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O atendimento à criança: Uma

proposta humanista relacional.


Juliana dos Santos Lopes[1]
INTRODUÇÃO:
Ao iniciar minha prática profissional de atendimento psicoterápico à
criança deparei-me com alguns desafios.Desde o princípio pretendia
atendê-las baseada nas concepções da Psicologia Humanista, acerca
de relação terapêutica. Embora não deixasse de considerar as
contribuições da psicanálise para compreensão do processo de
desenvolvimento e constituição da identidade, em minha atuação
queria seguir os ensinamentos de Carl Rogers. Considerar a pessoa e
não o problema, o vivido no aqui-e-agora, na relação única que se
estabelecesse entre a pessoa da criança e a pessoa do
terapeuta. Assim, o primeiro desafio envolvia uma mudança de
postura: Era necessário sair “de trás” da mesa, ou seja, sair do lugar
investigativo e avaliativo proposto pela prática diagnóstica. Tratava-se
de iniciar um processo psicoterápico com a criança, centrado na
pessoa dela e no que ela estaria vivenciando de significativo no
encontro comigo. Era então um lento caminhar em direção a um
encontro profundo com a pessoa da criança e com a minha própria
pessoa, ou mesmo minha própria criança.
Tal postura implicava em fazer o que Husserl chamou de “suspensão
fenomenológica”. Colocar entre parênteses, hipóteses, conceitos, pré-
conceitos, sintomas, queixas e rótulos acerca daquela criança, para
então me deparar com a “pessoa” que ali se encontrava. Abrir mão,
aos poucos, da “pseudo-segurança” obtida através das técnicas,
métodos, testes, mesa, cadeira, tudo que pudesse ser interposto entre o
terapeuta e o cliente, ofuscando o que, para mim, é o essencial: a
relação terapêutica. Rogers (1977) nos ensina que, é a partir de uma
relação humana dotada de certas condições favoráveis a aceitação de
si e ao pleno desenvolvimento que um processo de mudança interna,
visceral pode se instaurar. Isso caracteriza uma psicoterapia. Nesse
tipo de relação, deve acontecer um encontro profundo onde me
aproximo o mais possível do fluxo experiencial daquela pessoa que ali
está, a fim de oferecer-lhe uma compreensão empática desse vivido.
Assim, é preciso confiar na sabedoria advinda desse encontro. Foi um
processo lento, mas constante. Os resultados dessa postura vêm
ratificando cada vez mais as minhas concepções sobre um processo
terapêutico humanista e relacional no trabalho com crianças.
Para se falar em atendimento psicoterapeutico de crianças é preciso
adotar também uma determinada concepção do que é criança. Parto do
pressuposto que: A criança é uma pessoa em desenvolvimento. Possui
em si todos os instrumentos que a possibilita evoluir e desenvolver-se
e uma tendência a utilizar tais instrumentos, desde que lhe sejam
dadas condições favoráveis para tanto. Estrutura sua identidade na
relação afetiva com os adultos de referência. Nos primeiros anos de
vida, sua principal via de relação com o outro e experimentação do
mundo é basicamente o corpo e a comunicação não-verbal.
Diferencia-se do adulto não em status, mas em experiência e
consciência de vida, percepção de si mesmo e do mundo. Assim, a
mesma consideração e respeito que precisa existir na relação com o
adulto para que essa se torne terapêutica é necessária quando se trata
de uma criança. Essa proposição parece óbvia, mas quando
observamos determinadas atitudes adotadas na prática clínica com
crianças, verificamos o quanto podemos nos surpreender com a
concepção do profissional e seu efeito na prática.
Além disso, a criança está numa fase especial de constituição de sua
identidade, fase essa que demanda determinas formas de relação, que
favoreçam a sua evolução. Por exemplo, a necessidade de afirmação
de uma criança de três anos, aparece geralmente como uma crise de
oposição ao poder do adulto sobre ela. É preciso no atendimento
identificar tal necessidade e favorecer-lhe o exercer de seu próprio
poder, de escolha. Ainda que ela decida por não brincar de nada
naquele dia. Ressaltando-se que esse momento em seu processo
evolutivo, não necessariamente equivale ao desenvolvimento
cronológico.
A PROPOSTA HUMANISTA E RELACIONAL
Rogers (1977) nos esclarece, que para que um processo terapêutico
seja desencadeado são necessárias algumas condições:
1. Que duas pessoas estejam em contato
2. Que a primeira pessoa, que designaremos o cliente, se encontre num
estado de desacordo interno, de vulnerabilidade ou de angústia.
