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Psicoterapias Cognitivo-Comportamentais: um diálogo com a psiquiatria – Cap 8 –

Psicopatologia e adaptação – Origens evolutivas dos transtornos psicológicos

A perspectiva evolucionista considera o funcionamento mental humano como adaptação às condições


ambientais encontradas pelas populações ancestrais e nas quais a espécie teve que sobreviver.
Justifica-se encarar muitos sintomas como relacionados à ativação de mecanismos de defesa que teriam
sido selecionados pela evolução em resposta a situações de perigo ou ameaças à sobrevivência. O
primeiro objetivo deste capítulo é apresentar alguns desses comportamentos de defesa e seu percurso
evolutivo na espécie humana.
O segundo objetivo aqui visado é apresentar suposições evolucionistas sobre as psicopatologias
apontando seu valor heurístico para a proposição de técnicas terapêuticas voltadas para uma
abordagem cognitivo-comportamental.
Um conceito central para se compreender o evolucionismo é o de adaptação, definido como uma
característica desenvolvida ou herdada que se espalha entre os membros da espécie porque ajudou
direta ou indiretamente na sobrevivência e na reprodução.
A consequência da adaptação é uma modificação relativamente duradoura nas estruturas orgânicas ou
mentais.
A perspectiva da modularidade tem ajudado a compreender certos comportamentos. Por exemplo,
podemos manifestar pânico por estarmos em uma sala de teatro, e não em uma sala de cinema.
Podemos ter medo de elevador e ficarmos tranquilos em um avião. Isso parece dar apoio empírico à
ideia de que há mecanismos mentais que mantêm independência e autonomia entre si. Visto que cada
módulo processa diferentes aspectos de um problema adaptativo, podem ocorrer circunstâncias nas
quais o resultado apresentado por um se mostra contraditório com o outro.
Para Beck (1999), as crenças permitem uma dentre as possíveis leituras da realidade. O sistema de
crenças não se constitui para ser estritamente preciso, mas funciona para promover respostas que
eliminam conflitos. Distorcer a realidade, em certos contextos, pode ser mais vantajoso do que promover
a leitura acurada dela. A seleção natural teria esculpido mecanismos mentais que distorcem a
experiência consciente, promovendo inclusive o autoengano.
grande parte dos transtornos surge, em geral, de situações nas quais há conflito social. O convívio social
possibilitou nossa sobrevivência e o custo disso foi lidar com conflitos interpessoais, nos quais
costumam ocorrer acusações e ameaças; além de envolverem gastos consideráveis de energia
emocional.
Ao longo do processo evolutivo, os indivíduos se depararam com situações que desafiavam a
capacidade de sobrevivência. Aqueles cuja tendência genética possibilitou adaptações que fizeram
frente a tais situações puderam sobreviver e deixar descendentes. As emoções cumpriram um papel
fundamental nesse processo, pois permitiram respostas rápidas dos organismos, mesmo ao preço de
serem imprecisas na avaliação inicial da situação.
Além de indicarem um problema, os sintomas constituem, eles próprios, uma tentativa de solução
orgânica. O calor da febre, por exemplo, tem função de liberar substâncias que permitirão ao corpo se
defender ajudando na eliminação de microrganismos invasores indesejáveis, contribuindo para renovar e
fortalecer o organismo.
Para Beck (1999), em termos da terapia cognitiva, esquemas e suposições funcionam como
mecanismos de defesa. Por vezes, esses esquemas distorcem aspectos da realidade e quando isso
persiste por muito tempo, à semelhança do que fazem os sintomas orgânicos duradouros, acabam por
tornar crônicos os transtornos e as patologias.
Os indivíduos apresentam diferentes graus de propensão para fazerem distorções cognitivas. Isso
caracterizaria a “vulnerabilidade cognitiva”, ou seja, a predisposição do indivíduo para síndromes
