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Filosofia da Religião

Material Teórico
O Problema de Deus

Responsável pelo Conteúdo:


Prof. Dr. Valter Luiz Lara

Revisão Textual:
Profa. Ms. Alessandra Fabiana Cavalcanti
O Problema de Deus

• Introdução
• Atitudes preliminares para o estudo do problema de deus, segundo a
filosofia da religião.
• Quem, o que, como é deus?
• Argumentos filosóficos em favor da existência de deus
• Argumentos Filosóficos Contra a Existência de Deus

OBJETIVO DE APRENDIZADO
· Apresentar a variedade de posições humanas e filosóficas que existem
em relação à crença em Deus.
· Aprender a distinguir conceitos filosóficos sobre crenças e descrenças
em Deus, deuses e outros objetos da crença religiosa.
· Reconhecer argumentos clássicos da filosofia que discutem a
possibilidade ou não da existência de Deus.

ORIENTAÇÕES
Atenção!

Você vai se deparar com um tema nesta unidade extremamente delicado.


Trata-se de uma discussão que tem gerado muita controvérsia, desentendi-
mento e violência ao longo da história. A questão de Deus afeta o mais pro-
fundo e, talvez, o mais caro dos valores humanos para a maioria das culturas
e sociedades que conhecemos.

Evidentemente, o propósito aqui não é tratar o assunto do ponto de vista


dogmático e doutrinal, característico da experiência religiosa. A perspectiva
é filosófica. Isso significa que a pretensão de posse de uma verdade absoluta
está descartada. Busca-se a verdade, mas a consciência filosófica é sempre
dialogal.
UNIDADE O Problema de Deus

Contextualização
Leia trechos do texto do padre e teólogo Anselmo Borges*, no site da Global Midia Group.
Explor

Disponível em: https://goo.gl/1Q8G1v

O teólogo escreve sobre a violência associada ao mundo das crenças religiosas.


Depois de ler, faça o seu próprio juízo a respeito da importância que o tema da
crença em Deus e mais especificamente a reflexão crítica filosófica sobre esse tema
tem para se evitar que a fé ou o combate a ela sejam motivos de violência entre
pessoas, grupos, comunidades e igrejas, inclusive entre países e continentes.

A unidade sobre o problema de Deus é teórica, mas com certeza, diz respeito
a muitos conflitos que estamos vivendo em nossos dias, seja entre judeus e
palestinos, mulçumanos e cristãos, crentes e ateus. Claro que o conflito religioso,
muitas vezes é só um ingrediente cultural que potencializa a violência que já
existe por motivos que antecedem e independem da religião: desigualdade social,
conflitos de terra, escassez de recursos, busca pela afirmação de identidade
cultural e lutas históricas milenares, cujos motivos já se perderam no tempo e
continuam a gerar ódio e vingança.
Na base das religiões está a experiência do Sagrado, de Deus, de quem se
espera salvação para todos. Mas, depois, é o que se sabe: há uma brutal
“história criminosa” das religiões, devendo, porém, acrescentar-se que
essa história se estende ao ateísmo, que cai no mesmo paradoxo: uma
das suas razões é a intolerância, mas, depois, foi também o horror - basta
citar o nazismo e o comunismo e o seu ateísmo. E isto dá o que pensar.

Como faz notar o teólogo J. I. González Faus, “a violência não é própria


da experiência crente: é, sim, intrínseca ao ser humano”, por necessidade
de autodefesa e de sobrevivência, sobretudo por causa da sua dimensão
racional e da pretensão de universalidade, intrínseca à razão: “A maior
parte das violências impostas por alguns contra outros apenas pretendiam,
em teoria, fazê-los ‘entrar na razão’ ou ‘aceitar a verdade’.” Nas religiões,
lá está o alegado encontro exclusivo com a verdade e a necessidade de
impô-la, precisamente para defender a verdade e Deus.

A questão não é a experiência religiosa mística, pela sua própria natureza,


antiviolenta, felicitante e que traz salvação. A questão é o que as religiões
fizeram e fazem de Deus.

No dizer do filósofo Frédéric Lenoir, isto se vê concretamente nos


monoteísmos, por se julgarem detentores da “verdade única que lhes foi
dada por Deus”. Deve juntar-se a tal atracção do poder, que torna as
religiões violentas. “O caso do judaísmo é típico, pois durante mais de
dois mil e quinhentos anos foi uma minoria politicamente dominada ou
perseguida.” E lá está ainda hoje o terrível fanatismo. De qualquer modo,
Javé é um Deus muito violento. O cristianismo é a religião do amor e

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começou por ser pacífico e violentamente perseguido. As coisas mudaram
desde o século IV, com Constantino, e, sobretudo a partir de 380, ao
tornar-se religião de Estado, numa união religioso-política. De religião
perseguida, começou a tornar-se perseguidora e implacável para com os
infiéis não cristãos e os cristãos heréticos. Santo Agostinho já fala em
“perseguição justa”. Depois, são as cruzadas, fazendo o papa Urbano II
apelo à guerra santa: “Deus o quer.” E a “santa inquisição”. Santo Tomás
de Aquino escreveu: “Os hereges merecem ser suprimidos do mundo pela
morte.” E o ódio aos judeus. E a brutalidade da conquista da América e
do tráfico de escravos. O Alcorão prega a guerra santa contra os infiéis:
“Profeta, combate contra os infiéis e sê duro com eles” (9, 73); “Infundirei
o terror nos corações dos que não acreditam. Cortai-lhes o pescoço” (8,
12). E Lenoir lembra que Maomé foi ele próprio “ao mesmo tempo um
chefe espiritual e político, e um guerreiro”. Participou em 60 batalhas. A
história mostra que também o hinduísmo e o budismo não estão imunes à
violência, por vezes brutal, exercida até por monges.

O casamento das religiões com o poder e a política corrompe-as. Aí está


porque, para lá da urgência do diálogo inter-religioso, condições essenciais
para a paz são a leitura histórica-crítica dos textos sagrados e a laicidade
do Estado, com a separação da(s) Igreja(s) e do Estado e o respeito pelos
direitos humanos.
* Padre e professor de Filosofia
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

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UNIDADE O Problema de Deus

Introdução
Deus é o tema talvez mais polêmico de todos os tempos. O que você acha?
Não me parece haver consenso a esse respeito. Observe o mundo a sua volta e
veja como profetas, magos, sacerdotes, pais e mães de santo, gurus, mulás ou
Ulemás, chefes indígenas, sábios, pastores, rabinos, padres ou qualquer espécie de
autoridade religiosa entendem Deus. Há mais divergências que convergências, não
é mesmo?