3. Que a segunda pessoa, que designaremos como terapeuta, se
encontre num estado de acordo interno – pelo menos durante o
decorrer da entrevista e no que se relaciona ao objeto de sua relação
com o cliente;
4. Que o terapeuta experimente sentimentos de aceitação positiva
incondicional a respeito do cliente.
5. Que o terapeuta experimente uma compreensão empática do ponto
de referência interno do cliente
6. Que o cliente perceba –mesmo que numa proporção mínima – a
presença de 4 e de 5 isto é, da consideração positiva incondicional e
da compreensão empática que o terapeuta lhe testemunha.
Pois bem, durante o atendimento a criança, por muitas vezes me
esbarrava no estabelecimento dessa primeira condição: o contato.
Com adultos, priorizamos basicamente para estabelecer um contato,
a comunicação verbal. A palavra torna-se tanto o meio de acesso, (a
escuta) quanto o instrumento de intervenção no processo terapêutico.
Mas ao atender crianças fui percebendo que essa não era a principal
via de acesso a elas. Já sabia que se comunicavam através do brincar,
do desenho, mas também percebia que se comunicavam de inúmeras
outras formas. Foi nesse momento que se deu meu contato com uma
outra forma de comunicação e intervenção a comunicação não-verbal
e a proposta relacional.
Bem acho importante contar uma breve história desse encontro com a
psicomotricidade relacional. Quando iniciei minha prática clínica com
crianças em uma creche, atendi uma menina com seus 6, 7 anos, que
praticamente não utilizava da comunicação verbal, quando a utilizava
parecia-me desconectada da realidade. Joana[1] parecia não estar ali.
Minhas intervenções compreensivas pareciam não acessa-la. Era como
se ela estivesse num outro nível de comunicação pré-verbal! Através
de sua postura corporal, da forma como usava os objetos, ela mostrava
quem e como ela era. Comecei a usar, de forma um pouco intuitiva,
meu corpo, os gestos, o olhar o brincar para me comunicar com ela.
Certo dia, ela veio pra sessão extremamente agitada. Eu tinha a
impressão de que ela estava espalhada na sala, movimentava-se sem
parar e sem objetivo, com um tom de angústia crescente. Meio
intuitivamente, peguei uma caixa de lego e espalhei pelo chão… ela
parou estática olhando para aquilo. Sentei no chão e aos poucos fui
juntando cada peça em meu colo, com cuidado… Ela sentou-se entre
minhas pernas e também foi juntando… foi se juntando e quietando…
Apoiou-se em mim e se conteve. Quietou-se. Foi um momento de
encontro profundo com aquela menina espalhada, angustiada… Ela
foi compreendida empaticamente ali, de forma não-verbal. Logo em
seguida, saiu do colo e foi brincar, dessa vez mais organizada
começava a brincar comigo, como se fosse um prolongamento meu.
Foi por meio dessa modalidade de comunicação que tive acesso a ela,
que consegui estabelecer um contato, um encontro verdadeiro,
significativo.
Quase que paralelo a essa experiência, conheci por meio de uma
profissional mais experiente no atendimento às crianças[1], um grupo
de evolução pessoal vindo da Itália que fazia uma formação em
Psicomotricidade Relacional. Fui conhecer e achei incrível e estranho
ao mesmo tempo. Uma semana de vivência (Sensibilização), onde a
proposta era brincar com alguns objetos não estruturados e uma das
poucas regras explícitas era, durante o brincar, não se usa a palavra. A
princípio, parecia tudo muito solto, mas ao mesmo tempo via uma
seriedade, uma coerência lógica nas intervenções. Saí dessa semana,
com a certeza de que havia encontrado uma forma de compreender
aquela via de contato com a criança. A comunicação não-verbal. Essa
é a proposta da Psicomotricidade relacional. Ou seja, a escolha da
forma de trabalho, partiu do vivido do experienciado pra só depois ser
elaborado teoricamente.
Não pretendo entrar muito na elaboração teórica da proposta
relacional, uma vez que não é esse o objetivo do texto. Basta que se
tenha em mente de onde vem a psicomotricidade relaciona e para onde
vai essa proposta:
PSICOMOTRICIDADE TRADICIONAL: Baseada na concepção que
desenvolvimento motor e psíquico estão intimamente ligados, visa
favorecer a experimentação corporal através de jogos, exercícios,
técnicas de organização do esquema corporal, para percepção de si no
espaço, no tempo e no mundo.
