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Revista de Gestão & Regionalidade

Volume 24 – número 71 – edição especial - XI Semead - out/2008 Universidade Municipal de São Caetano do Sul ISSN 1808-5792

Processo de tomada de decisão do Felipe Bogea

Vol. 24 • Nº 71 • edição especial • XI Semead • outubro 2008


investidor individual brasileiro no mercado Lucas Ayres Barreira de Campos Barros
acionário nacional: um estudo exploratório
enfocando o efeito disposição e os vieses
da ancoragem e do excesso de confiança

Tecnologia social de inclusão de jovens pelo Silvia Pires Bastos Costa


trabalho: uma análise da experiência de um Francisco Antônio Barbosa Vidal
consórcio de ONGs no desenvolvimento de
ação intersetorial com empresas e governo

Estrutura de capital na América Latina Veronica Favato


e nos Estados Unidos: uma análise de Pablo Rogers
seus determinantes e efeito dos
sistemas de financiamento

A influência do ambiente competitivo Felipe Mendes Borini


nas estratégias das subsidiárias Edson Renel da Costa Filho
estrangeiras de multinacionais brasileiras Moacir de Miranda Oliveira Júnior

O comportamento do consumidor Ricardo Jato, Reginaldo Braga Lucas


insatisfeito pós-compra: um estudo Milton Carlos Farina, Paulo Henrique
confirmatório Tentrin e Mauro Neves Garcia

Curso de administração da Universidade Shalimar Gallon


Federal de Santa Maria/UFSM: a percepção Cláudia Medianeira Cruz Rodrigues
dos professores e alunos sobre o tema
“práticas pedagógicas”

Atuação estratégica da área Aniele Fischer Brand


de gestão de pessoas em Suzana da Rosa Tolfo
organizações de saúde: Maurício Fernandes Pereira
USCS

um estudo à luz da percepção dos Martinho Isnard Ribeiro


profissionais da área de Almeida
Universidade

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DADOS INTERNACIONAIS DE CATALOGAÇÃO NA PUBLICAÇÃO (CIP)

Gestão & Regionalidade / [Publicação do] Programa de Mestrado de Administração da


Universidade Municipal de São Caetano do Sul – v.22, nº 61, 2005 - São Caetano
do Sul : USCS, 2005.

Quadrimestral
Apresenta Bibliografia
Resumo em inglês e português
Publicada como Revista IMES, v. 1-17, n. 1-48, 1983-2000
Publicada como Revista IMES Administração, v. 17-21, n.49-60, 2000-2004
ISSN 1808-5792

1. Administração – Periódicos I. Universidade Municipal de São Caetano do Sul

CDU 658(05)
CDD 658.05

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universidade

REVISTA GESTÃO & REGIONALIDADE

MISSÃO

A revista Gestão & Regionalidade tem como missão contribuir para a geração e disseminação de conhecimento na área de
Administração de Empresas, considerando-se as sub-áreas tradicionais desta área de conhecimento, acrescidas da área denominada
Estudos da Regionalidade.

PERFIL TEMÁTICO E OBJETIVOS DA PUBLICAÇÃO

A revista Gestão & Regionalidade tem como público professores, pesquisadores, alunos de graduação e pós-graduação e parcela
relevante da comunidade empresarial.
Trata-se de um periódico generalista na área de Administração, mas que incorpora e busca se aprofundar em temas que associam gestão
empresarial à regionalidade. Os estudos desta sub-área voltam-se para a análise da articulação de esforços conjuntos de organizações e
outros segmentos da sociedade no espaço de uma região – que pode ser geográfico, administrativo, econômico, político, social e cultural.
Os artigos publicados na revista Gestão & Regionalidade devem ser elaborados com bases nos princípios de construção científica do
conhecimento, devem tratar de tema relevante para a área de Administração no contexto atual e utilizar referencial teórico-conceitual
que reflitam o estado da arte do conhecimento na área. Os trabalhos devem ainda esclarecer quais são os impactos de seus resultados e
conclusões na teoria e prática administrativa.
As áreas temáticas da revista Gestão & Regionalidade são: Administração da Informação, Administração Pública e Gestão Social,
Contabilidade, Estratégia em Organizações, Estudo e Pesquisa em Administração e Contabilidade, Estudos Organizacionais, Finanças,
Gestão de Ciência, Tecnologia e Inovação, Gestão de Operações e Logística, Gestão de Pessoas e Relações de Trabalho, Marketing.

MECANISMO DE AVALIAÇÃO DE ARTIGOS

Os artigos originais submetidos à revista Gestão & Regionalidade que atenderem às normas de submissão serão avaliados por três
avaliadores ad hoc na forma triple blind review. Os critérios de avaliação dos artigos são: tema atual, relevante e oportuno; objetivo do
trabalho está claro e bem definido; abordagem é criativa e inovadora; estrutura do texto é clara e adequada a um trabalho científico;
linguagem é clara e concisa; leitura é fluida e agradável; base teórico-conceitual é consistente, adequado e bem estruturado; metodologia
de pesquisa é clara e aderente os objetivos do trabalho; análise dos resultados permeada pelas informações obtidas na pesquisa e pelos
conceitos apresentados no referencial teórico; conclusão é coerente, clara e objetiva; o trabalho representa contribuição científica ou
prática para o campo da Administração ou da Contabilidade.

TIPOS DE PUBLICAÇÕES:

Artigos, Ensaios, Resenhas e Casos em Administração.

NORMAS PARA SUBMISSÃO DE ARTIGOS

• Devem ser enviados dois arquivos MS Word 6.0 ou posterior:

1. O primeiro arquivo deve trazer o título do artigo e os dados do autor e autores - nome, função acadêmica, instituição que
pertence, endereço completo para correspondência, e-mail, telefone e um breve curriculum vitae;
2. O segundo arquivo deve conter o texto integral, sem identificação do(s) autor(es). Deve ter entre 5.000 e 8.000 palavras. O texto
deve ter letra tamanho 12 e tipo Times New Roman, espaço simples e 2,5 centímetros de margens. Após o título, deve ser
apresentado um resumo em português e outro em inglês, não devendo ultrapassar 150 palavras. Devem ser apresentadas no
mínimo três palavras-chave, também em português e em inglês. As referências devem ser apresentadas no final do artigo, em
ordem alfabética, obedecendo às normas da ABNT NBR 6023/00.

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• Os artigos podem ser enviados em português, espanhol e inglês.
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Gestão & Regionalidade


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Gestão & Regionalidade - Vol. 24 - Nº 71 - edição especial - XI Semead 2008 - out/2008 1

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Gestão & Regionalidade

EXPEDIENTE
Revista Gestão & Regionalidade - Uma publicação da USCS - Universidade de São Caetano do Sul

Vol. 24 – NO 71 – edição especial contendo José Francisco Salm Sima Montame-Sarmadian


textos selecionados do evento XI Semead - UDESC - Universidade do Centre for the Studies of Emerging Markets,
Seminários de Administração da FEA/USP Estado de Santa Catarina Westminster Business School
(ocorrido em julho 2008) University of Westminster, London, UK
Lindolfo Galvão de Albuquerque
Periodicidade: Quadrimestral
Universidade de São Paulo - FEA/USP Bukard Sievers
Fechamento desta edição: outubro/2008
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Pró-Reitor Administrativo e Financeiro Marcio Antonio Teixeira Administração da USCS e de outras
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da Rocha Marília
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Data de impressão: dezembro 2008
Pró-Reitor Comunitário Martinho Isnard Ribeiro de Almeida Tiragem: 1.000 exemplares
e de Extensão Universidade de São Paulo - FEA/USP
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PUC-Campinas - Pontíficia Universidade Université Pierre Mendès France mente os originais que lhe são entregues, sem com isso
Católica de Campinas Grenoble, France concordar necessariamente com as opiniões expressas.

2 Gestão & Regionalidade - Vol. 24 - Nº 71 - edição especial - XI Semead 2008 - out/2008

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universidade

O XI Semead (Seminários em Administração, organizados pelo Programa de


E D I T O R I A L
Pós-Graduação em Administração da FEA-USP), realizado nos dias 28 e 29 de agosto
de 2008, foi promovido pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade
da Universidade de São Paulo - FEA-USP, em parceria com a Universidade Municipal
de São Caetano do Sul - USCS e a Universidade Nove de Julho - Uninove. Os organi-
zadores ofereceram aos participantes a oportunidade de ter seus trabalhos publicados
em revistas produzidas pelas três instituições. Dentre os trabalhos apresentados no
evento, 30 foram indicados pelos avaliadores para ser selecionados pelos periódicos:
Revista de Gestão - Rege/USP, Revista de Administração e Inovação - RAI/Uninove e
Gestão & Regionalidade - USCS.
A Revista Gestão & Regionalidade recebeu 21 trabalhos para a serem selecio-
nados com o propósito de publicação na edição especial Semead. A escolha dos
artigos foi realizada por professores do Programa de Mestrado em Administração da
USCS, sob coordenação deste editor.
Visando a valorizar os trabalhos e a estimular os autores, os professores da
USCS escolheram 11 artigos para a edição especial. Todavia, como já havia sido
empenhado o recurso da edição especial com um número específico de páginas, os
trabalhos escolhidos para publicação tiveram que ser divididos em duas edições, uma
especial e outra mista, com os artigos do XI Semead e artigos encaminhados para
publicação diretamente à G&R.
A edição de número 71 apresenta sete artigos do XI Semead e os outros quatro
serão publicados na edição de número 72. Os artigos são das seguintes áreas: três
de Estratégia e Organizações, dois de Finanças, dois de Gestão de Pessoas, um de
Organizações do Terceiro Setor, um de Marketing e Comunicação, um de Ensino de
Administração e um de Administração Geral.
Deseja-se agradecer, em primeiro lugar, aos realizadores do evento, seus parceiros
e apoiadores. Em segundo lugar, a todos os que enviaram seus trabalhos para participar
do XI Semead. Em terceiro, a todos os avaliadores dos referidos trabalhos do XI
Semead, pois foram responsáveis pela qualidade dos mesmos , além de terem indicado
os que participariam da lista de artigos a serem escolhidos pelos periódicos que se
comprometeram a publicar aqueles que se enquadravam na linha editorial de suas
revistas.
Prof. Dr. Marco Antonio Pinheiro da Silveira
Editor

Gestão & Regionalidade - Vol. 24 - Nº 71 - edição especial - XI Semead 2008 - out/2008 3

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Gestão & Regionalidade

ARTIGOS

PROCESSO DE TOMADA DE DECISÃO DO INVESTIDOR INDIVIDUAL BRASILEIRO NO


MERCADO ACIONÁRIO NACIONAL: UM ESTUDO EXPLORATÓRIO ENFOCANDO O
EFEITO DISPOSIÇÃO E OS VIESES DA ANCORAGEM E DO EXCESSO DE CONFIANÇA
6
Felipe Bogea e Lucas Ayres Barreira de Campos Barros

TECNOLOGIA SOCIAL DE INCLUSÃO DE JOVENS PELO TRABALHO: UMA ANÁLISE


DA EXPERIÊNCIA DE UM CONSÓRCIO DE ONGS NO DESENVOLVIMENTO DE AÇÃO
INTERSETORIAL COM EMPRESAS E GOVERNO
19
Silvia Pires Bastos Costa e Francisco Antônio Barbosa Vidal

ESTRUTURA DE CAPITAL NA AMÉRICA LATINA E NOS ESTADOS UNIDOS: UMA


ANÁLISE DE SEUS DETERMINANTES E EFEITO DOS SISTEMAS DE FINANCIAMENTO
31
Veronica Favato e Pablo Rogers

A INFLUÊNCIA DO AMBIENTE COMPETITIVO NAS ESTRATÉGIAS DAS


SUBSIDIÁRIAS ESTRANGEIRAS DE MULTINACIONAIS BRASILEIRAS
44
Felipe Mendes Borini, Edson Renel da Costa Filho e Moacir de Miranda Oliveira Júnior

O COMPORTAMENTO DO CONSUMIDOR INSATISFEITO PÓS-COMPRA:


UM ESTUDO CONFIRMATÓRIO
58
Ricardo Jato, Reginaldo Braga Lucas, Milton Carlos Farina, Paulo Henrique Tentrin e Mauro Neves Garcia

CURSO DE ADMINISTRAÇÃO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA/UFSM: A


PERCEPÇÃO DOS PROFESSORES E ALUNOS SOBRE O TEMA “PRÁTICAS PEDAGÓGICAS”
68
Shalimar Gallon e Cláudia Medianeira Cruz Rodrigues

ATUAÇÃO ESTRATÉGICA DA ÁREA DE GESTÃO DE PESSOAS EM ORGANIZAÇÕES DE SAÚDE:


UM ESTUDO À LUZ DA PERCEPÇÃO DOS PROFISSIONAIS DA ÁREA
79
Aniele Fischer Brand, Suzana da Rosa Tolfo, Maurício Fernandes Pereira e Martinho Isnard Ribeiro de Almeida

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universidade

ARTICLES

DECISION PROCESS OF THE BRAZILIAN INDIVIDUAL INVESTOR IN THE NATIONAL STOCK


MARKET: AN EXPLORATORY STUDY FOCUSING THE DISPOSITION EFFECT AND THE
ANCHORING AND OVERCONFIDENCE BIASES
6
Felipe Bogea e Lucas Ayres Barreira de Campos Barros

TECHNOLOGY AND SOCIAL INCLUSION OF YOUNG PEOPLE AT WORK: AN ANALYSIS OF


THE EXPERIENCE OF A CONSORTIUM OF NGOS IN THE DEVELOPMENT OF INTERSECTORAL
ACTION WITH COMPANIES AND GOVERNMENT
19
Silvia Pires Bastos Costa e Francisco Antônio Barbosa Vidal

CAPITAL STRUCTURE IN LATIN AMERICA AND UNITED STATES:AN ANALYSIS OF


ITS DETERMINANTS AND EFFECT OF FINANCIAL SYSTEMS
31
Veronica Favato e Pablo Rogers

THE INFLUENCE OF COMPETITIVE ENVIRONMENT ON STRATEGIES


OF FOREIGN SUBSIDIARIES OF BRAZILIAN MULTINATIONAL COMPANIES
44
Felipe Mendes Borini, Edson Renel da Costa Filho e Moacir de Miranda Oliveira Júnior

POST-PURCHASE BEHAVIOR OF THE DISSATISFIED CONSUMER:


A CONFIRMATORY STUDY
58
Ricardo Jato, Reginaldo Braga Lucas, Milton Carlos Farina, Paulo Henrique Tentrin e Mauro Neves Garcia

ADMINISTRATION COURSE AT UNIVERSIDADE FEDERAL OF SANTA MARIA/UFSM:


THE TEACHERS AND STUDENTS PERCEPTION OF “PEDAGOGICAL PRACTICES”
68
Shalimar Gallon e Cláudia Medianeira Cruz Rodrigues

ACTIVITY AREA OF STRATEGIC MANAGEMENT OF PEOPLE IN HEALTH CARE


ORGANIZATIONS: A STUDY OF THE PROFESSIONALS’ PERCEPTION OF THE AREA
79
Aniele Fischer Brand, Suzana da Rosa Tolfo, Maurício Fernandes Pereira e Martinho Isnard Ribeiro de Almeida

Gestão & Regionalidade - Vol. 24 - Nº 71 - edição especial - XI Semead 2008 - out/2008 5

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PROCESSO DE TOMADA DE DECISÃO DO INVESTIDOR INDIVIDUAL BRASILEIRO NO MERCADO ACIONÁRIO NACIONAL:
UM ESTUDO EXPLORATÓRIO ENFOCANDO O EFEITO DISPOSIÇÃO E OS VIESES DA ANCORAGEM E DO EXCESSO DE CONFIANÇA

PROCESSO DE TOMADA DE DECISÃO DO INVESTIDOR INDIVIDUAL


BRASILEIRO NO MERCADO ACIONÁRIO NACIONAL: UM ESTUDO
EXPLORATÓRIO ENFOCANDO O EFEITO DISPOSIÇÃO E OS VIESES DA
ANCORAGEM E DO EXCESSO DE CONFIANÇA
DECISION PROCESS OF THE BRAZILIAN INDIVIDUAL INVESTOR IN THE NATIONAL
STOCK MARKET: AN EXPLORATORY STUDY FOCUSING THE DISPOSITION EFFECT
AND THE ANCHORING AND OVERCONFIDENCE BIASES
Felipe Bogea Recebido em: 07/07/2008
Aprovado em: 15/10/2008
Mestrado em Administração de Empresas. Universidade Presbiteriana Mackenzie, Mackenzie, Brasil
Lucas Ayres Barreira de Campos Barros
Professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (FEA/USP) e do Centro de
Ciências Sociais e Aplicadas da Universidade Presbiteriana Mackenzie

RESUMO ABSTRACT
Este trabalho tem como objetivo conhecer e obter maiores The current research aims to recognize possible
informações sobre possíveis falhas cognitivas exibidas pelo cognitive illusions shown by the Brazilian individual
investidor individual brasileiro durante seu processo investor in their decision process. More specifically,
decisório. Especificamente, buscou-se responder às this work proposes to answer the following ques-
seguintes perguntas: há evidências do efeito disposição e tions: is there evidence of the disposition effect and
dos vieses da ancoragem com ajustamento insuficiente e of the biases of anchoring with insufficient adjus-
do excesso de confiança no processo decisório do investidor tment and overconfidence in the decision process
brasileiro? De que maneira tais comportamentos poderiam of the Brazilian investor? How could these behaviors
estar relacionados com características pessoais dos be related to personal traits of investors? In order to
investidores? Para a análise do processo decisório dos analyze the decision process of the investors, it was
investidores, foi desenvolvido um questionário composto developed a questionnaire composed of 38 ques-
por 38 perguntas, sendo 27 relacionadas às falhas tions, being 27 related to biases and 11 to personal
cognitivas e 11, às características pessoais dos investidores. traits of investors. After the exclusion of non-valid
Após a exclusão dos questionários não-válidos, obteve-se questionnaires, there remained a sample of 512 indi-
uma amostra de 512 indivíduos. Os resultados encontrados viduals. The results of this research are evidence of
evidenciaram a ocorrência das falhas cognitivas pesqui- the presence of the disposition effect, of anchoring
sadas, mas não constataram associações sistemáticas entre with insufficient adjustment and of overconfidence,
estas e as características pessoais dos investidores. Estes but they do not prove their connection to the per-
resultados contribuem no sentido de confirmar as evi- sonal characteristics of the investors. The results
dências encontradas em outros países, mostrando que os obtained contribute to confirm evidence from other
investidores brasileiros também estão sujeitos a tais padrões countries, showing that the Brazilian investor is also
de comportamento. Embora o instrumento de pesquisa subject to such behavior. Although the research ins-
empregado careça de validação formal, ele contribui na truments lack formal validation, they contribute to
direção de se estabelecer um instrumento simples, de fácil the establishment of simple, easily applicable ins-
aplicação e capaz de identificar falhas cognitivas truments that may identify cognitive illusions detri-
possivelmente prejudiciais aos investidores brasileiros. mental to Brazilian investors.
Palavras-chave: efeito disposição, ancoragem, excesso Keywords: disposition effect, anchoring, over-
de confiança. confidence.

Endereços dos autores:

Felipe Bogea
Av. Higienópolis 578, HIgienópolis, São Paulo-SP - CEP 01238-000. e-mail: fbogea@gmail.com
Lucas Ayres Barreira de Campos Barros
Rua da Consolação, 896 - 2º andar - sala 213 – Consolação - CEP 01302-907 - Sao Paulo-SP - Brasil. e-mail: lucasayres2002@yahoo.com.br

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Felipe Bogea e Lucas Ayres Barreira de Campos Barros

1. INTRODUÇÃO ensão de certos padrões de comportamento do


investidor pessoa física. Objetiva-se investigar, espe-
Uma das vertentes de estudos sobre finanças
cificamente, se o investidor individual brasileiro se
comportamentais é a identificação de como as emo-
sujeita ao efeito disposição e aos vieses da ancoragem
ções e as falhas cognitivas podem influenciar o pro-
com ajustamento insuficiente, além do excesso de
cesso de decisão de investidores e como esses com-
confiança e suas possíveis relações com características
portamentos podem determinar mudanças no mer-
sociodemográficas dos investidores. A literatura
cado. Segundo Baker & Nofsinger (2002), um melhor
centífica apresenta uma série de evidências da susceti-
entendimento e a delimitação das falhas cognitivas
bilidade dos investidores aos padrões comportamen-
individuais possibilitariam aos investidores melhorar
tais escolhidos. A pesquisa de Lintz (2004), no mercado
sua capacidade decisória, evitando falhas no processo
brasileiro de câmbio, encontrou evidências de âncoras
de alocação de ativos.
psicológicas em 67% dos entrevistados. Segundo
No entanto, pouca pesquisa científica foi realizada Barros (2005), existe robusta literatura sugerindo o
sobre o comportamento do investidor individual, excesso de confiança como um dos mais importantes
conhecendo-se ainda pouco sobre os fatores que vieses quando se lida com fenômenos financeiros. Para
influenciam seu processo decisório (CLARK-MURPHY & Macedo (2003), pesquisar o efeito disposição é rele-
SOUTAR, 2005). No mercado de ações, raros estudos vante, pois esta falha cognitiva é um dos principais
analisaram atitudes, opiniões e atividades ligadas ao motivadores de redução da rentabilidade dos investi-
seu processo de tomada de decisão. No Brasil, os dores pessoas físicas na bolsa de valores.
estudos sobre finanças comportamentais são escassos
e praticamente inexistentes sobre o comportamento Os resultados encontrados evidenciaram a ocor-
do investidor pessoa física. Mesmo empiricamente, rência das falhas cognitivas pesquisadas, mas não
conhece-se muito pouco sobre como o investidor constataram associações entre estas e as caracte-
individual brasileiro forma seu modelo mental durante rísticas pessoais dos investidores. No Brasil, até onde
suas transações no mercado de capitais. se sabe, ainda não havia sido verificada sua presença
em uma amostra composta por investidores atuantes
Por outro lado, a relevância do investidor individual no mercado acionário nacional. Portanto, os resulta-
vem crescendo significativamente no mercado dos obtidos contribuem no sentido de confirmar as
acionário brasileiro. Em 2005, sua participação no evidências encontradas em outros países, mostrando
volume transacionado total correspondeu a 25,4% que os investidores brasileiros também estão sujeitos
e, das 20 ofertas públicas iniciais que ocorreram no a tais padrões de comportamento. Embora o instru-
ano, participaram mais de 38 mil investidores pessoa mento de pesquisa desenvolvido careça de validação
física (BOVESPA, 2006). Na medida em que sua partici- formal, ele contribui na direção de se estabelecer
pação no mercado aumenta, torna-se mais relevante um instrumento simples, de fácil aplicação e capaz
a compreensão das motivações e dos estilos de de identificar falhas cognitivas possivelmente preju-
processo decisório destes agentes. diciais aos investidores brasileiros.
Para melhor compreensão desse segmento de
O restante do trabalho está dividido da seguinte
mercado, faz-se necessário pesquisar o processo de
maneira: a seção 2 apresenta o referencial teórico; a
tomada de decisão do investidor individual, possibi-
seção 3 relata a metodologia do estudo; a seção 4
litando maior exploração desse nicho e o desenvolvi-
discorre sobre os resultados obtidos; e, na seção 5,
mento das teorias de finanças comportamentais.
são tecidos os comentários finais.
Levando-se em consideração as diferenças culturais
existentes entre os diversos povos e seu reflexo sobre
os padrões de comportamento, é importante verificar 2. REVISÃO DA LITERATURA
como o investidor brasileiro procede nas suas transações
no mercado acionário, pois as pesquisas estrangeiras 2.1. Ancoragem com ajustamento insuficiente
podem não refletir a realidade nacional. Para Tversky & Kahneman (1974), em muitas
Esta pesquisa espera contribuir para a literatura de situações incertas, indivíduos fazem estimativas a par-
finanças comportamentais, principalmente na compre- tir de um valor inicial que é ajustado, levando à res-

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PROCESSO DE TOMADA DE DECISÃO DO INVESTIDOR INDIVIDUAL BRASILEIRO NO MERCADO ACIONÁRIO NACIONAL:
UM ESTUDO EXPLORATÓRIO ENFOCANDO O EFEITO DISPOSIÇÃO E OS VIESES DA ANCORAGEM E DO EXCESSO DE CONFIANÇA

posta final. Este valor inicial, ou ponto de partida, vistados. Cabe ressaltar que o autor empregou apenas
pode ser sugerido pela formulação do problema, ou duas questões para mensurar a presença das âncoras
pode ser o resultado de uma estimativa parcial. Em e pode-se argumentar que as perguntas não medem
ambos os casos, os ajustes são normalmente insu- de forma específica a presença do viés de ancoragem
ficientes. Dessa maneira, diferentes pontos de partida com ajustamento insuficiente.
induzem a diferentes estimativas, sendo estas envie-
sadas na direção do valor inicial. Estes autores de- Carmo (2005) procurou, em seu estudo, verificar
nominaram este efeito como ancoragem com ajus- diferenças do viés da ancoragem com ajustamento
tamento insuficiente. insuficiente entre investidores institucionais (profissio-
nais que trabalham em bancos comerciais, bancos
Kruger (1999) relacionou este viés com o esforço de investimento e assets independentes) e investido-
envolvido em fazer ajustes a partir da âncora. Para res individuais (investidores privados que utilizam a
este autor, o ajuste insuficiente é reflexo da tendência Internet como meio para executar suas transações
das pessoas a minimizar seu esforço cognitivo. Por na Bovespa). Com aproximadamente 30 graus de
outro lado, Chapman & Johnson (1999) acreditaram liberdade e intervalo de confiança de 95%, ele não
que a âncora atua como uma sugestão, possibilitando encontrou diferenças estatisticamente significantes
que informações consistentes com a âncora fiquem entre os dois grupos. Não obstante, os resultados
mais disponíveis na memória. Embora os mecanismos foram obtidos a partir de uma única pergunta.
motivadores da ancoragem não estejam claramente
estabelecidos, os seus efeitos foram verificados por
diversas pesquisas. 2.2. Excesso de confiança

Para Mussweiler & Englich (2005), a influência do Diversos estudos evidenciam que a maior parte
efeito da ancoragem não apenas foi verificada em das pessoas se considera acima da média com relação
várias situações laboratoriais e do cotidiano, como às suas habilidades como motorista, senso de humor,
também se mostrou bastante robusta. Em particular, relacionamento com outras pessoas e capacidade de
o efeito da ancoragem pode ser verificado mesmo liderança. Quando se trata de investidores, a maioria
na presença de possíveis fatores atenuantes, tais considera a sua habilidade de vencer o mercado como
como: presença de âncoras claramente não-informa- acima da média. Para Bukszar (2003), as evidências
tivas, como aquelas obtidas aleatoriamente (TVERSKY sobre o excesso de confiança são extensas e robustas,
& KAHNEMNAN, 1974) ou presença de âncoras extre- amparadas por uma literatura ampla e uma vasta
mamente deslocadas do valor real (CHAPMAN & JOHN- gama de pesquisas científicas sobre o tema.
SON, 1994). Mussweiler & Englich (2005) concluíram
Excesso de confiança tem sido mais evidenciado
que a ancoragem é um fenômeno bastante robusto,
em homens e em atividades percebidas como mas-
sendo difícil de evitar.
culinas. Além disso, este viés é mais presente quando
No campo dos investimentos, a colocação do o feedback é demorado ou inconclusivo. Sendo assim,
ponto de referência ou âncora afeta a codificação mercados financeiros, nos quais a maior parte dos
dos resultados como ganhos ou perdas e a compa- participantes é homem e o feedback é controverso
ração com outras opções de investimentos (KAHNE- constituem cenário ideal para o excesso de confiança
MAN, 1992). Para os investidores, o preço lembrado (B ARBER & O DEAN , 2001). Ainda segundo Odean
mais recentemente de um ativo atua como ponto de (1998a), a maioria dos indivíduos que compram ou
referência. Pode-se citar, também, como âncora psico- vendem ativos financeiros tenta escolher aqueles
lógica, o patamar mais próximo de um índice notório, ativos que obterão retornos superiores a ativos
como o Ibovespa (Índice da Bolsa de Valores de São similares. Esta é uma escolha bastante difícil, e justa-
Paulo) ou o Nasdaq (North American Securities mente em tarefas difíceis os indivíduos tendem a
Dealers Automated Quotation System). apresentar maior grau de excesso de confiança.
No Brasil, Lintz (2004) pesquisou o comportamento Para Barber & Odean (1999), o excesso de con-
de executivos no mercado de câmbio, constatando a fiança induziria os investidores a um padrão mais
utilização de âncoras psicológicas em 67% dos entre- ativo de gestão porque este viés os levaria a confiar

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Felipe Bogea e Lucas Ayres Barreira de Campos Barros

excessivamente nas suas opiniões e a não considerar evidência de excesso de confiança em apenas 25%
suficientemente as opiniões alheias. Ademais, para dos entrevistados.
estes autores, investidores excessivamente confiantes
percebem seus investimentos com menor grau de
risco do que a realidade sugere. Para Kimura (2003), 2.3. Efeito disposição
este viés poderia induzir o investidor a acreditar que Kahneman & Tversky (1979) desenvolveram um
possui vantagens comparativas na escolha dos seus modelo descritivo de escolha em condições de risco,
investimentos em relação ao mercado, levando, dessa denominando como Teoria da Perspectiva (TP), como
maneira, à manutenção de posições perdedoras. alternativa à TUE (Teoria da Utilidade Esperada). Den-
Ademais, o excesso de confiança poderia induzir a tre os principais princípios desta teoria, destaca-se o
uma excessiva concentração de recursos em poucos fato de os indivíduos não analisarem os resultados
ativos e, por conseguinte, a uma diversificação de uma decisão com base no estado final de riqueza
inadequada dos investimentos. (como postulado pela TUE), mas em relação a um
Barber & Odean (2001) verificaram um maior ponto de referência escolhido pelo indivíduo no mo-
excesso de confiança nos homens em comparação mento da decisão. A percepção de ganho ou perda
com as mulheres quando se trata de investimentos. estará associada a variações em torno deste ponto.
Em sua pesquisa, este viés supostamente levou os Outro princípio fundamental da TP relaciona a pro-
homens a negociarem 45% mais do que as mulheres pensão ao risco com o resultado da escolha. Caso o
e, por conseqüência dos custos de transação, o resultado de uma escolha esteja acima do ponto de
retorno líquido das suas carteiras foi, aproxima- referência, ele levará à percepção de um ganho,
damente, 1% menor. conduzindo o indivíduo a uma atitude avessa ao risco.
Todavia, caso o resultado esteja abaixo do ponto de
Li, Chen & Yu (2006), ao compararem o excesso referência, sendo percebido como uma perda, o indi-
de confiança entre cidadãos chineses e cidadãos de víduo tenderá a uma atitude propensa ao risco.
Singapura, constataram um maior grau de excesso
de confiança no último grupo. Para os autores, apesar A aversão ao risco no domínio dos ganhos, asso-
de estes grupos possuirem uma grande proximidade ciada à tendência de busca pelo risco no domínio
cultural, a educação em Singapura possui um padrão das perdas, foi denominada por Kahneman & Tversky
bastante ocidentalizado, sendo esta diferença edu- (1979) como “efeito reflexo”. Em outras palavras,
cacional responsável pelo maior excesso de confiança, quando os resultados de um evento são estruturados
na opinião dos autores. como ganhos ou como perdas, as preferências de
risco dos pesquisados se alteram, passando de aves-
Ao estudar excesso de confiança em profissionais sos ao risco no domínio dos ganhos para propensos
de finanças brasileiros, Ferreira & Yu (2003) encon- ao risco no domínio das perdas.
traram evidência deste viés. Ademais, perceberam
diferentes graus de excesso de confiança dentro da Segundo Shefrin & Statman (1985: 779), “a Teoria
amostra estudada. Neste trabalho, homens apre- da Perspectiva sugere a hipótese segundo a qual os
sentaram maior excesso de confiança. Além disso, investidores possuem uma disposição a vender ações
profissionais com maior tempo de atuação na área e vencedoras (com lucro em relação ao preço de com-
aqueles com maior idade evidenciaram um maior pra) e manter ações perdedoras (com perda em rela-
grau do viés. Segundo estes autores, ainda não está ção ao preço de compra)”. Para estes autores, caso um
clara na literatura a relação entre experiência e investidor tenha preferências descritas pela função de
excesso de confiança. valor da Teoria da Perspectiva, ele tenderá a apresentar
esta tendência, conhecida como “efeito disposição”.
Já o estudo de Carmo (2005), investigando in-
vestidores individuais e institucionais, a partir de um Odean (1998b: 1.797) analisou os registros de tran-
questionário, não apresenta evidências claras sobre sações de 10 mil investidores, buscando evidências
a presença de excesso de confiança em ambos os do efeito disposição. O autor concluiu que “os inves-
grupos. Lintz (2004), estudando agentes econômicos tidores individuais demonstram uma preferência signi-
atuantes no mercado de câmbio brasileiro, encontrou ficativa em vender ações vencedoras e manter ações

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PROCESSO DE TOMADA DE DECISÃO DO INVESTIDOR INDIVIDUAL BRASILEIRO NO MERCADO ACIONÁRIO NACIONAL:
UM ESTUDO EXPLORATÓRIO ENFOCANDO O EFEITO DISPOSIÇÃO E OS VIESES DA ANCORAGEM E DO EXCESSO DE CONFIANÇA

perdedoras, exceto em dezembro, quando as vendas diferentes indivíduos. Já Costela & Fernandez (2006)
motivadas por razões fiscais (abatimento do Imposto verificaram a presença do efeito disposição em
de Renda) prevalecem”. Barber & Odean (1999) investidores venezuelanos, mas não encontraram
testaram hipóteses alternativas ao efeito disposição relação entre este comportamento e a experiência
para justificar a manutenção de ações perdedoras e a dos investidores.
venda das ganhadoras. Não obstante, os autores
apontaram o efeito disposição como a explicação mais
plausível para o comportamento observado. 3. METODOLOGIA
O efeito disposição tem sido verificado em dife- 3.1. Instrumento de pesquisa
rentes circunstâncias. Por exemplo, Grinblatt & Kelo-
harju (2001) encontraram evidências do efeito dis- Para a análise do processo decisório dos inves-
posição ao analisarem as compras e as vendas de tidores, foi desenvolvido um instrumento de pesquisa
investidores individuais e institucionais no mercado específico. O questionário desenvolvido pode ser
acionário finlandês; Jordan & Diltz (2004) pesqui- segmentado em duas partes: a primeira, contendo
saram transações de day trade (transações de compra as questões 1 a 28, objetivou identificar as falhas
e venda efetuadas no mesmo dia) no mercado acio- cognitivas dos respondentes; a segunda parte, con-
nário norte-americano, encontrando evidências do tendo as questões 28 a 39, objetivou analisar o perfil
efeito disposição em 65% dos investidores. dos respondentes. O instrumento baseou-se em
perguntas fechadas de escolha dicotômica, múltipla
Dentre as pesquisas brasileiras, Macedo (2003) e escala, sendo submetido previamente a uma análise
verificou que os pesquisados (estudantes universi- semântica. O questionário completo pode ser dispo-
tários) apresentavam efeito disposição nas suas de- nibilizado pelos autores a pedido.
cisões. Mineto (2005), também estudando o efeito
disposição em estudantes universitários, corroborou Ao se analisarem as respostas das questões sobre
o estudo de Macedo (2003), encontrando evidências excesso de confiança, ficou evidente que uma parcela
do efeito disposição. Todavia, o estudo de Mineto dos investidores não respondeu a ele com seriedade
(2005) constatou que a intensidade do efeito ou não entendeu as instruções do questionário.
disposição depende do gênero do decisor, bem como Assim, foram analisadas as respostas de cada respon-
do ponto de referência adotado. dente e, quando, constatado que o investidor respon-
deu aleatoriamente a alguma pergunta do questio-
Karsten, Battisti & Pacheco (2006), empregando
nário, este foi excluído da amostra final. Foram res-
diferentes medidas do efeito disposição, mostraram
pondidos 670 questionários, sendo que 59 respon-
evidências deste fenômeno nos investidores como
dentes foram excluídos, correspondendo a 8,80%
um todo. Todavia, ao realizarem testes segmentando
da amostra total. A taxa de resposta da pesquisa foi
os investidores entre pessoa física, pessoa jurídica
de, aproximadamente, 3%. Este baixo índice de
institucional e pessoa jurídica não–institucional, ape-
resposta pode estar associado à ausência de incen-
nas os investidores pessoa física apresentaram clara-
tivos para o preenchimento do questionário e à pos-
mente o viés. Dessa maneira, os pesquisadores con-
sível inatividade de uma parcela dos endereços ele-
cluíram que a segmentação por tipo de investidor
trônicos atribuídos aos pesquisados.
permite contribuições significativas na investigação
do efeito disposição. O método de comunicação adotado consistiu no
questionamento virtual dos respondentes. A amostra
Para Feng & Seasholes (2005), uma parte da
é composta por indivíduos cadastrados no Instituto
literatura sobre o efeito disposição considera a hipó-
Nacional de Investidores (INI), localizados em dife-
tese de que determinados grupos de investidores
rentes Estados do Brasil, sendo que a grande maioria
seriam mais propensos a exibir este comportamento.
destas pessoas investe ou já investiu no mercado
Entretanto, estes autores, ao estudarem indivíduos
acionário nacional.
com diferentes níveis de experiência e sofisticação,
não encontraram evidências de que estas caracterís- Para a programação do questionário virtual e o
ticas alteraram a presença do efeito disposição nos desenvolvimento do sítio da Internet que hospedou

