro da mef-
má cor, a efpadaà cinta, & hum pé calçado, & outro defcalço , .& vaífoura de
°iefta,queeraõ obrigados a trazer, para fazerem efta limpeza; & acabada ella,
hiãoà Camara,&entregavão aos Vereadores o barrete, & banda, com que da-
vão fatisfação à fua fervidão; os quaes vendo fe algum faltava a ella, o conde-
navão em pena pecuniária, como lhe parecia, ou o aliviava a ca ufa de fua falta;
atè que não havendo quem quizeíTe ler Vereador naquella Villa, o Duque de
Bragança Dom Jaymes fez contrato com a Camara, & povo deGuimaraens de
lhe largar do termo da Villa de Barcellos , de que era íenhor, as freguefias de
Cunha, &Ruylhc, para continuarem naquella fervidão, & que as defannexava
daquelle feu termo, para que ellas fe uniífem, & annexaíTem ao de Guimaraens.
Foy por todos admitt ido feu requerimento por coufa jufta, &vir fazello pef-
jfoalmente, como fe vè no contrato, que de tudo fe fez, o qual fe guarda no Car-
tório da Camara de Guimaraens, pelo qual renunciàrão os Vereadores da Villa
de Barcellos efte tributo, que padecião,nos moradores das freguefias de Cu-
nha, òt Ruylhe , que ainda hoje eftão continuando nefta fervidão nomefmo
modo, que fica díto, & com as mefmas circunífancias.
Bem trabalhou o Doutor Gabriel Pereira de Caftro por aliviar defte tri-
buto as duas freguefias, Cunha, & Ruylhe, por ternellas certos cafeiros, que
confiados no feu poder, faltàrão à fervidão,a que por gyro eflavão obrigados}
forão cõdênados pelos Vereadores da Camara de Guimarães em leis mil reis ca-
da hujpuzerão a caufa em pleito,q correo atè a mayor alçada,aífiifindolhe íépre
efte Doutor, & não foy baftante o feu muito poder, para que allifenão íenten-
ciaífe, quepagaíTem os condenados a condenação, que lhes effava feita, & con-
tinuaífem a fua fervidão,com cuftas; como fe vè da mefmâ fentèça, quefe guar-
da no Cartorio da dita Camara de Guimaraens.
O primeiro padrão de medidas, que no Reyno de Portugal houve de pao,
foy na Villa de Guimaraens,o qual ainda hoje fe conferva na Igreja de S. Miguel
do Caftello; & nos foraes antigos diz, que nos paga tantas teigas anos , <5c a
noíTos herdeiros, ou mordomos pelo padrão de pedra, que eftà em S. Miguel,&
em todos os Privilégios, que depois dos deGuimaraens , que forão os pri-
meiros deíle Reyno outorgados a Lisboa, & a outras Cidades, & Villas , diz
nellesaífim,& pela maneira, que os temos concedido à noífa muy nobre , &
fempre leal Villa de Guimaraens.

• tsTu t íiCSeC/

CAP.
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA tój

CAP. XXI.
<•
Do numero das Freguejias, que tem o termo de Guimaràens,
,

T Em eíla Villa duas legoas & meya de termo para o Poente, atè o marco da
ferra de F alperra, para a parte de Barcellos duas, hua para a ponte de Ser-
vas, & duas pára a parte da Cidade do Porto, que fedividem na pote de Negrel-
los. O feu termo tem as Freguefias feguintes.
S. João da Ponte foy Moileiro duplex de Frades, & Frevras da Ordem de
Saõ Bento, deu-o EIRey Dom Ramiro o Segundo de Leão à Collegiada, quando
era Convento: he Vigairaria ,tem cento & dez viíinhos.
S. Eufemia, Abbadia da Mitrâ,tem feífenta viíinhos.
S• Eulalia de Fremontãos, Vígáiraria, que aprefentão os Priores da Colle-
giada de Guimaraens, tem noventa viíinhos. Neila Fregueíía em cafa de huma
viuva do Cafal de Valmelhorado eíliverSo efeondidos Dom Manoel, & Dom
Chriftovão, filhos do Senhor Dom Antonio, pertendente doReyno por morte
do Cardeal Rey Dom Henrique , & humConego de Guimaraens os levou a
Olanda. ,
S. Maria de Corvite, Vigairaria do Arcediagado deNeyva, tem quarenta
vifinhos.
S. João de Pencello, Abbadia do Padroado Real, que rende cento & cin-
coenta mil reis, tem quarenta & nove viíinhos ; foy do Priorado de Guima-
raens. v
S. Pero Fins de Gominhaens, Abbadia da Mitra, que rende cento & cin-
coenta mil reis • tem vinte viíinhos.
S.Torcato, Vigairaria da Collegiada de Guimaraens, que rende cento &
Vinte mil reis, tem duzentos viíinhos. Ametade deíla Fregueíia he Couto pri-
vilegiado de Noífa Senhora da Oliveira, com Juiz ordinário no Civel, aquém
vemefereverhum dosEfcrivaensdeGuimaraens,dondeheo crime.
S- Miguel de Gonce, Abbadia da Mitra, que rende cento & cincoenta mil
reis, tem cincoenta viíinhos. S- Tyrfode Prazins, Abbadia do Ordinário,que
rende duzentos mil reis, tem feten ta viíinhos.
S. Salvador de Souto Commenda de Chriílo, & Reytoria da Mitrá , que
rende duzentos mil reis, tem cento & trinta vifinhos. Foy Moileiro de Cóne-
gos Regrantes de Santo Agoílinho , que fundou Dom Payo Guterres da Cu-
nha : eílá em hum ameno valie, que fahe ao rio Ave , & he Templo magnifico
para aquelles tempos comas Armas dos Cunhas na Capella mór, & muitas fe-
pulturas nobres à porta principal da parte efquerda , huma com fuas Armas,
que dizem ferdo fundador, & outra de hum Commendador em huma Capella
do adro. Nelle eílá a Capella de Santa Margarida annexa ao Morgado deTa-
boa, que poífue Dom Pedro da Cunha.
Santa Maria do Souto, Abbadia do Padroado Real, que rende cento &
oitenta mil reis, tem feífenta vifinhos- Foy Moíleiro de Conegas de Sáto Ago-
ílinho, que fundou Dom Gomes de Maceyra pelos annos de i zoo- & tantos,
viílo acharfe feu filho Dom Lourenço Gomes Maceyra na conquiíla de Sevi-
lha no de 12 48 • SiCofme
JO6 TOMO PRIMEIRO
S. Coime, & Damião deGarfe, Commenda de Chrifto, & Reytoria do Or-
dinário, tem cento & doze vifinhos.
S-Martinho de Gondomar, Abbadia da Mitra , que rende cento & cin-
coenta mil reis, tem feíTenta viíinhos, & tres Ermidas.
Santa Marinha de Aroca , Vigairaria do Arcediagado de Fonte Arcada,,
tem vinte & cinco viíinhos, & huma Ermida de Santo Amaro , imagem miLa-
groía.
Santa Maria de Sobradello, Vigairaria do Arcediago de Sobradello , que
tem cadeira na Collegiada de Guimaraens, tem cem viíinhos.
Santa Criftina da Agrella, Vigairaria que aprefeta o Rey tor de Caftellãos,
de quem he annexa, tem quarenta viíinhos.
S.Julião de Sarafaó, Abbadia do Padroado Real, que rende trezentos &
cincoenta mil reis, & paga cincoenta de penfaõ à Capella Real, tem cento & dez
vifinhos.
S. Bartholomeu de Villa Cova, Abbadia do mefmo Padroado Real, andou
unida ao Arcediagado de Guimaraens, q inda conferva o titulo de V illa Cova,
tem quarenta viíinhos. .
S.João do de Caftellãos, Commenda de Chrifto, & Reytoria da Mitra ,
que rende cem mil reis, & para o Commendador com as annexas da Agrella, &c
Qucimadella duzentos mil reis, tem quarenta vifmhos. FovMofteiro fubdito
ao da Vacariça no tempo, quegovernavãoefteReyno por EIReyDom Aífonfo
o Sexto,o Conde Dom Ray mon de Borgonha com fua mulher Dona Urraca, fi-
lha mais velha defte Rey.
S. Pedro de Queimadella, Vigairaria,em que hoje reíide o Reytor de Caf-
tellãos, fendo annexa, &là o Vigário, tem noventá viíinhos.
S.Miguel do Monte, Vigairaria annexa à Abbadlia de S. Bartholomeu de
Villa Cova, tem oitenta viíinhos, & huma Ermida-
S. Vicente de Felguevras, vigairaria annexa à Commenda de S. Thomè
de Travaços, tem dezafeis viíinhos.
Santa Eulalia deGontim, Vigairaria annexa à Abbadia de S. Clemente de
Bafto, tem dezafeis vifinhos.
S. Vicente de Paços, Abbadiada Mitra, rende trezentos & cincoenta mil
reis, & tem cento & quinze viíinhos.
S.Pedro de Freitas, Vigairaria, que apreíentão asFreyras dosRemcdios
de Braga, tem feíTenta viíinhos. Foy Abbadia, que aprefentava a Cafade Bri
teiros. Aqui eftáo Paço de Freitas, que foy julgado folar defta tão nobre fa-
milia. 1 _
S. Thomé de Travaços, Reytoria da Mitra, & Commenda de Chrifto,tem
feíTenta viíinhos.
S. Maria de Ataes, Curado do Convcto da Cofta, que rende cem mil reis,
& para os Frades quatrocentos milreis, tem duzentos & dez vifinhos.
S. Lourenço de Gulats, Vigairaria do Mofteiro de S-Tirfo , por doação
dos Infantes Dom Martinho Sanches, & Dona Urraca fua irmã*, filhos illegi-
timos delRey Dom Sancho o Primeiro, no anno do Senhor de 1273. tem oiten-
ta & cinco viíinhos.
S. Romão de Mcijão frio, Abbadia do Padroado Real, rende duzentos mil
reis, têm fetenta&cinco viíinhos. Foy antigamente da Collegiada de Guima-
raens.
S- Cofmc de Lobeira, Curado da Collegiada de Guimaraens, tem feíTenta
viíi-
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. 107
vifinhos. Aqui, dizem, efteve efcondiao S-Torcato o Difcipulo de Santiago.
He o folar dos Lobeiras de Portugal, defcendentes de João Lobeira , fidalgo
muy authorizado, & como tal confirma com outros em muitas efcrituras, par-
ticularmete no foral daVilladeTerena dado no anno de izój.&nodeyt. na
licença, que ElRey deu a Dom João de Aboim para fundar Portel : era filho
natural de Pedro Soares de Alvim dos de Riba de Vizella, a cujo rogo o legi-
timou ElRey Dom Affonfo o Terceiro, devia fer para herdar muitos bens, que
defua mãy lhe podião vir,&ferfenhora principal deíie appellido , que pela
via paterna lhe nãotocavão. Tem por Armas em campo de ouro cinco flores
de liz em'afpa,&huma bordadura azul chea de lobos de ouro , timbre hum
Lobo comhuma flor de liz azul na eípadoa- Bem podião vir íeus antepaflados
dos Lobeiras de Galliza, que tem feu folar no Callello de Lobeira huma lcgoa
por cima de Pontevedra, de que falia Fr. Athanafio de Lobeira em fua hiiío-
ria,& povoando nefta Província darem o mefmo nome a eíla terra-
S. Romão de Aroés foy do Padroado dos Freitas, inílituido por Dom Go-
mez de Freitas no anno do Senhor de 1212- fendo Arcebifpo de Braga Dõ Svl-
veílre ; he hoje Abbadia do Padroado Real, rende quatrocentos mil reis, & tê
duzentos & vinte vifinhos.
Santa Chriítinade Aroês foy também do Padroado dos Freitas, inílituido
pelo mefmo Dom Gomez de Freitas no mcfrno anno, & no tempo do dito Arce-
bifpo Dom Svlveílre; he hoje Abbadia do Padroado Real, rende cento & cin-
coentamil reis, & tem feífenta &tres vifinhos.
S. Martinho de Candofo, Curado unido a hum Beneficio daCollegiada de
Valença, da qual fe intitula Abbade oBeneficiado. Aqui eílá huma Torre, que
chamão de Candofo, & he o íolar defta familia: tem noventa vifinhos.
S. Lourenço de Riba de Selho, Curado unido a efte Beneficio de Valença,
tem fetenta vifinhos.
S. Chriílovão de Riba de Selho, Vigayraria,tem feflenta vifinhos.
S.Jorge de Riba de Selho, Curado do Cabido de Braga , tem trinta & feis
vifinhos.
S. Miguel do Paraifo, (que antigamente fe chamou do Inferno, & lhe mu-
dou o nome o Arcebifpo de Braga Dom F r- Bartholomeu dos Mar tyres , ) he
Curado da Collegiada de Guimaraens, tem quarenta & feis vifinhos-
S. Pedro de Azurey, Curado da mefma Collegiada, tem cem vifinhos- Aqui
eftá huma Torre,folar dos Peixotos, que procedem de Gomez Peixoto o Ve -
lho, que fe entende ferfilhode Dom Egas Henriquez Portocarreiro.
S. Mamede de Aldao, Curado da mefma Collegiada de Guimaraens , tem
quinze vifinhos.
S. Vicente de Mafcutellos,Curado da mefma Collegiada , tem dezafeit
vifinhos, &. huma Ermida de Noífa Senhora do Monte.
S- Miguel de Creixomil, Curado do Chantre de Guimaraens, tem duzen-
tos & dez vifinhos , & huma Ermida de Noífa Senhora da Luz. Aqui eftá a
quinta da Porcariça , minto nomeada aflim por fua grandeza , & rendimento,
como pelos autos de fuas demandas, que andavão em juizo fobre hum jumento,
&osdefcarregavãoduas peífoas : he hoje poíTuida por Alexandre Palhares &
Brito Cavalleiro do Habito de Chriílo.
Santa Maria de Sylvares Vigairaria do Cabido de Guimaraens, tem feíTen-
ta vifinhos.
S.EÍlevão de Urguezes, Vigairaria da Collegiada de Guimaraens , tem
oitenta
108 TOMO PRIMEIRO
oitenta vifinhos. Aqui eílá a quinta do Paco, que antigamente foy habita-
da dos nobres Urguezes, que a eílaFreguezia deixarão por memoria ícu ap-
pellido, pelo não ficar de fua geração. .
S. Salvador do Pinheiro, Abbadia da Mitra, rende duzentos mil reis , tem
quarenta & cinco vifinhos. Aqui cíiaaQninta, & Caía oo Pioneiro , cabeça
do Morgado dc Rabcllos^ & Almeidas^ de Gonçalo Peixoto da Syl va > Adail
mor, & íenhor da Calçada, & de Penafiel de Soufa.
S. Pedro de Polvoreira, Abbadia da Mitra , que rende duzentos & cin-
coentamil reis, temfetenta vifinhos.
Santa Eulalia de Nefpereira,V igairaria annexa ao Thcíourado da Coilegia-
da de Guimaraens, tem cincôenta vifinhos, & huma Ermida.
S- Pay o de Moreira dos Conegos, Vigairaria do Chantre de Guimaraens,
tem cincôenta vifinhos*
S.Martinho do Conde, aflim chamado, por fer fabrica do Conde D. Hen.
rique, que alii hia recrearfe, he Curado da mefma Collegiada, tem 2 6■ vifinhos,
& huma Ermida. .
5. André de Gandarella, Abbadia da Mitra, tem quinze vifinhos.
Santa Maria de Infias, Vigairaria das Freiras dos Remedios da Cidade de
Braga, tem feffenta vifinhos.
S. Miguei das Caldas, Abbadia, foy do Padroado Real, he agora aprelen-
taçãodo Prior de Santa Marinha de Lisboa com referva , rende quatrocentos
mil reis,& tem cento & quinze vifinhos. Neila Freguefia,em hum lameiro bai.
xo baldio eífão cinco olhos de agua, humas mais quentes que outras, &todas
muy medicinaes para grande quantidade de enfermos , que fe vem curar a ef-
tas Caldas, & dão o nome à Freguefia, a qual tem muita caça de coelhos no mo-
te, ôchebem provida de peixe do rio Vizella- T,
S. João de Guminhaés, que agora chamão das Caldas , he Abbadia do Pa-
droado Real, de que foy Abbade Dom Theotonio de Bragança, que depois a-
chamos Arcebifpo de Évora. Aqui eílá a quinta de Guminhaés, de que foy fe-
nhor Francifco Soares de Aragão, coutada, & honrada por ElRey Dom João o
Segundo com parte do rio Vizella, que deixàrão perder feus defeendentes em
não confirmarem fuas doaçoens defde o tempo delRey Dõ Henrique. He Mor-
gado que hoje poffue Pedro Vaz Sirne de Soufa, fidalgo da Cafa delRey. Tem
eíla Freguefia fetenta vifinhos, & he tradição commua que aqui eílivefle huma
antiga Cidade: faz delia menção o Padre Fr. João de Deos , Religioio de Saõ
Francifco, nos feus apontamentos.
S. CipriãodeTaboadello, Curado annexoà Igreja de S. Fauífino, tem de-
zoito vifinhos-
S. Fauílino de Vizella, Abbadia da Mitra, rende com a annexa duzentos
& cincoentamil reis,tem cincôenta vifinhos. AquieílaoPaçodeCarvalhaes,
de quehefenhor Manoel Barbofa Cabral Capitão mór de Geífaço, & he o fo-
lar deíla família , que tem por Armas o efeudo vermelho partido em pala no
primeiro Carvalho verde, no fegundo torre de prata fobrehum pé de agua,
timbre a torre com hum ramo de Carvalho em cima-
S.Thomè de Avação, Abbadia do Padroado Real , que rende duzentos
mil reis, tem quarenta vifinhos; he terra muito afperaaopê da ferra de S. Ca-
therina, com muita caça.
Santa Eulalia de Pentieires, Abbadia tenuc da Mitra,tem doze vifinhos,
S- Chrif-
DA COROGRAJIA PORTUGUEZA. 109
s. Chriítovão de Avaçáo, Vigairaria do Abbade dos Gémeos , tcmtreze
* /*
V1 m
Srnta Maria dos Gémeos, Abbadia da Mitra , que rende com a attnexa
duzentos St cincoenta mil reis, tem quarenta vuinhos- Aqui efta a^Qumtade
Calvos, que fendo dada por Honra aos deílâ família, lhe ficou por folar do ap
pellido de Calvos , que tem por Armas o campo efquartelado,no primeiro de
vermelho cinco fivellas de prata em afpa,no íegundo cinco vievras, ou conchas
de prata, &íòbre tudo nòmeyo hum eicudo de ouro com hum lobo de lua cor,
& por timbre o mefmo lobo pífrdo das Armas. ^
S. Lourenço de Calvos, Vigairaria, que aprefentao as Freiras dos Remé-
dios de Braga, tem trinta & cinco vifinhos.
S. MigueldeCerzedo, Abbadia doMofteiro de Pombeiro com referva,
rende duzentos & feffenta mil re is,tem tío-vifinhos.
S- Martinho de Farejà, Vigairaria infolidum dôs Priores de Guimaraens,
tem cincoenta vifinhos. . , .
Santa Maria de Matamá, Vigairaria doThefoureiro de Guimaraens , tem
trinta vifinhos. AquieftàaCafa,&QuintadaÇurugeira , de que he fenhor
Dom Manoel de Noronha, que ohe tambem dada Prelada no Porto, dcícende-
te da Cafa de Villa Real- j n-r •
Santa Maria de Villanova das Infantas, (nome que tomou de allifecria-
rem as irmãsdclReyDom
Guimaraens) AffonfoHenriques
he Vigairaria , quando
doMolleiro de Pombeiro, temtinhaofuaCorte
fetenra vifinhos.em

S PavodeVizella, Abbadia daMitra,em que forao Abbades fucceffivos


hum tio de S. Gonçalo,o Santo, & hum feu fobrutho, rende duzentos & cm-
coenta mil reis, tem feffenta vifinhos.
S. Salvador de Tagilde, que tomou o nome de Atanagildo Rey Godo, que
mandou povoar eflelugar pelos annos 560. he Abbadia do Ordinário , que
rende duzentos & Cincoenta mil reis, tem fetenta vifinhos- Na Aldeã da Arri-
conha nafceo S-Gonçalo de Amarante,alii efta huma Capella da íua mvocàçao,
reformada ha pouco tempo com letreiro, em que o declara por extenfo. Na ca-
ía mor ao Lavradores honrados, que vulgarmente faõ tidos por parentes feus>
de que por alli ha muitos- , , „ .
S- Marinhada Cofta, Convento dos Frades Jeronymos,q tem o oitavo lu-
gar na Congregação, cõ cinco mil cruzados de renda, q conftao de cafaeã, dos
lizimos defra Igreja,& dos de Santa Eulalia de Monte Longo, S-Eulalia de Bar-
roias, Santa Mariade A taes, Santa Maria de Pedrofo: aprefenta o Prior Cura
fecular, & tem vinte vifinhos. A qui eftá fepultado hum Religiofo ianto, cuja
vida mereceofuanotável morte, foy admirável ; porque eftando iocom oíeu
breviário aberto paffou para a Gloria, & aífim o acharão depois com hum dedo
poftonaquellas letras da Sexta,q diz 1-fDefecit in [alutare tun anima mea.Sc era
Conexo Regrante,ou de S- leronymo, não fabemos; mas entendemos que era
dos primeiros. Todas eftas Igrejas eftão entre os rios Ave , & Vizella : as
que fie feguem, eftáo defdea lerra da Falperra até o rio Ave- _
S- Salvador de Balazar,Vigairaria das Freiras dos Remedios de Braga^tem
quarenta & cinco vifinhos- Aqui foy o folar dos Balazares, de que trata o Con-
de Dom Pedro, & de que foy fenhor Dom Sueyro Longo de Balazar, bom Ca-
v ali firo, & honrado- .
Santa Chriílina de Longos cabeça de Arcedlagado em Braga , que primei-
ro fe chamou de Olivença , com cinco annexas mais, ôcíoros labidos, rende
iro TOMO PRIMEIRO
hum conto. Tem Vigário, que aprefenta o Arcediago, & oitcta yifmhos. Aqui
viveo Pedro de Longos, Pay de Dom Mem Pires de Longos, ou Briteiros, tro-
co dos deíle appellido, de que fallaremosna Fregueíia do Salvador de Britei-
ros.
Santa Leocadiade Briteiros foy Moíteiro de Frades Bentos , deque fov
Abbade o Santo Bamba, que no adro junto à porta traveffa delia Igreja eílá fe-
pultado fem outra veneração Eccleíialiica mais que humas gradés,que defendão
andarem animaes por cima: a tei-ra dafepultura,&hervasdo adro bentas pelo
Reytor, & dadas aos enfermos, dizem que melhofão. Devia eíte Moíteiro cor-
rer a fortuna dos outros, até que o Arcebifpo Dom Frey Agoifjnho de Caílro
& Jefus o deu aos Eremitas de Santo Agoílinho do Convento do Populo da Ci-
dade de Braga, que nelleaprefentão Reytor; tem fetenta vifinhos. Ha aqui fer-
mofas moças, & virtuoías,-partes que raras vezes fe achão juntas.
S- Martinho de EfpinhoVigayraria do Deão de Braga , tem cincoenta vi-
finhos,& criação de egoas- Aqui viveo,& foy fenhor Aífonfo Rodriguez de Eft
pinho, fidalgo ílluíire, cafadocom Dona Mór Gonçalves , filha de Gonçalo An-
nes Redondo com geração: era Honra muy antiga , em que eítes fidalgos vi-
vião.
S- Martinho dc Sande, Reytoria da Mitra, & Commenda deChriílo , tern
feflenta vifinhos. Foy Moíteiro de Eremi tas de Santo Agoílinho , que fundou
pelosannos de 392- S. Profuturo Arcebifpo de Braga. Nãofabemos como
paífou aos Bentos, mas parece foy, porque aquelles o deixàrão : nelle eílaráò
eíies,quandoo Arcebifpo S. Frutuofo o aumentou, & lhes deu para pobres,&
hofpedes a Igreja de Luíifinio no annode 65-9. Perfeverou effe Mofieiro .um
fua Religião muitos annos em poder de Mouras à cufte.de grandes tribo*
tos, que lhes pagava; extinguio-o o Arcebifpo Dom Fernando da Guerra , &
o fez Igreja fecular no anno de 144.4.. confirmando em Abbade delia a Francift
co Vaz feu criado, Clérigo de Ordens menores, de que paífou a Commenda,cot
mo hoje he. Daqui entendemos ferem os do appellido de Sande , que o Conde
Dom Pedro nos de Riba de Vi zella chama Sandim, & que eíle hefeu folar, don-
de devia pa{far algum para Galiiza, que deu nome ao Caíléllo, & valle de Sande
junto de Orenfe , em que depois entrou o Convento.de Celia.riova. Ha deíle
appellido osMarquezesdeVal deFoutes naEílremadura em Gailelia , aonde
luzirão mais que ca, & agora toda a fua cafa eílá por cafamentonos AlécaílreS
Por umiezes, Duques de Abrantes. Tem por Armas em campo vermelho hum
Leão de ouro armado de prata entre quatro flores de Iiz do meifeno poftes em
Cruz, timbre meyo Leão de vermelho com humaflor de liz de ouro na cabe-
ça. . i
S. Clemente de Sande, que foy t ambém Mofieiro,de qUe íè moílrão Inda
hoje veíligios, he Vigairana annexa à Commenda de S. Maftmhadb Sande, <jíre
aprefenta o Reytor: tem cincoenta & cinco vifinhos- TT*IJ3 - /1 C WOO
S. Lourenço de Sande, Vigayrariaannexa à mefma Commenda, tem qua-1
renta vifinhos. Neila Fregueíia eílâ a quinta de Braz Pereira Beliago , tão dtp
riofo, que nella tem feito hum Iabyrinto de vides, &'&m>res, coufa maraVilho-
fa,&humnotavel viveiro de peixes. r o
S. Thomé de Caldellas, V igairaria do Cabido de G-uirnaraens, tem cincoé-
ta vifinhos. ' . /
S. Salvador de Briteiros, Abbadia da Mitra ,que rehde sduaetitds mil reis,
tem cincoenta & cinco vifinhos , de que muitos delles paffamdfe cem annos
de
DA COROGRAFIA PORTUGUESA in
de idade. Ertá nefta Freguefia a antiga Torre, & Cafa de Briteiros, folar derta
illuftre família, como fe pode ver no Conde Dom Pedro, & toda efta Freguefia
era Honra fua,& Ricos homens os fenhores delia.
S. Salvador de Domim, Abbadiada Mitra , que rende duzentos mil reis >
tem quarenta & cinco vifmhos. Foy antigamente Couto do Morteiro de Ti-
baés, que lho fez, & deu EIRey Dom Affonfo Henriques, fendo inda Infante.
Aqui no rio Ave ertâ o poço de Ola, que couta a Cafa de Briteiros , ao qual
vay dar a eftrada encuberta , que por baixo do chao, dizem, correfpondia à
antiga Cidade de Citania. .
S. Ertevão de Briteiros, Curado do Chantre de Braga, tem cmcoenta vifi-

nh
° S. Cláudio de Barco, V igairaria do Arcediago de Olivença, ou Santa Chri-
rtina em Braga, tem quarenta viíinhos. ,
Santa Maria de Villanova de Sande, Abbadia da Mitra, que rende trezen-
tos mil reis com fabidos, & annexa, tem vinte& dousvifinhos. Dizem haver
fidoMoileirodeFrevras, dequefe moftrão indahoje veftigios»
S. João de Brito, Commenda de Chrifto, & Rey tona do Ordinário , tem
cento & trinta viíinhos. Foy Morteiro, que fundou Dom Soeyro de Brito, Ri-
co homem em tempo delRey Dom Affonfo o QuintO;ou, como dizem outros,
feu filho Arias de Brito, que fundou o Morteiro de Oliveira. Aqui he o iolar
dos Britos,de que defcendem muitos fidalgos, & nobres : a fua Cala ertá na
mefma Freguefia, aonde chamão o Paço da Carvalheira, que como não devia ter
Mor ° a do, paffou por cafamento aos Coutinhos , que agora a poffuem com al-
guma renda,que tem os do appellido deVillela. A varonxa particularmente
deftes Britos temos Vifcondes de Villa nova de Cerveira , de quem fe defan-
nexou o grande Morgado de Santo Eftevão de Beja da mefma família, por cafa-
mento de Dona-Magdalena de Borbon, Condeça dos Arcos, com o Conde Dô
Thomas de Noronha, por fer filha mais velha de Dom Luis de Lima Brito &
Nogueira, primeiro Conde dos Arcos, filho primogénito do Viíconde D- Lou-
renço de Lima Brito & Nogueira,& os Alcaydes móres de Beja , que por cafa-
mento entrou na Cafa dos Condes do Prado, Marquezes das Minas , os de Al-
deã Gallega, os da Porta da Cruz, os do Rio, os de Évora, & outros. Tem por
Armas em Campo vermelho nove lifonjas em tres palias, em cada huma hum
Leão de purpura, timbre hum Leão das Armas com lifonja de prata. Ertes fi-
dalgos,ou feus lucceffores devião fer fenhores do Couto de Brito alem do Dou-
ro,quando fe foy povoando,de quehojeoheo ConventodeGrijó-
S. Mamede de Vermil, Vigairaria annexa a S- João de Brito, que apreíen-
ta o Rey tor, tem vinte & cinco viíinhos. Ha aqui hum Morgado no Paço, que
dizem foy de Dona Branca Loba, que inda tem renda, a que chamão as Teygas,
nome,que antigamente davão aos noffos alqueires, ou razas de agora; he Cou-

S. loãode Ayrão, que antigamente fe chamou Rio de Ayrão , he Abbadia


da Mitra, tem vinte & cinco viíinhos. Nerta Freguefia íobre o rio Ave erta apõ-
tede S.]oãodebaixo,da qual continuametefe ertão vedo tã grades barbos, co-
mo falmoés, fem os poderem pefcar,pelas difficultofas lapas que alli ha.
S. Maria de Ayrão, Abbadia da Mitra, que rende duzentos mil reis, tem
cento &cincoenta viíinhos. .
S.Vicente deOleiros, Abbadia da Mitra, que rende cento & oitenta mil
reis, tem vinte & feis viíinhos* Aqui erta o monte de S. Miguel, com veftigios
in TOMO PRIMEIRO
de fortificação, que dizem fer do tempo dos Mouros.
Santiago de Ronfe, a que o livro da Ordem de Chriflo chama de Arrufe,
foy Mofleiro de Frades Bentos,hoje he Reytoria da Mitra , & Commenda de
Chrlfto. Tem CoutonoCivel com S. Mamede de Vermil , hum Juiz faz ou-
tro, vay lá hum Efcrivão de Guimaraens, donde he o crime , tem duzentos &
dez vifinhos.
S.Martinho dos Leitoens, Vigairaria do Convento de Oliveira , parte
delia he de Barcellos, tem trinta & dous vifinhos.
S. Payo de Figueiredo , Vigairaria do mefmo Convento, tem vinte vifi-
nhos.

Contimafe o termo de Cjulmaraens além do rio Vitella.

SAm Miguel de Villarinho , Convento dos ConegosRegrantes de Santo


A golfinho, eftá em hum valle além da ponte dc Negrellos , foy Abba dia fe-
cular muito rica , que fundarão para leu enterro os fidalgos do appellido de
Fafez, que teve princi pio em Fafez Saracim de Lanhofo, Rico homem 3 a quem
matàrãona de Agua de Mayas junto a Coimbra diante do noífoRey Dom Gar-
cia, contra feu irmão El Rey Dom Sancho de Caftella; Dom Fafez Luz feu ne,
to foy Alferes do Conde Dom Henrique, & Rico homem. Depois fendo delia
Abbade Gonçalo Annes Fafez, felia Mofteyro de Clérigos, appiicandolhe to-
das as rendas, fazendo em fua vida os dor mi tórios, & ofiicinas junto da Igre-
ja, em q recolheo dez Clérigos no anno de 1170. & 110 de 74. eflava o Conven-
to acabado, & ficou mui to mais perfeito cõ húa grande herança, q fe lheuniocõ
juia doação de D- Diogo Fafez de toda fua fazenda, por não ter filhos,& elle fe
recolheo nefte Mofleiro,em q acabou feus dias- Neífcs principias fe chamàrão
Abbades os q governavão,& depois Dõ Prior, couíá particular defte Mofleiro,
q em outro fe não acha em Portugal naOrde dos Conegos Regrantes de S. Agof-
tmho. Teve Commendatarios fidalgos , a faber, Dom João Gonçalves da Ca-
mara, DomVafcode Soufa, João Fernandez Farto, que juntasiente eraCom-
mendatario do de Roriz, aonde eftáíçpultado, & parece levou daqui para Vil-
larinho o retabolo, que tem da Capella mor- Depois Dom João Fernandes de
Aimeyda, a quem fuccedeo feu fobrinho Dom Luis de Almeyda, que eftá fepul-
tado na Capella mor, aonde temfepulturà razacomasfuas Armas , & hum le-
treiro, que diz: /icjiit jaz Luis de Airnesda T)om Pr ior, qutfoy de (la Gafa, fale-
ceoew23.de Abril de 1565-. & o ultimo foy Dom Luis de Azevedo, irmão do
Venerável Dom Ignacio de A zevedo, Martyr, & Provincial do Brafil na Com-
panhia de Jefus, em que era, Religiofo, & de Dom Francifco de A zevedo , fe-
nhor da quinta de Barbofa, & de Dom Jeronymo de Azevedo vifo-Rcy da ín-
dia, & Dom João de A zevedo, Capitão de C,ofala , todos filhos de Dom Ma-
noel de Azevedo, falecco em 26. de Julho, em que fedeu aos Conegos Regran-
tes de Santo a gqftinho , & foy feu primeiro Prior triennal Dom Eftevão dos
. Martyres: refidem ncfte Convento dous Frade , Prefidente , & Recebedor de
fetecentos mil reis, q tem derendaemdizimos deftaFreguefia, & dadeCarva-
Ihofanotermodo Porto, que anda em duzentos & emeoenta mil reis , & fabi-
dos com grandes pafíaes, de que tirando a côngrua defies , amais renda vay
para o Convento de Landim, a que eftá unido. Tem Cura, que adminiftra os
Sa-
DA COROGRAFIA "PORTUGUEZA. 113
Sacramentos a fetenta freguefes. Em hum alto monte, que fica logo acima entre
o Nafcente,& Norte,eftàhuma Ermida antiga de S.Pedro de Villarinho , &à
roda veftigios de fortificaçam, que dizem fer de Mouros.
Santa Eulalia de Barrofas, Curado do Mofteiro da Coita de Guimaraens,
temcemviíinhos. A
Santo Eftevão de Barrofas, Abbadia da Mitra, que rende cento & cincoen-
ta mil reis, tem trinta vifinhos. Daqui foy Abbade Dom João Pimenta, natural
da Ponte da Barca,(depois Bifpo de Angra) o qual fendo Lente de Theologia
cm Coimbra , & tendo Breve para comer a penfaõ defta Igreja, nunca a levou ,
Òt a mandava repartir pelos pobres da Frcgueíia, & fazer algumas peças da Igre-
ja, & para ella mandou humarcliquia deS. EftevaÕ, que eftá em hum relicário
de prata em fórma de cuftodia, & fe moitra em feu dia, & outros do anno, a que
concorre muita gente • Neft é deftritfo no mai.s.alto da Por tella fe fez huma Er-
mida do Bom Jefus com fazenda de hum Brafilciro daqui natural : he imagem
milagrofa,& de muita romagem. '
S- Adrião de Vizella, Abbadia da Mitra, que rende coma annexa deS. Jor-
oe mil cruzados, tem oitenta vifinhos. Moftra que foy Convento,& detráz do
Altar das Almas fe fente muitas vezes fuave cheiro, aonde dizem eftá enterra-
do hum Santo chamado Santo Epifânio- A Igrejahe fagrada ,& por |huns alga-
rifmos, que eftão em huma pedra nas coftas delia da parte de fóra , que dizem,
Era de 1 200. entendemos foy no anno de 1262. Aquieftã a quinta, que cha-
mão o Paço, que antigamente poífuiraô os Pimenteis, depois os Pereiras, & ho-
je he de Dom Lourenço de Almada: produz boas frutas, & admiráveis peífe-

ê S
° Santa Comba de Regilde, Abbadia da Mitra, que rende trezentos mil reis,
tem fetenta vifinhos. . _ , ,
Santa Maria de Villa fria, Abbadia do Padroado Real, que rende duzentos
mil reis, tem oitenta vifinhos.
S.joaõde Gondar, Abbadia do mefmo Padroado, que rende cento &cin-
coenta mil reis,tem cincoenta & feis vifinhos. ,
S. Miguei de Cunha, Abbadia que foy dos Cunhas, & a tirou EIRey Dom
Diniz a Dom Gomes Lourenço da Cunha, feu padrinho, em 8- de Setembro de
1285- por fentença de João Payo Conego de Braga , CommifTario do Primáz
Dom Tello, Juiz delegado, & não parando aqui o odio, que lhe tinha, a 4. de
Julho de 1185. mandou-o condenar, & executar nelle as penas, em que encor-
rèra,por humdefpacho,quefeu pay ELRey Dom Affonfo o Terceiro havia da-
do a favor das Frevras de Santa Anna de Coimbra, cuja Prioreza Dona Therefa
Dias, & mais Frey ras fe lhe havião queixado de aggravos, & perdas, que lhes
havia feito, & dado: he do Padroado Real, rende trezentos mil reis , &l tem
feífenta vifinhos. Aqui he o folar dos Cunhas , que teve principio em Dom
Guterre, natural de Gafcunha,Provincia de França ao pé dos montes Pirineos,
o qualveyoaefteReynocom o Conde Dom Henrique, fendo bom Cavalleiro,
velho, & de grande entendimento, de quem o dito Conde fiava a refoluçaõ de
feus mais diíficultofos confelhos ; pelo que lhe deu muitas herdades nefta Pro-
vinda, particularmente efta, & outras em terra de Guimaraens, & Braga , & o
Porto efe Varzim , hum quarto de legoa ao Norte de Vilia do Conde. Tem
por Armas em campo de ouro nove cunhas de azul de ferro firmadas , poftas
em tres palias, & por timbre hum meyo Grifo de ouro acunhadode azul, com
azas acunhadas de ouro, & por orla as cinco Quinas de Portugal em campo de
K. iij prata:
ii4 tomo Primeiro
prata: os efcudetes azuis, & as Quinas de prata todas lhe compoz ElRcy Dom
Affonfo Henriques -.osdeCaftella por novofucceíTo orlão o efcudo com 24.
bandeiras. j
S. Payo de Ruylhe, Abbadia, que aprefenta Fernão de Soufa , fenhor de
Gouvea do Tamega, rende cento St cincoenta mil reis , St tem vinte 6c feis vi*
íinhos»

C A P. XXI.

Dos R:os, 0s Pontes, que eflaÕ junto dafálla de Guwiaraens»

