Você está na página 1de 5

Análise Psicológica (2006), 3 (XXIV): 393-397

A relação psicoterapêutica na abordagem


fenomenológico-existencial

JADIR MACHADO LESSA (*)


ROBERTO NOVAES DE SÁ (**)

A EMERGÊNCIA HISTÓRICA DA teóricas que são muitas vezes abstratas e distantes


PSICOTERAPIA EXISTENCIAL da realidade do paciente.
A perspectiva que ainda hoje prevalece para a
A Psicoterapia Existencial surgiu no momento experiência mediana é a divisão cartesiana sujeito-
histórico em que havia certa insatisfação com relação objeto. A visão de que o sujeito é a mente pensante
aos resultados do trabalho proposto por Freud. e o objeto é tudo o mais, inclusive o corpo desse
Embora a Psicanálise tenha sido, em muitos sentidos, ser pensante, faz com que o indivíduo desvalorize
revolucionária com relação à tradição psiquiátrica, tudo aquilo que não seja dedutível à dimensão
pouco tempo após seu surgimento os próprios racional. Quase todo saber se desenvolve a partir
psicanalistas já lhe haviam feito uma série de revisões. daí. O ideal científico tradicional de buscar a essência
May (1988, p. 46) afirma que “seria um erro identificar de todas as coisas ainda possui seu vigor e, para
o movimento existencial em psicoterapia simplesmente grande parte da teorização psicológica contemporânea,
como mais um na linha de escolas que derivaram a essência do homem é vista como consciência
do freudianismo, ou de Jung, Adler e daí por diante”. interior separada do mundo.
Esclarece que, em pelo menos dois pontos, o A “orientação da pesquisa existencial na psicanálise”,
existencialismo difere dessas correntes: primeiro escreveu Ludwig Binswanger (1956, p. 144, apud
porque não é criação de nenhum líder isolado, tendo May, 1988, p. 40), “surgiu da insatisfação com
se desenvolvido, espontaneamente, em diversas os esforços predominantes para se obter conhecimento
partes da Europa; em segundo lugar, a psicoterapia científico na psiquiatria”. Para ele, a psicologia e
existencial não se propõe a fazer acréscimo ou a psicoterapia, como ciências, não devem se dedicar
revisão da Psicanálise, mas se apresenta como uma apenas ao homem mentalmente doente, mas sim
outra maneira de conceber e, portanto, de compreender ao fenômeno humano como um todo. Binswanger
clinicamente o ser humano. Tal maneira prioriza reconhece que devemos a Heidegger essa nova
a existência concreta do homem, saindo de concepções compreensão a respeito do homem, particularmente,
à sua análise da existência humana, que tem por
base a idéia de que o homem não pode mais ser
compreendido em termos de alguma objetivação,
seja biológica, psicológica ou sociológica. Para
(*) Presidente da Sociedade de Análise Existencial Heidegger (2001, p. 33) “o existir humano nunca
e Psicomaiêutica – SAEP, Brasil. é um objeto simplesmente dado em algum lugar,
(**) Universidade Federal Fluminense, Brasil. muito menos encapsulado em si mesmo. A existência