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Felipe Bogea e Lucas Ayres Barreira de Campos Barros

o questionário, contratou-se uma empresa de infor- valores superiores aos respondentes submetidos a
mática especializada. O código-fonte do questionário âncoras de menor valor.
virtual (conjunto de linhas de programação que Para viabilizar a comparação entre as diferentes
constituem a programação) será disponibilizado, se âncoras, foram gerados dois conjuntos de perguntas:
solicitado, para que outros pesquisadores possam um conjunto com valores de âncoras maiores (conjunto
utilizar, na íntegra ou parcialmente, o trabalho desen- “a”) e outro com valores de âncoras menores
volvido, desde que citem esta fonte. Além disso, bus- (conjunto “b”). O instrumento de pesquisa foi desen-
cou-se realizar a programação do questionário em volvido para, automaticamente, alternar o conjunto
uma linguagem de programação gratuita (Java), de de perguntas a ser respondido por cada pesquisado.
maneira a não restringir o uso da programação. Assim, ao final, foram formados dois grupos: um que
Para cada uma das falhas cognitivas estudadas, respondeu ao conjunto “a” e o outro, ao conjunto
foi formulado um conjunto de perguntas específicas, “b”. A seguinte questão exemplifica o processo uti-
as quais buscavam encontrar evidências das mesmas lizado onde um grupo de questões continha a âncora
e permitir testar as seguintes hipóteses (alternativas): baixa (R$ 30) e o outro a âncora alta (R$ 75): “Uma
• H1,1: os investidores apresentam evidências do nova empresa que opera na Internet fez, recente-
viés da ancoragem com ajustamento insuficiente mente, sua oferta pública inicial, passando a ter ações
em seu processo decisório; negociadas em bolsa de valores. Na abertura, as ações
foram vendidas a R$ 30 cada uma. O concorrente
• H1,2: os investidores apresentam evidências do
mais próximo dessa empresa fez sua oferta pública
viés do excesso de confiança em seu processo
inicial há um ano, também ao preço de R$ 30 por
decisório.
ação. Agora, a ação deste concorrente está cotada a
• H1,3: os investidores apresentam evidências do R$ 75 (grupo de respondentes “a”) ou a R$ 30 (grupo
efeito disposição em seu processo decisório. de respondentes “b”). Quanto valerá a ação da nova
empresa daqui a um ano?”.
Para alguns autores, tais como Paese & Feuer
(1991), indivíduos podem ter mais cuidado ao tomar Para as perguntas relativas à ancoragem com
decisões do que ao fazer julgamentos hipotéticos, ajustamento insuficiente, o número de respostas
levando, por conseguinte, a uma maior precisão válidas variou para cada questão. Isto decorre da
quando tomam decisões. Bukszar (2003), ao estudar possibilidade de os respondentes optarem pela
o excesso de confiança, constatou uma diminuição alternativa “sem opinião”. Esta alternativa foi faculta-
do grau do viés quando os indivíduos efetivamente da aos respondentes para tentar evitar que os mesmos
tomavam uma decisão em comparação a um julga- respondessem com um número totalmente aleatório,
mento hipotético. Assim, como a presente pesquisa apenas para continuar o preenchimento do ques-
se baseou em julgamentos hipotéticos, e não em tionário. Aparentemente, algumas perguntas deman-
decisão reais, os resultados e generalizações devem davam um maior esforço cognitivo e, conseqüen-
ser interpretados com cautela. temente, obtiveram um número bastante inferior de
respostas quando comparadas com outras perguntas
de ancoragem.
3.2. Identificação das falhas cognitivas Foram empregados testes de hipóteses para a
Para a identificação do viés da ancoragem com comparação das médias obtidas nas diferentes
ajustamento insuficiente, foram extraídas perguntas perguntas. Para tanto, foi empregado o teste unicau-
da literatura comportamental e desenvolvidas outras, dal com a hipótese nula: “a média das respostas
sendo que, em ambos os casos, uma das sentenças encontrada para um dos grupos é igual à média do
da questão continha um valor arbitrário não-relacio- outro grupo”. Sendo a hipótese alternativa: “a média
nado com o valor da pergunta em si. O objetivo foi das respostas encontrada para o grupo dos respon-
verificar se estas informações não-relacionadas às dentes submetidos às âncoras altas (μ1) é superior a
perguntas atuariam como âncoras para os inves- média das respostas encontrada para o grupo dos
tidores, na medida em que os respondentes sub- respondentes submetidos às âncoras baixas (μ2)”.
metidos a âncoras maiores fizessem previsões com Como as variâncias das amostras e o número de

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PROCESSO DE TOMADA DE DECISÃO DO INVESTIDOR INDIVIDUAL BRASILEIRO NO MERCADO ACIONÁRIO NACIONAL:
UM ESTUDO EXPLORATÓRIO ENFOCANDO O EFEITO DISPOSIÇÃO E OS VIESES DA ANCORAGEM E DO EXCESSO DE CONFIANÇA

respondentes variaram para cada conjunto de res- de tomada de decisão. Logo, o percentual de investi-
postas, foi empregado o teste t de Welch para a dores que apresentarem excesso de confiança será
comparação de médias. considerado como o indicador da presença do viés.
O viés da ancoragem com ajustamento insufi- Considerando que existe ampla literatura relacio-
ciente foi mensurado utilizando-se cinco conjuntos nando o efeito disposição (disposição a vender ações
de perguntas. É interessante notar que os resultados vencedoras e manter ações perdedoras) ao efeito reflexo
deste viés são analisados em relação ao conjunto da (aversão ao risco no domínio dos ganhos e propensão
amostra; portanto, verifica-se o viés no conjunto dos ao risco no domínio das perdas), o questionário buscou
investidores, e não para cada um dos investidores. identificar os dois efeitos nos investidores.
Existem diferentes metodologias para se verificar O efeito disposição foi mensurado com a combi-
o excesso de confiança, porém duas têm sido empre- nação das respostas de duas questões. Para cada
gadas com maior freqüência em diversas áreas de investidor, obteve-se uma resposta evidenciando ou
estudo: perguntas com duas alternativas de respostas não a presença deste efeito. Logo, obteve-se o per-
e estimativas de intervalos. Segundo Klayman et al. centual dos respondentes que apresentaram evidên-
(1999), a variável que mais influencia na magnitude cia do efeito disposição, sendo este percentual um
do excesso de confiança é a metodologia empregada indicador da presença do fenômeno.
para mensurar o viés. Questionários utilizando esti-
mativas de intervalo apresentaram um grau bem As questões empregadas para identificar o efeito
maior de excesso de confiança quando comparados disposição seguiram o mesmo raciocínio empregado
diretamente com instrumentos que adotaram per- por Kahneman & Tversky (1979), mas trazendo as
guntas com duas alternativas, sendo que, em ambos perguntas para a realidade do mercado acionário.
os casos, os estímulos para os respondentes foram Neste sentido, buscou-se verificar como o investidor
os mesmos. Estes autores, ao compararem as me- reagiria quando estivesse obtendo ganhos e quando
todologias para mensuração do excesso de confiança, estivesse obtendo perdas em uma situação hipotética
afirmaram que “perguntas com formato de duas al- no mercado acionário. Caso o investidor optasse por
ternativas não são promissoras para coletar infor- manter ou comprar mais ações perdedoras e, ao mes-
mações sobre o viés”. mo tempo, escolhesse vender suas ações ganhadoras,
ele estaria demonstrando o efeito disposição.
Para se mensurar o viés do excesso de confiança,
adotou-se a metodologia de estimativa de intervalo, Quatro perguntas foram empregadas na mensu-
sendo utilizadas dez perguntas. Com o intuito de ração do efeito reflexo. Considerou-se a presença deste
transportar as perguntas para uma realidade mais efeito no processo decisório somente para aqueles
próxima do cenário brasileiro e do mercado acionário, indivíduos com, pelo menos, três respostas compatíveis
foram elaboradas algumas perguntas com dados com este padrão comportamental. As questões para
nacionais e outras foram extraídas da literatura mensurá-lo foram extraídas (e adaptadas) de Kahne-
internacional. Por exemplo, solicitou-se aos respon- man & Tversky (2000). As perguntas possibilitavam
dentes que estimatimassem “o lucro líquido da Brasil ao pesquisado escolher uma entre duas alternativas
Telecom durante o ano de 2006”. para uma situação hipotética de perda ou ganho. As
questões tinham três enfoques diferentes:
Para cada pergunta, o investidor deveria estimar
o valor da sua resposta, um limite inferior e um limite (i) analisaram se o investidor optava por uma
superior, com 90% de confiança no intervalo estima- escolha avessa ao risco no domínio dos ganhos
do. No questionário, antes de os respondentes come- e, ao mesmo tempo, optava por uma escolha
çarem a responder às perguntas de excesso de con- propensa ao risco no domínio das perdas (desta
fiança, foi explicado o conceito de 90% de confiança. maneira, o pesquisado demonstraria uma
Para cada investidor, calculou-se o número de res- mudança de preferência de risco quando a
postas corretas. Se o indivíduo acertou menos do questão passasse de “ganho” para “perda”):
que nove respostas, considera-se que ele apresentou Imagine que você se defronta com o seguinte
evidência da utilização do viés durante seu processo par de decisões concorrentes. Primeiro, exa-

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Felipe Bogea e Lucas Ayres Barreira de Campos Barros

mine ambas as decisões e, em seguida, indique pós-graduação. A maioria dos respondentes (63,9%)
as opções preferidas. declarou ser casado ou com união estável. Com relação
à atividade profissional, aproximadamente 56% dos
Decisão I – escolher entre: investidores são empregados; 21%, autônomos; 13%,
a) um ganho certo de R$ 250,00; empresários; e 9%, aposentados.
b) 25% de chance de ganhar R$ 1.000,00 e
A primeira pergunta sobre investimento questio-
75% de chance de ganhar nada.
nava há quanto tempo o indivíduo investia no mer-
Decisão II – escolher entre: cado acionário. A primeira opção de resposta era
c) uma perda certa de R$ 750,00; “ainda não comprei/ não vendi nenhuma ação”.
Assim, as respostas daqueles que optaram por esta
d) 75% de chance de perder R$ 1.000,00 e
alternativa (99) foram analisadas separadamente. As
25% de chance de perder nada;
demais respostas mostram que, aproximadamente,
(ii) se ele optava por uma opção com menor valor metade daqueles que já realizaram transações de
esperado (mas com menor risco) no domínio compra e venda de ações possuem até cinco anos
dos ganhos, mostrando aversão ao risco; de experiência. É interessante notar que, pelo tempo
de investimento, a maioria destes investidores apenas
(iii) e optava por uma opção com menor valor vivenciou um mercado acionário em alta, pois, desde
esperado (mas com maior risco) no domínio 2003 a Bovespa apresenta resultados anuais positivos.
das perdas, demonstrando propensão ao risco Quanto ao estilo de investidor, 49,5% dos que já reali-
neste domínio, por exemplo: zaram transações se consideram grafistas; 39,6%,
fundamentalistas; e 10,8% optaram por nenhuma
Qual das seguintes opções você prefere?
das opções. Com relação à diversificação da carteira
a) 80% de chance de perder R$ 4.000,00 e de ações, os investidores parecem estar pouco diver-
20% de não perder nada; sificados, pois 58,4% deles possuíam até cinco ações
b) uma perda certo de R$ 3.000,00. na sua carteira quando participaram da pesquisa.
Dentre os respondentes, 25% realizaram mais de 24
Buscou-se, por fim, relacionar os fenômenos do transações de compra no ano, representando, assim,
excesso de confiança e do efeito disposição com mais de duas transações por mês, em média.
características pessoais dos investidores. Para tal, foram
computadas regressões lineares simples e múltiplas
4.2. Ancoragem com ajustamento insuficiente
pelo método dos mínimos quadrados (com erros
padrão robustos a formas arbitrárias de heteros- A Tabela 1 resume os resultados referentes ao viés
cedasticidade dos erros do modelo, utilizando o esti- da ancoragem com ajustamento insuficiente. Esta
mador de White). Dessa forma, é possível avaliar se tabela apresenta, para cada pergunta, as âncoras altas
existe ou não alguma uniformidade nos resultados do e baixas, o número de respondentes, a média das
estudo, em função do perfil do investidor-respondente. estimativas e os resultados dos testes de hipóteses.
Quatro dos cinco testes estatísticos fornecem
4. ANÁLISE DOS RESULTADOS evidências, no nível de 5% de significância, de que
4.1. Perfil do investidor os investidores foram ancorados pelos valores apre-
sentados nos enunciados das questões, apresen-
Na presente pesquisa, a grande maioria dos res- tando, portanto, evidências do viés. Ademais, a in-
pondentes (97,09%) é do gênero masculino. Já a idade fluência das âncoras pode ser observada na média
dos respondentes variou bastante, sendo a idade das estimativas, pois, para todas as perguntas, as
mínima de 17 anos, a máxima de 77 e a média de 39 médias das estimativas submetidas às âncoras altas
anos. Destes, aproximadamente 30% possuem menos foram superiores às médias das estimativas subme-
de 30 anos e 50%, entre 30 e 50 anos. Os respondentes tidas às âncoras baixas. Portanto, os resultados en-
apresentaram um alto grau de escolaridade, sendo que contrados levam à rejeição da hipótese nula de que
45,60% deles possuíam formação superior e 39,58%, os investidores não apresentam evidência da anco-

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PROCESSO DE TOMADA DE DECISÃO DO INVESTIDOR INDIVIDUAL BRASILEIRO NO MERCADO ACIONÁRIO NACIONAL:
UM ESTUDO EXPLORATÓRIO ENFOCANDO O EFEITO DISPOSIÇÃO E OS VIESES DA ANCORAGEM E DO EXCESSO DE CONFIANÇA

Tabela 1: Resumo dos resultados das análises estatísticas de ancoragem com ajustamento insuficiente
Núm. de respond.* Média das respostas*
Âncora
Pergunta Âncora Âncora Teste 1*
Alta Baixa Alta Baixa Alta Baixa
Quanto valerá a ação da nova empresa daqui a um ano? 75 35 102 115 66 37 11,21
Em quantos pontos deverá estar o índice DAX no final de 2008? 80000 60000 136 152 9.956 8.741 3,37
Qual sua estimativa para a receita bruta da Perdigão para
o ano de 2006? 45 19 35 39 2.602 1.316 1,74
Qual sua estimativa de pontos para a bolsa de valores da
Argentina em dezembro de 2006? 28000 12000 59 44 13.436 11.264 0,97
1x2x3x4x5x6x7x8 -e- 8x7x6x5x4x3x2x1 239 224 39.986 30.350 1,82
* Estes valores excluem os investidores classificados como outliers.

ragem com ajustamento insuficiente, permitindo (0,98%) não apresentaram o viés, ou seja, estes
sugerir a presença pronunciada deste viés nos in- investidores acertaram pelo menos nove estimativas.
vestidores brasileiros. Além disso, o nível médio de acerto foi de 2,41
questões ou 24,1%. Como a maioria dos investidores
Cabe mencionar que uma parte das variações
apresentou excesso de confiança nas suas respostas,
encontradas nos valores das estatísticas, entre os
rejeita-se com folga a hipótese nula de que os
diferentes grupos de perguntas, pode ser decorrente
investidores não apresentam evidências de excesso
das diferenças no tamanho das amostras. Uma
de confiança.
amostra menor pode conduzir a um maior erro padrão
e, por conseguinte, a um menor valor da estatística. Uma das razões para o alto nível deste viés, na
O último conjunto de perguntas (“Sem fazer o presente pesquisa, pode estar relacionada com o
cálculo de fato, faça uma rápida estimativa (em cinco formato do questionário. Segundo Winman, Juslin
segundos) da seguinte multiplicação...”) foi extraído do & Hansson (2004), questionários com estimativas de
estudo de Tversky & Kahneman (1974). Estes pes- intervalo produzem extremo excesso de confiança
quisadores também encontraram diferenças signifi- quando comparados com questionários com duas
cativas entre as médias das respostas dos grupos de alternativas. Os resultados de Klayman et al. (1999)
respondentes. Entretanto, é interessante notar que as corroboram esta idéia, pois, ao se compararem as
médias das respostas obtidas na presente pesquisa, duas metodologias, fornecendo os mesmos estí-
39.986 e 30.356, são bastante superiores e mais mulos, aponta-se para um maior excesso de confiança
próximas do valor correto (40.320) do que as respostas nas estimativas de intervalo.
encontradas por Tversky & Kahneman (1974), 2.250 e Não obstante, os resultados encontrados mos-
512. Apesar de as perguntas serem iguais em ambos tram um maior excesso de confiança quando
os estudos, existem diferenças relevantes no perfil dos comparados com outras pesquisas que também utili-
respondentes. Tversky & Kahneman (1974) aplicaram zaram estimativas de intervalo. Russo & Schoemaker
este teste em estudantes de segundo grau, enquanto, (1992), ao solicitarem para gerentes estimativas,
no presente estudo, a maioria dos participantes possui com 90% de confiança, observaram aproxima-
curso superior e uma média de idade de 39 anos. damente 50% de respostas corretas. Já Klayman et
Portanto, uma possível explicação para a diferença al. (1999), solicitando 90% de confiança numa
absoluta nas estimativas de respostas pode estar amostra de estudantes universitários, observaram
associada às diferenças nos grupos de respondentes. 42% de estimativas corretas.

4.3. Excesso de confiança Para Klayman et al. (1999: 218), “é amplamente


conhecido que o excesso de confiança é mais pronun-
Os respondentes apresentaram extremo excesso ciado em conjunto de perguntas difíceis”. Dessa
de confiança. Dos 512 investidores, apenas cinco maneira, o grau de dificuldade das perguntas poderia

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Felipe Bogea e Lucas Ayres Barreira de Campos Barros

explicar o maior grau de excesso de confiança quando subpopulação exerça uma influência de primeira
se compara a presente pesquisa com o trabalho de ordem sobre os resultados, fazendo com que eles
Klayman et al. (1999), os quais utilizaram um ques- exibam graus de excesso de confiança suficiente-
tionário com perguntas de diferentes níveis de difi- mente próximos, a ponto de impedir a detecção de
culdade. Segundo estes autores, estudos mostraram diferenças relevantes entre subgrupos da amostra.
diferenças significativas na mensuração do viés entre
questionários com perguntas fáceis e questionários
com perguntas difíceis. 4.4. Efeito disposição e efeito reflexo

Ademais, talvez a maneira de veiculação possa Dentre os investidores participantes da pesquisa,


ter influenciado o grau de enviesamento observado. 198 (38,7%) apresentaram evidência do efeito
Nos estudos anteriores, os pesquisados responderam disposição. Outros estudos também verificaram a
aos questionários com a presença dos pesquisadores, presença do efeito disposição em apenas uma parte
sendo a maioria dos questionários veiculada em meio das suas amostras. Todavia, a parcela de investidores
impresso. Entretanto, no presente estudo, os pes- que exibiram a falha cognitiva é maior do que o
quisados responderam ao questionário pela Internet verificado na presente pesquisa. Jordan & Diltz (2004)
e sem a presença de um pesquisador. Assim, possivel- constataram que aproximadamente 65% dos day
mente, os respondentes, ao tentarem minimizar o traders (investidores que realizam uma transação de
esforço cognitivo para responder ao questionário, compra e venda de uma ação dentro de um mesmo
determinaram um intervalo muito próximo da sua dia) exibiram a falha. Dhar & Zhu (2006) verificaram
estimativa inicial, levando, por conseguinte, a um a presença do efeito disposição numa parcela ainda
maior excesso de confiança. maior: 80,3% dos investidores.
Apesar de o número de investidores que exibiram
Realizou-se uma série de regressões (não reporta-
efeito disposição ser inferior ao reportado em outras
das), buscando relacionar o excesso de confiança com
pesquisas, o percentual de respondentes exibindo o
características sociodemográficas dos pesquisados.
viés, aproximadamente 40%, sugere a presença do
Todavia, estas análises não revelaram associações
efeito disposição em uma parcela significativa dos
sistemáticas entre o viés e as características dos inves-
investidores, levando, portanto, à rejeição da hipótese
tidores. Alguns fatores podem ter contribuído para
nula de que os investidores não apresentam evidên-
este resultado. Primeiramente, a escala utilizada para
cias do efeito disposição.
a mensuração do excesso de confiança não foi origi-
nalmente desenvolvida objetivando relacionar seu As análises realizadas nesta pesquisa não eviden-
resultado com outras características, mas apenas ciam relações claras entre o efeito disposição e as
detectar a presença do viés. Além disso, as variáveis características dos investidores (com base em regres-
adotadas como proxies para as características dos sões não reportadas, mas cujos resultados podem ser
investidores podem não ter capturado adequada- disponilizados pelos autores). Estes resultados
mente as características de interesse ou, ainda, po- corroboram as evidências de Wong, Carducci & White
dem não ter segregado os investidores de maneira a (2006) e Costela & Fernandez (2006), os quais não
evidenciar a relação destas variáveis com o viés. Por- verificaram relações entre efeito disposição e caracte-
tanto, possíveis limitações na mensuração das va- rísticas pessoais. Por outro lado, Feng & Seasholes
riáveis podem ter contribuído para a falta de signi- (2005) e Dhar & Zhu (2006) encontraram relações entre
ficância estatística observada nas regressões. certas características sociodemográficas e o efeito
disposição. Já Mineto (2005) verificou diferença entre
Ademais, é possível que a amostra não seja hete- os gêneros quando o ponto de referência é o último
rogênea o suficiente para capturar diferenças no grau preço da ação, mas não verifiou diferença quando o
de enviesamento dos respondentes como função de preço de referência é o preço de compra da ação.
suas características sociodemográficas, uma vez que
enfoca apenas a subpopulação dos investidores ou Aproximadamente 37% dos respondentes exibi-
indivíduos cadastrados no INI. É plausível supor que ram o efeito reflexo. É interessante notar que o per-
o fato de todos os respondentes pertencerem a esta centual de investidores que exibiu o efeito reflexo

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PROCESSO DE TOMADA DE DECISÃO DO INVESTIDOR INDIVIDUAL BRASILEIRO NO MERCADO ACIONÁRIO NACIONAL:
UM ESTUDO EXPLORATÓRIO ENFOCANDO O EFEITO DISPOSIÇÃO E OS VIESES DA ANCORAGEM E DO EXCESSO DE CONFIANÇA

(36,9%) foi muito próximo daquele que revelou Contudo, as análises estatísticas não mostraram rela-
efeito disposição (38,7%). ções significantes. Assim, verificou-se a presença das
falhas, mas não foram encontradas evidências de as-
Foram considerados investidores sujeitos ao efeito sociações entre as falhas e as referidas características.
reflexo somente aqueles indivíduos para os quais pelo Ademais, não foi possível relacionar estatisticamente
menos três respostas (de um total de quatro per- o efeito reflexo com o efeito disposição.
guntas) mostravam evidência do referido comporta-
mento. Entretanto, se o critério para caracterizar a Pesquisas anteriores verificaram a presença da anco-
presença do efeito reflexo fosse de duas ou mais ragem com ajustamento insuficiente em diferentes
respostas compatíveis com este comportamento, grupos de indivíduos (estudantes, executivos, médicos).
aproximadamente 75% da amostra exibiria tal efeito. Porém, até onde se sabe, nenhuma pesquisa anterior
De qualquer maneira, considerando-se que pelo verificou a presença do viés em uma amostra composta
menos 37% dos investidores mostraram evidências por investidores individuais no mercado acionário.
mais claras do efeito nas suas respostas, pode-se Portanto, os resultados encontrados corroboram a
concluir por sua relevância. literatura e contribuem na medida em que verificaram
a presença deste viés em investidores.
Segundo Mineto (2005), o efeito disposição é
conseqüência do efeito reflexo e do ponto de referên- A presença do excesso de confiança tem sido
cia da TP. Todavia, ao se tentar relacionar o efeito amplamente verificada na literatura. Os resultados
disposição ao efeito reflexo, não se verificou uma desta pesquisa corroboram estas evidências. Não
relação estatisticamente significante. Entretanto, obstante, a intensidade do viés verificada na presente
quando se estimou a mesma regressão, mas conside- pesquisa diverge de outras pesquisas que também
rando-se como exibindo o efeito reflexo aqueles utilizaram estimativas de intervalo.
investidores com duas ou mais respostas relacionadas
O efeito disposição foi identificado em investido-
ao mesmo, verificou-se um aumento da estatística t.
res, mas a intensidade da sua presença variou entre
Ademais, o sinal do coeficiente ficou positivo (embora
os estudos. Ademais, a relação entre o efeito dispo-
ainda não significante nos níveis usuais), sugerindo
sição e características pessoais dos investidores ainda
a relação no sentido esperado, ou seja, que uma
não foi claramente estabelecida na literatura. Neste
maior propensão ao efeito reflexo levaria a uma
sentido, os resultados encontrados (presença da falha
maior propensão ao efeito disposição.
cognitiva, mas ausência de relação) corroboram os
estudos anteriores. Costela & Fernandez (2006), em-
pregando uma amostra de investidores venezuelanos,
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS encontraram resultados bastante semelhantes.
O objetivo principal da pesquisa foi verificar a pre- A ocorrência de falhas cognitivas no processo
sença do efeito disposição e dos vieses de ancoragem decisório dos investidores tem sido documentada em
com ajustamento insuficiente e excesso de confiança diferentes países e situações. Todavia, no Brasil, até
em uma amostra de investidores atuantes no mercado onde se sabe, ainda não havia sido verificada a pre-
acionário nacional. Os resultados encontrados levaram sença da ancoragem com ajustamento insuficiente,
às seguintes constatações: (i) quatro dos cinco conjuntos excesso de confiança e efeito disposição em uma
de perguntas de ancoragem com ajustamento amostra composta por investidores atuantes no
insuficiente mostraram evidências estatisticamente mercado acionário nacional. Portanto, os resultados
significantes da presença do viés; (ii) a grande maioria da presente pesquisa contribuem no sentido de
dos investidores apresentou excesso de confiança nas confirmar as evidências encontradas em outros paí-
suas estimativas; (iii) o efeito disposição foi verificado ses, mostrando que os investidores brasileiros também
em apenas uma parcela dos investidores (38,7%). estão sujeitos a estes comportamentos.
Além do objetivo principal, buscou-se relacionar Novas pesquisas são necessárias para se buscar a
o excesso de confiança e o efeito disposição a carac- validação formal do instrumento desenvolvido neste
terísticas dos investidores, tais como idade ou genêro. trabalho. Embora o instrumento de pesquisa empre-

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Felipe Bogea e Lucas Ayres Barreira de Campos Barros

gado careça de validação formal, ele contribui na Como sugestão para estudos futuros, seria
direção de se estabelecer um instrumento simples, interessante replicar os experimentos do presente
de fácil aplicação e capaz de identificar falhas cog- trabalho numa situação oposta ao momento atual,
nitivas possivelmente prejudiciais aos investidores em que o mercado acionário acumula alta. Desta
brasileiros. Existem ainda inúmeras possibilidades para maneira, seria possível verificar se os investidores
o desenvolvimento de outros instrumentos de pes- apresentam as falhas cognitivas com a mesma
quisa capazes de analisar o comportamento do intensidade verificada na presente pesquisa em um
investidor. mercado com perdas acumuladas.

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PROCESSO DE TOMADA DE DECISÃO DO INVESTIDOR INDIVIDUAL BRASILEIRO NO MERCADO ACIONÁRIO NACIONAL:
UM ESTUDO EXPLORATÓRIO ENFOCANDO O EFEITO DISPOSIÇÃO E OS VIESES DA ANCORAGEM E DO EXCESSO DE CONFIANÇA

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Silvia Pires Bastos Costa e Francisco Antônio Barbosa Vidal

TECNOLOGIA SOCIAL DE INCLUSÃO DE JOVENS PELO TRABALHO:


UMA ANÁLISE DA EXPERIÊNCIA DE UM CONSÓRCIO DE ONGS NO
DESENVOLVIMENTO DE AÇÃO INTERSETORIAL COM EMPRESAS E GOVERNO
TECHNOLOGY AND SOCIAL INCLUSION OF YOUNG PEOPLE AT WORK: AN ANALYSIS
OF THE EXPERIENCE OF A CONSORTIUM OF NGOS IN THE DEVELOPMENT OF
INTERSECTORAL ACTION WITH COMPANIES AND GOVERNMENT
Silvia Pires Bastos Costa Recebido em: 07/07/2008
Mestre em Administração / UECE - Universidade Estadual do Ceará Aprovado em: 15/10/2008

Francisco Antônio Barbosa Vidal


Mestre em Administração/Universidade de Fortaleza

RESUMO ABSTRACT
Intersectoral collaboration has been presented in
A colaboração intersetorial apresenta-se, nos últi-
the last years as an effective strategy to support
mos anos, como uma estratégia efetiva de suporte
and promote the social inclusion policies. An
à promoção de políticas de inclusão social. Um
important aspect of the social development favored
aspecto importante do desenvolvimento social pro-
by the action of the non-governmental organizations
piciado pela atuação das organizações não-gover-
is the inter-institutional articulation by means of the
namentais é a articulação interinstitucional por meio
constitution of partnerships – the trend that leads
da constituição de parcerias – a tendência que induz
to the formation of associations to establish links
à formação de associações para estabelecer ligações
and to cooperate.The present study investigates an
e para cooperar. A presente pesquisa investigou uma
experience of labor insertion of (socio-economic)
experiência de inserção laboral de jovens em situação
impoverished young people in the labor market,
de pobreza no mercado de trabalho, com base na
with a management of networks, headed by an
gestão em rede, capitaneada por uma agência de
agency administered by an NGO, which in the year
trabalho juvenil administrada por uma organização
of 2006, articulated across sectors with companies
não-governamental, que articulou, por intermédio
and public entities giving opportunities of work to
de ações intersetoriais com empresas e entes
700 young people from Ceará. The study describes
públicos, oportunidades de inserção laboral para 700
the functional dynamics and the systems of the
jovens no Estado do Ceará. A descrição das dinâ-
memory management of the Agency of Youth work
micas funcionais e a sistematização da memória
which were delineated under a model of inves-
gerencial da agência de trabalho juvenil foram
tigation of case studies under the protection of the
delineadas sob o modo de investigação do estudo
technique of the institutional research-action. The
de caso sob a égide da técnica da pesquisa-ação
present studies managed as a result a social tech-
institucional. A presente pesquisa gerou como re-
nology and social inclusion of young people at work
sultado uma tecnologia social de inclusão de jovens
with elements guided for replications in other
pelo trabalho com elementos norteadores de sua
regions of the country.
replicabilidade em outras regiões do País.
Palavras-chaves: inclusão social, organizações Keywords: social inclusion, non-governmental
não-governamentais, trabalho juvenil. organizations, young people work.

Endereços dos autores:

Silvia Pires Bastos Costa


Av. Antonio Sales, 2.371, sala 105 - Fortaleza-CE - CEP: 60135-101. e-mail: silviapbcosta@yahoo.com.br
Francisco Antônio Barbosa Vidal
Av. Antonio Sales, 2.371, sala 105 - Fortaleza-CE - CEP: 60135-101. e-mail: franbarvidal@ig.com.br

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TECNOLOGIA SOCIAL DE INCLUSÃO DE JOVENS PELO TRABALHO: UMA ANÁLISE DA EXPERIÊNCIA
DE UM CONSÓRCIO DE ONGS NO DESENVOLVIMENTO DE AÇÃO INTERSETORIAL COM EMPRESAS E GOVERNO

1. INTRODUÇÃO 2. ONGS E FORMAÇÃO DE REDES SOCIAIS


Um aspecto importante do desenvolvimento social
Para Gohn (2005), as atuais políticas neoliberais
propiciado pela atuação das organizações não-
deram espaço para o desenvolvimento da economia
governamentais é a articulação interinstitucional por
informal, o que flexibilizou o papel do Estado na
meio da constituição de parcerias – a tendência que
oferta dos serviços públicos, ficando o mesmo como
induz a formação de associações para estabelecer
gestor e controlador dos recursos, em virtude de
ligações, para viver dentro de outro organismo e para
transferir responsabilidades para organizações da
cooperar. Nas comunidades humanas, parceria sig-
sociedade civil organizada via programas de
nifica democracia e poder pessoal, pois cada membro
parcerias em projetos e programas sociais com
da comunidade desempenha um papel importante.
ONGs.
Combinando o princípio da parceria com a dinâmica
A presente pesquisa constitui-se de um estudo da mudança e do desenvolvimento, pode-se utilizar
teórico-empírico, cujo objeto de análise refere-se às o tempo da co-evolução, de maneira metafórica, nas
dinamicidades e especificidades da parceria inter- comunidades humanas. À medida que uma parceria
setorial entre um consórcio de ONGs, governo e em- se processa, cada parceiro passa a entender melhor
presas na execução de uma política pública social as necessidades dos outros. Numa parceria verda-
voltada para a inserção laboral de jovens em situação deira, confiante, ambos os parceiros aprendem e
de pobreza. Para Thompson (1997), a percepção vi- mudam – eles co-evoluem (CAPRA, 1997).
gente para as ONGs é a de que sua capacidade de O que diferencia redes de outros tipos de coor-
pressão e mobilização social, reivindicação e pro- denação social, sobretudo o mercado e as orga-
posição de novos caminhos cede lugar à pressão pela nizações, são algumas características que parecem
profissionalização de sua estrutura e suas ações, ganhar cada vez mais relevância no mundo contem-
adquirindo um caráter predominante de prestadora porâneo (WEYER, 2000: 5-10). Enquanto mercados
de serviços ao Estado e ao mercado. são coordenados por meio de mecanismos de preço,
de uma forma específica e espontânea, e orga-
O estudo teórico-empírico desenvolvido caracte- nizações o são por intermédio de regras formais, de
riza-se, em sua dinâmica, como uma pesquisa or- uma forma não-específica e baseada em regula-
ganizacional balizada pelo processo etnográfico da mentos, redes sociais são normalmente coordenadas
observação participante sob a égide da pesquisa-ação por meio de discurso, fomentando relações de
institucional. Buscou-se, neste estudo, descrever a confiança mútua.
experiência gerencial em rede de uma agência de
Por outro lado, o conceito de rede veio ganhar
trabalho juvenil capitaneada por um consórcio de
uma dimensão mais profunda, como chave inter-
ONGs que, por intermédio de ações intersetoriais
pretativa de grandes tendências do processo histórico
com governos e empresas, possibilitou a inserção no
em curso. Nessa direção, vem sendo apontada a
mercado de trabalho de 700 jovens em situação de
expansão penetrante das redes como a nova mor-
pobreza no Estado do Ceará.
fologia social das sociedades contemporâneas, no
A pesquisa deu-se na ambiência organizacional sentido de que as funções e os processos dominantes
do consórcio social de ONGs que, financiado pelo estão cada vez mais organizados em torno de redes
Ministério do Trabalho e Emprego, executou o Pro- (CASTELLS, 1999).
grama Primeiro Emprego, do governo federal, na Para Castells (1999), a diversidade, uma pluralidade
cidade de Fortaleza, no período de abril a novembro de componentes realmente divergentes, só pode
de 2006, adotando como princípio norteador de seu manter-se coerente em uma rede. Nenhum outro
funcionamento uma gestão em rede. O principal esquema – cadeia, pirâmide, árvore, círculo ou eixo –
propósito da agência era articular parceria com em- consegue conter uma verdadeira diversidade funcio-
presas e governo para promover a inserção laboral nando como um todo. E, diferentemente de cadeias
de jovens egressos de um programa de qualificação lineares de causa e efeito, as relações entre os compo-
social e profissional, capitaneado por organizações nentes de uma rede envolvem múltiplos laços de
não-governamentais. realimentação (CAPRA, 1997), como se fossem agentes

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Silvia Pires Bastos Costa e Francisco Antônio Barbosa Vidal

e reagentes, a ponto de perderem sentido as idéias objetivos, articulação de pessoas e insti-


de origem e destino, emissão e recepção. tuições;
Redes facilitam um comportamento coordenado, f) disponibiliza “saberes distintos” e os coloca
sem a necessidade de aceitar a rigidez de organiza- a serviço do interesse coletivo;
ções inflexíveis e burocráticas. A rede se mostra como g) constrói vínculos mais fortes e consistentes
a única estrutura de ação capaz de cumprir duas fun- entre as pessoas, grupos e instituições;
ções básicas: primeiro, a função estratégica de reduzir h) promove acordos de cooperação e alianças;
incerteza com relação ao comportamento de outros
i) cria e amplia alternativas de ação.
atores, como competidores ou parceiros; segundo,
a função instrumental de melhoria da performance, O binômio concentração de poder/rede tem im-
isto é, o aumento de resultados produzidos. Na esfera plicações diretas no debate sobre desenvolvimento, uma
econômica, as redes são consideradas formas supe- vez que não se acredita que um processo de desen-
riores de organização por serem “mais flexíveis e me- volvimento possa ser sustentável em longo prazo se não
lhor adaptadas à natureza volátil da nova economia houver horizontalidade no processo e no empodera-
global” (RIFKIN, 2001: 23). Além disso, parecem pre- mento dos atores responsáveis por conduzi-lo.
servar a autonomia dos parceiros e aumentar sua
capacidade de aprendizagem. Segundo Paternostro Melo & Fischer (2004), enten-
de-se por interorganizações as relações estabelecidas
Neste sentido, redes sociais podem ser compreen- entre organizações que resultam na consolidação de
didas como formas independentes de coordenação relações interorganizacionais necessárias para o al-
de interações. Sua marca central é a cooperação, basea- cance de determinados objetivos. Ademais, conside-
da em confiança entre atores autônomos e interde- ram-se as interorganizações enquanto espaços de con-
pendentes, os quais trabalham em conjunto por um fluência e interseção de organizações. A obra de Alter
período limitado de tempo, levando em consideração & Hage (1993, apud PATERNOSTRO MELO & FISHER, 2004)
os interesses dos parceiros e estando conscientes de é uma referência no campo das interorganizações.
que esta forma de coordenação é o melhor caminho Esses autores relacionaram algumas teorias que bus-
para alcançar seus objetivos particulares. É em função cam explicar a formação de redes interorganizacionais.
dessa capacidade de agregação que redes têm um Primeiramente, destacaram a Teoria da Ecologia Popu-
grande potencial para instigar processos de apren- lacional. Esta perspectiva busca explicar por que as
dizagem e são defendidas para a implementação de organizações crescem ou declinam ao longo do tempo,
projetos de inovação, nos casos em que os riscos en- de acordo com mudanças ambientais.
volvidos se apresentarem altos demais para cada um
dos parceiros sozinho (WEYER, 2000: 11). Para as autoras mencionadas, uma estratégia
interorganizacional balizada em rede corresponde ao
Para Melo Neto & Froes (2002: 82), a importância padrão total de inter-relações entre um aglomerado
da tecnologia de formação de redes sociais justifica- de organizações que se entrelaçam num sistema
se pelos seguintes aspectos: social para atingir metas coletivas e de auto-interesse
a) cria novas interações entre as pessoas, for- ou para solucionar problemas específicos numa
talecendo laços de amizade, familiares e no- população-alvo.
vas opções de trabalho e recreação;
b) ajuda a moldar as práticas e valores indi-
viduais, grupais e coletivos, aguçando a per- 3. COLABORAÇÃO INTERSETORIAL:
cepção e a visão social das pessoas; EIXOS DELINEADORES
c) conecta indivíduos, grupos, regiões e or- Rosa Maria Fisher (2002) sinalizou que a proposta
ganizações; de colaboração intersetorial entre as organizações
d) ajuda a construir novas formas de con- da sociedade civil e as organizações de mercado
vivência; emerge de uma convergência de opiniões sobre a
e) contribui para a superação de problemas necessidade de integrar agentes econômicos e sociais,
sociais, por meio da definição coletiva de no esforço de promover o desenvolvimento diante

Gestão & Regionalidade - Vol. 24 - Nº 71 - edição especial - XI Semead 2008 - out/2008 21

