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22/12/2014 Antiautoajuda para 2015 | Opinião | EL PAÍS Brasil

OPINIÃO

COLUNA

Antiautoajuda para 2015


Em defesa do mal-estar para nos salvar de uma vida morta e de um planeta hostil. Chega de
viver no modo avião

ELIANE BRUM 22 DIC 2014 - 10:54 BRST

Arquivado em: Opinião Indígenas Brasil Etnias América do Sul América Latina América
Sociedade

Não tenho certeza se esse ano vai acabar. Tenho uma
convicção crescente de que os anos não acabam mais. Não
há mais aquela zona de transição e a troca de calendário,
assim como de agendas, é só mais uma convenção que, se é
que um dia teve sentido, reencena­se agora apenas como
gesto esvaziado. Menos a celebração de uma vida que se
repactua, individual e coletivamente, mais como farsa. E
talvez, pelo menos no Brasil, poderíamos já afirmar que
2013 começou em junho e não em janeiro, junto com as
manifestações, e continua até hoje. Mas esse é um tema
para outra coluna, ainda por ser escrita. O que me interessa
aqui é que nossos rituais de fim e começo giram cada vez
mais em falso, e não apenas porque há muito foram
apropriados pelo mercado. Há algo maior, menos fácil de
perceber, mas nem por isso menos dolorosamente presente.
Algo que pressentimos, mas temos dificuldade de nomear.
Algo que nos assusta, ou pelo menos assusta a muitos. E,
por nos assustar, em vez de nos despertar, anestesia. Talvez
para uma época de anos que, de tão acelerados, não
terminam mais, o mais indicado seja não resoluções de
ano­novo nem manuais sobre ser feliz ou bem sucedido,
mas antiautoajuda.

Quando as pessoas dizem que se

sentem mal, que é cada vez mais difícil levantar da cama
pela manhã, que passam o dia com raiva ou com vontade de
chorar, que sofrem com ansiedade e que à noite têm
dificuldade para dormir, não me parece que essas pessoas
estão doentes ou expressam qualquer tipo de anomalia. Ao
contrário. Neste mundo, sentir­se mal pode ser um sinal
claro de excelente saúde mental. Quem está feliz e saltitante
como um carneiro de desenho animado é que talvez tenha
sérios problemas. É com estes que deveria soar uma sirene
e por estes que os psiquiatras maníacos por medicação
deveriam se mobilizar, disparando não pílulas, mas
joelhaços como os do Analista de Bagé, do tipo “acorda e se
liga”. É preciso se desconectar totalmente da realidade para
não ser afetado por esse mundo que ajudamos a criar e que
nos violenta. Não acho que os felizes e saltitantes sejam
mais reais do que o Papai Noel e todas as suas renas, mas,
se existissem, seriam estes os alienados mentais do nosso
tempo.

Olho ao redor e não todos, mas quase, usam algum tipo de

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medicamento psíquico. Para dormir, para acordar, para
ficar menos ansioso, para chorar menos, para conseguir
trabalhar, para ser “produtivo”. “Para dar conta” é uma
expressão usual. Mas será que temos de dar conta do que
não é possível dar conta? Será que somos obrigados a nos
submeter a uma vida que vaza e a uma lógica que nos
coisifica porque nos deixamos coisificar? Será que não dar
conta é justamente o que precisa ser escutado, é nossa
porção ainda viva gritando que algo está muito errado no
nosso cotidiano de zumbi? E que é preciso romper e não se
adequar a um tempo cada vez mais acelerado e a uma vida
não humana, pela qual nos arrastamos com nossos olhos
mortos, consumindo pílulas de regulação do humor e
engolindo diagnósticos de patologias cada vez mais
mirabolantes? E consumindo e engolindo produtos e
imagens, produtos e imagens, produtos e imagens?

Neste mundo, sentir-se mal é A resposta não está dada. Se


sinônimo de excelente saúde estivesse, não seria uma
resposta, mas um dogma. Mas,
mental
se a resposta é uma construção
de cada um, talvez nesse
momento seja também uma construção coletiva, na medida
em que parece ser um fenômeno de massa. Ou, para os que
medem tudo pela inscrição na saúde, uma das marcas da
nossa época, estaríamos diante de uma pandemia de mal­
estar. Quero aqui defender o mal­estar. Não como se ele
fosse um vírus, um alienígena, um algo que não deveria
estar ali, e portanto tornar­se­ia imperativo silenciá­lo.
Defendo o mal­estar – o seu, o meu, o nosso – como aquilo
que desde as cavernas nos mantém vivos e fez do homo
sapiens uma espécie altamente adaptada – ainda que
destrutiva e, nos últimos séculos, também autodestrutiva. É
o mal­estar que nos diz que algo está errado e é preciso se
mover. Não como um gesto fácil, um preceito de autoajuda,
mas como uma troca de posição, o que custa, demora e
exige os nossos melhores esforços. Exige que, pela manhã, a
gente não apenas acorde, mas desperte.