393
significa apenas a abertura originária de sentido em suas relações com as pessoas e coisas que lhe
na qual podem vir à luz os entes enquanto tais”. vêm ao encontro no mundo.
A Psicoterapia Existencial surgiu na tentativa Autores importantes, tanto do existencialismo
de responder a algumas questões que os psicote- quanto da fenomenologia, falaram sobre o tema
rapeutas se faziam na primeira metade do século do encontro, como Martin Buber, Levinas, Paul
XX. Um bom exemplo são as perguntas formuladas Ricoeur e outros. No entanto, para os objetivos da
por May: presente reflexão, nos limitaremos à apresentação
de algumas idéias diretrizes sobre o conceito de
“Como podemos estar certos de que nosso
encontro afetivo apresentadas pela psicologia de
sistema, admirável e lindamente lavrado
Rollo May e a filosofia de Martin Heidegger.
como deve ser a princípio, será de alguma
utilidade para aquele específico Sr. Jones,
uma realidade viva e imediata sentada à nossa
A NOÇÃO DE ENCONTRO AFETIVO
frente na sala do consultório? Essa pessoa
NA PSICOTERAPIA
em particular não poderia estar precisando
FENOMENOLÓGICO-EXISTENCIAL
de um outro sistema, um outro quadro de
referência bem diferente? Quando o José
May (1976, p. 19) afirma que “encontro é uma
da Silva entra no meu consultório, estou tendo
expressão de ser” e refere-se especificamente ao
acesso a ele, ou estou formulando teorias
encontro que acontece na hora terapêutica, quando
sobre ele e apenas mergulhando junto com
“estabelece-se um relacionamento total entre duas
ele no mundo da imaginação?” (May, 1988,
pessoas, que envolve certo número de diferentes
p. 39)
níveis”. Enumera quatro níveis que constituem o
Essas eram as questões em pauta para os psico- encontro, a saber:
terapeutas nesse momento histórico. A grande
Um nível é aquele das pessoas reais: alegro-
preocupação deles era saber como se pode ter acesso
me de ver meu paciente (minha reação variando
à realidade existencial do paciente, já que as teorias
em diferentes dias e dependendo principal-
eram muito ricas em dizer como era a sua realidade
mente da quantidade de horas que dormi
essencial, mas antes dele existir concreta e tempo-
na noite anterior). Nosso encontro suaviza
ralmente como ser-no-mundo. Os psicoterapeutas
de orientação científico-naturalista procuravam, muitas a solidão física, da qual todos os seres humanos
vezes, encaixar as pessoas na teoria, ao invés de são herdeiros. Outro nível é aquele de amigos;
voltar-se para uma descrição fenomenológica da acreditamos – porque já vimos um bocado,
existência singular. Essas tentativas de enquadrar os um do outro – que o outro tem algum interesse
pacientes nos modelos teóricos eram pródigas em genuíno em escutar e entender. Um terceiro
explicações do sofrimento, mas quase sempre estéreis nível é sentido como erótico – que deve ser
no sentido de propiciar relações terapêuticas que aceito pelo terapeuta se ele pretende ouvir
promovessem transformações existenciais efetivas. compreensivamente e também se ele pretende
A Psicoterapia Existencial funda-se no “cuidado”, valer-se desse recurso dinâmico para a mudança1.
enquanto “ser-no-mundo-com-o-outro”, e não Um quarto nível é o da estima, a capacidade
em interpretações apriorísticas ou explicações que está inerente nas relações interpessoais
causais sobre a realidade vivencial do paciente. por precaução autotranscendente pelo bem
Se há alguma interpretação, ela deve ser fruto da estar do outro. Todos esses constituem um
elaboração temática de uma existência que se explicita relacionamento real, cuja distorção é a trans-
enquanto projeto. O psicoterapeuta remete o indivíduo ferência. (ibidem, pp. 19-20)
a si, estimulando-o a reconhecer sua impessoalidade
e a questionar-se no sentido de encontrar suas próprias
respostas para as questões que a vida lhe apresenta. 1
Emprega-se “erótico” aqui no sentido geral, em que
O objetivo da psicoterapia não é enquadrar o paciente todos os tipos de relacionamento e coisas possuem uma
em padrões morais ou em modelos teóricos, mas tônica sexual – cinema, livros, e assim por diante. Natu-
buscar compreender as possibilidades singulares ralmente, não tem efeito na terapia, mas é mantido como
de existir de cada um, tal como ele as experimenta parte da transferência. (nota do autor da obra citada)