Mulá: Mulá, termo do islamismo xiita vem do árabe mawla, “senhor chefe” e surgiu no
Explor

Irã, enquanto Ulemá é termo da tradição islâmica sunita e significa “os que possuem o
conhecimento”. São termos usados habitualmente para nomear autoridades religiosas
reconhecidas como professores, teólogos e conhecedores dos textos sagrados do Islã.

Há religiões cuja essência não é Deus, mas deuses. Outras em que a noção de
Deus, por incrível que pareça não existe, pelo menos do modo como a sociedade
ocidental a entende. Você deve estar se perguntando, religião sem Deus não é
um contrassenso? Não necessariamente. O budismo, por exemplo, de Sidartha
Gautama, o primeiro grande Buda (iluminado), na Índia do século VI a.C., ao
propor sua doutrina, não contemplou a ideia de Deus, mas apenas a do ser humano
em seu caminho de iluminação para superar a dor e o sofrimento. Mais tarde, e,
sobretudo, hoje, no contato com outras religiões e culturas, o budismo tornou-se
uma religião de inúmeras ramificações, tradições e tendências, incluindo a noção
de Deus em boa parte delas.

E não é só o budismo. Sociólogos e antropólogos da religião descobriram


tradições cuja religião vive em torno de ritos, cultos e práticas que evocam seres
que de modo algum podem ser identificados com o que nós chamamos de Deus ou
deuses. Há religião cujo centro é o culto aos antepassados que já morreram e assim
ela é entendida. Há outras cujo centro é o culto e a valorização sagrada de coisas
inanimadas como uma pedra, um rio, uma árvore ou um animal. São religiões
totêmicas, isto é, voltadas para a atribuição de força sagrada (Totem) às coisas,
animais e vegetais. “Totem” é a palavra que designa em determinada cultura o ser
que carrega uma força misteriosa, cujo poder é identificado como sagrado. Esse
tipo de religião desconhece o conceito de Deus, a não ser que nós identifiquemos
como Deus aquilo que determinadas religiões entendem como sendo outra coisa.
Mas isso é o que normalmente se chama em antropologia de identificação arbitrária
e equivocada, pois está condicionada a interpretações subjetivas que decidem
privilegiar e, muitas vezes, atribuir semelhanças em que na verdade existem mais
diferenças do que identificação. Dizer, por exemplo, que a vaca é um deus hindu
é diferente de afirmar que ela é um animal sagrado. Deus é o sumamente sagrado
para muitas religiões, mas nem tudo o que é sagrado é Deus para essas mesmas
religiões. Veja quantas coisas são sagradas para a nossa cultura, mas isso não
significa que elas sejam deuses.

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Embora cada um de nós seja herdeiro de uma tradição cultural que provavelmen-
te tem uma opinião bem alicerçada a respeito do que Deus é, se ele existe e qual
é a forma ou a modalidade de sua existência; é preciso reconhecer que nenhuma
clareza religiosa ou filosófica elimina os mistérios que permanecem em torno dessa
questão. Por isso, vale à pena assumir e observar alguns cuidados antes de conti-
nuar a leitura dessa unidade.

Atitudes preliminares para o estudo do


problema de deus, segundo a filosofia
da religião
Propomos três atitudes, nem sempre fáceis de serem assumidas e um desafio, as
quais consideramos fundamentais para se compreender a perspectiva da filosofia
da religião em relação ao problema de Deus.

A primeira atitude é com relação a sua própria fé (ou descrença, se for o


caso). Com certeza você tem uma opinião formada e uma posição muito particular
com relação a Deus. Não há que renunciar a ela, muito menos ignorá-la ao ler
e confrontar com o que será desenvolvido nesta unidade. Entretanto, é preciso
reconhecer que a filosofia tem um modo diferente de produzir o seu discurso
sobre Deus que a distância do modo como as religiões tratam o mesmo
fenômeno. A filosofia não tem a fé e a revelação como dados relevantes ou
predominantes em seus juízos e conceitos sobre Deus.

Evidentemente, a variedade de filosofias e de autores ao longo da história,


demonstra que não há unanimidade sequer na admissão da existência de Deus,
quanto mais na definição do que se entende por Deus. Ora ela admite o conteúdo
sugerido pelas religiões ou por alguma religião em particular (por exemplo, o
cristianismo quando os autores são declaradamente pensadores cristãos), ora ela
ignora o conteúdo das doutrinas religiosas e trilha caminhos independentes da
teologia. O fato inconteste é que quando a filosofia da religião reflete sobre o
problema de Deus, ela o faz a partir dos critérios não da teologia, mas da razão
lógica e do pensamento crítico e autônomo.

A postura filosófica diante do problema de Deus conduz o sujeito a resultados que


pode produzir coincidência, desdobramentos, aprofundamento, e até a legitimação
dos dados da fé religiosa. Mas pode produzir o contrário, uma crítica extrema
aos postulados da revelação, chegando mesmo a defender argumentos contra a
própria existência de Deus.

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UNIDADE O Problema de Deus

De modo algum, você precisa ficar passivo a tudo o que ler. O nosso objetivo é
que você amplie o conhecimento que nos foi legado pela filosofia em relação a esse
tema e saiba confrontá-lo com sua experiência de vida. O resultado não precisa ser
a concordância, nem a discordância, mas o amadurecimento de sua própria visão
sobre o assunto, aprendendo a dialogar com autores, conceitos e noções diversas
que existem sobre Deus.

A segunda atitude é em relação aos outros. Há que considerar nova


terminologia para entender bem a variedade dos sujeitos e os referenciais
subjetivos que condicionam os argumentos, às vezes fundamentando não apenas
a racionalidade do pensamento e a verdade a que se quer chegar, mas as opções
de fé (teísta), de descrença (ateu) ou o manifesto alheamento (agnóstico) ao tema.
Neste sentido, segue abaixo um breve vocabulário, sem o qual não se percebe
particularidades e detalhes importantes entre os diferentes posicionamentos de
pensadores em relação ao que eles entendem por Deus.

Teísta: pessoa que manifesta a convicção de que Deus (ou deuses) existe(m).

