Você está na página 1de 144

1

Scalper Trader Cursos e Treinamentos

www.scalpertrader.com.br

contato@scalpertrader.com.br

andre.hanna@scalpertrader.com.br

andre.antunes@scalpertrader.com.br

Material integrante do Programa Tape Reading Automatizado

Edição: 4º

Autor: André Hanna Farath

COPYRIGHT © Scalper Trader Cursos e Treinamentos

TODOS OS DIREITOS RESERVADOS.

Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida, transcrita,


arquivada eletronicamente ou transmitida por qualquer maneira ou por
quaisquer meios, sejam eletrônicos, mecânicos, fotográficos,
magnéticos ou similar, sem autorização prévia e por escrito do detentor
dos direitos autorais, conforme a Lei 5.988, de 14 de dezembro de
1973, artigos 120 - 130.

As ideias aqui apresentadas refletem a opinião do autor, não devendo,


portanto, ser confundidas com recomendações de investimento. Cada
leitor é responsável por sua suas próprias decisões de investimento.

2
SUMÁRIO

Apresentação .............................................................................. 4

Como Pensar e Agir como um Trader Ativo

Capítulo 1 – Introdução ................................................................... 8

Capítulo 2 - Natureza dos Mercados ................................................ 23

Capítulo 3 - Percepção e Processo de Pensamento ............................ 34

Capítulo 4- Acompanhar o Mercado com Objetividade ....................... 52

Capítulo 5- Interação com os Mercados e Perspectivas ...................... 59

Capítulo 6- Sincronizando a Mente com o Fluxo dos Mercados ............ 72

Capítulo 7- Sincronizando o Operacional com o Fluxo dos Mercados .... 97

Manual de Visualização ........................................................... 118

Primeiro Exercício ....................................................................... 136

Segundo Exercício ...................................................................... 138

Terceiro Exercício ....................................................................... 141

3
APRESENTAÇÃO

Dentre todas as curiosidades que tínhamos durante nossa fase de


aprendizado no trading, a que mais nos chamava a atenção era como
e por que alguns traders tinham resultados consistentes e expressivos,
enquanto outros pareciam não sair de uma espiral negativa e
conviviam com resultados inconstantes ou ainda perdas excessivas.

Com histórias diferentes, acabamos por frequentar as salas de


negociação de uma corretora de valores que certamente foi o maior
celeiro de traders autônomos do Brasil. Durante anos, pudemos
acompanhar traders que já possuíam consistência de resultados e
também os que tentavam se desenvolver. Alguns conseguiam atingir
o tão sonhado nível de consistência de resultados enquanto outros não.

Começamos perceber que a maior parte dos que se destacavam tinha,


de alguma forma, convivido com traders veteranos. Percebemos
também que a grande maioria dos que não conseguiam se
desenvolver, ou não possuía tal harmonia com traders experientes ou
já possuía uma forma de pensar muito definida quanto aos aspectos
comportamentais e analíticos.

Muitos dos que tinham dificuldade em se desenvolver já haviam feito


cursos e tentado operar em outra corretora (sem esse viés de trade)
ou de suas casas/escritórios. Entretanto, a percepção acima,
isoladamente, estava longe de ser conclusiva e ainda faltava saber
mais. Queríamos saber, se existia algo, concreto e mais específico que
separava traders consistentes de não consistentes.

Quando perguntávamos a todos sobre o que eles nos aconselhariam a


fazer para se ter sucesso a resposta era quase que unânime: “corte
suas perdas o mais rápido possível e tente deixar fluir enquanto estiver
dando certo”. Esse axioma era dito por todos, tanto pelos experientes
quanto pelos aspirantes, o que ainda não respondia nossa pergunta.
Outra pergunta típica, que fazíamos era: “o que você olha para operar
e o que motiva sua decisão”.

Com essa pergunta percebemos algo interessante. Os traders


consistentes tinham respostas consideradas por nós, naquela época,
como vagas ou abstratas, como por exemplo; “vendi porque parou de
subir”, “comprei porque parou de cair”, “vendi porque o mercado
começou a vender”, comprei porque o mercado começou a comprar”.
Por sua vez, as respostas de traders que não estavam conseguindo se
desenvolver eram mais claras e objetivas, como por exemplo: “comprei
porque rompeu uma resistência”, “comprei porque o IFR estava baixo”,
“vendi porque o setup que utilizo mostrou venda” e etc...

4
Apesar de interessante, confessamos não conseguíamos entender essa
diferença de pensamento, na verdade o difícil era aplicar os conceitos,
até então “vagos”, aprendidos com os veteranos.

O tempo foi passando e aos poucos conseguíamos constatar alguns


pontos interessantes:

- Os melhores traders conheciam pouco ou quase nada de análise


técnica.

- Os melhores traders não possuíam um método rígido de entrada e


saída, ou seja, são discricionários.

- Os melhores traders também perdiam, mas encaravam esta perda de


uma forma totalmente diferente dos demais.

- Os melhores traders tinham pouca opinião sobre a direção dos preços


e conseguiam olhar o mercado de uma forma totalmente objetiva
adaptando-se a cada instante.

- Os melhores eram extremamente ágeis na execução dos trades


(entrada, saída e stop).

- Os melhores não tinham medo de operar e não tinham dúvida da sua


capacidade de ganhar dinheiro. Eram extremamente confiantes
bastando apenas ter oportunidade.

Bom, mesmo sabendo de tudo isso, a grande questão era: como fazer
para operar sem depender de análise técnica, de forma discricionária
(sem seguir trading system), sem ter opinião sobre alta ou baixa,
encarar de forma saudável as perdas e ainda assim ser confiante?
Como replicar tais habilidades e o comportamento de outro trader?

Encontramos esta resposta através do conhecimento de programação


neuro-linguistica (PNL). PNL é o estudo de como a linguagem,tanto a
verbal como a não verbal, afeta nosso sistema nervoso. Nossa
capacidade de fazer qualquer coisa na vida está baseada em nossa
capacidade de dirigir nosso próprio sistema nervoso. Em resumo é a
ciência de como dirigir seu cérebro de uma forma favorável para
conseguir os resultados que deseja.

O principal pressuposto da PNL é que se alguém consegue criar um


resultado (ser consistente no trading, por exemplo) é possível replicá-
lo.

Sob a ótica da PNL, de uma forma bem simplista, para se copiar a


forma de pensar de outra pessoa, você teria que copiar sua estrutura
de crença (como filtramos e interpretamos a realidade), copiar sua
sintaxe mental (ordenação da forma de pensar) e sua fisiologia.

5
Apesar de os adeptos da PNL julgarem necessários os 3 passos citados
acima, acreditamos que entender a estrutura de crenças de traders
consistentes já garante um enorme avanço.

Nosso propósito neste material não é ensinar sobre PNL ou ainda


associar conhecimento de PNL ao sucesso como trader. Nosso objetivo
é explicar que “modelamos” a forma de pensar dos traders de sucesso
e com isso conseguimos os mesmos resultados. Assim sendo é possível
que você faça o mesmo.

OBJETIVOS

Esse material foi originalmente desenvolvido como suporte para o


Curso de Formação de Traders Ativos, cuja estratégia central girava
em torno de análise de fluxo de ordens puramente aplicada à scalping.

Apesar de o Programa Tape Reading Automatizado permitir uma gama


maior de operações incluindo Trade Location, Front Running e Trades
para Segurar, o material ainda é perfeitamente aplicável uma vez que
trata de assuntos inerentes à forma como nós humanos percebemos o
mundo, pensamos e agimos.

O mercado vem se transformando ao longo do tempo e exigindo


adaptação operacional para conseguirmos tirar proveito de todas as
oportunidades que ele faz disponível. O Programa Tape Reading
Automatizado surge em resposta ao nosso operacional frente a um
ambiente desafiador exigindo maior eficiência de todos os traders.

Frente ao dinamismo nós precisamos nos adaptar mais depressa,


explorar oportunidades em mais de um ativo e eventualmente
incorporar mais essências operacionais para conseguir diluir o risco e
manter um número adequado de boas oportunidades.

Apesar de toda essa mudança de dinâmica nos mercados, o principal


objetivo deste material e do anexo chamado manual de visualização é
fazer você pensar e agir como um trader pessoa física consistente. E a
melhor forma de conseguir isso é através do entendimento e da
mudança de algumas crenças.

Neste processo, falaremos muito sobre a importância do controle ativo


e consciente do Estado Mental e da Atitude como fatores determinantes
para criar resultados consistentes. Falaremos também sobre a
importância de “perceber” a informação proveniente do mercado de
forma totalmente objetiva, ou seja, sem viés, conflito ou
opiniões/expectativas.

Esperamos que ao final deste material você tenha um entendimento


claro sobre o mindset ideal para se relacionar com o mercado.

6
Muito sucesso, atitude vencedora e ótima leitura!

André Hanna e André Antunes

COMO PENSAR E AGIR COMO UM TRADER ATIVO

1-INTRODUÇÃO

Antes de iniciarmos o texto, gostaríamos de fazer alguns


esclarecimentos. O Programa Tape Reading foi elaborado para abordar

7
os aspectos teóricos e práticos de operações de day trade, sob a ótica
do trader autônomo. Por isso, sempre que mencionarmos à palavra
trader, estaremos nos referindo especificamente às pessoas físicas que
se engajam nesta atividade. É importante fazer esta separação, pois,
algumas afirmações podem não se aplicar às demais categorias de
traders (Traders Institucionais, Sales Trader, Brokers, etc.). Outra
observação é sobre mencionarmos as palavras operação ou trade.
Sempre que não houver segmentação estaremos nos referindo às
operações de day trade, ou seja, operações realizadas dentro de um
mesmo dia.

1.1 ATRAÇÃO

Você já parou para pensar o que, efetivamente te atraiu nos mercados?


Provavelmente você se enquadre em algum ou em vários dos itens
abaixo:

- Enriquecimento rápido

- Euforia

- Atração pelo desafio

- Autopunição gerada pelas perdas (pode parecer incoerente, mas


muitos buscam isso)

Por mais que estes itens acima atraiam pessoas ao trading, há algo
muito mais profundo e que alimenta a vontade dessas pessoas:
Liberdade de expressão!

Os mercados trabalham de uma maneira muito diferente do que quase


tudo na vida. Há mais liberdade neste “mundo do trading” do que
provavelmente qualquer outro negócio no mundo. Desde que você
tenha recursos e acesso à negociação (plataformas ou home broker)
você pode fazer o que quiser e quando quiser.

Enquanto o mercado estiver aberto não existe começo, meio e fim


formal.

Você decide se entra no mercado e com quantos lotes, se permanece


na posição e decide quando sair do mercado quer seja, no lucro ou no
prejuízo. Esse grau máximo de liberdade não é encontrado em nenhum
outro negócio.

Nem mesmo os jogadores (de cassinos e coisas do gênero) possuem


tal liberdade, pois nos jogos há começo, meio e fim. Há regras e essas
regras limitam parte das decisões de atuação dos jogadores

8
restando a estes escolher, quanto apostar e com que estratégia. Os
jogadores ficam isentos da necessidade de “saírem do jogo”, ou seja,
como existe um final formal para cada rodada, não há nada que ele
possa fazer a não ser aceitar o ganho ou a perda. Já nos mercados,
uma vez posicionado (comprado ou vendido) o trader tem,
necessariamente, que tomar uma decisão para sair do jogo, pois, nada
e nem ninguém irá tirá-lo. Repare que há uma enorme diferença.

O jogador é necessariamente um perdedor ativo, pois ele perde, no


máximo, exatamente o que sabia que poderia perder quando decidiu
apostar. Para perder mais, o jogador tem que tomar uma nova decisão
de apostar mais e consequentemente errar novamente.

O trader por sua vez só será um perdedor ativo se conseguir ter


discernimento, habilidade e atitude de sair da posição quando atingir o
nível pré-determinado de perda ou quando ela não se mostrar mais
promissora1.

Concorda que há uma decisão a mais? Se por algum motivo, o trader


não agir para cortar a perda esta poderá crescer de uma forma
incontrolável gerando um prejuízo 2, 3 ou 10 vezes maior do que se
planejava. Neste caso o trader está “passivo”, ou seja, não precisa
fazer nada para perder mais e mais dinheiro se o mercado continuar
andando contra sua posição. Ser passivo significa estar à espera de um
evento externo para salvar sua pele.

Além deste importante conceito de ativo e passivo (que inclusive será


tratado mais adiante) queremos reforçar a ideia de que diferentemente
de tudo, até de jogo, o trading querer atitude nas escolhas e aceitação
dos resultados gerados pelas escolhas.

O trader (que não pensa da forma correta) costuma sofrer


interferências emocionais e ser mais frustrado que o jogador. De forma
resumida, o fato de o trader ter que decidir e agir para sair do mercado,
por si só explica essa interferência emocional.

Arrependimento, raiva, medo e indecisão são mais doloridos quando


causados por decisões próprias do que por regras ou fatores externos.

A liberdade sempre tem seu preço!

1
Nós stopamos cada operação baseado sempre na descaracterização dos fatores que
nos motivaram entrar no mercado. Dessa forma, cada uma das cinco essências por trás
do Trade requer um stop diferente.

9
1.2 Fases dos Traders

A grande maioria dos interessados por bolsa de valores acaba


passando, de alguma forma, pelas fases que iremos descrever. O que
varia de pessoa para pessoa é a duração e esforço emocional e
financeiro dispendido em cada fase. Repare que aqui usamos a
expressão “interessados em bolsa de valores” e não a palavra “trader”.

Traders são considerados mais ativos, ou seja, que atuam com relativa
frequência. Investidores, por sua vez possuem este rótulo por atuarem
no mercado vislumbrando horizontes de tempo mais longos.

Apesar de traders e investidores usualmente percorrerem este caminho


nós iremos nos referir, especificamente nesta sessão, aos que se
dedicam como traders.

Primeira fase: Julgar que o caminho do sucesso se dá através de


dicas.

Essa foi exatamente minha primeira crença quando decidi, ainda bem
novo, me dedicar ao mercado financeiro. Acreditava que
relacionamento, contatos e acesso a relatórios relevantes
proporcionavam vantagem na hora de atuar como trader.

Assim como eu, todos que se encontram nesta fase, ainda que de
forma “inconsciente” transferem a responsabilidade das decisões para
terceiros. Essa transferência acaba blindando nossa mente dos danos
de errar e perder dinheiro, uma vez que quem errou foi quem deu a
dica e não nós mesmos.

Esta fase não durou muito para mim e frequentemente também não
dura para os outros. A decepção sobre a crença das dicas vem
rapidamente, uma vez que é fácil perceber que além da dificuldade de
se construir relacionamentos com as pessoas certas, as “dicas” que
chegam geram mais prejuízos do que lucros.

Com resultados inconstantes e, na maioria das vezes prejuízos, muitos


já desistem nessa fase.

Abaixo listei alguns outros motivos que explicam o porquê da


ineficiência de depender de dicas/recomendações quando seu objetivo
é ser trader.

- Os analistas de mercado são os grandes fornecedores de informação.


Os agentes autônomos de investimentos fazem a ponte entre a
informação gerada pelos analistas e os clientes. Ambos costumam ser
remunerados com comissões sobre a corretagem gerada nas

10
operações. Ou seja, quanto mais ordens de compra/venda, mais
corretagem e mais comissões. Você por outro lado, tem que ganhar
dinheiro com estas recomendações e quantidade não significa
qualidade. Este é um dos maiores conflitos de interesse na atividade.

- Outro motivador é a falta de disciplina dos traders em cumprir as


recomendações assim como são fornecidas. Com execuções aleatórias,
fica praticamente impossível de atingir as estatísticas positivas de
acerto que alguns analistas possuem. Isso ocorre, basicamente por
dois motivos:

Primeiro: não ter o menor domínio sobre as emoções sofrendo


influência, principalmente de medo de operar e arrependimento pelos
atos;

E segundo: começar a ter opinião própria sobre o mercado e julgar em


qual das recomendações entrar e em qual não entrar.

Para finalizar, obviamente, algumas poucas pessoas enriqueceram e


ainda enriquecem com dicas e recomendações. Elas conseguem tal
façanha através de relacionamento com pessoas influentes, de fato.

Na segunda fase estes mesmos traders mudam um pouco o foco.


Eles param de perguntar o que fazer e começam a questionar como
fazer.

Percebem a possibilidade ou necessidade de seguirem as


recomendações geradas por trading systems desenvolvidos por
terceiros ou de fazerem suas próprias análises.

Esta é a etapa da busca pelo conhecimento através de conversas com


colegas, corretoras ou na própria internet. A recomendação não
poderia ser diferente: “Se quer se tornar um bom trader faça um curso
de análise técnica”.

Quem já fez essa pesquisa deve ter reparado este diagnóstico. Com
este intuito na mente, essa pessoa busca o curso mais adequado e
após um final de semana de aulas parece ter tomado uma injeção de
ânimo/confiança contando as horas para aplicar as novas técnicas.

É muito comum esse trader começar a operar utilizando indicadores da


análise técnica ou trading systems prontos, pois os sinais são gerados
pelo sistema e não é necessária nenhuma interpretação. Um bom
exemplo aqui é cruzamento de médias móveis, Hilo, Bandas de
Bollinger etc. Após um tempo operando o resultado muitas vezes não
é satisfatório e por quê?

Podemos listar alguns bons motivos:

11
- Dificuldade em seguir 100% dos sinais gerados, assim como ocorre
nas recomendações de analistas citadas na 1º fase. Esse problema
pode ocorrer por desconfiança temporária do sistema devido às perdas
seguidas. É comum que esse trader tire o pé quando o sistema gera
prejuízos nos trades individualmente.

O medo de perder mais dinheiro cria uma necessidade pessoal de


interferir no sistema, julgando de forma discricionária qual indicação
vale à pena arriscar e qual não vale. Com essa perspectiva seletiva,
não tem como escapar de também estar fora de operações
ganhadoras, as quais muitas vezes pagariam os prejuízos anteriores
ou ainda garantiriam lucro.

- Outro ponto que é crucial é ineficiência do próprio trading system ou


da utilização de indicadores de análise técnica.

Para mim, pessoalmente esse é um dos principais pontos. Esses


traders realmente acreditam que todos no mercado operam também
utilizando indicadores, gráficos ou trading systems. Com essa cabeça
de que se profissionais fazem eu também conseguirei fazer, eles
procuram de forma quase que interminável a melhor combinação de
indicadores que expliquem o que o mercado fez no passado recente.

Veremos um exemplo: Um trader aprende que o sistema baseado em


médias móveis mostra resultados positivos no backtesting (significa
testar a eficiência da estratégia em períodos de tempo passados).
Pressupondo que o trader não incorra no problema de julgamento
descrito no tópico anterior, o que é de se esperar? Se o sistema der
lucro, ok, mas e se der prejuízo? Quantos de vocês continuariam
seguindo as recomendações se o sistema, por exemplo, gerasse 6
prejuízos seguidos? Alguns podem argumentar que a disciplina, neste
caso, é justamente continuar seguindo as recomendações uma vez que
o sistema possui um histórico positivo no backtesting. Mas aqui vai um
questionamento para todos os leitores, quando devo reavaliar meu
sistema, ou seja, quando sei que o resultado gerado no teste passado
não deve mais ocorrer no futuro?

Duvido que haja outra resposta a não ser quando o sistema mostra
prejuízos frequentes. A questão é que você quase sempre vai reavaliar
quando estiver perdendo dinheiro. Assim vai buscar outra combinação
perfeita de indicadores ou ainda uma forma de filtrar algo no atual
sistema (combinar mais indicadores técnicos, por exemplo) e que teria
funcionado durante a fase que você estava perdendo dinheiro seguindo
as recomendações do sistema antigo.

Essa tentativa de equacionar o passado é uma das maiores armadilhas


que o trader pode cair. É praticamente um círculo vicioso, onde a perda
financeira gera um ímpeto de buscar conhecimento sobre mercado

12
(combinando indicadores ou trocando de trading systems) afim
conseguir controlar ao máximo todos os movimentos possíveis do
mercado evitando dessa forma mais perdas futuras. Além de ser muito
difícil de ser resolvida (para isso tem que efetivamente entender a
natureza do mercado), essa situação começa a gerar sérios danos
psicológicos nos traders, como falta de confiança, medo de executar
ordens ou ainda medo de perder dinheiro.

Os poucos que, ou por não terem desistido do mercado ou por terem


buscado alternativas aos modelos muito mecânicos (indicadores de
análise técnica ou trading systems) começam a atuar só olhando preço.
Nos EUA esta modalidade é conhecida como price action. Basicamente,
o traders procuram por suportes e resistências de preços, LTAs, LTBs.

Essa forma de atuação também é uma grande mudança de perfil


operacional, pois começam a analisar o mercado ou em outras
palavras, atuar de forma mais discricionária. Começam a analisar
rompimentos de preços, a analisar quais rompimentos possuem melhor
potencial, quais propiciam projeções de preço e etc. Também
consideram a possibilidade de atuar contra o mercado, o que é
considerado uma heresia nos fóruns. Começam a enxergar a
possibilidade de vender em resistências de preço e comprar em
suportes, etc. Essa é de fato uma evolução em relação à fase anterior,
pois, o trader desenvolve timing (preocupação com entrada e saída) e
começa a perceber que não são os indicadores de análise técnica que
causam os movimentos de preço. Nesta fase os resultados tendem a
ser, muitas vezes, melhores e alguns começam a se destacar.

Essa segunda fase é geralmente onde a grande maioria fica por muito
tempo. Alguns desistem do mercado por não conseguirem resultados
adequados e outros por perdas financeiras geradas, principalmente,
por falta de disciplina.

Para que traders garantam sucesso permanente faltam 2 ingredientes


essenciais:

- Entender profundamente a natureza do mercado e o que,


efetivamente, causa os movimentos de preço;

- Desenvolver uma mentalidade de trader que permita olhar o mercado


de uma forma 100% objetiva interpretando a informação sem nenhum
viés ou interferência, neutralizar as emoções e ainda aceitar o risco de
operar, especialmente em situações adversas.

Essa é justamente a essência da 3º fase. Percebemos que um


trader esta chegando nesta fase quando os questionamentos e dúvidas
são similares às descritas abaixo:

13
- quem e porque opera entre as minhas indicações de entrada e saída;

- Muitas vezes eu “sinto” que é para comprar/vender, mas não tenho


indicações objetivas do sistema que utilizo (mesmo que seja price
action);

- O que de fato esta causando as oscilações nos preços;

- Qual é a dinâmica de funcionamento deste mercado.

São raríssimos os traders que chegam a essa fase e percebem,


efetivamente, o que é o trading. Percebem que trading não tem nada
a haver com ser bom analista, não tem nada a haver com prever preço
e não tem nada a haver com análise técnica. Percebem que atitude e
estado mental são os principais fatores que determinam o sucesso,
uma vez que já aprenderam a enxergar e a ficar no fluxo do mercado.

Infelizmente a maioria chega nesse estágio depois de meses ou anos


e após acumularem muitas perdas financeiras. Raríssimos são os que
pulam etapas e já entram no mercado com este pensamento.

1.3 Por que é tão difícil ser Trader Autônomo?

São várias as dificuldades em se tornar um Trader Autônomo


Independente e nós vamos discorrer sobre elas, mas a primeira e mais
abrangente de todas é não ter alguém para se espelhar.

Em qualquer atividade na qual nos engajamos, nós buscamos um


molde. Como alguém aprende a jogar tênis? Provavelmente treinando
a assistindo jogadores experientes jogarem. Como um médico aprende
a operar um paciente? Provavelmente após várias cirurgias assistidas.
Acreditem, em todas as atividades nós de uma forma ou de outra
buscamos um molde. No trading não poderia ser diferente. Parem e
reflitam sobre o assunto.

Se você possuir todos os pré-requisitos e conseguir se tornar um trader


corporativo2 certamente terá convívio com traders experientes. Mesmo
que de forma inconsciente, esse convívio te molda para o trading, onde
aprenderá as crenças dos sêniores, interpretará o mercado como os
sêniores interpretam, pensará como eles pensam e agirá como eles
agem.

2
As classificações se encontram em artigo do site www.scalpertrader.com.br

14
É nessa fase também que aprenderá que perder e errar são
características inevitáveis do trading e como deverá se comportar
diante de tais circunstâncias.

A fora a questão mais abrangente da dificuldade em conviver com


traders experientes, listaremos pontos mais específicos que tornam a
atividade de trading muito desafiadora.

- Errar e perder dinheiro figuram entre as maiores fontes de


stress (e geradoras de medo) segundo pesquisa chamada “Fear
Factor” - Fator de Medo - realizada por acadêmicos da Universidade
de Cambridge e apresentada no livro Finanças Comportamentais de
Aquiles Mosca.

Entretanto, errar e perder dinheiro no trading são situações


vivenciadas quase que a todo instante (especialmente se for um day
trader). Se errar e perder dinheiro geram dor emocional ou stress,
nossa mente, mesmo que de forma inconsciente, fará o possível para
evitar tais sentimentos, alterando nossa percepção sobre a informação
vinda do mercado ou ainda bloqueando nossa capacidade de atuação.
Fomos criados assim, aprendemos que errar é feio e perder nos
diminui. Essas são crenças quase que universais. Se operarmos com a
perspectiva de evitarmos erro e perda, fatalmente cairemos em uma
dessas grandes armadilhas:

1º - Só entrar no mercado quando tivermos certeza.

Essa é uma armadilha muito perigosa, pois não importa o que você
olhe, e quão bom analista você seja, uma hora sua operação vai dar
errado e isso será explicado quando falarmos da natureza do mercado.
Entretanto, como você se cercou de sinais e argumentos que o
convenceram de que você esta certo na sua posição, dificilmente você
fará alguma coisa para se proteger, pois estar errado não faz parte das
possibilidades. Essa armadilha, geralmente é a causadora das grandes
perdas, pois, uma vez convencido da certeza de acertar uma operação,
o trader não consegue aceitar uma realidade contrária. Assim, acionar
o stop e sair da posição perdedora é quase que impossível, pois seria
aceitar que errou, aceitar que todos os argumentos que o convenceram
a entrar no mercado estavam errados.

2º Distância do sucesso

Se operarmos com foco em evitar perda e erro, cada vez que


acontecerem (e irão acontecer), nossa mente vai assimilar que
estamos cada vez mais longe do nosso objetivo. Concordam que se o
objetivo for estar certo e ganhar dinheiro, a cada erro e perda
estaremos mais distantes do objetivo?

15
Perceba que o foco desse trader não é nas oportunidades que o
mercado gera e sim em como evitar errar e perder dinheiro.

3º Tentar amenizar o efeito negativo do erro e perda aprendendo o


máximo sobre os mercados

Talvez essa seja a pior das armadilhas e foi parcialmente abordada na


segunda fase dos traders. Após a dor da perda é muito comum que
traders criem um ímpeto de buscar conhecimento justamente para não
sofrerem novamente.

Buscar conhecimento é bom e saudável, mas reparem que o motivador


da busca por conhecimento neste caso é evitar perdas e erros e não
aumentar o leque de oportunidades.

Com esse intuito nosso trader vai cada vez mais buscar ter certeza
sobre o movimento futuro antes de entrar no mercado. Quanto mais
certeza e convencimento sobre a direção do mercado, mas difícil de
reconhecer que errou. Quanto mais difícil reconhecer o erro, mais difícil
de agir e stopar para evitar grandes perdas. Percebe que não tem
saída? É de fato um ciclo vicioso onde medo do erro e da perda só
geram mais medo e desconfiança.

- Não temos nenhum controle sobre o mercado, apenas sobre


nós mesmos. Em muitas situações cotidianas, nossa capacidade de
influenciar pessoas ou processos muitas vezes nos garante sucesso.
Ou seja, na vida, opinião firme e poder de persuasão são fatores
determinantes. Por exemplo, se você quiser ouvir alguma música, você
pode ligar o rádio que ela tocará. Se não ligar o rádio a música não
toca. Outro exemplo, dependendo do seu cargo e nível hierárquico você
consegue controlar o rumo das atividades. Basta uma ordem para que
projetos sejam alterados, pessoas reordenadas ou mesmo
substituídas, alterações físicas em ambientes provocadas e etc. Em
atividades cotidianas, muitas vezes temos condições de influenciar o
ambiente ou ainda de alterar o rumo das coisas. Fomos criados e
adquirimos crenças de relacionar tudo, com causa e efeito.

Diferentemente de muitas coisas que acontecem em nossas vidas, no


mercado, nós não temos o menor controle do que irá acontecer
(considerando que você seja um Trader Autônomo e que não opere
volumes exorbitantes). Não importa quem você é, quanto estudou e
nem mesmo o quanto você queira que o mercado ande em certa
direção, não há nada que você possa fazer para isso acontecer. Nada
mesmo!

No trading quanto mais esforço você colocar em dominar a situação,


mais vai dar errado. Umas das maiores virtudes no trading talvez seja
a flexibilidade, a capacidade de moldar-se ao ambiente e dançar ao

16
ritmo da música que alguém escolheu e esse alguém não foi e nunca
será você. A única alternativa que temos é nos controlar, ou seja, já
que não podemos escolher a música devemos saber se vale a pena
dançá-la ou não.

- Aleatoriedade de resultados. No trading, independente do que


faça, não há garantias de sucesso em cada operação. Mesmo que você
tenha recursos financeiros, tempo e alguém para se espelhar, algumas
operações, aliás, várias serão perdedoras. Faz parte e ninguém, nem
os melhores conseguem evitar. A diferença é que os melhores traders
percebem objetivamente que estão errados e agem rapidamente
cortando a perda pela raiz enquanto ela é pequena. E mais, não sofrem
por isso.

A grande questão é como lidar com resultados incertos e ainda se


manter confiante? Fique tranquilo que trataremos sobre isso mais para
frente.

- Dificuldade em cumprir regras. Conforme citado na Introdução, a


atividade de trading, ainda mais de forma autônoma, é uma das
atividades que mais permitem liberdade de expressão. A liberdade é
quase que total, não há regras ou limites, além é claro do seu capital.
Você pode operar ou não, decidir o que operar, quando entrar, quando
sair, quando parar, etc. Em fim, você decide tudo. Assim, é muito fácil
cair nas tentações e se auto sabotar, uma vez que ninguém esta te
“cobrando”. Ter regras bem definidas e cumpri-las é um dos grandes
passos a serem dados. Saber quando descumprir suas regras é uma
virtude a ser adquirida com o tempo.

- Assumir responsabilidade total sobre os atos. A fora aprender a


re-significar os sentimentos causados pelos erros e perda de dinheiro,
assumir responsabilidade sobre os atos talvez seja uma das tarefas
mais difíceis. É muito raro ouvirmos das pessoas “eu errei”, o mais
natural é ouvirmos “deu errado porque tal coisa aconteceu...”. No
trading, ninguém é culpado por seus resultados a não ser você.

Lembre-se nada acontece até que você decida entrar, e após isso
ninguém te diz até quando permanecer na posição e nem quando sair
dela. Mesmo que você não seja um trader discricionário e utilize um
sistema mecânico3, a escolha deste sistema foi sua, portanto, você foi
responsável tanto pelo ganho quanto pela perda gerados pelo sistema.

Toda e qualquer decisão de entrada, manutenção e saída


resulta de ações tomadas pela nossa interpretação das
informações geradas pelo mercado.

3
Que indique compra e venda sem sua interferência.

17
Não assumir a responsabilidade é uma forma indireta de não assumir
o risco de estar errado e de perder dinheiro. Este tipo de
comportamento é típico de quem deseja ganhar passivamente, ou seja,
de quem espera que os outros ou mesmo o mercado faça o trabalho.

- Empenho. Assim como tudo na vida, empenho é condição básica.


Sem empenho ou dedicação é quase impossível ser bem sucedido em
qualquer área. Agora pense de uma maneira mais objetiva, é possível
um advogado também médico nas horas vagas?

O exemplo pode parecer inoportuno, mas não é. A grande questão aqui


é que apesar da facilidade de acesso aos instrumentos financeiros
(aplicações em ações, futuros, poupança, CDB, fundos etc...) ser
Trader é uma profissão. Não estamos dizendo que para aplicar na
poupança tem que ser trader, mas se você quiser fazer day trade, por
exemplo, o componente dedicação e empenho será fundamental.

- Recursos financeiros suficientes. Não é necessário muito dinheiro


para se tornar um trader autônomo, mas também deve se levar em
conta que durante a fase de formação, que dura aproximadamente seis
meses, você dificilmente conseguirá ganhar dinheiro para se sustentar.
De forma bem generalista você deve possuir recursos para dois
objetivos: 1º financiar sua conta de trading e 2º arcar com o custo de
vida durante, no mínimo, 6 meses.

O montante destinado para a segunda finalidade varia de pessoa para


pessoa. Já a 1º não deveria variar muito de pessoa para pessoa,
independentemente de quanto capital você tenha. Já que esta é a fase
de aprender, o foco é operar o mínimo possível e também “gastar” o
mínimo possível. Nesta conta devemos levar em consideração os
custos com bolsa (emolumentos, registro etc.), corretagem e eventuais
prejuízos.

É muito complicado de precisar qual o capital mínimo para se colocar


na conta trading. Se você tiver pouco dinheiro, a margem de folga fica
comprometida e você provavelmente irá zerar a conta antes de
desenvolver as habilidades necessárias. O montante necessário na
conta trading também varia muito em função do perfil, sendo que
traders mais ativos4 vão demandar mais capital que traders menos
ativos.

Aproveito este item para fazer uma observação interessante. Quando


você tem os pré-requisitos e decide ser um trader do mundo
corporativo, você garante pontos a favor: Você ganha salário para
aprender, você aprende com quem sabe fazer.

4
Que escolherem scalping, ou que escolherem trading como principal atividade.

18
Já quando você decide ser um Trader Autônomo, além da dificuldade
de conviver com traders consistentes, o tempo é contra você. Quanto
mais tempo demorar em aprender, maior o seu custo de oportunidade
de fazer outra coisa da vida.

Note que decidir ser trader é similar a decidir empreender. Os riscos e


custos são muito similares.

- Acompanhar o mercado com 100% de objetividade.


Objetividade significa não interpretar de forma distorcida as
informações geradas pelo mercado, nem por fatores pessoais e nem
por fatores técnicos. Neste exemplo, fatores pessoais podem ser:
precisar do dinheiro, não poder perder, ter errado as operações
anteriores, estar recuperando prejuízo ou ainda ser influenciado pela
posição atual.

Concorda que o mercado não tem o menor conhecimento sobre sua


situação financeira, sobre o resultado das operações anteriores e muito
menos sobre sua posição atual? Então por que essas questões
influenciam nossa capacidade de perceber e interpretar a informação
do mercado? Esse ponto será discutido mais adiante quando falarmos
especificamente do processo de percepção.

Já fatores técnicos podem ser definidos como ferramentas adequadas


que permitam ao trader perceber o que, de fato está acontecendo no
mercado, perceber o que os traders formadores de preço percebem e
sob a mesma perspectiva. Ser objetivo é a base do alinhamento
coletivo que tanto falamos. Para ser claro, o que queremos dizer é que
análise técnica não é a ferramenta adequada para acompanhar o
mercado, pois não garante a objetividade necessária.

Costumo citar esse exemplo nos cursos e palestras que ministro: O que
você vê no gráfico abaixo?

19
É muito provável que cada um de vocês tenha opiniões, observações
ou conclusões heterogêneas sobre a mesma informação. E por quê?
Única e exclusivamente por que você vê somente o que aprendeu a
ver. Nós filtramos a realidade através das nossas crenças e cada um
possui uma estrutura particular.

A grande questão aqui é como aprender a filtrar a realidade de forma


objetiva, como ela de fato é e consequentemente como os traders
consistentes também o fazem.

- Não entender a natureza do mercado. Esse é o ponto que


certamente gera mais polêmica entre os alunos de cursos e palestras
que ministramos.

A maioria dos que procuram bolsa de valores acredita haver uma


forma de descobrir como antecipar as oscilações do mercado. Alguns
podem dizer que não, mas a grande maioria sonha em criar um
indicador ou mesmo um robô e que seja praticamente perfeito, que
acerte tanto e que erre tão pouco a tal ponto que os erros sejam quase
que indolores financeiramente e emocionalmente.

Sejam sinceros, quantos já não estiveram nessa situação? É comum


encontrarmos afirmações nos livros, na internet ou em cursos, de que
o mercado se comporta em padrões e estes padrões se repetem ou
que o segredo é desenvolver um trading system (ou adotar algum) e
testá-lo para comprovar sua eficiência.

Quem já tentou sabe: Isso não funciona! E não funciona por um único
motivo:

Cada momento no mercado é único, ou seja, o que esta acontecendo


agora é diferente de tudo o que já aconteceu um dia. É difícil de

20
acreditar, mas é a mais pura verdade, no mercado tudo é novo, cada
oscilação, cada alteração de bid/ask, cada tick e cada operação que
fazemos.