394
May (1988) faz uma análise comparativa dos Denominá-la, no entanto, como “transferência”,
modos do psicoterapeuta se relacionar com o paciente. só faz sentido a partir de uma compreensão que
Particularmente esclarece a diferença entre a relação se baseia nas noções de “causalidade” e “subjetividade
transferencial proposta por Freud e a relação de intra-psíquica”. Isto é, a história de vida é vista
contato ou de encontro praticada pela psicoterapia como uma seqüência causal de acontecimentos em
existencial. Nesse sentido, afirma (1988, p. 21) que o anterior determina o posterior e as repre-
que “o que falta é o conceito de contato, dentro sentações estabelecidas no interior do sujeito por
do qual, e somente dentro do qual, a transferência esses eventos determinantes é transferida e projetada
tem significado genuíno. A transferência deve ser posteriormente sobre um outro objeto. Esse objeto
entendida como a distorção do contato”. Diz isso da transferência, no caso o terapeuta, enquanto ente
porque acredita que “jamais houve alguma norma cujo modo de ser é entendido como simplesmente
a respeito do contato humano na psicanálise e dado, nada tem a ver obrigatoriamente com as
nenhum espaço adequado para o relacionamento representações e afetos que a ele se transferem.
mútuo”. Na noção de transferência não se valoriza De uma perspectiva fenomenológico-existencial,
tanto o contato, mas sim o aspecto individual da colocam-se os seguintes questionamentos: existe
fantasia que determinado indivíduo tem do outro, o sempre uma situação histórica determinante e deter-
que caracteriza mais uma posição solipsista do minável que seja transferida para outras situações?
que uma experiência relacional. Na transferência Existe algum suporte neutro para onde as repre-
lhe parece que a prioridade, na relação com o sentações são transferidas, isto é, há algum objeto
outro, não é o encontro ou o contato com a alteridade simplesmente dado cujo sentido seja anterior a toda
e sim a projeção no outro de padrões arcaicos ou relação e, portanto, não seja transferido? Segundo
da fantasia de padrões estabelecidos na infância. Heidegger (1987, p. 210):
Explica que, para esse conceito de transferência,
“A situação (Befindlichkeit) ou disposição
os contatos considerados importantes e significativos
(Gestimmtheit) é um caráter fundamental
seriam apenas aqueles que se deram na infância,
do Ser-aí (Dasein) e pertence a todo e qualquer
onde tais padrões foram se constituindo e que o
comportamento. Cada comportamento já é
principal objetivo da relação transferencial seria
sempre em princípio orientado, por isso não
identificar e trabalhar o aparecimento da repetição
faz nenhum sentido falar de ‘transferência’
desses padrões, quando projetados no psicoterapeuta.
(Übertragung). Não é necessário ocorrer
A perspectiva existencial valoriza o encontro no
nenhuma transferência, porque a respectiva
aqui-agora, onde o outro comparece com sua alteridade
disposição, a partir da qual e em relação a
própria, afetando e sendo afetado, e não apenas
qual, somente, tudo que vem ao encontro
enquanto uma representação. Com essa afirmação
pode mostrar-se, já está sempre lá. Como
não se quer dizer que no contato não haja sempre
parte da respectiva disposição, um ser humano
elementos de impessoalidade e inautenticidade,
que vem ao encontro de outro mostra-se,
mas sim que as chamadas “projeções” e “transfe-
também, relacionado a esta ‘abertura’
rências” aparecem apenas como aspetos componentes
(Entschlossenheit).”
do contato e não como sua dimensão essencial para
a psicoterapia. Quando May afirma que o que falta O Ser-aí como “abertura” já está sempre numa
é o conceito de contato, refere-se a uma esfera pré-compreensão do ser dos entes. Não se trata
maior do campo da experiência relacional que de uma mera compreensão teórica, neutra do ponto
inclui todas as afecções geradas no encontro com de vista afetivo. A pré-compreensão em que a
a alteridade do outro, tanto as genuínas quanto as existência já sempre se encontra é intrinsecamente
“transferenciais”. Esses afetos, apesar de sempre orientada por uma “disposição”. A disposição, neste
aparecem no aqui e no agora, tanto podem ser sentido, não é um fenômeno psicológico, mas,
“próprias”, no sentido de constituírem a experiência antes, o existencial a partir do qual é possível
que Heidegger denominou de “autenticidade”, quanto qualquer variação psíquica dos afetos ou “estados
podem ser meras repetições de padrões impessoais. de ânimo”. “A disposição coloca o Ser-aí diante
A importância clínica da relação afetiva foi do fato de seu ‘aí’ (Da) que, como tal, se lhe impõe
reconhecida por Freud e é comprovada diariamente como enigma inexorável”. (Heidegger, 1989, p. 190)
por todos que vivem a experiência da psicoterapia. A colocação do fenômeno observado por Freud

