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Filosofia da Religião

Material Teórico
Religião no mundo atual: fanatismo, alienação ou utopia?

Responsável pelo Conteúdo:


Prof. Dr. Valter Luiz Lara

Revisão Textual:
Profa. Ms. Alessandra Fabiana Cavalcanti
Religião no mundo atual: fanatismo,
alienação ou utopia?

• Introdução
• O fanatismo religioso
• Funções psicossociais da religião
• Religião como alienação e utopia
• Conclusão

OBJETIVO DE APRENDIZADO
· conhecer as relações da religião com os modelos gerais de fanatismo
em outras áreas da vida humana;
· perceber a religião como fenômeno de interação entre indivíduo e
sociedade;
· demonstrar a religião em sua interação com aspectos psicológicos,
emocionais e sociais;
· aprender a identificar tendências comportamentais religiosas de
fanatismo, alienação e utopia.

ORIENTAÇÕES
A presente unidade é sobre o caráter psicossocial da religião. A dimensão
psicológica e emocional é, talvez, a mais influente condicionante da crença
religiosa para a vida de uma pessoa. O caráter cultural e sociopolítico da
religião está presente, mas sempre ancorado na dimensão psicológica. Por
isso, procure observar, ao ler os textos dessa unidade, como a religião só
se entende quando são desvendadas as relações de mútua implicação entre
indivíduo e sociedade. As razões alegadas para explicar as crenças religiosas
não esgotam os motivos emocionais dos comprometimentos religiosos.
Tente confrontar e aplicar à sua própria experiência religiosa ao que você vai
aprender aqui sobre fundamentalismo, alienação e utopia. A pergunta mais
relevante e que provavelmente nem seja teórica, embora exija uma teoria bem
fundamentada, é essa: a religião é utopia ou alienação? Não se apresse em
respondê-la. Qualquer que seja a resposta, ela não pode se contentar com uma
análise genérica, abstrata ou essencialista do fenômeno religioso. O que isso
significa? Significa que afirmar se a religião é alienação ou utopia requer análise
caso a caso, segundo o modo como são vividas as crenças religiosas nas situações
concretas delineadas em sua mais completa inserção histórica e social.
UNIDADE Religião no mundo atual: fanatismo, alienação ou utopia?

Contextualização
Leia o trecho da notícia divulgada pelo site do Jornal ODIA em 07 de Janeiro de 2015 no link
Explor

a seguir: https://goo.gl/FDLf2a

Como vimos, através desse episódio muito bem divulgado em todo o mundo,
o fundamentalismo religioso não é um problema teórico e nem é só um problema
da França ou do semanário que tem ousado debochar de crenças religiosas as
mais diversas, inclusive islâmica, mas também cristã, católica, evangélica e judaica.
Independentemente do que você pensa sobre a liberdade de expressão e até onde
se deve brincar com a fé alheia, o fato é que a violência em nome de Deus foi
praticada e custou a vida de 12 pessoas.

Na história da humanidade genocídios foram praticados apelando-se para a fé


religiosa. “Guerras santas” marcaram as páginas de nossa história com sangue e
muita reza... Até que ponto a religião pode ser considerada como razão suficiente
para vitimar pessoas, grupos e nações inteiras? Existe alguma utopia, isto é, ideal
de sociedade religiosa perfeita que justifique sacrifícios humanos? Faz parte da
lógica religiosa a alienação da consciência em nome da obediência cega a seus
líderes? Pois esse é o tema da unidade sobre religião no mundo atual. Leia, reflita
e faça a sua análise crítica dos autores que pensaram a religião na perspectiva do
conceito de alienação e julgue por si mesmo a questão chave dessa unidade: a
religião é utopia ou alienação?

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Introdução
A primeira condição para uma abordagem da religião que pretenda ser crítica é
discutir suas funções socioculturais que ao longo da história humana objetivamente
influenciou e referendou processos de socialização, consolidação, legitimação
transformação ou manutenção da realidade social vigente. O espaço aqui não permite
o enfoque histórico, mas tê-lo como pressuposto favorece a compreensão do papel
que a religião tem assumido nas mais complexas situações do mundo atual.

Raramente pode-se prescindir da religião para compreender os conflitos


geopolíticos. Confrontos culturais entre ocidente e oriente passam por dificuldades
e guerras históricas entre cristãos e mulçumanos. A luta entre Palestinos e Judeus
é outro exemplo típico de conflito com contorno religioso. Evidentemente que a
dimensão religiosa não esgota e às vezes sequer é o problema mais importante
nesses conflitos. Porém, o fato é que as crenças configuram as identidades
envolvidas e são trazidas para o repertório de justificativas das disputas em jogo.