Politeísta: acredita na existência de vários deuses. Monoteísta: acredita na


existência de um único Deus. Monolatria: adoração a um só Deus. Pode haver
monolatria politeísta (adoração preferencial a um deus, mediante o reconhecimento
de que existem outros) como monolatria monoteísta (adoração de um só Deus
porque se acredita na existência de um só Deus mesmo; os outros não existem).

Ateu: pessoa que defende a inexistência de Deus e manifesta a convicção de que


Deus de fato não existe.

Agnóstico: pessoa que afirma não conhecer (“a – gnose” = não conhecimento;
a – gnóstico = aquele que não conhece) Deus. Admite apenas que se ele existe, ele
não é acessível ao nosso conhecimento. O agnóstico não é necessariamente ateu.
O ateu afirma categoricamente que Deus não existe, enquanto o agnóstico diz não
saber nada sobre esse assunto porque, diz ele, é impossível saber algo com certeza
a esse respeito.

Sem religião: pessoa que afirma não pertencer ou professar uma religião,
mas não é necessariamente um descrente em Deus, ateu ou agnóstico. O “sem
religião”, geralmente, é uma pessoa que faz sua própria síntese religiosa, adota
alguns ingredientes da fé de sua cultura, mas não se sente vinculado ou identificado
a uma determinada instituição religiosa. Isso significa que todo ateu e agnóstico é
“sem religião”, mas nem todo “sem religião” é ateu ou agnóstico.

Deísta: pessoa que entende Deus como entidade presente ou que sustenta a
natureza cósmica e suas leis, mas não como sujeito, isto é, não como pessoa ou
entidade de livre vontade.

Animismo: crença na existência de forças sagradas existentes em seres animados,


isto é, que possuem alma. O animismo acredita que todas as coisas possuem alma,
mesmo aquelas que para muitos são inanimadas ou simplesmente coisas.

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Totemismo: crença religiosa que atribui força sagrada em coisas, animais e
vegetais e que são a referência identitária de um clã, tribo ou comunidade étnica.

Panteão: conjunto de entidades e seres que reúnem os deuses de uma


determinada crença religiosa de um povo; por exemplo: panteão egípcio, grego,
romano africano, hindu, etc.

Panteísmo: crença que manifesta a convicção de que Deus se identifica com


tudo, isto é, todas as coisas.

Panenteísmo: crença que manifesta a convicção de que Deus está em tudo, mas
se distingue de tudo.
A terceira atitude é a da humildade socrática. Não há como saber tudo.
Certezas no campo da filosofia, assim como na esfera da ciência estão no plano
do provisório, não do definitivo. Independentemente de sua opção de fé, de
seu ateísmo, agnosticismo, ou de sua postura não religiosa; o tema “Deus” é
extremamente controverso, complexo e relevante. Uma dose de humildade sincera
sobre os limites de nosso saber sobre o assunto pode evitar tendências ao fanatismo
e ao dogmatismo intolerante.
Explor

À Sócrates é atribuída a célebre sentença: “Tudo o que sei é que nada sei”.

O desafio, portanto, está na maneira como encaramos o problema de Deus e


como reagimos diante da intolerância e da violência que o assunto pode provocar.
O mundo tem mostrado inúmeras vezes gente que é capaz de viver e de morrer
por sua fé em nome do Deus que professa. Talvez esse não seja o maior problema.
Viver e morrer em nome de Deus é uma coisa que pode parecer um exagero para
muitas pessoas, mas o martírio como exemplo de doação da própria vida tem sido
uma constante no exemplo dos grandes heróis religiosos de todos os tempos. O
problema maior, neste nosso tempo, não é morrer em nome de Deus, mas matar
em seu nome. Refletir sobre essa distinção é o grande desafio não só do filósofo
da religião, mas provavelmente de toda doutrina, tradição e teologia religiosa.
O que torna o problema de Deus um desafio ainda mais relevante é quando
constatamos que não parece haver cultura sem religião, embora haja pessoas
que questionem e contestem os postulados religiosos. Inclusive, o surgimento de
novas tradições religiosas, contém em seu nascedouro, de algum modo, o germe
da contestação e da ruptura com outras tradições. Tome como exemplo, as três
grandes matrizes religiosas que historicamente têm marcado com muita violência
os conflitos no campo religioso: judaísmo, cristianismo e islamismo são tradições
que professam continuidade e ruptura com a tradição anterior. Jesus é Judeu e
os primeiros grandes conflitos, não só de Jesus, mas de seus seguidores se dão
com as autoridades judaicas. Do mesmo modo, Maomé e seus seguidores desde
os primórdios do islamismo, entraram em conflito com autoridades judaicas e
cristãs. O budismo também, em relação ao bramanismo, evidentemente que
na proposta original de Gautama, é praticamente a negação da religião hindu
predominante em seu tempo e a proposição de um humanismo filosófico sem a
necessidade de deuses.

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UNIDADE O Problema de Deus

Conclusão preliminar: uma vez que se admite a perspectiva de que a filosofia


da religião é de natureza distinta e independente das teologias, das práticas e
das experiências religiosas, você pode encarar qualquer ideia a respeito de Deus,
inclusive transformá-lo em problema, objeto de questionamento e dúvida filosófica.
Para o teólogo, não se discute se Deus existe. O que se discute é o que ele é, quer e
impõe ou propõe como dever aos seres humanos. No plano da teologia, Deus não
é problema é solução e se dá no horizonte da fé aceita, revelada e proclamada. No
plano da filosofia, ainda que se aceite a existência de Deus, é preciso argumentar
nos limites da inteligência racional.

Portanto, o problema central da filosofia em relação a Deus se dá em dois


níveis e pode ser expresso na forma de duas perguntas: Deus existe realmente? Se
existe como (o que ou quem) então ele é? Por isso, a proposta de reflexão dessa
unidade, sem ter a pretensão de esgotar o tema, quer compreender o problema
de Deus em três direções diferentes e complementares. A primeira quer discutir
os diferentes atributos de Deus (Tópico 2) à luz, sobretudo, das influências e
das proposições das tradições judaico-cristãs e islâmicas, pois de certa maneira
são as que mais pautaram as disputas sobre o tema no mundo do ocidente e
oriente próximo conhecido. A segunda direção busca entender os argumentos
que a filosofia produziu para provar a existência de Deus (Tópico 3); e a terceira
caminha na direção oposta, pois pretende apresentar algumas teorias que tentaram
demonstrar que Deus não existe (Tópico 4).

Quem, o que, como é deus?


