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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

INSTITUTO DE ECONOMIA

DANIELA SALOMÃO GORAYEB

Grande Capital, Estado e Competitividade no Setor


Petroquímico: Lições da Experiência do Shale Gas nos
Estados Unidos

Campinas
2017
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS
INSTITUTO DE ECONOMIA

DANIELA SALOMÃO GORAYEB

Grande Capital, Estado e Competitividade no Setor


Petroquímico: Lições da Experiência do Shale Gas nos
Estados Unidos

Prof.ª Dr.ª Adriana Nunes Ferreira – orientadora

Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Econômicas


do Instituto de Economia da Universidade Estadual de Campinas para obtenção do título de
Doutora em Ciências Econômicas, área de concentração em Teoria Econômica.

ESTE EXEMPLAR CORRESPONDE À VERSÃO FINAL


DA TESE DEFENDIDA PELA ALUNA DANIELA
SALOMÃO GORAYEB, ORIENTADA PELA PROF.ª
DR.ª ADRIANA NUNES FERREIRA.

Campinas
2017
UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS
INSTITUTO DE ECONOMIA

DANIELA SALOMÃO GORAYEB

Grande Capital, Estado e Competitividade no Setor


Petroquímico: Lições da Experiência do Shale Gas nos
Estados Unidos

Prof.ª Dr.ª Adriana Nunes Ferreira – orientadora

Defendida em 28/09/2017

COMISSÃO JULGADORA

A Ata de Defesa, assinada pelos membros da


Comissão Examinadora, consta no processo de
vida acadêmica da aluna.
A Maria Carolina de Azevedo Ferreira de Souza (in
memoriam), pela sabedoria e alegria que sempre,
tão generosamente, conosco compartilhou.
A Beatriz e André, todo meu amor.
AGRADECIMENTOS

A graça, o colorido e a energia que obtive para essa minha jornada de pesquisa e elaboração
da tese se devem, em grande parte, ao encontro e convivência que tive com mulheres,
encaminhando a elas meus agradecimentos em primeiro lugar. As mulheres da FACAMP, da
UNICAMP, as mães da escola das crianças, as mulheres da luta política e de outros âmbitos
que me mostraram a força que a sororidade e o feminismo possuem para sustentar e ampliar
a potência de vida. Vou citar algumas aqui, ciente de que não explorarei todo esse universo
poderoso de mulheres com quem encontrei e com quem convivi.
À minha avó Zenaide, de quem ainda guardo as memórias muito frescas de um grande
exemplo de autonomia e coragem, agradeço.
À minha mãe, Lela, minha profunda gratidão pelo apoio fundamental e permanente, pelos
cuidados zelosos sem igual às crianças e a mim e ao atendimento imediato dos pedidos de
socorro por tantos anos. Estendo aqui também meus agradecimentos pela presença
constante e carinhosa da Fer, irmã e dinda querida, e da Miriana, irmã agregada que trouxe à
vida minha sobrinha, Giovana, tão esperada.
À Laura da Silva Pereira Cruz, meu braço direito, meu braço esquerdo... Meus infinitos
agradecimentos e toda a minha admiração pela sua inteligência, otimismo e sabedoria.
À Adriana Nunes Ferreira, minha orientadora, da tese e da vida. Sequer nosso apelido
carinhoso consegue revelar a profundidade e a verdade de meus sentimentos por ela.
Agradeço-a pela leitura cuidadosa desta tese e as conversas subsequentes, pela coragem de
ter me aceitado como orientanda em condições sensíveis, por importantes aprendizados que
obtive em trabalhos de pesquisa conjuntos, pela companhia e ajuda nos cuidados com as
crianças, e pelas perspectivas de longa e feliz parceria e amizade que temos à frente.
À profa. Liana Aureliano, diretora da FACAMP, cuja história e atuação me é sempre muito
inspiradora.
Às professoras Ana Lúcia Gonçalves da Silva, Lia Hasenclever, Adriana Marques da Cunha e
Marina Szapiro que aceitaram compor a mesa da defesa. Desde já, meus agradecimentos.
Também agradeço pelo trabalho conjunto com Ana Lúcia e Adriana nas pesquisas no âmbito
do Núcleo de Economia Industrial e da Tecnologia (NEIT) da UNICAMP, onde pude exercer o
ofício da investigação acadêmica em diversos trabalhos setoriais.
À querida amiga Simone de Deos que, na coordenação da pós-graduação em Ciências
Econômicas do Instituto de Economia (IE), com sua postura firme e amorosa, me apoiou em
momentos cruciais do meu religamento e reinserção ao programa de doutoramento. Em
nome dela, agradeço às mulheres das secretarias e departamentos da Unicamp (Camila
Ventura, Tânia Ribeiro, Conceição Ishiko de Oliveira e tantas mais) cujo apoio de excelência é
fundamental para viabilizar o trabalho de pesquisa e de estudos.
Às professoras e doutorandas do IE, e de outros centros de Economia e de Ciências Sociais,
que muito me inspiram para seguir na participação altiva no debate acadêmico e político e
para a luta por uma universidade em que assédio e discriminação de raça e gênero sejam
duramente combatidos. Nesse sentido, agradeço à grande mestra Maria da Conceição
Tavares, e estendo a Eugênia Trancoso, Margarida Baptista, Angela Kageyama, Adriana Nunes
Ferreira, Ana Lúcia Gonçalves da Silva, Simone de Deos, Carolina Baltar, Rosângela Ballini,
Daniela Prates, Mariana Fix, Eliana Ribeiro da Silva, Ana Rosa Ribeiro, Rosana Corazza, Eliane
Rosandinski, Ana Luiza de Oliveira, Fernanda Ultremare, Lídia Ruppert, Beatriz Mioto, Fabiana
Rodrigues e tantas mais.
Às amigas da FACAMP, Maria Fernanda C. de Melo, Sulamis Dain, Andréia Aureliano, Célia de
Godoy, Marina Magalhães, Marília Bassetti, Olívia Mattos, Juliana Filletti, Juliana Cajueiro,
Sofia Lasnik, Georgia Sarris, Tânia Gandolfo, Maria Piñon, Tatiana Maranhão, Cláudia
Hamasaki, Beatriz Bertasso, Débora Alves, Adriana Quartarola, Marília Tunes, Fernanda
Serralha, Carla Corte, Juliana Sabbatini, Adriana Braga e Luciana Garcia Ruiz agradeço pelas
risadas escandalosas que com elas pude compartilhar sem censura, pelas perspectivas de mais
momentos de união nas “sarjetas” da vida, e pelas necessárias conversas que temos sobre
política, economia, diversidade e gênero. Obrigada, manas. Com a Nanda, ainda tive a
oportunidade de compartilhar as agruras da elaboração de uma tese em um momento de
ruptura política de grande envergadura no Brasil. A nossa convivência, que alternou a
biblioteca com as ruas e com os bares, revelou-se a fórmula perfeita para equilibrar a solidão
do isolamento e a vibração coletiva pela luta democrática. Obrigada, companheira.
Às amigas sempre presentes de Campinas e de Rio Preto, agradeço pela compreensão pelas
inúmeras ausências da “amiga que faz tese” há tantos anos e pela ajuda essencial na rede que
formamos para cuidarmos umas das outras e das crianças. Lara Aued, Carolina Beolchi, Mila
Anselmo, Ana Pirola, Letícia Ribeiro, Ana Cecília de Albuquerque, Juliana Braga, Priscila
Monsanto, Graziela Ares, Mariana Borsoi, Marisa Borsoi, Carolina Marques, Ana Paula Lima,
Marília Ferraz, Helena Overmeer, Bárbara Juarez, Fabiana Rodrigues, Stella Godoy, Vivian
Marsigan, Mércia Grecco, Doraci Lopes, Tânia Ribeiro, Uli Ulrike, Andréia Galvão, Jaqueline
Desbordes e tantas mais, saibam que, em breve, para antigos e novos projetos e encontros,
estarei de volta.
À Cristina Nardi, pelo divã e pelas necessárias horas de desassossego da mente, agradeço.
À Fabiana Menezes Andrade, meus agradecimentos pelas consultas periódicas sobre dúvidas
nas citações bibliográficas e pela sua preciosa revisão nesse campo. Estendo aqui a gratidão a
todas as funcionárias da FACAMP, cujo apoio e assessoria são tão essenciais ao trabalho de
docência e pesquisa que realizamos.
Às minhas alunas, com quem permanentemente aprendo, agradeço pela inteligência e
ensinamentos das novas gerações.
Também devo registrar que estive acompanhada nesta jornada por homens que muito me
inspiram, ao lado dos quais me orgulho de continuar a caminhar.
Ao meu pai, Moca, agradeço o gigantesco apoio e sua fundamental presença alegre e
carinhosa na minha vida e das crianças. Ao meu irmão, Guilherme, agradeço a companhia
fraterna e a atenção de pediatra-tio 24 horas. Ao meu cunhado, Carlos, por permitir a
ocupação de seu escritório e casa em momentos cruciais de isolamento que a elaboração da
tese exigiu.
Agradeço aos professores João Manuel Cardoso de Mello e Luiz Gonzaga Belluzzo, pelos
ensinamentos, pela minha formação em Economia, pelos exemplos de honestidade
intelectual e de busca permanente por uma Ciência Econômica humanizada para quem o
desemprego e a fome jamais serão concebidos como males necessários a um programa de
“ajuste econômico” e sim como sinônimos de dor, sofrimento e violência extremada,
injustificáveis sob quaisquer condições. Uma concepção crítica da Economia convencional
também me foi apresentada por outros professores do Instituto de Economia da UNICAMP,
como Luciano Coutinho, Paulo Baltar, José Carlos Braga, Carlos Alonso de Oliveira e Márcio
Pochmann, que só puderam exercer sua autonomia intelectual e seguir com uma agenda de
pesquisa heterodoxa por estarem em uma Universidade pública, em defesa da qual
permanecerão eternamente também minhas ações de militância.
Ao Professor Luiz Gonzaga Belluzzo, para quem se encaminham tantas demandas políticas e
acadêmicas pela sua importância como economista, humanista e homem político no Brasil e
no mundo, agradeço também pela participação na banca de defesa.
Ao Rodrigo Sabbatini, meus agradecimentos pela companhia de tantos anos de profissão. Em
seu nome e do professor Waldir Quadros, também agradeço todo o apoio que a FACAMP me
proporcionou para a execução deste trabalho. A partir deles também agradeço a companhia
prazerosa em seminários, intervalos, pizzas, almoços e botecos dos companheiros Éder Luiz
Martins, Fábio Iaderozza, Márcio Sampaio, Tarso de Melo, José Augusto Ruas, José César
Magalhães, Ricardo Buratini, Marcelo Manzano, Lucas Janonni, James Onnig, Jorge Carreta,
Alessandro Ortuso, Edilson Adão, Davi Antunes, Daniel Hofling, Comandante Cunha Couto,
Pedro Junior, Rubens Sawaya, Lício da Costa Raimundo, Saulo Abouchedid, José Antônio
Siqueira e tantos outros.
Aos amigos do NEIT, Marco Antonio Rocha, Fernando Sarti, Célio Hiratuka, Mariano Laplane,
Miguel Bacic, Renato Garcia, Paulo Fracalanza e Marcos Barbieri, agradeço pela amizade, pelo
compartilhamento de seus conhecimentos e pelo ensinamento de que o trabalho de pesquisa
de qualidade se faz de forma coletiva e com perspectivas de transbordamentos reais à
sociedade. A Célio e a Rodrigo Sabbattini agradeço também por aceitarem a participação na
banca de defesa. Ao Célio, ainda preciso agradecer pelo seu apoio na Coordenação da Pós-
Graduação do IE.
A outros amigos e professores do IE, José Maria da Silveira, André Biancareli, Pedro Rossi,
Bruno de Conti, Antônio Carlos Diegues, Denis Gimenez, Giuliano de Oliveira, Pedro Paulo
Bastos, agradeço a companhia e encaminho meus desejos de vida longa ao debate acadêmico
de elevada qualidade e crítico às tentativas de apropriação das Ciências Econômicas pela
classe econômica brasileira e mundial rentista e conservadora. Em nome deles, estendo meus
agradecimentos a todo corpo de funcionários e de docentes do Instituto de Economia, que
ofereceram o apoio institucional e uma infraestrutura de excelência para pesquisa e estudo.
A Ettiene Marie Piguet, a Clelio Berti e ao Gatti, agradeço as curas da mente e do corpo.
Aos meus alunos, agradeço pelas indagações pertinentes que me fazem continuamente
refletir e aprender.
A Pedro Miranda, meu amigo de momentos tão importantes, agradeço pelo que aprendi e
vivo aprendendo com ele sobre a vida: curta que é, para que seja sofrida, e longa para o que
podemos dela aproveitar. Não para nós mesmos, mas para a construção de um mundo com
mais amor e de básica justiça. Agradeço muitíssimo a ele também pelas leituras e conversas
essenciais sobre a estruturação desta tese.
Ao Marco, que me conheceu neste crítico e chato momento de elaboração de tese, agradeço
o companheirismo, os muitos momentos prazerosos e o otimismo apaixonante. Também
agradeço pela sua preciosa leitura e comentários para este trabalho.
Por fim, gostaria de agradecer, em especial, a três pessoas, a quem dedico esta tese.
À minha eterna mestra, Maria Carolina Azevedo Ferreira de Souza, nossa Carol. Eu não
conseguiria relatar em poucas linhas a riqueza e diversidade da minha trajetória com ela,
primeiro como aluna, depois como estagiária e seguindo como orientanda de monografia, de
mestrado, de doutorado e como parceira de pesquisa no NEIT. Seguimos tanto tempo juntas
porque assim nos era muito bom. Muitas vezes, em situações difíceis, com prazos apertados
para relatórios ou por restrição de recursos para pesquisa, ela me chamava de “companheira
de infortúnios”, mas nada parecia tão ruim ou desesperador quando ela seguia firme na
coordenação dos projetos de pesquisa ou das aulas que com ela ministrei. Carol sempre me
estimulou a sucedê-la nas disciplinas mais ligadas à Economia das Empresas, mas
compreendia que meu interesse frequentemente desequilibrava e pendia para o lado da
Economia Política ou para as discussões de Economia Brasileira, envolvendo a
Macroeconomia. Assim, como uma verdadeira mestra, me oferecia irrestrita liberdade para a
escolha dos temas e metodologias de pesquisa acadêmica e aulas que com ela eu
desenvolveria. Também por isso, mantivemos essa relação de longa e feliz duração.
Carol deixou-nos antes que eu e ela pudéssemos terminar esta tese. No entanto, tendo
certeza de que o que é belo vive eternamente, sei que ela continou e continua a me orientar,
com a mesma sabedoria e generosidade ímpares de sempre. A você, agradeço por esta tese,
Carol. Sigamos juntas.
As outras duas pessoas a quem agradeço profundamente são a Titi e Dedé, minha filha e meu
filho, que tiveram uma paciência e compreensão descomunais nesses últimos dois anos com
uma mãe nervosa, preocupada e, não poucas vezes, ausente. No amor que nos une, recria-se
diariamente a força para a vida e para a busca permanente por um mundo em que reinem a
justiça e a igualdade. Beatriz e André, agradeço por esta tese. Sigamos junt@s.
RESUMO

Este trabalho tem por objetivo analisar a articulação entre Estado e grande capital para o
revigoramento da competitividade do setor petroquímico nos EUA. Esses dois atores foram
cruciais na emergência, estruturação e consolidação da extração e produção de gás natural
proveniente das rochas de shale. Com essa nova fonte, aumentou-se consideravelmente a
oferta dos hidrocarbonetos extraídos dos poços gasíferos (metano, etano e propano,
principalmente), fornecendo à indústria petroquímica matéria-prima e energia abundante e a
baixos preços. A perspectiva da continuidade desse cenário no médio prazo alterou,
positivamente, o cálculo de rentabilidade dos projetos de investimento no setor nos EUA. A
matéria-prima de baixo custo aliou-se a outros atributos de competitividade de que dispõem
as empresas investidoras, quais sejam, a elevada escala, a integração física e patrimonial com
o elo produtor de insumos, a capacidade de pesquisa, de produção de petroquímicos de alto
valor adicionado e de internacionalização produtiva. No caso brasileiro, embora o setor tenha
conquistado, nos anos 2000, parâmetros de competitividade mais próximos das referências
internacionais, o movimento atual de saída da Petrobras da sociedade com a maior empresa
petroquímica nacional retira não somente alguns instrumentos públicos de coordenação,
financiamento e fornecimento de competências ao setor petroquímico brasileiro, como
também desintegra um elo fundamental do setor que é seu vínculo com o setor petrolífero,
produtor da matéria-prima. Essas duas consequências vão na direção contrária do que a
experiência exitosa (em termos econômicos) dos EUA demonstra.
Palavras-chave: Indústria petroquímica. Shale gas. Gás de folhelho. Braskem. Petrobras.
Cadeia Petroquímica. Articulação Estado e grande capital. Gás Natural. Nafta.
ABSTRACT

This thesis aims to analyse the articulation between the State, the major companies and the
financial markets for the improvement of competitiveness in the petrochemical industry in
The United States (USA). These actors were crucial in the emergency, structuring and
consolidation of the extraction and production of the natural gas provenient from the shale
rocks. With this new source, the supply of the hydrocarbons extracted from the gas wells
(methane, ethane and propane, mainly) raised considerably, providing the petrochemichal
industry abundant raw material and energy at low cost. The perspective of continuity of this
cenarium in the medium term altered positively the calculation of the profitability of the
investment projects in USA. The low cost raw material was allied to other competitiveness
attributes of the companies, such as high scale, physical and ownership integration with inputs
producers, research capacity in the production of high value added petrochemicals and
productive internationalization. In the Brazilian case, eventhough the sector has achieved, in
the 2000's, parameters of competitiveness closer to international references, the present
movement of the Petrobras departure of the society with the major national petrochemical
company withdraws not only important public instruments of coordination, financing and
provision of capabilities to the Brazilian petrochemical sector. Besides that, it also
desintegrates a fundamental link of the sector which is its bond with the petroleum sector,
producer of the raw material. These two consequences go in the opposite direction of what
has been taught by the USA experience with shale gas and petrochemical industry (with a
highly positive performance in economic terms).
Keywords: Petrochemical industry. Shale gas. Braskem. Attributes of competitiveness.
Petrobras. Petrochemical productive chain. State and big capital articulation. Natural gas.
Nafta.
LISTA DE FIGURAS

Figura 1 – Cadeia produtiva petroquímica: elo petrolífero, de refino e produtos da 1ª. e 2ª. Gerações
................................................................................................................................................... 36
Figura 2 - Tecnologia, capital e reservas em propriedade das NOCs .................................................... 55
Figura 3 - Segmentos de atuação da Sibur .......................................................................................... 104
Figura 4 - Mapa com a extensão geográfica das unidades de extração e processadoras do gás natural
da Sibur ............................................................................................................................................... 104
Figura 5 - Componentes do gás natural .............................................................................................. 114
Figura 6 – Taxonomia dos HGLs, simplificada ..................................................................................... 117
Figura 7 - EUA: fontes de oferta de energia e setores demandantes, 2009 ....................................... 141
Figura 8 – EUA: linha do tempo para o desenvolvimento de shale gas.............................................. 147
Figura 9 – Ilustração de um poço de gás convencional e de um poço de shale gas ........................... 149
Figura 10 – EUA: regiões produtoras de shale gas e shale oil............................................................ 163
Figura 11 – Braskem: estrutura societária, 2017 ................................................................................ 265
Figura 12 – Brasil: Polo Petroquímico de Camaçari (BA) e produção, em toneladas. ........................ 275
Figura 13 – Brasil: Polo Petroquímico de Duque de Caxias (RJ) e produção, em toneladas ............... 275
LISTA DE TABELAS

Tabela 1 – Impactos da qualidade da carga: participação (%) dos produtos resultantes..................... 42


Tabela 2 – Principais empresas petrolíferas mundiais em 2009 ........................................................... 53
Tabela 3 – Importância relativa (%) das principais empresas na indústria mundial do petróleo, 2013 54
Tabela 4 – ExxonMobil: resultados financeiros, em milhões de US$, 2012-2016 ................................ 61
Tabela 5 – Shell: resultados financeiros, em milhões de US$, 2012-2016........................................... 61
Tabela 6 – Chevron: resultados financeiros, em milhões de US$, 2013-2016...................................... 62
Tabela 7 – Total: resultados financeiros, em milhões de US$, 2014-2016 ........................................... 62
Tabela 8 – Coeficientes de abertura de poliolefinas por regiões selecionadas, 1998 .......................... 90
Tabela 9 –Grau de internacionalização e faturamento, em US$ bilhões, de empresas selecionadas,
por capacidade de produção de etileno, em mil toneladas por ano, 2002 .......................................... 92
Tabela 10 – Ranking mundial do setor químico, por faturamento, em milhões de US$, 2015 ............ 94
Tabela 11 – Lista dos dez maiores produtores de etileno do mundo por capacidade de produção, em
toneladas por ano, 2015 ..................................................................................................................... 101
Tabela 12 – Lista dos dez maiores produtores de etileno do mundo por capacidade de produção em
complexos petroquímicos, em toneladas por ano, 2015 .................................................................... 102
Tabela 13 – EUA: composição do shale gas, em % do volume total, em algumas regiões produtoras e
composição média dos poços convencionais ..................................................................................... 116
Tabela 14 – Produção de líquidos de gás natural, em mil barris por dia, 1980-2014 ......................... 116
Tabela 15 – EUA: produção de HGL, em milhões de barris por dia, 2008-2014 ................................. 118
Tabela 16 – EUA: capacidade adicional de plantas de etileno que utilizam etano como insumo, em
milhões de barris por dia, e crescimento projetado do consumo de etano, 2013-2017.................... 126
Tabela 17 – EUA, Arábia Saudita e Ásia: estimativa do custo de produção de etileno, em US$ por
tonelada, 2012 .................................................................................................................................... 127
Tabela 18 – EUA, Arábia Saudita e Ásia: estimativa do custo de produção de HDPE, em US$ por
tonelada, 2012 .................................................................................................................................... 128
Tabela 19 – EUA: início das operação dos novos crackers de etano e das plantas de polímeros ...... 133
Tabela 20 – EUA: balança comercial de produtos químicos, em milhões de US$, 2014 ................... 137
Tabela 21 – Lista dos dez maiores consumidores de gás natural e total do consumo de energia, em
milhões de toneladas de óleo equivalente, 2014 ............................................................................... 138
Tabela 22 – EUA: participação (%) das regiões produtoras de shale gas (dry gas), em volume, março
de 2016................................................................................................................................................ 162
Tabela 23 – EUA: lista das 10 maiores empresas em vendas e compras de ativos na formação
geológica de Marcellus, em milhões de US$, 2010-2011 ................................................................... 170
Tabela 24 – EUA: lista das 10 maiores empresas em vendas e compras de ativos na formação
geológica de Utica, em milhões de US$, 2010-2011 ........................................................................... 171
Tabela 25 – EUA: média do preço spot do gás natural Henry Hub, em US$/MBtu, 1997-2016 ......... 174
Tabela 26 – EUA: gastos anuais com lobby das 20 maiores empresas de óleo e gás, em US$, 2014 . 208
Tabela 27 – EUA: gastos anuais com lobby da indústria de óleo e gás, em US$, 1998-2014 ............. 209
Tabela 28 – EUA: lista das vinte maiores contribuições de empresas para membros do Congresso no
ciclo eleitoral, em US$, 2014 ............................................................................................................... 210
Tabela 29 – EUA: Valor das doações dos dez maiores grupos de interesses, em US$, no ciclo de
eleição 2015-2016 ............................................................................................................................... 212
Tabela 30 – Brasil: exportações e importações em participação (%) das vendas da indústria química,
2004-2013 ........................................................................................................................................... 228
Tabela 31 – Brasil: Maiores empresas dos setores químico e petroquímico, por faturamento, em
milhões de US$, 2015 .......................................................................................................................... 233
Tabela 32 – Brasil: participação (%) dos grupos na capacidade instalada de produção, 2005 ........... 249
Tabela 33 – Principais players petroquímicos de países em desenvolvimento selecionados e sua
associação com a indústria de hidrocarbonetos e empresas estatais ................................................ 260
Tabela 34 – Brasil e Mundo: participação (%) das matérias-primas convencionais nos custos totais da
petroquímica, 2014 ............................................................................................................................. 272
Tabela 35– Brasil e Mundo: participação (%) das matérias-primas para a produção do etileno, 2014 ...
................................................................................................................................................. 273
LISTA DE GRÁFICOS

Gráfico 1– Consumo do setor químico de nafta, líquidos de gás natural e outros combustíveis, em
quadrilhões de Btu, 2010, 2025(projeção) e 2040 (projeção) .............................................................. 40
Gráfico 2 – Participação dos custos com energia, combustível e matéria-prima no custo total da
produção de alguns petroquímicos....................................................................................................... 41
Gráfico 3 – Perfil dos crackers: participação (%) dos componentes resultantes do craqueamento da
nafta e do etano .................................................................................................................................... 42
Gráfico 4 – Preço mensal do óleo cru, cotação WTI spot price FOB, em US$ por barril, março de 1986
a março de 2017.................................................................................................................................... 60
Gráfico 5 - Soma do saldo fiscal e da conta corrente em países produtores de óleo selecionados, em
% do PIB, 2011 e 2016 ........................................................................................................................... 63
Gráfico 6 – Preço do gás natural e GNL, em US$/milhões de Btu, Japão, Alemanha, Reino Unido e
EUA, 1996-2015..................................................................................................................................... 70
Gráfico 7– Projeções de produção, exportação e importação de gás natural, por fonte e por região,
2010-2040 ............................................................................................................................................. 76
Gráfico 8 – Participação (%) do custo da matéria-prima no custo total de produção de petroquímicos
................................................................................................................................................... 83
Gráfico 9 – Setor químico mundial: valores dos acordos anunciados acumulados e completos de
fusões e aquisições, em bilhões de US$, 2007-2016 ............................................................................ 96
Gráfico 10 – EUA: produção de HGL, em milhões de barris por dia, nas unidades processadoras de gás
e nas refinarias, 2004-2014 ................................................................................................................. 118
Gráfico 11 – EUA: crescimento da produção de HGL (excluindo a rejeição) nas plantas de gás natural
e a produção de gás natural ao mercado, primeiro trimestre de 2008=1,00, 2008-2017.................. 120
Gráfico 12 – EUA: capacidade produtiva alimentada por etano e o consumo de etano, em milhões de
barris por dia, 2013-2018 (projeção 2017 e 2018) ............................................................................. 120
Gráfico 13 – EUA: produção, consumo e exportações líquidas de etano, em milhões de barris por dia,
2013-2018 (projeção em 2017 e 2018) ............................................................................................... 121
Gráfico 14 – EUA: produção de HGL nas plantas de gás natural (eixo esquerdo), em milhões de barris
por dia, e gás natural comercializado (eixo direito), em bilhões de pés cúbicos por dia, 2008-2017 121
Gráfico 15 – Preços dos HGLs relativamente ao gás natural e ao óleo cru, em US$ por milhões de Btu,
Janeiro de 2013 – Fevereiro de 2016 .................................................................................................. 122
Gráfico 16 – Média mensal dos preços (spot) da nafta e etano (Gráfico a) e média mensal dos spreads
do preço spot do etileno sobre os preços spot da nafta e etano (Gráfico b), Janeiro de 2010 -
Novembro de 2014.............................................................................................................................. 123
Gráfico 17 – Média mensal dos preços (spot) do propano (Gráfico a) e média mensal dos spreads do
preço spot do propileno sobre os preços do propano (Gráfico b), Janeiro de 2010 - Novembro de
2014 ................................................................................................................................................. 124
Gráfico 18 – EUA: consumo de etano e propano, em mil barris por dia, das plantas petroquímicas
existentes (até 2014) e planejadas (2014-2018) ................................................................................. 125
Gráfico 19 – Custos estimados de produção de petroquímicos: posição relativa dos EUA em 2005 e
2015 ................................................................................................................................................. 128
Gráfico 20 – EUA: relação entre o preço do óleo e do gás natural, 2005-2020.................................. 129
Gráfico 21 – Média das margens de custo variável do polietileno de alta densidade, EUA, Europa e
Nordeste Asiático, US$ e Euro por tonelada, 2010-2016 (2016 até maio) ......................................... 130
Gráfico 22 – Diferença de preço entre nafta na União Europeia e etano nos EUA e mudança na
relação nafta/etano na Arábia Saudita ............................................................................................... 131
Gráfico 23 – EUA: investimentos da indústria química ligados ao shale gas anunciados acumulados,
em bilhões de US$ e números de projetos, Dez 2010-Mar 2016 ....................................................... 131
Gráfico 24 – EUA: expansão da capacidade de etileno entre 2012 e 2022, em mil toneladas por ano ...
................................................................................................................................................. 132
Gráfico 25 – EUA: adições de capacidade de produção de etileno acumulado, em mil toneladas por
ano, 2012-2022 ................................................................................................................................... 133
Gráfico 26 – IPEX (ICIS Global Petrochemical Index): medida da mudança média de preços dos
petroquímicos ponderados pelo seu peso por capacidade produtiva, janeiro de 1993=100, jan 1995-
jan 2016 ............................................................................................................................................... 136
Gráfico 27 – EUA: consumo de energia por fonte de energia, participação (%), 1970, 1980, 1990,
2000, 2010, 2014 ................................................................................................................................. 139
Gráfico 28 – EUA: consumo de energia, em quadrilhões de Btu, por fonte de energia, 1776-2015 e
projeção para 2040 ............................................................................................................................. 140
Gráfico 29 – EUA: consumo de energia de fontes renováveis por fonte, em participação (%) e em
trilhões de Btu, 2000 e 2016 ............................................................................................................... 140
Gráfico 30 – EUA: fontes de oferta de energia e setores demandantes, 2016................................... 142
Gráfico 31 – EUA: produção de energia primária, por fonte, em quadrilhões de Btu, 2000-2015 ..........
................................................................................................................................................. 143
Gráfico 32 – EUA: produção de energia primária, por fonte, em quadrilhões de Btu, 1949-2015 ..........
................................................................................................................................................. 143
Gráfico 33 – EUA: importação de energia primária, por fonte, em quadrilhões de Btu, 1949-2015 .......
................................................................................................................................................. 144
Gráfico 34 – EUA: exportação de energia primária, por fonte, em quadrilhões de Btu, 1949-2015........
................................................................................................................................................. 145
Gráfico 35 – EUA: importações líquidas de energia primária, em quadrilhões de Btu, 1949-2015 ... 145
Gráfico 36 – EUA: balança comercial de energia, em milhões de US$, 1974-2015 ............................ 146
Gráfico 37 – EUA: produção de gás natural, em bilhões de pés cúbicos por dia, por método de
extração, 2000-2015 ........................................................................................................................... 151
Gráfico 38 – EUA: produção de óleo, por método de extração, em milhões de barris por dia, 2000-
2015 ................................................................................................................................................. 152
Gráfico 39 – EUA: evolução dos indicadores de produtividade e produção de uma empresa de gás
natural, 2007-2011 .............................................................................................................................. 156
Gráfico 40 – EUA: volumes de produção de dry shale gas e o total de produção de gás natural, em
milhões de pés cúbicos por dia, Jan de 2005-Nov 2015 ..................................................................... 157
Gráfico 41 – EUA: produção de gás natural, por fonte, em trilhões de pés cúbicos, 1990-2012 ....... 159
Gráfico 42 – EUA: projeção da produção de gás natural, por fonte, em trilhões de pés cúbicos, 1990-
2040 ................................................................................................................................................. 159
Gráfico 43 – EUA: total de reservas provadas de gás natural (shale e outras fontes), em trilhões de
pés cúbicos, 2007-2014 ....................................................................................................................... 160
Gráfico 44 – EUA: reservas provadas em gás natural, em trilhões de pés cúbicos, 1964-2014 ......... 160
Gráfico 45 – EUA: produção de shale gas, em bilhões de pés cúbicos por dia, por região produtora,
2000-2015 ........................................................................................................................................... 162
Gráfico 46 – EUA: preço spot do gás natural (Henry Hub), em US$/MBtu, jan 1997-jun 2017 .......... 174
Gráfico 47 – Taxa média de produção de áreas de exploração de shale gas nos EUA, em milhões de
metros cúbicos, por ano de atividade do poço ................................................................................... 175
Gráfico 48 – EUA: contagem de plataformas (rig count) petrolíferas, 2000-2015 ............................. 177
Gráfico 49 – EUA: produtividade dos poços de óleo que utilizam fraturamento hidráulico, por mês de
produção ............................................................................................................................................. 178
Gráfico 50 – EUA, Região de Marcellus: produção de gás natural total e por equipamento (rig), em
milhares de pés cúbicos por dia, janeiro de 2007 - julho de 2017...................................................... 179
Gráfico 51 – EUA: produção de gás natural, em bilhões de metros cúbicos por dia, e contagem de
equipamentos, 2005-2016 .................................................................................................................. 180
Gráfico 52 – EUA: preços de breakeven baseado no preço do barril de óleo equivalente, por áreas de
shale produtoras de gás e óleo, 2013-2016 ........................................................................................ 181
Gráfico 53 – EUA: formas de captação de recursos pelos shale drillers, 1º semestre de 2007-
1º.semestre de 2015 ........................................................................................................................... 184
Gráfico 54 – EUA: itens do fluxo de caixa das empresas de petróleo onshore, em bilhões de dólares,
anualizados, 2012-2016 ...................................................................................................................... 185
Gráfico 55 – Brasil: balança comercial do setor químico, em milhões de US$, 1990-2015 ............... 227
Gráfico 56 – Ranking de produção de resinas, em mil toneladas por ano, nas Américas .................. 264
Gráfico 57 – Brasil: Volumes anuais de produção e importação líquida de nafta, em mil m3, 2000-2012
................................................................................................................................................. 268
Gráfico 58 – Brasil: produção de nafta nas refinarias brasileiras, em mil barris de óleo equivalente,
2000-2016 ........................................................................................................................................... 269
Gráfico 59 – Brasil: Perfil da produção de derivados de petróleo nas refinarias no Brasil, 2012 ....... 269
Gráfico 60 – Brasil: Projeções de oferta de nafta, 2015-2030 ............................................................ 270
Gráfico 61 – Brasil e EUA: estimativas de custos de uma planta de etileno ....................................... 273
Gráfico 62 – Brasil: produção de recursos fósseis, matérias-primas petroquímicas e petroquímicos de
1ª. geração, em MBbl/d, Mm3/d, Mta, 2013 ..................................................................................... 279
LISTA DE QUADROS

Quadro 1 – Requisitos competitivos das diferentes etapas da indústria petroquímica ..................... 105
Quadro 2 – EUA: preço das exportações de gás natural liquefeito do Terminal de Sabine Pass para o
Oriente Médio, em US$ por milhões de Btu (MBtu), 2016 ................................................................. 188
Quadro 3 – Petrobras: Plano de Negócios e gestão 2017-2021 (negrito da empresa) ...................... 281
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

ABIQUIM – Associação Brasileira da Indústria Química


ACC - American Chemistry Council
BNDES - Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social
Btu - British Thermal Unit
CACEX - Carteira de Comércio Exterior
CDI - Conselho de Desenvolvimento Industrial
CNP - Conselho Nacional de Petróleo
CNPC China National Petroleum Corporation
CPA - Conselho de Política Aduaneira
DOE - U.S. Department of Energy
EIA - U.S. Energy Information Administration
EPA - Environment Protection Agency
FERC - Federal Energy Regulatory Commission
FINEP - Financiadora de Estudos e Projetos
GLP - Gás Liquefeito de Petróleo
GNL - Gás Natural Liquefeito
HDPE - High-Density Polyethylene
HGL - Hydrocarbon Gas Liquids
IDC - Intangible Drilling Cost
IEA - International Energy Agency
INPI - Instituto Nacional de Propriedade Industrial
IOCs - International Oil Companies
LDPE - Low-Density Polyethylene
LLDPE - Linear Low-Density Polyethylene
LGN - Líquidos de Gás Natural
LNG - Liquified Natural Gas
LPG - Liquified Petroleum Gas
MITI - Ministério da Indústria e da Tecnologia no Japão
NYMEX - New York Mercantile Exchange
NOCs - National Oil Companies
OPEP - Organização dos Países Exportadores de Petróleo
PE - Polietileno
PEAD - Polietileno de Alta Densidade
PEBD - Polietileno de Baixa Densidade
PET - Politereftalato de etileno
PP - Polipropileno
RPSEA - Research Partnership to Secure Energy for America
WTI - West Texas Intermediate
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ........................................................................................................................................ 23

CAPÍTULO I: SETOR PETROQUÍMICO: DETERMINANTES DA COMPETITIVIDADE .................................. 33


1.1. Abrangência das atividades do setor petroquímico ................................................................. 33
1.2. Setor petrolífero (óleo e gás): grande capital no início da cadeia petroquímica ...................... 45
1.2.1. Produção de óleo: gigantismo desde sempre ........................................................................ 45
1.2.2. Indústria do gás natural: gigantismo que se forma..................................................................... 63
1.3. Fatores de competitividade na indústria petroquímica: escala, verticalização diversificação e
internacionalização ............................................................................................................................... 79
1.3.1. Escala e a necessidade de capital ........................................................................................... 80
1.3.2. Verticalização, integração na cadeia produtiva e necessidade de capital ............................. 82
1.3.3. Diversificação horizontal e necessidade de capital ................................................................ 86
1.3.4. Internacionalização e necessidade de capital ........................................................................ 89
1.3.5. As grandes irmãs do setor petroquímico: alguns exemplos de empresas líderes e suas
fontes de competitividade ..................................................................................................................... 93
1.4. A importância do Estado para a definição da liderança competitiva no setor petroquímico 109

CAPÍTULO II. SHALE GAS COMO PEÇA-CHAVE PARA O “RENASCIMENTO” DA INDÚSTRIA


PETROQUÍMICA NOS EUA ................................................................................................................... 113
2.1. Shale gas e a redução de custos no setor petroquímico ........................................................ 113
2.1.1. Shale gas e os líquidos de gás natural (LGN)........................................................................ 113
2.1.2. Competitividade e novos investimentos nos EUA ............................................................... 126
2.2. Gás natural nos EUA: um recurso estratégico......................................................................... 137
2.3. Shale gas nos EUA: histórico e volume de produção .............................................................. 146
2.3.1. Shale Revolution? ................................................................................................................. 147
2.3.2. Exploração de gás não-convencional nos EUA: produção de shale gas e sua localização
geográfica ............................................................................................................................................. 157
2.4. Economia do shale gas: estrutura de mercado e financiamento ........................................... 164
2.4.1. A chegada do grande capital e a consolidação do setor ...................................................... 164
2.4.2. A importância do financiamento............................................................................................. 172
2.4.2.1. Preço de breakeven e queda rápida dos rendimentos dos poços ........................... 173
2.4.2.2. Arranjo estabelecido entre “Shale World” e Wall Street: liquidez abundante e
necessidade do comércio externo ............................................................................................... 181
2.5. Shale gas como elemento gerador de mudanças geopolíticas ............................................... 189
2.6. Shale gas e política industrial nos EUA ................................................................................... 193
2.6.1. Política tecnológica para a indústria petrolífera: intensificação a partir dos anos 1970 ..... 194
2.6.2. Vantagens fiscais e regulatórias ao setor petrolífero (do passado ao presente) e a captura
da política estadunidense pelas empresas petrolíferas ....................................................................... 202
2.6.3. Governo Barack Obama e o shale gas.................................................................................. 214

CAPÍTULO III. SETOR PETROQUÍMICO NO BRASIL: COMPETITIVIDADE E DESAFIOS ........................... 224


3.1. Petroquímica no Brasil: um setor de base, um setor fundamental ............................................. 224
3.2. O setor petroquímico brasileiro: estrutura e players .................................................................. 231
3.3. Breve histórico do setor petroquímico no Brasil: formação, privatização e consolidação ..... 234
3.3.1. A formação da petroquímica sob o esquema “tripé”: o protagonismo do Estado .............. 235
3.3.2. Década de desestatização e desregulação: o setor petroquímico não foi poupado ........... 245
3.3.3. Consolidação do setor: a criação e expansão da Braskem................................................... 257
3.4. Petrobras e o futuro da petroquímica brasileira..................................................................... 267

CONCLUSÃO ........................................................................................................................................ 283

REFERÊNCIAS ....................................................................................................................................... 306

ANEXO A – TABELAS E FIGURA DA INTRODUÇÃO ............................................................................... 328


ANEXO B – INVESTIMENTOS NO SETOR PETROQUÍMICO NOS EUA ................................................... 332
ANEXO C – PROJETOS DA RPSEA ......................................................................................................... 333
ANEXO D – FATO RELEVANTE DA METANOR ...................................................................................... 335
23

INTRODUÇÃO

Entre 2010 e 2015, em apenas um período de 5 anos, o cenário energético no


mundo passou por sensíveis mudanças. Nesse período, os EUA passaram de 3º a maior
produtor de petróleo do mundo. Dos 8,4 milhões de óleo e outros líquidos que foram
acrescidos à produção mundial nesse quinquênio, 61,5% foram de responsabilidade dos EUA.
Na verdade, trata-se de uma importante inversão de cenário, considerando que esse país
havia apresentado um pequeno decréscimo de produção desse hidrocarboneto na década
entre 2000 e 2010 (BP, 20171).
Cobb (2012) ressalta que se agregam na categoria de óleo e outros líquidos
combustíveis que não são perfeitamente substituíveis. Com efeito, nessa categoria incluem-
se o óleo cru, que é o líquido preto que se extrai dos reservatórios; o lease condensate, que
são hidrocarbonetos mais leves e extraídos dos mesmos poços do óleo e que se juntam às
correntes de óleo cru; os líquidos de gás natural (etano, propano, butano e pentano); os outros
líquidos (biocombustíveis, coal-to-liquids e gas-to-liquids); e os subprodutos das refinarias2.
Todos esses hidrocarbonetos líquidos compõem a definição de petróleo na sua abertura mais
ampla.
Ao desagregar a produção mundial desses hidrocarbonetos, entre 2000 e 2015,
verifica-se que a produção de óleo cru e condensados aumentou 17,4%, enquanto a dos
líquidos de gás natural cresceu 65,6% e a de outros líquidos 227,0%. Com isso, a participação
do óleo bruto e lease condensate que era de 91,1%, em 1990, diminuiu para 88,2%, em 2000,
e atingiu 83,2% do total do volume de petróleo em 2015, segundo o conceito mais amplo3.
O que chama atenção nesses resultados é a contribuição da produção de líquidos
oriundos dos poços de gás natural4. O incremento da oferta de recursos energéticos
provenientes da exploração e produção de gás natural contribuiu também para alterar o
cenário mundial. Entre 2010 e 2015, a produção do gás natural aumentou 10,6%. Quase a
metade (48,1%) desse acréscimo foi de responsabilidade dos EUA, que passaram a ser

1
Anexo A
2
Dos 96,7 milhões de barris por dia de petróleo e outros líquidos produzidos no mundo em 2015, 80,5 milhões
foram de óleo cru e condensados, 10,5 milhões de líquidos de gás natural, 3,2 milhões de outros líquidos e 2,5
milhões de subprodutos das refinarias (Anexo A).
3
Anexo A
4
Dos poços de gás natural podem ser extraídos o metano e os líquidos de gás natural (etano, propano, butano
e pentano). Na Figura 5 deste trabalho, ilustra-se a composição do gás natural.
24

também o maior país produtor de gás natural do mundo (74,1 bilhões de pés cúbicos por dia
em 2015, versus 55,6 bpc da Rússia, 18,3 bpd do Irã e 17,3 bpc do Catar) (BP, 20175).
Na análise da matriz energética mundial (medida pelo consumo de energia dos
países, em milhões de toneladas de óleo equivalente), observa-se, no quinquênio 2010-2015,
que a maior taxa de crescimento total do consumo dos combustíveis ocorreu entre aqueles
de fontes renováveis (solar, eólica e biomassa, com crescimento de 115,6%, e hidroelétrica
com 13,4%). Ainda assim, essas fontes apresentaram apenas uma participação de,
respectivamente, 2,8% e 6,7% do total consumido de energia no mundo em 20156 (BP, 2017).
Além das fontes renováveis, o gás natural foi o outro energético que teve aumento
de consumo maior do que a média mundial nesse período (9,5% do gás natural versus 7,7%
do total do mundo). Sendo assim, sua participação elevou-se de 23,6% em 2010 para 24,0%
em 2015. Das três principais fontes de combustíveis no mundo (óleo – 33,1%; carvão, 28,9%,
e gás, 24,0% em 2015), o gás natural foi a única que apresentou ganho de participação nesse
período. Dos 272 milhões de toneladas de óleo equivalente (mtoe) acrescidos no consumo de
gás natural no mundo nesse quinquênio, 91 mtoe foram realizados pelos EUA e 75 mtoe pela
China. Nesses dois países, o aumento do consumo desse combustível ocorreu em detrimento
do consumo do carvão, sobretudo por conta de seu uso como combustível para a geração de
energia nas usinas termoelétricas (BP, 2017).
Além do desenvolvimento tecnológico e de elevação dos investimentos na sua
cadeia produtiva, o gás natural se insere no século XXI como fonte energética de uso crescente
por conta de um contexto em que os países estão oficialmente na busca da redução da
liberação dos gases de efeito estufa (greenhouse gases) para contribuir com a minimização
das mudanças climáticas recentes atribuídas ao aquecimento global. O Acordo de Paris em
2015 é emblemático em mostrar o comprometimento dos países em realizarem políticas
públicas ativas na redução de poluentes atmosféricos.
Há uma discussão acadêmica a respeito da função do gás natural em contribuir
para a diminuição dos gases de efeito estufa. De um lado, estão autores que se opõem à
expansão do gás natural na matriz energética dos países. Isso porque, ponderam, essa
expansão seria realizada em detrimento da maior aceleração dos investimentos, pesquisa e

5
Anexo A
6
Anexo A
25

produção das energias de fontes renováveis (energia eólica, solar, hidráulica, etc.),
distanciando-se da busca por uma matriz energética sustentável e mais limpa (síntese do
debate em Trembath, 2015).
De outro lado, estão aqueles que compreendem que a maior participação do gás
natural representa uma ponte a um futuro com menos carbono. Partindo do princípio que
seria inviável substituir total e rapidamente os combustíveis fósseis por energias renováveis,
a ampliação da participação do gás natural seria a melhor forma de transição, ao substituir
gradativamente o carvão e o óleo. Isso porque sua queima libera à atmosfera menos gás
carbônico do que a combustão do óleo e do carvão para a geração de calor e de energia
elétrica. Como exemplo, na geração de energia elétrica, o gás natural libera quase a metade
de gás carbônico do que o carvão (Howarth, 2014).
De fato, a emissão de dióxido de carbono nos EUA diminuiu sensivelmente no
período 2010-2015 (-5,4%), mais até que em alguns países que haviam assinado o Protocolo
de Quioto, como o Japão (que até apresentou um aumento de 2,0%) e a Alemanha (-3,7%).
Para a China, o desafio de redução de emissão desse poluente é gigantesco. Entre 2010 e
2015, a variação nesse país foi positiva em 12,9%. De qualquer forma, pode-se visualizar uma
redução importante no ritmo da taxa de crescimento dessas emissões nesse país (7,0% ao
ano, em média, entre 2000 e 2010 e 2,5% ao ano entre 2010 e 2015)7 (BP, 2017).
O gás natural, até o século XXI, era extraído das formações geológicas
convencionais, ou seja, para as quais se utiliza tecnologia difundida e nas quais há condições
físicas e econômicas para uma produção economicamente lucrativa às condições de mercado
vigentes. Desde 2005, no entanto, áreas não convencionais – como as formações rochosas de
shale8 – passaram a ser locus de produção de uma parte significativa da produção
estadunidense de gás natural.

7
Anexo A.
8
A tradução em português para o termo “shale” é folhelho, um tipo de rocha argilosa de tipo sedimentar,
segundo a Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais (CPRM, 2014). No entanto, no Brasil, acabou se
popularizando a palavra “xisto” como tradução, embora, rigorosamente, xisto, xisto betuminoso ou xisto
oleígeno são denominações para uma rocha cuja composição química é o betume (que raramente ultrapassa
10% da matéria orgânica do xisto) e o querogênio (COSTA NETO, 1980). A tradução em inglês para o xisto
betuminoso seria oil shale. O óleo extraído da rocha de folhelho seria shale oil, e o gás, shale gas. Neste trabalho,
optou-se por denominar a rocha de folhelho em inglês (shale) e o gás de lá extraído shale gas para evitar a
escolha entre o técnico e o popular. Alguns trabalhos acadêmicos no Brasil também realizaram a mesma opção
(como LAGE et al., 2013) e utilizaram a expressão shale e shale gas.
26

As rochas de shale são formações geológicas que armazenam hidrocarbonetos,


cujas características, em geral, são sua alta porosidade e baixa permeabilidade9,
determinando o uso de tecnologias diferenciadas para a liberação do gás e óleo a partir dos
espaços entre os grãos que compõem a rocha. Embora já se soubesse que as rochas de shale
guardassem gás natural e óleo desde o século XIX, foi só no início do século XXI que a
exploração comercial e em grande escala ocorreu.
A extração de recursos petrolíferos das rochas de shale é considerada uma
atividade não-convencional10 para a indústria petrolífera porque exige tecnologias de
extração diferentes das convencionais, determinando um valor de investimento
relativamente maior para os projetos desse tipo11. A adoção de inovações tecnológicas que
permitiram o fraturamento hidráulico horizontal (sintetizadas na expressão fracking) para a
exploração de gás e óleo e seus resultados expressivos na produção deram ensejo a
denominarem esse fenômeno de “Shale Revolution” ou “Shale Boom”.
No International Energy Outlook de 2016, as projeções indicam que a produção
mundial de gás natural aumentará de 119,7 para 202,4 trilhões de pés cúbicos (tpc) de 2012
a 204012. Dos 82,7 tpc de acréscimo nesse período, a produção proveniente do shale gas, tight
gas e coalbed methane será responsável por adicionar 58,6 tpc. Afinal, a expectativa é de que
a produção dessas áreas não-convencionais de gás natural saia de 22,3 tpc em 2012 para 80,9
tpc em 2040, perfazendo 40% do total da produção mundial13. Em 2012, essas fontes
representaram 18,6% do total.

9
De acordo com Chandra (2006, p. 15), permeabilidade é a facilidade com que o fluído (gás, óleo ou água) se
move por meio dos espaços abertos pelos poros na rocha reservatório. A porosidade da rocha, por sua vez,
depende do tipo de grãos e seu tamanho. Quanto mais uniforme o tamanho do grão, maior a porosidade da
rocha. Na tentativa de traduzir esses termos para leitores leigos, Sernovitz (2016) faz a seguinte comparação: se
fôssemos uma mólecula de óleo e a rocha fosse um hotel, a porosidade seria o tamanho dos quartos e a
permeabilidade seria a qualidade dos corredores, halls e escadas que ligariam os quartos à saída do hotel.
10
De acordo com a definição do programa de apoio à produção de recursos não-convencionais nos EUA:
“Unconventional natural gas resources are best described as those gas accumulations that are hard to
characterize and commercially produce by common exploration and production technologies. These resources
are typically located in heterogeneous, extremely complex, and often poorly understood geologic systems,
often easy to find but difficult to produce” (RPSEA, 2017e). Entram nessa classificação, por exemplo, as
formações de shale gas, de tight gas e de coalbed methane, cujas definição e produção nos EUA estão
apresentadas mais à frente neste trabalho (Gráfico 41).
11
Para poços convencionais, o investimento gira em torno de US$ 1 a 3 milhões, enquanto nas formações de
shale, para a extração por fraturamento hidráulico horizontal, o investimento alcança algo entre US$ 5 e 8
milhões, por poço (BARTIK et al., 2016).
12
Anexo A.
13
Dessa produção mundial de gás natural projetada para 2040, de 80,9 tpc de áreas não convencionais, dos EUA
virão 19,6 tpc de shale gas, 7,0 tpc de tight gas e 1,3 tpc de coalbead methane (Anexo A).
27

Em função das pesquisas geológicas que vêm sendo realizadas com mais acurácia
e dadas as condições novas de exploração de shale gas, as reservas provadas14 de gás natural
nos EUA saltaram de 250 trilhões de pés cúbicos (tpc) para quase 400 tpc em 2014 e, com a
diminuição dos preços em 2015, reduziram-se para pouco mais de 300 tcf. Nesse último ano,
as reservas provadas de shale gas corresponderam a 50% das reservas provadas totais de gás
natural nos EUA (U.S. ENERGY INFORMATION ADMINISTRATION - EIA, 2016a).
No mundo, classificando os países selecionados para a realização do estudo EIA
(2013), observa-se que aqueles com maiores reservas de shale gas tecnicamente
recuperáveis15 são China (1.115 tpc), Argentina (802 pc), Argélia (707 tpc), Canadá (573 tpc)
e Estados Unidos (567 tpc)16.
Para que os recursos de shale gas saiam da categoria de ´tecnicamente
recuperáveis´ e migrem para a de ´reservas provadas´, devem-se realizar muitos
investimentos em pesquisa, prospecção e testes geológicos e mineralógicos nas áreas onde já
foram detectadas as formações de shale. Talvez, ainda mais importante que todo o arsenal de
estudos e tecnologias pré-extração, os fatores “acima do solo” também devem ser favoráveis
para que o componente econômico da exploração seja considerado nas estimativas das
reservas provadas, principalmente preços dos recursos fósseis e a institucionalidade legal-
política do país.
Além disso, para que o gás natural proveniente das áreas de shale migre das
estatísticas das reservas provadas para, concretamente e de forma relevante, aparecer nos
resultados da produção de gás natural dos países produtores ou no faturamento das empresas
petrolíferas, devem estar presentes nos países com reservas provadas fatores favoráveis

14
De acordo com Graefe (2012), “reservas provadas consistem no petróleo que é ´razoavelmente provável´ que
seja produzido usando a tecnologia aos preços correntes, nos termos comerciais correntes e sob o
consentimento dos governos” (p. 63). Conforme aumentam os preços, aumenta-se o volume de hidrocarbonetos
residindo na categoria de reservas provadas. Complementando com a definição de The Society of Petroleum
Engineers (SPE, 2011) para reservas provadas: “If probabilistic methods are used, there should be at least a 90%
probability that the quantities actually recovered will equal or exceed the estimate. Often referred to as 1P, also
as “Proven.””(p. 212).
15
Na classificação usada por EIA (2013), os recursos tecnicamente recuperáveis representam o volume de óleo
e gás que podem ser produzidos de acordo com a tecnologia corrente, sem levar em conta os preços e os custos
de produção. Os recursos economicamente recuperáveis, contidos no conceito anterior, já compreendem
volume de óleo e gás que podem ser produzidos lucrativamente de acordo com as condições de mercado. (p.
10). Essas categorias podem ser visualizadas na Figura 1 do Anexo A.
16
Nessa estimativa, os recursos tecnicamente recuperáveis de shale gas no Brasil seriam de 245 trilhões de pés
cúbicos. De acordo com a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial - ABDI (2013), esses recursos estão
presentes na Bacia do Rio Parnaíba. Outras formações não convencionais de gás no Brasil encontram-se nas
bacias do São Francisco, Paraná, do Parecis e do Recôncavo (p. 8).
28

bastante específicos requeridos pela dinâmica econômica da indústria petrolífera (de óleo e
gás natural), como infraestrutura, mercado, encadeamentos interssetoriais, etc. Até esse
momento, o único país que conseguiu resultados expressivos a partir da descoberta e
viabilidade dessa nova área de exploração de hidrocarbonetos foram os Estados Unidos.
Como será apresentado com uma boa dose de aprofundamento neste trabalho,
para ter sido o palco originário da “Shale Revolution”, os EUA contaram e contam com uma
institucionalidade regulatória e econômico-financeira ímpar, difícil de ser rapidamente e
plenamente transplantada, de alguma forma, para outros países. Além de contar com um
gigantesco aparato público de apoio por décadas, a atividade petrolífera nos EUA e, portanto,
o segmento mais recente de exploração de áreas não convencionais, também foi beneficiária
de uma legislação ambiental permissiva, de uma política monetária favorável, de um mercado
de capitais sofisticado e com uma liquidez abundante para volumosos financiamentos, e de
uma legislação de posse de terras que permite a exploração do subsolo a partir da decisão
unicamente de seus proprietários. Além disso, os governos estaduais, municipais e federal
(inclusive o do democrata Barack Obama) em conjunto com os setores privados produtivo e
financeiro conduziram uma campanha muito bem-sucedida de propaganda entusiástica com
relação aos ganhos econômicos, sociais, ambientais e geopolíticos que seriam trazidos pela
extração e produção dos hidrocarbonetos das rochas de shale nos EUA.
Na esteira dessa excitação promovida (e aqui, supõe-se, para isso realizada), os
agentes financeiros nos EUA, que buscavam novas fronteiras de acumulação após a crise de
2008, puderam renovar suas carteiras de empréstimos muito facilmente com os produtores
de shale. Como será analisado à frente, a sustentabilidade da produção de shale gas dependeu
de constantes aportes de novos recursos, conduzindo a uma relação simbiótica entre Wall
Street, buscando novos devedores, e shale drillers, requisitando crédito.
Mazzucato (2013; 2015) elenca a emergência da atividade de shale gas nos EUA
como um dos exemplos de que os esforços de pesquisa e programas públicos de
financiamento e de desenvolvimento tecnológico, instituições típicas de um Estado
Empreendedor são capazes de ensejar. Weiss (2014), embora não mencione a atividade de
extração de óleo e gás das formações de shale como resultado das ações de promoção do
Estado estadunidense, mostra em profundidade de que forma a busca por segurança nacional
nos EUA conduz à execução de políticas industriais e tecnológicas de grande relevo,
29

responsáveis pela emergência das inovações tecnológicas que foram marcando os setores
produtivos nas últimas décadas desde o pós-guerra. Em um espectro de Estados mais e menos
ativos, a autora insere os EUA no extremo mais ativo, superando até mesmo o Estado chinês
na promoção do desenvolvimento tecnológico17.
Essa é uma breve descrição do contexto geral no mundo, mas sobretudo nos EUA,
sobre o qual se assentou o surgimento da atividade de exploração e produção de shale gas. O
Shale Boom nos EUA, em função da volumosa produção de líquidos de gás natural
(principalmente o etano), trouxe importantes alterações no cálculo da rentabilidade de novos
projetos de investimentos no setor petroquímico18 naquele território. Ao fornecer matérias-
primas e uma fonte de energia a baixos custos nos curto e médio prazos a um setor para o
qual esses custos compõem uma fatia significativa dos custos totais, os EUA lançaram-se como
um novo espaço de investimentos do setor petroquímico e, consequentemente, como um
grande competidor mundial.
Foi nesse encadeamento “shale gas e setor petroquímico” nos EUA que residiu o
interesse para a elaboração deste trabalho. Parte-se aqui da premissa de que a experiência
dos EUA pode servir de base para frutíferas reflexões sobre as condições de competitividade
do setor petroquímico no Brasil.
Para avançar nessa investigação, arrolam-se as seguintes perguntas
intermediárias:
- Há, de fato, a emergência de uma nova fonte de vantagem competitiva duradoura para o
setor industrial nos EUA com a produção de shale gas?
- Quais arranjos institucionais deram base à expansão dessa atividade? Aqui o principal
interesse está em mapear a importância do Estado em suas várias dimensões para o apoio à
consolidação do shale gas.
- Quais são, nesse novo contexto, os determinantes atuais da competitividade do setor
petroquímico?

17
Sobre a intervenção do Estado nos EUA: “Its innovation activism may indeed surprise in view of that country’s
characterization as the archetypal liberal market economy. Nevertheless, the United States is quite possibly the
preeminent power in using all these active forms of industrial governance—but often in forms that are decidedly
not conventional” (WEISS, 2014, p. 08).
18
O processo produtivo do setor petroquímico se inicia com a utilização de matérias-primas líquidas e gases (em
geral tóxicas e corrosivas) provenientes do setor petrolífero, e, a partir de reações químicas com fortes energias
de ativação (temperatura e pressão), se finda com a geração de um conjunto variado de produtos petroquímicos
(Suarez, 1986).
30

- A expansão de shale gas nos EUA e no mundo constitui uma nova ameaça ao setor
petroquímico brasileiro? Em particular, como se alteram as forças, gargalos e fragilidades da
indústria brasileira frente a essa nova fonte de oferta de matéria-prima petroquímica?
Para este estudo, partiu-se das hipóteses de que a atividade de shale gas afeta
sobremaneira, e de forma duradoura, as condições de competitividade do setor petroquímico
mundial; em segundo lugar, que o arranjo que permitiu a consolidação dessa atividade nos
EUA tem como figura central o Estado e suas articulações com o grande capital; em terceiro
lugar, que os fatores determinantes da competitividade do setor petroquímico são a alta
integração da cadeia produtiva e o acesso ao capital. Para tanto, mais do que nunca, se faz
necessária a atuação do Estado seja como produtor direto, seja na articulação dos agentes da
cadeia produtiva, na regulação da atividade e dos mecanismos de concorrência
intercapitalista, no financiamento, no desenvolvimento da infraestrutura e no fortalecimento
de uma institucionalidade favorável à inovação tecnológica; em quarto lugar, que esse novo
ambiente competitivo impõe desafios de monta para a petroquímica brasileira, elevando a
importância da presença da Petrobras na determinação da competitividade do setor.
Este tema poderia ser abordado com base num olhar e numa literatura do campo
da Organização Industrial e neo-schumpeteriano em que as oportunidades, trajetórias e
desafios tecnológicos, que surgem neste momento no setor petroquímico e na sua interação
com os setores petrolífero e de refinaria, pudessem ser o foco principal de análise. Considera-
se aqui que os reflexos do desenvolvimento e mudanças tecnológicos sobre a cadeia produtiva
petroquímica e suas eventuais novas formas de governança conformam um objeto de
pesquisa e investigação de grande importância. No entanto, a opção aqui definida foi a de
utilizar a lente da Economia Política – embora haja, ao longo de todo o trabalho, muitas
referências explícitas ou implícitas aos autores e autoras da Economia Industrial – para
observar como o Estado se articula com o grande capital na criação de novos espaços de
acumulação.
Assim, pode-se afirmar que o objetivo desta tese é o de avaliar o arranjo
produtivo-financeiro que foi estabelecido entre os setores de exploração de gás e o
petroquímico nos EUA, com um olhar atento aos papéis que Estado e o grande capital ali
desempenharam, e refletir sobre como esses elementos e atores determinantes para a
31

competitividade das empresas do setor se estabelecem na estrutura produtiva brasileira. Para


tanto, este trabalho estrutura-se em três capítulos.
No capítulo 1, caracterizam-se a indústria petroquímica e a cadeia produtiva na
qual ela se insere. A viabilização técnico-econômica do processo produtivo petroquímico de
fluxo contínuo de processamento de insumos requer elevada automação, necessidade da
integração física e econômica com o setor fornecedor de matéria-prima e uma localização
geográfica delimitada em aglomerações produtivas (os denominados polos ou complexos
petroquímicos). Além disso, pelo potencial de inovações em processo e em produto, o setor
petroquímico revela alto grau de dinamismo. Para tanto, a geração e acúmulo de
competências tecnológicas são essenciais à sobrevivência das empresas e à sua capacidade
de expansão.
Com efeito, busca-se sublinhar, a partir da revisão bibliográfica especializada no
setor petroquímico, que escala, integração vertical, diversificação horizontal e
internacionalização constituem os principais fatores de competitividade nesse setor. O
alcance desses quatro requisitos competitivos requer um inevitável volume de recursos
financeiros. Essa intensa necessidade de capital desse setor define que o Estado e a Grande
Empresa sejam peças chaves para a compreensão da obtenção da liderança competitiva do
setor.
No capítulo 2, o foco migra para a análise das condições econômico-políticas nos
EUA que deram ensejo à emergência, desenvolvimento e consolidação deste novo e
importante espaço de acumulação nesse país: a atividade de exploração de gás nas formações
rochosas de shale. Além da descrição das características técnico-econômicas dessa atividade,
neste capítulo, lança-se luz ao importante papel cumprido pelas políticas industriais,
tecnológicas, fiscais, regulatória e de comércio exterior nos EUA para o concomitante
aumento surpreendente da produção de hidrocarbonetos naquele território e dos projetos de
investimento no setor petroquímico, mesmo após a deflagração da grave crise financeira de
2008. A política monetária pós crise que combinou o “quantitative easing” (compra de títulos
em larga escala pelo Federal Reserve) com taxas de juros muito baixas (próximas de zero) pode
ser vista como peça importante dessa engrenagem, ao prover liquidez exuberante ao sistema
financeiro. O otimismo no mercado financeiro que resultou desse conjunto de estímulos
monetários facilitou o financiamento das operações das empresas do setor com elevado grau
32

de alavancagem e dos processos de fusão e aquisição que caracterizaram o setor no período


mais recente.
A análise do setor petroquímico no Brasil, o histórico de sua estruturação, as
mudanças na estrutura regulatória com o processo de privatização, e sua consolidação na
formação de uma grande empresa integrada e com forte potencial de avanço é o objeto do
capítulo 3. Ali se busca compreender as perspectivas e desafios atuais do setor à luz dos
fatores de competitividade analisados e do exemplo analisado no capítulo 2 a respeito do
revigoramento contundente das bases de competitividade na petroquímica nos EUA.
Por fim, nas considerações finais da tese, busca-se a síntese da experiência exitosa
(em termos econômicos) da reconquista da competitividade do setor petroquímico nos EUA,
avaliando como o Estado e o grande capital se articulam para viabilizar, alcançar e sustentar
condições de competitividade às empresas lá instaladas.
As lições extraídas daí podem ser interessantes para a análise do caso brasileiro,
sobretudo tendo em vista que a gestão atual da Petrobras anunciou em 2016 a venda de sua
importante participação acionária na maior empresa petroquímica brasileira, a Braskem. Esse
movimento não só representa a retirada de um ente estatal do setor como também engendra
um efeito de desintegração patrimonial na cadeia petroquímica, em razão da saída do
produtor de matéria-prima da principal empresa do setor petroquímico. O desinvestimento
da Petrobras significa tanto a eliminação de instrumentos públicos de coordenação,
financiamento e geração de novas capacitações ao setor petroquímico, como também está
situado em uma direção contrária não só às estratégias das maiores empresas petrolíferas que
aumentam sua posição em atividades downstream como a das maiores empresas
petroquímicas do mundo que não abrem mão de sua integração com o setor produtor de
matéria-prima, baseando aí uma parte considerável de suas vantagens competitivas.
33

CAPÍTULO I: SETOR PETROQUÍMICO: DETERMINANTES DA COMPETITIVIDADE

Este capítulo tem por objetivo apresentar os elementos que definem a


competitividade das empresas que compõem a indústria petroquímica mundial. Para isso, no
primeiro item define-se o escopo das atividades desse setor e a cadeia produtiva na qual ele
está inserido e, no segundo item, analisa-se brevemente a estrutura de mercado do setor
fornecedor das principais matérias-primas da indústria petroquímica, o setor petrolífero. No
terceiro item, realiza-se uma revisão bibliográfica acerca dos determinantes da
competitividade do setor. Realça-se o papel exercido pelas vantagens competitivas auferidas
pelas empresas com elevadas escalas produtiva e financeira, com alto grau de integração na
cadeia produtiva, de diversificação e com elevado poder de atuação global, por meio do
comércio ou investimentos. A obtenção desses fatores de competitividade demanda um
elevado montante de recursos financeiros e, portanto, em geral, está associada ao apoio dos
governos e suas políticas em várias dimensões, objeto de análise do último item deste
capítulo.

1.1. Abrangência das atividades do setor petroquímico

O setor petroquímico integra o setor químico, partilhando, assim, de suas


características técnicas e econômicas. Esses setores industriais, químico e petroquímico, são,
majoritariamente, produtores de insumos básicos que compõem uma infinidade de outros
produtos fabricados por outros setores, utilizando processos contínuos de produção em alta
escala e, portanto, são setores de alta intensidade de capital para as inversões produtivas. Ao
mesmo tempo, pelo potencial de inovação em seus produtos, requerem alta percentagem de
gastos em pesquisa com relação ao faturamento, o que define aqui também elevados
requisitos de financiamento.
Como uma subdivisão do setor químico, a petroquímica está atrelada
originalmente ao uso de frações do petróleo ou gás como suas mais importantes matérias-
primas. O setor que antecedeu a petroquímica, pois também cumpria a função de substituir
materiais naturais por sintéticos, com funcionalidade maior e a preços menores, foi a
carboquímica, química orgânica que utiliza subprodutos do processamento do carvão. No
início do século XX, diferentemente da Europa, nos EUA, a petroquímica rapidamente
predominou sobre a carboquímica, por utilizar como insumo o gás de refinaria, um
34

subproduto da refinaria que tinha, por sua vez, como principal produto a gasolina. Assim, a
oferta desse insumo se expandiu muito, pois estava ligada ao crescimento da indústria
automobilística no mercado estadunidense no início do século XX. O insumo da carboquímica,
por sua vez, dependia dos resíduos do processo da indústria siderúrgica (carbonização da
hulha para o coque siderúrgico) que, naquele momento, já tinha alcançado maturidade e não
crescia a taxas tão altas quanto as da indústria automobilística. Assim, enquanto a Europa vivia
a carboquímica no seu auge, os EUA já possuíam, em 1940, uma escala na petroquímica
considerável (GUGLIELMO, 1962). Dessas datas se pode compreender que os processos
petroquímicos e seus resultados, da forma como se apresentam nas economias modernas,
são relativamente recentes. O polietileno, por exemplo, principal resina termoplástica
atualmente, só foi produzido em escala comercial nos EUA em 1945 (GUGLIELMO, p. 27,
1962).
Mais recentemente, as plantas petroquímicas, na esteira do movimento mundial
pela diminuição do uso de combustíveis fósseis, também produzem em grande escala alguns
polímeros e insumos químicos a partir de matéria-prima de origem vegetal (como o etanol),
embora o petróleo e gás ainda continuem sendo a base para os produtos que seguem à frente
ao longo da cadeia petroquímica. Assim, de uma maneira geral, pode-se afirmar que o setor
petroquímico consome hidrocarbonetos como matéria-prima, que podem ser de origem fóssil
(óleo, gás e carvão) ou vegetal (etanol19). Petróleo e gás são, no entanto, os maiores
provedores de insumos para o setor petroquímico, uma vez que fornecem a nafta e gasóleo
(do petróleo) e o metano, etano, propano e butano (do gás natural) (Figura 1).
O nascimento da indústria da química orgânica (que produz químicos formados
principalmente por moléculas de carbono e hidrogênio) esteve relacionado à limitação de
provimento de moléculas orgânicas provenientes dos produtos naturais e à qualidade
superior dos produtos sintéticos com relação aos de base natural (GUGLIELMO, 1962, p. 71).
A consolidação e crescimento do setor petroquímico após 1950, por sua vez, dependeram
menos de sua supremacia técnica-econômica com relação à carboquímica e mais do progresso
acelerado da indústria petrolífera (e do refino do óleo para a produção de combustíveis

19
A produção de etileno à base do etanol vegetal (obtido por fermentação) é antiga e precede a petroquímica.
No entanto, Guglielmo (1962) registra que o processo de desidratação do álcool etílico de fermentação contínua
a partir dos resíduos da produção agrícola era mais custoso para a produção de etileno do que os meios sintéticos
(carvão e, depois, o petróleo).
35

automobilísticos) para o qual o setor petroquímico apresentava-se como complementação


natural e, ao mesmo tempo, necessária para o escoamento dos produtos do refino
(GUGLIELMO, 1962, p. 68). Também jogou papel essencial o vertiginoso crescimento e
surgimento de novos mercados no pós-2ª Guerra para o consumo de plásticos, fibras,
detergentes e borrachas sintéticos. A ampliação dos mercados para a petroquímica também
decorre das diminuições de preços provenientes dos ganhos de escala e do progresso
tecnológico no processamento químico (GUGLIELMO, 1962, p. 72).
A química inorgânica já parte de outros elementos químicos para a composição de
seus produtos (cloro e sódio, por exemplo), embora também utilize os derivados do gás
natural (amônia e uréia). A petroquímica se distingue, embora de forma tênue, das atividades
produtivas da química inorgânica também pelos seus setores a jusante, definindo uma cadeia
industrial própria. Isso porque, enquanto a química inorgânica se integra principalmente aos
setores de fertilizantes e outros segmentos do setor químico, o setor petroquímico tem como
principal destino de sua produção a chamada 3ª. geração da cadeia petroquímica que é
formada sobretudo pelo setor de transformados plásticos. Os produtos de plásticos são
aplicados em quase todos os setores, desde os mais básicos (agricultura, alimentos) aos mais
sofisticados (eletro-eletrônicos, materiais de saúde/hospitalar); podem estar numa forma
intermediária para seu uso (bobinas de filmes plásticos, peças de plástico), semi-pronta
(embalagens), ou prontas para uso (móveis de plástico, brinquedos, calçados, etc.). Essa
pervasividade da petroquímica na estrutura produtiva moderna foi destacada por Suarez
(1986, p. 36):
“As indústrias de transformação assim geradas, também conhecidas como
a quarta geração, são tantas e tão diversificadas (...) que acabam
interligando a petroquímica a praticamente toda a sociedade industrial. Por
esta razão a petroquímica acaba atuando como elemento estruturador das
economias modernas, atrelando (até certo ponto) sua dinâmica ao
desempenho da própria economia como um todo”.

Como ilustrado na Figura 1, a cadeia produtiva da indústria petroquímica é


composta por três fases, denominadas “gerações”. Os produtos da 1ª. geração são os
monômeros (etileno20, propileno, butadieno, benzeno, tolueno e xilenos) e os da 2ª. geração

20
O etileno, ou eteno, é o principal insumo (principal molécula building block) para os produtos petroquímicos.
O total produzido de etileno (145 milhões de toneladas por ano) no mundo é maior do que o restante da
produção de outros compostos orgânicos. Além de ser utilizado para a produção do polietileno, poliestireno e
PVC, também é o principal componente para a produção de óxido de etileno, aceltadeído, insumos importantes
para a fabricação de detergentes, solventes e surfactantes. De qualquer forma, vale mencionar que a produção
36

são os polímeros ou também chamados de resinas termoplásticas (polietileno, polietileno de


alta e baixa densidade, PET, poliestireno, polipropileno e outros) e os químicos intermediários
(óxido de etileno, glicóis, tensoativos aniônicos, acrilonitrila, etc.). Também são oriundos
dessa etapa da cadeia petroquímica os termofixos, os elastrômeros, as fibras sintéticas,
fertilizantes, detergentes, solventes e plastificantes21. No entanto, os polímeros
termoplásticos (as resinas) definem a dinâmica e a estrutura do setor22 e é sobre eles que
recairá a atenção deste trabalho.

Figura 1 – Cadeia produtiva petroquímica: elo petrolífero, de refino e produtos da 1ª. e 2ª. Gerações

Fonte: Bain & Company, Gas Energy (2014a, p. 5).