PSICOMOTRICIDADE RELACIONAL (André Lapierre – Ed.
Física):
· Descoberta de fenômenos relacionais vivenciados pelas
crianças durante a execução de exercícios psicomotores;
· Contato com as idéias de Rogers sobre grupos de Encontro.
(noção de livre experienciar e não-diretividade)
· Mudança na forma de propor os grupo de psicomotricidade.
(jogo espontâneo, material não estruturado, livre experienciar);
· Intervenções priorizando a relação adulto/criança (autoridade,
sexualidade, afetividade, agressividade)
Busca de compreensão dos fenômenos surgidos por meio da
psicanálise.
Psicólogos de orientação mais psicanalítica. (Esteban Levin, Suzana
Cabral, outros).
· Principalmente a Psicanálise Lacaniana
· Enfatizam a interpretação dos fenômenos;
· Uso da palavra como principal via de intervenção;
· Compreensão basicamente psicanalítica do processo.
· Desenvolvimento psicossexual;
· Estruturas psíquicas;
Jogo espontâneo; Propiciar a associação livre via corpo.
Psicólogos de orientação mais humanista (Mauro Verchiatto, Marta
Gonzalez)
· Enfatiza a relação estabelecida e compreensão empática do
vivido.
· Uso da comunicação não verbal e da relação como via de
intervenção a partir do que está sendo vivido e experienciado;
· Intervenção corporal associada a posterior análise verbal do
vivido.
· Compreensão de processo de desenvolvimento humano
enquanto um Eu-Existencial, que se põe no mundo e se constitui a
partir da relação com o outro. (Merleau Ponty)
· Contribuições da psicanálise neo-freudiana. Noção de
desenvolvimento psicoafetivo. (Margareth Malher) de espaço e objeto
transicional (Winnicott)
Jogo espontâneo, livre experienciar do objeto, do outro. Coloca uma
estrutura no trabalho de Lapierre, acrescenta uma concepção de
processo de desenvolvimento e projeto de intervenção.
Em Belo Horizonte, a proposta da psicomotricidade relacional de
orientação humanista, foi desenvolvida em seu aspecto educativo por
Maria Dinah Meirelles[1], com seus trabalhos em creches e escolas
infantil e de Nilda Maria Ribeiro, que em seu viés clínico propõe o
termo Psicoterapia Relacional à sua forma de trabalho, para falar de
um processo efetivamente psicoterapeutico via relação, corpo e jogo
espontâneo, desvinculando-se das antigas definições da
psicomotricidade tradicional e relacional.
MAS, COMO É ISSO TUDO NA PRÁTICA?
Voltando à definição de Carl Rogers (1977) a primeira condição
colocada para que ocorra um Processo Psicoterapêutico, é de que se
estabeleça um contato entre duas pessoas. Um contato é um encontro
verdadeiro, é uma conexão e uma compreensão da forma de
comunicar daquela pessoa.
Tenho compreendido que os primeiros momentos de atendimento à
criança envolvem a busca por esse “contato”. Estabelecer contato,
comunicar-se, é bem diferente de fazer um rapport, “deixar a criança à
vontade”. Trata-se de buscar uma comunicação com a pessoa que está
por traz do sintoma, das defesas. Há naquela criança que esperneia no
colo da mãe, para não entrar na sala do terapeuta, uma pessoa. Que
talvez, tenha medo de entrar, que talvez conheça apenas essa forma de
se comunicar, ser vista, que talvez precise da birra para sair da relação
fusionada, ou para manter-se nela. Mas, enfim, uma pessoa, que se
põe no mundo daquela forma. Assim, no caso da criança esse contato
precisa passar pela sua modalidade específica de comunicação, que é
basicamente a comunicação não-verbal. A criança utiliza-se do corpo
para se comunicar, para se colocar no mundo. De acordo com Ponty
(1984) “O corpo é o ser no mundo do homem”. Para esse autor, o
corpo é a primeira via por meio da qual a criança entra em relação
com os outros é essa a primeira via de comunicação, anterior a
linguagem verbal. Trata-se da interação através do corpo, das posturas
corporais, do diálogo tônico conforme nos ensina Wallon (1962). Essa
é a chamada comunicação não-verbal. É através desse tipo de
comunicação que se inicia o processo.