A filosofia da religião não é a única forma de conhecimento que pretende
entender o que Deus é. A linguagem do mito, a experiência religiosa e a teologia
fazem esse esforço de conhecer a Deus. Porém, o nosso foco é a filosofia e só na
medida em que se possa esclarecer a compreensão filosófica, essas outras formas
serão levadas em conta.

Você pode estar se perguntando, sobretudo, se considerou a posição do ateu


como relevante na discussão (e nós a consideramos), se este é o melhor começo
para discutir o problema de Deus. Não seria melhor discutir se ele existe e só
depois, caso concordemos com a plausibilidade de sua existência, verificar quais
devem ser os seus atributos? Pois é, este é um dilema filosófico inerente ao
problema do conhecimento de Deus: se começamos assim corremos o risco de
admitir atributos ilusórios ou falsos que definem o que na verdade não é nada. É
como se procurássemos definir uma coisa antes mesmo de saber que coisa é essa
que estamos procurando. Na hipótese positiva de Deus existir, esse caminho de
primeiro definir o que Deus é, pode nos conduzir a outro risco: discorrer sobre
atributos que nada tem a ver com Deus mesmo.

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Outro caminho possível é investigar primeiro se Deus existe. O problema aqui é
outro e talvez ainda mais perigoso, pois haverá sempre a questão que antecede a
essa investigação: afinal, quem, ou, o que é isto (ou este) a quem se pressupõe ser
Deus? A definição do que e de quem é, parece preceder necessariamente ao existir.
Pois sem definir o que procuro, não posso sequer procurar e nem mesmo discutir
se existe. Ignorar essa precedência é admitir o conceito sem declinar criticamente
sobre os atributos que o identificam. Sendo assim, optamos por começar a refletir
primeiro o que geralmente se entende por Deus (e aqui se toma basicamente o
imaginário mais conhecido entre nós e que se constitui como legado das tradições
religiosas judaica, cristã e islâmica) para depois analisar as posições de afirmação e
de negação desse conceito.

Em filosofia da religião o que está em jogo é o que se pode pensar sobre Deus.
Trata-se de analisar imaginários, avaliar conceitos, discutir ideias e teorias a respeito
de Deus. O conteúdo desse imaginário, na maioria dos casos, advém da experiência
e dos credos religiosos, de suas tradições orais e de seus textos sagrados, mas a
elaboração conceitual é problematizada pela filosofia. Analisemos então alguns
atributos bem conhecidos e tradicionais de Deus que podem ser encontrados de
modo variável nas proclamações de fé religiosa, nos manuais de teologia, mas
também na concepção de inúmeros filósofos. Por razões do espaço restrito de
nosso texto, sublinhamos apenas dez entre tantas características que podem ser
atribuídas à identidade de Deus.

Para quem quiser conferir e completar essa lista de atributos de Deus, qualquer bibliografia
Explor

de caráter teológico na área de teologia sistemática deve ajudar. Lembramos que haverá
variações conforme a fé teológica declarada. Abaixo sugerimos quatros fontes de consulta
online a esse respeito para quatro tradições religiosas. Sugerimos também a obra de Filosofia
da Religião de WILKINSON e CAMPBELL (2014, p. 96-108) que traz uma lista comentada de
atributos de Deus.
Tradição cristã evangélica: https://goo.gl/Lpz1zd
Tradição judaica: https://goo.gl/cpD7TZ

1. Criador
2. Onipotente
3. Onisciente
4. Onipresente
5. Infinito e Eterno
6. Imutável
7. Perfeito
8. Bom
9. Justo
10. Amoroso

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UNIDADE O Problema de Deus

Antes de comentar o conteúdo dessa lista, com certeza você gostaria de


acrescentar mais alguns atributos e quem sabe até retirar aqueles que julga
inadequado para descrever a essência de Deus. Faça isso e mais... Procure levantar
possíveis contradições entre eles. Verifique se eles concordam com o que você
acredita e aprendeu lendo os textos sagrados de sua tradição religiosa.

Deus criador (1). A ideia de um Deus criador perpassa muitas religiões, mas
gera enormes conflitos principalmente com a ciência. A possibilidade de haver um
ser criador não é de si um problema. A questão é como se entende a criação. Os
relatos míticos que explicam o modo como Deus cria (como no relato da criação
de Gênesis 1-2), se lidos literalmente, contrastam com a mentalidade científica
moderna fundamentalmente marcada pelo evolucionismo e outras formas de
conceber a natureza em geral. Muitos teólogos, filósofos e cientistas já levantaram
compatibilização dos relatos sobre a criação do mundo e as diferentes hipóteses
científicas sobre as origens do universo, mas a grande maioria dos fiéis religiosos
desconhece essas teses e continuam se posicionando contra ou a favor da ciência,
tendo que optar pela fé ou pela razão científica.

Para conhecer mais:


Explor

Tradição cristã católica: https://goo.gl/n0M9r4


Tradição islâmica: https://goo.gl/Ujto9Y
Tradição judaica: https://goo.gl/cpD7TZ

Teillard de Chardin (1881-1955) em sua obra O fenômeno humano (s/d.) desenvolveu a


Explor

teoria de que a criação não nega a evolução, uma vez que para ele o Deus criador não cria o
mundo pronto e acabado, nem espécies prontas e definitivas. A criação divina é processual
e, portanto, evolutiva.

Imaginar Deus como ser onipotente (2) (com o poder total e absoluto sobre
todas as coisas), onisciente (3) (com saber absoluto e universal), onipresente (4)
(sempre presente em tudo e em todos), infinito (5) (porque não tem começo nem
fim) e eterno (5) (porque está fora e além dos limites do tempo) implica uma série
de problemas para quem vive nos limites do tempo presente e da finitude histórica.
Como conciliar esses atributos de Deus com o livre arbítrio humano? Deus seria
um ser alheio ao mundo e à trajetória histórica do ser humano como concebeu
Aristóteles? Somos órfãos de um Deus criador que se retirou da criação? Que
onipotência (2), amor (10), bondade (8) e justiça (9) divinas são compatíveis
com a dor, o sofrimento e tanta crueldade humana? Que perfeição (7) divina
criaria uma natureza tão vulnerável e catastrófica, apesar de bela e surpreende e
maravilhosamente engenhosa? O preço da liberdade conferida por Deus ao humano
é um preço compatível com o tamanho dos males sofridos pela humanidade?