Em nosso país, por exemplo, em São Paulo, no dia 19 de março de 1964,


mais de um milhão de pessoas saíram às ruas naquela que ficou conhecida como
“Marcha da família com Deus pela liberdade”. É sabido como esse movimento de
características explícitas e admitidamente religiosas, de contorno católico, acabou
fortalecendo e deflagrando o que dias mais tarde em 31 de março, viria acontecer:
o golpe militar, interrompendo tendências para executar reformas de base nas
estruturas da sociedade brasileira (DIAS, 2010, p. 262).

Neste sentido, o objetivo da presente unidade de estudo sobre o fenômeno


religioso é aprofundar a dimensão da função social da religião apontando inclusive
alguns elementos de seu caráter cognitivo, psicológico e emocional. A pergunta pelo
fanatismo religioso e sua relação com utopia ou alienação encontra-se justamente
no cruzamento entre os papeis social e psicológico da religião.

Desse modo, traçamos o seguinte itinerário para o estudo da unidade: começa


pela definição de fanatismo (1) e o elenco descritivo das mais diversas funções da
religião, com o destaque para os papeis psicossociais da religião (2). Em seguida, à
luz dos conceitos de utopia e alienação (3) vamos acompanhar como autores como
Feuerbach (3.1), Marx (3.2) e Freud (3.3) se posicionaram a esse respeito. Por fim,
apresentaremos uma breve conclusão sobre o papel da religião na atual conjuntura
da sociedade urbana e pluralista em que vivemos.

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UNIDADE Religião no mundo atual: fanatismo, alienação ou utopia?

O fanatismo religioso
Discutir o fanatismo religioso é voltar o foco da análise para as suas funções
psicossociais da religião, mas também verificar como o complexo das dimensões
cognitivas e emocionais dos indivíduos é afetado pelas crenças religiosas.
Afinal de contas, o fanatismo é um traço que se observa socialmente, mas está
enraizado nas estruturas psicoemocionais do sujeito e não se expressa apenas
como crença religiosa.
Segundo o dicionário Aurélio, fanático é aquele que segue cegamente
uma doutrina ou partido, o termo não está ligado unicamente a doutrinas
políticas ou religiosas, pois tudo aquilo que leva o indivíduo ao exagero
é considerado como forma de fanatismo. Uma pessoa pode ser fanática
por amar exageradamente uma pessoa, objeto, time de futebol, etc., o
erro mais comum das pessoas é o de designar fanatismo como sendo algo
exclusivamente religioso e político (PERCÍLIA, s/d,).

O fanatismo religioso é uma expressão bem conhecida socialmente; caracteriza-


se pelo radicalismo, pela intolerância e pela defesa absoluta, intransigente das
verdades pelas quais se está disposto a viver e a morrer.
Fanatismo vem do latim fanaticus, quer dizer “o que pertence a um templo”,
fanum. O indivíduo fanático ocupa o lugar de escravo diante do senhor
absoluto, que, pode ser uma divindade, um líder mundano, uma causa
suprema ou uma fé cega. O fanatismo é alimentado por um sistema de
crenças absolutas e irracionais que visa a servir a um ser poderoso empenhado
na luta contra o Mal. Ou seja, o fanático acha que pode “exorcizar pessoas
e coisas supostamente possuídas pelo demônio”, “combater as forças do
mal” ou “salvar a humanidade” do caos (LIMA, 2002).

Violência contra si mesmo ou contra os inimigos é uma atitude inerente ao


fanático. Por isso, nem todo radicalismo ou fé comprometida radicalmente com
os seus pressupostos ou implicações é necessariamente expressão de fanatismo. A
eliminação do adversário e de quem pensa diferente e o combate ao inimigo como
missão que se pode pagar com a própria vida são características mais adequadas
para definir o fanático em qualquer setor da vida humana. A negação do diálogo e
a intransigência do monólogo são sintomas do fanatismo.
O problema da religião não é a paixão “fé”, mas a inquestionalidade de
seu método. O método de qualquer religião traz uma certeza divulgada
em forma de monólogo, jamais de diálogo ou debate de idéias. O pastor,
padre, rabino, ou qualquer pregador de rua, vivem o circuito repetitivo do
monólogo da pregação; acreditam que “vale tudo” para difundir a “verdade
única” que o tocou e o transformou para sempre! O estilo fanático usa e
abusa do discurso monológico delirante, declarações, comunicados, que
jamais se voltam para escuta ou o diálogo, exercício esse que faria emergir
a verdade - não a “certeza” (LIMA, 2002).

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O problema maior do fanatismo religioso é que o sujeito acredita estar a serviço
do ser supremo ou de forças sagradas que legitimam a “verdade”, a “ética” e a
“bondade” absolutas de seus atos.
Se no fanatismo o sujeito inexiste para dar lugar ao Senhor absoluto e
maravilhoso, então faz sentido não assumir a sua própria responsabilidade,
porque ela é “obra do Senhor”, “o Senhor quer que eu faça”, “foi a
mão de Allah”, etc. São mais do que frases, são efeitos de uma poderosa
“fantasia da eleição divina” onde o sujeito é nadificado para dar lugar ao
discurso delirante da salvação messiânica (LIMA, 2002).