02RGR71.p65 21 12/2/2009, 08:20


TECNOLOGIA SOCIAL DE INCLUSÃO DE JOVENS PELO TRABALHO: UMA ANÁLISE DA EXPERIÊNCIA
DE UM CONSÓRCIO DE ONGS NO DESENVOLVIMENTO DE AÇÃO INTERSETORIAL COM EMPRESAS E GOVERNO

das mazelas sociais que podem ser contabilizadas A efetivação de parcerias fundamenta projetos de
nesses anos de predomínio de políticas neoliberais. inclusão social da atualidade, protagonizados pelas
Para a referida autora, as necessidades e as carências organizações sociais. A formação de redes de ONGs
das populações em situação de exclusão ampliam-se é uma realidade na execução de políticas públicas
e aprofundam-se com tal intensidade e velocidade não-estatais. Os convênios com o Estado não neces-
que superam, em muito, qualquer possibilidade de sariamente legitimam uma atuação em rede, pois há
atendimento vindo, exclusivamente, da atuação de entraves e burocracias, além de um marco legal injus-
órgãos governamentais ou das organizações da to. As alianças com empresas são embrionárias e
sociedade civil (FISHER, 2002: 29). podem ser potencializadas. A preocupação é com a
fibra ética desse processo, a transparência e o res-
Na visão de Fisher (2002), para concretizar a idéia
peito à autonomia dos espaços institucionalizados
de colaboração entre as organizações sociais e o
da sociedade civil.
mundo dos negócios em uma sociedade capitalista,
é preciso assegurar que ambos os parceiros da aliança
sejam legítimos e estejam enriquecidos em sua 4. PERCURSO METODOLÓGICO
legitimidade política e institucional.
A presente pesquisa contempla o arcabouço de
No final do século XX, a cena na qual se desen- estudo teórico-empírico cujo objeto de análise cons-
rolou o debate acerca do desenvolvimento sustentado titui-se da descrição das especificidades de atuação
no Brasil foi sendo, gradativamente, ocupada por uma e de gestão de uma agência de trabalho juvenil que,
multiplicidade de atores: as ONGs, que reassumiram em rede, promoveu a inserção laboral de mais de
sua posição de defesa de direitos e interesses; as asso- 700 jovens cearenses no mercado de trabalho, no
ciações, principalmente aquelas que agregam comu- ano de 2006. A agência em rede promovia a inserção
nidades populares; as entidades beneficentes e filan- laboral de jovens qualificados social e profissional-
trópicas; e, surpreendentemente, as empresas, as asso- mente por um consórcio de ONGs financiadas pelo
ciações empresariais, as fundações e os institutos vin- Ministério do Trabalho e Emprego, e tinha como eixo
culados a corporações (FISHER, 2002: 43). principal de sua tecnologia social de inclusão pelo
Para Fisher (2002: 154-155), a construção de alian- trabalho a “ação intersetorial” por intermédio da
ças organizacionais vem se apresentando como a for- formação de parcerias e alianças com entes públicos
ma de viabilizar a cooperação intersetorial, que se e privados. A presente pesquisa também se carac-
faz necessária para fortalecer a sociedade civil na teriza, em sua dinâmica, como um estudo orga-
superação dos problemas criados pelos problemas nizacional contextualizado sob a égide da pesquisa-
econômicos: a complexidade dos problemas sociais ação institucional.
enfrentados pela humanidade sinaliza a seguinte De acordo com Barbier (apud HAGUETTE, 1987:
direção: organizações de diversas inserções setoriais 142), a pesquisa-ação institucional é um tipo parti-
terão de otimizar as oportunidades para trabalhar cular de pesquisa-ação, cujo objeto refere-se ao cam-
em conjunto, combinando suas competências espe- po institucional no qual gravita o grupo em questão.
cíficas, de modo a obterem resultados efetivos de Trata-se de desconstruir, por meio de um método
desenvolvimento social. analítico, a rede de significações das quais a instituição
é portadora, enquanto célula simbólica. A pesquisa-
Autin (2001 apud FISHER, 2002: 160) destacou
ação institucional é levada a empregar conceitos
cinco elementos importantes no processo de estabele-
fundamentais, como os de transversalidade, implica-
cimento de alianças: compreender a natureza e os
ção, analisador, grupo-sujeito e grupo-objeto.
estágios de cada aliança de cooperação; superar as
barreiras à conectividade de organizações perten- O universo da presente pesquisa contemplou a
centes a diferentes setores; descobrir e consolidar articulação em rede da agência de trabalho juvenil e
pontos de compatibilidade entre os parceiros; asse- as 42 ONGs integrantes de uma rede social de ONGs
gurar que a cooperação gera valor para as orga- que executou, em Fortaleza e região metropolitana,
nizações aliadas; construir bases de confiança entre uma política pública de inserção social de jovens
os parceiros. provenientes de famílias de baixa renda no mundo

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Silvia Pires Bastos Costa e Francisco Antônio Barbosa Vidal

do trabalho, por meio de projetos sociais de qualifi- profissional e de inserção cidadã no mundo do
cação social, profissional e de intermediação para o trabalho, tendo como parceiros o setor privado, o
mercado, além das interfaces interinstitucionais com governo e organismos de financiamento e de co-
empresas e organizações integrantes do conselho operação. Esta ação intersetorial visava à qualificação
consultivo. No ano de 2006, a rede de ONGs com o social e profissional e à inserção no mercado de tra-
suporte da agência de trabalho juvenil em rede aten- balho de jovens de ambos os sexos, entre 16 e 24
deu a 2,1 mil jovens residentes na cidade de Fortaleza anos, em situação de desemprego, com renda fami-
e região metropolitana. liar de até meio salário mínimo. A seleção dos jovens
priorizou os egressos do sistema penal, os portadores
Quanto aos meios, classifica-se esta pesquisa como
de deficiências, afro-descendentes, indígenas e
estudo de caso. O estudo de caso possibilita a inves-
indivíduos em situação de vulnerabilidade social.
tigação profunda de uma organização, com o objetivo
de testar a validade das hipóteses ou questões de A gestão em rede baliza os processos de eficiência,
pesquisas construídas a partir de um referencial teó- eficácia e efetividade dos projetos de qualificação e de
rico (GIL, 1996; YIN, 2001). A captação de dados deu- inserção social de jovens carentes pelo trabalho,
se de acordo com o Quadro 1, descrito abaixo. desenvolvidos pelas ONGs que integraram o Consórcio
Social da Juventude no Ceará. Com o objetivo de se
A construção teórica apresenta os argumentos dos
instituir um núcleo gestor e articulador em rede, que
autores sobre as temáticas abordadas, “discutidas”
proporcionasse uma interlocução com o setor privado,
junto às evidências da práxis vivenciada. Uma análise
órgãos públicos e entidades do terceiro setor, no sentido
propositiva gerou este estudo de caso, buscando
de potencializar a intermediação de jovens carentes para
contribuir para novas visões sobre a gestão sócio-
o mercado de trabalho, foi criada, durante a execução
organizacional no terceiro setor, sob a égide da pers-
do CSJ 2004, a Agência Social de Inserção em Rede de
pectiva da ação intersetorial, que pode ser útil a muitas
Jovens no Mercado de Trabalho (Agir), que integra a
outras iniciativas de inclusão de jovens em situação
configuração estrutural do Consórcio Social da Juven-
de pobreza no mundo do trabalho.
tude no Ceará. O aperfeiçoamento e a ampliação das
atividades da Agir deu-se através da efetivação de novos
5. ESTUDO DE CASO: A EXPERIÊNCIA DE parceiros e de um Projeto Macro de Sustentabilidade
INCLUSÃO SOCIAL PELO TRABALHO DE Institucional, que possibilitou o alcance de metas exitosas
JOVENS EM SITUAÇÃO DE POBREZA, NUMA de inserção nos anos de 2004 a 2006.
AÇÃO INTERSETORIAL PROTAGONIZADA No primeiro semestre de 2004, 1.063 jovens ca-
POR UMA AGÊNCIA DE TRABALHO JUVENIL rentes foram qualificados e 442 inseridos no mercado
EM REDE de trabalho nas seguintes tipologias: emprego
O Consórcio Social da Juventude de Fortaleza foi formal, menor aprendiz, estágio social de Ensino Mé-
gerido sob uma configuração estrutural em rede, ten- dio e empreendedorismo juvenil. No ano de 2005, 2
do como eixo norteador de suas ações duas instân- mil jovens foram qualificados e 715, inseridos. No
cias: a governança institucional, que contemplava um ano de 2006, 2,1 mil jovens foram qualificados e
conselho gestor e um conselho consultivo, e a or- mais de 800, inseridos.
questração em rede implementada por ONGs execu- O objetivo estratégico da agência é proporcionar
toras que desenvolvem os projetos de qualificação a jovens carentes orientação vocacional, cursos

Quadro 1: Mapeamento do percurso metodológico


Propósito da Captação Técnica aplicada
1) Descrever a dinâmica processual e a configuração estrutural da Diagnose macro sob a égide da pesquisa-ação institucional, análise
agência de trabalho juvenil que deu suporte à execução de uma documental e observação participante.
política pública de inclusão social de jovens.
2) Analisar aspectos processuais das interações interinstitucionais Pesquisa-ação institucional, observação direta; observação
em rede com foco na efetividade de um programa social. participante.
Fonte: elaborado pelos autores a partir da revisão de literatura metodológica.

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TECNOLOGIA SOCIAL DE INCLUSÃO DE JOVENS PELO TRABALHO: UMA ANÁLISE DA EXPERIÊNCIA
DE UM CONSÓRCIO DE ONGS NO DESENVOLVIMENTO DE AÇÃO INTERSETORIAL COM EMPRESAS E GOVERNO

profissionalizantes e intermediação para o mercado e. disponibilizar às executoras instrumentais e in-


de trabalho, realizando em rede a captação de vagas formações sobre a rede de parcerias e de
no mercado formal e/ou potencializando o empreen- convênios realizados, no sentido de poten-
dedorismo juvenil sob a égide da economia solidária, cializar as ações de inserção de jovens do CSJ
sensibilizando as organizações dos setores público, no mercado de trabalho;
privado e do terceiro setor a aderirem socialmente f. realizar convênios macro e alianças estratégicas
ao Programa Primeiro Emprego, por meio das políticas com o setor produtivo local, esferas de governo
do jovem aprendiz, do programa de apoio aos porta- e sociedade civil;
dores de deficiência (PPD), do estágio social de Ensino
g. articular parcerias entre assessoria técnica, cré-
Médio e da contratação formal via responsabilidade
dito jovem, tutoriais no mercado via responsa-
social ou do apoio à criação de empreendimentos
bilidade social para viabilizar os empreendi-
juvenis, voltados para a geração de trabalho e renda
mentos juvenis que emergirão do Consórcio
por conta própria de forma individual ou cooperada.
Social da Juventude;
A missão da Coordenação de Mercado de Trabalho h. realizar um grande evento para a entrega do
e Inclusão Social – CIMT é desenvolver e implementar Troféu Visão Social e divulgação das ações do
estratégias de inclusão social pelo trabalho dos jovens PNPE/CSJ em Fortaleza, região metropolitana
capacitados através do Consórcio Social da Juventude, e interior;
no Ceará, captando oportunidades no mercado por
i. organizar e articular as reuniões do Conselho
meio de articulação social com empresas e instituições
Consultivo do CSJ em Fortaleza e região metro-
e, a partir do construto social da experiência vivenciada,
politana, em parceria com a coordenação de
gerar conhecimento e tecnologia apropriada a enfrentar
articulação institucional, bem como potencia-
com eficiência e eficácia o desemprego juvenil. A
lizar parcerias com seus integrantes;
Coordenação, que capitaneou a agência de trabalho
juvenil em rede, apresentava as seguintes competências: j. estruturar um sistema de informações sobre o
mercado de trabalho para jovens e um banco
a. promover estratégias que visem ao aumento
de empregos juvenis em rede (Rede Fortaleza
da oferta de empregos formais para os jovens
de Trabalho Jovem). Vale ressaltar que a articu-
envolvidos nas ações do Consórcio;
lação sinérgica da rede cearense de inserção
b. desencadear, em conjunto com a Delegacia social de jovens pelo trabalho, formada pelas
Regional do Trabalho, parcerias com o intuito entidades executoras, o Conselho Consultivo
de criar oportunidades de ocupação para os e os parceiros, foi de extrema importância para
jovens, incluindo emprego formal via respon- o êxito das ações.
sabilidade social, jovem aprendiz, estágio social
de Ensino Médio, Lei de Pessoas Portadoras
A Coordenação Geral da Agir facilitou os pro-
de Deficiências e empreendedorismo juvenil /
cessos globais das quatro áreas estratégicas da
economia solidária;
agência: telemarketing e agentes de inserção; pro-
c. assessorar as entidades executoras na concep- cessos seletivos e talentos juvenis; empreendedo-
ção e na implementação de estratégias de rismo juvenil e monitoramento e contratos. Durante
inserção no mercado de trabalho dos jovens a execução do projeto de qualificação, psicólogas
que estão sendo qualificados social e profissio- da Agir realizaram oficinas de mapeamento de
nalmente por intermédio do Consórcio Social talentos juvenis e de orientação profissional, atin-
da Juventude (CSJ); gindo 1,2 mil jovens participantes do CSJ. A aproxi-
d. orquestrar em rede as dinâmicas de parceria e mação CIMT/AGIR e entidades executoras facilitou
de captação de vagas/oportunidades das enti- o processo de conquista de novas empresas par-
dades executoras, promovendo encontros ceiras, que possibilitaram o alcance da meta de in-
mensais com os agentes de inserção para pla- serção. A transferência da tecnologia social de in-
nejar ações, conceber estratégias e avaliar pro- serção laboral às ONGs executoras, por intermédio
cessos de eficiência, eficácia e efetividade da de programas específicos de capacitação e encon-
área de inserção do CSJ – CE. tros propositivos, bem como o monitoramento de

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Silvia Pires Bastos Costa e Francisco Antônio Barbosa Vidal

resultados, contribuíram para a eficácia do projeto. 5.2. Assessoria de gestão


A disseminação da Agir junto aos jovens do CSJ • mapear demandas dos setores;
2006 foi outro aspecto relevante no processo de
• dar suporte à execução dos processos internos
inserção. Vários jovens, antes de serem encami-
e de interface entre as coordenações e as enti-
nhados para as seleções nas empresas, foram orien-
dades executoras;
tados pela equipe técnica de recrutamento e seleção
da Agir, preparando-se melhor para enfrentar os • facilitar a comunicação entre a Coordenação
desafios do mercado de trabalho. da Área de Mercado de Trabalho e Inclusão
Social e as coordenações do ateliê;
A Coordenação da Área de Mercado de Trabalho
• facilitar a comunicação interna;
e Inclusão Social do Consórcio Social da Juventude
no Ceará atuou sob a égide da dinâmica funcional • produzir relatório mensal de resultados por
da Agir, isto é, constituindo uma agência de setores (telemarketing, agentes de inserção,
trabalho juvenil e articulando-a em rede com as recrutamento e seleção, monitoramento/ banco
entidades executoras e parceiros, de modo a de dados);
propiciar oportunidades de inserção laboral dos • gerenciar o relacionamento com e entre os
jovens participantes. A estrutura de funcionamento agentes de inserção das entidades executoras.
apresentou a configuração explicitada a nos itens
seguir. 5.3. Agentes de telemarketing
• planejar estratégias de marketing;
5.1. Coordenação de talentos juvenis • prospectar listas/ Internet / base de dados de
(recrutamento e seleção) empresas e instituições;
• acompanhar o desenvolvimento humano da • divulgar o CSJ e suas modalidades de inserção;
equipe da Agir; • agendar visitas para os agentes;
• capacitar as entidades executoras e instru- • difundir uma visão de responsabilidade social
mentá-las com fluxos de processos de recruta- junto a empresas e instituições contatadas;
mento e seleção, ficha de abertura de vaga, • elaborar relatórios semanais de empresas/
ficha de acompanhamento do desenvolvi- instituições contatadas;
mento do aluno;
• planejar ligações;
• visitar os projetos das executoras e do Ateliê
• dar retorno das visitas realizadas pelos agentes
da Juventude (1.740 jovens), realizando oficinas
de inserção;
de orientação profissional e preenchendo a
ficha de talentos juvenis; • manter um marketing de relacionamento;
• visitar o setor de RH de empresas e instituições • elaborar campanha script / fax-campanha/
que atuam no Ceará; e-mail-campanha;
• articular, por meio de uma força-tarefa, visitas • divulgar relatório de vagas captadas X jovens
dos jovens às empresas com a possibilidade inseridos a partir da ação do telemarketing.
de assistirem a palestras ministradas pelos
profissionais de RH; 5.4. Agentes de promoção social do trabalho
• realizar tour pelos projetos com os parceiros (agentes de inserção)
e/ou visitas do RH (principalmente de quem • analisar os cursos/ perfil de jovens x prospecção
faz seleção) das empresas aos projetos; de mercado;
• gerenciar banco de dados; • manter carteira de empresas e instituições
• otimizar os processos seletivos; parceiras;
• realizar monitoramento pós-inserção; • promover marketing de relacionamento;
• sistematizar o arquivamento dos contratos, • cumprir meta de adesões (termo de adesão) e
alimentando o mapa de inserção. abertura de vagas (ficha de abertura de vagas);

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TECNOLOGIA SOCIAL DE INCLUSÃO DE JOVENS PELO TRABALHO: UMA ANÁLISE DA EXPERIÊNCIA
DE UM CONSÓRCIO DE ONGS NO DESENVOLVIMENTO DE AÇÃO INTERSETORIAL COM EMPRESAS E GOVERNO

• divulgar os resultados (jovens inseridos); • alimentar o banco de dados de empregadores;


• planejar visitas; • gerenciar o banco de dados dos jovens (com
• produzir relatório semanal de empresas e insti- perfil socioprofissional e foto digitalizada).
tuições visitadas;
5.8. Empreendedorismo juvenil
• visitar as entidades executoras;
• assessorar as entidades executoras que traba-
• promover campanha de responsabilidade
lham com empreendedorismo;
social;
• conceber estratégias de inserção e estímulo à
• apresentar relatório mensal de empresas visita-
elaboração de planos de negócio;
das X vagas captadas X jovens inseridos.
• articular crédito e acesso ao mercado;
5.5. Articulação interinstitucional • captar oportunidades de trabalho por meio da
prestação de serviços.
• realizar convênios e protocolos de parcerias;
• promover articulação macro com instâncias Entre as importantes ações de articulação empre-
públicas e grandes empresas; endidas, destacam-se os significativos convênios
• direcionar articulação para captação de vagas; assinados pela Agir na perspectiva da colaboração
• cumprir meta mensal de convênios de adesão; intersetorial, abrangendo associações empresariais,
• apresentar relatório mensal de articulações institutos com foco no encaminhamento de jovens
realizadas X jovens inseridos. para o mercado de trabalho e governos estadual e
municipal. Estas ações oportunizaram vagas de quali-
ficação técnica com experiência laboral e contratação
5.6. Monitoramento e contratos como jovens aprendizes, além de vagas para estágio
• acompanhar processos seletivos; social, fundamentais para o êxito do projeto.
• elaborar contratos; Outro fator importante a ser considerado é o apoio
• sistematizar o arquivamento de contratos; de grandes e médias empresas que atuam no Ceará
• dar suporte às operações de recrutamento e ao Consórcio, por intermédio da inserção laboral dos
seleção; jovens qualificados, fruto do empenho dos agentes
• monitorar o desempenho de inserção das de inserção e da ação estratégica da Coordenação
entidades executoras; da Área de Mercado de Trabalho e Inclusão Social.
• monitorar os jovens inseridos. Um aspecto importante da inserção laboral de
jovens em situação de pobreza e sem experiência é a
5.7. Banco de dados possibilidade concreta da abertura de portas para o
mercado de trabalho por meio do estágio social. Em
• consolidar relatórios de visitas mensais por
2006, o CSJ inseriu 196 jovens por intermédio desta
agentes X vagas captadas X número de jovens
modalidade de ocupação. O estágio social possibilita
inseridos;
aos jovens o desenvolvimento de competências ad-
• consolidar mapa de empresas visitadas x quiridas durante a qualificação profissional, haven-
empresas que assinaram o termo de adesão X do oportunidades concretas de efetivação após o
empresas que contrataram jovens; término do contrato de estágio.
• consolidar produtividade da área de recruta-
O estágio configura-se como um conjunto de
mento e seleção: número de jovens inseridos
atividades de caráter técnico, social e cultural. Aos
X vagas captadas X número de jovens encami-
estudantes, proporciona a aplicação dos conheci-
nhados;
mentos teóricos, por meio da vivência em situações
• consolidar mapa de inserção das entidades reais do exercício de uma profissão. É um período
executoras; indispensável para a sua qualificação como futuros
• consolidar o mapa geral de inserção que será profissionais, permitindo integrar a teoria à prática.
enviado ao Ministério do Trabalho e Emprego; O estágio tem por finalidade possibilitar ao aluno

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Silvia Pires Bastos Costa e Francisco Antônio Barbosa Vidal

conhecer a disciplina do trabalho coletivo em direção a inserção laboral de jovens, mas exigem, para a sua
a um objetivo comum, observando o que é feito e eficácia, um aparato sistêmico de políticas públicas e
por que, pensando em tudo o que deveria fazer, suportes estruturantes (crédito, acesso a mercado,
descobrindo a admiração, as grandezas e as adversi- sustentabilidade).
dades das relações do mercado de trabalho. O pro-
No ano de 2006, as seguintes ocupações delinea-
grama de estágio para estudantes de escola pública
ram a inserção laboral na modalidade FAGR: costura
do Ensino Médio está fundamentado nos seguintes
e customização de roupas, marcenaria, alimentação,
documentos legais: Lei nº 6.494, de 07/12/1977;
serigrafia, surfwear, produção cultural, agricultura e
Decreto nº 87.497, de 18/08/1982; Decreto nº
piscicultura. A formação de cooperativas e a constitui-
89.467, de 21/03/1984; Ofício Circular SRT nº 11/
ção formal de grupos associativos de produção
85, de 09/09/1985; Decreto nº 914, de 06/09/1993,
compostos por jovens foi um avanço observado nesta
Medida Provisória de 1998, Lei nºo 8.859, de 23/03/
modalidade de inserção em relação ao ano anterior.
1994, Resolução CNE/CEB, de 21/01/2004; e Lei de
Diretrizes e Bases da Educação Nacional (Lei nº 9.394, As seguintes atividades foram realizadas pela
de 20 de dezembro de 1996). Coordenação de Empreendedorismo Juvenil da Agir:
• reuniões com as entidades executoras para
O estágio social é, para a empresa, uma oportu-
transferência de conhecimentos sobre empreen-
nidade de desenvolver a sua responsabilidade social
dedorismo juvenil;
por meio da inserção de jovens no mundo do tra-
balho. É também uma forma de recrutar jovens talen- • visitas às entidades e suporte aos grupos pro-
tos. A atividade permite que a organização antecipe dutivos;
a preparação e a formação de um quadro qualificado • envio de manual de orientações e checklist de
de recursos humanos, preparando-se para os desafios comprovações e exigibilidades na área da FAGR;
do futuro. Além disso, com a concessão do estágio, • realização de seminários estruturantes;
a organização cria e mantém um espírito de reno- • consultoria aos grupos produtivos formados por
vação e oxigenação de seus recursos humanos. jovens;
O estágio, na perspectiva social e do desenvol- • articulação para obtenção de crédito e acesso
vimento humano, propicia ao jovem experimentação ao mercado.
prática, levando-o a assumir a responsabilidade por
fazer com que as coisas aconteçam, em conjunto
A Agir apresentou as seguintes áreas processuais,
com os outros. Assim, o jovem ganha confiança em
durante seu funcionamento no CSJ-2006, discrimi-
si mesmo e conquista a confiabilidade dos colegas.
nadas nos itens abaixo.
Há a convergência de habilidades, conhecimentos e
procedimentos metodológicos, tendo em vista a I – Mercado e parcerias
construção social de seu desempenho profissional.
Foco: abrangência de empresas/instituições.
Um crescimento significativo de inserção dos
jovens egressos do CSJ 2006 aconteceu na modali- Ações:
dade emprego formal: foram 294 aprendizes e 95 a) prospecção, banco de dados/cadastro de em-
empregos formais, totalizando 389 jovens com car- presas e instituições e agenda de captação;
teira assinada. Somando-se à modalidade de estágio, b) capacitação/nível motivacional dos agentes e
são 587 jovens sem experiência, tendo o seu primeiro das operadoras de telemarketing;
contato com o mercado de trabalho formal. Na mo- c) conhecimento dos agentes sobre perfil dos
dalidade FAGR (formas alternativas de geração de cursos/jovens: captação direcionada ou de
trabalho e renda: empreendedorismo informal, eco- oportunidades; parceria mais próxima com os
nomia solidária), 136 jovens conseguiram inserção projetos;
laboral mediante o trabalho por conta própria.
d) articulação com o mercado/ capilaridade e
O empreendedorismo juvenil e as formas alterna- abrangência; estratégias de captação de vagas
tivas de geração de renda são caminhos efetivos para pela Internet/ integração de parceiros;

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TECNOLOGIA SOCIAL DE INCLUSÃO DE JOVENS PELO TRABALHO: UMA ANÁLISE DA EXPERIÊNCIA
DE UM CONSÓRCIO DE ONGS NO DESENVOLVIMENTO DE AÇÃO INTERSETORIAL COM EMPRESAS E GOVERNO

e) avaliação mensal de desempenho. e) banco de talentos juvenis;


Documentos: f) orientação às ONGs, no sentido de aportarem
• termo de adesão e/ou associação; tecnologias de empoderamento juvenil e
desenvolverem simulações preparatórias para
• ficha de abertura de vaga;
processos de R&S;
• kit de divulgação;
g) integração dos processos de R&S do Consórcio
• mapa de visitas; em rede com as ONGs aos processos de seleção
• relatório mensal de desempenho dos agentes: das empresas/instituições que ofertam vagas;
número de empresas visitadas, adesões realiza- h) desenvolvimento de tecnologia de recruta-
das, vagas captadas, jovens inseridos; mento e seleção de talentos juvenis;
• termos de parceria; i) adoção de práticas de excelência no relacio-
• modelos de convênio; namento com empresas, agregando valor,
• carta de solicitação de parcerias. transferindo competências, habilidades e
capital intelectual;
II – Articulação em rede com as ONGs exe- j) acompanhamento dos jovens inseridos.
cutoras Documentos:
Foco: impulsionar captação de vagas. • ficha de abertura de vaga;
Ações: • ficha de desenvolvimento socioprofissional do
a) seminário introdutório; jovem/ mapa de talentos;
b) capacitação dos agentes; • mapa de processos seletivos (eficiência e
eficácia);
c) reunião de planejamento;
• mapa de acompanhamento dos jovens inseridos.
d) realização de agenda propositiva;
e) reuniões mensais de acompanhamento;
IV – Empreendedorismo juvenil
f) consultoria;
Foco: captar oportunidades em curto prazo.
g) agenda de visitas em parceria.
Ações:
Documentos:
a) integração entre políticas/ articulação com o
• manual de inserção/plano de inserção.
CTA (Centro do Trabalhador Autônomo) do
Sine1;
III – Banco de dados, recrutamento e seleção b) captação de oportunidades para trabalho autô-
Foco: atuação em rede, eficiência, qualidade, nomo, acesso a mercado e a crédito para
capilaridade. empreendimentos juvenis individuais e/ou
Ações: coletivos;
a) formação de multiplicadores em R&S nas ONGs c) consultoria às ONGs executoras/pré-incubação/
executoras, bem como aporte de técnicas de plano de negócio;
monitoramento de jovens inseridos/relacio- d) realização de Seminário de Empreendedorismo
namento com parceiros; Juvenil;
b) empoderamento juvenil por meio das OPs e) definição de comprovação de inserção;
(oficinas de orientação profissional)/ entrega f) consultoria de grupo com os jovens partici-
de cartilhas de orientação para o mercado de pantes de projetos de empreendedorismo;
trabalho;
g) central de serviços/ locação em rede.
c) implantação de um sistema de recrutamento
e seleção em rede com as ONGs executoras;
d) filtro de empresas que adotam práticas
antiéticas; 1
Sistema Nacional de Empregos.

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Silvia Pires Bastos Costa e Francisco Antônio Barbosa Vidal

Documentos: 6. CONSIDERAÇÕES FINAIS


• relatório de desempenho mensal dos projetos; Pensar e implementar uma política seletiva de
• quadro de captação de oportunidades; promoção do emprego é uma das tarefas principais
• instrumentais: comprovações das FAGR junto do Consórcio Social da Juventude, em virtude do perfil
ao MTE. dos jovens atendidos (egressos do sistema penal,
jovens em cumprimento de medidas socioeducativas,
portadores de deficiências, negros e indígenas).
Os principais eventos realizados pela Agir, em
2006, com foco em ações intersetoriais, foram os A inserção no mercado de trabalho, particular-
seguintes: mente para os jovens em situação de vulnerabilidade
social, exigiu a adoção dos seguintes princípios me-
• participação, por meio de stand e palestras sobre
todológicos:
trabalho juvenil, em congressos/eventos locais;
• favorecimento à elevação da escolaridade:
• realização da Reunião do Conselho Consultivo
estimular o jovem a investir no seu processo de
do Consórcio Social da Juventude de 2006, cons-
aprendizagem, possibilitando momentos de diá-
tituído por representantes do governo, de em-
logo, acompanhamento e articulação de políti-
presas e da sociedade civil;
cas públicas de elevação de escolaridade. É fun-
• realização do Seminário de Inserção para as damental para a inserção dos jovens no mercado
ONGs executoras; de trabalho;
• realização de curso de formação de agentes de • complementaridade com projetos de inclu-
inserção; são social: o jovem a ser inserido, em virtude
• realização do Seminário sobre Recrutamento e de sua particularidade social, deve ser estimulado
Seleção, com a participação das entidades a participar de outros projetos governamentais
executoras; ou não de inclusão social, ampliando assim a
• promoção da II Reunião do Conselho Consultivo chance real de superação da miséria e pobreza.
e anúncio dos Embaixadores da Juventude O engajamento da família e a interface com ou-
2006; tros programas de transferência de renda é im-
• solenidade de entrega do Troféu Visão Social a portante neste processo de elevação da auto-
36 empresas que inseriram mais de cinco jovens estima e cidadania;
do CSJ e do certificado Empresa Cidadã a 230 • articulação em rede: a inserção torna-se
empresas que inseriram até quatro jovens. O factível em virtude da capacidade de ampliar e
evento contou com a participação de mais de consolidar uma rede de relacionamento com
500 convidados. empresas e instituições sociais, assim como uma
política integrada de diversos programas e pro-
Uma estratégia utilizada pelo CSJ 2006/Cimt/Agir jetos de geração de trabalho e renda, particu-
para incentivar as empresas a contratarem jovens larmente aqueles dirigidos aos jovens;
egressos do CSJ e estabelecerem parcerias foi a reali- • indução ao desenvolvimento pessoal e
zação da segunda edição do Troféu Visão Social e a profissional: o jovem precisa ser estimulado a
nominação dos Embaixadores da Juventude. desenvolver uma visão de futuro, ou seja, a
O Troféu Visão Social é o reconhecimento público formular um projeto de vida. A definição de um
aos empresários e gestores que acreditaram na plano de desenvolvimento pessoal e profissional,
responsabilidade social e participaram do programa. orientado por profissionais, é um instrumento
Cada empresário foi homenageado por ter inserido essencial para tratar o processo de inserção dos
cinco ou mais jovens no mercado de trabalho cea- jovens como uma perspectiva libertária.
rense. Foram empresas que, cientes de seu papel para
a melhoria da qualidade de vida da sociedade, tiveram A principal estratégia de inserção no mercado
visão e aderiram à responsabilidade social. de trabalho dos jovens atendidos pelo Consórcio

Gestão & Regionalidade - Vol. 24 - Nº 71 - edição especial - XI Semead 2008 - out/2008 29

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TECNOLOGIA SOCIAL DE INCLUSÃO DE JOVENS PELO TRABALHO: UMA ANÁLISE DA EXPERIÊNCIA
DE UM CONSÓRCIO DE ONGS NO DESENVOLVIMENTO DE AÇÃO INTERSETORIAL COM EMPRESAS E GOVERNO

Social consistiu em fortalecer e consolidar a Agir Observou-se, com o estudo de caso delineado,
(Agência de Inserção em Rede), criada pela entidade que sistematizou por intermédio da pesquisa-ação
âncora para aportar conhecimento, tecnologia e institucional (diagnose e conexões) a memória e a
articulações empresariais ao Consórcio Social. A experiência de uma tecnologia social de inclusão de
constituição dos agentes de inserção e de articulação jovens em situação de pobreza no mercado de tra-
de parcerias fortaleceu a identificação e a captação balho através de articulações intersetoriais, que
de vagas no mercado de trabalho. Esses agentes experiências de promoção humana capitaneadas pelo
constituem-se num canal permanente e siste- Terceiro Setor colaboram para a efetividade de polí-
matizado de diálogo com o empresariado, tornando ticas públicas, comprovando que a colaboração inter-
mais produtiva e eficaz a colocação dos jovens setorial governo-ONGs-empresas é o caminho para
qualificados. o desenvolvimento social com cidadania.

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30 Gestão & Regionalidade - Vol. 24 - Nº 71 - edição especial - XI Semead 2008 - out/2008

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Veronica Favato e Pablo Rogers

ESTRUTURA DE CAPITAL NA AMÉRICA LATINA E NOS ESTADOS UNIDOS:


UMA ANÁLISE DE SEUS DETERMINANTES E EFEITO DOS SISTEMAS DE
FINANCIAMENTO
CAPITAL STRUCTURE IN LATIN AMERICA AND UNITED STATES:AN ANALYSIS
OF ITS DETERMINANTS AND EFFECT OF FINANCIAL SYSTEMS
Veronica Favato Recebido em: 07/07/2008
Mestre em Administração - Universidade Federal de Urbelândia Aprovado em: 15/10/2008

Pablo Rogers
Professor na área de Finanças e Econometria da Faculdade de Gestão e Negócios da Universidade Federal de Uberlândia

RESUMO ABSTRACT
This article aims to investigate in a microeconomic
Esse artigo tem como objetivo investigar, em nível
level, the influence of relevant theoretical attri-
microeconômico, a influência de atributos teóricos
butes, suggested by the Pecking Order Theory
relevantes, sugeridos pela Pecking Order Theory (POT)
(POT) and the Static Tradeoff Theory (STT), on the
e pela Static Tradeoff Theory (STT), sobre a estrutura
capital structure of companies in Latin America
de capital das empresas na América Latina e nos Estados
and the United States. Accordingly, in a macro-
Unidos. Concomitantemente, em nível macroeco-
economic level, it seeks to examine the effect of
nômico, busca-se analisar o efeito dos sistemas
financial systems on the capital structure of com-
financeiros sobre a estrutura de capital das empresas.
panies. 769 non-financial open capital companies
Foram consideradas, no estudo, 769 empresas não-
from five countries were considered: Argentina,
financeiras de capital aberto de cinco países – Ar-
Brazil, Chile, Mexico and the United States, with
gentina, Brasil, Chile, México e Estados Unidos –, com
data from the Economatica® system in the period
dados retirados do sistema Economática® no período
from 1996 to 2005. Based on three variables of
compreendido entre 1996 a 2005. A partir de três
debt models were estimated, through the Ordinary
variáveis de endividamento, foram estimados modelos,
Least Squares, with the standard errors according
por meio dos Mínimos Quadrados Ordinários com
to White´s heteroscedasticity, relating proxy va-
erros padrão consistentes à heteroscedasticidade,
riables independent from the attributes and a
conforme White, relacionando variáreis proxies inde-
dummy in order to measure the impact of the
pendentes dos atributos investigados e uma dummy,
financial systems on the capital structure. The re-
com intuito de mensurar o impacto dos sistemas de
sults corroborate the strong impact of the financial
financiamento sobre a estrutura de capital. Em linhas
systems, and some cases of POT and STT related
gerais, os resultados obtidos corroboram o forte
to the size of the company, opportunities to grow,
impacto dos sistemas de financiamento, e algumas
asset tangibility, profitability and risks involved on
hipóteses da POT e da STT em relação à influência do
the capital structure of companies in Latin America
tamanho da empresa, a oportunidades de crescimento,
and USA.
à tangibilidade dos ativos, à lucratividade e aos riscos
envolvidos sobre a estrutura de capital das empresas
na América Latina e nos EUA.

Palavras-chave: estrutura de capital, financiamento, Keywords: capital structure, financing, Latin


América Latina. America.