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E a imutabilidade (6) é de fato um atributo de Deus? Como então compreender
a capacidade que Deus tem de perdoar, amar, intervir, alterar e realizar milagres
(afinal ele é onipotente), se ele como ser imutável é incapaz de mudar? Isso não é,
do ponto de vista lógico, uma contradição?

Bem, para cada uma dessas perguntas há uma resposta religiosa que a fé
é capaz de aderir e aceitar, mas nem sempre a inteligência consegue suportar
e compreender. Em filosofia, a tentativa de resolver os problemas que estão
pressupostos nesse conflito entre Deus perfeito, bom, justo e amoroso e um
mundo imperfeito, mau, injusto, onde o ódio parece ter muita força é tarefa
da Teodiceia. E a Teodiceia, nos remete aos argumentos principalmente dos
autores que defendem a existência de Deus.

“Teodiceia” é palavra de origem grega, “Teo (Deus) + Diceia (Justiça)”, que significa
Explor

literalmente justiça de Deus. Teodiceia, portanto, é a parte da filosofia da religião que


estuda e procura entender as diferentes formas de se justificar a bondade de Deus e o seu
amor infinito diante de tanta maldade e injustiças humanas.

Os atributos de Deus refletidos aqui, bem como tantos outros que nós conhe-
cemos podem ser revistos e questionados com a mesma coragem e autenticidade
como fizeram os filhos diante da mãe na obra de Máximo Gorki cujo título é Mãe.
O diálogo ilustra de forma brilhante o que acontece quando se prioriza determina-
dos atributos e outros são negligenciados na concepção que se tem de Deus:
– Quanto a Deus, é melhor terem mais cuidado! Digam o que disserem!
[...] E uma velha como eu não terá mais onde apoiar-se, em meu desgosto,
se vocês me tirarem Deus.

[...] – Eu falava – prosseguiu Pavel – não do Deus bom e misericordioso, no


qual a senhora acredita, mas daquele com que os padrecos nos ameaçam,
como se fora um pau, do Deus em cujo nome querem obrigar a maioria
dos homens a se submeterem à vontade mesquinha de poucos.

– É isso mesmo! – exclamou Rybin, batendo com os dedos na mesa. –


Até Deus foi falsificado por eles; mobilizam contra nós tudo o que têm
nas mãos! Lembre-se, mãe, que Deus criou o homem à sua imagem e
semelhança, o que quer dizer que ele é semelhante ao homem, já que
este é semelhante a Deus! Mas nós não só não somos semelhantes a
Deus, como mais parecemos animais selvagens. Na Igreja, mostram-nos
um espantalho... É preciso modificar Deus, mãe, purificá-lo. Vestiram-no
de mentira e calúnia, mutilaram-lhe o rosto, para destruir nossas almas!
(GORKI, 1982, p. 268-269).

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Argumentos filosóficos em favor da


existência de deus
A história da filosofia produziu ampla variedade de argumentos em favor da
existência de Deus. Desde o nascimento da filosofia, ainda que a reflexão sobre
Deus não fosse central, o fato é que já havia uma ruptura com as noções mitológicas,
mas não a ponto de negar a existência da divindade. Pensadores como Pitágoras
(580-497 a.C.), Platão (427 a.C. - 347 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C), cada
um de seu jeito, incluíram Deus em seus sistemas. A noção de Deus proposta por
Aristóteles, por exemplo, influenciou muitos outros autores, inclusive pensadores
cristãos como Tomás de Aquino (1225-1274), séculos mais tarde.

A lista de autores que defendem a existência de Deus é grande e aumentou,


consideravelmente, com o predomínio do pensamento cristão a partir do período
medieval. Contudo, o nosso interesse é mostrar apenas o que consideramos os
mais influentes e tradicionais argumentos que foram desenvolvidos na tentativa
de demonstrar a existência de Deus. O pressuposto desse legado argumentativo
é a noção de que a Filosofia, desde o ponto de vista de pensadores cristãos como
Agostinho (354-430), é instrumento da compreensão da fé, pois crer e compreender
não se excluem:
Ninguém ignora que só aprendemos pelo peso da autoridade ou da
razão. Para mim é certo que nunca me afastarei da autoridade de Cristo,
que tenho por superior a todas. Quanto ao que exige raciocínio sutil,
pois desejo ardentemente não só crer, mas compreender a verdade
(AGOSTINHO, Sermão 43, apud GILSON, 1995, p. 144 ).

Crer, na ótica cristã, sempre foi a atitude básica e a mais importante, mas
compreender e buscar a inteligibilidade da fé também sempre foi uma exigência
natural do conhecimento de quem crê. Essa atitude de harmonia entre fé e
razão, filosofia e teologia foi muito bem sintetizada na expressão de Anselmo de
Cantuária (1033-1109) no capítulo I de sua célebre obra Proslógion: “Não busco
compreender para crer, mas creio para compreender”.

Neste sentido, vamos destacar dois grandes pensadores medievais e dois


modernos que apresentaram argumentos distintos para provar que Deus existe. Os
dois primeiros resumem o modo típico do pensamento metafísico, isto é, lógico,
abstrato e dedutivo: Anselmo de Cantuária, o autor do argumento ontológico e
Tomás de Aquino, autor dos cinco argumentos que ficaram conhecidos como
as cinco vias que leva o seu nome. Os outros dois filósofos, Pascal e Kant,
representam o modo moderno de se chegar ao mesmo objetivo de demonstrar a
existência de Deus.

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O pensamento moderno, embora permaneça na esfera da racionalidade, adere
a uma metodologia menos abstrata que a metafísica tradicional e mais prática,
voltada para o reconhecimento dos limites do conhecimento. A prova da existência
de Deus se dá não mais pela lógica rigorosa do raciocínio dedutivo, mas pela força
das necessidades práticas, existenciais e éticas.

O argumento ontológico de Anselmo de Cantuária


Anselmo de Cantuária (1033-1109), nascido na cidade italiana de Aosta,
desenvolveu o que ficou conhecido como argumento ontológico. Outros autores
também formularam argumentos semelhantes, como Descartes (1596-1650) e
Leibniz (1646-1716), mas o de Anselmo tornou-se o mais conhecido e controvertido.

Ontológico, do grego “ontos” (ser, o que é ou está sendo) + “lógico” (verbo, discurso,
Explor

estudo), significa estudo do ser. Ontologia é a área da filosofia que estuda o ser enquanto
ser. A ontologia também é identificada por alguns pensadores como metafísica. A palavra
“ontológico” costuma designar algo que tem que ser, isto é, consistência e existência não só
como ideia, mas como objeto na realidade fora do sujeito.