específicas.
A evolução via seleção é um processo extremamente lento. As mudanças que ocorrem nas estruturas
mentais levam muito mais tempo do que aquelas que acontecem nos ambientes físicos. Para que
venham a integrar o repertório da espécie, é preciso que os comportamentos tenham solucionado
recorrentes problemas de sobrevivência e de reprodução e que isso tenha se repetido ao longo do
tempo e se espalhado entre os membros do grupo. Já as mudanças ambientais decorrentes da ação
humana, em geral, ocorrem rapidamente e não precisam de muitas repetições para se estabelecer.
Para compreender o comportamento à luz de uma perspectiva evolucionista, há que se considerar dois
níveis de análise propostos por Niko Tinbergen, em 1963 (Buss, 2000). O primeiro visa identificar as
causas próximas ou os determinantes imediatos dos comportamentos, que podem ser internos
(fisiológicos) ou externos (sociais e ambientais). As perguntas que norteiam essa busca são:
a) Por que uma pessoa se comportou de determinada maneira em uma situação?
b) Como o comportamento se desenvolveu?
O segundo nível de análise objetiva descobrir quais as causas finais (últimas) ou funcionais dos
comportamentos. As questões que aqui se colocam são:
c) Qual o valor de sobrevivência do comportamento em questão?
d) Como ele evoluiu ou qual sua história filogenética? A explicação evolucionista do comportamento
deve oferecer respostas tanto para as causas últimas quanto para as causas pró ximas (Nesse, 1999).
Importa saber como os comportamentos foram sendo selecionados por seu valor de sobrevivência e
quais seriam os adaptados às atuais circunstâncias.
Como destaca Buss (2000), a variação, a hereditariedade e a seleção constituem os ingredientes
fundamentais da evolução. Os organismos diferem uns dos outros em termos de tamanho, força,
habilidades, resistência, inteligência, etc., e isso é a matéria prima sobre a qual a evolução opera. Muitas
variações podem passar de pais para filhos através das gerações.
Para entender o que somos, ou como a mente humana funciona, devemos levar em consideração uma
complexa interação entre mecanismos evoluídos, a aprendizagem e um ambiente sociocultural definido.
O ambiente pode ligar ou desligar um gene (LeDoux, 2002). A maneira pela qual os genes são
expressos varia em função da experiência, pois é esta que dá forma final à biologia. A perspectiva
evolucionista é interacionista, não determinista. Gilbert (2004a) assinala que os transtornos de
personalidade são fortemente influenciados pelos genes; mas, reconhecendo também a importância da
experiência, destaca que é comum os portadores dessas psicopatologias apresentarem uma história de
abuso e hostilidade.
As emoções negativas, tais como ansiedade e depressão, também desempenham papel importante em
nossa sobrevivência. Isso porque a capacidade imaginativa que nos permite planejar e criar mundos
possí veis é a que dá origem à cultura e à ciência. E também a que nos leva a ruminar coisas negativas,
ativando sistemas de estresse na área límbica que produzem cortisol e mantêm esses pensamentos e
sentimentos. Nossa imaginação pode originar tanto a arte quanto o sofrimento (Gilbert, 2004a).
Compreender o significado adaptativo do desânimo e da depressão nem sempre melhora nossa
capacidade de prevenir e aliviar tais sintomas, que são normais, mas desnecessários por tempo
prolongado. Cabe ainda lembrar que no quadro de depressão há a desregulação de aspectos cerebrais;
e a compreensão da origem e da utilidade do humor deprimido não ameniza a gravidade desse
problema.
Interagir socialmente ajuda a promover coalizões entre os membros do grupo. Um indivíduo pode não
ser o mais forte fisicamente, mas se tiver habilidade para estabelecer alianças acaba por receber
proteção de membros mais poderosos. Aí é que reside um ponto fundamental da vida em grupo: a