Na 1ª. geração, ressalte-se a importância da produção de etileno e propileno (que


podem advir da nafta ou do etano e propano) como petroquímicos que seguem para a geração

global de polietileno consome mais de 70% do etileno produzido (PETROCHEMICAL UPDATE, 2016a). Etileno,
propileno e butadieno fazem parte do conjunto denominado olefinas, enquanto o benzeno, tolueno e xileno são
alocados na cadeia dos hidrocarbonetos aromáticos (AMERICAN CHEMISTRY COUNCIL - ACC, 2013).
21
Uma lista relativamente extensa de produtos da 2ª. Geração e suas categorias (petroquímicos básicos,
intermediários para plásticos, intermediários para resinas termofixas, outros produtos orgânicos, intermediários
para fibras sintéticas, elastômeros, intermediários para plastificantes, plastificantes, intermediários para
detergentes e solventes industriais) pode ser averiguada no relatório do IPT (2008).
22
Assim como definido no relatório do IPT (2008): “Na verdade, a fabricação de resinas influencia a estrutura do
setor devido à sua característica de ser a demandante fundamental dos produtos petroquímicos básicos e pelas
especificidades tecnológicas da produção petroquímica – que se traduzem em dependência bilateral entre estas
duas fases da cadeia e investimentos altamente dedicados, e em decorrência disto, arranjos produtivos e
econômicos característicos.” (IPT, 2008, p. 14).
37

seguinte, formando as resinas termoplásticas e os intermediários. Buteno, butadieno e


aromáticos são considerados co-produtos das plantas de 1ª. geração, em função do menor
volume de consumo relativamente ao etileno e propileno. Cabe apontar que as olefinas
(etileno, propileno) também podem ser obtidas do carvão (em um processo denominado coal-
to-olefins - CTO) e do metanol (denominado methanol-to-olefins - MTO). O etanol, produzido
a partir das usinas que processam alguns bens agrícolas (cana-de-açúcar, beterraba e milho),
também pode ser utilizado como insumo, formando a categoria dos “polímeros verdes”23.
Atente-se na Figura 1 que o metano, principal componente do gás natural, aparece
como outro insumo da indústria petroquímica. Esse hidrocarboneto simples (CH4) poderá ser
transformado em químicos intermediários como amônia (e depois uréia) e metanol (e depois
ácido acético e acetato de vinila). Nessa figura também fica evidente a importância dos
aromáticos (benzeno, tolueno e p-xileno) para a fabricação de tensoativos, poliamidas,
poliuretanos e poliéster que são usados em produtos de limpeza, na indústria têxtil, na
produção de espumas, pneus, calçados e plásticos. Em vários desses itens, além dos
aromáticos, as olefinas também participam na formulação completa desses petroquímicos.
A produção do setor petroquímico pode ser dividida em categorias semelhantes
ao que Wongtschowski (2002) realizou para a produção do setor químico como um todo.
 Commodities químicas: “compostos químicos produzidos em larga escala,
frequentemente de matérias-primas cativas, com especificações padronizadas para uma
gama variada de usos. Normalmente, as commodities têm as suas vendas concentradas
em um número relativamente pequeno de clientes. Ex: amônia, ácido sulfúrico, etileno,
metanol e gases industriais” (p. 46).
 Pseudocommodities químicas: “são produtos diferenciados, que têm em comum com as
commodities serem produzidos em larga escala, a partir de matérias-primas em geral
cativas, quase sempre compradas por poucos clientes, que são grandes consumidores.
Diferenciam-se das commodities por não serem vendidas a partir de especificações de sua

23
Além dessas rotas para a produção dos polímeros também pode ser citado o projeto da Aramco e da Sabic, a
partir de uma joint-venture, de transformar óleo cru diretamente em petroquímicos, dispensando a fase da
produção da nafta (MAHDI; DIPAOLA, 2016). Está ainda em fase de experimentação uma tecnologia detida pela
empresa estadunidense Siluria Technologies que, a partir da adição do oxigênio, transforma o metano em etileno
(acoplamento oxidativo do metano) (HELMAN, 2015). Para a primeira planta em escala industrial a usar essa
tecnologia e para o financiamento dos experimentos estão as empresas Braskem, The Linde Group, Saudi
Aramco, National Petrochemical Industrial Company (NatPet), Maire Tecnipoint e Air Liquide (SILURIA
TECHNOLOGIES, 2017).
38

composição química, mas sim, por especificações de desempenho, para uma ou mais
finalidades. Ex: resinas termoplásticas, fibras artificiais e elastômeros.” (p. 46).
 Especialidades químicas: “são produtos diferenciados, fabricados em pequenas
quantidades, geralmente com matérias-primas compradas de terceiros, projetados para
finalidades específicas do cliente e frequentemente vendidos para um grande número de
clientes que compram pequenas quantidades. Alguns exemplos: catalisadores, corantes,
enzimas e aditivos em geral” (p. 46).
Em geral, são os setores industriais a jusante, pertencente à 3ª. geração, que
definem a categoria de agregação de valor aos produtos petroquímicos, a partir da qualidade
e sofisticação de sua demanda. Como exemplo, enquanto a construção civil e o setor
fabricante de embalagens consomem mais commodities e semicommodities, os setores
automobilístico, de aviação e de eletro-eletrônico demandam mais os plásticos com
propriedades específicas (e, por isso, a interação usuário-produtor para a fabricação e
pesquisa nesse segmento das resinas é tão importante), encontradas nas especialidades
químicas, como os plásticos de engenharia (HIRATUKA; GARCIA; SABBATINI, 2003).
O material plástico tem algumas características que lhe confere vantagens sobre
outros materiais como o ferro, alumínio e o papel. A substituição desses últimos por plástico
constitui uma trajetória tecnológica permanente que até agora não findou. A prova disso é
que o consumo per capita de plásticos aumenta mais do que o PIB per capita. Pelas
perspectivas melhores de taxas de crescimento econômico, países em desenvolvimento ainda
têm potencial de inserção do material plástico muito maior que o de países desenvolvidos.
Ademais, o consumo de plásticos por habitante no primeiro conjunto de países é muito menor
que no segundo (como exemplo, o do Brasil é de 35 kg, enquanto nos EUA e Japão é de 100
kg, segundo a Associação Brasileira da Indústria do Plástico – ABIPLAST, 2015).
As empresas de 1ª. geração, produtoras de commodities petroquímicas,
correspondem às centrais petroquímicas. Normalmente, por processo de craqueamento24,
essas empresas processam a nafta, o etano ou o etanol para transformá-los em etileno,
propileno, butadieno e outros. Em função do processo contínuo e das dificuldades de
transporte, as centrais petroquímicas estão situadas no mesmo espaço físico ou muito

24
Segundo o glossário da Braskem a investidores, o processo de craqueamento consiste na “transformação por
ruptura (cracking, quebra) de moléculas grandes em moléculas menores”. Disponível em: http://www.braskem-
ri.com.br/glossario. Acesso em: 07 de ago. 2017.
39

próximas das refinarias de petróleo ou das plantas de processamento de gás natural. Pelos
mesmos motivos, as empresas de 2ª. geração encontram-se totalmente integradas ou muito
próximas às suas fornecedoras, empresas da 1ª. geração.
O único elo da cadeia petroquímica relativamente mais disperso geograficamente
corresponde às empresas transformadoras. Elas também tendem a se concentrar nas regiões
próximas aos polos petroquímicos, mas sua viabilidade econômica, em que pese a
desvantagem de custo, até pode se manter caso se situem longe do fornecimento da matéria-
prima (valendo-se de vantagens competitivas de diferenciação, por exemplo). Alguns
produtos transformados plásticos são de difícil transporte em função de sua baixa densidade,
como os tubos e embalagens e tanques de grande porte. Nesses casos, as empresas
transformadoras dessas peças de plástico tendem a ficar próximas dos mercados
consumidores. O mesmo vale para empresas transformadoras dedicadas a setores específicos
como as de peças para automóveis, eletrodomésticos, eletroeletrônicos, alimentos. Nesses
casos, se há uma aglomeração setorial desses produtores de bens finais, os setores
fornecedores – o de transformação de plásticos é um deles – tendem a se estabelecer
próximos às indústrias clientes.
A dependência da 1ª. geração ao elo fornecedor de insumos – as refinarias de óleo
e as plantas processadoras de gás natural –, é substantiva pelas incertezas com relação ao alto
volume que é demandado e quanto ao mix de produtos que será elaborado pelas refinarias
(que depende, por sua vez, da qualidade do petróleo que está para elas disponível e das
demandas de vários mercados). No trecho seguinte, Guglielmo (1962, p. 55) apresenta esse
entrelaçamento técnico e econômico entre o setor petrolífero e petroquímico, com uma
maior vulnerabilidade do segundo setor com relação ao primeiro:
“A natureza e a tonelagem dos subprodutos petroleiros entregues à
petroquímica não dependem de dados geológicos, mas do tipo de
operações efetuadas pelas refinarias e da capacidade de tratamento, isto
é, unicamente de fatores técnicos e econômicos, sobretudo para a
refinação instalada longe das jazidas. A usina petroquímica deve, portanto,
fixar a natureza e o volume de suas fabricações, não só segundo as
possibilidades de mercado próprio, mas também conforme a de seu
fornecedor.”

Em função dessa dependência, Guglielmo (1962) destaca a necessidade da


proximidade física e comercial entre as refinarias e as plantas petroquímicas formando, por
vezes, os chamados complexos petroquímicos, com contratos de longo prazo com o setor
40

fornecedor e com integração plena desses três elos produtivos (refinaria, 1ª. geração e 2ª
geração petroquímica em um mesmo grupo econômico). Segundo o autor, reside aí uma das
razões para o avanço do capital petroleiro na produção petroquímica. A integração vertical
física e societária define os melhores preços para os insumos petroquímicos, eliminando a
vulnerabilidade do setor petroquímico no que toca à sua relação com o setor fornecedor.
De acordo com ExxonMobil (2016a), 60% dos energéticos consumidos pelas
empresas químicas são usados como matéria-prima para a produção de olefinas e aromáticos
(etileno, propileno e xilenos e outros)25. A nafta sempre apresentou a maior participação
(ainda hoje corresponde a 55% do total de insumos consumidos nas plantas petroquímicas),
mas os líquidos de gás natural têm se aproximado (em 2016 corresponderam a 40%) e a
projeção dessa empresa para a petroquímica mundial é que em 2040 se igualem em
importância. Ainda assim, diferenças regionais permanecerão, uma vez que a América do
Norte e o Oriente Médio devem utilizar mais os derivados do gás natural e a petroquímica da
Ásia do Pacífico mais a nafta (p. 35). O Gráfico 1 mostra essa tendência de igualação dos
líquidos de gás natural e nafta como matéria-prima para a indústria petroquímica.

Gráfico 1– Consumo do setor químico de nafta, líquidos de gás natural e outros combustíveis, em
quadrilhões de Btu, 2010, 2025(projeção) e 2040 (projeção)

Fonte: ExxonMobil (2016a, p. 39).

25
Outro uso importante é como geração de energia para o aquecimento para a manutenção da pressão dos
equipamentos. Segundo a organização American Fuel and Petrochemical Manufacturers - AFPM, “This process
requires large amounts of energy and sophisticated engineering. Because of these extreme operating
conditions, energy consumption accounts for a significant portion of the total cost of production” (AFPM,
2017).
41

No gráfico 2, observa-se que o consumo de derivados de petróleo e gás para a


produção de químicos e petroquímicos, como fonte de energia, combustível ou de matéria-
prima, corresponde, com algumas exceções, a pelo menos 60% do custo total. Na produção
do propileno, essa categoria de custos representa mais que 80% do custo total.
As plantas petroquímicas da 1ª. geração, em geral, são especializadas a partir de
sua matéria-prima: são crackers baseadas em nafta ou em etano. O craqueamento da nafta
ou do etano oferece um mix de produtos diferente, de acordo com a carga do cracker. Isso
porque o etano rende uma variedade menor de produtos do que a nafta.

Gráfico 2 – Participação dos custos com energia, combustível e matéria-prima no custo total da
produção de alguns petroquímicos

Fonte: ACC (2013, p. 19).

No Gráfico 3, pode-se observar o exemplo de uma planta craqueadora de etano e


de uma que utiliza a nafta, com seus respectivos produtos e rendimentos. O etano do gás
natural tem seu rendimento concentrado no etileno (80% do total), enquanto a nafta gera,
42

relativamente ao etano, menos etileno; porém tem um rendimento maior de propileno,


butadieno e de aromáticos.

Gráfico 3 – Perfil dos crackers: participação (%) dos componentes resultantes do craqueamento da
nafta e do etano

Fonte: Braskem (2015a).

Simão (2014) também mostra esses dados, chamando atenção para o fato de que
quanto mais pesada a carga (menor relação hidrogênio/carbono), menor o rendimento do
etileno. A partir do processo de craqueamento a vapor do etano é possível extrair 84% de
etileno e apenas 1,2% de propileno. A nafta, por outro lado, rende 35,0% de etileno e 18% de
propileno.

Tabela 1 – Impactos da qualidade da carga: participação (%) dos produtos resultantes

Carga

Gasóleo de
Etano Propano Butano Nafta Gasóleo Vácuo (VGO)
Gás Combustível 13,8 32,9 28,6 18,0 12,0 10,0
Etileno 84,0 46,0 46,2 35,0 28,5 26,0
Propileno 1,2 14,5 18,0 18,0 17,0 16,5
Gasolina de Pirólise 0,8 5,8 5,4 20,0 26,5 25,0
Óleo Combustível 0,2 0,8 1,8 9,0 16,0 22,5
Total 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0
Fonte: Simão (2014, p. 60).

Já que o etano do gás natural é menos versátil que a nafta, a sua vantagem
competitiva reside, principalmente, no rendimento maior do etileno e no seu preço em
comparação com a nafta. Além disso, outra vantagem do uso do etano sobre a nafta é que
43

esse dispensa os pesados investimentos na construção e operação de refinarias. No entanto,


as jazidas de gás natural devem estar próximas das unidades processadoras de gás, o que
também gera uma rigidez e dependência à existência de reservas de gás de alta qualidade e
rendimento (SUAREZ, 1986; EIA, 2014a). Os custos fixos da estrutura industrial das plantas a
partir do etano tendem a ser mais simples por não serem multiproduto.
As vantagens do uso da nafta estão ligadas à maior diversificação produtiva, às
sinergias com o elo upstream da cadeia e à maior flexibilidade a partir da geração de mais
produtos petroquímicos (HIRATUKA; GARCIA; SABBATINI, 2003). Sua desvantagem, de ordem
técnica, está relacionada ao processo produtivo mais complexo (com mais etapas e
equipamentos) do que o do craqueamento do etano. Por outro lado, em geral, as plantas
petroquímicas estão situadas próximas das refinarias e podem receber a nafta (muitas vezes,
um resíduo para as refinarias) com baixo custo de transporte (PETROCHEMICAL UPDATE,
2016a).
Os preços do gás natural não estão tão ligados ao do óleo cru como a nafta está e,
nos momentos de altos preços do petróleo, as plantas baseadas em etano ficam muito mais
competitivas. O contrário ocorre em momentos de diminuição do preço do óleo, em que
projetos baseados em etano deixam de ficar tão atrativos e há uma recuperação da
competitividade das plantas baseadas em nafta26.
Para a comparação entre centrais petroquímicas baseadas em nafta ou etano,
Schutte (2004) adiciona, além do preço relativo desses insumos, fatores como custo do
investimento, uso desses insumos no setor energético e “existência e as condições de
mercados para os co-produtos”.
“De outro lado, para produzir uma tonelada de eteno é preciso 1,24 de
etano e 2,9 de nafta. No caso da disponibilidade de ambos, a escolha
depende da existência e das condições de mercados para os co-produtos.
Outro aspecto importante é que os insumos da petroquímica também são
insumos da indústria energética, o que cria uma relação de concorrência e
interligação.” (SCHUTTE, 2004, p. 52).

Como destacado nesse trecho, é necessário um volume maior de nafta para um


rendimento de etileno semelhante ao produzido pelo etano. Além disso, há que se considerar
a concorrência do uso da nafta para o setor de combustível. A nafta pode ser misturada ao

26
Os projetos de tecnologias alternativas para obtenção das olefinas também se tornam comprometidos nos
momentos de baixas acentuadas do preço do óleo. São os casos do MTO (methanol-to-olefins), MTP (methanol-
to-propylene) e CTO (coal-to-olefins).
44

etanol e gasolina para gerar uma octanagem mais apropriada. Nesse caso, o acesso à nafta
pela petroquímica pode ficar comprometido.
As refinarias que utilizam óleo cru e condensados como insumos também são
produtoras de etileno, porém o utilizam como energético nas próprias unidades. Conseguem
produzir em maior quantidade o propano e o propileno. No entanto, a sua comercialização
depende do mix de produtos desejados pelas refinarias e da qualidade do óleo que recebe
como insumo. Em geral, propano e propileno também tendem a ser utilizados internamente
como blend para outros produtos. Assim, a produção de propilenos, em geral, é oriunda das
plantas petroquímicas (sobretudo a base de nafta) e não das refinarias (EIA, 2014a).
Se a tendência de aumento da participação do etano como insumo dos
petroquímicos persistir, PwC (2012) relata que algumas mudanças podem ocorrer no tocante
às definições de projetos e linhas de pesquisa e no mix de produtos disponíveis (prejudicando
os produtos mais pesados, com maior número de carbonos, como o butadieno, e aumentando
suas linhas de pesquisa na química baseada na família dos etilenos). De acordo com esse
relatório, na medida em que esforços intensos de pesquisa se concentram na cadeia do
etileno, novos mercados podem se abrir e reformulações na cadeia de suprimentos e nas
alianças tecnológicas passam a ser necessárias. Ao mesmo tempo, aumenta a pressão para o
surgimento de produtos substitutos ao etileno a preços competitivos. Ademais, processos
para a produção desses substitutos terão que ser do tipo on purpose (como a desidrogenação
do propano) para serem tão eficientes quanto a produção de etileno a partir do etano.
Um novo processo produtivo formulado e já aplicado pela ExxonMobil parece ter
ido nessa direção. Em uma das plantas no seu complexo petroquímico de Cingapura, essa
empresa produz oleofinas diretamente do óleo bruto sem passar pela nafta. Essa planta da
ExxonMobil já produz 1 milhão de toneladas de etileno por ano (BLUM, 2016a).
A escolha das rotas tecnológicas nas plantas petroquímicas durante a confecção
do projeto já determina a matéria-prima que se irá utilizar ao longo da vida da planta.
Portanto, há um elevado grau de rigidez nos projetos no tocante à definição do principal
insumo a ser utilizado, nafta, etano, metanol, gas-óleo, óleo cru, etc. (PELAI, 2006). Como são
plantas intensivas em capital e especializadas a partir do insumo que utilizam, as definições
técnicas para as plantas devem ter um horizonte de longo prazo e devem considerar vários
elementos como base para a decisão, como o custo da planta, preço e condições e segurança
45

de acesso aos insumos e a variedade dos produtos resultantes desejados (PETROCHEMICAL


UPDATE, 2016a). Portanto, essas opções, quando realizadas, vão ser caracterizadas por
irreversibilidades e por dependência no futuro à trajetória escolhida no passado (path-
dependence).
No próximo item, o objetivo é realizar uma caracterização rápida do setor
petrolífero (produtor de óleo e gás27), primeiro elo da cadeia petroquímica, o de fornecedor
primário de insumos. Sua posição na cadeia e o porte e o poder das empresas que integram o
setor petrolífero irão determinar traços essenciais do ambiente competitivo do setor
petroquímico.

1.2. Setor petrolífero (óleo e gás): grande capital no início da cadeia petroquímica

1.2.1. Produção de óleo: gigantismo desde sempre

A indústria produtora de óleo, incontestavelmente, tem uma dimensão mundial.


Do ponto de vista da demanda, esse recurso aparece (em diferentes graus) em todas as
matrizes energéticas dos distintos países, também constituindo matéria-prima para vários
outros setores. Do ponto de vista da oferta, a explicação para sua grandeza mundial reside na
importância de sua cadeia de produção para a geração de riqueza (real e financeira),
tecnologia e poder. Portanto, o setor petrolífero se situa no núcleo da competição mundial
capitalista pela apropriação de riqueza e poder. Como atesta Torres Filho (2004, p. 311):
“Paralelamente à sua importância geopolítica, o petróleo foi responsável por alguns dos mais
relevantes capítulos da história do capitalismo moderno”. A competição pela captura da
volumosa renda petrolífera que é criada nos diversos segmentos dessa cadeia produtiva
respondeu pelo processo de mundialização dessa indústria (MATHIAS, 2008).
A história da estrutura do mercado de petróleo já começa com o monopólio (e
monopsônio) da empresa Standard Oil28 que, de tão grande, foi desmembrada em 33

27
Neste trabalho, em geral, utilizam-se as palavras “indústria petrolífera” ou “setor petrolífero” para designar o
conjunto de empresas produtoras de óleo bruto, gás natural e outros líquidos.
28
A história de John D. Rockefeller no comando da Standard Oil é conhecida por suas manobras e trapaças para
aumentar o grau de comando em toda a cadeia de exploração, produção, refino e distribuição do óleo nos EUA,
como a quebra de concorrentes e fornecedores com a manipulação de preços (YERGIN, 2008). A trajetória do
carvão nos EUA (na ausência da concorrência do óleo como energético) também é recheada de manobras não
concorrenciais das principais empresas, como práticas de colusão para limitar a produção e para aumentar os
preços e para influenciar o governo na criação de leis que favoreciam a indústria (ROBERTS, 2005).
46

empresas29 após ser definida a sentença da Suprema Corte dos EUA, em 1911, contra o
império de John D. Rockefeller (YERGIN, 2008).
Após a 1ª. Guerra Mundial, a partir da qual o óleo ganha uma dimensão estratégica
para a indústria bélica e segurança nacional, e com a consolidação do motor à combustão na
indústria automobilística, a demanda por óleo se amplifica. Pelo seu relativo preço baixo,
menor dano ao meio-ambiente e pelo aumento do número de automóveis, ultrapassa o
carvão como principal fonte energética dos países centrais.
Com uma injeção de nova e firme demanda por óleo se estabelecendo, iniciou-se
o período de disputa oligopólica pela produção e comércio desse recurso entre as Sete Irmãs,
grandes empresas estadunidenses e europeias (inglesas, principalmente30). Essas empresas
foram fortemente apoiadas por seus governos para a busca de reservas de óleo fora de seus
territórios, especialmente no Oriente Médio, o que aumentou a rivalidade Europa-EUA
(YERGIN, 2008).
A corrida ao petróleo em outras regiões do mundo, principalmente no Oriente
Médio, gerou medo de que ocorresse novamente uma situação de sobreoferta. Torres Filho
(2004) ilustra esse momento com o seguinte fato: enquanto os EUA aumentavam
substancialmente sua produção, sua participação mundial na oferta de petróleo caía. Como
se refere o autor, “o mundo nadava em óleo”. A expansão acelerada da produção determinava
uma tendência à queda dos preços.
Com o intuito explícito de evitar a guerra de preços e a redução drástica das
margens de lucros das empresas petrolíferas, acordos entre as Sete Irmãs foram firmados nos
anos 1930 para o controle de produção (Acordos de Achnacarry em 1930, 1932 e 1934) e
contratos de concessão com os países produtores (que estabeleceram 50%-50% de repartição
nos rendimentos entre os países e as empresas estrangeiras operadoras dos campos)
(MATHIAS, 2008).
Os acordos de partilha da renda petrolífera no Oriente Médio foram bem
favoráveis às empresas ocidentais. De acordo com Torres Filho (2004), foi essa apropriação

29
Vale lembrar que essas empresas resultantes do desmembramento (as chamadas Baby Standards) já iniciaram
suas operações com um valor muito alto e, em um ano, já valiam mais que a empresa-mãe. A maior dessas
empresas, a Exxon (Jersey Standard) em poucos anos já figurava como uma gigante petrolífera (HAUTER, 2016).
30
A Shell fundiu-se com a Royal Dutch em 1906. No início da 1ª. Guerra Mundial, Winston Churchill logrou que
o governo britânico comprasse 51% da British Petroleum (BP) para converter o combustível dos navios de carvão
para petróleo. Em 1980, Margareth Tatcher vendeu essa participação estatal inglesa na BP (HAUTER, 2016).
47

que permitiu que as empresas aumentassem os investimentos em novos campos e nos elos
downstream (refinarias e redes de distribuição) nesse período.
A ligação entre as empresas estadunidenses e a Arábia Saudita (existente até hoje)
data do fim da 2ª. Guerra Mundial, em que, de um lado, o governo dos EUA buscava assegurar
as gigantescas reservas sauditas às suas empresas e, de outro, o governo árabe desejava
eliminar a presença inglesa (TORRES FILHO, 2004).
Durante o funcionamento do Cartel das Sete Irmãs, estabeleceu-se, segundo
Mathias (2008), “a fase mais duradoura de expansão estável da indústria” (p. 40). Isso porque
o cartel impedia a diminuição dos preços, mesmo com a introdução de exploração de poços
de baixos custos, garantindo assim, alta rentabilidade para a expansão dos investimentos na
própria indústria. Para efeitos de ilustração do sucesso dessa organização oligopólica
empreendida nesse período, no início de 1950, as sete empresas detinham 90% da oferta de
petróleo e ¾ do refino e distribuição (MATHIAS, 2008, p. 41).
A contestação do oligopólio aparece em seguida com a atuação das minors que
passaram a oferecer aos países produtores uma fatia maior que 50%, obtendo, assim, também
algumas concessões importantes no Oriente Médio. A ENI, por exemplo, estatal italiana que
tinha ficado de fora dos acordos com o Oriente Médio, ofereceu 75% dos rendimentos ao Irã.
A seguir, empresas japonesas e independentes dos EUA foram na mesma direção (TORRES
FILHO, 2004).
Outro elemento perturbador na estrutura de oferta de petróleo dominada pelas
Sete Irmãs foi a reaparição da Rússia (naquele momento União Soviética) como grande
produtora e exportadora de petróleo. As exportações soviéticas de petróleo, em 1958,
passaram a ser identificadas pelo governo estadunidense como uma ação econômica
integrada à Guerra Fria (TORRES FILHO, 2004).
No entanto, a mudança política mais substantiva ocorreu com a instituição da
OPEP em 196031. Inicialmente, Irã, Iraque, Kwait, Arábia Saudita e Venezuela se reúnem para
formar essa organização, em busca de maiores rendas petrolíferas e de sua sustentação,
alterando profundamente a organização do mercado, sobretudo quando esses países
nacionalizam suas reservas (em 1967, a Argélia; em 1969/1970, a Líbia; em 1972, a Arábia

31
Segundo Hauter (2016, p. 53), a constituição da OPEP foi uma reação à redução de preços empreendida pela
Exxon e seguida pelas “irmãs” petrolíferas.
48

Saudita, Catar, Kuait e Iraque – HAUTER, 2016) e as direcionam totalmente ou quase


totalmente para a operação de empresas estatais, recém-fundadas naquele momento por
esses países. Roberts (2005, p. 38) destaca esse momento:
“Although the entire world production was controlled by a small number
of private oil corporations, the sense among governments was that oil was
too important to be left in private hands – or even trusted to the laws of
supply and demand. Even more than coal before it, oil had become so
central to the economic well-being of nations that its value went beyonds
economics: oil was a political commodity, subject not simply to the laws of
supply and demand, but to the national agendas.”

A despeito dos novos espaços de exploração de petróleo no período após a 2ª.


Guerra Mundial, a demanda internacional crescia a taxas muito mais altas. A capacidade
ociosa do mundo ficou baixa e os EUA deixaram de ser “ofertantes em última instância” e
passaram a ser importadores líquidos de óleo. Em 1973, diante da iminência da guerra árabe-
israelense, os preços triplicaram. Com a desvalorização do dólar e com a apropriação maior
das receitas petrolíferas das empresas concessionárias em detrimento dos países
concedentes, os países árabes mostraram-se descontentes com o arranjo estabelecido
naquele momento (TORRES FILHO, 2004).
O apoio dos EUA a Israel foi o pretexto para o embargo às exportações árabes aos
EUA e para a decisão de aumento dos preços de forma autônoma pelos países da OPEP. Os
preços ficaram quatro vezes mais altos do que nos três meses anteriores ao aumento definido
em fins de 1973. Como salientou Torres Filho (2004, p. 323): “A posição de “ofertante de
última instância” do mercado era agora detida pela Arábia Saudita e não mais pelos EUA.”.
Em 1979, com a Revolução Iraniana, a produção desse país diminuiu
drasticamente, a estabilidade dos preços se rompeu com a tensão gerada pela saída do Xá
Mohammed Reza Pahlavi, aliado dos EUA32, os estoques dos consumidores aumentaram com
medo da escassez e os preços explodiram (de US$ 13 para US$34 o barril). Com o aumento de
preços, os membros da OPEP foram liberados para negociar seus contratos de acordo com
suas condições e interesses, tornando o mercado spot, que até então era marginal, com uma
posição de destaque (TORRES FILHO, 2004).
Se, de um lado, os choques de preço do petróleo em 1973 e 1979 mostraram de
forma contundente o peso das mudanças das decisões de produção e preço dos produtores

32
Segundo Hauter (2016, p. 56), Reza Pahlavi recebia apoio de John D. Rockefeller e de seu banco, o Chase
Manhattan.
49

OPEP sobre o cenário mundial, a dificuldade da ação coletiva entre os países membros ficou
patente no contrachoque do petróleo em meados de 1980. A Arábia Saudita, em 1985,
abandonou a função de swing-producer33, demarcando o fim do tabelamento de preços e o
aumento da importância do mercado à vista. O preço do barril saiu de US$ 31,75 em
novembro de 1985 e alcançou US$ 11,50 em abril de 1986 (TORRES FILHO, 2004).
Com o fim da coordenação dos preços pela OPEP, a desregulamentação do
mercado de óleo dos EUA e a concorrência via diminuição de preços da Inglaterra, os preços
do óleo não só desabaram, mas também ficaram sujeitos a uma grande instabilidade, assim
como estavam as taxas de câmbio e taxas de juros mundiais, dois outros preços importantes.
Esse cenário de grandes oscilações de preços fundamentais explica o crescimento das
operações financeiras, tornando o óleo uma commodity34 de grande peso nas finanças
internacionais, “regidos por expectativas voláteis em um ambiente de incerteza” (TORRES
FILHO, 2004, p. 342).
A redução drástica dos preços na década de 1980 foi resultado da diminuição da
demanda por petróleo em função das políticas de aumento da eficiência e de busca de fontes
alternativas, pelo aumento da oferta de novas fontes, como Alasca e Mar do Norte, e a
percepção de que a demanda por petróleo estava, de fato, em trajetória de descenso,
incluindo aí também a forte diminuição da demanda dos países subdesenvolvidos que
entraram em um longo período recessivo com o aumento dos juros americanos em 1979
(TORRES FILHO, 2004).
No acordo de 1986 entre EUA, OPEP e União Soviética, estabeleceu-se um preço
de referência (US$18,00) a partir do qual as alterações na produção deveriam ser realizadas
para o retorno ao preço estabelecido. A estabilidade política do Oriente Médio, por sua vez,
seria defendida pela ação militar dos EUA, que ganhou força com a dissolução da URSS em
1989 (TORRES FILHO, 1989).
Em agosto de 1990, com a invasão do Kwait pelo Iraque e a entrada dos EUA nesse
conflito, os preços internacionais se elevaram, mas voltaram a diminuir em 1997-1998 e
depois novamente em 2001 (MATHIAS, 2008).

33
Abandona a função de “ajuste de última instância” (e passa a utilizar os preços do mercado spot e de futuros)
por limitações financeiras, principalmente de balanço de pagamentos. Suas receitas de exportação que eram de
US$ 119 bilhões em 1981 passaram a US$ 36 bilhões em 1984 (TORRES FILHO, 2004).
34
A abertura de preços futuros do petróleo na Nymex é de 1983.
50

No final da década de 1990, o preço do barril alcançou o valor de US$ 10,00 e


engendrou um grande movimento de fusões entre as empresas privadas, resultando na
formação das Super Majors (ExxonMobil, Shell e BP) e de outros grandes grupos de dimensão
internacional (TotalFinaElf, ChevronTexaco, ENI e ConocoPhillips), símbolos de uma nova onda
de concentração de capitais no setor (MAUGERY, 2006).
Imperioso lembrar a força e a responsabilidade que tiveram as ações de
desregulamentação e privatização dos anos 1990, no bojo do avanço das forças neoliberais
sobre os principais países do globo, sobre a concentração de mercado do setor petrolífero.
Como assinala Yergin (2011, p. 12): “In the energy sectors of countries, as in so many other
sectors, traditional government ministries were turned into state-owned companies, which in
turn were partly or entirely privatized.”
Com o aumento das privatizações e da desregulamentação do mercado de
extração de petróleo e gás, as empresas privadas internacionais ganharam força competitiva
importante nos anos 1990 e a seguir. A despeito de essas empresas privadas majors e super
majors terem um alcance mundial nos seus investimentos e vendas e terem capital aberto,
elas são proprietárias de apenas 5% das reservas provadas mundiais de óleo e detêm 15-18%
da produção mundial (MAUGERY, 2006, p. 180).
Mesmo assim, como ressalta Maugery (2006), “in any case, quite ironically the
twentieth century ended with a post-humous double revenge by John D. Rockefeller.” (p. 180).
Vingança porque Rockefeller tinha a convicção de que era necessária uma efetiva
coordenação entre as empresas (em toda a cadeia produtiva) para que o mercado de petróleo
não fosse ameaçado e atacado por grandes instabilidades e oscilações nos preços. Assim, a
melhor forma de coordenação, na sua visão, deveria se dar a partir da existência de apenas
uma empresa. A concentração de mercado, de fato, na década de 1990, foi estrondosa.
A diminuição brusca dos preços entre 1997 e 1999 foi responsável pelo aumento
da concentração de capitais no setor. Também respondeu pelos cortes de investimentos e de
pessoal das empresas privadas nesses anos. Esse movimento de redução importante nos
investimentos, anos depois, pode ter sido uma importante causa para a elevação
extraordinária dos preços. Sobre esse aumento de preços que se inicia em 2004, Maugery
(2006, p. 189) afirma que a baixa capacidade ociosa do setor se deveu aos anos anteriores de
baixos investimentos em novas áreas de exploração.
51

Assim, com a disparada de preços nos anos 2000, mesmo com o aumento da
oferta da OPEP, as bandas que definiam um teto para os preços deixaram de existir como
regulação desse mercado (MATHIAS, 2008).
Tanto as elevações de preços da década de 1970 quanto a dos anos 2000 não
foram orquestradas pela OPEP como forma de aumentar suas rendas petrolíferas. Ao
contrário, Torres Filho (2004) afirma que a Organização (essa foi a posição da Arábia Saudita
em 1979) entende que os extraordinários aumentos de preços são nefastos aos seus
interesses, uma vez que viabiliza a produção das regiões de alto custo, incentiva os
investimentos em energias alternativas ao petróleo e tende a afetar negativamente a
demanda no longo prazo35.
De fato, foram exatamente essas as consequências do longo ciclo de aumento dos
preços do petróleo nos anos 2000. A participação dos países da OPEP diminuiu
substancialmente, como também aumentou a participação de outras fontes de energia (como
o gás natural, dentre os combustíveis fósseis) e das fontes renováveis (energias nuclear, eólica,
solar e os biocombustíveis).
Ainda assim, vale dizer que, embora os preços altos viabilizem a produção de
petróleo nos países não pertencentes à OPEP, ao mesmo tempo, atende os interesses
econômicos de diversos países em desenvolvimento produtores do hidrocarboneto (como
Venezuela, Rússia e Brasil). Esses países, beneficiando-se dos preços elevados, também não
realizam, em seu conjunto, esforços contundentes para a redução dos preços (MATHIAS,
2008).
As nacionalizações das empresas ocorridas nos principais países produtores nos
anos 1960 e 1970 transformaram substantivamente a lógica de atuação das empresas
privadas. Ao perderem as concessões nas principais reservas de petróleo (com quantidades
elevadas e de baixo custo de extração), tornaram-se compradoras de óleo cru e, portanto,
vulneráveis às oscilações políticas desses países. A consequência foi o aumento do
investimento dessas empresas em regiões sobre as quais era exercido maior controle político
(Mar do Norte e Alaska), a despeito de terem maior custo de extração.

35
Vale o registro, no entanto, de que, se a OPEP não foi a única responsável pelos aumentos do preço do petróleo
em 1973 e 1979, também não foi essa organização que tomou medidas deliberadas para atenuar ou reverter o
aumento dos preços (TORRES FILHO, 2004).
52

O importante movimento de nacionalização das reservas e da produção de


petróleo dos anos 1960 no Oriente Médio e sua ampliação nos anos 2000 com a eleição de
presidentes nacionalistas como Hugo Chavez e de Vladimir Putin em dois outros grandes
países produtores (e aqui também poderíamos incluir a descoberta das reservas de pré-sal
pela Petrobras e a emergência de grupos chineses e indianos nesse setor) determinam, para
fins de análise, a divisão das empresas participantes do mercado de petróleo em categorias
distintas, definidas a partir das diferentes lógicas de atuação que se observa nas, de um lado,
empresas com participação explícita e formal dos governos (denominadas por NOCs –
National Oil Companies) e, de outro, empresas que se encontram sob a determinação explícita
e formal da lógica do mercado (denominadas IOCs – International Oil Companies).
A despeito das tentativas de categorização, Seznec (2012) argumenta que há uma
linha contínua entre as empresas estatais e as empresas privadas e não dois grupos
radicalmente separados.
Em tese, as NOCs perseguem interesses nacionais e, portanto, estão totalmente
sob o comando de seus proprietários, ou seja, a sociedade onde foram originalmente
instaladas. Desse modo, o governo desses países teria total influência nas decisões de
produção, preços e investimentos para garantir que os interesses do povo sejam atendidos
pelas receitas oriundas dessas empresas nacionais36. As IOCs, por sua vez, estariam
submetidas totalmente aos interesses de seus acionistas, que podem nem residir no país de
origem dessas empresas. Portanto, os vínculos e obrigações com o país de origem seriam, em
tese, iguais aos de qualquer outra empresa estrangeira que opera nesses territórios.
No entanto, o que o autor defende é que não há essa nítida separação entre NOCs
e IOCs. Seguem algumas explicações para esse argumento:
a) Algumas NOCs têm plena independência de seus governos, seja no que se refere à
obtenção de recursos para realizar novos investimentos seja porque não precisam
obter autorizações para realizar gastos ou alocar suas receitas. Seriam exemplos
desse tipo a Saudi Aramco, Statoil e Petrobras.

36
“It would seem self evident that NOCs would be stablished and managed with the sole purpose of protecting
the interest of the people of a given state. (...) Consequently, the yearly rate of return on investments should be
of no importance but replaced by a long-term analysis of how the country has gained from the extraction and
sale of the non-renewable assets and benefit future generations. Unfortunately, such analysis by the NOCs seems
to be more exception than the rule” (SEZNEC, 2012, p. 45).
53

b) Algumas NOCs são de capital aberto em praças internacionais inclusive e, portanto,


também estão submetidas às regras e anseios impostos pelos acionistas. Exemplos
dessas empresas são as chinesas SINOPEC e CNOOC.
c) Muitas NOCs realizam joint-ventures e outros acordos cooperativos com IOCs,
portanto, precisam adotar procedimentos financeiros transparentes e
padronizados segundo as regras internacionais.
d) Algumas NOCs também são internacionalizadas, pois realizam investimento para
além de seus territórios.
e) As IOCs, a despeito de não estarem sujeitas ao controle estatal na sua gestão,
recursos e investimentos, algumas vezes são restringidas na venda de seus ativos
ou controle acionário a estrangeiros. O autor cita o exemplo da pressão política
que houve nos EUA para impedir a venda da UNOCAL à chinesa CNOOC. Ao final,
ela foi adquirida pela Chevron.
f) IOCs menores como ENI ou Repsol têm gestão independente, mas “são mais
próximas e dependentes do apoio dos seus governos, assimilando-se às empresas
chinesas e russas.” (p. 57).
Jesus Junior (2015) realiza uma categorização com as principais empresas
petrolíferas do mundo, distribuídas de acordo com sua atuação em cartel e como agentes
produtivos do Estado de seu país de origem (NOCs, NOCs da OPEP ou mistas) ou segundo seu
grau de diversificação produtiva (majors, IOCs ou Independentes).

Tabela 2 – Principais empresas petrolíferas mundiais em 2009


Majors (IOCs) Mistas Independentes OPEP NOCs
ExxonMobil Gazprom Surgutneftegas Saudi Aramco CNPC
BP Petrobras TNK-BP NIOC Pemex
Royal Dutch Shell Lukoil Novatek PDVSA Petronas
Chevron Rosneft BG KPC EGPC
Total Sinopec Apache Sonatrach Kazmunaigas
Eni Statoil Devon Enrgy QP PDO
ConocoPhillips ONGC Occidental Adnoc Socar
Repsol CNOOC Anadarko INOC Uzbekneftegas
OMV Suncor NNPC Ecopetrol
BHP Billiton Pertamina PTT
Chesapeake Libya NOC
CNR
Fonte: Jesus Junior (2015, p. 74).
54

A despeito de haver essa linha tênue de distinção na prática entre as NOCs e IOCs,
a nacionalização das reservas de petróleo (mais do que a criação da OPEP) introduziu um
radical elemento de vulnerabilidade à atuação das IOCs. Isso porque as reservas provadas
constituem os principais ativos das empresas, sobre as quais é atribuído o seu potencial de
crescimento e, portanto, a sua capacidade de endividamento e capitalização para novos
projetos.
Como se observa na Tabela 3, as empresas NOCs, incluindo as da OPEP, e as mistas
detêm 93,5% das reservas de petróleo. Porém, sua participação na produção é de 75,9%, na
capacidade de refino, 64,6%, e, nas vendas de produto, menos ainda, 54,7%.

Tabela 3 – Importância relativa (%) das principais empresas na indústria mundial do petróleo, 2013

Independen-
Majors (IOCs) Mistas (1) tes OPEP (2) NOCs (3) 1+2+3 Total
Produção de
Petróleo 16,3 16,7 7,8 46,0 13,2 75,9 100,0
Reservas 3,9 5,0 2,6 84,4 4,2 93,5 100,0
Capacidade de
Refino 32,8 24,7 2,5 22,7 17,3 64,6 100,0
Vendas de Produto 43,1 21,4 2,2 21,5 11,9 54,8 100,0
Fonte: Adaptado de Jesus Junior (2015, p. 76).

Assim, as vantagens competititivas das IOCs tendem a se concentrar relativamente


na detenção de ativos tecnológicos (produção), comerciais (vendas de produto) e na sua
diversificação para atividades downstream. As IOCs são proprietárias das tecnologias e
empregadoras de pesquisadores e cientistas que se situam na fronteira do conhecimento
mundial. Por conta da posse dessas competências, essas empresas são capazes de imprimir
ritmos de crescimento da produção nas suas áreas de exploração mais elevados do que os de
algumas das grandes empresas nacionais.
A despeito disso, essas empresas permanecem com sua existência ameaçada pela
necessidade de descoberta ou participação na exploração das reservas provadas de petróleo.
Até porque, como ressalta Maugery (2006), há também NOCs que já alcançaram o mesmo
nível tecnológico (e capacidade de lidar com riscos técnicos e financeiros em grandes projetos
de infraestrutura) do que as principais IOCs – o autor cita como exemplo a SaudiAramco,
Petrobras, Statoil e Petronas – e que, portanto, aumentam seus graus de independência com
relação à necessidade de atuação conjunta – nos territórios onde se situam suas reservas –
com as IOCs para a ampliação da produção.
55

A partir da metodologia adotada por PFC Energy, Simas (2013) evidencia as


diferentes posições das NOCs quanto ao domínio tecnológico e a posse de reservas
petrolíferas. Como se visualiza na Figura 2, algumas empresas situam-se no quadrante em que
há relativamente maior competitividade, pois conseguem garantir acesso a reservas e às
tecnologias, podendo se concentrar no desenvolvimento de tecnologias específicas. São
exemplos Petrobras, Saudi Aramco, Gazprom e Rosneft. As NOCs asiáticas (CNOOC, Sinopec,
CNPC e Petronas) buscam o acesso a reservas internacionais e já estão no quadrante superior
a respeito das competências tecnológicas e capacidade financeira. Essas duas categorias de
NOCs possuem menor necessidade de parcerias para a exploração e produção de petróleo
com as IOCs, aumentando a vulnerabilidade dessas últimas no que toca ao acesso às reservas.
Há também as NOCs residentes em países com elevado nível de reservas (PDVSA e PEMEX,
por exemplo) e com baixo desenvolvimento tecnológico, essas sim, mais sujeitas ao domínio
estrangeiro das IOCs.

Figura 2 - Tecnologia, capital e reservas em propriedade das NOCs

Fonte: Simas (2013, p. 11).

Maugery (2006) sublinha a ameaça à capacidade das IOCs de acessarem novas ou


antigas reservas com a emergência e consolidação das empresas estatais de petróleo da China
e Índia (classificando essas últimas em uma categoria à parte: CNOCs - National oil companies
of fast growing consumer countries). Segundo o autor, essas empresas carregam poderosas
vantagens competitivas frente às concorrentes privadas pois não precisam agraciar seus
investidores com resultados de curto prazos altos, são explicitamente apoiadas por seus
56

governos e, com isso, podem oferecer termos contratuais para a venda de petróleo
diferenciados a seus clientes.
Conjugando o imperativo das IOCs de registrarem novas reservas como parte de
seus ativos e a ampliação das dificuldades em acessá-las, por conta do aumento da força
competitiva das NOCs, Maugery até admite supor que a instabilidade política dos países com
as maiores reservas provadas de petróleo (Oriente Médio, Venezuela, Rússia e Brasil) seja uma
situação mais interessante às IOCs do que a estabilidade política dos governos atuais que
tenderiam a manter sob controle e posse estatal as reservas de petróleo bem como a sua
exploração.
Sobre esse assunto, é interessante apresentar as considerações realizadas pelo
autor sobre os mitos pertencentes à ideia disseminada de que os países do Oriente Médio ou
da OPEP representam uma ameaça aos países consumidores. Esse autor destaca que nem os
cortes abruptos de produção de óleo e tampouco a elevação dos preços internacionais são
interessantes a esses países e, portanto, são bastante improváveis que ocorram, pelo menos
em um médio e longo prazos. Isso porque, em primeiro lugar, cabe lembrar o quão
dependentes as receitas fiscais dos governos desses países do Oriente Médio são das rendas
das vendas externas do petróleo. Com o crescimento populacional nesses países e a perda de
valor relativo do petróleo, a renda per capita lá diminuiu desde os choques do petróleo da
década de 197037. Como as condições socioeconômicas da população desses países
dependem do sistema de bem-estar social (provimento de serviços e infraestrutura públicos),
uma vez que a principal atividade econômica – a de extração e comercialização do petróleo –
não é intensiva em trabalho, esses países dependem do aumento das rendas advindas do
petróleo. Sobre isso, vale citar uma perspicaz afirmação de Maugery (2006, p. 262): “(...)
whereas industrial countries worry about energy security, producing countries are preoccupied
by the security of oil demand.”
Assim, embargos ou cortes drásticos de exportação aos países consumidores não
têm viabilidade econômica nem no médio prazo a esses países produtores. Além disso, o
comércio internacional de petróleo não está nas mãos dos países produtores. Triangulações

37
Segundo o dado apresentado por Maugery (2006, p. 262), o PIB per capita da Arábia Saudita que era US$
28.660 em 1981 passou para US$ 7.000 em 2000.
57

podem ser feitas facilmente para contornar qualquer embargo desse produto a alguns países
que eventualmente corram o risco de sofrer cortes de oferta.
O aumento de preços do petróleo pode engendrar três movimentos que jogam
contra os países produtores: são indutores de aumento das receitas e, portanto, dos
investimentos dos produtores marginais e de exploração de fontes não convencionais de
petróleo; motivam a busca por recursos alternativos ao petróleo (seja outros combustíveis
fósseis como também as energias de fontes renováveis); e reduzem a demanda. Para o autor,
apenas preços baixos do petróleo podem evitar que se mude bruscamente para novas fontes
de energia, processo que se presenciou na década de 1980 após os dois choques do petróleo.
Ainda assim, sobre a substituição do petróleo como insumo, combustível ou fonte de energia,
o autor sublinha que essa já é uma realidade para todos os setores de uso do óleo, exceto
para o setor de transporte. “The speed and size of that replacement are only a question of
price and reliability of supply.” (p. 263).
O autor também lista como mito o fato de que os países da OPEP representam
uma ameaça por terem no comando governos “perigosos”, sempre integrando as listas de
possíveis “terroristas”. Para esse autor, a realidade é que, dada a alta dependência de
qualquer governo às rendas do petróleo (do governo porque as rendas são usadas como
sustentação política), as ações desses países produtores estão mais voltadas para se
apresentarem permanentemente como países de alta confiança para o suprimento do óleo
do que como ameaça.
Assim, muito mais intensa seria a ameaça de que os países consumidores
imponham sanções e embargos aos países produtores do que o contrário. De qualquer forma,
vale mencionar que o comércio internacional de óleo se apresenta no século XXI tão
consolidado e integrando tão eficientemente países produtores e consumidores que mesmo
que existam países com conflitos entre si, as articulações do comércio driblariam essas
barreiras políticas (MAUGERY, 2006, p. 267).
Em suma, para esse autor, as ações políticas e militares dos países consumidores
para garantir a oferta de petróleo parecem ser guiadas por outros objetivos, pois os
determinantes da esfera econômica já são suficientes para estabilizar e assegurar os fluxos de
58

óleo ou de outros recursos energéticos aos países consumidores. “In this framework, the
notion of oil security is simply a confusing myth when referred to oil supply.”38 (p. 268).
Além disso, Seznec (2012, p. 46) sublinha um problema moral que é atribuído às
IOCs pelo fato dessas empresas atuarem com contratos produtivos e comerciais em países
com regimes autoritários e corruptos que controlam as reservas petrolíferas: “IOCs are often
caught between the requirements of the shareholders and their social responsibility in a given
area.”
Mathias (2008) sublinha que a OPEP, como cartel, tem pouco poder e possui uma
participação do mercado de óleo menor do a que detêm outros cartéis de commodities. A alta
competição na comercialização do óleo cru pode ser evidenciada pela existência e força do
mercado spot nas contratações internacionais. Na década de 1970, as transações spot
correspondiam a apenas 5% do total e, em 2004, já representavam 35%. Além disso, a autora
sublinha que a formação e consolidação do mercado spot de petróleo foram fundamentais
para a globalização da indústria petrolífera (aumentando a concorrência para os produtores
OPEP) e ocorreram em função dos choques do petróleo. Assim, a manutenção de preços altos
teria resultado em mais um efeito colateral danoso aos produtores da OPEP.
Afinal, embora haja diferenças no tipo de petróleo comercializado (gerando
descontos ou prêmios nas negociações de petróleo com características distintas dos óleos-
marcadores WTI e Brent), a existência de mercado spot permitiu (e permite) a entrada de
novos competidores, tendo sido também responsável pela manutenção da competitividade
das empresas privadas quando foram alijadas da exploração do Oriente Médio e ficaram de
fora dos acordos no âmbito da OPEP39. O desenvolvimento dos mercados spot e de futuro do
óleo minou sobremaneira as formas de atuação e controle da OPEP, tirando dessa organização
até mesmo o petróleo marcador para as suas contratações de longo prazo (que passaram a
ser o WTI e o Brent) (MATHIAS, 2008).
A consolidação do mercado spot imprime grande conteúdo concorrencial, embora
não retire a condição do mercado petrolífero de ser oligopolizado e bastante concentrado, a

38
Como será apresentado no capítulo 2, o “mito da insegurança energética” da foi utilizado nos EUA para
conseguir o apoio da população e das instâncias políticas para o apoio à exploração do shale gas e shale oil.
39
Mathias (2008, p. 70) ressalta que o aumento da participação da comercialização de óleo no mercado spot
também esteve relacionado às mudanças tecnológicas efetuadas no segmento de refino que permitiu maior
flexibilidade ao utilizar diferentes tipos do óleo cru.
59

despeito da presença de empresas de porte médio e não tão diversificadas (empresas


independentes, por exemplo).
Mathias (2008) aponta que uma indústria pode ser considerada globalizada se
houver “possibilidade de participação de qualquer agente econômico, independentemente
de sua localização geográfica, numa determinada atividade econômica” (p. 77). As inovações
tecnológicas apresentam um papel importante para a diminuição de barreiras à entrada. A
autora defende que foram as inovações financeiras (crescimento e consolidação das
transações no mercado spot e as operações de hedge e comercialização de contratos de
futuro) que, de fato, permitiram a globalização da indústria, uma vez que abriu acesso a uma
multiplicidade de agentes.
Ainda assim, as elevadas barreiras à entrada e os processos contínuos de fusões e
aquisições que foram ocorrendo nesse mercado, determinam no século XXI uma estrutura
altamente oligopolizada, caracterizada, de um lado, pela participação de mercado de
empresas privadas gigantes (3 major e 4 supermajors40)41 e, de outro, empresas estatais que
respondem por interesses nacionais e são munidas, muitas vezes, de fontes de financiamento
extra-mercado.
A presença de mercados financeiros dinâmicos e globais (que, de um lado, geram
dispersão competitiva pois permitem a participação de vários agentes, mas, de outro, são
responsáveis pelos processos de fusão, aquisições e aumento do nível da integração das
empresas), de grandes empresas nacionais representantes de países com elevada importância
na produção mundial e a permanente introdução de novas tecnologias cada vez mais
complexas e que requerem inversões grandiosas de capital (mas, que também são
responsáveis pela diminuição de custos) sustentam uma estrutura de mercado
incontestavelmente oligopólica, portanto, de permanentemente ativa e difícil competição.
Aparece, dessa forma, na análise dessa estrutura de mercado a contribuição schumpeteriana

40
“Em menos de uma década, 25 companhias de petróleo se fundiram em 3 majors e 4 supermajors.” (MATHIAS,
2008, p. 94). São, em 2016, essas empresas: BP Amoco, ExxonMobil, Shell, Conoco Phillips, Total, Chevron e ENI.
As empresas estatais também participaram de processos de aquisição, em geral, integrando atividades para
frente na cadeia petrolífera.
41
Na lista da Forbes com as maiores empresas do mundo em 2016, mesmo com a diminuição drástica do preço
do óleo, as grandes empresas petrolíferas continuam situando-se nas primeiras posições desse ranking das 2000
maiores empresas no mundo listadas em bolsas de valores. Das 10 maiores do setor produtor de óleo e gás, a
ExxonMobil ocupou a 9ª. posição no geral, a PetroChina em 17ª. posição, a Chevron em 28ª., a Total em 30ª., a
Sinopec em 31ª., a Royal Dutch Shell em 50ª., a Gazprom em 53ª., a Rosneft em 75ª., a Reliance Industries em
121ª. e a Lukoil em 122ª. posição mundial dentre todos os setores, incluindo o setor financeiro (FORBES, 2017).
60

de que a concentração de mercado não significa ausência de competição. Ao contrário, a


sobrevivência é ameaçada tanto pela força competitiva dos competidores atuais de grande
capital no setor quanto pelos potenciais entrantes.
Ao refletir sobre os efeitos da formação de uma indústria petrolífera globalizada,
em que se combinam a tendência de concentração de mercado e permanência de espaços
para a sua contestação (com aumento da flexibilidade contratual e diminuição das barreiras à
entrada), Mathias (2008) ressalta o alto potencial de instabilidade nesse setor, requerendo
das empresas ações defensivas a esse ambiente, como por exemplo, a integração na cadeia
produtiva em que atuam.
“Conclui-se, portanto, que tal como na indústria do petróleo também na
indústria do gás natural as firmas se integram objetivando auferir
vantagens na competição em um mundo globalizado. Mais do que isto: as
firmas se integram como forma de lidar com os riscos associados ao mundo
globalizado.” (p. 184).

A diminuição drástica dos preços do petróleo e gás em meados de 2014 e que se


estendeu em 2017 mostra com clareza as oscilações às quais estão submetidas as empresas
do setor de petróleo. Em julho de 2008, na cotação mensal WTI, o óleo cru atingiu seu preço
máximo (US$142,5 o barril), quando desabou para US$32,9 em dezembro de 2008. A
recuperação foi rápida e, entre 2010 e 2014, o preço ficou em um patamar entre US$ 60 e US$
100, o barril. Mas, a diminuição brusca voltou a ocorrer em julho de 2014 e o preço alcançou
um nível muito baixo de US$28,1/barril em fevereiro de 2016, como se pode observar no
Gráfico 4.

Gráfico 4 – Preço mensal do óleo cru, cotação WTI spot price FOB, em US$ por barril, março de 1986
a março de 2017

160 jul 04, 2008; 142,52


140 jun 13, 2014; 105,97
120
US$/barril

100
80
60
40
20 dez 26, 2008; 32,98
fev 12, 2016; 28,14
0
jan jan jan jan jan jan jan jan jan jan jan jan jan jan jan jan
03, 03, 03, 03, 03, 03, 03, 03, 03, 03, 03, 03, 03, 03, 03, 03,
1986 1988 1990 1992 1994 1996 1998 2000 2002 2004 2006 2008 2010 2012 2014 2016

Fonte: Adaptado de Thompson Reuteurs/EIA.


61

A forte diminuição de preços após a 2ª. metade de 2014 impactou


substantivamente os resultados das empresas no setor, mesmo as maiores delas. A
ExxonMobil, a maior petrolífera do mundo que chegou a ter um faturamento de US$ 451
bilhões em 2012, mostrou uma deterioração em todos os resultados entre 2012 e 2016:
variação no lucro líquido de -82,5%, no fluxo de caixa, de -58,7%, no valor de mercado, de -
3,9%, no número de empregados, de -7,5% e crescimento do valor da dívida de 269,2% no
período, conforme Tabela 4.

Tabela 4 – ExxonMobil: resultados financeiros, em milhões de US$, 2012-2016

%
2012 2013 2014 2015 2016
Em milhões de US$ (2016/2012)
Vendas e outras receitas operacionais 451.509 420.836 394.105 259.488 218.608 -51,6
Lucro líquido atribuível à ExxonMobil 44.880 32.580 32.520 16.150 7.840 -82,5
Fluxo de caixa das operações e da
63.825 47.621 49.151 32.733 26.357 -58,7
venda de ativos
Gastos de capital e exploração 39.799 42.489 38.537 31.051 19.304 -51,5
Custos de pesquisa e
1.042 1.044 971 1.008 1.058 1,5
desenvolvimento
Dívida total no fim do ano 11.581 22.699 29.121 38.687 42.762 269,2

Valor de mercado no fim do ano 389.680 438.684 388.398 323.928 374.438 -3,9
Número de funcionários regulares no
76,9 75,0 75,3 73,5 71,1 -7,5
fim do ano (em milhares)
Fonte: Adaptado de ExxonMobil, 2016b.

A Shell, outra gigante do setor petrolífero, apresentou desempenho bastante


negativo com a redução dos preços do petróleo. Entre 2012 e 2016, suas receitas diminuíram
pela metade, o lucro foi 82,3% menor e sua dívida elevou-se em 144,9%, conforme mostra a
Tabela 5.

Tabela 5 – Shell: resultados financeiros, em milhões de US$, 2012-2016

%
2012 2013 2014 2015 2016
milhões de US$ (2016/2012)

Receitas 467.153 451.235 421.105 264.960 233.591 -50,0


Lucro do período 26.960 16.526 14.730 2.200 4.777 -82,3
Lucro atribuído aos
26.712 16.371 14.874 1.939 4.575 -82,9
acionistas da Shell
Dívida total 37.754 44.562 45.540 58.379 92.476 144,9
Fonte: Adaptado de Royal Dutch Shell (2016).
62

Os dados da Chevron, 3ª. maior empresa petrolífera do mundo, na Tabela 6,


também mostraram fortes decréscimos. A diminuição das receitas de vendas e de outras
receitas operacionais foi de 50% entre 2013 e 2016. O lucro líquido saiu de um resultado
positivo em 2013 de US$ 21,4 bilhões para um saldo negativo de US$ 497 milhões em 2016.
Os gastos de capital e exploração foram reduzidos em 46,4% no período.

Tabela 6 – Chevron: resultados financeiros, em milhões de US$, 2013-2016

2013 2014 2015 2016 % (2016/2013)


Vendas e outras receitas operacionais 220.156 200.494 129.925 110.215 -49,9
Lucro líquido atribuível à Chevron 21.423 19.241 4.587 -497 -102,3
Gastos de capital e exploração 41.877 40.316 33.979 22.428 -46,4
Ativos totais 253.753 264.884 264.540 260.078 2,5
Fonte: Adaptado de Chevron (2016).

A empresa francesa Total também apresentou resultados ruins (ver Tabela 7).
Entre 2014 e 2016, a receitas de vendas diminuíram 36,6%, o lucro líquido ajustado dos
segmentos de negócio, 33,9%, o fluxo de caixa, 35,5% e os investimentos, 32,7%.

Tabela 7 – Total: resultados financeiros, em milhões de US$, 2014-2016


%
miilhões de US$ 2014 2015 2016
(2016/2014)
Vendas 236.122 165.357 149.743 -36,6
Lucro operacional ajustado dos segmentos de negócio 21.604 12.672 8.928 -58,7
Lucro líquido operacional ajustado dos segmentos de
negócio 14.247 11.362 9.420 -33,9
Fluxo de caixa das operações 25.608 19.946 16.521 -35,5
Investimento bruto 30.509 28.033 20.530 -32,7
Fonte: Adaptado de Total (2016, p. 2).

Haynes and Boone (2017) listou 123 produtores de óleo e gás nos EUA que
pediram falência42 entre janeiro de 2015 e abril de 2017. Esses casos foram registrados em
sua maioria no estado do Texas (55) e de Delaware (20). O total de dívida segurada desses
casos foi de US$ 31 bilhões e de não segurada foi de US$ 48 bilhões.
Os países produtores e exportadores de óleo também foram afetados fortemente
com a diminuição drástica dos preços do petróleo. No gráfico 5, países selecionados aparecem

42
Pedidos de falência que se incluem no Capítulo 7, Capítulo 11, Capítulo 15 da legislação estadunidense e
alguns casos no Canadá (18 dos 123).
63

com superávites fiscais e em transações correntes em 2011 quando vigoravam altos preços.
Em 2016, na maioria dos casos, esses resultados se convertem em duplos déficites.

Gráfico 5 - Soma do saldo fiscal e da conta corrente em países produtores de óleo selecionados, em %
do PIB, 2011 e 2016

Fonte: Reinhart (2017).

No próximo item, realiza-se uma análise sobre as características técnicas e


econômicas da exploração, produção e comercialização do gás natural, o outro
hidrocarboneto que fornece importante volume de matéria-prima para o setor petroquímico.

1.2.2. Indústria do gás natural: gigantismo que se forma

1.2.2.1. Produção do gás natural em crescimento


O crescimento da produção mundial do gás natural e sua aparição e consolidação
como combustível, matéria-prima e energia tão importante quanto o petróleo no século XXI
são reverenciados permanentemente em seminários, workshops e encontros de vários tipos
que reúnem empresas, autoridades públicas e cientistas.
Chandra (2006) mostra seu entusiasmo com relação à expansão do gás natural na
matriz energética mundial. Logo na introdução de seu livro, o autor denomina esse recurso
natural como “o príncipe dos hidrocarbonetos”. Cita que é o energético que cresce a taxas
mais elevadas e ainda profetiza que, do mesmo jeito que o óleo substituiu o carvão, o gás
natural ocupará o posto do óleo como principal recurso energético do mundo em breve. O
autor destaca também a supremacia do gás no tocante à poluição ambiental em comparação
com os outros hidrocarbonetos, alocando-o, na categoria de combustíveis fósseis, como
aquele cuja queima é a menos poluente. Também adjetiva o gás como o mais flexível dos
64

combustíveis fósseis por poder ser transformado nos produtos mais desejados (combustível,
fonte de aquecimento, polímeros, fertilizantes, energia elétrica), exigindo menos
processamento que outros hidrocarbonetos.
De acordo com Pinto Junior et al. (2007), além das vantagens ambientais que o
gás natural oferece relativamente à queima do carvão e do óleo, esse recurso requer menos
processamento, ao prescindir da fase do refino, e é bastante versátil no seu uso e no poder
de substituição de outros recursos43. Os autores citam como exemplo do uso do gás natural:
na indústria, como redutor siderúrgico ou como gerador de calor de processo, substituindo o
óleo e o carvão; no transporte, como combustível substituto da gasolina e óleo diesel; na
geração elétrica, concorrendo com todas as tecnologias, mas sobretudo com carvão, óleo
combustível e o diesel44 e; na indústria petroquímica, como matéria-prima não-energética, na
substituição da nafta.
Yergin (2011), outro autor que é grande entusiasta e defensor do gás natural,
ressalta, como uma das mudanças mais substantivas que ocorrerão nos próximos anos da
primeira metade do século XXI, o crescimento da participação do gás natural na matriz
energética mundial. Para tanto, foi e terá papel fundamental a exploração dos poços de shale,
produzindo o chamado shale gas.
“The new supply will include natural gas, with its growing importance for
the global economy. The rapid expansion of liquified natural gas is creating
another energy market. Shale gas, the biggest energy innovation since the
start of the new century, has turned what was an iminent shortage in the
United States into what may be a hundred-year supply and may do the
same elsewhere in the world. It is dramatically changing the competitive
positions for everything from nuclear energy to wind power. It has also
stoked, in a remarkably short time, a new environmental debate.” (p. 6).

O entusiasmo de Yergin (2011) com a ampliação da participação do gás natural na


matriz energética mundial também se nota nessa passagem:
“Natural gas is a fuel of the future (...). The reasons are clear: It is relatively
low-carbon resource. It is also a flexible fuel that could play a longer role in

43
Como será mencionada a seguir, os autores ressaltam que a grande desvantagem do gás relativamente aos
outros recursos reside na sua baixa densidade calórica ou no grande volume para a mesma quantidade de energia
de outros recursos, acarretando diferença de custo para o seu transporte. “(...) uma mesma quantidade de
energia na forma de gás natural ocupa um volume cerca de 1000 vezes superior à energia na forma de petróleo.”
(p. 233).
44
Gülen (2014) argumenta que a alta demanda por gás natural no mundo não ocorre necessariamente por conta
de seus preços mais baixos com relação a outros combustíveis, mas sim porque seu uso nas usinas de energia
elétrica torna os projetos mais rápidos e com menor custo de capital com relação àqueles à base de carvão ou
de outras cargas.
65

eletric power, both for its own features and as an effective – and indeed
necessary – complement to greater reliance on renewable generation. And
technology is making it more and more available, whether in terms of
advances in conventional drilling, the ability to move it over long-distance
pipelines, the expansion of LNG onto much larger scale, or, most recently,
the revolution in unconventional natural gas.” (p. 341).

A importância do gás natural como um produto em si é recente, embora a


indústria do gás deva ser considerada antiga45 (PINTO JUNIOR et al., 2007). No século XX, se
uma reserva rica em gás natural era encontrada, guardavam-na e continuavam a busca em
outros lugares a fim de encontrar óleo, principal alvo das buscas por fontes de
hidrocarbonetos. Assim, a reserva gasífera ficava inexplorada porque não havia demanda e
infraestrutura de transporte para o gás natural46. Com a evolução tecnológica para o
transporte e a ampliação da demanda por gás em seus vários usos, esse recurso passou a ter,
no fim do século XX, um status mais qualificado47 (CHANDRA, 2006).
Os choques do petróleo na década de 1970 também foram fortes impulsionadores
para que os investimentos na indústria de gás natural, mesmo que custosos e difíceis de
implementar, se realizassem (gasodutos e GNL). Como frisaram Pinto Júnior et al. (2007),
nesse momento, a busca por fontes de energia alternativas deu “início ao deslocamento
progressivo do papel central assumido pelo petróleo no século XX” (p. 231) e a indústria do
gás natural deixou de ter um papel secundário e altamente condicionada pela dinâmica da
indústria do óleo.
O mercado do óleo, diferentemente do gás natural, tem uma ligação umbilical com
o comércio internacional. Isso porque, com o crescimento rápido de sua demanda nos
principais mercados consumidores desde o fim do século XIX (querosene para iluminação
substituindo o carvão a óleo e outros óleos vegetais e animais), a distância entre os países
produtores com as maiores reservas petrolíferas e os países consumidores exigiu a forte

45
A indústria do gás e sua comercialização já ocorrem nos EUA e Inglaterra no século XIX mas sob a forma de gás
manufaturado (proveniente do carvão) para a iluminação pública, principalmente. A comercialização do gás
natural se impulsiona a partir de 1920, mas só em 1935 é que as vendas de gás natural se mostram superiores à
do gás manufaturado e só depois de 1950 o gás natural cresce em detrimento do gás manufaturado (PINTO
JUNIOR et al., 2007).
46
Pinto Junior et al. (2007) registram que até a década de 1950 uma grande parte do gás natural encontrado foi
desperdiçada. Os autores assinalam que “mesmo nos anos 70, na época do choque do petróleo, cerca de 60%
da produção de gás no Oriente Médio era queimada. Procurar petróleo e encontrar gás era considerado um
fracasso!!!” (nota de rodapé 13, da página 249).
47
“Technology advances and declining costs have finally allowed gas to economically overcome these challenges
to become the fuel of the future.” (CHANDRA, 2006, p. 1)
66

presença do comércio transcontinental. Quanto a isso, segue a afirmação de Mathias (2008,


p. 65):
“O mercado petrolífero, portanto, é um mercado que se ajusta pela
transação. A indústria de petróleo não corresponde a uma indústria
regional, no qual o que se produz num país é consumido internamente, pelo
contrário, a indústria petrolífera foi e continua sendo uma indústria na qual
as transações internacionais são fundamentais, com um peso cada vez mais
significativo em relação à produção.”

Se na prospecção, exploração, desenvolvimento e produção, óleo e gás


apresentam muitas semelhanças, diferenças importantes aparecem no restante da cadeia
produtiva, ou seja, no transporte e distribuição. Para essas fases, o estado gasoso ou líquido
desses hidrocarbonetos faz muita diferença, seja em termos técnicos, seja no que toca à
viabilidade econômica dessas fases.

1.2.2.2. Os limites dados pelo transporte do gás natural

O fato de o gás natural ser um combustível que se encontra em temperatura


ambiente no estado gasoso insere dificuldades substantivas no seu transporte e na sua
estocagem. Chandra (2006) ressalta, por exemplo, que o custo de transporte de “uma unidade
de energia” do gás é 3 a 5 vezes maior do que a do óleo nas áreas terrestres e, se for gasoduto
offshore e de longa distância, o custo passa a ser 20 vezes maior do que o do transporte de
óleo. Para longas distâncias, o transporte tem que ser feito com navios de GNL e o custo em
comparação com o óleo é ainda maior.
O custo de transporte pode inviabilizar economicamente os projetos de produção
de gás natural, mesmo que as reservas sejam ricas nesse hidrocarboneto. Mas, segundo
Chandra (2006), com o avanço tecnológico, algumas reservas abandonadas podem ser
exploradas a partir da comercialização rentável do gás48.
Mathias (2008) lista as fontes de dificuldades no transporte do gás natural no
século XXI. Se for por gasodutos, devem ser mencionadas: 1) as distâncias cada vez mais
elevadas entre o campo produtor e o mercado consumidor, 2) a baixa flexibilidade do ativo
(seja pelas condições técnicas, seja porque resultará em negociações bilaterais complexas de

48
Ainda atualmente, as distâncias do campo produtor ao consumo deixam reservas de gás sem exploração. Não
raro, o gás natural extraído junto com o óleo (nos poços off-shore, por exemplo), mesmo que abundante, não é
comercializado e apenas utilizado na própria plataforma como fonte de energia ou insumo para extração e
produção do óleo. O que não é utilizado, é queimado (aumentando a emissão de gases poluentes na atividade
petrolífera) (CHANDRA, 2006).
67

mútua dependência), 3) as negociações de direitos de passagem se o gasoduto passar por um


terceiro país e, 4) a falta de harmonização regulatória nos países onde o gasoduto é instalado.
No transporte marítimo de GNL, as dificuldades estão relacionadas à necessidade de
implantação de plantas de liquefação no país exportador e regaseificação no país importador
e alto custo de implantação das estruturas ligadas ao GNL. O sistema de liquefação depende
de infraestrutura mais específica do que o de regaseificação porque tem que ser implantado
perto do campo de extração e, se não for utilizada para a liquefação de gás, seu valor decresce
para quase zero (MATHIAS, 2008, p. 174).
Pinto Junior et al. (2007) registram a possibilidade de ocorrerem intensos
desenvolvimentos tecnológicos nos sistemas de liquefação do gás natural com a tecnologia de
liquefação embarcada. Essas plantas industriais flutuantes aumentam a flexibilidade dos
ativos dessa etapa uma vez que podem ser utilizados em vários campos. O mesmo vale para
as plantas de regaseificação flutuantes que podem servir a vários mercados. Esse campo de
avanço tecnológico é complexo, com muitos desafios tecnológicos difíceis de serem
resolvidos49, mas tem sido alvo de pesquisas e investimentos porque constituem uma forma
de as empresas de gás ganharem flexibilidade, uma vez que a liberalização dos mercados
escasseiam cada vez mais os contratos de longo prazo.
Outra trajetória tecnológica apontada por Pinto Junior et al. (2007) que promete
gerar maiores espaços de monetização das reservas gasíferas e diminuir os custos de
transporte da região produtora à consumidora reside na transformação do gás em líquidos
(em inglês, gas-to-liquids, GTL). Há três formatos de líquidos possíveis após a transformação
do gás natural em gás de síntese: combustíveis sintéticos e petróleo sintético (synfuel e
syncrude); metanol (que pode ser transformado em olefinas, MTBE, ácido acético e
formaldeído) e olefinas diretamente do gás sintético (gas to olefins).
Os recursos e reservas de gás natural só devem ser explorados se estiverem
assegurados os projetos de transporte e comercialização do gás natural e seus líquidos, caso
contrário, acabam ficando armazenados no subsolo. Nesse sentido, Gülen (2014) propõe que
nos custos de novos projetos de exploração do gás natural também estejam os de

49
Como assinalam Pinto Junior et al. (2007): “É importante salientar que o problema tecnológico colocado pelas
plantas embarcadas vai muito além da compactação do processo de liquefação propriamente dito. Grande parte
da área ocupada por uma planta está associada à fase do processamento do gás natural e estocagem do GNL e
dos condensados produzidos pela planta.” (p. 243).
68

vialibilização das etapas midstream (transporte e armazenagem) e de comercialização (portos


de liquefação e unidades de fracionamento do gás natural, por exemplo).
Apresentam-se aqui exemplos de que as distâncias foram e ainda são importantes
para definição dos mercados de gás natural. Portanto, até que novas tecnologias não rompam
de forma contundente com esses custos de transporte relativamente mais altos, os mercados
de gás natural serão eminentemente regionalizados, ou seja, tendem a estar próximos das
áreas produtoras50 ou precisam amargar com preços de importação ou de compras do gás
mais altos.
Sobre a importância do GNL para a expansão da indústria do gás natural no
mundo, Mathias (2008) aponta que a busca por contratos mais flexíveis fortaleceu as
exportações de GNL e, por sua vez, o crescimento da produção de GNL também reforçou a
presença do mercado spot nas transações internacionais. Assim, quanto mais liberalizado o
mercado nacional de gás e quanto maior a presença de GNL no consumo total, maior é a
importância das transações à vista.
No entanto, embora a estrutura produtiva crescente de GNL no mundo tenha
representado um incremento importante na oferta de gás natural e em bases de
comercialização mais flexíveis do que a comercialização de gás transportado via gasoduto,
ainda predominam em larga escala os contratos de longo prazo, inclusive para a compra de
GNL. A explicação parece residir no fato de que a flexibilidade dos contratos spot requer a
participação de um mercado financeiro mais maduro do que se apresenta hoje, em que
possam ser transacionados os contratos e opções de hedge para que os agentes se protejam
das oscilações de preços do mercado à vista.
“Não obstante o crescimento no consumo mundial do energético e de sua
comercialização entre países, observa-se que ainda não existe nem um
mercado único de gás natural (apesar de existir comércio de gás natural
entre países) tampouco uma indústria globalizada de gás natural. De fato,
existem distintos mercados com uma lógica de funcionamento e de
formação de preços diferenciada.” (MATHIAS, 2008, p. 3).

Como os principais mercados de gás natural são distantes geograficamente e


participam de diferentes contextos políticos e econômicos (América do Norte, América do Sul,
Europa e Ásia), a determinação dos preços segue uma lógica própria. No entanto, os preços

50
Utilizando os dados do BP Statistical Review de 2007, Mathias (2008) mostra que enquanto as transações
internacionais de óleo correspondiam em 2006 a quase 65% do total da produção desse hidrocarboneto, o
mesmo indicador para o gás natural era de 26%.
69

do gás natural nesses mercados tendem sempre a seguir a referência dos produtos
substitutos, uma vez que o gás pode ser facilmente substituído nas suas aplicações (um
esquema conhecido por netback pricing).
Nos EUA, houve uma maior disseminação dos contratos à vista (transações
baseadas no mercado spot) e, portanto, um maior descolamento dos preços do petróleo com
relação ao preço do gás, tornando a concorrência atrelada às disputas entre os ofertantes de
gás natural. A oferta tende a se concentrar nos hubs que passam a dar os preços de referência.
Nos EUA, em Luisiana, está localizado o Henry Hub, o ponto de comercialização mais
importante desse país e considerado nos contratos futuros de gás natural da NYMEX. Muito
rapidamente, a indústria de gás natural construiu uma malha de gasoduto que corta todo o
território estadunidense. Além de ser uma marca forte desse país até hoje, essa extensa rede
permitiu um volumoso comércio regional entre os países das fronteiras, Canadá e México,
sobretudo o Canadá que é um grande produtor de gás natural (MATHIAS, 2008).
Na Europa, no entanto, encontra-se um mercado de gás natural menos flexível
com presença maior de contratos de longo prazo e mais atrelados ao preço do petróleo. Outra
diferença entre a Europa (com exceção da Inglaterra) e os EUA é o de que na primeira região
predominam as empresas estatais e na segunda os agentes privados. Os gasodutos europeus
transportam recursos provenientes dos países exportadores da região (Holanda, Noruega e
Rússia) e da África (Argélia) e dos portos com plantas regasificadoras que recebem GNL. O
incremento gradativo da rede de distribuição de gás natural e dos canais de comércio exterior
na Europa permitiu a substituição do carvão como insumo das termelétricas para o gás natural
(MATHIAS, 2008).
O Japão, pelas suas características geográficas, sempre dependeu das importações
de gás natural por transporte marítimo, portanto, na sua forma liquefeita (GNL).
Primeiramente importou GNL do Alasca e, depois do choque do petróleo, buscou diversificar
os pontos de importação, aumentando a participação dos exportadores asiáticos (Brunei, Abu
Dhabi, Indonésia, Malásia e Austrália) (MATHIAS, 2008).
As reservas de gás natural da China encontram-se em regiões distantes dos
centros industriais e consumidores, o que dependeria de formidáveis investimentos em
gasodutos. Assim, esse país é consumidor de GNL, e também tem preferências por
investimentos em gasodutos a partir da Rússia e Ásia Central, com quem, como relata Mathias
70

(2008, p. 202), “tenta estabelecer contratos de longo prazo com preços abaixo do valor de
mercado do GNL.”
O Catar é um grande exportador de GNL. Uma das razões para o baixo preço do
metano comercializado por esse país é a complementação que é feita com a separação e
comercialização dos líquidos de gás natural, cujos preços melhores subsidiam a venda de mais
alta escala do metano por navios (GÜLEN, 2014).
No gráfico 6, observa-se que os preços do gás natural em diferentes mercados
(Japão, Alemanha, Reino Unido, Canadá e EUA) estavam convergindo até 2008. A partir de
2009, os preços de comercialização na América do Norte tomam uma tendência de queda
abrupta e sustentada em patamar baixo, que não foi acompanhada por outros mercados,
principalmente no Japão. Em 2012, nos EUA quase atingiu-se o preço de US$2 por Mmbtu
enquanto no Japão aproximou-se de US$17 por Mmbtu51.

Gráfico 6 – Preço do gás natural e GNL, em US$/milhões de Btu, Japão, Alemanha, Reino Unido e EUA,
1996-2015

18,00
US$ por milhões de Btu

16,00
14,00
12,00
10,00
8,00
6,00
4,00
2,00
0,00
1996
1997
1998
1999
2000
2001

2004
2005
2006
2007
2008
2009

2012
2013
2014
2015
2002
2003

2010
2011

Japão CIF GNL


Alemanha CIF Gás Natural
Reino Unido Gás Natural (Heren NBP Index)
EUA Gás Natural Heny Hub

Fonte: Adaptado de BP (2017).

Não há dúvidas de que essa divergência no movimento de preços está relacionada


ao crescimento acelerado da produção de gás natural nos EUA, proveniente das formações de
shale. Como observa Yergin (2011):
“A few years ago the focus was mainly on rapid growth in LNG. With that
went a widespread belief that a true world gas market was in the making,

51
Vale lembrar que a necessidade de importação de gás natural no Japão aumentou substancialmente após a
paralisação da produção de energia nuclear de Fukushima, em 2011.
71

one in which prices would converge. The arrival of shale gas has, for the
time being, disproved that assumption. Yet the emergence of this new
resource in North America is certainly having a worldwide impact –
demostranting that the gas market is global after all – just not quite in the
way that would have been expected.” (YERGIN, 2011, p. 341).

Embora a mundialização da indústria do gás tenha avançado, ainda se verificam


características de mercados com dinâmica regional, como se mostrou, por exemplo, com a
disparidade de preços do gás natural entre as regiões. No próximo item, analisam-se os elos
da cadeia produtiva no qual a produção de gás natural se insere.

1.2.2.3. Características da cadeia produtiva do gás natural: uma “indústria de rede”

A cadeia produtiva do gás natural é composta pelas atividades de produção


(realizada nas bacias sedimentares), de transporte (geralmente feito por gasodutos de alta
pressão que levam o gás natural dos campos produtores até os mercados consumidores e,
quando o caminho entre os países é cortado pelo oceano, pode-se optar pelo transporte
marítimo de GNL por navios metaneiros), de distribuição (entrega ao consumidor final,
normalmente em gasoduto de pequena distância e menor pressão) e de comercialização
(atividade de compra e venda do gás natural).
Dada essa particularidade do transporte e distribuição serem realizados
majoritariamente por gasodutos, a cadeia produtiva do gás natural é caracterizada por alta
especificidade dos ativos e elevada intensidade de capital. A especificidade dos ativos pode
ser verificada sobretudo nos gasodutos, nas unidades de processamento e nas plantas de
liquefação e regaseificação. A intensidade de capital aparece em quase toda a cadeia, desde
a fase de exploração e produção.
Essas particularidades da indústria de gás natural (especificidade de ativos e altos
requerimentos de capital) geram um outro desdobramento importante nos sistemas
produtivos conectados ao gás natural: as pontas da cadeia (exploração e produção, no início,
e o consumo, no final) e as fases de transporte e distribuição tornam-se mutuamente
dependentes pois todos buscam garantir um fluxo contínuo na rede de transporte e
distribuição. Os agentes da cadeia estão inevitavelmente conectados a partir de uma rede, daí
a denominação de indústria de rede para a indústria do gás natural (PINTO JÚNIOR et al.,
2007).
72

Utilizando o trabalho de Correljé (2004)52, Mathias (2008, p. 105) registra a


interconexão que deve haver entre os elos da cadeia produtiva do gás natural, em função do
tamanho do capital envolvido e, portanto, dos riscos:
“O desenvolvimento dos sistemas de rede de transporte e distribuição de
gás natural, portanto, constituiu um importante desafio, em função dos
riscos e incertezas relacionados à recuperação dos recursos investidos num
projeto com tais características (CORRELJÉ, 2004)”.

