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Capítulo 1.2.2 – O feitiço dos Qualia

O cérebro, avisadamente, tem dado grandes recursos aos


“motores de busca” (search engines) que, tanto de forma
automática como a pedido, recuperam recordações das nossas
aventuras mentais passadas. Um tal processo é essencial, pois
muito daquilo que memorizamos não diz respeito ao passado, mas
sim ao futuro antecipado, o futuro que ainda não vivemos e que
apenas imaginámos, para nós e para as nossas ideias. Esse
processo imaginativo, o qual, por si só, é uma mistura de
pensamentos atuais e de pensamentos antigos, de novas imagens e
de imagens antigas, está constantemente a ser memorizado. O
processo criativo está a ser registrado para um futuro possível e
prático (Damásio, 2017, p. 141).

Uma das coisas mais gratificantes da vida do compositor Tristão Ventura é


constatar o modo como, por vezes, a sua atividade profissional se confunde com a sua
experiência pessoal, social e afetiva, e agradece ao destino a sorte que tem. A sua já
considerável carreira tem proporcionado repetidas oportunidades de partilhar, com alguns
inspirados parceiros, períodos mais ou menos prolongados de atividade criativa durante
os quais os mais diversos episódios quotidianos, sociais ou familiares se entrelaçam, ou
se sobrepõem, ou contaminam a imponderável marcha do processo criativo. É o caso da
sua ligação à coreógrafa Denise Berna, uma ligação composta não só por um extenso
acervo de obras criadas em colaboração, mas também por laços de amizade que foram
fortalecendo, circunstâncias inesquecíveis que se foram acumulando, fatores de
identificação que se foram consolidando, enfim, por uma confluência de percursos que
frutificou em múltiplas dimensões do seu relacionamento. Por estes dias dão início a uma
nova aventura criativa e, por inerência, a um novo ciclo da sua intimidade biográfica. Ao
dirigir-se para a casa da coreógrafa, Ventura aproveita as magníficas emoções que o
assaltam, por um lado a alegria do reencontro com a sua amiga, por outro o entusiasmo
antecipado dos desafios artísticos, sensações vivazes e excitantes que apressam seus
passos.

Está um belo dia, um céu sem nuvens e um generoso sol de inverno, e os dois
amigos desfrutam agora do horizonte privilegiado que se pode obter da varanda da casa
de Berna. Trata-se de uma casa antiga situada nos limites de um bairro histórico, e a
pequena varanda, escancarada sobre o vasto leito do rio, fornece uma das mais agradáveis
perspectivas da beleza mediterrânica da cidade, na opinião muito pessoal do compositor.
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Entre a fachada do prédio e a berma ribeirinha alarga-se uma praça centenária,


recentemente reformada, despojada dos seus vetustos mobiliários urbanos numa releitura
minimalista da sua relação espacial com o majestoso leito do rio. Essa agora vasta e
desafogada área, nesta hora da manhã, acolhe uma azáfama de turistas, residentes locais,
funcionários em serviço, boêmios ressacados, moradores de rua mal dormidos,
vendedores itinerantes de artigos legítimos ou de substâncias ilícitas, todos cruzando suas
rotas em velocidades diversificadas, pontuadas por interrupções de duração variável,
concentrações temporárias e dispersões subsequentes. Num plano posterior precipitam-
se os raios do sol sobre o curso de água de azul profundo, detonando fagulhas brilhantes
que criam um manto suavemente palpitante. Sobre ele se desenham outras geometrias,
mais esparsas e vagarosas, assinalando os cursos desiguais das embarcações. Há os
pequenos navios de passageiros que se cruzam entre as duas margens, um par de traineiras
atulhadas de peixe que regressam do mar alto, alguns veleiros de dimensões sortidas que
aproveitam a brisa da manhã para bolinas recreativas, humildes escaleres em tarefas
incertas junto às margens, um cargueiro que transporta com vagar a sua massa aglomerada
de contentores ao longo do eixo central do rio.