inteligência social. Ela permite construir articulações necessárias possibilitando que uma pessoa venha a
assumir posição estratégica e com isso obter apoio social e recursos. As condutas bem-sucedidas
socialmente envolvem um sistema mental complexo capaz de realizar uma análise, congruente com
nossos sistemas de crença, sobre a personalidade dos agentes envolvidos e sobre custos e habilidades
sociais requeridos em relação ao que está em questão.
Crow (2008) apresenta uma hipótese sobre a origem da esquizofrenia. Independentemente de estar
certa, sua tese nos leva a refletir sobre causas últimas: por que a esquizofrenia se mantém se está
associada a uma desvantagem reprodutiva? Para Crow existe a possibilidade de este transtorno estar
relacionado com a linguagem humana. A esquizofrenia seria o preço a pagar pela aquisição da
linguagem, originada a partir de uma mutação que teria permitido a especialização hemisférica e a
assimetria cerebral. Comparando com a população, o desenvolvimento da assimetria seria mais lento
em esquizofrênicos (Crow, Done, Sacker, 1996).
Como se vê, os mecanismos mentais adaptativos evoluídos são produto do processo seletivo e de
maneira direta ou indireta contribuíram para a sobrevivência e a reprodução. É como se os
descendentes tivessem herdado a chave certa para abrir a porta do sucesso adaptativo alcançado pelos
ancestrais em tarefas como sobreviver, reproduzir, escolher parceiros, etc. De acordo com essa visão
evolucionista, as patologias emergiram de mecanismos que teriam sido adaptativos em certos contextos.
A função deles seria a defesa, possibilitando comportamentos que removessem o perigo. As principais
estratégias consistem em fugir, intimidar, lutar, fingir-se de morto; essas condutas são reguladas pelo
hipotálamo, pela hipófise e pelas áreas límbicas, como a amígdala, conferindo proteção ou minimizando
perdas em casos de danos (LeDoux, 2002).
Um dos mecanismos destacados pelo darwinismo, e que funciona como matéria prima do processo
evolutivo, é o das diferenças individuais. Pensando nas patologias, deve-se considerar que praticamente
todos os membros de uma espécie são vulneráveis às doenças.
É de se esperar, por exemplo, que os indivíduos com esquemas de vulnerabilidade ou de abandono
expressem estratégias sociais e comportamentais moduladas pelo tipo de apego e pelas experiências.
Essas pessoas podem buscar apego estável, suscitar cuidado e apoio, mas devido ao tipo de vínculo
inicial podem ser muito sensí veis a rejeições ou a falhas nos esquemas de investimento dos outros.
Podem se sentir em posições inferiores e adotar comportamentos defensivos. O apego seguro facilita a
formação de alianças sociais nas quais a ajuda mútua é adaptativa. As interações sociais ganham
importância e, para isso, são necessárias habilidades de empatia, leitura da mente dos outros, cuidado e
preocupação com os demais.
Expressam os comportamentos, incluídos os transtornos, alguma forma de adaptação? Pode ser
equivocado pensar que todas as condutas tenham um valor adaptativo oculto.
Em relação às psicopatologias é possí vel operar com essas hipóteses. Os sintomas dos transtornos de
ansiedade, por exemplo, seriam consequências do comportamento original que apresentava função
adaptativa. O mecanismo de verificação no transtorno obsessivo compulsivo, da mesma maneira, seria
um subproduto de uma conduta adaptativa. E o mesmo se podería dizer das demais psicopatologias
que, nesse sentido, seriam entendidas como subprodutos de comportamentos adaptativos. O problema
nesse caso é que a manutenção dos sintomas não teria função de remover o transtorno.

Fichamento do estágio: Atendimento Clínico na Abordagem Cognitiva


Supervisor: Edson Luiz Toledo
Giovanna S. Veroneze Spera RA: C0596C-2

Psicoterapias Cognitivo-Comportamentais: um diálogo com a psiquiatria – Cap 9 –


Conceitualização Cognitiva de Casos Adultos