Os riscos envolvidos estão relacionados não só aos investimentos que devem


acontecer de forma sincronizada e com alta qualidade, mas também aos problemas de
rentabilidade que surgem quando os preços do gás natural mudam acentuadamente tanto
para baixo (afetando os produtores e distribuidores) quanto para cima (prejudicando os
consumidores). De acordo com Correljé (2004 apud MATHIAS, 2008) os dois lados,
vendedores e compradores, assumem riscos altos e vão pressionar a outra ponta na
negociação para que a venda de gás ocorra seja com altos preços (pressão feita pelo produtor
ou distribuidor) ou com baixos preços (pressão feita pelo consumidor que também possui
ativos cuja operação depende do fornecimento ininterrupto do gás).
Os investimentos em rede de uma ponta à outra da cadeia do gás natural
determinam o caráter rígido que marca as relações entre os agentes da cadeia. Essa complexa,
custosa e inflexível cadeia de conexões entre as unidades produtoras do gás natural e de sua
distribuição requer a presença de uma entidade coordenadora. Como afirmam Pinto Junior et
al. (2007, p. 239):
“Neste contexto de interdependência, a construção de um equilíbrio
operacional/econômico ao longo de toda a cadeia, e não apenas em uma
atividade específica, demanda a existência de algum tipo de coordenação
que viabilize a operação e a expansão desse conjunto de atividades.”

Nem sempre a presença formal de empresas privadas em projetos de transporte


de gás natural é prova de rentabilidade segura do projeto. Gülen (2014) fornece o exemplo do
gasoduto entre Bolívia e Brasil em que o envolvimento de Shell e Enron só se concretizou
depois que a Petrobras e o governo brasileiro forneceram certas garantias ao projeto.
A interdependência dos agentes da cadeia definida na indústria do gás natural
também se reflete nas formas contratuais de compra e venda, prevalecendo as de longo

52
CORRELJÉ, A. F. Markets for Natural Gas. In: CLEVELAND, Cutler J. Encyclopedia of Energy. Boston: Elsevier,
2004. v. 3, p. 799-808.
73

prazo. Também são relevantes negociações do tipo take or pay ou de ship or pay, em que o
consumidor se compromete a pagar um volume contratado independente de seu uso
(MATHIAS, 2008).
Mathias (2008) defende a tese de que a indústria de gás natural está caminhando
para se tornar uma indústria globalizada, a exemplo do que já ocorreu com a indústria do
petróleo. Para que o gás natural possa se tornar uma mercadoria de amplitude mundial, o
comércio internacional deve conectar os países produtores e os países consumidores sem esse
recurso natural (ou em quantidade insuficiente), tornando-o uma commodity internacional.
Mas, a globalização da indústria de gás, nos termos da autora, depende que
contratos e operações financeiras a partir dessa commodity sejam realizados no âmbito
mundial, com a participação de qualquer agente independente do país em que reside. A
autora compara o setor de óleo e o setor de gás e conclui que a indústria mundial de óleo se
encontra em estágio avançado de globalização (comércio, investimentos produtivos e
finanças), enquanto a indústria de gás natural caminha na mesma direção, ainda que se situe
em fase bem menos avançada. A expansão do comércio internacional de gás natural liquefeito
(GNL) correspondeu a um passo importante na definição de um mercado global de gás e seu
avanço contribui para transformar o gás natural em uma commodity internacional.

1.2.2.4. Participantes na atividade de exploração do gás natural: presença do grande capital


e do Estado

A produção de gás natural, em geral, está associada à de óleo. Mesmo que os


poços sejam exclusivas fontes de gás, a tecnologia de extração é semelhante. Portanto,
empresas petrolíferas também tendem a ser produtoras de gás natural. No entanto, as
empresas petrolíferas nem sempre são proprietárias das empresas de transporte de gás
natural e, portanto, algumas vezes, reservas de gás podem não ser desenvolvidas pela
ausência ou desinteresse de construir e operar53 uma rede de transporte por gasodutos
(MATHIAS, 2008).
Com os dados da International Energy Agency (IEA) para os EUA e França, Pinto
Júnior et al. (2007) destacam que a participação dos custos de transporte gira em torno de 50

53
Pinto Junior et al. (2007) assinalam que o custo da construção da infraestrutura de transporte é
significativamente maior que os custos de operação e manutenção. Disso se pode se depreender o fato de que
em muito casos as empresas estatais se responsabilizam e arcam com o custo do investimento da construção e
montagem da infraestrutura de transporte para, depois, oferecer ao setor privado a sua operação.
74

a 70% dos custos totais do gás natural. Os autores apontam que a construção dos gasodutos
é cara porque compreende os custos dos dutos, o custo de desapropriação das áreas de
servidão por onde eles passam e os custos de montagem que, por sua vez, incluem “a
escavação da trincheira para o lançamento dos dutos, o transporte do duto até a área de
montagem e a soldagem dos dutos.” (p. 238). Todos esses custos aumentam conforme a
distância, portanto, a redução do custo médio depende do aumento do volume de gás
transportado. O desenvolvimento tecnológico nessa atividade de transporte de gás mirou esse
desafio, conforme atestam os autores:
“Por esta razão, as inovações tecnológicas surgiram, inicialmente, em torno
daquelas trajetórias tecnológicas clássicas que procuram explorar as
economias latentes de escala; isto é, em torno do desenvolvimento de
técnicas que permitam produzir e montar dutos cada vez maiores, com
capacidade crescente de transporte, diluindo cada vez mais o custo do
capital total em um grande volume transportado.” (PINTO JUNIOR et al.,
2007, p. 238).

É nesse cenário que se compreende a operação de empresas estatais criadas


especificamente para a extração, produção, desenvolvimento, transporte e distribuição do
gás natural. Evidente que com a onda privatizante a partir dos anos 1980, muitas dessas
empresas já pertencem ao capital privado e, em muitos casos, foram adquiridas pelo capital
estrangeiro (aumentando, portanto, o grau de mundialização dos investimentos produtivos
da indústria do gás). Ainda assim, a presença das estatais é muito forte nesse setor.
A relação entre a indústria do óleo e a indústria do gás natural é complexa. Como
sublinha Mathias (2008), a indústria do gás, “em seu nascedouro, desenvolveu-se à sombra
do desenvolvimento da indústria petrolífera”. Isso porque a descoberta e exploração de óleo
acarretou na aparição do gás natural. A autora sublinha que, se de um lado, a oferta de gás
nos mercados está, em geral, subordinada às decisões das empresas petrolíferas em investir
no seu transporte e comercialização, por outro, esse setor específico é beneficiado com a
capacidade de investimento dessas empresas originalmente e fundamentalmente baseadas
na cadeia produtiva derivada do óleo.
Desse modo, uma relação em certo ponto contraditória pode aparecer entre a
indústria de óleo e a produção de gás natural quando os preços do óleo estão elevados. De
um lado, o preço relativamente mais alto do óleo pode inibir a oferta do gás natural (foco dos
investimentos em poços mais ricos em óleo e uso do gás na própria produção do óleo), mas,
ao mesmo tempo, capitaliza as empresas petrolíferas, gerando mais capacidade de
75

financiamento para as inversões na cadeia do gás (em gasodutos, por exemplo, que requerem
maior fôlego financeiro) (MATHIAS, 2008).
Como exemplo da expansão das empresas, originalmente de óleo para o setor de
gás, estão alguns dados apresentados em Campbell et al. (2016). De acordo com a pesquisa,
os autores arriscam até a dizer que no futuro não haverá mais Big Oil Companies e sim Big Gas
Companies. Isso porque as empresas petrolíferas estão aumentando a sua participação nos
negócios do gás natural em detrimento da participação da produção de óleo e derivados. A
empresa BP foi a única das supermajors que não apresentou acréscimo da participação da
produção de gás (transformado em volume de óleo equivalente) entre 2000 e 2015. As
demais, no entanto, apresentaram. Nesse período, na Shell o peso do gás natural foi de 37%
para 49% do total da produção, na ExxonMobil de 40 para 43%, na Chevron de 27 para 33%,
na Total de 30 para 47%, na ConocoPhillips de 33 para 43% e na Eni de 37 para 48%.
A empresa BP, a que aparece com menos evolução na atividade de gás natural que
outras majors, registra que assinou o segundo contrato de produção conjunta (PSC, em inglês,
production sharing contract) com a CNPC (China National Petroleum Corporation) para o
desenvolvimento e produção do shale gas no território chinês54 (BP, 2016).
No relatório anual de 2015 da BP, a empresa posiciona-se de forma otimista
quanto ao futuro da oferta de gás natural no mundo, em especial, a proveniente das
perfurações das formações de shale.
“Natural gas is likely to play an increasing role in meeting global energy
demand, because it’s available at scale, relatively low cost and lower
carbon than other fossil fuels. By 2035 gas is expected to provide 26% of
global energy, placing it on a par with oil and coal.
We believe shale gas will contribute more than half of the growth in natural
gas globally between 2014 and 2035. In the US, the growth of shale gas has
already had a significant impact on gas demand as well as CO2 emissions,
which have fallen back to 1990s levels” (BP, 2015, p. 11).

No que se refere à ExxonMobil, o avanço da produção de gás natural também


parece notável. Essa empresa é dividida em 4 categorias de negócios e uma delas é
especificamente “Natural Gas and Power Marketing”. No site da corporação, na descrição das
atividades consta o seguinte trecho:

54 De acordo com a nota da BP: “In addition to unconventional resource exploration and development, the
framework agreement covers possible future fuel retailing ventures in China, potential new oil and LNG trading
opportunities globally and carbon emissions trading, as well as sharing of knowledge around low carbon energy
and management practices” (BP, 2016).
76

“Over the coming decades, natural gas is expected to play an increasingly


important role in fueling the world’s economic growth. ExxonMobil is active
across the natural gas value chain in most major markets. Our global
presence, combined with our ability to leverage expertise across our
Upstream, Downstream, and Chemical businesses enables us to create
innovative integrated solutions. This provides an important competitive
advantage and positions ExxonMobil strongly to help meet the world’s
growing natural gas and power demands.” (EXXONMOBIL, 2017a).

Na projeção da ExxonMobil para 2040, a demanda por gás natural irá crescer mais
do que a de outros principais combustíveis (duas vezes mais do que a do óleo). A demanda
deverá ser atendida pela produção de fontes não convencionais dos EUA, mas também da
Ásia do Pacífico que, segundo a publicação, deverá ser responsável por 20% do crescimento
da produção não convencional (EXXONMOBIL, 2016a, p. 65). Ainda assim, o relatório prevê
que a maior parte da oferta mundial venha das fontes convencionais (Rússia, Oriente Médio
e África).
No Gráfico 7, podem-se visualizar as projeções realizadas no relatório da
ExxonMobil. Os EUA passarão a ser o 2º. maior exportador de gás, em função das fontes não
convencionais. A Rússia continuará sendo o primeiro em exportação.

Gráfico 7– Projeções de produção, exportação e importação de gás natural, por fonte e por região,
2010-2040

Fonte: ExxonMobil (2016a, p. 68).

Outra empresa petrolífera que avança sobre o setor de gás natural é a Total. Essa
empresa em 2016 ampliou substantivamente sua participação na produção de shale gas nos
EUA ao adquirir o controle total dos leases em que a empresa e Chesapeake eram sócias na
bacia de Barnett Shale. Segundo Horobin (2016): “Total’s move, which could increase its
77

relatively small output in the U.S., is part of a wider pivot the company is making to pump more
natural gas than oil.”.
As supermajors são importantes representantes do setor de gás pois as
especificidades técnicas e econômicas existentes na cadeia produtiva do gás também exigem
dos agentes participantes uma envergadura própria de gigantes.
A integração vertical, por exemplo, é um movimento forçoso para os players desse
mercado tanto para aqueles que estão na ponta da exploração da cadeia, como para aqueles
que atuam como demandantes do gás natural. Enquanto os produtores precisam garantir o
escoamento e a distribuição, os consumidores precisam assegurar o acesso e algum controle
sobre o preço do gás natural. Mathias (2008, p. 178) observa que:
“Produtores procuram se integrar à jusante com o objetivo de monetizar
suas reservas e garantir o escoamento do seu produto. Do outro lado,
importadores procuram se integrar à montante para garantirem o acesso
ao produto (de preferência, diversificando a origem), reduzindo assim os
riscos tanto com relação ao suprimento quanto no tocante à negociação
junto aos produtores.”

Por exemplo, a necessidade de integração para frente (para o transporte e


distribuição) se revela com muita intensidade entre os exportadores de GNL dada a elevada
escala que se identifica tanto nos terminais de liquefação quanto nos navios metaneiros 55,
demandando elevados investimentos. Portanto, essas inversões em geral estão associadas a
relações contratuais mais rígidas (no extremo, a internalização) com os agentes à frente da
cadeia, buscando assegurar o escoamento e distribuição do produto nos países importadores.
Ao mesmo tempo, as majors, muitas vezes compradoras de gás natural, são
proprietárias de embarcações para terem mais garantia no acesso e também a flexibilidade
de comprar o gás dos pontos mais atrativos em determinados momentos. As empresas de
eletricidade, em diversos países, também são motivadas a integrarem-se às etapas de
produção e transporte (MATHIAS, 2008).
Citando Ruester e Neumann (2006)56, Mathias (2008) sublinha a importância do
tamanho das empresas no que toca às condições de financiamento, sobretudo para viabilizar

55
Com a compra da BG Group, a Shell “has a 20 percent share of the global LNG market, scores of giant gas
tankers prowling the seas, and double the production capacity of its closest competitor, ExxonMobil” (CAMPELL
et al., 2016).
56
RUESTER, S.; NEUMANN, A. Economics of the LNG Value Chain and Corporate Strategies: An Empirical Analysis
of the Determinants of Vertical Integration. In: The 10th Annual ISNIE Conference. Boulder, Colorado, September,
2006.
78

a entrada das empresas nas etapas anteriores ou seguintes da cadeia produtiva do gás natural,
para além de onde já se estabelecem:
“Size matters when it comes to the increased capability of financing an
integration and entering new stages of the value chain which traditionally
were not considered core competences. Firm size, measured through the
asset value, has a positive and significant impact on the the degree of
vertical integration.” (RUESTER; NEUMANN, 2006, apud MATHIAS, 2008, p.
180).

As empresas estatais têm papel relevante na indústria gasífera, porém por motivos
distintos do que aqueles atribuídos para a emergência e consolidação de NOCs na produção
de petróleo. Como Mathias (2008) observa, enquanto a presença do Estado no setor produtor
e de comercialização do óleo se fez importante por conta da importância desse combustível e
matéria-prima na estrutura produtiva dos países, na indústria de gás sua presença está mais
associada à intensidade de capital de alguns elos da cadeia (como transporte) e à
especificidade dos ativos das operações de toda cadeia produtiva de gás. Essas duas
características da indústria gasífera também foram responsáveis tanto pelo atraso para que
esse hidrocarboneto fosse incluído na matriz energética dos países de forma permanente,
bem como são razões para que esse setor não tenha alcançado o mesmo nível de globalização
que o do setor de óleo (MATHIAS, 2008).
A expansão do mercado de gás natural é muito mais dependente da construção e
manutenção de infraestrutura do que o de óleo. A infraestrutura de transporte (sejam os
gasodutos, seja o GNL) é muito intensiva em capital, incluindo o alto peso da pesquisa
tecnológica, e demanda grande tempo para serem construídas. Como exemplo, um tanque de
armazenamento de gás no Japão (grande importador de GNL) leva 36 meses para a sua
construção, além de ser uma construção cara e difícil por utilizar metais especiais capazes de
armazenar o gás natural em grande quantidade (CHANDRA, 2006, p. 63).
Assim, um mercado de gás natural em algum país pode ficar inexplorado ou
subexplorado por um tempo, mas à medida em que a infraestrutura de transporte,
armazenamento57, transmissão e distribuição vai sendo viabilizada e construída, haverá,

57
Vale apontar que a estocagem do gás natural é parte integrante do sistema de transporte, em função do
caráter sazonal, em alguns países e regiões, do consumo do gás (quando este é usado principalmente para o
aquecimento dos estabelecimentos e residências no inverno). O armazenamento do GNL é realizado em tanques
próximos dos portos de exportação e de importação e a do gás natural por gasoduto é feito nos próprios
gasodutos ou em áreas subterrâneas (como a dos reservatórios gasíferos já exauridos, aquíferos ou cavernas de
sal) (CHANDRA, 2006).
79

nesses países, uma pressão sobre as instituições reguladoras e sobre os governos para que
aquela estrutura econômica seja plenamente utilizada por muitos anos. Há uma
irreversibilidade na matriz energética na medida em que a infraestrutura atrelada ao gás
natural é montada e operacionalizada. Essa pressão será maior quanto maior for a
participação do capital privado nesses investimentos.
A expansão do mercado de gás natural é tratada por Mathias (2008, p. 233) como
algo certo, porém seu ritmo depende de alguns fatores. O crescimento da indústria gasífera
depende de vultosos investimentos (em todos os elos da cadeia, incluindo GNL) e, com menos
contratos de longo prazo, os riscos se elevam. Nas suas palavras:
“Entretanto, parte destes investimentos deverá ser realizada sem a
contrapartida de retorno, uma vez que os mercados estão liberados e há
cada vez menos espaço para investimentos ponto a ponto, típicos do
modelo tradicional utilizado no início do desenvolvimento da indústria.”.

Assim, o mercado de gás natural tende a se expandir no mundo em função do


aumento da participação desse recurso no portfólio de produtos das empresas petrolíferas
privadas, pelo crescimento do comércio internacional de GNL (promovida pela expansão da
infraestrutura ligada à armazenagem, liquefação, regasificação e transporte de GNL) e pela
presença do Estado nos países onde residem as maiores reservas de gás natural, com alta
participação nas empresas produtoras e também na condução e coordenação dos
investimentos em infraestrutura.
Esse cenário projeta desafios à indústria petroquímica, cuja matéria-prima pode
advir do petróleo ou da exploração dos poços de gás natural. No próximo item, os fatores de
competitividade do setor petroquímico são analisados com mais profundidade.

1.3. Fatores de competitividade na indústria petroquímica: escala, verticalização


diversificação e internacionalização

A competitividade do setor petroquímico está fundada em alguns fatores que são


comuns a outros setores de fluxo contínuo de produção (como o de fabricação de celulose e
o setor químico), mas tem suas especificidades relacionadas à natureza de seus produtos e à
cadeia produtiva da qual faz parte. Nos próximos subitens, citam-se os principais requisitos
competitivos para as empresas que atuam no setor petroquímico.
80

1.3.1. Escala e a necessidade de capital

A elevada escala de produção das plantas petroquímicas está relacionada ao fato


de serem produtoras de commodities e semi-commodities (servindo normalmente a grandes
mercados locais ou regionais) ou de especialidades (com fornecimento em uma escala global).
Além disso, o alto nível tecnológico das plantas novas determinam uma escala mínima
produtiva eficiente muito alta.
A ampliação da escala mínima das novas plantas responde às indivisibilidades
técnicas e aos aprimoramentos tecnológicos no âmbito do processo produtivo. Esses dois
determinantes exigem investimentos de grande monta (inclusive em função da depreciação
rápida dos equipamentos e de seu alto custo – até pelo componente corrosivo da síntese
química – GUGLIELMO, 1962) e justificam que novos projetos ofereçam uma capacidade
produtiva de grande porte, em geral, além do que as projeções de demanda indicam. Com
isso, como apontam Hasenclever e Antunes (2009, p. 22), há uma tendência à concentração
da produção em poucas plantas: “Um exemplo bastante ilustrativo pode ser dado no caso de
eteno: entre cerca de 254 plantas existentes no mundo, apenas 80 delas (cerca de 30%) são
responsáveis por 50% da capacidade total de produção”.
Há, então, um condicionamento de caráter tecnológico para explicar o elevado
nível da escala de produção, mas também há necessidade de cumprir com o requisito
competitivo de obter economias de escala, fundamentais para o aumento da margem de
lucro, sobretudo na produção de commodities, e para expandir ou manter sua posição no
mercado mundial58.
Os novos investimentos determinam um novo patamar mínimo de custos fixos
unitários, acirrando a competição internacional no setor. As plantas mais antigas,

58
As vantagens de escala, no entanto, serão obtidas por aquelas que tiverem os maiores volumes de produção
por unidade de capital. Em 2003, a escala de produção brasileira era alta, porém a capacidade média das plantas
era bem inferior a de outros países (a dos EUA era 3,8 vezes maior, a da Alemanha, 1,6, a da Itália, 1,8 e a da
Coreia do Sul, 1,7) (HIRATUKA; GARCIA; SABBATINI, 2003). Em 2008, também se observavam grandes diferenças
entre as unidades produtivas no mundo com as maiores escalas de produção e as maiores unidades brasileiras.
Como exemplos, enquanto a maior unidade produtora de etileno no mundo apresentava um volume de 1.450
mil toneladas (situada na Arábia Saudita), a maior do Brasil produzia 650 mil toneladas de etileno; em PEAD, a
maior planta do mundo produzia 960 mil toneladas (também na Arábia Saudita) e a do Brasil 360 mil toneladas
(HASENCLEVER; ANTUNES, 2009). Esses dados reforçam que podem ser encontradas diferenças competitivas
importantes ao nível da planta, em função da escala de produção.
81

inevitavelmente com custos unitários maiores, restringem-se a servir o mercado nacional e


precisam contar com ação dos governos para garantir reserva de mercado, por exemplo, com
proteção alfandegária (SCHUTTE, 2004, p. 50).
O aumento constante das escalas de produção, com projeções da capacidade
produtiva muito além da demanda corrente, também funciona como barreira à entrada de
novos competidores. A capacidade ociosa das novas plantas cumpre o papel de dissuadir o
aumento de investimentos dos competidores em alguns segmentos (SUAREZ, 1986).
O imperativo de adotar a máxima escala técnica de produção em novos projetos
também responde pelas dificuldades de encontrar novos espaços físicos para o
estabelecimento de novas plantas petroquímicas. Os obstáculos se devem à necessidade de
localização próxima das fontes de fornecimento de matéria-prima (e que estejam em
estruturas nacionais que garantam o acesso a um preço competitivo) e aos aspectos
ambientais. Todo projeto petroquímico novo recebe atenção intensa das comunidades locais
e de movimentos sociais em função de seu potencial de poluição e uso predatório dos recursos
hídricos. Assim que um novo site for encontrado e negociado com as autoridades locais para
a instalação de um novo projeto, dado o estado da arte da tecnologia de processo e as
condições de abastecimento de matéria-prima, a escolha do porte do investimento tende a
ser dada pelo maior tamanho possível da escala de produção, mesmo que a um custo de alta
ociosidade por longo tempo (GORAYEB et al., 2013). Também por esse motivo é que são
comuns vínculos contratuais de parcerias e joint-ventures entre empresas do setor, entre elas
e fornecedores de equipamentos, e entre esses agentes e fundos de investimentos para
ampliação da capacidade produtiva.
A tendência à sobrecapacidade também conduz a outra consequência, que terá
implicações importantes à rentabilidade do setor petroquímico. Como evidenciou Schutte
(2004), o fato de os produtos petroquímicos serem tradables e a exigência de canalizar parte
da capacidade produtiva para o exterior, gera práticas de dumping no comércio internacional
nas fases de forte disparidade entre a capacidade de oferta e a demanda. Nesses momentos,
há convivência com dois preços, o internacional (rebaixado pela prática de dumping) e o local
(mais alto para preservação das margens de lucro).
“Lembrando ainda que a formação dos preços é determinada pelo preço da
matéria-prima, de um lado, e pela utilização da capacidade instalada, de
outro, fica evidente que, nos períodos de baixa, as empresas optam por
82

políticas agressivas de exportação a preços inferiores aos praticados no


mercado interno.
Pela característica da dupla estrutura de preços, as alíquotas de importação
servem para compensar e defender a redução voltada para o mercado
interno da concorrência desleal, tendo os processos antidumping como
segunda opção” (SCHUTTE, 2004, p. 55).

Mesmo com a proteção alfandegária, o autor registra que os processos


antidumping aumentaram muito nos últimos anos e que o setor petroquímico é o maior
usuário desse expediente dentre outros setores nas ações de defesa comercial dos países
produtores.
Assim, os momentos de alta capacidade ociosa das empresas do setor em
decorrência de uma onda de novos investimentos tendem a se associar com redução dos
preços internacionais, dada a condição de sobreoferta. Observa-se daí a elevada necessidade
de financiamento nesse setor nesses períodos: para o investimento não-incremental de alto
requisito tecnológico e grande escala de produção, para a capacidade ociosa alta por médio
prazo e para o enfrentamento de diminuição nas receitas totais ou nas margens de lucro em
função dos preços baixos nas novas e antigas plantas quando os preços internacionais estão
na fase de vale do ciclo.

1.3.2. Verticalização, integração na cadeia produtiva e necessidade de capital

Embora a cadeia petroquímica esteja separada em divisões denominadas


gerações, a dependência das matérias-primas (acentuada pelo difícil e alto custo de
transporte) é tão grande que, em geral, os agentes participam de todos os elos da cadeia (no
âmbito de um país, muitas vezes, tem-se a participação exclusiva de uma única empresa),
inclusive a da exploração e produção das correntes petrolíferas, óleo e gás, que serão
responsáveis pela geração da nafta e do etano, respectivamente, até a produção de
especialidades químicas com elevado valor adicionado e uso altamente específico.
Por exemplo, nos dados analisados por Hasenclever e Antunes (2009), as
empresas líderes de olefinas também eram representativas no mercado de poliolefinas. As
autoras apontam também a verticalização para frente da Shell e da ExxonMobil em direção à
petroquímica. Como ressaltado por Schutte (2004, p. 52), com relação aos vínculos das
petroquímicas com essas matérias-primas: “Global players como Shell, Exxon, BP, Basf e
Chevron participam tanto da geração quanto do processamento.”.
83

Uma das razões para a necessidade de integração vertical do setor petroquímico


para trás, ou seja, em direção ao setor produtor de sua matéria-prima, se deve à rigidez
técnica da relação insumo-produto. Não há inovação tecnológica que reduza a importância da
matéria-prima na formulação final dos produtos petroquímicos, tanto maior quanto mais
básicas forem as formulações finais. No gráfico 8, encontram-se as participações do custo da
matéria-prima de alguns produtos químicos no custo total. Para o etileno, por exemplo, a
nafta corresponde a 88% do custo total de produção.

Gráfico 8 – Participação (%) do custo da matéria-prima no custo total de produção de petroquímicos

Fonte: Bain & Company, Gas Energy (2014a, p. 4).

A necessidade de segurança de abastecimento de matéria-prima se expressa, de


fato, pela quantidade alta de empresas petroquímicas que estão plenamente integradas a
montante na cadeia, nas atividades upstream. Outra explicação desse grau intenso de
verticalização do setor se deve ao fato de que a nafta, principal matéria prima, tem baixa
disponibilidade para compras internacionais, uma vez que a quase totalidade dela é
transferida internamente entre unidades produtoras e unidades consumidoras da mesma
empresa59. Assim, a verticalização é tanto causa como consequência da indisponibilidade de
nafta nas transações internacionais spot. Por esse motivo, torna-se difícil definir uma
referência para seu preço (SCHUTTE, 2004, p. 54).
Utilizando preços de transferência, as empresas verticalizadas não maximizam a
rentabilidade de cada unidade produtiva e sim, podem escolher sacrificar o resultado em
alguma delas para elevar o rendimento das operações completas da corporação ou do grupo.
Além disso, pelas barreiras à entrada e outros aspectos de uma estrutura monopólica, o setor

59
Assim como a nafta, o etileno e propileno também não são típicas commodities, dado seu alto consumo intra-
empresas.
84

upstream (refinarias e exploração de petróleo e gás) é receptor de uma renda que, nas
empresas verticalizadas, pode ser utilizada nos investimentos da fase petroquímica,
downstream60 (CHUDNOVSKY; LÓPES61, 1997, p. 54). Para as empresas petrolíferas, a
integração a jusante também é vantajosa porque o controle da matéria-prima (preço e acesso
se transforma no “factor clave para la competencia dentro del sector— y de la posibilidad de
optimizar el uso de los hidrocarburos en complejos integrados de refinerías y plantas
petroquímicas” (CHUDNOVSKY; LÓPES, 1997, p. 56).
Utilizando a abordagem dos custos de transação e os incentivos à internalização
de atividades, IPT (2008) registra que a integração física e societária no setor petroquímico
ocorre como forma de reduzir os custos de agência e de transação, “no sentido de propiciar
melhor assunção de direitos de propriedade sobre os ativos relevantes” (p. 29).
Com a mesma abordagem dos custos de transação, Pelai (2006) também explica o
imperativo de internalização dos elos produtivos a montante pelo setor petroquímico. Isso
porque esse setor apresenta quatro dos seis tipos de especificidade de ativos: especificidade
de ativos físicos (o capital fixo da petroquímica não pode ser utilizado em outras atividades),
especificidade locacional (matérias-primas gasosas ou líquidas corrosivas e tóxicas, cujo
transporte é de alto custo e complexo), ativos dedicados (as dutovias entre 1ª. e 2ª. gerações,
por exemplo) e especificidade temporal (os fluxos são contínuos, portanto, uma paralisação
por conta de falta de matéria-prima gera custos altos). Assim, há, no setor petroquímico,
incentivos para a adoção da internalização dos setores anteriores ou posteriores da cadeia em
detrimento da governança pelo mercado.
A assimetria de informações também pode ser explicação importante para as
estratégias de verticalização. Pelai (2006) destaca como problema para a governança via
mercado a falta de informações e conhecimentos (de controle, portanto) sobre as condições
de produção, oferta e custos dos insumos, bem como sobre os investimentos e suas
características (mix de produto, por exemplo) da etapa a montante.

60
Rendas que aumentam quanto maiores os preços dos hidrocarbonetos básicos. Nesses momentos, as
empresas petroquímicas integradas ao setor petrolífero possuem condições maiores de sustentarem margens
de lucro, sendo menos necessários os cortes nos investimentos, por poderem contar com subsídio cruzado das
unidades em atividade upstream.
61
Segundo os autores, a verticalização também pode trazer algumas desvantagens como a inflexibilidade
operacional, altos custos de saída e geração de ineficiências na administração de muitas unidades.
85

A verticalização também ocorre a jusante na cadeia. Esse movimento é observado


tanto nas petrolíferas, ampliando sua participação na petroquímica, como nas empresas
petroquímicas, aumentando seus investimentos nos segmentos de especialidades. Mello et
al. (2003) destacam, no entanto, que o caminhar para a produção de bens de mais alto valor,
não tem se traduzido em redução da produção de alta escala.
A passagem para os segmentos a jusante faz parte, na maioria das vezes, de uma
orientação planejada da empresa para a expansão e não para realocar recursos para restringir
o escopo de atuação. Assim, empresas petrolíferas caminham para o setor petroquímico, e
empresas petroquímicas caminham para o setor químico, sem abandonar seus ativos
originais. Com isso, formam-se empresas gigantes “petrolíferas-petroquímicas-químicas” com
capacidade competitiva bastante assimétrica com relação às concorrentes não tão
diversificadas.
Furtado (2003, p. 09) faz uma indagação que ilustra esse diferencial de poder
competitivo entre empresas diversificadas e as especializadas:
“(...) a indústria do petróleo (em sentido estrito) por certo não é
petroquímica – mas alguém pode, com discernimento, ignorar que uma
empresa petroquímica de 10 bilhões de dólares que possui também
faturamento de 100 bilhões de dólares em petróleo (extração, refino,
comercialização, distribuição) é muito diferente de uma empresa
exclusivamente petroquímica de 10 bilhões?”.

O autor afirma que a mesma comparação poderia ser feita utilizando uma
empresa estritamente petroquímica e uma outra petroquímica e com grande faturamento (e,
orçamento em P&D) no setor farmacêutico.
“O peso da atividade petrolífera representa uma massa econômica e
financeira que dá sustentação a diversas empresas petroquímicas, tanto
quanto a produção de conhecimentos e a inovatividade das indústrias de
base químico-farmacêutica alimenta a produção de novos produtos e
processos nas indústrias química e petroquímica” (FURTADO, 2003, p. 9).

Na integração setor petrolífero/setor petroquímico, a existência do grande capital


para investimentos em processos e aumento da capacidade produtiva faz a diferença e, na
integração setor petroquímico/setor farmacêutico, o que sobressai é o alto volume de capital
requerido para a detenção de ativos intangíveis, como os expressivos gastos em ciência,
pesquisa e desenvolvimento.
86

1.3.3. Diversificação horizontal e necessidade de capital

A diversificação produtiva das empresas químicas e petroquímicas também ocorre


no sentido horizontal, em direção a segmentos de mercado que demandam bens de mais alto
valor adicionado e complexidade tecnológica, definindo requisitos competitivos a essas
empresas que vão além da expansão da capacidade produtiva (e da conseguinte obtenção de
economias de escala) e da integração produtiva na cadeia.
A obtenção de capacidades tecnológicas, em geral, constitui um privilégio do
grande capital, em função dos volumosos recursos financeiros requeridos para as atividades
de pesquisa e desenvolvimento. Hiratuka, Garcia e Sabbatini (2003) ressaltam que as grandes
empresas do setor petroquímico combinam elevadas escalas de produção para commodities
e semicommodities (e aí a integração com o setor produtor de matéria-prima é realizada) e a
posse de uma carteira de produtos diversificada, em que as especialidades químicas
(mercados mais dinâmicos) ganham um peso, ao lado dos produtos básicos, igualmente
significativo.
De acordo com esses autores, a ampliação da fatia das especialidades químicas na
carteira de produtos das empresas petroquímicas responde também ao desafio competitivo
das empresas tornarem-se menos vulneráveis às oscilações de preços e aos momentos de
baixos preços do ciclo de investimentos. Afinal, as especialidades, relativamente às
commodities, estão menos propensas às alterações de preço e geram uma margem mais
elevada às empresas produtoras.
Durante a década de 1980, na reestruração empreendida pelas grandes empresas
petroquímicas após os dois choques do petróleo e a diminuição da atividade econômica
mundial, uma das ações adotadas foi o desinvestimento (com venda de ativos ou com
licenciamento de tecnologia) dos segmentos produtivos de commodities e aumento da
participação da produção das especialidades químicas (SUAREZ, 1986).
A diversificação horizontal constitui também um bom mecanismo de criação de
barreiras à entrada (assim como a verticalização, a sobrecapacidade e a internacionalização),
mas, ao mesmo tempo, reflete uma necessidade de origem técnica. Como realça Schutte
(2004), o setor petroquímico “é marcado pela rigidez dos coeficientes de insumo-produto e
pela obtenção simultânea de vários produtos.” (p. 51). Isso determina uma relação de alta
inflexibilidade com o setor fornecedor de matéria-prima (setor petrolífero) e uma necessidade
87

de ampliar mercados a partir da base técnico-produtiva já existente. A geração inevitável de


co-produtos determina as linhas de pesquisa e desenvolvimento de novos produtos, de
transformação de commodities em semi-commodities e dessas para especialidades.
O vínculo umbilical do segmento petroquímico com o setor químico lhe rende a
característica de ser intensivo em ciência, pesquisa e desenvolvimento. Nesse setor
evidenciam-se patentes, comercialização de licenças de tecnologia e uma elevada
porcentagem de gastos de P&D no faturamento. Para a produção dos petroquímicos básicos,
a inovação em processo ganha um destaque evidente, mas a diferenciação de produtos
também se apresenta, tanto nos esforços permanentes para a padronização das commodities
(gerando aumentos de eficiência produtiva para seus consumidores), quanto naqueles para a
geração de semi-commodities (com a produção de petroquímicos básicos com grades
personalizados aos objetivos do cliente). Para isso, as pesquisas em conjunto com as empresas
da 3ª. geração (sobretudo as fabricantes de plásticos de engenharia) são fontes importantes
de aprendizado e de inovação.
Utilizando como comparação o setor siderúrgico, que também é intensivo em
capital, tem processo com um fluxo contínuo e também tem uma de suas fontes de vantagem
competitiva na obtenção de economias de escala, observa-se que o setor petroquímico,
embora compartilhe dessas características, se distingue pelo elevado dinamismo tecnológico,
refletido principalmente na sua capacidade de criar novos espaços de acumulação, não só pela
substituição de materiais tradicionais (vidro, metal, papel, madeira), mas pela abertura de
mercados completamente novos (FURTADO, 2003).
As oportunidades de inovação em produto são imensuráveis e, portanto, se as
escalas de produção são condição necessária, não são suficientes em função desse imperativo
ao setor de criar a todo momento novos produtos. Nesse sentido, para cumprir com sua
necessidade de diversificação como um importante fator de competitividade, a detenção de
competências tecnológicas e o acesso a um amplo orçamento para pesquisa e inovação são
indispensáveis às empresas petroquímicas (FURTADO, 2003).
A existência de empresas transnacionais com suas filiais em vários países
potencializa a capacidade de inovação dessas empresas. Schutte (2004) afirma que a principal
forma de transferência de tecnologia nesse setor se dá entre subsidiárias e suas matrizes.
Hiratuka, Garcia e Sabbatini (2003) também registram que uma vez realizados volumosos
88

investimentos em desenvolvimento tecnológico, em geral, na matriz das empresas


multinacionais, a busca pelo máximo retorno desses investimentos se reflete na adoção
dessas tecnologias nas subsidiárias e através de licenciamentos a outros países. A
internacionalização da tecnologia passa a ser, então, uma forma de diminuir o custo unitário
das atividades de P&D (HIRATUKA; GARCIA; SABBATINI, 2003).
Mello et al. (2003) registram que os licenciamentos de tecnologia têm sido
expediente comum nas empresas na liderança do desenvolvimento tecnológico de processos
e produtos (citam, por exemplo, Dow, BP, ExxonMobil e LyondellBasell). Os autores assinalam
que, ao invés de difundir a tecnologia para o mundo, o licenciamento deve ser avaliado como
mais um elemento concentrador de recursos tecnológicos e, portanto, gerador de assimetrias
entre empresas:
“Não se pode omitir que tal estratégia reforça a dependência tecnológica
dos produtores new comers, quase todos localizados na periferia: ainda que
esteja disponível a tecnologia, os usuários têm cada vez menos o domínio
do processo inovador, abrindo mão de externalidades em benefício da
obtenção de tecnologia “barata”.
Além disso, a receita que os licenciadores obtêm na cessão da tecnologia
permite financiar o desenvolvimento de processos mais sofisticados, cujos
resultados favoráveis poderiam permitir, por sua vez, a apropriação de
rendas extraordinárias62 pelas próprias empresas tecnologicamente mais
avançadas, distanciando-as competitivamente ainda mais das firmas
apenas usuárias de tecnologia” (MELLO et al., 2003, p. 40)

A capacidade da empresa em realizar alianças tecnológicas com outras empresas


e contratos cooperativos em pesquisa com universidades constitui um fator de
competitividade no nível empresarial. Mas, igualmente importante, no nível sistêmico de
competitividade, um grande trunfo é pertencer a um país com um estruturado e complexo
sistema nacional de inovação.
Além disso, o acesso e o custo do capital também são importantes para o
financiamento das atividades de pesquisa e desenvolvimento, realizadas muitas vezes a partir
de inversões de risco, quanto mais próximas da fronteira tecnológica as pesquisas estiverem.
O custo de capital dos países em desenvolvimento é mais alto que os países centrais, residindo
aí uma boa parte da explicação para a dificuldade de algumas empresas alcançarem o mesmo

62
Furtado (2003) designa essas rendas derivadas dos licenciamentos de tecnologia de “rendas acíclicas”. Assim,
empresas licenciadoras possuem esse trunfo com relação às demais uma vez que são usadas para manter a
rentabilidade constante nos momentos baixistas de preços dos produtos petroquímicos, que são cíclicos e
estruturais ao setor.
89

volume de investimentos em pesquisa do que o realizado pelas empresas líderes. Sendo assim,
o gap tecnológico entre umas e outras só tende a se ampliar (HIRATUKA; GARCIA; SABBATINI,
2003).
À medida que se amplia a diversificação horizontal, as empresas obtêm economias
de escopo e podem usufruir de vantagens competitivas relacionadas à intensa diversificação.
Citando exemplos das economias de escopo, Schutte (2004) elenca os ganhos derivados da
redução do custo unitário do transporte entre gerações da cadeia petroquímica, a
racionalização dos serviços básicos de infraestrutura e o aperfeiçoamento do sistema de
controle ambiental das empresas.

1.3.4. Internacionalização e necessidade de capital

Outra característica do ambiente competitivo das empresas do setor


petroquímico diz respeito ao nível elevado da internacionalização produtiva das empresas
líderes. Esse movimento se expressa com clareza nos elevados índices de comércio
internacional do setor (sobretudo das especialidades), no investimento direto externo
(isoladamente ou em joint-venture com empresas locais) e no licenciamento de tecnologia,
como formas de valorizar o estoque de ativos produtivos e tecnológicos das empresas
transnacionais.
Com relação ao comércio, Mello et al. (2003) apresentam os coeficientes de
abertura dos países ao comércio externo do polietileno e polipropileno, por região (Tabela 8).
Algumas áreas são fortemente exportadoras (Oriente Médio e Sudeste Asiático) e algumas,
evidentemente, se destacam pela alta importação (Sudeste asiático e Oriente Médio também,
e a América do Sul). Supõe-se que os dados de comércio externo apenas de especialidades
tenderiam a exibir coeficientes de abertura maiores ainda, uma vez que os mercados nos quais
residem as plantas produtivas são insuficientes para absorver o total produzido de cada item
nessa categoria de produtos. As plantas responsáveis pela produção de especialidades
possuem, desde a origem, um mandato para prover as unidades clientes no mundo inteiro.
90

Tabela 8 – Coeficientes de abertura de poliolefinas por regiões selecionadas, 1998


Em %
Polietilenos Polipropileno
CM CX CM CX
América do Norte 16,9 22,9 10,4 15,2
América do Sul 41,3 22,5 28,3 24,9
Europa Ocidental 12,0 8,9 4,8 9,4
Europa Oriental 38,5 48,2 28,3 39,2
Oriente Médio 48,3 74,9 63,7 48,4
Ásia Nordeste 38,7 32,2 32,9 31,2
Ásia Sudeste 49,8 55,6 33,1 45,2
CM: Importações Físicas/Consumo Aparente Físico
CX: Exportações Físicas/Produção Física
Fonte: Mello et al. ( 2003, p. 26).

Schutte (2004) enumera 6 categorias de empresas que operam no setor


petroquímico, de acordo com características específicas ao grupo e à sua abrangência
geográfica:
1) Empresas de base química de porte gigantesco e de atuação mundial: Basf, Dow
Chemical63, Solvay;
2) Grandes empresas de base petrolífera com ramificações na petroquímica, com
investimentos em nível mundial: Shell, Exxon, BP;
3) Empresas petroquímicas estatais de países exportadores de petróleo e gás: Sabic;
4) Empresas de médio porte, embora de alcance mundial, operando em nichos com plásticos
de engenharia e outras especialidades: Borealis;
5) Empresas de médio porte com alcance regional, produtoras de commodities e semi-
commodities: Braskem;
6) Empresas de tecnologia de processos e de engenharia: ABB Lummus, Stone-Webster e
Kellog-Brown & Root.
Em todas essas categorias, o aumento do investimento direto no exterior é
notável. Como em todos os setores, embora as indústrias química e petrolífera sejam
expoentes desse movimento64, aumenta-se substantivamente a partir dos anos 1980 a

63
Em 2016, antes da fusão com a DuPont, a divisão global de “Embalagens e Plásticos de Especialidade” da Dow
Chemical representou 40% do EBITDA da empresa (FONTES, 2017a). Possivelmente, após a fusão, essa empresa
se encontrará com um grau de diversificação ainda maior, mesmo com a desintegração da Dow-Dupont em três
empresas diferentes.
64
Guglielmo (1962) afirma que o capital petrolífero na petroquímica foi mais ousado na expansão de suas
unidades no exterior do que o capital químico nas suas unidades petroquímicas.
91

participação do produto e do comércio das filiais estrangeiras na economia mundial. Assim,


as estratégias de concorrência empreeendidas por empresas multinacionais deixam de ter o
mercado doméstico como delimitação geográfica. Ao contrário, a atuação das filiais no
mercado em que residem é condicionada pelas orientações da matriz, cujo planejamento é
realizado a partir do conjunto de suas operações globais. Conforme registram Mello et al.
(2003, p. 13):
“Assim, a rivalidade obriga as empresas a organizar as atividades e plantas
produtivas de maneira integrada e não mais como um conjunto de filiais
independentes. Nessa situação, a concorrência transborda as fronteiras
nacionais e os nexos de rivalidade e interdependência não são mais
reproduzidos em cada mercado ou região, mas ocorrem em um plano
superior, onde as atividades e funções corporativas levadas a cabo em cada
espaço regional refletem estratégias de concorrência integradas
globalmente.”

Se as transações externas de comércio cumprem o objetivo de escoar uma parte


da produção não absorvida pelo mercado local (e essa situação, em geral, não está relacionada
à conjuntura e sim ao tamanho da escala das operações produtivas sempre maior que o
mercado local), o investimento direto no exterior atende ao objetivo de ampliar a escala
empresarial, de buscar insumos com preços mais competitivos, de participar de mercados de
maior crescimento e de buscar oportunidades a partir de alianças produtivas e tecnológicas
em direção à expansão.
Os ganhos de escala empresarial com a internacionalização de ativos podem ser
visualizados por exemplo no aumento do montante dos gastos em P&D (e sua amortização
por unidade produzida) e no alcance de capacidades tecnológicas residentes em outros países,
na melhoria das condições de acesso ao mercado de capitais, na ampliação do escopo dos
investimentos (que contribuam também para alcançar objetivos estratégicos globais e
regionais, inclusive de racionalização produtiva) (MELLO et al., 2003).
Na Tabela 9, Mello et al. (2003) exibem os dados referentes à participação da
produção de algumas empresas petroquímicas fora de seu país de origem. Os dados de 2002
já mostram algumas delas com quase ou mais de 50% de sua capacidade produtiva residindo
em países estrangeiros à sua matriz. Sem razão para dúvidas, pode-se afirmar que os dados
mais recentes seriam ainda mais evidentes no tocante ao elevado grau de internacionalização,
tendo em vista que as empresas de países emergentes lograram sua expansão produtiva ao
exterior (como a Braskem que, na Tabela 9, em 2002, aparece com 0% de IDE e que em 2017
92

já contava com uma grande unidade no México, cinco nos EUA e duas na Alemanha, por
exemplo) e que os fluxos de capital permaneceram fluindo fortemente para a Ásia nos anos
seguintes a 2002.

Tabela 9 –Grau de internacionalização e faturamento, em US$ bilhões, de empresas selecionadas, por


capacidade de produção de etileno, em mil toneladas por ano, 2002

%
Região de Capacidade Capacidade
Faturamento Capacidade
Origem na Origem Total
Empresa IDE
Braskem* 2,5 Brasil 1.768 1.768 0
Equistar 5,5 EUA 5.110 5.110 0
Chevron/Phillips 5,4 EUA 3.493 3.674 4,9
Sinopec 26,1 Ásia NE 2.795 3.220 13,2
Shell (Quimíca) 11,5 Europa 3.999 6.516 38,6
Sabic 9 Oriente Médio 3.350 5.488 39
Dow 27,6 EUA 5.689 9.750 41,7
ExxonMobil (Química) 16,4 EUA 4.549 8.408 45,9
Formosa Plastics 12,2 Ásia SE 1.678 3.175 47,1
Basf (Química)** 5,3 Europa 1.580 3.012 47,5
BP Amoco 13,1 Europa 1.350 4.641 70,9
Total Seleção 132,2 52.993 34,9
* 50% Copesul + 100% Copene
** Em bilhões de Euros

Fonte: Mello et al. (2003, p. 34).

A internacionalização via investimento direto externo ocorre praticamente desde


o início da indústria petroquímica mundial, considerando o momento em que suas empresas
ganham robustez competitiva. Isso porque a 2ª. Guerra Mundial é que permite dar às
empresas petroquímicas nos EUA uma escala, grau de diversificação e capacidade de
investimento enormes por conta das elevadas vendas de insumos químicos para os combates
de guerra para os países aliados e, depois de finda a guerra, com as exportações para a Europa.
A reconstrução da Europa e a recuperação do tecido industrial no pós guerra vão se realizando
e as empresas petroquímicas estadunidenses vão também constituindo instalações
produtivas em território europeu para aproveitar a reconstrução rápida do mercado
consumidor europeu e a oportunidade para expansão do capital petroquímico (SUAREZ,
1986).
Como resposta da pressão competitiva com a entrada das empresas dos EUA em
solo europeu, as empresas europeias lançam suas ações de internacionalização produtiva via
investimento direto em direção aos países da periferia que também mostravam um
93

crescimento significativo do mercado consumidor no período pós-guerra. Um pouco depois,


a indústria petroquímica japonesa também realiza esse movimento, como forma de inserir
seus grupos econômicos (Mitsubishi, Mitsui e Sumitomo) no mercado mundial de
petroquímicos (SUAREZ, 1986).
Ao lado de uma tendência de distribuição maior da produção petroquímica pelo
mundo (a partir dos investimentos diretos às regiões não centrais, como América do Sul, Ásia
e Oriente Médio), há uma tendência à concentração da produção nas regiões centrais, nas
quais se originaram e onde estão instaladas as matrizes e principais plantas produtivas e de
pesquisa das empresas líderes do setor petroquímico (FURTADO, 2003).
Essa tendência à concentração geográfica pode ser explicada, por um lado, pela
ampliação constante da carteira de especialidades químicas (cuja produção se realiza nos
principais centros consumidores e próximos aos centros de pesquisa) e, por outro lado,
observa-se esse movimento sobretudo nos períodos de sobreoferta em que se preenche a
capacidade produtiva das matrizes ou plantas dos países centrais enquanto são fechadas
unidades ou algumas linhas de produção nos países periféricos (FURTADO, 2003, p. 47).
Por esse motivo, na análise dos fluxos de comércio, a Europa, o Japão e os EUA,
países e região que sediam as empresas petroquímicas líderes, apresentam saldos
superavitários, enquanto os países em desenvolvimento, mesmo com plantas produtivas de
alta escala e com a presença de investimentos produtivos das global players, exibem déficites
recorrentes. Na verdade, é justamente a presença de filiais de empresas estrangeiras
multinacionais, para as quais obrigatoriamente flui um determinado montante de
especialidades químicas em função de uma divisão internacional da produção (por meio das
estratégias corporativas de definição de mandatos produtivos específicos a suas filiais) que se
explicam os altos níveis de importação dos países em desenvolvimento e o elevado volume
do comércio intrassetorial (FURTADO, 2003).

1.3.5. As grandes irmãs do setor petroquímico: alguns exemplos de empresas líderes e suas
fontes de competitividade

“Todos estes fatores contribuem para fazer da petroquímica domínio


exclusivamente reservado às grandes empresas” (GUGLIELMO, 1962, p.
83).
94

Há uma concentração da produção e do valor adicionado em alguns países ou


regiões e também há concentração das vendas do setor químico em algumas poucas
empresas. Na classificação das 100 maiores empresas de 2015 realizada pela ICIS Chemical
Business (2016), nota-se uma grande disparidade em termos do faturamento entre as
primeiras da lista e as últimas. A BASF (Tabela 10) possui um valor de vendas (US$ 76 bilhões)
23 vezes maior que a Petronas (US$ 3 bilhões), que ocupa a centésima posição. Com a
concretização da fusão entre Dow e Dupont (3ª. e 9ª. posições no ranking, respectivamente),
essa classificação de 2016 poderá sofrer modificações importantes, embora só fará reforçar o
movimento permanente de concentração no setor. As duas empresas, juntas, têm um valor
de mercado de US$ 130 bilhões. Após a finalização da fusão, DowDupont pretende fatiar-se
em três empresas de capital aberto (agicultura, ciências de materiais e especialidades)
(FONTES, 2016a). Mesmo com essa divisão, a fusão determinará a formação de três gigantes
nessas áreas, pressionando por novos movimentos no setor químico nessa mesma direção.

Tabela 10 – Ranking mundial do setor químico, por faturamento, em milhões de US$, 2015
Vendas
1 Basf 76.554
2 Sinopec* 50.238
3 Dow Chemical 48.778
4 Sabic 39.450
5 Mitsubishi Chemical Holding 34.005
6 LyondellBasell Industries 32.735
7 ExxonMobil Chemical* 28.134
8 INEOS 25.678
9 Dupont 25.130
10 Linde Group 19.499
11 Toray 18.719
12 Sumitomo Chemical 18.695
13 Air Liquide 17.799
14 Total* 17.500
15 LG Chem 17.181
99 FMC 3.277
100 Petronas Chemicals Group 3.145
* Somente o setor químico
Obs: Shell ocupou a 7a. posição em 2014
Fonte: ICIS Chemical Business (2016).
95

O ano de 2016 registrou um recorde do valor das fusões e aquisições no setor


químico mundial65. Contribuíram para esses altos valores, além da Dow-Dupont (de acordo
com os termos utilizados pela A.T. Kearney foi o “megadeal of megadeals”), a compra da
Syngenta pela ChemChina por US$ 47 bilhões, a compra da Monsanto pela Bayer por US$ 66
bilhões e o anúncio da compra da Linde pela Praxair (US$ 43 bilhões).
No Gráfico 9, estão apresentados os 3 maiores negócios de fusão e aquisição
anunciados em 2016 e o valor acumulado pendente entre 2006 e 2016. Esse valor pendente
é o triplo do que havia em 2015 que, por sua vez, já apresentou um recorde perante os anos
anteriores. Assim, espera-se que o ano de 2017 apresente valores muito altos nessas
operações a se concretizar. Afinal, vale lembrar que a maior aquisição que se completou em
2016 foi a da estadunidense Air Gas pela francesa Air Liquide, por US$ 13,4 bilhões. Assim, os
valores pendentes para 2017 são muito maiores.
De acordo com A.T. Kearney (2017), as principais causas para o movimento de
fusões e aquisições atual são, nesta ordem de importância nas respostas: expansão das
empresas de países em desenvolvimento em busca de acesso à tecnologia avançada ou
aplicação de know-how (destacam-se aqui as empresas chinesas, principal origem dos
investimentos em 2016 em fusões e aquisições); ressurgimento da competitividade do setor
químico nos EUA, em função dos baixos preços da matéria-prima; integração downstream das
empresas do Oriente Médio; retornos limitados com o crescimento orgânico das empresas; e
a alta liquidez nas empresas químicas.
Outro exemplo de fusão importante, essa do setor petroquímico
predominantemente, pode ser dado pela empresa LyondellBasell. Primeiramente vale
mencionar que Basell é resultado da joint-venture, 50-50, em 2000, de duas gigantes, Basf e
Shell, para operarem no setor de poliolefinas. Em 2005, Basell é vendida para um grupo
investidor e depois, em 2007, funde-se com Lyondell, tornando-se uma das maiores
petroquímicas do mundo. No seu Annual Report de 2015, registra-se que essa empresa é a
segunda maior produtora de etileno, terceira maior de polietieno (PE) e maior produtora de
polipropileno (PP) da América do Norte. Também é a maior produtora de PP e PE da Europa e

65
Entre 1990 e 2001, Pelai (2006, p. 10) registra algumas das principais fusões, aquisições e joint-ventures desse
período: “Oxychem/Equistar e Lyondell/Millennium (1997); BP/Amoco, Borealis/PCD e Transcanada/Nova
(1998); Hanwah/Daelim e Samsung/Hyundai (1998/1999); Exxon/Mobil (1999), Elenac/Montell/Targor (2000),
Dow Chemical/Union Carbide e Phillips/Chevron (2000) e Solvay/BP (2001).”.
96

a maior produtora de compostos de PP do mundo. Apesar de não deterem o controle


operacional, possuem joint-venture com empresas da Arábia Saudita, Tailândia, Austrália,
Japão e Coreia do Sul (LYONDELLBASELL, 2015).

Gráfico 9 – Setor químico mundial: valores dos acordos anunciados acumulados e completos de fusões
e aquisições, em bilhões de US$, 2007-2016

Fonte: A. T. Kearney (2017, p. 3).

O ranking (Tabela 10) também revela três outras características: dentre as 15


maiores empresas químicas do mundo, encontra-se a presença de empresas petrolíferas66
(ExxonMobil, Shell67 e Total), de empresas com participação estatal (Sinopec e Sabic) e de
empresas asiáticas (Sinopec, Mitsubishi, Toray, Sumitomo e LG Chem).
Sinopec (China Petrochemical Corp., seu nome oficial) está listada nesse ranking
apenas com seu braço químico, porém vale destacar que se trata da 2ª. maior empresa
petrolífera chinesa (atrás da PetroChina, uma divisão da CNPC – China National Petroleum
Corporation). Sinopec é, por exemplo, a maior produtora de shale gas na China, ao executar
o projeto Fuling Shale Development na Bacia de Sichuan. De acordo com seu relatório anual
de 2015, os investimentos nessa região iriam resultar em 2016 em uma capacidade de
produção de 10 bilhões de metros cúbicos de gás natural por ano (SINOPEC, 2015). Além de

66
Empresas cuja principal atividade reside na exploração e produção de petróleo e gás. Cabe a ressalva que
muitas ou quase todas empresas dessa lista das 15 maiores possuem ativos na fase upstream da cadeia
petroquímica.
67
Shell não aparece nesse ranking, pois, de acordo com a publicação da ICIS, a empresa não estava com os dados
prontos de 2015 até o momento da divulgação da pesquisa. No entanto, em 2014, o setor químico da Shell
ocupava a 7ª. posição.
97

participar do segmento upstream (com produção em 2015 de 349 milhões de barris de óleo
cru e 734 bilhões de pés cúbicos de gás natural; SINOPEC, 2015), a maior empresa
petroquímica da China também participa da produção e distribuição dos produtos derivados
do refino do petróleo, do segmento da engenharia do petróleo e no setor da Construção Civil.
Um dos exemplos recentes mais notáveis da estratégia de integração entre os
setores químico e o petrolífero parece ser dado pela criação da Sadara, em 2011, na Arábia
Saudita. Essa empresa é fruto de uma joint-venture entre Saudi Aramco e Dow Chemical e já
iniciou em 2016 a produção de petroquímicos em um complexo industrial formado por 26
plantas industriais integradas e com escala mundial. Essa empresa faz parte do plano da Arábia
Saudita de ampliar sua diversificação produtiva, utilizando principalmente sua base produtiva
de matéria-prima a partir do óleo e gás (SADARA, 2017).
Alperowicz (2016) registrou que esse investimento também é altamente inovador
(chamado pela empresa de “game changer”), em função do processo que utiliza para o
craqueamento das matérias-primas. O MFC (Mixed Feed Cracker) traz a flexibilidade de
“craquear” tanto as moléculas de nafta quanto as de etano. Com essa tecnologia, serão 3
unidades craqueadoras. Além dessas, residem no complexo mais 7 unidades que utilizam
etano do gás e mais 2 consumidoras de nafta. Etano e nafta serão fornecidos pela Saudi
Aramco. O etileno resultante será usado para polimerização nas unidades downstream da
Sadara (com a tecnologia da Dow Chemical), e o propileno, além do consumo interno, será
destinado a outra joint-venture da Sadara (com Sabic e Saudi Acrylic Acid Co.).
De acordo com o CEO da Sadara, Zian al-Labban:
“The ... mixed-feed cracker allows us to produce our own basic chemicals
on-site and, subsequently, to convert these basic chemicals into a wide
range of value-added plastics and specialty chemicals through our other
manufacturing units. It also allows us to adjust our production levels of
chemicals between naphtha-based and ethane-based feedstock in
accordance with market demand” (ALPEROWICZ, 2016).

Das 26 unidades industriais presentes no complexo, 14 delas terão produtos


totalmente novos à base produtiva petroquímica da Arábia Saudita, alguns deles,
especialidades, com o intuito de diminuir a participação de commodities na produção total
desse país. Conforme outro registro do executivo da Sadara:
“Sadara’s products will help fill a significant gap in a regional chemical
industry dominated by commodity products, with less than 1% of
petrochemical production currently defined as specialty chemicals. The
98

introduction of the specialty petrochemicals and chemicals will help


support the drive to broaden the secondary and tertiary petrochemical
manufacturing landscape in Saudi Arabia, thus making the kingdom a
leading cornerstone to meet the growing demand for specialty products
locally and regionally” (ALPEROWICZ, 2016).

Além da integração física e patrimonial das 26 plantas de 1ª. e 2ª. gerações da


Sadara, Alperowicz (2016) também ressalta a integração com o PlasChemPark, parque
industrial com empresas da 3ª. geração para as quais se oferecem “infraestrutura, suprimento
de matéria-prima, mão-de-obra qualificada e proximidade com mercados emergentes em
crescimento”.
Em Arab New (2016), há referência a outra joint-venture da empresa. Nesse
parque industrial com plantas da 3ª. geração, Sadara, que fornecerá as matéria-primas (óxido
de etileno e óxido de propileno) via dutos, e a SDC (Surfactant´s Detergent Company), uma
empresa sul-coreana, detentora da tecnologia, produzirão surfactantes para o mercado
saudita.
Um outro projeto na Arábia Saudita, de plantas integradas, reúne a Saudi Aramco
e Sabic, a primeira, petrolífera, a segunda, petroquímica68, ambas de propriedade do Estado
saudita. Essas duas empresas estão em estudo final para o início da construção de uma planta,
possivelmente em uma joint-venture que utilizará o processo que diretamente transformará
óleo bruto em polímeros (oil-to-chemicals). O processo trará vantagens de custos às
empresas, uma vez que não será necessário usar a nafta, bem mais cara que o óleo bruto e
sem a necessidade de refinarias (NEREIM; WILKIN, 2016).
Gold, Spindle e Said (2016) reportam que os planos da Saudi Aramco em direção
à diversificação para o setor petroquímico têm por objetivo ampliar significativamente o peso,
dentro da corporação, das atividades petroquímicas e se transformar “em uma empresa
petrolífera integrada moderna, como a gigante Exxon Mobil Corp”. Para isso, buscará criar
uma rede global de plantas petroquímicas e refinarias, aumentando o valor adicionado de sua
produção e ampliando seu o escopo, produzindo desde “goma de mascar até auto-peças”.
Algumas pessoas consultadas por Gold, Spindle e Said (2016) mostraram-se céticas quanto às

68
De acordo com o site da Sabic: “Ranked among the world’s largest petrochemicals manufacturers, SABIC is a
public company based in Riyadh, Saudi Arabia. 70% of the Company’s shares are owned by the Saudi Arabian
government, with the remaining 30% publicly traded on the Saudi stock exchange. SABIC began in 1976 by Royal
decree and its growth has been nothing short of miraculous. Today, the company has operations in over 50
countries with a global workforce of over 35,000 talented individuals”. A empresa é dividida em 5 segmentos de
negócios: Química, Plásticos, Agronutrientes, Metais e Especialidades. (SABIC, 2017).
99

chances de sucesso para Aramco dar esse “salto”, indicando os obstáculos para se tornar uma
empresa química líder, mesmo sendo uma gigante petrolífera.
Ainda com relação ao impulso à diversificação e à internacionalização da Saudi
Aramco, vale mencionar a assinatura de um projeto conjunto com outra estatal química
chinesa, a China North Industries Group Corp., para a construção e operação de uma planta
integrada de refinaria e petroquímica. Segundo analistas, esse projeto permite que Saudi
Aramco garanta suas vendas de petróleo e ainda abre oportunidades para outros segmentos
industriais e de serviços árabes que apoiarão a implantação e operação de tal complexo
químico (GUO, 2017).
As empresas químicas e petroquímicas, em geral, são integrantes de grupos
petrolíferos ou integraram no seu histórico recente. Esse é o caso da Phillips 66 que, mesmo
sendo fruto de uma desintegração de uma petrolífera69, mantém um alto grau de
diversificação, uma vez que abriga em seu portfólio as áreas de refinarias, química e atividades
da fase midstream (dutos, estocagem, fracionamento de gás natural para a produção de LGN,
etc). Ademais, essa empresa estadunidense mantém alianças e joint-ventures com outras
grandes empresas. No segmento midstream, opera com a Phillips 66 Partners (empresa de
capital aberto da Phillips 66 desse segmento) e com a DCP Midstream70 que é uma sociedade
igualitária entre Phillips 66 e Spectra Energy (PHILLIPS 66, 2017a). No segmento petroquímico,
essa empresa é proprietária de 50% da Chevron Phillips Chemical Company LLC (CPChem) e
concentra suas operações fabris nos EUA (mais de 20 unidades industriais e 2 centros de
pesquisa) e Oriente Médio (Arábia Saudita e Catar), embora também tenha ativos produtivos
na China, Coreia do Sul e Cingapura. São os maiores produtores mundiais de polietileno de
alta densidade, segundo maior de olefina alpha, quarto maior produtor nos EUA de etileno e
maior produtor do mundo de ciclohexano (PHILLIPS 66, 2017b). Essa empresa também é
proprietária de 14 refinarias (nos EUA – 11 – e na Europa - 3) e também de empresas de

69
Essa empresa foi criada em 2012, como resultado do desmembramento da ConocoPhillips (que por sua vez
tinha sido fruto da fusão entre Phillips Petroleum e Conoco em 2002). A ConocoPhillips concentrou-se na fase
upstream de desenvolvimento e produção de gás natural e óleo (HAUTER, 2016).
70
Como registrado no site da empresa: “DCP Midstream is one of the largest natural gas gatherers and processors
and one of the largest NGL producers and marketers in the United States. As of December 31, 2015, DCP
Midstream has natural gas storage capacity of 13 billion cubic feet (BCF). Its operations gather and transport raw
natural gas and NGL through approximately 66,200 miles of pipeline. The collected gas is processed at 63 plants
and treaters owned or operated by DCP Midstream. It also owns or operates 12 NGL fractionators”.
100

distribuição de gasolina, derivados e combustível para aeronaves) no varejo com redes de


bandeira Phillips 66, Conoco nos EUA e Jet e Coop na Europa (PHILLIPS 66, 2017b).
Enfim, trata-se de uma empresa petroquímica altamente diversificada
(principalmente com seu braço na fase midstream) e também com importante grau de
internacionalização, em função da detenção de ativos no Oriente Médio e Europa.
A empresa INEOS também tem operações no segmento upstream, a partir de duas
divisões, a INEOS Breagh (com exploração de gás no Mar do Norte; de acordo com a empresa,
o gás de lá extraído é fornecido para 10% das residências do Reino Unido) e a INEOS Shale, a
partir de suas licenças de exploração onshore de shale gas no Reino Unido (INEOS, 2016).
A empresa ExxonMobil é majoritariamente uma empresa petrolífera, mas com
ativos no setor petroquímico poderosos, situando-se entre as maiores no mundo no setor.
Suas atividades estão divididas em 4 categorias de negócios: Upstream (exploração e
produção de petróleo e gás em áreas convencionais e não convencionais), Chemical (plásticos,
solventes, borrachas e especialidades), Downstream (refinarias e distribuição de derivados do
petróleo) e Natural Gas and Power Marketing (atividades ligadas ao gás natural – como o GNL
- e geração de energia).
A integração é citada, pela própria empresa, como fonte de vantagens
competitivas, ao lado de eficiência com qualidade, liderança tecnológica e investimentos em
áreas geográficas dinâmicas (Ásia e Oriente Médio): “Our global scale creates an enormous
pool of resources and opportunities to integrate. For example, more than 90% of our chemical
capacity is integrated with our refining and natural gas operations” (EXXONMOBIL, 2017b).
A ExxonMobil Chemical é a maior produtora de etileno do mundo (Tabela 11). Para
esse produto, possui 19 sítios de produção, sendo alguns de propriedade total (15 milhões de
tonelada por ano de capacidade de produção) e outros em participação societária com outras
empresas (8,5 milhões de toneladas). Na lista dos maiores produtores de etileno do mundo
por complexos petroquímicos, a ExxonMobil também aparece nesse grupo seleto, a partir da
propriedade de complexos em Baytown no Texas (EUA) e em Jurong Island em Cingapura
(Tabela 12).
101

Tabela 11 – Lista dos dez maiores produtores de etileno do mundo por capacidade de produção, em
toneladas por ano, 2015
Capacidade (mil ton por ano)
De complexos de De complexos de
propriedade total da propriedade parcial da
Empresa Sítios* empresa empresa
1 ExxonMobil Chemical Co. 19 15.013 8.449
2 Saudi Basic Industries Corp. 15 13.392 10.274
3 Dow Chemical Co. 21 13.045 10.529
4 Royal Dutch Shell PLC 13 5.358 6.147
5 Sinopec 13 7.895 7.275
6 Total AS 9 5.610 3.149
7 Chevron Phillips Chemical Co. 8 5.607 5.352
8 LyondellBasell 8 5.200 5.200
9 National Petrochemical Co. (Irã) 7 4.734 4.734
10 Ineos 5 4.316 3.946
* Em 1o. De janeiro de 2015. Propriedade total mais propriedade parcial
Fonte: Adaptado de Brelsford (2015, Tabela 4).

Observe-se que dentre os maiores produtores de etileno estão ExxonMobil, Royal


Dutch Shell, Total e Chevron que são, eminentemente, empresas de extração e produção de
petróleo e gás. Também seja apontado o fato que dentre os 10 maiores produtores de etileno,
3 deles são empresas estatais (SABIC, Sinopec e National Petrochemical).
Embora a China seja um grande importador de polietileno, está nesse país o maior
complexo petroquímico a base de etileno, a partir da empresa Formosa que apresentou uma
capacidade de produção em janeiro de 2015 de 2,9 milhões de toneladas de etileno. No
Canadá, a empresa NOVA registrou quase a mesma capacidade (2,8 milhões). Nos EUA, dentre
as empresas que constam entre as 10 maiores do mundo, encontram-se as capacidades de
produção em complexos petroquímicos da ExxonMobil (2,2 milhões), Chevron Phillips
Chemical (1,9 milhão), Ineos (1,7 milhão) e Equistar (1,7 milhão). Com destaque na terceira
posição, situou-se a Arabian Petrochemical Company (Petrokemya) com capacidade de
produção de 2,2 milhões de toneladas de etileno.
102

Tabela 12 – Lista dos dez maiores produtores de etileno do mundo por capacidade de produção em
complexos petroquímicos, em toneladas por ano, 2015
Capacidade (mil
Empresa Localização toneladas por ano)
1 Formosa Petrochemical Corp. Mailian, Taiwan, China 2.935
2 Nova Chemicals Corp. Joffre, Alta 2.812
3 Arabian Petrochemical Co. Jubail, Arábia Saudita 2.250
4 ExxonMobil Chemical Co. Baytown, Texas 2.200
5 ChevronPhillips Chemical Co Sweeny, Texas 1.950
6 ExxonMobil Chemical Co. Jurong Island 1.900
7 Dow Chemical Co Terneuzen, Holanda 1.800
Chocolate Bayou,
8 Ineos Olefins & Polymers Texas 1.752
9 Equistar Chemicals LP Channelview, Texas 1.750
10 Yanbu Petrochemical Co. Yanbu, Arábia Saudita 1.705
* Em 1o. de janeiro de 20015.
Fonte: Brelsford (2015, Tabela 1).

A empresa Sibur, uma empresa russa, ocupou em 2015 a posição 70 do ranking


das maiores empresas químicas do mundo (US$ 5 bilhões em vendas nesse ano). A integração
vertical dessa empresa é notória. No seu Annual Review de 2014, há o seguinte destaque:
“SIBUR is a uniquely positioned vertically integrated gas processing and
petrochemicals company. We own and operate Russia’s largest gas
processing business in terms of associated petroleum gas processing
volumes and are a leader in the Russian petrochemicals industry.” (SIBUR,
2014, p. 123).

Como aparece na Figura 3, a empresa tem suas próprias unidades fracionadoras


(3) e processadoras (7) de LGN e de gás de petróleo associado (AP, em inglês), que alimentam
as plantas petroquímicas (3 crackers, 1 planta de PDH, 2 plantas de polímeros básicos, 3 de
borracha sintética e 13 unidades de plásticos e intermediários). Os contratos com
fornecedores de matéria-prima são apresentados como um trunfo da empresa. Nas palavras
de seu Chairman of Board Directors: “Our vision for the past several years has been to
monetise SIBUR’s most fundamental advantage – access to abundant, attractively priced
supplies of Western Siberian feedstock.” (SIBUR, 2-14, p. 6). O CEO da Sibur apresentou o
vínculo da empresa com a Rosneft para o provimento de matéria-prima com contratos de
longo prazo como o responsável pela obtenção de vantagens competitivas e de bons
resultados financeiros. Além disso, registrou que a compra de 49% da fatia da Rosneft na joint-
venture em Yugragazpererabotka irá oferecer controle total sobre as plantas de
processamento de gás em troca de compromissos de processar o gás associado de petróleo
103

dos campos de óleo da Rosneft (SIBUR, 2014, p. 08). O relatório da Sibur explica que o preço
baixo do gás associado de petróleo (AP) que adquirem de terceiros se deve ao fato de que as
empresas de petróleo não podem queimar o gás sob pena de pagarem altas multas. Portanto,
vendem-no a um preço baixo a Sibur.
“SIBUR provides oil companies with an attractive solution for AP utilisation,
therefore, we are able to source AP at advantageous prices. Given the
limited options for using AP and the lack of alternatives for evacuating it
from oil fields, there is no market or benchmark price for AP. AP pricing is
also not subject to government regulation. As a result, we purchase AP
from oil companies at prices that are negotiated on a case-by-case basis
and typically substantially differ from the FTS regulated natural gas prices.”
(SIBUR, 2014, p. 132).

Vale a menção de que as vendas de matéria-prima e energia (GLP, nafta, gás


natural, MTBE, LGN e outros) são mais importantes (60,2% do total) nessa empresa do que os
petroquímicos71 (36,7%), o que pode revelar que o elo petroquímico da empresa foi
decorrência da diversificação na direção downstream e não o inverso.
Pela grande extensão geográfica da Rússia, o sistema de transporte torna-se vital
para a viabilidade das operações da cadeia petroquímica. Como indicado pela empresa, Sibur
é proprietária de 2.995 km de dutos, 6 plataformas em ferrovias, 23.719 carros ou vagões de
trem ) (SIBUR, 2014).
As quatro fontes de vantagens competitivas divulgadas pela empresa são: a)
acesso à abundante matéria-prima a um preço atrativo oriundo da Sibéria Ocidental; b)
extensa e moderna infraestrutura de transporte; c) complexo petroquímico em Tobolsk
integrado às fontes de matéria-prima e d) oportunidades de crescimento nos mercados
consumidores (a empresa cita aqui o avanço das vendas na própria Rússia a partir de
substituição de importações) (SIBUR, 2014, p. 17).

71
Por exemplo, a venda de nafta representa 8,5% do faturamento total da Sibur. Desse valor, 93% é exportado
para a Europa.
104

Figura 3 - Segmentos de atuação da Sibur

Fonte: Sibur (2014, p. 03).

Figura 4 - Mapa com a extensão geográfica das unidades de extração e processadoras do gás natural
da Sibur

Fonte: Sibur (2014, p. 27).


105

Ao reunir as características de ordem técnica do setor petroquímico (elevada


escala, processo contínuo, concentração produtiva em complexos industriais) com as
econômicas (internacionalização, verticalização, diversificação, concentração do capital,
intensa P&D) e com aquelas determinadas pelas estruturas de capital e financiamento dos
países onde operam as empresas, tem-se, inevitavelmente, a conformação de estruturas de
mercado altamente oligopolizadas no setor petroquímico. No estágio atual do capitalismo, há
que se reforçar que esse oligopólio ocorre em escala global e não apenas corresponde a uma
junção de oligopólios nacionais.
A verticalização para frente (integração patrimonial a jusante) aparece como
diferencial competitivo no setor petrolífero e na primeira geração do setor petroquímico e a
integração a montante é destacado como diferencial competitivo da 1ª. e 2ª. gerações, como
se exibe no Quadro 1. Como são todos segmentos altamente intensivos em capital e
tecnologia, o resultado é que toda a cadeia petroquímica, com exceção da 3ª. geração,
apresenta-se em estruturas de mercado altamente concentradas, embora essas fiquem mais
evidentes nos mercados nacionais. Em Belluzzo e Galípolo (2017), o setor petroquímico, ao
lado de outros setores como o aeroespacial, farmacêutico, de tecnologias da informação,
automobilístico, etc., é utilizado como exemplo de elevada concentração de mercado, sendo
possível encontrar nesses setores empresas que, individualmente, detêm uma parcela
significativa do mercado mundial de um determinado produto.
Quadro 1 – Requisitos competitivos das diferentes etapas da indústria petroquímica
Intensidade de Características do
Etapa da cadeia Diferencial competitivo
fatores mercado
Extração e refino acesso a reservas, gastos em P&D,
de petróleo e gás capital e tecnologia escala, integração patrimonial a muito concentrado
natural jusante
escala, gastos em P&D, integração
patrimonial a jusante ou a
1a. Geração capital e tecnologia concentrado
montante, integração espacial a
montante
escala, gastos em P&D, integração
2a. Geração capital e tecnologia concentrado
espacial a montante
diferenciado, segundo acesso a matérias-primas, escala, pouco concentrado
3a. Geração
o segmento diferenciação de produtos ou competitivo
Fonte: Pelai (2006, p. 13).
106

Utilizando os dados mundiais de produção de resinas, Hasenclever e Antunes


(2009) mostram que, em 2008, 55,6% do poliestireno, 46,9% do PEAD, 42,3% do PEBD, 47,0%
do PEBDL e 39,0% do PP estavam concentrados em 10 empresas, principais produtoras dessas
resinas. Para a maioria dos petroquímicos básicos, essa concentração foi menor do que nas
resinas. Nesse ano pesquisado, as quatro principais empresas produtoras de petroquímicos
básicos (etileno, propileno, butadieno e outros) foram a Dow Chemical, Shell, ExxonMobil e
LyondellBasell. Na produção de resinas, as empresas se repetem: LyondellBasell, Dow
Chemical, ExxonMobil, Shell e se adicionam Formosa Plastics, Ineos Polyolefins, Nova
Chemicals e Chevron Phillips Chemical. As quatro principais empresas produtoras de PET
foram diferentes das principais empresas das demais resinas, a saber, Eastman Chemical,
Invista, Artenius e M&G. A elevada verticalização e integração com o setor produtor de
matérias-primas pode ser facilmente observada nessa lista de principais empresas de
petroquímicos básicos, que são as mesmas das principais produtoras de resinas e, com a
presença de empresas petrolíferas que atuam no elo mais extremo da cadeia, com a produção
de petróleo e gás (HASENCLEVER; ANTUNES, 2009).
Como recorda Rocha (2009), a indústria petroquímica é mais recente do que
outras (como a têxtil e a química), mas também já nasce com empresas grandes, em alguns
casos, frutos de alianças entre empresas (como é o caso da alemã IG Farben). A consolidação
do setor ocorre em consonância ao avanço da indústria do petróleo na década de 1930, mas
sobretudo após a 2ª. Guerra Mundial em que se estruturam as sociedades em torno do
consumo de massa (tendo o automóvel como um de seus principais símbolos), incluindo os
produtos de plástico. À expansão da capacidade de produção das refinarias para a produção
de combustíveis (gasolina e diesel), se atrela o avanço da indústria petroquímica.
“O setor se forma a partir da diversificação das atividades das grandes
empresas já existentes, em uma fase na qual a própria indústria química se
consolidava como oligopólio global. Um bom exemplo, é que na época da
abertura da seção de plásticos no United States Bureau os Standards, em
1935, entre as produtoras já constavam empresas como a Du Pont, Union
Carbide &Carbon e Tenesse Eastman (...).” (ROCHA, 2009, p. 38).