A solução para este dilema não é aprender o máximo possível sobre


análise técnica, mas sim entender a dinâmica do mercado e aprender
a ser levado pelo fluxo. São pontos de vista totalmente diferentes, pois,
o primeiro parte da premissa de ter que adivinhar o futuro para operar
e o segundo parte da premissa de que não é necessário saber para
onde vai para operar, bastando apenas seguir para onde está indo.

Poderia listar outros motivos que explicam a dificuldade em se tornar


um Trader Autônomo consistente, porém, acredito que estas sejam as
mais profundas e diretamente ligadas à forma de pensar da maioria
das pessoas.

Perceba que falta de recursos financeiros e falta de conhecimento sobre


a natureza dos mercados são os únicos empecilhos que não são
diretamente relacionados à nossa forma de pensar. Todos os demais
são reflexo da forma como percebemos o mundo que por sua vez é
reflexo da nossa criação ou de nossos relacionamentos.

Se tiver uma forma de resumir tudo que disse até o momento seria: A
maior parte de nós aprende a pensar (construiu crenças) de uma forma
totalmente diferente da forma de pensar que é exigida pelas
particularidades do comportamento do mercado.

Se você quiser se tornar um Trader Consistente o melhor caminho é


ter ciência disso, reconhecer e canalizar os esforços para mudar sua
forma de pensar (crenças).

Nos próximos capítulos falaremos sobre os seguintes assuntos com o


intuito de fazer você pensar como um trader consistente:

- Aprender sobre percepção e crenças para acompanhar o mercado de


forma 100% objetiva permitindo estar sempre no fluxo;

- Aprender a aceitar o risco de operar fazendo com que errar e perder


dinheiro não seja fonte geradora de dor e stress;

- Aprender sobre as possíveis formas de atuação (perspectivas


individual e coletiva) e acreditar que a atuação discricionária5 é mais
adequada à realidade do mercado.

5
Ter discrição não impede utilização de estratégias automatizadas. Discrição inclui
saber que tipo de automação usar em cada situação de mercado.

21
2 – NATUREZA DOS MERCADOS

Uma das primeiras frases que eu ouvi de trader renomado, enquanto


estava no processo de aprendizado era: “Você começará a ganhar
quando perceber o que o mercado realmente é, e não o que você
gostaria que ele fosse”.

22
Confesso que nas primeiras vezes julguei tal conselho como abstrato e
vago assim como os axiomas citados lá no início da apostila.
Entretanto, depois de percorrido um longo caminho e olhando a
situação de fora, não duvido que este seja um dos grandes conselhos
a serem dados.

Enquanto estava no início do processo de aprendizado eu realmente


acreditava que os gráficos refletiam de maneira objetiva as
informações de mercado e que o conhecimento sobre padrões, setups
e técnicas operacionais eram determinantes para ganhos consistentes.
Era comum gastar horas, olhando gráficos a fim de reconhecer padrões
(candlesticks, formações gráficas como W, M, OCO etc..), buscando
combinações de indicadores técnicos que melhor explicavam uma
grande oscilação de preço passada ou ainda otimizando setups a fim
de que o backtesting gerasse o melhor resultado possível dentro de um
período pré-estabelecido.

Eu achava que conhecendo sobre estes assuntos eu ganharia confiança


e com confiança poderia operar e gerar ganhos frequentes. De fato,
convivi neste círculo vicioso (atualmente eu classifico desta maneira)
durante toda a fase em que fui Analista Técnico da Interfloat Corretora
de Valores. Naquela época possuía um nível de acerto nas análises
extremamente elevado e não duvidava de que este caminho estava
correto.

A primeira grande decepção veio quando decidi parar de fazer análises


e efetivamente operar. No primeiro dia de operações percebi a
dificuldade. Percebi que não conseguia aplicar os conceitos que até o
dia anterior eram incontestáveis. Eu reconhecia os padrões, mas
hesitava em entrar, ou quando entrava, não cumpria 100% do que
havia planejado.

Como já havia lido alguns livros sobre psicologia do trade eu reconheci


que estava sendo influenciado por fatores psicológicos específicos, os
quais já foram citados no início deste material. Era justamente o que
estava escrito nos livros: a diferença entre analisar e operar é
justamente o gap psicológico e isso ocorre porque quando você faz
análise não há nada em jogo e, portanto, errar e perder dinheiro não
geram dor/stress. Uma vez que entra dinheiro em jogo, o trader tende
a ser influenciado por fatores emocionais que ora distorcem a
informação gerada pelo mercado, ora atuam bloqueando a capacidade
de atuação (entrar, sair e stopar). No português claro a melhor
definição para este gap é “a diferença entre o que você percebe que é
possível analisando as oscilações de preço e a capacidade de
transformar essa percepção em ganho consistente”. Iremos aprofundar
mais as diferenças entre analisar e operar quando falarmos de
perspectivas.

23
Existem duas soluções para esse gap psicológico:

1º Entendê-lo e tratá-lo;

2º Automatizar os critérios operacionais (setups, trading systems etc..)


baseados em análise técnica.

Escolheremos a primeira opção como solução definitiva e a partir do


próximo capítulo aprofundaremos nos aspectos que viabilizarão
alteração da sua forma de pensar.

Expliquei tudo isso justamente com um propósito, que é provar que a


segunda opção não é solução para atingir ganhos consistentes como
trader. Se eu dissesse que tentei a automatizar os critérios
operacionais baseados em análise técnica e que não obtive sucesso,
ainda assim haveria a possibilidade de alguém julgar que apesar de
minha falha, é uma saída possível. E eu concordo plenamente com tal
julgamento, pois, o fato de eu não ter conseguido algo não significa
que outra pessoa não o faça.

Preferi a estratégia de explicar a natureza do mercado, explicar o nível


mais profundo da composição e interação dos players que fazem o
preço oscilar. Acredito que dessa forma consiga transmitir de uma
forma neutra (sem opinião pessoal) o porquê a desta escolha.

2.1– PRINCÍPIO DA INCERTEZA

A frase que melhor reflete nossa interação com o mercado é: “tudo


pode acontecer a qualquer momento”. Não há nada que ninguém possa
fazer para alterar isso. Por mais que você se mate de estudar, ou
desenvolva um método quase perfeito, com perdas mínimas, ainda
assim não há garantias de antecipar todas as possíveis formas que o
mercado se comportará. Pode parecer mais um dos axiomas vagos,
mas não é e aqui é justamente onde começam as frustrações.

Para provar que tudo pode acontecer a qualquer momento iremos


dissecar o mercado em suas partes e como em qualquer mercado, as
partes são compostas por traders6.

Traders, individualmente agem como uma força sobre os preços,


fazendo-os subir quando aceitam colocar ordens de compra cada vez

6
Mesmo com a presença massiva de inúmeros robôs, são humanos que desenvolvem
robôs e, portanto, no nível mais profundo podemos dizer que traders são o nível mais
profundo dos mercados.

24
mais altas ou cair quando aceitam colocar ordens de venda cada vez
mais baixas.

E por que traders aceitam pagar cada vez mais caro ou aceitam vender
cada vez mais barato que o momento anterior?

Na verdade não temos de saber exatamente todas as razões que


motivamos traders agirem, porque em última instância, todas elas se
resumem a um único propósito, que é ganhar dinheiro.

Há apenas duas maneiras de ganhar dinheiro que são comprar para


revender mais caro ou vender para recomprar mais barato. Se for
verdadeiro que todos querem ganhar dinheiro, então só há uma razão
para que qualquer trader aceite pagar mais caro que o preço vigente:
porque acredita que pode vender tudo o que ele está comprando a um
preço maior ainda, instantes após ou em algum momento no futuro. O
mesmo ocorre com o trader que está disposto a vender algo a um preço
menor que o vigente: porque acredita que ele poderá recomprar o que
ele está vendendo em um preço mais baixo, posteriormente.

Repare que todo movimento de preço ocorre em função do que os


traders acreditam, naquele exato momento, sobre o futuro e sobre o
que é caro ou barato.

Aqui vale uma explicação adicional. Mesmo que um trader esteja


vendendo só para zerar uma posição de compra, o que significa sair do
mercado, ele só vende em determinado preço por acreditar que não
deverá subir mais, naquele momento. Portanto, mesmo não estando
mais exposto ele tomou uma decisão baseada na sua expectativa sobre
o futuro, corroborando com a descrição acima. O mesmo exemplo
serve para o trader recomprando para zerar uma venda.

Voltando ao nosso raciocínio, há apenas três forças primárias que


movem qualquer mercado: os traders que acreditam, por qualquer
motivo, que o preço atual é barato e por isso compram, os traders que
acreditam, também por qualquer motivo, que o preço atual esta
elevado e por isso vendem e os traders que, no momento estão
esperando para atuar ou na compra ou na venda, caracterizando-se
como força potencial.

A movimentação dos preços ou a falta de movimentação é uma função


do equilíbrio relativo ou desequilíbrio entre duas forças principais:
traders que compram por acreditarem que o preço vai subir, e os
traders que vendem por acreditarem que o preço vai cair. Se há
equilíbrio entre os dois grupos, os preços vão estagnar, porque cada
lado irá absorver a força do outro lado. Se existe um desequilíbrio, os
preços irão mover-se na direção do lado com maior disposição em
dispender lotes.

25
Agora, faça essa pergunta para você mesmo: Qual o limite para a
oscilação dos preços? Quanto é de fato o extremo do barato e quanto
é o extremo do caro? Repare que se descermos ao menor nível da
composição do mercado, o limite dos preços é o máximo ou o mínimo
que cada trader, individualmente, esta disposto a comprar ou vender?

O fato é que não há nada para frear a alta ou a queda de preço se pelo
menos um trader com lote suficiente para mover o mercado, acreditar
que os preços ainda estão baratos ou caros, respectivamente.

Como há inúmeros traders atuantes no mercado, operando por razões


diversas, com horizontes diversos e com acesso diferenciado à
informação é fácil perceber que a todo instante estão presentes
opiniões diferentes sobre o que é barato e caro e sob esta perspectiva,
tudo é possível de acontecer. Só precisa um trader no mundo todo
querer expressar sua opinião sobre o que é barato ou caro.

Você pode dizer, ok, parece óbvio, mas qual a implicação disso nas
minhas operações? Aqui esta a resposta: Nós também tomamos uma
posição de compra ou de venda (independentemente do que nos
motivou entrar) acreditando, que naquele momento, os preços estejam
baratos ou caros respectivamente e uma vez dentro do mercado o
resultado de nossa operação depende única e exclusivamente da
atuação dos demais traders. Significa que o resultado da nossa
operação depende da atuação, individual, de cada trader, cuja atuação
é virtualmente ilimitada.

Não há nada que você possa fazer para estar certo 100% do
tempo, pois basta um trader, com lote relevante, atuar para
negar o potencial de ganho do seu trade.

Certa vez ouvi de um trader, que eu julgo um dos melhores traders


autônomos de dólar futuro do Brasil, uma frase que eu lembro e uso
até hoje: “Somos passageiros no mercado”. Essa frase carrega um
enorme componente de verdade, pois quer dizer exatamente o que
estávamos falando.

Uma vez posicionados, estamos na mão da decisão de outras pessoas,


estamos na mão de um clique, de uma ordem. Basta uma ordem de
uma só pessoa, para seu trade dar certo ou errado e não temos
controle sobre essa ordem. Esse é o princípio da incerteza e essa é
uma das duras e frias realidades do mercado. Não há nada que você
possa fazer para evitar, 100% das vezes estar errado ou perder, pois
sempre estaremos na mão da decisão de alguém.

Se você ainda não estiver convencido pense sobre isso: A atuação de


cada trader não deixa de ser uma variável de mercado, pois tem o
poder de influenciar o preço. Agora, é possível saber quantos traders

26
estão olhando para tela ao mesmo tempo em que você olha? É possível
saber quantos estão prestes a entrar no mercado? Saber quantos lotes
eles estão dispostos a comprar ou vender? Saber quanto lotes já estão
refletidos no preço atual? Saber o momento que eles mudarão as suas
mentes e sairão de suas posições? Se o fizerem, por quanto tempo eles
vão ficar fora do mercado? Saber quando e em que direção eles
voltarão ao mercado?

É uma dúvida interminável, mas que tem que ser considerada. Pois
assim será possível acreditar em incerteza.

Quem efetivamente acredita em incerteza não hesita nem um pouco


em agir para cortar o prejuízo quando a operação se mostra perdedora.
Quem acredita em incerteza aceita estar errado e não “casa com a
posição”, pois reconhece que o resultado da operação é função de
variáveis desconhecidas. Quem acredita em incerteza tem flexibilidade
e consegue mudar facilmente de opinião, características essenciais
para estar no fluxo do mercado.

Para finalizar este princípio farei uma última comparação entre as duas
formas de pensar: Quem desconhece ou duvida deste princípio acaba
operando com a perspectiva de ter que saber o que vai acontecer no
futuro, enquanto quem acredita em incerteza opera com a perspectiva
de não criar expectativa sobre o futuro.

Quando você precisa saber o que vai acontecer você busca uma relação
de causa e efeito baseada no histórico de preços. Nada mais é do que
definir uma série de variáveis que indiquem maior probabilidade de
subir ou de cair. Muitos chamam isso de setup. Já que temos uma
necessidade de achar o melhor setup cairemos na interminável
tentativa de equacionar o passado, buscando a melhor forma de
explicar o que aconteceu. Mesmo que encontremos um setup ótimo,
ou seja, que tenha gerado um excelente resultado nos testes para
aquele período, concordam que ao aplicarmos este setup no futuro
incorreremos do mesmo problema? Estaremos sempre na mão de um
clique, de uma ordem? Nunca conseguiremos encontrar o ótimo, o
perfeito, pois o futuro não está escrito!

Já quem opera aceitando o princípio da incerteza não tenta equacionar


o passado e nem adivinhar o que vai ocorrer. É uma perspectiva que
permite atuar de forma livre e adaptada è realidade do mercado.
Permite aceitar errar e permite agir sem hesitar. Entender esse
princípio é um grande passo apara sua evolução como trader, mas
assim como sempre repetimos, ter ciência é muito, mas muito
diferente de acreditar. Ter ciência é superficial enquanto acreditar
envolve o nível mais profundo de nossas mentes. Para acreditar temos
que incorporar essa crença em nossa estrutura de pensamento.
Faremos isso mais adiante quando falarmos sobre crenças.

27
2.2 – PRINCÍPIO DA SINGULARIDADE DO MOMENTO

Tenho certeza de que a maioria não gostou do que leu até o momento.
Falo isso porque é exatamente o contrário do que a maioria dos sites,
livros, corretoras, chats fomentam.

E por que é difícil de acreditar? Justamente por que é diferente de tudo


que aprendemos na vida. Tudo tem uma relação de causa e efeito, tudo
tem uma explicação, quase tudo tem um padrão, mas Infelizmente isso
não é verdade no mercado.

A segunda grande verdade sobre o comportamento do mercado é que


cada momento é único, singular. Isso mesmo... O que acontece agora
nunca aconteceu antes e nunca acontecerá no futuro. E esse é um dos
grandes problemas da tentativa de encontrar padrões de
comportamento ou julgar que o seu setup vai gerar os mesmos
resultados no futuro, que apresentou no backtesting.

Vamos às explicações:

O mercado não mais é do que o produto de frequente e constante


avaliação e intervenção nos preços por diversos players. Certamente a
avaliação e atuação dos players são divergentes em grande parte do
tempo o que justamente faz os preços oscilarem. Em um dado instante
do tempo há players já comprados e/ou aumentando a posição, players
já vendidos e/ou aumentando a posição e os potenciais players que
estão esperando algo para entrarem no mercado.

Agora gostaria que você saísse um pouco da sua perspectiva de pessoa


física e se imaginasse como um trader corporativo de médio/grande
porte. O que faria você, que esta atuando na compra, por exemplo,
mudar sua atuação? (nesse exemplo mudar envolve intensificar a
compra, parar de comprar, zerar a compra ou ainda inverter para
vendido). Você pode dizer: muitas coisas me fariam mudar a atuação.
De fato, há inúmeras variáveis a serem levadas em conta para operar,
ainda mais quando você é um trader corporativo (price maker – que
tem o potencial de influenciar o mercado devido ao tamanho dos lotes)
e que carrega posições relevantes. Abaixo listei algumas variáveis
frequentemente levadas em conta e que contribuem para qualquer
decisão, seja ela de compra, venda, zeração ou mesmo ficar sem
posição.

- Avaliação pessoal do cenário/ativo (fundamentos);

28
- Publicação de notícias/informações capazes de influenciar a avaliação
do cenário/ativo;

- Intervenção de governo, órgãos ou empresas;

- Informação privilegiada;

- Obrigação/necessidade;

- Atuação dos demais players.

A ideia não é discorrer os itens um a um, mas sim deixar claro que
todas essas variáveis, constantemente influenciam a tomada de
decisão do trader corporativo.

Voltando ao meu questionamento sobre o que te faria mudar de opinião


caso fosse um trader corporativo, pense qual das variáveis acima é a
mais dinâmica, ou seja, pode mudar com mais frequência? Bom, se
você respondeu “atuação dos demais players” você acertou. Não quero
dizer que ela é a mais ou menos importante, só estou afirmando que
a nossa contraparte e os demais players também podem mudar de
opinião a qualquer instante em função de todas as demais variáveis.

Isso nos leva à uma conclusão: De que a atuação de um trader (por


qualquer que seja o motivo) pode, por si só, motivar a atuação de outro
trader. Um bom exemplo disso é um trader que esta carregando uma
posição de compra a um preço médio desfavorável e já muito próximo
de stopar, pois atingiu o limite pré-estabelecido de perda da instituição.
Se o preço atingir em certo patamar ele stop toda a posição, entretanto
se não o atingir ele não stopa. Caso o mercado atinja o nível de stop,
o trader irá atuar vendendo uma grande quantidade de contratos de
maneira rápida, muito provavelmente alimentando o processo de
queda. Caso não atinja tal stop, o trader não stopará. Agora imagine
que nesse mesmo contexto acima, outro trader que esta fora do
mercado esteja esperando uma queda dos preços para comprar. Se o
1º trader do exemplo entrar stopando, muito provavelmente os preços
irão ceder e podem atingir o patamar que interessa ao trader que
estava fora e querendo comprar. Entretanto, se o primeiro trader não
acionar o stop, provavelmente é porque o mercado parou de vender, e
pelo menos naquele momento não deve cair até o nível de preço que
o segundo trader teria interesse em comprar.

Percebeu que basta um evento para ocorrer outro? Basta uma decisão
de um trader com um lote relevante para gerar outras decisões
relevantes de outros traders e alimentar os negócios.

Outro bom exemplo seria um player com necessidade de comprar 3000


lotes de dólar. Não foi uma escolha dele, ele simplesmente tem que
comprar 3000 lotes a fim de travar uma outra operação ou qualquer

29
coisa do tipo. Quem já acompanhou o book de ofertas dólar deve ter
reparado que a média de lotes em cada nível de preço é entre 50 e 200
lotes (no cenário atual). Assim faço outra pergunta: ele consegue
comprar 3000 lotes de dólar se em cada nível de preço tem essa média
de 50/ 200 lotes? Provavelmente sua resposta será: conseguirá
comprar se aceitar pagar, os preços cada vez mais altos, que os
vendedores estão dispostos a ofertar.

Agora volte e reflita sobre o conceito aprendido no exemplo anterior.


Se é verdade que cada trader considera a atuação dos demais traders
para tomar decisão, ao perceber que existe alguém comprando 3000
lotes no mercado (obviamente ninguém sabe ao certo a quantidade de
lotes, mas estima pela agressividade) outros traders podem aproveitar
a oportunidade para vender rapidamente já que tem demanda no
mercado, aproveitar para comprar junto com ele, esperar a compra
toda terminar para aí sim tomar uma decisão (provavelmente vender)
ou ainda cancelar ordens de venda ou alterá-las para cima já que
perceberam que há demanda no mercado.

A melhor definição para isso seria “efeito cascata” ou mesmo


“choques”, pois cada atuação gera uma nova rodada de avaliações por
todos os players que potencialmente podem atuar alimentando o
círculo. Quando disse no item 2.1 que a história não estava escrita
estava querendo dizer exatamente isso. Tudo é novo, agora e
sempre.

Outra forma de entender o conceito de singularidade é explorar um


exemplo sob a perspectiva do trader pessoa física. Digamos que o sinal
preferido para operar de um determinado trader seja rompimento de
suportes/resistências, mas poderia ser IFR, MACD, Bollinger,
Formações como W, M, OCO ou qualquer outro sinal. No exemplo
abaixo seguem duas situações no mesmo ativo, mas em dias distintos.
Perceba que em ambos os casos houve a perda do suporte e a queda
posterior foi similar em amplitude.

30
Repare que o ativo é o mesmo, o setup é o mesmo e se olhar no gráfico
a queda é geometricamente e matematicamente a mesma.

Em fim, podemos considerar que isso é um padrão, ou ainda que os


movimentos sejam iguais?

Por mais pareçam idênticos graficamente, na realidade não são. O


entendimento desse conceito é essencial para você entender a
realidade do mercado. Se de fato fossem idênticos concorda que cada
trader que participou do evento um teria que estar presente no evento
dois? Todos com as mesmas posições prévias, com os mesmos
tamanhos, com as mesmas ordens presentes na tela e atuando da
mesma forma e intensidade a cada evento novo. Concorda que beira o
impossível?

Independentemente de o resultado dessa operação em específico ter


sido o mesmo, a forma de atuação entre os traders certamente foi
diferente nas duas situações. Dificilmente quem stopou a compra no
evento um é o mesmo trader que stopou no evento dois e mesmo que
fosse, dificilmente os vendedores eram os mesmos ou estavam
vendendo pelo mesmo motivo e ainda dificilmente as contrapartes
eram as mesmas.

É extremamente importante que você compreenda este fenômeno,


pois gera implicações psicológicas de extrema relevância. Nossas
mentes funcionam associando coisas e criando constantes relações de
causa e efeito. Tudo é assim: Quando o céu nubla, você logo associa
que vai chover. Quando uma criança cai, você logo associa que irá

31
chorar e por ai vai. É assim porque aprendemos assim. Essas são
nossas crenças básicas.

O grande problema do mercado é que não dá para fazer associações


porque sempre tudo é diferente. Se você olhar para o mercado com
perspectiva de associação, ou seja, com cabeça de que encontrou um
padrão de comportamento, você provavelmente irá ter dificuldades
emocionais para operar. Pois quando você associa, automaticamente
você cria expectativa sobre o futuro (no exemplo, expectativa de queda
se perder suporte). Quando você cria expectativa e a operação da
certo, reforça a sua associação, mas quando a operação dá errado gera
frustração. É muito raro não ficar frustrado quando se espera algo que
não ocorre, ou muitas vezes quando ocorre justamente o contrário do
que você esperava. Lembre que estou falando de dinheiro. Errar uma
aposta sem valor é uma coisa, errar uma previsão valendo dinheiro é
outra.

A solução para esse dilema será dada mais adiante, mas a ideia aqui é
fazer você entender e acreditar que o mercado é imprevisível e novo,
sempre! Se você realmente acreditar nisso, você aceitará que errar e
perder dinheiro são impossíveis de serem evitados e aceitará o risco
de operar.

2.3 DINÂMICA DE MERCADO

Neste último item sobre natureza do mercado falarei sobre o conceito


de dinâmica de mercado. Confesso que nunca li nada sobre esse
assunto em lugar nenhum e que só ouvi este termo do mesmo trader
autônomo que dizia que éramos “passageiros” referindo-se à
imprevisibilidade.

Dinâmica de mercado nada mais é do que a forma com a qual os


agentes operam cada mercado em determinado período de tempo.
Entender a dinâmica é um dos passos para acompanhar o mercado
alinhado pelas crenças coletivas.

Diferentemente dos conceitos que tratamos até agora, dinâmica de


mercado é mais voltada à habilidade técnica do que habilidade
comportamental e emocional.

Para facilitar o entendimento de dinâmica do mercado listarei em


tópicos, todos os conceitos que devem ser levados em conta:

- Quem opera, por que opera e como opera determinado ativo?

32
- O que, de fato, move e o que tem potencial de mover os preços?

- Qual a relação de causa e efeito atual (cenário econômico)?

- Se é mercado de fluxo ou volatilidade (quantidade de lotes na tela);

- Participação de day trade no volume total do dia;

- Nível de aposta dos players (se estão apostados na compra/venda e


quanto);

- Grau de operabilidade (quantas oportunidades o mercado faz


disponível);

- Quantidade de players “parceiros” (grau de divergência de opinião);

- Grau de elasticidade (o quanto retorna a cada inflexão de preço).

Estes conceitos ajudam definir como o trader autônomo pode e deve


interagir com o mercado. É fundamental responder estas questões
antes e decidir operar para valer. Claro que algumas delas, só serão
compreendidas na prática, ou seja, enquanto você opera como, por
exemplo:

- Como os players estão operando (se de maneira mais ou menos


agressiva, em quais circunstâncias as ordens são enviadas, que tipo de
ordem está sendo enviada e etc.), ou:

- Quantidade de players parceiros (justamente quem gera o fluxo onde


nos escoramos), ou ainda:

- Grau de elasticidade (forma e intensidade como um ativo rejeita um


preço novo).

Outro ponto crucial que devemos considerar e que corrobora com a


premissa de singularidade do momento é que todos os itens que
compõem a dinâmica de mercado estão em constante processo de
transformação.

Entender a dinâmica é fundamental para que essa interação seja sob


a ótica da perspectiva coletiva, sobre a qual falaremos mais adiante.

3 PERCEPÇÃO E PROCESSO DE PENSAMENTO

33
Na sessão anterior falamos sobre o real comportamento do mercado
(natureza) e a partir de agora iremos falar sobre percepção a fim,
exclusivamente de fazer com que você consiga olhar o mercado de
forma 100% objetiva. Olhar o mercado de forma objetiva significa
perceber a informação gerada pelo mercado da forma como ela
realmente é e não usando filtros, indicadores técnicos ou qualquer
outra coisa que tenha o potencial de distorcê-la. Esse conceito é
extremamente importante, pois, é um dos pré-requisitos essenciais
para entender a perspectiva coletiva e sempre fluir com o mercado.

3.1 COMO FUNCIONA NOSSA MENTE – PROCESSO DE


PERCEPÇÃO

Neste capítulo serão abordados aparentemente abstratos ou fora de


contexto da apostila, como processo de percepção humana, versão e
verdade e crenças, mas que são cruciais para que você evolua como
trader. Lembre-se, o maior desafio é ter total controle sobre seus atos
e emoções, assim sendo, conhecer um pouco sobre a mente humana
é um dos importantes dos passos para adquirir este controle.

Como o foco desta apostila, não é torná-lo psicólogo ou expert no


assunto, o tema será abordado superficialmente e talvez a melhor
forma de explicar percepção seja exemplificando.

Anote em um pedaço de papel o que esta desenhado na figura abaixo:

O que você vê? Provavelmente muitas coisas. Pode ver o que considera
ser um chapéu de perfil, uma peça de quebra-cabeça ou mesmo uma
flecha apontando para baixo.

Entretanto, é importante que escreva em algum lugar o que vê.

34
Após ter escrito no papel repare e tente ver a palavra “fly"? Se você
viu rapidamente a palavra fly, muito provavelmente sua estrutura de
percepção esta adequada a esta realidade. Agora, se você não vê isso,
por que será? Agora já vê? Se você demorou para perceber ou ainda
não viu a palavra, provavelmente é porque sua estrutura de percepção
atual te faz ler palavras escritas com tinta preta em papel branco.
Repare que a palavra fly esta escrita em branco com bordas laterais
pretas.

Se você, de fato, nunca tinha visto este teste você terá que aprender
a perceber ou mesmo reestruturar sua perspectiva para perceber o que
esta sendo mostrado7.

Outro bom exemplo de percepção seria avaliar como duas pessoas


distintas, com histórias diferentes interpretam e reagem a um mesmo
evento. Imagine que estas duas pessoas estão caminhando juntas pela
calçada e ouvem um carro frear bruscamente, a pergunta é: qual será
a interpretação e reação delas? Na verdade, depende de vários
motivos, os quais não conseguiríamos explicar em detalhes, mas
vamos analisar os extremos.

Imagine que uma das pessoas tenha uma vasta experiência de vida e
inclusive já tenha sido atropelada em um evento similar. Como é de se
esperar que esta pessoa interprete e reaja ao barulho da freada?
Provavelmente esta pessoa imediatamente fará associação ao seu
incidente passado e entrará num estado mental com características de
medo, preocupação e outros similares.

Agora imagine que a outra pessoa seja um adolescente de 12 anos de


idade e que nunca tenha tido nenhuma experiência negativa similar
entre as pessoas do seu convívio. Como ele interpretará e reagirá ao
barulho. Não podemos afirmar, mas é possível que este garoto entre
num estado de êxtase ao ouvir o barulho do carro derrapando. Para
ele, a informação pode ser legal, divertida ou mesmo desafiadora, pois
terá assunto para contar a todos seus colegas. Repito mais uma vez
que isso é apenas um exemplo e não uma afirmação, mas certamente
é uma possibilidade concreta. Duas pessoas distintas podem e devem
interpretar e reagir aos eventos externos de forma totalmente distinta,
pois possuem crenças distintas (Falaremos mais sobre crenças nas
próximas páginas).

Os exemplos podem parecer simplistas, mas carregam um grande


fundo conceitual, pois quer dizer que “nós vemos ou percebemos
somente o que aprendemos a perceber”. Você pode até duvidar ou ser
resistente em aceitar, mas muitas vezes nós não vemos o mundo como

7
Este trecho foi extraído do livro “Poder sem Limites” de Anthony Robbins.

35
ele é nós vemos o mundo a partir da nossa interpretação individual, ou
melhor, do que julgamos ser verdade.

Agora gostaria que parasse um pouco para refletir: O que é verdade?


Será que sempre vemos a verdade? E pior, será que existe verdade?

3.2 VERSÃO E VERDADE

Em certa ocasião fiz um curso chamado Olho de Tigre da empresa


Gauss Consulting. Este curso objetivava transformação pessoal,
justamente o que eu buscava quando decidi me tornar trader
autônomo.

Apesar de ter traçado toda minha carreira na área de mercado


financeiro e de ter atuado como trader corporativo, as dificuldades de
se tornar trader autônomo eram grandes e vi neste curso uma
possibilidade de crescimento intelectual. Bom, o que quero passar para
você é uma definição de versão e verdade, escrita pelo instrutor do
curso, chamado Orlando Pavani.

“Verdade é a mais pura manifestação dos fenômenos quanto à sua


previsibilidade. Aquilo que é previsível e acaba acontecendo na
realidade, transforma-se em conhecimento científico que conclui que
aquela previsibilidade era verdadeira, portanto, transformando a
previsibilidade em lei, diante da qual, não adianta discutirmos, pois ela
esta acima de nossa vontade ou interpretação, nos cabendo apenas
constatar, assumir e utilizar a lei para alguma aplicação inteligente. Já
versão é a primeira verdade por nós assumida, sem qualquer
questionamento catalisador uma vez que não cabe discuti-la, ou
porque nos falta oportunidade experimental para testá-la na prática ou
porque confiamos sobremaneira na fonte de onde é oriunda aquela
versão ou ainda por absoluto acomodamento intelectual.”

É muito pertinente diferenciar versão de verdade em se tratando de


mercado financeiro, pois, muitos de nós assumimos versões pessoais
como verdades absolutas.

Toda e qualquer análise de mercado é uma versão pessoal,


independentemente da experiência da pessoa que formule tal análise.
Toda e qualquer estratégia operacional é uma versão pessoal. No
mercado, verdade é o que esta na tela no presente. A melhor oferta de
compra e a melhor oferta de venda são o maior reflexo da verdade.

Você pode analisar, fazer contas, torcer, chorar, mas a verdade esta
na tela. Dessa forma, quanto mais próxima da verdade for sua versão

36
pessoal sobre as informações do mercado, maior será sua chance de
estar em linha com o mercado.

3.3 CRENÇAS

“O homem é o que ele acredita” Anton Tchecóv

Num primeiro contato, ao falarmos de crenças podem vir à cabeça


assuntos como credos, doutrinas ou quaisquer aspectos religiosos. Na
verdade tratarei crença no sentido mais básico da palavra, sendo um
princípio orientador, máximas, fé ou paixão que podem proporcionar
significado e direção em tudo que pensamos e fazemos na vida.

Crenças são filtros pré-arranjados e organizados para nossas


percepções do mundo. São como comandos para o nosso cérebro
interpretar a informação recebida.

As crenças atuam de forma a moldarem nossa forma de interpretação


de todos os eventos do mundo, sendo que quando alguém acredita
efetivamente em algo, para esta pessoa, isto se torna verdade,
independentemente de ser apenas uma versão.

Outra maneira de abordar o assunto é através da distinção entre


memória e crença. Memórias são informações gravadas em nosso
cérebro enquanto crenças são memórias energizadas devido às nossas
experiências passadas (positiva ou negativamente) através de
linguagem (palavras ou frases).

Vamos pegar um exemplo: Uma pessoa que tenha tido diversos


problemas conjugais durante toda a vida, com mais de um matrimônio
desfeito pode dar um significado especial para a palavra “casamento”
ou ainda para a palavra “fidelidade”. Se esta pessoa, de fato, tiver sido
traída mais de uma vez, sua experiência de vida vai energizar
negativamente as palavras “casamento” e “fidelidade”. Essa pessoa,
muito provavelmente vai desenvolver uma crença de que casamento é
ruim e que não existe fidelidade. É muito provável que esta pessoa
tenha problemas em estabelecer novos relacionamentos futuros com
este tipo de crença, pois, qualquer sinal de desconfiança sobre
infidelidade irá reforçar sua crença com energia negativa.

Apesar de muitos casamentos não darem certo e de existir infidelidade,


não é verdade que todos os casamentos são ruins ou que não exista

37
fidelidade. Uma crença é uma verdade para quem a possui, mas não
necessariamente é uma verdade absoluta, científica ou justificável.

3.3.1 DE ONDE VÊM AS CRENÇAS

Certa vez li um artigo chamado “O mal de nossos pais” de Orlando


Pavani que retratava exatamente a fonte primária de nossas crenças.
O texto começava assim: “Quando nascemos iniciamos um processo
de absorção de informações sem precedentes e que acaba formatando
nossa percepção das coisas e consequentemente nosso
comportamento, sem estimular um processo crítico que venha a
catalisar e consolidar as informações absorvidas. Os primeiros
emissores dessas informações foram nossos pais, depois, amigos e em
seguida professores, dentre várias outras fontes de absorção em
nossas vidas”.

O que está escrito no texto acima é que aprendemos a pensar como os


outros pensam e a se comportar como os outros se comportam. Assim,
a experiência de vida de cada um irá energizar os conceitos ou as
palavras e frases, definindo nossas crenças. De forma resumida, a
crença é criada pela nossa interação com o ambiente (convívio) e
energizada positiva ou negativamente pela nossa experiência de vida
individual.

É importante dizer que há diversos níveis de energia sobre uma crença,


ou seja, há uma hierarquia. Há crenças mais energizadas, mais sólidas
e crenças menos energizadas. O principal determinante do grau de
intensidade de determinada crença é a quantidade de vezes ou ainda
a quantidade de energia armazenada sobre ela. Quanto mais vezes
vivenciarmos determinada situação, mais expressiva será a energia
depositada sobre uma eventual crença. Ou ainda quanto mais intensa
for a situação vivenciada, maior o potencial de validação de tais
crenças.

Por exemplo: você já deve ter ouvido de alguém que fazer day trade é
perigoso. Esta pessoa pode nunca ter feito um day trade, mas ter
aprendido com alguém que day trade é arriscado. Imagine que esta
mesma pessoa, por qualquer motivo, decida fazer day trade, mas
continue acreditando que é arriscado. Se ela errar a primeira operação,
o que é de se esperar? É muito provável que ela valide sua crença de
que operar é de fato arriscado. A cada operação perdedora haverá um
depósito de energia sobre a palavra “operar no intra day é arriscado”
podendo chegar ao ponto de que isso se transforme na mais pura
verdade para ela.

38
Com essa crença consolidada, as possibilidades de sucesso são
irrisórias, pois, esta pessoa perceberá toda informação proveniente do
mercado de forma coerente com a afirmação de que day trade é
arriscado. Ela dará muito mais peso às informações que corroborarem
com esta afirmação do que às oportunidades de lucro geradas pelo
mercado.

3.3.2 IMPACTO DAS CRENÇAS EM NOSSAS VIDAS

No sentido mais amplo, nossas crenças moldam a maneira como


vivemos nossas vidas. Como descrevi acima, não nascemos com
nossas crenças. Elas são adquiridas e acumuladas refletindo o que nós
aprendemos a acreditar.

No livro “Trade in the Zone” de Mark Douglas faz quatro segmentações


sobre como as crenças impactam nossas vidas:

1º Crenças gerenciam nossa percepção e interpretação sobre as


informações provenientes do mundo.