TOdos os Efcritores, que defta muito notável Villa efcrevèrão , a poem


íkuada (como a vemos) entre os dous rios Ave, StVizella, nomeando a
eftes pelos mais caudelofos, St de mayor fama, Sc nome , não fazendo cafo de
outros, q ue por pequenos não merecerão andar na memoria': mas fe eftes delles
ficàrão efquecidos, não ferá razão, que os deixe de nomear, & de fere ver.
O rio AVe corre afaftado da Villa huma legoa por entre o Norte, St Poem
te, St tem feu nafeimento em hum lugar, que chamão a Ribeira da Lage ao pé da
ferra de A gra no Concelho de Roças, que o divide com a fua corrente do de Ca-
beceiras de Bafto; & chegando ao Norte,fe ajunta com elle hum regato , que
tem feunafeimento ao pe da ferra de Cabreira,que paífando pelos valles doCõ-
celho de Vieira , St unidos em hum corpo fe íizerão poderofos para impedir a
communicação da Villa de Guimaraens com aquelle Concelho , St fer neceífario
para iífo fundar no lugar, que chamão de Domingos Terres, huma ponte de pe-
dra lavrada, grande, & boa para íua ferventia.
Defcendo defta ponte para o Poente fe topa na ponte de Donim , que dá
ferventia da Villa de Guimaraens para o Concelho de Lanhofo: he l'ermofa pon-
te de pedra lavrada , St eftá juntoaella huma Capella dcS. Bento de muita ro-
magem, aonde no feu dia fe faz huma feira de muitos gados.
Da ponte de Donim le delceà ponte de Sam João , que tem efte nome,
por eftar íituada nafrcguefia de Sam João da Ponte, termo de Guimaraens,
St no deftrido de huma a outra andão nefte rio dous barcos para fran-
quearem a paíTagem defta Villa para a Cidade de Braga : hum no lugar de Sam
Cláudio, St outro a que chamaõ obarco dã Taypa, aonde no Verão fe paífa a Ca-
vallo hum vao, & a pèhumasalpondras para a Cidade de Braga , & pela ponte
de S. João fe acha também eftrada direita para a mefma.Cidade , & para a Villa
de Barcellos pelo lugar, que chamão a Veiga do Penfo.
Defce efte rio Ave da ponte de S. João à ponte de Servas, que difta de Gui-
maraens huma legoa para o Poente, St por ella tem communicação para Villa no-
va de Famelicão, Villa de Barcellos , St do Conde, que neíla divide o feu termo
do de Guimaraens a Villade Barcellos.
Continuando efte rio o feu curfo para o Vendaval, vayfahir pela ponte da
Lãgoncinha,tambem de pedra, alta, St mageftofa , por fer alíim neceífario fua
grandeza para.melhor franquear a paíTagem defte rio Ave, por trazer já em fua
companhia o rio Vizella, com quem fe tinha encorporado 110 lugar de Entre am-
bas as Aves, aonde efte rio Vizella perdeo o nome. *
Com
DA COROGRAFIA PORTUGUESA, itj
Com mayor foberba ajudado do rioVizella continuou o no Ave afua
carreira para a parte de Entre o Vendaval, & Poente, aonde lhe tinha franquea-
do a paffagé a ponte de Ave, q por fua grandeza he conhecida em Portugal por
humadas mayoresdo Reyno, para na foz de \ ma do Conde Cir eiconder no
mar, & dar fim à fua corrente. .
Entre a Villa de Guimaraens, & o no Ave corre o no Celho, quenaíce na
fonte de S. Torcato entre o Nafcehte, & Norte, & augmentado com as aguas
dos valles feusvifinhos continua leu curfo ate chegar ao lugar de Penouços,
aonde primorofo oefperao ribeiro de F undello,& Cayde, que tem o leu riafci-
mentono monte de S. Antonino, & naquelle lugar humas , & outras aguas
derão dé beber aos cavallos Portuguezes, ôc Calf elhanos , que fe acharam na
batalha da Veiga das Favas, que eífá fituada entre as fuas correntes, & alli lhe
puzerao o nome de Celho pelo modo fcguinte.
He tradição antiga, que tendo ElRey Dom Henrique o Terceiro o feu ex-
ercito alojado na Veiga das Favas para dar aíTaltoà Villa deGuimaraens , que
lhe ficava para o Vendaval diífante hum bom tiro demofquete , lhe fairão os
de Guimaraens, & inveífindo aos Caí!elhanos, que acharão delmontados, co-
meçarão elles a dar vozes, cella, cella, (que na antiga lingua deífa ilação figni-
fica o q ue hoje foa em Portuguez) donde com pouca corrupção tomou eífe rio o
nome de Celho. . , _
Fazendo eífas aguas no lugar de Penouços hum corpo, dirigirão feu curfo
para o Poente, Achegando àF reguefia de S. Lourenço de riba de Celho, alli lhe
deu paífa^em a fua ponte de pedra lavrada , que chamão a ponte da Madre de
Deos, por eftar vifinha da Capella de NoíTa Senhora , que eífá fituada entre o
Poente, & a Villa 5 & quem vay para o Moífeiro de S. Torcato, Concelho de Ro-
ças, & Vieira, fahindo de Guimaraens pela fua ponte de Santa Barbara , tem a
cifrada corrente pela porta deífa Capella,•& ponte-
Abaixo da ponte da Madre de Deos dá paffagem a eífe rio à ponte de Ca-
neiros de pedra lavrada, fituada na Fteguefia <ie Santa Eulalia : também muitos
lhe chamão a ponte de NoíTa Senhora da Conceição, porque quem fáhe de Gui -
maraens pela lua porta de Santa Luzia para a Cidade de Braga, paíTapeia porta
deífa Senhora, donde a poucos paíTos chega à ponte de Caneiros, & fegumdo a
eífrada, fe vay embarcar no barco da Taypa ao rio Ave entre oNorte, & Poen-
tc*
Da Ponte de Caneiros faz o rio Celho fua guarida para o Vendaval, aon-
de em efpaço demeya legoa lhe tem franqueado a paflfagem a ponte do Mira-
douro^ por outro nome a ponte da Senhora da Luz; porq ue quem faz jorna da
da Villa de Guimaraens, & fahe pela fua porta de S. Domingos para a Villa de
Conde, fegue a eífrada de S. Lazaro parao lugar do Miradouro , aonde, eífá fi-
tuada a Capella de NoíTa Senhora, & junto da fua porta vay paíTar e.ífa ponte,&
continuando feu caminho em diífancia de huma legoa,fe acha na ponte de Ser-
vas do rio Ave.
No lugar de Reboto fe encontra .eífe rio Celho com o Celinho, que depois
de regar aslameyras de S- Miguel de Creixomil, perde nellas o nome, & ambos
fe efçondem debaixo da terra no lugar que chamão os Sumes na Freguefia de S.
João de Gurtdar, aonde quafi hum q uarto de legoa dão na terra , que os cobre,
paílo a muitos gados de feus vifinhos: dahi vão fahir à Freguefia de Sercedello,
termo de Barcellos,&paíTando por baixo da ponte de Soeiro de pedra lavrada,
fe metem no rio Ave abaixo da ponte de Servas, confervando o nome de Celho.
Entre
nó TOMO PRIMEIRO»
Entre a Villa de GuimaraenSjôt bem perto de feus muros , do rio Ce-
lho corre o rio Herdeiro, a quem derão eíte nome, porque muita parte de feus
moradores ufaõ delle para íua limpeza: tem fó huma ponte de pedra lavrada ,
que chamão de Santa Luzia, tão alta, & mageítofa , que he mal empregada em
coufa tam pouca. Tem eíte rio feu nafcimento na fonte do Bom Nome,que ef-
tá nocafal, que chamão Dentre as Vinhas, íituado na Fregueíia de Sam Pedro
de Azurey, & finaliza fua corrente 110 rocio' de S. Lazaro, aonde fe ajunta cõ
outro regato, que naquelle lugar fe chama rio deite Santo , & juntos ambos,
perdendo cada hum o feu nome, fe appellidão Celinho, que regando as lameiras
de S. Miguel de Creixomil, fe metem no rio Celho no lugar do Reboto.
O no Vizella diíta de Guimaraens huma legoa para o Sul,nafce nas terras
do Couto de Pedraydo, & defpenhandofe por cilas ao lugar de Calções , corre
partindo aFreguefia deS. Pedro de Queimadella do termo deGuimaraen^ , &
daqui bufcando o lugar de Vizella,ahi toma o feu nome na Fregueíia deS. Tho-
me de Travaços: divide eíte rio o termo da Villa de Guimaraens , porque da
Fregueíia de Travaços paffa à de S- Vicente de PaíTos, dividindoa do Concelhd
de Monte Longo, ôtnefta Fregueíia tem a fua ponte de Bouças de pedra lavra-
da junto da Ermida de S. Bar tholomeu , que eítando na borda do rio he da*
quelle Concelho, & correndo de Nafcente a Sul pela Fregueíia deGulaés che-
ga à Honra de Cepaês , donde quafimeya legoa de diítanciavay a dividir o
Couto do Pombeiro do termo de Guimaraens.
No Couto do Pombeiro acha o rio Avizella franqueada a fua paflagem pa-
rao Vendaval com a ponte do Pombeiro de pedra lavrada,ao pé da ferra deSã-
ta Catherina,da parte do Sul. Sahindo eíte rio da fua ponte do Pombeiro co-
meça de cortar para o V endaval a frefca, & alegre ribeira de V izella, & deixari-
doa abundante ae todos os frutos, vifita de paífagem a das Caldas, que com a
fua ponte de pedra bem lavrada, lhe tem defempedido o caminho para Negrel-
los, aonde aquelle lugar lhe tem fabricado outra também de pedra com muita
ventagem na grandeza,com o feunome de ponte de Negrellos.
Apreífadamentecorreorio Avizella da fua ponte de Negrellos a ir vifitar
na parte do Vendaval o excellente Moíteiro de S.Tirfo deReligiofos de São
Bento, que na fua levada o efperão com huma barca de regalo , em que na fua
cerca fe cmbarcao , dando com as redes lanços aos peixes do rio, que cõ
a fua abundancianunca ficão perdidos.
Entre ambas as Aves eítá o rio Ave efperando a eíte Avizella, aonde na-
quelle lugar fez eítedepoíito de feu nome, & deu a primazia ao feu mayor,para
não tornar a fer mais lembrado , & ambos unidos forao paífar a ponte de La-
goncinha, de que tenho fallado.
O rio da Villa corre junto dos feus muros, &he tam ambiciofo, que toma
o nome aos lugares por ondepaífa , com que do feu proprio fica efquecido.
Naíce na fonte de S-Romão de Meijão frio, que fica ao Nafcente 3 na bondade,
& qualidade de fuas aguas he a melhor que tem todo o termo de Guimaraens:
dividida por muitos prados fe vem a ajuntar no fim da rua do Fato , aonde to-
ma o primeiro nome de rio Fato.
Do lugar de F ato defee para o Vendaval ao campo da Feira , aonde larga
na fua ponte o nome, que trazia, & toma o de rio do C ampo da Feira 5 & che-
gando à rua da Ramada deixa o nome, que trazia, & dando paíTagem para a de
Soalhaes pelas fuas alpondras, alli fe appellida rio da Ramada.
Da Ramada paífaà rua de Couros , aonde na fua ponte de padieirasde
pedra
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. 117
pedra Iaraaperde ofeunomc,&tomaodaquellelugar,&nos de Relho ^ Villa-
nova, & Madroa faz o mefmoatè chegar aS. Lazaro , queobfervando eíte em
pouco curfo fe ajunta com o rio Herdeiro, deixando cada hum o nome que ti-
nha, & fe appellidão Celinho, para fe irem afogar no noCelho no lugar de Re-
boto, como fica dito- . _ ^
J á que tenho falladp tantas vezes no rio Tamega , razao he que tratemos
delle, & das pontes por onde paffa: nafce elleno Reyno de Çailiza ao pè da fer-
ra de Larouco por cima da Villa de Montalegre entre o Norte, & Nafcente', &
deita mdma ferra nafce o Lima, que vay por Galiza , & por eíte refpeito cha-
mão a terra por onde paffa a Limia, que .entra em Portugal pelas terras de Lin-
doío
Parte o rio Tamega do feu nafcimento a bufcar a Villa de Verim, & paffan -
do por entre ella, & a praça forte de Monte Rey, as deixou fem communicação,
com que foy neceffario aos feus moradores fabricarem naquelle lugar huma
ponte dc pedra lavrada de hua parte para a outra j que fuppoíto fe íizeffe mayor
culto que os barcos, de que ufavão para a lua ferventia, ficoulhe mais fácil , &
mais feguraa fua communicação pela eítrada encuberta, que por eíta ponte fi-
zerãoda Villa para a praça. _
Corre eíte rio Tamega de Verim para o Nafcente a vifttar aVilla de Cha-
ves, aonde os Romanos fhe fac-litàrão a paffagem por baixo de huma ponte ex-
cedente, que junto daquella Villa lhe fabricarão , a qual fe começou em tempo
do Emperádor Vefpaíiano, & fe acabou no de Trajano: em cafa de hu João Gue-
des, que vivia naquella Villa, eítá huma pedra com hum letreiro, que o decla-
ra, & nelle eítão rifcadas duas regras , que continhão o nome do Emperádor
Domiciano; & taes forão feus feitos,que depois de fua morte fe mandou nfcar
toda a memoria,que delle houveffe diz o letreiro : ÁendoTreíores dtEfpanha,
Legados do Emperádor CayoCalpetano, Roncio Çtnirtml, Valmo iejto, & Décio
Lorneho Medict ano \ & fendo Enteio Ar une 10 Maximo C; oconful , ó4 ejlando por
guarnição a Legião fe.tima gemina doamada ditofajdess Cidades com feus povos pa-
çàraopara a obra d til a ponte. f. os Aqmjlavienfes, A orbigenfes, Bibatos, Gdetmos,
.Équezes, InteramicostLincios, Ebofíocios, Cfuerquemos, & Tarneganvs.
Quatro légoas para o Sul abaixo da ponte de Cavês topa o rio Tamega cõ
a ponte de Mondim, não menos mageítofa que amilagrofa de Cavês, por onde
tem paffagem, & communicação aquelle Concelho com os de Cer olico de Falto,
& Cabeceiras: he de pedra bem lavrada, & junto a ella eítá huma Ermida dc Sã-
tiago; fica no Concelho de Cerolico , aonde fe faz huma feira de grande con-
currencia de toda a mercadoria, & gados.
Confiderando o gloriofo S- Gonçalo de Amarante o muito que era con-
veniente para a paffagem huma ponte naquelle lugar, a fundou de pedra tão ma-
geítofa, como traça de tal Archite&o, em que pelos merecimentos deite Santo
obrou Deos com feus officiaes tantos milagres, que com razão lhe derão o no-
me de ponte de S. Gonçalode Amarante.
Cinco legoas ao Vendaval com violência corre o rio Tamega a honrarfe na
ponte, que a Rainha D- Mafalda lhe tinha mandado fabricar naVilladeCanave-
zes, tão mageítofa, que he das de mayor fama em Portugal, aflim pela fua altu-
ra , & comprimento, como na architeêlura da obra , toda coroada de ameyas ,
por onde franqueou a paffagem a muy ta parte de cima do Douro,& Reyno de
Caltella: delia fe vay afogar eíte rio junto à Villa de Entre ambos os Rios, &
ambos conformes na foz do Porto.
CAP.
TOMO PRIMEIRO

2*.-/n*"vw/ VK £í4 St? ®8®SS:JPí *^v'i- £?í $$'' í?4&aí*j &|


S&íJ&E^ísà I JmR&^ . /«SÊR*\s*\ **\ SK/fc.v^?M\/M\ /*w-./w- /ws?* -

CAP. XXII.

Das Fontes, <# yúla de Gwmaraens tem dentro dos (eus muros,
0* tzoí /^w Arrabaldes.

TEm efla Villa dentro dos feus muros as fontes publicas feguintes: o tan-
que da praça mayor com tres bicas encoílado à torre dos finos da Real
Collegiada de NoíTa Senhora da Oliveira- O tanque da Mifericordia fituado i o
feupateo : o poço do Arco fituado na rua deíle nome : o poço da porta dc
Noífii Senhora da Graça, ou de Santa Luzia,, & o poço da praça do peixe.
Tem as Freiras de Santa Clara tres fontes,huma no clauflro,outra na lua
cerca, & outra na colinha- Manoel Ferreira d'Eça tem huma fonte de excellen-
~ te agua no quintal das fuas cafasdoarcodarua de Santa Maria , em que vive.
A fonte da coíinha do Hofpital da Cafa da Mifericordia, que a ella vêm por ca-
nos limpa, & boa para beber , &ferviço daquelleHoípital- A mayor parte das
cafas, que a Villa de Guimaraens tem de dentro dos feus muros , tem quintaes
com feu poço, & em alguns ha dous, &: tres-
Nos Arrabaldes darey principio na rua do Cano de baixo, aonde no fim
delia para entre o Norte, &Nafcente,em hum lugar ameno, & frefco das fom-
bras dos copados caíhanheiros fe efeonde a fonte da Douradinha firme , &
confiante nas aguas, que defper.de tão frefeas, & goíioías, que dandoas à flor
da terra, não quiz outro alinho, mais queagraça, que lhe dão brancas areas,
& com ifto tão foberana, que fó fe dá a goílar a quê lhe poem o gtolho no chão,
& abaixa a cabeça.
Na mefma rua defeendo para a Villa fe topa hum tanque de pedra la-,
vrada, que chamão o tanque do Cano de baixo , que por huma' carranca lança
huma bica de agua tão pouco firme, que no tempo do Verão, em que ha mayor
neceffidade delia, a fufpende, & lhe não larga o regiílo, fenão depois que ellas
faõ tantas, que já fe defeílimão.
AfontedaPipafituadanaeftrada, que vay para aBornaria de cima para a
parte do Norte por baixo da quinta do Verdelho, de que he poífuidor jerony-
mo de Matos Feyo- ■
A fonte das Maleitas fituada junto dp rio Herdeiro, & da fua ponte deS.
Luzia da parte dalém delle entre o Norte, &Nafcente : he hum tanque de pe-
dra lavrada coroado de ameyascomhumaíobica, &tam pouco afliíhido, que da
a entender que o nome, que tem, lhe deu a fua agua, por caufar tal achaque-
A fonte de Santa Luzia , que he hum tanque de pedra lavrada com huma
carranca de huma fóbica, & entre ella, & fuas pirâmides as Armas Reaes.
O chafariz do Toural,obra mageflofa de feis bicas , de que ja falíamos na
deferipção defta praça-
A fonte da Madroa, que he hum tanque de pedra com fuas pirâmides, &
duas carrancas,& he muy abundante de agua-
A fonte da Quinta de pedra lavrada,& em tudo galharda, porque em dir s
correntes frefea, & faudavel a fua agua fe comunica tam livre ao gofto de r >-
dos, que não ha quem fe aparte de tão doce regalo- 4
I\J a
DA COROGRAFIA PORTUGUESA. up
No Burgo da rua de Couros eftá huma fonte de agua tão pezada, & falo-
bre, que fe não faz cafo delia.
Pela ponte da rua de Couros fe vay para a parte do Sul paia a fonte , que
chamão do Medre, que corre queixofa por entre verdes prados do pouco que
fe bufcão fuas aguas, tão bellas, & criítalinas, que pela fua bondade merece to-
da a eftimação.
Por detràz da rua , que fica para o Sul da parte dalém do rio de Couros,
eftá a fonte, que chamão do Buraco, & continuando efta rua dalém para o Sul,
fe topa na fonte do Amor junto das portas da Quinta de V illa Verde.
No fim do campo da Feira indo para o Sul, antes de chegar à Capella deN.
Senhora da Conceição eft ao humas efcadas,que defcem para o Nafcente além
do rio, que paífa por baixo delia para a fonte das Ameyas, que por fer de pedrâ
bem lavrada,& coroada delias, lhe puzerão eftenome : faõ luas aguas as mef-
mas no Verão, & no Inverno, & como o feu natural não he mudável , toda a
Villa gafta delia, por eftar continuamente aíliftida , & ter entre todas o melhor
lugar- .
Caminhando.pelocampo da Feira para o Nafccte,antes de chegar ao feu rio
. fe encontra com a fonte do Abbade ao pé das hortas, que chamão do Prior : he
frefca de Verão, & quente de inverno, porque aceita defte o que lhe dá , & ao
outro não nega o que lhe pede: mav aífim em hum tempo,como no outro femprc
faõ tantas as íuas aguas, que a liberal vontade com que as offerece pela fua bica
merecedora de fabrica mais viftofa, eftá convidando a aíHftencia dosCavallei-
ros daquelie povo,que alíiachão fitio aprazivel, & alegre para o feu regalo. ^
Entre a torre, que vulgarmente chamão do campo da Feira, & a dos Caés,
eftá hum tanque, a que chamão fonte nova, obrado ácufta de feus viíinhos,de
pedra lavrada, & bem viftofo, principalmente r o tempo do Inverno, em que as
aguas não cabem na boca da carranca de fua bica , porque concorrem nella em
muita quantidade.
Indo defte tanque ,ou fonte nova caminhando por entre o Sul , & Naf-
cente para a rua do Fato, fe acha a fonte , que daquelie lugar tomou o nome:
nafce do coração de hum rochedo, que fendo bruto lhe deu tal gofto , & bon-
dade, que fó fe culpa as fuas aguas deferem leves, muitas , & frias como a mef-

man
Atráz da Capella de Santa Cruz íàhindo da Villa pela fua porta da Frieira
fe efconde a fonte da Duqueza, que fazendo mais cafo da humildade , que da
authoridade do nome, fe poftra por terra, & arraftaudo por eila fua corrente ,
fica occulta de maneira, que fomente fé vè nella quemdepropofito abufca*
Afaftado da Villa de Guimaraens para o Sul fica a milagrofa fonte de Sam
Guálter, aonde efte Santo fundou a primeiracaíinha para o Convento: em tudo
hè efta fõte a principai,aflim pela virtudede fuas aguas,como pela quãtidade dei-
las, & pela mageftade, com que eftá obrada. He a primeira pela virtude de fuas
aguas, porque aífim oteftificão os muitos milagres, que N. Senhor tem obrado
com quem as bebe, para diverfas enfermidades, & por iffo he efta fonte bem aft
fiftida de dévotos do feu-Santo, huns a bébella, & Outròs a lavarem-fe com ella,
pela grandefé, que temem fua muita virtude. ■ !-
- He a primeira na,quantidade de fuas aguas, porque lançando por tres bi-
cas grande oopia delias, leva ventagemàs outras fontes; &he a primeira na
mageftade, com que eftá obrada, poroue he hum tanque de pedra obrado com
grande arte, may alto, & largo, para dar lugar a tres carrancas, aonde eftão fir-
madas

? J
.,0 TOMO PRIMEIRO
mortas fna<; bicas & entre ellas,&. as pirâmides do remate hum nicho grande
nomeyo do froiítifpicio,aondeeftá recolhida aimaêei? vidoílnoldusfef-
1 ar20 terreiro cercado todo de afiemos, que he coufabem viítolanos dias ícl
tivos de Verão, aonde muitos devotos de S. Guálter fe ajuntao commuficas,
danças, querendo cada hum manifeftar com ellas deS

Eftá efta fonte ao pe do monte de S. Roque no deftndo da FregueíU deS.


Eftevãode Urguezes, & fobindo delia para oNafcente junto àsCapellas do
Bom jefus eftá huma fonte, que chamão dos Impedidos, nome, que lhe
os quenaqueUe lugar o eftiverão da pefte: he tofeana fabrica , mas excellentc

n
° g°S^HiS^eftadfontefparSaaa parte do Nafcente pela fralda da í erra dc Sama
Catherina antes de chegar à Cruzdos Serodeos, eftá outra fonte, que cha-
mto^c Dom Duarte j por cima do Morteiro de Santa Maqnha da Corta de
Fredes leronymos, que loy Univerfidade, aonde affiftfao Lentes de Humatu-
dades, Filofofia, & Theologia, & nelle eftudavão o Infante Dom Duarte , filho
delRey Dom loão o Terceiro,& o Senhor Dom Antonio filho do Infante Dom
I uis & como o dito Infante Dom Duarte fchia recrear àquella fonte, delle to-

m0U
S6aXtsSt^ nome,que tem a ViUa de Guimaraens /
porque as particulares parece impoflivel ^enutre^fontes nati-
quinta, ou cafal no feu termo, que nao tenha duas, tres , &quatrolontes

V aS
' Atèciui a deferi peão Topográfica da muito nobre Villa de Guimaraens corn
todas as noticias, que frataremoTdos Conceíhos>

à fua Comarca , & aonde entra em Correis


ção o Corregedor de Guimaraens*

CAP. XXIII.

Do Concelho de Felgueiras.

D\ lasleooas de Guimaraens para oNafcenteeftá fituado o Concelho de


Feloufiras a ouem deu foral ElRey Dom Manoel em Lisboa ais-de
outubro
nro de liiti-
5 4 ^Produz
• todos
j, excellentes
os frutos,
frutas,muita
& dá boas criaçoens
caça, & algumas
de gados,
pef-
&
egoas, pouco azeite, muitomeb exceuen ^ ^ fc principia, &

dores, òu rocurauo comixct,dous A mota


que prefideqCorregedordaGomarca,^pombciro; cinco Tabeliaens■)

^&ss£sssas^s.
,„ér'&Ouvidor. Tem feiraas primeiras fegundas fc.mdecadamcznoltu
DA COROGRAFIA l'ORTUGUEZA. 121
garde Margaride, Scconfta das Freguefiasicguintes.
Santa Eulalia de Margaride, Vigairaria dy iMofteiro de Pombeiro, que re ■
de com as primícias cem milreis, Sc para os Frades duzentos mil reis , tem cem
vifinhos-
S. Pedro de jugueíros, Curado dos mefmos Frades,rende fet e nta mil reis ;
Sc para o Mofteiro de Tibaês cabeça da Ordem duzentos 8c trinta mil reis, tem
cento & feíTentaviíinhos.
Santiago de Sandim , Abbadia do Mofteiro de Pombeiro com referva>
rende duzentos mil reis, temcincoenta vifinhos. Aqui ha huma Torre, de que
he fenhor de feus foros Gonçalo Lopes de Carvalho,fenhor dos Coutos de Ab-
ba dim, 8c Negrellos: he o folar dos fidalgos do appellido de Sandim, de que fa-
li irão os fenhores de Riba de V izella, como diz o Conde Dom Pedro. Nefta
Freguefia em hum bello valle efteveno tempo da primitiva Igreja a Cidade Em
frazia, de que foy Regulo Lenciano, cujos Paços eft ao aopè do monte Colum-
bino, que fuppofto cila pereeeo na invafaõ dos Mouros , de qiie fó ficarão me-
morias, Sc ha veftigios, permaneceo entre tantas tormentas efta regia Cala, Sc
fua grande Torre, para vir a ler não cova de coelhos, mas morada, & folar dos
fenhores defte appellido, a qual fe chama de Cirgude, que fobre fuaJ muita ren-
da, ricas terra , Sc dehciofas fontes, tem huma grande mata, em que anda boa
quantidade de galinhas bravas inellas he tradição viveo o Honrado Egas Mo-
niz, 8c que delle ficou a imagem de Chrifto crucificado , que alli ha na Capella >
tem quatro cravos, he grande de corpo, muito devota, 8c milagrofa , feftejale
com jubilto o primeiro Domingo de Agofto. Entrarão nella os fidalgos do ap-
pellido Teyxeira,em tempo delRey DomSebaftião , por cafamento de Mart ni
Teyxeira de Azevedo chefre dos Teyxeiras cõ Dona Maria Coelho de Mellò,
filha de Gonçalo Coelho da Sylva, fenhor delia, & de Felguey ras, 5c Vieira. Foy
efte Ma-timTeyxeira o mayor home de corpo,q ncfte ieculo fe vio em Europa,
8c de grandes forças-' Defte nafceo Gonçalo Teyxeira Coelho, pay de Mart im
Teyxeira Coelho, que hoje vive, todos fenhores defta cafa, inda que o folar he
na Teyxeira. Saofuas Armas em campo azul huma Cruz de ouro potente , va-
fia do campo, & por timbre meyo unicórnio de fua cor cõ o corno, & unhas dc
ouro.
Santiago de Pinheiro, Vigairaria do MofteirodeCaràmos, que rende ciu-
coenta mil reis, 8c para os Frades oitenta mil reis, tem trinta 8c cinco vifinhos.
S.ThomédeFriande, Vigairaria do Convento de Pombeiro , que rende
oitenta mil reis, Separa os Frade; cento & vinte mil reis , tem eincoenta viíi-
nhos.
S.Salvador de Moure, Vigairaria dos mefmos Frades, que rende fetenta
mil reis, Sc para o Convento de Tibaens, a que cftá applieada, cento Sc trinta ,
tem fetenta vifinhos-
S- Martinho de Caràmoshe Convento dos Conegos Regrantes de S. Ago-
ftinho, fundado pelo Conde Dom Nuno Mendes, Capitão General, Sc Gover-
nador das terras de Entre Douro Sc Minho, Sc Trás os Montes em tempo dei- -
Rey Dom Fernando o Magno, o qual fahindode Guimaraens, aonde refidia , a
expullar os Mouros das terras vifinhas, que elles andavão affolando, Sc rouban-
do, Sc encomrandofecomelles nos campos da Veiga, aonde agora eftá o Con-
vento, tiverão huma grade batalna, Sc vendo oCapitãoque os feusviravão as
coftas aos Mouros,chamou com grade fé pelo valerofo Soldado de Chrifto Saõ
Martinho,queofoccorrefTeemtão grande neccífidade. Não fe dilatou muito
' Lo Sart-
m tomo primeiro
o Santo no feu cavalIo branco , % que com aíua lança o nao Viífe o devoto Ca-
pitão ferir pelos Mouros, matandoos ; & animado com o íoccorro do Ceo,
chamou pelos feus, que fugindo , largavão ocampo , & lhes diífe : Cara ãos
Mouros , que S- Martinho he em noíía ajuda. Animados os Soldados Portu-
guezes fizerão outra vez rolho aos Mouros , &os desbaratarão, &; puzerão
em fugida,ficando com a vidoria- Em gratificação, & memoria do favor, que
S. Martinho fez ao dito Conde, elle lhe fundou no mefmo lugar da batalha húa
Igreja pelos annos de Chriího de i o68- a quem chamou S. Martinho de Cara
aosMouros, que depois os annos corrompèrão em S. Maninho deCaràmos.
No lugar de Pedrofo entre Braga, òt o rio Ave no anno de 1071* deu o nolio
Conde Dom Nuno Mendes batalha a ElRey Dom Garcia, terceiro filho do di-
to Rev Dom Fernando, a favor dos Portugueses, a quem tinha mal-tratado,
na qual ficou o dito Conde morto, & osfeus forão vencidos. Hcrdou-oíeu fi-
lho Dom Gonçalo Mendes , que efcapou da batalha , & andou aufente al-
guns tempos, atè haver feguro delRey: mas achou por melhor fazerfe Clérigo,
& edificou hum Moíieiro no mefmo lugar de Caràmos, junto da Igreja de Sam
Martinho,q feu pay fizera,& o acabou 110 anno de 1090. dotãdo-o de boa ren-
da, &nelleferecolheo com outros Sacerdotes naturaes de Braga , & Guima-
raens: com feis defies fe foy a Braga a dar conta ao Arcebifpo Dom Pedro, an-
teceífor de S. Giraldo,o qual por ter fido ConegoRegular de Santo Agoltinho,
os encaminhou a tomarem aquella Regra, & lhes foy lançar o habito aCarámos
aos 28. de A golfo, no qual dia celebra a Igreja a feílado feu gloriofo Patriar-
ca ; & os Religiofos elegerão por leu primeiro Prior ao mefmo Dom Gonçalo
Mendes, que os governou atê o anno de 1124. em queDeos o levou a 8. de
Janeiro. Succedeólhe logo hum de feus cõpanheiros o fanto Varão D.Frutuofó
Gõçalves,eleito canonican.éte,& confirmado pelo Arcebifpo Dõ Payo Mendes
em 18. de Janeiro do mefmó anno. ElRey Dom Affonfo Henriques fez Couto
a eífe Moíieiro, & a toda a Freguefia, & lhe deu o Padroado da Igreja de Con-
llantim em Villa Reab.pcreíle modo fe governou, atè que pelos annos de i 542.
reynando ElRey Dom João o Terceiro, o Cardeal Dom Hérique leu irmão mã-
dou para Adminiíhrador de fuas rendas , & daquelles Conegoc a Francifco de
Morim, Cavalleiro de fuaCafa, em quanto o não deu a Dom joão Pinto Reli-
giofo delle Convento , & fobrinho de Fr. Diogo de Murça Frade Jeronymo,
Reytor da Univcrfidade, 8c Commendatario de Refoyos de Bailo, em que o fo-
brinho lhe fuccedéra, donde o fez vir para Carâmos no anno de ifAf. dando-
Iheelle Priorado perpetuo, em que eileve doze annos, & renunciou o direito
que nelle tinha nas mãos do Papa Sixto Quinto, para que o uniíle ao Conven-
to de Santa Cruz de Coimbra; não teve logo effeito, mas confeguio feno anno
de 1594. pelo Papa Clemente Oitavo, íéndo já falecido Dom loãó Pinto a y.
dejunhode 1587. Tomarão dellepoífe osCruziosem doze deFevereiro dtí
15-95. & foy feu primeiro Prior triennal Dom João dab Neves. Neila forma
permanece com íete Religiofos: tem mais de tres mil cruzados de renda em
dízimos de annexas, & iabidos , de que pagão à Capella Real cento & cincoen-
ta mil reis, ao Collegio novo de Santa Cruz de Coimbra duzentos & cincoett-
ta, à Camara Apoílolica trinta & dous,&oito mil reis ao Seminário de Braga-
Confervãohuma relíquia de S. Martinho Bifpoíie Turon, que obra muitos mi-
lagres -.rprefentão Cura fecular, que tem cincoenta mil reis de renda com opê
de Altar. A'villa deíle Convento ,apoucadiílancía,entreoMeyodia,& Poen-
te, fé vem veíligios de fortificação antiga,que fe devia fazer para amparar eílas
terras
DA COROGRAFIA PÓRTUGUEZA, iij
terras das correrias dos Mouros- Tem cila Frcguefia noventa vifínhos.
S. Jorge da Varzea, Vigairariá do Convento d.é Pombeiro , rende ao todo
fetenta mil reis, St para os Frades cento St vinte mu reis, tem cem vifínhos.
S- Salvador de Villa Cova, dizem alguns, foy Mofteiro de Monjas de Sam
Bento 5 mas não temos noticia dè quando fe fundou, ou extinguio 5 pafiòu.à
Commenda de Chriíto, Sc he Revtoria da Mitra1,' que renderá conto St tincoen-
ta mil reis, Sc para o Commendador íetecentos Sc:dncoenta milreis, tem cen-
to & vinte vifinhos.
S- Cypriaõ deRefrónteira, Abbadiá da Mitra, fende duzentos Sc cincoeri-
ta mil reis, tem feíTcnta vifinhos. Daqui fe entende era D- Gdldorá Goídáres
de Refronteira,que jaz emBuftello, de que era Padroeira , St de quemDÓm
Gonçalo Mendez de Soufa teve a Dona Elvira, ou Marinha Gonçalves >>mulher
de Martim Pires de Aguiar, dos quaes nafceo Pedro Martins Alcoforado , Sc
por eíta viafaõos A lcoforados Padroeiros do Moíkiro de Buífello.
Santa Maria de Ayraes, Commenda de Chrifto, Sc Reytoria da Mitra, que
rende ao todo cem mil reis , Sc para o Commendador com fabidos trezen-
tos Sc oitenta mil reis, tem cento Sc vinte vifinhos. Deu-fe neítas ultimas guer-
ras à Lourenço de Morim Pereira , pelo muito que dilatou a entrega da pr açá
de Monção, que governava naquelle taõ bem defendido, Sc apertado fitio , que
os Gallegos nos puz^rão, Sc a logra hoje feu filho Dom Antonio de'Morim Pe.
reira, fidalgo da Cafa de Sua Mageftade- _ 1
S.Miguel de Varziella, Vigairaria do Mofteiro de Pombeiro , rende ao
todo noventa mil reis, Sc para o Convento de Tibaês , a quemeftá applicada,
duzentos mil reis, tem fefienta St quat-ro vizinhos.
Santa Maria de Pedrofo,Curadodo Convento de Santa Marinha da Coifa,
rende quarenta mil reis, Sc para os Frades fefienta mil reis , tem vinte Sc hum
vifinhos.
S.Veriífimo de Lagares, Commenda de Chrifto, Se Reytoria, que apreferr-
ta in folidum o Convento de Pombeiro, que rende ao todo oitenta mil reis, Sc
para o Commendador com fabidos duzentos Sc oitenta mil reis, tem oitenta
Sc feis vifinhos.
S- Pedro de Torrados foy Mofteiro, q fudou Ayres Gomes de Torrados,pa-'
drinhodelRey Dom Diniz, que foy da geraçaõ dos Cunhas , bifnetode Payo
Guterres da Cunha, que inftituío o Mofteiro do Souto : he hoje Commenda
de Chrifto, Sc Reytoria da Mitra, que rende ao todo cem mil reis, Sc para o Co-
mendador com a annex a duzentos Sc cincoenta mil reis , tem noventa vifí-
nhos.
S.Vicente de Soufa foy Mofteiro antigo, paíTou a Abbadiá fecuíar , que
aprefentavaoCondede Figueiró, rende com fabidos trezentos Sc cincoenta
mil reis, tem cincoenta vifínhos.
Santa Maria de Idaés,Abbadia da Mitra, rende coma anriexa de SantaMa-
rinha quatrocentos milreis, tem noventa vifinhos.
Santa Marinha de Ravinhade, Vigairaria annexa à Commenda de S.Pedro
de Torrado , rende ao todo quarenta mil reis , Sc para o Commendador no-
venta,tem trinta Sc dous vifinhos.
S. Martinho de Penacova, Vigairaria do Mofteiro dePombeiro, que ren-
de ao todo fefienta mil reis, Sc para o Convento de Tibaens , a quemeftá ap-
plicada, Sc Frades Dominicos de Mancelios, Sc Amarante, cento Sc cincoenta
mil rei s, tem fefient a vifinho s.
L ij Cout9
ji4 ; TOMO PRIMEIRO

Couto de cPombeiro.
. . ' i l • ' -i J J • "
y - f »ri' 1/ - 'f
SAnta Maria de Pombeiro he Moíieiro de Frades Bentos, íituado ao pè do
monte Columbino perto do rio Vizeila para a parte do Meyo dia , huma
. legoade Guimaraens,juntQ da eítrada, que vay defla Vilia para a de Amarante,
& para a Provincia de Trás os Montes. Teve duas fundaçoens, a primeira era
hum lugar perto do rio, a que mda hoje chamaõ o Sobrado , donde tomou o
nome o Moíkiro, que eilava ao pè de hum monte que chamaõ de Santa Cruz,
porter no feu cume huma Ermida do meímoOrago. De lua primeira fundaçaõ
naõha clareza, por fenaõ acharem no feu Cartorio papeis, que a declarem ; &
iç fe acha hum prazo cm pergaminho antiquiílimo , que o Dom Abbade dclle
Frey Hugo fez a Domingos Annes de Val-melhor das Bouças de PayoCapello
no anno do Senhor de j66- a que hoje chamaõ Val-melhoraao corrupto de Val-
de-melhor- Também fe acha hum Breve do Papa Leaõ IV. paffado a 9• de Fe-
vereiro do anno de Chriflo de 855» para certas demandas , que os
Rêligiofos delle traziaõ com os Ricos homens Padroeiros feus , por lhes nam
quererem pagar as comedorias, & penfoens coílumadas, & ainda nos annos re-
feridos exiítia na fua primeira fundaçaõ com o nome de Sapta Maria do Sobra-
do.
A fegunda fundaçaõ deíle Moíieiro fe fez pouco mais abaixo da primeira
em hum íitio baixo cercado de montes com pouca vifta, porque fó para a parte
deGuimaraenstem húa aberta mais eílendida,q lhe fezorio Vizeila coma fua
ribeira. Foyfeu fundador ElRey Dom Fernando o Magno pelos annos do Se-
nhor de 1041 • & foy a fegunda coufa de todas quantas fundou, Sc o deu a feu
fobrinho o Conde Dom Gomes de Cella nova, a quem o Conde Dom Pedro no
feu Nobiliário tit. 2 2 • faz caiado com Dona Sancha Gomes Echigas; mas o Pa-
dre Frey Fclippe de Laganderano feu livro dos Triumphos , & feitos herói-,
cos dos filhos deGalliza c. 12. n-8. diz q o Conde D. Nuno de Cella nova fo-
ra caiado com a Condeça Dona Velafquita, filha do Conde Adulfo , & que de-
pois de viuva fe metera Freyra- Eíle Conde Dom Nuno foy Conde do Porto,
& por morar em Cella nova fe chamou aílim3 foy da familia dos Soufas , & por
iflfo eftes foraõPadroeiros muitos annos deiíe Moíieiro,a quem o feu fundador
ElRey Dom Fernando o Magno poz. o nome de Santa Maria de Pombeiro : he
Cafa grande, em que muitas vezes houve Coliegio; antes que cntraífe em Ab-
bades da fua Congregação, andou muitos annos em Commendatarios da fami-
lia dos Mellos & Sampayos , & foy o ultimo delles Dom Antonio de Mello &
Sampayo pelos annos de 1 f 28. atè ode 1560.
Por morte do Commendatario Dom Antonio de Mello & Sampayo pedio
a Rainha Dona Catherina (que por falecimento de feu marido ElRey Dom Joaõ
o Terceiro governavaeíleReyno) ao Papa Paulo IV. o'Moíieiro dePombeira
para o reformar, & concedendolhoelle,foraõ tantas aspetiçoens, que fefize-
raõàditaRainha,qaobrigàraõatornalloapedir aS-Sâtidade para oSenhor D.
Antonio,filho do Infante Dom Luis, Duque de Beja; mas o Papa lembrandofc
que ella lho tinha pedido para o reformar , lhe refpondeo que já que o naõ re-
formava, o queria dar a hum feu Nepote, que foy S. Carlos Borromeu , o qual
poíTuindo-o pouco tempo , o renunciou com penfaõ de tres mil cruzados no
dito fenhor D- Antonio pelos annos de 1564. & por fua morte entràraõ os
Pre-
D A COROGRAFIA PORTUGUEZA. itj
Prelados da Reformação, fendo o Mofteiro governado primeiro por Priores,
& depois por Abbades; & o prime ronque foy eleito no anno de 1570* para o
governo deite Convento de Pombeiro debaixo da obediência de hum Cerai >
foy o Padre Frey jeronymode Guimaraens ; & çontinuàraÕ os Priores no go •
verno delle atè o anno de 1590. em que entrou por primeiro Abbade o Padre
Fr. Bernardo de Braga- _ . -
De todas as obras antigas, & fabrica deite Mofteiro fo permanece a Igre-
ja, que he grande, & fermofa ; tem huma grande imagem de N. Senhora 5 he muy
antiga, & foy tammiraculofanaquelles primitivos annos , que os grandes Ca-
pitaens, quando hiaõ para a guerra, fevinhaõ valer delia, & voltavaõ a darihe
os agradecimentos com os defpojos das vitorias, que ganhávaõ , & por elre
refpeito fe appellidou o Convento de Noífa Senhora. Sobre a porta principal
tem hum prande efpelho, que terá em circuito de noventa atè cem palmos , «Sc
por remate da parede tem hum Leaõ rompente. Defronte deita porta citava
hua Gallilé dc tresnaves muy alta,& fermofa,toda de abobeda,& eíquadria na
qual eítavaõ por ordem abertas todas as Armas da nobieza antiga de Pcitu-
gal: de modo que quando havia alguma duvida ibbre eíta materia, a Gallile de
Pombeiro, & armas, que uella eítavaõ, ferviaõ de juiz. Toda eíta fabrica com
as injurias do tempo veyo ao chaõ, & fe perdeo eita grandeza particular de Põ-
beiro. No anno de 1568. quando o Cardeal Dom Henrique íe mandou infor-
mar dos Morteiros de S. Bento, que havia, ainda fe faz menção deita Gallilè,mas
iá muy damnificada-
Todo o mais Mofteiro, ôtofficinas delle fe fizerao de novo do tempo da
Reformação atè o prefente: tem tres dormitórios em quadro , hum com as ja-
nellas para o Nafcente, outro para o Mey o dia, & o terceiro para o Poente com
cellas altas, & baixas. Da parte do Norte o fica amparando a Igreja. Aos la-
dos da porta principal delia fe fizeraõ duas torres, em que eítaõ os finos, &c re-
lógio,todas de cantaria muy bem lavradas com feus curucheos, «Sc remates,obra
muy perfeita. Tem huma clauítra muito grande, de columnas muy grofias, cõ
fermofa galariano andar de cima- Em hum lanço da melma clauítra eíta o re-
feitório , &cafa do Capitulo, tem mais huma Sancnftia nova, ornada com
exce llentes payneis, & bons ornamentos, & huma grancic cerca , toda mui ada
de pedras & cab que confia de vinha, pomares, hortas, campos , & terras de
paõ, pelo meyo da qual corre hum ribeiro de agua, que a faz muy fecunda.
Aprei então Dom Abbade deite Mofteiro Cura fecular, que tera de renda
ao todo íetenta mil reis, &para os Frades duzentos & cincoenta mil reis,
tem cento & vinte vifmhos,& refidemnefte Convento vinte & quatro Frades,
que fe fuftentaõ dos dizimos das Igrejas annexas,& fabido ■, que importaram
tres mil & quinhentos cruzados- Tem Couto no civcl , no crime he de Fel-
gueyras: o Dom Abbade ferve de Ouvidor, faz Juiz, Procurador, & Portei-
ro por eleição do Povo. . . " . . ,
He fenhor de Felgueyras Antonio Luis Pinto Coelho , cujavaronia he a

^Alvaro Vafqucs Guedes foy filho de Gpnçalò Vaz Guedes, fenhor de Mur-
ça: cafou com Dona AnnaIfabeldeMefquita,filha deFernaõde Mefquita,que
inftituío o Morgado da Sobreira 110 termo de Souzei, Sede fua mulher Joanna
de Lucena, de que teve, entre outros filhos, a . i

Gonçalo Vafques Guedes, que cafou com Dona Maria Pereira > filha de
Nuno Alvares Pinto , & de fua mulher Dona Maria Pereira de Sampayo , de
L ílj
126 TOMO PRIMEIRO
que teve., entre outros filhos, a
Francifco Vaz Pinto, que caíòu com Dona Maria de Valença, filha de Frã-
cifco de Valença, fidalgo Caílelhano, natural de C,amora, & defua mulher Ma-
ria de Burgos, de que teve, entre outros filhos,a
Gonçalo Pinto, que foy Alcayde mór de Bailo,ôtinílituío oMorgado de
Retaens de Bailo: cafou com Beatriz da Cunha, filha de jeronymo da Cunha,
& de fua mulher Dona Leonor Taveira, de que teve, entre outros filhos, a
Francifco Pinto da 'Cunha, que toy Alcayde mór de Cerolico de Bailo, &
Commendador de S. Salvador de Forges na Ordem de Chriílo: cafou com Do-
na Fràncilca de Noronha, filha herdeira de Ayres Gonçalves Coelho , fenhor
de Felgueyras, & Vieira, & delia antiga Caía, que deu EIRey Dom Joaõ o Pri-
meiro a Gonçalo Pires Coelho de juro , & o Couto de Canellas no anno de
1436. & de íua mulher Dona Maria de Noronha,filha de Francifco de Abreu, fe-
nhor de Regalados, de que teve,entre outros filhos, a
Antonio Pinto Coelho, que foy fenhor de Felgueyras , & outras terras,
cafou com Dona Francifca de Ataíde, filha de Dom Antonio de Almeyda, Com-
mendador de S. Martinho da Soalheira, & da Bempoíla na Ordem de Chriílo,&
de fua mulher Dona Magdalena de Ataíde, de que teve, entre outros filhos, de
que abaixo faremos mençaõ, a
Joaõ Pinto Coelho, que foy fenhor de Felgueyras , & das mais terras de
feus avôs, cafou com Dona Mariana Francifca Pereira da Sylva, filha única, &
herdeira de Fernaõ Pereira da Sylva,fenhor de Fermedo,õt Cabeceiras de Bailo,
& de fua mulher Dona Maria da Sylva, por cujo cafamento herdou a antiga Cafa
dos fenhores de Fermedo, que defccnde por varonía de Alvaro Pereira, tercei-
ro Marichal de Portugal no tempo delRey Dom |oaõ o Primeiro, & tronco da
Cafa da Feira: teve da dita fua mulher os filhos leguintes-
Antonio Luis Pinto Coelho, de quem logo fadaremos,Jofeph Pinto Coe-
lho, Gonçalo Pinto Coelho, Francifco Pinto Coelho, Lourenço Pinto Coelho,
que morreo menino, Dona Francifca Joanna de Ataíde , que cafou com Joaõ
Pinto Pereira feu tio, fenhor do Bom Jardim , & Dona Joanna Manoel de Vi-
lhena, Freira em S- Bento do Porto.
Antonio Luis Pinto Coelho he Senhor de Felgueyras, Vieira, Fermedo, &
outras terras: cafou com Dona Anna Maria de Noronha, filha de Luis de Soufa
de Menezes, Copeiro mór, & de fua mulher Dona Mariana de Noronha,filha de
Dom Sancho Manoel, primeiro Conde de Villa Flor, de que teve a Joaõ Pinto
Coelho, Fernaõ Pereira, que morreo menino, & a Dona Mariana : cafou fe-
gunda vez com Dona Mariana da Sylveira & Noronha,fua fegunda prima, filha
de Mar tim Teixeira Coelho, fenhor de Teixeira, & de fua mulher D. Anna Ma-
ria de Mefquita & Sylveira, de que tem duas filhas.
Antonio Pinto Coelho, que foy fenhor de Felgueyras, & cafado com Do-
na Francifca de Ataíde, teve filhos a Joaõ Pinto Coelho , de quem acima fize-
mos mençaõ, Francifco Pinto da Cunha, Jofeph Pinto Coelho , Dona Magdale-
na Joanna de Ataíde, que cafou com Fernaõ Pereira da Sylva , fenhor de Fer-
medo, fogro de feu irmaõ Joaõ Pinto Coelho, de que naõ teve fucceífaõ, & por
fua morte cafou fegunda vez com feu primo Antonio Luis Vaz Pinto Pereira:&
a Dona Mana Luiza Antónia de Portugal, que cafou com Manoel Guedes Pe-
reira, Commendador na Ordem de Chriílo, Alcayde mór de Condexa , & EL
crivaõ da Fazenda de Sua Mageílade, ( o qual era filho de Francifco Guedes
Pereira, Efcrivaõ da Fazenda de Sua Mageílade, & Alcayde mór de Condexa,
&de
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. tit
& de fua mulher Dona Maria de Azevedo) de que teve a Antonio Guedes Pe-
reyra, que he Commendador na Ordem de Chrifto, Alcayde mór de Condexa,
& Efcrivaõ da Fazenda de Sua Mageftade, a ]oaõ Guedes Pereira, Luis Guedes
Pereira, Jofeph Guedes Pereira, Manoel Guedes Pereira , Dona Franciíca Joa-
na de Ataíde, Dona Maria Therefa de Portugal, Dona Therefa Joanna de Por-
tugal, Dona Joanna Therefa de Portugal, &Dona Inez Antónia de Portugal,
todas Religiofas no Mofteiro de Santa Clara ac Lisboa.

CAP. XXIV.

T>o Concelho de ZJnhao.