395
em sua prática clínica, o estabelecimento de uma sua determinação estrutural. Como em qualquer
relação afetiva entre cliente e terapeuta, sob esta outra área de “ocupação”, também o contexto mediano
perspectiva fenomenológica em nada diminui sua da psicoterapia tende a ser, na maior parte das
importância terapêutica, apenas lhe fornece uma vezes, dominado por modos indiferentes de convi-
base mais simples e rigorosa que permite apreendê-lo vência, isto é, modos em que a identidade e a
em toda sua abrangência, sem construções meta- alteridade radicais em jogo no “ser-com” são encobertas
psicológicas complexas e arbitrárias. É pela tematização pelo encontro do outro como ente (sujeito) simples-
e apropriação da pré-compreensão já sempre “disposta” mente dado.
em que se encontra, que o cliente amplia sua Heidegger distingue dois modos básicos do
liberdade de correspondência aos diversos envios “cuidado” (Sorge), a essência relacional da existência
que lhe vêm ao encontro no mundo. humana: por “ocupação” (Besorgen), nomeia ele o
“cuidado” para com os entes intramundanos cujo
modo de ser revela-se a partir da utilidade instru-
A RELAÇÃO TERAPÊUTICA E O mental, como vimos a pouco no exemplo do artesão;
“SER-NO-MUNDO-COM-O-OUTRO” já por “preocupação” (Fürsorge), designa ele o
“cuidado” para com os outros homens. A “preo-
A compreensão que temos do outro já é sempre cupação” funda-se na constituição essencial da
uma dimensão intrínseca do nosso modo de “ser- existência enquanto “ser-com”.
com-o-outro”. Isso não se aplica menos para a O modo cotidiano e mediano da “preocupação”
relação terapêutica do que para qualquer outra com os outros é a indiferença, a ausência de surpresa
forma de relacionamento. O “ser-com”, por sua e a evidência, que também caracterizam a “ocupação”
vez, entendido como ser ontologicamente junto com as coisas enquanto instrumentos à mão. Além
aos outros homens, é inerente à constituição funda- da “indiferença”, Heidegger fala em duas outras
mental da existência como “ser-no-mundo”. Assim possibilidades da “preocupação” que são de extrema
como a partir do mundo, enquanto horizonte de importância para a reflexão clínica. A primeira
sentido, as coisas nos vêm ao encontro numa rede diz respeito ao modo de “preocupação” que “substitui”
de referências que lhes dão significados, também (einspringt) o outro assumindo suas “ocupações”
os outros nos vêm ao encontro a partir de um contexto para liberá-lo delas ou devolvê-las posteriormente
específico de sentidos. como algo já pronto. “Nessa preocupação, o outro
Heidegger (1989, pp. 168-169) nos dá o exemplo pode tornar-se dependente e dominado mesmo
do mundo do artesão, no qual o mesmo horizonte que esse domínio seja silencioso e permaneça
de referência que revela as coisas como “matéria encoberto para o dominado” (1989, p. 174). Cremos
prima”, “instrumento” ou “obra”, faz vir ao encontro ser esse um modo bastante comum do “cuidado”
o outro como “produtor”, “fornecedor” ou “usuário”. nas formas de terapia que possuem ou aspiram a
Diz ele: uma teoria e uma técnica que dêem conta do existir
humano.
“Os outros que assim ‘vêm ao encontro’,
O segundo modo da “preocupação” que Heidegger
no conjunto instrumental à mão no mundo
menciona é aquele que se “antepõe” (vorausspringt)
circundante, não são algo acrescentado pelo
ao outro não para substituí-lo, mas para pô-lo
pensamento a uma coisa já antes simplesmente
diante de suas próprias possibilidades existenciais
dada. Todas essas coisas vêm ao encontro
de ser. “Essa preocupação que, em sua essência,
a partir do mundo em que elas estão à mão
diz respeito ao cuidado propriamente dito, ou
para os outros. Este mundo já é sempre
seja, à existência do outro e não a uma coisa de
previamente o meu”.
que se ocupa, ajuda o outro a tornar-se, em seu
Do mesmo modo, podemos dizer que no mundo cuidado, transparente a si mesmo e livre para
do terapeuta, em seu modo cotidiano e mediano, ele” (idem). No âmbito da clínica, portanto, a
o outro vem ao encontro no âmbito de certas refe- “anteposição” seria o modo do “ser-com” em que
rências dominantes que tendem a encobrir qualquer o terapeuta deixa-se apropriar enquanto abertura
surpresa ou estranhamento. O outro já é sempre dialogante para a manifestação das possibilidades
previamente dado como “cliente”, “paciente”, “doente”, próprias do outro. Heidegger diz que esses dois
subjetividade intra-psíquica a ser conhecida em modos da “preocupação”, a “substituição” e a