A intensidade da crença pode e muitas vezes causa a alteração da


percepção, ou seja, esta mesma pessoa muitas vezes não consegue
mudar de opinião, mesmo que esteja diante de algo objetivo que
contraponha a opinião gerada pela crença. Essa “cegueira” é causada
ou pelo desconhecimento de outra versão sobre a informação, ou
ainda, pela não aceitação sobre outras possibilidades.

Nos cursos e palestras que ministro sobre trading costumo colocar um


gráfico no projetor e perguntar aos presentes o que cada um vê. Agora
te pergunto, quão homogêneas você acha que são as respostas? Se
respondeu: não são homogêneas, você acertou! Mas por que não são
respostas similares e objetivas, já que há concentração de pessoas
interessadas no mesmo tema? Primeiramente pelo próprio nível
desigual de conhecimento sobre o tema, assim como ocorre em
qualquer área. E segundo e mais importante de todos, pelo processo
de percepção de cada um.

Cada um vê de um jeito particular, com uma perspectiva própria


porque aprendeu assim. Uns aprenderam a interpretar o gráfico em
cursos de análise técnica, outros aprenderam em um determinado
livro, enquanto outros aprenderam por experiências próprias.

39
2º Crenças criam nossas expectativas.

Toda expectativa que criamos sobre qualquer evento futuro deriva de


nossas crenças. Desde que não podemos projetar algo sobre o qual
não sabemos, nós só podemos dizer que qualquer expectativa é o que
já sabemos projetado para o futuro.

Outro exemplo que costumo dar é relativo às relações de causa e efeito


que nada mais são do que crenças. O exemplo que mais utilizo é o do
tempo nublado. É uma crença comum que quando o céu nubla a chance
de chover é grande. Por quê? Excluindo toda a questão científica por
traz desse fenômeno, todos nós já vivenciamos centenas, talvez
milhares de observações de causa e efeito como essa. Nublou, logo
mais vai chover!

Ainda na mesma linha busco fazer associação ao trading. Coloco um


gráfico ou um cenário (com algumas variáveis) e questiono os alunos
sobre o que vai acontecer. Como vimos na explicação anterior, as
respostas são divergentes, pois as pessoas possuem crenças diferentes
e por isso percebem a mesma informação de forma singular.
Entretanto, a questão aqui é: o que embasa estas pessoas fazer
projeções sobre o futuro? A resposta é: suas crenças.

Se alguém aprendeu que ao romper uma resistência os preços irão


subir, ao se deparar com um novo rompimento de resistência,
automaticamente associará este evento à sua crença de que
rompimento de resistência gera alta nos preços. Essa crença, ou
relação de causa e efeito é justamente o que vai gerar a sua
expectativa de alta para os preços.

Agora preste muita atenção na continuidade do processo. Suponha que


um trader (que por qualquer razão, não tenha as crenças corretas para
ser consistente) decida comprar no rompimento dessa resistência
citada acima e que os preços efetivamente subam. Como você acha
que ele se sentirá? Certamente bem, não é mesmo! Concorda que ele
tinha uma crença de que rompimento de resistência gera alta de preços
e ao se deparar com essa informação (rompimento), percebeu uma
oportunidade, instantaneamente criou uma expectativa de alta, agiu
colocando uma ordem de compra e ao ver os preços subindo ele
percebe a alta de preços como algo positivo e que preencheu sua
expectativa? Logo ele se sente bem, confiante, poderoso etc.

Agora imagine o mesmo trader, atuando na compra, na mesma


situação de rompimento de resistência. Entretanto neste exemplo, os

40
preços começam a cair tão logo ele tenha comprado. Como será este
trader vai se sentir? Se ele não possuir os atributos mentais corretos,
certamente ele vai sentir algo incômodo. O grau de incômodo
dependerá do lote, de quanto e quão rápido o mercado vier contra sua
posição de compra. Quanto mais rápido os preços caírem, mais
frustração este trader sentirá. Você concorda? Aliás, você já sentiu
isso? Não tenha vergonha em responder, pois todos que efetivamente
operam já sentiram esta sensação ruim.

A sensação de errar gera dor/stress, pois fomos criados assim, fomos


criados com a crença de que errar é feio, errar e perder nos diminui.
Gostaria que você pensasse mais um pouco e respondesse: de onde
vem essa sensação ruim e amarga, de onde vem o medo e dor? Essa
sensação ocorre quando nossas expectativas são frustradas. Toda vez
que esperamos que algo ocorra, naturalmente esperamos estar certos
e assim, se depararmos com algo contrário à nossa expectativa
automaticamente experimentamos dor. Quanto maior o nível de
expectativa, maior será a frustração caso o evento esperado não
ocorra.

Você pode resistir em dizer que isso não é uma verdade absoluta, mas
apenas uma versão se adequando apenas a algumas circunstâncias.
Pare e pense na sua vida quantas situações similares a essa ocorreram.
Pense em quantas vezes depositou expectativa em uma determinada
entrevista de emprego e em como se sentiu quando foi recusado. Em
quantos relacionamentos mal resolvidos, depositou expectativa e
acabou sentindo frustração. Um bom exemplo é torcer depositando
demasiada expectativa em um jogo de futebol do seu time favorito.
Como você se sente quando ele perde?

Bom, a essa altura você entendeu efetivamente do que estou falando.


Essas sensações (boas ou ruins) são geradas única e exclusivamente
pelas nossas interpretações das informações vindas do mundo e das
interpretações das informações geradas pelas nossas ações. As
sensações não são intrínsecas ao mundo, nós que escolhemos como
nos sentir.

Concorda que se você não depositar expectativa sobre a sua entrevista


de emprego, o fato de não conseguir o emprego não terá o potencial
de gerar frustração? Se você não depositar expectativa na vitória do
seu time, você não sentirá frustração caso ele seja derrotado? O
mesmo ocorre no mercado, se você não depositar expectativa sobre a
alta de preços, você não sentirá frustração se os preços cederem.

Agora vem a grande questão: o que define o grau de expectativa que


depositamos em certas ocasiões? O que define o quanto de expectativa
depositamos é o grau de importância que atribuímos ao que se
encontra em jogo.

41
Vou exemplificar: Digamos que você aposte com seu amigo, quem
acertará o fechamento da PETR4 no pregão de hoje. A aposta não vale
nada e o seu amigo é de fato uma pessoa a qual você respeita e não
há competitividade entre vocês. Como você se sentirá se perder a
aposta? Talvez chateado, um pouco frustrado, etc. Agora imagine que
você esteja operando seu dinheiro de verdade e que ainda não possua
todos os atributos que o trading consistente exige (você não acredita
em imprevisibilidade e nem em singularidade dentre os demais que
ainda não falamos). Como você se sentirá se errar sua previsão e ainda
perder dinheiro? Sentirá mais ou menos frustrado do que quando
apostou, simbolicamente, com seu amigo?

Garanto que quando há algo relevante em jogo (no caso dinheiro),


tanto o grau de expectativa quanto o grau de frustração são maiores.
Isso explica a diferença entre analisar o mercado e efetivamente
operar. Ou ainda, explica a diferença entre operar um lote do mini e
operar de verdade. Quanto menos dinheiro em jogo, menos
preocupação e menor o grau de expectativa. Quanto menor a
expectativa, maior é a objetividade em perceber o que o mercado esta
mostrando e mais fácil de aceitar o resultado dos seus atos. Não há
resistência interna em agir quando não há expectativa. Não há contra
o que lutar.

Votarei a falar sobre expectativa mais adiante. Até aqui busquei


explicar a influência das crenças na formação de expectativas.
Entender o processo de formação de expectativas é crucial para que
você possa fazer os ajustes necessários e se tornar um trader
consistente.

3º Nossas ações são baseadas em nossas crenças

Não bastasse gerenciar a forma como percebemos o mundo e como


criamos nossas expectativas, as crenças norteiam nossas ações. Com
uma crença limitante fica praticamente impossível de agir. Já com
crenças fortalecedoras ou favoráveis, a capacidade de agir se torna
natural.

Ouvi uma frase de um colega de trabalho, extremamente bem sucedido


financeiramente e que me norteia até hoje: “Há pessoas que fazem e
há pessoas que esperam acontecer”.

Agora pense como é possível agir se você possuir crenças que te


limitem? Como fazer day trade se você acredita que é arriscado ou que
não é possível? Fica praticamente impossível porque a cada sinal

42
(conjunto de fatores que você considera para entrar em uma operação)
haverá uma luta interna gigantesca. Uma tentativa de encontrar algum
motivo que negue o sinal, ou seja, uma desculpa para não entrar no
mercado. Essa luta/tentativa de encontrar mais sinais e mais desculpas
acaba por gerar uma confusão inibindo cada vez mais as operações.

Concorda que esse tipo de crença altera sua percepção sobre o


mercado fazendo você enxergar o que quer e não a verdade como é?
Concorda que também te impede de agir, ora gerando resistência em
entrar no mercado ora resistência a stopar para não assumir perdas?

4º Nossas crenças são responsáveis por como nos sentimos em relação


aos resultados de nossas ações.

Um bom exemplo sobre a influência de crenças no comportamento


humano e também na fisiologia é o efeito placebo. Um notável estudo
sobre placebo (descrito no livro Poder sem Limites de Anthony
Robbins) refere-se a um grupo de pacientes com úlceras supuradas.
Estavam divididos em dois grupos e foi dito às pessoas de um dos
grupos que receberiam uma nova droga que, certamente, produziria
alívio. Às do segundo grupo foi dito que iriam receber uma droga
experimental sobre cujos efeitos se sabia muito pouco. Setenta por
cento das do primeiro grupo tiveram alívio significativo. Somente vinte
e cinco por cento do segundo grupo tiveram resultado semelhante. Em
ambos os casos, os pacientes receberam uma droga sem nenhuma
propriedade medicinal. A única diferença foi o sistema de crença que
adotaram. Ainda mais notáveis são os numerosos estudos em pessoas
a quem foram dadas drogas de efeitos prejudiciais conhecidos, e que
não experimentaram nenhum efeito ruim, quando lhes disseram que
experimentariam um resultado positivo.

Estudos conduzidos pelo Dr. Andrew Weil mostraram que as


experiências de usuários de drogas correspondem quase exatamente
ao que esperam. Descobriu-se que se podia induzir uma pessoa que
recebera uma dose de anfetamina a sentir-se sedada ou a uma que
recebera um barbitúrico sentir-se estimulada. “A magia das drogas
reside dentro da mente do usuário, não nas drogas", concluiu Weil.

Em todos esses exemplos, a única constante que afetou com mais força
os resultados foi à crença, as mensagens consistentes e congruentes
enviadas ao cérebro e sistema nervoso. Apesar de todo seu poder, não
há magia confusa no processo. Crença não é mais que um estado, uma
representação interna, que governa o comportamento. Pode ser uma
crença fortalecedora numa possibilidade, crença de que seremos bem-

43
sucedidos em alguma coisa, ou realizaremos algo mais. Pode ser uma
crença enfraquecedora, a crença de que não seremos bem-sucedidos,
que nossas limitações são claras, insuperáveis, esmagadoras.

Se você acreditar em sucesso, ficará fortalecido para consegui-lo,


criará possibilidades mentais para que isso possa ocorrer. Se
acreditarem fracasso, sua crença tenderá a levá-lo para o caminho que
faz provar o fracasso. Lembre-se: quer você diga que pode fazer
alguma coisa ou diga que não pode, você está certo. Ambas as espécies
de crença têm grande poder.

Voltando a exemplos de mercado. Imagine que você tem a crença de


que operar logo na abertura do mercado é arriscado. Imagine também
que o conjunto de fatores que indiquem uma oportunidade esteja
presente e você decida operar na abertura. Caso você perca dinheiro,
como irá se sentir? Certamente frustrado e arrependido e por quê? Pois
fez algo que era contrário às suas crenças. Agora imagine o mesmo
exemplo, com o mesmo sinal gerado pelo conjunto de fatores que você
define como oportunidade, mas que você não tenha atuado. Ter se
livrado de uma perda vai te deixar feliz e confortável, e mais, validará
sua crença de que operar na abertura é arriscado.

Agora faço um questionamento: o evento não foi o mesmo? O mercado


gerou um mesmo sinal? Mas por que você poderia ficar frustrado ou
ficar feliz, dado que a situação é a mesma? A resposta é: pois você
escolhe em que acreditar, o que esperar, como agir e ainda mais, como
se sentir sobre o resultado de sua ação. Você e só você cria a sua
experiência no mercado.

Entender sobre esse processo e aceitar essa realidade é um grande


passo para se tornar um trader consistente. A isso damos o nome de
assumir a responsabilidade.

Repare que até agora não me preocupei em falar o que é certo e o que
é errado, qual crença é boa e qual é ruim e nem como lidar com
expectativas. Estou apenas explicando o processo e a relevância das
crenças, tanto na vida quanto para o trading.

Em seguida falaremos sobre as crenças que julgo adequadas, pela


experiência dos traders que modelei e que hoje norteiam minha forma
de interagir com o mercado. Só depois discutiremos sobre como mudar
suas crenças.

3.4 ESTADOS

44
A melhor explicação que encontrei para Estados foi no livro Poder sem
Limites de Anthony Robbins. Segue entre aspas abaixo:

“Você já passou pela experiência de estar em maré alta, de sentir que


não poderia fazer nada errado, numa época quando tudo parece andar
perfeitamente? Talvez, seja numa partida de tênis, quando acerta
todas as bolas, ou numa reunião de negócios, onde você tem todas as
respostas. Talvez, seja numa ocasião quando fica espantado ao se ver
fazendo alguma coisa heróica ou dramática, que nunca pensou que
pudesse fazer. Provavelmente, já passou também pela experiência
oposta, num dia em que nada dá certo. Com certeza, você pode se
lembrar de ocasiões em que confundiu as coisas que em geral faz com
facilidade, quando todo passo está errado, cada porta trancada,
quando tudo que tenta não dá certo. O que acontece? Você é a mesma
pessoa. Deveria ter os mesmos recursos à sua disposição. Então, por
que consegue resultados desanimadores uma hora e resultados
fabulosos em outra. Por que é que mesmo os melhores atletas têm dias
em que fazem tudo certo e, em seguida, dias em que não conseguem
encestar uma bola, ou marcar um ponto? A diferença é o estado
neurofisiológico em que estão. Há estados que habilitam e impulsionam
- confiança, amor, força interior, alegria, êxtase, crença. Há os estados
paralisantes – medo, ansiedade, frustração, confusão, depressão,
tristeza - que nos deixam sem poder. Todos nós entramos e saímos de
bons e maus estados.”

Um estado pode ser definido como a soma de milhões de processos


neurológicos acontecendo dentro de nossas mentes. Em outras
palavras, a soma total de nossa experiência a qualquer tempo, em
qualquer momento.

“A maioria de nossos estados acontecem sem qualquer direcionamento


consciente de nossa parte. Vemos alguma coisa e respondemos a ela
entrando num estado. Pode ser um estado rico e útil, ou um
empobrecedor e limitador, mas a maioria de nós não tem habilidades
para controlá-lo ativamente”. Segundo Robbins, a diferença entre
aqueles que falham em realizar suas metas na vida e aqueles que são
bem sucedidos é a diferença entre aqueles que não conseguem se
colocar num estado de apoio e aqueles que, com frequência, se
colocam num estado que os ajuda em suas realizações.

Agora: você sabe o que gera um estado?

Existem dois componentes principais do estado: o primeiro é a nossa


representação interna e o segundo é a condição e uso de nossa
fisiologia. O que e como você imagina as coisas, assim como o que e
como diz coisas para si mesmo sobre a situação do momento, criam o
estado em que fica e, assim, as espécies de comportamento que
produz.

45
Representação Interna – é como nos comunicamos com nós mesmos.
Recebemos a informação do mundo através dos cinco sentidos:
gustação, olfato, visão, audição e cinestesia (tato), sendo que os três
últimos são os mais utilizados. Esses receptores transmitem o estímulo
ao cérebro que através de processos (e crenças) filtra-os em
representação interna. Pense em representação interna, como sendo
as imagens que você cria no “teatro da sua mente”8, as vozes que você
ouve (diálogo interno) e as imaginações que você cria na sua cabeça,
ao pensar sobre qualquer coisa.

Lembre-se, o que representamos internamente nem sempre é a


verdade, sendo muitas vezes apenas a nossa versão. Por exemplo, se
por qualquer motivo desconfiarmos de alguém, fatalmente iremos
representar internamente tal informação gerando pensamentos,
imagens e diálogos internos condizentes e associativos à mentira.
Fatalmente entraremos em um estado de desconfiança. Isso não
significa, contudo, que a pessoa esteja mentindo.

Fisiologia – Fatores como postura, bioquímica, energia nervosa,


respiração e tensão muscular compõem a fisiologia. O melhor exemplo
de influência da fisiologia em nossos estados é quando estamos
doentes, com febre, por exemplo. Como você reage aos eventos e
como vê o mundo, quando esta com febre? Certamente a sua
percepção e reação será muito diferente de quando você se encontra
vibrante, animado ou cheio de energia positiva.

Representação interna e fisiologia trabalham juntas e tudo que afeta


uma afetará a outra. Dessa forma, para mudar um estado,
necessariamente deverá ter havido uma mudança de representação
interna e fisiologia.

Reflita comigo: quase tudo o que queremos na vida é um estado. Amor


é um estado, é um sentimento que comunicamos para nós mesmos e
que sentimos dentro de nós, baseados em certos estímulos. Confiança,
poder, ambos são estados criados por nós. Até mesmo o dinheiro. Na
verdade nos interessamos pelo que ele representa e não pelas notas
de papel. O dinheiro pode representar poder, segurança, tranquilidade,
liberdade etc.

Agora, você se lembra do tanto que falamos sobre consistência como


trader? Pois bem, consistência é um estado mental! É o resultado da
sua representação interna e fisiologia sobre a sua interpretação de
errar, perder, acertar, ganhar e etc. A consistência não vem do
mercado, não depende de ele ser bom ou ruim, de alta ou baixa, volátil
ou não. Consistência está na sua mente, faz parte de você. É a sua

8
Será detalhado no manual de visualização ao final deste material.

46
interpretação das informações do mercado e do resultado de suas
ações que te fazem consistente.

Quando você é consistente você não espera que o mercado faça algo
para você, algo que preencha a sua expectativa, você simplesmente
aceita qualquer movimento que ele faça. Sem nenhuma restrição. Vou
além, ser consistente é não só aceitar, sem resistência interna, os
choques aleatórios e imprevisíveis dos preços, mas também interagir
com o mercado (operando) e aceitar qualquer que seja o resultado das
suas ações.

No livro Trading in the Zone, Mark Douglas faz uma explicação muito
boa sobre consistência. Ele afirma que o que separa os melhores
traders dos demais não é como eles fazem ou quando fazem. O que,
de fato, os separam é “como pensam sobre o que fazem e como estão
pensando enquanto fazem”.

Reflita sobre o exemplo: Tome dois traders, o primeiro que ainda não
possui uma mentalidade de trader (sofre de algum ou mais problemas
descritos no início da apostila) e o outro que já entende o que o trading
realmente é (possui mentalidade de trader – entende a natureza do
mercado, acredita em imprevisibilidade e singularidade do momento e
aceita o risco de operar). Imagine que os dois estejam operando o
mesmo mercado ao mesmo tempo e que decidam entrar na compra,
por qualquer motivo. Neste exemplo, logo após a compra, ocorre o
inesperado: entra uma boletada de venda relativamente grande e o
mercado já vira vendedor abaixo do preço de stop, pré-estimado por
ambos. Como ambos devem reagir? Será que da mesma forma? Pense
bem, pois o evento é o mesmo. Ambos compraram e ambos estão
olhando para um mercado vendedor abaixo do preço de stop deles.

Dificilmente um trader, sem a mentalidade correta perceberá esse


evento da mesma forma que um trader consistente. O mais comum
será ouvir desse trader “o que eu poderia ter feito para evitar isso”;
“só acontece comigo”; “o mercado é perigoso, é uma droga”; “eu sabia
que isso ia acontecer comigo”. Com essa estrutura de pensamento
(crenças) ele irá perceber essa informação de forma negativa, o que
muito provavelmente o levará a um estado de indecisão e medo. Uma
vez nesse estado, a cada informação que o mercado gerar (continuar
caindo, por exemplo), ele interpretará a informação de uma forma
totalmente viesada (não objetiva) e tenderá a ser cada vez mais
influenciado a ver o “ele quiser ver e não o que esta acontecendo”.
Mesmo que este trader stope a posição comprada a um preço abaixo
do pré-estipulado (o que é muito raro) o natural seria parar de agir
momentaneamente (operar), pois ele interpreta o mercado como
“perigoso”.

47
Já um trader consistente, no mesmo evento, vai agir sem hesitar
quando o mercado mostrar que não era mais para estar comprado,
mesmo com uma perda maior que o pré-estabelecido. Ele já aprendeu
que não é possível controlar o mercado e justamente por acreditar em
imprevisibilidade ele aceita a perda. Ele aceita, de forma inconsciente,
que mesmo tendo comprado de forma objetiva (pela perspectiva de
coletiva e não por setup individual), o imprevisível aconteceu.

Essa forma de pensar e representar internamente habilita o trader de


permanecer no seu estado mental consistente e confiante o que
possibilita perceber o mercado de forma objetiva (sem viés e sem
interferência de suas emoções). É como se tivesse olhando o mercado
de fora. Ao contrário do outro trader, não há motivo para “tirar o pé”.
O trader consistente continua percebendo e operando as oportunidades
que o mercado gera.

3.4.1 ESTADOS E ASSOCIAÇÃO

Nossas mentes têm uma característica inerente e que leva-nos a


associar e ligar qualquer coisa que existe no ambiente externo, que é
semelhante em termos de qualidade, propriedades ou características
para qualquer coisa que já existe em nosso ambiente mental. Esta
tendência natural de nossas mentes em associar é uma função mental
inconsciente e que ocorre de forma automática.

Certamente você tem várias associações na sua mente, quer ver? A


que você associa aquela “vinheta” sonora do plantão da rede globo? A
algo ruim ou bom? Certamente a algo ruim, pois, todas as notícias
desta fonte eram associadas a algo negativo. Nossa estrutura de
pensamento instantaneamente associa a vinheta com as lembranças,
memórias que possuímos armazenadas. Não precisa nem dizer que
automaticamente nosso estado mental será alterado. Mesmo que
estivermos assistindo a algo alegre e que mantivermos em um estado
de alegria, ao ouvir a chamada do plantão, automaticamente ficaremos
mais tensos e apreensivos.

Em PNL – programação neolinguística esse processo de associação é


chamado de “âncora”. Âncoras geralmente são estímulos visuais,
sonoros ou sinestésicos (tato) ligados a um conjunto de estados. Pense
em que estado você fica ao ouvir sua música preferida? Com certeza
você entra num estado vibrante, alegre e associando a uma ou várias
experiências boas. Agora pense em que estado você ficaria se visse

48
alguém armado nas ruas? Com certeza sentiria medo, ou por já ter
vivido alguma experiência similar ou por ter sido bombardeado de
notícias sobre o assunto.

Uma âncora é criada por um estímulo específico enquanto estamos no


experimentando o auge do estado. No final do livro “Poder sem Limites”
de Anthony Robbins há um roteiro de como criar âncoras de forma
ativa e consciente. Se levarmos esses conceitos de associação e
âncoras para nossas experiências com o mercado ficaremos surpresos.

Se você possuir algumas horas de operação você entenderá bem o que


estou falando. Já aconteceu de você associar determinada operação ou
situação de mercado com qualquer outra operação (situação) que já
tenha feito no passado? Deixe-me ser mais específico: você costuma
dizer “hoje aconteceu exatamente o mesmo que aquele dia x”? Outra
coisa, você costuma hesitar em operar por associar o risco da sua
operação atual com o resultado das últimas operações? Ou seja, julgar
o mercado mais arriscado, por ter perdido nas últimas três operações?
E por último, você já sentiu alteração de estado quando o mercado
começou a agitar de forma brusca? Muito provavelmente sim,
justamente porque é assim que nossas mentes funcionam.

Esta lembrado quando falamos sobre singularidade do momento em


natureza do mercado no início do material? Bom, se você ainda não
esta convencido disso eu aconselho voltar lá e ler novamente. Aceitar
isso é primordial para avançarmos nos diagnósticos sobre tudo que
vimos até agora.

No mercado, cada momento é único e associar o agora com qualquer


outra lembrança não faz o menor sentido. Se tudo é novo, como
podemos associar com o passado? No exemplo acima, não faria o
menor sentido hesitar ao ver uma oportunidade e entrar em um estado
de medo (por associação) só porque os últimos trades deram errado.
Concorda que o resultado do próximo trade não tem nada a haver com
os resultados passados? O resultado do próximo trade é futuro, e a
história não esta escrita! Lembra que o resultado de nossa operação
esta na mão de outros traders, os quais você não têm controle? A
confiança e medo no trade atual são estados que você cria em função
da sua percepção do mercado. Não é o mercado que transmite isso,
você os cria!

Quer ver um exemplo? Se eu trocasse o cenário acima e tivesse dito


que você ganhou as últimas três operações seguidas, como você se
sentiria? Você teria mais ou menos apetite a entrar na próxima
oportunidade? Aposto que teria mais apetite Enquanto no exemplo
anterior você estava em um estado apreensivo ou até com medo por
conta das perdas, no segundo cenário você tende a ficar confiante e
sem medo. Mas concorda que o evento é o mesmo? A operação que

49
você vai fazer agora é a mesma, independente de você ter ganhado ou
perdido nas anteriores. Novamente, o mercado não gera confiança e
medo, você os cria!

Desenvolver e manter um estado mental que permita focar no


momento e assim ficar sempre no fluxo do mercado requer controle
consciente da associação.

Você deve estar perguntando: mas por que saber tudo isso? Eu volto
a dizer: trading é diferente de tudo. No trading você será testado a
cada instante, será influenciado a toda hora por fatores externos e
sofrerá as consequências das representações internas e
consequentemente dos estados causados por ela. Saber controlar
ativamente as representações e estados é uma arma poderosa para
controlarmos nossa forma de encarar os desafios do trade.

Ao final desta parte você já conheceu, de forma resumida, o processo


de pensamento humano: Receber a informação, filtrar pelas crenças,
gerar representação interna, gerar um estado mental, criar
expectativa, gerar uma ação (ou ausência de ação) e gerar um novo
estado mental consequência da interpretação do resultado desta ação.

Chegou a hora de adaptarmos esse processo ao mercado de forma


mais profunda. Discutiremos nos demais capítulos sobre os assuntos:

1º Como perceber a informação gerada pelo mercado da forma mais


objetiva possível, mais próxima possível da verdade;

2º Adquirir as mesmas crenças que traders consistentes possuem para


representar internamente a informação de uma forma homogênea, de
uma forma coletiva;

3º Neutralizar as expectativas para focar no presente e entrar em


sincronia com o fluxo do mercado;

4º Manter o mesmo estado mental (confiante e despreocupado =


consistente) que os traders consistentes mantêm;

5º Agir sem a menor influência de medo ou arrependimento;

6º Interpretar o resultado de suas atitudes de uma forma positiva,


aceitando sem nenhuma resistência interna, os riscos e as
consequências dos seus atos.

50
4 ACOMPANHAR O MERCADO COM OBJETIVIDADE

Desde o começo do material você tem lido que olhar o mercado com
objetividade é fundamental para perceber o fluxo do mercado e evoluir
como trader. É justamente sobre esse assunto que trataremos neste
capítulo.

Antes de tudo vou fazer mais uma pergunta. Como você acompanha o
mercado? Ou melhor, qual é o método de acompanhamento? A
resposta é quase unânime: “por gráficos” ou “por análise técnica” e é
justamente esse paradigma que quero quebrar. O gráfico ou a análise
técnica pouco dizem sobre o que de fato esta ocorrendo nos preços.
Não significa que não funcionam. Podem até funcionar, mas o que
quero dizer é que você não esta vendo a verdade no mercado e sim
uma versão.

Tenho certeza de que para alguns, é quase como dizer que Deus não
existe. Peço, contudo um voto de confiança para explicar.

51
4.1 PERCEPÇÃO E MERCADO

Olhe a figura abaixo e pense o que ela representa para você.

Escreva abaixo o que esta figura representa para você. Não se


preocupe com certo e errado, apenas escreva o que julga relevante na
imagem. Pense sobre o que ela significa, o que descreve e que tipo de
oportunidade pode gerar etc.

_______________________________________________________
_______________________________________________________
_______________________________________________________
_______________________________________________________

Reflita sobre como você chegou a essas conclusões, ou seja, como,


quando, com quem e por que aprendeu isso que escreveu acima.

_______________________________________________________
_______________________________________________________
_______________________________________________________
_______________________________________________________
_______________________________________________________
_______________________________________________________

52
No primeiro campo as respostas são quase unânimes: “representa que
os preços vieram de um patamar até outro...”; “representa o que está
acontecendo no mercado num determinado momento...”; “representa
uma oportunidade de compra por ser um martelo (candle de alta)...”,
dentre outros.

Já, as respostas do segundo campo costumam ser: “todos os livros,


cursos e sites que conheço descrevem os candles como fiéis
representantes do que está acontecendo no mercado e ainda como
geradores de oportunidades...”; todos traders que conheço utilizam
candles/barras para acompanhar o mercado e para definir critérios de
entrada/saída das operações...”; “todos os softwares de análise
(vendors) compilam a informação desta forma...” etc.

Agora vou descrever algo que vai ajudá-lo a entender o porquê de


candles e barras do gráfico não refletirem a verdade, ou seja, o que de
fato está acontecendo no mercado.

Aquela figura acima, só mostra duas coisas. Primeira: a faixa de preços


que foram negociados ao longo do período de cada barra/candle. E
segundo: diz um pouco sobre a evolução dos preços a partir da
abertura da barra até o seu fechamento.

Agora olhe só o que os candles e barras do gráfico não mostram. Não


mostram o quanto foi negociado a cada nível de preço. Não mostram,
exatamente, em que momento os negócios estavam sendo realizados,
ou seja, a evolução fiel dos preços9. E não para por ai: Candles não
mostram se a maior parte dos traders está comprando ou vendendo,
não mostra se foi o comprador ou o vendedor quem gerou o negócio
(agressão, justamente uma das variáveis mais importantes), não
mostra o nível de agressividade dos players em fechar negócios, não
mostra o tipo de operador e nem o prazo operacional (se um day trader
girando ou se um operador de longo prazo montando uma posição
grande), não mostra o nível de atividade dos negócios (se foram
realizados negócios de 100 ações ou negócios de 50.000 lotes), não
mostram as posições prévias que os players carregam na compra ou
venda, não mostram se os players estão abrindo posição (iniciando
uma aposta, o que carrega energia potencial) ou zerando posição
(fechando uma aposta, o que não carrega energia potencial) e também
não mostram o nível atual de intenção de oferta e demanda.

Há ainda fatores psicológicos e potenciais, os quais não são percebidos


por candles e barras. São eles: Não mostram o nível de convicção dos
comprados e vendidos, nem a que preço vão zerar suas posições, não
mostram nem se e nem como players vão reagir às mudanças nas

9
Esta última informação pode ser obtida diminuindo o tempo gráfico.

53
demais variáveis, não mostram quantos players estão atuando e nem
seus perfis de atuação.

Depois dessa extensa lista de fatores que não vemos através de


gráficos, você pode questionar. “De fato, não vejo estes fatores através
dos gráficos, entretanto, eles não são possíveis de serem vistos...”
Essa afirmação é meia verdade. De fato, algumas variáveis não podem
e nunca serão conhecidas por nós, pois dependeria de adivinharmos o
que demais traders estão fazendo ou ainda, o que irão fazer.
Entretanto, outras variáveis são conhecidas e levadas em conta pela
maior parte dos traders que efetivamente entendem da atividade.

Não se preocupe em saber exatamente quais as variáveis relevantes


nesse momento10, preocupe-se apenas em acreditar o fato de não
conhecermos algumas variáveis não implica que elas não existam. Não
é porque não temos acesso a essas variáveis que elas não são
importantes.

Dando continuidade ao tema de “percepção e mercado” apresentarei


outra forma muito comum através da qual traders são instruídos a
operar: Indicadores Técnicos ou Indicadores de Análise Técnica.

É comum que traders utilizem uma forma de manipular a informação


do mercado com intuito de tomar decisões, ou inda com intuito de
torná-las mais precisas.

Os indicadores mais comuns utilizados pela maior parte dos traders


(maiores em número e menores em tamanho) são as médias móveis,
MACD, TRIX, ADX, IFR, Bandas de Bollinger, Hilo Activator, etc.
Independentemente de qual seja o indicador, a maior parte deles é
baseada em preço de fechamento (seja fechamento de uma barra de
5 minutos ou mesmo fechamento de um candle diário). Cada indicador
possui uma fórmula específica e gera uma informação derivada,
justamente chamada de indicador.

O que quero dizer aqui é que, assim como os candles ou barras, os


indicadores estão longe de representar a realidade do mercado. São
meras manipulações de preços ou fórmulas matemáticas que geram
indicações, e só. Os indicadores não mostram nenhuma daquelas
variáveis descritas acima, portanto, apesar de serem úteis como
sinalizações de compra e venda, pouco dizem sobre o que de fato esta
acontecendo nos mercados.

A grande lição que devemos tirar desta parte é: Existem outras formas
de acompanhar o mercado, que não são através de gráficos. Nem todo
trader olha para o mercado da mesma forma que você foi instruído (até

10
Elas são tratadas exclusivamente no Programa.

54
o presente momento) a olhar. Se você, até o momento julgava que
candles ou indicadores representavam o mercado sugiro fortemente
que reconsidere. Não estou sugerindo que você não se utilize candles
ou indicadores, mas sim que acredite que eles não são o reflexo da
realidade. Esse entendimento permitirá que você abra sua mente e
assim desenvolva outras formas de interação com o mercado.

Outro ponto extremante positivo da aceitação de que candles e


indicadores técnicos não representam o mercado é ajudá-lo a sair do
círculo vicioso (caso esteja nele) ou evitar que entre no círculo.

Para relembrá-lo falamos de círculo vicioso no início do material no


item “fases do trader”. Círculo vicioso era a tentativa de combinar
indicadores ou encontrar as melhores relações de causa e efeito que
explicasse preço, sem que essa relação fizesse sentido. Digamos que
tenha aprendido que cruzamento de média é uma boa estratégia. Seu
trabalho seria adaptar o melhor cruzamento de médias para cada ativo
que decidisse operar. Para isso, usaria um sistema que realizasse uma
otimização apontando qual combinação de médias geraria um melhor
resultado no período de avaliação que você escolheu. Além disso,
definiria todos os critérios gerenciais de risco como tamanho de lote,
stop e etc.

Digamos que o sistema apontou que as médias de 8 e 21 seriam as


melhores calibragens para determinado ativo, no período que você
definiu o teste. O próximo passo seria validar o relatório de avaliação
contendo todas as informações relevantes, como ganho máximo por
operação, perda máxima por operação, ganhos e perdas médios,
sequência de operações ganhadoras e perdedoras, drawdown 11 e etc.
Se as condições forem favoráveis, você decide que começará suas
operações seguindo este trading system, pois ele é estatisticamente
confiável.

A questão é: o que ocorre se você ganhar dinheiro nos primeiros dois


meses? Você irá reconsiderar qualquer variável do seu sistema ou irá
mantê-lo? O mais lógico seria mantê-lo e continuar fazendo o que esta
dando certo. E se, por outro lado, você perdesse dinheiro nos primeiros
dois meses, o que faria? Continuaria seguindo as sinalizações, pois
essas perdas são normais (em outras palavras, o drawdown já era
conhecido) ou reconsideraria algumas variáveis do trading system?
Qual é o certo?

De toda forma, digamos que decida, por qualquer motivo reconsiderar


algumas variáveis e assim decida voltar ao sistema de backtesting e
re-otimizar as médias a ponto que a nova combinação gere um
resultado positivo no mesmo período em que seu sistema (com a

11
Valor máximo acumulado em perdas.

55
combinação de médias antiga) gerou o resultado negativo. Assim, o
sistema poderia indicar que a melhor combinação para os últimos 2
meses teria sido 12 X 31 e não os 8 X 21 indicados na sua primeira
otimização.

Resumindo, esse é justamente o ciclo vicioso que tanto falamos. Pois


você sempre tentará re-otimizar seu sistema quando estiver perdendo,
buscando, justamente uma combinação que evitaria de ter perdido.

O problema aqui não é fazer o backtesting e tentar re-otimizar sua


estratégia, mas sim acreditar que o cruzamento de médias móveis (ou
IFR, ADX, Hilo, Bandas de Bollinger etc.) é uma boa explicação para os
preços. Essa falta de compreensão na causalidade é o maior problema.
Repare que sempre que o trading system gerar perdas, vai ficar a
dúvida: re-otimizo ou mantenho? E pior, sempre que você decidir re-
otimizá-lo você buscará algo que “se você tivesse feito você teria
ganho”, sempre no passado e sempre com a palavra “se”!