Portanto, ao atender uma criança, se faz necessário que sejam
estabelecidas Condições Facilitadoras dessa modalidade de
comunicação. Essas condições podem ser entendidas, tanto do ponto
de Vista Externo: estrutural, quanto do Ponto de vista interno:
relacional. Quando falo de um ponto de vista estrutural, estou me
referindo a uma estrutura física que ofereça ao terapeuta condições
seguras de trabalho. Oferecer à criança um ambiente seguro, um
espaço físico de atendimento adequado à uma criança, à sua forma
peculiar de comunicação e expressão. Esse ambiente possui algumas
peculiaridades. Tenho observado que móveis em excesso, peças de
decoração e outros materiais desnecessários, muitas vezes se
interpõem a relação terapeuta criança. Fazem com que este precise se
ocupar mais com os limites relacionados ao ambiente, (pode isso, não
pode aquilo, cuidado com isso etc), do que se voltar para o que
haveria de essencial no início de um processo terapêutico, ou seja, a
qualidade da relação estabelecida com a pessoa da criança. Rogers
(1977) coloca que é necessário que se estabeleçam condições
favoráveis para que o organismo possa liberar-se e permitir a plena
realização da tendência a atualização. Penso que, estas condições
também precisam ser favoráveis para o terapeuta. Ele precisa estar
seguro quanto ao ambiente não precisando se ocupar diretamente com
outros objetos durante a vivência.
Do ponto de vista relacional, falo da disponibilidade pessoal para
receber uma criança. Da aberturam para estar com ela. Como já disse
meu objetivo não é avalia-la, investigar ou observar seus sintomas,
diagnosticá-la, mas sim, encontrá-la, conhecer a pessoa que está ali
sua forma de comunicar-se. Assim, nas primeiras sessões, procuro
voltar toda minha atenção para a pessoa em sua unicidade, o que a
caracteriza, o que a diferencia dos demais. E também em sua
universalidade, aquilo que é característico do processo de
desenvolvimento humano de qualquer pessoa. Assim, minha ênfase é
na relação.
1. Conhecendo a pessoa/criança.
Num primeiro momento, buscarei conhecer como ela se coloca no
mundo. Para isso utilizo-me não só da escuta através da fala. Mas da
escuta possível através de meus olhos, escuto seu posicionamento
através do corpo. Da escuta que faço de meu próprio ser em relação
com aquele outro ser. Escuto as sensações, emoções que vêm surgem
ao estar com ela. Assim busco compreender e conhecer: Como ela lida
com o espaço? Se é expansiva, “espalhada”, contida. Como ela
temporaliza? Vive um tempo próprio, se perde no tempo, adapta-se ao
tempo da realidade, transgride, submete-se a ele em excesso. Como se
relaciona comigo? Um parceiro de jogos e brincadeiras? Uma
autoridade a obedecer ou a enfrentar? Fica à espera de comandos?
Submete-se a meu desejo, ou assume logo o comando das
brincadeiras, coloca e inventa as próprias regras? Busca o contato
mais afetivo, corporal mais regressivo, ou mais afirmativo? Ou é mais
distante, foge do contato? Como se relaciona com os objetos? Que uso
faz deles, como meio de comunicação, como objeto transicional, como
objeto simbólico. Enfim, como é sua existência, como se coloca no
mundo.
Paradoxalmente, para compreender todas essas coisas é necessário
desligar-me dessas coisas e centrar na relação. É na relação que a
pessoa da criança se manifesta. Assim, é necessário deixá-la livre. No
sentido de permitir-lhe experienciar aquele espaço, aquele encontro,
da forma dela. Acompanhando-a num primeiro momento, adaptando-
se a seu ritmo pessoal, até chegar a compreensão de suas necessidades
psicoafetivas, ela dá a guia, ela apresenta o ritmo do processo. Assim,
se uma criança chega, se relacionando basicamente no nível
intelectual, desconectada do nível emocional, utilizando-se de jogos
estruturados, no caso da psicomotricidade, próximo á atividade de
educação física, é preciso buscar estabelecer o contato com ela a partir
daí, para gradativamente ir propondo formas de brincar, mais
próximas do lúdico e do experienciar corporal. Por outro lado, se ela
chega em silêncio, à espera de ordens e comandos, é preciso talvez
oferecer-lhe algumas guias, mostrando-lhe possibilidades de uso do
material, sem no entanto determinar o que deve ou como deve fazer.