O compositor Tristão Ventura e a coreógrafa Denise Berna deixam-se invadir


por esta placidez matinal, que envolve a quietude solar com o seu sutil burburinho
contínuo. Este sentimento partilhado de bem-estar não significa, todavia, que os dois
estejam apenas a observar a esta cena em seu cenário. Antes experimentam, cada um
separadamente e num caleidoscópio de matizes sensoriais, um vasto leque de alterações
fisiológicas que se traduzem numa sensação de calma, mas uma modalidade peculiar de
calma, uma calma que pulsa numa excitação branda, alimentada, por um lado, por
pensamentos provenientes de várias regiões da memória e por outro, por várias
expectativas informes e incertas que antecipam promessas aventurosas de invenção e
cumplicidade criativa. Trata-se, portanto, de um bem-estar povoado por uma série de
objetos, com a paisagem visual em grande destaque e com um cortejo de conteúdos
fragmentários que agitam o pano de fundo da sua consciência. Nenhum dos dois
determinou a formação dessa cadeia de emoções, nem seriam capazes de evitar, de
maneira que ela vai fluindo como uma espécie de reverberação da sua subjetividade, que
reflete nos seus espíritos, como que por simpatia, a reverberação das formas visuais
iluminadas pelo sol e das formas sonoras propagadas pelas vibrações atmosféricas. Um
bem-estar que decorre, assim, de um fluxo mental polifônico, como uma faixa musical
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contínua que brindasse a percepção empírica com um tecido imaterial de emoções,


redundando no sentimento de felicidade simultaneamente tranquila e agitada deste
momento. Ao dar por isso, e apaixonado como é pela obra de Damásio, Ventura percebe
que acrescentou ao seu mapa visual a presença dos Qualia1,

Talvez por conta dos Qualia e do suave empolgamento que o invade, vão
nascendo no seu pensamento imagens sutis, à medida que o bulício dos transeuntes e as
rotas das embarcações se organizam e se contratam nos seus trajetos, ora em linhas retas
(que se cruzam com outras linhas retas formando, em várias amplitudes, ângulos opostos
pelo vértice), ora em rotas errantes com imponderabilidades oblíquas, justapondo a estas
diagramações espaciais critérios de massa que distinguem os indivíduos isolados dos
pequenos grumos de aglomeração transitória, a ténue configuração dos bateis da vigorosa
escala do cargueiro, sem esquecer as diferentes velocidades em que estas relações se
estabelecem e se desagregam. Há um encadeamento sinfônico que unifica, no teatro da
sua mente, todas estas operações com uma lógica musical, formando narrativas que ora
se bifurcam numa faixa verbal, traduzindo as pessoas, os barcos e o seu movimento geral
em palavras e frases, ora em formas não verbais, quase fílmicas, que narram
acontecimentos melódicos, acumulações harmônicas, contrapontos heterogêneos,
acentuações dinâmicas2, todas elas compondo a contínua procissão de respostas emotivas
e matizando, a cada momento, a produção dos seus sentimentos de pacífica agitação.

O compositor Tristão Ventura olha de relance para a sua amiga, tal como ele
enlevada pela benigna encenação do mundo na sua varanda. Que imagens germinarão nos
vários pontos dos seus sistemas visual e auditivo, que narrativas ordenarão essas imagens,
que respostas emocionais acompanharão essa labuta? No carrossel da sua própria
consciência junta-se o propósito deste novo encontro, que neste momento germinal de
uma nova obra é precisamente este primeiro encontro, o seu estampido, a sua vibrante
promessa de uma consequência artística ainda desconhecida. Um dia, daqui a uns meses,

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“Gosto de pensar nos Qualia I como música, como uma partitura que acompanha o restante processo
mental em curso, mas frisando que esse acompanhamento musical faz parte integrante do processo mental.
Quando o objeto principal da minha consciência não é o oceano mas uma composição musical verdadeira,
passo a ter duas faixas musicais a tocar na minha mente, uma com a peça de Bach que está neste momento
a ser reproduzida, e outra com a faixa semelhante a música com que reajo à música real, com a linguagem
da emoção e do sentimento” (Damásio, 2010, p. 314).
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“O resultado de todos estes processos imagéticos não é apenas uma grande peça teatral, uma sinfonia
ou um filme. O resultado é um espetáculo multimídia épico” (Damásio, 2017, p. 208)
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mostrarão ao mundo a sua obra, e nesse organismo adulto e emancipado reverberará a


origem genética que este momento embrionário configura. É então que a imagem da
praça, do rio e dos seus componentes volantes se vai velando, à medida que seus olhos se
voltam como que para dentro de si, enquanto se vão insinuando no seu espírito novas
continuidades narrativas que colocam o panorama avistado da varanda num plano mais
remoto, reordenando o tráfego nos dispositivos neurais e deslocando o seu foco de maior
intensidade do córtex cerebral para o tronco cerebral, atenuando a integração de imagens
do mundo exterior e favorecendo a orquestração de imagens do mundo interior, vergando
a sua percepção às peripécias criativas dos seus neurotransmissores3.