Quando estudamos uma estratégia, nesse exemplo, cruzamento de


médias, a primeira pergunta que você deve fazer a você mesmo é:
“Será que as médias, efetivamente são a causa do preço?” Ou, “será
que existe uma relação de causa efeito, efetiva, entre médias
(variável explicativa) e o preço (variável a ser explicada)?”.

Se você fizer essa pergunta levando em conta todos os indicadores ou


ainda as possíveis combinações entre os indicadores, você irá reparar
que praticamente nenhum deles representa o mercado, pois não
refletem aquelas variáveis sobre as quais falamos no início deste
capítulo. Assim, se indicadores não representam o mercado, como
podem ser uma variável explicativa coerente para explicar os preços?

Mesmo que você acredite ser possível encontrar, ou que já possua


algum indicador ou combinações, que não reflitam com exatidão o
mercado, mas que geram ótimos resultados em várias condições de
mercado (através de backtesting) reflita sobre o que falamos no
capitulo de “natureza dos mercados”. Reflita sobre o princípio de
singularidade e dinâmica de mercado.

Sei que não é fácil de aceitar, mas é real. Aliás, eu afirmaria que a
maior parte dos traders de mesa proprietária de bancos e fundos e dos
traders ativos consistentes (com os quais tive convívio) opera sem
tomar decisões baseadas em gráficos, indicadores ou trading systems
mecânicos. A maioria destes traders são discricionários, ou seja,
tomam decisão em função de parâmetros que podem ser modificados
de uma operação para outra.

56
4.2 PERCEPÇÃO E FATORES EMOCIONAIS

Independentemente da forma através da qual você acompanha o


mercado se por gráficos, indicadores ou pelo fluxo das ordens, os
fatores emocionais possuem capacidade de alterar sua percepção.

Alguns conceitos que serão apresentados já foram abordados de forma


pulverizada nos capítulos anteriores, contudo, é pertinente que
voltemos a pontuar algumas questões dentro desse módulo de
“percepção”.

De uma forma geral, o mercado é o produto da interação dos traders


sobre o que cada um julga barato/caro naquele determinado momento
de tempo. Ao mesmo em que traders operam suas crenças, o mercado
gera informações sobre seu potencial de movimentar de uma forma,
totalmente, neutra. Depende de cada trader receber e interpretar
essas informações. Se, por qualquer razão você sente excesso de
confiança ou medo, tenha certeza de uma coisa: O mercado não
transmite essas sensações. Você as cria!

As principais fontes de alteração de percepção são suas crenças sobre


si mesmo e sobre o mercado além de seu Estado Atual. Concorda que
se você acredita que para ser um bom day trader é necessário muito
conhecimento de análise técnica, será muito difícil de perceber o
mercado pelo fluxo das ordens (através do Book de Ofertas e Histórico
de Negócios). Dependendo do grau da crença a percepção do mercado
fica distorcida. Concorda também que se acredita que fazer day trade
não é adequado para você, pois é difícil exige agilidade e etc, como
será possível perceber as oportunidades que o mercado gera?

Agora repare como você percebe o mercado quando está com medo.
Será que da mesma forma, do que quando está despreocupado e sem
expectativa? Dificilmente não é mesmo. Quando está com medo tende
a não perceber a verdade de forma neutra, pois sua mente age de
forma instintiva tentando evitar a dor. Ou seja, se está com medo e
comprado, a cada tick que o mercado dá para baixo, contra a sua
posição, faz a mente buscar reforços ou desculpas para evitar a
sensação de medo e dor. É como se sua mente bloqueasse toda
informação contrária à sua expectativa, que é justamente não errar. A
cada tick contra, sua mente se ancora em uma explicação diferente,
em algo que conforte sua posição, enquanto passa o amargo tempo na
esperança de algo acontecer e fazer os preços voltarem.

Esse processo, muitas vezes inconsciente, te faz parar de olhar o


mercado como ele é (verdade) e te força a perceber o mercado como
você gostaria que ele fosse (sua versão).

57
Ao final deste capitulo é muito provável que sua curiosidade esteja
concentrada nas respostas das seguintes perguntas: como perceber o
mercado com objetividade? Além disso: como não incorrer em todos
os problemas de percepção, de cunho emocional, descritos até agora?

Para responder essas questões falarei sobre:

- Pontos de vista e as diversas formas de interagir com o mercado;

- Crenças adequadas ao trade e também sobre o Estado Favorável;

- Como lidar com expectativas;

- Processo de aceitar o risco do negócio.

5 INTERAÇÃO COM OS MERCADOS E PERSPECTIVAS

No capítulo anterior tratei sobre as potenciais influências no processo


de percepção que podem afetar a objetividade na leitura do mercado.
Neste capítulo falarei sobre as diversas formas de ler e interagir com o
mercado buscando propor a Análise de Fluxo de Ordens como a mais
adequada ao trader ativo.

5.1 ALINHANDO O DISCURSO

Antes de iniciar gostaria de alinhar o discurso, ou seja, direcionar de


forma precisa os conceitos e embasamentos ao grupo específico de
traders ativos. Traders Ativos são todos e quaisquer indivíduos, que
operam para si ou para terceiros, com relativa frequência em
determinado período (mais especificamente dentro de um dia) e que
não tenham limites operacionais suficientes para ser um price maker12.

A fora o grupo de traders ativos, existem obviamente outros grupos de


participantes do mercado, tais como: investidores (naturalmente
visando horizontes mais longos), traders de mesa proprietária (operam
para bancos e fundos), traders de mesa clientes (preparam operações

12
Player que têm potencial de movimentar o preço, ou seja, seu lote tem potencial de
consumir a liquidez de vários níveis de preço.

58
para grandes clientes) e traders em geral (pessoas físicas que não se
enquadram no grupo de traders ativos por não executarem ordens com
frequência-geralmente day traders e swing traders).

Se por qualquer motivo você leitor não se enquadrar no perfil de trader


ativo, seja por falta de tempo para acompanhar o mercado ou por não
“gostar” do perfil, tente passar pelas próximas páginas com a “mente
aberta”, ou seja, permitindo-se ser um trader ativo durante a leitura.

Há ainda outras colocações a serem feitas. Existe uma frase, a qual


uso com frequência nos cursos e palestras que nos ajudará nesse
alinhamento: “o mercado não opera da mesma forma e muito menos
da forma que julgamos ser a mais correta para nós mesmos”.

Significa que nem todos os players olham para o mercado da mesma


forma por terem propósitos diferentes, crenças e opiniões divergentes,
por adotarem conceitos e estilos operacionais divergentes, por
possuírem horizontes de aplicação divergentes e limites de exposição
ao risco divergentes (diferentes tamanhos). É justamente essa
heterogeneidade que motiva o mercado continuar negociando dia após
dia, crise após crise.

Outro ponto a ser extraído desta frase é de cunho emocional. Quando


afirmo que “o mercado não opera da mesma forma que julgamos ser
a mais correta para nós mesmos” procuro fazer as pessoas pensarem
fora da zona de conforto. Pare um minuto para refletir sobre como você
acompanha o mercado (gráficos, indicadores, book de ofertas, etc.) e
reflita sobre o conjunto de fatores que te motivam operar (conjunto de
sinais que geram um sinal de compra, venda e stop tanto no lucro
quando no prejuízo).

Por favor, anote brevemente no espaço abaixo:

_______________________________________________________
_______________________________________________________
_______________________________________________________
_______________________________________________________
_______________________________________________________
_______________________________________________________
_______________________________________________________
_______________________________________________________
_______________________________________________________
_______________________________________________________
_______________________________________________________
_______________________________________________________

59
Agora gostaria que estimasse e anotasse quantos players olham para
o mercado exatamente como você olha e utilizam o mesmo conjunto
de fatores descritos acima. Para ajudá-lo na estimativa darei algumas
dicas: Quantas ordens costumam surgir no mercado ao mesmo tempo
em que você coloca uma ordem de compra/venda? Caso você agrida o
comprador ou vendedor, quantas ordens costumam ser enviadas ao
mercado no mesmo instante que a sua? Ao entrar no mercado, qual
sua impressão mais evidente e frequente: “entrei certo” ou “podia ter
entrado melhor”?

_______________________________________________________
_______________________________________________________
_______________________________________________________
_______________________________________________________
_______________________________________________________
_______________________________________________________

Você já tinha pensado sobre isso? Este tipo de questionamento te ajuda


a perceber que o mercado é muito maior do que centenas de traders
olhando para mesma tela, para o mesmo gráfico e esperando um
mesmo conjunto de fatores para atuarem. Vejamos um exemplo:
Imagine como o tesoureiro do maior banco privado do país toma sua
decisão para entrar em determinado mercado. Será que da mesma
forma que você descreveu acima? Esperando algum rompimento de
preço, esperando sinalização nos indicadores técnicos, ou seja,
esperando um setup ser acionado?

Bem difícil de acreditar nisso não acha? Muito provavelmente o


processo decisivo de um trader deste porte envolve os seguintes
pontos:

- Avaliação pessoal do cenário e do ativo (fundamentos);

- Publicação de notícias/informações capazes de influenciar a avaliação


do cenário/ativo;

- Intervenção de governo, órgãos ou empresas;

- Informação privilegiada;

- Obrigação/necessidade;

- Atuação dos demais players.

A questão aqui é que há players que são price makers, ou seja,


possuem tamanho suficiente para movimentar os preços
exclusivamente pela decisão de comprar ou vender e price taker, ou
seja, players que não possuem lotes suficientes para consumir toda
liquidez de um determinado nível e de alterar o rumo dos preços.

60
Esta definição é muito importante, pois determina inclusive, a escolha
do estilo/conceito operacional a ser usado como embasamento do
processo decisório. Price makers, naturalmente devem ter opinião,
análise e expectativa sobre a direção futura dos preços. Estes players
geralmente são bem relacionados, possuem acesso à informação e
contam com uma experiente e significativa área de economia e análise
que os ajuda a identificar probabilidades na ótica macro-
fundamentada. Estes players se preocupam mais com o que vai
acontecer do que com o que já aconteceu.

Os price takers, por sua vez, não possuem o mesmo grau de


relacionamento e muito menos acesso às áreas de economia e análise
que os grandes players possuem. Essa “desvantagem” de acesso à
informação naturalmente gera uma “desvantagem” na esfera analítica,
ou seja, tornando qualquer opinião ou expectativa um pouco mais
atrasada. Estes players são forçados, tanto pela desvantagem de
informação quanto pela movimentação dos price maker no mercado, a
embasarem suas análises mais em dados correntes sobre o próprio
ativo do que em expectativa sobre o que vai acontecer baseado em
cenários.

O que quero dizer aqui é que o price maker tem condições de avaliar
os fundamentos e criar uma expectativa sobre a direção dos preços,
enquanto o price taker não possui, ou possui grande desvantagem.
Traduzindo em português mais claro, o processo decisório do price
taker é baseado em conceitos ou estilos operacionais que dependam
de extrair informação do próprio mercado que está operando.

5.2 ESTILOS DE ATUAÇÃO OU CONCEITOS OPERACIONAIS

No mercado há pelo menos 15 estilos de atuação ou conceitos


operacionais, onde praticamente todas as estratégias de todos os
players se enquadram. Eles foram separados por conceito, ou seja,
pela lógica de atuação. Não significa afirmar que dentro de cada estilo,
haja apenas uma forma de atuação, pelo contrário, pois em vários
estilos, as formas de atuação podem variar bastante e inclusive ser
antagônicas.

Nosso objetivo neste tema não é ensinar e muito menos provar a


eficácia de cada um dos estilos, mas sim citá-los. O foco desse material
é o estilo de “Análise do Fluxo das Ordens” por ser o conceito mais
adequado ao trader ativo, conforme veremos adiante.

Vamos aos conceitos:

61
- Análise Fundamentalista (valor/cenários mentais)

- Abordagem Intermercados

- Hedger

- Arbitrador sem risco

- Travado

- Trend Follower

- Trade de Bandas (princípio de reversão à média)

- Ciclos e Sazonalidade

- Reconhecimento de Padrões

- Estatístico & Indicadores Técnicos

- Price Action

- Seguidores de ordenações da natureza

- Algoritmos – (todos os tipos)

- Market Maker – raro no Brasil

- Análise do Fluxo de Ordens

Cada um dos estilos ou conceitos operacionais listados acima requer


crenças particulares. Isso que dizer que para o trader adotar o estilo
de trend following, por exemplo, deve acreditar nas premissas básicas
deste estilo, como a de que os preços se movem em tendência. Já o
trader que adote o estilo de reconhecimento de padrões deve acreditar
na premissa de que há certos padrões de comportamento no mercado.

Segundo Van Tharp, reconhecido coach de traders, nós não operamos


os mercados, mas sim as crenças que possuímos sobre ele. Pare para
pensar sobre o que te motiva comprar ou vender? Certamente chegará
à conclusão que se baseia em alguma crença pertencente à sua
estrutura de pensamento.

Este tema daria muito “pano para manga” por diversos motivos. Um
deles é justamente qual é o melhor conceito. Depende em qual
categoria de trader você se encaixa. Se for um trader institucional de
mesa proprietária de um fundo ou banco, muito provavelmente a
análise fundamentalista será o pilar principal se sua tomada de decisão.
Obviamente há possibilidade de unir estilos, mas as crenças primárias

62
deverão ser mais energizadas nas características exigidas pela
abordagem de fundamentos. Já um trader pessoa física, por exemplo,
dificilmente terá sucesso com abordagem fundamentalista, pois, não
terá acesso aos mesmos recursos (contatos e projeções) que os
institucionais possuem. Melhor ou pior é sempre relativo!

Entretanto, há sim alguns conceitos ou estilos mais ou menos


coerentes com a natureza inquestionável dos mercados, que são
imprevisibilidade, singularidade do momento e dinâmica de atuação
entre players variável. Há estilos de atuação que não corroboram com
as premissas do próprio mercado. Os estilos de reconhecimento de
padrões ou mesmo o de ordenações na natureza, por exemplo,
implicam crenças de padronização, as quais são extremamente apostas
às características de imprevisibilidade e singularidade do momento
presentes no mercado.

Neste momento acredito que esteja fazendo esta pergunta: “Mas, se


há estilos com crenças não coerentes com a realidade do mercado, por
que este estilo é válido?” De fato é uma ótima pergunta. Ficaria muito
difícil de tentar impor ou provar conceitos sem dados concretos.

No dia a dia, os mercados apresentam diversas oscilações e oferecem


ilimitadas oportunidades. Quando você olha para os movimentos do
mercado após o fato, parece fácil de fazer qualquer quantidade de
dinheiro. Muitos caem na armadilha de olhar para trás e exercitar de
forma imaginária, o que teria feito em determinada ocasião. Porém,
muitos se esquecem da magnitude de discrição que deve ser aplicada
em cada operação virtual para que o resultado desejado se encaixe na
história.

Não duvido que existam traders vencedores que adotam


conceitos/estilos com premissas menos coerentes em relação à
natureza do mercado, mas também não conheço nenhum. Durante
minha experiência como trader e também como funcionário da maior
corretora de valores especializada em traders pessoa física, nunca
conheci um trader consistente que não adotasse, ou pelo menos
considerasse a análise de fluxo de ordens como método13. Foram
milhares de pessoas físicas que dedicaram algum tempo à atividade.
Alguns simplesmente pararam por não verem perspectiva, outros
acabaram perdendo tudo enquanto uma minoria obtém resultados
consistentes até hoje. Essa minoria só existe e sempre vai existir
porque olha o mercado sob uma ótica totalmente diferente dos demais.
Nas próximas páginas você entenderá o que significa pensar diferente.

13
Ou pelo menos adotavam Fluxo de Ordens como parte integrante do processo.

63
5.3 DEFININDO UMA OPORTUNIDADE

Pressuponho mais uma vez que você é um trader ativo e price taker,
ou seja, que atue com lote que não impacte o mercado e que embasa
suas análises, exclusivamente, em informações geradas pelo próprio
mercado que opera. Mais uma vez tomo a liberdade de te perguntar:
Para você, o que significa uma oportunidade de ganhar dinheiro? Não
é para descrever novamente o seu setup, como já foi feito páginas
atrás, mas sim para descrever o porquê de existir uma oportunidade.
Quem gerou essa oportunidade, quem percebe e quem se aproveita
dela? Quem perde com ela? Por que ela ocorre?

_______________________________________________________
_______________________________________________________
_______________________________________________________
_______________________________________________________
_______________________________________________________
_______________________________________________________
_______________________________________________________
_______________________________________________________
_______________________________________________________
_______________________________________________________

Pode parecer abstrato e difícil de responder, mas gostaria do seu


esforço. Esses constantes autoquestionamentos são cruciais para que
você comece a entender o que o mercado é e não o que você gostaria
que ele fosse. Independentemente do que respondeu o importante é
que tenha escrito algo.

5.3.1 PERSPECTIVA INDIVIDUAL

Sob a ótica da perspectiva individual, o trader, busca individualmente


levar em conta as variáveis ou combinações de variáveis que compõem
o conjunto de fatores que determinam uma oportunidade. Ou seja, sob
essa ótica, cada trader possui isoladamente um método e uma
calibragem do método para acompanhar e interagir com o mercado.
Todos os 15 conceitos ou estilos operacionais permitem perspectiva
individual, sendo que o grau de individualidade tanto no
acompanhamento do mercado, quanto na forma de interagir costumam
variar de trader para trader.

Vamos ver alguns exemplos:

64
Primeiro: Imagine que você utilize análise fundamentalista como
conceito ou estilo operacional. Agora imagine que o seu processo
decisório envolva basicamente comprar papéis de empresas que
estejam negociando a um determinado desconto sobre o valor contábil
das ações. Obs: não quero questionar esse método, mas apenas dar
um exemplo. Quem define o desconto sobre o valor contábil é você!
Por mais que faça um estudo do histórico de desconto sobre o valor
contábil e otimize o desconto que melhor justificaria uma compra no
passado, o processo de escolha é seu. Talvez só você no mundo esteja
olhando para essa variável (Preço sobre valor patrimonial) e para essa
magnitude de desconto (20%, por exemplo).

Segundo: Imagine que você é um Trend Follower, ou seja, acredita nas


crenças que a abordagem de “seguidor de tendência” requer. Imagine
também que utilize cruzamento de médias como setup (conjunto de
fatores que definem uma oportunidade). Quem define qual a melhor
combinação de médias para indicar uma compra ou venda? Você!
Independentemente de ter aprendido em um curso, em um chat ou de
ter otimizado em um sistema, você é quem escolhe a melhor
combinação de médias. Talvez só você no mundo esteja olhando e se
balizando nessa combinação específica de médias.

Terceiro: Imagine-se operando no conceito de reconhecimento de


padrões. Nesse conceito, cabem análises de candlesticks, formações
gráficas e algumas outras. Já parou para pensar quem escolhe o grau
de inclinação máximo que um neckline de um Ombro Cabeça Ombro
deve ter, por exemplo? São todas variáveis que você escolhe, através
de aprendizado ou através da prática, mas que podem ser somente
suas.

Quarto: Este último exemplo reflete o extremo da perspectiva


individual. Os traders que acreditam nas crenças exigidas pelo conceito
de “ordenações da natureza” costumam ter as crenças mais singulares
e individuais possíveis, pois o nível de subjetividade dos instrumentos
utilizados neste estilo é muito alto. Quem utiliza este conceito costuma
trabalhar com números de Fibonacci, ondas de Elliott, fractais e todos
os seus derivados. Estes instrumentos permitem uma subjetividade
extrema no acompanhamento e consequente análise do mercado, pois,
cada trader vê o que quiser ver. Cada trader aplica o Fibonacci no
tempo gráfico que quiser, encaixa o Fibonacci no trecho que quiser, ou
seja, faz o que a ferramenta gráfica permitir. Novamente vai a frase:
Talvez só você no mundo esteja vendo isso!

Quando você olha para o mercado com crenças muito específicas a


chance de confundir versão (sua análise) com verdade (informação que
o mercado efetivamente esta gerando) aumenta muito. Por mais que
você teste e valide estatisticamente o seu método ou setup, os

65
mercados estão em constante processo de transformação o que pode
tornar seu método, obsoleto. Lembre-se: cada negócio (tick), cada
alteração de oferta de compra e venda, tudo é novo. Além de tudo ser
novo, não há limite para o próximo movimento, pois, o limite para o
mercado andar é o limite que apenas um trader estabelecer naquele
momento. Singularidade e imprevisibilidade são características
inevitáveis e intrínsecas à natureza dos mercados, mas são crenças
muito difíceis de serem levadas em conta em praticamente todos os
conceitos ou estilos operacionais, quando se olha da ótica de
perspectiva individual.

Se você opera sob ótica individual, mesmo que inconscientemente, a


chance é grande de você ficar no seu mundo. É grande a chance de
filtrar a informação do mercado com suas crenças específicas e de
desconsiderar as variáveis que não podem ser vistas.

Outro aspecto, é que mesmo de forma inconsciente, você acaba


querendo estar certo em sua análise. Quando queremos algo,
automaticamente criamos expectativa. Está lembrado das
consequências psicológicas decorrentes das expectativas? Quando o
resultado de nossa ação supera as expectativas sentimos uma
sensação boa, entretanto, quando o resultado de nossas ações não
atinge nossas expectativas costumamos sentir frustração, dor e etc.

Quando as variáveis que definem uma oportunidade estiverem


presentes, sua atenção tende a voltar 100% para o resultado de sua
operação, tornando-o “cego” para perceber qualquer outra informação
que o mercado pode eventualmente enviar, pois você só sabe ver o
mercado pelo “seu” método.

Isso tudo pode parecer controverso ou sem sentido num primeiro


momento. Você deve se perguntar, como pode alguém operar sem um
viés analítico, ou como pode alguém operar sem esperar estar certo,
sem opinião? O ponto chave é: quando você é um trader ativo e price
taker (seu lote não influencia o mercado), por melhor que seja o seu
método ou sua análise é praticamente impossível prever ou antecipar
todas as possíveis combinações que o mercado irá fazer, é
praticamente impossível se adaptar às mudanças constantes de
dinâmica de mercado e pior, é muito difícil de sentir o fluxo dos
mercados14.

Trader ativos consistentes preferem simplesmente se render ao fluxo


dos mercados a analisar de forma rígida e individual. Se render ao fluxo
dos mercados significa estar em paz com qualquer movimento que o
mercado fizer, significa aceitar sem nenhuma resistência interna (dor,
frustração, ansiedade etc.) os movimentos de preço feitos pelo

14
Os mercados, por mais erráticos que sejam, por muitas vezes possuem um fluxo.

66
mercado. Para sentir o fluxo dos mercados é necessário operar sob
uma perspectiva diferente, sob influência de um conjunto de crenças,
muitas vezes, diferentes das crenças que a maioria de nós possui.

Meu papel nesta parte do material é fazê-lo parar para pensar que
existem outras oportunidades de comprar e vender no mercado, as
quais você ainda não percebe por potencialmente estar preso às
relações de causa e efeito (crenças) que aprendeu ou desenvolveu.
Está lembrado quando fizemos a seguinte pergunta no começo do
material: “quem opera entre os seus setups”? É a partir daqui que
falaremos sobre essas possibilidades.

5.3.2 PERSPECTIVA COLETIVA - Objetividade

Os pontos que mais me chamavam a atenção enquanto eu ainda era


analista (enquanto eu apenas analisava o mercado sob a perspectiva
individual) era a capacidade de traders ativos atuantes conseguirem
obter resultados consistentes, mesmo em condições de mercado
adversas e muitas vezes, imprevisíveis sob a ótica da minha análise.
Eu não conseguia achar explicação para a capacidade de eles
ganharem dinheiro de forma consistente, sem nenhuma habilidade
analítica. Talvez essa tenha sido a grande causa que me motivou a
aprender o trading ativo.

Quando comecei a modelar os traders de sucesso reparei que todos


pensavam de forma muito similar. Essa percepção não se restringia à
forma de pensar, mas também a forma de agir. Eu olhava o book de
ofertas e reparava que era muito comum haver concentração de ordens
da mesma corretora em determinados níveis de preço. Reparava que
ao acontecer determinados eventos, uma série de ordens disputavam
colocação em determinados níveis de preço, ou seja, vários traders
pensavam e agiam quase que simultaneamente.

O tempo foi passando e aos poucos fui largando as amarras que me


prendiam ao viés analítico. Percebia que por melhor que fossem minhas
análises, a maioria das vezes eu não estava em sintonia com o fluxo
do mercado, mas sim “torcendo” para acontecer o movimento que eu
esperava. Permiti cada vez mais olhar o mercado sem esperar nada
dele, simplesmente aceitando o fluxo. Aceitar o fluxo dos mercados
fazia com que a sensação de “torcida” ficasse cada vez menor. Cada
vez mais parava de focar no futuro e focava no presente. Quer dizer
que fui parando de me preocupar em prever o que ia acontecer e
comecei a aceitar e reagir ao que estava acontecendo, no momento.
Cada vez mais fui percebendo oportunidades que até então eram

67
invisíveis, pelos gráficos ou pelas análises que eu utilizava e cada vez
mais fui percebendo como outros traders operavam.

Descrevi essa introdução acima, justamente, porque muitos leitores já


possuem crenças estabelecidas sobre a forma de interação com o
mercado. Se quiserem começar a sentir o fluxo dos mercados de forma
sistemática o caminho será o mesmo. Para os leitores que não possuem
crenças já estabelecidas, o caminho será menos custoso.

Ok, mas o que é a perspectiva coletiva?

Olhar o mercado pela perspectiva coletiva significa filtrar e perceber as


mesmas informações de forma coletiva. Não significa necessariamente
saber o que os demais traders (price makers) irão fazer, e nem porque
eles estão operando, mas sim ler o mercado da mesma forma com que
todos o fazem. Você deve estar perguntando: mas como isso é
possível? Como é possível ler o mercado da mesma forma que outra
pessoa? A resposta é: ter as mesmas crenças.

Uma das principais formas de modelar ações de outras pessoas é


modelar suas crenças. Nesse caso, qual a principal crença dos traders
que operam sob a perspectiva coletiva? A crença dominante é o fato
de não haver melhor forma de refletir o comportamento do mercado
do que acompanhar o fluxo das ordens, ou seja, se “tomaram do
vendedor” ou se “bateram no comprador” ponderados pelas variáveis
de intensidade, agressividade e circunstância. Quando você acreditar
sem a menor sombra de dúvidas nessa forma de olhar o mercado, você
automaticamente focará no momento e passará a reagir ao invés de
prever.

Vou dar um exemplo: Imagine uma opção de Petrobrás com o seguinte


retrato: 300.000 lotes na compra a 0,3 e 350.000 lotes na venda a
0,31. Agora imagine que um trader tenha clicado para “tomar” os
350.000 lotes a 0,31, ou seja, agrediu o vendedor por aceitar pagar
0,31. Concorda que este evento é inquestionável? Não tem como
alterar essa leitura, pois, efetivamente alguém tomou 350.000 lotes a
0,31.

Não estou afirmando que a sua reação de comprar ou vender é lógica,


pois não é. Apensar de ter existido uma agressão de compra (fluxo)
intensa, não sabemos em qual circunstância ocorreu, portanto, não
podemos afirmar se é para comprar. A questão é: todos percebem e
consequentemente levam em conta que alguém tomou 350.000 lotes
a 0,31. Agora eu gostaria que você refletisse sobre como você
perceberia essa informação em qualquer outro sistema analítico, que
não seja a Análise de Fluxo de Ordens. Certamente difícil de responder.
Concorda que é muito diferente de olhar o mercado através de
cruzamento de médias? Quando podemos dizer que a média cruzou?

68
Depende do tempo gráfico que você esta usando e pior, depende da
combinação de médias que você esta usando. Qualquer conceito muito
voltado à perspectiva individual torna-se questionável.

Esse processo de olhar o mercado pelo conceito de Análise do Fluxo de


Ordens será lento. Não é algo rápido, pois exige treino e adaptação
visual. Contudo, permita-se fazer o exercício de tirar todos os gráficos
e indicadores de sua tela e apenas ler o mercado através do book de
ofertas e histórico de negócios15. Repare se estão “tomando” ou
“batendo” e se de forma agressiva, intensa e em qual circunstância.
Faça esse exercício por alguns dias e repare a diferença de perspectiva.

Após alguns dias você irá perceber o fluxo das ordens pendendo para
a compra ou venda. Vai perceber as inversões de fluxo, ou seja,
quando param de bater e tomam de forma intensa e agressiva e irá
perceber as circunstâncias em que as agressões ocorrem. Aos poucos
irá perceber em quais níveis de preço valeria estar comprado, vendido
ou fora do mercado. Faça o exercício e permita-se sentir o fluxo.

De forma resumida, a diferença entre as perspectivas é muito sutil.


Quando você olha o mercado através de algum método, setup ou
qualquer combinação de variáveis rígidas, ou seja, sob perspectiva
individual, você tende a querer que o mercado preencha suas
expectativas pessoais. Como já vimos, expectativas são crenças
projetadas e o que define a intensidade dessa crença é a quantidade
de energia armazenada sobre ela. Se nossas expectativas não são
atingidas sentimos dor, frustração, stress, medo etc. Esses estados
mentais acima tem potencial de alterar nossa estrutura de percepção,
o que nos fará olhar para o mercado de forma diferente, de forma a
evitar o que não gostaríamos que ocorresse.

Dessa forma, concorda que não estaremos sob condições adequadas


de avaliar e muito menos de operar? Agora, quando olhamos para o
mercado sem nenhum viés analítico, ou seja, apenas lendo o que está
acontecendo, naturalmente não temos expectativa sobre a direção
futura dos preços. Não esperamos nada do mercado, pois aceitamos
qualquer movimento que ele faça. Com essa perspectiva coletiva,
qualquer que seja a direção dos preços, não haverá frustração de
expectativa, pois você não estará querendo nada. Se não há frustração
não há porque haver dor, stress, medo etc.

Muitos de vocês até agora poderiam achar que a maior habilidade de


traders ativos (price takers) consistentes era a capacidade de prever a
direção futura dos preços. Por incrível que pareça o trader ativo
consistente opera com uma cabeça de não ter que saber o que vai

15
Mesmo que você esteja usando o Plugin Tape Reading, nós sugerimos que dê os
primeiros passos através da leitura crua do Book e Times and Trades.

69
acontecer. Os melhores traders preferem ficar no fluxo porque não
tentam tirar nada do mercado, ou seja, preferem simplesmente aceitar
o que o mercado tem para oferecer a cada momento. Isso porque
suas crenças em imprevisibilidade e singularidade do momento
são tão fortes e energizadas que inibem qualquer tentativa de
previsão, mesmo que o método seja testado e pareça excelente.
A única forma de interagir com os mercados, portanto, não seria
analisando e formando opinião, mas sim reagindo a cada negócio,
reagindo a cada alteração de oferta de compra ou venda e aceitando o
fluxo do momento.

70
6 SINCRONIZANDO A MENTE COM O FLUXO DOS MERCADOS

Sincronizar a mente com o fluxo dos mercados significa ler a


consciência coletiva dos participantes do mercado através das mesmas
crenças. É como se não houvesse separação entre a sua leitura de
mercado e a leitura dos demais traders. Nada que o mercado faça tem
o potencial de gerar algum tipo de sensação em você, porque você
está, simplesmente, em conformidade com o fluxo.

Aceitar o fluxo dos mercados é uma tarefa muito difícil, para a maior
parte de nós, justamente por conta das nossas crenças. Em quase
todas as atividades cotidianas, sentimos quase que obrigados a
interferir no meio ambiente. Não que isso seja errado, pois é assim que
a vida funciona, porém, quando se trata do mercado somos meros
telespectadores. Vou dar alguns exemplos que ajudarão, de maneira
análoga, a perceber as diferenças.

Se fossemos preparados para aceitar o fluxo do mercado, ou seja, se


tivéssemos as crenças de base que nos permitissem sentir o fluxo,
muito provavelmente agiríamos dessas formas em tarefas cotidianas:

- aceitaríamos críticas (desde que coerentes) com naturalidade e


espontaneidade 100% das vezes;

- seríamos bons ouvintes;

- aceitaríamos novidades, mesmo que desagradáveis, sem restrições


ou reclamações;

- assumiríamos a culpa com maior frequência, quando fosse


pertinente;

- não tentaríamos mudar algo que não pode ser mudado.

Essas são apenas algumas analogias entre cotidiano e trading, que


busquei fazer. Volto a dizer, em nossas vidas, nós temos e devemos
buscar controle em determinadas situações. Entretanto, quando se
trata de interação com os mercados, esse tipo de estrutura de crenças
não funciona, justamente, porque independentemente de quanta
energia ou expectativa você deposite, você não mudará a história. As
ordens vão continuar fluindo e consequentemente os preços
continuarão oscilando, independente da sua vontade. Dessa forma,

71
deve existir uma mudança de foco, do mundo externo para o mundo
interno, sendo que a única coisa que você pode e deve controlar é
exclusivamente você mesmo.

Se pudesse resumir em uma frase o principal artifício para sincronizar


a mente com o fluxo dos mercados seria: olhar para o mercado sem a
menor preocupação. Não estar preocupado significa não precisar
acertar, não ter medo de errar, não ter medo de perder dinheiro, não
precisar provar nada a ninguém, não precisar ganhar dinheiro, não
precisar recuperar prejuízo e etc. “Despreocupado” é um estado
neurofisiológico que te permite ler, perceber e aceitar os movimentos
de mercado de uma forma fiel à realidade, além de manter sua
expectativa sobre a direção futura dos preços, absolutamente neutra.

Ok, mas como manter um estado despreocupado e operar sem


expectativa com toda essa imprevisibilidade do mercado?

As soluções para os problemas mentais do trading ativo começam a


partir daqui. Para manter um estado despreocupado e
consequentemente as expectativas neutras, você terá que alterar sua
estrutura primária de crenças sobre a natureza do mercado. Esse
conjunto novo de crenças fará com que você opere totalmente alinhado
com a realidade do mercado permitindo manter o estado
despreocupado.

6.1 Estrutura primária de crenças:

Abaixo segue a lista com as seis crenças primárias que deverão ser
incorporadas. Explicarei a importância de cada uma e posteriormente
discutiremos como incorporá-las à sua estrutura de pensamento.

- Imprevisibilidade

- Singularidade do momento

- Você não precisa saber o que vai acontecer para ganhar dinheiro

- Cada erro te deixa mais perto do acerto

- Qualquer oportunidade nada mais é do que uma probabilidade

- O foco é no jogo e não no dinheiro

72
6.1.1 Imprevisibilidade

Esta lembrado do segundo capítulo quando falei de natureza de


mercado? A crença em imprevisibilidade é importantíssima e essencial
para seu desenvolvimento. De forma resumida, o mercado reflete a
somatória de cada crença de cada trader individualmente, sendo que
o limite para o barato e caro é o limite que, pelo menos um trader no
mundo, julgar. Dessa forma, basta apenas um trader dar ou executar
uma ordem para o mercado continuar “tickando” para cima ou para
baixo. Não há limite para isso.

Dessa forma, a energia potencial para o mercado continuar subindo ou


caindo depende, no limite, apenas de um trader. Concorda que essa é
uma variável totalmente incontrolável e imprevisível de nossa parte?
Dessa forma, por mais que seu setup seja perfeito, por melhor analista
que você seja e por melhor que você consiga ler o fluxo das ordens,
uma vez que você entra na posição o resultado do seu trade não
depende de você e sim da ação dos demais traders, sobre os
quais você não tem o menor controle.

Quando você acreditar fielmente que tudo pode acontecer, não existirá
mais aquela sensação ruim de operar com medo e tentando evitar
perder, pois você estará preparado emocionalmente para “errar”, além
disso, você estará preparado emocionalmente para aceitar que, por
mais que sua compra ou venda pareça perfeita algo pode mudar e
negar o potencial de ganho do seu trade. Basta um trader clicar para
mudar o rumo da história.

6.1.2 Singularidade do momento

No começo do material falei sobre imprevisibilidade, singularidade do


momento e dinâmica de mercado. Basicamente estes três conceitos
fazem com que o mercado se comporte de uma forma totalmente
diferente do comportamento das demais situações que costumamos
encontrar em nossas vidas. Esse exemplo específico de singularidade
do momento é o que mais diverge de praticamente tudo que estamos

73
acostumados. Nós aprendemos a criar uma relação de causa e efeito
para quase tudo na vida.

Para nós tudo tem uma explicação, tudo é justificável. Dessa forma,
quanto mais vezes e quanto mais intensas forem essas relações de
causa e efeito, mais energizadas serão nossas crenças.
Consequentemente mais energizadas serão nossas expectativas sobre
tais crenças. Vou mais uma vez aplicar esses conceitos ao mercado.

Imagine que um trader ainda não acredite nos conceitos da natureza


de mercado (especialmente em imprevisibilidade e singularidade do
momento). Agora gostaria que você pensasse sobre como este trader
costuma definir uma oportunidade para operar, independentemente do
estilo ou do conceito operacional que adote. Quero dizer: qual é o
caminho mais lógico e que a maioria dos traders percorre antes de
operar? Como buscam identificar o conjunto de fatores e variáveis que
geram uma oportunidade?