Endereços dos autores:

Veronica Favato
Rua Frei Caneca 348, ap. 74, Consolação - CEP 01307-000 - São Paulo-SP - e-mails: veronicafavato@yahoo.com ou veronica.silva@gvmail.br
Pablo Rogers
Rua Rondon Pacheco, 4.315 - Bloco D - Apto 302, Conj. Bandeirantes - CEP 368400-766 - Uberlândia-MG - e-mail: pablo@fagen.ufu.br

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ESTRUTURA DE CAPITAL NA AMÉRICA LATINA E NOS ESTADOS UNIDOS:
UMA ANÁLISE DE SEUS DETERMINANTES E EFEITO DOS SISTEMAS DE FINANCIAMENTO

1. INTRODUÇÃO América Latina são particularmente interessantes,


pois, além de serem economias em desenvolvimento,
Estrutura de capital é uma área extremamente
atravessaram ambientes macroeconômicos diferentes
controversa em finanças. Pesquisas nos últimos 40
em um período de tempo relativamente curto. Se o
anos, baseadas no Modelo Tradicional, no Modelo
ambiente econômico é importante para as decisões
de Modigliani & Miller (MM), na Pecking Order Theory
de estrutura de capital, é provável que a América
(POT) e na Static Tradeoff Theory (STT), geraram
Latina tenha sentido tais efeitos.
poucas orientações sobre como escolher entre debt
e equity. A despeito da polêmica em torno da exis- Assim, o artigo tem como objetivo responder às
tência de uma estrutura ótima de capital, embate seguintes questões: (1) em nível microeconômico
este travado principalmente entre o Modelo Tradi- – qual a influência dos determinantes de estrutura
cional e o Modelo de MM, a abordagem produzida de capital na América Latina e nos Estados Unidos?;
pela POT e pela STT sugerem que as empresas es- (2) em nível macroeconômico – qual o impacto
colhem sua estrutura de capital de acordo com deter- de diferentes sistemas financeiros sobre a estrutura
minados atributos teóricos relevantes, tais como ta- de capital de cada país?
manho da empresa, oportunidades de crescimento
do negócio, tangibilidade dos ativos, lucratividade e A próxima seção é dedicada à fundamentação
riscos envolvidos, entre outros. A relevância desses teórica por detrás do estudo. A metodologia é enfo-
atributos sobre a decisão de financiamento deriva cada na seção três, onde são explicitados a amostra
dos impactos que eles seriam capazes de exercer e os aspectos metodológicos utilizados. Na seção
sobre os custos e benefícios associados à emissão de quatro, são abordados e analisados os resultados do
ações ou de dívida. Dessa forma, não haveria uma estudo. Finalmente, na seção cinco, são apontadas
estrutura de capital ótima, mas uma estrutura de conclusões do estudo.
capital mais apropriada a cada perfil de empresa.
Além do impacto destes determinantes em cada 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
empresa, ainda existem fatores indutores do endivi-
damento, inerentes à especificidade de cada país, De acordo com o ponto de vista do Modelo Tradi-
condicionados aos modelos de financiamento especí- cional, uma combinação ótima de capital de terceiros
ficos, sejam eles baseados em crédito, sejam no mer- e capital próprio pode ser obtida e deve ser buscada
cado de capitais. Ressalta-se, ainda, para cada modelo pelas empresas como forma de maximizar seu valor
de financiamento, o papel dos governos quanto aos de mercado. A maximização de valor opera-se por
incentivos e às restrições de crédito, além do interesse meio da minimização do custo total do capital empre-
crescente, perante privatizações, crises de dívida e gado pela firma para financiar suas atividades. Durand
globalização dos mercados financeiros, em (1952) foi um dos pioneiros na investigação destas
desenvolver o mercado de capitais, particularmente possibilidades. Segundo ele, se os investidores con-
nos países em desenvolvimento. Assim, a questão cordarem com um método de precificação da empre-
microeconômica dos fatores que definem as escolhas sa baseado em seu fluxo de caixa esperado, trazido
das empresas com relação à sua estrutura de capital a valor presente, será possível, mantido constante o
não pode estar desvinculada da questão macro- fluxo de caixa esperado, aumentar o valor da firma
econômica, sobre a escolha do modelo mais eficiente por intermédio da redução da taxa de desconto, ou
de sistema financeiro a fim de promover o desenvol- seja, do custo de oportunidade do capital empre-
vimento econômico. gado. Entretanto, ele admitiu não ser necessariamen-
te possível reduzir o custo do capital por meio de
A maior parte dos trabalhos empíricos tem se mudanças nas proporções de capital próprio e de
concentrado em países desenvolvidos, em particular, terceiros no passivo da empresa.
nos Estados Unidos. Neste artigo, discute-se a tam-
bém a estrutura de capital na América Latina e con- Contrapondo-se ao modelo de Durand (1952),
fronta-se o papel dos sistemas financeiros como Modigliani & Miller (1958 e 1959) contribuíram para
determinantes da estrutura de capital em alguns paí- o entendimento de questões relacionadas ao financia-
ses da região e nos Estados Unidos. Os países da mento. Sob as hipóteses de um mercado perfeito

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Veronica Favato e Pablo Rogers

(ausência de custos de falência, todas as empresas seguir recursos de longo prazo; assim, o tamanho
situam-se na mesma faixa de risco, ausência de tribu- definiu a escolha entre endividamento de curto e
tação pessoal, ausência de crescimento dos fluxos longo prazo.
de caixa nas empresas, ausência de assimetria de
Já na abordagem de POT, ao estabelecer sua
informações e custos de agência), não existiria uma
estrutura de capital, a empresa segue uma seqüência
estrutura de capital ótima, ou seja, todas as combina-
hierárquica de financiamento. Inicialmente, a empre-
ções possíveis entre dívida e capital próprio levariam
sa daria preferência ao financiamento interno, por meio
a empresa ao mesmo custo médio ponderado de
da utilização de lucros retidos. Caso necessite de
capital e ao mesmo valor.
financiamento externo, a seqüência seria da emissão
Entretanto, havendo a dedução dos juros no im- de debêntures e títulos conversíveis (endividamento),
posto pago, o valor de mercado de uma empresa antes de optar pela emissão de ações. Assim, as
cresceria à medida que ela se endividasse, já que o empresas mais lucrativas são menos endividadas, pois
aumento do endividamento implicaria em aumento podem financiar seus novos projetos sem ter que se
do benefício fiscal apurado. Assim, todas as empresas endividar ou emitir ações. A relutância em emitir novas
deveriam financiar-se unicamente com recursos de ações deve-se, principalmente, à sua subprecificação
terceiros. Modigliani & Miller (1963) reconheceram, pelo mercado, pela menor informação detida pelos
em trabalho posterior, que, quanto maior for o grau investidores potenciais, em relação aos administra-
de endividamento, maior a economia de imposto de dores, sobre os fluxos esperados pelos ativos da
renda, e, portanto, maior o valor da empresa. empresa, ou seja, pela assimetria de informações. A
subprecificação levaria ao subinvestimento, uma vez
Adicionalmente, coloca-se que, na prática, a assi- que, caso ocorresse a emissão de ações a preços
metria de informações afeta as escolhas entre finan- desfavoráveis aos acionistas correntes, haveria uma
ciamento externo e interno, e entre emissão de ações tendência de transferência de riqueza dos investidores
(equity) e empréstimos (debt). Estas escolhas são antigos para os novos. Esse problema poderia ser
abordadas pela Pecking Order Theory (POT), inicial- contornado, caso a empresa utilizasse recursos gerados
mente mencionada por Myers (1984). Em seu artigo, internamente, como os lucros retidos.
Myers (1984) tentou identificar o que leva as empre-
sas a estabelecer sua estrutura de capital. Ele contra- A STT e a POT divergem em seus preceitos básicos,
pôs duas correntes: a primeira, chamada de Static quanto aos determinantes da estrutura de capital de
Tradeoff Theory (STT), a qual supõe que a empresa uma empresa: lucratividade, tangibilidade dos ativos,
possui uma meta de endividamento e caminha em oportunidades de crescimento, tamanho da empresa
sua direção, e a POT, pela qual toda empresa segue e riscos do negócio.
uma seqüência hierárquica de financiamento. Para a STT, maiores lucros levam a um maior
endividamento, devido ao benefício dos juros dedu-
Na abordagem de STT, tal meta seria estabelecida
tíveis do imposto. Isto é o oposto do que determina
como resultado do confronto entre o custo e o bene-
a POT, em que maiores lucros levam à diminuição do
fício da dívida, onde o custo de falência se contra-
endividamento, já que esses lucros, caso não sejam
poria ao benefício fiscal. Por essa teoria, vários testes
distribuídos, se tornam a melhor fonte de geração
foram realizados, na tentativa de se encontrarem pos-
de recursos. Assim, a STT prevê uma relação positiva
síveis determinantes da meta de endividamento.
entre lucratividade e endividamento, enquanto que
Titman & Wessels (1988) testaram diversas variáveis,
a POT prevê o contrário.
tais como lucratividade, benefícios fiscais, composição
dos ativos, oportunidades de crescimento, diferen- Quanto à tangibilidade dos ativos, espera-se que
ciação de produtos, segmento industrial, tamanho e empresas com ativos mais tangíveis apresentem maior
volatilidade dos lucros (risco). Como resultado, as nível de endividamento, devido à possibilidade de
variáveis não explicaram as estruturas escolhidas. Ape- estes ativos serem utilizados como garantia para
nas lucratividade e diferenciação explicaram baixos empréstimos. Logo, o sinal esperado para essa variável
níveis de endividamento. Também foi constatado que é positivo para a STT. Já para a POT, empresas com
empresas menores têm maior dificuldade em con- poucos ativos fixos teriam maiores problemas de

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ESTRUTURA DE CAPITAL NA AMÉRICA LATINA E NOS ESTADOS UNIDOS:
UMA ANÁLISE DE SEUS DETERMINANTES E EFEITO DOS SISTEMAS DE FINANCIAMENTO

assimetria de informações, levando-as a se endivi- aos efeitos de seleção adversa, devido às suas maiores
darem mais, já que a emissão de ações somente seria instalações. Entretanto, a assimetria de informações
possível com a subprecificação das mesmas. Já em- é menor para empresas maiores, induzindo-as a obter
presas com elevados valores nesta variável são maior endividamento.
geralmente maiores, que conseguem emitir ações a
Quanto ao risco, empresas que apresentam menor
preços justos, não necessitando recorrer à emissão
volatilidade em seus resultados deveriam ser menos
de dívidas para financiar seus investimentos. Assim,
propensas a dificuldades financeiras, o que tornaria
a relação esperada, segundo a POT, é negativa.
mais barato o custo do endividamento, e portanto, as
Sobre as oportunidades de crescimento, a tornariam mais propensas à contração de dívidas. Para
relação esperada pela STT é negativa, uma vez que Myers (1984), firmas com maior risco tenderiam a
níveis elevados de endividamento poderiam menores empréstimos, devido aos custos de falência
comprometer o crescimento futuro esperado. Para a inerentes ao negócio. O Quadro 1 resume a relação
POT, firmas com grandes oportunidades de cresci- de cada uma dessas variáveis com a estrutura de capital,
mento tenderiam a manter um nível de endivida- de acordo com a STT e a POT, e apresenta algumas
mento baixo para não prejudicarem sua capacidade evidências empíricas no Brasil e no mundo que a
de crédito. Entretanto, este crescimento requer inves- corrobora.
timentos que normalmente são feitos com contração
Entretanto, não só fatores microeconômicos,
de novas dívidas. Assim, as oportunidades de cres-
específicos de cada firma, influenciam a estrutura de
cimento, para a POT, poderiam ter uma relação posi-
capital. Demirgüç-Kunt & Maksimovic (1996) explora-
tiva ou negativa com o nível de endividamento.
ram empiricamente os efeitos do desenvolvimento
Sobre o tamanho, a STT define que, quanto maior dos mercados financeiros sobre as escolhas de
a empresa, maior a possibilidade de se endividar, pois financiamento das firmas. Eles compararam a relação
menor é a probabilidade de falência. Empresas maio- entre as escolhas de estrutura de capital da firma
res são mais diversificadas, com melhor reputação e com o desenvolvimento do mercado financeiro em
menores custos de assimetria de informações. Portan- cada país. Assim, a estrutura de capital é influenciada
to, há uma relação, segundo a STT, positiva entre o por fatores macroeconômicos, nível de desenvol-
tamanho da empresa e seu nível de endividamento. vimento dos mercados financeiros e fatores espe-
Já para a POT, quanto maior a empresa, mais sujeita cíficos a cada firma.

Quadro 1: Relação entre o endividamento e os determinantes de estrutura de capital segundo a Pecking Order
Theory (POT) e a Static Tradeoff Theory (STT)
Teoria STT POT
Variável Relação Autores Relação Autores
Myers (1984), Donaldson
Lucratividade Positiva Marsh (1982) Negativa (1961), Brealey & Myers
(2000), Myers & Majluf (1984),
Soares & Procianoy (2000)
Titman & Wessels (1988), Rajan Frank & Goyal
Tamanho Positiva & Zingales (1995), Gomes & Negativa (2003),
Leal (1999), Scott & Martin (1975) Myers (1984)
Oportunidade Kayo & Fama (1997), Gomes & Positiva
de Negativa Leal (1999), McConell & ou Brealey & Myers (2000)
crescimento Servaes (1990) negativa
Tangibilidade Positiva Lumby (1991), Thies & Klock Negativa Harris & Haviv (1991)
(1992), Rajan & Zingales (1995)
Drobetz & Fix (2003), Bradley, Donaldson (1961),
Risco Negativa Jarrel e Kim (1984), Long & Malitz Negativa Myers (1984)
(1983), Williamson (1981)

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Veronica Favato e Pablo Rogers

Zysman (1983) associou as escolhas de estrutura de um papel importante e as instituições financeiras ope-
capital das firmas aos sistemas de financiamento de cada ram como aliadas do governo como base para for-
país, elaborando três modelos de sistema financeiro. O mação de barganhas sociais. Este modelo está pre-
primeiro é baseado no mercado de capitais, ou seja, em sente na Alemanha, onde a estrutura patrimonial é
equity, uma vez que o sistema bancário não mantém bem mais concentrada do que nos Estados Unidos e
relação de prazo mais longo com as firmas e não atua no no Reino Unido (LOPEZ-DE-SILANES, 2002).
mercado de capitais, que é o lugar central de alavancagem
Na América Latina, a estrutura de financiamento
da empresa. Por intermédio dos empréstimos de curto
tem caráter incipiente, e seus mercados acionários e
prazo e dos mercados de capitais, os bancos e as
modelos de financiamento são baseados em crédito.
instituições financeiras administram portfolios se
Entretanto, há uma tentativa dos governos em pro-
relacionando com empresas. Visando ao retorno na forma
mover o mercado de capitais. Taxas de juros altas, a
de dividendos, o investidor trabalha com um horizonte
instabilidade financeira, o caráter pouco desenvolvido
de curto prazo, desenvolvendo o mercado secundário de
de suas fontes externas de financiamento, a crise
capitais, que permite um mecanismo de exit, ou fuga de
das instituições de crédito do Estado e a tentativa de
capitais rápida para investimentos de maior retorno
evitar dívidas externas levam estes países a buscar
(HIRSCHMAN, 1970). Mayer (1990) denominou esse modelo
fontes via equity (SINGH, 1993).
como “anglo-saxão”, em que a atuação do governo é
bastante limitada, uma vez que os benefícios e custos do Para Petrelli (1996), quando se analisa a capa-
financiamento são dados pelo mercado. Este modelo é cidade de resposta da estrutura de financiamento
baseado em uma estrutura de propriedade diluída, de um determinado país capitalista, não se pode dizer
havendo uma separação entre propriedade e gestão, além que apenas os bancos detêm uma posição funda-
de uma grande pressão dos mercados de capitais sobre a mental na determinação do crescimento econômico.
administração das empresas. É preciso considerar o conjunto da estrutura finan-
ceira, sendo “global”, ao fundir várias formas de
O segundo é baseado em crédito, de contexto riqueza que ultrapassam os limites nacionais.
favorável à atuação do governo, que pode intervir
por meio de políticas de concessão de crédito ou A visão de Zonenschain (1998) sobre crescimento
benefícios fiscais, e favorecer determinado setor ou insustentável destaca o papel vital dos governos no
empresas individuais. Nesse modelo, os credores ten- crescimento econômico, capazes de impulsionar setores
dem a reagir procurando a alternativa de voice (HIRS- industriais e manufatureiros através do crédito. Para
CHMAN, 1970), ou seja, aumentar o grau de controle
ele, a experiência asiática mostra que a intervenção do
e monitoramento dos administradores em uma governo na alocação de crédito pode ser impulsionadora
situação de dificuldade financeira da empresa. É um do processo de industrialização. A Coréia, por exemplo,
modelo comum na França e no Japão, onde ocorre atingiu um crescimento “milagroso”, caracterizado por
maior concentração da propriedade e uma baixa grande intervenção governamental na alocação do
liquidez do mercado de capitais. Os bancos desem- crédito e na promoção das exportações.
penham um papel importante no financiamento e no O governo também age no sentido de impulsionar
monitoramento das grandes empresas. No Japão, o o mercado acionário. O argumento de Singh (1993) é
banco que possui a maior participação acionária e o que, nos países em desenvolvimento, têm crescido o
maior montante de dívidas desenvolve uma relação mercado acionário, desde os anos 1980, relacionado
próxima com a alta administração da empresa. Em às políticas governamentais. A crise da dívida, as
muitos casos, as relações com os bancos acabam sendo privatizações, a procura das empresas públicas por
internas aos grandes conglomerados japoneses, capitais privados, as tendências à desregulamentação
denominados de keiretsu, sendo um grupo econômico e à globalização explicariam o empenho dos governos
associativo (HITT, IRELAND & HOSKISSON, 2001). em promover o desenvolvimento do mercado acionário.
O terceiro modelo também é baseado em crédito, Nesse ponto, permite-se o seguinte questionamento:
tendo as instituições financeiras grande poder de qual modelo de financiamento seria mais adequado?
mercado, podendo fixar preços e influenciar as em- Baseado no mercado de capitais ou em crédito?
presas através dos mercados. As finanças cumprem Segundo Zonenschain (1998), a “avaliação dos prós e

Gestão & Regionalidade - Vol. 24 - Nº 71 - edição especial - XI Semead 2008 - out/2008 35

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ESTRUTURA DE CAPITAL NA AMÉRICA LATINA E NOS ESTADOS UNIDOS:
UMA ANÁLISE DE SEUS DETERMINANTES E EFEITO DOS SISTEMAS DE FINANCIAMENTO

contras dos dois modelos não chega a ser conclusiva, neidade de moedas entre os diferentes países. O
principalmente porque o desempenho dos países que Quadro 2 resume as variáveis consideradas na pesquisa.
adotam cada um dos modelos não é uniforme ao longo
Depois de obtidas as variáveis da pesquisa para cada
do tempo”. Um exemplo é o caso dos países do Leste
empresa i no ano t, procedeu-se às médias do período
Asiático. Nestes países, o excesso de alavancagem
para serem usadas nos modelos. Como existem três
financeira, seguindo o modelo baseado em crédito,
proxies de endividamento, foram construídos três mo-
resultou em taxas de crescimento econômico elevadas
delos. Desse modo, os modelos finais a serem estimados
por muitos anos, e com isso promoveu-se um cresci-
para análise dos atributos influenciadores da estrutura
mento tecnológico e socioeconômico rápido. Entre-
de capital resumem-se nas equações 1 a 3.
tanto, o excesso de crédito também levou à instabilidade
financeira, resultando em uma crise, o que fez com
Quadro 2: Resumo das variáveis da pesquisa
que o próprio modelo fosse contestado.
Variável Descrição Conceitual

3. METODOLOGIA
Foram consideradas, no estudo, empresas de capital
aberto não-financeiras de cinco países: Argentina,
Brasil, Chile, México e Estados Unidos. Utilizaram-se
dados do período compreendido entre 1996 a 2005.
O ano de 1995 foi excluído da análise por menor volu-
me de dados no Economática®. Inicialmente, foram
consideradas 1.844 empresas, incluindo a Colômbia
e a Venezuela; entretanto, as empresas desses países
foram excluídas posteriormente por menor volume de
dados. Também foram excluídas da análise empresas
que não possuíam mais de quatro dados (anos) du-
rante o período considerado, restando, assim, 1.283
empresas. Na medida em que se foram construindo
as variáveis proxies da pesquisa, notou-se que muitas
informações não estavam disponíveis, principalmente
aquelas para a construção da proxy de risco, o que,
no final, fez com que ficassem apenas 769 empresas.
A amostra final, selecionada de acordo com a dispo-
nibilidade de informações no banco de dados utilizado,
contou com 35 empresas localizadas na Argentina,
154 empresas brasileiras, 87 no Chile, 59 no México
e 434 nos Estados Unidos.
As variáveis foram construídas por ano, conside-
rando sua posição no final do ano. Especificamente
em relação à variável risco, foram necessários dados
trimestrais para sua construção. Depois de construídas
as variáveis para, no mínimo, seis, dos dez anos estu-
dados, retirou-se a média dos valores, de forma a obter
dados cross-section no período 1996-2005. Todas as
informações foram extraídas dos balanços patrimo-
niais, demonstrações do resultado e demonstração de
origem e aplicação dos recursos apresentados pelas
empresas no encerramento do exercício. Os valores
foram considerados em dólar, para efeito de homoge-

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Veronica Favato e Pablo Rogers

Os três modelos foram estimados por Mínimos seção mostram as médias e os desvios padrão das
Quadrados Ordinários (MQO) com erros consistentes variáveis por países, e as do apêndice acrescentam as
à heteroscedasticidade, conforme White. Os sinais estatísticas de mediana, máximo e mínimo, entretanto
esperados de cada coeficiente βk ão discutidos na agregadas para a América Latina e os EUA. A diferença
revisão da literatura e resumidos no Quadro 1. Na da Tabela 1 para a Tabela 2 e da Tabela 4 para a 5, é
análise, fez-se uso simultaneamente dos softwares que, nas últimas, são apresentadas as estatísticas sem
Eviews 5.0 e SPSS 13.0. outliers. Procedeu-se, depois de retiradas as médias das
variáveis no período, à padronização pelo z-escore, e
4. RESULTADOS foram encontradas 29 empresas discrepantes (acima
de 3 e abaixo de -3 z-escore), que estavam afetando
As Tabelas 1 e 2, nessa seção, e as Tabelas 4 e 5, no consideravelmente a amostra. Como exemplo, cita-se
apêndice, procuram evidenciar algumas estatísticas o caso da Argentina: uma única empresa retirada baixou
descritivas das variáveis em análise. As tabelas dessa a média da variável END1 de 2,22 para 1,3, e o desvio

Tabela 1: Média e desvio padrão das variáveis do estudo por países (c/ outliers)
PAÍS (N)
Argentina (35) Brasil (154) Chile (87) México (59) EUA (434) Total (769)
Média Desvio Média Desvio Média Desvio Média Desvio Média Desvio Média Desvio
padrão padrão padrão padrão padrão padrão

END1 2,22 5,86 3,85 11,69 0,88 0,78 1,20 1,19 1,84 6,12 2,10 7,14
END2 0,43 0,50 0,52 1,74 0,28 0,33 0,43 0,70 0,45 0,68 0,44 0,96
END3 0,51 0,18 0,63 0,20 0,38 0,17 0,49 0,19 0,33 0,18 0,42 0,22
RISCO 0,03 0,02 0,03 0,02 0,03 0,03 0,03 0,01 0,04 0,03 0,04 0,03
LUCRAT 0,11 0,07 0,11 0,07 0,10 0,11 0,12 0,06 0,11 0,12 0,11 0,10
TAM 12,64 1,70 12,97 1,73 12,22 1,64 13,38 1,52 15,03 1,42 14,06 1,90
OPCRESC 1,02 0,27 1,09 0,85 2,26 9,46 35,71 265,51 2,26 1,54 4,54 73,60
TANG 0,53 0,25 0,42 0,20 0,53 0,18 0,48 0,19 0,34 0,23 0,40 0,23

Tabela 2: Média e desvio padrão das variáveis do estudo por países (s/ outliers)
PAÍS (N)
Argentina (34) Brasil (147) Chile (86) México (56) EUA (417) Total (740)
Média Desvio Média Desvio Média Desvio Média Desvio Média Desvio Média Desvio
padrão padrão padrão padrão padrão padrão

END1 1,30 2,20 1,88 2,67 0,91 0,72 1,20 1,01 1,48 1,72 1,46 1,87
END2 0,44 0,51 0,49 0,43 0,31 0,23 0,43 0,38 0,41 0,31 0,42 0,35
END3 0,50 0,17 0,62 0,19 0,38 0,18 0,49 0,18 0,33 0,18 0,41 0,21
RISCO 0,03 0,02 0,03 0,02 0,03 0,01 0,03 0,01 0,04 0,02 0,04 0,02
LUCRAT 0,11 0,07 0,11 0,07 0,11 0,06 0,12 0,06 0,13 0,07 0,12 0,07
TAM 12,69 1,69 13,01 1,73 12,25 1,63 13,39 1,54 15,07 1,33 14,10 1,87
OPCRESC 1,02 0,28 1,09 0,86 1,24 0,43 1,13 0,36 2,17 1,34 1,72 1,21
TANG 0,53 0,26 0,42 0,20 0,53 0,18 0,48 0,20 0,35 0,23 0,41 0,23

Gestão & Regionalidade - Vol. 24 - Nº 71 - edição especial - XI Semead 2008 - out/2008 37

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ESTRUTURA DE CAPITAL NA AMÉRICA LATINA E NOS ESTADOS UNIDOS:
UMA ANÁLISE DE SEUS DETERMINANTES E EFEITO DOS SISTEMAS DE FINANCIAMENTO

padrão de 5,86 para 2,20 (Tabelas 1 e 2). As variáveis 20,6% e 51,2%, respectivamente para o MOD1,
mais afetadas com as informações discrepantes foram MOD2 e MOD3), dado ser uma amostra cross-section.
END1 e OPCRESC: sendo em relação à primeira a Apesar de o teste K-S rejeitar a hipótese de norma-
Argentina e o Brasil os países mais afetados, e em lidade dos resíduos nos MOD1 e MOD2, o tamanho
relação à segunda o México. Nos EUA, houve o maior da amostra é assintoticamente grande para se firmar
número de empresas outliers (17). Devido à significativa no teorema do limite central. Observa-se, ainda, que
influência dos outliers, analisam-se descritivamente as apenas nos MOD2 e MOD3 as equações foram esti-
variáveis de endividamento apenas das Tabelas 2 e 5. madas com uma constante, pois, no MOD1, a cons-
tante não se mostrou significativa.
As médias das variáveis de endividamento da
Tabela 2 evidenciam, de uma forma geral, que o Brasil Como esperado, as variáveis dummy de controle
é o país com maior índice de endividamento, seguido SETOR mostraram-se significativas. Por simplificação,
por Argentina e México na América Latina. No conti- na Tabela 3 apresenta-se apenas o somatório dos
nente latino-americano, o Chile é o país com menor coeficientes. O teste Wald da hipótese de que, no
índice de endividamento, sendo que, em relação à conjunto, as variáveis dummy SETOR são iguais à zero
variável END3, torna-se comparável ao EUA. Apenas mostrou-se significativo em nível de 1% em todos
em relação à variável END1 os EUA apresentam alta os modelos. Além das variáveis dummy SETOR, saltam
participação de terceiros: em relação a essa variável, aos olhos, em todos os modelos, as significâncias
os EUA fica abaixo somente do Brasil. Quando se das variáveis RISCO e TAM. Sobre a primeira variável,
considera a variável END3, os EUA apresentam o me- a relação negativa encontrada com as variáveis de
nor índice de endividamento, seguidos por Chile, Mé- endividamento corrobora as hipóteses tanto da STT
xico/Argentina e Brasil. A explicação mais contunden- quanto da POT. Segundo essas teorias, empresas que
te dos menores valores da variável END3 para o Chile apresentam menor volatilidade em seus resultados
e os EUA são os altos valores de mercado das em- devem ser menos propensas a dificuldades finan-
presas no período em análise, principalmente devido ceiras, o que torna mais barato o custo do endivida-
à melhor performance econômica desses países. mento, e, portanto, mais propensas à contração de
Quando se comparam apenas a América Latina e dívidas: firmas com maior risco tendem a menores
os EUA (Tabela 5), nota-se que, em relação as variáveis empréstimos, devido aos custos de falência inerentes
de endividamento, (a) a média e mediana da variável ao negócio. Esse achado também foi corroborado
END1 dos EUA é ligeiramente maior que da América por Titman & Wessels (1988), Bradley, Jarrel & Kim
Latina, entretanto os EUA possuem desvio padrão e (1984) e Thies & Klock (1992).
amplitude menor; (b) as médias da variável END2 e
A variável TAM, em todos os modelos, apresentou-
END3 da América Latina são maiores do que dos EUA.
se significativa e com relação positiva com o nível de
Sobre as outras variáveis, identifica-se, em relação às
endividamento. Esse achado corrobora a hipótese da
médias e medianas, que as empresas norte-americanas
STT de que, quanto maior a empresa, maior a possibi-
possuem maior risco, lucratividade, tamanho, oportu-
lidade de se endividar, pois menor a probabilidade
nidades de crescimento e menor tangibilidade.
de falência. Segundo a STT, empresas maiores são
A Tabela 3 apresenta os modelos estimados a mais diversificadas, com melhor reputação e menores
partir das equações 1, 2 e 3. Inicialmente, foram con- custos de assimetria de informações; portanto, há
sideradas todas as 769 empresas; entretanto, depois uma relação positiva entre o tamanho da empresa e
de se analisarem os resíduos padronizados numa pri- seu nível de endividamento. Cabe ressaltar que essa
meira estimação, notou-se que havia algumas em- variável, em todos os modelos, foi a única que
presas discrepantes. Desse modo, o MOD1 foi esti- apresentou alto valor para o fator inflação da variância
mado como 743 empresas; o MOD2, com 748; e o (VIF), superando o valor limite de 10. À primeira vista,
MOD3, com 765 empresas. Analisando-se as estatís- indica-se que a variável TAM possui colinearidade alta
ticas de equação global, conclui-se pelo bom ajuste com as demais; entretanto, esse fato parece não ser
dos modelos: estatística F de significância conjunta problemático, uma vez que a mesma não apresentou
de todos os coeficientes mostrou-se muito signifi- erro padrão alto (GUJARATI, 2000: 334). A análise dos
cativa (1%) e o R2 ajustado valores altos (55,5%, coeficientes padronizados (DFBeta) dessa variável

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Veronica Favato e Pablo Rogers

Tabela 3: Modelos considerando cada variável de endividamento do estudo


Modelo Variável
Dependente independente Coeficiente DFBeta Erro Padrão t-Estatístico VIF
PAIS -0,214*** -0,085 0,128 -1,887 4,315
MOD1 RISCO -7,518* -0,185 1,860 -4,006 3,260
LUCRAT -0,755 -0,061 0,614 -1,203 2,660
N = 743 END1 TAM 0,178* 1,340 0,024 7,465 32,134
Adj. R2 = 0,555 OPCRESC 0,000 -0,006 0,000 -0,963 1,037
F = 41,23* TANG -0,526*** -0,128 0,325 -1,729 9,906
K-S = 4,354* ΣSETOR -9,173* – – 48,638♣ –
(constante) 0,352* – 0,107 3,270 –
MOD2 PAIS -0,172* -0,314 0,026 -6,386 2,216
RISCO -0,332 -0,032 0,400 -0,829 1,240
N = 748 END2 LUCRAT 0,035 0,013 0,098 0,360 1,157
Adj. R2 = 0,206 TAM 0,035* 0,244 0,006 5,228 1,935
F = 9,42* OPCRESC 0,000* 0,015 0,000 2,949 1,035
K-S = 2,616* TANG -0,320* -0,270 0,064 -4,927 2,531
ΣSETOR -4,001* – – 124,061♣ –
END3 (constante) 0,617* – 0,067 9,081 –
MOD3 PAIS -0,179* -0,404 0,016 -10,819 2,207
RISCO -2,815* -0,352 0,280 -10,039 1,272
N = 765 LUCRAT -0,640* -0,299 0,060 -10,530 1,190
Adj. R2 = 0,512 TAM 0,013* 0,113 0,004 3,042 1,942
F = 35,81* OPCRESC -0,000* -0,045 0,000 -10,968 1,033
K-S = 0,908 TANG 0,065 0,067 0,041 1,541 2,471
ΣSETOR -2,440* – – 167,843♣ –
Significância: * 1%; **2%; ***10%.
♣ Teste Wald da hipótese de que as variáveis dummy SETOR são, no conjunto, igual a zero, baseado na estatística Qui-quadrado. O coeficiente apresentado na
tabela evidencia a soma das estimativas de cada variável dummy.
Nota: em todos os modelos, foram estimados erros padrão consistentes à heteroscedasticidade, conforme White. A coluna DFBeta apresenta os coeficientes
padronizados das variáveis independentes. No modelo 1 (MOD1), a constante foi eliminada devido à sua insignificância. N representa o tamanho da amostra
depois de ajustada pelos outliers; Adj. R2 representa o coeficiente de determinação ajustado dos modelos, e a estatística F testa a significância conjunta do
modelo. K-S representa o teste Kolmogorov-Sminorv de normalidade dos resíduos (a hipótese nula é de que os resíduos provenham de uma população normal).
VIF indica o fator inflação da variância (medida para detectar colinearidade entre as variáveis).

Tabela 4: Estatísticas descritivas das variáveis do estudo – EUA e América Latina (c/ outliers)
América Latina (335) EUA (434) Total (769)
Desvio Desvio Mediana
Média Mediana padrão Máximo Mínimo Média Mediana padrão Máximo Mínimo Média padrão Desvio Máximo Mínimo

END1 2,44 1,03 8,27 97,28 -4,47 1,84 1,19 6,12 116,72 -6,68 2,10 1,11 7,14 116,72 -6,68
END2 0,43 0,36 1,24 17,36 -11,30 0,45 0,35 0,68 11,36 0,01 0,44 0,35 0,96 17,36 -11,30
END3 0,53 0,51 0,21 1,00 0,03 0,33 0,30 0,18 0,90 0,02 0,42 0,40 0,22 1,00 0,02
RISCO 0,03 0,03 0,02 0,27 0,00 0,04 0,03 0,03 0,31 0,00 0,04 0,03 0,03 0,31 0,00
LUCRAT 0,11 0,11 0,08 0,32 -0,75 0,11 0,12 0,12 0,41 -0,80 0,11 0,12 0,10 0,41 -0,80
TAM 12,81 12,82 1,71 17,79 9,05 15,03 14,92 1,42 19,96 11,02 14,06 14,23 1,90 19,96 9,05
OPCRESC 7,48 1,01 111,522.040,54 0,15 2,26 1,71 1,54 11,52 0,99 4,54 1,35 73,60 2.040,54 0,15
TANG 0,47 0,49 0,21 0,92 0,00 0,34 0,29 0,23 0,91 0,00 0,40 0,39 0,23 0,92 0,00

Tabela 5: Estatísticas descritivas das variáveis do estudo – EUA e América Latina (s/ outliers)
América Latina (323) EUA (417) Total (740)
Desvio Desvio Mediana
Média Mediana padrão Máximo Mínimo Média Mediana padrão Máximo Mínimo Média padrão Desvio Máximo Mínimo

END1 1,44 1,01 2,05 21,49 -4,47 1,48 1,19 1,72 16,54 -6,68 1,46 1,10 1,87 21,49 -6,68
END2 0,43 0,35 0,39 2,42 -1,39 0,41 0,35 0,31 2,84 0,01 0,42 0,35 0,35 2,84 -1,39
END3 0,52 0,51 0,21 1,00 0,03 0,33 0,31 0,18 0,90 0,02 0,41 0,40 0,21 1,00 0,02
RISCO 0,03 0,03 0,02 0,08 0,00 0,04 0,03 0,02 0,11 0,00 0,04 0,03 0,02 0,11 0,00
LUCRAT 0,11 0,11 0,06 0,32 -0,09 0,13 0,12 0,07 0,34 -0,18 0,12 0,12 0,07 0,34 -0,18
TAM 12,84 12,84 1,71 17,79 9,05 15,07 14,95 1,33 18,76 12,04 14,10 14,31 1,87 18,76 9,05
OPCRESC 1,13 1,01 0,65 7,85 0,15 2,17 1,70 1,34 9,65 0,99 1,72 1,35 1,21 9,65 0,15
TANG 0,47 0,50 0,21 0,92 0,00 0,35 0,29 0,23 0,91 0,00 0,41 0,39 0,23 0,92 0,00

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ESTRUTURA DE CAPITAL NA AMÉRICA LATINA E NOS ESTADOS UNIDOS:
UMA ANÁLISE DE SEUS DETERMINANTES E EFEITO DOS SISTEMAS DE FINANCIAMENTO

evidencia um outro achado interessante, também significativa nos MOD2 e MOD3. Entretanto, a
corroborado por Perobelli & Famá (2003): empresas despeito da significância estatística da variável
maiores privilegiam o endividamento de longo prazo, OPCRESC, essa parece não ter significância econômica.
empresas menores utilizam mais o endividamento Quando se analisa o modelo com a variável de
de curto prazo, provavelmente por não obterem endividamento teoricamente mais correta, END3, por
taxas atrativas no primeiro mercado. levar em consideração os valores de mercado,
encontra-se uma relação negativa, corroborando uma
A proxy do atributo tangibilidade do ativo (TANG)
das hipóteses da POT. Para a POT, firmas com grandes
foi significativa, em nível de 1%, quando se relaciona
oportunidades de crescimento tenderiam a manter
com a variável de endividamento de curto prazo
um nível de endividamento baixo para não prejudicar
(END2). Entretanto, quando a TANG se relaciona com
sua capacidade de crédito. Entretanto, quando se
as variáveis de endividamento de longo prazo (END1
examina o modelo com a variável de endividamento
e END3), não mostra muito significativa: apenas signi-
de curto prazo (END2), a relação mostra-se positiva,
ficativa em nível de 10% no MOD1. Os resultados
também confirmando uma das hipóteses da POT, que
indicam que a tangibilidade dos ativos parece não
o crescimento requer investimentos que normalmente
afetar o nível de endividamento de longo prazo. Logo,
são feitos com contração de novas dívidas. Cabe
a possibilidade de os ativos serem utilizados como
ressaltar que Perobelli & Famá (2003), corroborando
garantia para empréstimos ou o fato de empresas
os resultados encontrados, encontraram evidências
com poucos ativos fixos terem maiores problemas
de que empresas com maior potencial de crescimento
de assimetria de informações, parece afetar apenas
apresentam menor propensão ao endividamento de
o nível de endividamento de curto prazo das empre-
curto prazo.
sas latino-americanas e norte-americanas. A despeito
dessa evidência empírica, ressalta-se uma importante Por fim, a significância da variável dummy de
observação: a variável TANG pode estar sofrendo controle PAIS em todos os modelos (significativa em
colinearidade com as variáveis dummy SETOR, uma 10% no MOD1) evidencia o impacto dos sistemas de
vez que as mesmas buscam captar efeitos seme- financiamento sobre a estrutura de capital das em-
lhantes. Dessa feita, pode-se dizer que não há evidên- presas. Ademais, o coeficiente negativo dessa variável
cia suficiente para rejeitar que a tangibilidade dos revela o menor endividamento das empresas norte-
ativos também não afeta o nível de endividamento americanas, de forma a comprovar que o sistema
de longo prazo, uma vez que a variável dummy SETOR financeiro dos Estados Unidos é baseado em equity e
pretende captar várias características estruturais da o dos países da América Latina, baseado em debt.
empresa, tais como barreiras à entrada de novos con- Adicionalmente, o exame dos coeficientes padro-
correntes, condições de mercado e composição dos nizados traz resultados interessantes. Desconsiderando
ativos, inclusive tangibilidade (JORGE & ARMADA, 1999). a variável TAM do MOD1, por suspeita de alta
colinearidade com as demais, e considerando o
Em relação à variável LUCRAT, os resultados foram
modelo MOD3 em vez do MOD2, por relacionar a
significativos apenas quando se considera o nível de
variável de endividamento de longo prazo teorica-
endividamento a valores de mercado (END3). Esse
mente mais correta (valores de mercado), nota-se que
achado corrobora as hipóteses da POT: maiores lucros
o impacto do sistema financeiro (PAIS) parece ser o
levam à diminuição do endividamento, já que esses
principal determinante da estrutura de capital das
lucros, caso não sejam distribuídos, se tornam a melhor
empresas: os DFBetas da variável PAIS são, em valores
fonte de geração de recursos. Booth et al. (2001)
absolutos, maiores que os demais tanto no MOD2
ressaltaram que a importância da lucratividade está
quanto no MOD3. As diferenças do sistema de finan-
relacionada com problemas de agência e assimetria
ciamento entre os países parecem impactar mais o
informacional dos países em desenvolvimento, bem
endividamento de longo prazo do que de curto prazo.
como ao fato de seus mercados de capitais não serem
Além do mais, fatores microeconômicos, como ta-
tão desenvolvidos como nos EUA.
manho e tangibilidade, aparentam afetar mais o
Sobre as oportunidades de crescimento endividamento de curto prazo, e o risco do negócio e
(OPCRESC), não houve conclusão contundente. Essa a lucratividade da empresa, afetar mais o endivi-
variável não foi significativa no MOD1, porém damento de longo prazo.

40 Gestão & Regionalidade - Vol. 24 - Nº 71 - edição especial - XI Semead 2008 - out/2008

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Veronica Favato e Pablo Rogers

5. CONCLUSÃO Pela metodologia empregada, foi possível corroborar


algumas hipóteses das teorias enfatizadas, tais como:
A despeito da controvérsia entre o Modelo Tradi- (a) relação negativa entre o nível de endividamento e o
cional e o Modelo de Modigliani & Miller (MM) sobre risco do negócio, como apregoam a STT e a POT; (b)
uma estrutura ótima de capital, a Pecking Order relação positiva entre o tamanho da empresa e o nível
Theory (POT) e a Static Tradeoff Theory (STT) discutem de endividamento, como prevê a STT; (c) quando se
que as decisões de financiamento das empresas confronta a tangibilidade dos ativos com a variável de
derivam dos impactos que alguns atributos teóricos endividamento de curto prazo, nota-se uma relação
exercem sobre os custos e benefícios associados à negativa, como discute a POT; (d) sobre a relação entre
emissão de ações ou de dívida. Desse modo, a POT e a proxy de lucratividade e o nível de endividamento,
a STT sugerem que não haveria uma estrutura de considerando valores de mercado, foi possível constatar
capital ótima, mas uma estrutura de capital mais apro- um relacionamento inverso, como estima a POT; (e)
priada a cada perfil de empresa. Além do mais, a apesar de pouca significância econômica, constatou-se
teoria e algumas pesquisas empíricas comprovam que significância estatística da proxy de oportunidades de
existem fatores indutores do endividamento, ineren- crescimento em explicar o nível de endividamento, como
tes às especificidades históricas e macroeconômicas apregoam a STT e a POT.
de cada país, condicionados a modelos de finan-
ciamento particulares: baseados em crédito ou no Por fim, os resultados indicaram que o impacto
mercado de capitais. de fatores indutores do endividamento inerentes às
especificidades de cada país, condicionados diante
Sobre esses aspectos, esse artigo teve como de diferentes modelos de financiamento, parece ser
objetivo, em nível microeconômico, analisar como o principal determinante da estrutura de capital das
atributos importantes discutidos pela STT e pela POT empresas na América Latina e nos EUA. Adicional-
– tamanho da empresa, oportunidades de cres- mente, discute-se que as diferenças do sistema de
cimento do negócio, tangibilidade dos ativos, lucra- financiamento entre os países parecem impactar mais
tividade e riscos envolvidos – afetam a estrutura de o endividamento de longo prazo do que de curto
capital das empresas na América Latina e nos EUA. prazo, e os fatores microeconômicos, tamanho e
Adicionalmente, em nível macroeconômico, buscou- tangibilidade, aparentam afetar mais o endividamento
se discutir a influência dos sistemas de financiamento de curto prazo, e o risco do negócio e a lucratividade
(equity X debt) sobre a estrutura de capital das em- da empresa, afetar mais o endividamento de longo
presas latinas e norte-americanas. prazo.