O primeiro momento é um momento de conhecê-la, sem ocupar-se do
que virá depois. À medida que se estabelece esta comunicação
autêntica. Nesse momento procuro comunicar conforme é proposto
por Rogers, mas por meio de posturas e atitudes relacionais: a) que a
recebo como ela é e a aceito como ela é. Estou disponível para ela; b)
que ela tem um valor enquanto Ser único .c) que a sua forma de ser
Pessoa, tem um valor. Paralelamente e, sempre na medida do
necessário. Buscarei dar-lhe a segurança do que é jogo e do que é real.
Oferecendo-lhe limites basicamente para a integridade física e
emocional das pessoas envolvidas: criança e terapeuta. (horários,
momento de brincar, momento de parar a brincadeira, etc).
Após esse primeiro contato, faz-se necessário facilitar a sua
comunicação, que entendo se dá no brincar. Nesse sentido, concordo
plenamente com Winnicott quando afirma que:
“A Psicoterapia se efetua na sobreposição de duas áreas do brincar, a
do paciente e a do terapeuta. A psicoterapia trata de duas pessoas que
brincam juntas. Em conseqüência, onde o brincar não é possível, o
trabalho efetuado pelo terapeuta é dirigido então no sentido de trazer o
paciente de um estado em que não é capaz de brincar, para um estado
em que o é”.(Winnicott, 1975. p59).
2. Facilitando a comunicação através do brincar
Esse ambiente facilitador vai sendo percebido aos poucos pela criança,
gradativamente ela mostra sua forma, sua existência. Penso que: O
segundo objetivo do terapeuta então deverá ser o de facilitar “o
brincar”. É no brincar que a criança se mostra verdadeiramente como
ela é, vivencia e elabora suas emoções e conflitos. É preciso ajudá-la a
colocar cor na brincadeira, dar vida ao seu brincar, encontrar-se ou
reencontrar-se com seu espaço ‘potencial’. Ou mesmo ajudá-la a
descobrir o brincar “de verdade”.
Mas como posso saber se a criança está “brincando e verdade” ?
Quando está inteira no que está fazendo. Desligada do mundo externo,
mas ao mesmo tempo ligada, presente e viva ali na brincadeira.
Quando surge um colorido emocional na sua brincadeira, alegria,
medo, excitação, desejo. Quando experimenta prazer, é divertido.
Quando acrescenta conteúdos ao brincar. Quando utiliza o terapeuta
como um parceiro “simbólico” na brincadeira. Brinca com ele e não
pra ele.
Para facilitar o brincar, é preciso que o terapeuta reencontre seu
“espaço potencial” conforme nos ensina Winnicott, o seu jeito de
brincar, seu lado lúdico, pré-verbal. Encontre o prazer de se relacionar
com aquela pessoa que está ali, através da brincadeira. Abra mão
temporariamente de sua forma de relação formal, de sua comunicação
racional, convencional e busque uma comunicação no nível da
criança. Brincar “de verdade” precisa ser “gostoso” para ambas as
partes.
2.1. E quais são as dimensões desse brincar?
Quando brinca “de verdade”, a criança traz o seu “Eu” através do
corpo. A forma como se coloca no mundo. O mundo, no espaço
terapêutico, é um mundo analógico. Seria a sala, os objetos, os limites
concretos de tempo e espaço. Ela irá trazer o seu “Eu” em relação com
esse mundo mostrando ali: os espaços que ocupa, ou não; os objetos
que escolhe e a forma como escolhe utilizá-los; seus limites corporais;
os limites que estabelece, ou não na relação com o outro. .
Ao brincar com o terapeuta, a criança apresenta-se como ela é em
relação o adulto, figura de autoridade e fonte de afeto (de tudo aquilo
que possa afeta-la, negativa ou positivamente). O tipo de relação que
estabelece, a forma como lida com esse adulto e com sua
disponibilidade, sua autoridade, seus limites. Tudo isso só aparece
quando a criança sente-se livre para brincar com ele.