JUnto do Concelho de Felgueyras para a parte do Sul cõtinúa o de Unhaõ,


^Concelho rico, & abundante de todos os frutos, muito gado, caça, & peixe
do rioSoufa. ElRey Dom Manoel lhe deu foral aos 20. de Março de 15 1 y.
tem Jujz ordinário, dous Vereadores, & Procurador do Concelho feitos por
eleição triennal do povo, a que prefide o Corregedor de Guimaraens, Almota-,
ceis, dous Tabeliaensdo Judicial, & Notas, Efcrivaõ da Camara , & Almota-
çaria, outro das Sizas, Distribuidor, Enqueredor, & Contador, Meirinho,que
he Carcereiro, hum Efcnvaõdos prazos , & execuçoens do Conde lomente,
luiz dos OrfaÕs,& Efcrivaõ, todos data do Conde, que poem Ouvidor , para
quem fe appella, com Efcrivaõ. Aqui fizerao os fenhores deft e Concelho huma
fermofa cafa na melhor terra defta Provinda, aonde elles tem hua pequena pro-
priedade, a melhor coufadeftas partes , que alémidas mintas hervagens , da
feifeentos alqueires de trigo, que pela conta de Lisboa 1 aõ dez moyos; & a Ca-
fa he das mais ricas de Portugal. Confta o termo das F reguefias feguintes.
S. Salvador de Unhaõ, Commenda de Chrifto, & Rey tona da Mitra , que
rende cem mil reis,& trezetos & cincoenta mil reis para o Comendador , te cem
vifinhos. Em hum alto monte, que chamaõ de Santo Eufebio , aquelle famofO
Presbytero, & ConfeíTor Romano, que morreo pela Fé de Chrifto , eítá huma
Capella defte Santo, & à roda fe vem veftigios de fortificação, que fervio aos
Chriftaõs na expulfaõ dos Mouros.Nefta Freguefia eftaô os Paços do Cõde.
S. Chriftovaõ de Louredo, Abbadia da Mitra, rende cem mil reis, & tem
quarenta & cinco vifinhos. .
S. Fins, Vigairariado Mofteiro de Pombeiro com dízimos da Aldeã de
Paços, rende cem mil reis, & para os Frades deTibaés , aqueeftá applicada ,
trezentos mil reis: tem cem vifinhos. Aqui eftaa Qiiinta^Sc Paço de Soufa^ fo-
lar da illuífrefamilia de Soufas^quede prefentehe de Fernão dcSoufa, íenhor
de fiouv ea do T amega- j s :
Santa Marinha da Pedreira, Abbadia da Mitra, rende trezentos & emeoe-
ta mil reis,tem cento & doze vifinhos.
Santiago de Rande, Abbadia da Mitra, rende duzentos mil reis , tem cin-
coenta & cinco vifinhos. ^
S. Joaô de Cernande, V igairaria , que aprefenta o Reytor de Unhão, de
quem he annexa, tem trinta vifinhos. .
S. Mamede de Villa Verde, Vigairaria do Convento de Pombeiro, que ren-
de cincoenta mil reis, & para o Mofteiro de Tibaés, a que eftâ applicada, cento
ii8 TOMO PRIMEIRO
ôccincoenta mil reis, tem quarenta & cinco viíinhos.
Santa Maria de Arentey, Vigairaria do Morteiro de Caramos , tem vinte
&tresvifinhos- ■ _ _
S. Joaõ de Macieira, Vigairaria das Freyras de Villa do Conde , tem qua-
renta viíinhos.
Santa Chriftina, Vigairaria, que aprefentaõ as meímas Freyras , tem cin-
coenta & cincò viíinhos. Ha neíle Concelho feira todos os mezes.

Honra de zZMejnedo.

ESta Honra fe compoem de parte da Freguefia, & Couto deífe nome em Pe-
nafiel de Soufa com que parte, & com Unhaõ : faz o povo juiz, & o íenhor
.delia aprefenta Efcrivaõ, que ferve de tudo. He íenhor delia , & Conde de
Unhaõ Rodrigo Telles de Cartro & Menezes , cuja illuítre varonia he a íe-
guinte.
Gonçalo Gomes da Sylva foy Rico homem em Portugal, Alcayde mór de
Montemór o Velho, Embaixador a Roma, primeiro fenhor de Vagos, & Unhaõ,
Tentúgal, Geftaço, Sinde, Buarcos, & outras terras: cafou com Dona Leonor.
Gonçalves Coutinho,filha de Gonçalo Martins da Fonfeca Coutinho , íenhor
do Couto de Leomil, & de Dona Joanna Martins de Mello, & foy feu primeiro,
filho Joaõ Gomes da Sylva Rico homem, & legundo fenhor de V agos, Unhaõ,&
mais terras, Alferes mor, & Copeiro mór delRey Dom joaõ o Primeiro, & do
feuConfqlho, Alcayde mór de Montemor o Velho, & Embaixador a Cartella ;
cafou com Dona Margarida Coelho, filha de Egas Coelho , 'primeiro fenhor da
Villa de Montalvo, Mertre-fala delRey Dom Joaõ o Primeiro de Portugal, & de
Dona Mayor AffonfoPacheca, &foy feu primeiro filho Ayres Gomes cia Sylva,
quefoy terceiro fenhor de Vagos, & Unhaõ, & mais terras , Alcayde moi de
Montemór o Velho, & Regedor da Jurtiça, o qual cafou fegunda vez com Do-
na Brites de Menezes, filha de Dom Martinho de Menezes^ íegurjdo fenhor de
Cantanhede, & de Dona lhereía Vafques Coutinho ,, da qual teve a Joaõ da
Sylva, que foy quarto fenhor de V agos , & continua a lua linha até o prel ente
Conde de Aveiras, & a FernaÕ Telles de Menezes , que foy quarto fenhor de
Unhaõ, (em quemfefeparouertaCafa da de Vagos ) & fenhor de Meynedo,
Sepaés,& Ribeira de Soàs, Cornmendador de S- Salvador de Ourique na Or-
dem de Santiago , & Mordomo mór da Rainha Dona Leonor, mulher delRey
Dom Joaõ o Segundo: cafou com Dona Maria de Vilhena , que foy Camareira
mór da dita Rainha Dona Leonor , filha de Martim Aífonfo de Mello, Alcay-
de mór de O ivença, & Guarda mór dos Revs, Dom Duarte , & Dom Aífonfo o
Quinto, & de fua mulher Dona Margarida Coutinho de Vilhena , íenhora de
Ferreira de Aves, da qual teve, entre outros filhos, a ^ ®
Ruy Telles de Menezes, que foy quinto Senhor de Unhaõ, Mordomo mór
da Rainha Dona Maria,fegunda mulher delRey Dom Manoel, & depois Mor;
domo mór daEmperatriz Dona Ifabel, mulher do Emperador Carlos Quinto:
cafou çom Dona Guiomar de Noronha, filha deDomPedrode Noronha,^ Com-
mendadormór da Ordem de Santiago, Mordomo mor delRey Dom Joaõ o Se-
gundo, & fenhor do Cadaval, & de fua mulher Dona Catherina de Tavora, da
qual teve, entre outros filhos, a
Manoel Telles, que foy fexto fenhor de Unhaõ , & cafou çom Dona Mar-
garida
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA tip
garida de Vilhena, filha dc Dom Fernando de Caftro o Magro , Capitaõ da Ci-
dade de Évora, & de fua mulher Dona Maria de Vilhena,da qual teve,entre ou-
tros fiíhos, a
Fernâõ Telles, que foy feptimo fenhor de Unhaõ, & caiou com Dona Ma-
riana de Caftro, filha de Dom jeronymo de Noronha o Bacalhao, Capitaõ de Ba-
çaim, & de Dona Maria de Caftro, da qual teve a
Ruy Telles,que toy oitavo fenl.or de Unhaõ, & cafou com Dona Maria-
na da Sylveira,filha herdeira de Vafco da Sylveira, Commendador de Arguin,
& de Dona Ines de Noronha, da qual teve a
Fernaõ Telles de Menezes, que foy nono fenhor , & primeiro Conde de
Unhaõ por mercê delRey Dom Felippe o Terceiro, feita no anno de i £30. ca-
fou com DonaFrancifca de Caftro, Dama da Rainha Dona Ifabel de Borbon, fi-
lha de Dom Martim Affoníb de Caftro, Vífo-Rey da índia, & de Dona Marga-
rida de Tavora, de que teve a
Dom Rodrigo Telles de Caftro & Menezes, que foy decimo fenhor , &
fegundo Conde de Unhaõ: cafou com Dona J uliana Maria Maxima de Faro, fi-
lha herdeira de Dom Dim#, fegundo Conde de Faro , & de íua, mulher Dona
Magdalena de Alencaftre, de que naõ teve filhos : cafou fegundavez com fua
pr ima Dona Joanna de A lencaftre, filha de Dom Rodrigo de Alencaftre, Com-
mendador de Coruche, & de fua mulher Dona Ines de Noronha , da qual te-
ve a
Dom Fernaõ Telles de Menezes Caftro & Sylveira , que foy undécimo
fenhor, & terceiro Conde de Unhaõ: cafou com Dona Maria de Alencaftre, que
hoje he Marqueza de Unhaõ, & Aya dos Principes,filha de Dom Martinho Maf-
carenhas, Conde de Santa Cruz , & de fua mulher aCondeça Dona Juliana de
Alencaftre , da qual teve a Dom Rodrigo Telles Caftro Menezes & Sylveira,
que he duodecimo fenhor, & quarto Conde de Unhaõ , cafado com Dona Vi-
ttoria de Tavora, filha de Miguel Carlos de Tavora Conde de S. V icente, & da
CondeçaDona Maria Caietana fua mulher.

CAP. XXV.

Do Concelho de Santa Crw^de Riba Tamega.

DO Concelho de Unhaõ para a melma parte do Sul fe continua o de Santa


Cruz de Riba Tamega, que toma o nome de huma Capella defta invoca-
ção, que eftá no alto do monte aonde chamaõ os Caítellos de SantaCruz , &
moftraõ ruínas, de que os houve. He fenhor defta terra o Conde de Sabugal,
tem Juiz ordinário feito pelo povo, dous Vereadores , & Procurador do Con-
celho, confirma-os o Conde, que tem Ouvidor , quatro Tabeliaens do Conce-
lho, & Coutos, Juiz dos Orfaõs, & Efcrivaõ, todos data do Conde , Efcrivaõ
da Camara, & Almotaçaria, outro das Sizas, Meirinho, que he Carcereiro,Dif-
tribuidor, Enqueredor, & Contador 5 eftes aprefenta EIRey. Tem feira todas
as primeiras quintas feiras do mez,&aos treze, & huma de beftas em dia deS.
Antonio. Tem paõ, vinho, caftanha/c caça, com muitos gados. Compoenvfe
das Freguefias feguintes.
xjo tomo primeiro :■ :

S. Martinho de Recezinhos, Abbadia do Morteiro de Bortello còm referva,


rende quatrocentos mil reis, tem cento & cincocnta viíinhos- Aquieftaõ os
Morgados dos Ferreyras inrtituidos em tempo delRey Dom Affonfo o Quarto
por Dona Mayor Lourenço, que ertá emMancellos,& foy mulher de Louren-
ço Annes Redondo, deixou-os a féu fobrinho Martim Annes Farízeu, pay de
Mayor Martins, Morgada de Cavalleiros, a que fe unio. Ha mais a Quinta do
Paço de Leiros, quepoffue Manoel de Soufa da Sylva,por defcendente de Mar-
tim Gonçalves Alcoforado, que viveo no principio do Reynado delRey Dom
Joaõ o Primeiro, que também lhe deu o fenhorio derte Concelho.
S.Mamede de Recezinhos, Abbadia que aprefenta Manoel Ferreyra d'Eça,
Morgado de Cavalleiros, rende trezentos mil reis, tem dento & vinte feis viPi-
nhos--
S. Salvador deCaftellaõs de Recezinhos, Abbadia que aprefenta o Con-
de de Sabugal, rende duzentos & cincoenta mil reis, tem cento & quinze viíi-
nhos.
S. Pedro de Ataíde, Abbadia do Ordinário , tem trinta & oito viíinhos.
Aqui ertá a Quinta, & Cafade Ataíde, em que houve Torre, que fe desfez , &
he illuftre folar defta illuftre familia , defcendente por varonía de Dom Moni-
nho Viegas o Gafco, que ganhou o Porto , da qual he fcnhor Dom Manoel de
Azevedo & Ataíde , de que fallaremos na Comarca do Porto- Dom Martim
Viegas de Ataíde foy o primeiro que aflim fe appellidou , por fer fenhor deftá
Torre, & Cafa, do qual defeendem > & tem o appellido as tres Cafas titulares
dos Condes de Atouguia com varonia de Camaras, & asdaCaftanheira,$c Câ£
trode Ayre,hoje unidas,& a Alcaydaria mór de Guimáraens naCofidéça Dona
Mariana'de Ataíde, mulher do Conde Simão Correa da Sylvâ,que por ella te^
veerta Cafa, & titulo , &outròs Morgados. Tem por Armas em campo azul
quatro barras de prata atraveífadas à efguelha, levantadas da parte dircita , &'
baixas da efquerda, timbre huma onça azul banhada de prata, como que falta- E
toda efta Fregueíia foy Honra dos Ataídes-
Santa Eulalia de Conftance, Abbadia do Ordinário , que rende aoAbba-
de, que leva fó huma terça, cento & vinte mil reis , &paraasFreyras daCarta-
nheira duzentos mil reis, das duas terças que lhes eftaó unidastem noventa &
feis viftnhos. Aqui ertá a Quinta do Paçç de Soutello, que foy da Rainha Dona
Mafalda, fui idadora da ponte, & do Hofpital de Canavezes. Todas eftas Fre-
guefias derte Concelho íaõ do Bifpado do Porto: as que fe feguem, pertencem
ao Arcebifpado de Braga-

Couto de dAíancellos.
\ , -

SAm Martinho de Mancellos com feu Couto, & jurifdição , que inrtituirant
Men Gonçalves da Fonfeca,&fua mulher Dona Maria Paes de Tavares no
anno do Senhor de 1120. & o deraõ aos Conegos Regulares de Santo Agofti-
nho, que o poifuíraõ atè o de 1 em que ElRey Dom Joaõ o Terceiro o deu
aos Religiofos de S- Gonçalo de Amarante da Ordem de S- Domingos por doa-
çaÕ, que confirmou o Papa Paulo Terceiro por Breve paíTado no anno de M4.2.
He Vigairaria fecular do Ordinário, rende cento & trinta mil reis , & para os
Frades com as annexasem Cerolico, cinco mil cruzados* Aífiftem nelle cinco
Religiofos com hum Vigário- Tem efta Fregueíia duzentos viíinhos.
Cou-
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. 131

Couto de Travança,

SAm Salvador de Travanca, Mofteirode FradesBentos>he Couto, em que


os Abbades faõ Ouvidores A aprefentão Juiz no ciVel , A Imotacel, Por-
teiro, & Coudel, Efcrivaens faõ Os do Concelho. He Caía grande, & rica,aon-
de houve Collegio por muitas vezes: foy fundado por DoínGarcia Moniz o
Gafco, que matàraõ os Mouros na conquiftàdeRibado Douro, filho fegundo
de Dom Moninho Viegas o Gaíco,nô anno do Senhor de 1008. Governoufe mui-
tos annos por Abbades, & todos lenhores grandes, como foy Rozindo Moniz
defcendente de feus fundadores, k pelos annos mais adiante Dom Joaõ de Ca-
li ro, filho de Dom Diogo de Caftro , íenhor das tçrrasHde Lanhofo , k Santa
Cruz Alcaydemór de Sabugal, ScAlfavates. Teve também Commendatarios,
& foy ultimo o fenhor Dom Fulgêncio^ filho quarto do Duque Dom Jay mes, &
dc fua fegunda mulher Dona Joanna de Mendoça, em cujo tempo o noífo Car-
deal Rey Dcm Henrique a fez renunciar com penfaõ de mil cruzados , & foy
feu primeiro Abbade triennal Fr.Domingos Teyfíeira,Religiofo de grande vir-
tude- Refidem neile Mofteiro vinte Frades: tem Cura fecular com feífenta mil
reis de renda, k toda a Freguefia conda de trezentos v ífinhos.
S. Salvador dc Real, Abbadia do Mode iro de d ravancacom referva,ren-
de trezentos & cincoenta mil reis, tem cento St feífenta vifinhos.
S. Romaó de Carvalhofa, que algum tempo fe chamou da Ermida, Vigaira-
ria, que aprefenta o Convento de S. Gonçalo de Amarante, a que he unida, ren-
de ao Vigário trinta mil reis , & aos Frades cem mil reis , tem feífenta &
cinco vifinhos. Aqui edá a Quinta, k Paço de Carvalhofa, folar dedà família,
de que fe acha noticia pelos annos de 1273. tem dado algumas peífoas grandes,
particularmente emletras: fuas Armas faõ em campo azulhum molho de palhas
de ouro, com efpigas do mefmo, entre quatro torres de prata lavradas, timbre
dous braços armados, que fahem do elmo com o molho de palhas nas maõs; k fe
entende que a quinta de Palhavã tomou efte nome , por haver fido dos deft a
família-
Santa Eulahà do Banho, a que vulgarmente chamaõ Santa Vaya , Vigaira-
ria do Mofteiro de Travanca, tem trinta vifinhos. Aqui eftá a Quinta da Tor-
«e, nome que tomou de huma antiga, que tem hoje ; tudo do Meftre de Cam-
po Matthèus Mendes de Carvalho, fenhor da Gafa de Villa-boa de Quires-
S. Joaõ de Louredo, Abbadia da Mitra, rende duzentos mil reis , tem fe-
tcnta& cinco vifinhos. •.
Santiago de Figuêiró,Vigairaria, queaprefeiitaoReytOr deVilía-cova ,
de quem he annexa, rende oitenta mil reis, & para a Commenda cento & quin-
ze, tem noventa vifinhos. A qui eftá outra Caía,k Quinta da Torre, também
folar antigo, que dizem o era dos dOappellido de Figueiró-
Santa Chriftina de F igueiró, Abbadia da Mitra , rende duzentos k ciiv
coenta mil reis> tem cento k trinta vifinhos-
S. Pedro de Gaíde, Commenda de Chriftõ, k Rcytoria , çjue aprefenta o
Conde de Sabugal, que rende cem mil reis, k parao Commendador trezentos
mil reis, tèm cento & fetentá vifinhósi
Santo Ifidóro, Abbadia do Ordinário , rende duzentos & cincoenta mil
reis, tem cento & doze vifinhos-
• Santa
■Mwvwvvmwnvv

t*% TOMO PRIMEIRO


SantaChriftina dc Toutofa, Abbadia da Mitra, rende fetenta mil reis , té
fete vifinhos- ~.
S' Juliao de Paços, ou Pacinhos, Curado do Moífeiro de Travanca , que
come o> frutos, tem doze vifinhos.
S-Veriífimo de Amarante foy Commenda delRey antes que a delie aos
Frades Dommicos de S. Gonçalo, he Parochia da Villa, Curado dos ditos Fra-
des, que rende noventa mil reis, & para os Religiofos com a annexa de Pad or-
nello em Gedaço duzentos & cincoenta mil reis, tem quinhentos vifinhos, por
entrar nella a Villa de Amarante. ,
Noffa Senhora de Fregim, Commenda de S. Joaõ de Malta, Vigairaria com
o habito, rende cento & vinte mil reis, & para o Commendador, que o aprclcn-
ta com a annexa, que fe legue, quinhentos mil reis, tem fetenta & feis vifinhos.
Aquihahuma imagem de Noíía Senhora, que por mais diligencia , que fizeraõ
antigamente, achandoa acalo a.lli , nunca puderaõ acabar com ella paraífe cm
huma Capella, que lhe obràraõ, & fe tornava para onde eftà huma grande olaya;
razaõ porque no mefmo íitio fe fez a Igreja Parochial, & inda hoje permanece a
olaya por íérvir de fombra à Senhora, como o Terebinto, debaixo do qual hol-
pedou Abraham os tres mancebos em o valle de Mambre.
Santo Adriaõ deSantaõ anne*a/de Fregim,Vigairarià com o habito de
Malta, rende cem mil reis, tem feffenta & feis vifinhos.
Santa Maria de Villar, Abbadia do Ordinário, deque levaõhuma terça os
Padres da Companhia de Braga, que lhes rende cincoenta mil reis , & cento &
feffenta mil reis para o Abbade tem fetenta vifinhos. Aqui eítá a Torre de
Villar.
S. Joaõ de Ayaò, V igairaria que aprefenta o Rey tor da Lixa, rendelhe íel-
fenta mil reis: os 1dízimos andaõ com a Commenda, tem cem vifinhos.

Honra de Filia Cahis*

Cinco legoas de Guimàraens áo pé das ferras de Abobreira , & do Monte


de Muroeftá a Honra de Villa Cahís, aquém deu foral ElRey Dom Ma-
noel em Lisboa oprimeirode Setembro de 151 y tem huma Parochia da mvo-
' caçaõde S. Miguel, Abbadia que aprefenta olenhor defla terra, je tres ermi-
das. Produz algum trigo, & azeite,Sc he abundante de águas,& dc vinhos ver-
des. Foy dos fenhores de Unhaõ,ôc Ayres Gomes da Sylva avendeo por cen-
to & vinte mil reis a Gomes dá Sylveira, que cafou com Iíabel Pinheira, dos Pi-
nheiros de Barcellos, de que teve entre outros filhos a Leonardo da Sylveira^
quefoy.fegundo fienhor deita Honra, & cafou com lfabel Teyxeira daCafa de
Cirgude, de que teve, entre outros filhos, a i ;
Antonio da Sylveira, que foy terceiro fenhor da Honra de Cahis, & calou
com lfabel Brandaõ, da qual teve, entre outros filhos,a
Francifco da Sylveira, que foy quarto fenhor da Houra de Cahis, & cafou
com Dona Maria de Leaõ Barbofa, da qual teve, entre outros filhos, a
Luis da Sylveira, que foy quinto fenhor da dita Villa, Sc calou com Dona
Maria Teyxeira de Caltellobranco, da quâl teve os feguinte s filhos.
Francifco da Sylveira, que foy fexto fenhor da dita Honra de Cahís, Sc ca-
fou com Dona Mana Cecilia de Aguiar & Albuquerque , filha de Antonio de
Carvalhal, St de fua mulher Vítona de Aguiar Cabral, moradores no lugar de
Alea-
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA 133
Alcanhoensna quinta deHorta Lagoa, da qual naó teve filhos.
Frey Antonio da Sylveira,Religiofo de S- Domingos , que hoje vive ro

C0I
Frey Martinho da Efperança, que foy Frade de S. Franciíco.
Lu is Teyxeira da Sylveira, que foy Abbade da Villa de Cah 1 s.
Dona ]ofepha,&Dona Joanna Freiras de S-Clara de Amarante.
Tem efta Villa duzentos viíinhos, & rende ao fenhor delia trezentos mil
reis, com huma fingular prerogativa por Breve Apoftolico de eftar o Santillimo
Sacramento na Capella das cafa&do Donatário,& a aprefentaçao dos officios, &
Padroado da Igreja rendemaisde trezentos milreis ; vagou para aCoroa no
anno de 16 73 por morte do ultimo DonatanoErancifco da Sylveira, que mor-
reo fem filhos, & fez delia mercê, entre outras, EIRey Dom Pedro o Segundo a
Roque Monteiro Paim, cujavaronia he a feguinte.
Martim Affonfo Monteiro foy filho de Affonfo Monteiro, & netodeNuno
Martins Monteiro,bifneto de Martim Paes Monteiro, terceiro neto de Payo
Monteiro, quarto neto de E gas Monteiro, quinto neto de Ruy Monteiro, que
foy natural de Penaguião, & alem dos bens, que poffuio no dito Concelho, te-
ve o Padroado de Santa Ovaya de Andufe no Reynado delRey Dom Affonfo
•Henriques: teve o dito Martim Affonfo Monteiro de fua mulher a Fernão h
tins Monteiro, que viveo algum tempo na Cidade dò Porto, & nella foy erea-
dor no anno de 14.Ç4. & Juiz ordinário no de 14.70. foy criado da Cafa de
Bragança, feguindo as partes do Senhor Duque Dom Affonfo nas alteraçoens
delRey Dom Affonfo o Quinto com feu tio o Infante Dom Pedro, & depois co-
tinuou a mefma fidelidade com os Senhores Duques, Dom Fernando o Primei-
ro, & Dom Fernando o Segundo, & os apoí entou em Cedofeita, quando pa a-

a dita Cafa, &fizeraõ aufentar o Senhor Duque Dom Jaymes: calou na Cidade
de Évora com Ines de Pontes, filha de Salvador Antunes,& de Ifabel de Pontes,
da qual teve a Gonçalo Fernandes Monteiro , o qual teve a Diogo Fernandes
Monteiro, que foy 'Sargento mór no Terço de Dom Manoel de Caftellobranco

113
^ M^t^Fern^^es^^cm^eiK^que depois de fer Capitaò de hum dos Na-
vios defta Coroa, que foraô às Ilhas, fe retirou por caufa de hum crime para o
Couto de Palma, termo da VilladeMonforte : caiou na erade 1624.. na Villa
do Crato com Ifabel Fernandes, filha de Gil Annes de Abreu , c"jdo J0 ""
fante Dom Luis, & o primeiro Provedor da Mifencordia da dita Villa do Cra-
to, Ôt de fua mulher M aria Fernandes, da qual teve a r -
Pedro Fernandes Monteiro, que viveo na Villade Monforte, 5c cafou co
Brites LopcsFalcato,filhade Affonfo Lopes o Befteiros , natural da ViUa de
Veiros, & de fua mulher Guiomar Rodrigues Falcato, da qual teve a
Martim Fernandes Monteiro, que foy Efcudeiro da Cafa áaSephoraDo-
na Catherina Duqueza de Bragança, 6c Juiz dos Orfaos dadita V tila^Mon-
forte: cafou com Ifabel Vaz da Guerra, natural da meímaViUa,filha de Affonfo
Alvarez Manteigas, & de Anna F ernandes Pichim, naturaes da mefma Villa, da

411131
Doutor Pedro Fernandes Monteiro,o qual fendo ouvidor da Çáfa dean
Bra-
M g Ça>
134 TOMO PRIMEIRO
gança, fazia delletanta eíiimaçao o Senhor Rey Dom Joaõ o Quarto, que fioh,
delle o fegrcdo da Acclamaçaõ,& com o dito Rey paffou a Lisboa,aonde teve o
merecido valimento pelas fuas letras, & fiel fervíço da Cafa de Bragança : fuc-
ceífivamente continuou o mefmo valimento com o Principe Dom Theodoíio, a
Rainhn Dona Luiza, ElRev Dom Affonfo o Sexto , & ultimamente com ElRey
Dom Pedro o Segundo: foy do Confelho dos ditos Reys , & Defembargador
do Paço,& juiz da Inconfidência , qiíe exercitou toda a fua vida com valor,
conífancia, & fortuna, & fumma fidelidade, & foy hum dos Miniftros da Junta
do governo, que a Rainha Dona Luiza mílituío fobre todos os Tribunaes , &
para todos os negocios militares, & politicos, com o qual felizmente fe çonXe-
guio a expedição dos ditos negocios, & bom fucceffo dclles' s caiou oom Dona
Confiança Paim, natural da Villa de Veiros^filha de Roque Alvarez Franco,&
de Leonor Rodrigues Paim, (filha de pedrò Luis Paim , que fervio a Senhora
Dona Catherina,Duqueza de Bragança , com grande efiimaçaõ, & teve de
moradia cento & feífenta mil reis, numa das mayores daquelle tempo, & a lò~
grou até o da fua morte,depois de retirado por idade , & achaques paraa dita
Villa de Veiros, como coníia do Alvará,q fe paífou da dita mercê) da qual teve
a Martim Monteiro Paim, q he Clérigo de virtude, & letras, Defembargador
dos Aggravos, Deputado da Mefa da Confciencia, & Cõmilfario da Bulla dá
Cruzada,& Antonio Monteiro Paim tabem Clérigo,Deaõ da Se de Coimbra,&
do Concelho geral do Santo Officio em Lisboa, & a
Roque Monteiro Paim, que foy fucceífor da Cafa, & verdadeiro imitador
das virtudes de feu pay, & tem o mefmo trato, & a mefma confiança dos nego-
cios públicos, & particular da confervaçaõ, & efiado do Reyno: naõ feguio as
letras depois de as profeífar,& ferCollegial doCollesioReal dc Sàõ Paulo de
Coimbra, & de fer provido em huma Cadeira de Leys da dita Univeríídadc : he
do Confelho delRey, & feu Secretario, Juiz Prefidente da Junta da Inconfidên-
cia, fenhor da Villa, & Honra de Cahís por mercê delRey Dom Pedro o Segun-
do, pelos ferviçosde feu pay, Commendador de Santa Maria de Campanhaã na
Ordem de Chriíio, &. fenhor dos Concelhos de Refoyos, & Maya : cafou com
Dona Joanna Francifca de Menezes,filha de Lourenço de Mello & Sá,& de fua
mulher Dona Bernarda Michaelada Sylva,dequeteve a Pedro Fernandes Mo-
reira, lenhor da Cafa de Alva, que morreo folteiro, a Dona Leonor de Vilhena,
que faleceo de dezafeis annos eiiando defpofadacomD. Joaõ Diogo de Ataí-
de, filho legitimo dos Condes de Atouguia 5 a Dona Confiança Luiza Paim, q
hoje vivecafadacomodito Dom Joaõ Diogo de Ataíde, Sargento mór de Ba-
talha; a Do na Maria Antónia, & Dona Leonor, ambas folteiras.

CAP. XXVI.

da Villa de Canaveses.

NO Bifpado do Porto, oito legoas deíia Cidade para oNafcente,tem feu


affientoaVilla de Canavezes,que Eífaço,& outros dizem fer Behetria,
fundaçaõ da Rainha Dona Mafalda, filha delRey Dom Sancho o Primeiro,& mu-
lher, que foy delRey Dom Henrique o Primeiro de Caílella , o que morreo da
1. - telha,
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. 13J
telha que lhe deu na cabeça no anno de . tt7.de quem feapattou por parenta,
Sc neftellcvno fez muitas fundaçoens, A Rainha Dom Mafalda lua avo tinha
doído £'feito humHofpital para nove paffageiros, & peregrinos terem nolle
a -afalhó c6 todo o fuftéto,8c regalo poífivel,& fe alli morreffem, lhe diriao tre
Mtffas & entre as mais rendas,que lhe umo,&hoje nam palTadecineocntamil
-cif fáó as portagens da ponte, que cila também fundou com ameyas, obra ma-
«eltofa & entendemosque fecobraó de alguns géneros decouías emeonhe-
chnento do quehouveraõdedàr ao barco, fenaõ houvera ponte , &he erro de
qímáíribucefta obra a fua neta : fez a Igreja de Santa Maria de Sobre Ta-
mpada parte do Norte do rio; mda q alguns oattribuem a fua avo a Rainha
nona Mafalda mulher delRey Dom Affonfo Henriques,implicando os Autho-
res huma com outra, o que naõ decidimos; fuppollomc parece mais juí ífica-
da a opíiaõ de ler obra da avó, & mó da neta, como confia de feujeftamen o,
que Brandaó aponta na Terceira Parte da Monarchia Lulitana. Tudc admin

an eftâ"ViUa í^em^vifinhos^huiíjuiz Ordinário,que o (je também dos


Órfãos, por pelouro, Sc eleição de tres em tres annos,Vereadore.sProcu-
rador Almotaceis,confirmaõ-os os Adminiílradores doHofpital, & Tabe-
liaens que fervem em publico ,& Orfaòs, St naCamara, Sc dirtribuiçao por gy-
ro, cada hum feu anno, Sc pelo mefmo modovao ao Couto de Tuvas,
jnr niftribuidor Sc Contador, Sc Efcrivao das Sizas , aprelenta-os ElRey.
TehVebaáSnzc do íez,&=m dia deS- Nieolao huma, que dura tres d,as,
cm que fe vendem porcos, os melhores que ha nerte Rey no, Sceifltanta quan-
tidade, que naõ fóabaftaõ elta Provincia, mas muitas mais terras; & tem mus
outra feira no dia de Santa Luzia , de toda a coufa mercantil. - Produz ballan-
teoaó azeite, vinho de enforcado, caftanhas,&cem muitos gados, pefeas no
rfo^&caças no monte. Ha.fórada ViUaaCafadps Peffoas , & <>^a quefez
■ loao Correa dc Soufa. O Termo feçompoem dc duasFreguefiasdaquem , &
ílalém do Tamega, Sc faõ as feguiíites.
S.Nicolao 5eCanavezes,Curado annexo de Fornos em Tuyas,com quem
fe arrenda em cento & trinta mil reis, Sc para o Cura feffenta mil reis , tem cem

VlíinI
Santa Maria de Sobre T amega, àquem defte rio , Abbadia que aprefentaô
os Admimrtradores do Hofpital, rende duzentos mil reis , tem noventa vifi-

Couto de Tuyar.

O Salvador de Tuyas parte com Canavezçs ; aCoiideça Dona Urraca Vie-


gaJmulher do Coihe Dom Vafco Sanches, & filha de Egas Moniz ,fon*
dnnaauiefte Morteiro, que iá eraParochiaem tempo de fua may Dona Tarefa
AfcnfOj CCimoconftadadoaÇiiõ, que ella fez, Stfe guarda no Convéto de Arou,
ca- o que devia fer para nelle recolherfe depois de viuva de feus dous maridos ,

âvivia pelos annos deif?4-emS feu fobnnho Dlo§° dc Magalhaens Fícudeiro


fidalgo aprefetòuem i9-de Agoftoalgreja de S-Mameoede Manheve^hoieMa-
nhucellos no Concelho de Bem-viver, por procuração que tinha lua j andou ei-
te Padroado nos fucceffores da fundadora ate Dona Chamoa
M 11 Gomes fua b
i TOMO I?RI M9JAO •;
ta, mulher de Dom Rodrigo For jas , quevendofõ atracada com o Bifpo do
Porto fobre a fundação do Maffei ro de Santa Clara do Torrão Entre ambos os
rios, além de outras coufas, que lhe largou, çomofoy o Padroado deífe Mof-
teiro, por ella nam ter filhos, o qual depois fe extinguio, unindofe ao Convento
das Freyras de,S. Bento da Cidade do Porto, aonde fe recolherão as ultimas,
qucallihavia,&nuncafoydeMongesBentos , como erradamente dizem o
Arcebifpo Dom Rodrigo da Cunha, & Lavanhá, que ofegue. Entendemos que
a meíma fundadora lhe fez Couto, por fer a fuafamilia por aqui bem herdada;
o como o perderão as Freyras, naõ ie fabe: he hoje delRey com Juiz Ordinário,
que também ferve nos Orfaõs,feito pelo povo,com Vereadores,Procurador,^
mais Juíficas, que todos confirma o.Corregedor de Guimaraeus : os Efcrivacs
faõ osmefmos da Vtila de Canavezes, que tem huma Companhia .da Ordenan-
ça, em que entrao os moradores deile Couto. Tem feira na fegunda fell a feira
da Quarelma, que dura quatro dias, he couía grande. No mcfmo lugar,em que
eileve o Moííeiro, eífá agora a Cafa de Alvaro PeíToa de Carvalho, que ha pou
cos annos faleceo, & a Igreja fe mudou mais para cjma, he Vígairaria boa /ren-
de cem mil reis, & para as Freyras, que a aprelentaõ, com as annexas , trezen-
tos pt "cincotnta mil reis: tem cem vifinhos.
S- Miguei de Rio de Galinhas, Curado que aprefenta o Vigário de Tuyas,
de quem he annexa, tem quarenta &tres Vifinhos.
Noífa Senhora do Freyxo, Curado da meíma aprefentaçaõ „tem fetenta &
fetev.ftnhoíj.
Santa Marinha de Fornos, Abbadh. da Mitra,he Matriz de Canavezes, &
com a annexa de S. Nicolao, que tem naquelia Villa, rende trezentos mil reis,
tem fetenta & cinco vifinhos •

I • • . * ' . . rh ; , w« oi
CAP. XXVII. "
1 n\ > 3D OS lo:. 'V
T>o Concelho de (jouvea de ddjbaTaniega.

fí. . \ íri/fj '.i'rrE'r. ■ •


NOve legoa^do Porto para o Nafcente eífá a(ponte dçS.;Q$^alo de,Ama-
rante fobre o Tamega, & deixando da parte do Norte eíia VUla, tem da
banda dalém dous povos grandes, que faõ cabeças dos dous Concelhos de Geí-
taço,&Gouvea : deite he fenhor Fernáõ de Soufa , cujavaroniahe afeguin-
te.
Martim Aífonfo de Soufa, filho natural de Dom Martirn AffoiSfo/de Sóufe
Chichorro, (que era filho de Martim Aífonfo Chichorro, & neto delRey Dom
Aífonfo II I.de Portugal) houve em D. Aldonça Rodrigues de Sá, filha de Ro-
drigo Annes de Sá, entre outros filhos, a ■<
Martim Aífonfo de Soufa, que cafou com Violante Lopes de Tavora t fi-
lha de Pedro Lourenço de Tavora fenhor do Mogadouro, & Repoíteiro mór
delRey Dom Joaõ o Primeiro, & de fua mulher Dona Beatriz Annes de Alber-
garia, de que teve, entre outros filhos, a
Fernão de Soufa, que foy O primeiro fenhor de Gouvea, & A leayde mór de
Montalegre, & Portel: cafou com Dona Mecia de Caítro, filha de A lvaro Gon-
çalves de Ataíde, primeiro Conde de Atouguia , & de fua mulher Dona Guio-
mar
DA COROGRAFIA PORTUGUESA. *3?
mar de Caftro, de que teve,entre outros filhos,a
Antonio de Soufa, que foy fenhor das terras de feu pay. & caiou comDo
na Branca de Vilhena.filha de Diogo de Azevedo, fenhor de Aguiar, S-João de
Rey, & outras terras, ôc de fua mulher Dona Maria de V ilhena Coutinho , cie
que teve,entre optros filhos,a i .. ^ r_
Fernão de Soufa, que foy. íehhor das terras deTeu pay, & cafoucom Dona
Felippa de Mello, filha de Duar te Peixoto, fenhor de Penafiel, &. do Concelho
delRey Dom Manoel, Sc de fua mulher Dona Joanna de Mello, de que teve,entre
outros filhos,a „ , , , r , r
Martim Affonfo de Soufa, que foy fenhor das terras de feu pay , & caiou
com Dona Joanna de Tovar, filha de Vafco Fernandes Caminlia, Alcayde mor
de Villa-viçofa.&Commendador de Santo Andre de Villa-boa , & c.e lua mu-
lher Felippa Mendez de Carvalho, de que tevç.entre outros fiffios.a
Fcrnaõ de Soufa, q foy Governador de Angola : cdfou fegunda vez com
Dona Maria de Caftro, filha de D. Simaõ de Caftro, fenhor de Rens, & Reiende,
& de lua mulher Dona Margarida de Vafconcellos, de que a
Gonçalo de Soufa, que morreo fem cafar , & foy Soldado de grande nome
nas Armadas em Flandes, &em Africa;aThomè de Soufa , em quem conti-
nuaremos efta Caia; a Diogo de Soufa, que foy Deputado da Meia da Conicic-
cia, do Concelho geral do Santo Officio, Btfpo eleito de Leyria , & depois Ar-
cebifpo de Évora, Prelado de grandes virtudes, & leiras; a MartimAftonío cie
Soufa, que morreo na Índia; a Gafpar de Soufa, que morreo pcleqando valero-
famente com os Turcos, & Simaõ de Soufa , ambos Religiofos de S- João dc

^^Thomè de Soufa, filho do fobredito Fernão de Soufa , & de fua fegunda


mulher Dona Maria de Caftro , herdou a fua Caía por morte de leu irmaõ
Gonçalo de Soufa: foy Meftre fala* & Trinchante delRey Dóm João oQuarto,
Veador da fua Gafa, ôcCommendador na Ordem de Chnfto, fidalgo de grande
valor, honra,&generofidade: cafoucom Dona Francifea Coutinho , filha de
Dom loão dc Caftellobranco,( que era filho do Conde de Sabugal, Dom Duar-
te de Caftellob ranço) & de fua mulher Dona Cecília de Menezes, que crà filha
dc Dom João Coutinho, Conde de Redondo, por cujo cafamento herdou feu ffi
lho Fernão de Soufa grande parte da fuaCafa. Teve efteThomè de Soufa de
fua mulher Dona Francifea Coutinho os filhos feguintes: Fernão de Soufa, D.
João de Souía, Bifpo do Porto, & hoje Arcebiipo de Braga, ( de cuja virtude,
qualidade, & letras fizéramos particular elogio, fe nam temêramos offender a
fua mcfdeftia, publicando feus merecimentos, que nam cabem na brevidade de-
fte volume) Dona Cecilia, Dona Maria,& Dona Ifabel, Rehgiofas noMoftei-
ro de S.Martajde Lisboa. . •,
Fernão de Soufa he fenhor de Gouvea, & das V Olas de Figueiro, & Pedro-
oão, Alcayde mór de Villa-viçofa, Commendador.ôc Alcayde mor de Meffejana,
' Veador dos Reys Dom Affonfo o Sexto, & Dom Pedro o Segundo , & Cava-
lheiro âe grandes virtudes: cafou com Dona Luiza de Portugal, fenhora de
orande entendimento, & de muita virtude, filha dos Condes de Sarzedas Dom
Rodrigo da Sylveira,& Dona Maria de VafconCellos , da qual teve a Thome
de Soufa, Rodrigo de Soufa, Felippe de Soufa, ConegO da Séde Lisboa , Joaõ
de Soufa,& Gonçalo de Soufa, Diogo de Soufa, Dona Maria Rofa de Noronha,
Dona Francifea&£)ona Cecília, Religiofâsno Mofteiroda Annuneiada em
Lisboa, Dona JJoanna de Soufa, & tres mais, que morrerão meninas.
M iij Thomõ
.i3» TOMO PRIMEIRO *1.0: A
Thomé de Soufa he herdeiro da Cafa de feu pay , V eatlor ddRey Dom
Pedro o Segundo , & Cavalheiro de muitas partes ; caiou eom Dona Magda-
lena de Noronha, fenhora muy virtuofa, & adornada de relevantes prendas, fi-
lha dos Condes dos Arcos, Dom Marcos de Noronha & Brito, & Dona Maria
JofephadeTavora,daqual temaDona Maria Francifca deNpronha , Dona
Luiza Xavier de Noronha, & Fernão de Soufa,que morreo menino.
Tem efte Concelho ]uiz ordinário, eleição do povo por pelouro de tres
em tres annos, com dous Vereadores, & Procurador do Concelho, tres Tabe.
_ liaens, Juiz dos Orfaõs, a que anda annexoDiftribuidor, Enqueredor, & Con-
' tador, Efcrivão dos Orfaõs, tudo aprefentação dos fenhores defte Concelho,
- Efcrivão da Camara, & Almotaçaría, & Efcrivão das Sizas com ordenado no
Almoxarifado ue,Villa Real, ambos data delRey; não ha Meirinho, nem Alcay-
de. Tem feira aos i y. do mez, & duas Companhias com Capitaõ mor feito pe-
lo povo : fazem aqui1 louça de fogo, & agua 5 tem muitos gados, azeite, caita-
iiha, nozes, & frutas, pouco vinho, & menos pão, pefcas no Tamega , de lam-
preas,'trutas, b(%as/efcallos, & barbos,& no rio da Ovelha boas trutas,& mais
peixe; confia das Fregueíias feguintes.
Santa Maria de Cepellos, Abbadia do Morteiro de Pombeiro com referva
do Ordinário, rende cento&cincoentamil reis , tem cento vinte &• tres vifi-
nhos. Além da Cafa dos fenhores defta terra, ertá nerta Freguefia a do Morga-
do de FontelLas do appellido de Queirós, & Vafconcellos , deque foy íenhor
Manoel Mendes de V afconcellos , fobrinho do V alerofo Antonio de Queirós
Mafcarenhas, Capitão de Cav alios neíta Província, & irmão de Mendo Rodri-
gues de Vafconcellos, Capitão de infantaria.
S- Pedro da Lomba, Abbadia do Ordinário, rende cento & vinte mil reis,
tem oitenta vifinhos. <
S. Salvador do Monte, A bbadia do Padroado Real, rende trezentos mil reis,
tem cento letentaôc cinco vifinhos.
S. Martinhode Aliviada, Abbadia dò Ordinário, rende cem mil reis, tem
trinta & dous vifinhos.*
S. André da Varzéá de Ovelha, Abbadia do Marquez de Arronches, & do
Ordinário, rende quatrocentos mil reis, tem duzentos & fete vifinhos.
S. Joaõ da Folhada, Abbadia do Ordinário, levão os Padres da Compa-
nhia do Porto ametade, que importará cem mil reis, & ao Abbade cento & cin-
coenta mil reis, tem cento vinte & tres vifinhos. Aquinafceo o Santo Fjr- Gon-
çalo Dias de Amarante, Religiofo Mercenário em índias de Caítella, cuja vida
cfcreveo Fr. F elippe Columbo*
S.Simão de Gouvea, Curado dos Conegos de Saó João Evangelifta da Ci-
dade do Porto,que lhes rende trezentos mil reis , & para oCura cincoenta
mil reis, com feis mil reis de ordenado: tem cento & dezafeis vifinhos , huma
Ermida deN- Senhora do Campo, & outra de S. Domingos.

Couto de Taboado.

O Salvador de Taboado foy Morteiro antigo de Conegos Regrantes de San-


to Agoftinho. Delle forão Padroeiros os Farias de Joaõ de Faria, Com-
mendador de Travanca na Ordem de Chrifto,Embaixador .delRey Dom Manoel
. duas vezes aos Papas Leão Decimo, 6c Adriano Sexto,& ao Emperador Carlos
Quinto
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. 139
Quinto por ElRey Dom JoaÕ o Terceiro' fobre feu caíamento y ScChanceller
rnór do Reyno : a Igreja he fagrada, paíTou à Abbadia fecular , que aprefentam
os fidalgos Montes-negros, do appeliido de Correas, ScSoufas,que em todo
o tempo deu grandes homens para as armas, Sc poli ticas: íao íenhores das Ca-
ías dcNovocs, Sedada Pena. Eíla Freguefiahe Couto , que ja o deviaíer .do
Moífeiro; o Abbadeheíenhor, St Ouvidor , quecom opovotaz Juiz ordiná-
rio annual no Cível, St dos OrfaÕs, os Efcrivaés faõ os do Concelho, a que to-
ca o crime, rende quatrocentos mil reis, tem cento Sc doze Vifinhos , oc citas
Ermidas, Santa Maria do Outeiro, Santo Antonio, Sc S. Lourenço. As Fregue-
íias deííe Concelho,Sc Couto íaõdoBilpado do Porto.

CAP. XXVIII.
TM ■ ff y
»
T)o Concelho de Çejlaço.