Aos poucos vão surgindo, na mente de Ventura, imagens de uma nova peça, uma
obra à imagem de um denso organismo, habitado por múltiplos impulsos, que ora
divergem e logo convergem, contaminando e alvoroçando a mônade em que se ela
constitui, uma estrutura movente, instável e maquínica, dotada de um metabolismo
mutante, com distintas instâncias de transfiguração. Um organismo constituído pelos
intérpretes, que são músicos e bailarinos, mas que agirão como se fossem células
complexas, cujo núcleo ora irá pensar, ora obedecer. Quando pensar, cada célula se
autonomizará, isolará e falará, voz difusa numa névoa harmônica, eterna diferença em
seu eterno retorno. Cada intérprete poderá ser, assim, uma potência de insurreição ou de
atrito, constituindo-se em discurso individual, cuja percepção se dissolverá na polifonia
dos restantes discursos. A resultante expressiva será aleatória, confusa e vital,
sobressaindo efémeras erupções de intensidade na multiplicidade extensiva dos gestos e
dos sons, numa babel tentacular, orgânica e estridente. Mas, nos momentos em que o
núcleo obedecer, concentrará a energia na direcionalidade substantiva da crença e da
repetição. A dispersão performativa e sonora poderá afunilar, então, num discurso
tendencialmente convergente ao observar qualquer regra tacitamente aceite. Essa
convergência terá, como efeito narrativo, um acúmulo de vontades e uma efetividade
produtiva - é o organismo que se determina enquanto movimento. Assim será lançada a
tensão anímica, plena de restos e de fissuras que desfocarão a percepção do abismo e

3
“As imagens relacionadas com o mundo interior começam por ser integradas nos núcleos do tronco
cerebral, embora sejam re-representadas e expandidas em certas regiões cruciais do córtex cerebral, tais
como os córtices insulares e os córtices cingulados. As imagens relacionadas com o mundo exterior são
integradas sobretudo no córtex cerebral, embora os colículos superiores tenham igualmente um papel
integrativo” (Damásio, 2017, p. 129).
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agenciarão o movimento das fibras deste organismo. Não se estabilizará nunca uma
identidade, porque ela oscilará perpetuamente entre a desintegração do arbítrio individual
e o esboço de uma consciência plural, coletiva. O ânimo será esta dubiedade orgânica -
sua emotividade parcelar ou unificada- e também a clareza do movimento – opaco e
disperso nas células desgarradas, claro e opinativo nos movimentos convergentes. O todo
se agitará conforme o desempenho do meio, irá aderir ao silêncio, aderir ao perigo, aderir
ao riso, aderir à fúria. O movimento do meio e suas transformações no tempo, explicarão
o movimento do monstro. O meio será dramatúrgico e segregará causalidades. Tudo o
que acontecer terá origem numa causa e produzirá uma consequência. A escuridão tenderá
à luz, a mansidão à violência. Haverá uma virtualidade de opostos no simples movimento
do tempo – não o enlace de um com o outro, mas algo conjurado numa zona intermédia
que se deslocará no tempo e no espaço. O meio terá o seu ritmo (seu jogo transiente de
velocidades), densidade e textura; o meio confinará, constrangerá e desafiará.
Perturbações do meio irão convocar as adaptações do organismo – as chuvas ácidas, o
tremer da terra, a solidão desértica, a vertigem urbana... O organismo se adaptará ao meio
e cada célula trabalhará a seu favor; haverá um devir em que prospera, haverá um cancro
que se deverá extirpar. Porque haverá morte, já que haverá vida. Haverá quem esmoreça
e venha a morrer em cena. O organismo absorverá a célula morta, função acidental de sua
metamorfose. Ocorrerão pequenas catástrofes agindo sobre a integridade do organismo,
clarões de luz, pesados silêncios, disfuncionalidades, patologias, bolores... A duração do
organismo será o seu tempo de sobrevivência ao risco. Irá nascer, durará e acabará por
morrer. O organismo será multiforme, ora se dissipando em células autónomas, ora se
recriando reabsorvendo as partes. Nascerá por partes, multiplicando o tecido celular até à
maturidade; fenecerá por desgaste, assistindo, impotente e digno, à sua própria
decadência. Assim durará, respirará, agirá e reagirá, gritará e calará. Um momento de
glória, de absoluta lucidez e sabedoria, precederá o instante final do seu ocaso. Luz! Luz!
Luz!