Quando se atribui o qualificativo de “ontológico” ao argumento, significa que


ele é um raciocínio que visa a demonstrar e concluir desde a ideia de Deus o seu
ser não apenas como ideia, mas como sujeito existente fora do pensamento. As
provas da existência de Deus de caráter ontológico assumem essa perspectiva, isto
é, partem da ideia de Deus para chegar ao ser de Deus, derivando dos atributos
contidos no conceito de Deus, a sua necessária existência. O argumento é simples.
Abaixo segue uma explicação passo a passo desse argumento:
(1) Pode-se pensar num ser maior do que qualquer outro;

(2) Sabemos que a existência na realidade é maior do que a existência


somente na nossa mente;

(3) Se o ser de (1) existir somente na nossa mente, não será o maior que
se pode pensar;

(4) Portanto o ser pensado maior que qualquer outro (1) deve existir
na realidade;

(5) Se ele não existir na realidade, não seria o maior ser que se pode conceber;

(6) Portanto o maior ser que se pode conceber deve existir, e nós o
chamamos “Deus”.

A explicação é de Scott H. Moore, disponível em http://en.wikipedia.org/wiki/Proslogion ,


Explor

acessado em 25/02/2011, apud FERREIRA, 2011, p. 2. O argumento na íntegra encontra-se


no capítulo 2 e 3 do Proslogion de Anselmo apud WILKINSON e CAMPBELL, 2014, p. 138-139.

17
17
UNIDADE O Problema de Deus

Os argumentos de Tomás de Aquino


Tomás de Aquino (1225-1274) apresentou variações do argumento ontológico
e desenvolveu cinco provas da existência de Deus que ficaram conhecidas como
as “cinco vias”. Três são chamados argumentos cosmológicos, pois partem da
realidade física, natural e cósmica para derivar a existência de Deus. Os outros dois
são de ordem distinta: um apresenta a forma teleológica ou finalista, o outro, a
forma ética. Os argumentos cosmológicos se fundamentam primeiramente na ideia
do movimento, em seguida no princípio de causalidade e, por último, na noção
de necessidade. Veja no quadro a seguir o essencial das cinco vias de Tomás para
provar a existência de Deus, segundo o resumo de Battista Mondin:
1ª (via) Fluir (movimento): o que se move deve, em última instância, ser
movido por um princípio que não seja movido por outros.

2ª (via) Causalidade segunda: as causas segundas devem ser causadas por


uma causalidade primeira.

3ª (via) Contingência (necessidade): o possível deve receber o ser de um


ser per si necessário, que não tire dos outros sua própria necessidade.

4ª (via) Graus de perfeição (ética ou moral): os graus devem receber a


perfeição de um grau máximo, causa da perfeição de todos os seres.

5ª (via) Finalismo (teleológico): exige a inteligência de um ser que ordene


todas as coisas para um fim.

Deus é, portanto, o motor imóvel, a causa incausada, o ser necessário, o


sumamente perfeito e a inteligência organizadora suprema. (Os números
e as palavras em parêntesis são nossos. MONDIN, 1997, p. 229-243,
apud MATTAR, 2010, p. 114.).

“Teleológica” é palavra de origem grega formada pela união de “Telos” (fim ou finalidade)
Explor

+ “lógica” (verbo, discurso, estudo) que significa “estudo da finalidade”. O caráter teleológico
do argumento aponta a finalidade, o fim ou o objetivo para como as coisas são ordenadas.

A aposta Pascal
Blaise Pascal (1623-1662) é de natureza bastante diversa dos demais. Trata-se
de uma demonstração das vantagens e desvantagens que uma pessoa pode ter se
acreditar ou não na existência de Deus. O pressuposto é a ideia de salvação para o
crente e de condenação para o não crente. A lógica é pragmática e põe o sujeito
não mais diante de uma demonstração dos atributos inerentes à natureza de Deus
para provar a sua existência, mas diante de uma aposta existencial em que se pode
ter menos prejuízo e viver com mais segurança matematicamente provada quando
se crê na existência de Deus.

18
Examinemos, pois, esse ponto, e digamos: Deus é, ou não é. Mas, para
que lado penderemos? A razão nada pode determinar aí. Há um caos
infinito que nos separa. Na extremidade dessa distância infinita, joga-se
cara ou coroa. Que apostareis? Pela razão, não podeis defender nem uma
nem outra coisa (PASCAL, 2002).

Em resumo, o argumento pode ser disposto nas seguintes possibilidades


para o apostador:
1ª) Crença em Deus: se Ele não existe então há engano, mas nenhuma
perda ou condenação.

2ª) Crença em Deus: se Ele existe então há acerto e ganho: a salvação.

3ª) Descrença: se Ele não existe então há acerto e nenhuma condenação.

4ª) Descrença: se Ele existe então há engano e condenação.

Diante dessas quatro possibilidades, Pascal prefere indicar a crença em Deus


como a aposta mais segura, sendo aquela em que não se perde nada. O seu
argumento neste sentido, não é uma defesa da existência de Deus, segundo uma
razoabilidade do ser de Deus, mas das implicações pragmáticas e existenciais de
nossa crença e descrença; caso Ele seja ou não um ser existente.

Evidentemente que no argumento de Pascal está pressuposto todo o imaginário


de Deus condicionado pela pregação da religião cristã que predominava na
sociedade de seu tempo. Veja como algo semelhante também ocorre com Kant,
apesar de todo o seu esforço de crítica com base na razão.

O argumento ético da razão prática de Kant


O argumento de Immanuel Kant (1724-1804), segundo sua obra A religião
nos limites da simples razão (2006), também é de ordem pragmática como o
de Pascal, mas a defesa é feita de outra maneira. Kant admite que pela via do
conhecimento não é possível saber se Deus existe, pois sua natureza, se for um ser
existente, está fora de nossas capacidades racionais de conhecê-lo. Desse modo,
Kant chega à existência de Deus pela via da necessidade ética.