A resposta mais comum costuma ser: “A maioria busca padrões


através dos gráficos”.

Se você realmente prestou atenção na leitura e se permitiu aceitar uma


opinião diferente, você já deve saber o que tem de errado com esse
raciocínio comum descrito acima. O primeiro problema é de percepção
e deriva do fato de o gráfico não refletir fielmente o que é o mercado.
Dessa forma, o gráfico, por si só não é causa e nem fator que possa
explicar os movimentos de preço.

O segundo problema e tema desta parte do material deriva do fato de


não haver “padrão” no mercado. Em várias situações e em vários
momentos tendemos a acreditar que existe um comportamento
repetitivo e que identificando esse comportamento teremos um setup
e poderemos ter vantagem no mercado. Isso é meia verdade! É um
pouco verdade, pois, há sim pequenos padrões de comportamento no
mercado e que são identificáveis e aproveitáveis, contudo, esses
padrões fatalmente irão desaparecer. Irão desaparecer porque a
dinâmica do mercado muda e sempre será assim. Para te recordar listei
novamente os itens que compõem a dinâmica de mercado:

- Quem opera, por que opera e como opera?

- O que, de fato, move e o que tem potencial de mover os preços?

- Qual a relação de causa e efeito atual (cenário econômico)?

- Se é mercado de fluxo ou volatilidade (quantidade de lotes na tela);

- Participação de day trade no volume total do dia;

74
- Nível de aposta dos players (se estão apostados na compra/venda e
quanto);

- Grau de operabilidade (quantas oportunidades o mercado faz


disponível);

- Quantidade de players “parceiros” (grau de divergência de opinião);

- Grau de elasticidade (o quanto retorna a cada inflexão de preço).

Todos estes conceitos são mutáveis e, portanto, cada negócio, cada


alteração de oferta de compra e de venda são ocorrências únicas. É
impossível replicar com exatidão uma situação no mercado,
considerando todas as variáveis acima. Se você ainda não esta
convencido vou apresentar outra forma de pensar. Atualmente há
cerca de 500.000 cadastros de pessoas físicas na bolsa de valores. Não
sabemos ao certo quantos cadastros institucionais, mas certamente
esta na casa de milhares. Será que alguma vez na vida a posição
(comprada ou vendida) de cada um desses players será exatamente a
mesma? É impossível. A cada negócio, a posição de alguns desses
players já não é mais a mesma fazendo com que a energia potencial
do mercado se altere. Isso, por si só, já corrobora com o princípio da
singularidade.

Sei que é difícil de mudar de perspectiva de uma hora para outra, mas
você terá que passar por isso. Singularidade do momento não é minha
versão sobre o mercado, é uma verdade.

Dessa forma os traders consistentes preferem se render ao fluxo dos


mercados a tentar achar um padrão. Acreditar no novo em conjunto
com a crença em imprevisibilidade te força naturalmente a focar no
presente, ou seja, no fluxo do momento.

Imprevisibilidade e singularidade também são crenças que te permitem


neutralizar expectativas. Repare: Se sua crença em imprevisibilidade
e singularidade do momento for mais energizada que sua crença na
capacidade de previsão do seu método concorda que fica praticamente
impossível de criar expectativa sobre se vai subir ou cair? Não estou
sugerindo que você tenha que duvidar ou não acreditar no seu método,
pelo contrário. Entretanto, estou afirmando que se você não considerar
as variáveis desconhecidas e incontroláveis (atuação dos demais
traders) você sempre ficará frustrado quando seu trade der errado.

Uma frase que reflete e ajuda nesse dilema de confiar no método e ao


mesmo tempo acreditar em imprevisibilidade e singularidade é:
“esperar o melhor, mas preparado para o pior”. Ao mesmo tempo em
que você confia no que faz, qualquer que seja o seu método (sugiro
que seja análise de fluxo de ordens) você também acredita que as

75
indicações são apenas probabilidades e que o resultado do seu trade
não depende somente da sua avaliação, mas sim da interação de
outros traders.

6.1.3 Não é necessário saber o que vai acontecer para ganhar


dinheiro

Um dos erros emocionais mais comuns entre traders é a necessidade


de acertar um trade isoladamente. Na maioria dos casos a carga
emocional depositada em um único evento é muito grande, ou seja, se
o trade for positivo a energia é igualmente positiva, por outro lado, se
for perdedor a energia emocional depositada sobre a perda também
tende a ser grande. Por este motivo, traders comuns são viciados em
análise de mercado tendendo cada vez mais à perspectiva individual.
Eles partem do pressuposto que só ganharão dinheiro no day trade se
conseguirem adivinhar o que vai acontecer. Dessa forma tentam todos
métodos, setups, calibragem possíveis a fim de encontrar a coisa mais
próxima de uma fórmula mágica.

Por outro lado traders ativos consistentes acreditam que não é


necessário prever o futuro para ganhar dinheiro. Acreditam nisso
porque confiam no método e na habilidade de ganhar dinheiro com
esse método. Por mais que um ou outro trade dê errado é só continuar
seguindo a estratégia que operações boas virão.

A melhor analogia que encontrei até hoje e que utilizo nos cursos é
comparar trading ativo à jogar moeda (cara ou coroa). Quando se joga
moeda, não se tem expectativa sobre se sairá cara ou coroa, pois
acreditamos indiscutivelmente em resultado incerto. Por mais que o
resultado de cada jogada seja incerto, sabemos que se continuarmos
jogando a moeda as chances de acertarmos aumentam. Quanto mais
jogarmos, mais chances para acertarmos.

Pense no seguinte exemplo: Imagine que você tenha que jogar moeda
todos os dias e que ganhe, se acertar no acumulado das jogadas, pelo
menos uma vez ao dia. Você pode parar de jogar a hora que quiser,
não é necessário jogar todas as vezes que o jogo permitir. Quantas
chances você gostaria de ter? Uma ou várias? Obviamente várias, não
é mesmo? Isso porque, quanto mais jogadas mais chances de usar a
probabilidade a seu favor e conseguir, no acumulado das jogadas
acertar o lado que escolheu.

Como aplicar isso ao trading ativo? Primeiramente você precisa


acreditar em resultado incerto e para isso precisa adotar as crenças em

76
imprevisibilidade e singularidade do momento. Dessa forma, você só
precisará confiar no método operacional para tirar proveito da
quantidade de eventos.

Ok, até aqui tudo bem, mas como confiar sem sombra de dúvidas no
método? Sem dúvidas esse é outro foco de problemas para a maior
parte dos traders. Como já vimos, a maioria dos traders utilizam
gráficos ou indicadores técnicos para tomar a decisão. Vimos também
que estes instrumentos não refletem a realidade e, portanto, não são
bons “explicadores” para o movimento de preço. Dessa forma, é de
fato bem difícil de acreditar no método, até porque a dinâmica de
interação entre os players muda constantemente, alterando
consequentemente a forma de definir uma oportunidade de ganharmos
dinheiro.

Quando você adotar o fluxo de ordens como método perceberá que


confiança é apenas uma questão de tempo. É uma questão de
conseguir agir sobre o que você percebe no fluxo do momento. Não
haverá mais dúvidas, pois você estará apto a ver a corrosão (agressão)
das ordens nas filas da compra/venda e terá discrição quanto à
intensidade, agressividade e circunstância desses negócios.

6.1.4 Cada erro te deixa mais perto do acerto

Esta crença é muito alinhada à anterior no sentido de exigir do trader,


uma confiança inabalável no método. Desde que você consiga enxergar
o fluxo do mercado, seu trabalho não será mais acertar. Será apenas
seguir. Desta forma basta apenas executar as ordens a cada vez que
a combinação dos fatores (sugiro que sejam os fatores estudados na
análise do fluxo de ordens) estiver presente. Com este raciocínio, por
mais que sua operação ora ou outra dê errado, não há porque hesitar
em executar a próxima operação, já que o que define sua oportunidade
não é a estatística, mas sim o fluxo. A cada operação errada estaremos
mais próximos de acertar, pois, reduzimos a probabilidade de
ocorrência do imprevisível aumentando o número de eventos com
chances a nosso favor.

O trader comum tende a fazer justamente o contrário, ou seja, vai


ficando cada vez mais preocupado e assustado a cada perda. Com esse
pensamento, cada operação perdedora contribui negativamente para
solidificar sensações, estados e crenças. Não podemos nos esquecer
de que a maior parte dos traders pessoas físicas tomam decisão em
cima de variáveis que não representam adequadamente o mercado.
Talvez esse seja um dos grandes motivos de pensarem dessa forma.

77
Por exemplo, se você opera nos cruzamentos das médias 8 períodos
com 21 períodos, você até pode confiar no método por um tempo,
justamente enquanto essa calibragem estiver funcionando. Mas, se o
mercado reduzir a frequência de oscilação, ou seja, passar a oscilar
menos, por exemplo, concorda que a dinâmica de negociação pode
mudar e sua estratégia parar de funcionar? Como acreditar que cada
erro te deixa mais perto do acerto se o seu método fatalmente terá
que ser reformulado, mais dia menos dia? A “desconfiança” surge do
fato de você saber que em algum momento terá que haver um toque
de discrição, seja reavaliando a estratégia, descartando-a ou
simplesmente continuar executando.

Confesso que eu demorei em assimilar o porquê de os melhores traders


com quem convivi continuarem executando ordens mesmo que
estivessem perdendo dinheiro no dia. Só aprendi a pensar assim e
incorporei à minha estrutura de crenças quando definitivamente adotei
o fluxo de ordens como método e quando tive experiências positivas
simplesmente executando as ordens sem hesitar.

Houve diversos dias em que tive operações seguidas perdedoras e


continuar executando as ordens toda vez que uma oportunidade estava
presente se mostrou a melhor saída. É nesses dias que você solidifica
a crença na sua capacidade de ganhar dinheiro.

6.1.5 Qualquer oportunidade nada mais é do que uma


probabilidade

Independentemente de como você acompanhe o mercado de qual


perspectiva adote e de qual seja o seu setup, tudo que você define
como oportunidade nada mais é do que uma probabilidade. Mesmo que
você só olhe o fluxo das ordens e que faça isso com maestria, ainda
assim os sinais devem ser encarados como prováveis. Já discutimos
sobre isso quando falamos de imprevisibilidade, pois por melhor que o
seu sinal seja ou pareça, basta um trader para negar o potencial de
ganho e mudar a história. Só um trader!

Sendo assim a melhor maneira de encarar o trading não é


depositar “esperança” em um trade, isoladamente, mas sim na
sequência de trades. Há vários fatores desconhecidos e
incontroláveis no mercado e justamente por isso, o foco deve ser
cumprir o plano e não acertar uma jogada.

Se você depositar energia em cada trade, as emoções tomarão conta


de você e mesmo que não perca dinheiro, o stress irá tirá-lo do jogo.

78
Sempre faça avaliações da sequência de operações, nunca de uma
especificamente. Só após uma série de operações você será capaz de
distinguir sorte de estratégia e também será capaz de distinguir os
tipos de erros, sobre os quais falaremos mais adiante.

6.1.6 O foco é no jogo e não no dinheiro

“Dinheiro nunca foi uma grande motivação para mim, e sim uma
espécie de placar. O que realmente estimula é jogar”.

Donald Trump

Há várias frases como esta não só na literatura corporativa, mas sim


entre traders reconhecidos. Aliás, eu ouvi uma frase que marcou e
carrego até hoje: “separe sua vida pessoal, do trade”. Mais uma vez
tenho certeza de que o axioma “separe sua vida pessoal, do trade” soa
vago, assim como eu julguei na primeira vez que ouvi. Só aprendi e
inseri no meu sistema de crenças quando tive experiências positivas
adotando esse raciocínio.

Imagine como será sua vida se pensar dessa forma: Hoje ganhei cinco
mil reais, vai dar para comprar tais coisas. Hoje perdi três mil reais,
droga, vou economizar no final de semana! Qual a chance de dar certo?
Adianto dessa forma você não conseguirá evoluir. Sua vida será em
função dos ganhos e perdas e além do fator destrutivo, você será
influenciado a fazer avaliações, operações e etc as quais não faria caso
não estivesse emocionalmente influenciado. Imagine que esteja
precisando de dinheiro, como sentiria se perdesse algumas operações
seguidas?

Outra forma que costumo abordar nos cursos é a linearidade dos


resultados quando somos funcionários do mundo corporativo. Se você
ganha dez mil reais por mês, por exemplo, ao final dos trinta dias você
contará com aquele dinheiro. Muitos preferem fazer a conta por dia
útil, ou seja, por mais que o salário seja pago no final do mês a cada
dia útil o ganho provisionado seria de quinhentos reais. Agora pense
nesta mesma pessoa, mas no cargo de trader e que foque no dinheiro.
A cada dia, ou melhor, a cada operação positiva, mais perto de cumprir
o objetivo que é ganhar dez mil reais no final do mês. Entretanto, a
cada operação negativa mais longe de ganhar os dez mil reais no mês.
Com essa mentalidade, você acha que esse trader vai aceitar stopar
sem hesitar quando estiver perdendo ou quando o mercado mostrar
que os parâmetros utilizados para definir a entrada não existirem mais?
Você também acha que este trader irá operar sem hesitar mesmo que

79
as duas ou três operações anteriores forem perdedoras? Muito
provavelmente esta mentalidade de focar no dinheiro amarra o trader
na necessidade de estar certo e na necessidade de ganhar. Essa
amarra emocional de só fazer trade para frente prejudica e muito, pois
como já vimos, não há nada que possamos fazer para evitar algumas
operações perdedoras. O resultado de nosso trade esta nas mãos de
outros traders.

Enquanto traders comuns estão amarrados no dinheiro e


consequentemente cometendo erros comuns de não stopar e hesitar
em novas entradas, traders consistentes estão desprendidos do placar
e focados somente nas oportunidades do mercado.

Você precisa gostar do jogo, gostar do trade a tal ponto que o dinheiro
seja apenas a consequência do trabalho bem feito.

6.2 Alinhando as expectativas

Lendo o fluxo das ordens você terá sinais que o motivarão a entrar e
sair do mercado, contudo, esses sinais nada mais são do que
probabilidades. Alguns trades darão certo enquanto outros darão
errado, mas o resultado de cada trade não depende de você.

Quando você acreditar fielmente nessas crenças estará


automaticamente preparado para operar esperando o melhor, mas
preparado para o pior e dessa forma nada tem o potencial de frustrar
suas expectativas e te deixar num estado empobrecedor. Isso porque
suas crenças já incorporam eventos novos, improváveis e os eventos
que não dependem da sua vontade.

Quando você entrar no mercado o fato de, eventualmente, os preços


se moverem contra a sua posição, não o fará interpretar esse evento
de forma negativa e nem hesitar em stopar e aceitar a perda, pois você
sabe e acredita que isso, ora ou outra é inevitável. Dessa forma você
irá operar com a perspectiva de não precisar saber o que vai acontecer.

Quando você efetivamente adotar essas crenças como primárias, ou


seja, energizadas e inquestionáveis você terá as expectativas
totalmente alinhadas com a realidade do mercado, neutralizando todo
o potencial prejudicial gerado por ele. Com essas crenças, você sempre
estará certo. Não significa que ganhará dinheiro, mas estará certo,
porque nenhum resultado será inesperado, por pior que ele seja. Dessa
forma não haverá motivo para sair do estado “despreocupado” exigido
no trading.

80
Eu imagino que, a essa altura você esteja fazendo questionamentos
deste tipo: “mas como adotar essas crenças?”?; “eu entendi as
crenças, mas não consigo esquecer as minhas crenças anteriores,
como faço?”?

São dúvidas absolutamente comuns e justificáveis, já que o processo


de mudança de crenças exige conhecimento sobre o processo, vontade
de mudar e disciplina.

6.3 Como mudar a estrutura de crenças?

Como já vimos no capítulo sobre percepção, crenças são filtros pré-


arranjados e organizados para nossas percepções do mundo. São como
comandos para o nosso cérebro interpretar a informação recebida. As
crenças atuam de forma a moldarem nossa forma de interpretação
sobre todos os eventos do mundo, sendo que quando alguém acredita
efetivamente em algo, para esta pessoa, isto se torna verdade
(independentemente de ser apenas uma versão).

Crenças são memórias energizadas devido às nossas experiências


passadas (positiva ou negativamente) através de linguagem (palavras
ou frases). Quanto mais energizada a crença maior o reflexo exercido
sobre a nossa percepção do mundo.

Muitas de nossas crenças nos influenciam de maneira totalmente


inconsciente, pois não temos que pensar ativamente nelas para que
façam efeito sobre nossa percepção e sobre nosso comportamento.
Lembre-se de que seus atos são derivados de suas crenças.

Agora pergunto a você: será que efetivamente conhece todas as suas


crenças sobre si mesmo e sobre o mercado? Muito provavelmente,
você já preencheu o material inicial do curso onde perguntamos, dentre
outros, sobre suas crenças. Se você, por qualquer motivo, não tenha
dado atenção que ele merece essa é a oportunidade de refazê-lo ou,
simplesmente melhorar o que já escreveu. Agora você já sabe o quanto
suas crenças podem ajudá-lo ou atrapalhá-lo não só no trading, mas
em todas as atividades da sua vida.

Se for necessário imprima novamente o material e aprofunde o


trabalho que já fez. É importante que mantenha todas as crenças que
já tinha escrito e que se esforce para descobrir novas. Percorra por
cada um dos grupos:

81
- Primeiro reescreva suas crenças sobre você.

Vá fundo, dessa vez não se restrinja ao trading, mas busque crenças


sobre si em sua vida. Quando você fala de si mesmo para os outros, o
que você diz? Quais são as histórias que você conta sobre você
mesmo? Elas são realmente verdadeiras, ou você as aumenta ou
diminui? Escreva. O que você vive dizendo para si mesmo que quer,
mas acha que não é possível? Escreva.

Você tem o hábito de presumir as coisas? Passe um dia percebendo


quantas coisas você presume/deduz/acha que sejam assim ou assado.
Escreva. Com um problema em mente, analise os desafios e limitações
que está vivendo e pergunte-se: "Em que acredito para que isto esteja
acontecendo assim?". Anote tudo. Quais são os seus apegos
emocionais? Apegos emocionais são aqueles “botões” em nós que
quando tocados por alguém detonam emoções indesejadas. Se você
ainda está com raiva (ou magoado) porque alguém disse ou fez tal
coisa, ai tem um apego emocional, um “botão” que desencadeia um
curto circuito emocional. Escreva. Do que mais tem medo? Por quê? O
que mais gostaria de evitar? O que você critica ou julga nos outros
também pode revelar suas crenças que está vendo refletidas no mundo
exterior. Reflita um pouco sobre isto tudo. Sem culpas, apenas
querendo conhecer-se melhor.

- Depois reescreva todas as suas crenças sobre o mercado.

No material inicial dividimos as crenças sobre mercado em grupos, são


eles:

Crenças sobre direção do mercado e preço;

Crenças sobre trading;

Crenças sobre métodos, estratégias operacionais;

Crenças sobre análise técnica (em específico);

Crenças sobre gerenciamento de risco;

Crenças sobre o segredo de fazer dinheiro no day trade;

Crenças sobre como os melhores traders operam e no que acreditam.

Se tiver dificuldades procure anotar logo depois de fazer uma operação.


Anote quando ganhar e também anote quando perder. Anote o que
acredita que esta funcionando.

Recomendo que não faça esse trabalho em um único dia. Faça em um


período de tempo. Dificilmente todas as suas crenças surgirão em um
exercício. Será necessário viver algumas situações para que perceba

82
quais são suas reais crenças. Só volte para essa leitura quando a lista
estiver completa.

Antes dar os instrumentos para você mudar suas crenças é importante


que entenda como funciona o processo de mudança. Não dá para
simplesmente “deletarmos” ou esquecermos uma crença, já que elas
são memórias energizadas por palavras. Independentemente do que
tente fazer é impossível apagar sua memória. Se o caminho não é
esquecer uma crença, qual é então?

A melhor forma de mudar uma crença é reduzir a energia


depositada sobre ela.

Mais uma vez você deve perguntar: “mas como reduzir a energia
depositada sobre algo que eu acredito?”.

A única forma de reduzir a energia depositada sobre um conceito ou


memória é ter uma experiência criativa, ou seja, vivenciar algo novo,
ou melhor, fora do limite da fronteira das suas crenças. Quando você
vive algo que suas crenças não conhecem você passa um tipo de
questionamento interno. É como se gerasse uma dúvida sobre o que é
certo ou errado. Quanto maior a intensidade da experiência criativa em
relação ao grau de energia da sua crença, mais fácil será reduzir a
energia sobre essa crença existente e canalizar energia para outra
crença. Quanto menor a energia sobre a crença limitante existente
menor a interferência desta crença sobre sua percepção e sobre seu
comportamento.

Vamos ao exemplo mais comum e usado em diversas ocasiões para


explicar este processo. Imagine uma criança que tenha sido mordida
por um cachorro, ainda bem pequena. Essa criança criou uma crença
de que cachorro é algo perigoso e deve ser evitado. Todas as vezes
que esta criança encontrar outro cachorro ela automaticamente
associará à dor sentida na mordida. A crença de que “cachorro” é
perigoso será cada vez mais energizada a cada situação em que a
criança confirma seu medo.

Por exemplo, imagine que esta mesma criança veja um cachorro bravo
na rua e que este cachorro, mesmo preso em coleira tente avançar.
Como será que a criança reagirá? Certamente com medo e reforçando
a sua crença já existente de que a palavra “cachorro”, ou melhor, tudo
que se parece com cachorro é perigoso. Como será que essa criança
perderá o seu medo? Será que ela terá algum interesse próprio em
perder o medo, ou pelo contrário, fará o possível para evitar encontros
futuros com estes animais, independentemente de seus tamanhos?
Dificilmente esta criança terá motivação para gostar de cachorros ou
dificilmente ela terá motivação em reduzir a energia armazenada na
crença de que todos cachorros são perigosos e depositar energia na

83
crença de que alguns cachorros são sim mais perigosos enquanto
outros são completamente amigáveis.

Para que haja mudança é necessário que aconteça algo novo, algo que
ultrapasse a fronteira da crença de que todos cachorros são perigosos.
Uma das possibilidades de vivenciar algo novo seria encontrar amigos
na mesma idade brincando com seus cachorros e se divertindo, sem
medo algum. Essa cena seria totalmente conflitante com sua crença de
que todos os cachorros são perigosos. Esse conflito geraria certa
dúvida na criança, pois ela estaria vivenciando algo que até então era
invisível. Isso é a definição de uma experiência criativa. Obviamente
não é só assim que a crença se transforma.

Para que a criança perca o medo de cachorros ela teria que continuar
vivenciando situações similares a essa a ponto de que a energia sobre
a nova crença (de que há cachorros perigosos, mas também a
cachorros amigáveis) sobreponha a energia armazenada na crença de
que todos os cachorros são perigosos. Quanto mais essa criança
vivenciar encontros com amigos que brinquem com cachorros ou
mesmo vivenciar encontros amigáveis diretamente com cachorros,
mais energia positiva é depositada sobre a nova crença e menos
energia é retida na crença de que todos os cachorros são perigosos.
Desta forma, esta criança poderá criar discernimento entre cachorros
e eventualmente perder o medo de cachorros amigáveis.

Basicamente o resumo do processo é:

1º Identificar a crença limitante.

2º Vivenciar uma experiência criativa (algo novo e fora dos limites de


sua crença). Isso gerará dúvidas e questionamentos internos.

3º Vivenciar uma sequencia de experiências positivas e que


corroborem e ajudem a energizar a nova crença.

4º Atingir um nível onde não são mais necessárias experiências


positivas, pois, existe energia armazenada suficiente sobre a nova
crença. As palavras que definem sua nova crença já são o reflexo de
quem você é, ou seja, a crença já faz parte de você.

O exemplo da criança descrito acima se aplica a diversas situações.


Muitos de nós temos crenças que nos limitam e acionam estados
empobrecedores como medo, ansiedade, etc. Muitos já viveram algum
processo de mudança de crença e arrisco dizer que a maioria, de forma
passiva e inconsciente. Voltemos ao mesmo exemplo da criança com
medo de cachorros. Pelo texto, a criança desejava interagir com
cachorros ou passivamente se deparou com uma situação que a fez
questionar? Ela não tinha interesse em brincar com cachorros, muito

84
pelo contrário, o medo inibia qualquer possibilidade de interação.
Entretanto, algo externo aconteceu (ver outras crianças se divertindo
com cachorros) que a fez considerar outras possibilidades. A
experiência criativa da criança não foi desejada, e ocorreu de forma
totalmente passiva, ao sabor do destino.

Esse ponto é crucial para que você entenda como “dar um laço” e
“amarre” o processo de mudança efetiva. Você precisa ancorar-se em
algo a fim de vivenciar uma experiência criativa e mais, precisa de uma
âncora para manter-se vivendo experiências positivas que energizem
definitivamente sua nova crença. Essa “âncora” deverá motivá-lo, de
forma ativa e consciente a viver algo fora das limitações que suas
crenças impõem para que você entre em questionamento. Essa mesma
âncora deverá ajudá-lo a vencer o duelo mental entre a crença anterior
(que você deseja alterar reduzindo sua energia) e a crença nova (a
qual você deseja energizar). Sem essa âncora, o processo de vivenciar
experiências positivas que contradizem sua crença anterior será muito
desafiador e você poderá desistir, justamente pela indecisão gerada
pelo duelo das crenças.

Agora gostaria que refletisse sobre qual é a “ancora” mais genérica e


utilizada pela maioria das pessoas, mesmo que de forma inconsciente?
De todos os livros sobre o assunto que li, dos cursos sobre
autoconhecimento que fiz e das minhas experiências e das experiências
de pessoas próximas, não tenho dúvidas de que a melhor âncora que
podemos ter é o desejo incondicional de nos transformarmos no
que ainda não somos. Ou ainda de sermos o que nossas crenças não
permitem que sejamos. No exemplo da criança, a priori, não existia
esse desejo de interagir com os cachorros. Talvez, o desejo tenha
surgido após a experiência criativa de ver amigos brincando com
cachorros.

6.3.1 Âncora = Desejo de ser um trader consistente

Como trader, muito provavelmente você terá que passar pelo processo
de mudança de crenças e dificilmente viverá uma experiência criativa
de forma passiva, ou seja, sem querer ativamente. Quero dizer que
precisará de uma motivação maior para experimentar algo novo e
ainda manter-se motivado durante a fase de transição (quando a
energia da crença limitante anterior é reduzida ao mesmo tempo em
que a nova crença é energizada).

Sugiro, como trader, que seu desejo ou sua motivação seja a


consistência. Lembrando que consistência é um estado onde perder

85
dinheiro, errar, deixar de ganhar não geram stress, portanto não
alteram sua percepção sobre o mercado e nem afetam seu
comportamento. Consistência esta dentro de você e não no mercado.
Ser consistente implica estar satisfeito com qualquer movimento que
o mercado faça e não esperar que o mercado faça o que sua
expectativa queira.

Aconselho inclusive que sua motivação inicial não seja dinheiro. Isso
porque se o dinheiro for sua âncora, a cada erro e a cada perda
incorrida no mercado fará com que você fique mais distante do seu
objetivo favorecendo erros como o de não stopar, por exemplo.
Guardem essa frase: “O dinheiro dificilmente trará consistência, mas a
consistência deve te trazer dinheiro”. Dinheiro deve ser consequência
e não motivação.

Outro ponto que gostaria de discutir antes de voltar a falar de


consistência é a necessidade de algumas pessoas de ver para crer, ou
seja, de primeiro ver a prova para somente criar o desejo ou
motivação. Por exemplo: já ouvi de muitas pessoas “mas porque eu
devo fazer day trade?. Me prove que é melhor que investimento a longo
prazo que eu faço.” Muito provavelmente a motivação destas pessoas
é o dinheiro e não o jogo. Se você não gostar de olhar para tela do
computador de forma sistemática, se não gostar da rapidez/agilidade
que o intraday requer, muito provavelmente ser um trader ativo não é
sua motivação e consequentemente você não fará dinheiro com isso16.

Infelizmente não há como ensinar ninguém a ter desejo de ser alguma


coisa. Talvez chegamos ao mais profundo aspecto da natureza humana
e que diferencia as pessoas. Sinceramente não sei ao certo o que gera
nossas motivações, talvez a família, os amigos, o meio em que vivemos
talvez uma experiência criativa, um trauma, sei lá. Mas sei que essa
motivação é que nos propicia atingir os nossos objetivos. Se você
conseguir unir razões efetivamente contundentes para se tornar um
trader, pode ter certeza de que seguido estas instruções você terá
muita chance de obter sucesso. As razões pelas quais você decidiu ser
trader devem ser maiores do que os obstáculos. Cada um tem uma
razão, cada um tem um propósito e você terá que encontrar o seu.

Vou fazer uma confissão a você. Eu nunca soube explicar com tanta
clareza e profundidade o porquê de aspirantes a traders se
desenvolverem extremamente mais rápido quando operam ao lado de
outros traders já consistentes. Eu acreditava que a razão pela qual isso
acontecia era a facilidade em replicar crenças, comportamento,
atitudes e até o método dos que já eram consistentes. Entretanto,

16
Atualmente, com o Plugin Tape Reading é possível usar as mesmas variáveis de Fluxo
sem necessidade de ficar grudado na tela.

86
enquanto escrevia este material uma coisa ficou muito clara:
Obviamente que replicar crenças, comportamento, atitudes e método
contribuem no aprendizado, mas a principal razão pela qual traders
aprendiam com a convivência era proveniente do fato de o desejo de
ser consistente ser autoalimentado diariamente.

Quando estamos em um meio onde só há traders consistentes, o


desejo der ser um é maior que as dificuldades. Não há dúvida, não há
conflitos, só vontade de se transformar no que você ainda não é.

6.3.2 Como adquirir crença em consistência?

Para ser um trader consistente é necessário trocar a sua estrutura de


crenças, pelas seis crenças apresentadas anteriormente. Contudo,
antes disso existe um ponto essencial: Você deverá acreditar que
já é consistente mesmo que ainda não seja.

Concorda que hoje você já possui crenças sobre si próprio e algumas


podem ser conflitantes com o seu objetivo. Por exemplo,
eventualmente você acredita hoje que não é consistente ou acredita
que seus resultados são insatisfatórios, muito provavelmente você
deverá “desenergizar” tais crenças limitantes sobre si e energizar a
crença de que é consistente, mesmo que ainda não seja. Isso também
é um processo e tem que ser feito de forma ativa e consciente.

O processo será o mesmo, ou seja, ancorar-se no desejo de ser


consistente, experimentar algo novo/criativo e manter-se vivendo
experiências positivas que energizem a crença em consistência até que
a palavra “consistência” seja uma definição de sua pessoa e o reflexo
de suas atitudes. Há duas formas de atingir este nível e que aconselho
que sejam seguidas em conjunto:

1º Afirmações positivas sobre o que significa ser consistente.

2º Visualizar-se consistente no “teatro da sua mente”17.

Que consistência é um estado e que este estado propicia uma condição


mental de enxergar, aceitar e interagir com o fluxo dos mercados no
presente, você já sabe. Agora é necessário dar significado mais
tangível e mensurável à palavra consistência para que você consiga
energizar a crença de que é consistente. Mark Douglas caracteriza
consistências em sete sub crenças ou princípios, são eles:

17
Técnica abordada no final do material.

87
- Eu defino minhas oportunidades de forma 100% objetiva

- Eu predefino o risco de cada trade

- Eu aceito completamente o risco ou deixo passar a oportunidade

- Eu atuo nas oportunidades sem hesitar

- Eu aproveito quando o mercado faz dinheiro disponível

- Eu monitoro continuamente a susceptibilidade em cometer erros

- Eu entendo a importância destes princípios e nunca os violo

Estes sete princípios refletem e dão significado mais tangível ao que é


ser consistente. Escreva todos eles em lugar visível e faça afirmações
constantes (diárias) sobre eles. No final deste material você aprenderá
a técnica de visualização aplicada ao trader ativo. Esta técnica é muito
utilizada por atletas em busca de desempenho. Por enquanto vamos
focar nos exemplos:

Digamos que você acredite que os gráficos refletem a realidade de


forma 100% objetiva e que sinalizem pontos de compra, venda e stop.
O que te fará, de forma passiva, a pensar diferente, a pensar fora da
sua “caixinha”? Dificilmente você será levado, passivamente, ou seja,
sem querer, a olhar o mercado pelo fluxo das ordens através do book
de ofertas.

É por isso que a maioria que tenta olhar o book de ofertas e histórico
de negócios sente dificuldade em seguir adiante. Não há uma
motivação, pois, é difícil ter experiência criativa olhando o fluxo sem a
instrução adequada. Aliás, no início é muito mais fácil ter uma
experiência negativa olhando o book de ofertas, pois é necessária
muita dedicação para começar a enxergar o fluxo e os sinais. Neste
exemplo, cada erro incorrido na tentativa de operar olhando o fluxo
solidificará a crença de que o gráfico reflete objetivamente a realidade
e gera sinais bons.

Você só terá experiência criativa olhando o fluxo através do book de


ofertas, se o fizer de forma ativa. Querer o olhar o mercado pelo fluxo
das ordens é similar à criança que tinha medo de cachorros desejar
interagir com os animais. Essa força interior, ativa e consciente
favorece a vivência de uma experiência criativa, que no caso do
cachorro foi ver amigos se divertindo com os animais e no caso do
grafista, conseguir enxergar o mercado e realizar uma operação
lucrativa. Essa experiência criativa abrirá a porta para que você siga
olhando o mercado pelo prisma de fluxo de ordens e viva várias
experiências positivas, ou seja, perceba que é possível enxergar o
mercado e realizar mais operações lucrativas.

88
Quanto mais você vivenciar estas experiências positivas, mais energia
é depositada nessa nova crença e consequentemente menos energia é
retida na crença anterior (sobre a objetividade do gráfico) a tal ponto
que olhar o mercado pelo fluxo das ordens será natural. Você já terá
vivenciado tantas experiências que saberá distinguir o quanto de
ordens na compra/venda é muito ou pouco, quanto de intensidade de
agressão na compra/venda é muito ou pouco e qual a circunstância da
agressão é boa ou ruim para entrar no mercado.

Não será necessário esforço para enxergar o fluxo, pois a crença em


objetividade na leitura do fluxo das ordens já será parte integrante da
sua estrutura de pensamento. Você efetivamente acreditará que o
fluxo é justamente a raiz da movimentação de preços. Enquanto para
outros o fluxo parecerá invisível, para você será absolutamente
natural.

Outro exemplo importante é predefinir o risco de cada trade. Fazendo


isso, de forma indireta você estará acreditando que o resultado do seu
trade é incerto, justamente pelas forças potencias que existem no
mercado e que são imprevisíveis. Quanto mais você operar com a
crença em risco pré-definido18, mais você irá acreditar que ela te ajuda.
Você viverá várias situações em que ter um risco definido te salvará de
perdas monstruosas. Com o tempo essa crença será energizada.

Em fim, se você for guiado por tais princípios, após um longo período
de operações, eles farão parte de você, ou seja, serão o mais puro
reflexo de suas atitudes. Não se martirize no início, é um processo e
serão necessários inúmeros trades para que você os incorpore como
crenças energizadas.

6.3.3 Como incorporar as seis crenças primárias?

Você já sabe como funciona o processo de transformação de crenças,


que se resume em querer mudar ativamente, viver uma experiência
criativa que te faça pensar diferente e ter motivação para continuar
vivendo experiências que solidifiquem a nova crença. Você também
sabe que para que tudo isso se “amarre” é necessário um desejo em
transformar-se no que você ainda não é. Esse desejo é que te mantém
confiante e dedicado para enfrentar o desafio de transferir energia da
crença limitante para a nova crença. Quando a crença limitante estiver

18
Pré-definir o risco não significa ter um stop rígido em centavos ou pontos, mas sim
ter um critério de sair da operação quando as variáveis que te motivaram entrar
naquele trade não estiverem mais presentes.

89
sem energia, não terá mais o poder de alterar sua percepção e nem
seu comportamento.

Além da crença em consistência, você terá que alterar algumas de suas


crenças que possam ser conflitantes com as seis crenças primárias.
Você deverá pegar o material inicial (onde, dentre outros você
identificou suas crenças) e confrontar cada crença com todos os
princípios apresentados aqui. Vários, certamente serão conflitantes.
Seu trabalho será tirar energia, de forma ativa e consciente, das
crenças que sejam conflitantes, através da vivência de uma série de
experiências positivas que energizem essa nova estrutura de crenças.
Lembre-se que sua motivação é o desejo em se tornar um trader
consistente. Isso o ajudará a vencer a disputa mental que o perturbará
enquanto estiver sob influência das duas crenças conflitantes. Após
viver experiências suficientes, esses conceitos provavelmente farão
parte da sua estrutura de pensamento e serão o reflexo de como você
percebe o mercado e também o reflexo das suas atitudes no mercado.