Anos atrás eu escreveria, como escrevi algumas vezes, que o
mal­estar desta época, que me parece diferente do mal­
estar de outras épocas históricas, se dá por várias razões
relacionadas à modernidade e a suas criações concretas e
simbólicas. Se dá inclusive por suas ilusões de potência e
fantasias de superação de limites. Mas em especial pela
nossa redução de pessoas a consumidores, pela subjugação
de nossos corpos – e almas – ao mercado e pela danação de
viver num tempo acelerado.

Sobre essa particularidade, a psicanalista Maria Rita Kehl
escreveu um livro muito interessante, chamado O Tempo e
o Cão (Boitempo), em que reflete de forma original sobre o
que as depressões expressam sobre o nosso mundo também
como sintoma social. Logo no início, ela conta a experiência
pessoal de atropelar um cachorro na estrada – e a
experiência aqui não é uma escolha aleatória de palavra.
Kehl viu o cachorro, mas a velocidade em que estava a
impedia de parar ou desviar completamente dele.
Conseguiu apenas não matá­lo. Logo, o animal,
cambaleando rumo ao acostamento, ficou para trás no

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espelho retrovisor. É isso o que acontece com as nossas
experiências na velocidade ditada por essa época em que o
tempo foi rebaixado a dinheiro – uma brutalidade que
permitimos, reproduzimos e com a qual compactuamos
sem perceber o quanto de morte há nessa conversão.

Sobre a aceleração, diz a Defendo o mal-


psicanalista: “Mal nos damos
estar como aquilo
conta dela, a banal velocidade da
vida, até que algum mau que nos mantém
encontro venha revelar a sua vivos desde as
face mortífera. Mortífera não cavernas
apenas contra a vida do corpo,
em casos extremos, mas
também contra a delicadeza inegociável da vida psíquica.
(...) Seu esquecimento (do cão) se somaria ao apagamento
de milhares de outras percepções instantâneas às quais nos
limitamos a reagir rapidamente para em seguida, com igual
rapidez, esquecê­las. (...) Do mau encontro, que poderia ter
acabado com a vida daquele cão, resultou uma ligeira
mancha escura no meu para­choque. (...) O acidente da
estrada me fez refletir a respeito da relação entre as
depressões e a experiência do tempo, que na
contemporaneidade praticamente se resume à experiência
da velocidade”. O que acontece com as manchas escuras,
com o sangue deixado para trás, dentro e fora de nós? Não
são elas que nos assombram nas noites em que ofegamos
antes de engolir um comprimido? Como viver
humanamente num tempo não humano? E como aceitamos
ser submetidos à bestialidade de uma vida não viva?

Hoje me parece que algo novo se impõe, intimamente
relacionado a tudo isso, mas que empresta uma concretude
esmagadora e um sentido de urgência exponencial a todas
as questões da existência. E, apenas nesse sentido, algo
fascinante. A mudança climática, um fato ainda muito mais
explícito na mente de cientistas e ambientalistas do que da
sociedade em geral é esse algo. A evidência de que aquele
que possivelmente seja o maior desafio de toda a história
humana ainda não tenha se tornado a preocupação maior
do que se chama de “cidadão comum” é não uma mostra de
sua insignificância na vida cotidiana, mas uma prova de sua
enormidade na vida cotidiana. É tão grande que nos
tornamos cegos e surdos.