A coreógrafa Denise Berna afaga suavemente o braço de Ventura, que abandona


instantaneamente o seu transe momentâneo, qualiaizado pelo estrépito de fanfarras
imaginárias. O compositor tem a intuição de ter sobrevivido a uma epifania criativa de
alta estirpe, de ter vislumbrado o traçado de uma catedral, de ter antecipado, passo a passo,
uma correspondência unívoca entre o bulício dos seus padrões neurais e a virtualidade de
uma obra acabada, vívida e eletrizante. As palavras soltam-se então em borbotões,
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reconstituindo, de forma algo atabalhoada, a narrativa que os seus neuromodeladores


foram esculpindo sobre os diversificados objetos da sua memória, impelidos pela sua
interação inicial com o cenário da praça e proliferando numa justaposição meteórica de
instantes pictóricos de imagens-chave, mapeados na sua consciência alargada4. Na
subjetividade da coreógrafa vão-se imprimindo, a esmo, as reconstituições possíveis e
personalizadas do trajeto narrado por Ventura, deste elenco transfigurado em organismo
multicelular, da alternância entre os seus atributos de livre arbítrio e de obediência, da sua
voz como diferença e da sua direcionalidade enquanto repetição, da tensão entre a sua
individualidade insurrecta e a sua multiplicidade unificada, da sua adaptação
homeostática ao meio, da sua reação aos perigos e da sua vulnerabilidade à morte. Luz?

O compositor Tristão Ventura tenta interpretar as manifestações sutis das


emoções de fundo da coreógrafa, uma partitura de Qualia que foi sendo percebida,
durante a sua frenética exposição, por conta do perfil das suas expressões faciais, da sua
precisão, da sua frequência e da sua amplitude: a páginas tantas um breve piscar de olhos,
mais adiante um sobrolho ligeiramente franzido, noutra ocasião a insinuação de um
sorriso sugerido pela quase imperceptível tensão da comissura dos lábios, manifestações
orquestradas em função das modulações musicais, da cadência e da prosódia do seu
discurso. Agora é Berna que contrapõe um contracanto à sua exposição programática,
como um contra-tema contrastante que assegura o desenvolvimento de uma forma-sonata,
ou a evolução do tecido polifônico de uma fuga barroca. O seu aproveitamento
entusiástico das premissas metafóricas da ideia de Ventura deixa o compositor numa
vibração empática generosa, reconhecendo no discurso da sua amiga os traços
fundamentais da potência expressiva da sua idealidade, o que desencadeia emoções
entusiasmadas no teatro do seu corpo e o transporta alegremente para sentimentos de
felicidade e euforia5. Porém, algumas notas dissonantes assinalam, inesperadamente,
variações perturbadoras dos seus Qualia. No desenvolvimento pessoal que a coreógrafa
Denise Berna vai implementando sobre o organismo performativo de Ventura, nascem