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ESTRUTURA DE CAPITAL NA AMÉRICA LATINA E NOS ESTADOS UNIDOS:
UMA ANÁLISE DE SEUS DETERMINANTES E EFEITO DOS SISTEMAS DE FINANCIAMENTO

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A INFLUÊNCIA DO AMBIENTE COMPETITIVO NAS ESTRATÉGIAS
DAS SUBSIDIÁRIAS ESTRANGEIRAS DE MULTINACIONAIS BRASILEIRAS

A INFLUÊNCIA DO AMBIENTE COMPETITIVO NAS ESTRATÉGIAS DAS


SUBSIDIÁRIAS ESTRANGEIRAS DE MULTINACIONAIS BRASILEIRAS
THE INFLUENCE OF COMPETITIVE ENVIRONMENT ON STRATEGIES
OF FOREIGN SUBSIDIARIES OF BRAZILIAN MULTINATIONAL COMPANIES
Felipe Mendes Borini Recebido em: 07/07/2008
Aprovado em: 15/10/2008
Professor da ESPM - Escola Superior de Propaganda e Marketing
Edson Renel da Costa Filho
Graduando em Relações Internacionais pela USP
Moacir de Miranda Oliveira Júnior
Professor da FEA/USP - Faculdade de Economia e Administração da Universidade de São Paulo

RESUMO ABSTRACT
O problema a ser tratado no artigo é “como as sub- The problem being addressed in this article is “how
sidiárias estrangeiras de empresas multinacionais foreign subsidiaries of Brazilian multinational
brasileiras avaliam o ambiente externo nos países companies assess the external environment
em que atuam?” Além disso, qual a influência do abroad?” Which is the influence of the competitive
ambiente competitivo na criação de valor das sub- environment in the creation of value of the subsi-
sidiárias de multinacionais brasileiras? O objetivo é diaries of Brazilian multinational companies?The
diagnosticar os atributos da perspectiva ambiental, goal is to diagnose the attributes of the environ-
identificar quais são importantes e sugerir estratégias mental perspective, identify which are important
para as empresas. Foram analisadas por survey 66 and suggest strategies. It was analyzed by survey
subsidiárias em 22 países, divididos entre membros 66 subsidiaries in 22 countries, divided between
da OCDE (42%) e, posteriormente, regionais (45%). OECD members (42%), and regional (45%). The
O Modelo Diamante, de Porter, e a Teoria das Multi- Diamante Model of Porter and the Theory of Mul-
nacionais Regionais, de Rugman, foram usados co- tinational Regional RUGMAN were used as theo-
mo referencial teórico. As inferências estatísticas em- retical reference. The statistical inferences confirmed
basaram os seguintes resultados: existe uma avalia- the following results. There is an evaluation diffe-
ção diferenciada e mais positiva do ambiente com- rentiated and more positive of the competitive
petitivo para as subsidiárias localizadas em países environment for the subsidiary geographically
da OCDE e em países distantes geograficamente located in countries of the OECD and in distant
do Brasil; existe associação entre o ambiente externo countries of Brazil There is association between the
e a criação de valor no exterior, sendo que o dos external environment and value creation abroad,
países-membros da OCDE é mais forte e positivo and the one from OECD member countries is eva-
para as competências de inovação (P&D), ao passo luated as stronger and more positive for innovation
que o ambiente externo de subsidiárias regionais (R&D). While the external environment of regional
ou em países não-membros da OCDE é mais fraco, subsidiaries or in non-OECD countries is weaker,
o que não sustenta a formação de criação de valor. what does not sustain the FSA obtaining abroad.
Palavras-chave: ambiente competitivo, estratégias Keywords: competitive environment, regionali-
de regionalização, subsidiárias de empresas mul- zation strategies, subsidiaries of multinational
tinacionais. companies.

Endereços dos autores:

Felipe Mendes Borini


Rua Quintana, 311 - CEP 04569-010 - São Paulo-SP - e-mail: fborini@globo.com
Edson Renel da Costa Filho
Av. Prof. Luciano Gualberto, 908, sala E 116 - Cidade Universitária - CEP 05508-010 - São Paulo-SP - e-mail: edsonrenel@yahoo.com.br
Moacir de Miranda Oliveira Júnior
Av. Prof. Luciano Gualberto, 908, sala E 116 - Cidade Universitária - CEP 05508-010 - São Paulo-SP - e-mail: mirandaoliveira@usp.br

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Felipe Mendes Borini, Edson Renel da Costa Filho e Moacir de Miranda Oliveira Júnior

1. INTRODUÇÃO Para trabalhar o problema, seguem as seções de


revisão da literatura, em que vai ser explicada breve-
No contexto do pós-guerra, as economias do
mente a Teoria do Diamante da Vantagem Competi-
Terceiro Mundo costumavam criar barreiras para o
tiva Nacional (PORTER, 1990), o Triângulo AAA (GHEMA-
fluxo de produtos e serviços estrangeiros, o que gerava
WAT, 2007) e Teoria das Multinacionais Regionais, de
mercados em diferentes níveis de tecnologia e
Rugman (2004).
competitividade. Em decorrência, as multinacionais dos
países desenvolvidos encontraram na instalação de
filiais locais uma estratégia para acessar tais mercados 2. REVISÃO DA LITERATURA
pouco permeáveis, variando a tipologia conforme o
grau de defasagem. Logo, o modelo geral de uma Lacerda (2000) entendeu que o processo de inter-
multinacional previa a concentração de P&D1 na matriz nacionalização das empresas brasileiras resulta tam-
e uma comunicação vertical e praticamente unidire- bém das medidas liberalizantes adotadas desde o
cional com suas filiais, reprodutoras locais de bens já Presidente Collor. O argumento defende que, ao se
maduros no Primeiro Mundo. Tal heterogeneidade expor as companhias brasileiras à competição inter-
conferia uma estratégia predominantemente multi- nacional, são desenvolvidas competências estraté-
doméstica (BARTLETT & GHOSHAL, 1992; CHESNAIS, 1992). gicas e inovações tecnológicas de nível internacional
(ARRUDA, GOULART & BRASIL, 1996). Com vantagens
Com a crise do petróleo, o Plano Marshall e a as- competitivas amadurecidas, estas impulsionaram sua
censão do Japão, o modelo multidoméstico enfra- internacionalização por possíveis ganhos de escala,
queceu. Novas mudanças tecnológicas e políticas de novas competências, de acesso a recursos em ou-
posteriores recrudesceram a competição internacional, tras redes de negócios (OLIVEIRA JÚNIOR. & CYRINO, 2003)
facilitando a abertura comercial e o surgimento de novos e de superação de barreiras comerciais e técnicas
centros comerciais. Conseguintemente, o modelo (BCG, 2007). Ou, mesmo, um passo na evolução das
multidoméstico se tornava ainda mais obsoleto, e as empresas, ainda que de decisão tardia e ágil, aprovei-
empresas o substituíram, revendo o papel de suas sub- tando oportunidades e variando de ordem estraté-
sidiárias. Por intermédio de canais multidirecionais, estas gica, de mercado e financeira (FLEURY et al., 2007).
passaram a operar como scanning units (PORTER, 1990),
unidades de acesso ao fluxo de conhecimento tácito e Apesar das outras temáticas, é focalizado o estí-
ao desenvolvimento tecnológico locais. mulo advindo do conjunto de capacidades residentes
no mercado de destino (KOGUT & ANAND, 1997; FROST,
Esse fenômeno trouxe um novo desafio: identi- BIRKINSHAW & ENSIGN, 2002; FROST, 2001). Identificar e
ficar, desenvolver e administrar efetivamente ganhos assimilar recursos externos obtidos pela internacio-
no ambiente externo das subsidiárias e levá-los para nalização também constituem uma questão crítica
a corporação (FROST, BIRKINSHAW & ENSIGN, 2002), o para pesquisadores, sendo uma fronteira identificar
que não é diferente para as multinacionais dos países como as estratégias, as capacidades e os compor-
emergentes, cuja internacionalização visa a explorar tamentos da firma são moldados pelo contexto ins-
e aprender novos recursos e métodos (MATHEWS, titucional em que se opera (FROST, 2001).
2006). Embora sejam estudados outros países, esse
artigo focaliza o desafio sob a perspectiva das mul-
2.1. A perspectiva ambiental
tinacionais brasileiras, analisando que características
do ambiente externo são importantes e quais as suas A perspectiva ambiental (BIRKINSHAW, HOOD & JONSSON,
conseqüências para a atuação da subsidiária. 1998; BIRKINSHAW, HOOD, 1998) defende que o dinamismo
Portanto, o problema a ser tratado nessa pesquisa local propicia uma oportunidade latente para a
insere-se em duas questões: como as subsidiárias multinacional assimilar os benefícios do aprendizado e
estrangeiras de empresas multinacionais brasileiras do conhecimento autóctone. É comumente aceito que
avaliam o ambiente competitivo nos países em que atuam seu desenvolvimento é contigenciado por sua habilidade
e qual a influência do ambiente competitivo na criação de obter recursos de seu ambiente (ANDERSSON, FORSGREN
de valor das subsidiárias de multinacionais brasileiras. & HOLM, 2002; FROST, 2001), principalmente se essa
acessar o fluxo de conhecimento tácito em redes de
1
Pesquisa e desenvolvimento. negócios (FROST, BIRKINSHAW & ENSIGN, 2002).

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A INFLUÊNCIA DO AMBIENTE COMPETITIVO NAS ESTRATÉGIAS
DAS SUBSIDIÁRIAS ESTRANGEIRAS DE MULTINACIONAIS BRASILEIRAS

Além da perspectiva ambiental, a literatura con- percebam com antecedência as necessidades dos
sidera outras duas para a formatação da subsidiária compradores; o que dinamiza e acelera as atividades
(BIRKINSAW, HOOD & JONSSON, 1998; BIRKINSHAW & HOOD, de inovação. O importante é determinar a natureza
1998): uma determinada pela tipologia que a matriz dos compradores domésticos. Se as exigências inter-
desenvolve na corporação, é chamada de “poder da nas são altas e se elas são semelhantes às internacionais,
matriz” (BARTLETT & GOSHAL 1992; FROST, BIRKINSHAW & o país está mais propenso a ser competitivo internacio-
ENSIGN, 2002; NOHRIA & GOSHAL, 1997); outra, emba- nalmente. Logo, a demanda interna afeta o modo
sada na liderança e no empreendedorismo durante como as empresas percebem, interpretam e respondem
o próprio processo de aprendizado e propagação de às necessidades, possibilitando desenvolver-se mais
competências, é chamada de “iniciativa da subsi- rapidamente e com características diferenciadas.
diária” (BIRKINSHAW, HOOD & JONSSON, 1998).
Por seu turno, o terceiro atributo corresponde à
presença de “setores correlatos e de apoio” no país.
2.2. A perspectiva ambiental e o Modelo Diamante Fornecedores mais bem qualificados e inseridos den-
Trabalhos importantes na área de negócios inter- tro de uma competição internacional fornecem insu-
nacionais (FROST, BIRKINSHAW & ENSIGN, 2002; BIRKINSHAW, mos com menor custo, maior rapidez e de forma
HOOD & JONSSON, 1998; ROTH & MORRISON, 1992) opta- preferencial, assim como ensejam uma interação
ram por decompor essa variável segundo as caracte- mutuamente vantajosa e auto-revigorante, pois a pro-
rísticas abordadas pelo “Modelo Diamante da Van- ximidade promove um fluxo de conhecimento tácito
tagem Nacional” (PORTER, 1990) para representar a e um constante intercâmbio de idéias e inovações.
influência do contexto competitivo e institucional nas As empresas no país auferirão, pois, maiores
estratégias das subsidiárias estrangeiras. benefícios quando forem providas por setores fortes
e competentes.
Consagrando seu trabalho para avaliar porque
determinados países reúnem atributos, que, isolados e O último atributo é a “estratégia, estrutura e rivalidade
sistematicamente, permitem a construção da vantagem das empresas”. A competitividade existente dentro de
nacional sustentada na inovação constante e na um determinado setor de um país depende tanto das
competição empresarial, Porter (1990) defendeu que a práticas gerenciais e dos modelos organizacionais
inovação e a competição são estimuladas por uma base adotados como dos objetivos das empresas, da qualidade
doméstica constituída de quatro elementos – condições e do comprometimento da força de trabalho, além da
dos fatores; condições da demanda; setores correlatos presença de rivais poderosos. A presença de rivais locais
e de apoio; e estratégia, estrutura e rivalidade das poderosos é um último e poderoso estímulo à criação e
empresas –, organizados nas quatro arestas do que à preservação da vantagem competitiva, pois desperta
Porter chamou de “diamante da vantagem nacional”. maior agressividade e inovação. Logo, a circunstância e
O primeiro atributo do diamante se refere às “con- o contexto nacionais têm forte influência no desempenho
dições de fatores”, ou seja, à posição do país quanto da subsidiária.
aos fatores de produção, como mão-de-obra qualificada O que significa dizer que esses quatro atributos,
e infra-estrutura. Consideram-se de maior valor quando presentes e articulados, garantem a cons-
estratégico fatores que envolvem investimentos vulto- trução de um ambiente competitivo e institucional
sos e exigem especialização, isto é, elementos escassos, apropriado para a criação de valor das empresas. Sub-
de difícil imitação e que exigem investimentos sustentados sidiárias estrangeiras migram em busca desses dia-
para sua criação. Por isso, sua capacidade é criada, mantes a fim de auferir maior grau de valor nas suas
sobretudo, construída para converter circunstâncias operações no exterior e internalizar esse valor na sua
desfavoráveis em vantagem competitiva. Dessa maneira, cadeia produtiva mundial (FROST, BIRKINSHAW & ENSIGN,
opta-se por considerar essa primeira subdivisão na 2002; FROST, 2001; DOZ, SANTOS & WILLIANSONS, 2001;
perspectiva ambiental, pois terá forte impacto na BIRKINSHAW & MOORE, 1998). Frost (2001) mostrou a
capacidade e no desenvolvimento de uma subsidiária. forte associação das características favoráveis do
O segundo atributo é denominado “condições de ambiente externo com a criação de inovação
demanda”. A composição, a intensidade e a natureza (pesquisa e desenvolvimento) em subsidiárias
da demanda doméstica permitem que as empresas estrangeiras.

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Felipe Mendes Borini, Edson Renel da Costa Filho e Moacir de Miranda Oliveira Júnior

Embasada nesse raciocínio está a primeira reflexão subdesenvolvidos. Em conseqüência, duas novas
desse artigo. As subsidiárias estrangeiras de multina- perguntas são feitas: (2) existe diferença na ava-
cionais brasileiras que têm acesso a ambientes cujo liação das subsidiárias estrangeiras brasileiras
diamante nacional é forte e dinâmico têm também entre o ambiente competitivo dos países da
maior probabilidade de criar valor no estrangeiro, OCDE e dos não-membros da OCDE?; (3) a dife-
além de explorar o mercado. Segue, pois, a primeira rença de avaliação quanto ao pertencimento da
pergunta que orienta a pesquisa: (1) existe alguma OCDE tem reflexos também nas competências
associação entre a avaliação do ambiente ex- de inovação (P&D) atribuídas pelas subsidiárias
terno e a criação de valor no exterior? estrangeiras brasileiras?
Seguindo Frost (2001), mas com as adaptações
aos dados disponíveis, a criação de valor é medida 2.4. A perspectiva ambiental mediada pelo
por meio da inovação, caracterizada pela auto-ava- escopo geográfico
liação das subsidiárias quanto à sua competência em De acordo com a Teoria das Vantagens da Mul-
pesquisa e desenvolvimento. tinacional, de Rugman (1981), as multinacionais po-
dem auferir as vantagens de localização no país es-
2.3. A perspectiva ambiental e o estágio de trangeiro (Country Specific Advantages – CSA) e as
desenvolvimento das nações vantagens da firma (Firm Specific Advantages – FSA).
Apesar de o modelo de Porter (1990) assumir a As FSA são capacidades únicas das organizações, tal
existência de diamantes das nações em diferentes como o desenvolvimento de produtos ou a capila-
partes do mundo, os países desenvolvidos detêm ridade da distribuição. As CSA são baseadas em re-
maior probabilidade de desenvolver políticas com- cursos naturais, apoiadas pela força de trabalho e
petitivas para o incremento de diamantes nacionais, por fatores culturais do país em questão. Se o con-
com ênfase, principalmente, no apoio à inovação tec- ceito de CSA for estendido e atualizado de modo a
nológica (ALEM, 1999). Como exemplo, a União Euro- abarcar mais atributos para além da mão-de-obra, é
péia investe em fundos estruturais (SILVA, 2000), cujos possível dizer que as CSA são baseadas no “diamante
destinos são infra-estrutura, recursos humanos e in- da vantagem nacional” supracitado.
vestimento produtivo (COMITÊ DAS REGIÕES, 1999). Com base nos dois tipos de vantagem, Rugman
Isso embasa a literatura que sugere os mercados (1981) apresentou a matriz analítica CSA versus FSA. As
internacionais não só como laboratórios de apren- multinacionais atuam de maneira diferenciada com forte
dizado (HITT, HOSKISSON & KIM, 1997, HITT, LI & WORT- CSA e fraca FSA, tal como as empresas de commodities
HINGTON IV, 2005), mas também como meios de acesso focadas na exploração de mercados ou produção em
ao conhecimento (DOZ, SANTOS & WILLIAMSON, 2001). escala (GHEMAWAT, 2007), ou fraca CSA e forte FSA, típica
Para as multinacionais emergentes, os países desen- das empresas com estratégia de diferenciação (PORTER,
volvidos oferecem recursos críticos necessários para 1980), focadas na adaptação aos mercados locais
competir contra rivais globais no país e no estrangeiro (GHEMAWAT, 2007), ou, ainda, multinacionais com forte
(LUO & TUNG, 2007); e, assim, internacionalizam-se, FSA e CSA, que conseguem explorar em conjunto as
visando a criar valor no Primeiro Mundo. estratégias genéricas (WRIGHT, 1987; HILL, 1988) mais
Essa idéia está coerente com a perspectiva de voltadas para estratégias internacionais de arbitragem
resource-seeking (DUNNING, 1993), em que os merca- (GHEMAWAT, 2007), explicadas a seguir.
dos desenvolvidos oferecem uma plataforma superior Com isso, a matriz se encontra em diversos
para a criação de valor. As economias desenvolvidas, dilemas. Ela pode explorar as CSA de forma isolada
sejam elas indústrias transformadoras, sejam de ser- ou articulada; pode propagar a FSA original para
viços, estão dotadas de um melhor know-how, em países estrangeiros ou, mesmo, criar FSA nas suas
ambos os processos e produtos. Por isso, as subsi- subsidiárias. Além do problema entre FSA e CSA, há
diárias situadas nestes mercados podem servir como um outro dilema subjacente, que se refere à crise de
centro de acabamento de produtos de baixo custo, confiança no exterior, em especial, mas não exclu-
fabricados no país de origem, ou seja, incrementa o sivamente, das multinacionais emergentes (RUGMAN
produto nos países desenvolvidos para produzir nos & OH, 2008).

Gestão & Regionalidade - Vol. 24 - Nº 71 - edição especial - XI Semead 2008 - out/2008 47

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A INFLUÊNCIA DO AMBIENTE COMPETITIVO NAS ESTRATÉGIAS
DAS SUBSIDIÁRIAS ESTRANGEIRAS DE MULTINACIONAIS BRASILEIRAS

O país estrangeiro representa um risco adicional, Aqui, há certa padronização de produtos ou


devido às singularidades econômicas, políticas, sociais e serviços e aglutinação de processos de desen-
culturais associadas à entrada num mercado totalmente volvimento e de produção, ou seja, agrupa-
desconhecido (RUGMAN & VERBEKE, 2004). Por conta dessa mento transfronteiriço, divisões de negócios
crise de confiança, embora outras CSA possam trazer globais, divisões de produtos, estruturas regio-
melhores oportunidades, grande parte das multinacionais nais, contas globais. Comum em empresas cujo
procuram conduzir suas filiais em mercados regionais, alto investimento em P&D força certo agrupa-
com maior similaridade e menor incerteza psicológica mento para diluir os custos fixos;
(RUGMAN & VERBEKE, 2004; JOHANSON & WIEDERSCHEIM-PAUL, 3) arbitragem: é a exploração de diferenças entre
1975; JOHANSON & VAHLNE, 1977). Esse fenômeno mercados de nações ou regiões centrais distin-
acontece nos países da tríade Estados Unidos, Japão e tas, em geral com a distribuição da cadeia de
Europa Ocidental, (MOORE & RUGMAN, 2003; RUGMAN, suprimento por vários locais. Seja uma organi-
2000; LI, 2004; GROSSE, 2004) e também nos países fora zação vertical, seja funcional, seu objetivo é o
da tríade, chamados, por vezes, de emergentes (YIN & equilíbrio entre a oferta e a demanda dentro
CHOI, 2004; OH & RUGMAN, 2007). Desse modo, ad- de fronteiras organizacionais. Comum em em-
mitindo-se que a internacionalização das multinacionais presas de uso intensivo de mão-de-obra.
tem um escopo geográfico muito mais regional do que
global, outras duas perguntas são colocadas: (4) a Finalmente, há certa tensão em cada abordagem,
avaliação do ambiente externo sofre alterações e, entre elas, não basta indicar a opção por todas as
quando são comparadas as atuações das três. A escolha estratégia requer certo grau de priori-
subsidiárias de multinacionais brasileiras na zação, pois, para cada tipo de estratégia, há um des-
América do Sul (região fronteiriça e mais próxima dobramento diferenciado na vantagem competitiva,
geograficamente) com aquelas em regiões mais na configuração das operações internacionais, nas
distantes geograficamente?; (5) essa avaliação variáveis a serem controladas, no monitoramento do
diferenciada tem impacto na formação de FSA no âmbito interno e na diplomacia empresarial. Embora
exterior, representada pela criação de valor por algumas abordagens possam mesclar mais de um
meio das competências em P&D nas subsidiárias? modo de atuação, a maioria das empresas dará des-
taque a um só “A” em distintos momentos de sua
evolução na arena global.
2.5. Triângulo AAA
As conclusões deste trabalho sobre a avaliação das
subsidiárias quanto às arestas do Modelo Diamante, 3. METODOLOGIA DA PESQUISA
atribuídas ao ambiente local, serão eventualmente 3.1. Tipo de pesquisa
subsidiadas pelas idéias de Ghemawat (2007). Neste artigo, Dois tipos de survey foram desenvolvidos para as
ele defendeu que a principal meta de qualquer estratégia matrizes das 46 maiores multinacionais brasileiras; e
global deve ser a gestão das grandes diferenças registradas outro, para suas respectivas subsidiárias estrangeiras
nas fronteiras, sejam estas de caráter geográfico ou não. (total de 94). Logo, a configuração da pesquisa é
Para além das premissas convencionais de sopeso entre quantitativo-descritiva (CRESWELL, 1994), capaz de
economias de escala e adaptação local, o referido autor observar, registrar, analisar e correlacionar fatos sem
apresentou um novo arcabouço para a abordagem da manipulá-los (CERVO & BERVIAN, 2002).
integração global, o “Triângulo AAA”, em que cada “A”
Por fim, para a constituição do survey, foram uti-
tem um tipo de estratégia global, a seguir explicitadas:
lizadas questões fechadas, estruturadas e escalona-
1) adaptação: busca maximizar a relevância local das, segundo o modelo de Likert, cuja escala de um
da empresa para turbinar sua receita e parti- a cinco pontos indica “discordo fortemente” até
cipação de mercado, o que configura uma or- “concordo fortemente”.
ganização centrada no país. Comum entre em-
presas com alto investimento em publicidade; 3.2. Seleção da amostra e coleta de dados
2) agregação: tenta gerar economias de escala O universo da pesquisa compreende uma lista de
com operações regionais ou, às vezes, globais. 46 empresas de diferentes setores, identificadas no final

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Felipe Mendes Borini, Edson Renel da Costa Filho e Moacir de Miranda Oliveira Júnior

do ano de 2006. Destas, oito são do setor de serviços de Uppsala e da regionalização das multinacionais.
de engenharia e de TI (as oito responderam ao ques- Contudo, não se podem desprezar os drivers de mer-
tionário); 38, das seguintes subdivisões: indústrias ba- cado e estratégicos, para além das barreiras culturais.
seadas em recursos naturais (quatro no universo da
Para conferir maior praticidade à pesquisa, as loca-
pesquisa; três respondentes), produtoras de insumos
lidades foram agrupadas conforme seu pertencimento
básicos (11; sete), produtoras de materiais para cons-
à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento
trução (três; zero), produtoras de bens de consumo
Econômico (OCDE). Seus países-membros são
(sete; duas), produtoras de componentes e subsistemas
conhecidos oficialmente por serem comprometidos com
(oito; seis) e montadoras de sistemas (seis; quatro).
uma série de príncipios da democracia representativa e
A distribuição das multinacionais brasileiras (MNBRs) da economia de livre mercado, mas, por seus 30 membros
na cadeia produtiva mostra que o maior número destas produzirem mais da metade da riqueza do mundo, a
trabalha com insumos básicos, seguido por partes, organização também é conhecida como Grupo dos Ricos.
componentes e subsistemas. Observa-se, assim, que a Desses 30 países, as subsidiárias respondentes encon-
presença das MNBRs não está restrita às indústrias tram-se em oito (Alemanha, Canadá, Espanha, EUA,
baseadas em recursos naturais, nem ao caso excepcional França, Itália, México e Portugal), representando 42%
da Embraer. A presença brasileira é significativa, especial- da amostra. As demais 58% se localizam nos países
mente nas indústrias de base metal-mecânica. não-membros da lista de respondentes (África do Sul,
Angola, Argentina, Bolívia, Chile, China, Colômbia,
O trabalho de aplicação e follow-up do survey
Emirados Árabes Unidos, Equador, Eslováquia, Paraguai,
atingiu 30 entre 46 (65,2%) matrizes e 66 entre 94
Peru, Uruguai e Venezuela).
(70,2%) subsidiárias. Algumas empresas preferiram
responder ao survey da subsidiária de maneira agregada, Finalmente, para avaliar as perguntas sobre FSA e
preenchendo apenas um questionário para várias CSA, os países foram divididos em outras duas cate-
unidades. O único setor que não gerou respostas foi o gorias: (1) regionais – 45%, Argentina, Bolívia, Chile,
da indústria de insumos para a construção civil. Colômbia, Equador, Paraguai, Peru, Uruguai e Vene-
zuela; e (2) globais – 55%.
3.4. Construção das variáveis
3.4.1. Variáveis do agrupamento dos países 3.4.2. Variáveis dos atributos do ambiente competitivo

A primeira divisão sobre a avaliação do “Diamante O primeiro atributo do diamante (PORTER, 1990) se
da Vantagem Competitiva Nacional” foi feita em função refere às condições dos fatores. Sua caracterização é
dos países em que atuam as 66 subsidiárias das MNBRs feita pelas respostas obtidas, em uma escala de um
respondentes, localizando-se nos seguintes 22 países: a cinco, indicando “discordo” ou “concordo forte-
África do Sul (2% das respondentes), Alemanha (2%), mente”, para os seguintes critérios: existência de im-
Angola (2%), Argentina (15%), Bolívia (2%), Canadá portantes centros de pesquisa contribuintes para o
(5%), Chile (6%), China (6%), Colômbia (6%), desenvolvimento dos negócios; qualificação, especia-
Emirados Árabes Unidos (2%), Equador (2%), lização e nível de pagamento da mão-de-obra local.
Eslováquia (2%), Espanha (2%), EUA (17%), França O segundo atributo é a condição da demanda. Os
(2%), Itália (2%), México (8%), Paraguai (2%), Peru respondentes foram convidados a qualificar, na mes-
(6%), Portugal (8%), Uruguai (5%) e Venezuela (3%). ma escala de um a cinco, se os consumidores locais
exigiam padrões elevados e se a demanda de mercado
Logo, as subsidiárias estão localizadas principal- crescia rapidamente nos negócios da unidade. O
mente na América Latina (55%), sendo que, indivi- terceiro atributo, por sua vez, corresponde à presença
dualmente, as maiores concentrações encontram-se de setores correlatos e de apoio no país. Utilizando a
nos EUA, na Argentina, no México e em Portugal. A mesma escala de um a cinco, são qualificadas as
China já constitui um destino importante na análise. capacidades e qualidades dos fornecedores; a força
A predominante proximidade geográfica e cultural do relacionamento com estes; e o suporte de outras
da concentração regional e individual reforça a idéia instituições para os negócios. Por último, o atributo
de internacionalização para regiões com menor da estratégia, estrutura e rivalidade das empresas.
distância psíquica, conforme o argumento da Escola Sua operacionalização é desenvolvida em perguntas

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A INFLUÊNCIA DO AMBIENTE COMPETITIVO NAS ESTRATÉGIAS
DAS SUBSIDIÁRIAS ESTRANGEIRAS DE MULTINACIONAIS BRASILEIRAS

igualmente escalonadas, que caracterizam a proati- OCDE em relação aos países não-membros da OCDE
vidade do governo quanto ao apoio ao investimento (Tabela 1). Os resultados apontam que, considerando-
e ao crescimento industrial, o nível de competição se o diamante das nações genericamente, existe uma
no país e a velocidade da inovação dos competidores. diferença significativa entre a avaliação das subsidiárias
em países da OCDE e aquelas em países não-membros
3.4.3. Variáveis do atributo da criação de valor da OCDE. As primeiras avaliam mais positivamente o
Finalmente, para auferir a criação de valor por diamante do que as últimas (p = 0,01). Portanto, ins-
meio de inovação, uma variável mede a atribuição talar-se em países da OCDE garante acesso a um am-
da competência de P&D das subsidiárias em relação biente competitivo mais estruturado.
à matriz e a outras unidades de da rede (BIRKINSHAW,
HOOD & JONSSON, 1998), numa escala de cinco pontos. 4.2.1. Condições de demanda
Avaliando os fatores isoladamente, a aresta da
4. RESULTADOS E ANÁLISES demanda mostra uma diferença significativa entre
4.1. A relação do ambiente externo com a as subsidiárias na OCDE e fora dela. A estratificação
criação de valor no exterior revela que 85,7% das subsidiárias de MNBRs instala-
Esta seção inicia-se com o objetivo de responder à das em países-membros da OCDE concordam que
primeira pergunta levantada no referencial teórico: (1) os consumidores locais são exigentes, contra 48,6%
existe alguma associação entre a avaliação do das que operam em países não-membros da OCDE.
ambiente externo e a criação de valor no exterior? Essa análise fortalece o debate, ainda mais quando é
Transformando as variáveis componentes das qua- identificado que a demanda cresce mais rapidamente
tro arestas do diamante numa única variável em escala em países não-membros da OCDE (72,9% con-
de Likert de um a cinco pontos com Alpha de Con- cordam, contra 46,4% não-OCDE).
brach (0.859), e com base na variável da compe- As empresas são mais propensas a se tornar
tência em P&D das subsidiárias brasileiras no exterior, competitivas em setores em que a demanda interna
a correlação de Pearson se mostra positivamente propicia a antecipação das necessidades e tendências
significativa (p = 0,01) e de moderada força (0,504). dos demais compradores. Tanto melhor será se a
Esses dados confirmam a associação das arestas do sofisticação e a exigência pressionarem para padrões
ambiente competitivo com as atividades de maior e tendências internacionais, o que configura um
valor no exterior. Ou seja, subsidiárias brasileiras com cenário de “indicadores preliminares”. Logo, é reco-
forte competência em P&D tendem a fazer uma ava- mendável buscar se instalar nos países-membros da
liação positiva das condições do ambiente competi- OCDE, pois haverá maior força a inovar e melhorar
tivo do país em que a empresa está localizada, mos- os produtos e serviços da empresa.
trando a importância do “Diamante Nacional”. O problema nesse ponto é que os países desen-
volvidos são os que têm os mercados mais exigentes.
4.2. A avaliação do diamante de países da Sendo assim, nesse ambiente é que estarão os mais
OCDE vs. não-membro da OCDE recentes e elevados padrões de consumo, mas, também,
A análise prossegue com as duas questões le- é o mercado em que a demanda cresce de maneira
vantadas no artigo, elencadas a seguir: (2) existe menos acelerada, comparada aos países não-membros
diferença na avaliação das subsidiárias estran- da OCDE. O resultado é uma competição acirrada que
geiras brasileiras entre o ambiente competitivo eleva o padrão de consumo do mercado e o nível da
dos países da OCDE e dos não-membros da concorrência por uma qualidade superior.
OCDE?; (3) a diferença de avaliação quanto ao Isso torna mais dispendioso o preparo para
pertencimento da OCDE tem reflexos também competir nesses mercados, principalmente enquanto
nas competências de inovação (P&D) atribuídas se atua no mesmo. Ou, ainda, instalar-se nesse am-
pelas subsidiárias estrangeiras brasileiras? biente para buscar antecipar as tendências pode ser
Uma analise estatística por meio de teste T Student pouco prudente para empresas que não estruturaram
mede a diferença significativa das variáveis do ambiente suas ações a fim de absorver e propagar esse vetor.
competitivo em subsidiárias instaladas em países da Como uma das alternativas, pode-se pensar em um

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Felipe Mendes Borini, Edson Renel da Costa Filho e Moacir de Miranda Oliveira Júnior

Tabela 1: Comparativa dos atributos do diamente OCDE vs. não-membro da OCDE


Variáveis N Mean Std. Dev. t df Sig.
não OCDE 37 3,1792 0,6234 -2,462 50,14 0,017
Diamante Nacional
OCDE 28 3,6246 0,78907
Os consumidores locais exigem não OCDE 34 3,65 0,981 -2,285 55,391 0,026
Demanda

padrões elevados OCDE 28 4,25 1,076


A demanda de mercado está não OCDE 36 3,97 0,878 2,532 53,192 0,014
crescendo rapidamente OCDE 28 3,36 1,026
Há boas instituições de suporte não OCDE 37 2,92 0,983 -1,8 54,533 0,077
aos negócios OCDE 28 3,39 1,1
Setores

As capacidades e qualidades dos não OCDE 35 3,2 0,901 -2,648 56,728 0,01
fornecedores são elevadas OCDE 28 3,82 0,945
O relacionamento entre compradores não OCDE 36 3,58 0,692 -0,944 47,38 0,35
e fornecedores é forte OCDE 28 3,79 0,957
Existem importantes centros não OCDE 33 2,27 0,761 -1,301 58 0,198
de pesquisa OCDE 27 2,63 1,334
Fatores

A Mão-de-Obra é barata não OCDE 37 3,08 0,894 4,519 63 0


OCDE 28 1,89 1,227
O ambiente politico não OCDE 26 3,31 1,283 -2,742 62 0,008
OCDE 28 4,14 1,113
O governo nacional é altamente pró-ativo não OCDE 37 3,24 1,362 -0,24 60,642 0,811
OCDE 28 3,32 1,249
Competição

A competição no país é intensa não OCDE 34 4,26 0,994 -0,516 58,526 0,608
OCDE 28 4,39 0,956
A velocidade na inovação de produtos não OCDE 30 3,4 1,133 -0,199 53,404 0,843
dos competidores é alta OCDE 28 3,46 1,319
Fonte: autores.

movimento mais gradual, investindo em mercados pradores e fornecedores, fica evidente a diferença
intermediários a fim de amadurecer um conjunto de significativa quanto às capacidades dos fornecedores
competências importantes para, finalmente, instalar- (p = 0,01) e instituições de suporte (p = 0,10).
se em bases mais exigentes. A presença de fornecedores domésticos compe-
Desse modo, pois, as estratégias que privilegiam titivos internacionalmente facilita a criação de van-
o fator da demanda devem buscar uma maior ponde- tagens para as empresas, mas não de maneira auto-
ração no que tange à adaptação, ou seja, buscar mática. Muito mais do que acesso aos componentes,
maximizar a relevância local da empresa para turbinar é o forte e constante intercâmbio de conhecimento
sua receita e participação de mercado. Contudo, caso que apóia a melhora técnica e a inovação. Isso leva a
a atuação não seja de exclusividade no país, há a ponderar o aspecto sobre a proximidade como o mais
possibilidade de organizar-se estratégia de modo importante na composição desse atributo. Nessa óti-
regional, isto é, a estratégia de agregação, com certas ca, 60,7% dos respondentes da OCDE concordam
padronizações de produtos, serviços e métodos de que, na OCDE, há uma forte relação com os forne-
produção (GHEMAWAT, 2007). cedores, e, nos países não-membros, as empresas
somam exatamente 50%.
4.2.2. Setores correlatos e de apoio Os recortes indicam que as condições das insti-
Quanto ao atributo “setores correlatos e de tuições nos países não-membros da OCDE são de
apoio”, constituído pelas respostas referentes à qualidade mediana em relação aos da OCDE, mas
existência de boas instituições de suporte aos negó- têm um nível de relacionamento quase que com-
cios, ao nível das capacidades e qualidades dos for- parável aos da OCDE, que, por sua vez, possuem
necedores e à força do relacionamento entre com- melhores fornecedores.