Como nos submetemos a Em uma entrevista recente, aqui


viver num tempo acelerado e publicada como “Diálogos sobre
o fim do mundo”, o antropólogo
não humano?
Eduardo Viveiros de Castro
evoca o pensador alemão
Günther Anders (1902­1992) para explicar essa alienação.
Anders afirmava que a arma nuclear era uma prova de que
algo tinha acontecido com a humanidade no momento em
que se mostrou incapaz de imaginar os efeitos daquilo que
se tornou capaz de fazer. Reproduzo aqui esse trecho da
entrevista: “É uma situação antiutópica. O que é um
utopista? Um utopista é uma pessoa que consegue imaginar
um mundo melhor, mas não consegue fazer, não conhece os
meios nem sabe como. E nós estamos virando o contrário.
Nós somos capazes tecnicamente de fazer coisas que não

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somos nem capazes de imaginar. A gente sabe fazer a
bomba atômica, mas não sabe pensar a bomba atômica. O
Günther Anders usa uma imagem interessante, a de que
existe essa ideia em biologia da percepção de fenômenos
subliminares, abaixo da linha de percepção. Tem aquela
coisa que é tão baixinha, que você ouve mas não sabe que
ouviu; você vê, mas não sabe que viu; como pequenas
distinções de cores. São fenômenos literalmente
subliminares, abaixo do limite da sua percepção. Nós,
segundo ele, estamos criando uma outra coisa agora que
não existia, o supraliminar. Ou seja, é tão grande, que você
não consegue ver nem imaginar. A crise climática é uma
dessas coisas. Como é que você vai imaginar um troço que
depende de milhares de parâmetros, que é um
transatlântico que está andando e tem uma massa inercial
gigantesca? As pessoas ficam paralisadas, dá uma espécie
de paralisia cognitiva”.

O fato de se alienar – ou, como fazem alguns, chamar
aqueles que apontam para o óbvio de “ecochatos”, a piada
ruim e agora também velha – nem impede a corrosão
acelerada do planeta nem a corrosão acelerada da vida
cotidiana e interna de cada um. O que quero dizer é que,
como todos os nossos gritos existenciais, o fato de negá­los
não impede que façam estragos dentro de nós. Acredito que
o mal­estar atual – talvez um novo mal­estar da civilização
– é hoje visceralmente ligado ao que acontece com o
planeta. E que nenhuma investigação da alma humana
desse momento histórico, em qualquer campo do
conhecimento, possa prescindir de analisar o impacto da
mudança climática em curso.

De certo modo, na acepção popular do termo “clima”,
referindo­se ao estado de espírito de um grupo ou pessoa,
há também uma “mudança climática”. Mesmo que a
maioria não consiga nomear o mal­estar, desconfio que a
fera sem nome abra seus olhos dentro de nós nas noites
escuras, como o restante dos pesadelos que só temos
quando acordados. Há esse bicho que ainda nos habita que
pressente, mesmo que tenha medo de sentir no nível mais
consciente e siga empurrando o que o apavora para dentro,
num esforço quase comovente por ignorância e anestesia. E
a maior prova, de novo, é a enormidade da negação,
inclusive pelo doping por drogas compradas em farmácias e
“autorizadas” pelo médico, a grande autoridade desse
curioso momento em que o que é doença está invertido.

São Paulo é, no Brasil, a vitrine O novo mal-estar


mais impressionante dessa
da civilização está
monumental alienação. A maior
cidade do país vem se tornando hoje ligado à
há anos, décadas, um cenário de mudança climática
distopia em que as pessoas
evoluem lentamente entre
carros e poluição, encurraladas e cada vez mais violentas
nos mínimos atos do dia a dia. No último ano, a seca e a
crise da água acentuaram e aceleraram a corrosão da vida,
mas nem por isso a mudança climática e todas as questões
socioambientais relacionadas a ela tiveram qualquer
impacto ou a mínima relevância na eleição estadual e

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principalmente na eleição presidencial. Nada. A maioria,
incluindo os governantes, sequer parece perceber que a
catástrofe paulista, que atinge a capital e várias cidades do
interior, é ligada também à devastação da Amazônia. O tal
“mundo como o conhecemos” ruindo e os zumbis
evolucionando por ruas incompatíveis com a vida sem
qualquer espanto. Nem por isso, ouso acreditar, deixam
sequer por um momento de ser roídos por dentro pela
exterioridade de sua condição. A vida ainda resiste dentro
de nós, mesmo na Zumbilândia. E é o mal­estar que acusa o
que resta de humano em nossos corpos.

É de um cientista, Antonio Nobre, um texto fundamental.
Ler “O futuro climático da Amazônia” não é uma opção.
Faça um favor a si mesmo e reserve uma hora ou duas do
seu dia, o tempo de um filme, entre na internet e leia as 40
páginas escritas numa linguagem acessível, que faz pontes
com vários campos do conhecimento. Há trechos de grande
beleza sobre a maior floresta tropical do planeta, território
concreto e simbólico sobre o qual o senso comum, no Brasil
alimentado pela propaganda da ditadura civil­militar,
construiu uma ideia de exploração e de nacionalismos que
só vigora até hoje por total desconhecimento. É também
por ignorância nossa que o atual governo, reeleito para
mais um mandato, comanda na Amazônia seu projeto
megalômano de grandes hidrelétricas com escassa
resistência. E causa, agora, neste momento, um desastre
ambiental de proporções não mensuradas em vários rios
amazônicos e o etnocídio dos povos indígenas da bacia do
Xingu.