O argumento se desenvolve assim: há uma razão teórica cuja função é o


conhecimento da realidade. Segundo essa razão, não é possível saber se Deus
existe, pois o ser de Deus estaria além dos limites do conhecimento racional que
é, por sua vez, condicionado por suas próprias estruturas categóricas e intuitivas,
dentre elas, o tempo e o espaço. Mas há uma razão prática, isto é, uma razão que
impõe o agir correto e que independe de motivação ou objetivos do sujeito, caso
contrário não seria razão objetiva, universal e, portanto, racional. É na garantia
dessa ética racional prática que está implícita e pressuposta a existência de Deus.
Se há leis objetivas da racionalidade para o bom agir, há igualmente um ser perfeito
racionalmente que é o fundamento, a causa e a garantia de recompensa para quem
assim age. Este ser é Deus.

19
19
UNIDADE O Problema de Deus

Só um ser sumamente inteligente e racional pode prover como causa uma ética
racional, objetiva e universal. A equivalência ou harmonia entre justiça, virtude e
felicidade está subjetivamente pressuposto em Deus. Portanto, para Kant, Deus
existe como pressuposto da ética, mas não pode ser provado segundo as regras da
lógica racional teórica e dedutiva.

Argumentos Filosóficos Contra a Existência


de Deus
Autores que defendem a inexistência de Deus são inúmeros. Diderot (1713-
1784), Voltaire (1694-1778), Comte (1798-1857), Schopenhauer (1788-1860),
Russel (1872-1970), Adorno (1906-1969), Marcuse (1898-1979), Horkheimer
(1895-1973) e Sartre (1905-1980) são apenas alguns dos mais conhecidos na
história recente da filosofia. Ludwig Feuerbach (1804-1872) e Karl Marx (1818-
1883) são fundamentais na produção da crítica social muito presente nas ciências
humanas em geral, mas, sobretudo nas ciências sociais. Por isso, eles serão objeto
de análise na Unidade sobre a função social da religião. Sigmund Freud (1856-
1939) e Richard Dawkins (1941-) mereceriam um comentário pela popularidade,
contundência e contemporaneidade de seus ataques à religião. Suas críticas, embora
tenham alcance em todas as áreas, estão mais próximas da postura científica que
da filosófica, uma vez que eles representam tendências fundadas no predomínio da
psicologia (Freud) e das ciências naturais, especificamente da biologia (Dawkins).
Explor

Para entender a crítica de Freud à religião consulte sua obra O futuro de uma ilusão
(FREUD, 1997); para compreender o pensamento e as críticas de Dawkins, cf. Deus um
delírio (2006).

Contudo, selecionamos dois autores da filosofia que marcaram profundamente


o pensamento ateu que continua a influenciar direta e indiretamente os críticos das
crenças religiosas de nosso tempo. São eles: David Hume e Friedrich Nietzsche.
Explor

Para uma consulta mais abrangente sobre o ateísmo sugiro consulto ao site da ATEA -
ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE ATEUS E AGNÓSTICOS: http://www.atea.org.br/

O argumento de Hume contra a existência de Deus


David Hume (1711-1776) em sua obra Diálogos sobre a religião natural
(1992), através do diálogo entre dois personagens, Cleantes e Fílon, apresenta o
argumento cosmológico que defende a existência de Deus como um design criador
inteligente, é refutado sob o pretexto de que primeiro o mundo não apresenta
uma ordem tão perfeita e regular quanto parece à primeira vista para supor um
ser inteligente; segundo porque a própria analogia do designer, a partir do ser
humano não é adequada para referir-se a uma pressuposta perfeição divina.

20
Como conclusão ao argumento de Hume, é oportuno o comentário de Tilghman:
Talvez não fosse uma atitude sábia negar categoricamente que possa
haver um argumento coerente em favor da existência de Deus, mas é
parte da sabedoria admitir que há muito contra essa possibilidade. Há
quem ocasionalmente julgue isso um ataque à religião, como se apontar o
fracasso dos vários argumentos equivalesse a negar a existência de Deus.
Trata-se de um sério erro lógico. O fato de um argumento ser incoerente,
seja ele formalmente inválido ou tenha premissas falsas, nada nos diz
acerca da verdade ou da falsidade de sua conclusão. Argumentos inválidos
ou incoerentes podem ter conclusões verdadeiras. Se os vários argumentos
fracassam, tudo o que nos é permitido concluir é simplesmente que não
se pode chegar a Deus desse modo, e não que não haja um Deus ao qual
se chegar (TILGHMAN, 1996, p. 86).

Como você pôde observar, com Hume e mais tarde com Kant, há uma
desconstrução crítica dos argumentos lógicos anteriores que tentaram provar
a existência de Deus através de raciocínios dedutivos. O que sobrou foram as
provas indutivas, aquelas que partem da observação sensível que se faz através de
evidências empíricas. Mas estas, quando não se considera a fé religiosa, não levam
com certeza e objetividade a Deus, uma vez que, se Ele existe, está além dos limites
de nossa observação material. A partir daí o materialismo, típico da metodologia
científica adotou a negação ou a ignorância do problema da existência de Deus.

A filosofia de Augusto Comte (1798-1857) como base teórica para o positivismo científico
Explor

(cujo valor de verdade precisa passar pelo crivo da evidência experimental) é herdeira dessa
postura ateia, bem como a filosofia analítica ou da linguagem de Ludwig Wittgenstein
(1889-1951), ambas seguem a mesma lógica, relegando a religião à dimensão das
necessidades subjetivas, sem a consistência de uma realidade que passe pelo critério da
prova experimental.

“A morte de Deus” em Nietzsche


O filósofo Friedrich Nietzsche (1844-1900) é o ponto alto do ateísmo moderno e
o ponto de partida para ateísmo contemporâneo. Nele estão dadas as consequências
do ateísmo dos filósofos iluministas que usaram os argumentos racionais para negar
os argumentos metafísicos de ordem lógica e dedutiva na defesa da existência
de Deus. Hume e Kant fizeram esse trabalho de desconstrução filosófica desde o
ponto de vista da lógica e da teoria do conhecimento, enquanto outros fizeram o
trabalho de descontração social, religiosa e política. Karl Marx é um expoente da
crítica ateia desde a função ideológica e social das crenças religiosas. Nietzsche, por
sua vez, se situa na dimensão da crítica ético-moral das crenças em Deus.

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UNIDADE O Problema de Deus

O ponto de vista de Nietzsche é o da teoria dos valores, segundo o que ele


chama de genealogia da moral. Deus é o fundamento da moralidade como negação
e castração dos instintos de vida e do que ele denominou de vontade de potência. O
bem e o mal são criações da vontade de poder humana e subsiste no humano, não
em Deus. Sua reflexão é voltada para a crítica da moralidade cristã como negação
da vida e da subjugação do poder humano de legislar por si mesmo o que é bem e
o que é mal.