Segundo os dados de Schutte (2004), em 1957, 85% da produção mundial


petroquímica era oriunda dos EUA. Para o autor, colaborou para tal concentração, a
disponibilidade da nafta a baixo preço, mas também o desmantelamento da IG Farben, a
empresa alemã química, cuja vantagem competitiva estava nas inovações tecnológicas. Com
107

a derrota da Alemanha na 2ª. Guerra Mundial, essa empresa foi obrigada a abrir seus
“segredos” às empresas dos países aliados, inclusive para as estadunidenses.
Gugliemo (1962) registra que o nascimento e consolidação da indústria
petroquímica ocorreram no período em que o oligopólio concentrado em indústrias intensivas
em capital já era a regra, não oferencendo, desde o início, espaços para atuação de pequenas
ou médias empresas. Sobre o setor petroquímico:
“Não conheceu, como as indústrias mais antigas, esse crescimento de
sociedades concorrenciais, donde emergem pouco a pouco, mediante
longa série de absorções ou fusões, as poucas firmas grandes que hoje
dominam o mercado. Além disso, seus capitais provêm principalmente das
indústrias petroleira e química, às quais serve de traço de união e nas quais
a concentração financeira é particularmente avançada. Assim também
concentração igual se encontra na fundação das empresas petroquímicas”
(GUGLIELMO, 1961, p. 83).

Schutte (2004) ressalta a existência de cartéis, acordos, alianças tecnológicas,


fusões, estruturação de empresas pelo Estado72 e seu apoio explícito a alguns projetos73 e
outros movimentos típicos de mercados oligopolizados. Oferece como exemplo, os cartéis
poderosos que se formaram entre a 1ª. e 2ª. Guerra mundial, no momento da formação de
grandes grupos químico, que determinaram acordos para trocas de tecnologia e definição de
mercados cativos às empresas participantes desses esquemas.
Se é possível afirmar que as empresas do setor petroquímico já surgem grandes
em estruturas de mercado oligopolizadas, essas corporações ao longo do tempo tornaram-se
ainda mais poderosas (no sentido de detenção de vantagens competitivas que lhes rendam
recorrentes lucros extraordinários), criando ainda mais assimetrias no setor. Como notam
Mello et al. (2003, p. 29), os setores petrolífero e petroquímico, com intensa participação nas
transações de fusões e aquisições nas décadas de 1980 e 1990, mostraram-se como ótimos
exemplos do movimento do capitalismo contemporâneo de aprofundamento da
internacionalização, concentração e centralização do capital.
Schutte (2004) recorda que a concorrência no setor petroquímico aumentou
muito nos anos 1980 e mais ainda nos anos 1990 quando as empresas petrolíferas passaram
a investir pesadamente no setor petroquímico, aproveitando-se de seu acesso privilegiado e

72
Pode-se dar como exemplo a ICI (Imperial Chemical Industries) cuja estruturação contou com o apoio do
governo inglês (SCHUTTE, 2004).
73
Durante a segunda guerra, vários projetos foram incentivados pelo governo dos EUA, tendo como um dos
exemplos a borracha sintética para uso em pneus (SCHUTTE, 2004).
108

seguro das matérias-primas e do dinheiro em caixa. Na verdade, já nos anos 1970, com a
elevação dos preços do petróleo, houve uma ampliação dos processos de verticalização nas
duas pontas da cadeia. De um lado, as empresas petroquímicas procuraram realizar uma
integração a montante para terem acesso a matérias-primas mais baratas. Por outro lado, as
petrolíferas ampliaram seus investimentos nos elos a jusante para aproveitarem as
oportunidades de diversificação. Usando a informação da Chemical Economics Handbook, o
autor assinala que das 24 maiores petrolíferas, 23 operam no setor petroquímico também e,
dos maiores produtores de etileno, só a Dow Chemical e a Nova não têm unidades produtivas
no refino ou exploração de óleo e gás.
As joint-ventures são modalidades importantes de integração entre as empresas
petrolíferas e petroquímicas. Como ressaltam Mello et al. (2003), esse vínculo também se
mostra importante para melhorar o acesso à captação de recursos para novos investimentos.
Afinal, empresas petrolíferas tendem a ter acesso privilegiado aos mercados de capitais. Os
autores citam como exemplo de busca por financiamento em condições melhores com
vínculos com empresas petrolíferas até mesmo a Sinopec, empresa chinesa estatal, que conta
com forte apoio dos governos provinciais chineses.
As diversas formas de parcerias, joint-ventures e associações entre empresas
também podem ser visualizadas como poderosas barreiras à entrada de novos concorrentes
em um determinado mercado (anulando, inclusive, como possível concorrente, o próprio
parceiro). Como mostra Pelai (2006, p. 20):
“Por elevar a capacidade de inversões em ativos específicos e dedicados,
com altos custos enterrados, do ponto de vista estático, e, no sentido
dinâmico, por combinarem competências que podem gerar inovações
tecnológicas em produtos e processos, assim como ganhos de
produtividade nos processos, as associações potencializam as barreiras à
entrada constituídas por estes elementos, sinalizando aos demais
competidores obstáculos mais consistentes e críveis do que num projeto
de uma única empresa”.

As fusões e aquisições também devem ser analisadas como uma ação competitiva
das empresas petroquímicas para alcançar as fontes de vantagens competitivas mais
poderosas nesse setor, quais sejam, elevada escala produtiva e empresarial, alta diversificação
e verticalização produtivas, elevado grau de internacionalização, acesso a financiamento e a
matérias-primas a preços competitivos (HASENCLEVER; ANTUNES, 2009).
109

A base da concorrência do setor é dada por grandes empresas transnacionais


altamente diversificadas, com muitas oportunidades de investimentos e com elevado poder
de inovação. Rocha (2009) definiu as consequências desse alto grau de oligopolização. Tem-
se, de um lado, principalmente entre os produtores de commodities e semi-commodities, uma
acirrada disputa por investimentos internacionais à procura de melhor qualidade de acesso às
matérias-primas e aos mercados consumidores (investimentos resource-seeking e market-
seeking) e, de outro lado, intensa corrida por inovações de produto e de processos entre essas
empresas com elevadíssimo orçamento e numerosa e qualificada equipe para P&D. Assim,
conclui: “(...) o porte econômico dos grupos empresariais é um fator de grande importância
competitiva, principalmente quando se trata da primeira e segunda geração.” (ROCHA, 2009,
p. 44).
Outro fator para o qual o porte grande das empresas petroquímicas (seja na
escala, no escopo ou o porte empresarial) e o acesso ao capital fazem diferença diz respeito à
capacidade de enfrentar as recorrentes oscilações de preços das matérias-primas e dos
produtos petroquímicos (WONGTCHOVSKY, 2002; IPT, 2008), como já evidenciado
anteriormente.
Na Europa, associados às empresas petroquímicas estão os grandes bancos
(Alemanha e Itália) ou o Estado (França), mantendo um financiamento estável e viabilizando
uma condição satisfatória para o enfrentamento da oscilação da rentabilidade nos períodos
baixistas dos preços (FURTADO, 2003).

1.4. A importância do Estado para a definição da liderança competitiva no setor


petroquímico

O nível sistêmico de competitividade se revela em alto grau de importância para


o setor petroquímico em função dos requisitos de capital para a obtenção das vantagens
competitivas definidas pelo padrão de concorrência nesse setor. Como salientou Furtado
(2003, p. 62), “A petroquímica é uma das atividades que explicitam as forças e fraquezas da
estrutura de capital dos países”. As condições de acesso e o custo do capital nos países serão
fundamentais para explicar a estrutura de mercado e os diferenciais competitivos
apresentados pelas empresas petroquímicas líderes mundiais.
A presença do Estado inequivocamente constitui um dos importantes atributos
que explica a competitividade das empresas líderes mundiais do setor petroquímico. Essa
110

presença se apresenta na figura das empresas estatais, no provimento de matérias-primas a


custo competitivo, no apoio à consolidação e internacionalização (comércio internacional e
produção no exterior), no financiamento subsidiado, na coordenação dos investimentos da
cadeia petroquímica, no financiamento ou criação de estruturas públicas ou público-privadas
capazes de gerar novos conhecimentos a partir das atividades de pesquisa e desenvolvimento,
e na articulação e estruturação de diversos agentes que compõem o sistema nacional de
inovações dos países e que contribuem sobremaneira na capacidade de inovação das
empresas petroquímicas.
Sobre a reestruturação empreendida nos anos 1980 pelos principais grupos
petroquímicos a partir dos países centrais, Schutte (2004, p. 74) destaca como resultado a
formação de grupos empresariais ainda mais integrados, internacionalizados e com aumento
da concentração e especialização produtiva. Essa reconfiguração foi feita com o patrocínio do
Estado, ou por sua coordenação e dos grandes grupos. Especificamente na Europa, em
meados dos anos 1980, “os governos europeus deram principalmente apoio a programas
nacionais ou comunitários de pesquisa e desenvolvimento e trocaram o envolvimento direto
nas indústrias por um planejamento setorial.” (p. 75).
A participação de instituições e instrumentos públicos fica mais explícita quando
essa função de coordenação e planejamento do setor está empunhada por empresas 100%
estatais, como é o caso de algumas NOCs (a Sabic e a Sinopec, por exemplo). No entanto, ela
também é notória para a determinação da competitividade das empresas privadas, mesmo
aquelas que já adquiriram porte elevado e atuação transnacional. Põem esse aspecto em foco
Mello et al. (2003) nesses trechos a seguir:
“Ressalta-se que, apesar do aumento da importância das Empresas
Transnacionais (ETs) na produção e nos fluxos de comércio mundial, estas
ainda se alimentam das políticas de apoio implementadas por seus
respectivos Estados Nacionais” (p. 6). (...)
(...) “Neste último caso, a Indústria Petroquímica também é um exemplo de
esforço compartilhado entre o capital privado nacional e os respectivos
Estados Nacionais, tanto através de políticas de incentivos – em geral
relacionadas com financiamento e apoio ao desenvolvimento tecnológico
– quanto através de empresas estatais, quase sempre oriundas do setor
petróleo.”( p. 25)

Quando não há agentes produtivos estatais, as ações dos governos podem tomar
formas sutis como em instituições que realizam coordenação de investimentos, regulação de
111

preços, tarifas de comércio exterior, etc. Schutte (2004, p. 55) recorda da atuação dessas
instituições no Brasil, com o CDI, e no Japão, com o Ministério da Indústria e Comércio (MITI).
A coordenação estatal responde, inclusive, por demandas que estão atreladas à
especificidades técnicas do setor petroquímico, como a evidente e inevitável
interdependência entre os elos da cadeia petroquímica, em função do alto volume de
investimentos, indivisibilidade técnica para expansão e contração, busca por economias de
escala e de aglomeração, especificidade de ativos, etc. (CHUDNOVSKY; LÓPES, 1997).
Suarez (1986) destacou a intervenção do governo dos EUA na proteção da
rentabilidade das empresas petroquímicas daquele país às quais se demandava elevação
significativa da produção para o provimento de produtos petroquímicos durante a 2ª. Guerra
Mundial74. O risco da elevação da capacidade produtiva e dos investimentos em diversificação
é sempre muito alto no setor petroquímico. Portanto, para assegurar a execução de tais
projetos durante a guerra, o Estado dos EUA entrou como garantidor dos investimentos.
Se a presença do Estado aparece como peça importante para explicar a força
competitiva de empresas transnacionais, na sua grande maioria oriundas originalmente dos
países desenvolvidos, deveria ser algo até redundante e muito trivial explanar que o governo
e os sistemas públicos são fundamentais para empresas de países subdesenvolvidos. Nesses,
menciona-se que, na estruturação dos setores de base, intensivos em capital, no bojo do
processo de substituição de importações, ou ocorreu uma espécie de “Capitalismo de Estado”,
quando o Estado atuou por meio diretamente da criação das empresas estatais, ou foi um
“Capitalismo Assistido”, quando o Estado agiu colocando em ação uma série de ações de
incentivos e subsídios para promover e tornar rentáveis setores que não o seriam apenas com
os mecanismos de mercado (nos termos utilizados por Chudnovsky e López, 1997).
Os investimentos no setor petroquímico, pelas suas características técnico-
econômicas, são carregados de grande incerteza. Como já analisado aqui, há
interdependência entre os elos da cadeia, especificidade de ativos, elevado conteúdo
tecnológico e de capital nas inversões, necessidade de economias de escala, indivisibilidades
técnicas, entre outros aspectos que tornam os investimentos da petroquímica, greenfield ou

74
Esse horrendo fato da história da humanidade serviu para alavancar sobremaneira a indústria petroquímica
nos EUA. Não só porque a guerra demandou diversos e volumosos insumos químicos, mas também porque
destruiu grande parte do setor carboquímico europeu, sobretudo o alemão, ocupado pelas empresas
petroquímicas estadunidenses com o fornecimento dos insumos químicos (SUAREZ, 1986).
112

que dão apenas sustentabilidade à produção presente, de alto risco. Nesse contexto, as
relações na cadeia petroquímica “at arm´s length” do mercado, são impensáveis, mas também
o são, muitas vezes, a coordenação via verticalização ou via contratos de longo prazo. Parece
haver aí, nesse setor, uma situação em que a coordenação estatal seja inevitável
(CHUDNOSKY; LÓPES, 1997).
O próximo capítulo tem por objetivo apresentar o papel ocupado pelo Estado e
pelo grande capital (grandes empresas e capital financeiro) na definição da competitividade
do setor petroquímico nos EUA nas décadas de 2000 e 2010. Essa experiência, ainda em
andamento, constitui uma poderosa lente pela qual se pode observar a capacidade que tem
o Estado, em meticulosa e complexa articulação com o grande capital, de abrir novos espaços
de acumulação do capital.
113

CAPÍTULO II. SHALE GAS COMO PEÇA-CHAVE PARA O “RENASCIMENTO” DA INDÚSTRIA


PETROQUÍMICA NOS EUA

O capítulo 2 tem por objetivo apresentar os condicionantes políticos e econômicos


para a emergência e consolidação das atividades de shale gas nos EUA. A hipótese deste
capítulo, central neste trabalho, é a de que a atuação e intervenção do Estado daquele país,
de várias ordens e dimensões, foram essenciais para a expansão dos mercados norte-
americano e mundial para o shale gas.
O interesse deste trabalho no entendimento da dinâmica recente e em vigor das
atividades produtivas de shale gas nos EUA deriva do fato de que a atividade de extração de
gás natural, sobretudo dessa fonte não-convencional, tem como um de seus mercados, a
indústria petroquímica. Como foi realçado no capítulo anterior, a matéria-prima se define
como elemento-chave (quiçá, o principal) para a determinação da competitividade do setor
petroquímico. Assim, a análise da constituição do mercado de shale gas nos EUA (como surgiu,
com quais setores está envolvido, qual é a estrutura de mercado, os desafios tecnológicos, os
canais de financiamento e de distribuição, etc.) é também a análise da principal fonte de
competitividade do setor petroquímico (e dos setores a jusante) nesse país atualmente.
O próximo item apresenta a dinâmica da produção dos líquidos de gás natural nos
EUA e sua relação com o setor petroquímico.

2.1. Shale gas e a redução de custos no setor petroquímico

2.1.1. Shale gas e os líquidos de gás natural (LGN)

O gás natural é composto majoritamente por metano e por líquidos de gás natural
(LGN, em português, e NGL em inglês, natural gas liquids). Na Figura 5, aparecem os
componentes do chamado gás natural, quais sejam, metano (o principal em volume) e os LGN:
etano, propano, butano, pentano e outros condensados75. O propano e o butano também
podem ser agregados na categoria denominada gás liquefeito de petróleo (GLP, em português
e, em inglês, LPG, liquified petroleum gas) quando são mantidos, transportados e
comercializados em recipientes pressurizados.

75
Os pentanos e compostos com mais de 5 carbonos (condensados) são hidrocarbonetos mais pesados e já saem
para a superfície dos poços de gás na forma líquida e, nas estatísticas, são considerados da “família” do óleo cru,
são óleos leves ou natural gasoline (CHANDRA, 2006, p. 4).
114

As plantas processadoras de gás natural – que podem até estar localizadas nas
mesmas plataformas de extração de gás76 – são responsáveis por extrair o metano dos demais
elementos do composto gasoso (líquidos de gás natural e impurezas como nitrogênio, o
dióxido de carbono, água).
As porções com mais de um carbono (etano em diante) são destinadas às centrais
petroquímicas, refinarias ou uma parte pode até se misturar com o metano nos gasodutos77.
Portanto, a oferta de insumos para o setor petroquímico proveniente da exploração dos poços
gasíferos é dada, principalmente, pelos líquidos de gás natural que são separados do metano78
nas unidades processadoras de gás natural.

Figura 5 - Componentes do gás natural

Fonte: Chandra (2006, p. 4).

Como os líquidos de gás natural possuem mais moléculas de carbono, seu poder
calorífico é maior, portanto, em geral, são vendidos com um prêmio com relação ao gás

76
As plantas processadoras de gás (que separam os líquidos de gás do metano) podem estar acopladas às
unidades fracionadoras (que vão fracionar os LGN para comercializá-los separadamente). Mas, normalmente, as
plantas fracionadoras recebem os LGN de várias processadoras de gás natural (EIA, 2014a, p. 6).
77
O processamento do gás para sua purificação é realizado por conta das especificações das empresas usuárias
do gás, seja de transporte (importante para que não existam agentes corrosivos), seja das plantas petroquímicas,
de geração de energia ou de liquefação, que exigem um alto grau de pureza dos compostos. A legislação nos EUA
é rigorosa quanto ao grau de pureza do metano nos gasodutos e define multas às entregas do gás natural fora
das especificações. De acordo com EIA (2014a, p. 7): “The amount of nonhydrocarbon liquids, nitrogen (used to
lower the heat content), carbon dioxide, and other non-methane hydrocarbons and fluids in dry natural gas are
limited by various pipeline tariff regulations and noncompliance can result in producer penalties and shipping
restrictions.”.
78
O que se denomina “gás natural seco” (dry natural gas) ou, na maioria das vezes apenas “gás natural” – que é
canalizado nos gasodutos ou transformado em GNL (gás natural liquefeito; em inglês LNG, liquefied natural gas)
para o transporte de navios – é a substância composta quase que totalmente pelo metano (mais de 95% do
volume total). Pode ser denominado wet gas ou rich gas, a composição de gás natural em que há participação
dos líquidos de gás natural (mais de 5%; CHANDRA, 2006).
115

natural seco. A rentabilidade e viabilidade econômica da exploração dos poços gasíferos são
fortemente influenciadas pelas quantidades que podem ser extraídas de LGN e por seus
preços correntes. Se os preços estão altos e há demanda garantida, a venda dos LGN pode ser
a base para a atratividade de uma operação de exploração e produção de gás natural. Além
disso, Mathias (2008) assinala que em geral os LGN são vendidos a preços spot e não em
contratos de longo prazo, podendo assim, obter preços mais altos.
Assim, o mercado das empresas que exploram os reservatórios de gás natural é
composto pelos consumidores do gás metano que são sobretudo os sistemas de geração
elétrica, produção de metanol, fertilizantes e exportação, e dos líquidos de gás natural que
são o setor químico e petroquímico, sistemas de aquecimento, gás de cozinha e combustíveis.
As formações de shale nos EUA, em que se encontram com abundância o gás e os
líquidos, podem ter diferentes composições desses hidrocarbonetos. Simão (2014) ressalta
que, além de a composição variar de uma formação para outra, pode haver também variações
dentro de uma mesma formação.
Mesmo com importante heterogeneidade, os campos de shale nos EUA, alguns
em especial, se mostraram muito ricos em LGN e, por isso, a elevação rápida da produção de
shale gas foi sendo articulada com o anúncio de novos projetos de investimentos de plantas
petroquímicas, em busca do uso tanto do gás como energético quanto do etano e propano
para matéria-prima.
Simão (2014) apresenta uma tabela em que são exibidos dados comparativos
entre algumas regiões produtoras de shale gas nos EUA e a média dos poços de gás natural
convencionais. Ali se percebe que a região de Marcellus tem percentual de etano tão alto
quanto a média, mas as outras regiões, sobretudo as de Appalachian e Eagle Ford, possuem
um percentual de etano mais elevado, caracterizando-as como regiões de wet gas plays79 e,
portanto, mais ricas no provimento de insumos ao setor petroquímico.
Foi essa disponibilidade de matéria-prima petroquímica (principalmente o etano)
e de insumo energético (metano) para fornos e eletricidade que propiciou o surgimento de
perspectivas positivas para os Estados Unidos a partir de um “renascimento” do setor
petroquímico e químico naquele território.

79
Para definição de dry gas e wet gas, ver definição na nota de rodapé anterior.
116

Tabela 13 – EUA: composição do shale gas, em % do volume total, em algumas regiões produtoras e
composição média dos poços convencionais

Valor
médio* Eagle
Componente (% volume) (EUA) Marcellus Appalachian Haynesville Ford
Metano 94,300 97,131 79,084 96,323 74,595
Etano 2,700 2,441 17,705 1,084 13,824
Propano 0,600 0,010 0,566 0,205 5,425
C4+ 0,400 0,014 0,034 0,203 4,462
Hexanos+ 0,000 0,001 0,000 0,061 0,478
Dióxido de Carbono (CO2) 0,500 0,040 0,073 1,816 1,536
Nitrogênio (N2) 1,500 0,279 2,537 0,369 0,157
Inertes Totais (CO2+N2) 2,000 0,318 2,609 2,184 1,693
Total 100,0 99,9 100,0 100,1 100,5
* Valor médio da composição dos poços convencionais de gás natural nos EUA.
Fonte: Adaptado de Simão (2014, p. 24).

Na Tabela 14, pode-se observar a liderança dos EUA na produção de LGN


(extraídos de poços de shale e dos convencionais) e com uma produção em 2014 equivalente
a um terço do total mundial. A Arábia Saudita, na segunda posição, a despeito de ter
apresentado crecimento considerável entre 1980 e 2010, estagnou a seguir, enquanto os EUA
mostraram uma elevada taxa de crescimento (9,8% ao ano, em média, entre 2000-2014).

Tabela 14 – Produção de líquidos de gás natural, em mil barris por dia, 1980-2014
Taxa de
crescimento
médio anual (%)
1980- 2000 -
1980 1990 2000 2010 2011 2012 2013 2014
2014 2014
Estados Unidos 1.573 1.559 1.911 2.074 2.216 2.408 2.606 3.015 1,5 9,8
Arábia Saudita 369 620 1.008 1.920 1.920 1.920 1.920 1.800 3,7 -1,6
Rússia nd nd 232 574 611 647 684 720 nd 5,8
Canadá 331 426 699 597 591 611 639 666 1,6 2,8
Emirados Árabes
Unidos 35 135 200 389 525 585 611 641 6,8 13,3
Catar 10 40 133 287 318 336 352 352 8,4 5,2
Noruega 42 86 124 267 281 306 305 327 4,8 5,2
México 193 428 346 332 334 318 320 320 1,2 -0,9
Argélia 36 135 220 340 322 342 300 300 4,9 -3,1
Tailândia nd 13 60 141 184 205 198 203 nd 9,5
Mundo 3.108 4.088 6.375 8.869 9.095 9.481 9.595 10.059 2,7 3,2
Fonte: Adaptado de EIA – International Energy Statistics.

A produção volumosa de LGN nos EUA a partir da exploração de shale gas


determinou a criação de um conceito novo nas estatísticas do setor: a categoria de HGL –
117

Hydrocarbon Gas Liquids80., compostos por LGN e por gases de refinaria liquefeitos (em inglês,
LRG, liquefied refinery gases)81.
A Figura 6 ilustra os componentes do HGL e os processos produtivos
intermediários e iniciais para esses líquidos de gás, com destaque para as plantas
processadoras de gás e as refinarias (que recebem óleo cru e condensados e separam os gases
liquefeitos de refinarias).

Figura 6 – Taxonomia dos HGLs, simplificada

Fonte: EIA (2014a, p. 02).

Na Tabela 15, apresentam-se os valores de volume de produção de HGL nos EUA


entre 2008 e 2014. Nesses seis anos, o volume total aumentou 51%, com destaque para
butano normal (87%) e etano e propano (50% e 51%, respectivamente). O propileno e outras
olefinas, que são obtidos nas refinarias a partir do óleo e dos condensados, apresentaram um
desempenho pior (33% entre 2008 e 2014, porém estabilidade no volume desde 2010,
diferentemente dos outros hidrocarbonetos líquidos cujos volumes de produção cresceram
em todos os anos desde 2008). Ou seja, observam-se com esses dados que a maior parte do

80
Antes da 1ª. Guerra Mundial, não se sabia que os hidrocarbonetos de gás líquidos pudessem ser um produto
com potencial comercial. Um problema em um gasoduto fez necessário isolá-los do metano, e aí sua separação
determinou a necessidade de encontrar para eles fins comerciais (EIA, 2015a).
81 Como atesta EIA (2014a, p. 1): “The increasing economic importance of these volumes, as a result of their

significant growth in production, has revealed the need for better data accuracy and transparency to improve the
quality of historical data and projections for supply, demand, and prices of these liquids, co-products, and
competing products. To reduce confusion in terminology and improve its presentation of data, EIA has worked
with industry and federal and state governments to clarify gas liquid terminology and has developed the term
Hydrocarbon Gas Liquids, or HGL.”
118

incremento de HGL nos EUA foi oriundo dos poços gasíferos e das plantas
processadoras/fracionadoras de gás.

Tabela 15 – EUA: produção de HGL, em milhões de barris por dia, 2008-2014


Produto puro 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 % 2008-14
Etano 0,71 0,78 0,88 0,94 0,99 0,98 1,07 50
Propano 0,82 0,84 0,87 0,90 0,99 1,11 1,25 51
Butano normal 0,22 0,21 0,24 0,21 0,24 0,28 0,42 87
Isobutano 0,18 0,19 0,18 0,21 0,23 0,24 0,26 43
Gasolina natural 0,26 0,27 0,28 0,29 0,32 0,35 0,37 42
Propileno e outras olefinas 0,21 0,25 0,28 0,29 0,28 0,28 0,28 33
HGL total 2,41 2,53 2,73 2,84 3,04 3,23 3,65 51
Fonte: Adaptado de EIA (2014a, p. 5).

No Gráfico 10, fica evidente a maior participação das plantas processadoras de gás
para a oferta de HGL nos EUA. Dos 3,5 milhões de barris por dia, as refinarias contribuíram
apenas com um pouco mais de 0,5 milhão em 2014.
Vale ressaltar que as refinarias estão produzindo grande volume de HGL. Porém,
como são produtoras de diesel e gasolina, seus principais produtos utilizam alguns HGLs no
interior de seus processos produtivos, principalmente como matéria-prima (blend) para a
fabricação dos produtos de mais alto valor (como a utilização do propano para a produção do
diesel ou dos pentanos plus na adição à gasolina) (EIA, 2014a). O etano, com seu alto poder
calorífico, é utilizado como energético nas refinarias. Dessa forma, a oferta de alguns
importantes HGLs (como o etano e o propano) fica mais dependente das atividades
exploratórias do gás natural.

Gráfico 10 – EUA: produção de HGL, em milhões de barris por dia, nas unidades processadoras de gás
e nas refinarias, 2004-2014

Fonte: EIA (2014a, p. 5).


119

A despeito de a produção do propano ser maior do que a de etano, o relatório EIA


(2014a) aponta para a forte tendência do crescimento do etano, em função da expansão das
atividades midstream como equipamentos de de-etanização, dutos, tanques e terminais de
exportação específicos para o etano. Além dos investimentos nessa fase intermediária entre
a produção e o consumo de etano, a sua disponibilidade no mercado aumenta também
conforme aumenta sua demanda. Para isso, EIA (2014a) ressalta os projetos novos
petroquímicos nos EUA e de empresas canadenses que estariam alterando o processo para o
uso do etano. A atratividade desses investimentos está baseada nas expectativas de baixos
preços do etano e na alta demanda internacional para os produtos derivados do etileno.
Vale ressaltar que a análise da oferta do etano relativamente a outros LGN, em
geral, é realizada de forma diferenciada, pois a infraestrutura para o transporte, estocagem e
plantas para seu fracionamento é específica e de valor mais alto do que para os outros LGN.
Para o transporte em terra, o etano só é economicamente viável por dutos e, para o
armazenamento de grande volume acima do solo e exportação transcontinental, é requerido
resfriamento criogênico (EIA, 2014a).
Dada a necessidade de inversões específicas e custosas no segmento midstream,
se o preço do etano não atingir um determinado nível, esse hidrocarboneto é rejeitado. EIA
(2014a) estima que, de 1 milhão de barris por dia (Mbd) de etano extraído em 2013, 0,4 a 0,6
Mbd tenha sido descartado, não seguindo para comercialização.
Em EIA (2016b), que apresenta uma perspectiva de curto prazo para os HGL nos
EUA, assinala-se que os projetos de investimentos relacionados à infraestrutura e consumo
de LGN estão se concretizando e permitindo que a produção desses hidrocarbonetos líquidos
se expanda mais rapidamente do que a produção de gás natural, como mostra o Gráfico 11.
120

Gráfico 11 – EUA: crescimento da produção de HGL (excluindo a rejeição) nas plantas de gás natural e
a produção de gás natural ao mercado, primeiro trimestre de 2008=1,00, 2008-2017

Fonte: EIA (2016b, p. 1).

A projeção do EIA (2016b) é que o etano seja o LGN com maior crescimento em
função de “seis plantas petroquímicas consumidoras de etano” que iniciarão suas atividades
em 2017. Estima-se que seu consumo irá triplicar entre 2016 e 2018 (de 0,2 Mbd para 0,6
Mbd).

Gráfico 12 – EUA: capacidade produtiva alimentada por etano e o consumo de etano, em milhões de
barris por dia, 2013-2018 (projeção 2017 e 2018)

Fonte: EIA (2017a).

Além das plantas petroquímicas, a nota do EIA (2016b) também assinala a


importância das exportações de etano. Essas permitem que esse LGN seja recuperado do gás
natural e comercializado, e não descartado. No Gráfico 13, apresentam-se as projeções de
exportação do etano.
121

Gráfico 13 – EUA: produção, consumo e exportações líquidas de etano, em milhões de barris por dia,
2013-2018 (projeção em 2017 e 2018)

Fonte: EIA (2017a).

Em volume, o principal HGL que pode ser retirado dos poços de gás natural é o
etano. No entanto, o Gráfico 14 exibe um crescimento do propano (e um pouco menos, mas
também, do butano) a taxas mais elevadas do que o do etano entre 2014 e 2016. Explica-se
esse movimento pelos baixos preços do etano no mercado estadunidense, como pode ser
visualizado no Gráfico 15.

Gráfico 14 – EUA: produção de HGL nas plantas de gás natural (eixo esquerdo), em milhões de barris
por dia, e gás natural comercializado (eixo direito), em bilhões de pés cúbicos por dia, 2008-2017

Fonte: EIA (2016b, p. 2).

Os preços de HGL se reduzem acentuadamente em movimento concomitante ao


preço do óleo cru, a partir de outubro de 2014. No entanto, em abril de 2015, quando o preço
do óleo se recuperou, os preços dos HGLs mantiveram-se baixos. O Gráfico 15 também mostra
122

que o preço do etano ficou abaixo do gás natural até 2015. A projeção é que volte a retornar
para o patamar acima do preço do gás natural em 2017, em função do aumento da demanda
com os novos projetos em construção que deve eliminar a abundância do etano e os preços
muito baixos.

Gráfico 15 – Preços dos HGLs relativamente ao gás natural e ao óleo cru, em US$ por milhões de Btu,
Janeiro de 2013 – Fevereiro de 2016

Fonte: EIA (2016b, p. 3).

Um olhar atento sobre os dados do gráfico anterior é importante para


compreender a forte competitividade que ganham as plantas petroquímicas à base de etano
relativamente aos seus pares baseados na nafta (no gráfico, representado pelo preço do óleo
pela série WTI). O preço do etano segue mais de perto as variações do gás natural, enquanto
o preço dos outros LGNs se aproximam mais da tendência do preço do óleo cru.
A base de cálculo para as expansões de produção de etileno ou propileno nos EUA
que utilizam os LGNs é formada pela expectativa de manutenção dos spreads do etileno com
base no etano com relação aos spreads obtidos na produção de etileno com carga nafta.
O preço muito baixo do etano nos EUA está relacionado ao desequilíbrio entre a
oferta (rápido crescimento da produção do gás natural) e a demanda (lenta construção e
instalação de equipamentos que consomem o etano – exclusivamente as plantas
petroquímicas). Segundo o EIA (2014a), esse desequilíbrio deve continuar pois o ritmo de
crescimento da demanda (novos crackers, construção de gasodutos, terminais para
123

exportação), mesmo que alto, ainda será menor do que o do crescimento da produção. É por
isso que as exportações de etano passam a ser vitais para a sobrevivência das empresas de
exploração de gás natural. Os EUA exportam etano por dutos para o Canadá desde 2013 e,
mais recentemente (2015-2016), realizaram exportações de etano transcontinentais por
navios. A empresa INEOS exportou etano dos EUA para suas próprias unidades produtivas na
Noruega e Reino Unido82 e outras empresas como Sabic, Reliance e Borealis estão com
carregamentos de navios contratados para entregas de etano na Índia e Inglaterra
(PETROCHEMICAL UPDATE, 2016a).

Gráfico 16 – Média mensal dos preços (spot) da nafta e etano (Gráfico a) e média mensal dos spreads
do preço spot do etileno sobre os preços spot da nafta e etano (Gráfico b), Janeiro de 2010 - Novembro
de 2014

Fonte: EIA (2015b).

No caso do propileno advindo do propano, o maior spread obtido pelas plantas


nos EUA se explica pela diferença dos preços do propano no mercado dos EUA e na Ásia e
Europa. Analisando os dois conjuntos de gráficos (Gráficos 17 e 18), é possível perceber que
os ganhos de competitividade das petroquímicas estadunidenses, de fato, são mais evidentes
na cadeia do etileno, embora também haja diferenças de rentabilidade nos projetos de
propileno nesse país relativamente a outros países e regiões.

82
Para exportar etano dos EUA para a sua unidade na Escócia, no Reino Unido, a empresa INEOS foi beneficiária
de um empréstimo garantidor de £$230 milhões do governo britânico para construir as instalações de
importações de etano do shale gas estadunidense e aí permitir a continuidade da planta petroquímica de
Grangemouth com ameaça de fechar por falta de competitividade de seus insumos (KOLLEWE, 2014).
124

Gráfico 17 – Média mensal dos preços (spot) do propano (Gráfico a) e média mensal dos spreads do
preço spot do propileno sobre os preços do propano (Gráfico b), Janeiro de 2010 - Novembro de 2014

Fonte: EIA (2015b).

O propano, o segundo mais importante LGN que pode ser recuperado dos poços
gasíferos, tem como seus principais usos o aquecimento das instalações pelo seu poder
calorífico e também como insumo para a petroquímica que pode transformá-lo em etileno e
propileno. Nos EUA, como aumentou a participação do etano como insumo para o etileno, a
produção de propileno diminuiu e incentivou a implantação de plantas com tecnologia de
desidrogenação do propano (PDH – propane dehydrogenation) para a produção do propileno,
com plantas dedicadas83.
Os EUA já possuem uma planta de PDH, de propriedade da Flint Hills, que consome
30.000 barris por dia de propano, e a planta da Dow Chemical que iniciou operações
comerciais em dezembro de 2015, com consumo de propano de 35.000 barris por dia. Outra
planta, da Enterprise Products, que utiliza PDH como processo, terá início em 2017 com
consumo de 35.000 barris por dia de propano. As três juntas terão capacidade nominal para
produzir 1.500 mil toneladas métricas de propileno por ano (EIA, 2016b).
A empresa BASF tinha um projeto para uma planta on purpose de propileno, na
Costa do Golfo estadunidense. Essa planta teria escala mundial e atenderia à necessidade da
empresa dessa olefina na América do Norte. Utilizaria a tecnologia methane-to-propylene e
começaria em 2019. De acordo com o executivo da empresa, a proposta dessa planta era de

83
Segundo o EIA (2016b, p.11), o rendimento de propileno com o uso dessa tecnologia PDH é maior do que o da
produção de propileno nas plantas que produzem também etileno, diminuindo no médio prazo o consumo
líquido do propano como insumo petroquímico para a produção do propileno.
125

aumentar a integração produtiva para trás e aumentar sua produção de propileno, usufruindo
da produção de custo baixo de gás natural proveniente das atividades das formações de shale.
Como mostra Chang (2014):
“BASF intends to further strengthen its backward integration and grow its
propylene-based downstream activities, leading to a stronger position in
North America,” said Ehle.”
“(...) “Due to abundant shale gas reserves in the US, natural gas will be price
advantaged vis-a-vis other feedstock for the production of propylene,
which would give the plant a strong cash cost position,” she added 84.”

Os EUA passaram de importadores a maiores exportadores mundiais de


propano85. A expansão do Canal do Panamá será um avanço para as exportações dos EUA para
a Ásia de propano (e outros líquidos de gás natural) e de metano (com os navios de GNL)
(CABLE 1, 2017).

Gráfico 18 – EUA: consumo de etano e propano, em mil barris por dia, das plantas petroquímicas
existentes (até 2014) e planejadas (2014-2018)

Fonte: EIA (2015b).

Os investimentos novos com base em propano são bem menores em número e


em volume de produção do que aqueles atrelados ao etano como insumo, como mostra o
Gráfico 18. Pode-se observar que as novas plantas de etileno planejadas a entrarem em
operação entre 2014-2018 consumirão algo próximo de 600 mil barris por dia de etano, mais

84 No entanto, o projeto foi engavetado. De acordo com o comunicado da empresa, a volatilidade no preço das
matérias-primas e o ambiente econômico prevalecente foram as principais razões, permanecendo, porém, o
interesse no projeto em condições diferentes das atuais (BASF, 2016).
85
Os principais compradores de propano, os chineses, estão aproveitando a oferta abundante para renegociar
contratos com exigências de novos descontos. Com isso, algumas empresas estadunidenses preferem não vender
e até pagar multas às transportadoras por rompimento de contrato a vender a preços muito baixos (PAYNE;
AIZHU, 2016).
126

da metade do volume consumido pela capacidade produtiva dos EUA existente antes de 2014.
O incremento da produção de etileno, cujo insumo é o etano, acontecerá sobretudo em 2017,
quando serão adicionados 40 mil barris por dia no volume total produzido de etileno com o
início de novas plantas (Tabela 16).

Tabela 16 – EUA: capacidade adicional de plantas de etileno que utilizam etano como insumo, em
milhões de barris por dia, e crescimento projetado do consumo de etano, 2013-2017
Previsão
2013 2014 2015 2016 2017
Expansões da capacidade (incluindo
restarts e debottlenecking) 0,04 0,04 0,04 0,03 0,04
Novas plantas de etileno na na na na 0,37
Conversões de insumos 0,00 0,01 0,01 0,01 na
Total anual por meio de adição de
capacidade (fim do ano) 0,04 0,05 0,05 0,04 0,40
Crescimento do consumo anual 0,11 0,06 0,00 0,05 0,08
na= não aplicável
Fonte: EIA (2016b, p. 6).

Abundância do etano e propano e seus baixos preços foram responsáveis pela


concretização de novos projetos de investimento no setor petroquímico, como é analisado no
próximo item.

2.1.2. Competitividade e novos investimentos nos EUA

O elevado crescimento da produção dos líquidos de gás natural nos EUA a partir
de 2008 com a exploração dos poços de shale gas pode ser definido como a principal mudança
que alterou a avaliação dos projetos de investimento para o setor petroquímico e químico nos
EUA nas décadas de 2000 e 2010.
Em uma análise dos principais países que teriam aumento da capacidade
produtiva no setor petroquímico no mundo realizada por Hasenclever e Antunes (2009),
embora os EUA fossem, em 2008, os principais produtores, esse país não aparecia na lista dos
países que iriam liderar os investimentos em expansão produtiva, dando lugar a China, Índia,
Arábia Saudita, Taiwan, Rússia e Irã86. A razão apontada pelas autoras do estudo é que o custo
do etano, principal matéria-prima da petroquímica dos EUA, era muito mais alto do que o dos

86
A única exceção, entre os petroquímicos básicos e as resinas, apareceu nos investimentos para a produção de
PET. Nessa resina, a China era a maior produtora, mas os EUA lideravam novos investimentos (HASENCLEVER;
ANTUNES, 2009, p. 25).
127

outros produtores, como os do Oriente Médio. Essa região, sim, seria a principal investidora
em nova capacidade porque contava com disponibilidade de etano e propano, separados do
gás natural, a baixo preço, menor do mundo.
O que se sabe agora é que esse cenário se alterou, pois, no final da década de
2000, em função da abundância e baixo preço do etano nos EUA, a indústria petroquímica
estadunidense ganhou competitividade significativa, ao ponto de ser palco de vários
investimentos greenfield de 1ª. e 2ª. gerações da cadeia petroquímica, além de expansões da
capacidade produtiva atual e conversão de plantas petroquímicas para a utilização de etano
como insumo (EIA, 2015b).
Isso porque, como mostra Simão (2014), em 2012, os EUA alcançaram um custo
de produção de etileno menor (US$316/tonelada) do que o da Arábia Saudita
(US$455/tonelada) que sempre foi o benchmarking para custos baixos no setor. A diferença
de custo com relação à Ásia (US$1.717/tonelada) e com relação à média histórica dos EUA
(US$985/tonelada) é mais acentuada ainda.

Tabela 17 – EUA, Arábia Saudita e Ásia: estimativa do custo de produção de etileno, em US$ por
tonelada, 2012
Estados Unidos
Arábia
Recente Ásia
Saudita Histórico
(2012)
Custos de matéria-prima
Gás natural US$/MMBtu 0,75 3,00 12,50
Óleo cru US$/BBL 100,00
Equivalente US$/t 483 148 615 964
Razão para 1 ton de etileno 1,29 1,29 1,29 2,98
Custo da carga (etano) US$/t 483 190 793 2.874
Catalisador e outros US$/t 0 2 2 2
Total US$/t 483 192 795 2.876
Outros custos
Céditos de subprodutos US$/t 276 153 431 1.565
Utilidades US$/t 149 109 454 235
Custos diretos US$/t 99 167 167 172
Custo de produção do etileno US$/t 455 316 985 1.717
Margem típica do etileno 2,50% 2,50% 2,50% 2,50%
Preço do etileno US$/t 466 323 1.009 1.760
Fonte: Simão (2014, p. 44).

A vantagem de custo de produção do etano e do etileno é repassada para frente


na cadeia petroquímica. Simão (2014) compara a estimativa do preço potencial de venda do
polietileno de baixa densidade nos EUA em 2012 (US$542/tonelada) na Arábia Saudita (US$
128

713/tonelada), Ásia (US$ 2079/tonelada) e com os próprios EUA no passado (US$


1304/tonelada).

Tabela 18 – EUA, Arábia Saudita e Ásia: estimativa do custo de produção de HDPE, em US$ por
tonelada, 2012
Estados Unidos
Arábia
Recente Ásia
Saudita Histórico
(2012)
Custos de matéria-prima
Gás natural US$/MMBtu 0,75 3,00 12,50
Óleo cru US$/BBL 100,00
Etileno US$/t 466 323 1.009 1.760
Razão para 1 ton de HDPE 1,025 1,025 1,025 1,025
Etileno (por ton de HDPE) US$/t 478 332 1.035 1.804
Utilidades US$/t 31 12 48 31
Custos diretos US$/t 51 51 51 51
Outros custos US$/t 132 132 132 132
Custos totais US$/t 692 526 1.266 2.018
Margem típica do etileno US$/t 3% 3% 3% 3%
Preço potencial de venda do HDPE US$/t 713 542 1.304 2.079
Fonte: Simão (2014, p. 45).

Em uma estimativa mais atualizada – para o ano de 2015 – a organização American


Chemistry Council (ACC) reforça os ganhos de competitividade dos EUA ligados à redução do
custo da matéria-prima. Embora avalie o custo de produção dos petroquímicos da indústria
desse país um pouco acima do das empresas do Oriente Médio, situa-o muito abaixo do
observado nas outras regiões e nos próprios EUA em 2005, quando apresentaram custos
maiores do que todos os outros produtores mais expressivos.

Gráfico 19 – Custos estimados de produção de petroquímicos: posição relativa dos EUA em 2005 e
2015

Fonte: ACC (2016).


129

Com a queda do preço do etano nos EUA (cotação Mont Belvieu), o spread obtido
pelas empresas estadunidenses com base no etano cresceu mais do que o das empresas da
Ásia e dos EUA com produção de etileno a base da nafta, alargando a diferença de
lucratividade entre as primeiras e as últimas, principalmente no período em que o petróleo
ainda estava com preço alto87.

Na estimativa divulgada pela ACC (2016), toda vez que a relação entre o preço do
óleo e do gás for acima de 7, a competitividade da petroquímica nos EUA se eleva. De acordo
com o Gráfico 20, a relação foi favorável à indústria nos EUA a partir de 2006, com forte
incremento em 2012 e com projeção de se manter entre os anos 2016 e 2022.

Gráfico 20 – EUA: relação entre o preço do óleo e do gás natural, 2005-2020

Fonte: ACC (2016).

No Gráfico 21, Richardson (2016) realça a redução da margem de contribuição dos


produtores estadunidenses de etileno com a piora da relação preço do etano e preço da nafta,
ao mesmo tempo em que cresce esse indicador para os produtores da Europa e Ásia,
mantendo-se, no entanto, uma diferença a favor dos EUA (com maior diferença com as
empresas asiáticas).

87
EIA (2016b) aponta que alguns crackers já têm plena flexibilidade quanto ao uso dos insumos (etano, propano,
butano ou nafta) para a produção do etileno e, portanto, podem escolhê-los a partir de seus preços correntes.
Dependendo do insumo utilizado, há geração de co-produtos como propileno, butileno e outros aromáticos (p.
6).
130

Gráfico 21 – Média das margens de custo variável do polietileno de alta densidade, EUA, Europa e
Nordeste Asiático, US$ e Euro por tonelada, 2010-2016 (2016 até maio)

Fonte: Richardson (2016, p. 26).

Em LyondellBasell (2015), a empresa explicita os menores ganhos relativos da


produção de polioefinas nos EUA a partir do uso dos líquidos de gás natural daquele ano.
Ainda assim, a vantagem do uso dos LGNs se mantém. De qualquer forma, o relatório aponta
como principal vantagem a flexibilidade das plantas petroquímicas da empresa que podem
processar diferentes matérias-primas (líquidos pesados ou LGN).
No Gráfico 22, é possível ver que a diferença entre os preços da nafta na União
Europeia e o etano nos EUA diminuiu muito entre 2011 e 2017, em que pese a diminuição
também do preço do etano nos EUA. Por volta de 2012, o preço da nafta chegou a ser 8 vezes
maior e, em 2017, equivaleu a 3 vezes mais. A redução drástica do preço da nafta também
alterou a relação de preços na Arábia Saudita. Antes de 2016, o preço do etano era
US$0,75/Mmbtu e o preço da nafta era trinta vezes mais alto. Com o aumento do preço do
etano naquele país e com a redução dos preços da nafta, essa relação baixou para 5,5, apenas.
131

Gráfico 22 – Diferença de preço entre nafta na União Europeia e etano nos EUA e mudança na relação
nafta/etano na Arábia Saudita

Fonte: Jung et al. (2016, p. 3).

Até março de 2016 constava a seguinte apuração de projetos e valores de


investimentos do setor petroquímico ligados ao shale gas: 266 projetos já anunciados com
expectativas de inversões da ordem de US$160 bilhões (ACC, 2016).

Gráfico 23 – EUA: investimentos da indústria química ligados ao shale gas anunciados acumulados,
em bilhões de US$ e números de projetos, Dez 2010-Mar 2016

Fonte: ACC (2016).

Sobre esses valores sistematizados pela ACC, Blum (2016b) detalha as regiões que
serão mais beneficiadas com os investimentos (sobretudo no sul do Texas, incluindo a área de
132

Houston), as principais empresas participantes (Exxon, Dow, BASF, ChevronPhillips,


LyondellBasell) e uma projeção para empregos gerados (67.000 em nível nacional).
Na tabela do Anexo B, estão listados todos os projetos de crakers de etano desde
2012 nos EUA (e México). Entre essas plantas estão aquelas que serão ou foram reiniciadas
(conversão para etano ou modernização), aquelas que expandem a capacidade atual da
empresa e também as novas plantas.
Pelo Gráfico 24, observa-se que a maioria dos projetos de expansão de etileno dos
EUA possuem capacidade de mais de 1 milhão de toneladas por ano, tendo alguns deles (Shell,
Sasol, Chevron Phillips Chemical, ExxonMobil Chemical e Dow Chemical) 1,5 milhão de
toneladas por ano (todos novos crackers). Entre novos projetos e expansão de plantas já
existentes, Dow88, Chevron, Exxon, Sasol e Shell figuram entre as maiores criações de nova
capacidade produtiva de etileno.

Gráfico 24 – EUA: expansão da capacidade de etileno entre 2012 e 2022, em mil toneladas por ano

BASF Fina Petrochemicals


Indorama
Shintech
Occidental Chemical/Mexichem
PTT Global Chemicals
Total/Borealis/NOVA
Braskem Idesa (Ethylene XXI)
LyondellBasell
Formosa Plastics
Westlake Chemical
Shell
Sasol
ExxonMobil Chemical
Chevron Phillips Chemical
Dow Chemical

0 500 1000 1500 2000 2500

Fonte: Adaptado de Swan, Chang e Greenwood (2017).

Projeta-se que, ao final de 2022, nos EUA, com base nos projetos já em execução
ou em andamento avançado dos planos de investimento, haja uma capacidade total de

88
De acordo com o presidente dessa empresa para a divisão global de “Embalangens e Plásticos de
Especialidades”, há perspectivas de ampliação da produção de polietileno na América Latina (na Argentina), mas
até o ano de 2017 o foco dos investimentos da empresa está nos projetos de expansão da região do Golfo nos
EUA e da joint-venture com a Saudi Aramco no complexo de Sadara (FONTES, 2017).
133

produção a mais de etileno superior a 16 milhões de toneladas por ano. Com relação a 2016,
a adição de capacidade é 8 vezes maior.

Gráfico 25 – EUA: adições de capacidade de produção de etileno acumulado, em mil toneladas por
ano, 2012-2022

18.000
16.000
14.000
12.000
10.000
8.000
6.000
4.000
2.000
0
2012 2013 2014 2015 2016 2017 2018 2019 2020 2021 2022

Fonte: Adaptado de Swan, Chang e Greenwood (2017).

A produção maior de etileno serve aos projetos para o incremento da produção


das resinas termoplásticas e outros produtos do elo da 2ª Geração do setor petroquímico.
Chevron, ExxonMobil, Sasol, Dow e Formosa são empresas que estão investindo
tanto em nova capacidade produtiva de etileno (crackers) quanto de resinas. As plantas de
resinas termoplásticas estão programadas para iniciar um pouco antes dos crackers. Isso
porque a construção dos crackers tem maior custo, e as empresas projetam para ter a menor
ociosidade possível desses investimentos no curto prazo. Para isso, a demanda de etileno
pelas plantas de resinas tem que estar assegurada (GREENWOOD, 2017).

Tabela 19 – EUA: início das operação dos novos crackers de etano e das plantas de polímeros
Empresa Capacidade etileno Início Resinas Início
Chevron Phillips Chemical 1,5 milhão ton 4t 2017 HDPE, LLDPE 2t 2017
ExxonMobil Chemical 1,5 milhão ton 4t 2017 PE 4t 2017
Dow Chemical 1,5 milhão ton 2t 2017 PE, LDPE 2t 2017
Formosa Plastics 1,59 milhão ton NA LDPE/HDPE NA
Sasol 1,5 milhão ton 3t 2018 Sasol/Ineos HDPE 4t 2017
Sasol LDPE/LLDPE 3t 2018
Shell 1,5 milhão ton PE 2020
Axiall/Lotte 1,0 milhão ton 1t 2019
Fonte: Adaptado de Greenwood (2017).

O projeto da Shell foi beneficiário de volumosos incentivos fiscais do estado da


Pensilvânia, como será detalhado no item 2.6 deste trabalho. Além desses benefícios, Shell
134

também contará com a proximidade dos produtores de shale gas da base de Marcellus e do
mercado consumidor estadunidense. A previsão é de que, no início de 2020, quando a planta
iniciar a produção, serão consumidos 100 mil barris por dia de etano para uma capacidade de
produção de 1,6 milhão de toneladas por ano de polietileno (PETROCHEMICAL UPDATE,
2016b).
Também devem ser ressaltadas as ampliações da capacidade de produção da
LyondellBasell, em várias de suas unidades. Essa empresa anunciou em setembro de 2016
uma nova planta para a produção de polietileno de alta densidade (HDPE, em inglês) no seu
complexo no Texas (La Porte). Terá uma capacidade de produção dessa resina de 500 mil
toneladas métricas. A construção se iniciará em 2017, com projeção para o início das
operações em 2019 (LYONDELLBASELL, 2016).
ExxonMobil possui três projetos em andamento para a expansão de produção de
polietileno nos EUA. Duas novas unidades de polietileno linear de baixa densidade (LLDPE, em
inglês) em Mont Belvieu estão em construção e terão o mesmo porte que a expansão da
unidade de Beaumont (650 mil toneladas por ano de adição na capacidade de produção de
polietileno). Há ainda um quarto projeto no estado do Texas em joint-venture com a Sabic.
Sobre esse projeto, Blum (2016c) relata que a ideia é instalar um complexo na Costa do Golfo
para aproveitar a infraestrutura portuária da região, inserindo, portanto, um conteúdo
exportador no cálculo de viabilidade do projeto. Se a construção se iniciar em 2017, o início
da produção está previsto para 2020. Além da elevada produção de etileno (com perspectiva
de ter o maior cracker de etano do mundo), o projeto também inclui plantas para a
manufatura de plásticos, uma unidade de produção de glicol-monoetileno (MEG) e duas de
produção de polietileno (BLUM, 2017; BAUMGARTEN, 2017).
Adiciona-se, aos projetos de expansão anunciados, o empreendimento conjunto
de NOVA89, Borealis e Total. Em uma joint-venture, essas três empresas desenvolverão e serão
proprietárias de um “new light feed cracker and a new Boystar® polyethylene (PE) facility in
Bayport, Texas”. As expectativas positivas desse projeto estão fundadas na alta integração

89
A despeito do headquarter da NOVA estar situado no Canadá e suas plantas industriais estarem no Canadá e
nos EUA, essa empresa é uma subsidiária da International Petroleum Investment Company (IPIC), uma empresa
que administra os investimentos do fundo soberano dos Emirados Árabes. Esse mesmo grupo também detém
64% da Borealis (NOVA Chemicals, 2017). Em 2017, o grupo investidor Mubadala e IPIC se fundiram e se
transformaram na Mubadala Investment Company, uma empresa 100% estatal dos Emirados Árabes
(MUBADALA, sd).
135

entre a 1ª. geração (craker da Total) e a 2ª. geração (planta de polietileno da Borealis e Nova)
e o potencial exportador dessa produção que visa atender a demanda externa crescente por
polietileno. As exportações para a América Latina e para a Ásia, em conjunto com um mercado
estadunidense em crescimento, são as apostas das empresas para que o volume de polietileno
(625 mil toneladas por ano) a ser entregue pelo projeto em 2021 (quando iniciará a produção)
não contribua ainda mais para a superprodução dessa resina nos EUA (NOVA CHEMICALS,
2017).
Na Dow Chemical, empresa com maior investimento em expansão da capacidade
nos EUA, além do novo cracker de etano com escala mundial, adicionam-se novas capacidades
produtivas de “400,000 tonnes/year of Dow’s ELITE polyethylene (PE), 350,000 tonnes/year of
low density PE (LDPE), 320,000 tonnes/year of elastomers, and 200,000 tonnes/year of
ethylene propylene diene monomer (EPDM)”, com início previsto para o 2º. semestre de 2017
(PETROCHEMICAL UPDATED, 2017).
Nos investimentos novos dos EUA, há uma sinalização de um viés exportador
também para as resinas termoplásticas. Blum (2016b) divulga os resultados do relatório da
consultoria IHS. De acordo com a pesquisa no mercado petroquímico, há uma tendência para
uma sobreoferta de polietileno e polipropileno e para que os EUA se tornem grandes
concorrentes do Oriente Médio nas exportações de poliolefinas. De acordo com a reportagem,
24 milhões de toneladas métricas de nova capacidade de polietileno entrarão em operação
até 2020 – o que representa 25% do consumo mundial dessa resina – das quais 8 milhões de
toneladas métricas serão adicionadas por plantas nos EUA.
Por conta disso, alguns projetos de expansão de capacidade para a produção dos
petroquímicos básicos têm sido adiados, alguns indeterminadamente. O projeto de
construção de um complexo petroquímico no estado de Virgínia Ocidental da Braskem,
denominado Ascent (Appalachian Shale Cracker Enterprise), é um dos exemplos de projetos
paralisados, em função dos baixos preços dos petroquímicos e da perda de competitividade
relativa do gás natural enquanto insumo da petroquímica (FONTES, 2016b) 90.

90
Não se pode, contudo, negligenciar o impacto negativo da operação Lava a Jato no Brasil sobre a Braskem na
sua capacidade de permanecer com seus planos de investimentos. A empresa foi condenada a pagar uma multa
de R$ 3,1 bilhões (FONTES, 2017b) pelas acusações de pagamento de propina para contratos de compra de nafta
com a Petrobras em condições privilegiadas. O resultado positivo da empresa em 2016 que deveria ser recorde,
com o reconhecimento da multa e provisão para seu pagamento, passou a ser negativo (perda líquida de R$ 452
milhões, segundo Fontes, 2017b). Além disso, nesse complexo petroquímico, a principal empresa investidora
seria a Odebrecht Ambiental (para que a Braskem não ficasse com indicadores de alavancagem e endividamento
136

No Gráfico 26, pode-se inferir a perda de atratividade de novos projetos em


petroquímica se levado em consideração o movimento dos preços nesse setor. O índice de
preços dos petroquímicos em nível global que chegou a atingir quase 400 em 2008, se reduz
substantivamente e é registrado, no início de 2016, em 215,5.

Gráfico 26 – IPEX (ICIS Global Petrochemical Index): medida da mudança média de preços dos
petroquímicos ponderados pelo seu peso por capacidade produtiva, janeiro de 1993=100, jan 1995-
jan 2016
450

400
332,2482
350
janeiro de 1993=100

300

250

200
215,5484
150

100

50

0
jul/96

jul/99

jul/02

jul/05

jul/08

jul/11

jul/14
jan/95

jan/98

jan/01

jan/04

jan/07

jan/10

jan/13

jan/16
abr/97

abr/00

abr/03

abr/06

abr/09

abr/12

abr/15
out/95

out/98

out/01

out/04

out/07

out/10

out/13
Fonte: ICIS Petrochemical Index – IPEX (2017).

Greenwood (2016) divulgou os dados da balança comercial estadunidense do


setor químico de 2014 (Tabela 20). O resultado é superavitário em todas as categorias, exceto
os químicos da agricultura. Os maiores valores de exportação e importação são dos
petroquímicos básicos (bulk petchem), US$ 40 bilhões e US$ 32 bilhões, respectivamente,
porém o maior superávite deriva-se do comércio de resinas plásticas. Com US$ 31 bilhões de
exportações e US$ 14 bilhões de importações, essa categoria apresenta um superávite de US$
17 bilhões91. O total do setor químico resultou em superávite de US$ 36 bilhões. O autor da
reportagem prevê que o superávite do setor tende a se tornar ainda maior até o fim da década
de 2020 pois as plantas de polietilenos novas estarão em operação.
Estima-se que podem estar disponíveis para exportação entre 2,7 e 4,1 milhões de
toneladas métricas por ano de polietileno, cujos alvos de exportação tenderão a ser o
noroeste europeu, o Brasil, Coreia do Sul e China (PETROCHEMICAL UPDATE, 2016a).

altos), pertencente ao grupo Odebrecht (LAMUCCI, 2014). Como se sabe, o grupo Odebrecht também foi um dos
grupos econômicos mais fortemente afetados pela Operação Lava a Jato.
91
O PVC é destacado como altamente dependente dos mercados externos, em função da oferta maior que a
demanda no mercado interno dos EUA (GREENWOOD, 2016).
137

Tabela 20 – EUA: balança comercial de produtos químicos, em milhões de US$, 2014


US$ milhões Exportações Importações Saldo
Químicos da Agricultura 8.279 11.987 -3.708
Bens de Consumo 11.617 9.726 1.891
Químicos Básicos 92.162 61.054 31.108
Inorgânicos 12.892 9.759 3.133
Petroquímicos básicos 40.520 32.073 8.447
Resinas plásticas 31.616 14.128 17.488
Borracha Sintética 4.415 2.583 1.832
Fibras Sintéticas 2.720 2.510 210
Especialidades 27.692 20.299 7.393
Revestimentos 2.852 1.139 1.713
Outras especialidades 24.840 19.160 5.680
(1) inclui intermediários
Fonte: Greenwood (2016).

Mesmo com essa tendência à sobreoferta dos petroquímicos e aos baixos preços,
em uma pesquisa com representantes do setor, 46% dos respondentes acreditam que haverá
uma segunda onda de investimentos no setor petroquímico nos EUA com metade da carga
produtiva da primeira; 26% acreditam que será algo com 75% da capacidadade produtiva da
primeira onda e 22% responderam que será do mesmo tamanho da primeira. Essa segunda
onda deverá contar com os investimentos de Total com Borealis e NOVA, Shell, ExxonMobil
com Sabic, Dow Chemicals e LyondellBasell (PETROCHEMICAL UPDATE, 2017).
No próximo item, apresentam-se alguns dados que ilustram a importância
estratégica do gás natural na matriz energética e produtiva estadunidense, oferecendo pista
das razões pelas quais esse recurso é alvo permanente de um importante arcabouço de
políticas.

2.2. Gás natural nos EUA: um recurso estratégico

A participação dos EUA no consumo de gás mundial (22,7% do total mundial) é


maior do que sua participação no consumo total de energia do mundo (17,8%), denotando
uma dependência relativamente maior desse recurso do que outros países. Em valores
absolutos, os EUA consumiram quase o dobro (695 milhões de toneladas de óleo equivalente)
da Rússia (segundo maior consumidor do mundo de gás natural, 368 milhões) e mais de 4
vezes o valor do terceiro maior consumidor do mundo, a China (166 milhões de toneladas de
óleo equivalente) em 2014 (Tabela 21).
138

Tabela 21 – Lista dos dez maiores consumidores de gás natural e total do consumo de energia, em
milhões de toneladas de óleo equivalente, 2014
Gás Total
Natural
Part (%) Part (%)
EUA 695,3 22,7 2.298,7 17,8
Rússia 368,3 12,0 681,9 5,3
China 166,9 5,4 2.972,1 23,0
Irã 153,2 5,0 252,0 1,9
Japão 101,2 3,3 456,1 3,5
Arábia Saudita 97,4 3,2 239,5 1,9
Canadá 93,8 3,1 332,7 2,6
México 77,2 2,5 191,4 1,5
Alemanha 63,8 2,1 311,0 2,4
Emirados Árabes Unidos 62,4 2,0 103,2 0,8
Mundo Total 3.065,5 100,0 12.928,4 100,0
Fonte: Adaptado de BP (2017).

A estratégia dos EUA, de redução da dependência do consumo do óleo após a


década de 1970, pode ser considerada relativamente exitosa. Em 1978, atingiu-se a maior
participação do óleo na matriz energética estadunidense (48% do total) e, a partir de então,
essa participação diminuiu e alcançou seu valor mínimo em 2014 (36,4%). Se, por um lado, de
1980 a 2000, a redução da participação do óleo foi contrabalançada pelo aumento da
participação no consumo do carvão, a partir de 2005, a redução desse hidrocarboneto deveu-
se à elevação da participação do consumo do gás natural. Essa última fonte – que chegou a
ter a mesma importância que o carvão de 1980 a 2000 (em torno de 25%) – consolidou-se, em
2014, como segunda fonte de energia mais importante para os EUA (30,2%), se aproximando
do óleo (36,4%).
Portanto, há uma dupla relação entre os EUA e o gás natural: o recurso é
importante para a segurança energética dos EUA e, por outro lado, os EUA são estratégicos
como mercado consumidor desse recurso, que é um produto comercializado pelas maiores
empresas do mundo.
Segundo Hauter (2016), a desregulamentação do mercado de gás natural nos EUA
nas décadas de 1980 e de 1990 foi crucial para o crescimento da produção de gás nesse país.
A oferta de gás natural a baixo preço para os grandes consumidores foi paga com o aumento
dos preços para os pequenos consumidores. Além disso, no bojo das políticas de
deresgulamentação, houve incentivos para que os grandes consumidores de gás natural
construíssem os gasodutos. Os Irmãos Koch e seu apoio a instituições do tipo think-tank foram
139

importantes elementos para compreender a força da fundação e sustentação das políticas de


desregulamentação. Essas ações políticas (do governo e das empresas) resultaram na criação
de empresas gigantes operando no setor de energia elétrica (que, ao operar em mercados
desregulados, decidem o insumo a consumir nas suas plantas geradoras), como a Exelon, Duke
Energy e NexEra. O gás natural, apresentando preços baixos aos grandes consumidores,
ganhou um impulso enorme com a desregulamentação e a formação dessas grandes
empresas com liberdade para a compra de insumos.92

Gráfico 27 – EUA: consumo de energia por fonte de energia, participação (%), 1970, 1980, 1990, 2000,
2010, 2014

100% 0,0 0,1 0,7 0,8 1,7 2,8


0,3 3,3
90% 7,0 7,8 8,4 8,3
19,0
80% 21,4
24,5 24,6 23,0 19,7
70%
60% 33,7 28,1
50% 25,1 25,9 27,1 30,2
40%
30%
20% 43,4 43,5 39,2 38,2 37,2 36,4
10%
0%
1970 1980 1990 2000 2010 2014

Óleo Gás Carvão Nuclear Hidroelétrica Outros renováveis

Fonte: Adaptado de BP (2017).

Na projeção para 2040, óleo e gás natural terão exatamente a mesma participação
na matriz energética dos EUA. Calcula-se que o consumo de gás natural e de outros renováveis
(além da biomassa e da hidroelétrica) apresentará os maiores acréscimos. O consumo de
carvão deverá ter uma redução drástica, mas ainda assim permanecerá um pouco acima das
demais fontes de energia (EIA, 2016c).

92
O avanço do gás natural para o mercado de geração de energia elétrica nos EUA se deu em detrimento do
consumo das energias renováveis pelo setor elétrico. Segundo Hauter (2016), as políticas de desregulamentação,
responsáveis por esse movimento, contaram, inclusive, com grandes instituições de preservação ambiental que
foram cooptadas pelo discurso (ou pelo dinheiro das petrolíferas?) do livre-mercado e seus resultados
pretensamente benéficos sobre a eficiência energética, e pelo do gás natural como um combustível de transição
ao futuro com menos poluição por dióxido de carbono.
140

Gráfico 28 – EUA: consumo de energia, em quadrilhões de Btu, por fonte de energia, 1776-2015 e
projeção para 2040

Fonte: EIA (2016c).

Entre 2000 e 2016, dentre as fontes renováveis que mais cresceram no consumo
total de energia dos EUA apontam-se a energia eólica (3.599%) e a energia solar (825%).
Mesmo com esse avanço, em participação, as fontes renováveis mais importantes
permanecem sendo a biomassa (46,8%) e a hidroelétrica (24,4%). Do total da biomassa
consumida em 2016, 47,8% eram provenientes dos biocombustíveis, 41,1% da madeira e
11,1% dos resíduos (Gráfico 29).

Gráfico 29 – EUA: consumo de energia de fontes renováveis por fonte, em participação (%) e em
trilhões de Btu, 2000 e 2016

100%
90%
80% Biomassa; Biomassa;
70% 3.008,2 4.754,4

60%
Eólica; 57,1
50% Solar; 63,4
40% Eólica; 2.110,6

30% Solar; 587,1


Hidroelétrica;
20% 2.811,1
Hidroelétrica;
10% 2.477,3
0%
2000 2016

Hidroelétrica Geotermal Solar Eólica Biomassa

Fonte: Adaptado de EIA (2017b).

Uma das razões para o crescimento recente do consumo de gás natural nos EUA
está no seu uso para a geração de energia elétrica nesse país. A Figura 8 exibe os dados de
141

2009 dos setores demandantes, por tipo de recurso energético nos EUA. Pode-se observar
que o principal destino do gás natural foi o segmento residencial e comercial (35%), seguido
do setor industrial (32%) e a geração elétrica (30%). Do outro lado, nota-se que o principal
recurso utilizado pelo setor produtor de energia elétrica foi o carvão (48%), seguido da energia
nuclear (22%) e gás natural (18%).
Com a atualização dos dados de 2016, fica evidente a substituição gradativa do
carvão como principal insumo para a geração de energia elétrica nos EUA, mesmo que ainda
esteja posicionado neste ano como principal fonte. Como o setor elétrico corresponde a quase
40% do total de energia consumida nos EUA, as alterações nas suas fontes primárias de
energia se assemelham ao que ocorre na matriz energética geral desse país. Assim, a
diminuição da participação do carvão em 2016 com relação a 2009 (48% versus 34%) como
fonte de energia para o setor elétrico ocorreu em proveito do gás natural (18% versus 27%) e
das energias renováveis (11% versus 15%). Nota-se também que, com relação aos dados de
2009, o gás natural passou a ser mais importante que a energia nuclear para a geração de
energia elétrica (27% do gás e 22% da energia nuclear).

Figura 7 - EUA: fontes de oferta de energia e setores demandantes, 2009

Fonte: EIA (2010, p. 37).


142

Gráfico 30 – EUA: fontes de oferta de energia e setores demandantes, 2016

Fonte: EIA (2017b).

O Gráfico 30 também mostra a dependência da indústria do carvão do setor de


energia elétrica como demandante bem como a do petróleo do setor de transporte. O gás
natural, por sua vez, tem maior diversificação entre os setores demandantes (36% para
geração elétrica, 34% como combustível e insumo do setor industrial e 27% como fonte de
aquecimento para residências e comércio).
Se para o consumo, o gás natural assume posição de destaque nos EUA na década
de 2010, na produção de energia primária, o mesmo acontece, mas em um grau ainda maior.
Considerando uma série com início no ano 2000, nota-se o crescimento da produção de gás
natural em 2006, tornando-se a maior produção de energia primária a partir de 2011 naquele
território até o fim dessa série apresentada, em 2015. A produção de óleo e outros líquidos
também mostrou uma elevação substantiva em 2009, mas sobretudo a partir de 2011.
Enfatize-se aqui que os dados do óleo estão agregados aos de outros líquidos cuja origem em
grande parte também são as plantas de processamento do gás natural (líquidos de gás
natural). A produção de carvão, por outro lado, apresentou uma gradual diminuição,
principalmente de 2011 a 2015. Desde 2007, o crescimento da produção das fontes de
energias renováveis também é notável nos EUA.
143

Gráfico 31 – EUA: produção de energia primária, por fonte, em quadrilhões de Btu, 2000-2015

30,0

25,0
quadrilhões de btu

20,0

15,0

10,0

5,0

0,0
2000

2001

2002

2003

2004

2005

2006

2007

2008

2009

2010

2011

2012

2013

2014

2015
Gás Natural Seco Óleo e outros líquidos* Carvão
Energia nuclear Renováveis**

*Outros líquidos: Líquidos das plantas de gás natural


** Fontes renováveis incluem: biomassa, energia hidroelétrica, solar, eólica e geotermal.
Fonte: Adaptado de EIA (2017b).

Em uma série histórica (Gráfico 32), observa-se que o gás natural nunca tinha
ocupado o primeiro lugar na produção de energia primária nos EUA antes de 2011, ainda que
no início de 1970 tenha atingido o mesmo nível da produção de óleo e outros líquidos.
Interessante também notar que, de fins da década de 1980 até 2010, ou seja, em torno de 30
anos, a produção de carvão representou a maior fonte de oferta de energia primária nos EUA.

Gráfico 32 – EUA: produção de energia primária, por fonte, em quadrilhões de Btu, 1949-2015

30

25

20

15

10

0
1949
1951
1953
1955
1957
1959
1961
1963
1965
1967
1969
1971
1973
1975
1977
1979
1981
1983
1985
1987
1989
1991
1993
1995
1997
1999
2001
2003
2005
2007
2009
2011
2013
2015

Gás Natural
Óleo cru e outros líquidos
Carvão
Energia Renovável
Energia nuclear

Fonte: Adaptado de EIA (2017b).


144

Como o óleo cru, seus derivados e outros líquidos (produtos de petróleo93)


possuem alto consumo nos EUA, a sua importação é ainda muito alta (16,3 quadrilhões de Btu
em 2015), a despeito do crescimento de sua produção no país e a diminuição da importação
de energético (em 2005, as importações chegaram a 22,1 quadrilhões de Btu). A importação
de gás natural já alcançou quase 5 quadrilhões de BTu em 2007 e, desde então, diminuiu,
atingindo, em 2015, 2,8 quadrilhões de Btu.
Comparadas com as importações, as exportações de fontes energéticas dos EUA são
baixas. As vendas externas de carvão foram permanentes desde o início da série (1949) e
giraram em torno de 2 quadrilhões de Btu. Desde 2007, as exportações de produtos do
petróleo ganharam expressão, atingindo 8 quadrilhões de Btu em 2015. As exportações de
gás natural também alcançaram algum relevo (ainda que pequeno) no fim dessa série (quase
2 quadrilhões de Btu). Mesmo com as importações de gás natural diminuindo nos últimos oito
anos da série, essas, como se mostrou no gráfico anterior, foram maiores (2,8 quadrilhões de
Btu) do que as exportações.

Gráfico 33 – EUA: importação de energia primária, por fonte, em quadrilhões de Btu, 1949-2015

25 22,1
quadrilhões de Btu

20

15
16,3
10

5 4,1
2,8
0
1958
1949
1952
1955

1961
1964
1967
1970
1973
1976
1979
1982
1985
1988
1991
1994
1997
2000
2003
2006
2009
2012
2015

Óleo Cru
Produtos do petróleo, excluindo biocombustíveis
Gás Natural
Carvão
Biocombustíveis
Eletricidade

Fonte: Adaptado de EIA (2017b).

93
Produtos de petróleo, segundo o glossário da U.S. Energy Information Administration – EIA (EIA, 2017c),
incluem: “unfinished oils, liquefied petroleum gases, pentanes plus, aviation gasoline, motor gasoline, naphtha-
type jet fuel, kerosene-type jet fuel, kerosene, distillate fuel oil, residual fuel oil, petrochemical feedstocks,
special naphthas, lubricants, waxes, petroleum coke, asphalt, road oil, still gas, and miscellaneous products”.
145

Gráfico 34 – EUA: exportação de energia primária, por fonte, em quadrilhões de Btu, 1949-2015

10 8,2
quadrilhões de Btu

8
6
4
1,8
2
0
1958
1949
1952
1955

1961
1964
1967
1970
1973
1976
1979
1982
1985
1988
1991
1994
1997
2000
2003
2006
2009
2012
2015
Produtos de petróleo, excluindo biocombustíveis
Carvão
Gás Natural
Óleo Cru
Biocombustíveis
Eletricidade

Fonte: Adaptado de EIA (2017b).

Mesmo com o superávite comercial obtido com o carvão e com os produtos do


petróleo e com a significativa redução das importações de óleo cru e gás natural, o saldo geral
de energia primária dos EUA ainda foi negativo (importações líquidas positivas), a despeito
desse resultado representar, em 2015, quase um terço do que alcançou no pico, em 2005.

Gráfico 35 – EUA: importações líquidas de energia primária, em quadrilhões de Btu, 1949-2015

35
30,2
30

25
quadrilhões de Btu

20

15

10
10,9
5

0
1949
1952
1955
1958
1961
1964
1967
1970
1973
1976
1979
1982
1985
1988
1991
1994
1997
2000
2003
2006
2009
2012
2015

-5

Fonte: Adaptado de EIA (2017b).

Em valor, comparando-se 2015 com os anos a partir de 2002, a diminuição do


déficite comercial de energia nos EUA é surpreendente. É evidente que a queda drástica dos
preços do óleo contribuiu fortemente para a diminuição dos valores de importação entre 2014
146

e 2015, mas, como observado nos gráficos anteriores, em unidade de energia, também se
reduziram as importações e aumentaram as exportações, em função do aumento da produção
interna nos EUA.

Gráfico 36 – EUA: balança comercial de energia, em milhões de US$, 1974-2015

600.000
500.000 190.436
400.000
300.000
Em milhões de US$

200.000
100.000
0 102.955
1974
1976
1978
1980
1982
1984
1986
1988
1990
1992
1994
1996
1998
2000
2002
2004
2006
2008
2010
2012
2014
-100.000
-200.000 -87.481
-300.000
-400.000 -415.810
-500.000

Exportações Importações Saldo

Fonte: Adaptado de EIA (2017b).

No próximo item, tem-se por objetivo apresentar de que maneira o shale gas se
insere na matriz energética dos EUA e como contribuiu para as mudanças analisadas aqui no
que se refere à oferta de energia primária, consumo e balança comercial.

2.3. Shale gas nos EUA: histórico e volume de produção

O shale gas, gás natural retirado de fontes geológicas não convencionais, as rochas
de shale, passou a ter uma participação importante nos EUA para os mercados de gás natural,
o mercado energético, o de distribuição para residências e comércio e o composto por
indústrias e setores consumidores do gás (transporte, comércio exterior, petroquímica,
indústria química, etc.).
Nos próximos 2 subitens, analisam-se o surgimento desse tipo específico de gás
natural, algumas características do processo produtivo que permitiu extrair gás e, depois óleo,
das rochas de shale nos EUA, e as regiões produtoras nesse país.
147

2.3.1. Shale Revolution?

A história do shale gas, da forma como aparece nas estruturas produtivas do


século XXI, com uma escala de produção expressiva, só pode ser compreendida a partir da
história do desenvolvimento tecnológico associado à sua exploração.
Com efeito, apesar de o primeiro registro histórico de sua produção ter sido
realizado em 1821 (Figura 8), sua notoriedade, como um recurso natural de expressão, só
ocorreu quase dois séculos depois. Nesse período, novas técnicas de prospecção permitiram
encontrar novas áreas de shale e outras técnicas de perfuração do solo foram desenvolvidas
para retirar o gás de rochas com alta profundidade e baixa permeabilidade a um custo viável.
Dessas técnicas, ressaltam-se sempre como fundamentais à extração do óleo e gás das rochas
de shale o fraturamento horizontal (horizontal fracking) em conjunto à técnica de injeção de
água com químicos e areia na rocha para a liberação do gás, o fraturamento hidráulico
(hydraulic fracking). Também deve-se mencionar a tecnologia de prospecção sísmica 3D que
permitiu caracterizar melhor o subsolo antes da perfuração comercial.

Figura 8 – EUA: linha do tempo para o desenvolvimento de shale gas

Fonte: Shellenberger et al. (2012).