O fanatismo religioso, como se vê pressupõe atitudes com um determinado perfil


psicossocial. Neste contexto, faz-se necessário descrever o potencial de funções
psicossociais da religião que afetam indivíduos, grupos e sociedades inteiras.

Funções psicossociais da religião


A religião como fenômeno sociológico possui funções de humanização
e inserção e adaptação dos sujeitos às estruturas e às instituições sociais. O
processo de socialização e a demarcação dos principais momentos do ciclo da vida
pertencem ao universo das celebrações e dos ritos de passagem das religiões. A
seguir descrevemos as dez funções da religião, segundo a concepção do sociólogo
Reinaldo Dias (2010, p. 261-262):

1ª) Socialização;

2ª) Influência na configuração de instituições como família, educação e Estado;

3ª) Força de controle social;

4ª) Promoção ou contenção do conflito social;

5ª) Fator de sociabilidade e interação social;

6ª) Explicação de fenômenos ainda não desvendados pela ciência;

7ª) Instrumento de exclusão e de perseguição de pessoas e de grupos indesejados


por setores hegemônicos da sociedade;

8ª) Força conservadora e contrária a processos de mudança social;

9ª) Coesão e unidade social;

10ª) Promoção da solidariedade grupal.

Essas mesmas funções sociais da religião podem ser analisadas sob a ótica
psicológica, uma vez que o indivíduo deve possuir estrutura psicoafetiva compatível
para se deixar afetar e, ao mesmo tempo, aderir ativamente às crenças e às práticas
religiosas. Nessa perspectiva opera a psicologia da religião.

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UNIDADE Religião no mundo atual: fanatismo, alienação ou utopia?

Quanto à função psíquica da religião, podem-se distinguir aspectos cogni-


tivos, emocionais e pragmáticos. Cognitivamente, as religiões sempre ofe-
receram uma ampla interpretação do mundo: elas atribuem ao ser humano
seu lugar no universo das coisas. [...] Emocionalmente a religião possui
funções semelhantes: ela proporciona um sentimento de segurança neste
mundo e uma confiança de que, no final, porém, tudo ficará bem ou pode-
ria ficar bem. Precisamente por esse motivo, ela ocupa-se das situações-li-
mite, quando essa confiança é ameaçada e abalada: na angústia, na tristeza,
na culpa e no fracasso. Aqui ela estabiliza as pessoas diante do perigo de
desmoronamento emocional. [...] a função pragmática da religião consiste
em que ela legitima formas de vida com seus padrões de comportamento.
Também aqui nos deparamos com uma proximidade entre superação de
crises e provocação de crises (THEISSEN, 2009, p. 22 e 23).

Segundo essa abordagem psicossocial proposta por Gerd Theissen, sociólogo


alemão do cristianismo primitivo, há três funções da religião que interagem afetando
o modo como o indivíduo reage diante da realidade social: a cognitiva, a emocional
e a pragmática. Trata-se de funções que estão diretamente ligadas à noção de
adaptação do indivíduo à sociedade e como isso se dá em relação aos momentos de
crise social. Veja o quadro abaixo (THEISSEN, 2009, p. 23) a síntese dessa visão
psíquica da religião:

Religião como força Religião como superação Religião como provocação


ordenadora de crises de crises
Cognitiva Construção de uma confiança Superação de crises Provocação de crises
emocional fundamental cognitivas: confusão emocionais por meio do medo,
numa ordem legítima mediante experiências-limite do sentimento de culpa etc.
Pragmática Construção de formas de Superação de crises: Provocação de crises:
vida aceitáveis, seus valores conversão, expiação, mediante a sensação do
e normas renovação insispensável

O pressuposto de Theissen é a concepção de que “as religiões são sistemas


socioculturais de sinais” (2009, p. 24) produtores de adaptação do indivíduo à
sociedade, ora como legitimação, ora como proposta de alteração da ordem
social vigente.

O quadro das funções psicossociais, segundo Theissen (2009, p. 25) pode ser
demonstrado a partir de uma dupla função: a de socialização do indivíduo e a de
regularização dos conflitos entre grupos:

Legitimação da ordem Superação de crises Exacerbação de crises


Socialização do indivíduo Introdução na ordem social: Estabilização nas crises de Protesto contracultural
ritos de passagem, mediação teodiceia
de valores
Regularização de conflitos Legitimação de um consenso Compensação por danos Protesto e utopia por justiça
grupais mínimo entre grupos sociais
conflitantes

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Sendo assim, pode-se concluir provisoriamente, desde o contexto das funções
psicossociais, que a religião opera como alienação ou utopia. O fanatismo também
é uma forma de expressão da crença religiosa, mas essa já foi tratada no primeiro
tópico. Analisemos então, o caráter da alienação ou da utopia na religião.