Continuando do Concelho de Gouveapara oNafcentefetopacom oCõ-


celho de Geffaço, a quem deu foral ElRey Dom Manoel em Lisboa aos 1 y.
de Mavo de 1 y 1 +■ tem Juiz ordinário , eleição do povo por pelouro de tres
em tres annos,a que prefidé o Corregedor 'de Guimaraens : neilafazem dous
Vereadores Sc Procurador, Efcrivaõ da Camara, Sc Almotaçana , tres do J u-
dicial Sc Notas, Juiz dos OrfaÕs com feu Efcrivaõ, Sc outro das Sizas com or-
denado no Almoxarifado de Villa Real,Enqueredor,DiftnUiidor,St Contador,
tudodata delRey, Sc Meirinho, que he Carcereiro. Tenures Companhias com
Capitaõ mor, Sc Sargento mór, feira no primeiro dia do mez, muita caça no Ma-
raõ, baftante pefca noTamega, rio Dolo,Sc da Ovelha, gaaos, mel, Sc cera, mui-
ta caftanha,Scnozes, pouco paõ, Sc vinho, cal nam tam branca como a1 mais do
Reyno, mas melhor para argamaça, reboques, Sc telhados, porque caldea bem.
Fov primeiro íenhor deftc Concelho, fegundo alcançamos, o Infante Dom Pe-
dro, Conde de Barcellos, que compoz o livro das Linhagens ; deu-lho ElRey
Dom Diniz feu pay em 1 y* de Setembro de 1 $06• para elle, Sc ícu> dei cendentes
legítimos; como os nam teve, vagou para a Coroa. El Rey Dom Joaõ o Primei-
ro fez mercê delle a GilVafques da Cunha feu Alferes mor , terceiro filho de
Dom Vafco Martins da Cunha, feiíhor daTaboa,Sc das Villas de Pinheiro, An-
aeia Sc Bempofta, o qual contava fete illuftres avô s atè Dom Guterre, em que
começa o Conde Dom Pedro eíla família, Sc era eíle Dom Guterre dos antigos
Condes de Lernia, Sc Traftamara,defcendente dos Godos- Elie G" Vafques da
Cunha fe paíTou a Caílella, aònde foy fenhor das Víllas de Roa, Sc Mancilha, Sc
voltando a Portugal foy fenhor de Bailo, Sc Monte- longo : cafou com Ifabel
Pereira, filha de Alvaro Gonçalves Pereira, Prior do Crato, Sc irmaã do grande
Condeílable Dom Nuno Alvarez Pereira, de que teve, entre outros filhos , a
Toaõ Pereira Agoílim,que foy hum dos doze que foraõ com o Magriço,
a Inglaterra,Sc fe chamou Agoftim por matar naquelfe Reyno a hum Inglez dei -
te nome :foy homem de grande.valor, St cafou com li abei Fernandes de Moura,
filhade Alvaro Gonçalves de Moura, fenhor de Moura, Sc Portel, Scoutras ter-
-ras** Sede fua mulher Dona-Urraca Fernandes, fenhora da Azambuja , deque
XT 11 nn
i4o TOMO PRIMEIRO ;q:>
Nuno da Cunha, que foy fenhor de Gertaço,& Penajoas , & Camareiro
mór do Infante Dom Fernando, filho delRey Dom Duarte : caiou com Dona
Catherina de Albuquerque, filha de Luis Alvares Paes, Mertre-fala delRey Dõ
AfFonfo o Quinto, & de fua mulher Dona Therefa de Albuquerque, de que te-
ve,entre outros filhos,a
Triftaõ da Cpnha, que foy Camareiro mór do Duque de Vifeu D- Diogo,
irmão delRey Dom Manoel, & Embaixador a Roma defte Rey., aonde o elegi aõ
General das armas da Igreja em huma i\ rmada contra os Turcos , & não acei-
tou erte porto por fer Embaixador: cafou com Dona Antónia Paes, filha de Pe-
dro Gonçalves, Secretario delRey Dom AfFonfo o Quinto, &: de fua mulher D*
Leonor Paes, de que teve,entre outros filhos,a
• Nuno da Cunha, que foy fenhoídas terras de feus pays , Commendador
de Fonte Arcada na Ordem de ChriíFo, V eador da Fazenda delRey Dom Joaõ
o Terceiro,& Governador da India, em que fez tam raras acçoens , que mere-
ceodos Hiíioriadore^o nome de Grande: cafou fegunda vez com Dona Ifabel
de Vilhena, filha de Nuno Martins da Sylveira, Mordomo mór^da Rainha Dona
Leonor, & de fua mulher Dona Felippa de Vilhena, de que tevê a
Joaõ Nunes da Cunha, que foy fenhor de hum Morgado , que fua may
inrtituío,& cafou com Dona Felippa de Mendoça, filha de Manoel Corte-Reaí,
fenhor das Ilhas,Terceira, & S- Jorge, do Concelho delRey Dom Manoel , &
de fila mulher Dona Brites de Mendoça,de que teve,entre outros filhos,a
Nuno da Cunha, que cafou com Dona Leonor de Soufa, filha herdeira de
Jacome de Soufa, fenhor de Santo Ertcvaõ da Beira," & de fua mulher Dona Ma-
ria de Refoyos, de quem teve, entre outros filhos, a
Joaõ Nunes da Cunha, que foy Commendador de S.Vicente da Beira na
Ordem de ChriíFo, èt cafou com Dona Vicencia da Sylva , filha de Henrique
Correa da Sylva, Alcayde mór de Tavira, & Governador do Algarve com ou-
tros títulos, & de fua mulher Dona Maria de Menezes, de quem teve a
Nuno da Cunhd, que morreo afogado em hum Galcaõ da Armada, em que
hia por'Capitao Dom Antonio de Menezes: cafou com Dona Francifca de Lima,
filha de Joaõ Gonçalves de Aíaíde, Conde de Atouguia , & da Condeça Dona
Maria de CaíFro, de quem teve, entre outros'filhos, a
Joaõ Nunes da Cunha, que foy fenhor da Cafa de feus pays , & primeiro
Conde de S. Vicente: cafou com Dona Ifabel de Borbon, filha de Luis de Lima
& Brito, primeiro Conde dos Arcos , de fua mulher Madama Vitoria Ca-
pella de Borbon, defeendente dofangue Real de França , de quem teve , entre
outros filhos, que morrerão, a
Dona Maria Caietana de Vilhena & Cunha, filha herdeira da Cafa de feus
pays, que cafou com Miguel Carlos de Tavora, Almirante , & General da Ar-
mada Real, do Concelho de Guerra delRey Dom Pedro o Segundo, & hum dos
Cavalheiros de grande valor, entendimento, & gencrofidade, que por eíFe ca-
famentohe fegundo Conde de S- Vicente: tem os filhos feguintes-
Joaõ Alberto de Tavora & Cunha, Manoel Carlos de^Tavora, que he Ca-
pitaõ de Infantaria na CorteJ Dona Archangela Maria de Tavora , que cafou
.com TriíFaõ da Cunha & Ataíde, fenhor de Povolide, Dona Ifabel de Tavora,
que foy Dama da Rainha Abaria Sofia de Baviera, a qual trocando os mimos da
Cafa Real pelos jejuns, cilícios, & mortificação da Religião, fe meteo Freira no
Morteiro de Santo Alberto de Religiofas Carmelitas Defcalças , deixando às
illuftres Virgens vivos exemplos defuamodertia , & a feus pays (que a ama-'
vaõ
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. 141
Vaõ muito) grandes faudades.; Dona Vitoria deTavora, cjaecafou com Dom
Rodrigo Telles Caílro Meneze, Sc Sylveira, Coade.de Unhap, Dona Ignacia de
Tavora, Sc Jofeph de Tavora-
João Alberto deTavora & Cunha, filho herdeiro delia illuílre Cafa,he ter.
ceiro Conde de S-Vicente em vida defeupay icafoucom Dona Bernarda deTa-
vora, filha de Antonio Luis deTavora, quarto Conde de S. João da Pefqueira>
Sc fegundo Marquez de Tavora, Sc da Marqueza Dona Leonor Maria Antónia
de Mendoça.
Tem eile'Concelho as Freguefias feguintes , que laõ do Arcebifpado de
Braga, Sc fó huma he do Bifpado do Porto.
Santa Maria de Gundar, Com menda de Chriílo,ScReytoria da Mitra, que
rende cem mil rei •, Sc para o Commendador com annexas,Sc fabidos quinhentos
mil reis, tem duzentos vifinhos. Foy Morteiro de Freyras de S- Bento : na fa-
mília dos G undares fe diz, que Dona Tareja Lourenço, filha de Lourenço Me-
des de Gundar, Sc neta paterna de Dom Mem de Gundar, foy Abbadeça de Gú-
dar. Tinha fubditos outros dous Moíleiros de Freiras, que vinhaõ aos Capítu-
los, que neíle fe faziaõ,por naquelles tempos não haver ciaufura. Aqui he tra-
dição, morou, foy fenhor, Sc teve fua Cafa folariega D. Mem de Gundar, tron-
co delia família, Sc da de Motas, fidalgo Aíluriano,muito honrado ,* que veyo
como Conde Dom Henrique.
Santa Maria Magdaleni de Covello,entendo foy hum dos dous Moíleiros
fubditos ao de Gudar, he VigairariaannexaaeílaCommenda, que apreíentao
Reytor: tem trinta St feis vifinhos»
S. Salvador de Lufrey, VigairariadamefmaCommenda,tem cento Sccin-
coenta vifinhos. Foy Moíleiro de Freyras Bentas fubditas ao de Gundar, nam
alcançamos quem o fundou, fem duvida feriãõ os Gúudares. Daqui era natu-
ral Frey Domingos,Frade leigo da Obfervancia, da Província de Portugal,que
faleceo com opinião de Santo em S. Francifco de Lisboa pelos annos de 1 ójz.
S. Martinho de Carvalho de Rey, Vigairaria da meíma Commenda , tem
cincoenta vi finhos.
Santo André de Padornello, Curado do Convento Dominico de S. Gon-
çalo de Amarante ,tem vinte vifinhos. Aquinolugar de Mór Milheiro eílá
huma Tprre, aonde dizem morava Dona Loba Mendez, filha de Dom Mem de
Gundar, Sc mulher que foy de Diogo Bravo de Riba de Minho.
Santo EílevaÕde Villachãa, Abbadiada Mitra, que rende com a annexa
feguinte duzentos Sc cincoenta mil reis, tem oitenta vifinhos.
S. Martinho de Carneiro, Vigairaria annexa de Villachãa , tem feíTenta
vifinhos. Povoou eíle lugar de Carneiro ao pé da ferra de.feu nome duas le-
góas da Villa de Amarante, Martini Carneiro, Monteiro mor delRey D- João o
Segundo, Sc progenitor defla illuilre, Sc antiga família, da qual faõ os Condes
da Uha do Príncipe, cuja varonia he a feguinte.
Joaõ Carneiro foy Cidadão do Porto , Sc dizem todos que era Francez,
defqendeote dos Duques de Monton em França, que tem por A rmas em cam-
po vermelho huma banda de azul, Sc ouro com tres flores de Liz de ouro en-
tre dous Carneiros de prata paflantes, armados de ouro , timbre hum dos
Carneiros,Scfaõasmeímasde que ufaõos Condesdallha : caiou eíle Joaõ
Carneiro com Cathenna Fernandes, filhade João Fernandes Sotomayor , do
qual teve a
Antonio Carneiro , que foy homem áe grande eílimação no tempo dos
Reys,
t t TOMO PRIMEIRO
Róvs, Dom João o Segundo, Dom Manoel, & Dom João o Terceiro, & Secre-
tario dos dous últimos,Capitão da Ilha do Príncipe , Commendador de Cem
foldos, do Marmelar,&de outras mais Commendas na Ordem de Chnfto . ca-
fou com Dona Beatriz de Alcaçova, filha de Pedro de Alcaçova, Efcnvao da t a,
zenda dosReys Dom Affonfo o Quinto, & Dom João o Segundo , & de lua
mulher Leonor Alvarez, de quem teve, entre outros filhos, \ .
FrancifcoCarneiro, quefoy Secretario delReyDom João o Terceiro, &
do feu Confelho,Capitaõ da Ilha do Príncipe , & lenhor daCala tie leu pay:
calou com Dona Meei a da SyWeira,tilhade Garoa de S™la &XcomSfo
dente de Lisboa, fem appellação nas caufas do governo delia , & do Conielho
delRey Dom Manoel, à de íua mulher Dona Beatriz cia Sylveira, de quem.teve,
enUC
Luiz Carnemo,aque foy fenhor da Cafa de feu pay,Commendador de Fol-
ques, lenhor das Villas de Alvâres, Sylvares, & Fayaõ, & do Confelho delRey
Dom Feliupe o Terceiro: cafou com Dona Leonor de Aragao , filha de Dom
Fradique Manoel, fenhor de Tancos, Atalaya, & outras terras , & de íua mu-
lher 1 ona Maria de Ataíde, de quemteve a Franciico Carneiro, que foy lenhor
da Cafa de feus pays, & cafou com Dona Lourença Mafcarenhas , filha de Dom
FernandoMafcarenhas, Capitaõ de Arzilla, & de lua mulher Dona Fekppa da
Sylva, de que teve,entre outros filhos, a Luis Carneiro , que íoy o primeiro
Conde da Ilha do Principe, & tafou com Dona Mariana de Faro, filha de Dom
Fernando de Faro, & de íua mulher Dona I fabel de Luna & Carcome , cie que
teve filho único* Francifco Carneiro, que he fegundo Conde da Ilha do I rinci-
ne & Capitão mor da Capitania de Noífa Senhora da Conceição no Rio cie Ja-
nevro: cafou com Dona Eufrazia Felippa de Noronha.filhadeDom Francilco
de Soufa, primeiro Marquez das Minas, & da Marqueza Dona Eufrazia de Vi-
lhena , de que teve a Antonio Carneiro de Souia , Jofeph Carneiro , Diony fio
Carneiro, Pedro Carneiro, Manoel Carneiro, Dona Mariana de Faro , Dona
Catherinade Noronha, Dona Felippa, DonaTherefa,Freiras no Moíteiro do
Sacramento de Lisboa* .
S- Mamede de Buftello, Abbadia da Mitra , rende duzentos & cincoenta
mil reis, com a annexa feguinte, tem cento & quatro vifinhos.
S.Payo de Anciães, Viga irar ia annexa à Igreja de Buftello, tem oitenta &

S. Chriftovão de Candomil, Abbadia do Mofteiro de Caràmos , com re-


ferva do Ordinário, rende duzentos mil reis, tem oitenta & quatro vifinhos.
S- João da Varzea, Vigairaria do Mofteiro de Caramos, tem vinte & cinco

VlíÍn
s?í fidoro deSanche, Vigairaria das Freyras da Conceição de Braga , tem
trinta & cinco vifinhos. r x* n ■ j r?
Santa Maria de Jazentehedo Bifpado do Porto, foy Mofteiro de Freyras
antigamente, & nelle Abbadeça DonaConftança Martins Frazao, filha de Mar-
tini Frazão, a qual de Martim Gonçalves Leitão , terceiro Meftre da Ordem
de Chrifto, eleito no anno de 1327* &falecido no de 1335. teve a Dona Leo-
nor Martins, mulher de Gonçalo Paes de Meira. PaíTou a Abbadia fecular ,que
aprefentão os Bifpos do, Porto, rende duzentos & cincoenta nnl reis , tem qua-
torze vifinhos.
Honr&
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. 14,

Honra de Ovelha, quep

HE delRey com Juiz Ordinário.» que também he dos Õrfaõs,com Verea-


dores, & Procurador por eleição do Povo , que confirma o Corregedor
de Guimaraens, dous Efcrivaens, hum do Publico , Camara, Sc Almotaçaria ,
outro do mefmo Publico, & Orfaõs, huma Companhia da Ordenançaibgeita ao
Capitaõ mór de Geífaço- Recolhe pouco paõ, menos vinho, caífanha , muitos
gados, Sc caça nas ferras do Maraõ, & algum peixe no rio Ovelha : tem as Fre-
guefías feguintes-
Santa Maria de Bobadella, Vigairaria do Cõvento de Pombeiro , em que
aprefenta hum Religiofo com doze mil reis, St ametade dos frutos, St fabidos,
que lhe rendem cento & quarenta mil reis > Sc â outra ametade para a Congre-
gação de Tibaés importa oitenta mil reis,com a ereéfa feguinte.
S. Pedro de Canadello, Curado ereélo de Bobadella, tem vinte & cinco vi-
finhos.

CAP. XXIX.

T>a Filla de Amarante.

Cinco legôás de Guimaraens, entre o Nafcente,St Meyo dia , eífá fituada


da parte do Norte do rio Tamega a Villa de Amarãte, por cujo meyopaíTa
outro regato maispequeno chamado Locía,&. o Relias à entrada , ficandolhe
defronte além do Tamega os Concelhos de Gouvea, St Geífaço. Foy fundada
pelos Turdetânos da Lufitania ^Sò-annosântes davindadeChriífo, cujo pri-
meiro nome fe ignora, atè que Aniarãto,illuíf re Capitaõ Romano,a amplificou,
Sc lhe poz o feu,quc hoje tem, mudada a ultima letra O em E. Com a inconíf ã-
cia de varias fortunas fe foy defpovoando, Sc ficou campo razo, aonde S- Gon-
çalo pelos annos do Senhor de 11 f o • fundou huma pobre Ermida, em que fez
penitencia, na qual feu corpo eífá fepultado, refplanaecendo com infinitos mi-
[agres, por cuja câufafe povoou de novo elfa Villa, que teve principio emhuas
eífalagens, Sc çafas de Romeiros, St eífaseraõfó duas, que eraõ daCollegiada
de Guimaraens; Sc fuppoífo que nam fejaõ hoje eífalagens, fenaõ cafas particu-
lares, ainda faõ da md ma Igreja, St fe lhe paga por ellas certa renda de dinhei-
ro, Sc galinhas, Sc ainda diz o livro do recibo, cafas com feus quintaes, que faõ
eífalagens, de q fe foy eltcndendo a Behetria, que a devoção dos fieis, q vifitaõ
o fepulchro deS- Gonçalo, por favorecer a feus devotos com os feus muitos mi-
lagres,foy caufa de le dilatar em povoaçaõ grande,para vir a fer V illa, que fup-
poífo naó heacaífellada,Sc murada, tem Juiz de fora, Sc voto em Cortes-
Eífava aErmida, que S, Gonçalo fundou, no deítriéfo da Freguefia de S.
Veriílimo, que era Igreja Parochial, aonde os Rel/giofos de S. Domingos prin-
cipiàraô ó feu-Convento,em que refidem trinta FradesjSc a Rainha D- Catheri-
na, mulher dclRey'Dom João oTerceiro, lhe deu a Jgreja de Saõ Veriífimo no
anno
j44 TOMO PRIMEIRO
anno de i ff 9- com que defde efte tempo perdeo o feu primeiro nome,& fe cha-
ma de S. Gonçalo, & faõ os feus Frades Parochos daquella \ ília, a qual tem hu
Mofteiro de Freyras de Santa Clara íogeitas aos Religiofos de S_Francifco,
que f undou a Rainha Dona Mafalda , filha delRey Dom Sancho o Primeiro de
Portugal, para Religiofas da Ordem de Cifter, & por íer o fino afpero , & fra-
gofo, o fez War ao que efta Ordem tem na Villa de Arouca,o qual ella reedi-
ncou, deixandoo tam amplificado, como hoje fe vè, debaixo da obediência da
dita Congregação. Do tempo, em que a Ordem Francifcana tomou poffe dcl-
le, fe não acha noticia , &fó fabemosque nos fecuios paffados teve grande nu-
mero de Religiofas , as quaes por falta de fuftento le reduzirão a tam
pequeno , que quando oefpirito de Sór Margarida das Chagas íe afervorou
(ajudada da divina graça) eftava já quafi ex t índio, & ella oreftituio a íua an-
ti ga grandeza no Revnado delRey Dom Affonfo o Quarto.^
^Tern mais eftaVilla Cafa de Mifericordia, que por nao fer pobre, tem da-
do occaíião para que com as eleições de feus Provedores houveífe entre as duas
famílias de Queyrós, & Magalhaens (por ferem as mais dilatadas daquella V íl-
ia) tantas differencas, que gaftàrão huns, & outros muita parte de fua fazenda
em Alçadas. Compoem-fe efta Villa de huma fó rua muy comprida ate a ponte
com fuás traveças, & tem muitas cafas nobres, com que manifeftao a fidalguia
de feus povoadores. Aífiftem ao feu governo civil tres Vereadores, Procura-
dor do Concelho, Almotaceis, tres Tabeliaens do Publico, Judicial, & Notas,
anda annexo a hum o da Camara, Juiz dos Orfaõs,a que andao annexos Diftri-
buidor, Enqueredor, & Contador, Efcnvão dos Orfaõs , outro das Sizas an-
nexo ao de Cerolico de Bafto, Procurador dos Cativos , Meirinho díuBehe-
trias com ordenado no Almoxarifado de Guimaraens , & Meirmho Carcerei-
ro, todos data delRey • Tem feira aos leis, & vinte do mez: defta Villa toy le-
nhor Mar tim Affonfo de Soufa Chichorro, fobrinho delRey Dom Diniz.

mm w

cap. xxx.

X>o Concelho de Cerolico de Bajlo.

DUas legoasda Villa de Amarante para o Nafcente eftá o Concelho de


Cerolico de Bafto, de que foyfenhor Gil Vaz da Cunha , Alferes mor
delRey Dom João o Primeiro, de quem , & de fua mulher Dona I l abel Pereira
nafceo Fernão Vaz da Cunha, fenhor defta terra, que cafou com Dona Branca
de Vilhena, filha de Dom Henrique Manoel de Vilhena, Conde de Cintra , &
Cea,&deftepaffouaos Coutinhosporcafamêto de fua filha herdeira D. Maria
da Cunha com Fernão Coutinho. Deftes aos Caftros , & foy primeiro Conde
de Bafto Dom Fernando de Caftro, Alcayde mór de Alegrete, Capitão mor de
Évora, & do Concelho de Eft ado de Felippe o Prudente, quando ufurpou a Co-
roa de Portugal", fuccedeolhe Dom Diogo de Caftro feu filho, que toy fegun-
do Conde de Bafto, & Vifo-Rey defte Reyno, em tempo , que Caftell a o domi-
nava : & a efte fuccedeo feu filho fegundo Dom Lourenço Pires de Caítro , ter-
ceiro Conde dqBafto, que por não deixar fucceffaõ, paffou o titulo, & Cafa a
DA COROGRAFIA PORTUGUÊZA. 14/
fcu íòbrinho Jorge de Albuquerque Coelho & Caibro, filho herdeirô de Duar-
te de Albuquerque Coelho, quarto Capitão dePernãbuco, & primeiro Conde
daquelle Eíbado, & de Dona loanna de Caibro, fua irmaã, o qual ficou em Caf -
tella fervindo em Cataluna na Acclamação do Senhor Rey Dom João o Quarto';
pelo que entrou em todos cites fenhorios fua irmaã a Condeça Dona Mana de
Albuquerque, mulher de Dom Migitf 1 de Portugal Conde de Vimiofo fem fuc-
ceffaõ. A etvmologia deite Concelho dizem fer a feguinte. Entre os povos ,
que antigamente habitàrao a Andaluzia, houve huns, que fe chamarão Baíbia-
nos, de que paíTárão alguns a eíta Província , & nella fundarão huma Cidade
chamada Baíto, perto do Moíbeirode Santa Senhorinha, que cíiá em Cabecei-
ras : da qual fe não acha outra noticia, & devia fenecer na entrada dos Mouros :
delia fe chamarão Baito eíie Concclho,& o de Cabeceiras de Balbo, que por ci-
ma lhe fica.
A eíte Concelho de Cerolico de Baíto deu foral ElRey Dom Manoel em
Évora a 19. de Março de lyio-naotem muito pão, mas remedeafe eíba falta cõ
a muita quantidade de caibanha, que colhe, & manda para fora do Reyno ; re-
colhe algum azeite, muifo, & bom vinho de enforcado, caça, mel, cera, gados,
& pefca no Tamega,& regatos- Tem dous Juizes Ordinários por eleição do
povo, & pelouro de tres em tres annos, tres Vereadores, & Procurador do Cõ-
celho: prefide nella o Corregedor de Guimaraens: dous Almotaceis, Efcrivão
da Camara, & Almotaçaria, fete Tabeliaens do Publico, & Judicial , Juiz dos
Orfaôs com dous Efcrivaens, Diíbribuidor, Enqueredor,Sc Contador- Todos
eítes ofiicios apreíentavão os fenhores deíba terra,£t fo o das Sizas , Enquere-
dor , Diíbribuidor , õl Contador erão data delRev : hum Alcayde data
do Alcayde mór, que hoje he Plácido da Caíbanheira. Tem treze Companhias
com Capitão mór, & Sargento mór. No lugar da Lixa tem feira as primeiras
fegundas feiras decadamez :coníta eíte Concelho das Freguefias ieguintes.
S. Clemente, Abbadia, que aprefentàrão alguns tempos os Caibros , Al-
cavdes móres de Melgaço, & os Azevedos, fenhores das Cafas de Azevedo, &
S. João de Rey, & na menoridade de Vâfco de Azevedo Coutinho, feíihor de S.
João de Rey, & terras de Bouro, por fe não conformarem os Padroeiros, fe in*
troduzio a aprefentálao Arcebilpo Dom Rodrigo da Cunha, pondo nella híia
grandepenfaõ para Francifcode Azevedo de Sá , irmaõ íegundo de Vafco de
Azevedo, que inda a logra, mas a Igreja fe tem renunciado duas vezes : tem
duzentos & feífenta vifinhos.
S. Sebaíbião de Paífos, Curado de S, Clemente, & de Santa Maria do Outei-
ro dos Frades Jeronymos, tem vinte & cinco vifinhos. ,
S-Salvador de Ribas, Commenda de Chriíto , & Reytotia do Ordinário,
que rende cem mil reis, & para o Commcndador com fabidos trezentos & cin-
coenta mil reis, tem cento & cincoenta & dous vifinhos. Foy moíbeiro que te-
ve fua primeira fundação em huma Ermida do Salvador do mundo, na qual refí-
dia hum Ermitão ;& andando vifitandoaguella Comarca o Arcebifpo de Braga
Dom João Peculiar , & tendo noticia dos muitos milagres, que fazia aquellâ
fanta image por aquelles lugares, edificou naquella Ermida huma Igreja,& Mo-
íbeiro em honra, U louvor do mefmo Senhor, & o deu aos Conegos Regulares
de Santo Agoíbinho pelos annos do Senhor de u 60. & mandou vir do Convc-
to de Santa Cruz de Coimbra para primeiro Prior dos feus Conegos ao Vene-
rável Padre Dom Mendo, Religiofo de grande-virtude, q nelle morreo nO ánno
N dê
146 tomo primeiro c
de 1170.& foyfcpultadqnaclauílra <ío Moíleiro cm fepultura aí ta juto à pare-
de da Igreja com eíle epitáfio: Bic jãsti Domnvs Menendvs hujus Monajttrij
primus Prior, qui nunquam, dum vixit, pedem movit,nifiad obfequium T)ei: obqt
-vi Nonas O ff obr is , traM-CLXX. Quer dizer: Aqui jaz Dom Mendo, pri-
meiro Prior deíle Moíleiro, o qual nunca deu paifada, que não foífe em fer-
vico de Deos: fáleceo a 2 ■ de Outubro do #nno de 1170. E çomo as Religiões
de S. Bento, ff de S. Agoílinho, ff a dos Conegos Regrantes erão na Província
de Entre Douro ff Minho fenhores de todas as Igrejas, impetrarão os Reys, ff
Prelados breves de Sua Santidade para lhes tirarem algumas, ff as fazerem C o-
mendas, ff as darem às peffoas, que os fcrvião, & principalmente a Deos nas >
guerras contra os Mouros para exaltação de fua fanta F è; ff os Prelados allegà-
tão por íua parte não terem Igrejas para darem a Clérigos feculares ; com oue
muitas felhcs tirarão,& defannexàrãoj fòy huma delias eíla do Salvador de Ri-
bas, que fendo a ilidida de Conegos Regrantes de Santo Agoílinho, lhes fov ti-
rada para Commenda de Chrifto. Depois da morte do Prior Dom Mendo mui-
tos annos,entrou por Commendador de S- Salvador de Ribas Ruy de Mello, em
tempo do qual foy Deos fervido fe manifeftafíe ao mundo a fantidade daquelle
devoto Prior Dom Mendo, movendo o animo daquelle Commendador a querer
abrir a fepultura, & pondo em execução o feudefejo ,fahiodo monumento tão
grande cheiro, que logo lhe pareceo, ff aos circundantes,que não podia deixar
de fe ver hum grande prodígio; ff aflita fuccedeo; porque fe achou o íeu corpo
todo organizado,mas gaílado atè os geolhos femtermais queosoíTos, ff dos
geolhos para baixo eílavão a*> pernas inteiras, ff cheas de carne , metidas em
humasmeyasde grã, ff os pès nos fapatos, tudo tam novo , corno fe naquella
hora lhos calçàrão-Cõ eíla noticia cõcorreo logo muita gete de toda aFreguc-
jfiaaver aquclla maravilha, ff venerar aquclles pés, que havendo quatrocentos
annos que forão enterrados, eílavão como de homem vivo, ff muitos doentes
de varias enfermidades cobràraõ logo faude. De tudo o Commendador Ruy de
Mello mandou fazer hum auto por hum Notário Apoílolico de Guimaraens,
chamadoThomé Afvarez, que daquella Villa mandou vir para dar fé de cafo
tam prodigiofo- Defte Santo Prior faz mençaõ a Cronologia Monaílica Lufí-
tana a dous de Outubro por eílas palavras , que traduzidas do Latim em Por-
tuguez querem dizer: Na Previnem de Entre Douro, & Minho no antigo Mof~
tetro de S -Salvador de Ribas a depofição do Beato Metido,Conego Regrante}& Prior
antigamente do rnefmo Moíleiro, o qual nam fahio dofeu Mojleiro em quanto viveo %
cujos pes Deos coferva incorruptos dejde o anno defeu falecimento, que foy ode 1170
ate o dia de hojej ao qual por efta razao venerado com grande devoção os povos viftnhos
S. Martinho de Val de Bouro, V igairaria*k> Moíleiro de Pombeiro , tem
cento&vintecinco viíinhos. Daqui fòy natural oReverendiflimoPadre Frey
Pedro de Bailo,oitavo Geral dos Frades Bentos, filho de pays honeílos, o qual
jaz fepultado no Moíleiro de Tr avança com opinião de Bemav enturado.
Santo André de Molares foy Abbadia dos Condes de Bailo, ff hoje he do
Padroado Real,rende trezentos mil reis., tem cento & cinco vifinhos.
Santa Maria de Veade, Commenda de Malta unida à de Moura morta,tem
Vigairo com o Habito da Ordem, ( cue aprefenta o Commendador ) o qual
diz Miífaneíla Igreja dous Domingos, ff hum na de Gagos 3 que ambas eftão
unidas para os freguefes irem nciles aias ouvilla a hunia, ou outra parte, aonde
o Vigário vaydizella; renderlhehacemnulreis comaordinaria.,& para o Com-
mendador qúinhentçs ff feífenta mil reis,té duzentos cincoéta ff nove viíinhos.
DA COROGRAFIA PORTUGUE2A. 14?
Santiago de Gagos, Vigairaria annexa a S. Clemente , ciijos frutos fàõ,
ametade do Abbade, & a outra ametade da Commenda de Antim da Ordem de
Chrifto, tem quinze vifínhos.
S. Romão de Corgo, Vigairaria do Mofteiro de Refoyos de Bado , & dos • .
Frades jeronymos de Coimbra,tem quarenta vifínhos.
S. Maria de Canedo^ V igairaria annexa ao Mofteiro dePombeiro,tem cen-
to &feis vifínhos.
S- Salvador da Infefta , Reytoria do Padroado Real , & Commenda de
Chrifto, tem quarenta & cinco vifínhos»
Santa Maria de Borba da Montanha, Vigairaria annexa á Reitoria de S. Sal-
vador da Infefta, tem duzentos ôccincoenta vifínhos» y
Santa Maria de Moreira, Vigairaria annexa defta Commenda , tem vinte &
cinco vifínhos. Aqui eftá a Quinta da Torre , folar defta família de More i'r a>
que com toda a Freguefía-era Honra, como fe diznasInquiriçoensdelRey Dõ
Diniz com as palavras feguintes,fallando delia: A Quinta, que chamao a Tor-
re, q foyde Pedr o Peres de Moreira, horada co toda, a Freguesa,em q fizerao quietas
Ruy Peres [eu filho, & João Moreira, & Martitn Moreira: & não a Villa cie Mo-
reira na Província da Beira > como alguns cuidarão. Tem por Armas ém cam-
po vermelho nove efeudinhos de prata em tres palias , & em cada hum huma
Cruz de Aviz, timbre meyo lobo de vermelho , com hum efeudo das Armas
nos peitos. Os que delcendem de Fernão Moreira Perangal,tem por Armas em
campo azul huma Eftrella de ouro de oito pontas, abaixo huma cabeça de Mou-
ro enfangUentada com trunfa de prata , & no meyo da Eftrella , & da cabeça
huma banda de prata adentada,timbre hum Leão nafeente com eftrella na efpa-
doa»
S. Salvador de Fervença foy do Padroado Real, & o deu ElRey Dom Dini2
a feu fílho baft ardo Dom Affonfo Sanches, fenhor de Albuquerque, aos tres de
Mayo de i uo. o qual no de 1318.0 dotou ao Mofteiro de Freiras de Villa
do Conde, que então edificava: he Vigairaria que rende cento & vinte milreis>
& para as Freyras trezentos mil reis 3 tem cento & cincoenta vifínhos. He tra-
dição foy Convento de Freyras, de que ha indícios para fe crer, & parece foy
aqui o que fe intitulava Santa Maria de Recião, de ConegOs Regrantes com Ab-
badeças fogeitas aos Conegos do Mofteiro de Caràmos, a cuja vifta fica, & per-
manecia em tempo delRey Dom Affonfo Henriques. Daqui fe tomou o appclli-
do de Fervença.
S.Miguel de Carvalho, Abbadia da Mitra , que rende trezentos mil reisj
tem cento & feis vifínhos.
S» joãodeArnoyahe Mofteiro de Frades Bentos, fundado por Dom Ar-
naldo de Bayão, de que tomou o nome , como confta da Benedidtiná Lufítana
tomo 2. part. 4. cap. 6. he Convento rico, & bem afliftido de Religiofos 5 &. fup-
pofto que o tempo lhe foffe confumindo muitas rendas , ainda hoje he
dos mais rendofos da fua Ordem. Foy nos tempos antigos chamado S. joaõ
do Ermo, por eftar fundado em terra montuofa , & afpera junto do Caftello
com dilatada vifta para o Oriente por ferras, & fragofos montes , principalme-
te para hum, que chamaô o Monte Farinha, que do pè atè o cume , aonde tem
huma Ermida, & huma caudelofa fonte,fe fobe húma grande legoa. Tem Cura,
que com o ordenado, & pè de Altar lhe renderá oitenta mil leis , & confta à
F reguefía de duzentos & dez vifínhos.
S. Miguel de Borba de Godim, Parochia da Lixa, he Commêda de Chriftoq
Nij
i48 TOMO PRIMEIRO
& Reytoriada Mitra, que renderá oitenta mil reis, & pata o Commendador cõ
as annexas trezentos mil reis, tem cento & dez vifinhos.
Santa Eufemia de Agilde, Vigairaria annexa a eftaCommenda , que apre-
fenta o Reytor de Borba de Godimi tem quarenta vifinhos.
Santa Leocadia de Macieyra,V igairaria do Mofteiro de Carámos, que ren-
de fetenta mil reis, & para os Frades cento & vinte mil reis, tem trinta & tres

Santa Leocadia de Arnozella, Vigairaria do mefmo Mofteiro, que rende


quarenta mil reis, 8c paraos Frades feífehta mil reis , tem vinte & cinco vifi»

Santo Eftevaodas Regadas fov Abbadiado Ordinário , Sc a unioao Coil?


vento do Populo de Braga o Arcebifpo Dom Agoftinhode Jeíus ScCaílro '• he
Vigairaria, que apreíenta o Mofteiro de Pombeiro , a qual rende oitenta mil
yeis, Sc para os Frades do Populo de Braga cento Sc cincoentamil reis, tem íef-
fenta Sc cinco vifinhos. . i
Santa Marinha de Ardegaõ, Curado do Mofteiro de Pombeiro, que rende
trinta mil reis, Sc para os Frades vinte mil reis, tem doze vifinhos- *
S. Martinho de Seydoens, Abbadia da Mitra, rende cento Sc cincoenta mil
reis, ôc tem quarenta & quatro vifinhos-
S.Bertholameu do Rego, Vigairaria do Convento de Pombeiro , rende
ao Vigário cem mil reis, Sc para os Frades cento Sc cincoenta mil reis , tem oi-
tenta vifinhos.
S. Salvador de Freixo foy Convento de Conegos Regrantes de S. Agoiti-
nho, fundado pelos annos de 111 o. por Dona Gotinha Godins, mulher de Do
Egas Hermigis o Bravo, logros de Dom Egas Gozendes, que viveo em ten po
delRey Dom Affonfo o Sexto- De Curado do Convento de Saõ Gonçalo d e
Amarante, a que eftá unido, por fer annexo ao de Mançellos, & com elle o deu
ElRey Dom Joaõ o Terceiro ao Convento dos Dominicos: tem cincoenta vifi-
nhos, de que ametade faõ defte Concelho, & os outros do de S* Cruz.
S. Miguel de Freixo, Curado dos mefmos Frades, annexo ao Salvador,tem
dezanove vifinhos.
Santo André de Toloens foy Mofteiro de Frades Bentos , íundado por
Dom Rodrigo Frojas, tronco dos Pereiras pelos annos do Senhor de 887. El-
Rey Dom Aífonfo Henriques , & fua mulher a Rainha Dona Mafalda fizeram
doaçaõ delle aos Conegos Regrantes de Santo Agoftinho pelos annos de Chrif-
tode 1173* quenelle florecéram até o de 14.75* em que Joaõ de Barros leu
Prior,&Conego oannexou àCollegiadadeGuimaraens juntamente com ode
S. Torcato, que teve o mefmo fundador, & as mefmas datas por Breves do Pa-
pa Sifto IV. Confirmou a doaçaõ o Arcebifpo Dom Luis no mefmo anno de
X47 5- que fe guarda no Archivo daquella Real Collegiada ; he hoje Vigairaria
do Cabido de Guimaraens, que renderá cem mil reis , & para os Conegos com
as annexas feifeentos mil reis, tem trezentos 8t dez vifinhos.
S. Pedro de Aboim, Curado annexo a Toloens, rende vinte mil reis , &
para os Conegos fefienta mil rei s, tem vinte & cinco vifinhos.
Santo André de Codeçofo, Curado annexo a Toloens , temvinte 8cnove
vifinhos. Obrafe aqui telha, &'faõ eítas duas Freguefias Couto das Taboas Ver.
melhas de Noífa Senhora da Oliveira, no qual fazem Juiz os Conegos de Gui-
maraens : o Efcrivaõ he hum dos de Ceroiico de Bafto.
S. Cipriaõ da Chapa, Curado annexo ao Convento de Mançellos, tem qua-
torze vifinhos S,
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA; 149
S. Salvador de Villa Garcia , Vigairariaannexa aoPrcftimonio,ou Cõ-
menda de Alvarenga em Louzada, tem trinta & dous vifinhos.
S.JoaõdeGataó, Abbadia do Ordinário, rende duzentos milteis , tem
cento & cincoenta vilinhos. Daqui, he tradição, foy fenhor o Conde DomGa*
taÕ , povoador de Aftorga em tempo que fe reftaurou dos Mouros: era defcen-
dente delRey Godo Flávio Egica 5 fundou entre nós muitas Igrejas, huma das

^UaCSantiago de Ourilhe, Vigairaria annexa a Santa Senhorinha de Cabeceiras


de Bafto,tèmtrinta&cinco vifinhos.
S. Miguel de Cacarilhe, Abbadia da Mitra, que fe defannexou da de S. Cle-
mente, rende cento & vinte mil reis, tem quarenta & dous vifinhos-
S.Pedro deBirtello,Abbadia daMitra,rêde trezêtos mil reis,tê cê vifinhos.
S. Miouel dosGemeos, Abbadia da Mitra , rende duzentos & cincoenta
mil reis, tem cento & dezafeis vifinhos. Neila Igreja da parte da Epiílola,da
banda de fóra abaixo da porta traveffa, eílá hum tumulo com dous vultos em ci-
ma feitos ao tofco, que dizem teve a caufa feguinte. Havia alli huma Capella do
Arcanjo S. Miguel, & junto à ella viviaõ hum lavrador rico com lua mulher,qué
teve hum parto monftruofo de dous varoens com duas cabeças, quatro pernas,
& hum fò ventre: aífim viverão trinta annos bautizados, £c facramentados , &
com tam bom ufo de razaõ, que edificàraõ efta Parochia no mefmo lugar da Ca-
pella com a invocaçaõ do mefmo Anjo, que delles tomou o fobrenome dos Có-
rneos 5 porque além de a obrarem, lhe dotàraõfeus bens, & falecendo hum, foy
corrompendo o outrode modo,que também morreodentro em tres dias*
Santa Maria de Rcbordello fica além do rio Tamega , he Curado do Moí}
teiro de A rnoy a, tem vinte & tres vifinhos. ' r

S. Jorge de Pedraça fica também alòm do rio Tamega, & he Curado do mef-
mo Mofteiro, tem vinte & nove vifinhos. ' ! d

CAP. XXXI.
_ - . r r .*t *' j l 1 * » ' '•» 1 Jti 1 * •» * ÍD í •

Do Concelho de Cabeceiras de Dafto.