As rochas sedimentares de shale são sempre ricas em hidrocarbonetos,


apresentam alta porosidade, mas uma de suas características geológicas é a baixa
permeabilidade (SERNOVITZ, 2016). A técnica de fraturamento (fracturing, ou também
148

denominada de forma abreviada fracking ou fracing) da rocha conjugada à injeção de líquidos


sob alta pressão cria fissuras na rocha e permite que os fluidos (gás e líquidos) saiam do
reservatório para a boca do poço. É essa dificuldade relativamente maior de extrair o gás
dessas rochas que define o shale gas como um gás extraído de uma fonte não convencional.
A Figura 9 ilustra algumas diferenças entre a exploração de gás em áreas
convencionais com equipamentos de perfuração tradicionais e a perfuração de rochas de
shale para a qual tem que ser utilizado um outro método, dadas as condições não-
convencionais de perfuração e extração do gás. Nessa figura, observa-se que a profundidade
da perfuração no shale é muito maior do que a extração convencional. Enquanto as rochas de
shale estão a 10 mil pés de profundidade (em geral, depois dos reservatórios de água), os
reservatórios convencionais se encontram numa profundidade que varia de 1 mil a 5 mil pés
(BARTIK et al., 2016).
Além disso, os hidrocarbonetos nos poços convencionais são liberados mais
facilmente pela maior permeabilidade do solo onde estão aprisionados. Nos reservatórios
tradicionais as fraturas e falhas do solo são naturais e aí basta perfurar os dutos (casings) com
os explosivos e os hidrocarbonetos já passam a fluir. Nas rochas de shale, criam-se as fraturas
artificialmente com muita água misturada com químicos e areia bombeada com alta pressão
para dentro do poço. A areia ou outro tipo de partícula (proppants) mantém os poros abertos
enquanto os hidrocarbonetos são liberados.
Os reservatórios convencionais são formados com os hidrocarbonetos que
escapam das rochas-fontes (source rock), de onde foram gerados, e ficam aprisionados em
uma outra rocha (na figura, a rocha selante). As rochas de shale são as próprias rochas-fontes,
cuja baixa permeabilidade não permite que os hidrocarbonetos migrem para os reservatórios.
Daí a necessidade de uma perfuração mais profunda e direcionada para a horizontal para que
as fraturas sejam realizadas com as microexplosões (BARTIK et al., 2016).
O primeiro empreendimento bem-sucedido na exploração de shale gas ocorreu
com a empresa Mitchell Energy, em 1982, a partir da adoção da técnica de fraturamento.
Como relata Russell (2014), a perfuração dos poços na formação de Barnett Shale, no Texas,
embora exitosa, era muito custosa. Duas décadas se passaram até que o departamento de
engenharia da empresa utilizasse água com químicos (“slick water”) para melhorar a saída do
gás das rochas de shale.
149

Figura 9 – Ilustração de um poço de gás convencional e de um poço de shale gas

Fonte: Simão (2014, p. 27).

Hauter (2016) ressalta que Nicholas Steinberger, engenheiro da Mitchell Energy, a


despeito de não ter recebido créditos por isso (e nem bônus monetário da empresa), foi o
responsável por aumentar a produtividade dos poços de gás nas rochas de shale. Steinberger
trocou o gel que era injetado nas rochas por milhões de galões de um líquido que continha
areia e químicos. Os efeitos foram enormes:
“After three months, it had produced more gas than any other well they
had drilled in Barnett. When Mitchell Energy began using this recipe for
fracking in its other wells in the Barnett, gas production went up by 250 per
cent in only three years.” (HAUTER, 2016, p. 92).

Assim, a inovação tecnológica não foi só a perfuração por fraturamento e sim o


uso de água e químicos para o desaprisionamento dos hidrocarbonetos da “source rock”.
Embora o termo “fracking” tenha sido mais disseminado e utilizado para caracterizar a
extração petrolífera das bacias de shale, foi a tecnologia de “hydraulic fracturing” que foi
responsável pelo alto rendimento na operação.
A tecnologia de fraturamento já era usada na indústria petrolífera na fase que
ocorre depois da perfuração dos poços (“completion”). Para Sernovitz (2016), a inovação que
permitiu a extração do shale gas deveu-se à junção de várias técnicas já existentes e a
150

persistência do fundador da Mitchell Energy, George Mitchell94, engenheiro de petróleo e com


vários cursos de geologia95.
Cabe destacar que as tecnologias de fraturamento hidráulico já existentes foram
frutos de importantes esforços de pesquisa realizados por agências públicas federais e
laboratórios. A empresa Mitchell Energy utilizou-se desses conhecimentos existentes e, em
conjunto com pesquisadores dessas agências e laboratórios, adaptou as técnicas para as
rochas de Barnett Shale (“slick-water fracking” no lugar da “massive hydraulic fracturing”
desenvolvida em 1977 pelo Departamento de Energia) (SHELLENBERGER; NORDHAUS, 2011).
Em 2001, a Mitchell Energy foi adquirida pela Devon Energy96, empresa sediada
no estado de Oklahoma (HAUTER, 2016). Essa transação juntou a tecnologia e experiência da
Mitchell Energy no fraturamento hidráulico à tecnologia do fraturamento horizontal da
Devon.
A inovação tecnológica concretizada no fraturamento hidráulico e horizontal
constituiu uma ruptura tecnológica tão importante que passou a ser utilizada nos poços de
shale ricos em óleo e em outras formações não convencionais, para além das áreas de shale.
Em 2015, como mostram os Gráficos 37 e 38, o processo de extração por
fraturamento hidráulico representava dois terços da produção total de gás natural nos EUA e
metade do óleo produzido. Além da alta participação, cabe observar o acelerado ritmo de
avanço da tecnologia de fraturamento na extração de óleo e gás nos EUA.

94
Segundo Russell (2014), George Mitchell, o proprietário dessa empresa, era conhecido por ser uma pessoa
preocupada com o meio-ambiente. De acordo com Hauter (2016), de fato, George Mitchell alcançou essa
reputação, a despeito de seu histórico de atuação (exitosa, inclusive) para impedir a acentuação do rigor das
regras ambientais. A autora também cita os processos milionários contra a empresa em razão da contaminação
do solo e aquíferos de uma comunidade. Mitchell foi condenado em primeira instância, mas conseguiu trocar o
processo de jurisdição e aí o veredicto modificou-se em seu favor. O filho de Mitchell comentou o paradoxo da
vida de seu pai: “George Mitchell promoted ´sustainability´ but was a fossil fuel magnate who never invested in
renewable energy” (HAUTER, 2016, p. 93). Ao lado de outras pessoas como Ken Lay da Enron, Dick Cheney da
Halliburton e Larry Nichols da Devon Energy (que depois comprou a Mitchell Energy), George Mitchell era um
defensor do gás natural como um “bridge fuel” para um mundo com menos carbono. Em 1998, Bill Clinton
encomendou um estudo sobre as perspectivas ambientais com o uso do gás natural que contou com a
participação de pessoas da Mitchell Energy e da Enron. A conclusão do estudo foi de que o futuro da energia nos
EUA deveria ter como centro o uso do gás natural (HAUTER, 2016, p. 87).
95
Sernovitz (2016) lhe dá a alcunha de “Henry Ford do shale” (p. 17).
96
Em Hauter (2016) há um capítulo específico (Devon: big fish polluting a small pond) que registra a influência
política dessa empresa na criação e sustentação de leis estaduais e federais que favorecem a indústria petrolífera,
muitas delas em explícito detrimento do meio-ambiente. Como será visto à frente, Devon é uma das grandes
contribuintes de campanhas de lideranças políticas que protegem os interesses das empresas de óleo e gás.
151

Gráfico 37 – EUA: produção de gás natural, em bilhões de pés cúbicos por dia, por método de extração,
2000-2015

Fonte: EIA (2016d).

O sucesso da perfuração do poço em Barnett Shale, que resultou em altos


rendimentos no volume de gás extraído, ocorreu em 1998. Essa experiência exitosa foi sendo
disseminada e, outras empresas operadoras, em conjunto com os fabricantes de
equipamentos, transformaram esse evento que poderia se restringir à localidade a um
fenômeno de repercussão mundial, tanto para a produção de gás quanto para a produção de
óleo.
Sernovitz (2016) elenca algumas explicações para que a exploração de shale gas
tenha ocorrido primeiro que a de shale oil97. As empresas independentes (concentradas nas
etapas de exploração e produção) eram produtoras de gás e estavam já havia mais tempo se
deparando com preços altos do gás natural nos EUA desde 2004 (o que só foi ocorrer com o
óleo em 2008). Ademais, a produção de óleo onshore nos EUA já havia atingindo seu pico e os
rendimentos eram decrescentes, o que desestimulava a prospecção de novas áreas naquele
território. Por conta disso e dos altos preços do gás natural, o financiamento às empresas de
extração de óleo não era tão fácil quanto para as empresas que operavam na extração de gás

97
O óleo que é retirado das áreas de shale em geral é denominado de tight oil, e não shale oil ou oil shale. Oil
shale sequer é óleo. Oil shale diz respeito ao kerogênio que, de acordo com a definição de Sullivan (2012, p. 11),
“This is near oil. (...) it needs to be processed further before it can be used as a feedstok into these oil refineries”.
Na definição da Society of Petroleum Engineers - SPE (2011, p. 208), shale oils são: “Shale, siltstone, and marl
deposits highly saturated with kerogen. Whether extracted by mining or in-situ processes, the material must be
extensively processed to yield a marketable product (synthetic crude oil).”.
Segundo a nota de terminologia do EIA (2013): “Although the terms shale oil and tight oil are often used
interchangeably in public discourse, shale formations are only a subset of all low permeability tight formations,
which include sandstones and carbonates, as well as shales, as sources of tight oil production. Within the United
States, the oil and natural gas industry typically refers to tight oil production rather than shale oil production,
because it is a more encompassing and accurate term with respect to the geologic formations producing oil at
any particular well. EIA has adopted this convention, and develops estimates of tight oil production and resources
in the United States that include, but are not limited to, production from shale formations.” (p. 4).
152

natural. Além disso, mesmo que já houvesse notícias de que o gás finalmente estava sendo
extraído competitivamente das jazidas de shale, não se acreditava que de uma rocha com tão
baixa permeabilidade pudesse migrar um líquido (SERNOVITZ, 2016)98.
O tempo diferente de “boom” do shale oil e do shale gas não permitiu que
Sernovitz, um investidor e analista do mercado financeiro do setor de óleo e gás, vislumbrasse
com facilidade a importância que também teria a exploração do óleo nas áreas não
convencionais. Confessou no seguinte trecho: “And in a trend that should by now be clear, I
was also late to recognize how the U.S. shale oil renaissance would piggyback on – and
eventually take over – the shale gas boom” (SERNOVITZ, 2016, p. 44)
Exibe-se, no Gráfico 38, que o fraturamento hidráulico chega com força e
expressão na extração do óleo apenas a partir de 2009. Como será visto no item a seguir, é a
partir desse ano que as grandes empresas integradas passam a operar nas áreas de shale.

Gráfico 38 – EUA: produção de óleo, por método de extração, em milhões de barris por dia, 2000-2015

Fonte: EIA (2016e).

O avanço dessa tecnologia na exploração de gás natural e óleo está relacionado


ao potencial mineralógico das rochas de shale e outras formações geológicas (tight sandstone,
por exemplo), mas também ao incremento na produtividade da extração que a tecnologia de
fraturamento hidráulico e horizontal propiciou. Ou seja, não só essa tecnologia logrou extrair
gás de um subsolo anteriormente de difícil acesso (por isso, não convencional) como também
gerou rendimentos maiores do que as tecnologias utilizadas em áreas de exploração já
conhecidas, convencionais. De acordo com IHS (2013), o fraturamento horizontal e hidráulico
ampliou o acesso ao reservatório e, por isso, determinou rendimentos produtivos maiores do

98
As empresas EOG e Continental, ao final, conseguiram extrair óleo das formações de shale porque incluíram
às técnicas de fraturamento hidráulico e horizontal, o fraturamento multifaseado (SERNOVITZ, 2016, p. 46).
153

que os obtidos nos poços de gás convencionais. Assim, mesmo que os custos de produção dos
poços de shale sejam mais altos, os custos unitários, em função da maior produtividade,
podem ser até 50% menores do que os obtidos pela extração de gás nos poços convencionais
(dados de 2011).
Deste breve histórico pelo menos duas observações devem ser extraídas. A
primeira delas diz respeito ao fato de surgir na literatura e debate acadêmico e na mídia a
expressão “Shale Revolution”. Pelos dados de crescimento de produção dos hidrocarbonetos
provenientes das formações de shale, de fato, nota-se algo extraordinário ocorrendo. Como
citado pelo IHS (2013, ES-1), autoriza-se o uso do termo “Revolução” em função de drásticas
mudanças no cenário e perspectivas para o mercado de gás natural nos EUA: nesse país
passou-se de uma situação de escassez de oferta para a de abundância, de altos custos de
extração em fontes não-convencionais para moderados e, de um cenário de alta dependência
das importações para o de uma tendência de autosuficiência em gás natural.
Guardadas as devidas proporções com os eventos de fato revolucionários e de
grande envergadura na história no tocante aos saltos tecnológicos, supõe-se que aqui se
verifica sim um componente de certo modo disruptivo, porque abre espaços novos de
acumulação de capital e reduz substancialmente os custos de extração, determinando um
novo referencial de custos para a indústria petrolífera (óleo e gás). De qualquer forma, vale
apontar que tal movimento ocorre em um setor energético que tende a não pertencer ao
futuro. Afinal, espera-se que as energias renováveis e menos emissoras de poluentes
predominem sobre os combustíveis fósseis no futuro. Sendo assim, tem-se uma mudança
tecnológica não desprezível com a adoção do fraturamento hidráulico nas rochas de shale,
porém aplicada em espaços antigos do capitalismo, que parecem estar sendo contestados
pelas energias mais limpas do ponto de vista da emissão de gases de efeito estufa.
Vale comentar um segundo ponto. Dado que a tecnologia de fraturamento
hidráulico (na maioria das vezes associada ao direcionamento horizontal) se difundiu para
outras formações rochosas não convencionais, a menção honrosa a essa dita “revolução” teria
que ser creditada ao fraturamento hidráulico, tornando-se mais justa, portanto, a
denominação “Hydraulical fracturing revolution”99 e não “Shale Revolution”. A informação de

99
Russell (2014) ousou chamar seu país, os EUA, após a disseminação do fraturamento hidráulico como
“Frackistan” (p. 12). Como o autor sentenciou: “whether you fear fracking or celebrate it, that´s a lot of holes in
the ground” (p. 12). Em uma outra passagem, usou a estimativa de que mais de 15 milhões de estadunidenses
154

que rochas de shale guardavam hidrocarbonetos era havia muito conhecida. A novidade do
início do século XXI foram as técnicas para extrair os hidrocarbonetos de lá de forma
competitiva (na verdade, até vantajosa) com relação às áreas de extração convencionais. Na
avaliação de Bartik et al. (2016), a adoção da tecnologia de fraturamento hidráulico nas rochas
de shale foi tão importante para o setor energético quanto a comercialização da energia
nuclear.
Ainda assim, vale o reforço de que a tecnologia de fraturamento não é produto
dos anos 1990 ou 2000. Foram décadas de aprimoramentos, testes, experimentações,
pesquisa e ciência coletiva (privada, mas sobretudo pública) que permitiram o sucesso da
extração, do ponto de vista tecnológico, em formações não convencionais, apenas no início
do século XXI.
“We´ve been fracking since the Truman administration and drilling
directionally before that. But the ingenuity now dedicated to making
cheaper hydrocarbon widgets is remarkable, from designing drill bits that
allow us to penetrate rock much faster to manufacturing rigs that can
“walk” from own well to another.” (SERNOVITZ, 2016, p. 59).

Inovações tecnológicas também foram ocorrendo ao longo do crescimento da


produção de shale gas nos EUA. Sernovitz (2016) narra a importância da interação entre as
empresas competidoras e também entre as empresas petrolíferas e seus fornecedores. Na
medida em que os poços foram sendo perfurados, as informações sobre o processo produtivo
e qualidade dos hidrocarbonetos foram sendo compartilhadas (via intercâmbio de base de
dados e participação em conferências e seminários) para que as empresas aprimorassem as
suas operações já em andamento ou para que tivessem um controle maior sobre os novos
poços a serem perfurados. Observam-se aqui, claramente, os fenômenos de learning by doing,
learning by interacting e as relações users-producers100 em ação e jogando um papel
importante na dinamização das inovações ligadas a essa nova área de investimentos.
As empresas de extração e produção de óleo e gás comandam na sua área de
operação uma rede de subcontratação. Afinal, são as empresas de serviços as proprietárias
dos equipamentos e realizam, de forma fragmentada, as diversas etapas do preparo do

em 2013 moravam numa distância de uma milha de um poço que foi perfurado por fracking nos últimos anos (p.
19).
100
Sernovitz (2016) não utilizou essas expressões. O termo utilizado para a interação entre empresas foi “gossip”,
fofoca em português, ilustrando assim o caráter informal das interações humanas que muitas vezes são
responsáveis por inovações e aprimoramentos tecnológicos (p. 42).
155

campo, da perfuração e produção (completion) do poço. Sobre o papel desses fornecedores


na disseminação de informação, Sernovitz (2016) destacou:
“And folks in the always-be-closing oilfield service sector are just as human
as the rest of us: they love to talk about what´s going on next door. They
love even more to sell what they sold next door. So whenever anyone made
a breakthrough – in where a well was drilled, in how a well was fracked –
oilfield service folks ensured that the news travelled fast.
And there was a lot of news. Experiments in well direction, in fracking tools,
in whole new plays were happening quickly” (SERNOVITZ, 2016, p. 42)

Kellogg (2011) também relata a expressiva contribuição das relações estabelecidas


entre as empresas produtoras e seus fornecedores de serviços de equipamentos para o
aumento da produtividade dos poços de óleo e gás on shore nos EUA. Os resultados de sua
pesquisa revelam que os ganhos de produtividade são duas vezes maiores em empresas que
produzem com os mesmos fornecedores do que naquelas que trocam as empresas
subcontratadas frequentemente. Aqui se deve registrar que entre as empresas de serviços de
perfuração e extração nas plataformas estão empresas de pequeno porte, mas também
representantes das maiores empresas de equipamentos do mundo, como Schlumberger,
Halliburton e Baker Hughes, com notável capacidade de inovação.
Não só o fraturamento hidráulico horizontal aplicado às formações rochosas de
shale mostrou-se como um avanço tecnológico não marginal, como também merece menção
o desenvolvimento tecnológico voltado para a compreensão das propriedades geológicas dos
poços. Essa frente de pesquisas avançou muito depois da conquista da produção de shale gas
em alta escala e rentável. A partir das informações mais precisas derivadas dos estudos pré-
perfuração, a produtividade se elevou significativamente, viabilizando, por sua vez, novos
investimentos e a expansão crescente da produção de shale gas nas áreas originais e em
outras bacias de shale.
Em Alexander et al. (2011) é possível visualizar mudanças em alguns indicadores
de produtividade de uma empresa exploradora de gás natural entre os anos de 2007 e 2011.
O número de dias para a perfuração diminuiu, o comprimento lateral aumentou, o custo do
poço se reduziu e a produção e as reservas aumentaram.
156

Gráfico 39 – EUA: evolução dos indicadores de produtividade e produção de uma empresa de gás
natural, 2007-2011

Fonte: Alexander et al. (2011, p. 53).

O pródigo desenvolvimento tecnológico que ocorre nos EUA relacionado às


atividades exploratórias de shale gas e as mudanças previstas na economia desse país com
relação aos empregos criados e aos investimentos em setores correlatos a serem realizados
fizeram Skidelsky (2013) fazer uma provocação em um artigo. Para ele, a Revolução do Shale
seria uma contestação da abordagem que propõe uma tendência a uma estagnação secular
das economias, em razão da baixa lucratividade prospectiva dos investimentos: “But it does
seem to me that contemporary apostles of secular stagnation like Summers and Paul Krugman
at least ought to be taking the shale-energy revolution into account.” (SKIDELSKY, 2013).
De qualquer forma, as denominações “Shale revolution”ou “Frack Revolution”,
que jogam luz ao papel exercido pelas novas tecnologias na emergência desse novo fenômeno
econômico dos EUA na década de 2000 também não seriam compreensivas o suficiente para
abarcar outros vários determinantes tão ou mais importantes que a tecnologia. Afinal, fatores
como: regulação ambiental, legislação de acesso à terra e à água nos EUA bastante favoráveis
ao “drilling”, financiamento abundante e um conjunto formidável de políticas fiscais,
industriais, tecnológicas e monetárias, fazem desse fenômeno algo bastante peculiar a um
determinado espaço geográfico, político e econômico. A análise desses fatores explica o
motivo pelo qual o transplante dessa tecnologia para outros países também dotados de
reservas de hidrocarbonetos nas rochas de shale não ocorre rapidamente e de forma
igualmente lucrativa.
157

2.3.2. Exploração de gás não-convencional nos EUA: produção de shale gas e sua
localização geográfica

Reunindo as estimativas de produção total de gás nos EUA com a da produção das
áreas de shale gas, pode-se observar a importância crescente do shale gas e seu significativo
ritmo de crescimento ao longo da década de 2000 com relação a outras fontes101.
No Gráfico 40, pode-se notar que as fontes de shale gas passaram a ficar mais
expressivas na produção de gás natural já entre 2007 e 2008, mas, em fins de 2009 é que a
curva ganhou uma inclinação mais acentuada. Também se observa que a produção de gás não
derivada das fontes de shale, no período entre 2005 e 2015, diminuiu em termos absolutos
no tocante ao volume, enquanto a produção proveniente das áreas de shale se elevou
substancialmente, sendo responsável, portanto, por todo o acréscimo da produção de gás
natural dos EUA nesse período.

Gráfico 40 – EUA: volumes de produção de dry shale gas e o total de produção de gás natural, em
milhões de pés cúbicos por dia, Jan de 2005-Nov 2015
70.000

60.000

50.000
Em milhões de pés cúbicos por dia

40.000

30.000

20.000

10.000

0
jan/05

jan/10

jan/15
jul/07

jul/12
dez/07

dez/12
fev/07

fev/12
nov/05

nov/10

nov/15
mai/08

mai/13
abr/06

abr/11
jun/05

jun/10

jun/15
mar/09
out/08

out/13
mar/14
set/06

set/11
ago/09

ago/14

Dry shale gas Gás não extraído de shale

Fonte: Adaptado de EIA (2017d).

101
Para a correta leitura dos Gráficos 40 e 41 apresentados a seguir vale descrever as seguintes observações
quanto à base de dados: a) utilizou-se como dado da produção total de gás a estimativa de natural gas production
(gross withdrawals) que, no glossário da EIA, está definido como: “Full well stream volume from both oil and gas
wells, including all natural gas plant liquids and nonhydrocarbon gases after oil, lease condensate, and water
have been removed. Also includes production delivered as royalty payments and production used as fuel on the
lease.”; b) as estimativas do shale gas estão definidas como dry shale gas, portanto, também segundo o glossário
do EIA: “Natural gas which remains after: 1) the liquefiable hydrocarbon portion has been removed from the gas
stream (i.e., gas after lease, field, and/or plant separation); and 2) any volumes of nonhydrocarbon gases have
been removed where they occur in sufficient quantity to render the gas unmarketable”. Ou seja, nessa
comparação, a primeira estimativa da produção de gás natural é mais ampla do que a segunda, o que permite
afirmar que a importância do shale gas no total da produção de gás nos EUA deve ser ainda maior. Definições
extraídas de EIA (2017c).
158

No Gráfico 41, a importância das fontes de shale para a produção de gás natural
dos EUA mostra-se ainda mais clara. As fontes convencionais onshore e offshore apresentaram
reduções contínuas, principalmente após o início da década de 2000, enquanto as fontes não
convencionais (coalbed methane, shale gas e tight gas) ganharam peso na estrutura produtiva
e na contribuição para o crescimento desse recurso.
Cabe aqui abrir parênteses para uma breve explicação a respeito do gás não-
convencional retirado dos reservatórios de carvão. Nessas jazidas de carvão, há metano preso
nas camadas carboníferas que, por sua rasa profundidade, são relativamente fáceis de retirar.
No entanto, essas camadas são permeadas por água e, para que o metano possa ser extraído,
é necessária primeiramente a retirada de água desses reservatórios. Nos estágios iniciais da
produção, um volume muito grande de água salina pode ter que ser retirado e a sua disposição
pode aumentar muito os custos do projeto da retirada do gás natural (CHANDRA, 2006, p. 33).
Esse gás retirado das jazidas carboníferas é denominado coalbed methane e pode ser uma
fonte importante para a produção de gás natural não convencional em alguns países, como
Canadá, Austrália, EUA e China. Como mostra o Gráfico 41, nos EUA a produção de coalbed
methane aumentou consideravelmente, alcançando quase 2 trilhões de pés cúbicos em 2012.
Outra abertura de parênteses deve ser feita para a definição de tight gas, uma
fonte de gás natural que também aparece nos gráficos seguintes e ganhou importância no
período recente nos EUA. O gás natural denominado tight gas é aquele que é extraído de
rochas de baixa permeabilidade conhecidas como sandstone ou das carbonate formations. A
exploração de gás nessas áreas ganhou incentivos fortes com o Natural Gas Policy Act de 1978
(EIA, 2017e).
Na projeção realizada pelo EIA no Annual Energy Outlook 2016 para o ano de 2040,
o gás natural proveniente das fontes não convencionais dos reservatórios de shale gas e da
produção de tight oil ganham uma importância extraordinária, seja em valores absolutos, seja
em proporção às outras fontes de gás natural. O tight gas aumentará em volume, porém
manterá sua participação, consolidando sua posição como segunda maior fonte de gás natural
nos EUA (Gráfico 42).
159

Gráfico 41 – EUA: produção de gás natural, por fonte, em trilhões de pés cúbicos, 1990-2012

12
Em trilhões de pés cúbicos

10

2007

2012
1990
1991
1992
1993
1994
1995
1996
1997
1998
1999
2000
2001
2002
2003
2004
2005
2006

2008
2009
2010
2011
Alaska Coalbed methane
Lower 48 offshore Lower 48 onshore conventional
Tight gas Shale Gas
.

Fonte: Adaptado de EIA (2014b, figura MT-44, página MT 23).

Em 2014, as reservas provadas de shale gas já correspondiam a 50% do total de


reservas provadas de gás natural dos EUA. Com o incremento desse indicador, em 2014,
atingiu-se um recorde histórico, qual seja, o patamar de 388,8 trilhões de pés cúbicos de
reservas provadas de gás natural nos EUA. Esse aumento de reservas provadas – que também
estão registradas nos balanços das empresas –, como será visto em item a seguir, será um dos
responsáveis pelo financiamento abundante que fluiu para as empresas de gás natural
(Gráfico 43).

Gráfico 42 – EUA: projeção da produção de gás natural, por fonte, em trilhões de pés cúbicos, 1990-
2040

Fonte: EIA (2016f).


160

Gráfico 43 – EUA: total de reservas provadas de gás natural (shale e outras fontes), em trilhões de pés
cúbicos, 2007-2014

Fonte: EIA (2016a, p. 17).

Pelo Gráfico 44, nota-se o crescimento substantivo das reservas provadas de gás
natural nos EUA nos anos das décadas de 2000 e de 2010. De 1970 aos fins de 1990, as reservas
tinham se reduzido e mantido em baixo patamar (menos que 200 trilhões de pés cúbicos). Os
dados do gráfico anterior revelam que as fontes de shale gas tiveram uma contribuição
essencial para o crescimento recente das reservas provadas de gás natural nos EUA.

Gráfico 44 – EUA: reservas provadas em gás natural, em trilhões de pés cúbicos, 1964-2014

Fonte: EIA (2016a, p. 2).

Buscando registrar a localização geográfica no território estadunidense, no Gráfico


45, pode-se observar que a produção de shale gas era inexpressiva nos EUA até por volta de
161

2006-2007, embora já se pudesse notar um aumento progressivo desse hidrocarboneto da


formação de Barnett desde o início da década de 2000.
Após 2000, os dados, de fato, mostram um crescimento impressionante da
produção de gás natural proveniente das outras regiões de shale: 2 bilhões de pés cúbicos por
dia, em 2000, para 42 bcf por dia, em 2015, ou, em termos anuais, de 792 bcf, em 2000, para
15.000 bcf em 2015, um aumento da produção de 20% ao ano, em média.
A formação geológica de Marcellus, que compreende vários estados dos EUA,
como Pensilvânia, Nova York, Virgínia do Oeste e Ohio, é a principal região produtora do shale
gas, com uma participação de 38,5% do total da produção de gás seco, com referência em
março de 2016. Sobre a base geológica de Marcellus estão estados do nordeste dos EUA que
são muito populosos. A alta densidade populacional da região, de um lado, oferece
proximidade a um mercado consumidor importante para o gás natural, mas, por outro lado,
determina a presença de uma forte resistência política quanto à exploração do shale gas,
dadas as reconhecidas externalidades urbanas negativas (como elevadíssimo tráfego de
caminhões, risco de liberação de metano e de contaminação da água). Um exemplo dessa
resistência aparece no estado de Nova Iorque que, em 2014, votou pela proibição de
atividades de fracking em seu território (NEW YORK STATE, 2016).
Essa decisão foi estabelecida formalmente com bases no estudo do Departament
of Environmental Conservation - DEC de Nova Iorque, mas também porque a pressão política
dos ambientalistas com altíssima rejeição ao fraturamento hidráulico foi e ainda é muito
ampla e intensa nesse estado.
O estado da Pensilvânia, principal estado produtor de gás natural da base de
Marcellus, passou de 2 poços não-convencionais perfurados em, 2004, para 1.207, em 2013,
com um pico de 1.964, em 2011, segundo os dados do departamento de proteção ambiental
desse estado (WANG; STARES, 2015). De 2004 a 2013, foram perfurados 7.432 poços não
convencionais nesse estado (HARDY; KELSEY, 2015).
162

Gráfico 45 – EUA: produção de shale gas, em bilhões de pés cúbicos por dia, por região produtora,
2000-2015
50

45
Em bilhões de pés cúbicos por dia

40

35

30 Marcellus

25 Utica

20 Haynesville
Eagle Ford
15
Fayeteville
10
Barnett
5
Rest of US shales
0
01/jan/04

01/jan/05

01/jan/06

01/jan/07

01/jan/08

01/jan/09
01/jul/09
01/jan/10
01/jul/10

01/jul/11

01/jul/12

01/jul/13

01/jul/14

01/jul/15

01/jul/16
01/jul/04

01/jul/05

01/jul/06

01/jul/07

01/jul/08

01/jan/11

01/jan/12

01/jan/13

01/jan/14

01/jan/15

01/jan/16
Rest of US 'shale' Antrim (MI, IN, & OH) Bakken (ND & MT)
Woodford (OK) Barnett (TX) Fayetteville (AR)
Eagle Ford (TX) Haynesville (LA & TX) Utica (OH, PA & WV)
Marcellus (PA,WV,OH & NY)

Fonte: Adaptado de EIA (2017f).

O estado do Texas aparece com bastante importância, sobretudo pela produção


das formações de Eagle Ford (10,8% do total), Haynesville (8,4%) e Barnett (7,6%). A formação
de Utica, próxima da de Marcellus, contribuiu com 8,2% do total (Tabela 22).

Tabela 22 – EUA: participação (%) das regiões produtoras de shale gas (dry gas), em volume, março de
2016
%
Marcellus (PA,WV,OH & NY) 38,5
Eagle Ford (TX) 10,8
Haynesville (LA & TX) 8,4
Utica (OH, PA & WV) 8,2
Barnett (TX) 7,6
Fayetteville (AR) 5,1
Woodford (OK) 4,9
Bakken (ND) 2,3
Antrim (MI, IN, & OH) 0,5
Rest of US 'shale' 13,7
Total 100,0
Fonte: Adaptado de EIA (2017g).
163

A formação geológica de shale de Eagle Ford tem uma especificidade. Lá se


encontram poços abundantes em óleo, gás e em líquidos de gás natural, oferecendo maior
flexibilidade aos produtores, principalmente quando há descolamento dos preços do óleo e
do gás natural. A atividade mais rentável (óleo, gás ou LGN) do momento pode manter a
atividade produtiva na região, mesmo em caso de queda significativa de preço de um dos
recursos (TUNSTALL, 2015).
Na Figura 10, aparecem as 6 regiões que mais contribuíram para o crescimento de
óleo e gás no EUA entre 2011-2014 (Marcellus, Niobrara, Bakken, Permian, Eagle Ford e
Haynesville) com os volumes produzidos de gás e óleo em cada região produtora que contém
formações de shale. A figura contribui para esclarecer que algumas regiões são especializadas
na produção de gás natural como as bases de Marcellus, Niobrara e de Haynesville, enquanto
outras mostram-se mais diversificadas entre gás e o óleo, como Bakken, Permian e Eagle Ford.

Figura 10 – EUA: regiões produtoras de shale gas e shale oil

Fonte: Rosenberg (2014, p. 12).

Segundo o relatório do EIA (2017h), essas regiões (acrescentando a base de Utica


que fica adjacente à base geológica de Marcellus) foram responsáveis por 92% do crescimento
de óleo nesse período e de 100% do crescimento do gás natural entre o período 2011 e 2014.
Assim, a figura mostra como o dinamismo recente da produção de óleo e gás não é dispersa
pelo território estadunidense e sim concentrada em algumas regiões.
164

2.4. Economia do shale gas: estrutura de mercado e financiamento

2.4.1. A chegada do grande capital e a consolidação do setor

A análise da estrutura de mercado permite identificar o porte e o número de


empresas que participam da concorrência capitalista em um determinado espaço e as
características do padrão da competição em tal mercado. A discussão sobre a estrutura de
mercado nas áreas de exploração de shale gas é importante porque há uma tendência a supor
que tal atividade, nos EUA, é executada primordialmente por pequenas empresas. Isso ocorre
porque nesse país, diferentemente da estrutura observada em outros países, evidencia-se a
presença de um número expressivo de empresas de óleo e gás independentes, que são as
empresas que atuam quase exclusivamente na fase upstream da cadeia petrolífera (a de
exploração e produção de petróleo e gás) ou na de refino e, portanto, diferenciam-se das
empresas integradas (“do poço ao posto”) que, pela sua ampla diversificação, existem em
menor número.
No entanto, o fato de serem categorizadas como independentes não permite
tratá-las como empresas de pequeno porte. Para efeito de ilustração, pode-se utilizar a
ConocoPhillips. Essa empresa é uma das maiores empresas privadas de óleo e gás do mundo,
apresentou em 2014 uma receita de US$ 55,5 bilhões102, uma produção de 1,5 milhão de
barris de óleo equivalente por dia, é proprietária de 8,2 bilhões de óleo equivalente de
reservas provadas (CONOCOPHILLIPS, 2015, pp. 4-5), é a maior empresa independente de óleo
e gás e a terceira maior empresa de óleo e gás com base nos EUA (classificação baseada no
volume de reservas provadas e de produção de líquidos de gás natural e gás natural)
(CONOCOPHILLIPS, 2015, p. 1; 22).
Observa-se assim que a existência de empresas independentes não está associada
a operações realizadas por empresas de porte relativamente pequeno. Além disso, como será
apresentado em um item a seguir, as empresas independentes são beneficiárias de isenções
e benefícios tributários nos EUA relativamente maiores do que as empresas integradas.

102
Em função da diminuição dos preços de óleo e gás, as receitas dessa empresa em 2015 passaram para US$
30,9 bilhões. O prejuízo contabilizado foi de US$ 4,5 bilhões (CONOCOPHILLIPS, 2015, p. 4).
165

Medlock III, Jaffe e Hartley (2011) reputam à flexibilidade e ao empreendedorismo


típico das pequenas empresas o sucesso da atividade de shale gas nos EUA:
“Smaller independent firms have played a critical role in identifying new
resource plays over the decades, a trend evidenced by a Baker Institute
analysis that shows that smaller firms were quicker to respond to higher
prices by increasing exploration and development expending than the
larger, more conservative firms whose drilling budgets stayed unchanged
when oil prices increased through the 2000” (MEDLOCK III; JAFFE; HARTLEY,
2011, p. 16).

Em outra ponta, Hauter (2016) associa a estrutura oligopolítistica ou monopólica


do setor petrolífero desde seus primórdios (início do século XX) ao surgimento das atividades
que usam fraturamento hidráulico no século XXI. Pela influência dessas grandes empresas nas
instituições de governo, de mídia e educacionais é que se compreende o movimento rápido
(com a enorme contribuição do mercado de capitais e bancário) de exploração de gás e óleo
nas rochas de shale e outras formações não convencionais nos EUA. Ao narrar os objetivos de
seu livro, a autora escreve:
“Beginning in the earliest days of the industry, it tells the story of how the
largest oil and gas interests have maintained monopoly control over
products and political decisions about energy. It unveils the complex set of
events that have enabled the corporate progeny of John D. Rockefeller´s
Standard Oil to morf into some of the largest frackers of oil and natural gas
today” (HAUTER, 2016, p. 2).

Wang e Xue (2014) analisam a evolução da estrutura de mercado da atividade de


exploração de shale gas nos EUA. A partir dos dados do número de poços de shale perfurados
entre 1982 e 2012, por empresa, os autores mostram que, embora se tenha presenciado a
entrada de vários agentes na produção de shale gas, o setor sempre mostrou uma
concentração de poços perfurados nas mesmas e poucas empresas. A amostra dos
pesquisadores (que abriga 92% do total da produção de shale gas nos EUA) restringe-se às
áreas de produção “modernas” de shale gas, isto é, aquelas que utilizam as tecnologias
inovadoras para perfuração de rochas de shale (fraturamento hidráulico).
Até o ano 2000, a atividade de perfuração de poços de shale gas era muito
incipiente e restrita a poucos poços e poucas empresas, mesmo com os incentivos do governo
estadunidense. Os autores denominam essa fase de experimental. A principal e quase única
empresa é a Mitchell Energy, cuja base de exploração estava nos poços de Barnett, no Texas.
O isolamento dessa empresa nessa atividade está relacionado ao elevado grau de incerteza e
166

a baixa rentabilidade que predominava nos projetos de perfuração nas áreas modernas, como
as de shale, associados ao uso e exploração de tecnologias em fase de experimentação. Para
empreendimentos com tais características poucas empresas apresentavam a quantidade de
recursos financeiros e as capacidades técnicas necessários. Segundo os autores, a Mitchell
Energy, no entanto, “(...) needed to find a new source of natural gas supply and had the
financial resources and the technical capability” (WANG; XUE, 2014, p. 4).
O cenário se transformou no momento em que as tecnologias desenvolvidas pela
Mitchell Energy se consolidaram. Afinal, diminuiu-se radicalmente o custo de operação dos
poços e aumentou-se a atratividade econômica dessa atividade. A partir de 2000, essas novas
perspectivas para a produção de shale gas definiram a fase denominada shale boom e criaram
novos espaços de acumulação para mais agentes. Nessa fase, a porcentagem de “infrequent
drillers” (aqueles que exploram no máximo 5 poços de shale gas com técnicas modernas) no
total de empresas ficou em torno de 30% ao longo dos anos 2000s (chegaram a atingir 40%
em 2005). Por esse motivo, a participação das quatro maiores empresas caiu sensivelmente
no mesmo período.
A presença de muitas empresas é explicada pela diminuição das barreiras à
entrada e também porque, com a disseminação da tecnologia de fraturamento, é possível
arrendar uma porção de terra e contratar serviços de perfuração de outras empresas nos EUA.
Portanto, a presença dos “infrequent drillers” diz também respeito às operações de
especulação com o arrendamento de terras (arrendar a terra a baixo preço e repassar o lease
a maior preço) e não propriamente à produção sustentada de shale gas. Para manter o
arrendamento, as empresas precisam perfurar apenas um poço por terra arrendada.
Conforme atestam os autores, pode haver um número alto empresas investidoras nas áreas
de shale (interessadas na especulação com o preço dos arrendamentos) e não
necessariamente muitas empresas produtoras de shale gas em alto volume. Assim, o número
elevado de empresas de pequeno porte se deve à legislação que permite aos donos de terra
a propriedade dos recursos minerais em seu subsolo. Ao final, os autores sugerem que, por
ser essa uma exclusividade dos EUA, essa estrutura de mercado mais pulverizada não deve ser
observável em outros países que venham a se dedicar a essa atividade no início da prospecção
das áreas, de alto risco.
167

Wang e Xue (2014) consideram que a atividade de shale gas, mesmo com as
descobertas tecnológicas de perfuração já disseminadas nos EUA, permanece como uma
atividade arriscada uma vez que as características geológicas das formações rochosas de shale
de cada país são distintas e exigem muitos investimentos, tornando, portanto, uma atividade
não acessível a pequenas empresas. De fato, a presença de grandes empresas em outros
países em que as bacias de shale estão sendo exploradas é marcante desde o início, por
exemplo a Chevron na Argentina e CNPC (China National Petroleum Corporation) e BP na
China.
Os autores também mostram que há uma alta concentração da produção de shale
gas das áreas de extração moderna nas quatro maiores empresas (Chesapeake Energy, Devon
Energy, XTO Energy e Southwestern Energy) em termos de exploração. Entre 1982 e 2012,
essas empresas perfuraram 39% do total de poços. As 30 maiores empresas exploraram 77%
do total. Dessas 30 empresas, 27 são empresas independentes de exploração e produção de
gás e óleo e 3 são empresas integradas (Shell, Chevron e ExxonMobil). A XTO Energy é uma
empresa da ExxonMobil, fruto de uma fusão dessas duas empresas ocorridas em 2010. No seu
site (EXXONMOBIL, 2017c), a ExxonMobil, via XTO Energy, relata ser proprietária da maior
reserva de gás natural dos EUA e a maior produtora desse recurso nesse país. Relata também
que sua principal atividade nas formações tight e de shale está na extração de gás natural,
embora também produzam óleo bruto dessas formações. Em ExxonMobil (2014), a empresa
registra que a XTO tem presença em todas grandes bacias de extração não convencional nos
EUA e se situa entre os cinco maiores arrendatários desse país.
Hauter (2016) registra que, em busca de capital, muitas empresas das áreas de
shale gas nos EUA realizaram joint-ventures com empresas estrangeiras, como as empresas
chinesas, sul-coreanas e espanholas. A Devon Energy, uma das principais empresas de
extração de shale gas e “a maior companhia petrolífera sediada em Oklahoma e uma das
maiores empresas de óleo e gás dos EUA” (HAUTER, 2016, p. 97) realizou em 2012 um contrato
de joint-venture com uma subsidiária da Sinopec103, maior empresa chinesa de óleo e gás e
petroquímicos com quase mais de 800 mil empregados e receita anual de US$ 294 bilhões
(FORTUNE, 2016).

103
“Sinopec is investing $2.2 billion, underwriting Devon´s costs for drilling, in exchange for 30 percent
ownership in Devon´s 1.4 million acres of holdings in five plays: the Mississipian Lime, Tuscaloosa Marine Shale,
Niobrara, Ohio Utica Shale, and Michigan Basin.” (HAUTER, 2016, p. 97).
168

De acordo com Hauter (2016), os elevados preços do gás natural nos EUA e a frouxidão
do ambiente regulatório permitiram às empresas independentes atuarem na atividade de
shale gas e crescerem. Como a autora relata, os altos preços serviram também para viabilizar
permanentes financiamentos e captação de recursos no mercado financeiro. Para a Mitchell
Energy, por exemplo, Hauter (2016, p. 91) cita a subscrição em 1987 do Goldman Sachs e First
Boston de US$250 milhões em dívida privada e, dois anos depois o First Boston emitiu outros
US$200 milhões. Em 1993, a empresa levantou mais US$123 milhões oferecendo ações. A
imponente expansão da empresa esteve ancorada em alto endividamento.
Atribuindo menor importância ao papel desempenhado pelas empresas de pequeno
porte de extração de petróleo, Wang e Krupnick (2013) oferecem uma informação relevante
quanto à estrutura de mercado no início das atividades de shale gas. Segundo os autores, a
empresa pioneira Mitchell Energy deve ser considerada pequena se comparada com as “major
international oil and gas companies”, mas é considerada grande perante as pequenas
empresas independentes produtoras de gás nos EUA. Os autores enfatizam que as pequenas
empresas independentes não tinham capacidade de operar nos estágios iniciais de
investimento dessa atividade, uma das mais intensivas em capital. Além disso, os autores
afirmam:
“Indeed, it was large independent natural gas firms (e.g., Mitchell Energy,
Devon Energy, and Republic Energy) that made large amounts of
investments in the early stage of shale gas development, and the United
States has a considerable number of large independent natural gas firms”
(WANG; KRUPNICK, 2013, p. 30).

Os autores também atribuem importância grande para o sucesso da Mitchell


Energy a contribuição das empresas de serviços (de equipamentos) nas atividades de extração
de óleo e gás, algumas das quais são empresas de grande porte.
Sernovitz (2016, p. 23) reforça o fato de que a Mitchell Energy não era uma
empresa pequena, no sentido que tenha enfrentado restrições de capital. Afinal, foram muitos
anos de tentativas para extrair gás das rochas de shale sem sucesso. Com muitos recursos
financeiros e uma boa dose de teimosia e otimismo do dono da empresa é que o autor explica
o experimento bem-sucedido em Barnett Shale em 1998. Além disso, como mostrou Hauter
(2016), George Mitchell era muito influente. Contraiu muitas dívidas para a exploração de gás
natural nas décadas de 1970 e 1980, mas foi muito beneficiado com o aumento dos preços do
gás provocado por suas próprias ações para a desregulamentação do mercado de gás e de
169

energia elétrica. Essa alta dos preços, além de elevar suas receitas correntes, reduzia as taxas
de juros e de captação de recursos dessa empresa.
A abundância monetária também foi uma das marcas da atuação da Chesapeake,
fundada e liderada por Aubrey McClendon104, uma das principais empresas que operaram no
início e foram responsáveis pelo boom na atividade de shale gas. Sernovitz (2016, p. 36)
menciona que McClendon ficou conhecido por ser o Steve Jobs da revolução do shale.
No entanto, essa empresa se transformou em uma das maiores empresas de shale
gas nos EUA105, não pela inovação tecnológica e sim pela engenhosidade financeira. Quando
percebeu a oportunidade dada pelos altos preços do gás natural nos EUA, Chesapeake passou
a comprar tudo o que era e o que podia ser relacionado a gás natural (de shale
principalmente): empresas, propriedades e leases, recebendo dos bancos a denominação
“compradora em última instância”. Em 2005, foram US$ 10 bilhões, e em 2006, 2007 e 2008,
mais US$ 15 bilhões em aquisições no setor por essa empresa (SERNOVITZ, 2016).
Para obter tantos recursos, o mercado financeiro estadunidense, sua imensa
liquidez e suas inovações em produtos foram essenciais:
“By Aubrey´s charms, Chesapeake raised the necessary capital through a
tangle of old-fashioned ways (issuing new stock, taking on new debt early,
often, and enthusiastically) and new-fashioned ways (foreign joint venture
partners, getting “carried” on capital spending by other oil companies,
subsdiary preferred shares, and clever structures like volumetric
production payments.” (SERNOVITZ, 2016, p. 38).

A força de expansão da Chesapeake e de outras independentes que avançaram


muito na exploração de shale gas nos anos 2000s encontrou um obstáculo na eclosão da crise
hipotecária em 2008. O valor das ações das empresas mais endividadas caiu radicalmente e
alguns canais de financiamento secaram para os investimentos mais arriscados. Mas, com a
recuperação do preço do óleo, mesmo que o preço do gás não tenha aumentado, Sernovitz

104
Esse empresário, que chegou a ficar bilionário com as atividades de shale gas, morreu em 2 de março de 2015,
em um acidente de carro, cujas causas permanecem desconhecidas, mas não se descarta a possibilidade de
suicídio. Alguns dias antes do acidente, McClendon havia sido acusado pela Justiça dos EUA por ter realizado um
conluio com uma outra empresa, dirigida por um ex-sócio na Chesapeake, de não participarem de leases nas
mesmas áreas a fim de manterem os preços baixos. Após a compra por uma empresa, a outra teria participação
na operação. No dia seguinte em que McClendon morreu, a acusação foi retirada, embora autoridades tenham
dito que manteriam as investigações sobre o setor. Além dessa ação anti-truste, o empresário, que já tinha saído
da presidência da Chesapeake por denúncias de manipulação financeira em proveito próprio, já não conseguia
mais levantar fundos para a empresa nova que tinha sido aberta por ele e seus ativos pessoais já estavam sendo
oferecidos como garantias nas tentativas de empréstimos (SHIFFMAN; GROW; FLAHERTY, 2016).
105
Em 2005, Chesapeake era a segunda maior produtora de gás natural nos EUA, atrás apenas de ExxonMobil
(SHIFFMAN; GROW; FLAHERTY, 2016).
170

(2016) afirma que 18 meses depois de setembro de 2008, o mercado financeiro voltou a bem
receber o setor petrolífero.
Esse período de consolidação da atividade de shale gas (2008-2014) nos EUA é
marcado pelas aquisições de fatias das empresas independentes e de pequeno e médio porte
pelas majors e super majors do setor petrolífero. Nas Tabelas 23 e 24, percebem-se como
compradoras nos anos de 2010 e 2011 nas regiões de Marcellus e Utica as empresas Chevron,
Royal Dutch Shell, Statoil, ExxonMobil e Total.

Tabela 23 – EUA: lista das 10 maiores empresas em vendas e compras de ativos na formação
geológica de Marcellus, em milhões de US$, 2010-2011
Valor Valor
10 maiores empresas das 10 maiores empresas das
vendedoras vendas compradoras compras
Atlas Energy 5.999 Chevron 6.475
East Resources 4.700 Royal Dutch Shell 4.700
Chesapeake Energy 4.654 Statoil 4.383
Dominion 4.022 Consol 3.570
Consol 3.612 Noble Energy 3.419
Chief Oil & Gas; Tug Hill 2.465 ExxonMobil 2.290
Phillips Resources; TWP 1.690 Reliance 2.091
Anadarko Petroleum 1.400 Mitsui 1.400
Exco Resources 950 BG 950
Anschutz Exploration 850 Chesapeake Energy 950
Fonte: Energy Intelligence (2015, p. 9).

Em Utica, os valores envolvidos nas transações são bem menores do que os


verificados em Marcellus, em função do maior potencial de produção da segunda região com
relação à primeira. Talvez seja por conta dos baixos valores e da menor atratividade de Utica
que as grandes empresas petrolíferas atuaram com menos intensidade.
A entrada das majors na exploração de hidrocarbonetos nas áreas não-convencionais
on-shore nos EUA é tida por Sernovitz (2016) como inevitável e seria a prova inconteste dos
altos rendimentos que se podem auferir com investimentos nessas áreas. Para o autor, o
símbolo dessa participação que se fez obrigatória foi a compra da XTO pela ExxonMobil.
“This was a colossal bet on the U.S. onshore by Big Oil incarnate, the tallest
heir of John D. Rockefeller himself, a company as famous for its arrogance
as for its competence, a company that did not easily admit that anything
not invented at ExxonMobil had any worth at all. Yet ExxonMobil was
preceded and followed by other international oil companies, in
transactions that made and lost money (sometimes dramatically so) but
done with the same belief that U.S. oil and gas basins were now some of
the best on Earth.” (SERNOVITZ, 2016, p. 59).
171

Nas palavras de Rex W. Tillerson106, à época chairman e CEO da ExxonMobil, durante


o anúncio da fusão com a XTO:
“XTO is a leading U.S. unconventional natural gas producer, with an
outstanding resource base, strong technical expertise and highly skilled
employees. XTO’s strengths, together with ExxonMobil’s advanced R&D
and operational capabilities, global scale and financial capacity, should
enable development of additional supplies of unconventional oil and gas
resources, benefiting consumers both here in the United States and around
the world.” (EXXXONMOBIL, 2009).

Tabela 24 – EUA: lista das 10 maiores empresas em vendas e compras de ativos na formação
geológica de Utica, em milhões de US$, 2010-2011
Valor Valor
das das
10 maiores vendedoras vendas 10 maiores compradoras compras
Chesapeake Energy 2.630 Total 2.325
Hess 924 American Energy Partners 1.517
Marquette Exploration 750 Hess 1.343
The Oxford Oil Company 653 Gulfport Energy 983
Consol 593 Eclipse Resources 653
Windsor Ohio 592 EnerVest 358
EnerVest; EV Energy Partners 574 Antero Resources 352
Royal Dutch Shell 309 BP 328
Rhino Resources Partners 205 Halcon Resources 207
NCL Appalachian Partners 164 Magnum Hunter Resources 167
Fonte: Energy Intelligence (2015, p. 9).

Além da ExxonMobil, cabe registrar que a maioria das grandes empresas


industriais também já está envolvida com o mercado criado pela exploração de shale gas. Uma
análise realizada pela PwC (2014) com base nos relatórios anuais das empresas abertas
manufatureiras nos EUA demonstra a percepção de ganhos das empresas auferidos em função
do desenvolvimento de shale gas naquele território. A cada ano que passa, aumenta a
divulgação dessa atividade nos relatórios das empresas (15 em 2010 e 40 em 2013). Em 2013,
21 empresas citaram o shale gas como fonte importante para a demanda de seus produtos e
19 empresas relataram ser esse recurso importante para redução de custos de matéria-prima
e de energia. Os principais beneficiários da redução do custo de energia (pelo uso do gás
natural) são os setores químico e siderúrgico, altamente intensivos em energia.
Hauter (2016) lista as maiores empresas de fracking em 2014 na produção
estadunidense de óleo e gás, sendo elas, na ordem de importância no volume produzido:

106
Em 2016, Rex Tillerson foi nomeado Secretário de Estado dos EUA, no governo de Donald Trump.
172

ExxonMobil, Anadarko, ConocoPhillips, Chesapeake, Chevron, BP, Devon Energy, EOG


Resources, Shell, Southwest Energy, Occidental Petroleum e Apache Corp. Com menor
importância, são citadas: Cabot, Statoil, Marathon, EQT Corporation, Pioneer Natural
Resources, Range Resources, Hess Corp, Noble Energy, Talisman Energy, Continental, WPX,
Antero Resources, Cimarex, Whiting Petroleum e Total.
A lista mostra que não se pode dizer que a produção é monopolizada, mas, se pode
afirmar que as maiores empresas petrolíferas do mundo são componentes importantes dessa
indústria de exploração de gás e óleo em áreas não convencionais dos EUA e que não puderam
se dar ao luxo de ficar de fora dessa nova área de produção de hidrocarbonetos nesse país,
seja em função da rentabilidade que se poderia usufruir, seja pela apropriação das reservas
provadas dessas áreas que passam a ser registradas como ativos.
A análise da estrutura de mercado de shale gas nos EUA chama atenção para o
movimento de concentração de mercado após a queda drástica do preço dos hidrocarbonetos
de 2008 em diante. Com a dificuldade de renovar os financiamentos e empréstimos, as
empresas independentes de pequeno e médio porte, embora presentes na fase de expansão
da atividade nos EUA, tiveram seus ativos adquiridos na sua totalidade ou parcialmente pelas
grandes empresas, sejam as integradas, sejam as grandes independentes. O estrangulamento
financeiro, se foi fatal a várias pequenas empresas independentes, não foi suficiente para
abater as grandes corporações petrolíferas que, mesmo no período de baixos preços,
avançaram sobre os ativos e áreas de exploração de shale gas nos EUA.

2.4.2. A importância do financiamento

Neste subitem, o objetivo é apresentar a relação que existe entre o nascimento e


consolidação das atividades produtivas e de comercialização do shale gas e o setor financeiro
nos EUA. O vínculo do financiamento com a atividade de shale gas está dado desde sua
origem, embora tenha se reforçado após a crise de 2008 e ganhado novas características com
a queda dos preços dos combustíveis fósseis a partir de 2014-2015.
Condições favoráveis de financiamento são consideradas essenciais tanto para o
processo inicial da inovação (principalmente, para aquelas que representam radical ruptura
com padrões anteriores) como para a sobrevivência prolongada de empresas em novos
espaços de acumulação (nos quais a percepção de incerteza é alta). Conforme ressaltado por
Mazzucato (2013), o processo de seleção da concorrência é resultado tanto do que ocorre no
173

mercado de produtos quanto nos mercados financeiros, “geralmente conflitantes” (p. 02).
Sobre isso, baseando-se em Dosi (1990107), a autora adiciona: “Indeed, the financial structure
of the economy (e.g. credit based versus debt based) will determine the speed and the
pressures felt in selection processes, and affect diferent opportunities for learning and
acquiring capabilites.” (MAZZUCATO, 2013, p. 3).
As especificidades do mercado financeiro, bem como as políticas monetária,
industrial, fiscal e tributária nos EUA parecem ter sido fundamentais para a explicação do
financiamento das atividades de shale gas, tanto para sua emergência no momento das
inovações mais radicais quanto no momento de consolidação do setor.
No próximo item, apresentam-se os fatores que explicam os elevados níveis
estruturais (em oposição a uma mera conjuntura) de endividamento das empresas que
exploram shale gas (e também tight oil) nos EUA, sobretudo as de médio porte cujos
rendimentos próprios não são capazes de sustentar o elevado número de leasing, de novas
perfurações e os retornos rapidamente decrescentes.

2.4.2.1. Preço de breakeven e queda rápida dos rendimentos dos poços

No que toca às condições de manutenção de rentabilidade do “negócio” do shale


gas é importante ressaltar a ligação que sempre existiu entre o crescimento de sua produção
nos EUA e o seu preço.
Como se observa no Gráfico 46, os preços do gás natural (medido pelo Henry
Hub108) se apresentaram em um patamar acima de US$ 5/MBtu de 2003 a 2009, com alguns
picos espantosos de US$ 13 e US$ 12/MBtu em outubro de 2005 e junho de 2008. Mesmo
com alguns períodos de diminuição acentuada dos preços após esses picos, a média do preço
do gás natural nos EUA foi de US$ 6,05 entre janeiro de 2000 e dezembro de 2008 e foi de US$
3,88/MBtu no período entre janeiro de 2009 e dezembro de 2014, refletindo a desaceleração
da economia estadunidense após a crise financeira que eclodiu em 2008.

107
In DOSI, Giovanni. Finance, innovation and industrial change. Journal of Economic Behavior and Organization,
v. 13, n. 3, p. 299-319, June 1990.
108
O Henry Hub está localizado no estado de Luisiana e serve de ponto de convergência de nove gasodutos
interestaduais e quatro intraestaduais. O preço do gás comercializado lá serve de referência primária para os
contratos futuros de gás natural comercializados na NYMEX (HAUTER, 2016, p. 181).
174

Gráfico 46 – EUA: preço spot do gás natural (Henry Hub), em US$/MBtu, jan 1997-jun 2017

16
out-2005; 13,4
14
jun-2008; 12,7
12
US$ /Milhões de Btu

10
dez-2000; 8,9
8

2 dez-1998; 1,7 abr-2012; 2,0

0 mar-2016; 1,7

nov-2009
set-2000

jul-2002

set-2011

jul-2013
ago-2001

jun-2003

ago-2012

jun-2014
nov-1998

mai-2004

mar-2006

mai-2015
fev-2007

mar-2017
out-1999

out-2010
jan-1997
dez-1997

jan-2008
dez-2008
abr-2005

abr-2016
Fonte: Adaptado de Thompson Reuters via EIA (2017i).

Tabela 25 – EUA: média do preço spot do gás natural Henry Hub, em US$/MBtu, 1997-2016
Década Ano-0 Ano-1 Ano-2 Ano-3 Ano-4 Ano-5 Ano-6 Ano-7 Ano-8 Ano-9
1990 2,5 2,1 2,3
2000 4,3 4,0 3,4 5,5 5,9 8,7 6,7 7,0 8,9 3,9
2010 4,4 4,0 2,8 3,7 4,4 2,6 2,5
Fonte: Adaptado de Thompson Reuters via EIA (2017i).

Assim, se o desenvolvimento tecnológico para a extração de shale gas não foi


realizado com um cenário de preços favoráveis (vide média de preços entre 1997 e 1999,
Tabela 25), o grande salto da produção do gás natural só pode ser avaliado tendo em conta os
altos valores que vigiram principalmente entre 2003 e 2008, essenciais para a formação de
caixa das empresas e para ampliação de sua capacidade de endividamento, viabilizando a
entrada de empresas de médio porte em uma atividade intensiva em capital. No entanto,
sabendo-se que o crescimento vertiginoso da produção ocorreu após 2010, não são os altos
preços que explicam essa trajetória e sim a exorbitante liquidez que caracterizou o mercado
financeiro dos EUA com a política de relaxamento monetário quantitativo e significativos
ganhos de produtividade que permitiram reduzir o ponto de breakeven da atividade.
As bacias de shale gas possuem especificidades geológicas que determinam
diferentes custos de extração, diferentes rendimentos em termos de volume obtido na
extração nos primeiros meses e ao longo do tempo e, portanto, diferentes rentabilidades
nessa atividade extrativa.
175

A rentabilidade também está relacionada aos diferentes hidrocarbonetos que


podem ser extraídos de uma determinada bacia geológica. Algumas são regiões em que
predominam formações rochosas de onde se retira predominantemente o gás seco (metano),
outras podem produzir alta quantidade dos líquidos de gás natural (etano, propano, butano e
pentano). Há também aquelas regiões de onde se extrai predominantemente o óleo.
Enquanto os preços do petróleo estão altos, ficam mais rentáveis os poços e as
áreas de shale ricos em LGNs, como Marcellus e Utica Shales. A lucratividade dos poços de gás
seco aumenta quando os preços do petróleo diminuem (alguma quantidade de LGN é até
descartada, ou entra na corrente de gás, pois fica inviável extraí-los e vendê-los
separadamente do metano (ENERGY INTELLIGENCE, 2015).
Uma outra característica a ser ressaltada nas operações de shale gas é a rápida
queda dos rendimentos dos poços já no segundo ano de operação. De acordo com Simão
(2014), além da baixa permeabilidade das rochas de shale, outra diferença entre essas e as
áreas convencionais de exploração é que uma parte do gás armazenado nas rochas está livre
e a outra adsorvida. No primeiro ano de operação o gás livre é totalmente extraído (entre 70
a 90% do total), restando apenas para os anos seguintes o gás adsorvido na rocha, que flui
lentamente. O acelerado decréscimo de produção dos poços de shale gas é ilustrado no
Gráfico 47. Em termos econômicos, isso significa que muitos poços têm que ser
continuamente perfurados para manter o fluxo de caixa (ainda mais se os preços do gás
caírem) ou a capacidade de produção da empresa produtora.

Gráfico 47 – Taxa média de produção de áreas de exploração de shale gas nos EUA, em milhões de
metros cúbicos, por ano de atividade do poço

Fonte: Simão (2014, p. 23).


176

A necessidade de realização contínua de novas perfurações para manter o nível


de produção, de caixa e a permanência de refinanciamentos determina um alto volume de
gastos com capital (expresso em inglês pela sigla CAPEX - capital expenditure, ou despesas
com capital). Afinal, cada novo poço exige equipamentos para a limpeza e preparação do
terreno e, principalmente, para a perfuração e desenvolvimento do poço. Assim, a exploração
de shale gas ou tight oil, em função desse rápido esgotamento de cada área explorada, é mais
intensiva em capital do que a exploração de óleo e gás de áreas convencionais
(proporcionalmente ao tamanho da operação).
Para a perfuração frequente de novos poços, assim como em outros momentos
de descoberta de petróleo nos EUA, deu-se início a uma corrida pelo arrendamento das terras
nas áreas liberadas para a exploração de óleo e gás com o fraturamento hidráulico. Isso
porque os direitos da propriedade mineral nesse país são dos proprietários da terra onde se
localizam, no subsolo, os elementos que podem ser extraídos e comercializados. Entram nessa
categoria, o óleo, gás e água, por exemplo. Esses proprietários podem arrendar o subsolo de
suas terras e, assim, as empresas arrendatárias ganham o direito, por um tempo (tempo do
lease) de exploração. Os proprietários das terras recebem pagamentos pelo leasing e royalties
de acordo com a produção.
A legislação que incide sobre a propriedade da terra é, inclusive, permissiva com
a exploração mineral nos quintais das residências e nos meios urbanos. Como ressalta Russell
(2014):
“If wells weren´t allowed wtihin a mile of the nearest home, United States
oil and gas output would very likely be declining. But that isn´t the path
we´ve chosen. The country and its courts long ago decided that unfettering
drillers provided desirable rewards. Some homeowners would be
compensated for their troublesome new neighbors; others weren´t so
fortunate. This arrangement is being tested in the era of fracking.”
(RUSSELL, 2014, p. 19)

Simão (2014) ressalta que a produção de shale gas foi beneficiada também pelo
fato de que as formações de shale ficam majoritariamente em terras privadas e não federais.
Nas terras privadas, as negociações são mais fáceis de serem realizadas109.

109
Sernovitz (2016) argumenta que, se por um lado, alguns proprietários entram na categoria NIMBY (“Not In
My Backyard”) e aumentam a pressão para a proibição da atividade exploratória em alguma região, por outro
lado, o sucesso do arrendamento de terras e, portanto, a permissão para a exploração de óleo e gás deve-se à
existência de proprietários que, em função da alta renda a ser auferida pelo arrendamento, fazem parte da
categoria YIMBY (“Yes In My Backyard”). Na Inglaterra, por exemplo, não há a categoria YIMBY porque as leis de
177

A corrida pelo arrendamento de terras com a permissividade da legislação dos EUA


resultou em sobreinvestimento e lease de áreas não rentáveis. Isso porque os arrendamentos
eram realizados sem que as empresas soubessem com precisão a qualidade do subsolo que
seria perfurado pois, no início, o mais importante era se apropriar das reservas de shale. Por
esse motivo, muitos leases mostraram-se um mau negócio para as empresas, porque muito
se pagou às famílias proprietárias e, ao final, os rendimentos da extração se mostraram baixos
quando a exploração iniciou ou porque sequer houve exploração (SERNOVITZ, 2016).
Os EUA sempre apresentaram um número de equipamentos de exploração de
óleo e gás bem maior do que o de outros países produtores, pelo seu pioneirismo e pela
estrutura de mercado e natureza das atividades de exploração de petróleo e gás. No Gráfico
48, se observa a superioridade em número desses equipamentos desse país com relação aos
demais. Em 2015, o mundo apresentava 2.337 plataformas ativas e os EUA detinham 41,8%
(977). No ano anterior, a participação era de 52% (1.862). A região do Oriente Médio inteira
mostrava 406 equipamentos ativos e, a América Latina, outra região grande produtora,
contava com 319 equipamentos em 2015.

Gráfico 48 – EUA: contagem de plataformas (rig count) petrolíferas, 2000-2015


4000

3500

3000

1862
2500 1875 1919 1761
1878
1648 1767 1541
2000 1380

1190 977
1086
1155 1032
1500 916 355 380
831 423 365
379 351 254 193
458 470 344 246
221 241 220
1000 369 256
342 372 252 269
344 266 241 243 372 406
225 228 291 356
197 280 265 406
157 171 177 265 252
140 230 248 238
500 179 201 211
156

316 324 355 384 356 383 424 423 419 397 319
227 262 214 244 290
0
2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2013 2014 2015

América Latina Europa África Oriente Médio Ásia Pacífico Canadá EUA

Fonte: Adaptado de Baker Hughes (2017).

acesso aos recursos no subsolo são diferentes. Embora haja promessas das autoridades públicas inglesas de que
a localidade receberá parte da renda da extração, os ganhos para as pessoas são indiretos e os motivos para
pertencer apenas à categoria NIMBY são muito maiores.
178

EUA e Canadá, juntos, são indiscutivelmente os mercados mais importantes para


os produtores de equipamentos para prospecção, perfuração, exploração e desenvolvimento
dos poços de petróleo e gás. Não por outro motivo, duas das três maiores empresas do mundo
em fabricação de equipamentos e prestação de serviços para a indústria petrolífera são de
origem estadunidense, sediadas em Houston, Texas: Halliburton e Baker Hughes110.
A rápida queda do rendimento dos poços de shale tem sido chamada de
“calcanhar de Aquiles” da indústria, em função de seus impactos sobre a produção, fluxo de
caixa e necessidade de altos e frequentes gastos com capital e, portanto, de financiamento.
Tendo isso em conta, é evidente que muita atenção e esforços das empresas estão sendo
destinados a essa importante fragilidade técnica da atividade de fracking. Recente pesquisa
nos poços de shale oil detectou uma diminuição importante no ritmo de queda do rendimento
do segundo para o quarto mês de exploração do poço. A queda que chegou a ser de 30% em
2012, diminuiu para 16-18% em 2015, nos poços pesquisados nas bases de Permian e Bakken,
ou seja, o rendimento médio dos poços de shale está aumentando (SCHEYDER; WADE, 2016).

Gráfico 49 – EUA: produtividade dos poços de óleo que utilizam fraturamento hidráulico, por mês de
produção

Fonte: Scheyder e Wade (2016).

110
Ainda em aprovação pelas autoridades públicas nos EUA, Baker Hughes deve ser incorporada ao
departamento de óleo e gás da General Eletric. Juntas, formando uma empresa de US$ 32 bilhões, elas devem
ultrapassar a Halliburton, número 2 no setor de equipamentos e serviços para E&P e se aproximarem da líder do
setor, a empresa Schlumberger (CLOUGH, 2016).
179

Com a diminuição substantiva de preços do gás natural que prosseguiu até o


momento atual (meados de 2017), sob pressão financeira e tendo como participantes desse
mercado super majors e empresas independentes de grande porte, o aumento da
produtividade de fato ocorreu de maneira significativa. No Gráfico 50, pode-se notar o
aumento contínuo da produtividade (production per rig) na região de Marcellus.
Os ganhos de produtividade também podem ser visualizados a partir do Gráfico
51, em que se observam a redução drástica do número de equipamentos na produção de gás
natural dos EUA (o número de equipamentos de perfuração ativos alcançou 1.600 em 2008 e
encontra-se abaixo de 200 em 2016) e um volume de produção de gás natural que resiste a
diminuir na mesma proporção da quantidade de máquinas, denotando, portanto, a elevação
da produtividade da atividade extrativa.

Gráfico 50 – EUA, Região de Marcellus: produção de gás natural total e por equipamento (rig), em
milhares de pés cúbicos por dia, janeiro de 2007 - julho de 2017

25.000.000 16.000

Produção por equipamento (milhares de


Produção total (milhares de pés cúbicos

14.000
20.000.000
12.000
10.000 pés cúbicos por dia)
15.000.000
8.000
por dia)

10.000.000 6.000
4.000
5.000.000
2.000
- -
Sep-08

Sep-13
Jul-09

Jul-14
Jan-07

Jan-12

Jan-17
Mar-11

Mar-16
Nov-07

Nov-12
May-10

May-15

Produção total Produção por equipamento (rig)

Fonte: Adaptado de EIA (2017h).

De acordo com Energy Intelligence (2015, p. 52), as empresas estão conseguindo


aumentar a produção com preços que variam entre US$ 2,50 e US$3,00 por milhões de Btu
(em 2008, os produtores estimavam que o preço mínimo para uma produção rentável seria
US$7,00 MBtu) na medida em que se acumula a experiência na perfuração e produção dos
poços de shale contribuindo para a diminuição dos custos totais de produção e, portanto, para
a queda do preço de break-even.
180

Gráfico 51 – EUA: produção de gás natural, em bilhões de metros cúbicos por dia, e contagem de
equipamentos, 2005-2016

Fonte: EIA (2016g).

Segundo Sernovitz (2016), a indústria aprendeu a extrair gás natural das


formações de shale com preços baixos. Evidentemente que esse “aprendizado” está associado
aos ganhos constantes de produtividade a partir dos avanços tecnológicos no setor, para os
quais o setor fornecedor de equipamentos contribuiu sobremaneira. De acordo com o autor
(p. 53):
“The average well in the Marcellus Shale in 2013 will extract four times the
gas over its lifetime as the average well in the same play in 2009 and
seventeen times more than the average well in 2007. New techniques like
pad drilling, in which a rig drills six to seven – sometimes more – wells in
multiple directions from a single location instead of moving each time a
well is needed, are driving costs down even further”

A diminuição dos custos de produção pode ser observada no Gráfico 52 com a


redução substantiva do preço de breakeven dos poços de shale. O valor que chegou a alcançar
US$ 100 o barril em Permian Midland em 2013, se reduz a US$40,00 o barril de óleo
equivalente em 2016 nessa e nas demais regiões.
181

Gráfico 52 – EUA: preços de breakeven baseado no preço do barril de óleo equivalente, por áreas de
shale produtoras de gás e óleo, 2013-2016

Fonte: Gopinath (2016).

No próximo item, observa-se que as condições de financiamento das empresas de


shale foram essenciais para a permanência das atividades produtivas, mesmo considerando
os ganhos de produtividade das empresas.

2.4.2.2. Arranjo estabelecido entre “Shale World” e Wall Street: liquidez abundante e
necessidade do comércio externo

A abertura de novas áreas de produção, com a consequente necessidade de


contínuos investimentos em novos poços, e a redução dos preços do gás natural tornaram a
relação das empresas produtoras em áreas não convencionais e o mercado financeiro
obrigatória. A presença de Wall Street para a explicação do fenômeno do “Shale Revolution”
é, portanto, fundamental.
Sernovitz, analista do mercado de óleo e gás, define a abundância de dinheiro nos
EUA como um dos fatores explicativos para o boom de shale gas desde meados dos anos 2000,
antes da crise de 2008:
“Luckily in the mid-2000s, America was flush with money for new wells. The
stock market, bond market, and commercial banks were providing capital
to E&P companies. Private energy investors like us were willing to take
risks. Beginning in 2005, we started investing in companies targeting
unconventional gas, including shales. In 2007, we invested in a tight oil play
in West Texas that would, over time, become a shale play more valuable
than we could have ever modeled” (SERNOVITZ, 2016, p. 42).

A relação entre o nascimento e consolidação do shale gas nos EUA e o mercado


financeiro se revela intensa o suficiente para que pesquisadores e analistas tenham apontado
182

para a formação de uma “bolha”, pronta para estourar, uma vez que as transações de
empréstimos foram realizadas em bases muito frágeis.
Rogers (2013) denuncia essa suspeita relação entre o mercado financeiro e a
indústria de exploração e produção de gás concentrada nas áreas de shale. Segundo a autora,
os bancos conseguiriam saber que o rápido crescimento da produção do gás natural produziria
um excesso do produto, levando aos baixos preços. Sabiam também que a alavancagem
financeira das empresas de exploração e produção de gás era muito alta e dependente de
recorrentes empréstimos e de altos preços. Mas, ainda assim, o sistema financeiro
permaneceu sustentando um clima de entusiasmo com o shale gas (“shale gas frenzy”) para
que os empréstimos não cessassem e as empresas pudessem, com a sustentação do fluxo de
caixa (com exploração de novos poços), pagar pelo menos o serviço de seu elevado estoque
de dívidas.
A campanha publicitária em torno do “negócio” do shale gas, realizada pelo
mercado financeiro, colocou os holofotes nos altos preços do gás natural em 2008 (que
alcançou US$13,00/mcf sendo que a média histórica era de US$5-6/mcf), afirmando que
aquele era um novo patamar normal de preços. O resultado da intensa propaganda foi o
volume imenso de empréstimos às empresas que, de acordo com os novos preços, iriam
usufruir de receitas altamente promissoras nos anos seguintes (ROGERS, 2013).
As imagens promovidas por Wall Street para esse novo “produto” não eram
condizentes com os números e resultados que, de fato, emergiam dos campos de operação.
E nem poderiam, pois, a tecnologia ainda estava sendo testada, as diferenças nas formações
de shale ainda estavam sendo exploradas e, portanto, não havia nada de definitivo para
embasar os relatórios que tinham que ser divulgados a investidores. Além disso,
propositalmente ou não, autoridades estaduais enviavam dados de desempenho dos poços
com significativo atraso. Como explica Rogers (2013, p. 8):
“It wasn't until Q3 of 2009 that enough production history on shale wells in
the Barnett had been filed with the Texas Railroad Commission that well
performance could be checked. What emerged was significantly different
from the operators’ original rosy projections.
(...) The issue of well performance disclosure has continued to mask
problems in shale production. States such as Pennsylvania and Ohio do not
release well performance data on a timely basis, which makes it very
difficult to get a true picture of actual well history”
183

Mas, nesse caso, “juntou-se a fome com a vontade comer”, e os investidores


cegamente (com alta dose de intencionalidade na cegueira) aceitaram as imagens e os
discursos entusiasmados com relação a esses empreendimentos “revolucionários” nos EUA e
permaneceram financiando-os.
A autora mostra ainda que a falta de transparência, em comunhão com a
ignorância dos analistas em temas complexos (como a dinâmica da indústria do gás natural),
também marcou as inovações financeiras (ou manobras contábeis) destinadas ao
financiamento das empresas de shale, nos mesmos moldes em que foram realizados os
financiamentos do setor imobiliário antes de 2008.
“As prices plunged, Wall Street began executing deals to spin assets of
troubled shale companies off to larger players in the industry. Such deals
deteriorated only months later, resulting in massive write-downs in shale
assets. In addition, the banks were instrumental in crafting convoluted
financial products such as VPP's (volumetric production payments); and
despite of the obvious lack of sophisticated knowledge by many of these
investors about the intricacies and risks of shale production, these products
were subsequently sold to investors such as pension funds. Further, leases
were bundled and flipped on unproved shale fields in much the same way
as mortgage-backed securities had been bundled and sold on questionable
underlying mortgage assets prior to the economic downturn of 2007”
(ROGERS, 2013, p. 1).

Com a queda dos preços e a exposição da situação financeira muito ruim de


algumas empresas, o mercado financeiro continuou com o apoio, mas agora na forma de
empréstimos às operações de fusões e aquisições e na venda dos títulos de dívida a outros
tipos de investidores. Citando um relatório da KPMG, a autora apresenta os valores das
operações de fusões e aquisições que ocorreram entre empresas que operavam na atividade
de shale gas: US$50 bilhões em 2009, US$ 38 bilhões em 2010 e US$ 47 bilhões em 2011 (p.
13). Também ressalta que nesse período empresas estrangeiras aparecem como
compradoras. Citam-se operações de compra da CNOOC, da Korea National Oil Corporation e
da BHP Billiton.
O grau de alavancagem financeira já era alto desde o início da atividade em função
da especificidade técnica da exploração de shale gas. Pode-se dizer, no entanto, que esse alto
endividamento se estendeu no tempo (quando não, se transformou em venda de ativos)
quando as empresas voltaram a usufruir da alta liquidez do setor financeiro estadunidense
promovida pelas baixas taxas de juros e pelo programa de “quantitative easing” (BULLIO,
2015).
184

No período entre 2008, o crash, e 2014, de acordo com Sernovitz (2016, p. 49), o
capital voltou a fluir para as empresas de óleo e gás nos EUA, que voltaram a ser “one of the
most popular kids in town”. Como esse período foi marcado pela entrada das grandes
empresas via aquisições, o autor afirma que: “(...) the U.S. shale revolution transformed from
a collection of plays in out-of-the way places into the defining force of the global oil and gas
industry.” (p. 49).
No Gráfico 53, ilustra-se a elevação do valor da captação de recursos das empresas
desse setor, seja por venda de ações, seja por dívida. De acordo com Loder, Olson e Kopecki
(2015), as empresas produtoras nos campos de shale levantaram no mercado de capitais US$
44 bilhões em títulos e venda de ações no 1º semestre de 2015. A consequência do
endividamento se revela no alto pagamento de juros. Loder (2015) ilustra esse
estrangulamento financeiro das empresas citando que as despesas financeiras da Continental
Resources apresentaram o mesmo valor das da ExxonMobil, uma empresa 20 vezes maior.
A reportagem de Loder, Olson e Kopecki (2015) também mostra, com um
exemplo, a complacência do sistema financeiro para permanecer com os empréstimos a
empresas claramente com problemas financeiros:
“Halcon Resources Corp. almost ran into trouble with its banks in June
2013. And again in March 2014. And in February 2015.
Each time, the shale driller came close to violating debt limits set by its
lenders, endangering a credit line that provided as much as $1.05 billion in
much-needed cash. Each time, Halcon’s banks, led by JPMorgan Chase &
Co. and Wells Fargo & Co., loosened their restrictions, allowing Halcon to
keep borrowing”.