3. Uma concepção de desenvolvimento humano
Após esses primeiros momentos do processo, que podem durar
algumas sessões, começarmos a ter uma noção sobre como se deu o
seu processo de desenvolvimento psicoafetivo. Ou seja, como sua
identidade foi se configurando, à partir das relações com o outro e
com o mundo. Podemos afirmar que é a partir das relações afetivas
que a criança vai estabelecendo com as pessoas significativas, com os
objetos e com o mundo que ela vai constituindo sua forma de
existência atual que, conseqüentemente lhe dirá da sua existência
quando adulta. Segundo Margareth Mahler (1977), o desenvolvimento
psicológico da criança, é o que vai fazer com que ela saia
gradativamente de seu mundo interior, de uma relação de dependência
e simbiose, para uma relação de autonomia e individuação em direção
ao mundo exterior.
Compreendo que esse desenvolvimento ocorre em fases de
organização e constituição de um sentido de identidade. Ribeiro
(2003) sugere que o processo de formação da identidade da criança
segue um percurso que vai gradativamente, do sentido de identidade
humana até a integração de uma identidade espiritual que pode ser
resumido da seguinte forma:
Identidade Humana – Sentido de existência: Desenvolvido nas
primeiras relações mãe/bebê. Vínculo, chamada pra vida. Vivência de
fusão e contenção, prazer de existir.
Identidade Filial: Senso de merecimento. Sentir-se cuidado. Ser
alguém significativo para outros seres humanos. Sentir-se digno de
fazer parte.
Identidade Pessoal: Afirmação de si como uma pessoa diferente
daquela que cuida dela. Ser só e poder estar só. Como uma pessoa
tem um certo poder sobre sua vida, confronto com o querer do outro e
com a realidade. “Sou alguém que pode”. Vivência de limites
pessoais.
Identidade Sexual: Identificações com figuras parentais, relaciona-se
com iguais e diferentes e percebe-se menino ou menina. O que é típico
do masculino, o que é típico do feminino. Ser em relação com o sexo
oposto, intimidade, entrega.Vivência edípica.
Identidade Social: Descobre até onde ir com o outro e no
mundo.Diversificação de papéis. Sentir-se alguém na sociedade.
Identidade Espiritual: Busca da transcendência. Sentido da existência,
comunhão com o espiritual. Integração com o universo.
Para Ribeiro (2007) “todos os aspectos da realidade humana estão
intrinsecamente ligados e são co-existentes durante todo o
desenvolvimento”. Ribeiro postula que o desenvolvimento dessa
última identidade, a espiritual, está apoiado em nossa história de vida
e na forma como desenvolvemos nossos potenciais em cada etapa
desse processo de desenvolvimento.
CONCLUÍNDO
A partir dessa compreensão buscaremos elaborar um projeto de
Intervenção, que visa facilitar a retomada do pleno desenvolvimento
dessa criança, facilitar a vivência de seu processo pessoal através de
vivências de afirmação e regressão. Experimentando a própria
agressividade, afetividade, relação com a autoridade, sexualidade,
afetividade. Retorna etapas de seu desenvolvimento para melhor
elabora-las numa nova relação com o adulto, disponível a atender suas
necessidades psicoafetivas e relacionais.
O percurso que se segue a esse primeiro momento, no entanto, é
ilimitado. Pois é a criança que mostrará o caminho. É a especificidade
de cada criança como ser único, inserida em uma determinada relação
família e contexto social, que nos mostrará os caminhos a seguir. No
entanto, vale ressaltar, que precisamos ter em mente o objetivo do
trabalho, a fim de não nos perdermos nessa caminhada. Ou seja, como
nos afirma Rogers, o objetivo de uma psicoterapia deve ser em última
análise. Favorecer e facilitar o pleno desenvolvimento da pessoa
humana.
Referências Bibliográficas:
ROGERS, Carl. R. & KINGET, G. Marian. Psicoterapia e Relações
Humanas: teoria e prática da terapia não-diretiva.2a. ed. Belo
Horizonte, Interlivros, 1977.
PONTY, Merleau. As relações com o outro na criança. Belo
Horizonte. SEGCP/Imprensa oficial, 1984.
WALLON, Henri. A evolução psicológica da criança. Tradução
Claudia Berliner. São Paulo: Martins Fontes, 2007.
WINNICOTT. D.W. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro, Imago
Editora Ltda, 1971.
MAHLER, Margaret S. O nascimento psicológico da criança. Rio de
Janeiro, Zahar Editores, 1977.
RIBEIRO, Nilda Maria. A evolução da comunicação na
criança. Apostilas do curso de formação em psicoterapia relacional,
Belo Horizonte, 2007.

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