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A INFLUÊNCIA DO AMBIENTE COMPETITIVO NAS ESTRATÉGIAS
DAS SUBSIDIÁRIAS ESTRANGEIRAS DE MULTINACIONAIS BRASILEIRAS

Caso as opções estratégicas da empresa equacio- 4.2.4. Estratégia, estrutura e rivalidade das
nem a importância de fornecedores locais, as subsi- empresas (competição)
diárias localizadas em países da OCDE têm maior O atributo “estratégia, estrutura e rivalidade” foi
chance de ponderar a possibilidade de abordar pela constituído pelas avaliações acerca da intensidade
arbitragem, seja de modo funcional, seja vertical, com da competição no país, da velocidade da inovação
o intuito de equilibrar oferta e demanda dentro das de produtos dos competidores e da proatividade e
fronteiras organizacionais (GHEMAWAT, 2007). apoio do governo para o crescimento industrial e
investimentos. A priori, 65,8% das subsidiárias loca-
4.2.3. Condições de fatores
lizadas em países não-membros da OCDE concordam
Quanto às condições dos fatores ao analisar as que a competição é intensa, que a velocidade na
características da mão-de-obra (MDO) (p = 0,01), são inovação é alta e que o governo nacional é altamente
distinguidas duas posições. Para MDO qualificada, proativo, ao passo que 60,8% das empresas em paí-
57,1% das subsidiárias instaladas em países da OCDE ses-membros da OCDE qualificam da mesma maneira
concordam, enquanto 34,2% fazem o mesmo para os critérios supracitados. Logo, não foi verificada uma
países não-membros da OCDE. Ao mesmo tempo, diferença significativa entre os grupos de países.
para MDO barata, os países da OCDE recebem apenas
14,3% de “concordo” por parte das subsidiárias, 4.2.5. O ambiente competitivo da OCDE e não-
enquanto sobe para 34,2% nos países não-membros OCDE e a criação de valor
da OCDE. Logo, a MDO é mais qualificada nos países
Realizada a análise dos atributos separadamente,
desenvolvidos e mais barata nos subdesenvolvidos.
resta verificar se existe alguma associação das ativi-
Esse cenário favorece um tipo de estratégia para dades de maior valor (P&D) com as características do
a MNBRs, a arbitragem, ou seja, a exploração de dife- ambiente separado por subsidiárias em países da
renças entre mercados de nações ou regiões cen- OCDE e fora da OCDE. O resultado (Tabela 2) mostra
trais distintas, em geral com a distribuição da cadeia que, quando a subsidiária se encontra na OCDE,
de suprimento por vários locais voltada ao equilíbrio existe uma forte e significativa associação com com-
de oferta e demanda dentro de fronteiras organi- petências de P&D, diferentemente das subsidiárias
zacionais (GHEMAWAT, 2007). Dependendo do uso e em países da não-OCDE, em que a associação é fraca
do tipo de mão-de–obra, as MNBRs podem se instalar e não-significativa. Finalmente, o resultado embasa
em países da OCDE (caso busquem desenvolver novas que, para as subsidiárias de multinacionais brasileiras,
tecnologias) ou em não-membros da OCDE, no caso a estratégia de entrada e localização em países da
de objetivarem redução de custos. Essa estratégia OCDE está associada com o desempenho de ativi-
leva a uma diplomacia empresarial mais preocupada dades de maior valor agregado (P&D).
com os sindicatos dos países locais, para evitar
contratempos com o emprego da MDO. 4.3. A avaliação do diamante regional
vs. as global
Quanto ao ponto sobre a estabilidade do ambiente
político (p = 0,01), ele é analisado em 78,6% pelas A segunda parte dos resultados investiga as
subsidiárias instaladas na OCDE e em 54% nas inseridas questões quatro e cinco, levantadas no referencial
em países não-membros da OCDE. A recomendação teórico: (4) a avaliação das características do
fica mais em função da proximidade da MNBRs com o ambiente sofre alterações quando são compa-
governo do que com sua estabilidade diretamente: as radas as atuações das subsidiárias de multina-
que são mais dependentes de políticas públicas devem cionais brasileiras na América do Sul (região
buscar governos mais proativos, que se encontram nos fronteiriça e mais próxima geograficamente) com
países que não são membros da OCDE. Por outro lado, aquelas em regiões mais distantes geografi-
a estabilidade não é tão segura como nos países da camente?; (5) essa avaliação diferenciada tem
OCDE, o que leva a uma análise, segundo a qual pode impacto na formação de FSA no exterior, repre-
ser necessário utilizar recursos que previnam riscos não- sentada pela criação de valor por meio das
comerciais, como os oferecidos pela Agência Multilateral competências em P&D nas subsidiárias?
para Garantias de Investimento (Miga), órgão do Grupo A Tabela 3 mostra a avaliação das características
Banco Mundial. do diamante pelas subsidiárias com escopo geo-

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Felipe Mendes Borini, Edson Renel da Costa Filho e Moacir de Miranda Oliveira Júnior

Tabela 2: Correlação P&D e avaliação do diamante na OCDE vs. não-OCDE


Correlations Pesquisa e Desenvolvimento
Correlation Coefficient 0,723
Diamante membro da OCDE
Sig. 0,001
Spearman’s rho
Correlation Coefficient 0,179
Diamante não-membro da OCDE
Sig. 0,401
Fonte: autores.

Tabela 3: Comparativa dos atributos do diamante e escopo geográfico


Variáveis N Mean Std. Dev. t df Sig.
Regional 29 3,11 0,63764 -2,72 63 0,008
Diamante Nacional
Global 36 3,582 0,73682
Os consumidores locais exigem Regional 27 3,48 0,975 -3,04 60 0,003
Demanda

padrões elevados Global 35 4,26 1,01


A demanda de mercado está Regional 29 3,93 0,842 1,707 62 0,093
crescendo rapidamente Global 35 3,51 1,067
Há boas instituições de suporte Regional 29 2,86 1,026 -1,83 63 0,073
aos negócios Global 36 3,33 1,042
Setores

As capacidades e qualidades dos Regional 28 3,21 0,833 -2,02 60,97 0,048


fornecedores são elevadas Global 35 3,69 1,022
O relacionamento entre compradores Regional 29 3,59 0,682 -0,78 61,33 0,437
e fornecedores é forte Global 35 3,74 0,919
Existem importantes centros Regional 26 2,23 0,71 -1,3 58 0,200
de pesquisa Global 34 2,59 1,258
Fatores

A Mão-de-Obra é barata Regional 29 2,97 0,906 2,488 63 0,016


Global 36 2,25 1,317
O ambiente politico Regional 28 3,07 1,331 -3,64 62 0,001
Global 36 4,14 1,018
O governo nacional é altamente Regional 29 3,14 1,329 -0,77 59,38 0,447
pró-ativo Global 36 3,39 1,293
Competição

A competição no país é intensa Regional 26 4,15 1,084 -1,13 46,74 0,266


Global 36 4,44 0,877
A velocidade na inovação de produtos Regional 22 3,18 1,22 -1,22 44,07 0,228
dos competidores é alta Global 36 3,58 1,204
Fonte: autores.

gráfico regional vs. as subsidiárias em países fora da membros da OCDE e os não-membros da OCDE, os
América do Sul. resultados chamam atenção para a aresta da de-
Os resultados mostram que existe uma diferença manda. As subsidiárias em mercados mais afastados
significativa (p = 0,01) entre a avaliação do diamante geograficamente têm um ambiente muito mais com-
das subsidiárias regionais e globais tomadas por petitivo, em virtude da demanda acirrada (p = 0,10)
escopo geográfico de atuação. Atuar regionalmente, e, conseqüentemente, ao maior nível de competiti-
embora seja uma estratégia que envolva menos risco vidade e um padrão de exigência superior.
e minimize a crise de confiança no exterior, não ga-
rante necessariamente acesso às melhores condições 4.3.2. Setores correlatos e de apóio
competitivas, estruturais e institucionais.
Quanto aos setores correlatos, instituições de apoio
e parceiras regionais são avaliadas como mais
4.3.1. Condições de demanda deficientes (p = 0,05 e 0,10) quando comparadas às
Assim como para a diferença entre os países- de regiões mais afastadas, devido ao fato de serem

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A INFLUÊNCIA DO AMBIENTE COMPETITIVO NAS ESTRATÉGIAS
DAS SUBSIDIÁRIAS ESTRANGEIRAS DE MULTINACIONAIS BRASILEIRAS

mais desenvolvidas. Porém, é interessante ressaltar que 4.3.5. O ambiente competitivo da OCDE e não-
estratégias regionais, ainda que minimizem a distância OCDE e a criação de valor
psíquica e o risco, nem sempre são as mais adequadas
A Tabela 4 mostra a correlação de Spearman para
para a arbitragem, mas talvez para a integração ou
criação de valor FSA, por meio das competências em
adaptação dos mercados, já que a demanda se apre-
P&D nas subsidiárias.
senta mais aquecida nos mais vizinhos.
O resultado mostra que existe uma moderada e
4.3.4. Condições dos fatores significativa associação com competências de P&D
Quanto às condições dos fatores (p = 0,01), a dife- quando as subsidiárias se encontram além do âmbito
rença significativa permanece no que tange à mão- regional. Em oposição, as subsidiárias regionais têm
de-obra e ao ambiente político. Apesar de as globais uma associação fraca e não-significativa. Logo, a es-
se localizarem também no Leste Europeu, no Oriente tratégia regional pode ser um driver para a exploração
Médio, no Pacífico da Ásia e na China, a avaliação de mercado e crescimento, mas não para a cons-
ainda é influenciada pelos países da OCDE. Entretanto, tituição de estratégias de desenvolvimento de FSA no
a crescente instabilidade política da região sul-ameri- exterior. Esse tipo de dado tende a levar para uma
cana, atrelada a condições de trabalho pouco quali- estratégia de internacionalização entre a arbitragem,
ficadas, pesam negativamente na avaliação. Não é mais caso se opte pelos mercados globais, e a adaptação,
o simples trade off entre mão-de-obra mais barata, no contexto regional.
pois o custo para acessá-la pode ser maior que o custo
do risco de se aventurar além das fronteiras regionais.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
4.3.4. Estratégia, estrutura e rivalidade das A Tabela 5 é uma síntese dos resultados obtidos
empresas (competição) por meio das respostas às perguntas levantadas.
Os resultados mostram que não existe uma dife-
rença significativa em relação específica à compe- Os resultados da pesquisa mostram que as subsi-
tição. Ainda que as subsidiárias em países não- diárias de multinacionais brasileiras avaliam o am-
regionais façam uma avaliação mais positiva deste biente competitivo exterior de maneira positiva em
fator, mostrando que é melhor operar nestes países, geral. Isto é importante, dada a associação das boas
a diferença não pode ser notada como significativa. condições do contexto competitivo e institucional

Tabela 4: Correlação P&D e avaliação do diamante quanto ao escopo geográfico


Correlations Pesquisa e Desenvolvimento
Correlation Coefficient 0,311
Diamante Regional
Sig. 0,208
Spearman’s rho
Correlation Coefficient 0,496
Diamante Global
Sig. 0,016
Fonte: autores.

Tabela 5: Principais resultados


1) Existe alguma associação entre a avaliação do ambiente externo e a criação de valor no exterior? Sim e Positiva
2) Existe uma diferença de avaliação das subsidiárias estrangeiras brasileiras quanto a avaliação do Sim e positiva para as
ambiente competitivo dos países da OCDE em comparação aos países não pertencentes a OCDE? subsidiárias na OCDE
3) A diferença de avaliação do ambiente tem reflexos também nas competências de inovação Sim e positiva para as
(P&D) atribuídas pelas subsidiárias estrangeiras brasileiras? subsidiárias na OCDE
4) A avaliação das características do ambiente sofre alterações quando comparado a atuação Sim e positiva para as
das subsidiárias de multinacionais brasileiras na América do Sul (região fronteiriça e mais subsidiárias
próxima geograficamente) e em regiões mais distantes geograficamente? não regionais
5) Essa avaliação diferenciada tem impacto na formação de FSA no exterior, representada pela Sim e positiva para as
criação de valor por meio das competências em P&D nas subsidiárias? subsidiárias não regionais
Fonte: autores.

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Felipe Mendes Borini, Edson Renel da Costa Filho e Moacir de Miranda Oliveira Júnior

com o desenvolvimento de atividades de maior valor arquitetados? A empresa tem a flexibilidade


agregado nas subsidiárias, como as competências em necessária para se ajustar à demanda e aos
P&D. Entretanto, algumas ressalvas devem ser fornecedores locais? Há canais de comunicação que
ponderadas. permitam a transferência de conhecimento entre as
unidades e ganhos efetivos para toda a corporação?
Quando as subsidiárias estão instaladas em países Finalmente, há competências e estruturas suficientes
da OCDE, a avaliação do ambiente é superior do que para manter a referida empresa em expansão
naquelas subsidiárias instaladas fora dos países da internacional e solidificação local?
OCDE, sendo que a atenção recai em especial pela
associação forte e positiva de um ambiente maduro Essas são algumas das perguntas freqüentes em
em países da OCDE, proporcionando o desenvolvi- processos de internacionalização. Mas não são as únicas.
mento de competências superiores em P&D. Logo, Cada caso tem suas particularidades, pois pretende
se a multinacional brasileira procura se internacio- explorar determinadas oportunidades, ou expandir
nalizar para desenvolver novas tecnologias, adquirir determinadas competências das empresas. Isso leva ao
competências de alto valor e ter um impulso advindo primeiro limite dessas análises. A generalidade com que
dos fornecedores e dos consumidores, os países- foram tratados os atributos e feitas as conclusões deve
membros da OCDE devem ser priorizados. ser considerada nas formulações estratégicas.
Outro ponto que tange as investigações percor- Outro limite se refere à amostra. Foram analisadas
ridas diz respeito ao escopo geográfico de atuação 66 subsidiárias de diversos setores. Isso pode diluir
das subsidiárias brasileiras. Aquelas em mercados sul- diferenças interessantes que gerariam análises mais
americanos têm uma avaliação mais fraca e não- focadas e mais precisas. Como cada setor tem suas
associada à criação de competências de valor nas particularidades, as diferenças seriam equalizadas no
subsidiárias, em contraposição às subsidiárias globais, tratamento dos dados. Outro limite depende da vontade
cuja avaliação está associada à criação de atividades da própria matriz em explorar o meio externo. Um
de maior valor agregado. Esse fenômeno, aliado à quarto limite seria que os respondentes foram altos
posição geográfica do Brasil, impele um esforço con- dirigentes das unidades. Além do fato de haver, entre
tra a tendência de regionalização das multinacionais, estes, aqueles com menor tempo na empresa e
comum nos países da tríade. A simples expansão para capacidade analítica, há também a possibilidade de
fronteiras geográficas, embora garanta estratégias haver distorção nas avaliações para favorecer a atuação
de exploração de mercados e recursos (GHEMAWAT, das subsidiárias em relação a outras unidades da matriz.
2007), inibe a formação de FSA para a exploração Finalmente, há uma necessidade de serem desen-
global, como ditado pelas estratégias de arbitragem. volvidos mais estudos nessa área. Para as futuras pes-
Em última instância, antes de optar por essas reco- quisas, fica um espaço entre a importância da perspectiva
mendações ou avaliar a importância dos atributos ambiental em conjunto com as demais, ou seja, com a
do Modelo Diamante, os decisores das empresas força da matriz e da iniciativa da própria subsidiária, assim
devem ter algumas questões em mente: a empresa como uma necessidade de se avaliar se há outras variáveis
está disposta e tem recursos para enfrentar o risco que influenciem o processo decisório e que não per-
que as distâncias geográficas trarão? O conjunto de tençam às fronteiras nacionais, por exemplo, a atuação
competências que se está mobilizando atende e é de financiamento e garantia do Grupo Banco Mundial
atendido pela estrutura e estratégia que estão sendo ou as análises técnicas da Unctad.

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A INFLUÊNCIA DO AMBIENTE COMPETITIVO NAS ESTRATÉGIAS
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O COMPORTAMENTO DO CONSUMIDOR INSATISFEITO PÓS-COMPRA: UM ESTUDO CONFIRMATÓRIO

O COMPORTAMENTO DO CONSUMIDOR INSATISFEITO PÓS-COMPRA:


UM ESTUDO CONFIRMATÓRIO
POST-PURCHASE BEHAVIOR OF THE DISSATISFIED CONSUMER:
A CONFIRMATORY STUDY
Recebido em: 07/07/2008
Ricardo Jato Aprovado em: 15/10/2008
Professor do Curso de Administração Universidade Metodista de São Paulo UMESP
Reginaldo Braga Lucas
Professor do Curso de Administração - Faculdade de São Bernardo - FASB
Milton Carlos Farina
Professor de Administração Mercadológica, curso de Administração - Faculdade de São Bernardo do Campo - FASB
Paulo Henrique Tentrin
Professor de Ciências Exatas/ Faculdade São Bernardo do Campo - FASB
Mauro Neves Garcia
Gestor do Programa de Mestrado da Universidade Municipal de São Caetano do Sul - USCS e professor de seu PMA

RESUMO
Em um mercado cada vez mais competitivo, no qual empresas deixaram de competir localmente para
competir globalmente, entender e prever o comportamento dos consumidores torna-se uma obrigação
para a sobrevivência de qualquer negócio. A compreensão do comportamento dos consumidores auxilia as
empresas na definição de suas estratégias mercadológicas, a fim de ofertar ao mercado produtos e serviços
que satisfaçam seus clientes. Para tanto, além de compreender o comportamento do consumidor no
processo de decisão de compra, faz-se necessário compreender também como agem os consumidores
pós-compra, em especial quando estão insatisfeitos com as trocas efetuadas. Este trabalho apresenta os
resultados de uma pesquisa quantitativo-descritiva, realizada por meio de levantamento de campo junto a
336 respondentes, na qual foi utilizado como instrumento um formulário contendo 47 assertivas que,
embasado em revisão da literatura e com o uso da técnica multivariada análise fatorial, identificou ações
comportamentais de consumidores insatisfeitos pós-compra. Estas ações foram classificadas em cinco
diferentes comportamentos: (a) reclamar com a loja ou o fabricante; (b) parar de comprar a marca ou na
loja; (c) promover comunicação boca a boca negativa; (d) reclamar com órgãos privativos ou governamentais;
e (e) iniciar processo jurídico.

Palavras-chave: comportamento do consumidor, processo pós-compra, insatisfação.

Endereços dos autores:

Ricardo Jato
Rua Leone Angeli, 119 - Rudge Ramos, São Bernardo do Campo-SP - CEP 09613030 - e-mail: ricardo.jato@terra.com.br
Reginaldo Braga Lucas
Al. Dona Tereza Cristina, 692 - Nova Petrópolis - São Bernardo do Campo-SP - CEP 09770-330 - e-mail: lucasrbl@terra.com.br
Milton Carlos Farina
Rua João Pessoa, 601- Centro - São Bernardo do Campo-SP - CEP 09715-000 - e-mail: milton_farina@uol.com.br
Paulo Henrique Tentrin
Rua Rui Barbosa, 361, apto.84 - B. Boa Vista, Santo André-SP - CEP 09190-370 - e-mail: ph_trentin@ig.com.br / trentin.ph@gmail.com
Mauro Neves Garcia
Rua Santo Antônio, 50 - Centro - São Caetano do Sul-SP - Brasil - e-mail: mauro.neves@uscs.edu.br

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Ricardo Jato, Reginaldo Braga Lucas, Milton Carlos Farina, Paulo Henrique Tentrin e Mauro Neves Garcia

ABSTRACT

In a more and more competitive market, in which companies no longer compete locally to compete globally,
understanding and foresing the consumers’ behavior becomes an obligation for the survival of any business.
The comprehension of the consumer behavior helps the companies in the definition of their marketing
strategies, in order to offer to the market products and services that satisfy their customers. Therefore,
besides the comprehension of the consumer behavior in the purchase decision process, it is also necessary to
comprehend how the consumers act post-purchase, especially when they are dissatisfied with the business
done. This study presents the results of a quantitative-descriptive survey applied to 336 respondents, in
which it was used as instrument a form with 47 assertions that, based on the literature review and with the
use of the multivariate factor analysis technique, has identified post-purchase behavior actions of the dissatisfied
consumers. These actions have been classified into five different behaviors: a) complain with the store or the
manufacturer; b) stop buying the brand or in the store; c) promote a negative word-of-mouth; d) complain
with private or government organism and; e) start law action.

Keywords: consumer behavior, post-purchase process, dissatisfaction.

1. INTRODUÇÃO a bens e serviços. Apresenta os resultados quantita-


tivos do comportamento do consumidor quando in-
Em um mercado cada vez mais competitivo, no satisfeito, resultados estes que receberam tratamento
qual empresas deixaram de competir localmente para estatístico, visando à identificação de fatores que
competir globalmente, entender e prever o comporta- determinam o comportamento de reclamação dos
mento dos consumidores torna-se uma obrigação consumidores pós-compra.
para a sobrevivência de qualquer negócio. Os clientes
estão cada vez mais exigentes, mais difíceis de ser
agradados, mais conscientes e inteligentes, perdoam 2. REFERENCIAL TEÓRICO
menos e são assiduamente abordados pelos concor-
A decisão de compra de um produto ou serviço
rentes, com ofertas iguais ou melhores (KOTLER, 2000).
pode parecer algo corriqueiro ou até mesmo auto-
Tão importante quanto entender o comportamen- mático, algo que o indivíduo faz sem se dar conta;
to dos consumidores no que diz respeito às decisões entretanto, trata-se de um processo complexo, que
na compra de produtos e serviços, é compreender segue vários estágios até sua efetivação.
como estes mesmos consumidores se comportam
Segundo Engel, Blackwell & Miniard (2000), a tomada
com relação às reclamações pós-compra. Afinal, gran-
de decisão do consumidor tem os seguintes estágios:
de parte do sucesso de uma empresa depende da
satisfação de seus consumidores com seus produtos 1. reconhecimento de necessidade – percepção
e serviços. Diante deste contexto, coloca-se a seguinte da diferença entre a situação desejada e a
questão: que comportamento os consumidores situação real;
assumem quando insatisfeitos com um produto 2. busca de informação – informação armazenada
ou serviço? na memória ou oriunda do ambiente externo;
3. avaliação de alternativa pré-compra – opções
Este artigo aborda o comportamento dos con- em termos de benefício esperado e alternativa
sumidores pós-compra e tem como objetivo identi- preferida;
ficar ações comportamentais de consumidores quan-
do insatisfeitos com a aquisição de um produto ou 4. compra – aquisição da alternativa preferida ou
de um serviço. É continuação do trabalho desenvol- de uma substituta;
vido por Polloni et al. (2004), que realizaram uma 5. consumo – utilização da alternativa comprada;
pesquisa qualitativa para conhecer o processo de re- 6. avaliação de alternativa pós-compra – satisfa-
clamação pós-compra dos consumidores em relação ção que a experiência de consumo produziu;

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O COMPORTAMENTO DO CONSUMIDOR INSATISFEITO PÓS-COMPRA: UM ESTUDO CONFIRMATÓRIO

7. despojamento – descarte do produto não-con- O tema satisfação do consumidor tem atraído


sumido ou do que dele restou. pesquisadores no Brasil, dada a sua importância para
o entendimento de variáveis que influenciam o com-
Os referidos autores destacaram que a tomada
portamento de consumidores (ROSSI & SLONGO, 1997;
de decisão do consumidor é influenciada por diversos
FARIAS & SANTOS, 1998; URDAN & RODRIGUES, 1998; MAR-
fatores, que podem ser divididos em três categorias:
CHETTI & PRADO, 2001; LARÁN & ROSSI, 2006).
(1) diferenças individuais, englobando os recursos do
consumidor, seu conhecimento, suas atitudes, sua Neste contexto, o grau de expectativa e o nível
motivação, sua personalidade, seus valores e seu estilo de satisfação do consumidor com relação aos produ-
de vida; (2) influências ambientais, englobando cultu- tos e serviços merecem destaque.
ra, classe social, influência pessoal, família e situação;
(3) processos psicológicos, englobando processamen-
to de informação, aprendizagem, mudança de atitude 2.1. O modelo de quebra de expectativas
e comportamento. Uma das teorias relativas ao desenvolvimento da
Engel, Blackwell & Miniard (2000) afirmaram que satisfação e da insatisfação do consumidor é a do modelo
o envolvimento pessoal é o fator mais importante que de quebra de expectativas (MOWEN & MINOR, 2005).
molda o tipo de comportamento de processo decisó- Esse modelo estabelece que os consumidores
rio que será seguido. Quanto maiores forem o tempo desenvolvem expectativas referentes a como deveria
e a energia despendidos na aquisição de um produto ser o desempenho do produto adquirido. Se o desem-
ou serviço, maior será a expectativa gerada no consu- penho real do produto, ou a percepção do cliente
midor em relação à satisfação com o bem adquirido. com relação à qualidade esperada, ficar abaixo das
Dentre os diversos fatores de influência no compor- expectativas, o resultado será insatisfação emocional
tamento do consumidor, a satisfação merece conside- com o produto. Se o desempenho do produto ficar
ração por sua relevância. A importância da satisfação do acima do esperado, haverá satisfação emocional.
cliente foi destacada por Drucker (1973), ao afirmar que Havendo equilíbrio entre o desempenho esperado e
o propósito de todo negócio é criar e manter clientes as expectativas do cliente, o resultado será a
satisfeitos. O mesmo tema foi abordado por Kotler indiferença, ou seja, o consumidor não exprime de
(2000), o qual reconheceu que boa parte da teoria e forma consciente sua satisfação.
prática de marketing das empresas concentra-se na Outro fator de influência na geração de expectati-
atração de novos clientes, em vez de concentrar-se na vas nos clientes são as campanhas de marketing. Con-
retenção dos clientes existentes, e enfatiza que o instru- forme observaram Sheth, Mittal & Newman (2001),
mento para retenção de clientes é a satisfação destes. se a comunicação e outros elementos do composto
Neste mesmo sentido, Sheth, Mittal & Newman de marketing prometem demais, podem criar
(2001) destacaram que um dos maiores desafios das expectativas que o produto ou serviço não consegue
empresas é entender por que seus clientes se sentem satisfazer, correndo o risco de causar insatisfação do
satisfeitos ou insatisfeitos. A satisfação ou insatisfação cliente. As empresas precisam encontrar um ponto
se dá após a experiência adquirida com o uso de um de equilíbrio, a fim de comunicar objetivamente os
produto/serviço e a percepção de valor recebido com atributos reais de seus produtos, sem, contudo, gerar
essa experiência. Para Churchill & Peter (2005), a expectativas irreais em seus clientes.
avaliação pós-compra concentra-se no fato de os
consumidores terem ou não recebido um bom valor. 2.2. Insatisfação e comportamento do
consumidor
Para Solomon (2002), a satisfação ou insatisfação
do consumidor é determinada pelas sensações gerais, Um dos pontos importantes a serem monitorados
ou atitudes, que as pessoas têm em relação a um pelas empresas é a insatisfação de seus consumidores,
produto depois de comprá-lo. A satisfação freqüen- que não necessariamente reclamam sobre seus de-
temente é determinada pelo quanto o desempenho sagrados com relação aos produtos adquiridos. Se-
de um produto é coerente com as expectativas gundo Goodman (2006), ao atender às expectativas
prévias do consumidor sobre seu funcionamento. dos consumidores revertendo suas reclamações em

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Ricardo Jato, Reginaldo Braga Lucas, Milton Carlos Farina, Paulo Henrique Tentrin e Mauro Neves Garcia

satisfação, uma empresa pode aumentar a lealdade reclamação. O comportamento de reclamação do


dos clientes. Uma das maneiras de se garantir a satis- consumidor envolve as diferentes ações que os
fação dos clientes é fornecer a estes informações e consumidores tomam quando estão insatisfeitos com
esclarecimentos sobre os produtos e serviços rece- uma compra (MOWEN & MINOR, 2005).
bidos (HUANG & LIN, 2005).
Para Sheth, Mittal & Newman (2001), o processo
Para Hawkins, Mothersbaugh & Best (2007), quan- pós-compra é seguido de algumas reações do consu-
do um consumidor está insatisfeito, a conseqüência midor: (1) o consumidor confirma sua decisão; (2) ava-
mais favorável é comunicar essa insatisfação à em- lia sua experiência; (3) conclui sua satisfação ou insa-
presa, pois isto alerta a empresa para os problemas, tisfação; e (4) formula sua resposta ou sua ação futura,
permite correções e minimiza a comunicação boca a que pode estar relacionada com o ato de abandonar
boca negativa. a marca ou o produto, reclamar ou desenvolver leal-
dade ao produto, serviço ou fornecedor.
A questão de satisfação, ou insatisfação, não está
relacionada apenas ao valor dos produtos ou serviços. No que diz respeito à insatisfação, Engel, Blackwell
Day (2002) observou que, para algumas situações & Miniard (2000) afirmaram que o consumidor,
de compra, a qualidade se mostra mais importante quando insatisfeito, pode agir de diferentes maneiras,
do que o preço pago, como nas questões ligadas à como manifestar-se verbalmente no ponto de venda,
saúde, incluindo médicos e hospitais, por exemplo. promover comunicação boca a boca negativa ou pro-
curar seus direitos por meio de processos legais, por
Apesar da necessidade de toda empresa se preo-
exemplo.
cupar em manter clientes satisfeitos, não se pode des-
considerar a existência de clientes desonestos, dispostos Estas mesmas ações do consumidor também fo-
apenas a obter vantagens das empresas, conforme ram citadas por Solomon (2002). Segundo este autor,
apontaram os estudos de Reynolds & Harris (2005). três são as respostas do consumidor frente à situação
Faz-se necessário, portanto, conhecer seus clientes para de insatisfação em relação a uma compra: (1) recla-
garantir satisfazê-los em suas legítimas reclamações. mação expressiva, que é a reclamação para o lojista
(ou fabricante), visando à compensação; (2) resposta
O trabalho de um profissional de marketing, por- particular, que é a manifestação para amigos sobre a
tanto, não termina quando o consumidor adquire um insatisfação com a loja ou com o produto; e (3)
produto disponível no mercado, mas estende-se a fim resposta de terceiro, que é a busca por medidas legais
de avaliar a satisfação e as ações do consumidor após contra a situação.
o consumo (KOTLER, 2000). Compreender como os con-
sumidores agem após a compra e o consumo dos pro- Hawkins, Mothersbaugh & Best (2007) propu-
dutos permite às empresas direcionarem suas ações, seram um modelo abrangendo cinco opções de ação
objetivando garantir a satisfação dos consumidores. para um consumidor insatisfeito que deseja agir,
conforme mostra a Figura 1.
Para Solomon (2002), a satisfação ou insatisfação do
consumidor é determinada pelas sensações gerais ou Neste modelo, a ação de um consumidor insatis-
atitudes em relação a um produto depois de comprá-lo. feito pode estar nos itens seguintes:
Mowen & Minor (2005) afirmaram que o processo 1 – reclamar com a loja ou com o fabricante;
pós-compra é composto por cinco estágios: (1) utili- 2 – parar de comprar a marca ou na loja;
zação ou consumo do produto; (2) satisfação ou insa- 3 – fazer propaganda boca a boca negativa;
tisfação do consumidor; (3) comportamento de re- 4 – reclamar com órgãos privativos ou gover-
clamação do consumidor; (4) disposição dos produtos; namentais;
e (5) formação de fidelidade à marca. Após o consumo
5 – iniciar um processo jurídico.
do produto, o consumidor pode sentir-se satisfeito ou
insatisfeito com a compra. Ocorrendo satisfação, o Por parecer um modelo mais detalhado do com-
consumidor está mais propenso a tornar-se fiel à mar- portamento do consumidor insatisfeito, o modelo
ca, bem como a efetuar novas compras; caso contrário, proposto por Hawkins, Mothersbaugh & Best (2007)
diante da insatisfação, ocorrerá o comportamento de foi adotado para as análises da presente pesquisa.

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O COMPORTAMENTO DO CONSUMIDOR INSATISFEITO PÓS-COMPRA: UM ESTUDO CONFIRMATÓRIO

Insatisfação

Agir Não Agir

Atitude menos
favorável

Reclamar Parar de Boca a Reclamar com Iniciar


com a loja ou comprar a marca boca órgãos privativos processo
o fabricante ou na loja negativo ou governamentais jurídico

Figura 1: Resposta à insatisfação


Fonte: Hawkins, Mothersbaugh & Best (2007).

3. MÉTODOS E PROCEDIMENTOS 4. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS


O presente estudo é continuação dos trabalhos O projeto original, desenvolvido por Polloni et al.
desenvolvidos por Polloni et al. (2004). Trata-se de (2004), considerou os achados de Day & Burbon
uma pesquisa descritiva realizada por meio de levan- (1978) para retratar o comportamento dos partici-
tamento de campo, na qual foi utilizado como ins- pantes da discussão em grupo sobre como proceder
trumento um formulário contendo 47 assertivas, utili- quando insatisfeitos, resultando em um conjunto de
zando-se escala tipo Likert de concordância com cinco assertivas. O presente trabalho tomou como base
pontos, construído a partir da base da pesquisa ex- tais assertivas, bem como as contribuições de Engel,
ploratória realizada por Polloni et al. (2004), na qual Blackwell & Miniard (2000), e analisou o processo
os autores buscaram conhecer o processo de recla- de compra sob a ótica da reclamação. A pesquisa de
mação dos consumidores da cidade de São Paulo campo realizada forneceu subsídios para validar o
em relação a bens e serviços. trabalho de Polloni et al. (2004), confirmando as
assertivas que se relacionam ao comportamento de
Os 336 participantes da amostra, selecionada por
reclamação pós-compra.
conveniência, estão distribuídos em homens e mu-
lheres, com faixa etária entre 18 e 30 anos, mora- Neste sentido, o uso da análise fatorial buscou
dores da região do Grande ABC paulista e circun- encontrar os fatores que representam, possivelmente,
vizinhança. A amostra por conveniência foi adotada os tipos de comportamentos que os consumidores
por permitir a verificação e ou a obtenção de idéias possam apresentar, em conformidade com o modelo
sobre determinados assuntos de interesse (MATTAR, proposto por Hawkins, Mothersbaugh & Best (2007).
2007), neste caso, o comportamento do consumidor
A matriz de correlação apresentou várias correla-
pós-compra quando insatisfeito.
ções expressivas, com valores superiores a 0,30, o que
Os resultados obtidos nesta pesquisa foram justifica o uso de análise fatorial. A medida de adequação
submetidos à técnica de análise fatorial exploratória, da amostra (KMO) apresentou o valor 0,749, superior
objetivando-se associar as assertivas obtidas por a 0,5, e o teste Bartlett de esfericidade rejeitou a hipótese
Polloni et al. (2004) às opções de ação propostas por de a matriz de correlação ser igual à matriz identidade.
Hawkins, Mothersbaugh & Best (2007), conforme Todas as assertivas, de forma individual, apresentaram
mostra a Figura 1. Para a realização das análises esta- valores de adequação da amostra superior a 0,5 e, dessa
tísticas, foi utilizado o software SPSS (Statistical forma, todas foram mantidas na análise. Os valores são
Package for the Social Sciences) versão 13.0. apresentados na Tabela 1.

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Ricardo Jato, Reginaldo Braga Lucas, Milton Carlos Farina, Paulo Henrique Tentrin e Mauro Neves Garcia

Tabela 1: Análises KMO e teste de Bartlett para o padrão de cargas fatoriais, e as assertivas com
Kaiser-Meyer-Olkin Measure of Sampling cargas mais altas são consideradas mais importantes
Adequacy. ,749
para se nomear o fator. Neste trabalho, optou-se por
Bartlett’s Test of Approx. Chi-Square 963,217
nomear e comparar os fatores, conforme o modelo
Sphericity df 171
proposto por Hawkins, Mothersbaugh & Best (2007).
Sig. ,000
A primeira opção proposta por Hawkins, Mother-
Fonte: dados da pesquisa.
sbaugh & Best (2007), no que diz respeito às ações
dos consumidores, é reclamar com a loja ou com o
A análise fatorial identificou seis fatores com ei- fabricante. Os resultados da análise fatorial confir-
genvalues superiores a 1, e a rotação Varimax apre- mam a utilização desta opção pelos entrevistados.
sentou os valores que constam da Tabela 2, a seguir, As assertivas que se ajustaram a esta primeira opção
que são as cargas fatoriais. Segundo Hair et al. (2005: são apresentadas no Quadro 1.
109), o pesquisador tenta designar algum significado
Para o consumidor que ficou insatisfeito com a
compra realizada e pretende tomar algum tipo de
Tabela 2: Análise fatorial – Rotação Varimax atitude, a opção de reclamar com a loja ou com o
fabricante do produto parece ser uma reação
Rotated Component Matrix a natural ou menos complexa de ser levada adiante.
Component Os consumidores julgam que a empresa tem
obrigação de zelar pelo bem-estar de seus clientes,
tanto por razões legais como por razões morais.
A empresa parece ser o lado mais forte, o que lhe
confere poderes superiores aos dos consumidores,
e também deveres (GIGLIO & CHAUVEL, 2002).
Para Sheth, Mittal & Newman (2001), o pro-
cesso pós-compra é seguido de algumas reações
do consumidor, sendo que reclamar ou desen-
volver lealdade ao produto, serviço ou fornecedor
fazem parte das opções disponíveis ao con-
sumidor.
Os resultados da pesquisa mostram que a op-
ção de reclamação é mais utilizada pelos parti-
cipantes da pesquisa, o que pode ser considerado
Extraction Method: Principal Component Analysis.
Rotation Method: Varimax with Kaiser Normalization.
importante para as empresas, pois, conforme
a. Rotation converged in 8 iterations. observaram Hawkins, Mothersbaugh & Best
Fonte: dados da pesquisa.
(2007), permite correções e minimiza a comuni-
cação boca a boca negativa.

Quadro 1: Reclamar com a loja ou com o fabricante


V3 Evito usar o Serviço de Atendimento ao Consumidor, prefiro ir ao ponto de venda.
V8 Para reclamações sobre produtos alimentícios, vou primeiro ao ponto de venda.
V27 Se o produto for importante, sempre vou reclamar diretamente na loja.
V38 Evito usar o Serviço de Atendimento ao Consumidor, prefiro ir diretamente ao fabricante.
V41 Para efetuar uma reclamação, ligo primeiro para o ponto de venda para verificar como devo proceder.
V42 É mais fácil reclamar diretamente no ponto de venda do que com o fabricante.
V43 Costumo reclamar primeiro na loja, por causa do nível de relacionamento.
Fonte: dados da pesquisa.