Gráfico 53 – EUA: formas de captação de recursos pelos shale drillers, 1º semestre de 2007-
1º.semestre de 2015

Fonte: Loder, Olson e Kopecki (2015).


185

Por outro lado, em função de regras de exposição a crédito mais severas ao


sistema bancário estadunidense após a deflagração do crash hipotecário de 2008, houve
também uma tentativa de diminuição do volume de empréstimos às empresas de óleo e gás
no período de baixos preços. Butt (2016) relata a presença de fundos de investimentos
alternativos (hedge funds e buyout firms) avançando sobre o financiamento às empresas de
óleo e gás, pela flexibilidade relativamente maior que possuem, uma vez que não estão
sujeitos às avaliações atuais mais rigorosas dos reguladores ao sistema bancário nos EUA.
O Gráfico 54 exibe a mudança de composição do fluxo de caixa das empresas de
petróleo on shore. Pode-se notar a redução importante na tomada de dívida, e aumento da
entrada de recursos por venda de ativos e por emissão de ações. De acordo com Gopinath
(2016), essas duas últimas formas de captação de recursos em 2015 e 2016 foram utilizadas
para financiar operações correntes e não para novas áreas de exploração e produção.
A alta sensibilidade do mercado de crédito dos EUA às mudanças de preços do
óleo e gás e a resposta rápida das empresas em termos de novos investimentos explica a alta
elasticidade da oferta de óleo e gás nos EUA. O crédito aumenta rápido com elevações de
preços pois o valor das reservas provadas das empresas cresce, oferecendo uma maior base
de garantia para a renovação dos empréstimos (GOPINATH, 2016).
Vale ressaltar, no entanto, que entre 2015 e 2017, a recuperação do preço do óleo
foi muito mais expressiva do que a do gás natural nos EUA. Com a manutenção dos preços
baixos do gás natural, uma das opções para elevar a rentabilidade das operações de shale gas
é o seu direcionamento para os mercados externos, via transporte de GNL.

Gráfico 54 – EUA: itens do fluxo de caixa das empresas de petróleo onshore, em bilhões de dólares,
anualizados, 2012-2016

Fonte: EIA (2016h).


186

Rogers (2013) elenca o afrouxamento da legislação estadunidense para


exportação de combustíveis como uma das provas da fragilidade sobre a qual se assenta a
complexa estrutura produtiva e financeira das empresas de shale. Após a queda de preços e
o excesso de oferta, as exportações passaram a ser peças cruciais para ampliar as perspectivas
de estabilidade no faturamento e continuidade dos financiamentos.
De fato, a permissão111 para exportação112 parece fazer diferença no grau de
atratividade e viabilidade econômica das operações de exploração do shale gas e das
atividades correlatas (sobretudo aquelas que necessitam da garantia do fornecimento
contínuo do gás, como as empresas de gasoduto e que usam o gás como matéria-prima).
Afinal, a entrada dos mercados externos modifica o cálculo da taxa de retorno para esse setor
pois diminui os custos de estocagem – uma vez que o gás será escoado para outros mercados
– e aumenta o preço médio das operações, dado que os compradores estrangeiros oferecem
preços maiores.
O problema apontado pela autora é que, nesse cenário, a exportação pode ocorrer
em prejuízo do dinamismo das vendas para o mercado interno estadunidense e não apenas
para complementá-las. O intuito da autora não parece ser o de mostrar que as exportações
poderão provocar escassez de gás natural no território dos EUA, mas sim o de mostrar a falácia
do discurso das autoridades públicas, das empresas e de suas organizações de que os
incentivos ao shale gas visam exclusivamente a reindustrialização, a geração de empregos e a
segurança energética dos EUA.
“It is, therefore, imperative to take a dispassionate view of this industry.
Platform rhetoric about energy independence is nonsense as most within
the industry realize. Further, oil and gas companies are not in business to
steward the environment, save the family farm or pull depressed areas out
of economic decline. If these things should by chance happen, they are
merely peripheral to the primary mission of the companies and certainly
were never considered in corporate exploration and production plans”
(ROGERS, 2013, p. 5).

Rosenberg (2014), em contrapartida, argumenta que, apesar de poder haver


aumentos nos preços internos do gás natural nos EUA, as exportações (que oferecem preços

111
As exportações e importações de gás natural nos EUA são regidas pelo Natural Gas Act de 1938 que obriga as
empresas a pedirem autorizações para o Departamento de Energia para realizar uma ou as duas dessas
operações (U.S. Department of Energy – DOE, 2017).
112
Nos EUA, é o Departamento de Energia (DOE) que aprova a construção e operação de terminais de exportação
de GNL para países fora dos tratados de livre comércio (HAUTER, 2016).
187

bem maiores) são importantes para a viabilidade do shale gas e, portanto, ao invés de
aumentar, contribuem para preços menores de gás natural no longo prazo do que haveria na
ausência dessa atividade113.
Hauter (2016) destaca que os advogados da indústria do gás nos EUA, com a
necessidade de exportação do gás natural para a viabilidade financeira da atividade, mudaram
seus argumentos. Ao invés de enaltecerem a capacidade do gás natural de trazerem segurança
energética aos EUA, passaram a defender as exportações desse recurso energético como
forma de evitar as fortes oscilações de preço e, no longo prazo, assegurar a oferta de gás aos
residentes do país.
A primeira exportação de gás natural (GNL) para a Europa ocorreu em abril de
2016 e foi realizada por Cheniere Energy com sua planta de liquefação Sabine Pass114. Com a
possibilidade de uso do Canal do Panamá, a primeira exportação para Ásia ocorreu em agosto
de 2016 e seu anúncio foi celebrado, uma vez que essa região constitui o maior mercado para
GNL. A expectativa é que essas vendas aumentem sobremaneira com a expansão do Canal
(WEBER; MALIK, 2016).
Entre março e novembro de 2016 foram registrados cinco navios com cargas de
GNL para países do Oriente Médio (Emirados Árabes Unidos, Jordânia e Kwait), conforme se
observa no Quadro 2, mostrando a expansão comercial dos EUA até mesmo para países com
grandes reservas de gás natural ou próximos a países com importantes produção e reserva.

113
Rosenberg (2014) vai além e propõe ao final de seu relatório que políticos nos EUA acabem também com a
proibição às exportações de petróleo. Para justificar, utiliza o argumento de política externa contra os “abusos”
da Rússia e OPEP, a saber: “Oil exports might also reduce the effectiveness of attempts by other producers, like
Russia or OPEC, to exert new price-increasing cartel dynamics” (p. 31).
114
Sabine Pass era, originalmente, uma estrutura portuária para a importação de GNL. Em 2008, no ano do início
de suas atividades para importação, Cheniere estava com US$ 2 bilhões em dívida e ainda encarava a eclosão da
crise financeira e o boom do shale gas cuja oferta abundante tornava desnecessária a importação de gás.
Segundo Hauter (2016, p. 178), com importante apoio do governo Obama nas mudanças regulatórias de
comércio exterior do setor e com aporte de mais US$ 7 bilhões dos investidores financeiros, Cheniere conseguiu
reverter o malogro que seria Sabine Pass ao transformá-la em uma estrutura para a exportação de GNL.
188

Quadro 2 – EUA: preço das exportações de gás natural liquefeito do Terminal de Sabine Pass para o
Oriente Médio, em US$ por milhões de Btu (MBtu), 2016
Data de
saída País de destino Preço (FOB)
28/03/2016 Emirados Árabes Unidos 3,95
10/05/2016 Kuwait 3,12
18/07/2016 Jordânia 5,60
01/09/2016 Kuwait 5,32
11/09/2016 Jordânia 5,53
Fonte: Adaptado de Krane (2016).

Enquanto os preços de exportações para esses países alcançavam valores entre


US$3,12 e US$5,60 MBtu, nos EUA, conforme já apresentado, o preço do gás natural na
cotação Henry Hub rondava o patamar de US$ 2,00 a US$2,50 MBtu.
A projeção do relatório da Energy Intelligence (2015), baseado na capacidade das
plantas de liquefação que estão sendo construídas ou já estão em operação, é a de que os
EUA vão se posicionar entre os primeiros do mundo na exportação de GNL até 2020. Segundo
sua pesquisa, nesse ano, haverá uma capacidade de GNL de 11,9 bilhões de pés cúbicos por
dia, potencialmente 1,5 bpc maior do que a do Catar, maior exportador atualmente.
De acordo com Hauter (2016, p. 172), em dezembro de 2015, o DOE já havia
expedido 16 aprovações para projetos de exportações de gás para países fora dos acordos de
livre comércio. O volume de gás desses projetos equivaleu a 20% da demanda doméstica
estadunidense. Considerando as aprovações de exportação para todos os países, atingiu-se
um volume que representou 60% da produção dos EUA de gás natural. Os bilhões de dólares
“afundados” na construção dessa infraestrutura (plantas de GNL, estações de compressão do
gás, gasodutos e outras atividades especializadas e voltadas para a exportação do GNL), de
acordo com a autora, determinam que, pelo menos nos 30 anos a seguir, prossiga-se a
exploração de shale gas nos EUA para que o retorno desses investimentos ocorra. Dessa
forma, a infraestrutura para a exportação (bem como para a distribuição interna nos EUA)
amarra o presente ao futuro e obriga a continuidade das atividades de shale gas, sob pena de
grande estrago financeiro generalizado.
As exportações possuem uma função financeira – no que se refere à capacidade
de os mercados externos elevarem a rentabilidade e a segurança dos novos projetos de shale
gas (portanto, a manutenção de permanentes financiamentos) – mas também cumprem uma
função geopolítica. Sobre isso, vale ressaltar que as restrições sobre as exportações de óleo
189

cru também foram removidas nos EUA, em dezembro de 2015. Até esse período, as
exportações desse hidrocarboneto ocorriam praticamente apenas para o Canadá. Segundo
EIA (2017j), após o fim das restrições em 2015, os EUA já exportaram petróleo para 26 países.
Assim, tanto para óleo como para o gás, os Estados Unidos passam da posição de importador
para a de exportador, alterando as relações geoeconômicas e geopolíticas.

2.5. Shale gas como elemento gerador de mudanças geopolíticas

Ao fenômeno do shale gas, autores atribuem importantes alterações no cenário


geopolítico mundial. Medlock III, Jaffe e Hartley (2011) são categóricos em relatar as
mudanças positivas, do ponto de vista dos EUA, sobre a geopolítica mundial, no tocante à
diminuição do poder dos “petro-states” com o desenvolvimento das atividades de fracking
nos EUA.
A diminuição ou eliminação da necessidade dos EUA de importar gás natural (ou
a possibilidade de exportar) determina importante redução de poder da Rússia sobre os países
europeus. Isso porque os países exportadores de GNL do Oriente Médio e da Ásia perdem seu
mercado nos EUA e direcionam seus esforços de venda aos países importadores da Europa
Ocidental. A expectativa desses autores é de que os avanços tecnológicos que possibilitam a
prospecção e a exploração de gás nos EUA também sejam disseminados a outros países com
reservas de shale gas, reduzindo ainda mais a influência da Rússia e de países da OPEP sobre
a determinação do preço e acesso aos combustíveis fósseis.
Os autores citam como exemplo de impactos positivos já concretizados o fato de
que a Rússia foi obrigada a vender gás à Europa a preços menores e indexados ao mercado
spot ou a hubs regionais e desconectados do preço do óleo. Essa mudança nos contratos de
gás negociados entre Rússia e Europa significa, segundo os autores, “uma alteração grandiosa
de paradigma” (MEDLOCK II; JAFFE; HARTLEY, 2011, p. 11).
Yergin (2014) cita o shale gas nos EUA para mostrar a força que inovações
tecnológicas possuem para alterar o equilíbrio econômico e geopolítico no mundo. Como um
dos exemplos das mudanças ocorridas desde o início do boom nos anos 2000s, o autor
menciona a infraestrutura de importação de GNL que estava sendo montada nos EUA, mas
que agora se volta para exportações de gás e líquidos de gás à Europa, dado que não há mais
necessidade desse tipo de importação naquele país. A ampliação das exportações de GNL dos
190

EUA para Europa tende a estreitar o espaço para os tradicionais exportadores de gás para esse
mercado, Rússia e Noruega.
Talvez o maior efeito do ponto de vista geopolítico da “Revolução do Shale” só
possa ser visualizado por meio do segmento produtor de óleo115. Como já analisado aqui, a
tecnologia de fraturamento horizontal foi, após ser aplicada na exploração do gás, utilizada
para a perfuração e extração de óleo nas áreas onshore nos EUA. Entre 2011 e 2014, a
produção de óleo nesse país cresceu 14%, em média, ao ano e o inseriu como maior produtor
mundial. De uma maneira sintética, com o incremento excepcional partindo dos EUA (com
promessas políticas de que esse país migrava à autossuficiência energética), conjugado à
contenção do crescimento da demanda mundial e à recusa da Arábia Saudita em reduzir sua
produção, o preço do petróleo caiu drasticamente, de mais de US$ 100,00 em 2014 para
US$46,00 em 2016, com passagem no patamar de US$ 20-30 o barril no início de 2015 (Gráfico
4).
Sernovitz (2016) faz uma breve reflexão sobre quais poderiam ser algumas das
consequências para os EUA na ausência da “Frack Revolution”, citando que uma delas, na sua
visão, seria a ampliação do poder da Rússia, Irã e de outros países do Oriente Médio.
“Yet when I see a billboard like the one put up by Yoko Ono and Sean
Lennon asking New York City drivers to “Imagine there´s no fracking”, I
cringe. That´s because I imagine it. If the U.S. shale revolution hadn´t
happened, oil and gas prices would probably be triple what they are today,
the United States might, like Europe, still be feebly climbling out of the
global recession, our trade balance would be weaker, the dolar in the pits,
American coal consumption and carbon emissions would be increasing, the
Canadian oil sands would be the dominant source of new North American
oil, poor people throughout the world would have less access to energy,
the power of Putin and Middle Eastern monarchies would be dangerously
magnified, and thriving Iran would be in a much better position to laugh off
attempts to limit its quest foi nuclear bombs.” (SERNOVITZ, 2016, p. 9).

Para além do efeito nos preços, há implicações sobre o fato dos EUA diminuírem
os volumes importados de óleo e de gás de alguns de seus tradicionais parceiros comerciais,
como a África e o Oriente Médio, no caso do óleo. De acordo com Rosenberg (2014), o óleo
exportado pelos países da África é do tipo leve, mais parecido com os acréscimos do óleo
bruto e outros líquidos que estão sendo extraídos das regiões de shale. Portanto, esses países

115
Rosenberg (2014) ressalta essa importância relativamente maior no setor produtor de óleo para as mudanças
mundiais e justifica: “The changes are more significant for oil than for natural gas because of the large, globally
integrated nature of the oil market and the relative ease of transporting oil” (p. 6).
191

estão sendo obrigados a encontrar outros pontos para exportação. O óleo do Oriente Médio
é mais apropriado para as refinarias estadunidenses e a importação desses países não caiu
muito (até que as refinarias sejam capazes de processar diferentes tipos de óleo), mas já há
um deslocamento importante das exportações de óleo do Oriente Médio para áreas
importadoras mais dinâmicas, como a China.
Esse deslocamento dos fluxos e contratos de comércio de óleo em direção à Ásia,
segundo a autora, traz efeitos positivos, pois torna os EUA menos dependentes do Oriente
Médio, mas define um traço novo na qualidade do comércio internacional, que é a
intensificação das relações comerciais e de investimentos em toda a cadeia petrolífera e
petroquímica entre países que possuem governos fortes e centralizadores, aumentando as
negociações fora das referências de mercado e distorcendo os preços.
Outra consequência apontada pela autora é a possibilidade de manutenção de
preços baixos do petróleo por tempo prolongado116, trazendo perdas para a produção
estadunidense. Esse cenário só ocorreria se a OPEP não aceitar cortar a produção (ou seja,
não aceitar perder market-share), se a produção de países que estava paralisada (Irã, Líbia e
Iraque) voltar a subir e se nenhum movimento disruptivo novo ocorrer no mercado do
petróleo. A produção de shale oil dos EUA significaria um grande teste para a OPEP e sua
capacidade de manter a coesão interna.
Além disso, a produção dos EUA também obriga os países exportadores
acostumados a contratos com preços favoráveis a se adaptarem a uma nova situação de
preços menores. Isso porque a produção estadunidense se mostrou bastante elástica,
tornando baixa a chance de os preços do óleo voltarem ao patamar de US$100,00.
De acordo com Rosenberg (2014), essa nova condição de baixos preços do
petróleo traz impactos para a capacidade de gastos dos governos dos produtores de petróleo,
para a obtenção de divisas e para a realização de novos projetos de investimentos com custos
de extração mais altos. A perda de força econômica desses países afetará a sustentação
política de seus governos e também o seu raio de ação político-militar regional, em função da
diminuição dos valores para apoiar e ajudar os países aliados e da proximidade.
Os EUA ainda se beneficiam com o avanço da atividade extrativa não-convencional
dos hidrocarbonetos em função do acúmulo de suas reservas estratégicas (SPR, Strategic

116
Rosenberg (2014) realiza sua análise antes do movimento de redução drástica dos preços do petróleo.
192

Petroleum Reserves) que podem ser usadas num bloqueio comercial extraordinário a um
aliado, a fim de aliviar a restrição energética ao aliado e conter essa tentativa de países rivais.
Sobre a SPR, Rosenberg propõe que haja uma ação coordenada dos países importadores para
aumentarem sua SPR e utilizá-la para evitar novos choques de preços de petróleo ou só sua
ameaça. Grandes volumes de reservas em diversos países aliados e uma gestão conjunta
poderiam substituir, em alguns casos, ações militares, uma vez que cortes de fluxos de energia
(ou só ameaça) vindos de países não aliados deixam de ser viáveis com várias reservas que
podem ser compartilhadas nesses momentos. Essa seria uma forma de prolongar os ganhos
geopolíticos do shale oil, mesmo quando essa produção findar.
Enfim, esses dois relatórios citados são bastante entusiastas da atividade de
exploração de poços não convencionais nos EUA. Para seus autores, os ganhos geopolíticos
são evidentes uma vez que fortalecem a posição estadunidense e enfraquecem seus
adversários históricos (Rússia e Cuba117, por exemplo) e os considerados “perigosos e
instáveis”, como os países da OPEP118. Portanto, ao final, ambos propõem total apoio do
governo federal e dos estados (principalmente os produtores) e do legislativo para que se
estendam no tempo os efeitos positivos da elevada produção de hidrocarbonetos nos EUA.
Nas palavras de Rosenberg (2014):
“Creating the market conditions necessary to sustain and expand the boom
should be a priority for economic and political leaders, both to increase
revenue and to enable stronger, more assertive U.S. foreign policy and
military leadership. To accomplish this, leaders must embrace pro-
manufacturing policies, relatively unencumbered energy exports and
relatively free trade in energy.” (ROSENBERG, 2014, p. 31).
(...)This could be accomplished through favorable tax and permitting terms
and private sector partnerships. It would attract gas-intensive industries,
such as petrochemical and fertilizer production, to the United States,
create jobs, enhance the balance of payments and boost U.S. economic
competitiveness.” (ROSENBERG, 2014, p. 34).

Ramognet (2015) insere a China como epicentro na relação entre geopolítica e a


importância dos hidrocarbonetos não convencionais nos EUA. Para esse autor, o presidente

117
Os reflexos sobre Cuba se dão em função da situação econômica extremamente complicada em que se
encontra a Venezuela, país que mais deve ter colaborado nos anos recentes para o provimento a baixo preço de
combustível à ilha.
118
Segue proposta de Rosenberg (2014) para esses países: “To achieve strategic and political aims with regard
to adversarial petro-state actors, the United States can highlight poor fiscal management in these states and
adopt punitive, coercive measures, such as energy sanctions, to exacerbate their economic problems and popular
dissent” (p. 33).
193

Obama elegeu a China como único país com poder para contestar a hegemonia
estadunidense. Assim, para lograr focar seus esforços militares e diplomáticos na Ásia, era
necessário retirar-se ou reduzir substancialmente suas ações no Oriente Médio. Segundo o
autor, enquanto permaneceram os altos preços do petróleo, Washington pôde por em marcha
a saída dos conflitos do Oriente Médio (retirada das tropas do Iraque e Afeganistão, acordo
nuclear com o Irã e pressão para Israel estabelecer acordo com a Palestina, etc.). Essa retirada
não agradou os sauditas, principalmente pelo avanço das forças xiitas do Irã, e determinou a
mudança radical da Arábia Saudita sobre o controle dos preços, provocando a sua drástica
diminuição e colocando em risco a produção de hidrocarbonetos não convencionais. Com isso,
Ragmonet (2015) não arrisca determinar se a estratégia dos EUA – apoiada pela produção e
exportação de hidrocarbonetos – será bem-sucedida para os próximos anos, a depender da
longevidade dos preços baixos. O autor pergunta:
“Estas novas circunstâncias obrigam Barack Obama a reconsiderar os seus
planos. A crise do fracking poderia representar o fim da auto-suficiência de
energia fóssil nos Estados Unidos e, portanto, o regresso à dependência do
Oriente Médio (também da Venezuela, por exemplo). Por agora, Riad
parece ter ganho a aposta. Até quando?”.

O apoio pregresso do governo estadunidense recebido pelos setores produtores


de óleo e gás nos EUA para que a “Revolução do Shale” pudesse ter ocorrido na abertura do
século XXI é analisado no próximo item.

2.6. Shale gas e política industrial nos EUA

“And ironically, one of the governments that has had the most ‘visible hand’
in innovation policy, investing in key areas, providing both research funding
as well as early stage capital financing, has been the US government.”
(MAZZUCATO, 2013, p. 6).

O fenômeno do shale gas está na sua origem associado à evolução tecnológica do


setor petrolífero e, como será apresentado neste item, as novas tecnologias responsáveis pela
“Revolução do Shale”, por sua vez, são indissociáveis do apoio do governo estadunidense.
O shale gas é, inclusive, utilizado como exemplo por Mariana Mazzucato para
ilustrar um dos campos de ação, nos EUA, do “Estado empreendedor”, ainda que, como
ressalta a autora, esse deva ser pensado como um exemplo de direcionamento errado dos
194

recursos públicos119, em função dos impactos negativos sobre o meio-ambiente a partir da


nova tecnologia que só emergiu com as diversas formas de apoio e incentivo do Estado.
Mazzucato (2015) apresenta algumas ações típicas de governo que atuam
ativamente na promoção do desenvolvimento tecnológico, a saber, participação na criação de
uma rede de atores públicos e privados descentralizados, provimento de financiamento nos
momentos iniciais da exploração tecnológica e fornecimento de tratamento tributário
favorável e diferenciado aos produtores. Como será visto no próximo subitem, o Estado norte-
americano utilizou-se dessas e outras ações (por exemplo, a pesquisa realizada em
laboratórios públicos mostrou-se essencial também) para o desenvolvimento de tecnologias
que foram fundamentais para o sucesso do shale boom. Com isso, o movimento de crowding-
in, isto é, o investimento e esforços públicos que abrem espaços novos para a atuação do setor
privado (MAZZUCATO, 2015), parece fazer muito sentido para os produtores de gás nos EUA.

2.6.1. Política tecnológica para a indústria petrolífera: intensificação a partir dos anos
1970

A tecnologia revolucionária que mais chama atenção no shale gas é a do


fraturamento hidráulico. Os equipamentos de fraturamento já eram utilizados nas bacias
convencionais (de calcário e de arenito) de gás, mas não permitiam a extração de gás das
bacias de shale, que têm alta porosidade, mas baixa permeabilidade. Ademais, a tecnologia
antiga de obtenção de imagens também não era suficiente para inspecionar as camadas de
shale. Como apontam Shellenberger et al. (2012, p. 5): “Significant basic research was needed
to understand shale geology before technical applications could be fully commercialized to
capture the natural gas resources locked inside.”.
Shellenberger et al. (2012) são uma referência importante para descrever essa
conexão entre as tecnologias que deram viabilidade à exploração rentável do shale gas e os
programas de incentivo à pesquisa do governo estadunidense. Na realidade, segundo os

119
Afinal, de acordo com a autora, as inovações a serem promovidas pelos recursos públicos devem gerar um
crescimento econômico mais “inteligente, inclusivo e sustentável” (MAZZUCATO, 2015, p. 2). Em outro trabalho,
ao propor a necessidade de que o direcionamento dos recursos públicos deva ser debatido com a sociedade, a
autora afirma: “This is especially important in the development of today´s ´green´ renewable energy sector, where
public sector actors should be resisting the pressures by the big energy companies to continue within a fossil fuel
trajectory. Instead, recent developments (mainly but not only in the United States), whereby the state has been
the lead actor in promoting the shale gas (fossil fuel) revolution, go against this suggestion” (MAZZUCATO, 2013,
p. 7).
195

autores, vale apontar que dois conjuntos de atores se destacam para o surgimento dessas
novas tecnologias, o setor público e o setor privado, em conjunto, mas com a força da inicativa
e dos recursos monetários do primeiro120. O apoio do governo federal com pesquisa básica e
aplicada, incentivos fiscais e compartilhamento de custos de pesquisa com as empresas
mostraram-se essenciais para que a prospecção, exploração e produção de shale gas
pudessem ocorrer com custos que viabilizassem a atividade.
As justificativas para os programas de P&D criados pelo governo dos EUA iniciados
na década de 1970 assentavam-se no fato de que a apropriabilidade das inovações
tecnológicas para extração de gás e óleo é baixa pois estas são de difícil patenteamento ou
licenciamento. Considerava-se também que havia uma disputa no direcionamento dos
investimentos das grandes empresas de petróleo entre as fontes convencionais e não
convencionais e que as empresas dariam preferências para as primeiras. Portanto, a pesquisa
para fontes não-convencionais teria que contar com os aportes e participação dos programas
públicos.
Ao mesmo tempo, os programas, para serem elaborados e postos em prática,
contavam com a justificativa da segurança energética do território estadunidense. Para o
direcionamento de recursos públicos para pesquisas e incentivos à produção de gás em
campos não-convencionais, apresentava-se como pano de fundo a severa escassez de gás que
ocorreu nos EUA na década de 1970 e, de uma maneira mais ampla, os choques do petróleo
que detonaram uma crise energética no âmbito mundial, mas com mais fortes restrições sobre
o consumo estadunidense (em função do embargo e do alto consumo de óleo desse país).
As atenções logo se voltaram para as reservas de recursos fósseis não-
convencionais que não eram acessíveis ao estado tecnológico daquele momento. Passaram a
ser foco os depósitos de coalbed methane, gás natural de tight sands e shale gas
(SHELLENBERGER et al., 2012).
A busca de soluções que diminuíssem a dependência externa de obtenção de
energia passou pela criação em 1974 da Energy Research and Development Administration
(ERDA) e, em 1977, do Departamento de Energia (DOE) que abrigou as atribuições do ERDA.

120
Como exemplo, Shellenberger et al. (2012) registram que uma tecnologia pioneira (perfuração com broca de
diamante) foi fruto de uma parceria entre a General Eletric e a Energy Research and Development Administration
–ERDA.
196

Segundo os registros de Wang e Krupnick (2013), entre 1973 e 1976, o orçamento federal para
pesquisa em energia, inclusive de combustíveis fósseis, cresceu consideravelmente:
“In October 1977, DOE was created to consolidate in one agency the
responsibilities for energy policy and R&D programs, including those of
ERDA and the energy-related responsibilities of the US Departments of
Agriculture, Commerce, Housing and Urban Development, and
Transportation (..). The budget for energy research, especially for fossil
energy programs, significantly increased. NETL (2010, p. 255) notes that
“between 1973 and 1976, total federal spending on energy research more
than doubled, and the fossil-energy component increased more than
tenfold from 1974 ($143 million) to 1979 ($1.41 billion)” (WANG;
KRUPNICK, 2013, p. 7).

Com a mesma perspectiva que Shellenberger et al. (2012), para Wang e Krupnick
(2013), vários fatores colaboraram para a emergência e desenvolvimento das atividades
produtivas de shale gas, mas o principal foram as inovações tecnológicas que tornaram
economicamente viável a exploração do shale gas. Para tanto, os laboratórios públicos de
pesquisa tiveram papel ativo.
Em 1976, o Morgantown Energy Research Center (MERC121) e o Bureau of Mines
criaram um programa de grande contribuição para as novas tecnologias, o Eastern Gas Shales
Project, que reunia universidades e empresas da Pensilvânia e West Virginia para
experimentos conjuntos. Shellenberger et al. (2012) registram a atuação da MERC e sua
contribuição para o desenvolvimento da perfuração horizontal, patenteada por dois de seus
engenheiros.
Antes ainda, entre 1967 e 1969, um experimento importante foi realizado pela
Comissão de Energia Atômica nos EUA nas rochas de shale. Embora a tecnologia atômica
tenha sido considerada perigosa para extração de gás, esse experimento trouxe resultados
considerados bastante positivos pois mostrou que, de alguma forma, era possível tirar o gás
preso nas rochas de shale (NORDHAUS; SHELLENBERGER, 2012)122.

121
O MERC corresponde ao atual National Energy Techonology Laboratory (NETL), integrante do DOE. Segundo
a instituição, os objetivos de suas pesquisas são: “Enabling domestic coal, natural gas, and oil to economically
power our Nation’s homes, industries, businesses, and transportation” e “Protecting our environment and
enhancing our energy Independence” (NETL, 2017).
122 Sobre esse tipo de intervenção pública e suas consequências, vale registrar uma declaração de Bill Gates: “A

key element to get an energy breakthrough is more basic research. And that requires the government to take the
lead. Only when that research is pointing towards a product then we can expect the private sector to kick in (BILL
GATES, apud MAZZUCATO, 2015, p. 11).
197

Vários laboratórios federais participaram de projetos envolvendo


aprimoramentos tecnológicos para o shale gas. A tecnologia de mapeamentos microssísmicos
em 3D, por exemplo, fundamental para a prospecção de gás nas rochas de shale, foi
desenvolvida por Sandia National Laboratories, originalmente para o uso em minas de carvão
(SHELLENBERGER et al., 2012). De acordo com os autores, sem essa tecnologia de imagens
para a prospecção, outros esforços de pesquisa, público ou privados, para a exploração do
shale gas poderiam ter se tornado infrutíferos.
Os programas federais de P&D eram direcionados para as bacias de shale de
Devonian e Marcellus. Mas, em Barnett, a Mitchell Energy realizava seus esforços internos de
pesquisa para dimensionar a tecnologia de fraturamento hidráulico para bacias de shale.
Antes do sucesso dessa empresa na extração de shale gas, Shellenberger et al. (2012)
lembram que uma parceria do setor privado com o Department of Energy (DOE) realizou
demonstrações com o fraturamento horizontal na bacia de Devonian em 1986.
Em 1998, Mitchell Energy realizou uma inovação essencial para aumentar a
produtividade (denominada ´slick water fracturing’ ou ‘light sand fracking´). Segundo os
autores, esse novo procedimento é considerado um marco para a indústria e importante para
determinar a elevada competitividade que se mostraria nos anos seguintes.
Antes da experiência exitosa da Mitchell Energy em 1998, Nordhaus e
Shellenberger (2012) registram que essa empresa demandou ajuda da Gas Research Institute
(GRI)123 e dos laboratórios federais. O Sandia National Laboratory forneceu os equipamentos
e pessoas para a investigação sismológica do terreno para o experimento Mitchell. Só depois
dessas interações das empresas com essas instituições é que o “código do shale gas pôde ser
finalmente quebrado.” (NORDHAUS; SHELLENBERGER, 2012).
A despeito dos elevados investimentos da Mitchell Energy e a persistência de seu
proprietário e seus funcionários para a viabilização da extração de gás nas rochas de shale,
SHELLENBERGER et al. (2012, p. 11) argumentam que a contribuição dos programas públicos

123
O Gas Research Institute foi criado pela Federal Energy Regulatory Commission (FERC) e era uma associação
entre os laboratórios de pesquisa do Departamento de Energia e a indústria do gás natural. Seu financiamento
provinha de um imposto sobre a produção de gás natural (SHELLENBERGER; NORDHAUS, 2011). De acordo com
Nordhaus e Shellenberger (2012) essa configuração jurídica mostrou-se interessante para a geração de inovações
no shale gas e deveria ser copiada para a promoção de pesquisa nas “energias verdes”. A sua vantagem consistia
na forte representatividade do setor privado e no seu isolamento das decisões do Congresso e da burocracia
federal. “Federal investments in applied research and demonstration of new green energy projects ought to be
similarly insulated from political meddling and rent seeking”.
198

de incentivo fiscal (Seção 29) e dos relacionados ao desenvolvimento tecnológico do governo


estadunidense é responsável pela amplificação dos efeitos da pesquisa privada em shale gas
e para a sua comercialização.
As tecnologias advindas dos programas públicos foram inicialmente utilizadas nas
bacias de Appalachian e de Michigan, cuja produção de shale gas, após atingir um
determinado nível, estagnou-se. No entanto, a produção que, de fato, inaugurou o shale gas
boom estava baseada no Bacia de Barnett, onde operava a Mitchell Energy.
Ao invés de usar essa informação como prova inconteste da superioridade do
investimento privado com relação ao público, Shellenberger et al. (2012) mostram que essa
empresa tinha capacidade própria de financiamento no estágio inicial por ser de grande porte,
e, logo depois, pôde associar sua rentabilidade à apropriação de uma quase-renda não-
operacional derivada dos ganhos de arbitragem com o arrendamento de grandes extensões
de terra. De acordo com os autores, esses ganhos de compra e venda do arrendamento de
terras compensam a dificuldade de “monetizar a maior parte das inovações tecnológicas e
conhecimentos na indústria” (p. 11).
Para Shellenberger et al. (2012), a prova de que o apoio dos programas federais
de P&D, os incentivos fiscais do governo dos EUA, e a lei sobre a propriedade de terras foram
essenciais para ativar, estimular e complementar os esforços privados é o fato de que em
outros países, que também possuem reservatórios de shale gas e empresas tradicionais do
setor de óleo e gás, mas onde não se observaram essas condições favoráveis à extração de
shale gas, a produção dessa fonte não convencional não se estabeleceu. Para além dos
programas direcionados às fontes não-convencionais, também se ressalta o ostensivo gasto
público estadunidense em pesquisa básica, cujos resultados se espraiaram a vários setores.
“Technologies like diamond-studded drill bits and microseismic imaging
were developed by federal agencies for non-shale applications,
demonstrating the clear and present value of publicly-funded basic
research.” (SHELLENBERGER et al., 2012, p. 10).

Como relatam Nordhaus e Shellenberger (2012), os analistas conservadores


argumentam que as políticas dos anos 1970 não foram importantes para o surgimento dessa
nova frente de exploração de hidrocarbonetos nos anos 2000. Segundo esses, o fracking já
existia em fins do século XIX e o fraturamento hidráulico em 1940. No entanto, Nordhaus e
Shellenberger (2012) advogam que a complexidade das tecnologias adotadas no século XXI é
199

muito maior do que as existentes no início do século anterior, até porque o uso inicial do
fraturamento hidráulico era realizado em formações de limestone, muito diferentes das
características geológicas das rochas de shale. Para essas últimas, foram necessários muito
mais água, areia, químicos e pressão, além do direcionamento horizontal de vastas distâncias.
“But dismissing the importance of federal support for new shale gas
technologies in the ’70s and ‘80s because private firms had succeeded in
fracking for oil in the ’40s and ’50s is like suggesting that postwar military
investments in jet engines were unnecessary because the Wright Brothers
invented the propeller plane in 1903.” (NORDHAUS; SHELLENBERGER,
2012).

A importância que teve o apoio da pesquisa pública para o sucesso da extração de


shale gas foi registrada até mesmo pelos representantes da indústria de óleo e gás. O próprio
George Mitchell, na década de 1980 em face dos baixos preços de óleo e gás, lutou
politicamente para que não zerassem os recursos públicos para pesquisas em áreas de
exploração não-convencionais (NORDHAUS; SHELLENBERGER, 2012).
Se o surgimento de tecnologia para o início das operações em campos não-
convencionais de gás não pode ser dissociado do forte apoio de programas públicos, a
evolução tecnológica posterior no setor também não pode.
Em 2005, houve um marco importante para o desenvolvimento da indústria de
gás natural nos EUA: a promulgação do Energy Policy Act. A partir dele, a Research Partnership
to Secure Energy for America (RPSEA), sob um contrato com o National Energy Technology
Laboratory (NETL) do Department of Energy (DOE) ficou designada para gerenciar projetos de
pesquisa financiados com recursos federais para o desenvolvimento de fontes energéticas no
território estadunidense em três áreas: Ultra-Deepwater Program (com orçamento de
US$17,5 milhões), Unconventional Resources Program (com US$16,25 milhões) e Small
Producer Program (com US$3,75 milhões de orçamento). Segundo consta nos relatórios
anuais da RPSEA, o orçamento anual gerido pela instituição é de US$ 50 milhões, que começa
a ser ativado em 2007 e segue até 2013 (embora ainda haja projetos em andamento).
A RPSEA funciona como uma instituição que busca reunir e integrar universidade,
empresa e setor público para a busca da diminuição da dependência energética dos EUA124.

124
“RPSEA is formed by a consortium of premier U.S. energy research universities, industry, independent research
organizations and state and federal agencies” (RPSEA, 2017a). E os objetivos da instituição são: “(...) provide a
stewardship role in ensuring the focused research, development and deployment of safe and environmentally
sensitive technology that can effectively deliver hydrocarbons from domestic resources to the citizens of the
United States.”(RPSEA, 2017b).
200

A lista de projetos relacionados ao desenvolvimento tecnológico nas rochas de shale e a outras


fontes não convencionais de hidrocarbonetos é imensa; alguns exemplos desses projetos
podem ser encontrados no Anexo C.
Sob o programa de Unconventional Resources Program, em 2016, estavam listados
no site da RPSEA 46 projetos executados e 18 ainda ativos125. Os últimos projetos aprovados
foram submetidos em 2012. No Anexo C desta tese, encontra-se um quadro com um resumo
dos dados desses projetos do último ano de abertura de pedidos.
Como se pode observar nas regras para a submissão de projetos, há uma parcela
do custo do projeto compartilhada pelas empresas e pelas instituições participantes que pode
variar de 50% se for para projetos de demonstração, 20% para projetos de pesquisa e
desenvolvimento e 0% se for pesquisa básica. Além disso, esse custo compartilhado pode ser
eliminado ou reduzido para produtores independentes, se o projeto envolver riscos
tecnológicos altos (RPSEA, 2017c).
Muitos esforços de pesquisa e experimentos realizados pelas agências públicas
dos EUA podem ser considerados malsucedidos porque não trouxeram resultados que
apresentavam viabilidade comercial, ou seja, possibilidade de utilização imediata pelas
empresas. No entanto, Nordhaus e Shellenberger (2012) defendem que esse é mesmo o
objetivo do uso dos recursos públicos: realizar a parte “grande, lenta, estúpida e cara” das
inovações tecnológicas para que as empresas, de posse desses resultados malsucedidos,
possam realizar a parte “pequena, rápida, inteligente e de baixo custo” das inovações. As
empresas realizam a fase mais fácil porque a fase mais complexa gera benefícios improváveis,
com altos custos e riscos.
Como o ciclo de produção do shale gas é muito rápido e a oposição às atividades
de fracking permanece forte nos EUA, um caminho interessante para a expansão da produção
desses hidrocarbonetos é o de sua internacionalização produtiva. A presença de empresas
estadunidenses já se pode notar na Argentina e na China.
Utilizando como referência um relatório da instituição Friends of the Earth, Byron
(2014) ressalta a ligação entre o governo dos Estados Unidos (a partir do UGTEP) e a expansão

125
A lista completa de projetos aprovados e financiados com pedidos até 2011 (inclusive) pode ser obtida nas
páginas 28-41 do Relatório Anual de 2013 do RPSEA (RPSEA, 2013). Em 2012, último ano de abertura de
solicitações, foram aprovados 4 projetos no programa Unconventional Resources.
201

das atividades exploratórias com o uso do fraturamento hidráulico para outros países, como
se pode observar nesse trecho:
“O informe mostra que, em quase todos os países estudados, o
desenvolvimento do gás de xisto está “estreitamente vinculado” a uma
agência do governo norte-americano, o Programa de Obtenção Técnica
Não Convencional do Gás (UGTEP). Vinculada ao Departamento de Estado
norte-americano, a UGTEP ofereceu desde 2010 uma grande variedade de
assistência técnica em torno da exploração de gás.
Os seus críticos afirmam que a agência incentiva a fratura hidráulica sob o
disfarce da diplomacia norte-americana. “O UGTEP utiliza os canais oficiais
do governo e o dinheiro dos contribuintes norte-americanos para
promover a fratura hidráulica em todo o mundo, abrindo a porta aos
principais atores mundiais da indústria do petróleo e do gás”, alerta a
Amigos da Terra Europa no seu informe”

Pi et al. (2015), cujo objetivo é mostrar o estágio de desenvolvimento da produção


de shale gas na China, relatam que a interação com empresas estrangeiras (sobretudo
estadunidenses) ocorre nos acordos de cooperação tanto na exploração de shale gas quanto
no desenvolvimento de equipamentos de engenharia e na construção de gasodutos. Ao
mesmo tempo, há também um movimento de aquisições no exterior pelas empresas chinesas
como forma de absorver mais rapidamente a experiência e técnicas estrangeiras.
Na Argentina, o quadro regulatório e normativo se alterou para viabilizar a
exploração de shale gas. Pressionada por interesses das empresas estrangeiras, o preço
mínimo do gás extraído da região de shale foi fixado em um patamar muito alto, permitindo
um contrato de produção de longo prazo firmado entre a YPF e a Chevron (BYRON, 2014).
Como o objetivo primário de diminuir o efeito ambiental nocivo do shale gas a
partir da redução das emissões de metano, a Environmental Protection Agency lançou o
“Natural Gas STAR Program”. A proposta é integrar as empresas da indústria de exploração e
produção de óleo e gás e da indústria de equipamentos nas diversas etapas, desde produção
até consumo do gás, para uma eficiente adequação às novas regras criadas no Climate Action
Plan do presidente Obama.
Esse programa ganhou um braço internacional (Natural Gas Star International)
com o objetivo de levar a preocupação com o resgate e recuperação do metano nas empresas
que operarem fora do território dos EUA, contribuindo, portanto, para melhorar a imagem da
atividade no exterior. Por exemplo, dentro das quatro frentes de atuação desse programa
internacional, uma delas é a de obter o reconhecimento público dos benefícios advindos da
202

exploração do shale gas, por meio da divulgação local de notícias e fatos (UNITED STATES
ENVIRONMENTAL AGENCY - EPA, 2017).
Como um dos principais entraves à expansão da produção de gás natural advindo
das rochas de shale é sua maculada reputação com relação ao meio-ambiente, fica evidente
a importância de um programa de apoio para a expansão internacional das empresas que já
adquiriram competências e ativos no segmento da exploração de áreas não-convencionais
com tecnologia de fraturamento hidráulico e horizontal. Com a pressão de crescente parte da
sociedade estadunidense para a paralisação ou para aumento do rigor da regulação sobre as
atividades de fraturamento hidráulico, a migração dessa atividade para países com reservas
de shale gas, mas ainda desestruturadas socialmente para impedir tal atividade, torna-se uma
inevitável frente de expansão capitalista no setor petrolífero.
O conjunto de ações emanadas do governo e direcionadas à indústria do óleo e
gás e que diz respeito ao sistema de apoio e benefícios ao desenvolvimento tecnológico do
setor foi descrito neste item. Com mais ênfase, os benefícios fiscais que receberam os
produtores estadunidenses no setor petrolífero são apresentados no próximo item. De acordo
com Shellenberger e Nordhaus (2011), entre 1978 e 2007, o Departamento de Energia
estadunidense gastou US$ 24 bilhões com pesquisa em energia a partir de combustíveis
fósseis, sem contar os recursos (segundo os autores, mais bilhões de dólares) que foram para
o Gas Research Institute e as isenções tributárias nesse período para os produtores de gás
não-convencional.

2.6.2. Vantagens fiscais e regulatórias ao setor petrolífero (do passado ao presente) e a


captura da política estadunidense pelas empresas petrolíferas

Wang e Krupnick (2013) relatam os primeiros incentivos fiscais que foram


direcionados às atividades de extração de gás de fontes não convencionais. Na década de 1970
nos EUA, atribuiu-se à regulação do mercado de gás interestatal que determinava um teto de
preço do gás baixo a responsabilidade pela situação de escassez do gás naquele período. A
essa situação, a resposta do governo foi a promulgação do “Natural Gas Policy Act de 1978”
que tirava o teto de preços gradualmente, de acordo com o tipo de poço, e oferecia incentivos
fiscais ao desenvolvimento de novas fontes de gás.
203

Em 1979, os preços dos poços considerados de alto custo saíram da regulação e


puderam ser comercializados a preços maiores do que os preços regulados de fontes
convencionais. Os preços das formações de tight gas mantiveram-se sob regulação, mas
tinham o maior teto. Como afirmam esses autores, por esse motivo, a Energy Mitchell
classificou os poços que usaria de Barnett Shale como tight gas para poder contar com preços
de venda maiores.
Em 1980, foram instituídos créditos de impostos para o total da produção de
fontes não convencionais. Havia uma fórmula que induzia a aumentos do valor do crédito em
momentos que o preço do óleo estava baixo. O crédito buscava compensar a redução da
rentabilidade das fontes não-convencionais no período de baixos preços. As empresas de gás
tinham que escolher entre o incentivo de preço (pela desregulação) ou os créditos de
impostos. Segundo os autores, a segunda opção mostrou-se mais importante para os
produtores.
Se os incentivos fiscais ao desenvolvimento tecnológico e à produção do gás
natural em fontes não convencionais foram essenciais para a viabilização econômica e em
grande escala do shale gas nos EUA, a consolidação dessa atividade também contou com a
permanência de um conjunto importante de ações emanadas de várias instâncias de governo
nesse país.
Da parte regulatória, um incentivo que sempre merece ser mencionado no que diz
respeito às benesses auferidas pelas empresas de exploração do shale gas nos EUA é a
cláusula que consta no Energy Policy Act de 2005, promulgada no governo de George W. Bush,
e que ficou conhecida como Halliburton Loophole (pela participação, para a sua criação, do
vice-presidente Dick Cheney, principal executivo da empresa Halliburton antes de assumir o
cargo na Casa Branca). Nesse Ato de 2005, as empresas petrolíferas nos EUA que utilizassem
a técnica de fraturamento hidráulico passaram a estar isentas de seguirem as regras da EPA
definidas pelo Safe Drinking Waters Act no programa Underground Injection Control. Com isso,
as empresas de fracking não precisam publicar o material que está sendo injetado no subsolo
para a exploração dos hidrocarbonetos nas áreas não convencionais e ficam protegidas
quanto aos processos judiciais que as acusam de contaminação do solo e dos recursos hídricos
das regiões onde há exploração de gás e óleo com fraturamento hidráulico.
204

Para explicar o sucesso do shale gas no período mais recente, Medlock III, Jaffe e
Hartley (2011) são peremptórios ao afirmar que o incentivo fiscal do Intangible Drilling Cost
(IDC) foi fundamental para a permanência de pequenas empresas na operação dessa
atividade, pois permite, em geral, uma redução de 70% dos custos totais do desenvolvimento
e exploração de um poço de óleo ou gás. O IDC é utilizado para manter a competitividade
atual das empresas de óleo e gás, mas cabe mencionar que esse mecanismo fiscal está em
vigência desde 1916, determinando diferenças importantes de carga tributária entre o setor
petrolífero e outros setores. Afinal, o benefício dos IDCs, ao permitir a dedução das despesas
no ano em que eles ocorrem, libera caixa da empresa para a continuidade dos investimentos.
As empresas independentes de petróleo podem deduzir 100% dos “custos intangíveis” e as
grandes corporações podem capitalizar 30% desses custos e realizar diferimento do
pagamento em até 60 meses (TAXPAYER FOR COMMON SENSE, 2014a).
Empresas de outros setores, nos seus primeiros anos de operação, quando estão
na fase de montagem de seus ativos, também podem capitalizar os gastos iniciais e deduzi-los
como depreciação nos anos seguintes (depreciation allowance). Pequenas empresas, em
geral, ainda têm um benefício maior, pois podem deduzir já no primeiro ano um valor de até
US$ 1 milhão. A diferenciação setorial – que beneficia mais a indústria petrolífera do que as
demais, inclusive mais do que as pequenas empresas, no geral – está no fato de que com a
ampla categorização de IDCs, essas empresas de óleo e gás podem realizar um desconto maior
no primeiro ano (no caso das independentes) e ganhando mais tempo (no caso das integradas)
do que suas congêneres em outros setores (TAXPAYER FOR COMMON SENSE, 2014a).
A categoria de IDC é considerada muito ampla porque despesas comuns (mão-de-
obra, insumos) são tratadas pelas regras fiscais como se fossem despesas de pesquisa e
desenvolvimento. O argumento dos legisladores que ofereceram e mantêm essa renúncia
fiscal é que as atividades de perfuração são de alto risco, uma vez que o recurso fóssil pode
não ser encontrado ou não encontrado na quantidade esperada, requerendo incentivos
fiscais. No entanto, o Taxpayer for Common Sense (2014a) registra que as mesmas técnicas
(equipamentos, produtos e processos) são utilizadas em vários poços e não há incerteza
elevada e tampouco esforços novos de pesquisa. Não levando isso em consideração, a
legislação define que todos os gastos para a preparação do campo para a perfuração e
205

desenvolvimento dos poços serão considerados investimentos arriscados e, portanto, devem


receber elevados benefícios fiscais.
“Oil and gas producers, however, enjoy significantly more generous capital
cost write-offs than those available to other taxpayers, even small
businesses. Many natural resource producers and royalty owners are even
allowed to deduct more than the amount they have actually invested in an
asset, unlike other taxpayers” (TAXPAYER FOR COMMON SENSE, 2014a, p.
8).
“The book treatment of IDCs for oil and gas companies would be to recover
these costs over the usable life of the well, which can be as long as 20 years
or more. Not only is immediate expensing unique to the natural resource
developers who can claim this deduction, this deduction is not subject to
any maximum dollar limitation, unlike small business expensing rules,
which cap the deductible amount” (TAXPAYER FOR COMMON SENSE,
2014a, p. 9).

O relatório também cita outras formas de subsídios à indústria petrolífera


estadunidense:
 “Special percentage depletion allowance”: toda produção que se extinguirá em algum
momento recebe o benefício de depreciação ao longo do tempo do ativo até se exaurir o
recurso que está sendo produzido. De forma geral, a depreciação desses ativos está
relacionada ao seu preço. No entanto, as empresas de óleo e gás independentes podem
exigir uma “special percentage depletion allowance”, que autoriza deduções como uma
parcela do faturamento do poço, independentemente do custo de aquisição de ativos (do
arrendamento das terras e equipamentos, por exemplo), permitindo, então, que os
abatimentos sejam maiores do que o investimento.
 “Tertiary recovery deductions”: “tertiary recovery” também é conhecido como “enhanced
oil recovery” que são as técnicas utilizadas para aumentar o rendimento dos poços após o
fim de sua pressão natural, momento a partir do qual o volume extraído cai
substancialmente. O incentivo fiscal nesse caso é que as empresas também podem
descontar esses gastos do imposto em apenas um ano. Não há limites para esses valores
dedutíveis.
 Geological and geophysical (G&G) assessments: as empresas independentes têm 24 meses
para depreciar contabilmente seus investimentos em pesquisas sísmicas, testes
geológicos, pesquisas eletromagnéticas, etc. As empresas integradas possuem 7 anos.
 Sistema de precificação de estoque “Last In, First Out” que permite que o barril de óleo
mais barato fique no estoque, diminuindo os encargos tributários.
206

 Dedução de impostos sobre folha de pagamentos pela geração de empregos no território


estadunidense e não no exterior.
 Legislação para Master Limited Partnerships: sob essa forma de reunião de investidores
(ao invés de ações, são vendidas unidades comercializadas publicamente), permitiu-se que
os investidores evitem a taxação sobre corporações, utilizando o rótulo de parcerias,
embora sejam, de fato, corporações. Segundo Taxpayer for Common Sense (2014a, p. 17),
“Yet, investors are shielded from personal liability for the acts or omissions of the MLP;
their only risk is the loss of investment”. A maioria de empresas formadas sob essa
estrutura legal opera nas atividades midstream e downstream126.
Essa gama robusta de programas de renúncia fiscal ou incentivos fiscais ao setor
petrolífero lhe dá vantagens fiscais relativamente a outros setores. Conforme mostra
Taxpayer for Common Sense (2014b), as corporações nos EUA teriam que pagar 35% de taxa
efetiva de impostos federais, mas esse relatório mostra que as 20 maiores empresas de óleo
e gás (com capital aberto e com proprietários residentes nos EUA) pagaram 24% e ainda
postergaram o pagamento de mais da metade desses impostos, em função das regras
especiais de provisão e diferimento de impostos para esse setor. Dessas 20 empresas, as
menores ainda conseguem postergar uma parcela ainda maior dos impostos. Extraindo as
quatro maiores, o estudo aponta que apenas 3,7% da renda foi paga em impostos em um ano
e 25,2% foram postergados.
De qualquer forma, embora com uma porcentagem menor, os valores de impostos
não pagos no ano corrente ao governo federal são muito altos para as grandes corporações.
Como exemplo, a ExxonMobil reportou no passivo de seu balanço um total de US$ 54,5
bilhões em impostos diferidos em 2013. Sobre esse valor, não há pagamento de juros ao
governo federal, independentemente do prazo do diferimento. Ou seja, como ressaltado pelo
estudo: “In effect, these companies are financing significant parts of their business with
interest-free loans from U.S. taxpayers.” (TAXPAYER COMMON SENSE, 2014b, p. 5).
O subsídio ao investimento ao setor, em geral, é muito elevado, mas para as
empresas independentes é ainda maior, uma vez que a elas lhes é permitido diferir 100% dos

126
A empresa Devon Energy, atualmente a maior empresa independente de óleo e gás nos EUA, foi fundada em
1971 e fez uso desse esquema tributário vantajoso (master limited partership) em 1984. Em 1988, abriu o capital
e realizou em seguida 28 operações de fusões e aquisições e realizou operações no exterior. Em 2012, captou
bilhões em um acordo com a Sinopec (HAUTER, 2016, p. 102).
207

IDCs (Intangible Drilling Costs). Esse poderoso incentivo fiscal contribui para explicar o
acelerado ritmo de perfuração e desenvolvimento de novos poços de shale gas, inclusive pelas
empresas independentes.
Além dos recursos públicos federais destinados ao setor petrolífero nos EUA, há
que se sublinhar o papel que também assumem as instâncias estaduais e municipais na
promoção do desenvolvimento do shale gas, sobretudo quando inseridas em regiões já
produtoras. Por exemplo, em 2011, a Shell anunciou a intenção de investimento de uma
planta de craqueamento de etano para aproveitar o acesso à matéria-prima barata
proveniente da formação de Marcellus. Esse anúncio detonou uma espécie de guerra fiscal
entre os estados daquela região e a proposta da Pensilvânia saiu vitoriosa ao oferecer uma
renúncia fiscal e subsídios grandiosos para receber o investimento da Shell. Segundo o relato
de State Impact (2017), a Shell foi beneficária de uma anistia de 15 anos de impostos do
governo do estado e de um crédito fiscal US$ 2,10 para cada galão de etano que a empresa
comprar de empresas de gás natural do próprio estado por 25 anos. Estima-se que esse crédito
pode alcançar US$1,65 bilhão e será o maior incentivo fiscal já ofertado na história do estado.
A justificativa do governador para esse montante de incentivos é a de que a produção de
etileno iria atrair e gerar novos investimentos no setor de transformação de plásticos,
oferecendo à localidade a perspectiva de cerca de 17.000 novos empregos127.
Outro exemplo de influência do aparelho político-legislativo-judiciário dos estados
nos incentivos à indústria petrolífera é oferecido por Roth (2016). Narra este autor que o
município Denton, no estado do Texas, em 2014, logrou banir a atividade de fracking a partir
de uma votação, o primeiro município naquele estado a conseguir tal feito. No entanto, os
legisladores estaduais anularam o desejo daqueles cidadãos e cidadãs a partir de uma lei que
não permite, naquele estado, que decisões locais se sobreponham às do estado no tocante à
regulação da indústria petrolífera. O argumento utilizado pelas autoridades públicas foi de
que as pessoas comuns não tinham conhecimento técnico sobre o setor e, assim, não
poderiam determinar regras locais que afetassem as atividades econômicas que o
envolvessem. De acordo com o relato, ao final, mesmo tentando recorrer na Jutiça, o governo

127
Vale ressaltar, no entanto, que essa estimativa foi realizada pela entidade patronal American Chemistry
Council (ACC) e não por estudos de instituições acadêmicas e outras de interesse público (DETROW, 2012).
208

local ficou impedido de regular atividades ligadas à geração de energia, incluindo as de


fraturamento hidráulico.
Tanto apoio à permanência de regulação antiquada, à renúncia fiscal, ao destino
de recursos públicos para pesquisa e investimentos no setor petrolífero nos EUA, ou seja, em
um país de base democrática, só pode ser explicado a partir de uma robusta pressão política
por parte dos diretamente beneficiados pelas ações públicas a esse setor, os investidores e
empresas. Nas Tabelas 26, 27 e 28, Taxpayer for Commom Sense (2015) divulga o valor gasto
pelas empresas petrolíferas em um ano com lobbies e campanhas políticas. Com lobby, em
2014, apenas as 20 maiores empresas e instituições representantes de óleo e gás gastaram
US$100 milhões. O total despendido pela indústria em 2014 foi de US$ 140 milhões em 2014
(tabela 26). Entre 1998 e 2014, gastos totais com lobby somaram US$ 1,6 bilhão (tabela 27).
Com contribuições às campanhas aos membros do Congresso em um ciclo eleitoral foram
despendidos mais US$ 28 milhões (dos vinte maiores contribuintes da indústria) (Tabela 28).
Tabela 26 – EUA: gastos anuais com lobby das 20 maiores empresas de óleo e gás, em US$, 2014
Organização Gastos com lobby
Koch Industries 13.800.000
ExxonMobil 12.650.000
Occidental Petroleum 9.198.798
American Petroleum Institute 9.090.000
Royal Dutch Shell 8.420.000
Chevron Corp 8.280.000
BP 5.660.000
American Fuel & Petrochem Manufacturers 4.947.565
ConocoPhillips 3.969.840
Phillips 66 3.710.000
Marathon Petroleum 3.360.000
Cheniere Energy 3.120.000
Anadarko Petroleum 2.720.000
PDVSA 2.160.000
Noble Energy 2.050.000
WPX Energy 2.003.395
Devon Energy 1.980.000
Marathon Oil 1.790.000
Chesapeake Energy 1.740.000
Independente Petroleum Assn of America 1.738.832
Total 102.388.430
Fonte: Adaptado de Taxpayer for Common Sense (2015, p. 5).
209

Tabela 27 – EUA: gastos anuais com lobby da indústria de óleo e gás, em US$, 1998-2014
Ano US$
1998 62.656.290
1999 60.019.200
2000 52.072.083
2001 51.292.571
2002 58.601.396
2003 56.713.514
2004 52.423.127
2005 66.459.269
2006 75.194.103
2007 86.509.482
2008 135.037.287
2009 174.684.820
2010 147.874.543
2011 150.721.677
2012 140.687.783
2013 144.991.531
2014 141.370.272
Total 1.657.308.948
Fonte: Adaptado de Taxpayer for Common Sense (2015, p. 8).

O relatório de Taxpayer for Common Sense (2015, p. 4) ainda divulga que uma
parte importante das e dos lobistas que atuam nas câmaras legislativas dos EUA são egressos
das instituições públicas mais importantes de regulamentação de energia, como o
Department of Energy (DOE) e Department of Interior (DOI). Em 2014, dos 819 lobistas, 496
tinham previamente trabalhado para ou eram membros do Congresso, de comitês do
Congresso ou em uma agência federal (54, por exemplo, com passagem pela Casa Branca).
Além disso, cabe mencionar que não estão contabilizados nesses valores as
despesas das empresas com: mídias; financiamento a pesquisas; doações legais com
campanhas presidenciais, de governadores e prefeitos nos EUA, tampouco os valores
envolvidos nas ações dessas empresas com lobby, financiamento de campanha, propaganda
e espionagens em outros países nos quais reside parte importante dos ativos dessas empresas
ou onde há interesses de entrada.
210

Tabela 28 – EUA: lista das vinte maiores contribuições de empresas para membros do Congresso no
ciclo eleitoral, em US$, 2014
Organização US$
Koch Industries 9.513.335
Ken Davis Finance 2.927.295
Chevron Corp 2.099.893
ExxonMobil 2.057.953
Marathon Petroleum 1.291.745
Western Refining 1.291.139
Occidental Petroleum 1.135.740
Devon Energy 819.945
Valero Energy 732.500
Chesapeake Energy 718.690
Bonanza Oil 666.500
Energy Transfer Equity 658.459
Halliburton Co 621.241
Marmik Oil 539.850
Petco Petroleum 531.500
BP 515.841
Independent Petroleum Assn of America 514.900
Williams Companies 495.800
Nustar Energy 480.069
Red Apple Group 470.900
Total 28.083.295
Fonte: Adaptado de Taxpayer for Common Sense (2015, p. 6).

Amaral e Roberto (2016), lembrando que o lobby é legítimo nos EUA pois é
ancorado na 1ª. Emenda da Constituição que protege a liberdade de expressão, apresentam
em seu artigo a força que o “lobismo” possui sobre a política estadunidense na manutenção
ou criação de leis que favorecem as corporações:
“Assim, o lobby representa a influência das corporações na prática,
inserindo-se na burocracia norte-americana como um mecanismo interno
da produção de leis e de tomada de decisão. Os interesses de determinados
grupos se constituem como parte da estrutura política norte-americana
devido a um sistema político que abraça o lobismo como parte legítima da
produção legislativa do país”

Esses autores também citam um dado que expressa o tamanho da intromissão da


esfera privada na esfera pública: os gastos das empresas com lobby somam US$2,6 bilhões
(mais do que os US$ 2 bilhões que os cofres públicos gastam para custear a Câmara e o Senado
daquele país), sendo que para cada US$ 1,00 que sindicatos e grupos de interesse público
gastam com lobby, as empresas e suas associações gastam US$34,00.
211

Sobre a influência das empresas no debate e nas pesquisas científicas a respeito


do aquecimento global movido pela queima dos combustíveis fósseis, vale comentar o
episódio envolvendo a ExxonMobil, número 1 das empresas petrolíferas. No ano de 2015, essa
empresa estava sendo investigada por ter negligenciado as evidências científicas sobre a
relação entre as mudanças climáticas e a ação humana no tocante ao uso intensivo dos
hidrocarbonetos nos seus relatórios anuais – e, portanto, não ter admitido que a ação futura
dos governos na direção de diminuir radicalmente a emissão de gás carbônico poderia por em
risco a rentabilidade da empresa. A investigação revelou que a empresa já sabia dos resultados
das pesquisas e não os utilizou para ponderá-los sobre suas estratégias e riscos da atividade
petrolífera (GILLIS; KRAUSS, 2015; GOLDENBERG, 2015). Essas denúncias também mostraram
que a empresa foi muito influente no Governo Bush para que esse não reforçasse o
movimento mundial anti-combustível fóssil. A eficiência do lobby realizado por essa e outras
empresas petrolíferas no governo Bush pode ser ilustrado pelo fato desse país não ter
assinado o Protocolo de Quioto. O mesmo vale para o governo Trump, que retirou o país do
Acordo de Paris em 2015.
As empresas petrolíferas, por motivos óbvios, financiaram e contribuíram para
divulgar estudos científicos que não atribuíam à ação humana as mudanças climáticas do
período atual. No seu último discurso no Congresso, o presidente Obama enviou recado a
essas empresas:
“Medical research is critical. We need the same level of commitment when
it comes to developing clean energy sources. Look, if anybody still wants to
dispute the science around climate change, have at it. You will be pretty
lonely, because you’ll be debating our military, most of America’s business
leaders, the majority of the American people, almost the entire scientific
community, and 200 nations around the world who agree it’s a problem
and intend to solve it.
But even if - even if the planet wasn’t at stake, even if 2014 wasn’t the
warmest year on record -- until 2015 turned out to be even hotter - why
would we want to pass up the chance for American businesses to produce
and sell the energy of the future?” (THE WHITE HOUSE, 2016).

O posicionamento político de Barack Obama durante seus dois mandatos a favor


da alteração da matriz energética para aumentar substancialmente a participação das
energias renováveis (solar, eólica e hidráulica) – como será visto no item a seguir – reinseriu
o Partido Republicano como mais forte aliado das empresas petrolíferas nos EUA.
212

Por exemplo, como retaliação às investigações realizadas nas empresas Chevron e


ExxonMobil, vale mencionar a posição do Partido Republicano: a entrega ao Advogado Geral
dos Estados Unidos de uma carta assinada por cinco de seus senadores (entre os quais o ex
candidato a presidente Ted Cruz) na qual se expressa um pedido para paralisarem as
investigações sobre empresas privadas que optem por discordar da visão de que as mudanças
climáticas estejam ocorrendo em função da queima dos combustíveis fósseis (visão
denominada no documento de “ortodoxia da mudança climática”!). Eis o trecho da carta:
“In light of the above, please confirm within 14 days that the Department
(1) has terminated all investigations or inquiries arising from any private
individual or entity´s views on climate change and (2) will not initiate in the
future any such investigations or inquiries. In addition, we ask that you
explain what steps you are taking as the federal official charged with
protecting the civil rights of American citizens to prevent state law
enforcement officers from unconstitutionally harassing private entities or
individuals simply for disagreeing with the prevailing climate change
orthodoxy.” (UNITED STATES SENATE, 2016).

Interessante notar que Ted Cruz foi o maior receptor de doações para a prévia da
campanha presidencial de 2016 pela indústria do petróleo e gás. Como se observa nos dados
da Tabela 29, a indústria de óleo e gás foi o nono grupo com maior valor nas doações,
destinando 90% dos valores (de US$ 24 milhões) para os candidatos do Partido Republicano
e, individualmente, para Ted Cruz, pessoa que mais recebeu doações desse grupo.

Tabela 29 – EUA: Valor das doações dos dez maiores grupos de interesses, em US$, no ciclo de eleição
2015-2016

Grupo de interesse Total (US$) Dem Rep Principal receptor

1 Previdência 93.419.708 27% 73% Ted Cruz (R-Texas)


2 Advocacia 56.994.646 56% 44% Chris Van Hollen (D- MD)
3 Securities 55.607.887 35% 65% Marco Rubio (R-Fla)
4 Setor Imobiliário 49.930.969 37% 63% Marco Rubio (R-Fla)
5 Saúde 42.905.905 39% 61% Bernie Sanders (D)
6 Seguros 38.318.062 34% 66% Paul Ryan (R-Wis)
7 Leadership PACs 33.344.192 24% 76% Rob Portman (R-Ohio)
8 Democratic/Liberal 30.993.249 99% 1% Bernie Sanders (D)
9 Óleo e Gás 24.405.804 10% 90% Ted Cruz (R-Texas)
10 Setor Farmacêutico 22.863.621 38% 62% Richard Burr (R-NC)
Fonte: Adaptado de OpenSecrets.Org (2016).

De acordo com Sachs (2017a), o grupo Koch Industries agiu livremente por
décadas para se apropriar do sistema político dos EUA, integrando também outros interesses
213

corporativos de direita. Com a vitória de Trump na presidência dos EUA, segundo o autor, o
lobby da indústria petrolífera sequer é mais necessário. Afinal, empresas como ExxonMobil,
Koch Industries e Continental Energy possuem as chaves do Departamento de Estado, da
Agência de Proteção Ambiental e do Departamento de Energia nos EUA128.
Ao mesmo tempo, a influência da indústria petrolífera sobre a alternativa política
à Trump que havia, a candidata Hillary Clinton do Partido Democrata, também iria ser elevada.
As informações da campanha presidencial dos EUA de 2016 de Hillary mostram a sua
dependência ao financiamento de campanha da indústria petrolífera. Um exemplo é dado por
Mindock (2016): o Greenpeace estimou que a candidata recebeu de apenas um evento de
levantamento de fundos realizados por Charif Souki, grande investidor da indústria de gás
natural nos EUA, US$ 650.000129. Faz sentido que a campanha de Hillary tenha se beneficiado
com grandes quantias de doações da indústria petrolífera, uma vez que atuou na promoção
das atividades de fracking enquanto foi Secretária do Departamento de Estado do governo
Obama (MINDOCK, 2016).
Com esses dados, buscou-se mostrar que há ações de Estado dos EUA, quer sejam
originalmente oriundas do poder executivo quer sejam do legislativo, que buscam
propositadamente influenciar os resultados financeiros, de produção e dos investimentos das
empresas petrolíferas. Para isso, ocorrem grandiosas despesas das empresas desse setor por
meio de doações de campanha, lobbies e financiamento a pesquisas. Esse conjunto de ações
do Estado e das empresas parece ser responsável pela manutenção de alta rentabilidade e da
permanência do vigor da acumulação de capital estadunidense nesse setor.
Arlie Russell Hochschild, autora do livro “Strangers in their Own Land: Anger and
Mourning on the American Right” (OUTRAS PALAVRAS, 2016) traz como um dos personagens
da narrativa um ambientalista que se volta contra o Estado, ao invés de culpar as empresas
petrolíferas e petroquímicas pelos efeitos nocivos ao meio-ambiente e por serem receptoras
de recursos públicos (via isenções, subsídios e diversos tipos de apoio da máquina pública).
Segundo a autora, as empresas nos EUA acabam se livrando da má reputação, a partir de suas

128
Naomi Klein argumenta que a presidência de Trump traz preocupações em várias frentes e, a nomeação de
um CEO da ExxonMobil para a Secretaria de Estado se transforma apenas em uma nota de rodapé, quando em
outras situações deveria ser um grandioso escândalo à democracia estadunidense (ADAMS, 2017).
129
Vale mencionar que a presença de Hillary Clinton neste evento mostra que seu governo não seria radical
opositor à tecnologia do fracking. Isso porque o evento ocorreu no estado de Colorado, em um momento em
que vários municípios tinham votado pelo banimento dessa atividade em seu território. O recebimento do apoio
financeiro da indústria à sua campanha confirma o compromisso de seu governo com esse setor.
214

boas ações de marketing e relações públicas que, por exemplo, estão sempre anunciando aos
locais onde elas se instalam quão bem-aventurados são por receberem os empregos e o
progresso gerados por aqueles investimentos. Citando sua pesquisa realizada no estado de
Luisiana e se referindo às empresas petrolíferas e petroquímicas:
“Elas constroem, no entanto, plantas altamente automatizadas que
importam trabalhadores de fora, filipinos instaladores de tubulações e
químicos do Instituto Tecnológico de Massachusetts. Geram pouquíssimos
postos de trabalho permanentes para as pessoas da Luisiana, algo em torno
de 16%, segundo a maioria das estimativas. O resto são professores,
enfermeiras, funcionários públicos… Mas a empresa goza de boa
reputação. Enquanto isso, é o Estado que faz o trabalho sujo das empresas.
Sua função é dizer que protege as pessoas da poluição, quando de fato não
as protege. Assim, as pessoas odeiam o Estado e amam as empresas.
Os progressistas chegam e perguntam, consternados: “Como você pode
amar a empresa que está contaminando e odiar o Estado que poderia
solucionar o seu problema?”. As pessoas não vêem as coisas assim. Esse é
um Estado refém. Não me estranha que elas não gostem dele. Ele está
dominado, é um instrumento do petróleo” (OUTRAS PALAVRAS, 2016).

Explicitam-se nesse relato dois aspectos que aqui interessam: 1) as pessoas têm a
percepção de que o Estado está a serviço das empresas petrolíferas e não do povo e; 2) elas
atribuem as consequências positivas dos investimentos desse setor exclusivamente às
empresas e as negativas exclusivamente ao Estado, que não foi capaz de protegê-las dos
danos causados com esses investimentos.
Sendo assim, observa-se a força das corporações, petrolíferas inclusive, na
determinação de definições políticas que as beneficiem, pois contam até mesmo com as
populações que são afetadas negativamente com os efeitos nocivos dos investimentos das
empresas em algumas regiões.
No próximo item, apresenta-se mais detidamente o posicionamento do
presidente Barack Obama com relação às atividades de shale gas analisando seus discursos
“State of the Union Address”.

2.6.3. Governo Barack Obama e o shale gas

Após suceder George W. Bush, presidente republicano que não mediu esforços
para beneficiar – pelo menos no que toca ao apoio fiscal – as empresas petrolíferas (um bom
exemplo é o Energy Policy Act de 2005), o governo de Barack Obama foi menos tendencioso,
ou buscou sê-lo. Ainda assim, como no seu governo não houve um distanciamento radical dos
215

combustíveis fósseis, seus discursos não puderam omitir o apoio ao crescimento desses
recursos que trouxeram mudanças positivas substantivas para a política e economia dos EUA.
Pela análise dos discursos do “State of The Union Address” é possível perceber,
nos anos iniciais (2009 a 2012), um governante bastante entusiasmado com o impulso que
seria dado em seu governo aos setores e às pesquisas das energias renováveis – e, portanto,
um governo comprometido com a guerra ao “aquecimento global”. No entanto, em 2012, vale
destacar a menção ao gás natural como o combustível necessário para um período de
transição a uma matriz energética menos poluidora. Senão, vejamos.
No discurso inaugural de seu governo em 2009, Barack Obama apresentou o uso
per capita intenso dos combustíveis fósseis como uma ameaça à segurança dos EUA (porque
“fortalece os adversários”) e como responsável pelas mudanças climáticas (THE WHITE
HOUSE, 2009a). A seguir, no State of The Union Address de 2009, o presidente nomeou os
países que estão à frente dos EUA na produção nos setores das energias renováveis (China,
Alemanha, Japão e Coreia) e indicou que o foco desse seu governo que ali se inaugurava, no
campo da energia, estava nos setores das fontes renováveis.
No discurso “State of The Union Address” de 2010, Obama apresentou
explicitamente o seu apoio às energias renováveis, pelo fato de que esses setores seriam
importantes para a geração de empregos naquele momento (para recuperar a economia
estadunidense da recessão de 2009) e no longo prazo (como importantes centros de
inovações tecnológicas e, portanto, necessários para manter a competitividade desse país e
garantir o primeiro lugar no pódio da concorrência internacional nessas tecnologias ligadas às
“energias limpas”).
No entanto, no mesmo discurso, o presidente menciona a continuidade e
expansão nas áreas de energia nuclear, produção de óleo e gás em novas áreas offshore e até
do carvão, embora a seguir tenha criticado os que se opõem às evidências científicas de
aquecimento global.
“But to create more of these clean energy jobs, we need more production,
more efficiency, more incentives. And that means building a new
generation of safe, clean nuclear power plants in this country. It means
making tough decisions about opening new offshore areas for oil and gas
development. It means continued investment in advanced biofuels and
clean coal technologies. And, yes, it means passing a comprehensive energy
and climate bill with incentives that will finally make clean energy the
profitable kind of energy in America.
216

I know there have been questions about whether we can afford such
changes in a tough economy. I know that there are those who disagree with
the overwhelming scientific evidence on climate change. But here's the
thing -- even if you doubt the evidence, providing incentives for energy-
efficiency and clean energy are the right thing to do for our future -–
because the nation that leads the clean energy economy will be the nation
that leads the global economy. And America must be that nation.” (THE
WHITE HOUSE, 2010).

Percebe-se que nesses discursos a ênfase recaiu sobre a importância da mudança da


matriz energética na direção de uma maior participação das energias renováveis, aquelas que
gerariam empregos e ditariam o dinamismo futuro das maiores economias do mundo. No
entanto, está claro também que a indicação era de que a mudança não se pretendia mostrar
nem um pouco radical. Se o fosse, não haveria justificativas para a menção aos incentivos à
exploração de óleo e gás off-shore e nem às tecnologias ligadas ao carvão. No entanto, um
embate mais duro com o setor petrolífero em 2010 aparece no trecho em que o presidente
se mostra disposto a eliminar as isenções fiscais a esse setor: “But at a time of record deficits,
we will not continue tax cuts for oil companies, for investment fund managers, and for those
making over $250,000 a year. We just can't afford it.” (THE WHITE HOUSE, 2010).
No “State of The Union Address” de 2011, houve uma nova menção forte ao fim
dos incentivos fiscais ao setor petrolíferos e sua migração para as pesquisas de energias mais
limpas:
“We need to get behind this innovation. And to help pay for it, I’m asking
Congress to eliminate the billions in taxpayer dollars we currently give to
oil companies. I don’t know if - I don’t know if you’ve noticed, but they’re
doing just fine on their own. So instead of subsidizing yesterday’s energy,
let’s invest in tomorrow’s.” (THE WHITE HOUSE, 2011).

Como a história mostrou, o mandato de governo de Barack Obama findou e essas


isenções fiscais ao setor petrolífero (inclusive para as mega majors) permaneceram, o que
revela a eficácia e a força dos lobbies e congressistas desse setor nas casas legislativas dos
EUA.
A primeira menção ao shale gas só ocorreu no discurso de 2012. Citou “shale gas”,
mas estrategicamente não utilizou a palavra que tanto causa polêmica e oposição nos EUA e
no mundo, qual seja, “fracking”, como se as duas expressões não estivessem umbilicalmente
ligadas. O mesmo pode ser dito quanto à menção à recuperação da produção de óleo, levando
à menor dependência externa. Obama foi cuidadoso o suficiente para não atrelar tal conquista
217

à tecnologia que a viabilizou. Também de forma meticulosa, nesse discurso de 2012, como
pode ser notado a seguir, Obama vincula o crescimento da produção e do uso do gás natural
à continuidade dos investimentos e do forte apoio do Estado em direção a energias mais
limpas, inserindo o gás, um combustível fóssil, nessa categoria.
“But with only 2 percent of the world’s oil reserves, oil isn’t enough. This
country needs an all-out, all-of-the-above strategy that develops every
available source of American energy. A strategy that’s cleaner, cheaper,
and full of new jobs.
We have a supply of natural gas that can last America nearly 100 years. And
my administration will take every possible action to safely develop this
energy. (...)
The development of natural gas will create jobs and power trucks and
factories that are cleaner and cheaper, proving that we don’t have to
choose between our environment and our economy. And by the way, it was
public research dollars, over the course of 30 years, that helped develop
the technologies to extract all this natural gas out of shale rock – reminding
us that government support is critical in helping businesses get new energy
ideas off the ground.” (THE WHITE HOUSE, 2012).