Religião como alienação e utopia


O avanço da racionalidade humana através da ciência e da tecnologia atingiu
um ponto que parecia poder explicar tudo e satisfazer todas as necessidades de
progresso material e espiritual até então desejados pelas pessoas. Intelectuais,
filósofos e cientistas dos séculos XIII e XIX chegaram até a prever o fim da religião
e profetizavam a substituição da fé pela clareza e pela certeza da razão científica
(Augusto Comte, por exemplo) ou a autonomia do ser humano frente à morte do
próprio Deus (Nietzsche). Ainda hoje, pessoas envolvidas e aculturadas no mundo
da ciência e da filosofia “respiram” tais ideias e admitem a religião como coisa de
gente ignorante. Elas acreditam ser verdadeira e inevitável a equação: quanto mais
educação, menos religião. Mas o fato é que a maioria das pessoas continua sendo
religiosa mesmo que não siga uma determinada confissão de fé.

A questão fundamental para alguns filósofos deixou de ser a discussão racional


dos conteúdos da religião. O que mais importa é saber se a religião é alienação
ou utopia, isto é, se ela conduz o sujeito a meras ilusões e fuga da realidade ou é
afirmação crítica e propositiva para um engajamento consciente que enfrenta os
problemas presentes.

Vários autores estudiosos já desenvolveram reflexão a respeito do caráter


utópico ou alienador da religião. Émile Durkheim, sociólogo do século XIX mostrou
como a religião cumpre muito bem funções de coesão social (DURKHEIM, 1989).
Max Weber, sobretudo em sua famosa obra A ética protestante e o espírito do
capitalismo fez uma análise bastante interessante ao demonstrar as relações entre
dogmas religiosos, valores éticos e processos econômicos que engendraram o
sistema econômico capitalista (WEBER, 2005). François Houtart, por exemplo, é
um sociólogo da religião que faz um inventário muito bem feito sobre as diversas
funções sociais do fenômeno religioso, pressupondo uma variedade de trabalhos
que o antecederam nesse olhar lançado à religião (HOUTART, 1994). Nesta
unidade, porém, vamos destacar os autores que mais diretamente trataram do
tema que ora estamos refletindo: se a religião é alienação ou utopia? As criticas de
Feuerbach, Marx e Freud à religião responderam a questão.

Entretanto, primeiramente se faz necessário definir o que estamos entendendo


por alienação e utopia. O Dicionário de Filosofia de Sérgio Biagi Gregório assim
define alienação:

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UNIDADE Religião no mundo atual: fanatismo, alienação ou utopia?

Alienação: Conceito fundamental nas obras filosóficas de Hegel,


Feuerbach e Marx, e também nos textos posteriores das tradições
idealista e marxista. A alienação (do alemão Entfremdung, também
pode ser traduzido por afastamento) exprime sobretudo a ideia de algo
que está separado de outra coisa ou que é estranho a essa coisa: estou
alienado de mim na medida em que não posso compreender ou aceitar
a mim mesmo; o pensamento está alienado da realidade, pois a reflete
de forma inadequada; estou alienado de meus desejos uma vez que eles
não são autenticamente meus, sendo antes impostos a mim do exterior;
estou alienado dos resultados dos meus trabalhos porque estes se tornam
mercadorias; e posso estar alienado de minha sociedade pois em vez de
fazer parte de uma unidade social que a constrói, me sinto controlado por
ela [...] (GREGÓRIO, s/d).

Alienação é, então, todo processo de alheamento do sujeito à realidade; acarreta


em maior ou menor grau a perda da identidade e autonomia crítica do sujeito frente
ao mundo a sua volta. Tomamos o termo alienação e o aplicamos para compreender
o fenômeno religioso como conceito negativo. Por outro lado, entendemos utopia
em contraposição à alienação, em seu sentido positivo. Entretanto, admitimos
que há certa ambiguidade na interpretação do conceito de utopia e, por isso, ele
também pode ser visto de modo negativo.
Utopia: do grego ou: não; topos: lugar. O termo, que significa
etimologicamente “nenhum lugar”, foi forjado por Thomas More (A
Utopia ou Sobre a Melhor Constituição de uma República, 1516) para
designar uma cidade “perfeita”, mas imaginária [...]. Em um sentido mais
amplo, designa todo projeto de uma sociedade ideal perfeita. O termo
adquire um sentido pejorativo ao se considerar esse ideal como irrealizável
e, portanto, fantasioso. Por outro lado, possui um sentido positivo quando
se defende que esse ideal contém o germe do progresso social e da
transformação da sociedade (GREGÓRIO, s/d).