Neste sentido, a famosa proclamação de Nietzsche sobre a morte de Deus na


obra A Gaia Ciência, não precisa de argumentação, ela é apenas a constatação do
esgotamento do papel e da fé em Deus na civilização moderna.
Não ouviste falar daquele homem louco que, em plena manhã clara,
acendeu um candeeiro, correu para o mercado e gritava incessantemente:
Estou procurando Deus! Estou procurando Deus! Então como lá se
reunissem justamente muitos daqueles que não acreditavam em Deus,
provocou ele então grande gargalhada. […] O homem louco saltou em
meio a eles e disse: nós o matamos, vós e eu! (…) Não sentimos o cheiro
da putrefação divina? – também os deuses apodrecem! Deus está morto!
Deus permanece morto! E quem o matou fomos nós! Como haveremos
de nos consolar, nós os algozes dos algozes? O que o mundo possuiu, até
agora, de mais sagrado e mais poderoso sucumbiu exangue aos golpes
das nossas lâminas. Quem nos limpará desse sangue? Qual a água que
nos lavará? Que solenidades de desagravo, que jogos sagrados haveremos
de inventar? A grandiosidade deste acto não será demasiada para nós?
Não teremos de nos tornar nós próprios deuses, para parecermos apenas
dignos dele? Nunca existiu acto mais grandioso, e, quem quer que nasça
depois de nós, passará a fazer parte, mercê deste acto, de uma história
superior a toda a história até hoje! (NIETZSCHE, 2012, § 125)

Trata-se de uma civilização marcada pelas seguintes características: autonomia


da razão e a independência do sujeito; pela crítica do pensamento científico aos
modelos tradicionais de explicação do mundo e pelo recrudescimento e descrédito
das instituições cristãs cada vez mais apegadas aos valores e aos dogmas da tradição.
Num mundo assim a crença em Deus estava cada vez mais ausente do horizonte
da cultura, da economia, da política, da educação e da organização social como
um todo. As práticas do mundo capitalista emergente da sociedade moderna,
sobretudo europeia, dos séculos XVIII e XIX prescindem de Deus. A sociedade
organiza o fluxo de seu cotidiano e a dinâmica da produção e reprodução da vida
sem a necessidade da legitimação religiosa e muito menos da crença em Deus.
Portanto, Deus está morto. Este é o sentido da sentença de Nietzsche. Ele não
precisou se justificar. No entanto, a polêmica sobre a morte de Deus está presente
até hoje no debate filosófico.

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Conclusão
O problema de Deus é um tema que permanece inconcluso e aberto na Filosofia
da Religião. O debate não acabou e os argumentos não parecem esgotar o campo
das possibilidades do pensamento crítico. Do ponto de vista da Filosofia persiste
o desafio de repensar e de atualizar os conceitos tradicionais sobre Deus e de
reinterpretar o legado cultural que nos foi transmitido a esse respeito.

Fé e razão não precisam ser coincidentes. Com certeza, são distintas, mas isso
não significa que devam ser contraditórias. Preservar a autonomia de ambas é o
melhor caminho para o diálogo entre filosofia e religião.

A filosofia pode ser um instrumento obediente, fiel e dependente da fé religiosa


como também pode ser um instrumento autônomo de crítica e de autocrítica ao
imaginário religioso sobre Deus. Na primeira hipótese, a Filosofia da Religião pode
apaziguar os conflitos do crente com sua fé, mas de fato neste caso não se faz
verdadeira filosofia. Por outro lado, na segunda hipótese, as consequências da
reflexão filosófica podem não reproduzir e coincidir com as crenças da fé religiosa,
mas só nesta condição se faz autêntica filosofia.

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UNIDADE O Problema de Deus

Material Complementar
Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade:

  Sites
36 argumentos para a existência de Deus. Ou contra…
https://goo.gl/t2rBna

 Vídeos
Cazuza - Cobaias de Deus
https://youtu.be/K0IItTbk-YU
Cazuza Azul e Amarelo legendado
https://youtu.be/GBT5GjeweqI
Debate: Deus Existe? William Lane Craig vs Christopher Hitchens - Legendado (Português) - Completo*
https://youtu.be/mgLhRmUV0mM

 Filmes
Deus não está morto
Assista ao filme “Deus não está morto”. Saiba que é um filme de defesa da crença
na existência de Deus com alguns clichês muito comuns de religiosos em relação aos
ateus. Evidentemente que há formas distintas de se defender a existência de Deus sem
cair no preconceito contra os ateus. Entretanto, sugerimos esse filme como material
complementar porque ele acaba mostrando como o debate em torno do tema sobre
a existência de Deus tem características bastante emocionais. Os argumentos, tanto
aqueles que são postulados pelos ateus, quanto os que expressam as ideias do teísta,
provam apenas o que de fato eles de antemão já admitem acreditar. Observe que
quando não se distingue a lógica da fé religiosa da razão argumentativa filosófica, e
estas das evidências científicas, o discurso acaba escondendo na verdade intolerância e
dogmatismo. Filme: Deus não está morto. Direção: Harold Cronk, com Shane Harper,
Kevin Sorbo, David A. R. White. EUA, 2014, Drama.
https://goo.gl/QdK6Bo

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Referências
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Os pensadores). 414p.

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Luiz Archanjo. São Paulo: Editora Cultrix, s/d. 392p.

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FERREIRA, Pedro Guimarães. O Argumento Ontológico para a Existência de


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GORKI, Máximo. Mãe. São Paulo: Abril Cultural, 1982.

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https://leandromarshall.files.wordpress.com/2012/05/david-hume-dic3a1logos-
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Mioranza. São Paulo: Escala Educacional, 2006. 191p.

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MATTAR, João. Introdução à Filosofia. São Paulo: Pearson Prentice Hal, 2010.
341p.

NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. A Gaia ciência. Tradução Paulo César de Souza.


1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

PASCAL, Blaise. Pensamentos. ARTIGO II: O que é mais vantajoso: acreditar


ou não acreditar na religião cristã? 2002. Versão para eBooksBrasil.org.

Fonte Digital: www.ngarcia.org. Disponível em http://www.ebooksbrasil.org/


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WILKINSON, Michael B. e CAMPBELL, Hugh N. Filosofia da Religião. Uma


introdução. Tradução Anoar Jarbas Provenzi. São Paulo: Paulinas, 2014. 480p.

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