A Amazônia sobreviveu por Antonio Nobre mostra como


50 milhões de anos a uma floresta com um papel –
insubstituível – na regulação do
meteoros e glaciações, mas
clima do Brasil e do planeta
em menos de 50 anos está teve, nos últimos 40 anos,
ameaçada por ação humana 762.979 quilômetros quadrados
desmatados: o equivalente a três
estados de São Paulo ou duas
Alemanhas. Ou o equivalente a mais de 12 mil campos de
futebol desmatados por dia, mais de 500 por hora, quase
nove por minuto. Somando­se a área de desmatamento
corte raso com a área degradada, alcançamos a estimativa
aterradora de que, até 2013, 47% da floresta amazônica
pode ter sido impactada diretamente por atividade humana
desestabilizadora do clima. “A floresta sobreviveu por mais
de 50 milhões de anos a vulcanismos, glaciações, meteoros,
deriva do continente”, escreve Nobre. “Mas em menos de
50 anos está ameaçada pela ação de humanos.” A Amazônia
dá forma ao momento da História em que a humanidade
deixa de temer a catástrofe para se tornar a catástrofe.

Como é possível que isso aconteça bem aqui, agora, e tão
poucos se importem? Se não despertarmos do nosso torpor
assustado, nossos filhos e netos poderão viver e morrer não
com a Amazônia transformada em savana, mas sim em
deserto, com gigantesco impacto sobre o clima do planeta e
a vida de todas as espécies. Para se ter uma ideia da
magnitude do que estamos fazendo, por ação ou por
omissão, por alienação, anestesia ou automatismo, alguns

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dados. Uma árvore grande transpira mais de mil litros de
água por dia. A cada 24 horas a floresta amazônica lança na
atmosfera, pela transpiração, 20 bilhões de toneladas de
água – ou 20 trilhões de litros de água. Para se ter uma
ideia comparativa, o rio Amazonas lança menos que isso –
cerca de 17 bilhões de toneladas de água por dia– no oceano
Atlântico. Não é preciso ser um cientista para imaginar o
que acontecerá com o planeta sem a floresta.

Nobre defende que já não basta zerar o desmatamento.
Alcançamos um nível de destruição em que é preciso
regenerar a Amazônia. A floresta não é o “pulmão do
mundo”, ela é muito mais do que isso: é o seu coração. Não
como uma frase ultrapassada e clichê, mas como um fato
científico. É o mundo e não só o Brasil que precisa se
engajar nessa luta: o cientista defende que, se não
quisermos alcançar o ponto de não retorno, deveríamos
empreender – já, agora – um esforço de guerra: começando
por uma guerra contra a ignorância. Fazer uma campanha
tão forte e eficaz como aquela contra o tabaco. Isso, claro,
se quisermos continuar a viver.

Nessa época de tanta conexão, Se não quisermos


em que a maioria passa quase
alcançar um ponto
todo o tempo de vigília
conectado na internet, há essa de não retorno, é
desconexão mortífera com a preciso deixar de
realidade do planeta – e de si. viver no modo
Como cidadão, a maioria no
avião
máximo recicla o seu lixo,
achando que está fazendo um
enorme esforço, mas não se informa nem participa dos
debates e das decisões sobre as questões do clima, da
Amazônia e do meio ambiente. Neste e em vários sentidos,
é como existir no “modo avião” do celular. Um estar pela
metade, o suficiente apenas para cumprir o mínimo e não
se desligar por completo. Um contato sem contato, um
toque que não toca nem se deixa tocar. Um viver sem vida.

É preciso sentir o mal­estar. Sentir mesmo – e não silenciá­
lo das mais variadas maneiras, inclusive com medicação.
Ou, como diz a pensadora americana Donna Haraway: “É
preciso viver com terror e alegria”.

Só o mal­estar pode nos salvar.

 
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção
Coluna Prestes ­ o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina
Quebrada, Meus Desacontecimentos e do romance Uma Duas. Site: elianebrum.com
Email: elianebrum.coluna@gmail.com Twitter: @brumelianebrum

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