Uma pergunta que costumo ouvir muito é: “quanto tempo é necessário


para que eu consiga adquirir essas crenças?” A resposta é embasada
em uma média entre o tempo que eu e os demais traders com quem
tenho relacionamento, demandaram para incorporá-las. Acredito que
seis meses de operação ou aproximadamente 3.000 day trades (1 day
trade = 1 entrada + 1 saída). O número de day trades apresentado
acima equivale a aproximadamente 24 day trades por dia útil, o que é
uma média “viesada” para baixo do número de operações de um trader
ativo em um mercado normal.

Obviamente esse é um número médio, mas dificilmente será algo


muito inferior a isso19.Tudo na vida tem um preço, mas quando você
reúne razões suficientes que suportem o ideal de ser um trader
consistente, o caminho a percorrer fica mais agradável e prazeroso.

A partir de agora trataremos de forma resumida do processo de


mudança de cada uma das seis crenças. Seria muito difícil e desafiador
dar exemplo de todas as possíveis crenças conflitantes com cada uma
das seis crenças. Vou generalizar e pegar exemplos mais comuns de
conflito de crenças, mas tenha em mente que o processo para alterar
as suas crenças particulares é o mesmo. Vamos lá!

Como acreditar em Imprevisibilidade?

Independentemente do que tenha anotado no material inicial,


certamente existirá algo que contraponha o conceito de
imprevisibilidade. Lembre-se que em nosso cotidiano somos “forçados”

19
Após a utilização do Plugin Tape Reading a estimativa é que este tempo reduza,
especialmente para algumas operações, como Trade Location e Trades para Segurar.

90
a fazer relações frequentes de causa e efeito. Isso não é ruim, pelo
contrário é o que nos rege, entretanto, quando se trata de mercado
essa crença em causa e efeito não se aplica. Para tudo na vida,
buscamos uma explicação, algo que nos convença do ocorrido. Não
somos acostumados a aceitar o imprevisível. Já no mercado, conforme
vimos, o limite do barato e do caro é definido pelo mínimo ou máximo
que alguém esteja disposto a negociar a cada instante. Só precisa de
um clique para mudar a história.

Você já sabe de tudo isso! O que falta é estruturar a mudança. Os


comportamentos mais frequentes são de pessoas que tentam aplicar a
relação de causa e efeito no mercado. Não importa sobre o que a
relação de causa e efeito se aplica, ou seja, não importa qual dos 15
estilos operacionais você adote. O que importa é que a maioria de nós
tenta “achar” alguma coisa do mercado. Tenta olhar para tela (gráficos
ou variáveis de fluxo) e extrair argumentos que justifiquem a alta ou a
baixa. “Achar” que vai subir ou que vai cair é criar expectativa.

Está lembrado do que ocorre quando a expectativa não é atingida?


Frustração, alteração de estado e consequentemente alteração na
percepção. Esse é o ponto e esse é o conflito: Somos acostumados a
“achar” e temos que nos acostumar a não “achar” e simplesmente
aceitar.

Independentemente de quais sejam as suas crenças limitadoras, para


acreditar em imprevisibilidade você terá que viver situações que te
mostrem fatores imprevisíveis. Por mais que os argumentos citados
sejam pertinentes e convincentes, você terá que energizar sua
memória com situações que corroborem com conceito de
imprevisibilidade.

Não fique procurando a imprevisibilidade, não olhe para tela querendo


ver imprevisibilidade, apenas se permita ler o fluxo. Ela vai surgir.
Quanto mais você opera mais você irá acreditar que tudo pode
acontecer. Você perceberá que em alguns momentos, determinadas
ordens ou negócios realizados foram totalmente contrários ao que o
fluxo indicava. Você perceberá em vários momentos que não adiantaria
ter olhado nada, ou seja, nenhuma média, nenhum gráfico, nenhum
suporte, nenhum Fibonacci, nada explicaria o que aconteceu.

Você perceberá que o exercício de olhar para traz e tentar identificar o


que gerou certos movimentos de preço nem sempre funciona, pois
perceberá que em vários momentos a história não estava escrita.
Infelizmente só acreditamos vivendo e isso leva tempo.

Após várias operações, sua crença em imprevisibilidade será tão


energizada que inibirá qualquer tentativa de previsão de preços. Nesse
ponto você estará 100% preparado para interagir com o mercado, no

91
presente, sem se preocupar com o que ele irá fazer, mas sim
entendendo o que ele está fazendo.

Como acreditar em singularidade do momento?

A linha de raciocínio deste tópico é muito similar ao anterior. No


cotidiano, somos acostumados a buscar relações de causa e efeito a
fim de explicar as coisas. Em muitas situações a história se repete. Não
da mesma forma nem com a mesma intensidade, mas se repete o que
nos permite continuar criando “padrões”. O conflito aqui é: somos
acostumados a padronizar e no mercado a padronização não existe,
pois cada negócio é diferente um do outro.

Alguns movimentos parecem idênticos quando você olha pelo gráfico.


Lembre-se de quantos martelos, engolfos, W, M, OCO e etc, do mesmo
tamanho, você já viu. Provavelmente vários e aparentemente
idênticos.

Entretanto, se olhar através do fluxo de ordens vai perceber que nada


é igual. Vai reparar que em cada situação há uma quantidade na
compra e venda diferente do que tinha antes, cada situação possui um
estilo ou circunstância de agressão e que cada situação gera resultados
diferentes.

Quanto mais você olhar para tela e quanto mais operar, mais vai
perceber que o que viu agora nunca mais será visto. Vai perceber que,
mesmo os certos “padrões” do fluxo no book, desaparecem do dia para
noite.

Não adiantaria te provar com palavras, você terá que viver estas
experiências. Só o tempo te dirá.

Como acreditar que não é necessário saber o que vai acontecer


para ganhar dinheiro? E como acreditar que cada erro te deixa
mais perto do acerto?

Está lembrado do exemplo de jogar cara ou coroa? Quando se joga


moeda, não existe questionamento quanto à probabilidade de 50% de
sair cara e 50% de sair coroa. É inquestionável e por esse motivo a
maior parte das pessoas já possuem as crenças acima listadas.

Agora no mercado, as pessoas não são acostumadas com incerteza e


por isso creditam muito esforço emocional em um determinado trade.
Sugiro que nunca faça uma avaliação de forma isolada. Tente de forma
proativa avaliar-se após uma sequência de operações.

Você já aprendeu que por melhor que seja a sua análise sobre o fluxo
de ordens e por mais perfeita que a oportunidade pareça, o resultado
dos seus trades dependem de forças desconhecidas. O comportamento

92
dos demais traders vai definir se você ganhará ou perderá naquela
situação. Durante os 3.000 day trades propostos você perceberá isso.
Dessa forma, começará a depositar energia na crença de que você não
precisa conhecer o resultado de um trade em específico, mas sim
depositar crédito na sua capacidade de seguir operando em toda vez
que as variáveis que você define como oportunidade estiverem
presentes.

Quando você avalia a sequencia de operações e não apenas uma, a


sua percepção de risco é diluída. É muito importante que entenda essa
“diluição” do risco. Quando você dilui o risco, você convive melhor com
a possibilidade de perder dinheiro em alguns trades porque tem
convicção de que irá ganhar em outros. Você só não sabe em qual vai
ganhar, mas não há dúvida de que é só seguir o jogo para uma hora
ganhar.

Obviamente que outra característica de traders consistentes é saber


parar de operar. Há dias em que o risco das operações está maior que
o retorno, ou dias em que você esta errando demais a avaliação, ou
ainda em que você não está no melhor estado para operar. Continuar
executando ordens nesses dias não é mérito, mas sim teimosia. Saber
identificar esses aspectos e ter discrição para parar também é uma
virtude que só se aprende com o tempo.

Durante os 3.000 day trades sugiro que determine regras rígidas e


objetivas para parar de operar, pois elimina um foco de dúvida e o
medo do descontrole. Saiba, contudo, que a evolução de todo trader é
ter regras para descumprir suas regras. Após 3.000 trades você saberá
sobre o que estou falando.

Volto a dizer a você que não adianta apenas ler o que esta escrito
acima. Por mais que você compreenda e aceite as palavras, essas
crenças só farão parte de sua estrutura quando você viver o que estou
falando. É necessário que opere e que viva isso tudo para que energize
essas novas crenças.

Como acreditar que as oportunidades nada mais são do que


probabilidades?

Talvez essa seja a crença mais simples de energizar desde que você
opere. Independentemente do que você considere uma oportunidade,
você perceberá que não adianta evitar as perdas.

Quanto mais operações fizer mais irá perceber que o resultado do seu
trade está na mão dos outros. Quanto mais operações fizer mais vai

93
perceber que não tem controle sobre os outros. Quanto mais operações
fizer mais vai perceber que o exercício de olhar para o passado e se
perguntar: “o que eu poderia ter feito para ter acertado?” será
substituído pelo seguinte exercício mental: “como estou me
preparando para reagir rapidamente aos movimentos incontroláveis do
mercado?”.

Conclusão do capítulo de como alinhar a mente ao fluxo

Imagino que ao final deste capítulo ao mesmo tempo em que você esta
animado com a nova perspectiva, ainda há dúvidas sobre o processo
de mudança efetiva.

Fique tranquilo, pois seu trabalho não será desejar trocar crença por
crença de forma ativa. Não serão necessárias várias âncoras.

Você deverá ancorar-se, exclusivamente, no desejo incondicional de


ser um trader consistente. Lembrando que consistência como trader é
um estado onde perder, errar, deixar de ganhar não são fontes de
stress. Para ser um trader com estado de consistência é necessário
trocar a sua estrutura de crenças, pela estrutura de crenças
apresentada.

Dessa forma, você não tem que desejar incondicionalmente ver o book
de ofertas e histórico de negócios ou desejar acreditar em
imprevisibilidade, singularidade do momento e nas demais crenças
apresentadas. O seu desejo incondicional tem que ser “eu quero ser
um trader consistente”. Esse desejo fará com que você se permita,
ativamente, criar experiências positivas levando em conta as crenças
apresentadas. Só com esse desejo em mente você será capaz de
ultrapassar o duelo mental que sua cabeça irá tramar entre as crenças
pré-existentes e as crenças apresentadas no capítulo.

Todas as crenças, em conjunto com o método de análise do fluxo de


ordens, te farão cada vez mais focar no presente ao invés de focar no
futuro. Focando no presente, no “agora”, automaticamente o instinto
de prever o que vai acontecer vai se reduzindo, o que também ajuda
a manter suas expectativas sobre a direção dos preços, de forma
totalmente e fiel ao que esta acontecendo neste momento.

Essa é a mudança de perspectiva que te permitirá fluir junto ao fluxo


dos mercados.

94
7 SINCRONIZANDO O OPERACIONAL COM O FLUXO DO
MERCADO

Sincronizar o seu operacional com o fluxo dos mercados não se


restringe a apenas ler a consciência coletiva dos participantes através
das mesmas crenças, implica interagir com o mercado colocando
compras e vendas com total harmonia. Total harmonia significa não

95
ser influenciado por errar, perder dinheiro, deixar de ganhar,
arrependimento e etc.

A grande diferença entre sincronizar a mente com o fluxo e sincronizar


mente e operacional com o fluxo é que quando entram suas ordens de
compra e venda existe um componente a mais: o registro
inquestionável do resultado de suas ações.

Se estivermos apenas acompanhando os mercados, é mais fácil


adotarmos as crenças ensinadas no capítulo anterior. É mais fácil,
principalmente porque não há nada em jogo e quando não há nada em
jogo não há expectativa e consequentemente não há frustração. Por
outro lado, quando operamos de verdade há dinheiro em jogo. Por mais
que você siga todas as instruções do capítulo anterior e inicie o
processo de transformação de crenças, ainda poderá ser influenciado
pelo resultado de suas ações.

Deixe-me ser mais específico. O que quero dizer é que por mais que
você deseje ser consistente, canalize ativamente a energia para as
crenças em singularidade do momento, imprevisibilidade e nas demais
descritas, ainda assim talvez você sofra influência das consequências
causadas por errar, perder dinheiro, deixar de ganhar, hesitar e etc.
Por mais que entenda e acredite que não conseguirá evitar estar errado
e perder dinheiro em algumas operações, ainda pode haver uma
restrição interna a essas situações, consequentemente alterando sua
percepção sobre o fluxo do mercado.

Esse pode ser um novo conflito entre as crenças exigidas no trading e


crenças ocultas em sua estrutura de pensamento. Errar e perder,
principalmente perder dinheiro estão entre as maiores fontes de stress
segundo pesquisa denominada “Fear Factor” (Fator de Medo) realizada
por acadêmicos da Universidade de Cambridge. Para que não haja esse
conflito entre as realidades do trading e o significado que você deposita
no erro e na perda é necessário que você entenda um último conceito.
Esse talvez seja o conceito mais importante e pouco compreendido por
muitos.

7.1 ACEITAR O RISCO DE OPERAR

A vitória chega quando se perde o medo da derrota!

Junior “Cigano” dos Santos

96
Aceitar o risco é o segredo para tudo. Tudo na vida tem um preço,
porém, a diferença entre os que conseguem alcançar sucesso
(independentemente do que sucesso signifique para você) e os demais
é a capacidade de algumas pessoas aceitarem e ultrapassarem esse
“preço”.

Ao longo deste material fiz algumas comparações entre trading e


atividades esportivas por conta das similaridades em termos de
crenças. Quando o assunto é aceitar o risco a semelhança entre as
atividades continua fazendo sentido. Pegue o exemplo de um tenista.
Aceitar o risco para um tenista significa aceitar sem nenhum
desconforto emocional que ele poderá perder uma jogada, um set, ou
mesmo uma partida. Aceitar e sentir-se confortável com a realidade da
perda permite ao tenista perder uma jogada e ainda assim voltar o foco
para a partida, não para o placar.

Aceitar o risco de perder implica em jogar esperando o melhor, mas


preparado para o pior. É uma perspectiva totalmente diferente de jogar
focando em evitar a perda. Apesar de sutil, a diferença de perspectiva
é extremamente importante. Quando se joga com foco em evitar o
erro, cria-se expectativa de não errar. E você já sabe o que ocorre
quando uma expectativa não é atingida: frustração. É por esse motivo
que quanto mais se tenta evitar o erro, mais dói quando o erro
acontece. Além disso, quando o foco é evitar o erro e não fazer o que
tem que ser feito, a impressão é que a mente tende focar justamente
na origem do medo, reforçando ainda mais a sensação quando o erro
ocorre.

Outro esporte que exige preparo mental é a luta. Todos os seres


humanos evitam a dor física de forma consciente e ou mesmo
inconsciente. No caso do lutador, aceitar o risco significa aceitar sem
se abalar emocionalmente que ora ou outra irá levar um soco, perder
um round ou até mesmo perder a luta. O fato de perder não o diminui.
Claro que o lutador deve fazer o máximo para ganhar, mas existe uma
grande diferença de perspectiva entre focar em fazer o que tem que
ser feito e focar em evitar tomar soco. Com essa perspectiva de “fazer
o que tem que ser feito” o lutador consegue tomar um ou outro soco e
mesmo assim continuar focado na luta, focado no momento e
esperando para fazer o que tem que ser feito.

Agora farei uma comparação ao trading. Imagine um lutador com


medo de apanhar, ou mesmo um tenista com medo de errar a batida.
Parece absurdo não? Mas é justamente isso que você faz quando tem
medo de operar. Quando você opera com perspectiva de não errar é a
mesma coisa de um tenista jogando com foco em evitar errar ou de
um lutador com medo de apanhar.

97
Você até pode dizer que há uma diferença entre esporte e trading. O
tenista que perde uma jogada e o lutador que toma um soco, não
pagam por isso. Já o trader arca financeiramente com todas suas
“perdas”. De fato, essa é uma verdade. Justamente esse é o ponto que
queria chegar. Aceitar o risco no trading significa aceitar as
consequências dos seus trades sem medo ou desconforto emocional. A
possibilidade de errar e perder dinheiro, deixar de ganhar dinheiro e
etc não deve alterar sua percepção sobre o mercado e nem afetar seu
estado despreocupado. Desta forma você sempre estará focado no
presente e fará o que tiver que ser feito sem hesitar.

Perceba que aceitar o risco é uma etapa a mais em relação a


tudo que foi escrito nesse material. Não adianta nada acreditar que
o mercado é imprevisível, por exemplo, e ter medo da
imprevisibilidade.

Você sabe como aceitar o risco?

Para responder esta pergunta listei as melhores práticas que o


ajudarão neste processo de aceitar o risco do trading. Você irá reparar
que assim como o processo de transformação de crenças limitantes,
aceitar o risco de operar é um processo progressivo. Não acontece do
dia para noite. Justamente por esse motivo é que reforçamos a
importância de começar operando pequeno.

Não adianta ler esse material, fazer qualquer curso do mundo e


acreditar que do dia para noite você finalmente aprendeu e que pode
operar com lotes significativos. O que se aprende do dia para noite é
que existe um trilho, ou seja, melhores práticas que devem ser
seguidas. Só o tempo e sua persistência permitirão crescer
progressivamente. Não esqueça que além da “mentalidade de trader”
é necessário desenvolver agilidade operacional para executar ordens.
Tudo isso só é possível com muito treino.

7.2 COMO ACEITAR O RISCO DE OPERAR

Antes de detalhar as melhores práticas sobre como aceitar o risco


gostaria de pontuar alguns detalhes. O primeiro deles é que risco é
subjetivo, ou seja, entre não existe uma medida para mensurar o
quanto é risco. Obviamente existem medidas de volatilidade, como
desvio padrão, VAR e etc, que acabam refletindo o risco. Mas o que

98
quero dizer aqui é que a percepção de quão arriscado é ou não operar,
varia de trader para trader. São inúmeras as possibilidades de
exemplificar os graus de subjetividade de risco.

Imagine um trader que por qualquer motivo, já esteja comprado. Agora


imagine que ocorra um volume grande de fluxo de ordens na compra
desse ativo, fazendo-o subir rapidamente. Independentemente do que
tenha motivado o fluxo esse trader recebe emocionalmente o fluxo de
compras como arriscado ou como bom? Obviamente como bom, pois
estará ganhando dinheiro. Agora, imagine o mesmo exemplo, só que
o trader estava carregando uma posição na venda. Como
provavelmente esse trader perceberá o fluxo de compras? De forma
diferente, não?

Outra forma de exemplificar a subjetividade de risco entre traders é


justamente o tamanho financeiro de cada um. Um trader com escassez
de recursos tenderá a dar um maior peso a movimentos menores de
mercado contrários à sua posição, se comparado a um trader com
abundância de recursos.

Por fim, outro exemplo que demonstra a subjetividade do risco é o fato


de alguns players possuírem outros objetivos, que não fazer dinheiro
no day trade. Por exemplo: minha ideia de risco é: o máximo que o
mercado pode andar contra minha posição, considerando o meu maior
lote liberado para operar, num intervalo de um dia. Meu horizonte é
um dia, meu lote máximo é conhecido e controlado e a oscilação
máxima diária estabelecida pela bolsa. Obviamente, que eu não opero
meu lote máximo a todo instante e nem espero o preço correr para os
limites de alta ou baixa, pois stopo, instantaneamente, quando percebo
que as variáveis que motivaram minha entrada não existem mais.
Apesar de tudo isso, minha ideia de risco, no limite, é essa. Em
contrapartida, um trader de mesa proprietária de qualquer instituição
que necessite travar uma posição no mercado tem uma ideia de risco
totalmente diferenciada. A magnitude do lote é diferente, o horizonte
é diferente e o propósito da operação é diferente. Obviamente a ideia
de risco para esse trader será totalmente diferente da minha.

Os motivos acima são apenas exemplos que ajudam entender o porquê


de risco ser subjetivo. Julguei interessante discutir o conceito de
subjetividade de risco para provar que nem todo mundo olha para tela
do computador compartilhando as mesmas sensações. O fato de você,
eventualmente, sentir medo não implica acreditar que todos os traders
estão sentindo medo. Mesmo que você se compare à classe de traders
ativos, pessoa física, cada um terá uma ideia de risco diferenciada,
principalmente em função de suas experiências individuais.

Lembre-se o mercado não gera medo, stress, confiança etc são apenas
upticks, downticks, alterações de oferta e de demanda em cada nível

99
de preço, mas sem energia positiva ou negativa. Nós recebemos e
interpretamos a informação gerada pelo mercado e através de nossas
crenças e entramos em tais estados. O mercado é neutro por definição.

Abaixo segue um roteiro que facilitará o processo de aceitar o risco de


operar. Por mais que estejam numerados, não há uma ordem no
processo. São melhores práticas que devem ser realizadas em paralelo
à sua fase de aprendizado.

1º Assumir total responsabilidade sobre suas ações

Aceitar o risco e assumir a responsabilidade estão diretamente


relacionados. Assumir a responsabilidade significa reconhecer e
aceitar, de forma inquestionável, o resultado e as consequências de
suas ações.

Em muitas tarefas cotidianas, frequentemente, dependemos de coisas


que fogem do nosso controle. Por este motivo, costumamos transferir
parte da responsabilidade para o que foge do nosso alcance. Quando
se trata de trading, nada foge do seu alcance. Tudo é 100%
consequência das suas ações. Se ganhar dinheiro em um trade o
mérito é seu, por outro lado se perder, igualmente a responsabilidade
é sua. Se hesitar em entrar na operação, se hesitar em stopar, tudo é
de sua responsabilidade. Dessa forma, não há saída a não ser trazer
para si, total responsabilidade sobre a consequência dos seus atos.

Assumir total responsabilidade é fundamental para que você consiga


perceber que no fundo, a grande mudança é interna e não externa. Ou
seja, é você terá que se adequar ao mercado e não esperar que
o mercado se adeque ao que você quer.

Entender esse conceito e assumir efetivamente a responsabilidade


contribui, inclusive, para que você não se transforme em adversário do
mercado ou acredite que o mercado te deva alguma coisa. Ter uma
relação de adversário com o mercado implica claramente que você não
entende o que ele é. Lembre-se, o mercado vai continuar fluindo para
cima ou para baixo e você não terá controle sobre isso. Por melhor que
seja sua análise, inclusive se olhar o fluxo de ordens, ora ou outra suas
operações vão dar errado, pela própria natureza de incerteza dos
mercados. Contudo, se você se sente ameaçado pelo mercado você
claramente esta sem sincronia com ele e se perdeu a sincronia,
claramente perdeu a objetividade.

Se quiser, de fato, se tornar um trader consistente terá que assumir


total responsabilidade sobre a consequência de suas decisões. Assim,

100
conseguirá canalizar os esforços para olhar para si e corrigir erros ou
desvios de atitude que estão afetando seu resultado.

2º Aceitar a realidade do mercado

Aceitar a realidade do mercado é o primeiro passo para aceitar o risco


de operar. Os conceitos de imprevisibilidade, singularidade do
momento e dinâmica, são pouco compreendidos pela maioria dos
traders, o que certamente contribui para a falta de consistência de suas
operações.

Traders medianos acham que aceitam o risco, mas no subconsciente


não aceitam. Operam prevendo e não reagindo. Operam com
perspectiva de mercado fazer algo para eles ou de o mercado
preencher suas expectativas. Só operam quando estão convencidos de
estarem certos. Dessa forma, é natural incorrer em problemas como
hesitar em entrar na operação, hesitar em stopar no prejuízo, hesitar
em realizar lucro na posição.

Traders consistentes, por sua vez, aceitam o risco de operar porque


aceitam a realidade do mercado. Sabem que o resultado é incerto, não
possuem expectativa sobre a direção, apenas estão abertos e
despreocupados (disponíveis) para fazer o que o mercado mostrar que
tem que ser feito, naquele exato momento. Traders consistentes não
hesitam em stopar, pois acreditam que tudo pode acontecer. Traders
consistentes operam sem medo, pois aceitam verdadeiramente o risco
de darem um passo para trás antes de voltarem a andar para frente.

3º Preparar-se financeiramente

Certamente um dos grandes pontos que impedem de traders se


tornarem consistentes é o despreparo financeiro. Considero
“despreparo” não só a insuficiência de recursos para a atividade, mas
também a falta de compreensão sobre a realidade do trading.

A primeira grande verdade e que poucos assumem é que a atividade


do trader ativo requer as mesmas exigências de um empreendedor do
mundo corporativo. Imagine que você decida abrir um negócio. Existe
um investimento inicial, para comprar equipamentos, reformar etc.
Existirá também um gasto fixo mensal, ou seja, salários, aluguel,
energia, etc. Existirá um custo variável mensal, ou seja, despesas

101
incorridas quando há vendas, como compra de insumos por exemplo.
Obviamente existirá o faturamento da empresa, mas que depende de
vários fatores. Alguns fatores dependem do esforço do dono, direta ou
indiretamente, enquanto outros fatores dependem de externalidades,
como por exemplo, interferências governamentais, obras, evolução da
economia etc. O dono deste negócio só estará no lucro quando o
faturamento cobrir os custos fixos e variáveis mensais, além de todo o
investimento inicial.

Concorda que, dependendo do negócio, pode demorar alguns meses


ou anos para isso acontecer? Concorda também que o dono do negócio,
muito provavelmente esta ciente dos valores aproximados de quanto
irá investir e de quanto terá de custo fixo mensal? Este conhecimento
aproximado de investimento e custo fixo implica aceitação em pagar
essas contas sem dor emocional. Ou seja, um empresário não tenta
evitar comprar uma máquina, reformar, pagar conta de luz, aluguel,
salários etc, pois reconhece que isso é inevitável. Obviamente este
exemplo é simplista, mas aborda exatamente o que precisa ser
entendido.

Ao contrário do que ocorre no exemplo acima, a maioria que tenta se


tornar um trader pensa diferente. A maioria acredita que fará salário
no mercado. É comum ouvirmos perguntas do tipo: “quanto dá para
ganhar por mês?”, quanto tempo vai demorar para que eu faça um
salário no mercado?”. As perguntas não são erradas, mas grande parte
das vezes carregam um componente de falta de compreensão. A
maioria dessas pessoas, não assume ou não acredita que o risco de
um trader é similar ao risco de um empreendedor. Um trader, assim
como um empreendedor, não tem salário fixo. Ambos incorrem em
custos fixos e variáveis. Ambos dependem de variáveis controláveis e
incontroláveis. Dessa forma, a atividade de trader pessoa física, não é
comparada à nenhuma atividade do mundo corporativo. Os riscos dos
empreendedores são diferentes dos riscos dos funcionários.

Meu foco é fazê-lo aceitar o risco de operar como trader ativo. Dessa
forma proponho uma forma de pensar e planejar seu aprendizado como
um empreendedor. Organizei uma estrutura de investimento, custos e
faturamento que deverá contribuir no processo de aceitar o risco do
negócio.

Vamos lá:

Primeiro de tudo, o investimento. Na conta investimento você deverá


computar todos os custos de treinamento (livros, cursos, etc.) e custos
maquinário (computador, telas, etc.). Até aqui nada de novo.

102
Agora é hora de pensar nos custos fixos mensais. Alguns custos serão
previsíveis outros não. Aconselho projetar os custos que não são
previsíveis e aqui começamos com alguns conceitos interessantes.

- internet;

- plataforma operacional;

- plano de corretagem, caso opte por pacotes;

- custos bolsa (emolumentos, taxas de registro etc);

- perdas pré-definidas.

Sugiro que projete os custos de bolsa, as perdas assim como as


despesas de corretagem em um período. Mesmo não sendo custo fixo
previsível, pois não saberá o quanto irá operar, o fato é que você terá
que aceitar o custo e as perdas inerentes a aproximadamente 3.000
day trades, em seis meses, como proposto anteriormente. Estes custos
de bolsa mais corretagem, além das perdas não seriam fixos, mas é
importante colocá-los na conta porque você terá uma dimensão de
quanto custará operar os 3.000 day trades.

De todos os custos listados acima, as perdas pré-definidas são os


custos menos previsíveis. Pressupondo que você executará 3.000 day
trades é possível calcular com relativa precisão quanto arcará com os
custos bolsa, corretagem, etc. Perdas certamente ocorrerão, mas não
sabemos ao certo quanto. Logicamente, devemos considerar mais
perdas no início, pois, há muito que aprender.

Como preciso passar uma previsão para que estime seu custo com
perdas proponho que se baseie na frequência de oscilação dos preços
do ativo que decidir operar. Dada frequência atual da maioria dos
mercados estimamos que tanto a meta diária de ganho quanto o stop
diário de um trader devem ser o valor financeiro proporcional ao seu
lote, de 10 e 15 vezes a frequência de oscilação que mais ocorre no
mercado. Ou seja, projete sua perda máxima no dia como se stopasse
de 10 a 15 operações. Considere a magnitude de seu stop, a frequência
de oscilação que mais se repete, na média, no mercado. Esse conceito
ficará mais claro e tangível quando ler o material sobre regras e
gerenciamento de risco.

Custos variáveis no trading. O mais correto seria considerar as perdas


e os custos bolsa + corretagem como custos variáveis, uma vez que
todos derivam da quantidade de operações realizadas. O fato é que
quero que aceite o risco de iniciar o negócio. Tratei custos bolsa,
corretagem e perdas como fixos, para forçá-lo a operar. Lembre-se que
só aprenderá operar e só conseguirá mudar crenças se operar.

103
A última conta que falta é o ganho. Obviamente quanto maior, melhor.
É seu ganho que compensará todas as outras contas de custos citadas.
Entretanto, por conta de todas as dificuldades e de tudo que terá que
desenvolver, seu ganho será progressivo. No começo, talvez seu ganho
não seja suficiente para arcar com todas as despesas, mas você só terá
uma noção se valerá a pena ou não, se passar pela fase de
aprendizado. Não coloque muita expectativa sobre os resultados nos
primeiros meses. Aliás, a relação de custo/ganho tende a ser muita
onerosa para quem opera lotes pequenos, por isso não tome como
base seu resultado líquido durante a fase de aprendizado. Foque em
aprender o jogo.

Com esses conceitos acredito que fica mais fácil acreditar que trading
é similar a qualquer negócio. Há muita incerteza envolvida e se operar
com a perspectiva de evitar custos cairá em um sério problema. Alguns
custos são inerentes à atividade. É impossível operar sem pagar
corretagem e taxas bolsa. Também é impossível operar sem arcar com
eventuais perdas. É quase como querer expirar sem antes ter inspirado
ar. Se focar em economizar reduzirá a possibilidade de ganhar. O foco
é fazer o que tem que ser feito e não evitar pagar custos.

Quando aceitar os custos envolvidos, você não mais sofrerá em arcar


com os custos inerentes, pois entenderá a harmonia e coexistência
entre ganhos e perdas. Da mesma forma estará apto a aceitar o risco
da sequência de trades e não será influenciado pelos resultados
individuais de cada trade.

Lembre-se que traders consistentes encaram risco de forma diferente


dos demais por usarem a probabilidade a favor e diluírem o risco na
sequência de trades. Diluir o risco em uma sequência elimina o
desconforto emocional do ganha/perde de cada trade individual.

4º Confiar no método

Confiar na capacidade de gerar resultados, sem sombra de dúvidas é


essencial para que aceite o risco. Se você não confiar no seu método,
dificilmente aceitará o risco de operar, pois não confiará na sua
capacidade de ganhar. Essa é uma fonte de dúvidas que assombra
muita gente. Muitos traders novatos acabam tendo sucesso temporário
no mercado, pois, muitas vezes não conhecem o que estão fazendo.
Se executarem um método qualquer é bem capaz de produzirem
resultados positivos por um tempo. Entretanto, você já aprendeu que

104
o mercado é dinâmico e que os padrões se modificam. Dessa forma,
quando a dinâmica mudar o trader novato, começará a ter dificuldades
em produzir ganhos suficientes para cobrir as perdas.

Dependendo do grau de expectativa e preparo emocional deste trader


os problemas começam a surgir. Antes não havia medo, pois o método
funcionava. Agora o método não funciona. O que fazer? Se esse trader
perder a confiança no método ele não mais conseguirá segui-lo.
Perceba que há dois problemas. Primeiro: despreparo do trader sobre
a realidade do mercado. Segundo: falta de consistência do método.

Para que confie sem sobra de dúvidas no método operacional sugiro


fortemente que considere a análise de fluxo de ordens. Não precisa
esquecer tudo o que você faz até hoje, porém, considere estudar o
fluxo. O ideal, principalmente no início, seria excluir o que você olha
(gráficos, indicadores, suportes e resistências e etc.) e só olhar o fluxo
através do book de ofertas e histórico de negócios.

Aconselho excluir tudo, pois será mais fácil perceber o mercado através
de uma nova perspectiva e que não conflite com o que você já sabe.
Permita-se ser levado pela agressão na compra/venda e só por isso.
Permita-se olhar para tela sem a expectativa de encontrar direção,
somente seja levado pelo fluxo das ordens.

Certamente é um processo lento. Estimo um mês de acompanhamento


até que construa sensibilidade e perceba o fluxo de agressão. Nos
próximos meses você começará a construir discernimento nas demais
variáveis. Começará a perceber quem é quem. Começará a perceber
quanto de lote é muito e quanto é pouco. Perceberá a intensidade,
agressividade e circunstância dos negócios. Em fim, perceberá que não
há nada mais objetivo e lógico, que o fluxo.

Quando chegar nesse nível de percepção, não mais duvidará da


capacidade de ganhar dinheiro. Isso por que a questão não será mais
prever e sim ser deixado levar pela correnteza das ordens. Você
perceberá que não haverá mais ansiedade, pois, não será necessário
prever para onde o mercado vai. Sua capacidade de ganhar não será
proporcional à sua capacidade preditiva, mas sim ao nível de
oportunidades que o mercado fizer disponível.

5º Desenvolver agilidade operacional20

20
Certamente é mais importante no Scalping do que nas demais essências, mas
sempre é bom confiar na sua capacidade de execução, especialmente em épocas em
que a volatilidade aumenta.

105
Agilidade dá dinheiro quando você é um trader ativo. Agilidade significa
rapidez e segurança na execução de ordens de entrada no mercado,
saída e stop. Sua capacidade de capturar as oportunidades que o
mercado faz disponível é diretamente proporcional à sua agilidade na
execução.

O mercado esta cada vez mais “automático” o que tende a diminuir,


consequentemente, o tempo entre um negócio e outro. Com menos
tempo entre os negócios, o tempo de reação manual também é menor.

Por incrível que pareça uma das fontes de stress e medo de alguns
trades é a falta confiança em executar agilmente. Concorda que se
você não confiar na sua agilidade, você pode sentir medo de um
movimento brusco contrário à sua posição? Esse medo não o ajudará
em nada e pior, só irá atrapalhar. O fato de ter medo não vai impedir
o mercado de fazer tal movimento brusco e quando ele ocorrer, além
de você não estar preparado para agir e zerar, você irá sofrer alteração
de estado ou até bloqueio em agir.

Dessa forma é necessário que você desenvolva agilidade. Construa sua


tela operacional de forma a reduzir ao máximo o tempo de execução.
Elimine todas as “burocracias” para envio de ordens.

Em seguida, treine. Infelizmente ainda não há simuladores bons a


ponto de reproduzir a realidade, de forma fiel. Entretanto, alguns
simuladores podem te ajudar a tirar o “bloqueio” de enviar ordens
rápidas. Os simuladores podem tirar seu “bloqueio” de enviar ordens
consecutivas ou de agredir o comprador ou vendedor.

Em fim, acreditamos que o uso de um simulador pode ser interessante


somente para desenvolver agilidade operacional, antes ou durante sua
fase de aprendizado com operações reais. A confiança gerada pela
agilidade contribui para o processo de aceitação do risco de operar.

6º Distinguir os erros

O conceito de distinção entre os tipos de erros é fundamental. Se você


não distingue as fontes de erros, pode incorrer em dificuldade de tomar
ações corretivas.

As fontes de erros do trader ativo são as seguintes:

- Erros de execução

106
Erros de execução ocorrem, principalmente, na fase inicial. Eles
envolvem falta de agilidade e destreza nas execuções bem como erro
simples de trocar compra por venda e vice versa. Estes erros tendem
a diminuir drasticamente com o tempo. Obviamente todo ser humano
é susceptível a errar, mesmo com experiência, mas os erros de
execução tendem a ser bem raros com o prazo.

- Erros de avaliação

Erros de avaliação ocorrem pelo fato de você julgar algo de forma


errada. Operar de forma discricionária requer muito mais subjetividade
do que operar de forma mecânica. Apesar de não ter destinado um
espaço nesse material para falar sobre ser discricionário, o conceito foi
utilizado em várias partes. Em vários momentos critiquei a
padronização que as pessoas buscam no mercado. O oposto de
padronização é ter discrição. Dessa forma os erros de avaliação são
muito comuns no começo. Será natural julgar de forma errônea alguns
sinais gerados pelo mercado.

Por exemplo, é possível que o mercado agrida um lote grande na


compra e você acredite que é para comprar enquanto era para vender,
pois apesar da agressão ser grande e de compra, havia muita venda
no book ou a circunstância não favorecia compra nesses níveis, ou
ainda porque havia absorção. Assim, como os erros de execução, erros
de julgamento tendem a reduzir drasticamente ao longo dos seis meses
de treino. Nunca conseguirá eliminá-los por completo, mas certamente
conseguirá atingir um nível onde se sinta confortável com tomar
decisão de forma discricionária.