Utopia é, portanto, o horizonte da esperança que mobiliza o sujeito a enfrentar a


realidade não de modo a aceitá-la acriticamente, mas também não como refúgio e
ilusão, mas como motivação para transformar o mundo objetivo e real em direção
ao ideal que se pretende construir.
Feuerbach criticou a religião apresentando-a como dimensão humana que
revela não a Deus, mas os valores mais profundamente humanos. Para Feuerbach
consciência de Deus é consciência do homem; a teologia não revela mais do que
a antropologia profunda dos desejos humanos (FEUERBACH, 2007). Marx, ao
contrário, eliminou o valor da religião e a concebeu como uma das expressões
ideológicas da alienação social (MARX, 1964). O ser humano ao invés de criticar e
lutar para transformar a realidade de miséria e de opressão que vive de fato, transfere
sua crítica para um mundo do além, onde suas esperanças não realizadas na terra
podem ser satisfeitas no céu. E, finalmente Freud que reafirmou a religião como
ilusão, isto é, garantia psicológica de que a felicidade definitiva que almejamos, mas
não desfrutamos em vida, depois de nossa morte possa ser conquistada mediante
a dádiva de um grande Pai a quem chamamos de Deus (FREUD, 1997). Observe
mais de perto como cada um deles desenvolveu a sua concepção de religião.

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A religião como alienação humana em L. Feuerbach
O conceito de religião em Ludwig Feuerbach (1804-1872) está principalmente
em seu livro A Essência do Cristianismo (1988). O pressuposto é o seu ateísmo.
Uma vez admitido que Deus não existe como pode a religião sobreviver na mente e
na vida prática de tanta gente? Essa é a questão que move o trabalho de Feuerbach.
A resposta se encontra na análise da essência do próprio ser humano:
A religião é o solene desvelar dos tesouros ocultos do homem. Deus é a
mais alta subjetividade do homem... Este é o mistério da religião; o homem
projeta o seu ser na objetividade e então se transforma a si mesmo num
objeto face a esta imagem, assim convertida em sujeito”.

Como forem os pensamentos e as disposições do homem assim será o seu


Deus; quanto valor tiver um homem, exatamente isto e não mais será o
valor do seu Deus. Consciência de Deus é autoconsciência, conhecimento
de Deus é autoconhecimento (FEUERBACH, 1988, p. 55).

Para Feuerbach, o ser humano se distingue dos animais em virtude da religião:


“A religião se baseia na diferença essencial entre o homem e o animal – os animais
não têm religião” (FUEURBACH, 1988, p. 43). O que isso tudo significa? Deus é
criatura humana. O ser humano projeta o que ele é em sua essência mais profunda
como ser transcendente em um ser capaz de garantir os seus sonhos e superar os
seus limites: Deus. Por isso, Feuerbach desvenda o mistério da religião e a revela
não como teologia, mas como antropologia.

A alienação religiosa em Feuerbach consiste na inconsciência e na ilusão da


inversão humana sobre si mesmo. De fato, Deus é a projeção de o próprio ser
humano que não se reconhece como tal. Esse não reconhecimento o aliena de si
mesmo, pois chama de outro o que é a sua própria consciência não admitida.

A descoberta de Feuerbach da religião como alienação não torna a religião uma


realidade negativa em si, a não ser porque não há o reconhecimento por parte do
ser humano que não a vê como fenômeno meramente antropológico. A superação
da alienação religiosa só pode se dar quando houver a negação da religião e de seus
conteúdos como realidade em si fora do humano. Enquanto isso não acontece,
para Feuerbach, o sujeito religioso estará sempre na condição de ser alienado, pois
não reconhece no objeto de seu culto o seu próprio Eu.

A religião como alienação em K. Marx


Karl Marx (1818-1883) recebeu a crítica de Feuerbach à religião como alienação,
mas não a vê como expressão da positividade transcendente do humano. Para Marx
a religião é alienação não porque expressa os anseios mais profundos do sujeito,
mas por que o retira da realidade terrena e o transporta para um céu inexistente,
oferecendo-lhe assim um consolo que entorpece sua mente, desviando-o do
caminho que pode libertá-lo de fato da realidade de miséria e de sofrimento.

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UNIDADE Religião no mundo atual: fanatismo, alienação ou utopia?

O sofrimento religioso é ao mesmo tempo a expressão de sofrimento


real e o protesto contra um sofrimento real. Ela (a religião) é o suspiro
da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, da mesma
forma como ela é o espírito de uma situação sem espírito. Ela é o ópio
do povo. A abolição da religião como felicidade ilusória do povo é exigida
para a sua verdadeira felicidade. A exigência de que se abandonem as
ilusões sobre as suas condições é a exigência para que abandonem as
condições que necessitam de ilusões (MARX, 1991, p. 106).