Como notou Yergin (2013), nesse discurso, Obama alçou o apoio ao gás natural à
condição de “all-of-the-above strategy”, sacramentando a importância desse hidrocarboneto
nas políticas energética, industrial e científica estadunidense. No entanto, no discurso de
Obama certa dose de hipocrisia pode ser observada no trecho que veio logo a seguir:
“We’ve subsidized oil companies for a century. That’s long enough. It’s time
to end the taxpayer giveaways to an industry that rarely has been more
profitable, and double-down on a clean energy industry that never has
been more promising. Pass clean energy tax credits. Create these jobs.”
(THE WHITE HOUSE, 2012).

O presidente Obama realizou uma falsa distinção entre empresas de óleo e


empresas de gás e os incentivos fiscais à produção de óleo e à produção de gás. Além de as
empresas serem as mesmas, algo que ilustra essa complicada diferenciação são as estatísticas
que reúnem, muitas vezes, os líquidos de gás natural (extraídos nos poços gasíferos) na
mesma categoria do óleo cru. Ou seja, empresas de extração e produção de óleo e gás são
empresas de exploração de hidrocarbonetos no conceito mais amplo e não apenas de óleo
cru.
No discurso de 2013, o presidente Obama voltou a utilizar como argumento para
os incentivos e apoio às energias renováveis a concorrência internacional pela liderança e
domínio das tecnologias desses setores e a proteção do planeta (mais especificamente a parte
218

do território estadunidense) para as gerações futuras e também para minimizar os desastres


ambientais que já ocorrem atualmente (secas, queimadas e tempestades) lá mesmo nos EUA.
A política nada agressiva de diminuição dos hidrocarbonetos na matriz energética
estadunidense torna-se também explícita no discurso de 2014. No trecho a seguir, Obama
mostra a contradição entre o desejo de ser líder nas tecnologias “verdes” e de obter alta e
máxima produção de hidrocarbonetos.
“Here are the results of your efforts: The lowest unemployment rate in over
five years. A rebounding housing market. A manufacturing sector that’s
adding jobs for the first time since the 1990s. More oil produced at home
than we buy from the rest of the world – the first time that’s happened in
nearly twenty years.” (THE WHITE HOUSE, 2014).

A despeito de não explícito nesse trecho transcrito a seguir, o “renascimento” do


setor manufatureiro estadunidense, isto é, o retorno dos investimentos produtivos àquele
território, foi atrelado tanto ao programa de incentivos fiscais quanto à disponibilidade de
energia mais barata possibilitada pela abundância do gás natural (novamente, a “all-the-above
strategy”).
“Now, one of the biggest factors in bringing more jobs back is our
commitment to American energy. The all-of-the-above energy strategy I
announced a few years ago is working, and today, America is closer to
energy independence than we’ve been in decades.
One of the reasons why is natural gas – if extracted safely, it’s the bridge 130
fuel that can power our economy with less of the carbon pollution that
causes climate change. Businesses plan to invest almost $100 billion in new
factories that use natural gas. I’ll cut red tape to help states get those
factories built, and this Congress can help by putting people to work
building fueling stations that shift more cars and trucks from foreign oil to
American natural gas.” (THE WHITE HOUSE, 2014).

Os benefícios obtidos pela sociedade estadunidense com a maior produção de gás


natural e óleo aparecem nos discursos de 2015 e 2016, que podem ser vistos nos trechos a
seguir:
“We believed we could reduce our dependence on foreign oil and protect
our planet. And today, America is number one in oil and gas. America is
number one in wind power. Every three weeks, we bring online as much
solar power as we did in all of 2008. And thanks to lower gas prices and

130
Essa analogia entre o gás natural e a ponte como transição ao futuro com o mínimo de combustível fóssil
também foi utilizada como argumento por instituições nos EUA de proteção ambiental. Hauter (2016) aponta
seu desapontamento com essa constatação: “Unfortunately, even as hundreds of grassroots groups are battling
to stop fracking, some of the largest environmental groups in the nation and many of their funders tout fracked
natural gas as a “bridge fuel” or at least tacitly accept its use” (HAUTER, 2016, p.1).
219

higher fuel standards, the typical family this year should save about $750
at the pump.” (THE WHITE HOUSE, 2015).

“We’re taking steps to give homeowners the freedom to generate and store
their own energy - something, by the way, that environmentalists and Tea
Partiers have teamed up to support. And meanwhile, we’ve cut our imports
of foreign oil by nearly 60 percent, and cut carbon pollution more than any
other country on Earth. (Applause.) Gas under two bucks a gallon ain’t bad,
either.” (THE WHITE HOUSE, 2016)

No discurso de 2016, último ano do duplo mandato, presidente Obama voltou a


mencionar os benefícios fiscais às empresas petrolíferas em detrimento de gastos sociais, para
os quais se direcionam as críticas dos republicanos a respeito da formação do déficite público
dos EUA.
“But after years now of record corporate profits, working families won’t get
more opportunity or bigger paychecks just by letting big banks or big oil or
hedge funds make their own rules at everybody else’s expense. Middle-
class families are not going to feel more secure because we allowed attacks
on collective bargaining to go unanswered. Food Stamp recipients did not
cause the financial crisis; recklessness on Wall Street did.” (THE WHITE
HOUSE, 2016).

Esse trecho do presidente Obama permite ressaltar duas posições oficiais da Casa
Branca. De um lado, os discursos mostram que desde o início esse governo esteve
comprometido com a aceleração dos investimentos na produção e em pesquisa nos setores
voltados às fontes de energia renováveis, em detrimento das energias mais poluidoras e que
mais contribuem para as mudanças climáticas. Por outro lado, as críticas do governo recaíram
sobre o óleo (sobretudo nas tentativas de retirada das isenções fiscais às grandes empresas
de óleo) e carvão, enquanto o gás natural, também um combustível fóssil, acabou ficando de
fora dessas críticas, ganhando o status de “energia mais limpa”.
“Now we’ve got to accelerate the transition away from old, dirtier energy
sources. Rather than subsidize the past, we should invest in the future -
especially in communities that rely on fossil fuels. We do them no favor
when we don't show them where the trends are going. That’s why I’m going
to push to change the way we manage our oil and coal resources, so that
they better reflect the costs they impose on taxpayers and our planet. And
that way, we put money back into those communities, and put tens of
thousands of Americans to work building a 21st century transportation
system” (THE WHITE HOUSE, 2016).

É possível observar um certo incômodo nessa linha de argumentação de Obama.


Afinal, óleo e gás são subdivisões, em geral, das mesmas empresas, pois são extraídos em
conjunto e compartilham da mesma infraestrutura e equipamentos, além de serem altamente
220

substituíveis em alguns casos. Portanto, é difícil imaginar a retirada dos benefícios fiscais das
majors do óleo, sem que a atividade de gás natural não seja prejudicada. Para refutar uma
argumentação desse tipo, a presidência poderia alegar que a produção de shale gas foi em
sua maioria realizada por pequenas empresas ou produtores independentes e não por majors.
Mas, como já apresentado neste trabalho, as majors também incorporaram as atividades
onshore nos EUA com os poços não convencionais em sua carteira de investimento e produção
e foram, inclusive, responsáveis pelo sucesso do incremento da produção interna de óleo e
gás nesse país depois de 2014 com a redução dos preços do petróleo e manutenção dos baixos
preços do gás.
Quando se observam as diretrizes do Climate Action Plan, instituído em 2013131, o
apoio às energias renováveis em detrimento dos combustíveis fósseis fica mais explícito ainda.
Na verdade, o que se tem muito evidente é, de fato, uma preocupação com a poluição (os
gases de efeito-estufa, sobretudo) e suas consequências para drásticas alterações do clima.
Há três linhas de ação: 1) cortar as emissões de carbono nos EUA, 2) preparar os EUA para os
impactos da mudança climática e 3) liderar esforços internacionais para combater e se prepar
para as alterações ambientais (THE WHITE HOUSE, 2013b).
No que toca à emissão de gases poluentes, o plano ressalta a contribuição do
aumento do uso de gás natural nas plantas de geração elétrica, embora maior ênfase seja
atribuída ao crescimento das energias renováveis na nova capacidade de geração elétrica do
país. O plano credita principalmente às “forças de mercado” a presença do gás natural como
insumo do setor elétrico (THE WHITE HOUSE, 2013b).
Os programas de incentivo financeiro ao desenvolvimento tecnológico são
destinados nesse plano aos segmentos produtores de energias renováveis (biocombustíveis,
energia solar e eólica) e às empresas que reduzam a emissão de poluentes (por exemplo,
tecnologias de sequestro de carbono). O plano também anuncia metas a serem atendidas por
empresas de automóveis, de geração de energia e de outros equipamentos para o aumento
da eficiência no consumo de energia e combustíveis (THE WHITE HOUSE, 2013b).

131
O Climate Action Plan foi instituído em 2013 pelo presidente Obama e engloba um número grande de
propostas e diretrizes com vistas à diminuição da emissão de gases de efeito estufa. Para obter tal objetivo, o
plano inclui o aumento de regras às empresas de óleo e gás e de transporte para a diminuição da liberação de
gás metano e gás carbônico na atmosfera. Ao mesmo tempo em essas novas regulamentações ao setor de óleo
e gás aumentam, o governo amplia seus incentivos ao desenvolvimento de energias renováveis, sobretudo solar
e eólica (THE WHITE HOUSE, 2013b).
221

O plano lança também um olhar cuidadoso sobre as emissões de metano que são
atribuídas a diversas atividades, dentre elas, agricultura, minas de carvão e indústria de óleo
e gás. A atenção sobre o metano pode ser vista a partir da elaboração de uma estratégia
interministerial, reunindo várias agências, em colaboração com os estados, para melhorar o
acesso aos dados, buscar best practices e melhores tecnologias de redução da emissão e
identificar instituições e incentivos que possam ser utilizados na redução da emissão do
metano. Como exemplo dessa política, o documento oferece a colaboração entre agências
federais e locais que houve nos poços de Bakken para reduzir a ventilação e a queima do
metano nos poços (THE WHITE HOUSE, 2013b).
Assim, tanto pela análise dos discursos oficiais de Obama quanto pelas ações
planejadas no Climate Energy Plan, se observa que o apoio do governo às atividades de shale
gas nunca foi ostensivo e menções a elas foram tímidas; diferentemente dos trechos em que
se mencionavam a evolução e crescimento das tecnologias, investimentos e produção de
energia ligada às fontes renováveis. No que concerne aos combustíveis fósseis, mesmo que a
expansão de sua produção tenha sido louvada (até por ter trazido importantes consequências
aos EUA), oficialmente, as ações do governo miravam mais a sua restrição do que o seu
engrandecimento. Daí que em vários trechos dos discursos puderam ser notadas
contradições. Mesmo assim, para ambientalistas com maior rigor, como Wenonah Hauter, o
governo do presidente Obama foi muito permissivo com as atividades de fracking, podendo-
se ilustrar esse viés com a atuação da EPA que, segundo Hauter (2016) ignorou a ciência que
mostrava os severos danos dessa atividade ao meio-ambiente e com a nomeação de vários
secretários e secretárias (Ernest Moniz como Secretário de Energia, Sally Jewell como
Secretária do Interior e Gina McCarthy como diretora da EPA) que era explicitamente
favoráveis à exploração do shale gas.
Essas considerações sobre a visão do governo Obama sobre as atividades de
fraturamento hidráulico nas rochas de shale são importantes para depois compará-las ao
próximo mandato presidencial, o de Donald Trump, esse sim, com viés explícito e foco total
no apoio aos combustíveis fósseis.
Ressalte-se aqui que no seu primeiro dia na presidência, Trump prometeu eliminar
o Climate Action Plan e descreveu na página da Casa Branca o “Primeiro Plano de Energia dos
EUA” (“An American First Energy Plan”). Lá, diferentemente de seu antecessor, estão
222

explícitos o apoio e os incentivos ao shale gas e shale oil inclusive com o uso das terras
federais:
“Sound energy policy begins with the recognition that we have vast
untapped domestic energy reserves right here in America. The Trump
Administration will embrace the shale oil and gas revolution to bring jobs
and prosperity to millions of Americans. We must take advantage of the
estimated $50 trillion in untapped shale, oil, and natural gas reserves,
especially those on federal lands that the American people own.” (THE
WHITE HOUSE, 2017).

Além disso, nessa primeira descrição do plano energético de seu governo, Trump
também se comprometeu a eliminar as “pesadas” regulações ao setor petrolífero e a reviver
a indústria do carvão. As preocupações com as ações políticas de Trump que colocam em risco
os ganhos obtidos no governo Obama com a diminuição da emissão dos gases de efeito estufa
e com elevado crescimento das fontes renováveis para a geração de energia são tão grandes
que, conforme alude Naomi Klein, a nomeação de um CEO da ExxonMobil para a Secretaria
de Estado se transforma apenas em uma nota de rodapé, quando em outras situações deveria
ser um grandioso escândalo à democracia estadunidense (ADAMS, 2017). Em igual direção
está a decisão desse presidente de retirar os EUA dos Acordo Climático de Paris. Sachs (2017b),
no entanto, vaticina que há um direcionamento tão forte dos investimentos, da opinião
pública e dos governos com relação ao incremento das energias renováveis que nem os
incentivos de Donald Trump às indústrias produtoras dos combustíveis fósseis poderão deter
essa direção para a qual migra a matriz energética dos países. Lomborgh (2017), por sua vez,
pondera que não é a saída dos EUA do Acordo que irá destruir os planos do G-20 de evitar o
aquecimento global, pois segundo o autor este já é irreversível132, como também não há
razões para acreditar em uma rota inequívoca de migração da matriz energética do
predomínio dos combustíveis fósseis para o de energias renováveis, mesmo com a
permanência dos EUA133.

132
Segundo os dados apresentados, para a temperatura aumente menos do que a meta de 2 graus, relativamente
à era pré-industrial, neste século, o planeta teria que reduzir a emissão de dióxido de carbono em 6 trilhões de
toneladas. Se todos os países cumprirem o Acordo, a diminuição será de 56 bilhões de toneladas. Além disso,
não há garantias que os países cumpram o Acordo até porque as evidências mostram que o Protocolo de Quioto
não teve efeito nenhum na melhoria das condições climáticas.
133
Isso porque, segundo o autor, mesmo com décadas de subsídios e nas projeções mais otimistas de que todos
os países cumpram com as metas de Paris, a projeção da International Energy Agency é de que as energias eólica
e solar representarão em 2040 1,9% e 1% do consumo mundial.
223

Com efeito, observa-se que há um debate muito amplo nesse tema que envolve
conhecimentos sobre física, economia, biologia, política e outros campos do conhecimento e
de interação humana, tornando-o tão complexo, instigante e angustiante (quando se tenta
analisar sob um único prisma e com premissas simplificadoras).
Após a análise da experiência da exploração de shale gas nos EUA e seus vínculos
com o setor petroquímico, no próximo capítulo, o foco recai sobre a situação competitiva do
setor petroquímico no Brasil, lançando luz à qualidade da relação econômica que se
estabelece entre este setor e seu elo fornecedor de matéria-prima.
224

CAPÍTULO III. SETOR PETROQUÍMICO NO BRASIL: COMPETITIVIDADE E DESAFIOS

A análise realizada neste capítulo parte do princípio de que o setor industrial é o


motor do desenvolvimento socioeconômico, processo que requer, por sua vez, mudanças
estruturais. O progresso tecnológico, condicionado pelos investimentos industriais,
representa a chave para a abertura e retroalimentação desse processo.
De dentro do setor industrial, pode-se apontar um subsetor produtor de bens
intermediários, objeto deste trabalho, o setor petroquímico. Este setor constitui peça
integrante das mudanças estruturais que se verificaram no bojo do processo de
industrialização brasileira (de 1930 a 1980) e, hoje, é um reflexo dos desafios que se impõem
ao Brasil com os movimentos de globalização, aceleração tecnológica e concentração da
riqueza privada.
Este capítulo parte da delimitação de suas atividades no Brasil, e, após uma breve
apresentação da história de sua constituição, desenvolvimento e consolidação, traça-se um
debate dos principais desafios competitivos atuais do setor. Com especial atenção, mira-se na
relação que a principal empresa brasileira do setor, a Braskem, estabelece com a Petrobras,
fornecedora de seus principais insumos. O foco nessa relação na cadeia produtiva
petroquímica se explica pela importância que uma empresa estatal do setor petrolífero pode
ter para a determinação da competitividade do setor petroquímico.

3.1. Petroquímica no Brasil: um setor de base, um setor fundamental

As moléculas derivadas do óleo e do gás, produtos do setor petrolífero, são


componentes do setor petroquímico e do setor químico, em geral. Essas moléculas tendem a
não integrar apenas os insumos químicos que compõem alimentos, bebidas, fármacos e
cosméticos “verdes”; em quase todos os demais itens de consumo ou insumos, petróleo e gás
são componentes inevitáveis, integrando quase todo o universo de bens que conformam a
vida humana nas sociedades modernas. Afinal, moléculas extraídas de petróleo e gás estão
nas embalagens, nas peças e componentes, nos móveis, nos calçados, nos tecidos e
vestuários, nos combustíveis, nas tintas, nos produtos de uso cosmético e de limpeza, etc. A
importância econômica do setor petroquímico para qualquer país é expressiva,
principalmente para seu setor manufatureiro, para o qual é fornecedor de insumos básicos e
também portadores de alto conteúdo tecnológico. Para o Brasil, não é diferente.
225

Marconi, Rocha e Magacho (2016), na análise da matriz de insumo-produto


brasileira e com o cálculo de multiplicadores e de encadeamentos intersetoriais (com
desdobramentos para trás e para frente), evidenciam o importante papel cumprido pelos
setores petrolíferos e químico na multiplicação de efeitos setoriais a partir de suas produções.
Utilizando o multiplicador do Produto, ou seja, o quanto é produzido para cada
unidade monetária gasta em consumo final, os autores observaram que os setores com os
maiores multiplicadores foram: alimentos/bebidas, equipamentos de transporte, petróleo,
produtos químicos e o de vestuário/calçados, nessa ordem. Commodities agrícolas e minerais
e os setores de serviços (incluindo construção civil) apresentaram multiplicadores menores do
que esses citados. Isso significa que um choque de demanda pelos produtos com maior
multiplicador tende a gerar mais demanda para outros setores do que os de menor
multiplicador. Cabe mencionar que vestuário e calçados possuem alto multiplicador pois são
intensivos em trabalho, fazendo com que a demanda por esses produtos represente demanda
para os setores produtores de bens-salário.
Os autores complementam a análise com indicadores que mostram os
encadeamentos para trás (quanto da produção do setor gera de valor para seus setores
fornecedores) e para frente (a importância do setor como supridor de matéria-prima). Nessa
abertura, os setores petrolíferos e químico mostram-se ainda mais poderosos para a estrutura
produtiva brasileira. Eles estão, respectivamente, na 3ª. e 4ª. posição no que se refere a seu
poder de encadeamento para trás e, como fornecedores para outros setores, correspondem
ao 1º. e 2º lugares dentre todos os setores, incluindo serviços e agricultura.
O alto grau de encadeamento intersetorial dos setores petrolífero e químico
(portanto, petroquímico) está fortemente relacionado ao fato de que esses setores no Brasil
foram frutos de planejamento e objeto de políticas industriais que aliaram investimentos em
bloco com forte integração e coordenação com outros setores. Ou seja, sua existência foi
planejada e requerida exatamente por apresentarem intensas relações intersetoriais na
indústria.
Schutte (2004) alça o setor petroquímico a um patamar elevado no tocante a sua
importância para os países subdesenvolvidos. Segundo o autor, dada sua infiltração em
muitos outros setores, a competitividade no setor petroquímico representa um dos passos
para a superação do subdesenvolvimento. Isso porque o material plástico tende a aumentar
226

sua participação nos produtos básicos para uma sociedade à medida em que o
desenvolvimento socioeconômico ocorre. Os transformados plásticos encontram-se no
material para a construção civil, para a agricultura, embalagens para alimentos e bebidas e os
materiais hospitalares (seringas, bolsas, frascos), etc. Assim, ressalta o autor, na medida em
que avançam os programas de distribuição de renda, os efeitos sobre o consumo de plástico
são muito altos e vão além do crescimento do PIB per capita.
Hasenclever e Antunes (2009) ressaltam a forte tendência de substituição de
vários materiais por resinas plásticas. Mesmo nos países desenvolvidos, esse movimento
ainda se observa em função do alto nível das exigências nos padrões técnicos, mas, nos países
em desenvolvimento, o aumento da participação dos plásticos na escolha dos materiais para
embalagens, peças, componentes e acessórios é ainda mais acelerada. A difusão das resinas
termoplásticas mais sofisticadas é mais limitada em países nos quais os padrões técnicos ainda
se encontram em baixo patamar de rigor e qualidade.
Há um risco expressivo para países subdesenvolvidos integrados à economia
global caso não consigam obter competitividade nos setores básicos; risco de que o país possa
ficar fortemente vulnerável às importações de bens de alto valor adicionado e de básicos,
tornando o crescimento econômico altamente dependente das importações e, portanto,
sujeitando o país a recorrentes constrangimentos externos, além dos efeitos nefastos sobre o
emprego do país e do desadensamento produtivo.
O setor petroquímico, como um dos setores de insumos básicos, é chave para a
determinação da produtividade e competitividade dos setores a jusante. Assim, é um dos
setores que se situam no centro do debate no Brasil sobre a necessidade de troca de insumos
nacionais por importados em momentos prolongados de valorização cambial (caso do Brasil
praticamente desde 1995, com alguns breves períodos de desvalorização real da moeda
brasileira), como forma de preservar a rentabilidade na produção de manufaturas dos setores
que se encontram à frente do setor petroquímico. De acordo com seus proponentes, os
setores compradores se beneficiam com a redução de custos com a compra dos insumos
importados. Com menor preço dos insumos importados, o aumento do valor adicionado nos
setores compradores mais do que compensa a diminuição da produção dos setores
fornecedores.
227

Marconi e Rocha (2012) desenvolvem essa discussão e realizam testes


econométricos a partir dos dados da matriz de insumo-produto para avaliar essa tese. Os
resultados desses autores mostram que o desadensamento das cadeias produtivas com a
eliminação da produção de intermediários e de seus setores correlatos apresenta
consequências negativas para a produção de manufaturas em geral.
“Entretanto, a importação de tais insumos pode reduzir a produção
nacional dos mesmos insumos domesticamente. Mais que isto, pode
desestruturar encadeamentos da estrutura produtiva da manufatura e
ampliar os impactos iniciais sobre a produção doméstica. Adicionalmente,
não se garante que a tecnologia embutida nos insumos importados
utilizados seja apropriadamente incorporada na evolução da produtividade
das manufaturas domésticas, e o resultado seria apenas um processo de
crowding-out daqueles insumos produzidos domesticamente (que seria
uma das características da maquilla)” (MARCONI; ROCHA, 2012, p. 45).

Com isso, os autores refutam a hipótese de que a substituição dos insumos


nacionais por importados a preços menores melhore a competitividade geral da indústria de
transformação e de outros setores.
Mesmo com a crítica à elevação da importação de insumos básicos e com a
execução de algumas políticas industriais que buscaram aumentar o conteúdo nacional da
produção brasileira, o déficite do setor químico brasileiro, um setor básico, aumentou
acentuadamente, como se pode observar no Gráfico 55.

Gráfico 55 – Brasil: balança comercial do setor químico, em milhões de US$, 1990-2015

Fonte: Adaptado de Aliceweb. Base de dados e organização dos dados da ABIQUIM.


228

O Gráfico 55 mostra um incremento gradual do déficite do setor químico entre


1994 e 2006 e um aumento mais acelerado entre 2008 e 2013 (exceto por uma interrupção
do crescimento do déficite em 2009). A mudança perceptível de patamar do déficite se deveu
à elevação não gradual das importações. O ponto máximo do déficite (US$ 31,9 bilhões) e das
importações (US$ 46,1 bilhões) ocorre no ano de 2013. Em 2014, esses valores se mantêm e
só com uma forte recessão em 2015 (-3,8% do crescimento do PIB) é que o desempenho da
balança comercial do setor apresenta-se menos ruim. Ainda assim, o déficite de 2015 (US$
25,4 bilhões) é maior do que o de 2010 (US$ 20 bilhões). Esses resultados reforçam a forte
ligação que há entre o crescimento (ou decrescimento) da produção e o aumento (ou redução)
das importações de químicos.
O aumento das importações e a estabilidade das exportações conduziram a
alterações na participação desses fluxos nas vendas totais da indústria química no Brasil. A
taxa das importações com relação às vendas aumentou quase cinco pontos percentuais e a de
exportações diminuiu um ponto percentual entre os anos de 2004 e 2013.

Tabela 30 – Brasil: exportações e importações em participação (%) das vendas da indústria química,
2004-2013
Importações/Vendas Exportações/Vendas
(%) (%)
2004 24,0 9,8
2005 21,2 10,2
2006 21,1 10,8
2007 23,1 10,3
2008 28,4 9,6
2009 25,8 10,3
2010 26,2 10,2
2011 25,5 9,5
2012 26,9 9,3
2013 28,6 8,7
Fonte: BNDES (2014, p. 114).

Com respeito ao movimento geral do comércio internacional da indústria de


transformação brasileira, Sarti e Hiratuka (2016) expõem que houve o aumento do coeficiente
importado (sobre o mercado interno) e do conteúdo importado (sobre a produção) de
maneira geral na indústria manufatureira brasileira entre 2007 e 2015. A penetração dos
importados e do capital estrangeiro (vale ressaltar que, mesmo após a crise de 2008, o país
continuou a ser um dos maiores receptores de investimento estrangeiro no mundo)
229

reforçaram o caráter assimétrico da inserção internacional brasileira e os elementos que


marcam o subdesenvolvimento da estrutura produtiva brasileira com relação à dos países
centrais. Isso porque o peso da indústria da transformação brasileira no Produto total do país
e no Produto industrial do mundo se reduziu; o coeficiente de exportações de manufaturados
diminuiu, bem como a participação das exportações industriais brasileiras nas mundiais; o
déficite comercial dos bens de alta e média-alta intensidade tecnológica se ampliou e o
processo de internacionalização produtiva das empresas brasileiras com investimentos no
exterior retrocedeu.
Baseando-se na análise desses autores para o movimento geral dos fluxos de
comércio e investimentos internacionais no Brasil nas décadas de 2000 e 2010, o aumento
substantivo do déficite comercial do setor químico a partir de 2008 parece estar relacionado
à presença estrangeira na estrutura produtiva brasileira (aumento expressivo de investimento
direto externo no Brasil não compensado com a presença de filiais de empresas brasileiras no
exterior) e à taxa de câmbio valorizada (com rápidos e não sustentados períodos de
desvalorização da moeda brasileira).
Com isso, supõe-se que a desaceleração do PIB mundial após a crise de 2008 gerou
aumento da capacidade ociosa na indústria de vários países, com consequente pressão para
a elevação da exportação como meio de escoamento da produção. Tal produção foi destinada
para países cuja atividade econômica ainda se encontrava em crescimento e que contavam
ainda, em alguns países, como o Brasil, com uma taxa de câmbio valorizada e filiais para as
quais se pudesse aumentar o comércio intra-firma.
Além disso, seguindo o movimento geral da indústria de transformação no Brasil
e contribuindo para isso, o comércio internacional do setor químico brasileiro é marcado por
saldo positivo (porém baixo) nos produtos químicos commodities, enquanto as importações
concentram-se nos itens de alto valor agregado (especialidades químicas, para fármacos, por
exemplo) ou em alto volume (como os insumos para defensivos agrícolas134). Após 2008, com
a desaceleração da atividade econômica mundial, o preço das commodities diminuiu e os dos
itens de alto conteúdo tecnológico se mantiveram.

134
Vale mencionar que os defensivos agrícolas importados corresponderam, em 2012, a 56% da demanda interna
brasileira. O coeficiente de importação do segmento surpreende ainda mais se levado em conta que o Brasil é o
maior mercado mundial para esses produtos (BAIN & COMPANY; GAS ENERGY, 2014b).
230

Entre 2007 e 2012, o descompasso entre a oferta doméstica de químicos e a


demanda interna brasileira e o aumento da diferença entre o preço médio das exportações e
o das importações foram considerados as causas para o substantivo aumento do déficite
comercial químico brasileiro por Bain & Company, Gas Energy (2014b, p. 11).
A presença de empresas transnacionais estrangeiras na estrutura produtiva
brasileira, também intensa no setor químico, determina ao Brasil um padrão de inserção
internacional em que são importados os itens de maior valor adicionado (em função da
concentração das atividades de P&D nas suas matrizes) e se concentra a produção nos itens
cuja tecnologia já está difundida e para os quais se requerem poucas competências e
conhecimentos na produção e comercialização. As imensas remessas de lucros ao exterior e
o esvaziamento dos centros de desenvolvimento tecnológico nos setores em que as empresas
estrangeiras detêm participação expressiva na produção e no investimento contribuem para
ampliar as assimetrias tecnológicas entre os países centrais, geradores de progresso técnico,
e os periféricos, importadores de itens com alto conteúdo tecnológico. Como enfatizam
Cassiolato e Lastres (2015):
“Por outro lado, os investidores estrangeiros vêm aumentando sua
presença em todos os setores dinâmicos com alto valor agregado, os quais
se tornam cada vez mais intensivos em importação de insumos, partes e
peças, reduzindo as atividades no Brasil àquelas típicas de uma
“maquiladora”. Adiciona-se que as estratégias das subsidiárias de ETNs, no
que se refere ao Brasil, têm se limitado à busca do mercado interno,
principalmente por meio de aquisições de empresas locais.” (p. 208).

Assim, dessa análise da balança comercial, podem-se extrair dois grandes desafios
ao setor petroquímico brasileiro. De um lado, é imperiosa a produção interna das
especialidades químicas, com vistas à diminuição do gigantesco déficite comercial e à
conquista, pelas empresas de capital nacional, de competências tecnológicas e condições
competitivas no mesmo nível das líderes mundiais para, inclusive, fazer avançar seus projetos
de internacionalização produtiva. De outro lado, a produção de commodities deve
permanecer volumosa e competitiva para abarcar o grande mercado interno brasileiro ainda
de baixa renda per capita.
Guerra (1991, p. 242) oferece dois motivos para que as grandes empresas
petroquímicas brasileiras não abandonem a produção de petroquímicos básicos para se
concentrarem nas especialidades químicas (ainda que esse tenha sido o movimento de
231

algumas empresas multinacionais no bojo da reestruturação petroquímica da década de


1980):
a) ainda há um potencial de crescimento no mercado de transformados plásticos de baixa
sofisticação, seja para substituir outros materiais, seja porque a renda per capita do
Brasil ainda é baixa, o que demandará ainda grandes volumes de commodities e
semicommodities petroquímicas no longo prazo;
b) há um potencial exportador nesses segmentos, sobretudo para os países da América
Latina em um contexto de integração econômica regional.
Assim, em tese, o desenvolvimento da petroquímica brasileira tem impactos
substantivos na balança comercial, seja do lado das importações, seja a partir de sua
capacidade de exportação. Mostrou-se que tem também reflexos sobre grande parte da
indústria de transformação com seus fortes encadeamentos produtivos para os setores a
jusante e, principalmente, a montante. Os elos da cadeia petroquímica existentes no Brasil e
seus participantes serão objetos de análise no próximo item.

3.2. O setor petroquímico brasileiro: estrutura e players

A integração física entre a 1ª. e 2ª. gerações da cadeia petroquímica se observa de


uma forma geral em função das especificidades do transporte, do processo de produção
petroquímica e do volume transacionado entre esses dois elos. Assim, tal qual ocorre em
outros lugares do mundo, a indústria petroquímica brasileira também tem localização
geográfica específica, denominada “polos" ou “complexos petroquímicos”.
Por enquanto, a indústria brasileira está concentrada em 5 polos: o de Capuava
em São Paulo (também conhecido como polo do ABC pois está localizado entre os municípios
de Santo André e Mauá), o de Camaçari na Bahia e o de Triunfo no Rio Grande do Sul são os
maiores e os mais antigos; Duque de Caxias no Rio de Janeiro e Paulínia em São Paulo têm
uma produção menor em volume e em escopo e são mais recentes. O COMPERJ, situado no
estado do Rio de Janeiro e no município de Itaboraí, está previsto para ser o sexto polo
petroquímico brasileiro, utilizando como matéria-prima os hidrocarbonetos advindos dos
projetos do pré-sal.
As centrais petroquímicas, a maioria das empresas de 2ª. geração e uma grande
parte das empresas de 3ª. geração residem integradas ou próximas a esses polos, formando
232

aglomerações produtivas do setor petroquímico nessas localidades135. A integração física


entre as unidades industriais da 1ª. e 2ª. gerações é mais pronunciada nos polos de Camaçari,
Triunfo e do Rio de Janeiro, para os quais se traçou um projeto de engenharia com foco no
propósito da integração física. Como resultado desse planejamento, “a integração física
proporcionou que as plantas construídas tivessem escalas superiores às que seriam possíveis
sem a integração” (IPT, 2008, p. 29).
A petroquímica brasileira apresentou, em 2016, os seguintes atores:
 No extremo upstream da cadeia, na extração de petróleo e gás natural, a Petrobras,
com 11 unidades industriais, figura de forma exclusiva como fornecedora de matéria-
prima para as plantas petroquímicas;
 Na 1ª. geração, também com presença exclusiva, aparece a Braskem, com 4 unidades
industriais craqueadoras de nafta e etano (BRASKEM, 2015a);
 Na 2ª. geração, encontram-se empresas nacionais e estrangeiras privadas de variados
portes e produtoras de químicos intermediários e resinas termoplásticas. São 2,3 mil
empresas, com 2,5 mil unidades industriais produtoras desde commodities até
especialidades. São exemplos de atores nesse elo da cadeia petroquímica: Braskem,
Elekeiroz, Oxiteno, Unigel, Petroquímica Suape, Basf, Rhodia, Dow, Solvay Indupa,
Lanxess e Innova. As empresas estrangeiras, nessa fase, podem até ter produção
menor, em volume, do que as empresas nacionais – leia-se Braskem – porém, têm uma
carteira de produtos mais diversificada, operam em diversos segmentos químicos,
apresentam faturamento mundial alto e estão mais concentradas nos petroquímicos
de especialidade e na química fina (por serem detentoras de um arsenal tecnológico
mais robusto tanto de processo quanto de produto). Como enfatizado por IPT (2008),
as empresas nacionais produtoras de especialidades têm porte incomparavelmente
menor do que o das estrangeiras nos mesmos mercados.
 A 3ª. geração contém uma heterogeneidade maior ainda uma vez que conta com
quase 11.500 empresas (BRASKEM, 2015a), incluindo empresas de grande porte mas

135
IPT (2008, p. 19) aponta como exemplos de empresas da 2ª. Geração que se situam fora dos polos: um
complexo em Alagoas ligado ao polo de Camaçari, fabricante de produtos da corrente cloro-química e PVC, em
Minas Gerais há uma planta de PET e no Amazonas há uma planta de poliestireno que conta com estireno
importado. Há também, um empreendimento mais recente, em Pernambuco (Petroquímica Suape em parceria
com Citepe – Companhia Integrada Têxtil de Pernambuco), integrado ao porto de Suape, uma planta de uma
empresa italiana (M&G Chemicals) com produção de PET, PTA e fibras de poliéster.
233

também e, na sua maioria, microempresas. Dentre as grandes empresas desse elo


podem ser citadas: Fortlev, Tigre, DixieToga, Vitopel, Copobras, Tetrapack, Borealis,
LyondellBasell e Whirpool.

Na Tabela 31, apresenta-se o ranking, por faturamento, das maiores empresas


químicas e petroquímicas no Brasil. Agumas características se sobressassem. Em primeiro
lugar, observa-se a liderança inconteste de uma empresa de capital nacional, a Braskem. O
valor de suas vendas em 2015, no Brasil, foi quase 4 vezes maior do que as do segundo lugar,
a empresa gigante em termos mundiais, a Bayer. Com a aquisição em 2016 da Monsanto pela
Bayer, com a fusão entre Dow e Dupont e a compra da Syngenta pela ChemChina, essa
diferença tenderá a diminuir, embora ainda deva permanecer ampla no curto prazo.

Tabela 31 – Brasil: Maiores empresas dos setores químico e petroquímico, por faturamento, em
milhões de US$, 2015

Vendas (Em
Empresa Controle milhões de US$)
1 Braskem Brasileiro 8.956,20
2 Bayer Alemão 2.712,30
3 Yara Brasil Norueguês 2.543,30
4 Syngenta Suíço 2.370,10
5 Basf Alemão 2.312,40
6 Valefert Brasileiro 1.759,20
7 Mosaic Americano 1.706,70
8 Heringer Brasileiro 1.691,30
9 Hydro Alunorte Norueguês 1.607,40
10 Monsanto Americano 1.166,20
11 DuPont Americano 1.021,60
Braskem
12 Petroquímica Brasileiro 957,3
13 White Martins Americano 790,9
14 Dow Americano 777,5
15 FMC Química Americano 640,7
16 3M Americano 622,1
17 Akzo Nobel Holandês 614
18 Rhodia Francês 589,8
19 Oxiteno Nordeste Brasileiro 573,6
20 Dow Agro Americano 544,2
Fonte: Adaptado de Exame - Melhores e Maiores (2016).
234

Uma segunda característica dos principais players nos setores químico e


petroquímico no Brasil diz respeito a uma pequena heterogeneidade com relação à origem do
capital, visto haver um grande número de empresas originárias dos EUA.
Verifica-se também que o capital brasileiro aparece principalmente no setor
petroquímico (Braskem e Oxiteno), enquanto o capital estrangeiro se situa no setor químico,
sobretudo na produção de fertilizantes e agrotóxicos (Yara, Syngenta, Monsanto, Dupont,
etc.) e química fina (Bayer, Syngenta, Basf, etc.), embora haja representante brasileiro no
segmento de fertilizantes (Valefert e Heringer) e estrangeiro na petroquímica (Dow, Basf,
Rhodia, Dupont).
Até alcançar essa estrutura, composta por atores privados e estatais, nacionais e
estrangeiros, e por empresas que compõem a lista das maiores empresas do mundo (nacionais
e estrangeiras), uma longa história de esforços de coordenação, planejamento, negociações,
compras e vendas, privatizações, reestruturações, fusões, aquisições e de outros movimentos
complexos na sua observação e estudo, ocorreu no Brasil desde a década de 1950.
No próximo item, trechos dessa história são apreciados com vistas à compreensão
das formas de participação que apresentaram os setores fornecedores de matéria-prima e
seus consumidores no setor petroquímico, as presenças do Estado, do capital nacional e a do
estrangeiro.

3.3. Breve histórico do setor petroquímico no Brasil: formação, privatização e


consolidação

A implantação do parque produtivo petroquímico no Brasil deve ser utilizada


como um exemplo de sucesso inconteste das políticas nacionais desenvolvimentistas
instítuídas no Brasil ao longo do século XX, sobretudo na sua segunda metade. Estão inscritos,
na sua construção e consolidação, os principais instrumentos de política industrial que foram
sendo utilizados ao longo do processo de industrialização brasileira. Também estão presentes
nessa história, pessoas cujos pensamentos e atitudes são pautados pela busca de um país com
forte base produtiva, no qual o dinamismo tecnológico concebido pelo setor industrial tem
papel central. A articulação e mobilização de diversas instâncias e instituições do Estado (de
financiamento, de planejamento, de normatização, de comércio exterior, de ciência e
tecnologia, etc. – em diversos níveis da federação) também estão presentes na implantação
235

do setor petroquímico brasileiro, assim como em outros setores considerados estratégicos


para a construção do parque industrial brasileiro.
O próximo item realiza um breve histórico dessa passagem de uma indústria
petroquímica embrionária até o tempo em que o Brasil passa a figurar entre os principais
produtores de petroquímicos do mundo.

3.3.1. A formação da petroquímica sob o esquema “tripé”: o protagonismo do Estado

Neste item é realizado um breve histórico da formação da indústria petroquímica


brasileira, principalmente a partir de 1964. Cabe lembrar que nos países centrais a indústria
petroquímica, já com escala relevante, tem seu ponto de partida 30 anos antes, na década de
1920 (SCHUTTE, 2004).
A história do setor petroquímico no Brasil é indissociável da presença e atuação
da Petrobras, seja por motivos técnicos (fornecedora dos insumos), seja por decisões políticas.
O BNDES136 também foi agente essencial no financiamento, coordenação dos investimentos e
capitalização de empresas nacionais. O setor privado nacional também foi parte dessa
história, nesse caso, principalmente por determinações políticas, pois espontaneamente
dificilmente teria porte e condições técnicas para investimentos na petroquímica137. O capital
estrangeiro foi o outro ator que se inseriu no tripé da constituição do setor petroquímico no
Brasil. Sua presença se dá por motivos econômicos (por ser proprietário da tecnologia), mas
seu peso e influência na indústria foram dosados o tempo inteiro por forças políticas.
Embora as menções principais referentes à parcela estatal na conformação do
setor petroquímico no Brasil sejam direcionadas à empresa Petrobras (via Petroquisa), cabe
registrar que o Estado participou dessa história por meio de diversas instituições. Além do
BNDES, que aparece em todas as fases principais de constituição e consolidação do setor,

136
Em 1974, o banco (ainda com a sigla BNDE) ganhou uma nova envergadura e poder de atuação na estruturação
e estímulo aos setores de base e de bens de capital com os aportes dos recursos do PIS e do PASEP
(BETTENCOURT; BETTENCOURT; FARO, 2010).
137
O BNDE, ao invés de esperar as demandas privadas por empréstimos, identificava as áreas estratégicas e
necessárias para o desenvolvimento industrial do país (e para a eliminação dos graves constrangimentos
externos) e induzia as empresas e os setores a investirem. Como relatou Marcos Vianna, presidente do banco de
1970 a 1979, “Perdi a conta das vezes que convoquei empresários para se reunirem com o corpo técnico do
banco e, juntos, discutirem projetos de expansão de seus negócios. Tal iniciativa, não raro, era recebida com
espanto pelo empresariado, tão desacostumado que estava de ver o Estado voluntariamente investir no setor
produtivo e, mais do que isso, de vislumbrar potencial de crescimento em sua própria atividade.”
(BETTENCOURT; BETTENCOURT; FARO, 2010, p. 122).
236

agências públicas como CACEX, CDI, FINEP, INPI, CPA, CNP138 e os ministérios jogaram também
papéis cruciais de financiamento, regulação, governança e política industrial (CÁRIO, 1997, p.
242).
A configuração do tripé (empresa estatal, capitais privados nacionais e capitais
estrangeiros) na formação da indústria petroquímica no Brasil teve suas especificidades.
Suarez (1986) defende que o setor petroquímico foi uma arena de atuação poderosa da
tecnoburocracia estatal brasileira a partir dos anos 1960. Esta, esclarece o autor, não deve se
confundir com o Estado, pois essas instâncias não compartilhavam dos mesmos interesses.
Por exemplo, enquanto a presença do capital estrangeiro no Brasil era determinada por uma
política de Estado, a tecnoburocracia, guiada pelo nacionalismo (e não pelo estatismo),
divergia nesse assunto com outros quadros do Estado. Assim, a tecnoburocracia e o capital
estrangeiro disputavam fazer predominar seus interesses nas políticas do Estado. Em 1964, a
tecnoburocracia saiu vitoriosa ao aliar-se aos militares. O setor petroquímico é um exemplo
emblemático dessa aliança. O ex-presidente Ernesto Geisel, primeiro como presidente da
Petrobras e ao fim como presidente da Norquisa, simboliza essa união entre setor
petroquímico, tecnoburocracia e militares.
Mesmo assim, como se sabe, o capital estrangeiro não foi expulso do país após
1964, tampouco do setor petroquímico, mas, Suarez (1986) defende que este, atuando em
um espaço produtivo sob o comando da tecnoburocracia (e esta muito bem respaldada pelos
militares), não usufruiu das benesses e espaços que conseguiu em outros setores da economia
brasileira: “Em outras palavras, o capital multinacional tinha tanto interesse na petroquímica
(como vimos) quanto nas indústrias de bens de consumo duráveis; contudo, ao contrário
destas não foi possível implantar aquela” (SUAREZ, 1986, p. 68, nota de rodapé no. 10).
O esquema tripartite concebido para o setor petroquímico tanto na área produtiva
quanto na gerencial foi caracterizado por muitos conflitos. Ao fim do período, nesse embate,
o capital nacional (estatal e privado) resultou vitorioso e a ação da tecnoburocracia (que atuou
em defesa do capital nacional) na formação e consolidação dos polos petroquímicos mostrou-
se fundamental para tal desfecho139.

138
Abreviações para Carteira de Comércio Exterior, Conselho de Desenvolvimento Industrial, Financiadora de
Estudos e Projetos, Instituto Nacional de Propriedade Industrial, Conselho de Política Aduaneira, Conselho
Nacional de Petróleo.
139
Não se deve inferir que a marginalização das empresas estrangeiras petroquímicas no modelo implementado
no Brasil correspondeu a uma perda de posição internacional dessas empresas relativamente às brasileiras. O
237

Antes da vigência do modelo do tripé no setor petroquímico, a produção e


distribuição de petroquímicos no Brasil, em volume e qualidade marginais, estavam sob a
responsabilidade da Petrobras (em 1958), em uma tentativa de não permitir que empresas
químicas estrangeiras monopolizassem o setor químico. Daí se nota a origem da
tecnoburocracia, e seu viés nacionalista, no setor petrolífero (SUAREZ, 1986, p. 67).
Em 1964, as ações direcionadas para a indústria petroquímica se desvinculam
diretamente da indústria petrolífera no Brasil com a criação do GEIQUIM (Grupo Executivo da
Indústria Química). De fato, um maior foco para o setor se mostrava necessário em função do
descompasso que havia entre o crescimento da produção de petroquímicos e a demanda de
vários setores que apresentavam elevadíssimo crescimento no período (SUAREZ, 1986).
O GEIQUIM possuía o poder de aprovar benefícios e financiamentos aos projetos
de expansão da produção petroquímica e a orientação do governo era que se desse prioridade
ao capital privado. Mas, em Capuava, principal projeto de construção de um polo
petroquímico (em função da Refinaria União, fundada em 1954140), o risco era muito alto para
os grupos privados nacionais e, em função de decisões estratégicas da matriz, os sócios
estrangeiros não permaneceram no projeto. Assim, a Petrobras surgiu como a única opção
para que o país pudesse contar com insumos básicos petroquímicos para seus planos de
crescimento industrial, sem que fosse obstado pelos já conhecidos constrangimentos externos
derivados de um alto coeficiente de importação. Como ressaltou Suarez (1986, p. 79):
“A entrada da Petrobras na indústria petroquímica não era, porém, um
objetivo exclusivo de sua tecnoburocracia. Além de ´requerida´ pelos
grupos privados nacionais, a entrada da Petrobras era fundamental ao
próprio modelo de desenvolvimento adotado pelo Estado. A debilidade dos
grupos privados nacionais e a incerteza por parte das multinacionais para a
implantação a contento da indústria petroquímica tornavam inevitável a
participação do Estado como empreendedor.”

Assim, a presença da empresa estatal na implementação do primeiro complexo


petroquímico do Brasil (o de Capuava) é explicada não por razões ideológicas e sim por

licenciamento de tecnologia, por um lado, gerou às empresas estrangeiras uma renda extraordinária (fruto da
monopolização anterior da tecnologia), e, por outro lado, funcionou como pressão para que essas empresas, por
meio de investimentos abundantes em novos processos e produtos, se protegessem da entrada das novas
empresas dos países subdesenvolvidos. Com isso, mesmo com o repasse de tecnologia, a diferença entre as
empresas líderes e brasileiras tendeu a aumentar (FURTADO, 2003). Como sintetizou o autor: “Isso permite
antever um cenário mais restritivo do que no passado recente em termos do acesso às novas tecnologias no
futuro próximo.” (p. 59).
140
O capital da Refinaria União era composto por ações preferenciais de Alberto Soares Sampaio e Walther
Moreira Salles (KLEIN, 2011).
238

necessidade, até porque a idéia inicial era que fosse um empreendimento apenas privado.
Diante da pressão pela substituição de importações por produção interna, a participação
estatal ocorre para preencher espaços que não interessaram ao capital privado
(principalmente ao estrangeiro141) e para coordenar um volume expressivo de investimentos
com implicações intersetoriais complexas que determinavam a necessidade de um ente
centralizador de decisões, planejamento e com capacidade de financiamento (SCHUTTE,
2004).
Mesmo que o capital estrangeiro possuísse o porte, as competências tecnológicas
e a capacidade de financiamento, ampliar os investimentos internacionais no segmento de
produção de commodities petroquímicas em países da periferia, cuja necessidade era de
investimentos de alta escala, baixa rentabilidade e longo prazo de maturação, definitivamente
não estava incorporado nas estratégias de suas matrizes naquele momento. Interessava, nos
países subdesenvolvidos, a produção de itens com maior valor agregado unitário, trajetória à
qual estavam sendo direcionados os investimentos e seus esforços tecnológicos naquele
momento e que apresentavam maior dinamismo. Além disso, de suas unidades no exterior,
as estrangeiras aqui no Brasil (Rhodia, Solvay e Union Carbide) podiam importar os insumos
básicos e concentrarem sua produção nos itens mais sofisticados (SCHUTTE, 2004).
Dessa forma, a Petrobras foi “liberada” para participar do setor petroquímico. No
entanto, pela lei da época, a Petrobras não poderia ter participação minoritária nas suas
associações com outras empresas. A solução concebida, em 1968, foi a criação da Petroquisa,
uma subsidária da Petrobras que poderia se associar a capitais privados e estrangeiros em
quaisquer empreendimentos com quaisquer participações.
Formou-se, então, o polo petroquímico de São Paulo, em torno da construção da
Petroquímica União (PQU) numa combinação tripartite, mas com controle do capital privado
nacional, o grupo Unipar, que se criou com a junção do grupo Capuava e Moreira Salles,
detendo o controle da central de matérias-primas142. A Petroquisa, naquele momento, tinha
participação secundária, mas estava com o importante papel de ser fornecedora da nafta à

141
A Phillips Petroleum, em 1967, abandona o projeto da Petroquímica União e, então, a Petrobras entra como
sócia (KLEIN, 2011).
142
Além da central de matérias-primas, participaram do polo, por exemplo, Poliolefinas, Companhia Paulista de
Monômeros, Oxiteno e Polibrasil (KLEIN, 2011)
239

central de 1ª. geração143 (SUAREZ, 1986). O capital estrangeiro se inseriu no empreendimento


com o fornecimento de financiamento para a compra do projeto de engenharia,
equipamentos e materiais e como os fornecedores dos bens de capital. A empresa de
equipamentos era Lummus Company, dos EUA, e o financiamento foi feito por um consórcio
de bancos franceses (KLEIN, 2011).
Em 1969, Ernesto Geisel assumiu a presidência da Petrobras e definiu um papel
mais ousado para a empresa, ao direcionar as ações da empresa para a expansão a outros
setores (refino e petroquímica), mais do que propriamente para a produção de petróleo. Esse
papel mais ativo da Petrobras na indústria química coincidiu com a ascensão de
tecnoburocratas baianos que começaram a idealizar um polo petroquímico na Bahia (SUAREZ,
1986).
A justificativa econômica para um novo polo eram os crescentes valores de
importação de petroquímicos, mostrando que a capacidade produtiva apenas de São Paulo
era insuficiente para a demanda brasileira144. O que não havia, na verdade, era a justificativa
econômica para expandir a produção a partir do território baiano, sem infraestrutura,
recursos humanos e afastado do principal centro consumidor (SUAREZ, 1986).
Assim, já que a razão para a escolha daquela região era política, o Estado teria que
arcar com os riscos e custos onerosos de tal decisão. Por esse motivo é que a Petroquisa
ocupou na estrutura societária do polo baiano, desde o início, uma partipação majoritária,
diferentemente do que ocorreu no polo do ABC paulista (SUAREZ, 1986).
Depois de uma longa disputa com os grupos paulistas que requeriam uma
expansão do polo de Capuava, em 1972, criou-se a Copene, subsidiária da Petroquisa,
responsável pelas operações do polo petroquímico a ser construído em Camaçari, na Bahia
(SUAREZ, 1986). O início de suas operações ocorreu em 1978, tendo recebido investimentos
da ordem de US$ 1,3 bilhão. Pela sua envergadura e instalado em um estado tão pobre,
Marcos Vianna, ex-presidente do BNDES, classifica o empreendimento como a representação

143
No fim dos anos 1960, o grupo privado controlador da PQU, passa por grave crise financeira com a saída do
grupo Moreira Salles e com a falência do Banco União Comercial que pertencia ao grupo Capuava, fazendo com
que a Petroquisa assumisse, então, o controle acionário da PQU (SUAREZ, 1986).
144
Além disso, segundo Marcos Vianna, apesar de gigantesca pressão do empresariado paulista, a expansão do
polo de São Paulo só intensificaria os problemas que já constavam sabidamente em São Paulo, como a excessiva
concentração industrial com um parque produtivo petroquímico arcaico e a poluição, tendo nesse último aspecto
Cubatão como símbolo evidente (BETTENCOURT; BETTENCOURT; FARO, 2010, p. 122).
240

da “revolução industrial baiana, com efeitos diretos em todo o Nordeste brasileiro”


(BETTENCOURT; BETTENCOURT; FARO, 2010, p. 156; p. 160).
Diferentemente de São Paulo em que o tripé formou-se sem planejamento prévio,
em Camaçari, dado o nível de subdesenvolvimento da região e a complexidade do projeto, os
três conjuntos de capitais foram pormenorizadamente alvos de planejamento e
coordenação145 (SCHUTTE, 2004).
“Só a partir da montagem do segundo complexo, em Camaçari, Bahia,
surgiu o modelo tripé. A escolha de Camaçari foi puramente política e
nunca teria sido fruto de decisões tomadas no âmbito do mercado.
Considerando o expressivo aporte para a capacidade de arrecadação do
Estado da Bahia, é um dos mais bem-sucedidos projetos de
desenvolvimento regional da história do Brasil.” (SCHUTTE, 2004, p. 106).

O modelo do tripé adotado definia para o capital estrangeiro a função de transferir


a tecnologia146, enquanto a parte do Estado (por meio da Petrobras) se responsabilizava pelo
fornecimento da matéria-prima (nafta). O controle nacional da associação tripartite era
garantido com a participação da Petroquisa que teria que ser maior ou igual à do maior sócio
privado. Além disso, o CDI era a instituição responsável para a aprovação dos projetos e, sua
integração a um arcabouço regulatório, determinava os papéis de cada agente e os incentivos
que receberiam (por exemplo, o acesso à nafta e seu preço, o apoio do BNDE, do governo do
Estado, barreiras à importação, apoio à pesquisa, etc.) (SCHUTTE, 2004).
Segundo Suarez (1986), as decisões do CDI foram fundamentais para restringir o
papel do capital estrangeiro ao fornecimento de tecnologia. Afinal, os incentivos fiscais e
financeiros (deduções de impostos – tanto de renda quanto os relacionados à importação de
máquinas –, financiamento e proteção aduaneira) estavam sujeitos à aprovação do CDI.
“Na verdade, não havia nenhum empecilho formal para que a Dow, ou
qualquer outra multinacional, se instalasse de forma autônoma no

145
O fato de o polo de Camaçari ter sido fruto de um intenso, complexo e cuidadoso planejamento prévio e, para
compensar as desvantagens operacionais com relação ao polo paulista (principalmente em função da distância
do mercado consumidor), o projeto de engenharia contou com alguns trunfos, como a aglomeração física, a
escala elevada e a integração entre as unidades produtivas de 1ª. e 2ª. geração e, portanto, uma alta eficiência
operacional do complexo petroquímico como um todo (SUAREZ, 1986).
146
Suarez (1986, p. 133) mostra inclusive que, diferentemente da história de formação de outros setores, no
Brasil, como o siderúrgico, o capital estrangeiro teve papel irrelevante na viabilização financeira dos projetos.
Em Camaçari, com relação ao uso de recursos próprios o grupo estrangeiro apresentou uma participação de 8,3%
(o Estado, 28,5%, o grupo nacional, 22,1%, e Finor e assemelhados, 41,2%) e também, na captação via
financiamento, o fornecimento de crédito externo correspondeu a apenas 14,4% do uso de capital de terceiros
(o BNDE, 68,6%, o Aval/BNDE, 12,9% e outros financiamentos no país, 2,1%). Como frisou Suarez (1986, p. 134),
“ao adquirir a tecnologia em troca da participação acionária, o modelo tripartite reduzia ainda mais a necessidade
de recursos externos”.
241

mercado brasileiro. No entanto, sem a aprovação do CDI, que no caso do


polo da Bahia apenas referendava as decisões da Copene, perderia
praticamente todos os benefícios governamentais, tornando-se, na prática,
economicamente inviável.” (SUAREZ, 1986, p. 136).

A força política recebida pelo polo de Camaçari pode ser ilustrada com a
participação e engajamento pessoal de Ernesto Geisel. Primeiramente, na presidência da
Petrobras, reconheceu a importância estratégica da criação de Camaçari. Em 1979, logo após
deixar a presidência da República – lá, cabe destacar que aprovou criação do polo do Sul –, já
assumiu a presidência da Copene. Segundo Schutte (2004), em 1980, Geisel foi o “primeiro
presidente da holding Norquisa (nordeste Química S.A.), que aglutinava as 17 empresas
privadas acionistas da Copene, da qual também era presidente. Geisel presidiu a Norquisa e a
Copene durante 15 anos, renunciando em dezembro de 1995, alguns meses antes de morrer”
(SCHUTTE, 2004, p. 108).
A história da criação do polo do Rio Grande do Sul, em Triunfo, a partir da fundação
da Copesul, central de matérias-primas, possui uma trajetória parecida com a do polo
nordestino. Com as altas projeções de crescimento da demanda realizadas no bojo do II PND
e para cumprir um dos principais objetivos do plano que era implantar um setor produtor de
bens de capital robusto no Brasil, o setor petroquímico surgiu como alvo de expansão da
capacidade produtiva do país, tanto porque forneceria insumos para mais um ciclo de
crescimento, quanto porque atuaria como demandante dos bens de capital a serem
produzidos no país (SUAREZ, 1986).
De acordo com Rocha (2009), a Copesul tinha como objetivo expandir a produção
de petroquímicos contribuindo para o processo de substituição de importações de insumos
básicos, desconcentrar a produção, ser um ponto de referência para competição com países
da América do Sul (concorrência com a Argentina), aumentar a força do capital nacional no
esquema tripartite (diga-se que este era um dos objetivos principais gerais do II PND), a partir
de mecanismos mais efetivos que pudessem melhorar o desenvolvimento tecnológico das
empresas brasileiras147. Para isso, a FINEP (Financiadora de Estudos e Projetos) teve um papel
importante “em financiar investimentos de capacitação tecnológica, centralização da

147
Vale ressaltar que enquanto o capital estrangeiro participou do polo de Camaçari aportando tecnologia, na
Copesul, sua atuação já foi mais direcionada para a transferência tecnológica.
242

avaliação dos contratos de tecnologia no INPI e aceitação do valor da tecnologia como parte
do capital no caso de joint-ventures com empresas estrangeiras (...).” (ROCHA, 2009, p. 49).
Com a intenção de fortalecer a perna do capital privado nacional e suas
capacitações tecnológicas, no polo do Sul, a atuação da Petroquisa iria ficar limitada à central
de matérias-primas, enquanto a segunda geração ficaria sob o controle do grupo privado
nacional. No entanto, os grupos nacionais não tinham envergadura para a participação em
três polos. Assim, a Petroquisa amplia sua participação no polo sul, mesmo não sendo o plano
original, repetindo, em termos, o modelo tripartite adotado na Bahia (SUAREZ, 1986).
Se o sucesso desse conjunto de ações pode ser celebrado, críticas também podem
ser registradas. Uma delas diz respeito ao malogro da criação de competências internas para
a condução do desenvolvimento tecnológico brasileiro no setor (GUERRA, 1994; CÁRIO, 1997),
a despeito do uso de mecanismos que buscavam o aprimoramento da transferência
tecnológica por parte dos sócios estrangeiros148. Esse obstáculo criado pelos sócios
estrangeiros pode ser obervado nesse trecho de Rocha (2009, p. 52):
“Um dos motivos em desencorajar investimentos concorrentes era forçar
as players internacionais a aceitarem o modelo tripartite e as exigências de
transferência tecnológica. Se este modelo parece ter ajudado a
desenvolver a engenharia de detalhamento e a otimização de processos,
por outro lado, contribuiu para criar empecilhos quanto ao
desenvolvimento de tecnologia in-house, que muitas vezes não interessava
nem ao sócio estrangeiro nem ao local que participavam de outros
empreendimentos na petroquímica.”

Outra crítica a ser mencionada diz respeito à estrutura patrimonial fragmentada


do setor que resultou da dinâmica do esquema tripartite. A dispersão das participações
acionárias dos grupos empresariais pelos vários empreendimentos petroquímicos era o
inverso do que se observava nos países centrais, nos quais predominavam empresas de
grande porte verticalizadas. Os vários incentivos fiscais e creditícios e a presença da Petroquisa
como sócia principal permitiram a entrada na sociedade de empresas de pequeno porte que,
sem a envergadura própria e sem outros mecanismos de financiamento, não puderam
preponderar na estrutura acionária e deter o controle dos elos da cadeia petroquímica que
exigiam integração patrimonial. Mencione-se também que os três polos iniciais foram

148
Suarez (1986, p. 131) destaca que o capital japonês apresentou uma participação maior nos contratos de joint-
venture e com cláusulas de transferência de tecnologia. O capital estadunidense mostrava-se avesso a esse tipo
de participação que não lhe assegurava o controle das operações.
243

implementados e consolidados em curto espaço de tempo, exigindo, portanto, uma


capacidade de investimento individual que os grupos privados nacionais não detinham.
A despeito de algumas fragilidades da estrutura industrial construída ao longo das
décadas de 1950, 60 e 70, durante a década da redemocratização, o setor produtivo brasileiro
pôde usufruir de um parque industrial no setor petroquímico que contava com uma produção
de resinas de alto volume e com atores nacionais importantes. Como apontou Schutte (2004,
p. 110), em 1989, o sistema Petroquisa contava com 35 empresas (cinco produtores de
polietilenos, três de polipropileno e três de elastômeros). Dentre as principais empresas
nacionais citam-se a Unipar, Odebrecht, Suzano, Ultra, Ipiranga, Mariani, Conepar, Cevekol,
Itap, Petropar e Una.
As fragilidades e as críticas a esse modelo de implantação desse setor provedor de
insumos básicos não podem de maneira alguma subtrair a grandiosidade de seus feitos. Em
curto espaço de tempo (entre 1964 e 1983), implantou-se no Brasil um parque industrial
petroquímico a partir de três grandes complexos que tinham a capacidade de atender a
demanda doméstica de produtos básicos e ainda de exportar (aproveitando-se do mercado
regional da América do Sul). Além disso, no inicío da década de 1980, o setor petroquímico já
se mostrava pronto e dando alguns importantes passos para entrar no segmento da química
fina149.
Suarez (1986, p. 108) elenca três razões para o reconhecimento do “feito
histórico” que foi a implantação do setor petroquímico no Brasil em tão pouco tempo: 1) ao
final dos 1970 esse setor estava situado na 7ª. posição no ranking mundial e o 1º. na América
Latina, 2) o setor cresceu substantivamente sem que o país possuísse autossuficiência em
petróleo e, 3) todo esse esforço foi realizado em um setor já extremamente avançado em
termos tecnológicos nos países centrais e que manteve alto dinamismo tecnológico ao longo
do processo de desenvolvimento industrial no Brasil.

149
A entrada no segmento da química fina podia ser exemplificada pelo controle que a Petroquisa e Norquisa
assumiram na Salgema, empresa cujo subproduto era o cloro, portanto, insumo da cloroquímica e da COPERBO,
empresa produtora de borracha sintética, que se juntou à empresa Álcoolquímica para a produção de ácido
acético e acetato de vinila. Esses dois segmentos cloroquímica e álcooquímica, em conjunto com a petroquímica,
seriam fundamentais para a participação competitiva na produção de especialidades químicas, cujo principal
setor consumidor é o farmacêutico. Os governos estaduais da Alagoas, no primeiro caso, e de Pernambuco, no
segundo, por meio de suas agências de desenvolvimento foram fundamentais para a viabilização de um polo
cloroquímico e álcoolquímico nessas regiões (SUAREZ, 1986).
244

As políticas recessivas do início da década de 1980, opção escolhida ou resultante


da proposta ortodoxa de enfrentar a inflação e o pagamento da dívida externa, resultam no
abandono dos objetivos do II PND de dar mais um passo na construção do parque produtivo
brasileiro. As estatais, durante o período de ajuste, foram utilizadas tanto para contribuir para
o combate à inflação (via represamento de seus preços) como para atrair moeda estrangeira
(via aumento do endividamento externo e via exportações).
Mesmo assim, o setor petroquímico durante os anos mais intensos de crise
econômica brasileira pôde preservar a sua rentabilidade, operar com baixa ociosidade e
logrou evitar uma possível desnacionalização. Foram fundamentais nesse período a atuação
da Abiquim (que pressionou para a liberação dos preços), a constituição da Norquisa150, que
aumentou a participação privada e alijou a petroquímica do controle dos preços públicos, e a
tecnoburocracia petroquímica que conseguiu, em 1983, a aprovação pelo Conselho Nacional
de Preços (CNP) de subsídios no preço da nafta e do gás natural (SUAREZ, 1986, p. 167).
A Petroquisa foi fundamental na década de 1980 para representar o setor e obter
negociações favoráveis nos preços petroquímicos e para instruir as empresas a serem bem-
sucedidas no acesso aos benefícios dos programas públicos. O BNDES, igualmente precioso,
garantiu recursos para a reestruturação e para a expansão produtiva das empresas privadas
(CÁRIO, 1997, p. 243).
A rentabilidade do setor petroquímico foi mantida em função de sua atuação
política bem-sucedida nas negociações de preços de matéria-prima e finais, mas também
porque o setor empreendeu ações de grande vulto no aumento na eficiência dos processos
de produção e de logística, bem como nas inovações em produto. O desenvolvimento
tecnológico e gerencial e a preservação da rentabilidade do setor petroquímico nos anos de
crise de 1980 permitiram a ampliação do grau de autonomia do setor produtivo brasileiro vis-
à-vis o capital internacional (SUAREZ, 1986).
O estabelecimento de vantagens competitivas duradouras (ou seja, não
assentadas em bases espúrias de competitividade) pelo setor petroquímico brasileiro constitui
a hipótese principal de Guerra (1991). O autor defende nesse trabalho que, ao final da década
de 1980, o setor estava pronto para constituir um núcleo endógeno de inovações, “capaz de

150
Criada em 1980, a Norquisa, uma holding das 17 empresas de segunda geração de Camaçari, passou a deter
47,2% do controle acionário da Copene, quase semelhante ao da Petroquisa, 48,2%.
245

delegar aos agentes internos a responsabilidade pelo presente e futuro deste setor industrial”
(p. 10).
Enfim, o setor petroquímico alcança a década de 1990 mostrando um
desempenho bastante positivo: elevada escala (por meio de três polos petroquímicos),
integração produtiva (por meio da Petroquisa com participação acionária em quase todos os
empreendimentos), baixa capacidade ociosa (com exportações compensando a diminuição da
demanda interna), melhorias contínuas nos processos produtivos e capacidades tecnológicas
em franco crescimento (refletido pelos planos de entrar no segmento da química fina, como
o próximo passo para a expansão). O modelo do tripé, sob a liderança da Petrobras (a partir
de sua subsidiária Petroquisa), incontestavelmente tinha sido bem-sucedido. De Paulo Cunha,
presidente da Abiquim à época, em 1982, ouviu-se a seguinte frase em seu discurso de
abertura de um seminário: “É preciso insistir no modelo que está certo, no modelo que deu
certo” (SUAREZ, 1986, p. 213). Como será visto no item a seguir, esse modelo, ainda que muito
bem avaliado, passou a ser contestado na década de 1990.

3.3.2. Década de desestatização e desregulação: o setor petroquímico não foi poupado

A década de 1990 no Brasil foi o período em que ocorreram dois movimentos


concomitantes e de grandes repercussões ao setor petroquímico: o Plano Nacional de
Desestatização (PND) e a liberalização e desregulamentação dos mercados.
Se a entrada e participação do Estado na petroquímica não seguiam princípios
ideológicos e sim pragmáticos visando a formação de um setor industrial de base em um país
subdesenvolvido, a busca pela retirada do Estado dos projetos petroquímicos teve sim
motivações profundamente ideológicas. Afinal, a privatização que se propôs à petroquímica
(bem como a outros setores) não estava inscrita em um plano geral com metas definidas por
políticas industriais e tecnológicas (CÁRIO, 1997).
O argumento contido no plano era o de que a saída da empresa estatal poderia
ensejar um aumento da participação privada, com concentração em pequenos grupos que
disporiam de capital para alcançarem os requisitos para a competição internacional. Porém,
Cário (1997) mostra que o discurso não foi condizente com a prática e a desestatização
vinculou-se mais aos propósitos da política macroeconômica de retirada do Estado do setor
produtivo e de arrecadação de receitas do que a uma estrutura de política industrial que
246

visasse o desenvolvimento do setor petroquímico sob um novo modelo. Como explicita nesse
trecho:
“A gestão do programa de privatização procurou se pautar pelo
imediatismo a se preocupar com medidas aglutinadoras de empresas que
tomassem maior tempo, perdendo, com este procedimento, a
oportunidade de reestruturar a indústria através da formação de grandes
grupos econômicos com maior porte empresarial para se obter melhores
vantagens competitivas.” (CÁRIO, 1997, p. 247).

O setor petroquímico foi um dos alvos prioritários do PND pois respondia aos
critérios delineados no plano, de acordo com a experiência internacional: “segmento de boa
rentabilidade, com passivo não elevado, sem requisitos de grandes inversões e de reduzida
possibilidade de fracasso de venda” (CÁRIO, 1997, p. 244).
Um dos entrevistados por Schutte (2004) realiza o registro de que a petroquímica
no Brasil já era privada. Afinal, na estrutura “a três”, dois segmentos de atores eram privados,
o capital nacional e o capital estrangeiro. A intenção era apenas de, finalmente, expulsar
totalmente o Estado do setor petroquímico. Como se observou no item anterior, no polo de
Camaçari, a Norquisa tinha a mesma participação acionária que a Petroquisa no início de 1980.
A própria Petroquisa, tentando defender sua permanência no setor após a
desestatização, mostrou em relatórios o quanto a sua presença era essencial para o aumento
dos rendimentos privados, pela sua influência na expansão do setor petroquímico e seus
desdobramentos para outros setores a partir de fortes efeitos multiplicadores. Além disso,
não apresentava prejuízo e, portanto, não requeria recursos públicos, e, com os resultados
positivos na petroquímica ainda contribuía para a rentabilidade da Petrobras (CÁRIO, 1997, p.
245).
Mas, o modelo escolhido para a privatização do setor petroquímico seguiu os
termos conforme o proposto pelo BNDES, no qual o viés liberal predominava. O mercado se
sobrepôs a quaisquer outras formas de coordenação, como, por exemplo, a junção das
participações acionárias e a sua venda em bloco, que seria a proposta da Petroquisa, ou a
venda das ações da Petroquisa, a partir de conjuntos regionais para formar grupos de
empresas de acordo com a divisão dos polos, que era a proposta da Abiquim (ROCHA, 2009).
Até houve uma tentativa de vincular a participação do BNDES na privatização ao
reordenamento societário visando a constituição de grandes grupos privados, mas a maioria
247

dos empresários e instituições financeiras apresentaram-se contrários. O modelo liberal era


bastante favorável às empresas pois:
“(...) viram a possibilidade de adquirir controle dos empreendimentos em
condições favoráveis, por meio de aquisição de moedas de privatização
com deságio elevado, utilização do valor de face dos títulos nos leilões,
garantia de financiamento em condições vantajosas, direito do uso de
preferência de compra de ativos e barreira parcial de entrada de
investidores estrangeiros” (CÁRIO, 1997, p. 245).

Assim, o resultado das privatizações dos anos 1990 foi a substituição de


significativa participação da Petroquisa (mantendo apenas uma menor presença nas centrais
petroquímicas – na PQU, de 17,5%, na Copene, de 5,6% e na Copesul de 15% do total das
ações) por participações acionárias de pequeno relevo distribuídas em vários grupos privados
nacionais e com muitas participações cruzadas entre as empresas dos três complexos
petroquímicos.
O aumento do número de sócios pode ser visualizado no que ocorreu com a
privatização da PQU. Antes, essa central era controlada por apenas dois grupos, a Petroquisa
e a Unipar. A diminuição da participação da Petroquisa resultou na entrada de mais 4 grupos
(Union Carbide, Oxiteno, Odebrecht e Polibrasil) que, por sua vez, tinham participação ou
eram resultado da participação acionária de outros grupos e proprietários de outros ativos em
outros empreendimentos petroquímicos (PELAI, 2006; ROCHA; SILVEIRA, 2015).
No fim do processo de privatização, em 1999, resultaram como os grupos mais
importantes no controle do setor petroquímico (com direito a voto): Grupo Odebrecht
(16,87%), Nemo Feffer S.A. (11,78%), Banco Econômico (5,76%) e Holding Vila Velha (Unipar,
4,98%). (ROCHA, 2009; ROCHA; SILVEIRA, 2015). Uma das críticas que se faz com relação à
participação desses grupos privados diz respeito ao fato de que a petroquímica nunca lhes
constituiu a atividade principal, obscurecendo as perspectivas de longo prazo dos
investimentos nesse setor.
A retirada da Petroquisa do setor petroquímico talvez não se demonstrasse tão
problemática se este ente estatal não fosse exatamente o elo supridor da principal matéria-
prima do setor. Não por outro motivo, várias vezes alguns leilões foram cancelados por falta
de interesse em uma configuração que resultaria com a saída da Petroquisa. Expulsar o Estado
significava, nesse específico caso, eliminar o trunfo que o setor detinha até então nos
complexos petroquímicos. Como registra Shutte (2004, p. 132), no leilão das ações da
248

Metanor ou do Deten: “os sócios privados não queriam comprar a participação estatal,
entendendo a vantagem de manter a Petrobras como sócia fornecedora da matéria-prima.”
A saída da Petrobras como sócia e a expectativa de formação de uma estrutura
fragmentada (com vários sócios e com a perda da integração societária entre 1ª. e 2ª.
gerações) no cenário pós-privatização eram tão desabonadoras que não atraíram o interesse
do capital estrangeiro na compra das participações que estavam sendo leiloadas (gerando,
mesmo sem querer, uma barreira à desnacionalização do setor) (Schutte, 2004).
Rocha (2009) elenca ainda duas razões para ocupação do capital privado nacional
no espaço aberto na venda das participações da Petroquisa em detrimento do capital
estrangeiro: uma de ordem interna e outra externa. A razão interna reside na força que
empresas nacionais lograram deter ao longo da construção do setor, segundo o formato
tripartite. Nesse período, grupos de porte considerável puderam ser formados e se mostraram
capazes de disputar os leilões de forma competitiva. A outra razão, externa, está relacionada
ao concomitante processo de reestruturação mundial que provocou dois movimentos que
diminuíram a importância da América Latina nos programas de investimento e expansão das
empresas estrangeiras multinacionais: a) a redução do grau de diversificação com
concentração em áreas da química fina em que a América Latina não proporcionava relevante
mercado consumidor e, b) o deslocamento da produção petroquímica para o Oriente Médio
cuja atratividade estava baseada no baixo preço das matérias-primas. A única exceção a esse
movimento teria sido o aumento da capacidade de produção da Dow Chemical na Argentina
naquele período.
Schutte (2004, p. 134) também aponta como razão para a não desnacionalização
do setor, assim como ocorreu em tantos outros setores que passaram pelo processo de
desestatização, a presença da tecnoburocacia “com visões não raramente nacionalistas”, a
despeito de enfraquecida e já sob o controle de gerências com visão liberal.
Já depois da criação da Braskem e seu controle sobre a Copene, sobre uma parte
da Copesul e de várias empresas de 2ª. geração, o controle acionário do setor petroquímico é
analisado por Gomes, Dvorsak e Heil (2005), como exibido na Tabela 32. Podem-se observar
a baixa participação do capital estrangeiro (15% do total e só 4% das centrais de matéria-
prima) e a concentração do controle na Braskem (42% no total, sendo 56% nas centrais e 38%
249

na 2ª. Geração) e em outros três grupos privados (Unipar, Ipiranga e Suzano) que detinham
32% nas centrais e 36% na 2ª. geração.
Esse movimento de fortalecimento de grupos nacionais na petroquímica foi
considerado importante e diversos autores analisaram suas causas e consequências. Schutte
(2004), define esse resultado como um sucesso e o atribui às ações do Estado brasileiro no
período anterior à privatização que buscaram deliberadamente a formação de grupos
nacionais competitivos.
“Ninguém tem dúvida de que, sem a participação ativa do Estado, não seria
constituído um dos dez maiores complexos químicos do mundo. O modelo
de intervenção (...) não só visou garantir a existência da petroquímica, mas
implicou também, de forma implícita, evitar que fosse dominada por
empresas transnacionais. Para isso, o Estado investiu muito na formação
de uma classe empresarial petroquímica, o que de fato foi outro elemento
de sucesso. Nesse aspecto, existe grande similaridade com a política
governamental que acompanhou a criação do setor petroquímico na Coréia
do Sul.” (SCHUTTE, 2004, p. 240).

O autor (p. 241) também assinala a marca nacionalista que distingue o empresário
da petroquímica do dos demais setores: “O que Fiori (1997) escreveu a respeito do grande
empresário nacional não vale no setor petroquímico: “quando não vendeu ou fechou sua
empresa, manteve sua opção de sócio menor associado ao capital multinacional”.

Tabela 32 – Brasil: participação (%) dos grupos na capacidade instalada de produção, 2005
Grupos Produtos básicos Polímeros Subtotal Outros Total
Mil t/a % Mil t/a % Mil t/a % Mil t/a % Mil t/a %
Braskem 3.923 56,0 2.328 38,2 6.251 47,7 339 13,3 6.590 42,1
Unipar 897 12,8 862 14,1 1.759 13,4 298 11,7 2.057 13,1
Ipiranga 1.016 14,5 650 10,7 1.666 12,7 0 0,0 1.666 10,6
Suzano 310 4,4 696 11,4 1.006 7,7 0 0,0 1.006 6,4
Petrobras 609 8,7 367 6,0 976 7,5 0 0,0 976 6,2
Elekeiroz 0 0,0 0 0,0 0 0,0 420 16,5 420 2,7
Ultra 0 0,0 0 0,0 0 0,0 362 14,2 362 2,3
Unigel 0 0,0 0 0,0 0 0,0 240 9,4 240 1,5
Estrangeiro 248 3,5 1.193 19,6 1.441 11,0 891 34,9 2.332 14,9
Total 7.003 100,0 6.096 100,0 13.099 100,0 2.550 100,0 15.649 100,0
Fonte: Gomes, Dvorsak e Heil (2005, p. 97).
250

José Serra, então senador, deu uma entrevista para o Estado de São Paulo, em
29/09/1997, na qual ressaltou a importância da presença do capital nacional (bem como o da
Petrobras) no setor petroquímico. Schutte (2004, p. 216) registrou esse trecho da entrevista
do senador. Nas palavras de José Serra:
“Em setores como o petroquímico é preciso encarar essa questão sob uma
ótica global e não local. Não tenho dúvida da necessidade de o país ter
grupos privados fortes para concorrer com as grandes empresas
internacionais. O retorno da Petrobras à área petroquímica é praticamente
indispensável, dado o tamanho da empresa. Para que o setor petroquímico
seja forte, terá inevitavelmente de ser concentrado”.