Aliás, uma das sugestões para conseguir operar com discrição é


começar com discrição controlada. Ou seja, não fique totalmente livre
para operar, será muita liberdade para pouca experiência. Escolha
certos “padrões” operacionais do fluxo de ordens e opere de forma
mais mecânica no início. Só com o tempo vá acrescentando discrição
até o ponto em que consiga ser livre para fazer o que o mercado
mostrar que tem que ser feito.

- Erros de comportamento

Erros de comportamento ocorrem pela interferência do emocional nas


tomadas de decisão. Grande parte do conteúdo deste material é sobre
interferência de crenças e estados neurofisiológicos no trading. Dessa
maneira, você aprendeu que a forma como pensa interfere no seu
estado e consequentemente interfere em suas ações, que interfere na
forma como pensa, fechando o ciclo. Portanto, os erros de
comportamento mais comuns são: hesitar em entrar na operação
quando as variáveis que considera como oportunidades estiverem
presentes; hesitar em sair da operação quando as variáveis mostrarem

107
reduzida probabilidade de ganho e hesitar em stopar a operação
quando o que motivou sua entrada não estiver mais presente ou
quando o risco de uma operação não fizer mais sentido
financeiramente. Além desses erros há outros, como: entrar em
operações por impulso, sair de operações por impulso, medo de perder
oportunidade, etc.

Assim como os erros de execução e julgamento, os erros de


comportamento tendem a se reduzir não com o tempo, mas com seu
empenho em aprender o jogo. Quanto maior for o seu desejo em ser
consistente, maior será sua persistência. Quanto maior sua
persistência, maior sua tolerância com os seus erros e maior seu
discernimento em utilizá-los como motivação para melhorar.

- Erros inerentes à atividade de trader

Como o próprio nome diz, estes erros são inerentes à atividade de


trading. Não há como evitá-los. Essa fonte de erro é característica da
própria definição da natureza do mercado. Por conta do componente
de imprevisibilidade, há erros que não tem como evitar. Por mais
destreza que você atinja na execução, por mais destreza que atinja na
avaliação e por mais que adquira todas as crenças e atitudes corretas,
nada vai te isentar do imprevisível.

Existirão momentos em que por mais objetiva que seja sua análise, um
clique de um trader irá mudar a história e negar o potencial de ganho
do seu trade. Com essa fonte de erro, você terá que conviver para o
resto da vida.

Essas quatro fontes de erros devem ser trabalhadas. Se você tratar


todas suas perdas, simplesmente como “erros”, a palavra erro vai
continuar energizada negativamente. Dificilmente você conseguirá
mudar o efeito negativo de crenças pré-existentes sobre o significado
do erro e transformá-lo em ímpeto para melhorar. Classificar e
organizar o erro te ajuda aceitar o risco de operar, pois clareia o
diagnóstico.

7º Re-significar os erros e as perdas

Erros e perdas estarão presentes com frequência na vida de um trader


ativo. Conforme já vimos neste material, nós quem optamos por qual
significado daremos à tudo que nos é apresentado pelo mundo. Vimos
também que nossas crenças são determinantes para o sentido que
daremos aos fatos.

108
Por exemplo, se você possuir crenças energizadas com experiências
negativas sobre erros, muito provavelmente dará um significado
negativo toda vez que cometer um erro. Por outro lado, se tiver crenças
fortalecedoras sobre erros, provavelmente não dará o mesmo efeito
negativo sobre a ocorrência deles.

Minha sugestão neste tópico é direcionar seu foco para dar um novo
significado aos erros. Logicamente é muito importante que já tenha o
conceito de distinção de erros bem fundamentado. Cada fonte de erro
(execução, avaliação, comportamento e erros inerentes à atividade)
deve ser tradada de forma específica.

É muito comum que a maior parte dos traders não dê atenção a tais
distinções. Dessa forma, a tentativa de adequar a mentalidade já
existente, ao mercado muitas vezes leva à experiências frustrantes.
Você já deve ter percebido o que significa “a mentalidade de trader”.
Traders ativos devem pensar diferente, o que implica dar novo sentido
a fatos que até então eram percebidos de outra forma pela maioria das
pessoas.

Os erros de execução, avaliação e comportamento devem ser


encarados como o custo de aprendizado do negócio e como seus
professores. Repare que essas são crenças, as quais devem ser
incorporadas à sua estrutura de pensamento da mesma forma como
as seis crenças primárias apresentadas no capítulo 6.

Lembre-se de que você só conseguirá energizar essas crenças, quando


experimentar algo positivo adotando tal forma de pensar. Com essa
forma de pensar, você não se sentirá inferiorizado a cada vez que errar
e, além disso, usará este erro para ajustar suas ações. Pensar desta
forma é a única maneira de ficar no jogo, principalmente porque estas
três fontes de erro são mais comuns dentro da fase de aprendizado
(aproximadamente seis meses ou 3.000 day trades).

É muito importante ressaltar que sugiro que comece a operar bem


pequeno. Você não vai e nem deve lutar internamente contra cometer
esses erros citados, pois eles, fatalmente irão ocorrer. Operar pequeno
auxilia aceitar o risco de operar, pois, há pouca “ficha” em jogo.
Comece com o mínimo de lotes possível, independentemente de
quanto patrimônio você possua. Só acrescente lotes quando adquirir
consistência de resultados21.

Acredite, muitos saem do jogo nessa fase, pois desrespeitam essa


simples recomendação.

21
Sugerimos que só aumente o lote quando fizer, pelo menos 50% da sua meta diária
em 7 pregões numa amostragem de 10 pregões.

109
Agora vamos falar do significado dos erros inerentes à atividade de
trading. É muito comum que haja dúvida entre erros de avaliação e
erros inerentes à atividade de trader. Diferenciar erro de julgamento
de erros gerados pelo fator imprevisibilidade requer critérios. Para
sanar, ou ao menos minimizar esta possível dúvida temos que
aprofundar os conceitos sobre o que definimos como uma oportunidade
de ganhar dinheiro.

Por exemplo: Imagine um investidor e que utilize o conceito de


abordagem fundamentalista. Obviamente o prazo de investimento é
longo até pela exigência deste perfil operacional. A crença básica desse
investidor é que existam ativos subavaliados pelo mercado e que a
oportunidade de ganhar dinheiro está justamente na capacidade de
identificá-los antes dos demais players. Neste caso, o que difere erro
de avaliação de erro inerente é qualitativo e não quantitativo. Um
exemplo de erro de avaliação seria julgar erroneamente uma projeção
de receita de tal empresa. Já um erro inerente poderia ser a ocorrência
de um fato novo que tenha se tornado público após a decisão de
investimento e que negue o potencial de ganho previamente estimado.

O correto seria exemplificarmos cada um dos conceitos e estilos


operacionais e diferenciar os erros de avaliação de erros inerentes,
porém, seria um exercício extremante longo e pouco produtivo já que
o objetivo deste material é abordar o mercado da ótica do trader ativo.
Desta forma focarei apenas nos aspectos diretamente relacionados ao
erro na atividade de day trader como prazo operacional e usando fluxo
de ordens como conceito de atuação.

Nesse universo, o erro de avaliação é todo e qualquer erro de


julgamento cometido na leitura do fluxo de ordens levando em conta
as informações que estão disponíveis no mercado. Já os erros inerentes
são aqueles causados por todas as variáveis que existem, mas não
podemos observar.

Estão lembrados quando falamos sobre variáveis que o gráfico não


mostra? Falamos de variáveis como oferta e demanda, volume de
agressão, etc, as quais são observadas quando se olha o book de
ofertas, entretanto, falamos também, de nível de convicção de
comprados e vendidos, a que preço vão iniciar ou zerar posições e etc,
que refletem, justamente, o componente de imprevisibilidade e
novidade do mercado. Essas diversas variáveis que não podem ser
vistas fazem com que seja impossível evitar alguns erros. Acredite, a
história não está escrita. Ela vai se escrevendo a cada tick e a cada
alteração de oferta e demanda, tornando nossa interação com o
mercado, algo sempre novo e inexplorado.

Não se preocupe se ainda não conseguiu distinguir erro de avaliação


de erro inerente de forma muito objetiva. É necessário que você

110
aprenda ler o fluxo e desenvolva certa habilidade e sensibilidade sobre
as variáveis observadas. Isso leva tempo.

Uma forma de facilitar tal entendimento seria quantificar um pouco


mais a questão do erro. Essa não é a melhor forma de ajudá-lo a
distinguir os erros, mas certamente contribui para sua evolução. Cada
ativo possui uma frequência de oscilação em centavos ou pontos e é
possível identificar os movimentos mais frequentes ou comuns.
Identificar e se adaptar à magnitude de oscilação de cada ativo é
fundamental para ser um trader ativo bem sucedido. Essas faixas de
oscilação definem o quanto esperar de ganho, o quanto esperar de stop
e o quanto esperar de balanço em cada operação22. Repare que disse
esperar e não efetivamente buscar. Digo esperar, pois, você deve estar
completamente livre para aceitar qualquer novidade do mercado e
qualquer coisa diferente do que o histórico vem apresentando.

Agora que você já tem uma ideia do que seria um erro inerente ao dia
a dia do trader ativo vamos dar um novo significado a ele. É muito
comum essa fonte de erro, assim como as demais já descritas, sejam
energizadas com carga negativa. Ciente disso, você deverá
conscientemente pensar diferente sobre os erros inerentes. Ao invés
de se culpar por cometê-los dê os seguintes significados:

- Stop é custo de achar uma oportunidade de ganhar.

- Stop protege patrimônio

Concorda comigo que se você conseguir dar os significados acima aos


seus stops ocasionados por perdas inerentes, você não teria mais
porque sofrer com tais perdas. A questão chave e que você deve estar
se perguntando é “como dar tais significados?”. Novamente te digo que
a única forma de mudar de crença é experimentar algo positivo
adotando essa forma de pensar.

Só operando é que você perceberá que é impossível realizar 100% de


operações ganhadoras, pois, existe um fator de imprevisibilidade
sempre presente. Só operando é que perceberá que seus stops são a
única forma de prevenir grandes perdas. Você vai olhar para trás e
lembrar, “nossa se não tivesse stopado aquela compra/venda eu teria
perdido muito visto que o mercado continuou caindo/subindo”.

Aprender a conviver com a perda inerente é parte do seu processo de


aprendizado.

22
Especialmente nas operações de scalping ou momentum trading.

111
8º Exercícios de Visualização

A técnica de visualização é uma excelente maneira de treinar ou


preparar a mente para tarefas que exigem desempenho. Há um roteiro
ao final deste material com todas as dicas de como realizar a
visualização.

Conclusão do capítulo de aceitar o risco de operar

A maioria dos traders opera sem antes buscar preparar suas mentes
para o trading. Buscam trading systems ou setups prontos e acreditam
que replicar tais métodos com sistemática e disciplina seja o segredo
do sucesso.

Pegue um exemplo de um trader normal que ainda não aceite o risco


de operar. Imagine que ele tenha comprado um ativo a R$ 10,00, por
quaisquer motivos que ele defina como uma oportunidade, e que tenha
pré-definido o stop a R$ 9,90. Se, de fato, esse trader não aceitar o
risco, ele deverá hesitar em stopar a operação quando o preço atingir
os R$ 9,90.

Esse trader só decidiu comprar, pois estava convencido de que ia subir.


Stopar não fazia parte dos planos, porque achava que não precisaria.
Esse trader criou expectativa de alta em sua mente.

O que acontece quando o mercado não preenche a expectativa de alta


deste trader? O trader vai sofrer, vai sentir dor, stress ou até medo.
Esta alteração no estado irá criar uma situação insuportável e
interminável de esperança. O trader irá dar peso a cada leve respiro
que o mercado der a favor de sua compra. Entretanto, imagine que o
ativo continue caindo. Durante a queda a situação descrita acima, só
piora e o trader tenta ao máximo bloquear a informação que esta vendo
no mercado. Ele simplesmente não acredita na queda, mas ela é real
e gera cada vez mais dor. Quanto mais cai, mais dor ele sente e mais
cego e esperançoso fica.

Você já se viu nessa situação?

Como sair disso?

Certamente não é aprendendo a adivinhar a direção dos mercados e


nem tentando desenvolver o melhor trading system do mundo.
Aprender a operar é bom e saudável, mas não é solução para o
problema acima.

112
Independentemente dos critérios que você define como oportunidade,
o que vai te fazer consistente é manter o estado despreocupado
enquanto opera com dinheiro de verdade. Despreocupado é não sentir
medo de errar ou perder dinheiro e nem ser imprudente.
Despreocupado é o meio do caminho entre medo e imprudência. Se
estiver despreocupado você não hesitará em agir para stopar a posição
a R$ 9,90, não se arrependerá se logo após stopar a compra a R$ 9,90
os preços voltarem a subir e você não hesitará em entrar novamente
no mercado se houver uma oportunidade concreta logo em seguida.
Isso porque você aceita sem nenhuma culpa ou resistência interna,
essas situações inevitáveis.

A reposta para o problema acima é: aceitar o risco de operar, aceitar


errar e aceitar perder dinheiro!

Quer saber a verdade? você só aprenderá a aceitar o risco


verdadeiramente, quando perder. É duro, é triste, é frio, mas é real.
Quando ouvi isso fiz o máximo para evitar, mas adivinhe: não consegui
e senti exatamente o que tinha ouvido. É na perda que buscamos o
ímpeto de ganhar. É na perda que buscamos nos desenvolver.
Canalizar conscientemente essa energia, essa raiva gerada pela
sensação da perda é o segredo.

A perda é o combustível do ganho. Guarde isso!

O último conceito que gostaria de apresentar dentro desta conclusão é


que aceitar o risco é um processo. Não é algo do dia para noite!
Independente da sua situação financeira, independente de quanto você
aceita colocar em jogo, o ideal é iniciar pequeno (com o mínimo
possível) e só aumentar no sucesso e de forma progressiva.

Vou exemplificar: Sugiro que você comece a operar com 1 lote do mini
índice, mini dólar ou até 500 ações/opções. Para isso terá que aceitar
o risco de operar 1 lote do mini (ou 500 ações/opções).

Com esse tamanho você provavelmente fará resultados diários entre


R$ 50,00 e R$ 120,00. Se você for fazer scalping23, suas perdas diárias,
fatalmente girarão nos mesmos R$ 50,00 ou R$ 120,00, uma vez que
o scalping requer um gerenciamento de risco, praticamente, de 1 para
1.

23
Incluindo Trades baseados em Microestrutura, Ineficiência para Scalping, Trade
Location e Front Running. Nos Trades para Segurar, aconselho estabelecer um stop
diário de no máximo 70% da meta diária.

113
O momento exato de alterar de 1 para 2 lotes é quando você criar uma
confiança inabalável na capacidade de recuperar as perdas normais do
processo de operar de 1 lote. Quando você não tiver mais dúvidas da
sua capacidade de ganhar e de recuperar das perdas geradas por 1
lote, você está pronto para aumentar para 2 lotes.

Você vai perceber que atingir 50% da meta em 7 pregões numa


amostra de 10 pregões é um bom termômetro, mas a confiança
inabalável na capacidade de ganhar e recuperar as perdas é que vai
determinar a mudança definitiva de patamar de lote. Esse é o processo!

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Procurei ao longo deste material descrever como um trader ativo


estrutura sua forma de pensar. Se você já possui alguma experiência
operando, deve ter percebido o quão determinante é o fator emocional.
Se, por outro lado, ainda não possui experiência como trader aproveite
estes ensinamentos para começar a operar já pensando da forma mais
adequada à realidade do mercado.

É muito importante ressaltar mais uma vez que essa forma de pensar
que apresentei se aplica ao trader ativo. Obviamente alguns dos
conceitos apresentados são verdades de mercado e, portanto, aplicam-
se aos demais perfis operacionais.

Para finalizar este material eu gostaria de deixar uma mensagem


extraída do Livro Trading in The Zone de Mark Douglas. O texto abaixo
resume bem o processo de mudança de perspectiva.

“Quando você aceitar completamente as realidades psicológicas do


mercado, você aceitará correspondentemente os riscos do trading.
Quando você aceitar os riscos do trading, você eliminará o potencial de
interpretar a informação do mercado de forma dolorosa. Quando você
parar de definir e interpretar as informações de mercado de forma
dolorosa não haverá nada para a sua mente para evitar, nada para se
proteger. Quando não existir nada para se proteger, você terá acesso
a tudo o que você sabe sobre a natureza do movimento do mercado.
Nada vai ficar bloqueado, o que significa que você vai perceber todas
as possibilidades que aprendeu e a sua mente estará aberta para um
verdadeiro intercâmbio de energia. Você naturalmente vai começar a
descobrir outras possibilidades de trades que antes não podia
perceber. Para sua mente estar aberta a esta troca de energia, você
não pode estar em um estado de saber ou acreditar que já sabe o que
vai acontecer com o futuro dos preços. Quando você estiver em paz

114
com não precisar adivinhar o futuro dos preços, você pode interagir
com o mercado a partir de uma perspectiva em que estará disponível
para permitir que o mercado lhe diga o que é provável de acontecer a
seguir. Nesse ponto, você vai estar no melhor estado de espírito para
entrar espontaneamente no fluxo das ordens e fluir com o mercado.”

Página deixada em branco

115
MANUAL DE VISUALIAÇÃO APLICADO AO TRADING

Apresentação

Uma "ciência" pode ser definida como um sistema testado e


comprovado de conhecimento que pode ser usado para produzir
resultados previsíveis e precisos. A ciência da navegação, por exemplo,
nos permite calcular exatamente onde estamos em qualquer lugar na
terra ou no espaço e prever com precisão a chegada a qualquer
destino. A ciência da química torna possível que novos compostos e
produtos melhorem a nossa saúde, nutrição, etc. Com um único osso,
a ciência da arqueologia consegue reconstruir a vida de um animal que
morreu milhões e milhões de anos atrás. Assim, uma ciência pode ser
pensada como um sistema de informação de modo seguro e fiel, que
pode ser usado para melhorar a vida como um todo.

Psicocibernética é a primeira ciência do desenvolvimento humano. É


um sistema de conhecimento que vai permitir realização de alterações

116
significativas na forma como você pensa, como você se sente e como
age e reage a tudo na vida.

Psicocibernética não tem nada a ver com ilusão ou esperança. Ela é


baseada no conhecimento científico de como o cérebro humano e o
sistema nervoso trabalham em conjunto para produzir atitude,
pensamento e comportamento. Os princípios aplicados foram testados
e comprovados em inúmeras experiências em laboratórios e
instituições de pesquisa ao redor do mundo. Sua prática foi provada
com sucesso por milhões de pessoas que usaram para mudar as suas
vidas nos últimos trinta anos.

Psicocibernética funciona em um nível fundamental e as mudanças


produzem efeitos em todas as áreas da vida. Quanto mais você
aprender para dominar a técnica, mais você pode esperar:

- Estabelecer objetivos claros e alcançá-los de maneira previsível.

- Construir ou reforçar uma autoimagem forte e positiva, coerente com


seu objetivo.

- Parar de ver seus erros como falhas e aprender a usá-los como


feedback positivo.

- Aprender a relaxar e ficar relaxado.

- Aprender a lidar com a raiva e usá-la de forma criativa.

Psicocibernética não vai produzir essas mudanças do dia para noite.


Será necessário um tempo para aprender as novas maneiras de pensar
e de agir, de forma que elas se tornem automáticas em sua vida. De
toda forma você vai começar a experimentar resultados positivos
quase que imediatamente.

Definição

A palavra cibernética vem de uma palavra grega, que significa


timoneiro, ou seja, alguém que guia ou regula qualquer coisa. A ciência
da cibernética, por sua vez, estuda sistemas automáticos de
orientação, como aqueles que permitem que um míssil guiado encontre
seu alvo, que um computador resolva problemas complexos, ou que
robôs realizem sequências complicadas de tarefas automaticamente.

117
Nosso subconsciente é na verdade um servomecanismo de “atingir
meta” e a Psicocibernética é a ciência que estuda o sistema de
orientação da mente humana.

Este servomecanismo tem acesso a tudo o que você já viu, fez, provou,
cheirou, sentiu ou aprendeu. Tudo é registrado em nosso cérebro. Se
você fornecer um objetivo a esse servomecanismo, ele
automaticamente produzirá os meios para alcançar a meta. Assim,
seres humanos são naturalmente “cibernéticos” possuindo uma função
de “atingir meta”.

Essa é a forma como fomos criados. Este servomecanismo que permite


amarrar os sapatos, andar ou até mesmo dirigir enquanto outras
tarefas são realizadas.

Além disso, este servomecanismo é completamente impessoal e


respeita fielmente sua “programação”. Ou seja, se você se der
objetivos positivos e de sucesso ele se transforma em um mecanismo
orientado a alcançar sucesso. Se você, por outro lado der metas de
fracasso, ele automaticamente funcionará como um mecanismo de
falha e produzirá falha. A escolha é sempre sua. Você é quem escolhe
o que seu subconsciente irá buscar. Suas palavras, pensamentos e
atos constroem esse mecanismo orientador e a grande sacada
é geri-lo de forma consciente.

A Importância de erros

Todos os sistemas automáticos de orientação alcançam seus objetivos


através da constante correção dos erros.

O exemplo do míssil é o mais pertinente, pois reflete de forma análoga


como usar os erros de forma construtiva. Um míssil possui sensores
que detectam quando ele está fora de curso. Só com essa informação
é que o sistema de orientação faz ajustes necessários e,
eventualmente, corrige a rota com ações. Isto é feito diversas vezes
em sua jornada. O míssil guiado depende desse feedback
negativo para guiá-lo ao seu destino. Sem esse feedback negativo,
um míssil guiado não saberia para onde estava indo e nunca chegaria
ao seu destino.

O mesmo é verdadeiro para o servomecanismo do ser humano. Muitas


pessoas interpretam os erros como um fracasso e sofrem sentimentos
de frustração e desânimo quando, na verdade, os erros são
exatamente as informações que o nosso servomecanismo precisa fazer
as correções necessárias e levar para os nossos objetivos.

118
Quando se trata de mercado, o erro vem energizado com mais carga
negativa por vir acompanhado de perdas financeiras, o que só piora a
situação. Você já aprendeu que a única forma de tirar essa carga
negativa do erro é aceitar o risco de operar e de sofrer as perdas
inevitáveis do trading.

Seu servomecanismo não tem opinião sobre erros. Ele simplesmente


utiliza as informações para guiá-lo ao seu objetivo. O que chamamos
de "erros", na verdade, deveriam ser lições valiosas para o sucesso.

Uma parte importante da Psicocibernética é aprender a re-significar os


erros e remover o sentimentos negativos que eles causam. Este é
apenas um dos benefícios da aplicação desta técnica no trading.

Autoimagem

O objetivo ou destino de um míssil é um conjunto de coordenadas


programadas em seu computador. No caso da mente humana, as
metas que programam nosso servomecanismo são imagens mentais,
fotos mentais, vozes e sentimentos que criamos com o uso da
imaginação.

A imagem mental mais importante e que nós usamos para


programar nosso servomecanismo é a nossa autoimagem.
Nossa autoimagem é o nosso modelo mental ou imagem mental de nós
mesmos. Nós não costumamos prestar atenção nisso conscientemente,
mas ela está lá.

Esta autoimagem é o nosso conceito de "o tipo de pessoa que eu sou."


Ela é construída de nossas crenças sobre nós mesmos, de crenças que
foram inconscientemente formadas a partir de nossas experiências
passadas, de nossos triunfos e fracassos, de sucessos e decepções, e
também por nossas observações da maneira como outras pessoas
reagiram a nós, especialmente na infância.

Uma vez que uma ideia ou uma crença sobre nós mesmos torna-se
parte desta autoimagem, nós a aceitamos como sendo verdadeira. Nós
não pensamos e nem questionamos nossa autoimagem. Nossa
autoimagem determina nosso pensamento, os nossos sentimentos, as
nossas ações, além de controlar a quantidade de sucesso, emoção,
alegria e satisfação que temos.

Autoimagem explica por que o pensamento positivo é tão pouco


confiável e por que força de vontade é tão ineficaz e difícil de manter.
Por mais força de vontade e pensamento positivo que você tenha, sua

119
autoimagem necessariamente, deve estar alinhada ao seu objetivo. Se
não houver esse alinhamento, sempre prevalecerá como meta, o que
você, no fundo, julga sobre si mesmo.

Nossa autoimagem está constantemente programando nosso


mecanismo criativo. Se a sua autoimagem “mostra” que você é um
fracasso, o seu servomecanismo vai encontrar uma maneira de
entregar esse resultado para você. Se a sua autoimagem “diz” que
você é uma vítima das circunstâncias, isso também será refletido em
sua vida. Se, pelo por outro lado, a sua autoimagem é que você é capaz
e bem sucedido, seu mecanismo criativo produzirá tais resultados.

O objetivo da ciência da Psicocibernética é justamente ajudá-lo a


mudar ou criar uma autoimagem forte, produtiva e capaz, condizente
com suas capacidades.

Imaginação - A Chave da Mudança

Você construiu a sua autoimagem atual através de imagens mentais e


sentimentos que já experimentou, em conexão com os acontecimentos
de sua vida (especialmente na infância). Agora você vai usar a mesma
ferramenta para construir o tipo de autoimagem que expressa o melhor
de você. Você vai usar a imaginação para criar imagens e
sentimentos de sucesso, satisfação, realização e força, e com
estas novas imagens positivas que você vai reprogramar o seu
servomecanismo para que ela comece a produzir resultados de
acordo com o sua nova autoimagem.

Obviamente este processo vai levar um tempo. Este tipo de mudança


requer prática e repetição para ser efetivo.

Histórico

Antes de apresentar os exercícios de aplicação ao trading é necessário


que você entenda de onde vêm os conceitos, pois facilitará o
entendimento e aumentará a eficácia da técnica.

Dr. Maxwell Maltz, nascido em 1899 consagrou-se como um dos mais


respeitados cirurgiões plásticos de seu tempo. Além de cirurgião, Maltz
era psicólogo e professor de Cirurgia Plástica da Universidade de
Nicarágua e Universidade de El Salvador. Foi este médico quem
apresentou a Psicocibernética ao mundo quando lançou o livro Psycho

120
Cybernetics, em 1960. Seu livro é frequentemente considerado um dos
melhores livros de autoajuda já escritos. Ainda hoje, suas descobertas
no campo da psicologia continuam influenciando milhares de pessoas
em todo o mundo. Psicocibernética ainda está na vanguarda da
tecnologia de desenvolvimento de pessoal e é considerada, por muitos
especialistas, como umas das únicas formas de alterar personalidade.

Como cirurgião plástico, Dr. Maltz operou milhares de pessoas. A


cirurgia plástica que costumava realizar nas pessoas (geralmente
facial) gerava não só uma mudança na aparência, mas em muitos
casos, gerava também uma mudança surpreendente em suas
personalidades. Esta mudança drástica de personalidade ocorria quase
que imediatamente após seus rostos serem “alterados”. Dr. Maltz
percebeu que quando mudava a face de uma pessoa, frequentemente,
alterava-se também seu comportamento.

Entretanto, enquanto alguns pacientes apresentavam mudanças


significativas de comportamento e atitude em menos de um mês após
a cirurgia, outros pacientes, estranhamente, não apresentavam
nenhuma alteração de personalidade mesmo sofrendo mudanças
drásticas na aparência. Dr. Maltz precisava descobrir o porquê de
algumas pessoas mudarem o comportamento para melhor e outros
simplesmente continuarem agindo como antes da interferência
cirúrgica.

Ficou claro para Dr. Maltz que as mudanças na aparência não eram a
chave para explicar as mudanças na personalidade. Existia "algo mais",
que algumas vezes era influenciado pela cirurgia facial, enquanto
outras vezes não era influenciado. Quando este "algo mais" era
influenciado ou reconstruído a pessoa mudava, por outro lado, quando
esse “algo mais” não era influenciado ou reconstruído, as pessoas
continuavam as mesmas, embora suas características físicas
estivessem diferentes.

Era como se a personalidade tivesse uma "cara". Esta “cara da


personalidade" parecia ser a verdadeira chave para mudanças. Mesmo
após a cirurgia, se as pessoas continuassem, se vendo internamente,
com cicatrizes, feias ou inferiorizadas não ocorria nenhuma mudança
de comportamento. Por outro lado, se esta "cara de personalidade"
pudesse ser reconstruída, a pessoa mudava o comportamento. Uma
vez que ele começou a explorar esta área, encontrou mais e mais
fenômenos que confirmavam o fato de que a "autoimagem” (imagem
mental do indivíduo sobre si mesmo) era a verdadeira chave para
explicar personalidade e comportamento.

Você deve estar querendo saber qual a ligação de alterações de


comportamento causadas por cirurgia plástica com seu sucesso como
trader. Uma vez que a autoimagem que você tem de si mesmo

121
determina para qual lado você será atraído, a sua autoimagem também
determinará se você será ou não bem sucedido como trader. Em outras
palavras, se você tem uma imagem clara de si mesmo como já sendo
um trader bem sucedido, você tem todas as possibilidades de tornar-
se e manter-se bem sucedido. Se sua autoimagem, como trader estiver
minimamente abalada, independentemente do motivo, nem o melhor
setup, nem o melhor trading system do mundo irá te dar o sucesso.

O sucesso começa dentro da sua mente. Você terá que aprender a ver
a imagem clara, em sua mente, do que significa o sucesso como trader.
Por esse motivo que a técnica é chamada de visualização. Só
assim seu servomecanismo estará programado para entregar-lhe
sucesso.

Imagens mentais

Vários homens e mulheres bem sucedidos usam "imagens mentais" e


“ensaio mental", para alcançar o sucesso.

Segundo livros relacionados ao assunto, Napoleão Bonaparte, por


exemplo, praticou batalhas mentais por muitos anos, antes mesmo de
estar em um campo de batalha. Ele vividamente se enxergava como
comandante elaborando mapas, cálculos etc. Conrad Hilton, o famoso
proprietário da cadeia hoteleira Hilton viu-se possuindo e gerindo
hotéis, em sua imaginação, muitos anos antes de ter comprado seu
primeiro hotel. Ele dizia que se imaginava sendo um homem de sucesso
no ramo hoteleiro, muito antes de se tornar.

Da mesma forma como foi apresentado acima, eu diria que o mesmo


é verdade para o trading. Se você não puder ver-se claramente, em
sua imaginação, como um trader bem sucedido não há nenhuma
maneira de se tornar um.

Tenha certeza de que os melhores traders só conseguiram ultrapassar


a fase de aprendizado e depois manterem-se operando, pois tinham
uma imagem clara de sucesso em suas mentes. Muitos se viam bem
sucedidos, mesmo ainda não sendo na prática.

Existe um mecanismo automático dentro de todos nós e que Dr. Maltz


chama de servomecanismo. É como se fosse uma máquina de “atingir

122
meta”, que nos dirige para um alvo. Todos nós somos assim e temos
potencial de utilizá-lo para atingir as metas que queremos alcançar.
Este servomecanismo funciona como um míssil teleguiado e dessa
forma necessita de programação adequada para atingir seu alvo. A
programação deriva justamente das imagens mentais que
temos sobre nós mesmos.

Se continuamente dermos ao servomecanismo, imagens nítidas e vivas


das metas que queremos alcançar, nosso subconsciente
automaticamente vai fazer as coisas necessárias para nos ajudar
alcançar nossos objetivos. Por outro lado, se nós continuamente
pensarmos e imaginarmos as coisas que não queremos que aconteça,
o nosso servomecanismo vai levar essas imagens ruins como sendo
nosso objetivo, e automaticamente tentará fazer essas imagens
tornarem-se reais.

Percebeu como nosso servomecanismo funciona de forma automática


e inconsciente? Ele simplesmente considera as imagens mentais que
temos e tenta torná-las realidade. Para ele, não importa se as imagens
são boas ou não, também não importa se as imagens são sobre o que
queremos ou se são sobre o que queremos evitar. Ele simplesmente
reage às imagens mentais que nós temos.

Por exemplo, imagine que fará um discurso na frente de um grande


número de pessoas. Se continuamente imaginar claramente, em sua
mente, que o discurso será positivo e que o público te receberá bem,
muito provavelmente estará criando caminho para que o discurso saia
do jeito que quer. Mas, por outro lado, se imaginar preocupação, se
imaginar que errará palavras ou se imaginar ser ridicularizado, muito
provavelmente você criará isso. Qualquer erro que cometa ou qualquer
sinal de alguém na plateia que minimamente te faça sentir-se inferior
irá causar sérias alterações em sua confiança. Esse abalo de confiança,
que era justamente o que você estava tentando evitar, no fundo é o
que você consegue. Você consegue o que imagina mentalmente.

Esse exemplo fica bem claro no trading. Se você puder se imaginar


operando, claramente, de forma bem sucedida seu servomecanismo
estará programado para entregar-lhe sucesso. Todos os desafios,
stops, perdas serão encarados automaticamente da forma correta, ou
seja, como feedback positivo. Com esse pensamento, e fazendo o que
tem que ser feito, você fatalmente fará operações positivas que
cobrirão eventuais perdas e gerarão lucro. Por outro lado, se
continuamente imaginar o que você quer evitar (ou seja: evitar stops,
evitar perder dinheiro, evitar errar a operação, ou evitar sofrer
movimentos bruscos de mercado) o seu servomecanismo estará
programado para entregar-lhe estas imagens ruins.

123
Independentemente da técnica operacional que utilize, você
fatalmente sofrerá stops, perda de dinheiro, erros de operação e
ocasionalmente sofrerá movimentos bruscos de mercado. Uma hora ou
outra você, fatalmente, vai ter o que imaginou (por mais que tenha
imaginado algo que quisesse evitar) e essa sensação é que machuca.

É dessa forma que os mecanismos de sucesso e de fracasso trabalham


dentro de nós. Falaremos mais sobre isso nas próximas páginas.

Um ponto extremamente importante é que seu objetivo e


consequentemente sua imagem mental estejam dentro de suas
capacidades. Por exemplo: digamos que queria ganhar um campeonato
de tênis, mas que nunca tenha jogado tênis. Nada no mundo, nem o
melhor treinador e nem a maior imaginação clara de sucesso em sua
mente, farão com que tenha habilidade de jogar tênis em um curto
espaço de tempo. Será necessário treino físico, além de mental, para
que consiga ser bem sucedido. O mais adequado é começar a jogar
estabelecendo metas físicas e mentais, progressivas.

O mesmo se aplica ao trading ativo. Para operar day trade de forma


ativa, você precisa desenvolver habilidades operacionais (agilidade),
habilidades analíticas, habilidades comportamentais e habilidades
gerenciais. Todas demandam treino. Dessa forma, por mais que se
imagine claramente operando milhares de lotes por dia ou ganhando
milhares de reais por dia, a sua imaginação tem de estar,
minimamente, dentro de suas capacidades atuais.

Você pode se imaginar de qualquer maneira que quiser. Você é quem


controla seus pensamentos. Contudo, muitas pessoas não estão
dispostas a exercer esse controle permitindo que suas imaginações
sobre falhas passadas destruam seus potenciais.

Todos nós carregamos arquivos mentais, e enquanto algumas pessoas


guardam momentos e ocasiões positivas, outras pessoas arquivam
apenas seus momentos de fracasso e frustração. Entretanto, é fácil
assumir controle sobre sua imaginação. Tudo que você tem que saber
e acreditar é que o seu cérebro tem dificuldade em distinguir entre as
experiências reais e imaginárias, desde que elas sejam claramente e
suficientemente imaginadas.

Se nos imaginarmos vivendo situações específicas de forma clara,


nítida e viva, teremos a mesma percepção mental de já termos
desempenhado tais aditividades em sua forma real.

Neste material você aprenderá exercícios mentais específicos que


contribuirão para seu desenvolvimento como trader. Estes exercícios
mentais simularão diversas situações reais, e se imaginados
suficientemente e de forma clara, criarão o mesmo impacto de uma

124
situação real. Eles irão ajudá-lo a estar pronto para as diversas
situações que você, fatalmente enfrentará enquanto estiver operando.

O mecanismo de sucesso e o mecanismo de fracasso

Já discutimos anteriormente que o servomecanismo é justamente o


mecanismo de “atingir meta” que temos dentro de nós e que nos guia
até nossos objetivos. Entretanto, você também sabe que o
servomecanismo pode ser um mecanismo de sucesso ou um
mecanismo de fracasso dependendo, exclusivamente, do que você
“mentaliza”.

Quando está funcionando como um mecanismo de sucesso, ele está


nos ajudando a alcançar as metas que queremos. Como você já sabe,
usamos a nossa imaginação criativa para retratar de forma clara e viva
essas metas e nosso mecanismo de sucesso nos ajuda a atingir tais
objetivos.