O argumento de Marx sobre a religião, segundo Rubem Alves tem uma


sequencia lógica:
- Uma situação social que necessita de ilusões.

- A religião como ilusão exigida.

- A religião como parte do sistema, tanto genérica quanto funcionalmente,


torna possível a sua permanência.

- A crítica penetra neste sistema, na medida em que desmascara as


relações genéricas e funcionais entre a religião e o mundo invertido que é
o seu fundamento. (ALVES, 1984, p. 55).

Por isso, Marx discorda de Feuerbach que propõe a superação da alienação


religiosa, desmascarando o caráter alienador da religião, trabalhando apenas na
esfera da crítica às ideias religiosas, isto é, na esfera da teologia e de suas verdades,
demonstrando-as como reflexo das necessidades e de ideais humanos. O mais
importante a fazer, segundo a sequência lógica do raciocínio de Marx não é criticar
o pensamento e as práticas religiosas, mas criticar a realidade que exige e produz
religião: “[...] a crítica dos céus se transforma na crítica da terra, a crítica da religião
se transforma na crítica do direito e a crítica da teologia se transforma na crítica da
política” (MARX, p. 42).

Sendo assim, Marx prefere se concentrar na crítica da realidade, principalmente,


econômica e social que é, em sua opinião, a causa da necessidade de religião.
Rubem Alves do mesmo modo interpreta as consequências da crítica de Marx
à religião:
[...] a crítica da religião nos leva para além da religião. Não se trata de
criticar a religião para recuperar a sua verdade (Feuerbach). Religião é
efeito de uma situação que necessita de ilusões (explicação genético-
causal). A “felicidade ilusória” tem de ser destruída para que o homem
compreenda as causas de sua infelicidade a fim de aboli-las. A crítica à
religião em si mesma é destituída de sentido (ALVES, 1984, p. 55).

Portanto, Marx abandona a crítica da religião, pois ela não tem razão em si
mesma, a não ser como meio para se criticar a própria realidade de miséria, de
desigualdade e de infelicidade humana que a produz. Enquanto Feuerbach via
na religião a essência do humano, Marx não vê nela essência alguma, a não ser
como produto histórico social diretamente ligado às condições fundamentais da

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relação que o próprio homem estabelece com o trabalho e o modo mais geral da
organização econômica, social e política de produção e de reprodução da vida.

A religião como ilusão em Freud


Sigmund Freud (1856-1939) concebe a religião como um sistema de doutrinas
e de promessas que, por um lado, explica para o homem comum os enigmas deste
mundo com perfeição invejável, e por outro, lhe garante que uma providência
cuidadosa velará por sua vida e o compensará, numa existência futura de quaisquer
frustrações que tenha experimentado aqui.

Os estudos de Freud sobre a religião abrem a possibilidade de um diálogo crítico


entre os processos psicológicos e a constituição dos processos socioculturais. Freud
em seu livro O futuro de uma ilusão, procurou responder aos desafios de uma
relação complexa entre religião e psiquismo, relação que ainda hoje nos desafia a
uma avaliação crítica e posicionamentos igualmente autocríticos.

No cenário da psicanálise freudiana o ser humano é um sujeito reprimido em


seus instintos e desejo sexual como condição de sua vida em estado de convivência
civilizatória (FREUD, 1997A), A religião nesse contexto tem um papel de
compensação ética da repressão do desejo, desenvolvendo a felicidade e o prazer
reprimidos em forma de satisfação no cumprimento do dever que deverá ser
recompensado depois como prêmio no céu.
[...] a religião é para o homem comum um sistema de doutrinas e de
promessas que, por um lado lhe explicam os enigmas deste mundo
com perfeição invejável, e que por outro, lhe garantem que uma
Providência cuidadosa velará por sua vida e o compensará, numa
existência futura de quaisquer frustrações que tenha experimentado
aqui. (FREUD, 1997B, p. 21)

O valor psicológico maior das ideias religiosas, segundo Freud, está na


necessidade humana primordial de personificar os poderes superiores encontrados
nas forças da natureza, transformando-os mais tarde, em deuses apaziguados
e erigidos como protetores e garantidores da satisfação frustrada na realidade,
mas continuamente desejada. Tal como a criança que teme, mas ao mesmo
tempo encontra no pai a proteção de que tanto necessita, o homem adulto acabou
construindo a figura dos deuses como entidades protetoras. (FREUD, 1997A, p. 39).

A força interior das ideias religiosas para Freud reside em sua natureza psicológica:
A origem psíquica das ideias religiosas, proclamadas como ensinamentos,
não constituem precipitados de experiência ou de resultados finais de
pensamento: são ilusões, realizações dos mais antigos, fortes e prementes
desejos da humanidade. O segredo de sua força reside na força desses
desejos (FREUD, 1997A, p. 48).