396
“anteposição”, são duas possibilidades limites da da teorização científica abstrata, nem de uma concepção
“preocupação” não indiferente, na convivência humanista, subjetivista e sentimental.
cotidiana se dão sempre formas mistas.
Assim como a “ocupação” com as coisas, enquanto
entes simplesmente dados à mão, é guiada por uma REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
“circunvisão” (Umsicht), em que se articulam material,
Heidegger, M. (1987). Zollikoner Seminare. Frankfurt
instrumento, obra e usuário, também a “preocupação”
am Main: Vittorio Klostermann.
orienta-se por uma compreensão prévia, a partir Heidegger, M. (1989). Ser e Tempo, Vol. 1. Petrópolis,
da qual o outro se dá como co-presente no mundo. RJ: Vozes.
Esses modos de ver, previamente constitutivos May, R. (1976). Psicoterapia Existencial. Porto Alegre:
da “preocupação”, Heidegger denomina como Editora Globo.
May, R. (1977). Existencia. Madrid: Editorial Gredos.
“consideração” (Rücksicht) e “tolerância” (Nachsicht).
May, R. (1988). A Descoberta do Ser. Rio de Janeiro:
De acordo com o Prof. Carneiro Leão, em suas Editora Rocco.
notas explicativas à tradução brasileira de Ser e
Tempo (p. 314), a “consideração” “indica uma
maneira de ver, que leva em conta a diferença e a RESUMO
importância de tudo com que se lida...” e a “tolerância”
“exprime o empenho de correr atrás, aceitando as Este artigo mostra como, desde sua emergência histórica,
tensões, os limites e as características diferenciais a psicoterapia de base fenomenológico-existencial tem
como preocupação central a compreensão da existência
das situações e modos de ser”. Devemos salientar,
concreta, em oposição as explicações teóricas abstratas
entretanto, que ambas apresentam-se também nos de inspiração científico natural. Como conseqüência, a
modos deficientes da “preocupação”, na forma de relação terapêutica jamais se reduz a um encontro técnico
“desconsideração” e de “tolerância indiferente”. entre especialista e cliente, enquanto subjetividades isoladas,
A convivência, em qualquer um de seus modos, mas deve ser vista como a dimensão mais essencial da
clínica e elaborada tematicamente como um modo espe-
nunca é, para a perspectiva fenomenológica, o cífico de encontro existencial, fundado, enquanto possi-
encontro a posteriori de sujeitos isolados definidos bilidade ôntica, na estrutura existencial-ontológica denominada
a partir de si mesmos. O “ser-com” é uma dimensão por Heidegger como “ser-no-mundo-com-o-outro”.
ontológica constitutiva da existência humana enquanto Palavras-chave: Heidegger, psicoterapia, Rollo May,
tal. Cada homem já é sempre “no-mundo-com-o- ser-no-mundo-com-o-outro.
outro” e o modo mais próprio de ser “si-mesmo”
não exclui, mas implica obrigatoriamente algum
ABSTRACT
modo específico de “ser-com”. O problema da
compreensão do outro não se reduz, portanto, a The on going paper argues that phenomenological-
uma questão de metodologias e técnicas, ao contrário, existential approach to psychotherapy has, from its
essas somente são possíveis enquanto desdobramento historical origins, a central preoccupation with concrete
temático da pré-compreensão do outro em que já existence, in opposition to abstract theorical explanations
of natural scientific inspiration. The therapeutic relation,
sempre se encontra o terapeuta segundo seu modo as a consequence, is never understood like a technical
de “ser-no-mundo-com-o-outro”. Tal concepção meeting between a specialist and his client, as inner
é essencial para a psicoterapia, pois desloca a questão subjectivities. It must be seen as the essential dimension
da verdade na clínica de um âmbito epistemológico, of psychotherapy and thematically conceived like a
das teorias e das técnicas, para aquele da existência, specific way of existential encounter based, as ontical
possibility, on the existential-ontological structure called
em que está sempre em jogo o próprio ser do homem, by Heidegger as “being-in-the-world-with-others”.
propiciando ao cuidado terapêutico uma possibilidade Key words: Heidegger, psychotherapy, Rollo May,
de fundamentação ontológica que não provém nem being-in-the-world-with-others.

397