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Artigo: O cárcere e o caos

Adriano Mendes Barbosa

Advogado em Salvador - Bahia

“Do lado de dentro das celas só há violência. Nelas a ética, a moral, a bondade, a conduta
reta são asfixiadas. Não há espaço para o homem superar os seus erros.”

Em veras, o que se vislumbra hodiernamente é a mais completa iniquidade da pena privativa


de liberdade, que desvirtuada e desacreditada não consegue, ao menos tanger, a realização
de sua função social precípua: a ressocialização do condenado.

Por conseguinte, o aprisionamento, que outrora fora apanágio para a solução das condutas
delituosas, ascende hoje como um nefasto Monstro Jurídico, no seio da sociedade pós-
moderna, democrática e globalizada.

Destarte, o isolamento do homem no cárcere, da maneira que se dá, principalmente, neste


lado do hemisfério sul, neste dias de limiar de milênio, é mais um “fator criminogênico” –
como ensina João Baptista Herkenhoff – do que um instrumento de repressão de infrações
penais e reeducação de agentes delituosos. Leciona o preclaro mestre, “a prisão encerra uma
grande contradição: como é possível você querer socializar alguém, segregando-o?” [1] É
óbvio que para alguns poucos casos, em face de certos cidadãos, o cárcere, na ausência de
outra solução mais pertinente, ainda é, infelizmente, o meio que se dispõe para se
neutralizar indivíduos proficuamente propensos e/ou versados em práticas delituosas.

O que há de imperar, portanto, é o inteligente entendimento de que a pena privativa de


liberdade deve ser uma exceção no tratamento daquele que comete um crime. Ela deve ser
a ultima ratio, último recurso a ser utilizado tão somente no tratamento dos ditos
delinqüentes perigosos e das condutas que proporcionam danos a bens significativos
protegidos pelo ordenamento Jurídico. Há que se observar os Princípios da Insignificância e
da Subsidiariedade do Direito Penal. A regra deve ser a aplicação da sanção que não
estigmatiza, não marginaliza ainda mais o Já marginalizado. A regra deve ser a aplicação da
pena que tenha por escopo mor a recuperação do homem sem segregação e sem mais
violência.

O quadro em que estão pintadas as cenas das prisões é Surrealista. O que há por trás das
grades do sistema penitenciário é um celeiro, onde se parteja a cada dia novos e enfurecidos
indivíduos, que se voltam – com toda a ira – contra nós outros que estamos do lado de fora.
Do lado de dentro das celas só há violência. Nelas a ética, a moral, a bondade, a conduta
reta são asfixiadas. Não há espaço para o homem superar os seus erros. O cárcere é o
tapete social onde se joga por baixo o lixo indesejável daqueles selecionados para sofrerem o
peso da mão dura da lei e da ordem. Nas prisões, um cidadão entra como batedor de
carteiras e sai graduado como latrocinista. Como no dizer do Sociólogo Sérgio França Adorno
de Abreu, “as prisões configuram (...) locus privilegiado da profissionalização de novos
delinqüentes e da construção de carreiras e de identidades delinquenciais” [2].

A quem interessa este tipo de pena?

Já é hora de superarmos a visão estreita, equivocada e deletéria dos justiceiros de plantão -


tal qual aqueles apresentadores de TV que vociferam em prol de condenações implacáveis,
exemplares, sumárias e atrozes em troca de pontos na audiência de seus programas. Não se
precisa num país de excluídos e marginalizados de pontos no IBOPE. O que se precisa é de
justiça em abundância. Não são necessários os vingadores mercenários com as suas
estripulias televisivas. O que se necessita é a observância dos ditames do Estado
Democrático de Direito.
Entrementes, em certos casos isolados e excepcionais a pena privativa de liberdade ainda ex
surge como um meio susceptível de uso para neutralização de determinados agentes
criminosos. Há aqueles que possuem um distúrbio de ordem comportamental de tal monta,
que a sua presença na comunidade causa insegurança, temor e instabilidade. Nestes casos
em que se configura extrema necessidade de isolamento social é que se justificaria o
encarceramento. Devido, então, à mais completa inabilidade para as relações sociais, o
enclausuramento seria justificável. Todavia, tal aprisionamento deverá observar as regras
que emanam da Lex Suprema, notadamente os direitos fundamentais. Mesmo nesses casos
de extrema necessidade, a prisão não pode se transformar em uma arma de vingança. Ela
deve ser, antes de tudo, um instrumento de proteção da sociedade que respeita a pessoa
humana e busca a sua recuperação.

Com efeito, o que deve prevalecer é a aplicação de penas alternativas à pena de prisão.
“Sanções com teor pedagógico”. Esta é a tendência da doutrina moderna e da legislação
mais afinada com os anseios sociais de uma vida em comunidade mais pacífica e mais
harmônica, onde a violência do cidadão seja contida e a arbitrariedade do Estado seja
arredada.

A Lei 9099/95, a Lei dos Juizados Especiais é com certeza um dos maiores passos do
legislador pátrio na seara do direito penal e processual penal – em que pese os seus
dispositivos, não menos importantes, no campo civil. Tal diploma normativo confere um
tratamento mais racional, menos bárbaro, mais inteligente e menos tosco do cidadão que em
determinado momento da sua existência – muitas vezes subsistência – comete uma infração
penal. Não obstante a sua magnificência, os ditames de tal diploma normativo - pelo menos
por enquanto - somente têm incidência em relação às infrações penais ditas de menor
potencial ofensivo.

Na verdade, a Lei 9099/95 é o corolário do brocardo emanado de Ulpiano, suum cuique


tribuere, vale dizer, dar a cada um o que é seu. Há desse modo uma proporção racional
entre a ação delituosa que o indivíduo engendra e a reação que o Estado-juiz produz para
conter a conduta que traz danos aos seus jurisdicionados.

Institutos como a composição civil (art. 74, parágrafo único), a transação penal (art. 76) e a
suspensão condicional do processo (art. 89), demostram à sociedade que é possível tratar a
questão penal com racionalidade. Tais institutos proporcionam o tratamento do crime sem
prisão, na esteira do escólio do preclaro Mestre Herkenhoff.

O que se conclui mediante uma perquirição mais profícua sobre o sistema penal pátrio é que
o ignóbil instituto da pena privativa de liberdade precisa estar “com seus dias contados“. Não
há mais cabimento para se tratar a delicada questão do crime e do criminoso através de
grades, tortura e preconceito. É necessário que se encare o problema de frente. Chega de
paliativos. Chega de engodo. Ou se enfrenta tal problemática com profundidade, ciência e
perquirição... ou seremos todos reféns daqueles que negligenciamos ao cárcere.

Notas:

[1] Herkenhoff, João Batista. Crime tratamento sem prisão. 3. Ed. Porto Alegre : Livraria do
Advogado, 1998.

[2] Abreu, Sérgio França Adorno de. Revista Ciência, órgão oficial da SBPC, vol. 40, n.º 2,
fev. 88, pp. 194 a 196

BARBOSA, Adriano Mendes. O cárcere e o caos Disponível na internet: www.ibccrim.org.br,


29.01.2000