Se o capital privado nacional ganhou posições expressivas no setor, o capital


estrangeiro perdeu. Mas, as análises mostram que a grande perdedora, não só em
participação acionária, mas também em termos financeiros, foi a Petrobras, que assumiu o
deságio dos títulos na venda de seus ativos e, portanto, perdas patrimoniais significativas com
a privatização do setor petroquímico (ROCHA, 2009, p. 66).
A saída da Petroquisa como principal sócia dos projetos abriu margem para um
necessário debate a respeito da importância do Estado nesse setor. Os argumentos que
aparecem nos estudos do setor podem ser divididos em três frentes:

A) Petrobras como fornecedora de matéria-prima

Uma das especificidades do setor petroquímico brasileiro, que é determinante


para qualquer análise prospectiva do setor, é a existência da Petrobras como monopolista na
produção de matérias-primas no Brasil para a petroquímica e, ao mesmo tempo, pelo fato de
ser uma empresa de capital misto, mas ainda majoritariamente estatal151.
A presença desse agente e a sua natureza jurídica determinam, de um lado, a
existência de um fornecedor que pode cumprir uma função pública para os setores a jusante,
e, por outro lado, representa uma forte barreira à entrada para empresas com estratégias
calcadas na integração vertical (para garantir o acesso e o preço da matéria-prima).
Furtado (2010) utilizou uma expressão que descreve bem os desafios para a
Petrobras: “a condição monopolista de fato da Petrobras tem muitos bônus e também tem
ônus”. Por ser monopolista, possui poder econômico na cadeia em que se insere, mas por ser

151
A União e seus agentes (BNDES e BNDESPar) são proprietários de apenas 46% do capital social da Petrobras
(a União com 28,7%), no entanto, possuem controle acionário por deterem 60,5% das ações com direito a voto
(JESUS JUNIOR, 2015, p. 142).
251

única provedora, possui responsabilidades sobre a determinação dos custos e dinâmica de


toda a cadeia produtiva. Acrescente-se que a sua condição de empresa com fins públicos,
também não lhe permite ao mesmo tempo auferir os benefícios (de ser uma empresa estatal)
e menosprezar os custos dessa situação (de cumprir uma função pública).
De acordo com Pelai (2006, p. 52), os subsídios à nafta que beneficiaram por anos
as empresas de 1ª. e 2ª. gerações (principalmente a 2ª. geração que, aproveitando-se do baixo
preço das matérias-primas provenientes da 1ª. geração e adotando preços mais próximos ao
do mercado internacional, manteve alta rentabilidade, maior até que a das refinarias) foram
importantes para compensar as demais fragilidades que afligiam o setor. A política de controle
de preços sobre a nafta também blindou o setor com relação às oscilações do preço desse
insumo no mercado internacional.
Schutte (2004) não poupa tinta no seu trabalho para registrar o insubstituível
papel público da Petrobras no fornecimento de matéria-prima que, cabe ressaltar aqui, não é
um papel qualquer. O acesso e garantia de preços estáveis ou baixos da matéria prima para a
petroquímica não é senão a vida da petroquímica, ou seja, a condição basilar de sobrevivência
para esse setor. A ênfase do autor se expressa no seguinte trecho (negrito meu):
“O suprimento da nafta e a definição de seu preço são tão vitais para a
petroquímica brasileira que, só por isso, já é mais que desejável que a
Petrobras permaneça na petroquímica, tal como todas as grandes
empresas de petróleo fazem no mundo, em posição que extrapola a de
simples parceira comercial. Mesmo querendo, não existe a “saída da
Petrobras da petroquímica.”” (SCHUTTE, 2004, p. 189).

Schutte (2004) ressalta que o preço da nafta deve ser considerado um preço
político e não de mercado. Isso se deve a pelo menos dois motivos. O primeiro diz respeito ao
seu uso concorrente como aditivo da gasolina. A decisão da Petrobras de como alocar a nafta
(considerando que não há quantidade suficiente produzida a ser destinada para a
petroquímica e para o setor de combustíveis) é uma decisão política.
O segundo motivo diz respeito ao fato de que a nafta não é propriamente uma
commodity pois o seu maior consumo ocorre no interior das empresas, restando apenas uma
pequena parte que é comercializada no exterior. Portanto, ela não possui um preço definido
no mercado internacional da mesma maneira que as commodities tradicionais para as quais o
volume transacionado é alto e os mercados são representados por um número considerável
de ofertantes e demandantes. Nesse sentido, Schutte (2004, p. 190) questiona a referência
252

ARA (Amsterdã, Roterdã e Antuérpia) para a nafta brasileira, uma vez que somente 7% do
volume de nafta europeia é comercializada internacionalmente, sendo o restante consumido
na cadeia produtiva petroquímica dessa região.
Assim, sublinha-se com esse debate o papel que a Petrobras cumpre para a
petroquímica brasileira no tocante a, mais do que mera fornecedora, ser cumpridora de sua
própria existência enquanto uma empresa estatal com função pública. Se assim não for, as
empresas petroquímicas brasileiras podem esperar ter, na fase a montante da cadeia, uma
empresa com uma atuação puramente comercial, sem nenhum outro objetivo a não ser o
lucro. Schutte (2004) mostra esse conflito no trecho a seguir:
“Ao amputar o braço petroquímico, contrariando a lógica da estrutura do
setor, deixou-se uma ambiguidade em torno do papel da Petrobras. Das
duas uma: ou a Petrobras é vista como peça-chave no desenho da
petroquímica brasileira ou entra somente como vendedora de nafta. Neste
último caso, por que ela deveria deixar de pedir o preço mais alto possível?
A Petrobras terá de assumir o seu papel de formulador de políticas para o
setor, além de ser uma empresa de capital aberto. O problema da nafta, ao
final não é só o preço hoje, mas como garantir o suprimento no futuro.”
(SCHUTTE, p. 192).

Schutte (2004, p. 22) mostra o conflito para as empresas estrangeiras em não mais
estarem associadas a projetos que garantiam a integração com o elo upstream com a retirada
da Petroquisa e, portanto, o fornecimento de nafta no longo prazo: “Diante dessa indefinição,
as transnacionais preferiram não se arriscar e deixaram o mercado para as empresas
nacionais.”.
Por outro lado, como explicita Rocha (2009), a presença monopólica da Petrobras
no refino de petróleo e, portanto, como única produtora nacional de nafta ao setor
petroquímico, na visão das empresas estrangeiras também gerava um conflito. Afinal, nos
outros países, essas empresas estão “normalmente acostumadas a atuarem de forma
integrada desde o refino” (p. 45).
Como se pôde observar na Tabela 3, as majors possuem uma participação
expressiva no segmento do refino e de comercialização final, tanto em comparação com
outros segmentos da indústria mundial de petróleo, quanto com seus pares com outras
configurações jurídicas (mistas e NOCs). Sendo assim, o elo do refino constitui uma fase
estratégica para a rentabilidade e sobrevivência das majors. Operar em outros países, no setor
petroquímico, e ficar dependente das estratégias das refinarias desse país, não deve ser uma
253

decisão trivial quando a verticalização e integração, desde a exploração de óleo e gás, é a regra
nos países em que operam.
No Brasil, o fornecimento da nafta às centrais petroquímicas (e, portanto,
indiretamente a todos os elos para frente da cadeia) representa tanto o braço petrolífero da
petroquímica como o braço petroquímico da Petrobras. No mundo, a integração patrimonial
dessas fases constitui regra comum de organização industrial das principais petroquímicas e
petrolíferas. Como evidenciou Schutte (2004), a Petroquisa só foi criada por conta das
restrições legais, senão, a Petrobras teria suas próprias plantas petroquímicas, como ocorre
no segmento de refino de petróleo.
Prevendo a reestruturação que viria com a onda privatista de 1980 e 1990 e que
também atingiria o setor petroquímico, Guerra (1991, p. 250) alertou que a saída da
Petroquisa não poderia também resultar em uma eliminação do apoio público ao setor. Além
de estar na contramão das atitudes observadas na ação dos governos dos países centrais, o
passo seguinte a ser dado pela petroquímica naquele momento, o de avançar sobre o
segmento da química fina, iria exigir muitos incentivos do governo para que os atores privados
do setor, de fato, pudessem alcançar o nível tecnológico de fronteira daquele momento. Além
desse tipo de apoio, o subsídio da nafta à petroquímica teria que ser mantido. Ou então,
poderia ser redefinido de uma forma em que a lógica macroeconômica de ajuste fiscal daquele
momento não se traduzisse em perda substantiva de competitividade do setor petroquímico
com a retirada do subsídio. A avaliação entre eliminar os incentivos públicos para melhorar as
finanças públicas via diminuição de gastos ou manter os incentivos públicos para melhorar as
finanças públicas via aumento da arrecadação teria que ser feita cuidadosamente na decisão
de eliminar o subsídio da matéria-prima (GUERRA, 1991).
Uma outra mostra do peso das matérias-primas no desempenho do setor
petroquímico brasileiro está na análise dos dados da PIA-IBGE, entre 1996 e 2006, realizada
por Hasenclever e Antunes (2009). Nesse período, o valor da transformação industrial do
segmento produtor de resinas e petroquímicos básicos decresceu (16,4% nas resinas e 4,6%
nos petroquímicos básicos) porque os custos de operações industriais (COI) aumentaram mais
do que o valor bruto da produção (VBP) (no segmento de resinas, o COI elevou-se 68,8% e o
VBP 34,8%). O ajuste da redução do VTI recaiu sobre a folha de pagamentos (diminuição de
quase 50% dos salários pagos no segmento de resinas) e no número de pessoal ocupado
254

(redução de 14,6%). Segundo as autoras, o crescimento do preço da nafta e o do etileno


explicam esses resultados de incremento da produção e receitas abaixo do crescimento dos
custos.

B) Capacidade de financiamento e coordenação do Estado

A diminuição brusca da participação do Estado brasileiro no setor petroquímico


com a retirada da Petroquisa também fez surgir questionamentos sobre outros tipos de danos
ao setor, dentre eles a perda da função de coordenação, planejamento e governança no setor.
Como registrou Rocha (2009):
“A associação com a Petrobras significou uma parceria importante na
construção dos polos, principalmente, pelo poder de barganha da estatal
junto aos conselhos de desenvolvimento, o que permitia diminuir a
incerteza sobre o andamento dos investimentos públicos. A estatal
também coordenava o suprimento de insumos e parte do comércio exterior
através da Interbrás.” (ROCHA, 2009, p. 75).

O processo de desestatização brasileiro, por não ser parte integrante de uma


estratégia industrial ampla, desconsiderou os papéis que as estatais cumpriam na governança
dos setores industriais e como instrumento de política industrial e que iam muito além de sua
participação como sócia produtora. A privatização eliminou os mecanismos que poderiam
preparar a indústria petroquímica para uma nova fase de expansão e os desafios impostos
com um maior grau de globalização dos mercados (SCHUTTE; 2004).
A função de governança da Petroquisa também foi ressalta por Pelai (2006). De
acordo com o autor, a viabilidade e o sucesso econômico e técnico do setor petroquímico
brasileiro nos anos 1970 e 1980, em que pese ter sido caracterizado por fragmentação
societária e empresas de pequeno porte, se explicam em função dos ganhos das aglomerações
produtivas propiciados pelos polos, da integração física das plantas (em Camaçari e em
Triunfo) e por conta da coordenação dos investimentos dos empreendimentos com muitos
sócios realizada pela Petroquisa e CDI, atenuando os custos de transação e de agência que
caracterizam o setor e ampliando a segurança e perspectivas para novos investimentos dos
grupos empresariais atuantes no setor.
Um dos oficíos de uma empresa como a Petrobras em pertencer a sociedades em
setores em consolidação em nível internacional diz respeito à alavancagem de status que ela
oferece às empresas nas quais participa. Essa mudança de status se reflete, por exemplo, no
255

acesso aos mercados internacionais de capital ou em quaisquer outros contratos em que a


credibilidade dos envolvidos tem peso importante na precificação do objeto transacionado.
Como exemplifica Schutte (2004, p. 194): “A Petrobras foi a primeira empresa brasileira a ter
seu risco melhor que o risco Brasil, o que reduz drasticamente o custo de captação de projetos
dos quais ela participa de fato”. Na formação do complexo do Rio de Janeiro, o autor também
assinala a diferença que fez a presença da Petrobras na composição da Rio Polímeros, não só
como garantidora da matéria-prima (o gás), como também “foi crucial para cacifar o projeto
internacionalmente perante fornecedores de equipamentos, tecnologia e capital.” (p. 233).
O acesso ao capital e as condições de financiamento são fatores de
competitividade de empresas petroquímicas de peso tão alto quanto o acesso e o preço da
matéria-prima. O setor é intensivo em capital (e, portanto, em financiamento) pela natureza
técnica do processo, pelas elevadas escalas mínimas de produção, pela necessidade expansão
horizontal e vertical e pela intensidade dos gastos em pesquisa. A desvantagem dos países em
desenvolvimento no que se refere ao acesso aos melhores esquemas de financiamento pode
ser observada na afirmação a seguir de Hiratuka, Garcia e Sabbatini (2003):
“É preciso apontar, no entanto, que as empresas brasileiras que atuam no
setor estão sujeitas a um forte constrangimento sob a dimensão financeira.
Por não conseguir participar em igualdade de condições das empresas
estrangeiras no mercado financeiro internacional, as firmas brasileiras têm
de incorrer em custos financeiros mais elevados, o que prejudica
sensivelmente sua capacidade competitiva.” (p. 67).

Assim, em países de altíssimo custo do capital, as estatais podem ter essa


atribuição de permitir mais fácil acesso ao financiamento, caso já tenham proeminência
mundial, como é o caso da Petrobras. Senão, recursos públicos devem participar de alguma
outra forma. No caso brasileiro, necessariamente entra em cena o BNDES, único banco de
financiamento de longo prazo.

C) Petrobras como supridora de desenvolvimento tecnológico e apoiadora da


internacionalização

A saída da Petrobras também apresentou uma outra consequência negativa à


evolução da petroquímica brasileira: redução das perspectivas de liderança ou
acompanhamento dos esforços tecnológicos mundiais no setor. As oportunidades para a
cooperação tecnológica e de pesquisa entre os setores petrolífero e petroquímico são
256

evidentes em função das semelhanças físico-químicas de seus produtos e da ligação direta


entre esses setores na cadeia produtiva.
A presença da Petrobras (ou do Estado) nos esforços tecnológicos da petroquímica
são notados com mais veemência na participação das empresas brasileiras nas atividades de
pesquisa e na comercialização de produtos que se encontram na fronteira do conhecimento
mundial. Na petroquímica, isso pode ser visualizado nas áreas de insumos verdes (química
verde), nanotecnologia, flexibilidade produtiva e novas formas de transformação de matéria-
prima em olefinas.
O papel dos bancos públicos para o financiamento da inovação, porque paciente
e não dependente de rentabilidade de curto prazo (como o financiamento do setor privado)
é destacado em Mazzucato (2015). A autora mostra que nos anos 2000 os bancos públicos de
desenvolvimento na China, no Brasil (o BNDES), na Europa e a agência pública ARPA-E nos EUA
mostraram-se fundamentais para o direcionamento de financiamento para áreas novas de
acumulação, como as das tecnologias verdes.
Como já sublinhado, com o aumento do grau de concentração do setor, gerado
muito em função das operações de fusões e aquisições em nível mundial, reforçou-se a
importância de dois requisitos competitivos: consolidação patrimonial em nível nacional e
necessidade de internacionalização produtiva (avançar sobre a estrutura produtiva de outros
países para defender-se no seu mercado de origem seja comercialmente seja pela ameaça de
ser adquirido por capital estrangeiro). Sobre esse segundo atributo da concorrência do setor
petroquímico, Mello et al. (2003, p. 4) são enfáticos:
“Mais ainda, analisando especificamente o caso dos países em
desenvolvimento, evidencia-se a importância da participação das empresas
petrolíferas no projeto de internacionalização da Indústria Petroquímica.
No caso brasileiro, a participação da Petrobras torna-se fundamental. Em
primeiro lugar porque é uma empresa de gestão e de capacidade
competitiva sólidas, está capitalizada, tem tradição e mobiliza recursos
para o desenvolvimento tecnológico.”

De forma ainda mais taxativa, os autores reforçam a importância da Petrobras ao


final de seu estudo: “(...) sem a participação de uma empresa petrolífera nacional, o projeto
de internacionalização da Indústria Petroquímica – e mesmo de sua capacidade de competir
para sobreviver – de um país em desenvolvimento tende a fenecer” (p. 44).
Com pelo menos essas quatro atribuições da Petrobras sintetizadas aqui, quais
sejam, fornecedora de matéria-prima, provedora de melhores condições de financiamento,
257

detentora de competências tecnológicas passíveis de compartilhamento com a petroquímica


e importante apoio para a internacionalização produtiva, pôde-se sublinhar o relevo que
ganha a Petrobras para a definição do futuro do setor petroquímico brasileiro. Nesse sentido,
a conclusão do trabalho de Schutte (2004) deve aqui ser registrada:
“O que está em questão no setor petroquímico não é a invenção de algo
que não existe a todo custo. Trata-se de defender um patrimônio nacional
existente com potencial de expansão. E a alternativa talvez não seja uma
desnacionalização no sentido de venda massiva do parque industrial a
transnacionais, mas a substituição de produção nacional por importações,
o que aumenta ainda mais o déficit estrutural do setor. (...) Isso não implica
que defendamos que não pode haver petroquímica sem uma empresa
quase monopolista de petróleo estatal. O ponto é que, já que existe a
Petrobras, ela deve ser aproveitada e vista como um fator de
competitividade para o setor” (SCHUTTE, 2004, p. 248).

Além da retirada do Estado brasileiro via a privatização na década de 1990,


também seja sublinhada a mudança da força da presença e de atitude do Estado em outros
âmbitos que definem a concorrência e competitividade das empresas do setor petroquímico.
Essas mudanças já vinham ocorrendo ao longo da década de 1980 e se intensificam ou tomam
feições de medidas desreguladoras e liberalizantes nos anos 1990, como “eliminação dos
incentivos fiscais; extinção da estrutura de apoio à comercialização externa; modificação na
política cambial como mecanismo de promoção à exportação; rompimento da forma de
administrar os preços dos insumos e produtos petroquímícos; aprofundamento das medidas
de redução das barreiras tarifárias, etc.” (CÁRIO, 1997, p. 244). Assim, trata-se de uma
mudança regulatória radical se comparada à estrutura de incentivos e coordenação que foi se
montando no Brasil de 1960 a 1980 e à que se estruturou entre 1990 e 2000.

3.3.3. Consolidação do setor: a criação e expansão da Braskem

Os estudos que se debruçaram sobre a estrutura resultante do processo de


desestastização do setor petroquímico empreendido na década de 1990 no Brasil ressaltam,
de um lado, a fragilidade a que se expôs o setor com a saída da fornecedora de matéria-prima
das sociedades e, por outro lado, a geração de uma estrutura com dispersão patrimonial e
muito complexa, com um modelo de governança contrário ao padrão internacional marcado
pela presença de empresas de grande porte e com alto grau de diversificação dentro de suas
próprias corporações (CÁRIO, 1997; PELAI, 2006; ROCHA, 2009).
258

As privatizações resultaram em uma fragmentação societária nas empresas de 1ª.


e 2ª. gerações, com participações acionárias cruzadas. Nos casos mais complicados, sócios em
um empreendimento eram concorrentes em outros, travando projetos de consolidação
patrimonial ou de expansão da capacidade produtiva do setor com novos polos (caso de
Paulínia).
Entre 1999 e 2005152, para obter simplificação da estrutura acionária, com
descruzamento das participações acionárias e formação de grupos em torno das centrais, se
dá o processo de reestruturação do setor petroquímico, com a aquisição de várias empresas
e participações. Após esse processo, revelou-se uma petroquímica com três grupos fortes:
Odebrecht, Unipar e Suzano. Mas, a reestruturação do setor também foi guiada a partir da
necessidade da expansão dos investimentos produtivos. E aí, para tal direção, voltou a ser
fundamental a presença da Petrobras. Como afirma Rocha (2009, p. 80) na sua avaliação do
controle societário das empresas petroquímicas, as mudanças mais perceptíveis até 2005 são
a redução da participação do capital estrangeiro e o aumento da Petroquisa que, segundo o
autor, “de 2002 em diante retoma ativamente seus investimentos no setor”.
A retomada da participação do Estado no setor petroquímico pode ser visualizada
nas expansões do parque com os projetos do polo de Paulínia (uma associação da Odebrecht
com Petrobras) e do Comperj (projeto que inicialmente previu a associação entre Grupo Ultra,
Petroquisa e Petrobras) (SCHUTTE, 2004; ROCHA, 2009).
De acordo com Schutte (2004), se houve questionamento na montagem do polo
de Paulínia foi quanto à escolha do parceiro privado153 e não quanto à necessidade de
participação da Petrobras no novo complexo petroquímico. No trecho exposto a seguir, o
autor mostra que as próprias empresas demandaram o retorno da Petroquisa:
“No final da década de 90, os principais players nacionais, Braskem e Unipar
negociaram o aumento da presença da Petrobras, ou popularmente: a volta
da Petrobras ao setor petroquímico. Esses grupos chegaram à conclusão
lógica de que sem a participação da Petrobras no seu quadro de acionistas
não atingirão seus objetivos de ganhos de escala, ainda mais olhando para
a principal concorrente no Cone Sul: a produção integrada da Dow em
Bahía Blanca” (SCHUTTE, 2004, p. 194).

152
O processo de reestruturação do setor petroquímico brasileiro começa em 1994, com a venda dos ativos
estatais e saída de algumas empresas estrangeiras (ROCHA, 2009).
153
O questionamento principal dizia respeito à escolha da Odebrecht para compor o projeto, uma vez que,
segundo os críticos, a seleção confere privilégios a uma empresa em detrimento de outras. (SCHUTTE, 2004).
259

Portanto, novamente, não por motivação ideológica, mas por pragmatismo e em


função da realidade mundial e das características técnico-econômicas do setor, o ente estatal
voltou a aparecer no setor petroquímico brasileiro. Como ressalta Rocha (2009), nos anos
2000, não só voltou a Petrobras, como também passou a apresentar novamente um papel
importante para a consolidação dos grupos na petroquímica o BNDES, via o BNDESPAR. Ambas
as instituições foram fundamentais para compensar o pequeno porte dos grupos brasileiros e
o acirramento da competição internacional.
Além do retorno da Petrobras154, também reaparecem diretrizes de política
industrial tradicional, como a de selecionar “empresas vencedoras”. Schutte (2004), relatando
a escolha do parceiro para o projeto de Paulínia, mostra que a Odebrecht foi selecionada
deliberadamente pelo governo Fernando Henrique Cardoso:
“Assim, de forma inesperada e a partir de uma decisão da estatal, o governo
faz uma clara defesa de política industrial picking the winners, ou seja, a
Odebrecht como national champion. Cabe frisar o tom nacionalista e a
utilização da imagem das poderosas transnacionais que podem tomar
conta da nossa petroquímica, numa linguagem mais adequada à era Getúlio
Vargas do que a um governo supostamente neoliberal” (SCHUTTE, 2004, p.
212).

Os limites a uma política neoliberal estão sempre postos em países


subdesenvolvidos. O caso do setor petroquímico é ilustrativo desses limites. Schutte (2004)
revela no período das reformas neoliberais a existência de uma política industrial oculta:
“(...) quando percebemos que, em momentos decisivos, o aparelho do
Estado – por meio do Banco Nacional de Desenvolvimento econômico e
Social – BNDES (créditos para investimentos, estímulo à reestruturação), da
Petrobras (subsídio à nafta) ou do Ministério da Fazenda (aumento de
alíquotas à importação e processos antidumping) – fez o papel de apoio,
sem que isso fosse anunciado e, principalmente, sem que fizesse parte de
uma estratégia governamental integrada, transparente e coerente”
(SCHUTTE, 2004, p. 20).

Assim, já que a motivação ideológica (buscando a retirada do Estado na economia)


predominou nas primeiras fases da reestruturação do setor, na seguinte, as ações do Estado
no setor acabaram por ser determinadas pela realidade: um setor com empresas de pequeno
porte (relativamente às líderes mundiais), com baixa integração na cadeia (também diferente
das líderes) e com necessidade de expansão da capacidade produtiva.

154
Muitas vezes se utiliza aqui neste trabalho Petrobras e Petroquisa como sinônimos, mas a Petroquisa só foi
totalmente incorporada à Petrobras em 2012 (PETROBRAS..., 2012). Conforme registrado, com a incorporação,
“a Petrobras passou a ter participação direta no capital da Braskem”.
260

Na Tabela 33, Mello et al. (2003) expõem a condição da Braskem perante seus
concorrentes estrangeiros: com a presença de uma empresa estatal de forma relativamente
tímida e sem a integração com o elo a montante. Outras empresas apresentam participação
de média a forte do agente estatal e, com exceção das empresas coreanas LG Chem e Honam,
têm seu braço petrolífero.

Tabela 33 – Principais players petroquímicos de países em desenvolvimento selecionados e sua


associação com a indústria de hidrocarbonetos e empresas estatais
Participação Participação
País Player(s)
Upstream Estatal
África do Sul Sasol Sim Média
Arábia Saudita Sabic Sim Forte
Brasil Braskem Não Muito Fraca
China Sinopec Sim Forte
Coreia do Sul LG Chem e Honam Não Média
Espanha Repsol Sim Média
Índia Reliance Sim Média
Indonésia PT Chandra Asri Sim Forte
Irã NPC Sim Forte
Kwait Equate Sim Forte
Malásia Ethylene Malasya e Optimal Sim Forte
Noruega Borealis Sim Forte
Catar Qatar PT Sim Forte
Cingapura PCS Sim Fraca
Tailândia NPC Sim Forte
Taiwan Formosa Sim Média
Venezuela Pequiven Sim Forte
Fonte: Mello et al. (2003, p. 46).

Hasenclever e Antunes (2009) também expuseram as mesmas fragilidades da


Braskem (quando ainda não havia adquirido a Quattor e, portanto, não detinha sociedade
com a Petrobras): falta de integração com o elo upstream e de vínculo com uma empresa
estatal.
“Entretanto, apesar desse evidente aumento de escala empresarial,
comparando-se o tamanho empresarial das duas maiores empresas
brasileiras que atuam no segmento de petroquímicos básicos e resinas –
Braskem e Quattor - elas ainda estão muito aquém das líderes mundiais.
(....)
Além disso, é importante ressaltar que estas empresas não são integradas
upstream e têm uma dependência estratégica da Petrobras, empresa
fornecedora de matéria prima” (HASENCLEVER; ANTUNES, 2009, p. 19).
261

Portanto, na década de 2000, retorna o agente estatal, mas ainda persiste uma
estrutura fragmentada, de baixa escala patrimonial (sobretudo das plantas da 2ª. geração),
reduzida integração e muitas empresas. A falta de integração patrimonial entre a 1ª. e 2ª.
gerações é registrada como uma estrutura que parecia apenas se conformar no Brasil.
A baixa integração patrimonial entre as gerações e os segmentos da cadeia
petroquímica também era responsável por uma grave fragilidade do setor brasileiro: a alta
incidência de tributos em cascata, em função das intensas trocas intrassetoriais para a
formulação de produtos químicos ou petroquímicos (FURTADO, 2003).
A partir dessas fragilidades, foi se desenhando (tardiamente, diga-se) a
consolidação patrimonial do setor em torno do grupo Odebrecht. Em 2001, esse grupo deu
um importante passo ao adquirir o controle da central de matéria-prima de Camaçari
(Copene) e, portanto, realizar a concentração patrimonial na 1ª. geração (pois já tinha adquido
o controle da Copesul, em Triunfo). Esse movimento foi considerado de grande importância,
conforme atesta o trecho:
“Os movimentos recentes de reestruturação societária no Brasil, com a
compra da COPENE e a perspectiva de formação da Petroquímica do
Sudeste, permitem vislumbrar finalmente um encaminhamento do
problema principal da estrutura petroquímica brasileira, que há muito
tempo repousa na divergência entre o tamanho das suas empresas e a
norma competitiva internacional” (FURTADO, 2003, p. 59).

Embora o autor tenha denominado esse passo como o “encaminhamento do


principal problema”, Furtado (2003) também registra que se trata de um movimento
relevante nessa nova trajetória, mas que nem poderia ser definido como um ponto culminante
em função dos desafios ainda de grande monta postos para a petroquímica brasileira naquele
momento (como o baixo grau de internacionalização dos investimentos brasileiros no exterior
e insuficientes capacitações tecnológicas e mercadológicas para inserir-se em mercados de
petroquímicos não-commodities).
Nesse movimento da compra da Copene pelo grupo Odebrecht, Furtado (2001)
indaga se a ousadia empresarial seria bem recebida pelo capitalismo brasileiro. Isso porque,
para se expandir na petroquímica, o grupo aumentou sobremaneira seu grau de
endividamento, com elevado comprometimento de suas rendas com o pagamento dos
262

credores155. Segundo Furtado, outros grupos brasileiros eram mais prudentes em termos
financeiros. Nas suas palavras: “Mais uma vez assumiu mais riscos do que tem sido a tônica
deste capitalismo de grandes empresas líquidas, verdadeiras tesourarias de bancos”. Ou seja,
a agressividade dos investimentos do grupo sinalizava ali suas pretensões e interesses de
longo prazo no setor petroquímico brasileiro, permitindo-se, inclusive, adotar uma estratégia
mais arriscada.
Outro marco importante do processo de reestruturação do setor ocorreu em
2002, com a fundação da Braskem, fruto da integração da Copene, OPP, Trikem, Proppet,
Nitrocarbono e Polialden, empresas da Organização Odebrecht e do Grupo Mariani
(BRASKEM, 2015b, p. 8).
Em 2006, a expansão da empresa ocorreu com a compra da Politeno e, em 2007,
com a aquisição dos ativos químicos do grupo Ipiranga (BRASKEM, 2017a). A grandeza de seu
porte em nível nacional revelou-se claramente em 2010, quando a Braskem comprou a
Quattor (junção da Suzano Petroquímica – empresa que tinha sido comprada pela Petrobras
em 2007, Rio Polímeros e Polietilenos União). Com essa aquisição, Braskem passou a controlar
as quatro centrais petroquímicas e a ser a única empresa petroquímica brasileira participando
das 1ª. e 2ª. gerações da cadeia petroquímica. Em 2008, a Braskem constou na lista das
maiores empresas petroquímicas das Américas na terceira posição e a Quattor na sétima
posição (HASENCLEVER; ANTUNES, 2009). Com a incorporação da Quattor, em 2015, a
Braskem foi considerada a maior empresa petroquímica produtora de resinas termoplásticas
do continente americano e a sexta maior do mundo com 16 milhões de toneladas de químicos,
petroquímicos básicos e resinas (BRASKEM, 2015b, p. 8).
Em 2015, o mercado brasileiro consumiu 4,927 milhões de toneladas de resinas,
dos quais a Braskem forneceu 3,362 milhões de toneladas, ou seja, quase 70%156 do mercado
interno brasileiro157 (BRASKEM, 2015b, p. 39). Com a elevada participação nas vendas do
mercado nacional, a empresa ganhou robustez para iniciar, ainda que tardiamente, um

155
De acordo com Furtado (2001), o alto endividamento poderia ser visto como um problema do ponto de vista
do baixo dinamismo inovativo da empresa daí decorrente. Afinal, recursos que deveriam estar sendo
encaminhados aos laboratórios de pesquisa da empresa eram absorvidos pelo setor financeiro.
156
No mercado apenas das poliolefinas (polietileno e polipropileno) a fatia de mercado da Braskem no Brasil foi
de 73% (BRASKEM, 2015b, p. 43)
157
As vendas para o mercado interno brasileiro corresponderam a 52% das receitas líquidas totais da empresa
em 2015. Do restante, 22% vieram das exportações brasileiras, 17% das vendas das unidades dos EUA e da
Europa e 9% de revenda (BRASKEM, 2015b, p. 38).
263

processo de internacionalização produtiva, com aquisição de ativos no exterior. Vale lembrar


que o baixíssimo valor de investimento das empresas petroquímicas nacionais em ativos no
exterior era apontado com uma das principais causas da fragilidade competitiva dessas
empresas vis-à-vis suas concorrentes com operações multinacionais (HIRATUKA; GARCIA;
SABBATINI, 2003, p. 69; GOMES; DVORSAK; HEIL, 2005, p. 104).
A expansão internacional da Braskem ocorreu em 2010 com aquisição de três
fábricas da Sunoco nos EUA (BRASKEM..., 2012) e, em 2011, de duas fábricas nos EUA e duas
na Alemanha da Dow Chemical (BRASKEM, 2017a). Com essas aquisições, Braskem passou a
ser a maior produtora de polipropileno dos EUA (BRASKEM, 2015b)158. Em 2016, um ambicioso
projeto (desenhado em 2009) entrou em operação: em parceria com a empresa mexicana
Idesa, a Braskem passou a ser produtora de polietileno no México, a partir do etano fornecido
pela PEMEX (BRASKEM, 2015b). Esse projeto recebeu financiamento do BNDES (US$700
milhões) que foi agregado a recursos financiados pelo BID, International Finance Corporation
(pertencente ao Banco Mundial) e pela Agencia de Credito Italiana (SACE). Além da planta de
polietileno, o complexo também conta com um cracker de etileno e 2 plantas de polimerização
para a produção de PEBD e PEAD. A matéria-prima será o gás natural (SCARAMUZZO, 2012).
Como já apontado neste trabalho anteriormente, a Braskem também iniciaria sua produção
de polietileno nos EUA a partir do etano do shale gas do nordeste estadunidense no campo
de Marcellus com o complexo petroquímico Ascent, mas este investimento foi cancelado
(FONTES, 2016b). Lá haveria um cracker de etano e três fábricas de polietileno (LAMUCCI,
2014).
Em 2017, a Braskem anunciou a produção de um plástico de engenharia, o
Polietileno de Ultra-Alto Peso Molecular (PEUAPM), em uma planta nova nos EUA, no Texas,
em La Porte. Esse polímero tem características diferenciadas “oito vezes mais leve que o aço
e dez vezes mais durável que o polietileno de alta densidade” (BRASKEM, 2017b) e com
aplicação em áreas como automobilística, eletrônicos, maquinário pesado, produtos
biomédicos, etc.

158
A empresa ampliará ainda mais sua posição como maior produtora de polipropileno dos EUA com uma nova
fábrica em La Porte, no Texas, com capacidade de 450 mil toneladas por ano, adicionando 30% da capacidade
total da empresa na produção dessa resina nos EUA. O investimento será de R$ 2,2 bilhões e a produção está
programada para se iniciar em 2020 (FONTES, 2017c).
264

Com essa nova planta, Braskem assegurou ser um dos três grandes produtores do
mundo dessa resina. Esse é um bom exemplo de como essa empresa petroquímica brasileira,
a partir de uma configuração propícia pôde lograr avançar no processo de internacionalização
e na pesquisa e produção de bens de alto valor agregado. No entanto, evidencia que bases
produtivas e de inovação nos EUA, ao se mostrarem mais competitivas, podem ser preferidas
nas decisões de produção e pesquisa de uma empresa multinacional, como a Braskem, em
detrimento da base brasileira.
De acordo com Braskem (2017b), a empresa contava com as seguintes operações
nos EUA:
“Com mais de 700 integrantes nos EUA, a Braskem America tem sede
regional na Filadélfia, estado da Pensilvânia, e conta com seis unidades
industriais: quatro no Texas (La Porte, Oyster Creek e Seadrift), uma na
Pensilvânia (Marcus Hook) e uma em West Virginia (Kenova).
Adicionalmente, seu moderno Centro de Inovação & Tecnologia, em
Pittsburgh, Pensilvânia, contribui para fortalecer a parceria entre a
Braskem e seus clientes na América do Norte, apoiando o desenvolvimento
de soluções inovadoras e aprimorando produtos e processos existentes. Em
meados de 2016, a Braskem anunciou melhorias em seu Centro de
Inovação e Tecnologia de Pittsburgh, com o aumento da capacidade de
pesquisa e desenvolvimento em PEUAPM, visando apoiar o lançamento da
produção de UTEC nos EUA.”

A liderança da Braskem no continente americano na produção de resinas se


expressa no Gráfico 56.

Gráfico 56 – Ranking de produção de resinas, em mil toneladas por ano, nas Américas

Fonte: Braskem (2015a).

Sarti e Hiratuka (2010) mostram uma visão otimista a respeito da nova


configuração da petroquímica brasileira no início da década de 2010. No momento da
divulgação desse estudo, Braskem e Quattor eram grupos separados. Nessa análise, já se
265

considerava o setor com maior escala empresarial que anteriormente e também já aparecia a
presença da Petrobras no setor como supridora de matéria-prima para a petroquímica em um
arranjo mais vantajoso.
“Nesse caso, as recentes consolidações de dois grupos nacionais – Braskem
e Quattor – vêm representar uma grande oportunidade para consolidação
desse setor. Ao mesmo tempo, o ressurgimento da Petrobras como agente
no setor de petroquímica sugere potencial de que os requisitos de
segurança e preço de insumos venham a ser equacionados” (SARTI;
HIRATUKA, 2010, p. 152).

Depois da compra da Quattor, a configuração entre Odebrecht e Petrobras na


Braskem ficou da seguinte maneira: Odebrecht, 50,1% do capital votante e 38,3% do capital
total; Petrobras, 47% do capital votante e 36,1% do capital total. Bndespar controla 5% do
capital total e outros investidores possuem 2,9% do capital votante e 20,6% do capital total159.

Figura 11 – Braskem: estrutura societária, 2017

Fonte: Braskem (2015c).

Alves, Bomtempo e Coutinho (2005) analisaram o nível das competências da


indústria petroquímica brasileira, de capital nacional, para inovar. Em sua pesquisa,
concluíram que as empresas detinham nível satisfatório de competências técnicas, mas
insuficientes nas dimensões organizacionais e relacionais. Essas deficiências, embora não

159
Segundo reportagem do Valor Econômico (EMPRESA... , 2017), a proposta inicial da Petrobras em 2009 era
de fusão entre as duas empresas (Braskem e Quattor). No entanto, dado o alto endividamento da Quattor à
época, a participação da Unipar na nova empresa (acionista da Quattor em conjunto com Petrobras) resultaria
pequena demais. Assim, os acionistas da Unipar optaram pela venda de sua participação à Braskem. A Petrobras,
além de transformar sua participação na Quattor em participação na Braskem, também contribuiu com o maior
aporte na capitalização da nova empresa que veio a seguir (R$2,5 bilhões, além do aporte de R$ 1 bilhão da
Odebrecht e cerca de R$270 milhões do BNDES). Assim, a divisão acionária resultante na Braskem após a
aquisição da Quattor foi 38% para Odebrecht, 36% para Petrobras e 5% para o BNDES (EMPRESA..., 2017).
266

freassem as inovações das empresas (porque eram compensadas pela alta competência
técnica), podiam diminuir tanto o potencial econômico das inovações para outros setores (o
uso das inovações pelo setor de transformados plásticos, por exemplo) quanto a capacidade
das empresas de perpetuar seu poder de inovação e de geração de vantangens produtivas ao
longo do tempo (aqui estavam as fragilidades concernentes à gestão dos conhecimentos e
incentivos à inovação no interior das empresas).
Olhando para as mais importantes contribuições da Braskem em termos de
inovação de produtos, uma área para a qual a empresa, com essa configuração, logrou obter
avanços e alta competitividade internacional foi na de desenvolvimento e produção de
biopolímeros ou a de plásticos verdes. A maioria dos relatórios setoriais brasileiros (GORAYEB
et al., 2013; BAIN &COMPANY, 2014b; por exemplo) apontam um enorme potencial da
estrutura produtiva brasileira nos diversos segmentos que podem utilizar fontes renováveis
para seus insumos, entre os quais, o setor energético com os subprodutos da cana-de-açúcar
e celulose de 2ª. geração; o setor químico com a expansão do uso da oleoquímica ou da
álcoolquímica e da biodiversidade brasileira para insumos para fragrâncias, corantes,
essências e aditivos; o setor de combustível com a expansão do bioetanol, o setor de
exploração e produção de óleo e gás que precisa aumentar o componente “verde” de suas
atividades e, além de outros exemplos, também o setor petroquímico que pode ter uma
relativa especialização nas rotas dos biopolímeros.
O caminho de diversificação da petroquímica para a “química verde” ou a química
com o uso dos insumos renováveis torna-se nítido ao visualizar as empresas com forte base
petroquímica que apresentam uma carteira de produtos “verdes”, como é o caso da Rhodia,
Oxiteno e, também, da Braskem.
O apelo mercadológico à produção de químicos não derivados dos combustíveis
fósseis tem, basicamente, duas fundamentações: 1) o insumo é renovável e, 2) tem um
equilíbrio energético positivo (isto é, por ser proveniente de uma produção agrícola, o produto
químico pode capturar mais dióxido de carbono do que emiti-lo à atmosfera).
De acordo com a análise das ameaças e forças competitivas da indústria química
brasileira realizada por BNDES (2014), constitui uma força do setor o custo da biomassa local,
que permite que empresas invistam na promissora rota tecnológica dos químicos de base
renováveis. O relatório também cita o tamanho e as perspectivas de crescimento do mercado
267

interno brasileiro para produtos químicos e a presença de grandes empresas nacionais


(Braskem e Oxiteno).
Com relação à direção dos investimentos em insumos renováveis, cabe ressaltar
que a Braskem se constituiu como a maior produtora mundial de etileno “verde”, a partir do
etanol da cana-de-açúcar plantada no Brasil. A fábrica do Rio Grande do Sul tem capacidade
para produzir 200 mil toneladas de polietileno verde. Essa produção foi inaugurada em 2010
e tem as seguintes categorias de polietilenos: PEAD, PEABD e, a partir de 2014, PEBD
(BRASKEM, 2017c). Ainda em pesquisa estão o isopreno verde (em parceria com a empresa
estadunidense Amyris e a francesa Michelin) e o butadieno verde, em desenvolvimento
conjunto com a empresa estadunidense de biotecnologia Genomatica (BRASKEM, 2017d).
Registram-se também as empresas com investimentos em insumos químicos renováveis no
Brasil: Rhodia, Basf, Dow, Granbio e Solazyme, além das citadas anteriormente (BNDES, 2014,
p. 113).
Mostrou-se neste item, o avanço do setor petroquímico brasileiro, a partir de sua
principal empresa, a Braskem. Um avanço que se revelou na concentração patrimonial entre
a 1ª. e 2ª. gerações da cadeia, na sociedade com a empresa brasileira pertencente ao elo
upstream da cadeia, no aumento da participação no portfólio de produtos mais próximos da
fronteira tecnológica e mercadológica, nos investimentos internacionais de grande
envergadura e, portanto, posicionando-se como uma empresa petroquímica de porte e
capacidade de competição com as líderes mundiais do setor. No item a seguir, avalia-se mais
de perto a relação entre a Petrobras, fornecedora de nafta, e a Braskem, produtora de
petroquímicos.

3.4. Petrobras e o futuro da petroquímica brasileira

A disponibilidade de nafta para o setor petroquímico no Brasil depende da


capacidade produtiva das refinarias, da qualidade do óleo a ser refinado (óleos mais pesados
possuem menos nafta) e da competição do uso desse insumo com o mercado de combustíveis
(HASENCLEVER; ANTUNES, 2009).
Mesmo com a volta da Petrobras como sócia importante da principal empresa
petroquímica do Brasil (e, diga-se, da América Latina), o assunto do provimento da nafta ainda
268

revela muitas questões a serem resolvidas160. No trecho apresentado a seguir, Sarti e Hiratuka
(2010) apresentam algumas delas: a insuficiência da produção interna, o uso da nafta para o
setor de combustíveis e a política de preços da Petrobras:
“Um problema adicional para a expansão do setor parece ser a
disponibilidade de matéria-prima, principalmente em curto e médio prazos
em que a expansão de refinarias ainda será insuficiente para a geração de
nafta necessária e a expansão da produção de gás natural tem como
prioridade outros usos que não o petroquímico. Nesse caso, deve-se
enfatizar a necessidade de priorização do uso industrial do gás. Mais
importante, deve-se chamar a atenção à presença de práticas monopolistas
por parte da Petrobras” (SARTI; HIRATUKA, 2010, p. 153).

De fato, como mostra o Gráfico 57, pela insuficiente capacidade de refino


brasileira, ou por conta do uso da nafta para a composição de combustíveis, o Brasil é
importador desse insumo e seu coeficiente de importação é relativamente alto, tendo
aumentado em 2010, 2011 e 2012, como se observa, pela redução da produção interna.

Gráfico 57 – Brasil: Volumes anuais de produção e importação líquida de nafta, em mil m3, 2000-2012

Fonte: Simão (2014, p. 71).

Dados mais recentes mostram que a produção de nafta no Brasil continuou se


reduzindo após 2012. Nessas séries, já estão desconsiderados os volumes de nafta produzidos
e utilizados na composição de outros derivados do petróleo, como a gasolina, embora se possa
supor que a redução em 2015 e 2016, anos de grave contração do PIB, em parte, esteja
relacionada à redução total de nafta produzida no Brasil nas refinarias.

160
Furtado (2010) oferece como exemplo uma fala de Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobras, em um seminário
para o próprio setor petroquímico em 2009, de que a Petrobras não ia oferecer matéria-prima competitiva à
petroquímica porque teria outras prioridades.
269

Gráfico 58 – Brasil: produção de nafta nas refinarias brasileiras, em mil barris de óleo equivalente,
2000-2016
60.000
em mil barris de óleo equivalente

50.000

40.000

30.000

20.000

10.000

Fonte: Adaptado de Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis - ANP, 2017

Simão (2014) elenca as razões para o alto volume de nafta importada ou, dito de
outro modo, baixo volume de nafta produzida internamente no Brasil. Em primeiro lugar, o
óleo da Bacia de Campos que tem chegado nas refinarias é mais pesado do que as cargas
anteriores e essa característica determina um rendimento de nafta menor. Um segundo
ponto, já mencionado aqui, diz respeito a seu uso para compor o “pool” da gasolina brasileira
para equilibrar seu grau de octanagem, em função do alto teor do etanol nesse combustível.
Outra consideração está relacionada à alta participação dos derivados do petróleo
consumidos pelos transportes rodoviários de carga e passageiro de grande porte (óleo diesel,
41% do total, como se observa no Gráfico 59) como resultado da produção das refinarias
brasileiras.

Gráfico 59 – Brasil: Perfil da produção de derivados de petróleo nas refinarias no Brasil, 2012

Fonte: Simão (2014, p. 72).


270

Com uma pequena produção relativamente a outros derivados do petróleo, um


volume de óleo refinado insuficiente, uma utilização de um óleo que gera um rendimento de
nafta menor e com o uso da nafta para a composição dos combustíveis automobilísticos, a
produção interna brasileira de nafta para o consumo do setor petroquímico fica muito aquém
das necessidades atuais e de expansão do setor. Mas, com os projetos de novas capacidades
das refinarias no Brasil (COMPERJ – com dois trens, a Refinaria Abreu e Lima no complexo de
Suape, a do Maranhão com a Premium I e a do Ceará com a Premium II), a projeção realizada
em 2014 era de que o déficite de nafta seria reduzido já em 2018 e até alcançaria um
excedente com a concretização dos projetos de novas refinarias em 2024 (Gráfico 60).

Gráfico 60 – Brasil: Projeções de oferta de nafta, 2015-2030

Fonte: ABIQUIM (2014, p. 51).

Ou seja, o prognóstico em 2014 a respeito das condições de oferta da nafta no


Brasil era, de fato, muito bom. Vide, por exemplo, a expectativa descrita em Simão (2014, p.
72):
“Com as futuras reservas do pré-sal e com as novas refinarias que estão
sendo construídas, as perspectivas futuras são melhores. De acordo com o
Plano Estratégico da Petrobras (2011), a capacidade nacional de refino
deve aumentar em aproximadamente 1,4 milhão de barris de petróleo/dia
até 2020 e o rendimento de nafta nas novas refinarias será de 15%.”
271

Mas, até agora (2017), em operação, existe o trem I da Refinaria de Abreu e Lima
(iniciou em 2014) e prosseguem as atividades para a construção do trem II dessa refinaria. Os
demais projetos estão todos paralisados (PETROBRAS, 2017a). Os projetos das refinarias
Premium I e Premium II, segundo a nota da Petrobras de 11/11/2015, foram
descontinuados161.
Em notícia veiculada pela Petrobras, em 22/07/2016, as obras da Unidade
Processadora de Gás Natural (UPGN) do COMPERJ serão reiniciadas, mas ainda estão
postergadas as da Refinaria Trem I. Além disso, a Refinaria Trem II e a unidade de lubrificantes
foram canceladas162.
As perspectivas que constam em Bain & Company; Gas Energy (2014a, p. 16) eram
que, em 2030, quando já em operação a Refinaria Abreu e Lima, os dois trens do Comperj, os
dois trens da refinaria Premium I e a refinaria Premium II, haveria uma oferta local de nafta
50% maior do que a demanda, e ainda constando uma preocupação, naquele momento, se
aquele excedente seria destinado ao setor petroquímico.
Como sabido, 2015 e 2016 revelaram-se anos de grandes rupturas e a Petrobras
(e todo o seu entorno) talvez tenha sido uma das instituições brasileiras mais atingidas. Assim,
mantém-se, neste momento, o cenário desalentador anterior da elevada dependência de
importação da nafta. O preço desse produto importado é 5 a 7% maior do que o seu
equivalente local, em função dos custos de transporte (BAIN & COMPANY; GAS ENERGY,
2014a, p. 9). Além disso, o acordo realizado entre Braskem e Petrobras em 2015 com relação
ao preço, foi registrado pela Braskem como insatisfatório. Segundo as palavras do presidente
da empresa, Fernando Musa, no Relatório Anual de 2015:
“Depois de quase três anos de negociações, a Braskem assinou com a
Petrobras um novo contrato para fornecimento de um volume de 7 milhões

161
“Informamos que, em 2013, contratamos consultoria com intuito de revisar o projeto das refinarias Premium
I e II, buscando possibilidades de otimização e redução de investimentos. Após o desenvolvimento das revisões
do projeto, de outras iniciativas que tomamos, como busca de parcerias e de uma reavaliação das projeções de
mercado, não foram obtidos resultados econômicos satisfatórios, nos levando a decidir pela descontinuidade
dos projetos, conforme consta do Fato Relevante divulgado em 27/01/2015” (PETROBRAS, 2015).
162
“Nosso Conselho de Administração (CA) aprovou, em reunião realizada nesta sexta-feira, a reavaliação do
projeto do Comperj. Essa decisão permitirá a continuidade das atividades de implantação das unidades do
Comperj associadas à Unidade de Processamento de Gás Natural (UPGN). (...) Nosso CA aprovou ainda a
postergação do investimentos e preservação dos equipamentos das demais unidades da Refinaria Trem 1 até
dezembro de 2020 e orientou que continuem os esforços em busca de parceiros para dar continuidade aos
investimentos. Os projetos da Refinaria Trem 2 e da Unidade de Lubrificantes do Comperj foram cancelados”
(PETROBRAS, 2016a).
272

de toneladas anuais de nafta por um prazo de 5 anos 163. Apesar do novo


contrato não refletir integralmente as condições necessárias para garantir
a competitividade da indústria química e petroquímica, a Braskem
entendeu ser necessária a sua assinatura de forma a reduzir as graves
incertezas que rondam o setor, evitando a paralisação das centrais
petroquímicas neste momento difícil da indústria e da economia brasileira”
(BRASKEM, 2015b, p. 5).

O foco das análises sobre a nafta ocorre em função da alta dependência da


produção petroquímica brasileria com relação ao uso desse insumo. Como se exibe nos dados
da Tabela 34, enquanto no mundo esse insumo corresponde a 47% do total consumido pelo
setor, no Brasil essa participação atinge 70% do total. Além da nafta, no Brasil, 21% das
matérias-primas são constituídas pelo metano e apenas 7% são provenientes do etano e
propano.

Tabela 34 – Brasil e Mundo: participação (%) das matérias-primas convencionais nos custos totais da
petroquímica, 2014
Brasil Mundo
Nafta 70 47
Carvão 0 17
Metano 21 12
LGN - 10
Cargas Pesadas - 7
Etano - 7
Etano +Propano 7 -
Etanol 2 -
Total 100 100
Fonte: Adaptado de ABIQUIM (2014, p. 44).

Na estimativa realizada pela Abiquim, o custo de produção de polietileno no Brasil


é 50% maior do que nos EUA, sendo as maiores diferenças provenientes do custo da matéria-
prima e do custo do capital.

163
No acordo firmado no final de 2015, o preço da nafta vendido pela Petrobras à Braskem será de 102,1% da
referência internacional ARA e os termos do contrato podem ser revistos pelas duas partes a partir do terceiro
ano (BRASKEM, 2015b, p. 41).
273

Gráfico 61 – Brasil e EUA: estimativas de custos de uma planta de etileno

Fonte: ABIQUIM (2014, p. 44).

No mundo, a nafta é a base de 57% do etileno e sua cadeia (e o etano, 15%),


enquanto no Brasil a nafta é a principal matéria-prima do etileno que representa 83% do
consumo total dessa produção (e o etano e propano, 12%) – Tabela 35. Assim, se a nafta não
estiver disponível no Brasil a preços competitivos, o volume mais amplo de produção
petroquímica (a cadeia do etileno) também não estará competitiva com relação ao exterior.
Em momentos e em lugares em que o preço da nafta não está competitivo com relação a
outras matérias-primas da petroquímica, os produtos à base de etileno com insumo nafta
também perdem competitividade com relação aos produtores que utilizam a carga etano.

Tabela 35– Brasil e Mundo: participação (%) das matérias-primas para a produção do etileno, 2014
Brasil Mundo
Nafta 83 57
Etano - 15
Gasóleo - 13
Propano - 8
Butano - 5
Outros - 2
Etano +Propano 12 -
Etanol 5 -
Total 100 100
Fonte: Adaptado de ABIQUIM (2014, p. 45).

IPT (2008) explica que a forma de precificação da nafta no Brasil (preço spot da
nafta no mercado europeu – referência ARA – mais os custos de internalização, mesmo que a
produção seja totalmente brasileira e próxima do consumo) contribui sobremaneira para a
perda de competitividade da petroquímica brasileira. Afinal, o preço da nafta brasileira se
estabelece em alto patamar e ainda fica suscetível às oscilações do câmbio brasileiro e do
274

preço internacional. Esses dois componentes do preço inevitavelmente são repassados aos
segmentos a jusante, com perdas sensíveis à grande parte da estrutura produtiva e de
consumo brasileira.
Dos quatro polos petroquímicos (Camaçari, Capuava, Triunfo e Duque de Caxias),
apenas o do estado do Rio de Janeiro não usa nafta como matéria-prima164. No entanto, tem-
se lá uma capacidade de produção de resinas, no total, menor do que a dos demais polos,
embora produza um volume alto de polietileno (GOMES; DVORSAK; HEIL, 2005).
De acordo com Simão (2014), que usou dados fornecidos pela Braskem, o polo de
Capuava produz 700 mil toneladas por ano de etileno e 300 mil de propileno, o de Camaçari
1.280 mil de etileno e 550 mil de propileno e o de Triunfo gera 1.452 mil toneladas de etileno
e 660 mil de propileno por ano. O polo de Duque de Caxias tem uma capacidade menor, 540
mil de etileno e 75 mil toneladas de propileno.
Por ser o único que utiliza exclusivamente o gás como matéria-prima, o polo do
estado do Rio de Janeiro não produz butadieno e aromáticos165. Os outros três polos, com
cargas mais pesadas, possuem produção dessas outras cadeias petroquímicas e, com
integração com as empresas de 2ª. geração, logram produzir uma diversidade grande de
petroquímicos como poliestireno expandido e cumeno (Capuava), caprolactama e etilbenzeno
(Camaçari) e etilbenzeno, estireno e poliestireno (em Triunfo) (ABIQUIM, 2014).
Nas Figuras 12 e 13, é possível perceber o elevado nível de diversificação do
complexo petroquímico da Bahia (Polo de Camaçari, Figura 12) em contraste com o do Rio de
Janeiro (Polo de Duque de Caxias, Figura 13).

164
Está registrado em Braskem (2015b, p. 6) que essa empresa iria em 2016 importar etano dos EUA e flexibilizar
o cracker de Camaçari para utilizar tanto a nafta quanto o gás.
165
O etileno produzido no complexo do Rio de Janeiro é gerado por meio da utilização do propano e etano
obtidos das correntes de gás natural que se extraem em conjunto com a exploração de óleo. O etano é mais
eficiente para a geração do etileno do que o propano, porém o custo de sua separação do metano nas unidades
processadoras de gás natural (UPGN) é alto e só compensa economicamente com expressivos volumes de
consumo de etano e com preços do etano também altos. Para encaminhar o gás natural às UPGNs (e para a
viabilizar a construção de infraestrutura de transporte) devem-se garantir essas condições, bem como um
consumo de metano expressivo para fins não químicos (energia elétrica, em grande parte) (MONTENEGRO; PAN,
2000).
275

Figura 12 – Brasil: Polo Petroquímico de Camaçari (BA) e produção, em toneladas.

Fonte: Abiquim (2014, p. 94).

De acordo com Simão (2014), o complexo de Camaçari conta com 90 empresas,


incluindo, além do setor químico, empresas dos setores têxtil e automotivo. Diferentemente
dos outros polos, uma parte expressiva da nafta e condensados não é comprada da Petrobras
e é importada. Desde 2002, foi permitida importação direta de matéria-prima sem passar pela
Petrobras. Esse aspecto foi evidenciado em IPT (2008):
“Um outro aspecto a ser ressaltado é o caráter estratégico da diversificação
do suprimento da matéria-prima: para os tomadores de decisão dos grupos
privados a dependência em relação à Petrobras é um incômodo
corriqueiramente manifestado na mídia, mas que pode ser muito melhor
expresso nos investimentos dedicados para a importação e armazenagem
(tancagem) de nafta da Braskem na Bahia” (IPT, 2008, p. 27).

Figura 13 – Brasil: Polo Petroquímico de Duque de Caxias (RJ) e produção, em toneladas

Fonte: Abiquim (2014, p. 96).


276

O polo de Triunfo carrega dois diferenciais importantes: tem um processo


produtivo mais flexível que admite o processamento de nafta, condensados e GLP e tem
proximidade com os países do Mercosul dos quais pode importar matéria-prima ou para os
quais se podem exportar os petroquímicos (SIMÃO, 2014). No entanto, mesmo com essa
flexibilidade no uso da matéria-prima, vale frisar a seguinte observação de Simão (2014):
“O condensado é uma fração de petróleo leve obtida durante o
processamento de gás natural, se assemelhando à nafta leve (MOTTIN,
2008). O Brasil não dispõe dessa matéria-prima para comercialização, pois
é processada nas refinarias de forma similar ao petróleo.
Portanto, a demanda das centrais petroquímicas que utilizam condensado
é atendida por importações, o que não oferece segurança ao setor
petroquímico para expansões baseadas nessa matéria-prima.” (p. 72)

Simão (2014) analisou os impactos advindos da maior oferta de gás natural nos
EUA (em função da atividade de shale gas) sobre a indústria petroquímica brasileira, do ponto
de vista dos processos de produção e da matéria-prima utilizada. A autora registra que o preço
baixo e a abundância de gás natural nos EUA foram responsáveis por “ressuscitar” a indústria
petroquímica nesse país, o que pode ser demonstrado a partir do aumento de produção de
petroquímicos e dos investimentos já realizados ou anunciados para os próximos anos
(inclusive de empresas estrangeiras que não tinham ainda plantas nesse país) para o
aproveitamento do etano, oriundo do gás natural. A maior oferta de etano a preços baixos
permitiu o aumento da produção de petroquímicos utilizando essa matéria-prima, diminuindo
a participação do uso da nafta nos processos industriais petroquímicos daquele país e,
também, da média mundial.
Como já observado, o etano como insumo das empresas de 1ª. geração dá origem
aos produtos da cadeia do etileno. A nafta, por sua vez, apesar de estabelecer-se em um preço
mais alto (e gerar, portanto, um etileno mais caro relativamente ao etileno do gás), permite
uma produção mais diversificada viabilizando melhor a produção de propileno, butadieno e
aromáticos. Embora se saiba da maior produção de gás que advirá da exploração dos
hidrocarbonetos do pré-sal, a autora considera a nafta como matéria-prima permanente e
principal da petroquímica brasileira. Segundo Simão (2014) há que se considerar que uma
parte do gás extraído do pré-sal será reinjetado nos poços para aumento da recuperação do
petróleo e outra parte importante será utilizado como insumos das termolétricas. Enfim, a
autora conclui: “(...) a indústria petroquímica brasileira continuará pautada principalmente
277

em nafta, matéria-prima mais cara em comparação com o etano, mais barato em algumas
regiões do globo.”(p. 113).
Em que pese essa forma de aprisionamento da petroquímica à nafta, a autora
apresenta uma janela de oportunidades para a petroquímica brasileira. Dada a diminuição da
produção e rentabilidade nos EUA de propileno, butadieno e aromáticos, o Brasil – que utiliza
e continuará utilizando a nafta – poderá ampliar seus investimentos nas tecnologias que
permitam a produção desses elementos para se beneficiar da menor disponibilidade e do
maior preço que esses produtos vêm apresentando no mercado mundial. Essas tecnologias se
apresentam nos processos atuais de craqueamento a vapor, mas também podem ser vistas
nas refinarias (por FCC) e nos processos on-purpose. Esses últimos ainda podem contar com
matérias-primas de origem não-fóssil, como o etanol.
A despeito da visualização dessa oportunidade, a autora é bastante enfática no
que concerne ao elevado grau de ameaça que surge para a petroquímica brasileira (1ª., 2ª. e
3ª. gerações) com o etileno norte-americano (pois inclui também Canadá e México) barato e
abundante.
Para Marcos de Marchi, diretor da ABIQUIM, o principal desafio para a indústria
petroquímica continua sendo o acesso de longo prazo às matérias-primas a preços
competitivos e cita a indústria dos EUA que obteve expressivos ganhos de competitividade
por meio da obtenção de insumo de baixo custo (o shale gas). A boa perspectiva da indústria
petroquímica brasileira seria a de que se visualiza uma oportunidade com o gás do pré-sal.
Nas palavras desse representante da indústria química: “Os Estados Unidos têm o gás de xisto
e o Brasil tem o pré-sal” (FONTES, 2016c).
A proposta da Abiquim é que a indústria poderia receber o gás natural da
Petrobras a preços competitivos internacionalmente e a União ressarciria a petrolífera pelas
diferenças de preços. A União, por sua vez, seria recompensada na arrecadação maior de
impostos com a venda de químicos que utilizariam o gás como matéria-prima (FONTES,
2016d). Além dos preços competitivos e da definição de contratos de fornecimento estáveis
de longo prazo, a entidade propõe a instalação de uma unidade processadora de gás natural
dedicada à petroquímica.
Um exemplo da baixa competitividade das unidades industriais no Brasil
dependentes do gás natural como matéria prima é o fechamento da Copenor (Companhia
278

Petroquímica do Nordeste), produtora de metanol no polo de Camaçari. Na nota publicada


pela empresa, ressalta-se a baixa rentabilidade das operações diante da diminuição
significativa dos preços do metanol sem a equivalente diminuição da matéria-prima, o gás
natural. A nota registra que a Metanor166 controladora da Copenor manterá sua produção de
folmaldeído e hexamina, com o uso de metanol importado (Anexo D). A inviabilidade
econômica de uma empresa petroquímica, produtora de um bem básico e que não detém
controle sobre o preço e acesso a sua matéria-prima, pode ser ilustrada com o fechamento
dessa empresa, mesmo após 40 anos de operação.
No estudo Bain & Company; Gas Energy (2014b) – cujo principal objetivo foi
identificar o potencial para a diversificação da indústria química brasileira com o intuito de
reduzir o dramático déficite comercial do setor – dos 18 segmentos identificados pela
pesquisa167, todos aqueles ligados diretamente ao setor petroquímico apresentaram, para
expandir e incrementar o potencial produtivo e comercial do segmento, a seguinte
recomendação: “Utilização de parcela do petróleo e gás da União, proveniente do pré-sal para
viabilizar investimentos para a produção local de insumos de origem petroquímica” (p. 14, 16,
22, 23, 24, 25, 28 e 29).
Essa proposta de ação está fundamentada no diagnóstico de que as importações,
decorrentes da baixa atratividade econômica da produção local de produtos daqueles
segmentos, devem-se a algumas fragilidades, dentre elas e sempre citada em primeiro lugar,
está a baixa competitividade168, insuficiência de matéria-prima petroquímica ou petrolífera e
a falta de garantias de fornecimento de longo prazo a custo competitivo que permitam a
expansão e diversificação da produção de petroquímicos no Brasil.

166
A Metanor foi fundada em 1969 para produzir o metanol. Em 1976, iniciou sua produção em Camaçari, polo
petroquímico escolhido em função da infraestrutura e das vantagens de aglomeração (principalmente a
proximidade com clientes-produtores). Com os derivados do metanol, a empresa atende os produtores de
grande parte das indústrias nacionais de tecidos de poliéster, madeira compensada e aglomerada, acrílicos,
defensivos agrícolas, produtos farmacêuticos, tintas e vernizes (COPENOR, 2017a).
167
São os segmentos: Cosméticos e produtos de higiene pessoal; Defensivos agrícolas; Aditivos alimentícios para
animais; Químicos para E&P; Aromas, sabores e fragrâncias; Derivados de celulose; Aditivos alimentícios para
humanos; Derivados do silício; Tensoativos; Derivados de butadieno e isopreno; Derivados de aromáticos;
Poliuretanos e seus intermediários; Lubrificantes; Fibras de carbono; Poliamidas especiais; Poliesteres de alta
tenacidade; Oleoquímicos e Químicos de fontes renováveis.
168
De acordo com o estudo, a baixa competitividade está associada à pequena escala de produção dos
petroquímicos de 1ª. geração quando comparadas com as plantas de escala mundial. A escala de produção de
etileno no Brasil correspondeu à 50% das menores plantas dos 1º. Quartil da curva de capacidade global em
2013, a do propileno, 71%, a do benzeno, 49%, a do tolueno, 49%, a do p-xileno, 20% e a do butadieno, 78%
(BAIN & COMPANY; GAS ENERGY, 2014a, p. 10).
279

Para BNDES (2014), dentre as principais fraquezas do setor químico brasileiro está
a “incerta disponibilidade atual de matérias-primas de origem petroquímica, notadamente a
nafta e o gás natural” (p. 112) e o seu alto custo. Também se apontam como entraves a novos
investimentos no setor químico o elevado custo do financiamento, a baixa diversificação das
empresas, capacitação tecnológica baixa nas empresas de especialidades, obstáculos
regulatórios e de infraestrutura (logística e energia).
Enfim, nos parece ser um consenso entre analistas e representantes do setor
petroquímico de que a matéria-prima petroquímica constitui uma grave barreira para a
expansão do setor petroquímico brasileiro e para a competitividade de suas empresas.
O provimento de matéria-prima ao setor petroquímico (nafta e etano,
principalmente) está quase todo concentrado na Petrobras. O fornecimento de insumos
petroquímicos da 1ª. geração para a 2ª. geração – os chamados petroquímicos básicos –, por
sua vez, está restrito à Braskem e à Petrobras, conforme se ilustra no Gráfico 62. Outro dado
também importante na relação entre Petrobras e Braskem é o de que 78,2% das despesas
totais da Braskem correspondeu em compras de nafta, condensado, etano, propano e HLR em
2015 (BRASKEM, 2015b, p. 77), cujo fornecimento em quase sua totalidade é realizado pela
Petrobras.

Gráfico 62 – Brasil: produção de recursos fósseis, matérias-primas petroquímicas e petroquímicos de


1ª. geração, em MBbl/d, Mm3/d, Mta, 2013

Fonte: Bain & Company; Gas Energy (2014a, p. 10).

Recordando que a Petrobras é, ao lado do Grupo Odebrecht, principal acionista da


Braskem, observa-se uma participação expressiva da petrolífera brasileira no setor
280

petroquímico brasileiro, atribuindo-lhe uma posição determinante para definição de


competitividade do setor petroquímico no Brasil, bem como a dos setores a jusante.
Na análise de Hasenclever e Antunes (2009) sobre as perspectivas de
investimentos no Brasil, as autoras mostraram-se entusiasmadas com o que se observava na
atuação da Petrobras no setor e o que se poderia esperar. Afinal, a Petrobras pretendia
expandir sua participação na primeira e segunda gerações da petroquímica, estava
desenvolvendo novas tecnologias para a indústria química (craqueamento catalítico – FCC - e
em bipolímeros) e com robustos investimentos no COMPERJ, na Petroquímica Suape e no
aumento da capacidade de produção das refinarias.
Embora a presença da Petrobras nesses empreendimentos – na sua forma mais
radical, qual seja, como sócia – possa ser compreendida por alguns e algumas como essencial
à sobrevivência de longo prazo de alguns empreendimentos petroquímicos, o direcionamento
estratégico dessa empresa ocorrerá, de acordo com a própria empresa, na direção oposta
dessa perspectiva.
No seu Plano de Negócios para o período 2017-2021 (PETROBRAS, 2016b), a
Petrobras elenca algumas de suas estratégias (Quadro 3), estando entre elas a saída integral
das atividades do setor petroquímico (com o compromisso também de se retirar da produção
de biocombustíveis169, distribuição de GLP e produção de fertilizantes). Ou seja, trata-se de
uma estratégia de diminuição radical de sua diversificação de portfólio, saindo das atividades
downstream para se concentrar nas atividades upstream da cadeia petrolífera.
Já no bojo de seu programa de desinvestimentos, em 2016, a Petrobras vendeu
suas ações da Companhia Petroquímica de Pernambuco (Petroquímica Suape) e da
Companhia Integrada Têxtil de Pernambuco (Citepe) para uma empresa mexicana, a Alpek,
empresa de capital aberto e líder na produção de poliéster, por US$ 385 milhões (POLITO,
2016).

169
Para Bueno e Sattamini (2017), a saída da Petrobras da produção e dos investimentos em pesquisas em
biocombustíveis (principalmente os de 2ª. e 3ª. geração) irá distanciar o Brasil dos compromissos do Acordo de
Paris e tirar flexibilidade e resiliência do setor energético brasileiro quanto às oscilações do preço do petróleo e
à segurança energética. Além disso, a Petrobras ficará sem uma fonte importante de receitas que seria derivada
das patentes em biocombustíveis.
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Quadro 3 – Petrobras: Plano de Negócios e gestão 2017-2021 (negrito da empresa)


Estratégias:
• Reduzir o risco da Petrobras na atuação em E&P, Refino, Transporte, Logística, Distribuição e
Comercialização por meio de parcerias e desinvestimentos;
• Promover política de preços de mercado e maximização das margens na cadeia de valor;
• Otimizar o portfólio de negócios, saindo integralmente das atividades de produção de
biocombustíveis, distribuição de GLP, produção de fertilizantes e das participações em
petroquímica, preservando competências tecnológicas em áreas com potencial de
desenvolvimento;
• Maximizar a geração de valor da cadeia de gás, alinhada com a evolução regulatória, garantindo
a monetização da produção própria e adequando a participação na cadeia de gás natural como
combustível de transição para o longo prazo;
• Reestruturar os negócios de energia, consolidando os ativos termelétricos e demais negócios
desse segmento, buscando a alternativa que maximize o valor para a empresa;
• Rever o posicionamento do negócio de lubrificantes, objetivando maximizar a geração de valor
para a Petrobras.
Fonte: Adaptado de Petrobras (2016b, p. 43).

Além disso, cabe apontar a menção explícita no plano estratégico da Petrobras a


respeito da adoção de políticas “de preço de mercado e maximização de margens na cadeia
de valor”. Com isso, essa diretriz afasta o máximo possível as unidades petroquímicas
brasileiras de suas congêneres estrangeiras que recebem há muito tempo e permanecem
recebendo matéria-prima a preços subsidiados.
Conforme mostrou Jesus Junior (2015), no período entre 2003 até 2015, a
Petrobras definiu algumas de suas mais importantes ações que contrariavam sua função de
maximizar o valor ao acionista e fez predominar os objetivos que conduziram a sua criação:
“a necessidade de atender aos imperativos de segurança nacional ou a relevante interesse
coletivo” (p. 03). O afastamento de sua função de maximizar o valor ao acionista se revela,
por exemplo, nas decisões da Petrobras de desenvolver uma indústria parapetrolífera no
Brasil a partir da exigência de conteúdo local em suas aquisições.
O caráter dessa estratégia parece ter se modificado substancialmente a partir do
início da gestão de Pedro Parente na Petrobras, sob a presidência da República de Michel
Temer, como destaca Nozaki (2016):
“Portanto, os desinvestimentos, a alteração do papel de indutor da
Petrobras e a mudança de legislação do pré-sal compõem um mesmo
pacote: valorização dos ativos no curto prazo e adequação da atuação da
empresa e do setor petróleo às boas práticas de mercado. Com isso, ganha
espaço uma visão de que todas as ações devem sinalizar ganhos de curto
prazo e liberdade de atuação de qualquer agente econômico,
independente do papel estratégico do setor.”
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Se, do ponto de vista do setor petroquímico e dos planos de desenvolvimento do


parque industrial brasileiro, a saída da Petrobras pode significar uma perda descomunal, as
críticas também aparecem entre os especialistas do setor petrolífero no tocante às perdas
para a Petrobras. Como exemplo, pode-se destacar esse trecho do artigo de Haroldo Lima
(2016), ex-diretor geral da ANP:
“O foco em E&P é consensual, mas o afastamento radical de outros setores,
não. Enfraquecerá a verticalização da empresa, levando-a a parecer uma
grande “independente”, que ganha pelo o que produz na boca do poço. Se
a verticalização fica tópica e inexpressiva, a sua defesa, feita pelo
presidente da empresa, fica formal. Sair integralmente da petroquímica,
por exemplo, é abrir mão do setor que mais representa o futuro do
petróleo” (LIMA, 2016).

Em uma interpretação oposta da gestão atual da Petrobras, aqui também é


defendido o estreitamento e ampliação dos vínculos entre a Petrobras e o setor petroquímico.
Assim como propõe a economista Mazzucatto (2015), o foco não está em defender a presença
do Estado por si, mas reconhecer que seu papel vai muito além de corrigir falhas de mercado.
O Estado possui o poder de criar novos mercados e atividades e ainda de realizar essas ações
na direção de buscar mitigar ou eliminar os problemas sociais (incluindo os de
sustentabilidade ambiental) que acometem os países.
A ausência do Estado, em setores intensivos em capital, em países
subdesenvolvidos, como o Brasil, pode levar a “desestruturação dos sistemas empresariais
nacionais” (MELLO et al., 2003, p. 22). Ainda mais nos cenários econômicos internacionais em
que os países em desenvolvimento encontram-se mais fragilizados, a presença do Estado deve
ser posta como fundamental para sustentar o capital nacional e qualquer possibilidade de
desenvolvimento no futuro.
A seguir, na seção final deste trabalho, apresentam-se algumas considerações
finais a respeito deste caminho que está se delineando para o setor petroquímico brasileiro,
comparando-o com as características observadas na experiência dos EUA e com os fatores de
competitividade do setor, conforme revisão bibliográfica e pesquisa atual com respeito às
estratégias das maiores empresas do setor.
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CONCLUSÃO

No início do século XXI, algumas marcas no ambiente econômico mundial se


destacam. Talvez a mais importante delas seja a inequívoca mudança do eixo do dinamismo
mundial do Ocidente para o Oriente, em grande parte pelo deslocamento da produção das
empresas transnacionais da primeira região para a segunda, como também pelo acelerado
crescimento econômico asiático com base em forças internas. Dessa região, a China se define
como o agente propulsor das grandes mudanças econômicas no mundo, tanto como grande
produtora de manufaturas, cada vez mais de maior conteúdo tecnológico, quanto como
consumidora de bens básicos.
Em termos de política econômica, destacam-se aquelas de cunho neoliberal, como
as recorrentes desregulamentações de mercados, privatizações e a implementação de
programas de austeridade fiscal. Também se observa um número expressivo de governos cada
vez mais reféns (ou agentes?) dos mercados financeiros e de sua lógica especulativa e rentista.
Ao mesmo tempo, estudos a respeito das economias asiáticas (chinesa, em particular)
continuam a evidenciar a força dos controles e o uso de instrumentos e políticas de
intervenção econômica por parte do Estado. Mesmo no Ocidente, mantém-se o espaço, no
meio acadêmico e nas esferas públicas, para os trabalhos de economistas e outros cientistas
sociais que destacam os vínculos do Estado com a propulsão da atividade econômica industrial
e tecnológica nesses países (MAZZUCATO, 2014; CHANG, 2007; AMSDEN, 1992; EVANS, 1995;
WADE, 1991).
Outra marca importante do início do século XXI, sobretudo após a crise de 2008,
foi a nova onda de concentração dos mercados e centralização do capital, sendo os
importantes processos de fusões, aquisições e joint-ventures, que ocorrem nas primeiras
décadas do século, a manifestação desse movimento. A força do grande capital se expressa
no pujante desenvolvimento tecnológico, seja em novos processos de produção, seja em
novos produtos, mas também na geração de uma imensa massa de recursos monetários
integrados a circuitos financeiros não necessariamente articulados e dependentes da esfera
da produção.
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Essa concentração do capital, que determina o acirramento da concorrência


internacional na década de 2010, se faz presente de maneira acentuada também no setor
petroquímico, objeto desta tese. A alta taxa de investimentos na Ásia e Oriente Médio e o
“renascimento” da indústria petroquímica estadunidense provoca uma tendência ao excesso
de capacidade produtiva nesse setor, com tendência baixista nos preços em conjunto com
acentuação da busca por mercados externos.
Nos EUA, o revigoramento da competitividade do setor petroquímico ocorreu em
função da disponibilidade de matéria-prima de baixo preço, o etano, encontrado nos poços
de shale gas, que pôde ser extraído em alto volume das formações rochosas de shale com
tecnologias inovadoras. Esse cenário trouxe desafios de monta às empresas que utilizam a
nafta como insumo petroquímico. A exploração do shale gas também promoveu a redução
dos preços do gás natural como insumo energético nos EUA, oferecendo às indústrias
intensivas em energia, como o setor petroquímico, mais um ganho importante de redução de
custos.
Como foi apresentado no capítulo 1, os investimentos voltados à indústria do gás
natural apresentam diferenças com relação aos realizados para a exploração do óleo. Embora
esse hidrocarboneto seja considerado bastante versátil no seu uso (bom substituto do óleo e
carvão em vários mercados, principalmente no de geração de energia elétrica) e requeira
menos processamento do que o óleo (pois dispensa a fase da refinaria), o seu transporte e
armazenagem são de alto custo. Se for transporte terrestre, por gasoduto, o gás natural ocupa
um volume grande relativamente à baixa energia que carrega e as distâncias entre os campos
produtores e os mercados consumidores determinam um custo muito alto para os dutos por
unidade calorífica transportada. Para transporte marítimo, o custo também é muito alto, pois
há necessidade de uma ampla infraestrutura de liquefação (nos portos exportadores),
regaseificação (nos portos impo