DEfte Concelho, & do de Cerolico parece que, fendo ainda my Ricos, teve
principio o chamarem-fe ambos terra de Bafto , de que deviaõ fer fe-
nhoresos defcendentcs de Dom Guedao Velho,filho deMemGornes Muçara-
be de Toledo, que paliou a efteReyno com o Conde Dom Henrique , & lhe
deuBarrofo,& Aguiar de Pena, termos vifinhos defte, de que feus fucceífores
fe appellidàraõ Barrofos, Aguiares, & Baftos: & também delle fe entende virem
os Mafcarenhas; &. dos Barrofos defeendem hoje em Caftella os Marquezes de
Malpica, & Povar. Dizem alguns que efte tronco de todos vinha dos Godos,
& que o folar dos Guedas he em Noruegia, aonde teve fua origem antes da vin-
da de Chrifto. Aqui he o dos Baftos, que tem as mefmas Armas do - Barrofos 2
em campo vermelho cinco Leoens de prata faxados de duas faxas de purpura
cada hum, huma pelo pefcoço, outra pela bárriga, empequetados dé Ouro, pof-
tos em afpa, timbre hum dos mefmoSjLeoens.
tjo TOMO PRIMEIRO :>
A eíle Concelho deu foral ElRey Dom Manoel em Lisboa a f • de Outu-
bro de if 14. Foy delle fenhor Dom Chriflovaõ de Moura , & hoje he
da Coroa he cabeça delle o lugar das Pereiras , tem dous juizes ordiná-
rios jtres Vereadores , bum Procurador por eleição do Povo triennal , a que
prefide o Corregedor de Gtiímaraens, cinco Tabeliaens , Elcrivaõ pordiflri-
buiçaõ nos Coutos, juiz dos Orfaos com feuEfcrivaõ, Diftnbuidor , Enque-
redor,& Contador, Meirinho, que ferve de Carcereiro , Efcrivaõ das Sizas
com ordenadono Almoxarifado deGuimaraens- Eíle fertilifiuix) valle fituado
entre duas montanhas fe dilata por efpaçode tres legoas,tendo em partes mais
de huma de largo; dá bem paõ, azeite,bom vinho de enforcado),! frutas, mel,
hervagens, muitos gados de todaaforte, muitacal>anha ,& caça ; tem Capitaõ
mor, & Sar get o mór de cinco Cõpanhias,& cõpoc-fe dasFregliefías feguintes-
Santa Senhorinha foy Moíteiro, que fundàraõ íeus parentes para feu re-
colhimento, & de outras Vreyras da Ordem de S- Bento, que com eíla Santa ia-
biraõ do feuMofieiro dei Vieira, donde eraõ moradoras tendo efla ferva de
Dtos noticias que a terrade Bailo eraaccommodada para nella fãzerem fua ha-
bitaçaõ, a foraõ fazer 11a Freguefia de Santiago da Faya junto de hum pequeno
rio, que naqueljaparagcmiechamao rio Bailo, que a poucos pálios fe mete no
Douro. Indo pois caminhando a Santa com as luas Religiofas a povoar o ftu
Moíleiro, chegáraõ a hum lugar, que.cbamaõ Carrazedo, & querendo todas
defeançar à fombra de hum grande, ôtírondofo carvalho , cujo tronco inda
hoje í'e moííra , & por ferverde pavdhaõ para reparo do Sol daquellas fantas
fervas de Deos, nam falta a devoção dos fieis Catholicos daquelles contornos
para o irem ver, & darem nove voltas ao redor delle, offerecendo com eíle mais
ruílico que fuperíliciofo culto a aque la Santa fuas oraçoens. E como a Santa,
&íuas Religiofas namtinhaõ rezado Vefporas, para que as rezaílem a feu tem-
po, con.o manda afuaRegra,ordenou.queasrezaíTcm alli , aonde tinhaõ de-
fronte huma fonte , cujas aguas íufpcndiaõ fuas correntes<jm huns grandes
charcos, que tinhaõ criado muita quantidade de rãs; & tanto que as Religio-
fas comcçàrao a rezar, deraõ ellas também principio à fua coiiumada , & im-
portun a diífonancia, que por fervi r de eíiorvo âsfervas de Deos , a Santa Se-
nhorinha as mandou calar: Òcforaõ dias tam pônfuaes em lhe obedecerem,quc
nam fófeaquietàraõ,&fufpendèraõ fuas vozes, mas nunca mais apparecèram
naquelle lugar. Neíle Moíteiro ^S^mta Senhorinha eíleveFIRev Dom San-
cho o Primeiro de Portugal huma novena, pedindo a eíla Santa alcançaífe por
feus merecimentos de N- Senhor faude para feu filho oPrincipeDom AfFonfo,
que eflava gravemente enfermo, &oomperigo demorte. Alcançoulhe a Santa
o que pedia; & durando ainda a iuanovena , lhe rrouxeraõ novas em como o
Principe eflav^ já melhorado, & livre' de perigo. Agradecido ElRey , fez hum
Couto à Igreja de Santa Senhorinha, o qual todo.correo , & andou a pè apon-
tando os l ugares, aonde fe haviaõ de meter os marcos , mandando por o pri-
meiro à'fua viílã junto do rio de Moles, quando entra em Bafio y & os outros
encomendou a". Dom Gonçalo Mendes, que naquelle tempo era fenhor da terra,
que com tóda a diligencia osmandaffe pòr nos lugares, que ficavaõaífinados •
o que tudocopflá de huma efcritura,que.fe guarda no Archivo de Braga. Ex-
tinguiofe eôé Couto, com que delle naõ ufa eíla 1 greja.
Nam foy-fo ElRey Dóm Sancho o Primeiro o que com taíita devoção hon-
rfett, & venerou efta Igreja^roas tainfaém ElRey Dpm Pedro aPrimeiro, o quaf
lhe ânnexou a Igreja de Salto em terra dt Barrofo com certas-dondiçoens, das
-dte •• [uM * quaes
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. ' iff
quaes huma era , quena dita Igreja de Santa Senhorinha ardeflfem fcmpre tres
alampadas, huma diante de Noffo Senhor Jefu Chrifto crucificado, outra dian-
te do fepulchro da Santa, & a terceira diante da fepultura de leu irmaõ S* Ger-
vafio: & declara o Rey na data daquellà mercê, que a Rainha Dona Ines de Caf-
tro fizera a Capella do melmo Saõ Gervaíio- O defcuido dos antigos nos dei-
xou fem luz parafâbermos quanto tempo duraíTe o Moíleiro de Santa Senhori-
nha a ilidido de fuas Rei igiofâs, & o tempo em que foy fundado , porque de
nada fc acha clareza verificada para fe poder allegar, & pôr em publico ; fó fe
acha que no tempo delRey Dom Affoniò Henriques eftavájà eíie Madeiro ex.
tinto, & a fua Igreja veyo depois a fer Abbadia, que aprefentavam os Pereiras,
fenhores da Quinta da Taypa, & hoje he do Padroado de Dom Gaftaõ Jofeph da
Camara Coutinho*
Santiago da fay a, Abbadia, que aprefenta còm referva o Prior do Crato,
a mayor Commenda, & Dignidade que tonne if e Reyno a Ordem de S. Joaõ de
Malta, rende duzentos mil reis,&tem fetenta vifinhos. Neila Freguefia eílá â
Quinta do Villar, que foy de Antonio de Lima de Noronha, Capitaõ mor def-
te Concelho, filho de Manoel de Lima de Abreu & Noronha, & neto de Franci fi-
co de Abreu, fenhor de Regalados*, hoje he de feus genros Bento Rabcllo Lôj
bo,& Balthafar Peneira da Sylva, da qual federão já ao dizimo mais de feifceiy
tos alqueires de calfanha.Chama-fe efta Parochia vulgarméte Santiago das Bi.
chas,potq emhu regato,cj por ella corre,ha muitas fanguexugas,& defide as pri-
meiras Vcfporas deiie Sãto âtè às fegudas cõcorre a elle em romaria muita gete
faa,& enferma de vários males, St hús mádaõ tirar eiles bichos pará os poré enl
^fi, outros metem as pernas na agua, ôt ãferrandofe nellas,lhes tiraõ quantidade
defangue, conique fe achaô melhor, & fe attribue a milagre do Santo, nam o
pegar dasfangueXugas, pois heíeu natural, mas o obrarê tanto bem repenti-
namente.
S. Martinho do Arco deÈagulhe , Vigairaria dos Frades Jeronymos de
Coimbra, tem cem vifinhos.
Santo André de ViliaNune, Vigairaria dos mefmos Frades, rem trinta Se-
leis vifinhos.
Sapta Marinha de Pedraça, Vigairaria dos mefmos Frades , terri fetenta
vifinhos* Aq ui he a poufada, aonde ha veftiaios de huma Torre, que o tempo,
& outras peífoasdesfizeraõ para fazerem caías. Neila viveo Vaicd Gonçalves
Barrofo, & fua mulher Dona Leonor de Alirim,que depois cafou com o Condef-
table Dom Nuno-Alvarez Pereira. Dizem fer folar dos Duques de Lerma , St
he erro de quem o faz em S* Miguel de Carvalho do Concelho de Cerolico de
Baífo. .
S. Joaõ de Cavês, Vigairaria do Convento de Pombeiro , tem fetenta vifi-
nhos- Neila Freguefia cítá fobré o rio Tartfega a ponte de Cavês , fundaçaõ dc
' Frey Lourenço Mendes , a qual divide eíia Província da de Trás os Montes,
junto delia tilava hum tumulo, St nclle fepultado o Mcíire, que a obràra , com
hum letreiro, que dizia : Efia he a ponte de Cavês, aqm jaz quem a fez. Ha
poucos annos a desfizeraõ pata outra abrà*
. S- Lourenço de Villar, Vigairaria annebeá dc Cavês, tem trinta & dous vi-
{inhòs*- ! • : 1 Lb ' i
S- Joaõ de Gundiacs, Vigairaria do Morteiro de Refoyos , tem trinta viu*
nhos* .
S* André deRio de Oura, Vigairaria do mefmo Malfeito, tem cento &Cim
eoenta & cinco vifinhos« S*
m s tomo primeiro; C ' <
s. Nicolao de Bafto, Commenda de Chrifto, & Reytoriaxla Mitra, que re-
de cem mil reis, & para o Commendador coma annexa ieguinte duzentos- &c
trinta milreis:temcentoôc dezviíinhos. Aqui eftáa illuitrc Cala da Taypa,<
folar dosPereiras Marramâques , que tam grandes homens íahiraõ delia para
todas as partes, Scconquiftas defte Reyno»
S. joaõ de Buços, Vigairaria ercda de S. Nicolao de Bailo, que apreíenta
o Rey tor, tem quarenta viíinhos.
Santa Maria de Aboim, Vigairaria do Abbade de Roças , que rende cin-
coentamil reis com ametade das oftcrras de NoíTa Senhora da Lagoa, ôt para o
Abbade fetenta mil reis, tem trinta & íeis viíinhos. Eftá efta tam devota,como
ahtiga imagem emhumfcrmofo Templo, que fe fundou de| efmolas no cume
de huma íerra, aonde quafi juntos partem efte Concelho com o de Guimaraens,
Monte-longo, & Cerolico de Bafto; tem hum largo terreiro cbm algumas arvo-
res, que o fazem aprazivel; entendefe que naquellas brenhas a deixaria algum
Chriftaõ, quaudo os Mouros entràraõemEfpanha , & depois a acharam huns
paftores, que nefta montanha apafcentavaõ o gado : a Imagem he de palmo &
meyo, morena , como faõ as mais daquelles tempos. Logo concorreo gente a
efta appariçaõ, de que naõ ha noticia do tempo cm que appareceo : fizeraôlhe
huma CapeUinha, aonde efteve muitos annos: mas das muitas efmolas, que de-
raõ innumeraveis romeiros,(que concorrem de varias partes, por feus infini-
tos milagres, defde cinco de Agofto até o ultimo fabbado do meímo mez, & o
mefmoconcuríode gente fe encontra do primeiro fabbado daQuareíma atè o
ultimo daquelle fanto tempo) fe fez efta grande Igreja, em que hoje eftá muito
bem ornada no meyo de hum ermo. __ •
Santa Maria de Varzea Cova, Vigairaria , aprefentação da dcOuteiro,
quefefegue '• rende com ametade das offertas de NoíTa Senhora da Lagoa cin-
eoentamil reis,& para os Frades Bentos , &Jeronymos de Coimbra fetenta
mil reis, tem quarenta viíinhos.
Santa Maria do Outeiro, Vigairaria dos mefmos Collegios, que rende oi-
tenta mil reis, & para os Frades cento & dez mil reis , tem fetenta & dous viíi-
nhos.
Santo André de Painzella, Vigairaria annexa de Santa Senhorinha , que
rende feffenta mil reis, & para o Morgado da Taypa cento & quarenta , tem
feffenta viíinhos.
S. Pedro de Alvite, Vigairaria do Mofteiro deRefoyos, que rende qua-
renta mil reis , & para os Frades cento & vinte mil reis , tem feffenta viíi-
nhos.

Couto de Refojos de Bafto.

SA5 Miguel de Refoy os, Mofteiro de Frades Bentos, foy fundado por Her-
migio Fages em tempo dos Godos, & fe confervou em tempo dos Mouros,
por tributos, que os Frades lhes davão : eftá em lugar baixo de pouca vifta, &
tem defronte da porta principal da Igreja fermofa entrada com hum largo ter-
reiro muy comprido com padrão no meyo bem lavrado, 5c de hum lado olivei-
ras, & acipreftes poftos por ordem, & do outro alamos baftos, & altos,& mui-
tas aguas. Flouve aqui Monges de exemplar vida, & vivião alli feffenta & fete
Religiofos pelos annos de 1403. andou cm Abbades perpetuus até ode 1428.
•?ií cm
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. 153
cm que começarão â entrar Abbades Commendatarios, &: foy o primeiro Dõ
Gonçalo Borges ? que com grande oílentação logrou aquelle lugar trinta &
quatro annos,"fio fim dos quaes lhe fuccedeo por renuncia lua feu fobrinhoDõ
Diogo Borges, que por morte do tio governou vinte & feis annos: renunciou
em outro feu fobrinho Dom Alvaro Borges, que faleceo no de 1496- tendo re-
nunciado em feu fobrinho Henrique Borges, que o teve trinta £c leis annos até
o de 1 f} 2. em que lhe fuccedeo o Doutor Francifca Borges, que faleceo no de
1537- não occupando cífe lugar mais de cinco annos j com que fe acabou o an-
dar nella familia no fim de cento & nove annos. Por morre do Doutor Francif-
co Borges entrou por Dom Abbade CommcndatariQj© Infante Dòm Duarte , fi-
lho natural delRey Dom Joaõ o Terceiro , que foy depois eleito emArcebiípo
de Braga; fuccedeo-lhe o Padre Frey Diogo de Murça-, Religiofo da Ordem de
S- Jeronymo, que governou a Cafa como Adminiílrador. perpetuo,& perfuadi-
dode alguns pedio ao Papa Paulo Terceiro extinguilfe eile Convento deRe-
foyos, & com as rendas delle fundaífem em Coimbra dous Collegios, hum de
S. Bento, outro de S. Jeronymo, & que do remanecente fe faria outro Collegio
de doze pobres; o que fe lhe concedèo pelos annos de 15-4.9. & chegando as Bui-
las a Coimbra, aonde elle era Reytor da Univerfidade por mercê do mefmo Rey
Dom joaõ o Terceiro, as mandou intimar aos Frades deRefoyos , os quaes
nam vindo nilfo, appellàraõ das Ccufuras. O mefmo Frey Diogo advertio a ra-
zão que tinhão , & pedio a Sua Santidade ficaíTe o Moíteiro empe com doze
Monges, & hum Prior, & fechamaífe Oratorio, & membro do Collegio de Saõ
Bento de Coimbra, ôc foífe reformado como os mais; o que tudo houve por beip
o Papa Paulo Quarto no anno de 15 f 5 • F aleceo neítc Molle iro o dito Padre
Frey Diogo no anno de 1570. & nelle fez muitas obras ; eftá fepultado na Ca-
pella mor da Igreja antiga: fuccedeo-lhe feu fobrinho Dom Joaõ PintoConego
Regrante de Santo Agoí!inho,nampor renuncia do tio, mas por Bulias,que lhe
alcançàraõ feus irmaõs em Roma; governou dez annos, & deixou o Moíteiro
por mandado delRey com certa penfaõ , que felhefatisfaria no Convento.de
Catámos da fuaOrdem^aondeferecolheo pelos annos de tf 70. em que entrou
a reforma ,& Abbades triennaes por Bulla do Papa S. Pio Quinto. Tinha eíte
Convento, nam ha muitos annos, muita renda , particularmente na Província
de Trás os Montes, aonde as repartia pelo meyo com os Duques de Bragança,
em razão que Vafco Gonçalves Barrofo primeiro marido de Dona Leonor de
Alvim, que depois cafou comoCondeítable Dom Nuno Alvarez Pereira, dei-
xou todos feus bens (que eraõ muitos osquepoíTuía) a efte Convento, aonde
fe fepultou, & os da mulher paífáraõ à Cafa de Bragança por cafarnento de Do-
na Brites Pereira, fua filha herdeira, & do Condeftable, com o primeiro Duque
O Infante Dom Aífonfo. Tinha grandes Quintas,-alheàraõ-fe numas t empra-
zàraõ-íè outras, & além do muito que lhe tiraõ nos fabidos, que importaõ tres
mil & quinhentos cruzados para Coimbra, fica com mais de tres mil cruzados
de renda com as Igrejas annexas,de que fuftenta trinta Frades. A Igreja he
bem ornada com muitas reliquias, aprefenta Cura fecular , que tem de renda
oitenta mil reis, & conda a Freguefia de quatrocentos vifinhos. Tem Couto
grande com Juiz no Civel, &Orfaõs, a quem o Dom Abbade dá juramento , &
palfa carta, & faz Almotacel, Mordomo, Coudel, jurados , & Quadrilheiros;
faõíeusos direitos Reaes,& penas delles,& o mefmo Prelado he Ouvidor para
quem feappella do Juiz: no Crime he o do Concelho,aquevay aíliftiro do Cou-
to : os mais Officiaes faõ os do termo, cõ que anda unida a Cõpanhia do Couto.
Couto
,54 TOMO PRIMEIRO

Couto de Abhadim.

SAÕ Jorge de Abbadim, Abbadia, que rende duzentos mil reis, a qual apre-
fenta Gonçalo Lopes de Carvalho, moço fidalgo da Cafa Real, & Cavallo*
rodo Habito de Chriílo, fenhor deíleCouto,& dodeNegrellos,emque apre-
fenta fomente Porteiro. Tem Juiz ordinário, &Orfaos , em cuja eleição an-
nual prefide o fenhor deíla terra: os mais Offictacs fao do Concelho. Tem Ga-
pitaõ à parte, & confia de cento & trinta vifinhos: ElRey Dom Manoel lhe deu
foral em Lisboa aos doze de Outubro de yri* Aquieíla huma Torre antiga
coroada de ameyas , que dizFreyFrancifco Brandao naMonarchiaLulitana,
part- 6- liv. 18- cap. í ?• fer o folar dos Badins.

CAP. XXXII.

T>o Concelho de 'Roças.


> f , •' f;"- Ci •} ] p pjv;

EStá mra a Darte do Norte cinco legoas de Guimaraens, & quatro da Ci


dade de Bra°a * ElRey Dom Manoel lhe deu foral em Lisboa a vinte & ires
de Outubro de ifl4 Foy fenhor delle Fernão de ^„V^kreu01 fenhor de de-
cern Dona Inez de Sotomayor, viuva de Lopo Gomes de Abreu , fenhorde Re.
«alados, & Valladares, ôt filha do primeiro Vlfconde Dom Leonel de Lima , vi
ferabcmGuimaraensidosquaesáefcendem alguns fida
clles Francifco de Souf^a Sylva ^que w^naquelh Villa* Hoje^he^da^Corm^

raens; hum Meirinho, que ferve de Carcereiro, eleito cada anno peia Camara;
dousÀlmotaceis,Diflribuidor,Enqueredor,iSc Cõtador,tresEfcnvacs do Ju-
dicial, & Notas, & hum Efcrivão da Camara, & Almotaçaria , & outro das Si-
sas, que tanbemohede V illa-Boa da Roda com o mefmo Juiz de Regas;• todos
data delRev. Recolhe baílante pão, vinho, frutas, caílanha, mel , & tem mui
• tos gados,'criacão de egoas,caça,& pefca nos regatos de trutas, bogas, & ef-
calhos. Tem hum Capitão, & as duasFreguefias feguintes. _
S. Salvador de Roças, Abbadia, tem cento & feffenta viíinhos : foy Mof-
teiro de Frades Bentos, & no anno de 119 T fez João Paes doaçao delle a Dom
Martinho Arcebifpo de Braga, dahi paliou aos Abreus , fenhores de Regala-
dos , que hc da fua aprefentaçaõ , como ha poucos annos o fez João Pinto
Pereira,fidalgodaCafaReal,&moradorno Bom jardim da Cidade doPorto;
por fer deíla familia: rende eíla Igreja com a annexade Aboim em Cabeceiras
de Bailo mais de feifeentos mil reis. Aquieílà a Torre do Bayrro, que teve cár-
cere,de queerafenhoro ditoFernaõdeSoufadaBote ha: he morgado deGer-
vaíio de Pena de Miranda por herança dos Mirandas de Guimaraens. No lugar
da Lama eílá outra Torre mais moderna , que poffue Antonio Machado Coe-
lho ■ & na Aldeã de S. Pedro eílaò humasboas cafas, onde morou Diogo Alva-
rez Correa daqui natural, que foy Cabo de hum troço de gente na de Alcacere,
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA.1
cm que peleijou com grande valor, tendo funs próprias tripas na maõ efquer-.
da.
Santa Maria dos Anjos, Abbadia da Mitra, que rende cem mil reis , tem
quarenta viíinhos. ' • t

C A P. XXXIII.

c
Do Concelho de VdlaFBoa da F^da.

HE delRey, tem Juizprdinario,&Orfaõs, dous Vereadores, & Procura-


dor do Concelho feitos por pelouro,eleição do povo de tres em tres an-
nos, a que prefide o Corregedor de Guimaraens, dous Eícrivaens, que fervem
cm tudo, fó o da Camara anda unido a hum, Dilf ribuidor, Enquqredor, & Cõ-
tador,hum Almotacel feito pela Camara, & hum Meirinho, que he Carcereiro,
todos data delRey. Recolhe paõ, vinho, & tem muitos gados, caças , & pefcas
no rio Ave, & nos regatos. ElRey Dom Manoel lhe deu foral em Lisboa a oito
de Agoílo de 1514.. tem cento & trinta vifinhos com huma Igreja Parochial da
invocação de Santiago de Guilhofrey, Comenda dte Chrifto, & Rey toria do Or-
dinário, que rende cento & quarenta mil reis com Coadjutor , aquém daõ oi-
tomil reis, & feífenta alqueires de paõ, que tudo importará quarenta mil reis,
& para o Commendador com a annexa de S. Payo de Brunhaes em Lanhofo du-
zentos mil reis.

CAP. XXXIV.

Do Concelho de Fieira.

CHamoufe eftc Concelho antigamente Vernaria, fica para o Norte quatro


legoas de Braga , & o divide da Provincia de Trás os Montes a grande
ferra da Cabreira : ElRey Dóm Manoel lhe deu foral em Lisboa a 1 y. de No-
vembro de i y 14.- tem Juizordinario.dous Vereadores, hú Procurador do Con-
celho por pelouro, eleição triennal do poyo,a que prefíde o Corregedor de Gui-
maraens com appcllaçaõ ao Ouvidor do Donatário , quatro Tabeliacns, que al-
ternativamente eferevem 110 Givel, publico, &. Notas .no Couto de Cerzed ello
em Lanhofo: Efcrivaõ das Sizas, Contador, Diftribuidor, & Enqueredor•> Ef-
crivaõ da Camara! , & Almotaçaria , Meirinho annual feito pela Camara ,
juiz dos Orfaõs com feu Efcrivaõ , todo. data delRey , & hum Efcri>
vaõdp Ouvidor ) que pprefenta o fenhor dtfta terra. Tem dous Capi-
tacnSno &hum Sargento mór feitos pelo Donatário, que he Capitaõ mor. Rd-
colhe haílante paõ, vinho, frutas, muita caftanha, gados de toda acaíla, muito
mel,caça,&pefcds no Ave. que fe principia neita ferra daCabreirana fonte
Ave♦
: TOMO PRIMEIRO
Ave. Hefenhordefte Concelho António Luis Pinto Coelho, de quemja trata-
mos no Concelho de Fclgueyras: tem as Fregueíias íeguintes.
S. Toaòde Vieira foy Mofteiro de Freiras de S. Bento, fundado por Adul-
fo, Conde de Vieira, & fua mulher Dona Tareja, pays de Santa Senhorinha, que
profeífandonelle,fendo Abbadcça DonaGodinhaMonja de S. Bento, delle ie
foy com fuas companheiras para o Convento de Santa Senhorinha de Balio, que
feus parentes lhe edificàraô- HeReytoria , que rende cento & emeoenta mil
reis, & a aprefenta Martim Teixeira Coelho, fenhor da Teixeira. A quilha en-
tre cfte Caftello, & o de Lanhofo ruínas do Caílello de Pena Mounnha, q o foy
no tempo dos Mouros : em húa lapa, que tem, cabem duas tropas de cavallo, ou
mil infantes. Tem eftaFreguefia duzentos & dezyifinhos. ^
S. Payo da Ey ra Vedra foy annexa do Mofteiro de S. João, paliou a Abba-
dia, que aprefentavaõos moradores por doaçaõ fua, depois entràraõ nclxe Pa-
droado os fenhorcs da Cafa de Cirgude,& o tirou por demada a Martiml eixei-
ra Coelho, Dom Francifco de Souta, Capitaõ da Guarda de S- Mageixade, que
neUa aprefenta Abbade: tem oitenta vifinhos.
Sí Juliao deTabôaças, a que chamàraõ as tres Igrejas , por fer efta tres
vezes fundada em varias partes da Freguefia,he Abbadia doPadroadoReal,ren-
de cento &feíTenta mil réis, tem oitenta &dousvifinhos- Aqui fazem boa lou-

Ça dC f
S °Ei?évaõ de Cantarlaés, Abbadia da Mitra, que rende duzentos mil reis,
tem noventa vi linhos- Aqui ha ruínas de hum Caftello, chamado o Caltro de
Villa-ver de, que hoje dizem de Villa-íeca,& com eftar em hum alto , por baixo
delle vayhumamina diftanciade mil paífos geométricos, pela qual oscavallos
vinhaõ beber ao Ave. i -i
Santa Maria do Pinheiro, Abbadia da Mitra, rende oitenta mil^ reis , tem
quarenta & dous viíinhos, fóra os Meeyros de Corte Garça, quevaõ hum anno
a S-loaõ, outro a efta Igreja. . , ...
1 ;
S. Payo de Villarchaõ', Abbadia da Mitra , rende noventa mil reis , tem
cincoenta viíinhos. Daquivay o carvaõ para Braga, que fazem nefta ferra da
Cabreira.

CAP. XXXV.

Do Concelho de z5\donte Longo.


.
DUas legoas de Guimaraens entre o Norte, & oNafcente temfeu aífento
efte Concelho, de que he cabeça a Villa de Fafe , quetem huma fó rua,
aonde eftá a Cafa da Camara, & Cadea. ElRey Dom Manoel lhe deu foral em
Lisboa a y-deNovébro deiy 13. foraõ fenhores delle os Cunhas, Coutmhos,
& depois deftes paífou aos Condes de Bafto , & agora he dos Portugaes,
Condes de Vimiolo, por cafamento da Condeça Dona Maria de Albuquerque
com o Conde Dom Miguel de Portugal. Tem dous Juizes Ordinários , dous
Vereadores, hum Procurador por pelouro, & eleição do povo de tres em tres
annos, a quepreíide o Corregedor de Guimaraens , dous Almotaccis, Meiri-
nho, que he Carcereiro, eleição annual da Camara, tres Tabeliaens do Judicial,
•iv.'k L. *1
DA COROGRAFIA PORTUGÚEZA. fj?
& Notas, Diftribuidor, Enqueredor, & Contador, Efcrivaõ da Camara , & AÍ-j
moraçaria, Juiz dos Orfaos com feuEfcrivaõ , Outro das Sizas do Concelho,
Coutos, & Honra comordenado no Almoxarifado de Guimaraens,. & Porteiro
pela Camara; todos aprefenta EIRey, fendo qué os fazião os Condes de Bafio-
He fértil de trigo, vinho, algum azeite, muitos gados de toda a forte , mel, ca-
ça, & pefcas em tres regatos,que nelle nafeem, & formão-o VizelLa- Tem feirá
em Fafe no primeiro do mez,& em Pica aos 18-confia dasFreguefias feguin-
tes- ,
Santa Eulalia de Fafe,Toy Mofteiro, não alcançamos de que Ordem, enten.
demos que foy fundado por algum fidalgo dos do appellido Fafez; porque di-
zem fer cite o folar deitafamília, & que daqui foy fenhor Dom Godinho Fa-
fez, filho primeiro de Dom Fafez Luz, Rico homem, & Alferes do Conde Dom
Henrique, & que efta Villa, & Frèguefia tomáraõ delle o nome: extyiguiofe, o
quando naõ fabemos,&feunio ao Mofteiro de S-Marinha da Cofta, quenelle
aprefenta Cura,comnovent.a mil reis de renda, & para os Frades Jfcronymos
com íãbidos mil cruzados. Tem eftaFregucíia cento ôc cincoenta viíinhos, &
nelia há excellente pedra para edifícios-
S- Martinho de Ermil, Vigairaria do Convento dePombeiro,que ao todo
renderá feffenta mil reis, & para os Frades cento & trinta mil reis : tem cem
Vifinhos^

Honrâ de Cepaesi

SA m Mamede de Cepaés, Vigairaria do mefmo Convento, ífué rende feten- ' »


ta mil reis, & para os Frades cento & cincoenta mil reis : tem cento & q ua-
renta vifinhos. Deraõ o Padroado defta Igreja ao Convento de Pombeiro os
Infantes Affonfo Sanches , & fua mulher Dona Tareja em 6• de Outubro de
i2 18. por nelle eftar fepultado feu fogro , & pay Dom Joaõ Affonfo de Albu-
querque & Menezes, Conde de Bar cellos, & Mordomo .mór delRey Dom Di-
niz. Tem hum Juiz, que faz o povo, & hum Efcrivaõ, que ferve em tudo, data
do Conde de Unhaõ, fenhor defta Honra-
Santa Miaria de Antime foy Abbadia do Padroado Real, & delia Abbade o
Doutor Joaõ Pinheiro, Deaõ da Capella Real em tenipo delRey Dom Manoel,
em que le fez Commenda de Chrifto na família de Pinheiros , data da Cafa de
Bragança• he hoje Rey toria, que aprefentaõ òs Duques de Bragança , feríde
cem mil reis , & para O Commendador edm duas annexas trezentos mil reis,
tem fetenta vifinhos.
Santo André de Teyvaés , Vigairaria do Convento de Palme de Frades
Bentos, rende ao Vigário cincoenta mil reis, & para o Mofteiro trinta mil reis,
tem vinte & cinco vifinhos..
S- Martinho deQuinchaens, Abbadia da Mitra, que rende duzentos mil
reis, tem fetenta & cinco vifinhos- , .
Santa Maria deRibeiros , Vigairaria do Mofteiro dasFreyras de Santa
Clara de Guimaraens, que rende cincoenta mil reis, & para as Freyras com fo-
tos duzentos mil reis, tem cincoenta vifinhos-
S-ThomèdeEfturaõs, Abbadia da Mitra, que rende trezentos mil reis>
tem cento & íeis vifinhos;
Santa Eulalia de Revelhe, Abbadia do Padroado Real, que rende duzen-
O tos
,j8 TOMO PRIMEIRO/
tos mil reis, tem trinta & cinco vifinhos. " • • t

SantoEílevaõdeVinhós,Vigairamqueaprefenta oReytor tie S. Thome


de Travaçosno termo de Guimaraens, rende ao todo cjuarentamil reis, & pa-
ra o Commendador cem mil reis, tem trinta & íeis vifinhos.
Santa Comba, Abbadia que apreientaõ joaõ Pinto, fcnhpr da Caía do Bom
Jardim na Cidade do Porto, & Antonio da Colla da mefma Pregue lia, rende du-
zentos mil reis, tem trinta viiinhos • -
S. Martinhode Medello, Vigairaria doHofpital de S- Marcos da Cidade
de Braga, rende quarenta mil reis, & para o HofpitaPoitenra mil reis, tem vin-
te & hum viiinhos.
S- Bertholameude S. Gens, antigamente chamado de Giaens, foy Moíteiro
da Ordem de S- Bento, fundado por Dom Rodrigo Frojás , & dado aos Mon-
gesdeíle^into; depois ElRey Dom Affonfo Henriques o tirou a eiles , & o
deu aos Conegos Regrantes de Santo Agoftinho no mefmo tempo , em que lhes
deu o Moíleiro de Toloés, & S* Torcato; & vindo ao poder doCommendata-
rio Joaõ de Barros, elle o nomeou à Collegiada de Guimaracns , como fez aos
mais. Tem eíla Freguefia duzentos & trinta viiinhos, &a igreja hum Vigário
com tres Benefícios íimples, que rende cada hum cem mil rcisj tudo aprefenta-
çaõ do Cabido daquella Real Collegiada.

Couto de zSMoreyra de Ityy.

HE eíle Couto da Coroa Real, & privilegiado das Taboas vermelhas de


Nolfa Sefthora da Oliveira, tc cento & fetenta vifinhos com huma Paro-
ainvocaçaõ de S. Martinho, Commenda de Chriílo , & Reytoria do Pa-
droado Real, que rende cem mil reis, & para o Comendador duzentos mil reis.
Afliílê ao feu governo civil hú Juiz Ordinário,& Orfaõs por eleição do povo.de
tres em tres annOs,dous Vereadores, & Procurador do Concelho, Meirinho an-
nual pelo povo, & hu EJfcrivaõ, data delRey,que ferve cm tudo,hum Almotacel,
Diíl ribuidor, Enqueredor, & Contador.

Couto de Tèdraido.
0 , . 5, /»•;-•> *t 44, i,

SAõ Penhoras deíle Couto as Frevras de Arouca da Ordem de S. Bernardo:


tem Juiz ordinário do Civel,&Crime, hum Vereador , & Procurador do
Concelho feito por eleição do povo,& pelouro de tres em tresannos , humEf-
crivaõ, que ferve em tudo, data delRey; o Juiz também o he dos Orfaõs; & ap-
pella -fe daqui para o Porto: nem toda a Freguefia he Couto- Tem huma Igreja
Parochial dainvocaçaõ de S. Bento , Vigairaria annexa do Mollciro de Santa
Senhorinha de Bailo, que renderá quaréta mil reis, & para o Morgado daTay-
pa fetenta mil reis, tem feífenta viiinhos.

CAP.
t> A COROGRAFIA PORTUGUE2A. ijp

CAP. XXXVI.
•' ' - . 1 Vjl >* • * .tJ « ' #-/■'. ' -V - «•

©o Concelho da Ribeira de $\odh


• 'Jv ■
Fica efte Concelho para o Norte ao pê da ferra de Gerèfi, aonde fe críaõ ca-
bras bravas, que fe nâõ achaõ em outra alguma terra de Portugal: faõ anij
maes grandes, & quando os machos atidaõ no cio, enveftem com fúria à gen-
te : paitaõ cõ muita cautela,porq em quanto huns andaõ paftando, eftaõ outros
de vigia, & tanto queféntem gente, daô hum bramido aos mais , & recolhendo-?
fe todos às grutas, em quehabitaõ,ficaõtamlivres , quefelhesnaõ pode fazer
dano; & para fe chegar a matar algum delles, he com muita indulfria, & pegan-
do em algum, de tal modo fe amua, que logo morre, por naõ querer comer*
Criaõ-fe também nefta ferra muitas Águias Reaes, Falcoens, & outra mui-
ta ca ft a dé aves de rapina, Javalis, Lobos, & outros bichos: tem muita quanti-
dade de arvores de excefíiva grandeza, & de muita eftimaçáõ , & tam defeo-
nhecidas, que quem as vê,lhes poem o nome,que lhe parece,por dizer ter vifto
outras femelhantesfóra do Reyno; delias fe aproveita pouca gente pelo cufto,
que fazem, para fe tirarem dentre as penhas, em que a natureza as produzio:
de algumas fe fazem leitos, & outras obras femelhãtes de muito melhor lulfro,
que de paodoBrafil;& também fe achaõ outras, que dão flores fem fruto muito
engraçadas em cores, & cheiro , 8£ fe tem por coufa averiguada, que em nenhúa
parte defte Reyno feachão outras como ell?s. Tem cfta ferra doGerésdous
rios, que faõ o Homem, & Cavàdo, em que morrem muitos falmoens , ldm-
preas,exccllentes trutas, & grande quantidade de bogas*
A efte Concelho deuforálElRey Dom Manoel em Lisboa aos 16. de Julho
de i fif. he debomciima,&dá boas novidades de paõ, vinho, azeite , muita
caftanha, boas frutas, mel, muitos gados de toda a cafta, perdizes > & coelhos
fem conto. Os Condes de Unhaõ fe intitulão fenhores defte Coriéelho, & mã-
dandopôrnellepelourinho,pelos annosde 1672.comfuas Armas dos SvIvas,
que faõ hum Leão,os moradores as picàrão no anno feguinte com pretexto ze-
lofo, de que erão Portugueses , & não Cafteihanos,para confentirem Armas
delRey de Leão. Sobre efte pique trazem os ditos Condos demanda com o Cõ-
celho, q uefe defende diante do Juizo da Coroa , impugnandolhe o fenhorio.
Tem J uiz ordinário com dous Vereadores,& Procurador do Concelho por pe-
louro de eleição triennal do povo,a que prefide o Corregedor de Guimaraens,
&oJuifcnó<fia emqpetomaavaradâ hum bom jantar (a que chamáõ Brodeo-
Cabrita) aos amigos, & os dous Almotaceis daõ outro de menos cufto. Trcs
Tabeliaens do Judicial, & Notas, hum dos quaes o he também dos Or faõs nef-
te Concelho, & nos Coutos de Parada, & Poufadella , de que os Condes faõ
também fenhores. No officio de Efcrivaõ da Camara , &AImotaçaria fervem
<ps tres Tabeliaens alternativamente. Efcrivãodas Sizas, Contador , Diftri-
buidor, Enqueredor,& Juiz dos Orfaõs. Deftes officios huns aprefenta ElRcy,
outros o Conde de Unhão , cuja data também artda em litigio : a Camara faz
Meirinho, que ferve dc Carcereiro. Tem duas Companhias com Capi aiõ mór,
O ij *
j6q TOMO PRIMEIRO
& Sargento mór,&confiadas Frcguefias íeguintes.
S' Mamede de Caniçada, Abbadia da Mitra, rende ceiíto & cmcoenta mil
reis, tcmíeffenta vifinhos.
S.Joaõ de Cova, Abbadia da Mitra, rende cento & quarenta mil reis , com
ametade de Villar da Veigfl, tem fcífeiita vifinhos.
NoíTa Senhora doRoíario, Vigairarta annexa a Calamonde, que renderá
parao Vigário quarenta mil reis,õcpara o Abbade lctentà.mil reis,tem feífen-
ta vifinhos.
S- Gens de Calamonde, Abbadia da xMitra , rende com a annexa cento &
cincoenta mil reis, tem fetenta vifinhos. Aqui eftão as voltas de Calamonde,
coufá enfadonha de paffar; porque em pouca diftancia de huma. terra a outra
ha hum dilatado caminho,pelos muitos reeoncàvos,quc em repctidosvalles fa-
zem aquelles outeiros, &com continuo perigo de grandes precipícios , que
muitos tem experimentado em notáveis delgraças. ' >• • ••
S. Martinho da Ventola, Abbadia da Mitra, rende com as annexas de Vil-
lar da Veiga, &Soengas, duzentos & cincoenta mil reis , tem cincoenta vifi-
nhos. • ,
Santo Antonio de Villar da Veiga fica alem do Cavado dá parte do Norte
na ferra deGerès , he Viga irar ia annexa à Igreja de S. Martinho da Yentola,
que aprefentão os Abbades com o de S- Joaõ da CoVa , rende ao todo quarenta
mil reis, & para o A bbade outro tanto.
S. Martinho de Soengas, Vigairaria da Ventofa, rende trinta mil reis, &
para o Abbade quarenta mil reis, tem dez vifinhos.

Couto de Parada de ^ouro.


I »
4'
ifl ' • r|:-,
h'j J. W-trm,
1) i , .,'lr i *'»• t V
• • * vi' *j riSfJH
•* 1
SAm Julião de Parada de Bouro, Abbadia dusCondes dc Unhão , de que
por Biillas Apoílolicas comem o qumto dos dízimos, tem cmcoenta vifi-
nhos. No rio Cavado , aonde confina com Santa Marta de Bouro , tem
ruínas de huma ponte de tres arcos, coufa admirável, que dizem fer obra dos
Romanos., Eiia Freguefia he Couto, & o deu ElRey Dom Sancho o Primeiro a
Dona Maria Paes Ribeira, & aos filhos, que delia tinha: hum dos quaes era D.
Confiança Sanches, que deu o í eu quinhão à fua pupilia , & ibbnnha a Infanta
Dona Sancha, que morreo em Sevilha , filha delRey Dom Affonfo o Terceiro.
Por cafamento entrou nos Menezes, fundadores dò Convento de Villa do C ti-
de,& por eíla caufa eílc Couto,& o de Poufadella foram algum tempo das Frey-
ras, do qual faõ íenhores os Condes de Unhaõ, por defeenderem de Dona Bri-
tes de Menezes,filha de Dom-Martinhode Menezes , fenhor de Cantanhede,
q foy iegúda mulher de Ayres Gomes da Sylva, Regedor da juífiça , & Alcay-
de mor de Montemor o Velho. Tem*Juiz ordinário do Crime, & Civel, hum
Vereador, & Procurador do Concelho por pelouro de eleiçam do povo de tres
em tres annos, a que prefide, & confirma o Corregedor de Guimaraens, fervem
nelleno Judicial, & Notas>& Camara os Tabeiiãens da Ribeira de Soás, & aífim
os das Sizas, Juiz, & E feri vão dos Orfaõs-
Santo André de Frades, Abbadia do Conde de Unhaõ, dc que leva tãbem
o quinto dos dizimos, tem vinte & cinco vifinhos..:
Santo André de Friande, Vigairaria annexa à Coromenda de Verim , que
aprefenta o Rey tor, tem quarenta vifinhos.
r
CAP.
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. 161

C A P. XXXVII.
Ir i* f h ^ ; |\Jg
Do Concelho de Lanhofo.

TRes legoas dê Guimaraens parao Norte, & duas de Braga tem feu aíTento
o Concelho de Lanhofo, de que he cabeça a Villa da Povoa, a quem deu
foral ElRey Dom Diniz, eftando em Coimbra, a *j» de Abril de 1192. dizem
ler povoaçam dos Ozorios, fenhores de Cabreira,&. Ribeira , porque nella vi-<
vcrãofeusdefcendentes, como diz o Conde Dom Pedro titul» 55* & Lavânha
foi z 3 2 • & também 0$ Fafez aqui devião ter muito, ou parte , pois fe appell ida
deita terra o Conde Dom Pedro Sarrazim de Lanhofo , cujo neto Fafez Luz,
diz Lavanlia, fer daqui fenhor: depois foram fenhores delle os Cunhas, <k hoje
he do Conde de Sabugal, Meirinho mór do Revno» Tem Juiz ordinário , tres
Vereadores, & Procurador do Concelho, feitos por pelouro de eleiçam triennal
dopovo a que prcíideo Ouvidor do Conde, ótlhes palia carta ; dous Almqta-
ceis, quatro Tabehaens, Efcrivaõ aaCamara, 6c Almotaçaria, juiz dos Orfaõs
com feu Efcrivaõ, Diftribuidor, Enqueredor, & Contador, Meirinho, que fer-
ve de Carcereiro» Todos eftes officios aprefenta o Conde, Sc lo oElcrivaõ das
Sizashedata delRey- Produz muitos, bellos frutos de paõ, vinho, azeite,
frutas temporans, Sc de pendura, linho, caftanha, Sc tem muitos gauos de toda
acaíta, caça,Sc pefca nos rios Cavado, Ave, Sc Pont ido- > em t res Companhias
com Capitaõ mór, Sc Sargento mór. Ha nefte Concelho íermoías, Sc piei umi-
das moças , tem feira franca todas as ultimas quartas feiras do mez , St pela
mayor parte delle hia o aquedutto, que os Romanos trouxcraõ do no Ave a
Braga» Confta dasFreguefíasfeguintes-
Santiago de Lanhofo, Commenda de Chrifto, Sc Rey tona, que aprefenta o
Commendador, rende cento St trinta mil reis , Sc para o Commendador com
fabidos trezentos mil reis , temfeíTcntaviíinhos» Aqui efta o inexpugnave
Caftello de Lanhofo, fundado em huma afpera , & eminente .penha,.com huma
cirande cifterna de agua, aonde efta huma Capella de S. maietano , St outra de
S-Payo, aonde vaõ no Veraõ em romaria nosSabbados à noite a mayor parte
das moças, mulheres, Sc homens daquelle contorno, Sc voltao no Domingo pela
manhaã para cafa. Dizem fer preíervati vo para todo o género de doença, parti-
cularmente de maleitas- ,
S- Martinho de Galegos,Vigairaria annexa ao- Arcediagado de t onte-Ar-
cada, tem trinta viíinhos- Aqui viveo o Conde Dom 1 afez Sarracim de La-
nhofo, bom, & Rico homem, que com muitos Cavalleiros leus vaifallos pelei-
jou, & morreo na de Aguade Mayas junto a Coimbra diante de íeu ReyDòm
rareia contra Dom Sancho feu irmão, Rey de Caftelia. luccedcolhe leu fi ho D.
Godinho Fafez, que fundou o Morteiro de Fonte-Arcada, como logo diremos,
Sc o de Mohia, deque alem dos Fafes, Sede outras famílias dcícendem os Go-
dinhos, Sc erte he feu folar-: tem por Armas o efeudo partido em palia , o pri-
meiro cfquaquetadodeouro,& vermelho, de duas peças em taxa : ortgundo
efquaquetado de ouro,Sc azul de outras duas peças em u:a - fazem ^
I<$st . \ a ' TJHíNtO p K4 M B IR O '
ambas as palias de vinte peças : timbre huma Hydra de ourodefete cabeças,
adomeyo mayçr que asoutras>& leu rtt^uarde^ armado de vermelho, & azas
eftèndiâas de azul. Outros trazem em campo de prata cinco Águias em aipa.
S. Miguel de Villela, Abbadia eia Mitra, rende duzentos mil reis , tem
feíTenta viíinhos. Aqui ha memoria, & ruínas de duas Torces, aonde chamão o
Paço de V ílleta, de que he fenhor, ( & de muitos fqros ,que alli fe pagão) Ma t-
theus Mendes de Carvalho. Efte Paço, & Torres íàõ o folar aos Villeias , de
que ha muita deícendencia neíle Rey no.
S. Martinho do Campo, Vigairar ia dos Coreiros de Braga , que rende ao
todo. quarenta mil reis para o Vigário, &. para os Coreiros' cento & quarenta
niihreis: temcincoenta viíinhos. Aqui eílá a Caiada Mota com ruínas de fuia
Torce no andar dacafa,que ke o folar deíla família , & não o Gallello da Mota
em Caílella,corr.o alguns erradamente diíferâo. Procedem os Motas de Fer-
não Mendes dc Gundar, filho cie Mcm de Gundar, Capitão do tem po do Conde
Dom Henrique. Tem por Armas em campo verde cinco,ilores de Liz de ou-
ro em afpa, & por timbre dous penachos verdes guarnecidos de ouro , & en-
tre os penachos humaf.or deLizde ouro: outros as efquartelão com Leoens
de prata coroados de ouro cm campo vermelho.
Si Salvador de Louredo foy Abbadia da CafadaMota,he hoje Vigairaria
do Cabido de Braga, que rende para os Conegos cem mil reis, & para o V igario
trinta mil reis item dezoito viíinhos. Por cima deíla Igreja cílão o monte de
S. Miguel, & o outeiro de Caílilhão,& outro chamado de Erandião, entre La-
nhofo, & o Couto de Pedralva, menos de quar o de legoa da antiga Cidade de
Çitania: tem ruínas de fortificaçoens,que infaUivelmentefizerão os Bracaren-
fes, para lhe apertarem mais o cerco , quando a puzerão em fítio , & a ganhà-
raõ-
S- Emiliaõ foy Abbadia da Cafa da Mota, & hoje he Vigairaria do Cabido
de Guimaraens, tem vinte viíinhos.
S. Miguel de Taídc, Reytoria do Moíleiro dos Remedios de Braga, rende
cem mil reis, & para as Freyras cento & fetenta mil reis, tem feíTenta viíinhos.
Daqui he tradição era Gileanes dc Ataíde, que teve o folar de Villela , de que
fica viíinho,& na verdade no Conde Dom Pedro achamos differpntes eíles dos
outros Ataídes. Neila Fregueíia eílá a Capella de S. Bento de Donim, imagem
milagroía, aonde ha feira nos feus dias duas vezes no anno-
S. Martinho de Travaços, Abbadia do Padroado Real com referva do Or-
dinário quando não renuncia, rende cento &: vinte mil reis, tem trinta &feis
viíinhos.
S. Payo de Brunhaés, Vigairaria da Mirra annexa à Commenda de Santia-
go de Guilhofrey,tcm trinta viíinhos.
S. Bertholameu da Elperança, Abbadia da Mitra,rende centoác vinte mil
reis, tem trinta & dous viíinhos.
S. Adrião de Soutello, Abbadia da Mitra, rende cem mil reis, tem vinte &
cinco viíinhos, que vivem em huma montanha, aonde ha muita caça,& gados.
S. Pedro de Cerzedello, Vigairaria das Freyras deVayraõ , que aprefen-
(taõ, quando não renuncia. He Couto no Civel com Juiz de eleição annual do
povo, hum Vereador, & Procurador, 2c vem a elle eferever hum Efcrivão dc
Vieira: no crime vay a Lanhofo, tem fetenta viíinhos.
Santiago de Oliveira, Abbadia da Mitra, rende cento & cincoenta mil reis ,
tem quarenta vifinhos- Neila Igreja eílá huma fermofa Capella de Santa Cruz
1
. feita
1