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O COMPORTAMENTO DO CONSUMIDOR INSATISFEITO PÓS-COMPRA: UM ESTUDO CONFIRMATÓRIO

A falta de cuidado, por parte da empresa, em ge- mento pode ser enquadrado como a opção “boca a
renciar as reclamações dos clientes, bem como a falta boca negativo”, do modelo proposto por Hawkins,
de preocupação com clientes insatisfeitos, pode levar a Mothersbaugh & Best (2007).
empresa a perder clientes, fato que pode ser comprovado
A propaganda boca a boca negativa parece ser
por meio dos resultados das análises efetuadas. A
uma ação de fácil adoção quando se considera que
segunda opção proposta por Hawkins, Mothersbaugh
a comunicação contrária chama mais a atenção dos
& Best (2007), no que diz respeito às ações dos con-
indivíduos (LOUREIRO et al. 2003).
sumidores, é parar de comprar a marca ou parar de
comprar naquela loja. As assertivas que se ajustaram a Sheth, Mittal & Newman (2001) afirmaram que,
esta segunda opção são apresentadas no Quadro 2. quanto maior a insatisfação do consumidor, maior a
probabilidade de ele engajar-se em comportamentos
A análise fatorial indica que os consumidores tam- de reclamação, como a comunicação boca a boca
bém utilizam esta opção quando estão insatisfeitos negativa, por exemplo. Para estes autores, essa
com os produtos e serviços adquiridos. Dentre os probabilidade pode variar em função de diferentes
variados comportamentos que o consumidor pode aspectos situacionais e individuais, como o envol-
adotar, talvez este seja o mais nocivo para a empresa, vimento do consumidor no contexto, bem como com
pois não permite a ela identificar as causas de insa- o produto ou serviço adquirido.
tisfação de seus clientes.
Considerando que as reclamações dos consu-
Mesmo após ter reclamado à loja ou à empresa, midores são valiosas para aperfeiçoamentos neces-
e mesmo após ter recebido algum tipo de solução sários ao produto e que, freqüentemente, represen-
por parte da loja ou da empresa, o consumidor ainda tam necessidades ainda não satisfeitas e, ainda, for-
poderá sentir-se insatisfeito. Cabe, portanto, à empre- necem subsídios para se estabelecerem melhorias
sa buscar contentá-lo com a resposta esperada, pois, junto às empresas (SANTOS, 1997), pesquisar as razões
caso contrário, este consumidor poderá ter comporta- de um comportamento de comunicação contrária de-
mentos negativos, como comunicação negativa boca ve ser umas das prioridades das empresas.
a boca e mudança de marca (SANTOS, 1997). Conforme observaram Loureiro et al. (2003), os
Fazer propaganda boca a boca negativa é a terceira consumidores, após a experiência positiva com um
opção de ação dos consumidores insatisfeitos, conforme serviço ou produto, são menos vulneráveis a comu-
propuseram Hawkins, Mothersbaugh & Best (2007). As nicações verbais negativas, sinalizando para as
análises estatísticas não apresentaram agrupamentos de empresas a importância do investimento na satisfação
assertivas associadas a esta opção; entretanto, os autores de seus clientes.
entenderam que a variável V7 (“Quando minhas recla- Consumidores insatisfeitos podem também recla-
mações não são resolvidas, manifesto-me publicamente mar com órgãos privativos ou governamentais, a
– “quebro o pau” – na loja em que efetuei a compra”) quarta opção proposta por Hawkins, Mothersbaugh
pode ser classificada como um comportamento de & Best (2007).
reclamação negativa boca a boca.
A variável V13 (“Os consumidores sabem como
Esta afirmação considera o fato de que a variável proceder legalmente para fazer suas reclamações”),
V7 expressa o desejo dos clientes de manifestarem- embora contenha a expressão “proceder legal-
se publicamente, permitindo inferir que tal comporta- mente”, parece expressar as opções disponíveis para

Quadro 2: Parar de comprar a marca ou na loja


V4 Não volto a contratar serviços dos quais reclamei.
V12 Ao comprar produtos de alto valor que apresentam defeitos, deixo de comprar a marca.
V21 Apesar de não reclamar, não volto a comprar na mesma loja.
V34 Deixo de utilizar marcas de produtos que me deram problemas.
V39 Ao comprar produtos do dia-a-dia que apresentam defeitos, deixo de comprar a marca.
Fonte: dados da pesquisa.

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Ricardo Jato, Reginaldo Braga Lucas, Milton Carlos Farina, Paulo Henrique Tentrin e Mauro Neves Garcia

os consumidores que desejam reclamar com órgãos Esta afirmação foi corroborada por Menezes (2003).
privativos. Isto implica dizer que os consumidores Para esta autora, a sociedade brasileira ainda está
podem recorrer aos órgãos públicos na tentativa de aprendendo a lidar com os instrumentos colocados à
fazer valer seus direitos sem, contudo, iniciar um sua disposição, uma vez que grande parte da popula-
processo judicial. Neste contexto, a imprensa parece ção está excluída do processo produtivo e das relações
ser uma das opções disponíveis aos consumidores. de consumo, seja pelos níveis de miséria que assolam
o País, seja por desconhecimento dos instrumentos
Para Giglio & Chauvel (2002), a relação social
disponíveis ou pela descrença na justiça, o que provoca
entre cliente e empresa, pautada nos valores de
um desestímulo na luta pelos direitos. Sem educação,
reciprocidade, lealdade, justiça, responsabilidade legal
ressaltou a autora, uma nação não desenvolve uma
e moral, pode levar os consumidores a recorrerem à
consciência de cidadania ativa e participativa.
imprensa, a fim de trazer essa relação idealizada para
a realidade, defendendo, assim, suas idéias a respeito A falta de consciência de cidadania talvez seja um
do que a empresa deveria ser e, também, adotando dos fatores que levam os consumidores a recorrer à
práticas que buscam sua transformação. justiça apenas como uma das últimas alternativas.
Mesmo recorrendo a órgãos públicos, os quais
não necessariamente possuem força jurídica para fa-
5. CONCLUSÃO, RECOMENDAÇÕES E
zerem valer as reivindicações dos consumidores, há
LIMITAÇÕES DA PESQUISA
ainda a possibilidade de estes buscarem auxílio jurí-
dico, conforme apontam os resultados das análises Um dos objetivos de qualquer empresa é, por meio
da pesquisa. Iniciar um processo jurídico foi a quinta da oferta de produtos e serviços, satisfazer as neces-
opção proposta por Hawkins, Mothersbaugh & Best sidades de clientes. Para tanto, além de monitorar o nível
(2007). As assertivas que se ajustaram a esta quinta de satisfação dos clientes, entender como se comportam
opção são apresentadas no Quadro 3. consumidores insatisfeitos pode auxiliar as empresas no
redirecionamento de suas estratégias e na adoção de
A análise fatorial das assertivas indica que os
ações de melhoria. Neste sentido, o presente estudo
consumidores também utilizam esta opção quando estão
corrobora o modelo de resposta à insatisfação proposto
insatisfeitos com os produtos e serviços adquiridos.
por Hawkins, Mothersbaugh & Best (2007).
Os consumidores brasileiros têm à sua disposição
Os resultados da pesquisa mostram que os con-
instrumentos jurídicos que lhes garantem seus direitos
sumidores, uma vez insatisfeitos, podem agir de dife-
nas relações de consumo. De acordo com Menezes
rentes maneiras, a saber: (1) reclamar com a loja ou
(2003), a legislação brasileira é avançada, comporta
com o fabricante; (2) parar de comprar a marca ou
um nível complexo de defesa dos interesses dos con-
na loja; (3) promover comunicação boca a boca nega-
sumidores, traz um excelente instrumental na defesa
tiva; (4) reclamar com órgãos privativos ou governa-
individual e coletiva dos interesses da comunidade
mentais; e (5) iniciar um processo jurídico. Embora
consumidora.
apresentado em um formato linear e excludente, ou
Apesar do aparato jurídico à disposição dos con- seja, pode-se adotar uma ação ou outra, as ações
sumidores, não são todos que têm plena consciência dos consumidores insatisfeitos, propostas por Haw-
de seus direitos, e, desta forma, deixam de exercer kins, Mothersbaugh & Best (2007), nem sempre são
seus direitos. Para Pajoli (1994), a questão da edu- observadas na realidade, havendo, por vezes, uma
cação é ponto fundamental para tornar o consumidor hierarquização para início do processo – “reclamação
mais crítico e preparado para exercer hábitos de con- no ponto de venda” – e a adoção de múltiplas ações
sumo de padrões mais elevados. para a solução do problema. Isto implica dizer que

Quadro 3: Iniciar processo jurídico


V28 Ao reclamar, sempre tenho a intenção de processar a empresa.
V30 Utilizo sempre um advogado para acelerar a resolução das minhas reclamações.
Fonte: dados da pesquisa

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O COMPORTAMENTO DO CONSUMIDOR INSATISFEITO PÓS-COMPRA: UM ESTUDO CONFIRMATÓRIO

os consumidores insatisfeitos podem optar por uma apresentaram agrupamento significativo de assertivas.
ou mais ações, isoladas ou simultâneas. Os autores consideraram a possibilidade de estes dois
fatores terem sido pouco explorados quando da
Os resultados apresentaram dois fatores com um realização dos grupos de discussão conduzidos por
maior número de assertivas agrupadas: (a) reclamar Polloni et al. (2004), o que não permitiu um número
com a loja ou com o fabricante; e (b) parar de comprar mais expressivo de assertivas para medição de tais
a marca ou na loja. Não se pode afirmar que estes fatores. De acordo com Malhotra (2006), os grupos
fatores são os mais significativos no que se refere ao de discussão tendem a ser confusos, pois a natureza
comportamento do consumidor brasileiro quando não-estruturada das respostas torna a codificação, a
insatisfeito; entretanto, observa-se que o número de análise e a interpretação difíceis, fato que pode ter
assertivas associadas a eles são maiores do que nos influenciado na formação do conjunto de assertivas
demais fatores. Talvez este fato indique uma tendência utilizadas no formulário de pesquisa.
de se recorrer, num primeiro momento, ao ponto de
Recomenda-se, portanto, a realização de pesqui-
venda ou ao fabricante para efetivar a reclamação e,
sas adicionais, visando a melhor explorar as diferentes
numa segunda opção, deixar de comprar o produto
possibilidades de ações dos consumidores quando
ou serviço ou, mesmo, a marca, caracterizando a hierar-
insatisfeitos, bem como a ampliar a amostra de indiví-
quização citada. O formato da pesquisa não previu
duos, de forma a torná-la mais representativa em
identificar a priorização dada pelo consumidor com
relação à diversidade de consumidores encontrada
relação às suas ações quando insatisfeito, tema este
no mercado.
que pode ser explorado em futuros trabalhos.
Compreender como agem consumidores quando
O presente estudo, embasado em revisão da lite- insatisfeitos permite às empresas corrigir eventuais
ratura e na utilização da análise fatorial cumpriu seu falhas em seus produtos e serviços; para tanto, faz-
objetivo principal, que foi o de identificar ações com- se necessário estabelecer um canal entre empresa e
portamentais dos consumidores quando insatisfeitos clientes. Conforme observaram Wright, Kroll & Par-
com a aquisição de um produto ou serviço. Conside- nell (2000), o sucesso da administração depende da
ra-se, entretanto, a necessidade de realização de pes- criação de um elo entre a empresa e seu ambiente
quisas adicionais, uma vez que determinadas ações, externo, por meio de atividades de análise ambiental.
como a comunicação boca a boca negativa e a recla- Espera-se que os resultados da presente pesquisa
mação com órgãos privativos ou governamentais não possam contribuir para o estabelecimento deste elo.

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Ricardo Jato, Reginaldo Braga Lucas, Milton Carlos Farina, Paulo Henrique Tentrin e Mauro Neves Garcia

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05RGR71.p65 67 12/2/2009, 08:23


CURSO DE ADMINISTRAÇÃO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA/UFSM: A PERCEPÇÃO
DOS PROFESSORES E ALUNOS SOBRE O TEMA “PRÁTICAS PEDAGÓGICAS”

CURSO DE ADMINISTRAÇÃO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE


SANTA MARIA/UFSM: A PERCEPÇÃO DOS PROFESSORES E ALUNOS
SOBRE O TEMA “PRÁTICAS PEDAGÓGICAS”
ADMINISTRATION COURSE AT UNIVERSIDADE FEDERAL OF SANTA MARIA/UFSM:
THE TEACHERS AND STUDENTS PERCEPTION OF “PEDAGOGICAL PRACTICES”
Recebido em: 07/07/2008
Shalimar Gallon Aprovado em: 15/10/2008
Graduanda em Administração - Universidade Federal de Santa Maria - UFSM
Cláudia Medianeira Cruz Rodrigues
Professora da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM - Departamento de Ciências Administrativas

RESUMO ABSTRACT
Nos últimos anos, percebe-se o crescimento dos In the recent years, it has been noticed the growth
cursos de Administração no Brasil e, conseqüen- in the Administration courses in Brazil and, conse-
temente, um quesito importante a considerar é a quently, an important matter to consider is the
qualidade dos mesmos. Este estudo foi desenvol- quality of it. This study was developed along with
vido junto à Universidade Federal de Santa Maria the Universidade Federal de Santa Maria-UFSM/RS,
– UFSM/RS, tendo como objetivo identificar as prá- and its objective was to identify the pedagogical
ticas pedagógicas utilizadas no curso de Adminis- practices used in the Administration courses as
tração como embasamento para a contextualização foundation to the contextualization of the teaching-
da relação ensino-aprendizagem. Foi realizada uma learning relation. A survey was realized in the first
survey no primeiro semestre do ano de 2007, semester of 2007, it involved: (i) professors that were
envolvendo (i) professores que estavam atuando acting in the Administration course at UFSM (28
no curso de Administração da UFSM (28 profes- professors of a total of 32) and, (ii) stratified
sores de um total de 32) e (ii) uma amostra estra- sampling of 216 students, of a total of 471
tificada de 216 alunos, de um total de 471 matric- subscribed in the course (105 students during
ulados no curso (105 alunos do diurno e 111 alunos daytime and 111 during the night). Among the
do noturno). Dentre os resultados apurados, pode- results, it was able to notice that the pedagogical
se dizer que as práticas pedagógicas mais utilizadas practices that were more used by the professors
pelos professores são as seguintes: aulas exposi- are: exhibition classes, works in group and debates
tivas, trabalhos em grupo e debates e/ou estudos and/or case studies. The search for the appropriation
de caso. A busca da adequação ao conteúdo e à of the content and the area was a determinant factor
área foi fator determinante para 89% dos profes- to 89% of the professors when asked about the
sores quando indagados sobre os fatores que in- factors that influence in the choice of pedagogical
fluenciam a escolha da prática pedagógica. A maio- practice. Most of the students revealed dissa-
ria dos alunos revelou insatisfação em relação à tisfaction in relation to the exaggerated emphasis
exagerada ênfase na abordagem teórica e à falta, in the theoretical approach and the lack, on the
por parte dos docentes, de vivências empresariais part of the teachers, of business existences as form
como forma de articular teoria e prática. of articulating the theory and practice.

Palavras-chave: práticas pedagógicas, curso de Keywords: pedagogical practices, Administration


Administração, ensino-aprendizagem. course, teaching-learning.

Endereços dos autores:

Shalimar Gallon
Rua do Acampamento, 60/83, Centro - CEP 97050-000 - Santa Maria-RS - e-mail: shalizinhaa@hotmail.com
Cláudia Medianeira Cruz Rodrigues
Rua Floriano Peixoto, 1184 - Prédio da Antiga Reitoria - Sala 502 - CEP 97015-372 - Santa Maria-RS - e-mail: cruz2005claudia@hotmail.com

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Shalimar Gallon e Cláudia Medianeira Cruz Rodrigues

1. INTRODUÇÃO sentam-se os resultados encontrados e, por fim, as


Os cursos de Administração no Brasil têm uma principais conclusões do estudo.
história muito curta, principalmente se ela for com-
parada com a dos Estados Unidos, onde os primeiros 2. REFERENCIAL TEÓRICO
cursos surgiram em 1881, aparecendo no Brasil 60 2.1. Panorama do Ensino Superior brasileiro e
anos mais tarde. Hoje, o curso é oferecido em mais dos cursos de Administração
de 1,2 mil instituições de Ensino Superior em todo o De acordo com o Censo do Ensino Superior, reali-
Brasil, totalizando cerca de 700 mil alunos, o que zado pelo Inep, em 2006, a expansão das instituições
demonstra a acirrada concorrência (Federação Na- de Ensino Superior (IES), no Brasil, é expressiva a partir
cional dos Estudantes de Administração, s/d1). da segunda metade da década de 1990, chegando em
No curso de Administração, a adequação das prá- 2006 a 2.270 IES. Em 2006, existiam 4.676.646 alunos
ticas pedagógicas ao objetivo de qualificar o aluno matriculados em cursos de graduação, sendo que, desse
ganha maior relevância, tendo em vista que o curso total, 775.201 estavam matriculados nos cursos de
engloba matérias que fazem parte das Ciências Admi- Administração, representando 16,6% do universo de
nistrativas Humanas, Sociais e Exatas que, em con- alunos matriculados nesse nível de ensino no Brasil.
junto, buscam formar uma nova ciência. Assim, como Outro fator a destacar é a diferença entre o nú-
citaram Andrade & Amboni (2006), os professores dos mero de concluintes e a quantidade de matrículas,
cursos de graduação em Administração têm um grande no ano de 2006: dos 775.201 alunos matriculados,
desafio pela frente, ou seja, independentemente do somente 16% concluíram o curso.
seu campo de formação, terão de trabalhar os conteú-
A Tabela 1 apresenta os dados, revelando, de um
dos de forma interligada para que tais conteúdos
modo geral, o contexto histórico dos cursos de Ad-
adquiram significado, relevância, utilidade e aplica-
ministração no País.
bilidade. Ainda na visão dos autores mencionados, os
professores devem ter a capacidade de formar a teia A Tabela 2 apresenta o total de instituições de
e, principalmente, de demonstrar para o aluno a visão acordo com a categoria administrativa, onde se per-
do todo interconectado a partir de uma perspectiva cebe que o maior número concentra-se em institui-
histórica, para explicar de forma contextualizada o ções de Ensino Superior de origem privada (89,1%).
momento atual e as tendências da área. Em relação aos cursos de Administração, 90,1% con-
centram-se em IES privadas.
Entretanto, esse problema de adequação das prá-
ticas se torna pequeno, quando as instituições depa- Na Tabela 3, apresenta-se o total de vagas ofere-
ram-se com um problema maior, qual seja, as práticas cidas, inscrições e ingressos nos cursos de Adminis-
pedagógicas utilizadas pelos professores, sejam eles tração, de acordo com os tipos de instituições. Das
pertencentes ou não ao curso de Administração, estão 462.712 vagas oferecidas, predomina o número de
muitas vezes defasadas, acabando por comprometer de vagas nas faculdades, escolas e institutos, com 47,1%,
maneira direta o nível de qualificação dos alunos. Assim, seguido pelas universidades, com 28,1%. Em relação
este artigo tem como objetivo geral identificar as às inscrições, 42,4% ocorrem nas universidades e
práticas pedagógicas adotadas no curso de Admi- 37,5% em faculdades, escolas e institutos. No que
nistração da UFSM/RS, como embasamento para tange aos ingressos, 43,9% ocorrem nas faculdades,
contextualizar a relação ensino-aprendizagem. escolas e institutos, e 31,4% nas universidades.
Para tanto, a estrutura do artigo está assim cons- De um modo geral, nota-se um crescimento de
tituída: primeiramente, apresentam-se as notas intro- IES no Brasil, desde 1960, como se pode visualizar
dutórias e, a seguir, o referencial teórico constituído na Tabela 1. Os dados apresentados demonstram a
das seguintes seções: “panorama dos cursos de predominância do ensino privado sobre o público.
Administração no Brasil” e “práticas pedagógicas”. Em relação à categoria administrativa, nas IES públicas,
Na terceira seção, aborda-se a metodologia utilizada predominam as instituições federais, embora com
para desenvolver a pesquisa. Na quarta seção, apre- pouca diferença para as estaduais e municipais. Nas
IES privadas, há uma grande predominância das ins-
tituições particulares sobre a comunitária/ confes-
1
Disponível em:<http://www.fenead.org.br>. sional/ filantrópica, conforme mostra a Tabela 2.

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CURSO DE ADMINISTRAÇÃO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA/UFSM: A PERCEPÇÃO
DOS PROFESSORES E ALUNOS SOBRE O TEMA “PRÁTICAS PEDAGÓGICAS”

Tabela 1: Resumo da evolução dos cursos de 2.2. Práticas pedagógicas


Administração no Brasil O desafio de escolher e/ou definir que práticas
ANO IES
Matrícula Concluintes Concluintes pedagógicas utilizar no processo ensino-aprendizagem
em ADM em ADM x matrículas faz parte de cada área de conhecimento e é peculiar
Antes de 19602 2 N/I N/I – aos sujeitos que nelas estão inseridas. O tema é emer-
1960 31 N/I N/I – gente e leva constantemente as instituições de ensino
1970 164 66.829 5.276 7,9% a repensarem acerca de métodos, técnicas e recursos
1980 247 134.742 21.746 16,1% que possam auxiliar a aprendizagem escolar, tendo
1990 320 174.330 22.394 12,8% em vista que aprender faz parte do cotidiano de todos
19973 900 237.671 29.045 12,2% os envolvidos, sejam eles alunos, sejam professores
1998 973 257.743 31.666 12,3% ou gestores institucionais. As práticas pedagógicas
1999 1.097 286.454 2.969 1,0% adotadas nos cursos de Administração devem estar
20004 1.180 339.363 35.726 10,5% de acordo com o Projeto Pedagógico do Curso e com
2001 1.391 404.771 39.231 9,7% o perfil dos alunos, para, assim, serem obtidos me-
2002 1.637 494.390 54.748 11,1% lhores resultados (ANDRADE & AMBONI, 2006).
2003 1.859 578.020 64.910 11,2%
A seguir, apresentam-se alguns exemplos de prá-
2004 2.013 643.635 88.718 13,8%
ticas pedagógicas adotadas no curso de Admi-
2005 2.165 709.301 109.840 15,5%
nistração.
2006 2.270 775.201 123.816 16,0%
Fonte: MEC/Inep, Sinopse Estatística da Educação Superior (2006). (1) Aula expositiva: é uma apresentação oral de

Tabela 2: Instituições de acordo com a categoria administrativa


Categoria administrativa
Pública Privada
Comunit./ Confes./
Federal Estadual Municipal Particular
Filantrópica
N N N N N
IES 2.270 105 83 60 1.583 439
Cursos de Adm. 2.893 116 105 64 1.749 859
Matrículas em Adm. 775.201 26.577 23.676 20.546 462.873 241.529
Concluintes em Adm. 123.816 3.808 3.538 3.202 77.328 35.940
Fonte: MEC/Inep. Sinopse Estatística da Educação Superior (2006).

Tabela 3: Vagas oferecidas, inscrições e ingressos nos cursos de Administração, de acordo com os tipos de instituições
Ano 2006
Vagas oferecidas Inscrições Ingressos
Tipos
N % N % N %
Universidades 130.236 28,1 296.955 42,4 81.781 31,4
Centros universitários 66.482 14,4 87.009 12,4 41.088 15,8
Faculdades integradas 21.708 4,7 24.416 3,5 11.300 4,3
Faculdades, escolas, institutos 217.985 47,1 262.259 37,5 114.430 43,9
Centros de educação tecnológica 26.301 5,7 29.293 4,2 12.114 4,6
Total 462.712 100 699.932 100 260.713 100
Fonte: MEC/Inep. Sinopse Estatística da Educação Superior (2006).

2
Para se obterem os dados anteriores a 1960-1990, estes foram retirados do site do CFA – Conselho Federal de Administração.
Disponível em: <http://www.cfa.org.br/arquivos/index.php>.
3
Para se obter o total de cursos de Administração de 1999 a 1997, foram englobados três cursos: Administração, Administração Rural
e Administração de Recursos Humanos. Fonte: MEC/Inep. Sinopse Estatística da Educação Superior, 2006
4
Para se obter o total de cursos de Administração de 2006-2000, foram utilizados dois grupos: Comércio e Administração (cursos gerais)

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Shalimar Gallon e Cláudia Medianeira Cruz Rodrigues

um assunto estruturado de maneira lógica (ANDRADE minado momento, apresentando informações relati-
& AMBONI, 2006). Essa é a prática pedagógica mais vas à situação a ser analisada, tais como dados sobre
utilizada para expor os conteúdos aos alunos, em razão a empresa e o setor, histórico da empresa e do pro-
de o seu custo ser menor que o das outras formas de blema a ser analisado. Posteriormente, apresenta
ensino, e também pela maneira como o professor questões específicas que induziram ao desenvolvi-
aborda os assuntos. A aula expositiva mostra a capa- mento do caso e que devem ser objetivo de aná-
cidade de elaboração e comunicação do professor em lise. “O objetivo da metodologia de estudo de caso
relação aos conteúdos. O desafio maior desta técnica não é dar exemplos ou ilustrar práticas administra-
é o fato de que este tipo de aula é ainda de caráter tivas menos ou mais bem-sucedidas, mas sim depa-
reprodutivo, “fruto, geralmente, de professores mal rar-se com situações-problema reais que exigem a
preparados, desestimulados e cansados, além de am- capacidade de análise e decisão técnica”. (ANDRADE
bientes muito contraditórios, nos quais predomina a & AMBONI, 2006: 29)
relação comercial em educação”. Para que uma aula (5) Dinâmicas de grupo: não substitui o conhe-
seja boa, ela precisa ser elaborada, precisa estar com- cimento ou qualquer conteúdo, “apenas auxilia sua
prometida com a aprendizagem de quem dá aula e assimilação através da dinamização do trabalho pe-
com a aprendizagem de quem escuta a aula, precisa dagógico” (ANDRADE & AMBONI, 2006: 31)
ser atraente ou, pelo menos, suportável, não pode
(6) Simulações empresarial ou jogo de empre-
abusar da atenção dos ouvintes, precisa ser envolvente
sas: são modelos matemáticos computadorizados que
e precisa ser curta (DEMO, 2005). No entender de
simulam uma determinada realidade empresarial, e o
Antunes (2008: 23), ”uma das formas de se identifi-
seu uso no meio acadêmico destina-se a complementar
carem professauros transvestidos em professor é bus-
a formação dos alunos com uma experiência prático-
car saber quantas situações de aprendizagens conhece
simulada de administração empresarial. A característica
e aplica, e aferir se, nas mesmas, é o aluno que aprende
principal de um jogo de empresas é o aspecto com-
e não o professor que pensa que ensina”.
petitivo da personalidade do ser humano, pelo qual ele
(2) Trabalhos em grupo: tem como objetivos fa- se sente estimulado a concorrer com outras pessoas,
cilitar a construção coletiva do conhecimento; favo-
recer o debate e a crítica; possibilitar a prática da e Gerenciamento e Administração. Em Comércio e Adminis-
cooperação para conseguir um fim comum; permitir tração (cursos gerais) apresentavam-se como subgrupos Co-
a troca de idéias e opiniões, além de favorecer a mércio, Negócios e Administração, Negócios Internacionais e
participação de alunos que, muitas vezes, não o fazem Planejamento Administrativo. Já em Gerenciamento e Admi-
nistração, englobavam-se os seguintes cursos: Administração,
no grupo maior (ANDRADE & AMBONI, 2006). Os trabalhos Administração Bancária, Administração da Produção Industrial,
em grupos funcionam como uma importante ferra- Administração de Agronegócios, Administração de Cooperativas,
menta de aprendizado, pois proporcionam aos alunos Administração de Empresas, Administração de Recursos Hu-
uma situação de interdependência na tentativa de manos, Administração de Sistemas de Informações, Adminis-
tração dos Serviços de Saúde, Administração em Análise de
realização de objetivos comuns. A tentativa da reali-
Sistemas / Informática, Administração em Comércio Exterior,
zação desses objetivos cria, no grupo, um processo Administração em Marketing, Administração em Micro e Pe-
de interação entre pessoas que se influenciam reci- quenas Empresas, Administração em Prestação de Serviços, Ad-
procamente, possibilitando aos integrantes discutir ministração em Turismo, Administração Financeira, Adminis-
idéias, trocar experiências e divergir de opiniões5. tração Hospitalar, Administração Hoteleira, Administração In-
dustrial, Administração Mercadológica, Administração Pública,
(3) Seminários: é um grupo reduzido que inves- Administração Rural, Ciências Gerenciais, Empreendedorismo,
tiga ou estuda um tema. Os membros não recebem Formação de Executivos, Gestão Ambiental, Gestão da Infor-
informações já elaboradas, mas investigam com seus mação, Gestão da Produção, Gestão da Produção de Vestuário,
Gestão da Segurança, Gestão de Cidades, Gestão de Comércio,
próprios meios, em um clima de colaboração recí- Gestão de Empresas, Gestão de Escritório, Gestão de Imóveis,
proca. Os resultados ou conclusões são de respon- Gestão de Negócios, Gestão de Negócios Internacionais, Gestão
sabilidade de todo o grupo, e o seminário se conclui de Organizações, Gestão de Pessoal / Recursos Humanos,
com uma sessão de resumo e avaliação (ANDRADE & Gestão de Qualidade, Gestão de Recursos de Informática,
AMBONI, 2006) Gestão de Serviços, Gestão de Supermercados, Gestão do Lazer,
Gestão Financeira e Gestão Logística. Fonte: MEC/Inep. Sinopse
(4) Estudo de casos: é uma situação real de Estatística da Educação Superior, 2006.
negócios vivida por uma empresa em um deter- 5
Disponível em: <http://www.inepad.org.br/ensino/>.

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CURSO DE ADMINISTRAÇÃO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA/UFSM: A PERCEPÇÃO
DOS PROFESSORES E ALUNOS SOBRE O TEMA “PRÁTICAS PEDAGÓGICAS”

utilizando-se de todas as ferramentas possíveis para Para o autor citado, o “como ensinar” era a grande
vencer o confronto (ANDRADE & AMBONI, 2006: 30) preocupação pedagógica, mudando o foco para o
No contexto de ensino-aprendizagem, Perrenoud “como o aluno aprende”. Neste sentido, Andrade &
(2000) citou dez principais competências dos docentes Amboni (2006) referiram que muitos professores acre-
para ensinar: (1) organizar e dirigir situações de apren- ditam que o aprimoramento dos procedimentos de
dizagem, o que significa despender energia e tempo e ensino-aprendizagem representa o principal elemento
dispor de competências profissionais necessárias para para uma aula efetiva, e, no entender destes autores,
imaginar e criar novos tipos de situações de aprendi- isso não é verdadeiro, tendo em vista que existem outros
zagem; (2) administrar a progressão das aprendizagens, requisitos importantes, como o conhecimento que o
visto que não se podem programar as aprendizagens professor tem do conteúdo em questão, a reflexão
humanas como a produção de objetos industriais; (3) permanente sobre a prática docente, o relacionamento
conceber e fazer evoluir os dispositivos de diferenciação. com os alunos, a contextualização dos conteúdos, a
A situação de aprendizagem deve ser “ótima” para cada demonstração da utilidade e da aplicabilidade a fim de
aluno; (4) envolver os alunos em suas aprendizagens e que o conteúdo tenha sentido para os alunos e a
em seu trabalho; (5) trabalhar em equipe; (6) participar interdisciplinaridade, entre outros.
da administração da escola, fazendo com que haja Neste contexto, reforçou-o Antunes (2008), ao
envolvimento maior do professor; (7) informar e envolver mencionar que um professor pode dizer que produz
os pais; (8) utilizar novas tecnologias, novas ferramentas aprendizagem quando (i) considera a realidade
de trabalho; (9) enfrentar os deveres e os dilemas éticos objetiva ou as circunstâncias que envolvem seu aluno,
da profissão; (10) administrar sua própria formação ou seja, quem este aluno é, o que sabe, o que busca
contínua. Uma vez construída, nenhuma competência saber, onde pretende levá-lo com a aprendizagem;
permanece adquirida por simples inércia. Deve, no (ii) quando confronta essa realidade com saberes
mínimo, ser conservada por seu exercício regular. escolares da disciplina que trabalha: e, por fim, (iii)
quando observa as associações que seu aluno pode
Logo, o ensinar é um desafio constante na vida do
fazer, relacionando suas circunstâncias e os saberes
educador, tendo em vista que ele lida com diferentes
acessados, e levando em conta suas experiências
situações de aprendizagem e com diferentes perfis de
individuais e as regras sociais existentes.
alunos. O despertar do interesse do aluno em relação
os conteúdos ministrados faz-se necessário. Vascon- Tais experiências, no entender de Bordenave & Perei-
cellos (2002: 41) indagou: o que se deseja em relação ra (2007: 84), exigem certos insumos educativos na forma
aos conhecimentos? No seu entender, o conhecimento de influências do ambiente que atuam sobre ele. “Da
deve estar baseado nos seguintes critérios: parte do professor, a forma de oferecer ao aluno opor-
tunidade para viver as experiências desejadas é estruturar
– significativo: que corresponda às reais necessi- atividades, isto é, estabelecer ou promover situações de
dades dos educandos e que esteja relacionado ensino-aprendizagem, em que haja uma alta proba-
com suas representações mentais prévias; busca bilidade de que ditas experiências realmente aconteçam”.
do que é relevante; Dito de outra forma, entendem-se como os métodos
– crítico: que não se conforme com o que está dado procedimentos ou técnicas de ensino, sendo que método
na aparência, com aquilo que é manifestação é o conjunto organizado de técnicas e procedimentos.
imediata; que ajude a explicar o que se vive; A palavra atividade tem conotação mais dinâmica que
método ou técnica, já que indica que o aluno terá que
– criativo: que possa ser aplicado, transferido para fazer algo, estando ativo. “A seleção de atividades de
outras situações; que possa fazer avançar o conhe- ensino-aprendizagem é importantíssima, porque dela
cimento; que seja ferramenta de transformação; dependerá o aluno crescer ou não como pessoa”
– duradouro: algo que se incorpora no sujeito (BORDENAVE & PEREIRA, 2007: 84).
como visão de mundo, que passa a fazer parte
dele porque significativo e bem aprendido (no 3. METODOLOGIA
momento certo, da forma adequada), de tal O curso de Administração da UFSM tem duração
forma que, em qualquer situação de sua vida, de quatro anos para o turno diurno e de cinco anos
o sujeito esteja apto a interferir na realidade. para o turno noturno. O currículo integra disciplinas de

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Shalimar Gallon e Cláudia Medianeira Cruz Rodrigues

diversas áreas do conhecimento, como Economia, So- questionário constando de 16 questões abertas e
ciologia, Marketing, Gestão de Pessoas, Administração uma fechada. Para os professores, foi utilizado um
Financeira e Direito, entre outras. O curso já passou questionário constando de 17 questões fechadas.
por oito exames nacionais de cursos do MEC (Provão), Para as questões fechadas, utilizou-se uma escala do
sendo estes já com resultados divulgados, onde o curso tipo Likert, conforme demonstrado no Quadro 1, a
obteve em todos o conceito “A”. Na avaliação do Ena- seguir. Cabe salientar que ambos os instrumentos
de6 de 2006, o curso ficou com o conceito 5.7 possuíam o mesmo teor de perguntas e escalas, a
O Departamento de Ciências Administrativas conta fim de facilitar a comparação.
com um quadro de 21 professores: 18 em atividade; A coleta de dados junto aos alunos foi realizada
dois em afastamento em busca de titulação (dou- diretamente nas salas de aula, no período de maio a
torado) e um em afastamento para tratar de interes- junho de 2007. Para os professores, os instrumentos
ses pessoais, além de contar com dois professores de coleta de dados foram entregues e, posteriormen-
substitutos (DCA, 2008). te, mediante agendamento, eram devolvidos aos pes-
Neste trabalho, como estratégia de pesquisa, o quisadores. Os dados foram analisados quantitativa-
método utilizado foi o estudo de caso, com um en- mente e processados no programa SPSS 10, contem-
foque exploratório e descritivo. A pesquisa foi realiza- plando as seguintes categorias de análises:
da junto aos alunos matriculados no primeiro semes- As variáveis analisadas na pesquisa foram divididas
tre do ano de 2007 e a professores do curso de nas seguintes seções: perfil do aluno e do professor,
Administração da UFSM. Dos 471 alunos matricula- resultados pedagógicos, infra-estrutura e acervo da
dos no referido semestre, foi calculada uma amostra biblioteca, freqüência do uso das práticas pedagó-
estratificada de 216 alunos. Dos 32 professores lota- gicas, satisfação em relação ao uso das práticas
dos no Departamento de Ciências Administrativas, pedagógicas, práticas pedagógicas adotadas pelo
28 participaram da presente pesquisa. O instrumento corpo docente e aptidão para enfrentar o mercado
de coleta de dados utilizado para os alunos foi um de trabalho.

Quadro 1: Categoria de análise


Categorias Variáveis Escala utilizada
Sexo, faixa etária, tipo de escola, curso, semestre, freqüência de estudo,
Perfil dos alunos freqüência de participação de eventos e meios de atualização. Múltipla escolha

Sexo, faixa etária, titulação, tempo de profissão, enquadramento funcional,


Perfil dos professores área da disciplina, periodicidade de publicação, freqüência de participação Múltipla escolha
de eventos e meios de atualização.
Infra-estrutura Livros da biblioteca, laboratório de informática, datashow, retroprojetores, 1 – Sempre
sala dos professores, sala de aula, restaurante universitário e xérox. 2 – Freqüentemente
3 – Raramente
4 – Nunca
5 – Não sei
Disponibilidade de Datashow, aulas expositivas, palestras, visitas em empresas, estudos de caso, 1 – Sempre
uso das práticas retroprojetor, trabalhos em grupos, vídeos, dinâmicas, biblioteca, seminários, 2 – Freqüentemente
simulações e laboratório de informática. 3 – Às vezes
4 – Raramente
5 – Nunca
6 – Não sei
Freqüência do Datashow, aulas expositivas, palestras, visitas em empresas, estudos de caso, 1 – Sempre
uso das práticas retroprojetor, trabalhos em grupos, vídeos, dinâmicas, biblioteca, seminários, 2 – Freqüentemente
simulações e laboratório de informática. 3 – Às vezes
4 – Raramente
5 – Nunca
6 – Não sei
Satisfação com Datashow, aulas expositivas, palestras, visitas em empresas, estudos de caso, 1 – Muito insatisfeito
a aprendizagem retroprojetor, trabalhos em grupos, vídeos, dinâmicas, biblioteca, seminários, 2 – Insatisfeito
simulações e laboratório de informática. 3 – Indiferente
4 – Satisfeito
5 – Muito satisfeito
Fonte: Elaborado pelos autores.

6
Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes.
7
Disponível em: <http://www.ufsm.br/adm>.