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UNIDADE Religião no mundo atual: fanatismo, alienação ou utopia?

Mas ilusão para Freud não equivale exatamente ao conceito de alienação nem
em Marx nem em Feuerbach, embora haja aproximações e semelhanças? Em
Marx, a religião é pura inversão que entorpece o ser humano: “é ópio do povo”.
Em Feuerbach, é alienação porque sua verdadeira identidade humana é confundida
com a divina. Em Freud, a ilusão é uma realidade que tem consistência psíquica,
ainda que não tenha objetividade fora do sujeito.
Ilusão não é a mesma coisa que um erro [...] A crença de Aristóteles
de que os insetos se desenvolvem do esterco [...] era um erro [...]. Por
outro lado, foi uma ilusão de Colombo acreditar que descobriu um novo
caminho marítimo para as Índias. O papel desempenhado por seu desejo
nesse erro é bastante claro [...]. O que é característico das ilusões é o fato
de derivarem de desejos humanos. Com respeito a isso, aproximam-se
dos delírios psiquiátricos, mas deles diferem também, à parte a estrutura
mais complicada dos delírios. No caso destes, enfatizamos como essencial
o fato de eles se acharem em contradição com a realidade. As ilusões
não precisam ser necessariamente falsas, ou seja, irrealizáveis ou em
contradição com a realidade. Por exemplo, uma moça de classe média
pode ter a ilusão de que um príncipe aparecerá e se casará com ela. Isso
é possível, e certos casos assim já ocorreram. Que o Messias chegue e
funde uma idade de ouro é muito menos provável. [...] Podemos, portanto,
chamar uma crença de ilusão quando uma realização de desejo constitui
fator proeminente em sua motivação e, assim procedendo, desprezamos
suas relações com a realidade, tal como a própria ilusão não dá valor à
verificação (FREUD, 1997A, p. 49-50).

Desse modo, pode-se afirmar que para Freud a religião é uma ilusão, mas
diferentemente dos outros autores, não é necessariamente um erro ou uma
contradição com a realidade, mas é expressão do desejo, mesmo que este não se
realize, trata-se de algo que tem uma realidade psíquica.

Conclusão
A religião como dimensão que procura articular o sentido da vida acaba
exercendo diversas funções no universo das relações humanas em geral, tanto
do ser humano consigo mesmo, quanto do ser humano com toda a natureza, o
universo e a sociedade.

Sendo assim, a consciência do sujeito não pode abster-se da crítica e da


autocrítica das consequências práticas, éticas, econômicas, sociais, ideológicas e
políticas da religião que professa. Está em jogo, como bem expressou Oliveira, a
tarefa da religião em contribuir com uma crítica que faça as pessoas assumirem os
valores de afirmação da vida:

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A religião tem sempre a ver com o universo, com o ser em seu todo,
com a interpretação da totalidade do ser a partir da realidade última.
Consequentemente, é no horizonte dessa referência explícita e especificada
à realidade frontal que o homem religioso encontra um horizonte último
de sentido para responder ao porquê e para que da totalidade do ser e,
a partir desse horizonte, motivos para viver e lutar (OLIVEIRA, 2013,
p. 107 e 108).

Os autores apresentados como críticos da religião em suas funções


psicossociais, Feuerbach, Marx e Freud, podem servir para nos fazer rever nossas
próprias crenças e o modo como as vivemos. Perguntar pela função psicossocial,
política e ideológica de nossa fé não significa aceitar necessariamente o ateísmo
militante desses autores, mas situar nossas crenças e práticas no jogo complexo
dos conflitos sociais, onde não há lugar para omissões ou imparcialidades. Omitir-
se, é de alguma forma, no cenário social, fazer parte de uma trama já delineada
de forças e de poderes que se enfrentam e se confrontam, perpetuam ou rompem
com as habituais formas de viver e conviver. Fazer das opções religiosas, utopia
ou alienação, é um desafio que precisa passar pelo crivo de nossa consciência e
racionalidade tanto crítica como autocrítica.

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UNIDADE Religião no mundo atual: fanatismo, alienação ou utopia?

Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:

  Sites
Ética e intolerância: O fanatismo religioso do ponto de vista da ética
Leia o breve texto “Ética e intolerância: O fanatismo religioso do ponto de vista da
ética” de Antonio Carlos Olivieri, da Página 3 da Revista Pedagogia & Comunicação
postado em 31/07/2005 às 13h06 no site “Educação Pesquisa Escolar” da UOL.
Trata-se de um artigo que vai complementar o aspecto da alienação religiosa, segundo
a concepção de dois outros filósofos: Baruch Spinoza (1632-1677) e John Locke
(1632-1704).
https://goo.gl/8gCci5

 Livros
Reflexões Sobre a Religião Como Utopia e Esperança
Leia o livro “Reflexões Sobre a Religião Como Utopia e Esperança” de Pedro Cesar
Kemp Gonçalves, publicado pela editora Paulinas/São Paulo, 1985, 95p
Disponível para download em:
https://goo.gl/c6F8nx

 Vídeos
Zé Vicente - Utopia
A primeira canção cujo nome é “Utopia” do cantor e compositor Zé Vicente, um dos
representantes mais célebres dos artistas populares das Comunidades Eclesiais de Base
- CEB’s – comunidades que melhor representaram a dimensão artística e poética da
Teologia da Libertação.
https://youtu.be/RtzZ69xr2Ao
Ney Matogrosso - Coração Civil - Vídeo Clip
A segunda é “Coração Civil”, composição de 1983 de Milton Nascimento e de
Fernando Brant, gravada também por Ney Matogrosso.
https://youtu.be/ZLcEjldHnOE

 Filmes
A festa de Babette
Veja o filme “A festa de Babette”. Direção: Gabriel Axel. Ano 1987, Dinamarca. “Na
desolada costa da Dinamarca vivem Martina e Philippa, as belas filhas de um devoto
pastor protestante que prega a salvação através da renúncia. As irmãs sacrificam suas
paixões da juventude em nome da fé e das obrigações, e mesmo muitos anos depois
da morte do pai, elas mantêm vivas seus ensinamentos entre os habitantes da cidade.
Mas com a chegada de Babette, uma misteriosa refugiada da guerra civil na França,
a vida para as irmãs e seu pequeno povoado começa a mudar”. Procure ver como o
filme mostra as duas facetas da religião, uma mais alienante e conservadora e outra
profundamente utópica e libertadora. Assista ao trailer no link a seguir:
https://goo.gl/QAjdWD

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Referências
ALVES, Rubem. Suspiro dos Oprimidos. São Paulo: Paulinas, 1984.

CROATTO, José Severino. Los lenguajes de la experiência religiosa. Estúdio de


fenomenologia de la religión. Buenos Aires: Editorial Docência, 1994.

DIAS, Reinaldo. Introdução à Sociologia. 2. ed. São Paulo: Pearson Prentice


Hall, 2010. 386p.

DURKHEIM, Émile. As formas elementares de vida religiosa. São Paulo:


Paulinas, 1989.

FEUERBACH, L. A essência do cristianismo. Campinas: Papirus, 1988.

FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. Rio de Janeiro: Imago, 1997A.

_____. O Mal-estar na civilização. Trad. José Octávio de Aguiar Abreu. Rio de


Janeiro: Imago, 1997B.

GREGÓRIO, Sérgio Biagi. Dicionário de Filosofia. S/D. Disponível em https://


sites.google.com/site/sbgdicionariodefilosofia/ Acesso em 21/03/2016 às
8h19min.

HOUTART, François. Sociologia da Religião. São Paulo: Ática, 1994.

LIMA, Raymundo de. “O fanatismo religioso entre outros”. Revista Espaço


Acadêmico. Ano II, nº 17, Outubro/2002. Disponível em: http://www.
espacoacademico.com.br/017/17ray.htm Acesso em 20/03/2010 às 21h07min.

MARX, Karl. A Questão Judaica. São Paulo: Editora Moraes, 1991.

MOREIRA, Alberto & ZICMAN, Renée (orgs.). Misticismo e novas religiões.


Petrópolis/Bragança Paulista: Vozes/ Universidade São Francisco/IFAN, 1994.

OLIVEIRA, Manfredo Araújo de. A religião na sociedade urbana e pluralista.


São Paulo: Paulus, 2013. 366p.

PARKER, Cristián. Religião popular e modernização capitalista. Outra lógica


na América Latina. Petrópolis: Vozes, 1995.

PERCÍLIA, Eliene. “Fanatismo”. Filosofia - Brasil Escola. Disponível em http://m.


brasilescola.uol.com.br/filosofia/fanatismo.htm Acesso em 20/03/2016.

QUEIROZ, José J. & outros. Interfaces do Sagrado em véspera de milênio. São


Paulo: Olho d’Água e Programa de Estudos Pós-graduados em Ciências da religião
da PUC - SP, 1996.

SUNG, Jung Mo. Deus: ilusão ou realidade? São Paulo: Ática, 1996.

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UNIDADE Religião no mundo atual: fanatismo, alienação ou utopia?

THEISSEN, Gerd. A religião dos primeiros cristãos. Uma teoria do cristianismo


primitivo. São Paulo: Paulinas, 2009. 450p.

TERRIN, Aldo Natale. O Sagrado Off Limits. A experiência religiosa e suas


expressões. São Paulo: Loyola, 1998.

WEBER, Max. A ética protestante e o espírito do capitalismo. São Paulo:


Martin Claret, 2005.

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