DA COROGRAFIA PoRTUGUE Z A> i6y


feita de bronze, & bem dourada, na qual ha muitâs relíquias j do lauto Lenho,
cia Corda de Chnflo, terra donde fubio aos Ceos , Cabellos de Noíía Senhora,,
de S. Urbano Papa, do Apoílolo Santiago Mayor , de S.Rento , & de outros
Santos , que fe pódem ver na Bulla que alli ha. Mandou as de Roma para eliá
Dreja pelos annos de 1580. hum Religioío natural da Aldeado Rio da meíma,
J reguefia: eílão metidas em hum facrario com duas chaves , que tem agora o
Abéadè para facilitar aos Romeiros o verem-nas. Tem jubileo perpetuo em
dia de Santa Cruz de Mayo, & de Santiago Mayor ; obrão infinitos milagres A
particularmente nos mordidos de caens danacios , &em totios os mais acha
ques, & enfermidades, como continuamente fc ven>
• •. i' iVri

Couto de Fonte-Ar cada*

SÀm Salvador de Fonte-Arcada foy Molieiro de Frades Bentos,fundado cm


luga» fértil, & aprazivel por Dom Godinho Fafes pelos annos de 1067.
que era pay do Rico homem , Dom Fafes Luz , Alferes mor do Conde
Dom Henrique, & filho do Conde Dom Fafes Sarrazim de Lanhoíò , também
Rico-homem, cujo folar, & morada foy em S- Martinho de Galegos, como já dif-
femos' O primeiro Abbade delfe Molieiro foy Frey João, que viveo , & mor-
reo com opinião de Santo no anno de 1082- permaneceo com Religiofos até o
tempo do Arcebifpo Dom Fernando da Guerra , ôcâchamos-lhe Dom Abbade
Monge no anno de 1437. chamado também Dom Fernando , confirmado por
eíie Arcebifpo, & foy o ultimo que teve: por cuja renuncia o aprefentou o Ar-
cebifpo em hum Clérigo no anno de 145-5- dalli a dez annos o mefmo Arcebif-
po creou nelle para a fua Sè hum bom Arcediagado, que nella tem Cadeira com
obrigação de cfuas Miífas cada anno,huma em dia cie S. Pedro, & S. Paulo , &
outra em dia de NoíTa Senhora da Cònceição- Tem dons Vigários , que apre-
fenta o Arcediago, quando não renuncião: importa a cada hum mais de feífenta
mil reis, curãoneíta Igreja, & nadeS. Martinho de Galegos, rende com a dita
annexa,&a de Santa Marinha da AjrofaemGuimaracns , & as offer tas da Ca-
pella de S- Sytveíire em feu dia na F reguefia de Friande, paífaes,&iabidos per-
to de hum conto: he data do Arcebifpo com referva : teve mais três Igrejas,
que fe lhe defannexàrão, como forão Villela, Oliveira, &. S. Gens de Calvos, &
agora faóAbbadias da Mitra, & muitos bens, que fe defertcaminhàrão por vá-
rios modos para muitas peífoas. Tem eíia F-reguefia cento & quarenta vifinhos,
& a mayor parte delia he Couto, de que he fenhor o Arcediago, aonde aprefenta
Juiz do Civel, & Orfaôs, hum Procurador, & Ouvidor: vem eícreverlhes dous
Efcrivaes do Concelho hurfi anno, outros dous o feguinte- Nos Orfaõs efere-
ve o que o he do termo: no crime pertence ao Juiz ordinário da Povoa.
S-Gens de Calvos, Abbadia da Mitra, rende duzentos mil reis, tem citl-
coentavifinhos.
Santa Maria de Rendufinho, Abbadiâ da Mitra, rende duzentos & emeoe-
ta mil reis, tem cincoenta & feis vifinhos.
Santo Eítevão de Gerás, Abbadia do Conde de Sabugal, rende com a an-
nexa feguinte, trezentos mil reis, tem vinte & cinco vifinhos. Aqui eliá aTor-
re de Berredo, folar delia família defeendente dos Ozorios, Ribeiros , & Ri-
beiras, fenhores delia Quinta, & da mefmaCafa , qUepoíTuíoD. MartimPaeá
Ribeiro^
*$4 TOMO PRIMEIRO
Ribeiro, o primeiro que fez delia Honra, donde feus defeendentes tomarão o
appellido. Andão liados com os Pereiras, porque Dona Maria de Berredo , fi-
lha de Gonçalo Annes de Berredo, cafou com Ruy Vafqúes Perei ra, Sc daqui naf-
ceo o chamarem-fe hoje 'os defta família Pereiras de Berredo. Tem por Armas
cm campo azul hum baluarte deprata ardendo em fogo fobrehuma rocha,tim-
bre a mcfma torre. Aqui eíiá também a Quinta de Paços,que era honrada cm
tepo delR ey Dom Diniz, por ler de Dona Tareja Paes Bugalha., irmãa de Ruy
Paes Bugalho.
Santa Tecla, Vigairaria Ordinária, que aprefenta o Abbade de Santo Efte-
vão de Geras, de quem he annexa, tem-trinta St feis vifinhos-
S. Martinho de Ferreiros, V igairar ia dos Frades do Populo de Braga, tem
trinta Sc dousvifinhos. Aqui eftá a Quinta da Torre, que poífue o Marquez de
Montc-Bello; he folar dos Machados, por Dona Maria Moniz , filha de Dom
Moninho Ozores, fenhor de Cabreira, St Ribeira,St neta do Conde Dom Oso-
rio, povoador delias terras: a qual teve dclRcy Dom Sancho o Primeiro a Mar-
tini Martins Machado, (inda que outros dizemohouve de Mem Moniz de Gán-
darey) o qual rompendo com hum machado as portas de Santarém ,• quando
ElRey Dom Affonfo Henriques ganhou aquella Vília aos Mouros , foy o pri-
meiro, que a entrou, St por elf a façanha le appellidou Machado, St feus dtícen-
dentes, fenhores defta Cafa por fua máy, todos fidalgos de muita conta, St efti-
mação- Forão Alcaydes mores de Chaves, Lanhoío, St Ervededo , St depois
fenhores da V illa de Amares entre Homem , St Cavado por mercê delRey Dom
Affonfo o Quinto feita a nove de Abril de i+fo. a Pedro Machado, fidalgo de
fua Cafa, StTrinchante do Infante Dom Pedro, o qual comprou a dita Villa de
Amares por quinhentas coroas , que deu a Dona Maria de Azevedo viuva de
Alvaro de Biedma, as quaes fe lhe devião do cafamento, que ElRey Dom João o
Primeiro nrometeo a feu marido. Cafou o dito Pedro Machado com Dona Ines
de G'oes, filha de Pedro de Goes, St de Dona Margarida Cabral, St por efte cafa-
mento foy também fenhor das Villas da Lolizã, V illarinho, St Pedragal ; St leu
filho Francifco Machado no anno de 1 f 11. em vinte St tres de Outubro trocou
cfta s tres V illas com o Infante D. Jorge Mèftre de Santiago, Duque de Coim-
bra, St tronco da Real Cafa de A veyro,pcla Commenda de Souzel, St hum juro
em Guimaraens, que tudo permaneceo em fua geração por varonia até Francifco
Machado da Sylva, que de fua primeira mulher Dona Maria daSvlva teve filha
herdeira Dona Margarida Machado da Sylva, fenhora defta Cala, St da Villa de
Amares, que cafou com Manoel de Araujo de Soula, filho da Cala de Tora, dos
quaesnafceo Felix Machado da Sylva St Caftro, fenhor das mefmas Cafas,Vil-
la, St Concelho, St primeiro Marquez de Monte Bello , pay do q ue hoje vive.
Tem os Machados por Armas cinco Machados deprata em campo vermelho,
com os cabos de ouro.poftos em afpa, timbre dous* machados cm afpa, atados
com hum torçal verde, as quaes parece fe tomarão pela occafião referida. Ha
muitos fidalgos,St nobreza defte appellido com alguns Morgados, Stporca-
lamentos liaõ com os melhores do Rey no.
S. Julião de Covellas , Vigairaria do Mofteiro do Populo de Braga, tem
quinzevifinhos-
Santa Maria de Moure, Abbadia da Mitra, rende coma anneia duzentos
Sccincoenta mil reis, tem vinte' St hum vifinhos- Aqui eftá a Quinta dcCalde-
zes,naqualhaopédehumcaftanheiro , quedavahummoyodecaftanha , Sc
huma vide que dava trinta almudes de vinho. Nefta Frèguefia he o Morgado
de
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. 16$
tk Outeiro com obrigação de appellido de Coelho-
S. Martinho de Aguas font as, Vigairariâ annexa à Igreja de Moure, tem
quarenta St cinco vifinhos, Sthuma Capella de S. Bento , imagem milagrofa ,
aonde hafeira franca em feusdias,vmteSchuni de Março, St onze de Julho.
' a Tt o' > »• n r \*t - * vi '1 . ■ ~ * •.

fulgado de Lagiofa.

ENtre o Concelho de Lanhofo, St Couto de Pedralva eftá oj ulgado de La-


giofa, terra de montanhas, mas ferul de paõ, mel, caça , St abundante de
gados. Teve huma Parochia, orago S. 1 nome , a qual feunio 110 efptritual à
Igreja de S. Martinho de Aguas fantas, por ferem poucos fregueíes- No tem-
poral he julgado com Juiz ordinário, que prelide à nova eleição, que o povo
fazdefucceííòr annual, huma audiência cada fomana , a que alternativamente
vem eferever hum dos Efcrivaens de Lanhofo, para cujojuizfe appella no Cí-
vel jno Crime toma os autos o do Julgado,& remete-os ao mefmo. O Meirinho
he o do Concelho. Tem efte Julgado vmtçvifínhos,

r
• ;3 -

CAP. XXXVIII. •
1
A . •í V, ) A »'- '

. T>o Concelho de S+foaõ de ljRey.

EStá efte Concelho na Ribeira do Cavado, Sc he hum dos que povoàraõ os


Ozorios, fenhores de Cabreira, Sc Ribeira,do qual era fenhor , St de ou-
tras coufas João Affonfo de Beça, que em tempo delRey Dom João o Primeiro
aleivofamcnte o quiz matar, Sc fazer as partes de Capella ■, Sc como neftas guer-
ras o ferviffe com grande fatisfação Lopo Dias de Azevedo , fenhor do
Couto, Sc Cafa de Azevedo, Sc Caftro , Sc das terras de Bouro (ao qual armou
Cavalleiroporfua mão na de Aljubarrota) lhe deu omeímoRey Dom João o
Primeiro osíenhorios defte Concelho, Sc os de Aguiar de Pena , Sc Jalies em
Trás os Montes, Sc os direitos Reaes da Honra de Frazão no termo do Porto,
Sç outras pertenças: fuccedeo-lhe feufilho mais velho João Lopes de Azevedo,
& a efte feu filho Diogo Lopes de Azevedo ; herdou-o leu filho Diogo dc Aze •
vedo, que cafoucom Dona Maria Coutinho da Cunha , filha de Fernão Couti-
nho da Sylva, Sc de fua mulher Dona Maria da .Cunha, fenhores de Cero! co dc
Bafto, dos quaes nafcèrao Diogo Lopes de Azevedo , queperdeo a Cafa por
cxccífos, Pedro Lopes, Sc Dona Leonor de Azevedo, mulher de Fernão Veiho
de Araujo, fenhor das Cafas de Lobeos , Sc Araujo- Pedro Lopes de Azevedo
por morte de Diogo Lopes feu irmaõ, herdou a Cafa de S. João de Rey com os
fenhorios diminuídos em parte :fer\fioem Atzilla, aonde le achou no fítio,que
ElRey de Féz lhe poz, teve filho mais velho Antonio de Azevedo,-que lhe fuc-
cedeo, foy Commendador de Couci eiro na Ordem deChrifto,Sc pay de Pedro
Lopes de Azevedo, Francifco de Azevedo, João Lopes, Lopo Dias, Diogo de
Azevedo, que todos fervirão na Índia fem geração, Sede Vafco Fernandes de
Azevedo Coutinho, queoherdou, além de dous-baftardos Franci leo de Aze-
vedo, Adail em Mazagão, Sc Antonio de Azevedo, que também là fervio. Sue-
í66 TOMO PRIM E I R O
cedeo a Vafco Fernandes de Azevedo na Cafa, & fenhorios feu filho Diògo de
Azevedo Coutinho, que fervio nas A rmatías, & em Mazagão, pelo que lhe de-
râo o Habito de Chrifto com feffenta mil reis; herdou-o feu filho Vafco de Aze-
vedo Coutinho, que hoje vive fenhor defta Caía, & terras, Meftre de C ampo de
Infantaria, & Fronteiro mór da Portella de Homem, que neftas ultimas guer-
ras fervio, Sc feu irmão Francifco de Azevedo, &feus filhos Diogo tie Azeve-
do , &F ernão de Azevedo fervírão também nas mefmas guerras com a pon-
tualidade, Sc valor, que devião à fua nobreza, como a todos he publico. A efte
Concelho deu foral ElReyLom Manoel em Lisboa aos 2 f. de Dezembro de
1514- tem ]uiz ordinário, que tambep he dos Orfaõs, dous Vereadores , &
Procura'dor do Concelho por pelouro de eleição triennal do pOvo, a que preíi-
de o Ouvidor do fenhor da terra, quando clle não quer preíidir, & lhe paffa car-
ta de confirmação; Almot?ceis, que faz a Camara, & Meirinhd annual, quatro
Tabeliaens do Judicial, & Notas, & Orfaõs, neftes cada annohuhi alternativa-
mente; Diftribuidor,Enqueredor,&Contador, todos data do fenhor defta
terra; EfcrivãodaCamara,ôc Almotaçaria,StEfcrivão dasSizascom ordena-
do no Almoxarifado de Ponte de Lima, faõ ambos data delRey. He terra de.
baftante pão, muito, Sc bom vinho de enforcado, bellas frutas, muito azeite, Sc
caftanha em tanta quantidade, que fó deftas por avença pagão aos fenhores def-
te C oticelHb (que tem os quartos de todos os frutos) quinhentos alqueires pi-
ladas, fora as próprias: tem muitos gados, caças ordinárias , &pefcas no Ca-
vado. Compoem-íe das Fregueíiasfeguintes.
'S.João de Rey, Abbadia,que foy da Cafa que aqui eftá,& hoje he do Pa-
droado Real, rende trezentos & cincoenta mil reis, tem oitenta vifinhos. Por
cima deft a Igreja eftá hum monte, a que chamaõ o Caftro, que moftra fer forti- •
ficaçãodos Romanos.
Santa Maria de Verim, a quem o Livro da Ordem de Chrifto chama Ver-
rim,heCommendade Chrifto, £t Rey toria da Mitra, que rende cem mil reis,
& para o Commendador com a annexa de Friande duzentos mil reis, tem qua-
renta & feis vifinhos. Neíta Fregueíia leva o fenhor da terra o íexto dopaõ,
& o quarto do vinho-
NoíTa Senhora da Ajuda, Abbadia da Mitra, rende cento & vinte mil reis,
tem vinte vitinhos-

Couto de Poufadella.

SAõ Martinho de MiíTulo,ou Moçul, Vigairaria do Cabido de Braga, rende


oitenta mil reis, Sc para o Cabido cento & feífenta mil reis , tem cento &
feis vifinhos, huma Aldeã chamada Poufadella , que he Couto dos Condes de
Unhão com Juiz feito cada anno pelo povo, que confta de doze homens , a que
prefide o Juiz velho: fervem nellc os Elcrivaens , & Miniftros dos Orfaõs do
Concelho da Ribeira, &Couto de Parada ;ha milícia, & fintas andaõ com S.Joaõ
de Rey, cujos fenhores tem o q uarto, & foros. Os Condes de Unhaõ poffueni
alli huma cafa antiga, Sc arruinada, a que chamão de Poufadella, da qual foy fe.
nhora Dona Maria Paes Ribeira,fidalga principal, flt de grande fermofura, que
por ter aqui fua cafa, & fer herança de íeus paffados Ozorios, povoadores def-
tas terras, feria coutada. Aqui eftá a Quinta de Outeiro, que Dom Mendo, fe-
nhor defta Fregueíia, deu a Mar tim Machado feu vaffallo , do qual entendemos
1
. foy
DA COROGRAFIA FORTUGÚÊZA* i6f
foy filho Eílevão Martins Machado, que aífiílio ao Infante Dom Affonfõ San-
ches, filho delRey Dom Diniz, & a fua mulher Dona Sancha, de que era muito
parenta, & por aqui tiveraõ cíles fidalgos muitas quintas, & folares.

CAP. XXXIX.

c
Dq Couto de Vimieiro*
•t

ES te Couto, parece, foy fubditoà Cidade de Braga , da qual diíta huma íe-
goa para o Poente; porque o Ouvidor daquella Cidade lhes hia fazer Hua
audiência cada mez, pelo que lhe davaõ hum carro de pão- He delRey cõ Juiz
ordinário, que tambemohe dos Orfaõs, dous Vereadores, de que hum ferve
de Almotacel, hum Procurador por pelouro, eleição triennal do povo , a que
prefide o Corregedor do Porto, dotis Tabehaens do Judicial, & Notas, que ai
ternativamenteefcrevemnaCamara, Almotaçaria,&Orfáõs, Elcrivaõ das Si-
zas, & Mevrinho; todos data delRey. Recolhe baftante pão, muito vinho, ga-
do, caça, h pefcas no Delle. He da Provedoria de Guimaraens , & tem as Fre~
guefias feguintes. ■
Santa Anna de Vimieiro foy Convento antigo, de que fe acha noticia pelos
annos de 6 5 2. mas não fabemos de que Religião foífe : fuppoíio o Chroniíla
dos Eremitas dç Santo Agoftinho diz que foy feu; he certo q perfcverou mui-
tos annos com grande obfervància, até que no de 1127- aos 25 de Mayo o deu
a Rainha Dona Therefa a Dom Pedro Mauricio, oitavo Geral da Congregação
Cluniacenfe em França, vifitandoa huma vez que andou cmEfpanha,& defde
entaõ ficou Priorado de Cluni, donde lhe mandavaó Prior , que prefidia aos
Monges Bentos, que cá tinhaõ- Finalmente o ultimo Abbade perpetuo de Ti-
baens Dom Gonçalo o fez annexar a elle, & aífim eíteVe cincoenta annos , até
que por falecimento de Ruy de Pina, terceiro Commendatario de I ibaens , fi-
cou Vimieiro devoluto ao Ordinário, & o Arcebifpo, que então era o Santo Dõ
Frey Bertholameu dos Martyres trazendo os Padres da Companhia para Bra-
ga, o unio ao Collegio de S. Paulo, que alli tem. He Vigairaria, que aprefenta o
mefmoCollegio, rende quarenta mil reis, & para os Padres da Companhia du-
zentos mil reis, tem feífenta v;finhos.
S. Lourenço de Celeiros, Vigairaria annexa a huma Conezia de Braga, ren-
de quarenta mil reis, & para o Conego cento & trinta, tem feífenta vifinhos.
S- Salvador de Figueiredo, Vigairaria de outra Conezia de B raga , rende
trinta & cinco mil reis para o Vigario, & para o Conego cento & vinte, tem qua-
renta vifinhos.
Santa Maria d'Aveleda, Vigairaria annexa a hum Beneficio limplezde S.
Giraldo, rende trinta mil reis, & para o Beneficiado, que he do Ordinário , oi-
tenta mil reis, tem cincoenta vifinhos.

I CAP
TOMO PRIMEIRO

C AP. XL.

2)o Couto de Tibcies*

NO tempo, que Braga era Corte dos Reys Suevos, & reynava Theodomi-
ro, tendo por feu Capellaõ mor a S. Martinho, Bifpo de Dume, o inci-
tou o Santo a que fundaffe o Modeiro de í ihacs de Monges Bentos, tres quar-
tos de legoa da Cidade de Braga para o Poente ao pc da ferra de $. Gens, nome
■que tomou de huma Ermida antiga, que edá no alto delia, da invocação dede
banto Reprefentante, fam.ofo Martyr Romano , & entendemos fer edificada
quando aquella nação nos dominava : fundou ElRey o Convento no anno de
5 como conda de huma pedra que nelíe fe achou em noíTos tempos, recdifi-
candoíede novo, & o"dedicou a S. Martinho de Turon. Succedeo a Theodo-
miro na Monarquia dos Suevos ElRey Miro , que ornou elie Convento com
huma grande mata de arvores, que não perdião a folha, & para ede.effeito as
conduzio do Alentejo. Prefume-fe eraó lòbreiros, de que hoje he bem provida
toda aquell a ribeira, de huma, & outra parte do Cavado ; & que ede Modeiro
edivcífe em ler, &. com Frades ainda pelosannos de 1070. & tantos, conda de
huma doação, que de ametade delle íez à Sede f uy a Infanta Dona Urraca, filha
delRey Dom Affonfo o VI. chamando a ede Convento Palatino 3 & como por
tempos devia arruinarfe,o reedificou pelos annos de 1080. Dom PayoGuter-
res da Sylva, fendo Rico homem, & Adiantado nedc Reyno por El Rey Dom Af-
fonfo o VI. de Cadella, por cuja caufa entendemos vivia em Braga, centro deda
Província, & por detráz do monte de S. Gens fez huma quinta, a qucdeu o no-
me de Sylva má, donde hia aííidir à fabrica do Modeiro , & em forma o am-
pliou, que muitos o tiverão por fundador, &. nelle edá fepultado; & como com
0 fangue herdou o zelo do pay feu filho Dom Pedro Paes Efcacha, devia largar
ao Modeiro algumas terras, que alli tinha , de que lhe fizerão Couto oConde
Dom Henrique, & a Rainha Dona Thcrefa em 2 4- de Março de mo. dizendo,
que o fazião por amor de Deos, & de Pedro Paes, & Payo Paes, filhos de Dom
Payo Guterres da Sylva,que fempre nos fervio copi grande fatisfação; &em 2 6.
de Fevereiro de 1135- fendo ainda Infante o noífo Rey Dom Affonfo Henri-
ques, lhe coutou o lugar de Donim junto ao rio Ave entre Braga , & Guimá-
raens- •
Teve ede Modeiro defde o anno de 1086. dezafeis, ou dezafete Abbadds
perpétuos, fendo o primeiro Dom Payo, & o ultimo D. Gonçalo pelos annos de
1+89. em que entrou por Abbade Commendatario o Cardeal D. Jorge daCof-
ta,Arcebifpode Braga 3 acabàraõfe edes no ultimo Cõmcndatario Dom Bem
1 ardo da Cruz, Frade de S- Domingos, Bifpo de S- Thomé,& Efmoler mor del-
R< y Dom Joaõo Terceiro, que faleceodia cie Pafcoa de 1565". em que entrou
a rc forma de Abbades, & foy o primeiro por dez annos, por nomeaçaõ do Car-
deal Dom Henrique, o Padre Frey Pedro de Chaves , a-quemvieraõ as Bulias
Apcdolicasem 22. de Julhode j fdp.fendo-o entretanto o PadreFrey Plácido.
I oy Frey Pedro Dom Abbade de T ibac s, Reformador, & Geral d a Ordem, de
'T A „ . que
DA COROGRAFIA PORTUGUESA. ió?
que fizcraõ Cabeça a efte Convento. No fim dos dez armos o tòriHÍrãô à ele-
ger por hú triénio,& foy o primeiro Abbade triennal;íuecedeo lhe Fr- Plácido
de Víllalobos, o qual mandou Frade.-. para o Brafil,quc íundàraõ lá aquella Pro-
víncia de Bentos. Efte he o principio deffe Couto, Sc deíle Convento, de cj ie
láõ íenhores os Frades, Sc o Geral Ouvidor, faz o povo com ciiç elciçaõ de tres
cm tres annos, por pelouro,de dou* Juizes ordinários do Cível, & Crime pata
cada anno; efcolhe o Geral hum, que também íerve nos Orfabs, dous Vereadò-
res, que de mais faõ Almotaceis, Meirinho^ que faz ô Geral, dous Tabeliaens
do Judicial, & Notas; a hum anda annexo o tios Orfaõs, & Camara-? & ao outro
o das Sizas, Diílribuidor, Enqueredor, Sc Contador: todos data delRey» He
terra fria, recolhe pouco paõ, vinho, muita fruta, algum azeite, caça, muitos
gados, & quantidade de lenha,&pefcas 110 Cavádò. Temhuma Companhia, &
o G eral he Capitaõ mor ; compoern-fe o termo das Fregueíias feguintes.
S. Martinho de Tibaés, Mofleiro, & Cabeça da Ordem de S< Bento cm Por-*
tugal,dequeheGeralo Abbadedeíla Cala , rende quatro mil Sc quinhentos
cruzados com fabidos, & annexas, aprefenta Cura fecular, temtri ita Sc cin-
co vifmhos. He fermofo Templo com maravilhofo retabolo, & o primeiro,que
na Provinda fe inventou , tem grandes , & apraziveis clauílros com
muitas fontes, aíTim nos corredores altos, como nos pateos baixos , dilatada
cerca com bons pomares, olivaes, & matas; ha nefte Convento huma reliquia
de S. Bento, ô^nelle eflaõ fepultados muitos Varoens de exemplar virtude.
NoíTa Senhora da Graça, que antigamente fe chamou a Igreja de Paadim,
Abbadia da Mitra, rende com a Poufa lua annexa em Barcellos duzentos «5c cin-
coenta mil reis, tem cento St vinte vifinhos.
Santa Maria de Mire, Curado do Convento de Tibaens, tem vínte & cin-
co vifinhos. Aqui teve ElRey Theodomiro hum Paço, Sc quinta de recreação,
que deu o nome à Freguefía.
S-Payo de Parada, Vigairaria annexa ahumaConezia de Braga , rende
trinta & cinco mil reis, Sc para o Conego oitenta mil reis, tem trinta vifinhos.
S- Payo da Ponte, Vigairaria annexa a outra Conezia, renderá feffenta mil
re*is, Sc para o Conego cento Sc dez mil reis, tem cincoenta vifinhos.
S. PedrodeMerlim,a quem o livro da Ordem de Chriílo chama Mcrim,
foy Moíleiro de Frades Bentos, Sc depois de extinguido, aprefentaçao de Ti-
baés, a quem inda conhece comcerto foro: paífou a Commenda de Chrifto , Sc
heReytoriada Mitra, rende cem mil reis, & para o Comendador mais de mil
cruzados: tem cento Sc dez vifinhos.

CAP. XLL'

Dos Concelhos de <tC\4o?idim, <iAtey}Servay &■ Hermello*

DFfrontedos Concelhos dè Cerolico,& Cabeceiras de Bailo da parte da-


lém do Tamega para o Sul eftaõ quatro Concelhos : he o primeiro ó de
Mondim, que o divide de Cerolico de Bado o riò Tamega, mas dathe commu-
nicaçaõpela fua fermofa ponte de pedra, quechamaò de Mondim: heCõcelho
i7o / TOMO PRIMEIRO
ricO; aonde'Te lavra muita quantidade de couros,aífim fola, com o cordovaô; èc
fe faz muita cal; tem juiz,& Vereadores , que aprefenta o Marquez de Ma-
rialva, como fenhor delle. EIRey D Manoel lHcdeu foral cm Lisboa aos vinte
deAgoftode is 17. Tem emfeu delindo quinhentos vifinhos divididos pe-
las Freguefias feguint es- ~ J w
A Fregucíia da Villa de Mondim, Vigairaria da apreíentaçao do Marquez
de Marialva, & ha nefía Igreja hum Beneficio fimplez,que rende íeifeentos mil
reis, & o aprelenta o dito Marquez.
A Freguefia de Paradança, Vigairaria dameíma aprefentaçaõ.
A Freguefia de Villar deVerreiros, Abbadia da meíma aprefentaçaõ.
O íegundo Concelho hé o de Atev, que o divide do Concelho de Cabecei-
ras de Bailo o mefmo rio Tamega , otferecendolhe para fe dommunicarem hum
com o outro a fua barca de Atey: tem cento & cincoenta vifinhos comhuma
Igreja Parochial da invocaçaõ de S. Pedro, Vigairaria do Padroado das Frçyras
da Villa de Conde: he feuhordelleo Marquez deMarialva> que nelle aprefenta
juiz, que conhece do Civel, & Crime.
O terceiro Concelho he o de Serva, de que he Senhor o mefmo Marquez de
Marialva, que nelle aprefenta juiz, que conhece do Civel, & Crime: tem duzé-
tos & oitenta vifinhos, que fe dividem pelas Freguefias ftguintes.
A Freguefia de S- Payo de Serva, Vigairaria que aprefentaõ as Freyras de
%
Villa de Conde.
A Freguefia de Alvadia-
A Freguefia de S- Joaõ de Limão.
O quarto Concelho he o de Hermello,aonde fe achou huma mina de excel-
Iente eftanho:FlRey Dom Sancho o Primeiròlhe deuforalemGuimaraensno
mezde Abril de 1234.. He também fenhordeífe Concelho o Marquez de Ma-
rialva, quenelle poem Juiz, que conhece do Civel, & Crime ; tem quinhentos
vifinhos, que fe dividem pelas Freguefias feguinres.
A Freguefia de S. Viccte de Hermello, Abbadia que aprefenta o Marquez
de Marialva. •
A Freguefia de Fervença, Vigairaria. .
A Freguefia de Lamas dollo.
A Freguefia de Bilhó, Abbadia do Padroado do mefmo Marquez.

CAP. XLII.

T)o Concelho da 'Ribeira de cPena.

PArte o Concelho de Ribeira de pena com o de Cabeceiras de Bafio, & fó-


menteos divide o rio Tamega, que lhe dá communicaçaõ pelalua ponte
de Cavês, como a dá para toda a Província de Trás os Montes, Galliza, & Caf-
tella. Haneíhe Concelho Juiz, que conhece do Civel, & Crime, & tem no feu
deflriéto as Freguefias feguintes-
A Freguefia do Saltador, Rey toria, & Commenda de Chriílo , que ad-
miniftra a MarqUeza de Alenquer: nèíla Freguefia eílaõ fituadas a Capella de
Noffa Senhora do Rofario annexa ao Morgado, & Quinta da Olaria,de quche
- , ' fe-
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. tyt
fenhor BalthafarPereira da Sylva,morador na fua quinta do Villar em Cábecei-
- ras de Bailo- A quinta, & Morgado do Bukeiro com Capella namefma Igreja,
de quehc fenhor Francifco Leitão de Almeyda. A quuita daTemporam com
fuas cafas nobres, que foy de Lilis Peixoto da Sylva , & hoje poffue por com-
pra Ambroíio Gonçalves Penha. A quinta de Picanhol com fuas boas cafas,que
poííue Francifco Pacheco de Andrade, Capitão mor daquelle Cõcelho. A quin-
ta de Freume com fuas cafas nobres , que poífue João de Valladares Vieira,
Cavalleiro da Ordem de Chrifto.
A Fregueíia de Santo Aleixo, que fica da banda dalém do rio Tamega, Vi-
gairaria annexa à Rey toria do Salvador.
A Freguefía de Santa Marina de Ribeira de Pena, Rey toria, & Commenda
da Ordem de Chnílo, de que he Commendador Manoel de Vafconceliós , filho
de Joanne Mendes de Vafconcellos-
Tem efte Concelho feifcentos & quarenta vifinhòs.

CAP. XLIII.

Da Villáx Concelho de Agúar*

O Nome propriodeíla Villa, & Concelho he Villa-Pouca de Aguiar , mas


como he habitada de honrados CaValleiros, não goílão que lhe chamem
Pouca, & aííim atem introduzido por Villa de Aguiar da Penha : difta dez le-
goas de Guimarães para oNafcente, & quatro de Villa Real para o Norte • eftá
fundada em hum ameno Valle entre as ferras de Falperra, & Sandonho , & he
compofta de humafó rua comprida, com muitas caías nobres, que moílram em
feus edifícios as nobrezas de íeus povoadores. Té hú Caftello , que íe não he
temerofo paraorefpeito,hc adjutorio para o credito de acaftellada : he feu
Alcayde mor Felippe de Soufa de Carvalho, que tem neíla Villa cafas magefto-
fas, & hum Reguengo.
Afliftem ao governo Civil defta Villa hum Juiz, que conhece do Civel, &
Crime, Vereadores, hum Procurador do Concelho, hum Juiz dos Òrfaõs com
feu Efcrivão, Alcayde, & Meirinho : tem mil & fetecentos & cincoenta vifí-
nhos, que fe dividem pelas Freguefias fcguintes.
A Freguefía do Salvador, Igreja Matriz , he Rey toria , & Commenda de
Chrifto, tem em feu deftriéto duas Ermidas,& eftes lugares, Guilhado, Noze-
do, Cidadelha, Pinoufal, ametade do lugar de Monte Negrello,Falperra, & Cõ-
dado.
A Freguefia de Santiago de Soutello annexa à Commenda de S.Marina da
Ribeira de Pena.
A Freguefía de S. Salvador de Toloes , Commenda de Martim Teixeira
Coelho, fenhor da Teixeira.
A Freguefía de Sãta Manha annexa à Commenda de S. Marina da Ribeira
de Pena.
A Freguefía de S. Martinho de Bornes, Rey toria, & Commenda de Chrif-
to, de que he Commendador o Marquez de Cafcaes, tem em feu deftriélo eftas
Ermidas, S. Giraldo, o Efpirito Santo, & S. Sebaftião.
Pij A
I7t x TOMO PRIMEIRO
A Freguefia deN. Senhora da Urea, annexa aReytoria de S. Martinho de
Bornes. ^ . , ■
A Freguefia de Valoura, annexa àrnefma Reytoria de Bornes-
A Freguefia de Santa Euialia de Penfalvos, Reytoria Comenda de Chri-
ílo, deq he Commendador o Conde de S. Lourenço ; tem eíial* regucíi.idous
lugares, Cabanes,&Soutello do Mato. u-. ^
A Freguefia dc Santa Maria de Affonfim, annexa a Rey tona de Penialvos.
A Freguefia de Parada de Monteiros, Vigairaria annexá à meíma Reyto-
ria de Penfalvos. • 'r } . ,
A Freguefia de S. Pedro do Bragado, annexa à meíma Reytoria de Pen-
ialvos- . ,
A Freguefia de S- João de Capelludos annexa á meíma Reytoria de Pen-
falvos. , ; '
He efle Concelho abundante dc pão, vinho,& frutas, & bons prezuntos,
muito mel, & por efla ri zão ie lavra nelle muita cera.

TRATADO II

Da Comarca, &Ouvidoria de Braga.

cap. i.

Da defirifçaõ 1 opograjica defia nobre Cidade.


' t • •y
JA latitudde 41. grãos , 33- minutos , &nalongitudde 12.
ij j grãos, 59-minutos no coração da Provincia de Entre Douro, &
Minho,entreosriosCavado,ôtDèíhe,emhumaalegre, &tiila-
1 tada planície, que cercão fertiliífimos campos, amenos prados,
& frondofos arvoredos, tem íeu afiento a muito nobre, &anti-
ga Cidade de Braga , fundada pelos Galios Celtas duzentos &
noventa feisannos antes da vintkdcChriího, chamados Brácaros por cauíã de
humaveílidura por nome Braça, deque ufavão, donde com pouca corrupçam
fe chamou Braga ; & eíha he a opinião mais provável, que leguem Florião de
Campo liv. 3. cap. 97. & G^ribay liv. 5. cap. 10. aonde dizem que os Turdulos,
Andaluzes, & os Gallos Celtas moradores nas ribeiras do Guadiana determi-
nàrão fahir de fuas terras,& entrar pelo mais interior de Efpanha a conquiíhar,
& fundar novos lugares: & concertados na jornada, fahirão mais de trezentas
mil peífoas, &forãocaminhando pelas ribeiras do Tejo, aondefizerão algumas
povoaçoens. Paffárão o rio, & marchando adiante pelas terras, que hoje faõ da
Coroa deíleReyno, povoarão Coimbra, & outros lugares, atè chegarc ao rio
Douro, aonde paràrão, paradefeançarem dos muitos trabalhos , que tinhão
padecido na jornada; & não querendo os Turdulos ir mais adiante,ficarao alli,
& povoarão muitos lugares. Os Gallos Celtas atraveffaraõ o rio Douro, &
depois
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. 17/
depois de fundarem nas fuas ribeiras huma povoação,a que chamarão Porto
gallo (donde tomou o nomeeílc Rey no) forão povoar a Cidade de Braga,& ou-
tros muitos lugares, que fe incluem neílà Provinda.
Poífuírão os Gallos Celtas eíla Cidade mais de quarenta annos, até que a
ganhàrão os Romanos, debaixo de cujo império eíteve quinhentos annos , os
quaes lhe derao o nome de Auguíla. Delle tempo faõ as ant igualnas de cipos,
pedras, St monumentos, que nella, Stem feus contornos fe achão. Foy antiga-
méte Corte dos Suevos,St aífento de feus Reys mais de céto St íeteta annos; de-
pois a doininàrão os Çodos por efpaço de cento Sc vinte Sc fete, em cujo domi-
niofecelebràrãonelladiveríosConcilios, qqe lhe adquirirão grande gloria.
Pelos annos do Senhor de 716. a ganharão os Mouros, & foy conquillada por
ElRey Dom Pelayo, Scfeu genro Dom Affonfo o Catholico ; correo depois va-
rias fortunas, St quaíi de novo a povoou ElRey Dom Affonfo o Terceiro de
Leão pelos annos de 904. Tem forte Caílello , & he cercada de muros coiji
oito portas (obradelRey Dom Diniz) os quaes reedificou ElRey Dom Fernan-
do pelos annos de 13 7 y. Sc os ennobreceo com fortes torres. Produz o me-
lhor paõ de milho, que fefabe, pouco trigo, muito vinho de enforcado, frutas,
quantidade de tramoços, hortaliças, Scbaílante lenha, bellas carnes de vaca,
carneiro, Sc porco, que fe cor tão no mais excellente açougue que tem eífe Rey-
no, com pezo, Sc repezo, muitos laâãcinios, natas,manteigas, requeijoens, al-
gum azeite, limão, St laranja, muito peixe do mar, Sc rios , qucdevarios luga-
res trazem a vender, como caças, Sc aves domeflicasde toda a forte, Sc grande
quantidade de hervagens no Verão para os cavallos. Tem mais de fetenta fon-
tes perenes entre publicas, Sc particulares, Sc algumas de maravilhofa arquite-
ctura, como he o cnafariz da porta do Souto, Sc a fonte de S. Sebaílião, algumas
deitãopor feis bicas, outras por quatro, Sc outras por duas, com mais de oito-
centos poços em quintaes, jardins, Sc hortas a mayor parte delles. Foy Con-
vento jurídico no tempo dos Romanos, iílo he,Chancellaria ,àqual recorrião
as partes de vinte Sc quatro Cidades com fuas appellaçoens. Tem quatro mif
vilinhos com muita nobreza» grande trato de Mercadores, Cirgueiros, Sc offi-
ciacs de todo o genero; lavra-fe aqui cera fina,Sc fazem-fe velas de cebo melhor
que em nenhuma parte, Sc excellentes armas de fogo com coronhas exquifitas;
tem feira de quinze em quinze d ias nas fegundas feiras, Sc duas mais de bellas
cada anno, huma a vinte Sc quatro de Junho, Sc a outra aos oito de Setembro, ca-
da huma dura tres dias, ambas francas. Coníla de cinco Fregueíias, que faõ as
feguintes-
A Sê, orago Noífa Senhora da AíTumpção, he Igreja muito grande de tres
naves, com duas torres de finos, muitas Capellas, Sc clauílra; Templo tam an-
tigo, que muitos o fazem do tempo de Oíiris, Sc que fervio aos Romanos, co-
mo fe vê de humas letras, que eílão na parede da porta de S. Giraldo da parte
de fora. A Capella mor tem excellente retabolo, todo de pedra , que obrarão
os Bifcainhos por ordem do Arcebifpo Dom Diogo de Soufa, dos quaes ficárão
muitos na Cidade,Sc fundàrão cafas em huma rua, que chamao dos Bifcainhos,
pela dilatada alfiílencia, que tiverãoemofazer. He Vigairaria, que aprefenta
o Cabido, tem fetecentos vilinhos; junto a eíta Jgreja Cathedral eílá a Cafa da
Mifericordia com cinco Capelláens, que rezão em Coro , Sc trinta com obriga-
ção de MiíTa; tem mais de quatro mil cruzados de renda. A Ermida do Archã-
joS. Miguel, a Capella de Noífa Senhora da Ajuda , Sc a de Noífa Senhora da
Boa Nova.
p P iij San-
174 TOMO' PRIMEIROs:
Santiago da Cividade, Vigairaria do Caindo tem trezentos vifinhos ; dé-
trodefta Igreja eftá a Capella da* Chagas, que fez Pedro.O ran , ultimo Cõ-
mendatario de Carvoeiro, & faleceo no anno de 1602- po^.nella numa relíquia
do Santo Lenho com muitas indulgências, & Jubil<-OS,quçalcançou dos Sum-
mos Pontífices: he hoje Adminiílrador defta Capella o Reverendo Padre Fer-
não Correa de Lacerda, que tem quatro MifTas cada fomanfn Tem efta Frcgue-
íiaem feudeílriflooCollegio de S- Paulo, que fundou no auno de j 560. o Ar-
cebifpo Dom Frey Berthoíameu dos Martyres,aonde refidem quarenta Padres
da Companhia, os quaes enfinão Grãmatica, Filolofia, The.plogia eípeculat >va,
& Moral. A Ermida de*S. Scbaftião, & o Morteiro deNoffa Senhora da Conceit
çaõ de Religiofas da Terceira Ordem de S; Françjfço , que íç mç não engano,
não tem todo efte Reyno outro femelhante no habito , o qual he branco com
Efcapulario azul,& manto, &huma infignia da Senhora da Conceição 110 pei-
to : refidem nefte Morteiro cem Religiofas.
S ■ João do Souto he Abbadia, que aprefentão os Arççbflfpos, rende trezen-
tos mil reis, tem novecentos & oitenta vifinhos , & huma 1 iotayel Capella de
Noífa Senhora da Conceição com arco para efla Igreja de Saq Joaõ, a qual fun-
dou hum Provifor do Arcebifpo Dom Diogo de Soufa, que era da- família dos
Coimhras,a quê a deixou cõ Morgado de quinhetos mil reis de renda, & boas
caías : he hoje Adminiflradorderta Capella jofq-ph de Coimbra de Andrade , a
qual tem duas Miífas cada fomana- Tem mais értaFregueíia em feudefíncloo
famofo Ten plo de Santa Cruz, que fe tez de efmolas , no qual ha feis Capel-
laens, que rezão em Coro, & trinta com obrigação de Miffa , para o que tem
mais de dous mil cruzados de renda.
A Igreja do Efpirito Santo doHofpital, mais duas Capellinhas no mefm.O
Hofpit al, em que fê diz Miffa aos enfermos, & huma Capella de S- Marcos Joaõ
Bifpo, & Martyr, (primo, & companheiro do A portelo S- Barnabé) aonde eftá
o corpo delie Santo em hum fepulchro antigo de jafpe cuber^o com huma pedra
que guarda as fagradas reliquias, pelas quaes obra Deos muitos milagres: erta
Capella he muito antiga, &ertâ fit uada no campo dos Remédios ; defte Santo
Martyr tomou o nome a rua, que chãmaõ de S- Marcos.
O Morteiro de Noffa Senhora dos Remedios de Religiofas Francifcanas
da Terceira Ordem, logeitas aos Arcebilpos de Braga , em que refidem cen-
to & quinze Freiras, & tem a regalia de (quando morrem os Prelados) tange-
rem a Sè vacante, como na Igreja Cathedral, & affim aceitarem as Freiras, que
lhes parecem, fem teremfogeiçaõ, ou dependência do Cabido. Fundou erte
Convento Dom Frey Andre de Torquemada , Terceiro Regular da Província
de Andaluzia, Bifpo de Hume, que lhe anhexoua Igreja de S- Pedro de Frei-
tas, de que era Commendatario, com tudo quanto poffuía ; & pelos annos de
15-51. lhe deu licença para eíla fundação o Arcebilpo Dom Frey Balthafar Lim-
po : eftá fóra dos muros da Cidade em íttio alegre , hoje muy aumentado em
edifícios, & rendas; porque tem oito Igrejas annexas. Delle fahirão emdiver-
fos tempos fundadoras para o Convento da Conceição da mefma Cidade, & pa-
ra ode S-Francifco da Villa de Monção , que ambos faõ da Terceira Ordem
Francifcana-
O Convento de Noffa Senhora do Carmo de Carmelita? Defcaíços junto
ao campo da V inha, em que refidem trinta & feis Frades.
O Convento de Noffa Senhora do Pópulo de Eremitas de Santo Agoft inho,
em que refidem vinte & feis Religiofos, por naõ eftar ainda acabado, com ebri-
gaçaõ
D A COROGRAFIA PORfUGUF.Z A. i;S
gãÇao cie terem duas Cadmiras, huma de Theologiax& outra de Moral. Foy fuit
dado pelo Arcebifpo de BragaDom Frey AgoíKnhadç Caibro j Religioío ,da
melina Ordem,, o qual Ihç dotou feiíçentos mil reis dç jutOpafa feu fuífento \
com obrigaçaõ,entre oqçras,dehúa Miífa cotidiana:pela alma delRey D FcUp-
pe, que lhe dera o Arcebifpado, & hum QtTiciode poy.qLicoeug, ;^ o enrique-
cco còm hum grande theíbu^o de relíquias, que trouxera de Rotpa , & Alema-
nha, todas ricamente orn^dq^ Tem exceUçnte cerca com cinco fontes fingu-
larcs, (huma delias, quççhamaõ a do Menino de jafpe,com notável delicadeza
lavrada) <k fete devotas,Ermidas dos paífos da paixaõ de Chriíio , a que chjy
j-nao jerufalem, todas comgrande perfeição, íòbindo de humas para as outras
quafiem caracol, & por reinare delias Ermidas huma grade varanda com def-
irnpedidavifta: tem bons pomares, & hortas, St fobre tudo húa, fermofa deve-
2a, ou alameda de carvalhos poítos por tal ordem,queaíIimna grandeza ,f po-
mo na biftancia faõ hum deliciofo emprego da vifla ; & tem mais huma vi-
nhadentro, quenaòhc amenormaravilha, porquedentro detr-ps para quatro
legoas de diííancia defla Cidade fe não achã outra femelhante.
A Capella de NoíTa Senhora da Cõceiçãodentro do Seminário de S-Pedro,
que fundou o Arcebifpo Dõ Frey Bertholameu dos Martvres com haítantes
rendas para fuílento de trinta & cinco Coílegiaes,& pito Moços do Coro, que
depois de feçvirem alguns annos na Sé, tem também beca. Tem íãhido deíle
Collegio para q governo das Igrejas do Arcebifpado,& para varias Religiocns
fogeitos grandes em virtude, &. letras.
As Capellas de NoíTa Senhora do Amparo, & de Santo Antonio. O Paço
dos Arcebifpos com duas Capellas, & largos jardins , & nelles muitas pedras
com letreiros Romanos, de que poucos fe pódcmler, por efiarem nuiv gafhi
dos. A Capella de NoíTa Senhora da Abbadia. A s Canellas do Caílello, dp Air
jube, & da Relaçaò, & dous Hofpicios com Tuas Capellas, hum dos Frades Bo-
tos, & outro dos Bernardos.
S. Pedro de Maximinos, Abbadia da Mitra , rende quatrocentos & cin-
coentamil reis com a annexa de Gondifalve , tem duzentos & quarenta vifí-
phos- He cila Igreja a primeira, aonde os Arcebifpos Vinhaõ fazer oração, an-
tes quefizeítem a primeira entrada em Braga : tem emfeudeftricflo huma Er-
mida de NoíTa Senhora da Conceição, que eílá na entrada da Cidade, outra da
Madre de Deos na quinta de Eflevão Falcão Cota, & outra de Sam Gregorio
fundada em hum monte. Junto a efla Parochia de S. Pedro de Maximinos te-
ve feu principio, & primeira fundação a Cidade de Braga , de que femoílrão
ainda hoje ruínas de grandes edifícios , que dão teílemunho de íua antiga ma-
geftade,& ainda fevè hum como meyo circulo , lugar em que cífava o anfitear
tro, aonde os Bracarenfes ao modo Romano çelebrávao fuas feífas 3 & corren-
do de S.Pedro atèoHofpitaldeS.Marcos apparecem veíligips, qup indicaõ
queatéli fe eflendia a Cidade antiga- Também ha raílos de haver aquedudlos>
muy ufados no tempo dos Romanos, com que fe provia a C idade dç agua.
S- Viclor, chamado vulgarmente S. Viflouro , foy Moílciro de Frades
Bentos, fundado por S. Martinho de Dume, & doado com huma qqinta,que alli
havia dos Bifpos oe Santiago, aos Moriges do í. onvento de S. Antão de Moure
por Vafco Mendes Sacerdote, de quem erão: a qual doação foy feita em dez de
Novembro de 56 y. como confia de huma Efcritura, que tradugida em Pprtu-
guez, quer dizer: Damos a nofía quinta, ou heráade com tudo quanto lhe pertencei
17<S TOMO PRIMEIRO
^ com a forejã de S. mouro, a vós Voroens de Dos, pára que alh façais hum U-
plo [atito, & Mofieiro em que moreis. Cumprirão ós Monges de Moure a condi-
çãodo doador , fazendo Igreja,&Moíkironaquelle lugar , aonde viverão
íargo tempo, fazendo o officio de Capellaens do gloriofo Marty rS. Viclouro,
&foyfempre Prioradofeu; mas eilando, como fe entende , deílruido pelos
Mouros, fe deu ao Arcebifpo S. Giraldo juntamente com o de Moure. Sagrou
eílalgrejadeS- Vidouro o Arcebifpo Dom Payo Mendes em tempo deillcy D.
Affonfo Henriquesihe Vigairaria que aprefentão os Arcebiipos, que le mtitu-
lão Abbadesdefta Igreja,rcndèlhes quatrocentos mil reis,&: cento & cincoen-
taparao Vigário: tem mil Sc duzentos Sc oitenta viíinhos. Neila h reguefia ella
o lugar que chamão as Goladas, aonde S- Vidor foy martyrizado , de que lhe
ficou o nome, & hum ar co, dentro do qual com grades de fora ie guarda huma
pedra,em q foy degolado,& permanecem íinaes de leu fangue das gotas,que nel-
la derramou. Também ha huma torre, & ruínas de edifícios, a qúe chamão Pa-
ços, dizem eraõ do Santo, hoje he Morgado, que poíTuem os do appellido de
SyIva. Tem eíla Parochia em feu delindo as Igrejas, & Ermidas ieguintes.
A Igreja de NoíTa Senhora a Branca, que fundou o Arcebi fpo Dom Diogo
de Soufa, mandando abrir todo o terreiro, que vay da porta do Souto ate eíla
Igreja em tal proporção, & diítancia, que ie pode contai peta melhor praça, cc
fahida, de quantas ha pelo Reyno. A imagem da Senhora he muy mageílcfa, &
devota, fuipendeos olhos a quem ave, & parece lhe oíferece o Filho, que tem
em feus braços item Confraria dos principals da Cidade, com íeis Capellaes,
que rezaò em Coro, fora muitos que tem obrigação de Mi (la j fervem-na feus
Confrades com riqueza,apparato, tem muita prata,& cuílofos ornamentos.
Celebrafe fua feíla a cinco de Agoílo. Tem a invocação de NoíTa Senhora a
Branca , pela brancura da neve, com que em Roma appareceo branqueando o
monte Efquihno, aonde a Senhora queria fe Jhe fundafle aquelle fumptuofo Te-
plo, chamado por cila occtfúa,Santia Maria ad Mwí,acujd imitação o Arce-
bifpo Dom Diogo de Soula mandou fundar ella Igreja pela devoção, que tinha
àquclla Senhora, do tempo que eíteve cm Roma.
A Ermida de N- Senhora de Penha de França, que he de Beatas , que não
profeííao claufura.
A Ermida de Santa Anna, que fundou o Arcebifpo Dom Diogo de Soufa
no mefmo terreiro,& campo, que tomou o nome deíla Santa, junto da qual mã-
dou levantar em boa ordem as pedras, & colunas, que os Romanos, quando do-
minavão Braga,levantàrão a diverfosEmperadores, para que naquelles letrei-
ros tiveífem os curiofos em que gaílar o tempo, & le fizeíTem peritos nas anti-
guidades de fua patria. _ ■
As Ermidas de S. Gonçalo, S. Lazaro, Santa Julia, Santo Adrião , NolTa
Senhora das Mercês, S. Vicente, NoíTa Senhora dé Guadalupe, fituada em hum
alto monte, NoíTa Senhora do Pilar, & Saõ João da Ponte, fítuada em hum ame-
no, & dilatado campo, aonde cílâ huma fonte, que chamão do Arcebifpo , cer-
cada toda de muitos arvoredos. O Convento de S.Felippc Neri, em que refí-
dem quinze Padres.
O Convento de S. Fruduofo de Capuchos Piedofos, que fundou o Arce-
bifpo Dom Diogo de Soufa, no qual eílão cinco corpos incorruptos de Religio-
fos, que forão de virtude, Sc eílão fepultados na Sancriília velha : foy eíle Con-
vento hum dos mais notáveis que teve a Ordem de S- Bento , Sc odeílruirão
de todo os Mouros, ficando fó a Igreja, que hojeexille , lavrada em forma de
Cruz
r

DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. 17?


Cruz com vinte & duas colunas de màtfmore, que a fuftentão : heColIegio em
que reíidem trinta &dous Religiofos,&ieuíitiohe viftofo,& alegre , porque
fenhorea todo o valle de Prado, hum dos melhores, &. mats ricos da Provinda
de Entre Douro, & Minho. •
Entre os fumptuofos Templos, que tem a Cidade de Braga, he hum delles
'a Igreja Cathedral, a qual hefagrada, & de tanta grandeza, que dentro delia ha
fete Coros, em que fe rezaõ as Horas Canónicas em voz alta , fiem edorvarem
huns aos outros, na qual eftão os corpos de S. Pedro de Rates, S. Giraldo, S'
Martinho de Dume, SantoOuvidio, Arcebtfpos de Braga , Ôc o de Santiago
Intercifo Martyr illuftriílímo ; & na Capella de Santo Thomas eftáocorpode
S. Lourenço de boa memoria, que depois de trezentos annos íc achou , como
na propria hora em que morrco. Na Capella mor defta Cathedral eftaõ fepulta-
dos o Conde Dom Henrique,&fua mulher Dona Tareja , pavs dos primeiros
Reys de Portugal, hum da parte do Evangelho, outro daEptíhola, & no meyo
da Igreja entre duas colunas, das que a fuftentaõpara a parte éfquerda, jaz fe-,
pultado o Infante Dom Affonfo, filho delRey Dom João o Primeiro, & da Rai-
nha Dona Felippa. Tem efta Sé hum riquiíiimo thefouro, aonde éftá hum efpi-
nho da Coroa de Chrifto Senhor noífo, & leite deNoffa Senhora emhuma am-
buía, hum braço do EuangeliftaS. Lucas, algumas Cruzes do fanto Lenho, &
outras militas de grade valor, cõ riquiííimas peças de ouro, 2c prata, & pannos
de tell.a,com que íe arma a Igreja nos dias de fefía,6c ricos pontificaes de tclla,
brocados, & bordados. •
As Dignidades que hanefta Sé,faô,oDcaõ,Chãtre, Arcediago doCoa*
to, Arcediago d® Barrofo, Arcediago deVermoim, Arcediago de Neiva, Mrf-
tre-eícoia, Theíoureiro mór, Arcediago de Fonte-Arcada, Arcediago de Olivé-
ça, Arcediago de Labruja, Arcipreftc de Valdevez , Arcediago de Cerveifci*
todos de groíTas rendas .-tem trinta & oito Conezias , deque as mais peque-
nas rende trezétosmil reis,porcj nove rende mais,porq além das di ftribuiçoés>
té Igrejas unidas; té mais dozef erccnarias,q rende cem mil reis cada húa,exce-
pto duas, huma que rende quatrocentos mil reis , & outra duzentos & cm-
coenta mil reis cada anno, que também tem Igrejâs unidas.
Neila illuftre Cidade, Primáz de toda a Efpanhã, pregou a Ley Euangeii-
ca o Apoftolo Santiago, irmão do Euangelifta S. Joaõ, & deixou por primeiro
Arccbifpo delia a S. Pedro de Rates, que o refufeitou mais de quinhentos an-
nos depois de morto,com admiração de todos os que tiverão noticia defta pro-
didofa reíurreição;& obautizou,pondolhe o nome de Pedro no bautiímo,
em memoriado Principe dos ApoftolosS- Pedro. Foy Hebreo de nação , natu-
ral da Paleftina, de huma das duas Tribus Sacerdotal, ou Real, venci das,& le-
vadas cativas à Cidade de Babylonia por Nabuchodonofor, como fe colhe dos
fragmentos de Santo Athanaíio. Seu pay fe chamou Unas , & parece aquelle
a quem EIRey Joachim mandou tirar a vida, por lhe pregar o que clle nam que-
ria ouvir, & o refere emfua Profecia Jeremias feucontemporâneo cap.26.
1 eve S. Pedro de Rates.o mefmo dftm de profecia, que feu pay: fahio def-
terrado com os mais cativos de Babylonia pelos annos da creaçao do mundo
4743> conforme a contados Setenta, & yB/'^ntesda vinda de Chrifto.
nome que então tinha,naõ fabemos,fó nos confta q os do feu tempo, & osqde-
pois dellefe feguíraõ,lhe chamavaõ Samuel o mais moço,ou Malachia s o mais
velho, pela femelhança que tinha na fantidade com os Profetas Samuel, & Ma-
lachias, de quem ha grande memoria na fagrada Efcritura. Era na fefthoíura do
178 TOMO PRIMEIRO
• roílo,& compofiçaõdosmembros,quaWtrdadeiramente pedia onome de Ma-
lachias, que conforme os melhor es interpretes, fignifica omefmoque Anjo do
Senhor. Sahio com os feus naturaes da Cidade de Babylonia à Provinda de Ef-
panha, quando a ella foraõ mandados por Nabuchodonofor, & foy fua morada
na Provincia de Entre Hour o, & Minho,& foy Cidadaõdeíla Cidade de Braga,
como diz Caledonio, & o refere Hugo,, na qual naõ fabemos os annos que teve
de vida em Efpanha, nem fe nella o tomou a morte.
Como quer que foífe,Santiago o refufcitou, & bautizou, ordenandoo lo-
go de Sacerdote, & o fez primeiro Arccbifpo de Braga , & Pregador daquclla
Cidade, aonde depois de converter muitos Gentios à Fé de Chrifto, & farar de
lepra a humafilhadofenhordaquellaterra,bautizandoa com lua mãy, & per-
fuadindoa a guardar caílidade, foy morto por mandado do dito fenhor , & fa-
crificado diante do Altar da Igreja de Rates, aonde eileve feu fanto corpo, def-
de o anno do Senhor de 44. emquepadeceo,ate' o de 1 yyj. em que foy trasla-
dadopelo ArcebifpoDom Frey Balthalar Limpo para a Sè deífa Cidade aos 17
de Outubro, dandolhe Capella particular à maõ direita da C apella mór-
Os Arcebifpos de Braga, que í iiccedèraõ a S. Pedro de Rates , faõ os fe-
guintes. S. Baíilio, S. Ouvidio,S.Polycarpo,Sereriano,S. Fabiaõ, S. Felix Gra-
to, S. Secundo, ou Secundino, Caledonio, S. NarciíTo, Paterno, S. Salamaõ, Si-
nagio,ou Sinagrio, S. Leorício, Apollonio, Domiciano, Idacio , ou Epitácio,
Lampadio, S. Paterno fegundo do nome, ou Patruíno, S. Profuturo, Pancracio,
ou Pancraciano,Balconio, Valério, idacio II. Caífino , Valério II. Profutu-
ro II. S- Ausberto, Juliano,Eieutherio, Lucrécio, S- Martinho deDume, Beni-
gno, Pant ardo, S. Tolubeu, ouTobeu, S. Pedro Juliano, Maeucino, Par ora-
cio, Potamio o Penitente, S. Fructuofo, S. Quirico, ou Quirino,S. Lcodeciíio,
Juliano, Liuba,Fauílino, S.Felix,Torcato Martyr, S« V iclor Martyr, Hero-
nio,Hermenegildo,& Jacob, Ferdifendo,Arcarico, Argimundo , Noíhrano,
Dulcedio, Gladila, Argimiro, Theodomiro, Silvanato, Heros, Gonçalo, Her-
migildo, Juliano, Sigifrido, Dõ Pedro , S. Giraldo, Dom Mauricio, Dom Payo
— Mendes, Dòmjoaõ Peculiar,o Beato Dom Godinho,Dom Martinho Pires II.
Dom Pedro V. Dom Eílevaõ Soares da Sylva, Dom. Sancho , Dom Sylveílre
Godinho, Dom Joaõ Egas, Dom Martinho Giraldes lib Dom Pedro Juliao, que
foy Summo Pontífice, & fe chamou Joaõ XXI. Dom Sancho II. Dom Ordonho,
Dom Frey TelloReligiofoFrancifcano, Dom Martinho deOliveira IV. Dom
Joaõ Martins Soalhacns III. Dom Gonçalo Pereira, Dom Guilherme, Dom Joaõ
Cordolaco IV. Dom Vafco, Dom Lourenço, Dom Joaõ Garcia Manrique V. D.
Martim Affonlo Pires da Charneca V. Dom Fernado da Guerra, Dom Luis Pi-
res , Dom JoaÕ de Mello VI. Dom Joaõ Galvaõ VII. Dom Jorge da Coifa,Car-
deal da Igreja Romana, Dom Jorge da Coifa 1L Dom Diogo de Soufa, o Infante
Dom Hcrique, Cardeal da Igreja Romana, que depois foy Rey de Portugal, Dõ
Diogoda Sylvall. Dom Duarte, filhodelRey Dom Joaõ o III. Dom Manoel
de Soufa, Dõ Balthafar Limpo, Dõ Frey Bertholameu dos Martyresq Dom Joaõ
Affonfo de Menezes VIII. Dom Agofltnho de Caílro , Religiofo Eremita de
Santo Agoffinho, Dõ Frey Aleixo de Menezes da mefma Ordem de Sãto A gof-
tinho, Dom Affonfo Furtado de Mendoça, Dom Rodrigo da Cunha , que ef-
crcveo a vida de todos eíies Prelados até o feu tempo, Dom Sebaíliaõ de Ma-
tos deNoronha,queaíIií!iono governocom aPrincezaMargarita , Duqueza
de Mantua, que governava eífeReyno,quando fe acclamouo fenhor Rey Dom
Joaõ o Quarto no anno de 164,0-&. no de 164,1. aos 29. de Agoífo o prende-
rão
V

DA COROGRAFIA PORTUCUÊZÀ* if#


rao na torre de S- Giaõ, aonde morreo , & jaz fepultadoem huma Ermida da
mefmá torre. Dom Veriífimode Alcncailre, Inquiíidor Geral, & Cardeal da
ianta Igreja Romana, Dom Luis de Soufa, Dom joièph de Menezes, Dõ Joàõ
de Soufa, & Ruy de Moura Telles, que foy Bifpo da Guarda.
Tem fahido delia Cidade Varocns illuílres em fantidadéj grandes cm le-
tras, & iguaes nas armasaos mayores Capitaens deEfpanha ;°&tem ereado
muitas peííòas de grande virtude, como foraõ vinte & tantos A rcebifpos act*
ma nomeados •, & fete de boa, & ianta fama , como íaõ o Beato Dom Godinho
Dom Frey Bertholameu dos Marty res, Dom Lourenço de boa memoria , Dom
frey Agoftinhode Jefus, Dom Frey Aleixo de Menezes, Dom Diogo de SOu-
fa, & o Cardeal Dom Henrique- As nove irmans gemeas, Vargens , & Marty-
res, filhas de Lucio Catilio, ou de Lucio Cayo Arilio,Varaõ Confulàr, natural
de Braga, Governador das Províncias de T.uíitanta, & Galliza pelos Romanos,
• & de Calcia fua mulher, ambos Gentios, & grandes Idolatras: os nomes delias
Santas nove irmans gemeas faõ, Santa Liberata, Santa Quitéria , Santa Mari-
nha, Santa Eufemia,Santa Genebra,Santa Germana, Santa Bafliliífa, Santa Vito-
ria, & Santa Marciana.
A Virgem,& Martyr Santa Értgracia, filha de hum Principe de Portugal,
a qual indo a França às vodas com o Duque deRuifelhon , foy martyr, zada
na Cidade de C,aragoça emoReyno de Aragaõ,por mandado de Daciano, jun-
tamente com dezoito companheiros, principaes pcífoas de fua Cafa, & Corte,
cujos nomes eraõ, Luperco tio da mefma Santa, Optato, Succeffo , Matcila,
Urbano, Julio, Quintiliano, Publio, F rontonio, F el ix, Ceciliano, E manto,Pri-
mitivo , Apodemio, & os quatro Saturnihos j feus làgrados corpos ellam na
mefma Cidade de C,aTagoça, na Igreja de S. Engracia, que hoje he Convento de
Frades Jeronymos.
A glorioia Virgem, & Martyr Santa Matrona , filha de Remifmundo Rey
dos Suevos, que com doze Companheiras padeceomartyrio pela Fé deChrif-
to pelos annos do Senhor de 5-45 •
S. Torcato, S- Cucufate, S. Sylveílre Martyres, & Santa Suzana Martyr,
■ cu jo corpo eíláfepultado na Igreja de S. Vitouro, feu irmaõ, em Capella pro-
pria da mefma Santa. No anno de 1 ? 90-em o mez de Outubro fe abrio o fe-
pulchro de Santa Suzana por mandado do lllultriílimo Arcebifpo de Braga D-
Agollínho deCaí!ro,& nellefe achàraÕ muitos olfos, & relíquias, que devem
fer da mefma Santa, deixadas alli para confolaçaÕ da riíefma Cidade.
Santa Veatride,& dezoito companheiros Martyres. O Abbade Recefvin-
to, da Ordem de S. Bento, que compoz em verfos os louvores delia Santa , &
dos feus dezoito companheiros, como diz Juliano na fua Chronologia pag. J6<
Oinfígne EfcritorEcclefiaíIico Paulo Qrofio, que elcreveo hum livro contra
qs Pelagianos, outro da razaõ da Alma, dous de Cartas para Santo Agoítinho,
& outras peííòas, & outro fobre os Cantares dcSalamaõ.
Dom Agollinho Ribeiro, Bifpo de Angra , Reytor da Univerfidade de
Coimbra, & depois Bifpo de Lamego. Dom Frey Braz de Barros , Religiofo de
?! Jerofiymo, que foy de tanta prudência, & virtude, que o fez ElRey Dõ Joaõ
o Terceiro,Reformador dos Conventos de Santa Cruz de Coimbra,& S. Vicen-
te de Lisboa, & depois Bifpo de Leiria. O Pidre Ignacio de Carvalho da Com-
panhia de Jefus, que morreo Martyr nojapaõ pelos artnos de 1616. O Padre
Miguel Carvalho , que morreo pela Fé queimado vivo aos 28.de Agoílo de
1Ó14. &outras muitas peíToas de conhecida virtude , que fe pódem ver nos
Agioío-
18o TOMO PRIMEIRO
Agiologios Lufitanos, & nas Chxonica-s da íagrada Religião oa -on.panlua dc
kius, & cias outras Ordens. •
Tem eíla Cidade voto em Cortes com aiTento no fegundo banco , & aqui
as celebrou ElRey Dom loaõ o Primeiro pelos annos de 1387. Sao luas Armas
huma imagem de Noíía Senhora no mevo de duas torres em leu caixilho ovado
com o Menino lefus no collo, com huma Mitra Pontifical em cima, ce ao pe cita
letra; íuíivinapdeiis, <& antiqua braihar<e. O leu termo tem trinta ÔCcnxo a-
rochiasidc que hefenhor o Arccbifpo,&hc também ienhor de treze Coutos,
que faõos feguintes: Capareiros, Moure, Cabaços,Cambczes, 1 ulha, Aren-
tim, Pedralva, Dorncllas, Ervededo,Provczende,Ribatua,Goivaens, & F eito-

3
Tem eíte Arccbifpado, con.o conda do Senfual,que cí+í: no Archivo da Sé,
mil & oitocentas & oitenta & cinco Freguefías em çinco Comarcas que com-
nrehende, corno faõ, a de Braga, a de Valença, a dc Chaves, a oe Villa Real, & a
daT orre de Moncorvo incitas Igrejas naõ entra ló a aprclentaçao cos Arce-
biluoSjfenaõ também o Padroado Real, & outros muitos Padroeiros- Sao lui-
fra-ancos deite A rcebifpado os Bifpos do Porto, Coimbra, Vizcu,& Miranda.
Tem hoieo fenhor Arctbiípo de renda cem mil cruzados; aprefenta ricas Ab-
badias Rey torias,Priorados,& Vigairarias,muitos Benefícios fímplices,Cone-
zias, Dignidades,Tercenarias,& Capellanías , &dà muitos officios, de que
adiante faremos mençaõ- , _ . ..... . .
Ha neíie Arccbifpado muitas Commendas das Ordens Militares, muitas,
& boas Abbadias de Padroados Ecclefiafhcos, &. Seculares, algumas de rendi-
mento de dous, & tres mil cruzados 5 tem n.ais de cento &. cincoenta Conven-
tos, & as rendas Ecckfiaíticas de todo o Arcebifpado rendem miais dc nnlhao
&: meyo.

Ofoticia das Vifitas do Arccbifpado de 'Braga.

S dos Penhores A rcebifpos, faõ Nóbrega, & Neiva , Soufa , & Ferreira,
^ Vermoim, &. Faria, Balio, Ordinana dc Valença, Chaves, V ília Real, òc
A
T r
° As doCabido faõ asfeguintes ; tres da diitribuiçaõ da Meia Capitular,
que faõ Lanhofo, & Vieira, Monte longo, Entre Homem, & Cavado , & Valle

Da dos particulares faõ as feguintes: do Deão, do Arcediago de Braga,


do Arcediago de V ermoim, do Meitre-efcola, do Arcipreíte dc V aldevez , o
Arcediago de Barrofo, do Arcediago de Neiva, & do Arcediago de Villa-nova
de Cerveira. Os Conegos de Valença tem huma, & o Thefoureiro mor de \ a-
lença outra.

Ufoticia dos officios da Cidade deBraga data dos Arcebi

HUm Provi for, que he também Defembargador , hum Vigário Geral, tã-
bemDefembargador, doze atè dezoito Deíembargadores , hum Juiz
dos Refiduos também Defembargador, outro dos Cafamcntos,tambcmDclem-
bar-
DA-COROGRAFIA PORTUGUEZA. 181
bargador, hum Chanceller defta Corte também Defembargador, hum Super-
intendenredaCafa do defpacho também Defembargador , hum Procurador
Geralda Mitra também ' 'efembargador, hum Promotor da Juftiça, hum Ef-
crivão da C amara Ecclefiaftica, outro da Comarca de Valença , que ferve neíla
Corte, dous Efcrivaens das Appellaçoens , hum Efcrivão dos Prazos da Mefa
Arcebifpal,i i. Efcrivaésde ante o Vigário Geral,hu Efcrivão dos feitos da Me-
fa Arcebifpal, hum Contador, hum Diftribuidor,hum Revedor das Contas no
Ecclefiaítico, &fecular, hum Porteiro da Relação , out ró de ante o Vigário
Geral, hum Efcrivão das Cartas de Excomunhão,outro das Cartas Citatorias,
outro das Fianças, & commutaçoens do degredo, outro dos Arrendamentos da
Mefa Arcebifpal,hum Meirinho Geral, hum Enqueredor da Comarca da Villa
de Valença, & feitos, que fetratãoneíla Cor te, dous Efcrivaens de ante o Juiz
dos Refiduos, hu Recebedor do Arcebifpado, fete Solicitadores, dous Portei-
ros dos Refiduos, hu Efcrivão do Regiíto geral, outro da Cafa do defpacho ,
hum Porteiro da Cafa do defpacho, hum Corredor das folhas , hum Efcrivão
dos Cafamentos, hum Efcrivão Apoftolico, hum Promotor dos Refiduos,tres
Enqueredores doEccleíiaí!ico,hum Efcrivaõ das Fianças de ante ojuizdos Ca-
famentos, hum Efcrivão do Seminário, & hum Aljubeiro.

Officios do Secular de fia Cidade da data dos Arcebifpos.

HUm Alcaide mór de Braga, hum Alcaide menor de Braga , hum Alcaide
mór de Ervededo,hum Alcaide menor deErvedcdo , hum Ouvidor dc
Braga, hum Juiz de fóra de Braga, hum Meirinho do Secular , feis Tabeliaens
das Notas, & Judiei A de Braga, h um T abeliaõ gerai das Notas , dous T abe-
liaens das Execuçoens, & dous Diílr ibuidores , hum do Ouvidor , oujro do
Juiz de fóra, hum Promotor do fecular,dous Enqueredores, hum Contador ,
hum Revedor dos feitos feculares, hum Carcereiro fecular,hum Juiz dos Or-
faõs com dous Efcrivaens, hum Efcrivão da Almotaçaria, nove Porteiros de an-
te o Ouvidor, & Juiz de fóra, hum Efcrivaõ da Camara da Cidade , & dous
Porteiros dc ante o Juizdos Orfaõs.

Officios das quatro Comarcas da data dos Arcebifpos,

QUatroVigariosGeraes,quatro Juizes dos Refiduos,quatro Promotores,


hum Efcrivão da Camara de Entre Lima, & Minho, que ferve ante o Vi-
gário da Comarca, feis Efcrivaens, que fervem ante os Vigários Geraes das
Comarcas, tres da adminiftração de Valença, que fervem ante o Vigario Geral,
quatro Meirinhos,quatro Efcrivaens de ante os Juizes dos Refiduos, quatro
Recebedores, âc quatro Porteiros.

Officios dos Coutos, que aprefentaõ os Arcebifpos,

HUm Ouvidor dos Coutos de Entre Douro>& Minho, hum Efcrivaõ dc


ante o Ouvidor dos Coutos, h um Ouvidor dos Coutos dc Villa Real,
hum Efcrivão de ante eíle Ouvidor , hum Efcrivão dos Coutos de Pedralva,
Mou.
iSi TOMO PRIMEIRO ; )
Moure, Arentim, Villar, 8c Areas,hum Tabeliâò do Couto.déXJapmreiros, ou-
tro do Couto de Cabaços, outro do Couto da Feitofa, outro; do Couto da Pu-
lha/lous Tabeliaens do Couto de Provezende,que fervehi em Goivâens, 8c S-
Mamede d>e Ribatua, hum Tabeliaõ de Ervededo, que fefvcdc 1 lmotaçaria, &
Camara, & hum Efcrivaõ no Couto de Dornellas em Bartolo, que ferve .oa Ca-
:
ntata, Judicial,&Almotaçaria. « f :
Ha mais neíta Cidade hum Efcriváodos Direitos Rcaes- da data dos Ar-
cebifpos, outro taníbem dos Arcebvfpos, 6c hum Efcrivaõ, da Bulla «dá Cruza-
da 5 8c lo ha neíla Cidade por El Rey hum juiz, & hum Efcrivaõ da Siza, 6c hum
Jr
Porteiro. '• •
Ha maisnefla Cidade hum Efcrivaõ do Cabido, queue da fua aprefcnta-
caõ, quatro Juizes Confervadores,6c quatro Efcrivaens da&Ordens de S-Ben-
m, S- Bernardo, Cruzios, 6c Loyos> que também naõ íao da aprefentaçam dos
.Arcebífpos. * , * .
" Coníiahaver todos os fobredi tos ofíicios doSeníual,xpae cífá no Archi-
-vo defla Sè, fora alguns,qtie também vaõ, que foraõ creados depois de feito o
Senfual; 6c por ido naõ vaõ em ordem de mayores a menores. 3t
Ha neíla Cidade huma Relaçaõ,em que de ordinário adi liem de doze, atè
dezoito Defembargadores, da qual tem fahido vários homens doutos para di-
ver fas occupaçoens, 6c lugares deíle Reyno , comodizlrey Luis de Sou la na
vida do Arcebifpo Frey Bertho'lamcmdos Martyres, 6c GabrielPereira em húa
das fuas Deeifoens, 6c o confeífa também Caldas Pereira em muitos lugares das
íuas obras, que efcreveo à mayor parte delias, fendo Defembargador da nfefma
Relaçaõ. Neila íe determiraõ fem appellaçaõ, nem aggravo todas as caufás ei-
veis dequalquer quantidade que fejão, dos moradores delia Cidade , 6c leu
termo, 6c dos Coutos tõdos, por terem neílas terras os^&nhores Arcebifpos
(tbda a jurifdiçam eivei independente dos Tribunaes delRey.
Conhece maiseíla Relaçaõ de rodas as caufás crimes dos moradores dos
-Coutos, as quaes néllá fe finalizáo,fem appellaçaAparaOsTríibílnaes delRey; 8c
ha na mefma Relaçaõ Breve de S. Sãcidade para os Defembargadores delia vota-
rem de morte, ainda que fej3o Clérigos, nas catilas crimes dos moradores dos
Coutos; 6c eíla prérogativa de terem os fenhores Arcebifpos- nos ditos Cou-
tos eíia jurifdiçaõ, fem appellaçam para os ditos Tribunaes delRey , he huma
regalia tam grande, quenenhum Donatário dajÇoroa a tem^nem fe achará fa-
cilmente, feriaõ em Principés abfdlútoáf põtóm nas caufas crimmáes de todos
os moradores delia Cidade, 6c feu termo naõ te os fenhores Arcebiípos mais
que a primeira infianda, quehe diante do'feu Olividor, 6c delle le appella , 6c
aggrava para a Relaçaõ do Porto, Se cara a de Lisboa- Finalmente he eíla Re-
laçaõ nam fómeflte Eccléíiaífica para todas as caufás Eccleliafticas, (como'o fao
todas as mais Relaçoens dás Metrópoles, que tem fuffragáneos ) mas he tam-
bem Relaçaõ fecular, porqde julga, ÔEfêntencea todas as caufásciveisdos mo-
radores delia Cidade,6c leu termo,6c dos Coutos;>como aciíria-já diíTemos.

. ftteguefi&s dó terrrt&da Cidade de 'Brag#.

SAm joaõideÂdgueira-,'<Abbàditfda Mitray^tic rende *ré>z<fritos m|. réis


com a arfiríejfá feguime, tefíhciticbbnta viftnhôs.' Ao :pddaferrade SÍMfr-
..tha eilá Sata Maria Magdaiena, cm qué k Gidaeteterri grande# : para chuva, oh
_uoíV J.. .Sol,
DA COROGRAFIA PORTUGU E2 A. 183
Sol, ou outras calamidades a vaõbufcarem prociífaõ,&fe achão foccorridos;
& no alto da ferra ha huma Capella de Sãta Martha, de que toma o nome, .com
veftigiosde grande fortificação , que entendemos foy dos Romanos, quando
conquiftárao Braga.
S* Payo de A rcos, V igairaria annexa a SJoaõ de Nogueira, que aprefenta
o Abbade, tem trinta &dous viíinhos.
Santiago de Efporoés, Vigairaria do Arcebifpo,tem feífenta & cinco Vi-
íinhos. Aqui eftá huma Capella de Noífa Senhora da Caridade , que fundou
Martim Ribeiro, natural derta Freguefia, com dinheiro que trouxe do Brafil:
tem hum celeiro, que reparte por empreftimo com Lavradores, ou femelhantes
pobres, que depois o rertituem còm o avanço,que cada hum quer , fem que fe
lhe limite.
S. Salvador de Trandcyras, Abbadia que aprefenta o Arcebifpo, te feífen-
ta & cinco vifinhos.
S. Miguel de Villa-cova da Morreira, Vigairaria do Morteiro de Landim,
tem trinta & feis viíinhos, & muita caça, particularmente de Coelhos, & perdi-
zes, & igual quantidade de viboras.
SantoEítevão de Penfo, Vigairaria da Mitra, tem cincoertta & tres viíi-
nhos: ha nerta Igreja huma relíquia dertc Santo, que deu o Arcebifpo Dom Fr-
Agortinho de Caftro, a qual mandou pòr em huma Culiodia de prata o Arcebif-
po Inquiíidor Geral Dom Veriílimoae Aiencaftre, hoje Cardeal da Santa Igre-
ja Romana, cm que fe moftra no leu dia primeira oitava do Natal, & he vifitada
de muita gente*
S* Pedro de Efcudeiros, Vigairaria annexa ao Mertre-efcola , tem trinta
&dous viíinhos. No lugar daPoufadaeftá hum caftanheiro cõ huma vide ao
pé, q dá muitas vezes trinta almudes de vinho,& vinte alqueires de carta nha.
S. Vicente de Penfo, Abbadia da Mitra, tem vinte & dous vifinhos. Nos
paíTaes eftá huma boa fonte, por quem Deos obra muitos milagres intercedi-
dos pelo Santo que invocão*
S-. Salvador de Figueyredo, Vigairaria annexa a huma Conezia, tem vinte
& cinco vifinhos, com muitas rolas, & codornizes.
S. Pedro de Lomar foy Morteiro muy antigo da Ordem de Saó Ben-4
to , & le acha noticia delle pelos annos de 667. Foy fua fundadora/
ou o reedificou Ameana de Selheris , mulher de Dom Arias Carpintei-
ro, a qual era também Padroeira de Tavoza, & tinha Monges com Abbade no
anno de 1558* Depois paíTou a Commenda de Chrifto, ficando com dous Pa-
rochos, ambos da aprefentação do Ordinário* Erão duas Fregueíias dirtin-
élas , a do Abbade tinha a Igreja, aonde chamáo a Capella, que alli ertá ; teve
principio o unirem-fe em hum Rey tor da Commenda , que entrou na Inquiíi-
çáo, & o Abbade por viíinho trouxe os freguezes ouvir Miífa a ella* O Reytor
terá feífenta mil reis de renda com trinta vifinhos , & o Abbade tem cento &
dezmilreis, com feífcta vifinhos, & o Commendador coma annexa de S. Mi-
guel de Guizande terá trezentos mil reis de renda*
Santa Maria de Ferreiros, Vigairaria que foy dos Padres da Companhia
de Braga , agora da Mitra , com trinta mil reis por ametade dos frutos,
que levava, rende ao todo cem mil reis , & para os Padres cento &vinte mi!
reis, tem cento & vinte vifínhosiaprefenta o Vigário a dous cmbutras Igrejas.
Santo André deGondifalve, Vigairaria annexa a S. Pedro de Maximinos,
que aprefenta o Abbade, tem trinta vifinhos.
^ QJi Saô
x84 TOMO PRIMEIRO
S. jeronymo, Vigairar a da Camara Arccbifpal,tem trinta & trcs vifinhos..
Fundou-a o Arcebifpo Dom Diogo de Soufa , quando deu o Convento de Sao
Fruéluofo aos Religiofos da Piedade, que até alli era Parochia , &paramayor
quietação dos Frades deixou de o fer.
S- João de Semelhe, Vigairaria dos Eremitas de Santo Agoítinho do Con-
vento dó Populo, rende trinta mil reis ao Vigário,que he Frade , & menos ao
Cura fccular, que lhe afiiíle, & para os Frades cem mil reis, ttfm vinte & cinco
vifinhos,& muitas, & boas trurasno riôTorto,&Viborasnomonte-Aqui poi-
fue Manoel da Rocha Pimentel hum antiquiflimo Morgado, que foy grande, o
qual iníhtuíoto Arcebifpo Dom João Egas,ou Viegas , da tamilia de Porto-
carreiro em hum feu irmão : tem-fe atenuado, por fazere de muitas terras delle
prazos favoráveis. „ ,
S.Miguel deFróffos, Vigairaria do 1 hefoureiro mor , a quem rende
cem mil reis, & para o Vigário quarenta mil reis, tem vinte & cinco vifinhos.
S.Martinho de Dume foy fundacío à hora de S.Martinho Biipo de Turon
por ElRey Theodomiro, & pouco depois a deu a S.Martinho, q chamão cie D11-
me,primeiro Bifpo,& Capellão mor de fua Cafa, qaquiobrou para reíidécia fua
hum Convento de Monges Bentos, & foy efte o primeiro deífaOrdem ,que fe
fez Bifpado, & ficou fendo aífento , & Capella dos Bifpos Capellaens móres,
quando Braga era Corte dos Reys Suevos» Aqui cíieve fepultado muitos an-
ijos, até que o mudarão para Braga : com a entrada dos Mouros ficando eira
Igreja pouco menos que erma, fe paífárão os Monges a fazer outra, a que de-
rão o n eíh o nome no Bifpado de Mondonhedo, levando húa relíquia do Santo,
queconfervão agora: he Priorado, que aprefentao os Arcebifpos , rende du-
zentos mil reis com N* Senhora da Parada fuaannexa no Couto cie Tibaens, te
.cincoentavifinhos. Aquihamuita hcrvab cha, ou Ariiloloquia.
S. M aria de Palmeira,Vigairaria do Cabido, q rende quatrocctos mil reis,
& mais de cem mil reis para o Vigário, tem trezentos & dez Vifinhos. Foy Cou-
to delRey em quanto o não trocàrao com os Arcebiipos pela rua nova de Lif*
boa,que eíles lá tinhão.
S- Lourenço de Navarra, Vigairaria annexa àAbbadia deCrelpos , tem
cincoenta & cinco vifinhos.
S. Payo de Poufada, Vigairaria da Mitra, rende cem mil reis , & para o
Mofteiro dePopuloosdizimos,queimportaõ duzentos mil reis , tem duzen-
tos & dez vifinhos- Aqui eflá a Cafa, & Quinta da Cerveyra, folar defla fami-
lia,quetem por Armas emeampode prata duas cervas de purpura paíTantes,
& humabordadura chea deefeudinhos das Armas donoífoReyno, & por tim-
bre huma das cervas.
Santa Eulalia deCrefpos, Abbadia da Mitra, que rende com a annexa de
Navarra mil cruzados, tem noventa vifinhos- Aqui eflá a Torre, & Cafa do
Enxido, de q foy fenhor Francifco Alvarez Brochado, he folar antigo, mas não
fe fabe de que família.
Santa Lucriça, que dizem fer corrupto de Lucrécia, mas a mim me pare-
ce fer Leocricia, aquella Virgem, & Martyr, natural de Cordova, difcipula de
Santo Eulogio Sacerdote, que fendo Moura de nação, & occultamente Chrif-
tãa,defcobrindofe fua Fé, foy por ella degolada a i f • de Março y he V igaira-
ria unida a huma Conezia, rende cemmilreis,& para o Vigário cincoenta mil
reis.
Santa Maria de Adaúfe, a quem o Livro da Ordem de Chriflo chama Da-
dufe,
í) A COROGRAFIA PORTUGUEZA*
dufe, foy Moíteiro de Frades Bentos, fundado , & dotado amplamente pelôs
annos de 1070. & tantos,por Dom Nuno Odoris,& fua mulher Dona Adozin-
na Vifcoy, que fe entende íer da família dos Soufas , pelo que fe colhe dos le-
treiros das fepulturas antigas, que àlli eftão- Sagrou a Igre ja o Areebifpo D.
Pedro; nunca foy Moíteiro duples,nelle permânecèrão os Reiigiofos mais de
360. annos, até que o Areebifpo Dom Fernando da Guerra em dousde Agoílo
de 14.y 2. o reduzio a Igreja íecular de fua aprefentação in folidum , & o pri-
meiro, que poz nella, foy João de Barros, Clérigo de Ordens menores : mas no
tempo delRey Dom Manoel femeteõ 110 rol das Commendas, que pedio à Sua
Santidade, & elle lha concedeo; he da Ordem de Chrifto , Rey toria do Ordiná-
rio, que rende cento & vinte mil reis, & para o Commendador coma annexa de
Paço em Regalados, & fabidos importão tres mil & q uinhentos cruzados, anda
nos Copdes de Atouguia; tem eíta F reguefia cento & trinta vifinhos. Daqui
era natural huma mulher chamada Ines, que fendo de noventa & fete annos, ti-
nha vivos cento & nove filhos, netop, í< bifnetos, & conheceo quaíi quatrocen-
tos no difeurfade alguns tempos,que viveo mais.
S. Miguel de Gualtar, Yigairaria annexa ao Arcediago de Braga , rendelhe
duzentos mil teis, & feífenta mil reis para o Vigário , tem cem vifinhos.
S. Pedro Défte, Abbadia da Mitra, que rende com a fua annexa do Salva-
dor de Pedralva trezentos mil reis, tem oitenta vifinhos.
S. Mamede Dèíte, Vigairaria do Thefoureiro mór > que lhe rende cem mil
reis, & para o Vígano cincoenta mil reis, tem feífenta & feis vifinhos.
S. VayadeTonois, Vigairaria do Deão, que lhe rende cem mil reis , &ao
Vigário quarenta mil reis> tem cincoenta vifinhos. Aqui ellá em huma fermo-
fa Capella, que fizerão devotos, o Bom Jefus do monte, imagem milagrofa, não
fó vifitadade muita romagem, mas afiiílida deErmitaens,&feftejada cõ gran-
des defpezas pelos melhores da Cidade.
A Igreja nova feita das de Dadim, & Nugueiró , que erão duas pequenas
Parochias,& as unio em huma o Areebifpo Inquifidor Geral Dom Veriífimo de
Alencaflre; fica no meyo de àmbas, & por iífo lhe chamão a Nova : he Vigaira
ria que aprefenta o Vigar ioda Sè, rende trinta mil reis, & para o Cabido, que
leva os dízimos, cincoenta mil reis; tem feífenta vifinhos. Em hum mote, aon-
de eftá Noífa Senhora da Confolação,fe vem veftigios de fortificação antiga, q
dizem fer huma das com que os Romanos fítiàráo Braga, quando a ganhà-
fão.
x Santa Maria de Lamaçaés, Abbadia da Mitra, que rende cem mil reis, tem
quarenta vifinhos*
Santiago de Frayão, Vigairariado Arcediago de Olivença, ou de S. Chrif-
tina ,que rende trinta mil reis, & para o Arcediago feífenta mil reis, tem trin-
ta vifinhos*

Couto de ^Pedralva*

EMtre os termos de Braga, Guimarãéns, & Lanhoío eílá efte Còutó,de que
he fenhor o Areebifpo: deu-oElRey Dom Sancho o Segurído ao Areebif-
po Dom Sylveftre Godinho, íompondofe com ellé fobre exCelfos cometidos
contra as Igrejas; fez-ftí a eferit ura A contrato citando ElRey em Guimaraens
QJij tiú
TOMO PRIMEIRO
no anno de 1158. ferve de coutada dos Primazes com guardas, que a viguo.
Tem Juiz ordinário do Cível, & Crime, com dous Vereadores,& Procurador,
eleição trienal do povo,a q prefideo Ouvidor de Braga,hum Eícrivao dos Cou-
tos, que ferve em tudo,data do Arcebifpo, & Meirinho annual feito pela C ama-
ra, que ferve de Porteiro: recolhe pão, vinho, muita caça, gados,& lacticínios-
Confia efte Couto de Freguefia 6c meya, & faõ as feguintes- .
S- Salvador de Pe.dralva, Vigairaria annexa a S. Pedro I <eíte, tem oitenta
viíinhos- j „
Santa Maria de Sobrepofia, Abbadiada Mitra, que rende conto & cincocn-
ta mil reis, tem cincoenta viíinhos, de que trinta faõ defte Conto, & vinte do
JulgadodaLagiofa , deque daremos noticianofundoConcelho deLanholo:
mas no efpiritualfe unioaefiaafua Parochiade S- Thomô de Lagioía , hoje
extinguida.

Couto de Capareiros.