4
“O aspecto que pretendo salientar aqui é o de que a mente não está vazia no começo do processo do
raciocínio. Pelo contrário, encontra-se repleta de um repertório variado de imagens, originadas de acordo
com a situação que enfrenta e que entram e saem da sua consciência numa apresentação demasiado rica
para ser rápida ou completamente abarcada” (Damásio, 2011, p. 227).
5
“Um sentimento é uma percepção de um certo estado do corpo, acompanhado pela percepção de
pensamentos com certos temas e pela percepção de um certo modo de pensar. Todo este conjunto
perceptivo se refere à causa que lhe deu origem” (Damásio, 2003, p. 104).
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algumas possibilidades inesperadas e contraditórias, como a ideia de extensão desse


organismo às paredes inanimadas do teatro, a possibilidade de pensar nos intérpretes
individuais como organismos autónomos e não apenas como unidades constituintes de
uma estrutura multicelular ou, ainda mais desconcertante, a inclusão do público na deriva
homeostática da encenação. As emoções benevolentes com que Ventura saboreava o
impacto da sua ideia, dão lugar a atritos neurais que geram uma súbita (ainda que discreta)
ansiedade. A desbragada réplica que Berna lança sobre a arquitetura da sua ideia, acarreta
fissuras impertinentes, extrapolações espúrias, deduções abusivas, sujeitando o seu plano,
tão elegantemente costurado, a reconfigurações metafóricas e a retificações
programáticas, deixando vislumbrar espessas dissidências qualitativas no mapeamento
perceptivo da coreógrafa. Tanto pior! Orientando a réplica desestabilizadora para uma
dinâmica dialógica, Ventura vai integrando os novos dados na sua estruturação narrativa
e esgrimindo adaptações e acomodamentos, vergando, a montante, a sua ideia original à
ampliação do âmbito geral da proposta e condicionando, a jusante, o trilho mental da sua
amiga à coerência nuclear do seu dispositivo.

O material genético da obra, apropriando-se da síntese produtiva de Denise


Berna (sua oportuna célula hospedeira), é assim enriquecido com o protagonismo do
edifício do teatro, que passa a ser também matéria da obra - estrutura arquitetônica onde
se animam indícios da sua respiração e sintomas das suas funções vitais. Na imagem da
obra são integradas, além do palco e da plateia, as escadarias do teatro, que transportam
os pensamentos por um labirinto de intimidade, as portas que separam o espaço interior
do mundo envolvente, lugares ocultos revelados pelos sons que os percorrem, silêncios
que virtualizam a expressão das suas paredes, dos seus vãos, das suas esquinas. O teatro,
que inicialmente importunava Ventura com a sua materialidade petrificada, transforma-
se numa coisa viva, passa a ser ele próprio o organismo, um corpo habitado pelos
intérpretes e pelo público, reagindo, uns e outros, ao tempo e ao espaço que partilham.
Sim, porque, entretanto, também o público foi integrado nesta narrativa partilhada,
convidados a uma interação geográfica contínua e a um voluntarismo performativo
pontual. Sendo o organismo delimitado pelas paredes celulares do teatro, o palco se
transfigura naturalmente num dos seus órgãos nucleares, porque, ao contrário da hipótese
original, agora nada se limita ao palco, focado por uma plateia expectante. O palco
projeta, ainda, uma visibilidade privilegiada, mas essa projeção é devolvida ao teatro
como um todo, o palco passa a ser um órgão vital – tudo o que sucede no palco se escoa
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na infinita multiplicidade de ocorrências dispersas - mas passa a ser também um espelho


que devolve o reflexo da sala, devolvendo a sala ao público. O palco vazio é agora o
espelho de uma existência interior (existência do teatro, dos intérpretes e do público,
convertidos numa só existência plural), e nesse sentido passa a ser a própria
materialização do tempo. Algo que aconteça no palco será a face visível de algo que
envolve todo o espaço. A presença em palco será a imagem amplificada de uma ação que
de outra forma seria imperceptível, mas que no palco ganhará um recorte preciso e
reverberante que...

As narrativas neurais de Berna e Ventura parecem agora sincronizadas por


prósperos e ditosos Qualia, galopando inventivamente pelas planícies larvares desta
embriologia criativa, numa espécie de automontagem verbal que reverbera nas imagens
mentais de um e de outro de forma forçosamente distinta, mas com um volume crescente
de traduções convergentes e de virtualidades congêneres. No plano de fundo das suas
consciências, os transeuntes continuam a cruzar a praça, os barcos continuam a desenhar
as suas rotas e o sol continua a enfeitar as águas fluviais com uma cintilação de purpurinas
prateadas, até que um gigantesco e majestoso navio de cruzeiro, singrando triunfalmente
rio adentro, usurpa de um só golpe o primeiro plano dos mapas perceptivos de todas as
testemunhas presentes.