Por outro lado, se imaginarmos as coisas que estamos tentando evitar,


os problemas que estamos tendo e as preocupações, certamente
iremos receber mais dessas emoções negativas. Como disse há pouco,
o nosso servomecanismo é completamente imparcial e usa as imagens
que mentalizamos trabalhando arduamente para torná-las realidade.

A boa notícia é que você não só pode como deve escolher seus
objetivos. Você pode usar o seu mecanismo de sucesso em conjunto
com a sua imaginação criativa para definir e atingir seus objetivos.

Dr. Maltz enumera os princípios básicos sob os quais o seu mecanismo


de sucesso funciona:

1) O seu mecanismo interno de sucesso deve ter um objetivo ou "alvo".


Este objetivo ou meta deve ser pensado como se você já tivesse
alcançado.

2) Foque em ter um objetivo claro, nítido e vivo em mente. Não se


preocupe e nem desanime com o processo pelo qual esse mecanismo
irá entregar o sucesso. Se você mantiver o foco no objetivo, seu
mecanismo encontrará uma forma de entregar-lhe o resultado.

3) Não tenha medo de cometer erros ou de falhar ocasionalmente.


Lembre-se de que todos os servomecanismos (humanos ou não)
alcançam um objetivo por corrigirem sistematicamente os erros via
feedback negativo.

125
4) O aprendizado de qualquer habilidade é realizado por tentativa e
erro. Corrija mentalmente os erros até que atinja seu objetivo. Depois
disso, a aprendizagem futura é realizada por esquecer os erros
passados, lembrando apenas do benefício positivo de pensar dessa
forma.

Você deve aprender a confiar na capacidade de seu mecanismo criativo


fazer o trabalho. Não fique preocupado ou ansioso, nem questione de
forma consciente se ele vai funcionar ou não. Foque no objetivo e não
no processo24. Essa confiança é necessária porque o seu mecanismo
criativo trabalha no plano do subconsciente.

Perdoe-se

Um dos maiores problemas que vejo entre traders é que a maior parte
deles se recusa a perdoar-se após cometer erros. Isso causa um sério
problema, pois quanto mais se martirizar pelo erro, mais imagens
negativas virão à mente. Esta é a pior coisa que se pode fazer depois
de cometer um erro.

Quando você cometer um erro no trading, você precisa se perdoar por


fazer esse erro. O perdão é um conceito chave na Psicocibernética.
Você aprendeu que se imaginar continuamente, com detalhes vivos,
esta imagem será o seu alvo, quer queria ou não.

É por isso que ao cometer um erro, você deve esquecê-lo e perdoar-


se completamente. Se, não fizer isso e ficar revivendo o erro ele
certamente irá se repetir. Isso acontece porque o nosso subconsciente
tenta representar em nossa vida as imagens claras que criamos.

Se você olhar para trás, eu tenho certeza que pode lembrar-se de


momentos em que cometeu erros e não se perdoou. Lembre-se de
quanto arrependimento, remorso, dúvida e culpa acompanham tais
lembranças.

Se você já opera nos mercados deve ter vivido algo similar e sabe o
quão fatal essa situação pode ser. O que geralmente causa uma
sequência de perdas? Sua estratégia ou seu descontrole? Obviamente
sua estratégia pode causar uma sequência de operações perdedoras,

24
Neste caso a palavra “processo” foi usada para descrever a forma como seu
servomecanismo irá trabalhar. Não confunda com o processo de operar e achar bons
trades, onde seu foco deve estar.

126
mas o descontrole é sem dúvidas a maior causa das sequências de
operações perdedoras.

Outro ponto crítico em fases de perda é confundir suas operações


perdedoras com suas próprias identidades. Muitos traders associam os
seus trades negativos à suas autoimagens causando um sério
problema de confiança. Saiba de uma vez por todas que erros não te
definem como pessoa. O que te define como pessoa é como você
recebe, interpreta e reage ao erro.

Além do mais, você aprendeu que existem quatro tipos de erros. Os


erros de execução, avaliação e comportamento são erros típicos de
iniciantes. Não existe um trader no mundo que tenha se tornado bem
sucedido e que não tenha enfrentado todos esses erros e aprendido
com eles. Já o erro intrínseco à atividade deriva da imprevisibilidade
sobre a atuação dos demais players nos mercados. Tudo pode
acontecer e consequentemente sua operação pode dar errado. A
convivência com esse tipo de erro é eterna.

Perdoe-se por errar. Só olhe para trás para saber o que errou e como
pode melhorar.

Exemplos de aplicação da Técnica de Visualização

Quando pesquisamos sobre as técnicas de visualização e prática


mental percebemos que sua aplicação é mais difundida entre atletas
profissionais. São diversos exemplos de situações onde atletas
sistematicamente aplicam visualização. Alguns livros citam diversos
jogadores famosos que aplicam diariamente a visualização. Tenistas,
ginastas, boxeadores, jogadores de basquete, vôlei, futebol, golfe,
dardo, etc afirmaram aplicar tais técnicas.

Preste atenção às entrevistas de atletas com desempenho excepcional.


Perceba quão preparados mentalmente eles são. Repare em uma
partida de golfe, por exemplo, como um profissional se comporta antes
de dar a tacada na bola. Repare, aparentemente, como eles visualizam
a tacada, antes mesmo de o fazerem.

Ao contrário da abundância de livros e matérias sobre aplicação das


Técnicas de Visualização ao esporte, há escassez de material sobre sua
aplicação ao trading. De toda forma, devido à similaridade de esporte
e trading, nós decidimos adequar os exercícios que atletas praticavam
à nossa atividade. O resultado é surpreendente e você conhecerá quais
os principais exercícios que a atividade de trading ativo exige. Antes
disso, darei alguns exemplos do resultado da aplicação de tais técnicas.

127
- Fase de aprendizado

Como você deve saber, nós aprendemos operar buscando nos espelhar
em outros traders de sucesso. A convivência diária na sala de
negociações facilitava o processo de aprendizado, não pelo fato deles
cantarem a bola onde estão comprando ou vendendo (o que chamamos
de trade), mas sim pelo fato de contribuírem no pós-trade, ou seja,
depois de zerarmos a posição. Quando estamos começando como
traders, sentimos necessidade de saber à hora exata de comprar ou
vender. Sentimos necessidade de algo objetivo e tangível que nos
motive entrar nos mercados. Na verdade, você já sabe que o que
queremos é algo mecânico ou que decida por nós. Por outro lado, você
também já aprendeu que o mercado possui uma característica de
singularidade tornando essa “mecanização” impraticável. O mercado
exige discrição mesmo se você tenha um sistema mecânico, pois a
dinâmica irá mudar e será necessário reavaliar sua estratégia. Bom, de
toda forma, queria dizer que nossas primeiras operações foram
baseadas em pequenos padrões observados no pós trade dos
veteranos.

Eu, particularmente, foquei no padrão de inversão de fluxo (primeira


batida ou tomada significativa após uma sequência de altas ou baixas,
respectivamente). Esse “padrão” era e ainda é o mais lógico e que mais
funciona25. Assim, comecei a mentalizar e visualizar operações com
esse padrão. Primeiro, eu tinha uma imagem clara da minha tela
operacional, reconhecia as cores da tela, os players, a atualização do
histórico de preço. Também exercitava mentalmente a sensibilidade do
mouse, do teclado e o ambiente em que eu operava. Considerava
inclusive, as pessoas que estavam ao lado e suas vozes. Tudo para ser
o mais fiel possível ao meu real ambiente de trabalho. Depois disso
deixava a imaginação rolar, imaginava diversas formas e tipos de
inversão de fluxo. Cada uma tinha uma intensidade, cada uma delas
tinha um player responsável pela agressão e cada uma tinha um
resultado. Umas davam certo, outras davam muito certo e geravam
lucro considerável enquanto outras davam errado. Eu tinha (e ainda
tenho) tudo isso claro, nítido em minha mente. De tanto exercitar, esse
padrão em específico, eu me preparava para cenários diversos, os
quais nunca tinha visto. Eu treinava minha reação a fatores,
imprevisíveis, treinava agilidade, treinava ímpeto. Quanto mais eu
fazia isso, mais confiante eu me sentia. Quanto mais confiante eu me
sentia, mais eu aplicava enquanto estava operando de verdade. A
sensação que se tem usando visualização é de confiança, pois, ao invés
de evitar o imprevisível você treina para enfrentá-lo. Ao invés de

25
Em mercados cuja dinâmica favorece este tipo de operação, como Dólar, por
exemplo.

128
esperar coisas novas acontecerem, você as treina antes. É como se
você já tivesse preparado de tanto treinar em sua mente.

- Aumento de volatilidade devido à crise

Outra circunstância em que a técnica da visualização contribuiu de


forma efetiva foi uma crise que gerou volatilidade exagerada nos
mercados, principalmente no dólar futuro, no final de 2011. Devido às
incertezas relativas à Europa, os mercados entraram em crise e a
volatilidade foi às alturas. Se já presenciou as cotações em época de
volatilidade deve ter percebido o quão rápido você tem que ser para
reagir tanto na entrada, quanto nas saídas e stops das operações.
Recordo, claramente do primeiro dia de crise, quando as cotações
passaram a trabalhar em uma frequência de oscilação bem maior, de
uma hora para outra. Após o fechamento desse dia, apliquei a
visualização para me preparar para um mercado mais rápido.
Obviamente o efeito não é imediato, mas certamente é melhor do que
nada. Durante a visualização eu começava imaginando as cenas vividas
o dia, depois imaginava situações rápidas diferentes. Via claramente
um player tentando comprar e rapidamente agredindo o preço de
venda acima e assim sucessivamente. Imaginava claramente
comprando junto com a primeira boletada significativa de compra que
viesse ao mercado. Imaginava o preço rapidamente subindo até dar a
primeira parada e que me motivasse sair da operação. Via claramente
o meu financeiro mostrando o lucro da operação. Perceba a
importância desse exercício. Ao invés de tentar evitar e esquecer o dia
de incremento de volatilidade, eu me preparava para cenários similares
que poderiam vir nos próximos dias. De fato, o mercado permaneceu
volátil por três ou quatro meses.

- Intervenções via Swaps Cambiais

Alguns meses do ano de 2012 foram marcados pelas frequentes


intervenções do Banco Central no câmbio e os principais instrumentos
utilizados foram os leilões de swap cambial tradicional e reverso.
Quando a cotação do dólar atingia um patamar que o Banco Central
julgava inadequado ele ofertava contratos de swap cambial tradicional.
Na prática esse contrato é de balcão, ou seja, não interfere diretamente
nas cotações por oferta e demanda. Através desse swap o Banco
Central assume uma posição vendida em dólar para uma data futura
específica, enquanto suas contrapartes (dealers: bancos autorizados a
operarem) sobram compradas em dólar e recebendo uma taxa de
juros. Até agora, não há interferência direta no preço do dólar, uma
que o contrato de swap é só um acordo para compromisso futuro.
Entretanto, os dealers não querem correr esse risco de exposição
comprada em dólar e assim, instantaneamente ao anúncio do swap,

129
eles vendem dólares no mercado futuro, equivalentes à sua exposição
comprada para se travarem. O hedge (proteção) dos dealers é o
mecanismo de transmissão do efeito do swap para o mercado. O swap
reverso funciona da mesma forma, porém, ao inverso.

Quem já acompanhou um anúncio de swap sabe quão rápido as


cotações mudam de preço e quão arriscado pode ser estar com ordens
penduradas na posição contrária. Expliquei tudo isso para
contextualizar como utilizamos visualização nessa época de surpresas
e cotações extremamente rápidas. Quando percebemos que os swaps
ficaram frequentes começamos a nos preparar para eles.
Imaginávamos o momento exato da primeira boletada grande que
vinha para o mercado e treinávamos agredir a favor dessa boletada.
Fizemos isso diversas vezes mentalmente. Em várias situações de
swap e swap reverso, conseguimos pegar o movimento. Nas que não
conseguíamos pegar, pelo menos, não fomos pegos pelo forte
movimento do mercado, pois estávamos preparados para as mais
diversas situações.

Poderia listar uma série de outras circunstâncias em que utilizamos a


técnica de visualização, mas a lista ficaria extensa e pouco produtiva.
Vamos focar no que interessa.

Como usar Visualização para melhorar seu operacional

Ao fazer estes exercícios pela primeira vez, você pode sentir-se um


pouco estranho. Você pode desconfiar que não vai funcionar ou que
são exercícios ridículos. Não deixe que isso o impeça. Antes de julgar
peço que tente fazer.

Técnicas de visualização têm sido usadas por milhões de pessoas de


sucesso em todo o mundo. A verdadeira chave é que eles se veem
como sucessos muito antes de realmente se tornam sucessos. Outro
ponto-chave é que eles, diariamente, continuam se vendo como um
sucesso.

Todos traders bem sucedidos que conheço de alguma forma aplicam


visualização. Muitos deles nem sabem que aplicam, mas suas
estruturas de pensamento funcionam levando em conta tais princípios.
Os melhores traders com quem convivo mentalizam enquanto não
estão operando. Nas horas vagas procuram imaginar suas operações
futuras, imaginar como vão reagir às novidades e imprevisibilidades do
mercado.

130
Para que você também passe a utilizar esta técnica temos que dar mais
detalhes de como é feita a visualização. Para visualizar você precisa,
conscientemente, ver imagens através do “olho de sua mente” ou
“teatro da mente” (termo usado pelo Dr. Maltz). “Olho da mente” é um
termo chave no uso de técnicas de visualização. Se ainda não entendeu
o que significa ver através do olho da mente lembre-se de quando
alguém lhe conta uma história. Você não apenas ouve as palavras,
como também vê as imagens em sua mente, usando a sua imaginação.

Quando éramos crianças usávamos nossa imaginação em uma base


diária. Imaginávamos coisas, muitas vezes irreais e tínhamos a nítida
sensação de que elas eram reais. Mas, agora como adultos, a maioria
de nós perdeu as habilidades de imaginar e já não consegue ver
imagens claras e nítidas através do “olho ou teatro da mente”. Lembre-
se de que nossa mente não consegue diferenciar uma experiência
imaginada de uma experiência real desde que as imagens sejam
visualizadas de forma clara, nítida e viva. Então você terá de reforçar
a sua imaginação, de modo que você pode ver a imagens mentais de
forma muito clara em sua mente.

Dada essa dificuldade de a maior parte das pessoas conseguirem


visualizar imagens claras, Dr. Maltz sugeriu que imaginasse sua mente
como um teatro. Daí a expressão “teatro da mente”. A tela, o projetor,
os bancos, todos têm familiaridade e consequentemente conseguem
praticar a visualização. Dr. Maltz sugere que você escolha uma cadeira
confortável "no teatro da sua mente." A ideia é que você assista
pequenos trechos de você mesmo, do jeito que você quiser.

Você verá através dos exercícios que a visualização te ajudará a


melhorar, consideravelmente, coisas como não hesitar em entrar na
operação quando for pertinente, não hesitar em stopar quando a
operação for descaracterizada, ou porque o mercado voltou um limite
de pontos/centavos contra ou porque as variáveis que você determinou
como oportunidade não estão mais presentes.

Além da aplicação em situações específicas como as descritas acima,


você deve usar a visualização para mudar ou reforçar a sua
autoimagem. Você criou as imagens mentais sobre si mesmo baseado
em todas suas experiências passadas (ligadas ao trading ou não)
fracassos, humilhações, sucessos e vitórias. Se, por exemplo, você já
teve experiências ruins operando day trade, pode ter perdido a
confiança para abrir a boleta e clicar quando uma oportunidade estiver
presente, muito provavelmente a sua autoimagem é de uma pessoa
que não consegue clicar quando tem que clicar. Isso pode ocorrer
mesmo que você não pense, de forma consciente, que isso esta
acontecendo.

131
Dessa forma se você usar as técnicas de visualização, diariamente,
será capaz de mudar ou reforçar a sua autoimagem para o tipo de
pessoa que você quer ser. Não importa como outros veem você, o que
é mais importante é como você se vê. Você é o único que pode
controlar isso.

Segundo Dr. Maltz, as técnicas de visualização são muito mais efetivas


do que a utilização de força de vontade para qualquer tipo de mudança.
Por exemplo, se você disser para si mesmo: "Eu vou abrir a boleta e
clicar na próxima vez que as variáveis que definem uma oportunidade
estiverem presentes”, o que você acha que irá acontecer? Segundo
Maltz, a sua afirmação tem que corroborar com sua autoimagem. Se
sua autoimagem confrontar com sua afirmação, não há chance de dar
certo, pois a sensação será de constante frustração. É por isso você
precisa mudar a imagem que tem de si mesmo usando sua imaginação.
Força de vontade não irá funcionar. Sua autoimagem sempre será
dominante.

Abaixo seguem algumas regras você recordar quando utilizar as


técnicas de visualização para melhorar sua autoimagem:

1) Você deve estar em um estado de relaxamento enquanto “assiste”


ao teatro de sua mente. Principalmente no início, o relaxamento é
essencial para ter sucesso. Escolha um local confortável e sem barulho
qualquer coisa que possa causar distrações.

2) Você deve prestar muita atenção aos detalhes de suas imagens


mentais. Lembre-se de que o subconsciente de nossa mente não
consegue diferenciar uma experiência imaginada de uma experiência
real se os detalhes são claros, nítidos e vivos. Você deve se concentrar
intensamente sobre os detalhes ao seu redor.

3) Você deve agir como se já fosse o tipo de pessoa que você quer ser.
A verdadeira chave para mudar a sua autoimagem é, continuamente,
pensar sobre si mesmo como já sendo o tipo de pessoa que você quer
ser. Por exemplo: você deve comportar-se como um trader, seguro,
disciplinado e consistente, mesmo ainda não sendo. Suas palavras,
ações e atitudes devem refletir essas características.

4) Você deve visualizar, pelo menos, uma vez por dia e de preferência
no mesmo horário. Alguns experimentos científicos apontam que leva
aproximadamente 21 dias para que haja mudança de um hábito ou de
um processo de pensamento. Você formou seus maus hábitos em um
dia por isso é impossível esperar que eles mudem em um dia.

132
Técnica de relaxamento – Corpo calmo, mente calma!

É muito benéfico estar física e mentalmente relaxado antes de fazer os


exercícios de visualização. Não tente visualizar enquanto o mercado
estiver aberto, ou mesmo enquanto faz outra atividade. Você deve
estar em cadeira confortável ou deitado em uma cama. Não deve haver
distrações, portanto, desligue TV, rádio e se possível as luzes.

Cada pessoa deve ter sua própria técnica de relaxamento. Uns


preferem, reduzir a respiração, outros preferem imaginar todos os
membros do corpo pesados e etc. Procure alguns métodos (pode ser
no google) e tente o que mais se aplica ao seu corpo. Apenas lembre-
se de que é importante estar extremamente relaxado antes dos
exercícios.

133
Primeiro exercício - definição de metas

Estabelecer metas é essencial para medir sua evolução como trader.


Além do que, como você aprendeu no material anterior, nós todos
necessitamos nos ancorar em algo tangível, mensurável e que tenha
significado. Se você não tiver metas diárias, semanais ou mensais vai
ser muito difícil, tanto medir, quanto visualizar o seu sucesso.

Este exercício serve, justamente, para que você se visualize


alcançando seu objetivo diário. Ou seja, para que você se acostume a
ganhar, o que também contribui para reforçar sua autoimagem de
trader consistente. Não significa, contudo, que você vai alcançar esse
objetivo todos os dias, mas sem ter esse objetivo claro e nítido em sua
mente será bem mais difícil.

A primeira coisa de tudo é usar qualquer técnica para entrar em um


estado de relaxamento. Você pode escolher qualquer técnica, desde
que se sinta relaxado.

1) Vá para o teatro em sua mente e acomode-se de forma bem


confortável. Preste atenção a todos os detalhes que vê. A tela grande
ou pequena? Como seu braço se acomoda na cadeira, como se sente?
Detalhes, detalhes, detalhes. Faça ser real. Neste ponto, você está
tentando fortalecer sua imaginação e ver as imagens em sua mente de
forma muito clara. Se você ainda não puder ver as imagens
claramente, não se preocupe, ficará mais fácil com o tempo.

2) Este exercício servirá para você visualizar o atingimento da meta


diária. Como já foi dito, seu objetivo deve ser dentro de suas
habilidades. Se você ainda nunca operou ou possui pouca experiência
visualize-se atingindo o objetivo proposto entre R$ 100,00 e R$
120,0026. Por outro lado, se já opera e já possui um objetivo diário
mais elevado utilize tal objetivo, como meta, durante o exercício de
visualização.

3) A primeira coisa que você deve visualizar são os dias em que já


atingiu sua meta diária. Traga as lembranças de um dia em específico
e sinta os sentimentos positivos causados pelo seu resultado positivo.
Tente reproduzir esses dias, ou pelo menos o final dos dias em sua
mente. Lembre-se de se atentar aos detalhes. Lembre-se da cor da sua

26
Objetivo diário médio traçado pela Scalper Trader para operações com um lote de
mini-contrato, ou com lotes reduzidos de ações ou opções.

134
tela com o resultado positivo, da sensação, da sensibilidade do teclado
e do mouse.

4) Se você ainda não opera, consequentemente, não terá lembranças


para resgatar. De toda forma poderá praticar visualização usando a
imaginação. Lembre-se, sua mente não diferencia experiência
imaginada de experiência real se houver detalhes suficientes.

5) A próxima cena a passar claramente em sua mente deverá ser o


atingimento da meta diária no final da sessão. Visualize claramente, o
número vivo em sua plataforma operacional. Se sua meta for R$
120,00, então veja esse número exatamente no local onde ele é
mostrado em sua plataforma. É muito importante que você utilize
mentalmente a mesma tela operacional que utiliza para operar de
verdade. Imagine-se anotando o seu resultado em sua planilha de
controle, seja em Excel ou em papel. Sinta você digitando o resultado
que produziu, ouça o barulho do teclado enquanto digita. Torne a cena
tão real, que quando você finaliza a notação você se vê, claramente,
desligando seu computador e despedindo-se das pessoas que operam
ou seu lado. Se você opera em casa, visualize o que costuma fazer
após parar de operar e desligar o PC.

6) Depois disso repita a mesma coisa para os demais dias da semana.


Tente repetir rapidamente algumas operações de day trade bem
sucedidas, mas foque no resultado positivo do final do dia. Repita esse
exercício para os cinco dias da semana.

7) Este exercício fixação de metas é extremamente importante.


Primeiro, porque te ajudará a ter uma imagem clara e nítida do que
você se propõe a ganhar por dia. Essa imagem será a programação do
seu servomecanismo, que trabalhará no seu subconsciente para que
você atinja tal meta. Isso não significa que você não precisará agir para
fazer essa meta. Não é o servomecanismo que opera. Mas, você estará
“programado” para fazer o que tem que ser feito, mesmo diante das
dificuldades e surpresas do trading. Com uma meta clara, você não
hesita em stopar, não hesita em entrar numa operação mesmo após
uma sequência de perdas e etc. Outra grande vantagem desde tipo de
exercício é que manter imagens claras e nítidas de dias e operações
bem sucedidas, contribuem para mudar ou reforçar sua autoimagem
de trader consistente.

135
Segundo exercício – clicar para entrar na operação

A razão pela qual a maior parte das pessoas hesita em clicar para
entrar em uma operação é que no exato momento em que uma
oportunidade esta presente, elas estão com medo. E mais, esse medo
não é do mercado, mas sim delas mesmas. Este tipo de medo deriva
do fato de elas não terem confiança em fazer o que tem que ser feito
sem hesitar.

Medo congela e nos faz perder diversas oportunidades. Uma das piores
coisas que podem acontecer com um trader é perder uma oportunidade
por ter hesitado. Varias dessas oportunidades perdidas gerariam lucro,
mas você estava fora do mercado, só assistindo. Esse remorso de
perder uma oportunidade é péssimo, pois traz imagens ruins à mente
e aciona justamente o que não queremos. Nós queremos imagens
positivas e não negativas.

Por continuamente pensar em si mesmo como uma pessoa que não


consegue clicar para entrar na operação, você estará reforçando essa
ideia em seu subconsciente.

Dessa forma proponho um exercício para te ajudar a ter ímpeto de


clicar quando uma oportunidade estiver presente no mercado. Você
precisa vencer o medo de clicar. No material anterior apresentei uma
lista de ações que ajudam a perder o medo de operar. Mas, nenhum
deles é tão efetivo quanto à visualização.

Esse exercício é fundamental para que o clique se torne automático.

1) Primeiro de tudo, nunca realize tais exercícios com o mercado aberto


ou após hesitar em entrar numa operação. Atinja ou mantenha um
estado de relaxamento do exercício anterior.

2) Este exercício é para você visualizar-se clicando, sem hesitação,


quando uma oportunidade estiver presente.

3) Vá ao teatro de sua mente e resgate situações onde clicou sem


hesitar. Não importa o que você define como oportunidade e nem o
instrumento pelo qual toma decisão, se fluxo de ordens ou qualquer
vertente gráfica, ou ainda uma combinação de ambos. Visualize cenas
sobre o tipo de perfil que quer se tornar. Como este material é aplicado
à operações curtas eu darei exemplos de visualização pertinentes, no
entanto, você pode adotar ao estilo que quiser.

136
4) Visualize claramente sua oportunidade. Se vai comprar porque
inverteu o fluxo, imagine o mercado cedendo com agressões leves no
comprador e de repente vê alguém dando uma boletada de compra
significativa na fila da venda. Veja claramente os lotes da fila de venda
sendo agredidos, saindo do book e caindo no histórico de preços. Veja
quem está agredindo. Lembre-se das imagens e de sua boleta de
compra aberta na tela, com o preço preenchido. Sinta a pressão do
clique o mouse no seu dedo e do momento exato em que você clica
para comprar. Veja a sua plataforma mostrando a sua posição e sinta
como é estar no mercado. Faça esse exercício com inúmeras variações
na compra na venda, com cenas lentas, rápidas. Agrida, posicione a
ordem, enfim, faça tudo o que sua imaginação deixar.

Só chamo a atenção para um ponto: Os detalhes que toda hora eu


repito, não são para que só entre no mercado quando todos estiverem
presentes. Isso seria padronizar demais ou restringir demais os fatores
que definem uma oportunidade. Não confunda, detalhes com filtros ou
regras rígidas.

Os detalhes são exclusivamente para que sua visualização tenha poder


de confundir sua mente a ponto de achar que é real. Você já aprendeu
uma característica fundamental do mercado é sua capacidade de
mudar e fazer coisas inimagináveis, portanto, não padronize demais.
Você não deve fazer visualização para prever ou antecipar a
direção dos preços. Visualize para estar preparado!

5) Se você ainda não opera ou tem pouca experiência com esse tipo
de operação baseada em leitura de fluxo de ordens, utilize os vídeos
da área do aluno para imaginar as operações. Nos vídeos há diversas
operações motivadas por todos os fatores que definimos como
oportunidade.

6) Após ter entrado na operação visualize-se saindo do trade. Veja sua


ordem de saída na fila do book esperando ser agredida pelo mercado.
Veja sua ordem cada vez mais perto de ser executada até que suma
do book. Sinta a sensação boa de ter realizado um trade para frente.

7) É importante que você realize estes exercícios diariamente. Não


adianta nada fazê-los um ou dois dias e achar que tudo irá mudar.
Pensando assim você estará jogando a responsabilidade do insucesso
para a técnica. Esta prática mental vai reprogramar e reforçar a sua
autoimagem de trader consistente. Após semanas de prática mental e
real você vai se sentir mais confiante.

Nota importante:

A tentativa de fazer estes exercícios logo após um trade perdedor ou


após uma sequência de trades perdedores só vai piorar. Se tiver um

137
dia ruim, dê um tempo antes de fazer os exercícios. Se você esperar
um tempo para acalmar (um dia, uma hora ou o que for), você vai
estar em uma posição muito melhor para relaxar e depois realmente
obter algum benefício com estes exercícios.

138
Terceiro exercício – Clicar para stopar ou proteger lucro

Você leu em várias partes deste material que por melhor trader que
você seja, e que por mais que leia fluxo de ordens com maestria,
fatalmente, existirão operações perdedoras. Não há o que fazer para
evitá-las. Nem mesmo os melhores traders do mundo, nem os
melhores robôs, nem ninguém opera sem enfrentar operações
perdedoras. A diferença entre o melhor trader e o pior, muitas vezes
não está no método empregado, mas sim na capacidade de reconhecer
o erro, limitá-lo e continuar confiante. O melhor trader do mundo
possui sim operações que dão errado, mas são capazes de reconhecer
e agir para limitar a perda. E mais, não sofrem com isso e muito menos
deixam de executar as próximas entradas, pois entendem
profundamente que perdas são inevitáveis.

O grande problema é que a maioria dos traders não aprende isso


rápido. Muitos só enxergam a realidade quando já perderam bastante.
Essa relutância em enxergar a realidade e fazer o que tem que ser feito
causa prejuízos financeiros expressivos, além de sedimentar
comportamento e hábito negativo na autoimagem. Uns ficam
gananciosos e não se contentam a ganhar somente o que o mercado
proporciona naquele momento, enquanto outros ficam com medo de
perder mais dinheiro. Ambos os comportamentos são péssimos.

A ganância faz você esperar ao máximo para ter o maior lucro possível,
o que de certa forma é positivo. O problema é que quando o mercado
vira contra a sua posição, você se agarra na posição e não stopa.
Depois disso você já sabe o que acontece, não é?

Já o medo de operar, causa bloqueio. Com medo você ficará


extremante seletivo para entrar no mercado esperando um conjunto
de variáveis, quase perfeito ou quase infalível, para clicar. Você vai
depositar tanta expectativa no sucesso deste trade, que se ele der
errado, você não aceitará que será necessário stopar. Você só entrou
no mercado, após estar plenamente convencido de que estaria certo.
Errar não fazia parte dos planos. Você também já deve saber o que
acontece quando você pensa assim. Quando o mercado vier contra a
sua posição (e você sabe que vem) a perda será gigantesca.

Este exercício te ajudará a limitar o risco, se proteger de grandes


perdas e garantir lucro. Se você já opera será uma ótima oportunidade
de mudar os maus hábitos. Se ainda não opera será excelente que
aprenda as melhores práticas desde o início.

139
1) Procure entrar em relaxamento físico e mental.

2) Neste exercício de visualização queremos, primeiramente, praticar


mentalmente as ordens de saída para proteger lucro. É muito
importante ter uma postura defensiva enquanto opera e este exercício
te ajudará criar este hábito.

3) Assim como nos exercícios anteriores, visualize algumas operações


em que fez o que tinha que ser feito e limitou o prejuízo. Pegue
operações em que stopou no preço ou operações em que estava no
lucro, mas zerou logo após ter percebido algo que indicasse que era
para sair. Lembre-se do sucesso que teve em agir dessa forma e reviva
os sentimentos. Reforce a ideia de que estava agindo para seu próprio
bem e que fez o que tinha que ser feito, sem hesitar.

4) Se você ainda não opera ou já opera, mas possui pouca experiência


com esse tipo de operação busque situações similares nos vídeos da
área do aluno. Busque situações onde as operações foram zeradas ou
no preço ou assim que alguma coisa motivou sair antes do alvo. Use
também a sua imaginação para criar mais situações onde seria
necessário zerar no preço ou a qualquer momento antes de atingir o
alvo. Sinta o clique do mouse, veja a sua ordem ser executada. Torne
o mais real possível.

5) A próxima etapa é imaginar-se entrando no mercado logo que o


conjunto de variáveis que você define como oportunidade estiver
presente. Usei várias vezes o exemplo da inversão de fluxo, portanto,
continuarei com ele. Imagine que o fluxo de venda tenha se invertido
para compra e que você tenha clicado para comprar (agredindo a
venda) quando a fila de venda estivesse ficando bem escassa. Uma vez
dentro da operação (comprado), você esperaria que entrassem mais
ordens de compra.

Dei esse exemplo somente para facilitar, mas sugiro que você faça
visualização com suas próprias operações passadas. Será muito mais
efeito usar operações em que você, realmente, stopou.

6) A próxima coisa você deve imaginar é o mercado não se


comportando como esperava, ou seja, não entraram mais ordens de
compra.

7) Você aprendeu no curso, que estar preparado para stopar é


essencial. Agilidade é fator decisivo para traders ativos. Portanto,
visualize-se abrindo uma boleta de saída (neste caso de venda). Veja
a cor da boleta, veja a quantidade de lotes e o preço que esta nela.
Quando o mercado se mover contra a sua posição e você sentir que é
para stopar, clique. Veja claramente sua ordem indo ao mercado e

140
sendo executada. Se você já opera, resgate claramente situações em
que tenha stopado. Lembre-se de todos os detalhes.

Esse tipo de exercício ajuda e muito a não hesitar quando o mercado


vier contra sua posição. Treinar stops mentalmente ajuda muito ter
ímpeto na hora que precisar. Visualizar stops é estar preparado para o
pior. Esse tipo de exercício contribui de forma muito efetiva na
construção da autoimagem de um trader consistente e confiante.
Lembre-se, a confiança, não vem da sua capacidade de prever os
movimentos de preço, mas sim da sua certeza de como reagirá com o
imprevisível.

141
Faça seus próprios exercícios de visualização

Estes três exercícios anteriores, são apenas alguns exemplos de


aplicação da visualização. De toda forma, acredito que os três refletem
grande parte das dificuldades de traders ativos. Obviamente, você não
só pode como deve expandir os exercícios a outras situações. Você
aprendeu como a técnica funciona e pode aplicá-la ao que quiser27.

Você só precisa ter ciência do mau hábito que precisa mudar ou do


comportamento que queira melhorar. O material que você preencheu
antes do curso deve estar repleto de ideias para você trabalhar.

Mais uma vez aproveito para dizer que você só terá dúvidas, quando
operar. Só terá o que corrigir, quando operar, portanto, não hesite em
treinar. Mas treine com lotes pequenos e só aumente o lote no sucesso.

Aqui estão algumas dicas ao fazer seus próprios exercícios de


visualização:

1) Você deve estar relaxado ao fazer exercícios. Se estiver tenso ou


estressado, simplesmente não funcionará.

2) Use o máximo de detalhes possível. Use sempre seus sentidos para


ajudar a visualizar. Você pode ver, sentir, cheirar e ouvir todas as
coisas em sua visualização. No começo será mais difícil, mas com
prática você consegue.

3) Tente repetir os exercícios diariamente e de preferência no mesmo


horário.

4) Não existe uma regra sobre o tempo correto da visualização. Muito


tempo será cansativo e você logo desanimará, enquanto pouco tempo
não gerará resultados. Segundo nossas próprias experiências, o ideal
é disponibilizar de 10 a 15 minutos por dia. Tente ser bem regrado,
pelo menos no primeiro mês. Após este período você sentirá o benefício
e o exercício se tornará prazeroso.

5) Sempre que for visualizar dê preferência para relembrar algo que já


te aconteceu, porque isso tornará o processo mais real.

6) Não se culpe por seus erros. Em vez disso, você deve perdoar-se
completamente e seguir em frente.

27
Inclusive na sua vida fora do mercado.

142
À medida que for evoluindo como trader, você pode e deve substituir
e/ou acrescentar exercícios à lista. Além dos três exercícios propostos
você pode visualizar situações como:

- visualização de ganhos maiores que o normal. Visualize-se


enxergando uma oportunidade de ganhar mais que a frequência de
mercado.

- Visualize-se esquecendo por completo da operação, após zerá-la com


lucro ou com perda. Este exercício pode ser ótimo para quem tem
dificuldades em se livrar do que já passou. Tudo o que precisa fazer é
resgatar situações em que tenha se beneficiado de stopar e logo em
seguida enxergar uma nova oportunidade de entrar no mercado.

- Visualize o imprevisível. Use esta técnica para se preparar para


movimentos bruscos de mercado. Quanto mais você se preparar, mais
adaptado à realidade estará.

- Visualize-se fazendo outros tipos de trades. Por exemplo, digamos


que tenha se interessado por Trade Location, mas que ainda não tenha
experiência. Crie situações baseadas no que você viu nas aulas e crie
situações baseados no que você vê no mercado no dia a dia. Isso te
ajudará a evoluir mais rapidamente nas operações, especialmente se
você se preparar para os mais imprevisíveis desdobramentos do
mercado.

- Se você possuir outro perfil operacional, adeque os exercícios ao seu


perfil.

143
Mensagem

Tudo o que você leu neste material foi efetivamente aplicado por nós
e realmente acreditamos em tudo o que está escrito. Este material
reflete, diretamente como pensamos e como agimos como traders. Foi
necessário muito trabalho para chegarmos nesse ponto, mas
chegamos. Nós sempre tivemos um objetivo muito claro em mente e
uma âncora que nos mantinha e nos mantêm operando. Com este
material você também será capaz de chegar lá. Não importa o quão
longe pareça e nem o quão difícil seja, se nós conseguimos você
também consegue.

Junte razões para operar, tenha uma boa âncora e siga este trilho.
Você chega lá.

Grande abraço e atitude vencedora!

André Hanna e André Antunes

144