AParochia defte Couto he S- Payo de Capareiros, que foy Mofieiro, mas


não fabemos de que Ordem, nem fe foy de Frades, ou Freiras , do qual
deuofeu quinhão â Sè de Braga Payo Paes no anno dc iiz6. reynando anoffa
primeira Rainha Dona Therefa, fendo iá viuva, & fendo Arcebifpo Dom Payo,
que confirma com outros neftaefçritura- Depois,ou antes teriao outtos lei-
to a mcfma doação dos mais quinhões, com que íe tez Abbadia dos Arcebtfpos,
fenhorcs defte Couto, que eftá no meyo das terras de Barcellos, & tem Juiz or-
dinário, que também he dos Orfaõs, feito por eleição tnennal do povo, & pe-
louro,comhum Vereador, Procurador do Concelho, & Meirinho, que ferve de
Porteiro, a que prefide o Ouvidor do Arcebifpo, que lhes p^ífa cart a,hum Ef-
crivão, que ferveem tudo,data do Arcebifpo- Todas as quartas leiras tem fei-
ra franca de gados em Barrofellas- Ha aqui vefiigios de nnneraes, aondecha-
mãoas Lagoas dosMedros,ôcnellasas melhores languifugas para doentes,de
quantas ha neftas partes. Só aFÉeguefiahe Couto,Sctoda rendera duzentos
& quarentamil reis,leva o Abbade a terça, que com paifaes & pe de Altar,, lhe
importará cento & cincoenta mil reis, o mais he dos Arcebifpos . tem cento &

cincoenta viíinhos-

Couto de zfAdoute. ' V

ENtre os Concelhos de Prado, Larim, & Villachaãtem icuaífento o C°l*to


de"Moure, de que he fenhor o Arcebifpo Primaz por doaçao do f-°nde D o
Henrique,&da RainhaDona Therefa ao Arcebifpo S-Qraldo , & ^ fez ou-
tra no mefmo tempo Nuno Soares de certa herdade, que aqui tini ia. Os mora
dores delle, por fçrem ifentos da jurifdição Real, 6c de irem a guerra falvo com
os Arcebifpos, erão obrigados de foro todos os Lavradores ( que °s nobres
„So) a cavarlhe a vinha que w
DA COROGRAFIA PORTUGUESA. 187
voou de forte, que hoje paflaô de vinte & cinco pipas Ha aqui no lugar de Sã*
to André huma Torre antiga com grande quinta, que Dom Egas Paes de Pe-
nagate tinha, 6n a deu ao Arcebifpo Sam Giraldo para fua recreação depois do
myfteriofo iucceífo, que com elle teve em Guimaraens : o como iião fabemos
mas paífou à familia dos Soares fenhores de Prado, & alguns querem feja feu
folar, & por deícendente feu a logra hoje Luis Gonçalves Coutinho da Camara-
Tamifentahe,ôcquatorzecafeiros que'tem, que gozando osmefmos privilé-
gios dos mais,não pagão aquelle foro aos Arcebifpos , & ainda da primicia fó
ametade. He tradição tomou cftc nome de hum grade Caftcllo.de Mouros, que
efteve no alto do monte Brito, aonde chamão o Caftello dos Mouros, & outros
de Barbudo-com quem parte, do qual fe vem veítigios de cifterna > & muitas
ruínas continuadas, & muralhas de quatro, cinco,&feis palmos de altura 3 a
pedra que falta, divertio-fe para varias partes, particularmente para a reedifi-
cação da ponte de Prado ha menos de duzentos annos-
He efte Couto muito abundante de pão, & vinho de enforcado, feijão, ca-
ftanha, azeite, gados, caças ordinárias, & pouca pefca 110 regato. Aíliítem ao
feu governo civil hum Juiz ordinário, Vereadores, & Procurador feito por pe-
louro,& eleição triennãl do povo, a que prefide o Ouvidor de Braga,donde tam-
bém por diftribuiçao annual vem hum Efcrivão eferever as caufas,& proceífos
do Couto,oque lhe renderá vinte milreis. Compotím fe o termo dasduas
Freguefias feguintes, que formão huma Companhia.
' S. Martinho de Moure, Vigáiraria do Arcebifpo , que rende úttenta mil
reis, & para a Camara Arcebifpal duzeritos ôc vinte mil reis: tem cem vilinhós;
No monte Brito, ou do Caftello em hum recôncavo entre o Meyodia, & Poen-
te fundou S- Martinho de Dume hum Mofteiro de S- Bento pelos ahnos de f ó y.
com orago de Santo Antão, ou Antoninho, como dizem outros ; & logd nefte
principio derão os Monges delle tam grandes moftras de fua virtude , tendo
Laus perene, que todos fe lhe aífeiçoàrão, ôc o enriquecerão. Hum Sacerdo-
te chamado V alço Mendes lhes deU Uefte anno huma q uinta , que fora dos Bifo"
pos de Santiago, & o fítio de S. Viétouro de Braga allivifínho , para nelle obra-
rem outro, que fizerão,&teve Religiofos fvibditos, como em Priorado feu. Co
a invafaó dos Mouros correoa mefma fortuna que oâ mais ; mas tornandofe a
reftaurarEípanha,habitou-o algum particular, até que hum Clérigo por nome
Nuno Frojaz por devoção , òu efcrupulo tendo-0 reedificado em quatro-dc
Dezembro do anno de loji^orcftituíoáo AbbadeBento,Dom Sueyro , &a
outros Monges,ficando elle,& íeus fucceífores Padroeiros : teve cinco Abba-
des,queo actefcentàrão muito com doaçoens, que devotos lhe fizerãò,entre
ellas doze marinhas de fainas duas povoaçoens de Darque mayor , & menor
defronte de Viana. N o fim de fefícnta & çinco annos, qUe efteve dcfte modo
com Laus perene de noite, & quafi todo odia, fendodellePadroefro Nuno Sda-
res,o deu a S. Giraldo Arcebifpo PrimáiatCQnfirmàrãolhenoffos Principes, &
EIRey Dom Affonfo Henriques o fez Couto ao Arcebifpo Dom Pavo Mendes,
irmão de Dom Soeyro Mendes da May a, no que não ha duvida, indá que o Co-
de Dom Pedro lho não nomea- Hetradiç^b que nenhum Monge alli tomou o
habito, que o deixaíTe, nem morreo fem claros indicios de fua falvação 3 con-
fervafe ainda huma Capellmha, 4 huma Torre femelhante, que íqrviode finps,
com huma imagemde Santo Anoo, a que muitos chamão Saqto Antpninhd,
vulgo Antomhp, pela qualobra Deos muitos milagres- Nas torras fe defeo-
brem a cada paíTocolúnas,&outras pedras daquelia autigâ, &.g&nde fabrica^
Neila
,88 TOMO PRIMEIRO
Neila fazenda feita quinta, á que tãbem chamãoVítonnho, entrarão os Bran-
doens do Porto, & hoje a poffue Dona Felippa Brandão, viuva do Doutor João
de Carvalho,Corregedor do Crime naquella Relação.
S.Julião da Lage, Abbadia do Ordinário , que rende trezentos mil reis,
tem cento & dez vifínhos*

Couto de Arentim. ■

NO julgado de V crmuinl termo daV illa de Barcelíos té feu íitio o Couto


de Arentim, que temhumaParochia da invocação do Salvador , Vigai-
raria do Arcediagado de Braga, que rende quarenta mil reis , & para o Arce-
diago cento & dez mil reis: tem feífenta viíinhos com hum Capitão- He Cou-
to do Cabido com Juiz ordinário, dous Vereadores, & Procurador do Conce-
lho cm tudo como o de Cambezes: produz excedentes peras de pendura»
I ; . »V.
'

Couto de Cambeis.

ENtre as terras de Barcelíos tem feu aflento cíle Couto, de que he fenhor o
Cabido da Sé de Braga, que faz nelle juiz ordinário com dous Verea-
dores, StProcurador do Concelho por pelouro, &: eleição triennal do povo , a
que vem prefidir hum Conego, que o Cabido elege5 ferve também nos Orfaós,
& delleappèllão para o Cabido, que aprefenta Efcrivão , que o he também do
Judicial, & Notas. Tem Alcayde mór, que leva os quartos dos frutos das ter-
ras: conda de cento & oitenta viíinhos, com huma Parochia da invocação de
Santiago, Vigairaria que aprefenta o Fabriqueiro da Sê, que rende fefifenta mil
reis, & para o Cabido fetenta & cinco mil reis; he abundante de centeyo , mi-
lho, linho galego, frutas, &badantevinho-

Couto de Cabaço r.

NO termo do Concelho de Albergaria de Penella tem feu aífento o Couto


de Cabaços, de que he fenhor o Arcebifpo de Braga. Tem j uiz ordiná-
rio, que também ferve nos Orfaõs, hum Vereador, & hum Procurador, eleição
triennal do povo por pelouro, a que preíide o Ouvidor de Braga , hum Eícri-
vão, que ferve em tudo, data do Arcebifpo, & hum Meirinho , que também he
Porteiro item cento & trinta viíinhos com humd Parochia da invocação de S.
Miguel, Reytoria do Cabido de Braga, que rende cento & cincoenta mil reis ^
& para o Cabido trezentos mil reis, com a annexa de Fojo Lobaí.
.5 ; -/ ' . < v. • olj" jrvi; v' ' olnoTl/. -r.. ■ /: ■
•OJ o oco up011.r ' •• >
Couto da Feitofa.

ENtre o Concelho de Souto de RebordaõSj.ác Ponte de Limaeftá fituado o


Couto da Feitofa, de que he fenhor no ei firitual, & temporal o Arcebifpo
de Bragâ: tem tàm grandes privilégios , que >or nenhum crime entra nelle ou-
tra J uíliça, íenão a de Braga em correição. Chamoufe antigamente de Domes,
nome,
t> A COROGRAFIA PORTUGUESA. tfy
home, que fó hoje fe conferva em huma grande, & boa veiga que tern. Aififtem
ao feu governo civil hum Juiz orchnario Civ el, & Crime, & Orfaõs, dous V e-
r.eadores, & Procurador do Concelho feitos por pelouro , eleição triennal do
povo, a que prefide o Ouvidor de Braga, hum Efcrivão, que ferve em tudo, &
nos Coutos dc Cabaços, & Capareyros, & pelas muitas Efcrir uras,q ue faz, lhe
rende cem mil reis, he data dos Arcebifpos. Tem feífenta viíinhos, com huma
Parochia da invocação de S. Salvador, Vigairaria annexa ao Priorado de Pon-
te de Lima, que o aprefenta, a qual rende cincoenta mil reis , & para o Prior
cem mil reis: recolhe baiiaiite pão, vinho, feijão, linho, gados,, lenhas, algumá
pefca no Trovella, & pouca caça*

Couto da Tui ha,

ENtre as terras de Barcellos eftá o Couto da Pulha,nome,que entendemos,


lhe puzerão os Romanos, quando habitàrão eíta terra, em memoria da fuà
Apulia. Tem huma Igreja Parochial da invocação deS. Miguel, Rcytoria que
âprefentão o Arcebifpo,& Cabido: rendelhe trezentos mil reis com a terça par^
te dos dízimos,que leva,& as outras duas comos quintos , & quartos feifcê-
tos & cincoenta mil reis para oArcebifpo , & Conegos- Governafe por hum
Juiz ordinário, que também o he dos Orfaõs, Com dous Vereadores, Procura-
dor, & Meirinho, que ferve de Porteiro, eleição triennal do Povo por pelouro,
a que prefideo Ouvidor do Arcebifpo fenhor delle : tem hum Efcrivão que fer-
ve em tudo, data dos Arcebifpos. Produz todo o genero de pão, cevada , &
boas caças, & he falta de lenha. Por aqui vão veíiigios de huma vaHâ , que di-
zem era hum eíleiro, em que entrava o mar, pelo qual íe conduzia em barcos
aos navios o ouro, que das minas da terra fe tirava. 1 em huma Companhia an-
nexa às dos mais Coutos, & confta de cento & cincoenta vifínhoSí

"Trataoo IH

Da Comarca de Viana.

CAP. í.

t>d defcripçaõ de [la IS Ma,


fez legoas da Cidade do Porto para o Norte,ha foz do criílaÍF
no Lima emhuma viító, & alegre planicie tem feu aífento a nen
tavel Villa de Víana , undada pelos Gallos Celtas
annos antes da vinda de Ci vrifto cm n um alto monte para a parte
do Norte, onde hoje eftà â Ermida de Santa Luzia , de que fe
mofiraõ ainda ruínas de edifícios, ôccafas nobres: ehãmaraõlhé .
Yiànâ em memoria de fua patriá Viena, antiga Cidade de Frartçã , íitUada nas
I90 TOMO PRIMEIRO
margens do rio Rodano. He cercadã de fortes muros com cinco port as, a faber,
a porta de Santiago, a de S-Pedro, com huma Capella deífe Santo , a deS-Fe-
lippe com huma Capella de SaõCrifpim,& S.Crifpiniano, a de NoíTa Senhora
da Vitoria com íua Capella pela parte de fóra, & a de S. Joâõ com huma Capella
deíle Santo da |parte de fóra. >
Tem efta Villa tres mil vifinhos,&divide-fe(â imitação de Lisboa ) em os
bairrosíeguintes, a íaber, a Villa cercada de muros, o bairro da Bandeira, o da
Carreira,o de Monferrate,o da Ribeira,o de S. Bom Homem,o do Poffigo,o de
S. Bento, & o do Campo do Forno- Todos eítes bairros eiíaõ bem povoados
de cafas nobres, & tem de comprido meya legoa, que começa da rua do Lourei-
ro até S- Vicente de fóra. Tem hum caes de pedraria , que começa no fim da
V ilia no fitio, que chamaõ o Papanata, & acaba junto da barra no mar largo, cõ
hum redudo no fim, aonde fe vão recrear os moradores.VT em na boca da barra
huma inexpugnável fortaleza, refpeitada das Naçoens eífrangeiras, com hum
letreiro na porta, que diz: Todo o mundo me temrá, &[óo tempo me vencerá: tem
muitas peças de artilharia, St hum foífo de lodo à roda, que forve tudo o que
nellecahe, Sc fóra de ff a fortaleza tem huma obra exterior muito bem fabrica-
(•&» ^
Foy eíla Villa antigamente Cidade Epifcopal até o anno de 6iO. no qual fe
unio ao Bilpado de Tuy, St depois ao Arcebifpado de Braga- Pelo tempo adiã-
tefe arruinou de todo, & de ilias ruínas fe fundou no anno de 1260. a fegun-
da Vianna por E IRey Dom Affonfo o Terceiro no fitio, em que hoje eí!á,o qual
lhe deu grandes fóros , & privilégios , fendo fempre favorecida dos Reys
de Portugal com grandes liberdades, Stifençoens,Stna natureza ( demais de
outras excellencies) na capacidade de feu porto, que chegou a ter mais de ce m
navios proprios,que navegavaõa diverfaspartes. Goza de voto em Cortes-
com aífento no banco quinto, & tem por Armas humaNáo. Foy antigamente
cabeça de Condado, cujo titulo deu ElRey Dom Pedro o Primeiro a Dom Joaõ
Aífonfo, filho de Dom Joaõ Affonfo,Conde de Ourem: depois ElRey Dom Fer-
nando deu o mefmo titulo a Dom Joaõ Affonfo Telles de Menezes, pay de Dõ
Pedro de Menezes, primeiro Capitaõ de Ceuta.
Tem eíla Villa dentro dos muros huma Parochia , a qual he Igreja Colle-
giada, que no anno de 1483. engio Dom Jufto Baldino,Bifpo de Ceuta, com
licença do Papa Xiílo Quarto, á cujo Bifpado ainda então pertencia toda a Co-
marca de Valença. Começou primeiro na Igreja de S. Salvador junto aS. Bento
das Freyras: pouco depois fe fundou a Igreja nova, St femudàraõ para ella os
Conegos, que por todos faõ feis com o Arcipreífe, que he a principal Dignida-
de, & Thefoureirò •• he eíla Igreja fumptuofa , & ornada de muitas Capellas j
duas eíf aõ no Cruzeiro muito grandes de entalhado dourado, com muit as ren-
das, Sc ricos ornamétos -.huma he do Efpirito Santo,pertenci te aos Irmaõs Cie-,
rigos, que tem por ufo fazerem a ProciíTaõ dos Santos PaíTos com a veneracam
devida. A outra Capella he dos Homens do mar: em ambas ha tanta frequência
de MifTas, que fó para as cantadas de todas as fomanas tem muíica feparada cõ
canto de orgaõ; Sc quando ha enterro de algum Irmaõ Sacerdote , fe faz com
tanta gravidade, que leva ventagem a todas as Irmandades do Rey no : Se na
mefma fórma em competência o fazem os Homens do mar. Ha na mefma Igreja
huma Capella das Almas, em que fe dizem muitas Miífas. Tem mais fóra dos
muros huma Igreja Parochial, da invocaçaõ de NoíTa Senhora de Monferrate,
feita ao moderno, que faz inveja a todas as Parochias da Provincia do Minho»
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA. 191
Os Conventos, Igrejas, & Ermidas, que cercão , & eimobrecem muito a cila
Viila,faõ os feguintes. • «iabg? . ,
O fumptuoib Convento de Si Domingos, que fundou aq nelle fanto Va-
raõ Frey Bertholameu dos Martyres, Arcebifpo de Braga , com tanta grande-
za, & largueza, que he hum dos màyores daReiigiaõ Dominicana: tem fora do
adro hum grande chafarizde mármore com dous tanques, & no meyo delle hua
coluna muito alta, fobre a qual eílá humá grande imagem de pedra do Rey Sal-
vador do mundo com huma Cruz da mefma na maõ,; & dent ro do Convento ha
muita diver fidade de chafarizes, & fontes de agua > com q ue fe podiaõ regar
muitos campos,fe toda fenàm fora rfieter no no Lima , que banha feus mu-
ros. (, f"iX1 ; . • •), • '
-mu O Real Convento de Conegos Regrantes de Santo Ago í linho, da invoca-
ção deSaõ Theotonio , íituadono bairro da Carreira), que fe fundou pelos
mefmos Conegos, & fe lhe lançou a primeira pedra aos y.de Agollo de 163 f.
com grande folénidade, aífiílindo o Arcebifpo Dom Rodrigo da Cuíiha, os Pre-
lados dos Conventos, com toda a nobreza, & povo da Villa. ' j
O fumptuofo Moíleiro de Santa Anna de Freyrãs de S. Bento , ficuado no
mefmo bairro da Carreira , que fundou ElRey Dom Manoel pelos annos de
1501. tem huma fermofa Igreja com grandes ornaihentos, com dous pateos
na entrada, em quefe correm touros, hum foberbo dórmitorio com bom mira-
douro^ duas grandes Cercas. ' i
j r No bairro do Campo do Forno, aonde eílá a Cafa da Camara de novo fa-
bricada ; eílá a Igreja da Mifericordia com feu Hofpital , que fundou ElRey
Dom Manoel, Cafa de grandes rendas, ôtneíle Hvfpital ha muitos enfermei-
ros, & enfermeiras, quatro homens do azul, & qiiatro moços da Capella. Tem
huma alegre praça, aonde fc fazem as feílas da Villa, £cno meyo hum chafariz
de grande arquite<ílura,com muitas bicas, & dous tanques-
O Convento dos Carmelitas Defcalços , que terído grande numero de
F rades, não fahem fóra, por terem dentro delle todo o divertimento, aílim na
grandeza de fua Igreja,(que tem hum foberbo adro cõ fuas pirâmides nos Can-
tos dom duas ordens de eícadas) como na grande cerca, pomares , jardins , &
fontes, que logrão: eíles em certos tempos do anno fazem doutrina nas praças
da Villa, & miffoens peld termo na forma, em que o fazem os Padres da Compa-
nhia de Jefus.
O Moíleiro de S. Bento,que fundàraõ quarenta & dous homes dos prin-
cipaesdeíla Villa pelos annos de (ffo.fcm huma Ermida antiga da invocaçaõ
deíle Santo, fituada fóra das portas da Piedade nas ribeiras do Lima : reíídem
nelle cento & vinte Religiofos com bail ante renda , & quatro Igrejas annexas
para feu fuílento.
O Convento de Santo Antonio de Frades Capuchos, no qual tem feito os
Governadores das Armas tantas obras, que fe pôde chamar Convento Real,por
naó parecer o fumptuofo da Igre ja Cafa de Capuchos: na entrada doclauftro
temhumchafarizmuitogrande,&huma alameda com quatro maS em Cruz,
no meyo delia outra fonte de eíguichos coin muita abundancia de agua, quanti-
dade de frutas,& jardins de murtas 1
O Convento de S. Francifcodo Monte diílantemeya legoadà Villa pará
oNorte he tambcin da Provinda de Santo Antonio , & nelle aflíílem òs Reli-
giofos contemplativos: foy fundado no anno de 1398- pelo Beato Frèy Gon-
çalo Marinho, fenhor de muitas terras em Galliza, o qual faleceo com grande
opinião
1Ç1 TOMO PRIMEIRO
opinião de Santo,& eftá fepultador.o clauftro dcilc Convento , cuja Igreja,
inda que pequena,he muy affeada: vivem os Frades folitariafivente , porque
temi uma grande mata com muitas Ermidas nos bofques , quecorrefponde a
Arrabida, Carnota, Cintra, & Buffaco; & deite Convento le pôde dizer com
muita razão fer Santuário do Reyno, por nelle acabarem muitos Varoens tan-
tos, cuja virtude, & fantidade declarou Deos com muitos prodígios-
O Recolhimento de mulheres nobres, da invocação de Santiago, que vi-
vem de fuas tenças, como fe forão profeíTas, com grande reformação 5 &: citas
Ermidas Santa Clara, Saõ Bom Homem, NoíTa Senhora da Piedade , NoíTa Se-
nhora de Penha de França, S- Sebaítião, S. Roque, NoíTa Senhora da Conceição,
NoíTa Senhora da Soledade,(a auechamãoa Viafacra,) N- Senhora da Annun-
ciada, Santo Amaro, Santo André, os Reys Magos , NoíTa Senhora da AiTum-
pção, S- Vicente, Santa Catherina, o Efpirito Santo, Saõ Lourenço , oc S ■ Ma-
mede ; & neítas Igrejas ha onze Sacranos de novo fe edifica huma Ermida
aos Santos Martyres Theofilo, Saturnino,&Revocata, Padroeiros defira Villa,
que nclla forão martyrizados, cujas relíquias fe confcrvac no monte de Santa
Luzia , como diz a tradição, & o affirmão alguns Authores.
Além dos chafarizes acima ditos, tem efta Villa hú no bairro da Carreira
com huma grande coluna, & em cima huma Cruz: outro detráz do Caftello,que
chamão a fonte do Bom Nome-.o de Gontim de agua tam fria, que he antídoto
para as febres: os da ribeira, que dão agua a toda a navegação deita Villa j &
finalmente muitas fontes diverfas com particularidade para a dor de pedra , &
para outras enfermidades, que por ferem muitas, fe não repetem,£cíó na Villa,
&feu termo ha duzentas fontes nativas, & delias nafeem alguns rios caudalo-
fos- Te feira franca às feílas feiras dc quinze em quinze dias:he cabeça de Co-
marca, & governa-fe com tres Vereadorcs, & hum Procurador do Concelho ,
eleiçãotriennal do povoj de que vay a pauta a Lisboa, donde ElRev efcolhe os
que hão de fervir,& manda para cada anno os que lhe parece, dos quevão no-
meados. Tem juiz de fóra, & Efcrivão, que a mefma Camara aprefenta , em
quanto ellc vive, Juiz dos Orfaõs,&Efcrivão, que aprefenta a Camara por tres
anpos, dous Avaliadores dos Qrfaos, & hum Porteiro. Tem mais dous Mií-
tercs homens do povo, que aífiitem a tudo o que lhe toca, & levão de propina
cada,hum ametade da do Vereador. Tem Juiz das Sizas, que a Camara elege
de tres em tres annos, com feu uferivão, oitoTabeliaens do Judicial , & No-
tas, Diftribuidor,Enqueredor,& Contador, Carcereiro, nomeação da Cama-
ra^ Meirinho, Juiz da Alfandega, dotis Efcrivaens, Feitor, Efcrivão das Si-
zas, Cincos, & Marfaria, Recebedor, Meirinho, & Efcrivão das caufas , & fei-
tos, Chaveiro, &Pezador, quatro Guardas do numero , Eícnvao doConfuIa-
do,Recebedor, & Guarda. B n l.
Os Portos fecos tem hum Juiz, Efcrivão da Receita, Feitor , ot Recebe v
dor, Guarda, Meirinho, Chaveiro, Almoxarife, & Executor. A decima do pef-
cado he de Sua Mageílade pela Cafa de Villa Real, & rende dous mil cruzados,
aprefenta Almoxarife com cem mil reis de ordenado , & Efcrivão com trinta.
Tem Corregedor com quatro Efcrivaens, Diftribuidor gEnqueredor ,& Con-
tador, Meirinho, Porteiro, Caminheiro, Chanceller, Efcrivão das meyas ana-
tas, Requeredor das Sizas, & Carcereiro. Tem mais hum Provedor, & Conta-
dor da Fazenda, dous Efcrivaens, Porteiro, Caminheiro, Procurador dos Rc-
íiduos, Promotor, Enqueredor, Diftribuidor, & Contador , & Meirinho das
terças por os Contadore®, todos data delRey. Em cada Freguefia do termo,
DA COROGRAFIA PORT UG tJF. Z A. ipj
que paíTa de quarenta vifinhos, ha hum Juiz Pedancocom eleitos, que alguns
chamão Vereadores, dão fentenças definitivas vocaes fem appeílação, nem ag-
gra vo, atè quinhentos mil reis, & por cilas fe exccutão, com que evitão muitas
defpezas,& moleftias, que padecem, os q pleiteãoem outros íribunaes: como
muy bem entenderão os Emperadores Tito , Vefpafiâno, & Carlos Quinto, os
Reys DomFelippe o Prudente em Milão, Luis Undécimo em França,Dom Jay-
fhe o Primeiro de Aragão,os Reys Catholicos, Dom Fernando , & Dona Ifa-
bel, & o noffo Rey Dom Pedro o Primeiro. A Camara he Capitão , & Alcayde
mor defta Vilia, çj faz Sargento mor, & Capitaés: o Sargeto mór da Comarca he
por ElRey.

Pregue (ias do termo de/ia V tila,

SAnta Chriftina de Meadelle, foy do Padroado Real, & a trocou por outróâ
EIRev DomDmizno anno de iao8- com Dom João Fernandes de Soto-
mayor, Bifpó de Tuy : he Abbadia da Mitra, rende trezentos mil reis , tem
cento & trinta vifinhos. A qui eílà a cafa Solariega, torre,& quinta de Paredes,
que foy Couto antigamente,& delia fenhor Dom Pedro Hermegis de Paredes,
a quem herdou feu filho Martim Cabeça, pay de Dona Maria Martins, mulher
de Lourenço Pay as Guedas. Tem eítaFreguefia duas Capellas annexas, Noífâ
Senhora da Ajuda, & S. Amaro-
S- M iguel de Perre, Abbadia da Mitra, que rende mil cruzados, tem duzé->
tos &cincoenta vifinhos* Aqui cila a Torre de S. Gil1
S* Martinho do Outeiro foy Abbadia, & a deu hum Abbade às Frcyras de
S. Bento de Viana, que nefta Igreja aprefentão Vigário, tem cento & vinte vi-
finhos. . .
S- Martha, Commenda de Chriíto,& Rey tona da Mitra com Coadjutor,
tem duzentos & vinte vifinhos.
S- Martinho de Cerraleys,Vigairaria annexa ao Collegio de Saõ Bento de
Coimbra, tem oitenta vifinhos.
Santiago Mayor de Cardiellos, Abbadia da Mitra, tem noventa vifinhos»
Aquihahumâ fermofa, & alta torre, que foy do tempo dos Mouros ; não tem
fenhor particular, maa que alguns o querem fer. He tradição vivia nella hum
Regulo pouco Chriftão, chamado Florentim Barreto, familia nobre , & muy
efprayada nefta ribeira: efte fe fez tao ty ranno, que as vafTallas donzellas con-
tratadas para cafar,havião de vir eftar com elle os dias, que elle quizeffe, an-
tes q cilas feajuntaífemcomfeus maridos,os quaes, quldo elle mandava , as
vinhãobufcar,trazendolhedeoffertaquantidade de feijoens , a que era muy
affeiçoado: hiftoria que indahoje permanece com tanta paixão dos moradores,
que quando os Barqueiros do Limá navegão por alli, & lhes perguntão fe levá*
rão já os feijões ao Florétim,a mais aífavel repoíta que lhes-dão, he chamarlhes
nomes afrõtofos,&às vezes paífaõ de palavras a obras. Tem emhum monte a-
cima da Igreja huma Ermida de S.Sylveftre com Irmandades de muitas Fregue-
fias defies cõtornos confirmadas,vão alli quatro vezes no anno com clamores
por obrigação na Quarefma, Ladainhas de Mayo, & dia de Sãtiago Mayor, dão
muitas efmolas , & comem juntos homem , & mulher no fegundo dia das
Ladainhas: tudo he voto antigo por huma grande fome, que houve antigámê-
te: outras vezes lhe vão pedir Sol, ou chuva, & voltao remediados por inter-
R ceifa o
I94 TOMO PRIMEIRO
ccífaõ cio Santo. Mais acima Te moíirão ruínas de Caftello antigo chamado da
Aguieira, aonde eílá o facho» Todaeíla ribeira de huma, & outra parte tem
muitas femelhantes , de que infiro fervio algum tempo o rio de raya entre na-
çoens inimigas, que cada hum fe fortificava cia lua parte.
S- Joaõ Bautiíla de Nogueira, Abbadia da Cala de S. Cláudio, tem ictenta
vifinhos. . *
S. Cláudio, Vigairaria annexà ao Collegio de S. Bento de Coimbra , tem
vinte vifinhos. A qui ellá huma Cafa de Rochas Lobos, & tem veíligios de for-
tificação. .
S. Salvador da Torre foy Moíieiro de Frades Bentos , & fe entende ler
fundado por S. Martinho de Pume: confervoufe com o nome de^ S. Salvador
de Dume até a invafaõ dos Mouros, que o deílruíraõ,& levantàraõ nelle huma
To rre, de que hoje tem o appellido: efcalou- a hum Capitão Gallego, que iegú-
do alguns era Payo Bermudes Conde de Tuy, o qual o reedificou, & povoou
de Monges; mas tornandofe a arruinar, hCi Religiofo feu defeendete chamado
Frey Ordbnho com outros o renovàrão pelos annos de i o 68- & o fagrou Dom
Jorge Bifpode Tuy: aflimefteve annos, & achamos memoria de Monges nelle
até o de iyò8- governados como os mais por Commendatarios , hum delles
Dom Affonío da Rocha, que também o era do Moíieiro de S.Claudio com mui-
ta defcendencia. Foy o ultimo Dom Chriftovão de Almeyda, filho fegundo de
Dom joáo de Almeyda,fegundo Conde de Abrantes, & da Condeça Dona Ines
de Noronha, por cuja morte o unio o Arcebifpo Dom FreyBertholameu dos
Martyres ao Convento de S* Domingos de Viana. He Vigairaria fécula r, que
rede fcífenta mil reis,& para os fradesDominicos cem mil reis,aonde tem huma
grande quinta ■. temcincoenta vifinhos , & eílá neíla Igreja huma imagem de
N- Senhor do Corporal, feita de pedra mármore,que dizem foy achada no mar,
& obra muitos milagres. Em hum monte vifinho fe vêm ruínas de fortificação
antiga, mas naõ alcançamos a quem fervio. Tem terranaveiga , a que chamaõ
Andoa, & aha em outras do termo,com que fazem eyras, he tarn pegadiça, que
cobrindoas a geada, faõ quafi eternas,fem fe fazerem mais.
S. Martinho de Villamou, Vigairaria das Freyras de S. Bento de Viana cÕ
oitenta mil reis de renda para o Vigario, & para as Freyras com mais o dizimo
dos prazos, de que faõ direito fenhorio, duzentos mil reis. Tambem acima da
Igreja ha veíligios de fortificação antiga, que devia fervir de amparar aquella
fermofa veyga, & de prefidio de raya, que o rio faria: tem feífenta vifinhos-
Santa Èulalia de Lanhezes, Abbadia que aprefenta a Cafa de Paço da mef-
ma Freguefía, de que faõ fenhorcs o Doutor Gonçalo Mendes de Britto , Def-
embargador, Sc Superintendente do Tabaco em Lisboa, & feu irmaõ Francifco
de Abreu Pereira, Sargento mor da Comarca de Barcellos: a Cafa dos Rochas
de Menxedo, dizem, tem alternativa neíle Padroado , rende quatrocentos mil
reis, & tem cento ôefetenta vifinhos. Aquifefazboa telha,& haruinas defop-
tificaçaõ, aonde chamão o Calvindo *. teve grandes minas de cílanho, & fe vem
ainda as cavas abertas, em que fe acha efeumalho de material»
S.payo de Monxedo tem cem vifinhos, he Abbadia da Mitra , que rende
duzentos mil reis, & com a annexa do Ervacem trezentos mil reis : faõ ambas
unidas em fórma, que pode o Abbade refidir em qualquer delias, deixando Cu-
ra naquella* em quenaõ eíliver. Deífas duas Igrejas foy Abbade Dom Aífonfo
da Rocha, filho de outro do mefmo nome , Commendatario dos Moíleiros de
S. Salvador da Torre, & de S. Cláudio. Deixou íucceffaõ, de que vem muitos
defla
DA COROGRAFIA PORTUGUESA. ipj
defta família, dos quaes he cabeça Francifco da Rocha Lobo, & a Cafa, A Mor»
gado da Portella. Ha neftaFreguefía muitas, & honradas quintas , & matas.,
que provem de lenha a Viana, & grande quantidade de cavas, que forão de mi-
neraes de eftanho, & cobfe»
S. Miguel de Villar de Morteda foy anneXa de S. Lourenço da Montaria,
hoje he Abbadia da Mitra, tem quarenta vifinhos» Aqui eftá hum monte que
chamaõ do Crafto,cõ veftigios de fortificação,que devia fer dos Romanos.
S. Lourenço da Montaria, Abbadia da Mitra, tem cento & quarenta vifí-
nhos, & huma Ermida de S. Mamede.
Santa Maria de Amonde, Abbadia do Mofteiro de S. Domingos de Viana,
com referva do Ordinário, tem fetenta vifiuhos, &hum monte, a que chamão
a Coroa, que foy fortificação antiga.
S. Pedro de Ancora, a quem por pequena Freguefia chamaô S. Pedrinho,
he Abbadia da Mitra, tem quatorze vifinhos.
Santa Maria de Ancora chamoufe antigámentede Villar de Ancorâ , por
hum Caftello, que teve de Mouros, de que fe vem veftigios: deu a quarta par-
te delia Theodomiro Rey Suevoà Sè de Tuy, a quem depois cõfirmàrão a quar-
ta parte a Rainha Dona Therefa, & ElRev Dom Affonfo Henriques em 3. de Se-
tembro de 112 ç. he Abbadia da Mitra, tem cento & cincoenta vifinhos»
Santa Chriftina da Fife, comenda de Chrifto , & Reytoria do ConVento
de S. Domingos de Viana com referva, tem duzentos & fetenta vifinhos: devia
fer antigamente do Padroado Real toda,ou parte ; porque Dom AffonfooTer-
ceiro deu ametade delle, & a Igreja de Santa Maria de Sá no termo de Ponte de
LimaàSèdeTuyno anno de 1262- pelo Padroado de Santa Mari a de Vinha da
Areoza. Temnacoftado marcamboas , em que fe toma muito peixe nas ma-
rés : faõ as camboas huns lagos, que fe fazem com paredes , & portas pára o
mar, abrem-fe quando a maré creíce, com que lhes entra a agua , & o peixe
quenellavé:cerraõ-fe em preamar,& em maré vafia fica nellas o peixe errffcco.
Perto da Igreja eftà hum monte não grande, mas com elevada fubida, em cujo
cume tem húa Ermida, & em roda veftigios de forte antigo. Mais defviado por
cima da eftrada, que vay de Viana para Caminha, ha outro mayor, & com gran-
des ruínas. Meyo quarto de legoa da Igreja para oNafcente eftá o Mofteiro
deS. João de Cabanas de Frades Bentos, fundado por S» Martinho de Dume
ao pè da ferra da Fife, donde fe tira a melhor pedra de cataria deftas parte9 , &
que pôde fazer competência para efte minifterio com as mais finas do mundo.
Foy Mofteiro rico, porque não fó dominava os frutos do mar,& terra da Fife,
& ribeira de Ancora, mas tres milhas, que hequafi huma legoa para o Nafcctc
por riba de Ancora, com que fuftentava fetenta & cinco Religiofos. Deftruí-
raõ-noes Mouros, & depois o reedificou hum Rico homem Gallego, chamado
Lopo Munhos, peta grade devoção que tinha ao fagrado Bautifta feu Padroei-
ro. A ífimeftava com Religiofos pelos annos de 1382. quando entrarão nelle
Cõmendatarios: paíTou a Comenda de Chrifto,de que os Frades Bentos o tirà-
rão por demanda, & concerto, pagando aos Cartuxos de Noffa Senhora do Val-
le no termo de Lisboa certa penfaõ, que os Reys lhes applicàrão» —
Santa Maria de Carreço, Comenda de Chrifto, & Reytoria da Mitra,tem
duzentos & oitenta vifinhos, com alguns portos pequenos, em que entrão bar-
cos no V erão, & fe pefca muita Variedade de peixe, & bom marifeo. Abaixo da
Igreja eftá humouteiro chamado Monte dor, nome que tomou do fentimento
que à fua vifta moftrou a Rainha Dona Urraca, mulher delRey Dom Ramiro
Ríij oSc-
j96 tomo primeiro
o Segundo de Leaõ (quando elle a levava para Galliza) da morte que dera a
Alboazar Albucadaõ, Rey Mouro de Gay a, com quem eftava amancebada,& de
cujo poder a tirarão, pelo que EIRey, & feus filhos a lançàráo ao mar dalli huma
legoa com huma pedra, ou ancora ao pefcoço na foz do rio, que tomou o no-
me de Ancora,deite fucceíTo. Neftas duas Freguefias, & na que fe fegue ha no-
táveis fearas de trigo, & milho, ajudadas do eíterco quelhelanção , &dearga-
ço tirado do mar. . ,
Santa Maria de Vinha de Areoza, cabeça do Arcipreftado de Vinha na Col-
Icgiada de Valença, tem duzentos & oitenta viíinhos.^ Foy antigamente Villa,
& Couto: deu-osElRey Dom Affonfo Henriques àSèdc Tuy , & a.feuBif-
po Dom Payono ultimo de Outubro de 11 $7. Depois 110 de 1262. deu EIRey
Dom Affonfo o 1 erceiro à Sè de Tuy por efte Padroado ametade do da Fife,&
o de Sá em Ponte de Lima : & vindofe para V alença os Conegòs, que deraõ
principio àquellaCollegiada,fclevantàrão com efta, St as mais rendas, que cá
tinhão: he Vigairaria dc barrete, que aprefenta o Prelado , a renda fe reparte
em terças com o Prelado, StConegos da Collegiada de Viana, réderá toda qui-
nhentos mil reis.

CAP. II.

Da Filia de Donte de Lima.

TRcslegoasnoNafcenteda Villade Viana nas margens do criftallino Li-


ma , de que toma o nome, tem leu affento â nobre Villa de Ponte do Lima,
fundada pelos Gregos (ou,como outros querem, pelos Celtas , ouTurdulos,
muitos annos antes da vinda de Chriflo, chamandofe Limia , & no tempo dos
Romanos Fórum Limicorum , que íignifíca Praça de Limicos. Deflruío-fe
muitas vezes, & a mandou povoar a Rainha Dona Therefa em companhia del-
Rey Dom Affonfo Henriques feu filho pelos annos de 1 \ 2 f .dandolhe foral com
grandes privilégios, que depois confirmou EIRey Dom Affonfo o Segundo, &
EÍRey Dom Manoel, izentando de portagem, direitos, & miudezas em toda a
parte do Reyno os Vaffallos, Efcudeiros, & criados delRey, Rainhas, & Infan-
tes , que nella forem moradores. Tornoufe a arruinar em forma, que ficou cõ
humas limitadas choupanas de palha , & a reedificou ElRey Dom Pedro o Pri-
meiro no anno de 1 ^60' mudandoa debaixo do Convento dos Frades , aonde
eftara,para junto da ponte, que elle fundou entre duas torrai , fortififendoa
com fortes muros, barbacans,& torres com fuasannexas , que cada huma he
humCaftello. Tem cinco portas,que faõ a do Souto com huma Capella de Sacr
Benedito, a do Poíligo, a da Ponte com huma Capella deNoffa Senhora doRo-
fario, a de S.João com huma Capelladeíle Santo, (cmcujo dia fc fazem gran-
diofas feílas de cavallo) a porta de Braga, & a do Palacio dos Bifcondes, Alcay-
des móres defta Villa, folar da illuílre família dos Limas neíle Reyno*
Tem efla Villa,& feus arrabaldes fetecentos viíinhos,com muita nobreza,
alguns Fidalgos, & Morgados, todos grandes homés de cavallo, muitos efpin-
gardeiros, & ferreiros, viftofas cafas, com muitas hortas, & jardinW -Aíliítem
ao feu governo Civil hum Juiz de fora, tres Vereadores , & hum Procurador
*>0 do
DA COROGRAFIA PORTUGUEZA, 19?
do Concelho, feitos por eleição triennal do povo , a que prcíldéò Corregedor
da Comarca. Efcrivão da Camara, &. Juiz dos Orfaôs pelo mefmo modo dos
Vereadores,durão tres aunos; o Efcrivão dosOrfaõsera nomeação da Camara
de tres em tres annos,hoje he propriedade, em quanto tem defeendefites : os
Tá beli aen s fao fefs, o ue paga penfao aos Vifcondes ; Meirinho, çom Diílri-
buidor,& Contador, &Enqueredor, todos data delRey. OAlcayde , que he
Carcereiro, aprefenta o Vifconde,efcolhe a Camara hum; Almoxarife nomeâ a
Camara, confirma EIRey; dõusAlmotaceis, que fàz a Camara. He abundante
de pão, vinho, frutas de toda a caíta, algum azeite, bons gados, egoas de cria-
çaõ,bom mel, muita lenha, caça, rapozas ,teixugos,& javalis, & muito peixe
do rio Lima, que aqui fe vadea em barcos tres legoas para baixo , & huma &
meya para cima. Compoem-fe o termo de terras àquê,St além do Lima, & das
Igrejas, que referiremos; a primeira he a da Villa.
NoíTa Senhora da AíTumpçaõ he grande Templo , que dentro dos muros
fe edificou de novo, mudando para ella a Parochia antiga, que eíleve próxima,
aonde hoje eftá NoíTa SenhoradaCuia, muito diftante da Villa : era do Pa-
droado Real, &ElRey Dom Sancho o Segundo a deu em Guimaraens ao Arce-
bifpo Dom Sylveflre Godinho no anno de 1238. em fatisfação de exceífos,
que cm bens de ííia Igreja lhe haviáo cometido os feus : he Priorado da Mi-
tra, & rende trezentos &cincoenta mil reis com S. Ma mede de Arca, & Feito»
fafuas annexas,& antigamente o era também a de Caftro Laboreiro. He Igre-
ja Collegiada, que inftituíoo A.rcebifpo Dom Frey Bertholameu dos Marty-
res, concorrendo ElRey Dom Sebaítião com parte item fete Benefícios fimpli-
ces, quatro que dá EIRey, & aífiltem na Capella Real de Lisboa, & pagão Iconi-
mos nefta, rendelhes quarenta mil reis, & outro tanto aos Beneficiados, para
o que vem huma terça dos diz imos de Soajó. Os tres > em que entra olhe-
Toureiro, faõ do Ordinário, parte pelo meyo com o Prior a renda da Fregue-
iia. A Capella mór tem de fabrica doze mil reis cada anno, fete da Camara, &
cinco do Prior ,& defies ultinps tres Benefícios ; o corpo da Igreja corre por
conta da Camara. No Altar do Cruzeiro da parte direita tem duas Imagens
de Noffa Senhora da Piedade, &do'Senhor morto no feu regaço, as quaes vie-
rão de Inglaterra. Tem a Villa muitas Capellas bem ornadas , fóra da porta
do Souto cífá a de S. Sebâífião, que foy finagoga dos Judeos, quando alíimrão
neíla terra, & moravão na rua nova. Abaixo de Nolta Senhora da Guia eftá
hum monte, que chamão dos Medos,com veíligios de fortificação , & ao pé
em húa pequena planície não dá outro mato, fenão hervas vermelhas , dizem
que nellas permanece a cordo fangue,que alli fe derramou em huma batalha
dada entre os de Bruto fobre paíTar o Lima, ou não. Mais adiante,aonde ho-
je eífá NoíTa Senhora da Conceição, fe vem ruínas de hum forte , que foy do
tempo dos Romanos. Tem mais Cafade Mifericordia com renda de tres mil
cruzados, & quatro Capellaens, que rezãoemCoro,paraos quaes inft:tuío,&
deixou renda Antonio de Magalhaens, AbbadedeToris : hum bomHofpital,
a que eíiá unida a renda do cia Gafaria de S. Vicente, que antigamente efteVe
aonde eflá NoíTa Senhora da Guia: outro para os feridos, & doentes,que fun-
dou o V ifconde Dom Diogo de Lima Brito & Nogueira, Governador das Ar-
mas^ outro fóra da porta do§outo para os peregrinos, & paíTageiros, que
inftituío,& dotou de bens D. Leonel ae Lima, primeiro Vifconde de Villa-ao-
va de Cerveira, &Alcay de mór defta Villa,a qual tem os Conventos feguin-
tes.
R iij O Con-
ipS TOMO PRIMEIRO
O Convento de Frades Capuchos da Província de Santo Antonio he de-
dicado a eíle Santo, tem hum bello paífeyo pela fua porta para a alegre Cape -
la de NoíTa Senhora da Guia, & o fundou Dom Leonel de Lima, primeiro Vi -
conde da Villa de Cerveira, aonde jaz fepultado. OConveiiLO cie S. Fra