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CURSO DE ADMINISTRAÇÃO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA/UFSM: A PERCEPÇÃO
DOS PROFESSORES E ALUNOS SOBRE O TEMA “PRÁTICAS PEDAGÓGICAS”

4. APRESENTAÇÃO DOS RESULTADOS notas refletem o nível de conhecimento dos alunos,


4.1. Perfil dos entrevistados enquanto 42% responderam que às vezes isso acon-
tece. A questão que se refere à utilização das melhores
Como perfil geral do corpo docente (N = 28) que
práticas para a transmissão do conhecimento apontou
atuou no primeiro semestre de 2007, observou-se uma
uma freqüência de 54% das situações, enquanto 29%
predominância do sexo masculino, 57% (N = 16); faixa
responderam que isso ocorre às vezes.
etária entre 30 e 37 anos, 36% (N = 10); seguidos de
faixa etária entre 54 e 61 anos, 25% (N = 7); titulação Por sua vez, a questão que indaga se os professores
de doutores e mestres, 39% cada (N = 11); predomi- exploram de maneira satisfatória as práticas utilizadas
nância da faixa acima de 25 anos como tempo de revelou que metade dos docentes respondeu que essa
profissão, 29% (N = 8); enquadramento funcional como situação ocorre freqüentemente, enquanto 32%
adjunto, 54% (N = 15). Dentre esses professores, 64% mencionaram que, às vezes, as práticas pedagógicas
(N = 18) são do curso de Administração, sendo que são exploradas de modo satisfatório. A última questão
39% (N = 7) destes têm como foco de atuação a área da série demonstrou que 82% dos professores acre-
da Administração Geral. Verificou-se, também, que 29% ditam que sempre ou freqüentemente, ao se con-
(N = 8) dos docentes publicam semestralmente e 54% siderar a área em que a disciplina está inserida, o tipo
(N = 15) freqüentam eventos de uma a três vezes por de prática utilizada afeta o resultado apresentado.
ano. Os principais meios de atualização de informações Quando indagados sobre os resultados pedagó-
são a Internet e livros, 86% cada um (N = 24); artigos, gicos, 50% dos alunos entrevistados consideraram
64% (N = 18); e periódicos, 54% (N =1 5). que, às vezes, as notas refletem o nível de conhe-
Em relação ao perfil dos alunos do curso de Admi- cimento adquirido; 49% dos entrevistados apontaram
nistração da UFSM (N = 216), tem-se uma predomi- que as práticas adotadas pelos professores, às vezes,
nância do sexo masculino, 58% (N = 125); faixa etária são as melhores para transmitir o conhecimento e
entre 20 e 23 anos, 51% (N = 110); 54% (N = 117) que estas são também, às vezes, bem exploradas
estudaram em escola pública; 33% (N = 71) encon- por parte dos professores, representando a opinião
tram-se no quinto ou no sexto semestre, sendo que de 44% dos entrevistados. Considerando a área em
há um equilíbrio entre alunos do curso diurno e do que a disciplina está inserida, a maioria dos entrevis-
curso noturno. Dentre esses alunos, 48% (N = 104) tados opinou que, sempre ou freqüentemente
estudam somente em época de provas; 31% (N = (39% e 42%, respectivamente), o tipo de prática
66) participam de um a três eventos por semestre; e utilizada influencia o resultado pedagógico.
30% (N = 64), de um a três eventos por ano. Como O Gráfico 1, a seguir, apresenta os resultados por
principais meios de atualização de informações, 98% meio da média obtida em cada questão e a média
(N = 212) utilizam a Internet; jornais, 81% (N = 175); geral das questões, onde se percebe que os pro-
e televisão, 75% (N = 161). fessores estão mais satisfeitos com os resultados pe-
dagógicos do que os alunos.
4.2. Dados específicos da pesquisa
Os dados específicos da pesquisa foram divididos
nas seguintes seções: resultados pedagógicos, infra-
Gráfico 1: Resultados Pedagógicos
estrutura e acervo da biblioteca, freqüência do uso
das práticas pedagógicas, satisfação em relação ao
uso das práticas pedagógicas, práticas pedagógicas
adotadas pelo corpo docente e aptidão para en-
frentar o mercado de trabalho.
4.2.1. Resultados pedagógicos
Em relação aos resultados pedagógicos, há uma
pequena discordância entre os docentes quanto à
questão que pergunta se as notas refletem o nível de
conhecimento dos alunos. Foi constatado que 46%
dos professores acreditam que, freqüentemente, as

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Shalimar Gallon e Cláudia Medianeira Cruz Rodrigues

4.2.2. Infra-estrutura e acervo da biblioteca Com relação à quantidade de datashow, 30% dos
Em relação ao acervo da biblioteca, foi verificado discentes entrevistados consideraram-nos freqüen-
que mais de 80% dos professores consideram que temente disponíveis. Os retroprojetores mostraram-
os livros estão em boas condições de uso. Entretanto, se freqüentemente disponíveis e em boas condições
há uma divisão com relação à questão se os livros na opinião da maioria, obtendo percentuais de, res-
conseguem atender à demanda, pois 44% dos pro- pectivamente, 37% e 36% dos entrevistados. Quan-
fessores revelaram acreditar que os livros conseguem to às salas dos professores, 30% consideraram que
atender à demanda freqüentemente, e 44% afir- estas raramente são satisfatórias, e outros 30% con-
maram que raramente eles conseguem atender a sideraram-nas freqüentemente satisfatórias.
tal objetivo. Foi constatado também que uma par- De acordo com o Gráfico 2, apesar de a média
cela significativa dos professores (60%) considerou geral ter sido baixa – abaixo de três pontos –, tanto
que as condições das suas salas não atendem de for- para os alunos como para os professores, estes últi-
ma completa às suas necessidades. mos se mostraram mais críticos, pois verificou-se um
Quanto às salas de aula, foram citadas por 60% dos grande diferencial nas respostas entre as duas cate-
professores como detentoras de boas condições para a gorias entrevistadas, como em relação ao uso do
prática do ensino. Uma questão que chamou a atenção laboratório de informática ou sobre as condições e a
é com relação ao laboratório de informática. Verificou- quantidade de computadores, por exemplo.
se que 70% dos professores disseram acreditar que o Gráfico 2: Infra-estrutura
laboratório não é de fácil acesso aos alunos; 85% afir-
maram que a quantidade de computadores não é sufi-
ciente para a demanda; e 80% responderam que os
computadores não apresentam condições satisfatórias.
Em relação ao grau de disponibilidade de infra-
estrutura/ materiais necessários para a utilização de
práticas pedagógicas, os resultados dos alunos apre-
sentaram um alto grau de disponibilidade, sendo con-
sideradas disponíveis sempre ou com freqüência
as seguintes práticas: aulas expositivas, trabalhos em
grupo, debates/estudos de caso. As práticas que apre-
sentaram um baixo grau de disponibilidade, sendo
consideradas como às vezes, raramente ou nunca
disponíveis, foram as seguintes: visitas em empresa,
palestras, vídeos, dinâmicas e seminários.
Quanto à infra-estrutura, dos acadêmicos do curso
de Administração entrevistados, 48% afirmaram que 4.2.3. Freqüência do uso das práticas pedagógicas
raramente os livros da biblioteca atendem à demanda Com relação à freqüência de uso das práticas pe-
e, por outro lado, 53% afirmaram que estes se encontram dagógicas, na opinião dos professores são adotadas,
freqüentemente em boas condições. A respeito do basicamente, três práticas: (i) aulas expositivas, (ii)
laboratório de informática, 34% consideraram que rara- trabalhos em grupo e (iii) debates/estudos de caso.
mente ele é de fácil acesso para uso; quanto à quanti- A primeira citada, segundo os professores, é sempre
dade de computadores, 33% consideraram que estes adotada ou freqüentemente utilizada em 78% das
atendem raramente à demanda, e 40% dos acadê- situações; a segunda, em 55%, e a última, em 45%
micos apontaram que as condições dos computadores dos casos. As demais práticas apresentaram um baixo
são raramente satisfatórias. As condições do xérox do índice de utilização, como palestras, que foram rara-
centro foram apontadas por 39% como sendo rara- mente ou nunca utilizadas em 62% das ocasiões;
mente satisfatórias e, a respeito do restaurante uni- dinâmicas com um índice de 60%; visitas em empresas
versitário, 42% desconheciam suas condições e 28% com um índice de 55%; vídeos com 55%. Chama a
consideraram-nas satisfatórias. atenção o fato de que as simulações-jogos de empre-

Gestão & Regionalidade - Vol. 24 - Nº 71 - edição especial - XI Semead 2008 - out/2008 75

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CURSO DE ADMINISTRAÇÃO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA/UFSM: A PERCEPÇÃO
DOS PROFESSORES E ALUNOS SOBRE O TEMA “PRÁTICAS PEDAGÓGICAS”

sas tiveram um alto índice de respostas “nunca”, pedagógica, verificou-se que os professores se sentem
sendo esta válida para 48% das situações. satisfeitos em 54% dos casos em que utilizam debates/
Em relação aos alunos, na freqüência de uso das estudos de caso; em 53% das situações nas quais se
práticas pedagógicas atualmente empregadas pelos valem das aulas expositivas; e em 47% das oportuni-
professores destaca-se o datashow, que às vezes é dades em que utilizam palestras como prática peda-
utilizado, representando 38% dos entrevistados, e gógica. Cabe destacar o percentual apresentado pelos
freqüentemente utilizado na opinião de outros, seminários, totalizando 40% de satisfação quando uti-
34%. Pode-se observar que as aulas expositivas em lizados; pelas visitas em empresas e pelo uso do
quadro são sempre ou freqüentemente utilizadas, datashow, que apresentaram 36% de satisfação quando
representando, respectivamente, a opinião de 37% utilizados. Por sua vez, práticas como palestras, uso de
e 47% dos entrevistados. As palestras destacaram- retroprojetores, exibição de vídeos e dinâmicas apresen-
se por ser raramente utilizadas na opinião de 51% taram índices de satisfação na faixa dos 30%.
dos entrevistados. Visitas em empresas raramente Em relação ao grau de satisfação dos alunos diante
acontecem na opinião de 51%, e outros 41% julga- das diversas práticas adotadas, observou-se que 60%
ram que nunca aconteceram. estão satisfeitos com o uso de datashow; com
O uso de retroprojetores e os trabalhos em grupo relação às aulas expositivas, 34% se mostraram in-
destacaram-se por ser freqüentemente utilizados diferentes e 44% revelaram estar satisfeitos com
na opinião de, respectivamente, 50% e 56% dos o uso desta prática. A respeito das palestras, 44%
entrevistados. A apresentação de vídeos foi consi- ficaram satisfeitos com sua utilização e 30% mos-
derada como raramente ou nunca utilizada na opi- traram-se indiferentes; 38% consideraram que,
nião de, respectivamente, 48% e 31% dos acadê- quando ocorrem viagens a empresas, ficam muito
micos entrevistados. Na opinião de 46%, dinâmicas satisfeitos. Debates e estudos de caso em sala de
de grupo são raramente empregadas nas aulas e aula foram considerados por 43% dos entrevistados
31% consideraram que, às vezes, elas são utilizadas como uma atividade que os deixa satisfeitos com o
como práticas pedagógicas. aprendizado e os que se consideraram muito satis-
feitos correspondem a um percentual de 26%.
Na opinião dos entrevistados, a biblioteca é rara-
mente ou nunca utilizada com prática por parte dos Com relação ao uso de retroprojetores, 41% mos-
professores, correspondendo a, respectivamente, 34% traram-se indiferentes e 29% consideraram-se satis-
e 36% dos acadêmicos entrevistados. Seminários foram feitos com o aprendizado; 52% consideraram-se satis-
apontados por 32% como sendo às vezes utilizados, e feitos com os trabalhos em grupo e, com referência a
por 37% como raramente empregados. Ficou evidente dinâmicas, 41% apontaram que ficam satisfeitos com
a não-utilização de simulações empresariais, apontada o aprendizado decorrente de sua realização. A exposição
por 59% dos entrevistados, e, a respeito do uso do la-
Gráfico 3: Freqüência de Uso das Práticas Pedagógicas
boratório de informática, 53% consideraram sua utiliza-
ção raramente empregada como prática pedagógica.
De modo geral, como mostra o Gráfico 3 ao lado, a
média geral dos alunos (3,1) foi mais alta que a dos
professores (2,4). Os professores ainda se mostraram
mais críticos e cuidadosos nas suas respostas, o que pode
ser comprovado pelo grande diferencial nas respostas
entre as duas categorias entrevistadas, como em relação
à freqüência de uso de dinâmicas, palestras, laboratório
de informática e retroprojetores, por exemplo.

4.2.4. Satisfação em relação ao uso


das práticas pedagógicas
Com relação à satisfação quanto ao uso das práticas
pedagógicas, quando utilizada determinada prática

76 Gestão & Regionalidade - Vol. 24 - Nº 71 - edição especial - XI Semead 2008 - out/2008

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Shalimar Gallon e Cláudia Medianeira Cruz Rodrigues

de vídeos foi vista por 35% dos entrevistados Gráfico 5: Práticas Pedagógicas Adotadas
como uma prática que gera satisfação e, para
outros 30%, seu uso é indiferente.
A respeito de seminários, 36% consideraram-
se satisfeitos com o aprendizado e 33%
mostraram-se indiferentes. Com simulações
empresariais, 27% mostraram-se indiferentes,
25% consideraram-se muito satisfeitos e 21%
ficaram satisfeitos com seu aprendizado. Para 35%, o pedagógica a ser adotada pelos professores são os
uso do laboratório de informática é indiferente e, para seguintes: (i) a adequação ao conteúdo e à área; e
outros 32%, seu uso é satisfatório para o aprendizado. (ii) disponibilidade de materiais/ infra-estrutura. Um
Um aspecto que ficou evidenciado foi o fato de as aspecto que se destacou foi o índice de 50% apre-
práticas que possuem maior nível de satisfação junto sentado pelo fator de facilidade de aplicação em
aos professores serem aquelas mais utilizadas por eles. relação à disposição do professor, o que demonstra
Apesar das novas tecnologias, as práticas mais simples certo comodismo dos mesmos e influência de ques-
continuam predominando na satisfação do desem- tões externas/ ambientais, pois, como citaram An-
penho do aprendizado, que, para os professores, são drade & Amboni (2006), ensinar exige do profes-
as aulas apresentadas no quadro, com a maior média sor, acima de tudo, bom senso e comprometimento.
de todas as práticas (3,4), enquanto que, para os alunos,
apesar de o quadro ter obtido uma média de 3,3, as 4.2.6. Aptidão para o mercado de trabalho
que mais se destacam são os estudos de casos e o uso
Quando os alunos foram questionados quanto ao
de datashow, como mostra o Gráfico 4.
sentimento de estarem preparados para o mercado
de trabalho, caso tivessem que exercer a sua profissão,
4.2.5. Práticas pedagógicas adotadas independentemente do semestre em que se encon-
pelo corpo docente travam, a maioria dos acadêmicos (61%) considerou-
O Gráfico 5 evidencia que os dois principais fato- se apta em parte para enfrentar o mercado de tra-
res levados em consideração na escolha da prática balho; 21% deles consideraram-se aptos; e 16% não
se consideraram aptos a enfrentá-lo. Neste
Gráfico 4: Satisfação de Uso das Práticas Pedagógicas sentido, foi também solicitado que eles justifi-
cassem a sua resposta. Os acadêmicos que se
consideraram em parte ou não-aptos para
enfrentar o mercado de trabalho ressaltaram
a dificuldade de relacionar a teoria e a prática.
Outro ponto a destacar foi que grande parte
dos alunos que se consideraram aptos para
enfrentar o mercado de trabalho estavam no
primeiro ou segundo semestre do curso, e afir-
maram que possuíam essa segurança para
trabalhar, pois o curso deveria dar suporte e
desenvolver as habilidades de administradores
nos alunos.

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Ao se finalizar este estudo, tem-se a pos-
sibilidade de relacionar a opinião de profes-
sores e alunos acerca do processo ensino-
aprendizagem e de que forma as práticas pe-
dagógicas utilizadas influenciam o desenrolar

Gestão & Regionalidade - Vol. 24 - Nº 71 - edição especial - XI Semead 2008 - out/2008 77

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CURSO DE ADMINISTRAÇÃO DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA/UFSM: A PERCEPÇÃO
DOS PROFESSORES E ALUNOS SOBRE O TEMA “PRÁTICAS PEDAGÓGICAS”

do curso, de modo a facilitar e otimizar tal relação. Verificou-se que as práticas mais utilizadas pelos
Pode-se, também, verificar na prática, por intermédio professores apresentaram índice de satisfação junto
dos questionamentos, a relação com os constructos aos alunos de 40%. Uma possível explicação para
teóricos adotados, como os de Antunes (2008), essa situação reside no fato de essas práticas peda-
Bordenave & Pereira (2007), Andrade & Amboni gógicas proporcionarem um baixo nível de integração
(2006) e Vasconcellos (2002), entre outros. entre teoria e prática. Um aspecto que ratifica essa
O estudo evidenciou que as práticas pedagógicas afirmação foram as respostas dadas pelos alunos,
mais utilizadas pelos professores são as seguintes: (i) quando indagados se estavam aptos a enfrentar o
aulas expositivas; (ii) trabalhos em grupo; e (iii) de- mercado de trabalho: mais de 75% se consideraram
bates e/ou estudos de caso. Existem duas possíveis aptos em parte ou não se consideraram capazes,
explicações para que isso ocorra: a primeira encontra- sendo parte significativa das respostas ligadas à falta
se no fato de serem fáceis de ser exploradas no de relação teoria-prática. Desta forma, acredita-se
momento em que há a necessidade de poucos que uma maior utilização de práticas que propor-
recursos, como sala de aula e quadro-negro. Práticas cionem aos alunos o estabelecimento de relações
como a exibição de vídeos ou o uso do datashow entre o que é aprendido na sala de aula e as situações
necessitam de outros recursos para ser exploradas, da realidade seja de suma importância.
como computadores e televisão. A segunda Acredita-se que o tema abordado neste trabalho
explicação encontra-se no fato de aquelas práticas é de suma importância a ser explorado pelo curso e
serem de fácil aplicação por parte do professor, pela instituição. Faz-se necessário um repensar sobre
exigindo um nível menor de envolvimento e pesquisa a questão da capacitação pedagógica, incluindo nesta
extraclasse. Isto pode ser corroborado quando se a questão das práticas pedagógicas, onde caberia à
levantou que cerca de 50% dos professores adotam Universidade estimular a prática da inovação em sala
determinada prática pedagógica de acordo com a de aula, estabelecendo, assim, um processo de apren-
facilidade de aplicação e da sua disposição de adotar dizagem significativo, crítico, criativo e duradouro,
a mesma. como referiu Vasconcellos (2002).

REFERÊNCIAS

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Teorias da administração: os desafios do professor ANÍSIO TEIXEIRA – INEP. Site da instituição. 2008.
frente às novas diretrizes curriculares. São Paulo: Disponível em: <http://www.inep.gov.br>. Acesso
Makron Books do Brasil, 2006. em: 25 de março de 2008.
A NTUNES , Celso. Professores e professauros: PERRENOUD, Philippe. Dez novas competências para
reflexões sobre a aula e práticas pedagógicas ensinar. Porto Alegre: Artmed, 2000.
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SOLINO, Antonia da Silva. O método de aprendi-
BORDENAVE, Juan Díaz & PEREIRA, Adair Martins. zagem por problemas no ensino de Administração:
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Janeiro: Vozes, 2007. realidade organizacional. 2006. Disponível em:
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<http://www.inepad.org.br/ensino/>. Acesso em: VASCONCELLOS, Celso dos S. Construção do conheci-
5 de maio de 2007. mento em sala de aula. São Paulo: Libertad, 2002.

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Aniele Fischer Brand, Suzana da Rosa Tolfo, Maurício Fernandes Pereira e Martinho Isnard Ribeiro de Almeida

ATUAÇÃO ESTRATÉGICA DA ÁREA DE GESTÃO DE PESSOAS EM ORGANIZAÇÕES


DE SAÚDE: UM ESTUDO À LUZ DA PERCEPÇÃO DOS PROFISSIONAIS DA ÁREA
ACTIVITY AREA OF STRATEGIC MANAGEMENT OF PEOPLE IN HEALTH CARE
ORGANIZATIONS: A STUDY OF THE PROFESSIONALS’ PERCEPTION OF THE AREA
Aniele Fischer Brand Recebido em: 07/07/2008
Professora do Departamento de Ciências da Administração da UFSC Aprovado em: 15/10/2008

Suzana da Rosa Tolfo


Professora Adjunto da Universidade Federal de Santa Catarina - Centro de Filosofia e Ciências Humanas,
Departamento de Psicologia Campus Universitário - CFH -Departamento de Psicologia
Maurício Fernandes Pereira
Professor Adjunto IV da Universidade Federal de Santa Catarina
Martinho Isnard Ribeiro de Almeida
Professor do departamento de Administração da FEA/USP

RESUMO ABSTRACT
Atualmente, há uma discussão sobre a necessidade de Currently, there is a debate regarding the necessity
mudança do papel das pessoas nas organizações, for change in the vision of the area of human
especialmente por parte dos profissionais de gestão de resources and the role of the personnel manager
pessoas. Na “moderna gestão de pessoas”, os indivíduos within an organization. In the ‘modern manage-
não são mais vistos como mero “recurso” ou “patrimô- ment of people’ the people are not seen as a
nio” da organização, mas como “parceiro” ou “colabo- ‘resource’ or a ‘patrimony’ of the organization. but
rador” no alcance dos resultados organizacionais. O ob- as a ‘partner’ in the reach of organizational results.
jetivo do estudo é apresentar os resultados de uma pes- The objective of the study is to present the results
quisa sobre a percepção de profissionais de gestão de of a research about the professionals’ perception
pessoas de unidades de saúde de Florianópolis a respeito of personnel management in the organizations
da sua área de atuação. A pesquisa caracterizou-se como involved in the study regarding its area perfor-
exploratória e descritiva, sendo um estudo predominan- mance. The research is characterized as exploratory
temente qualitativo. A população da pesquisa compreen- and descriptive, being a predominantly qualitative
deu profissionais de organizações do setor de saúde de study. The results of the study allow to demonstrate
Florianópolis, públicas e privadas, com prestação de serviços that the professionals of human resources of the
nas áreas hospitalar, clínica, de diagnóstico e laboratorial, searched organizations, perceive its area as stra-
além da gestão pública de saúde. Os resultados da pesquisa tegic importance for all the organizational func-
permitem demonstrar que os profissionais de recursos tioning. However, they had also disclosed that this
humanos das organizações pesquisadas percebem a sua strategic role is still little recognized by the
área como de relevância estratégica para todo o funcio- managers of the organizations.
namento organizacional, à medida que trata das questões
dos clientes internos e consumidores. Porém, também
revelaram que esse papel estratégico ainda é pouco
reconhecido pelos gestores das organizações, sejam elas
públicas, sejam privadas.
Palavras-chave: gestão de pessoas, estratégia Keywords: people management, organizational
organizacional, organizações de saúde. strategy, health organizations.

Endereços dos autores:


Aniele Fischer Brand
Av. Des. Pedro Silva, 2034, bloco 01 apt. 12. Coqueiros, Florianópolis-SC - CEP 88080-701 - e-mal: aniele.adm@gmail.com
Suzana da Rosa Tolfo
Sala 12 - Trindade - CEP 88040-970 - Florianópolis-SC - Brasil - e-mail: srtolfo@yahoo.com.br
Maurício Fernandes Pereira
Trindade - CEP 88040-970 - Florianópolis-SC - Brasil - e-mail: mpereira@cse.ufsc.br
Martinho Isnard Ribeiro de Almeida
Rua Rita Joana de Souza, 138 - Campo Belo - São Paulo-SP - CEP 04601-060 - e-mail: martinho@usp.br

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ATUAÇÃO ESTRATÉGICA DA ÁREA DE GESTÃO DE PESSOAS EM ORGANIZAÇÕES DE SAÚDE:
UM ESTUDO À LUZ DA PERCEPÇÃO DOS PROFISSIONAIS DA ÁREA

1. INTRODUÇÃO Nesta perspectiva, percebe-se uma tendência no


sentido de que as pessoas não sejam mais vistas como
A área de Gestão de Pessoas desempenha uma insumos ou recursos a serem controlados pela em-
função estratégica nas organizações. A gestão presa para a ela servirem sem o envolvimento real e
estratégica de pessoas destaca-se como requisito para interesse com o trabalho, mas como parceiros diante
alinhar as pessoas à estratégia da organização. de um objetivo comum de busca por resultados que
Todavia, às vezes essa importância não é devidamente venham também atender às suas necessidades e aos
observada pelos profissionais que nela atuam seus interesses individuais e profissionais.
(BOSQUETTI & ALBURQUEQUE, 2005).
Para que essa visão de parceria se estabeleça nas
Tradicionalmente, quando se fala o termo “recur-
organizações, torna-se necessário romper com o pas-
sos humanos” em administração, pensa-se em plane-
sado, deixar de lado alguns conceitos e experiências
jamento, capacitação, seleção, plano de cargos e
tradicionais, e buscar soluções criativas, ampliando-se
salários, dentre outras práticas comuns à área. Con-
a atuação da área de gestão de pessoas para uma
tudo, esse conceito tem evoluído para adequar-se às
perspectiva estratégica. Esta visão tem sido amplamente
transformações do ambiente das organizações. Em
discutida pelos especialistas da área, que entendem as
decorrência da necessidade de as empresas adap-
pessoas como a dimensão que fará a diferença para
tarem-se às pressões externas, inclusive revendo seus
todos os tipos de organização na nova era do conhe-
modelos de gestão, ocorrem muitas mudanças no
cimento e da inteligência competitiva (GIL, 2001; TA-
modo de pensar e de agir dos profissionais da área
CHIZAWA, FERREIRA & FORTUNA, 2001; CARDWELL & TICHY,
de recursos humanos, que enfrentam desafios e
2003; NANUS, 2000; SULL, 2003; TICHY & COHEN, 1999).
buscam modificar a visão acerca das pessoas que
fazem parte do corpo funcional de uma organização. Nas organizações de saúde, este quadro não é
diferente. Com a exigência maior por qualidade na
As mudanças que afetam as empresas, fazendo
prestação de serviços, o aperfeiçoamento tecnológico
com que elas tenham que responder às demandas
e a concorrência do setor, as organizações de saúde
do mercado competitivo, têm se caracterizado pelo
também se preocupam em aperfeiçoar suas políticas
estabelecimento de estruturas mais flexíveis, pro-
de gestão, implementando ações no sentido de
cessos decisórios descentralizados, transformações
otimizar o desempenho dos seus colaboradores e
dinâmicas de tecnologia, envolvimento de todos os
garantir um maior grau de satisfação dos clientes.
setores da organização na busca por resultados, além
de formas mais integradas e dinâmicas das relações Com o intuito de identificar melhor as práticas de
de trabalho. Para implementar essas transformações, gestão de pessoas em face dos argumentos quanto ao
os modelos de gestão precisam também ser mo- seu papel estratégico na atualidade, buscou-se, neste
dificados, destacando-se que a gestão dos recursos artigo, caracterizar a percepção de profissionais de gestão
humanos passa a ser orientada por novas premissas, de pessoas de organizações vinculadas ao setor de saúde
como referiu Dutra (2002: 16-17) ao abordar o novo de Florianópolis, a respeito da sua área de atuação.
conceito de gestão de pessoas:
(...) a gestão de pessoas deve ser integrada, e o 2. ASPECTOS TEÓRICOS E CONCEITUAIS
conjunto de políticas e práticas que a formam
deve, a um só tempo, atender aos interesses e A competitividade, cada vez mais acirrada no
expectativas da empresa e das pessoas. Somente ambiente empresarial, gerada por fatores como
dessa maneira será possível dar sustentação a mudanças tecnológicas e globalização da economia,
uma relação produtiva entre ambas. A concilia- fez com que organizações de todos os setores pas-
ção de expectativas está relacionada ao com- sassem a implantar modelos de gestão mais flexíveis,
partilhamento de responsabilidades entre a em- baseados na participação dos trabalhadores, na busca
presa e a pessoa. À empresa cabe o papel de da satisfação dos clientes, em processos decisórios
estimular e dar o suporte necessário para que descentralizados, no envolvimento de todos os setores
as pessoas possam entregar o que têm de me- da organização na busca por resultados, além de
lhor, ao mesmo tempo em que recebem o que formas mais integradas e dinâmicas das relações de
a organização tem de melhor a oferecer-lhes. trabalho (ALBUQUERQUE, 2002; DUTRA, 2002). Nesse

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Aniele Fischer Brand, Suzana da Rosa Tolfo, Maurício Fernandes Pereira e Martinho Isnard Ribeiro de Almeida

aspecto, verificou-se que as transformações ocorridas A vantagem competitiva almejada pelas empresas
nos modelos de gestão administrativa influenciaram se distingue, de acordo com as discussões observadas
a forma de gerenciar pessoas, alterando o perfil exigido na atualidade, por uma concepção tradicional, que
pelas empresas e priorizando a busca por um profis- define como maior objetivo da organização a ma-
sional autônomo, empreendedor, participativo e envol- ximização da riqueza e o retorno máximo para seus
vido com o sucesso do negócio da empresa na qual acionistas; e por uma visão transformadora, cujo prin-
atua (DUTRA, 2001). Sendo assim, a administração das cípio é de que a organização tem como objetivo aten-
pessoas passou a ter um caráter estratégico, como der aos interesses e às necessidades de todos os seus
meio para a promoção de mudanças que auxiliem as stakeholders – acionistas, empregados, consumidores/
empresas, no sentido de uma atuação mais eficaz e clientes – e da sociedade em geral. Neste sentido,
efetiva no mercado competitivo. torna-se desafio para a empresa conseguir articular
todos esses grupos na direção dos propósitos orga-
O conceito de estratégia foi adotado pela teoria
nizacionais (MOHRMAN & LAWLER III, 1995).
das organizações para discutir formas de alcançar
objetivos organizacionais. Tradicionalmente, falar em Os desafios nas três dimensões (ambientais, or-
estratégia significa reportar-se aos cenários nos quais ganizacionais e individuais) a que estão sujeitas as
a organização atua, ou seja, a partir das característi- organizações precisam ser por elas enfrentados para
cas e da interpretação desse cenário, a organização que se tornem efetivas no mercado em que atuam;
pode precisar rever e reformular estratégias de ação, sobretudo, para que consigam estabelecer uma nova
objetivos, tecnologias ou modelos de gestão, a fim postura em relação aos seus colaboradores, uma ação
de responder aos desafios e às demandas impostas direcionada à gestão de pessoas, estimulando o com-
pelo ambiente (CARVALHO, 1995). prometimento de todos com os resultados da orga-
nização. Historicamente, a vinculação do papel da
Para Porter (1986), desenvolver uma estratégia gestão de pessoas às estratégias da empresa ganhou
competitiva significa definir uma “fórmula” ampla força, à medida que se percebeu que os processos
sobre o modo como a empresa vai competir, deli- clássicos da área, da contratação à definição de
neando suas metas e as políticas necessárias para im- benefícios e salários, passando pelas práticas de treina-
plementá-las. Ao vincular o conceito à competitividade, mento, tendiam a influenciar aspectos do compor-
o autor entendeu estratégia como a busca de uma tamento e da motivação humana e, por conseqüência,
posição competitiva favorável em uma indústria, a afetar o desempenho do empregado no trabalho. Por
arena fundamental onde ocorre a concorrência. outro lado, os desafios ambientais impostos às em-
A partir das definições das Escolas da Estratégia presas, tais como a globalização da economia, a evo-
de Mintzberg, Ahlstrand & Lampel (2000) e de alguns lução da comunicação, a abertura e competitividade
aspectos em comum nelas identificados, Albuquerque de mercados, também demonstraram, ao longo do
(2002) indicou características que podem auxiliar na tempo, a necessidade de que a área passasse a ter
formação do conceito de estratégia, uma vez que as um novo perfil institucional e comportamental, apro-
definições encontradas na literatura parecem não priando-se não apenas de novos processos de gestão
contemplar seus diferentes significados. Este autor das pessoas, mas também dos recursos da tecnologia
destacou que a estratégia se caracteriza pelos seguin- da informação, dos novos conhecimentos e meto-
tes aspectos: dar a direção da empresa; resultar do dologias geradas na própria área e fora dela, e das
processo de decisão; abranger a relação da empresa reformulações legais que estabelecem novos modelos
com o ambiente; buscar resultados em longo prazo de relações de trabalho (MOHRMAN & LAWLER III, 1995).
para a empresa; e envolver “questões de conteúdo Segundo Gil (2001), consoante essa nova visão, a
e de processo”. Em um sentido mais amplo, o con- gestão de pessoas deverá preparar-se para mudanças,
ceito de formulação estratégica é identificado como a fim de adotar um caráter mais consultivo e preven-
um processo que inclui a análise do ambiente da tivo, voltado à ação estratégica, além de buscar parce-
empresa, com o reconhecimento das ameaças e das rias e atuar na direção da mudança cultural. Essa mu-
oportunidades, a definição dos objetivos a serem al- dança deve levar a área a estabelecer-se em estru-
cançados e as estratégias que garantam a vantagem turas mais enxutas que atuam na direção dos negócios
competitiva da empresa junto ao mercado. da organização sob a orientação de planejamento de

Gestão & Regionalidade - Vol. 24 - Nº 71 - edição especial - XI Semead 2008 - out/2008 81

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ATUAÇÃO ESTRATÉGICA DA ÁREA DE GESTÃO DE PESSOAS EM ORGANIZAÇÕES DE SAÚDE:
UM ESTUDO À LUZ DA PERCEPÇÃO DOS PROFISSIONAIS DA ÁREA

longo prazo, o que exigirá que os profissionais de cou que a nova proposta gerencial exige que a gestão
gestão de pessoas assumam novas responsabilidades. de pessoas envolva tarefas que se iniciem com a
procura de pessoas que se incorporem à organização,
Para assumir as novas responsabilidades, os pro-
com sua integração e permanência, com seu desen-
fissionais que atuam com gestão de pessoas precisam
volvimento pessoal e funcional, com a forma de con-
adquirir ainda novas competências conceituais, técnicas
duzir as atividades dos integrantes da organização e
e humanas, sistematizadas em um novo perfil, de acordo
com a pesquisa e a busca por melhores formas de
com o qual sejam capazes de atender tanto aos usuários
conseguir sua crescente integração e maior partici-
internos como aos externos à organização. Também são
pação na vida da empresa. Segundo o mesmo autor,
necessários outros aspectos, quais sejam: abertura para
para ser eficaz, o planejamento de recursos humanos
as novas tecnologias administrativas, capacitação e
precisa articular-se com o planejamento global da
motivação dos empregados, ações voltadas à qualidade
organização, a fim de que possam ser obtidas as in-
de vida no trabalho e agregação de valor aos em-
formações necessárias para a definição de suas dire-
pregados, à empresa e aos clientes. O gestor de pessoas
trizes operacionais. Nesse sentido, o setor de gestão
também deve ser capaz de atuar como agente de mu-
de pessoas não existe isolado dentro da organização,
danças, de modo a desenvolver a capacidade da
devendo sempre manter um relacionamento dinâ-
organização de aceitar a mudança e com ela capitalizar-
mico com os demais setores existentes.
se. Ele precisa, principalmente, reconhecer as pessoas
como parceiras da organização, proporcionando com- Para Pereira (2001), o desenvolvimento da gestão
petitividade à empresa, e basear-se em comportamentos de pessoas se faz principalmente na vivência do co-
éticos e socialmente responsáveis. tidiano, acompanhada, supervisionada e transforma-
da em situações de aprendizagem, cabendo ao gerente
Segundo Lefèfre (2001), no setor de saúde, as políticas descobrir o que seu grupo pensa ou percebe, e que
de gestão de pessoas têm características peculiares, que representações e aspirações tem a respeito de seu
as diferenciam dos outros setores da administração. Os próprio desempenho e do papel que a organização
recursos humanos são vistos, em uma perspectiva desempenha nesse contexto. A autora destacou, que
moderna de gestão, como a riqueza e o patrimônio da o gerente de gestão de pessoas não é mais aquele
administração. No setor da saúde, especialmente, as técnico responsável apenas por um setor de pessoal
relações entre o cliente e a equipe de trabalho são cujas obrigações restringem-se ao registro de ocorrên-
importantes para que sejam alcançados os objetivos da cias nos prontuários dos trabalhadores. Ele deve aliar
organização, pois os profissionais precisam estar à sua capacidade administrativa e ao seu conheci-
motivados, preparados, e ser capazes de desenvolver mento técnico um alto grau de sensibilidade, que lhe
suas tarefas, haja vista que eles lidam diariamente com permita enxergar necessidades, expectativas, potencia-
vidas de pessoas. Nesse caso, os recursos humanos são lidades e desejos de seus trabalhadores, bem como as
compreendidos como sendo meios, e não fins, para a necessidades da realidade social na qual estão inseridos
obtenção de melhores resultados. Sendo assim, os e para qual se destina o produto de seu trabalho.
trabalhadores devem estar conscientes de sua res-
O funcionário, por sua vez, deve ser capacitado
ponsabilidade e possuir uma formação sólida, a fim de
para o exercício de funções mais complexas, de
que consigam atender a todas as necessidades da
maneira que possa, com isso, aspirar um crescimento
comunidade para a qual trabalham, pois, com as alte-
pessoal e profissional que lhe traga maior satisfação
rações que as relações sociais vêm sofrendo ao longo
diante das suas expectativas pessoais e motivação
do tempo, fizeram com que a população passasse a ter
para que haja uma maior integração com a organi-
uma visão e uma postura muito mais críticas em relação
zação. No ambiente organizacional da saúde, por-
aos serviços que lhe são oferecidos.
tanto, por se tratar de organizações prestadoras de
De acordo com Cornetta (2001), na atividade serviço, essas demandas e a atualidade não podem
organizacional moderna, a gestão de pessoas com- estar distantes do dia-a-dia dos profissionais, sendo
preende um amplo conjunto de complexas atividades, necessário, então, que as pessoas sejam cada vez
todas voltadas para o pleno desenvolvimento das mais capacitadas e comprometidas com o trabalho e
tarefas que a organização se propõe a realizar e as a função que exercem. Além disso, o novo papel de
metas que pretende atingir. Para isso, o autor desta- gestão de pessoas não deve se limitar a mudar de

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foco operacional para estratégico, mas sim identificar, ratorial e radiotecnológico); e uma de clínica médica.
aprender e dominar os papéis múltiplos e complexos Dessas organizações, quatro são públicas, cinco são
que a gestão de pessoas deve ter na empresa, tanto privadas e uma tem natureza filantrópica.
em nível operacional quanto estratégico, bem como As informações foram coletadas por meio de en-
nas dimensões de processos e de pessoas. trevistas semi-estruturadas com profissionais da área de
Assim, a visão de parceria que se estabelece entre gestão de pessoas das organizações envolvidas na
organização e funcionário está vinculada aos princípios amostra. Foram realizadas 13 entrevistas (na organiza-
e valores que sustentam uma determinada política ou ção responsável pela gestão pública de saúde, foram
prática junto aos empregados. É por isso que se torna entrevistadas quatro pessoas), com o auxílio de um ins-
necessário conhecer a percepção dos gestores de trumento que serviu de roteiro para a descrição das res-
pessoas, que representam a organização, acerca do “ser postas dos entrevistados. Este instrumento continha
humano” que atua na empresa, pois é a forma como a perguntas abertas, fechadas e um quadro com indica-
organização “percebe” seus colaboradores que dores de freqüência que orientou os entrevistados nas
demonstrará se a empresa atua sob uma perspectiva de respostas sobre temas específicos relacionados ao ob-
gestão de “pessoas” ou gestão de “recursos”, o que é jetivo da pesquisa. Ainda como elementos de coleta de
expresso nas suas políticas e práticas de ação. dados e informações para o desenvolvimento do estudo,
foram utilizadas fontes secundárias, como bibliografias
e documentos relacionados ao setor de saúde.
3. ASPECTOS METODOLÓGICOS
Os dados obtidos nas entrevistas foram organiza-
Em termos metodológicos, a pesquisa caracteri- dos de duas formas: em relação às questões fechadas
zou-se como exploratória ao estudar um tema ainda do instrumento de pesquisa, procedeu-se à análise
passível de conhecimento sistematizado (VERGARA, de freqüência de respostas, a fim de que se pudesse
1998). É também descritiva, pois apresentou a per- obter a informação objetiva a respeito do perfil dos
cepção de profissionais de gestão de pessoas sobre profissionais de recursos humanos e as características
a área em que atuam. Como delineamento, carac- do setor em que atuam. Já no que diz respeito às
terizou-se como um estudo múltiplo de casos, pois questões subjetivas e que envolviam as percepções
focalizou uma realidade específica ao examinar o dos entrevistados, as informações foram analisadas
problema inserido em seu contexto atual, diferente de forma descritiva com o auxílio de procedimentos
do método histórico que aborda o passado. O estudo preliminares de análise de conteúdo e sob a orien-
foi predominantemente qualitativo, tendo em vista tação do referencial teórico, no sentido de responder
o caráter do tema escolhido e os procedimentos uti- às perguntas da pesquisa, previamente formuladas.
lizados na coleta e na análise dos resultados.
A população da pesquisa compreendeu organiza- 4. APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DOS
ções do setor de saúde de Florianópolis, públicas e RESULTADOS
privadas, com prestação de serviços nas áreas
hospitalar, clínica, de diagnóstico e laboratorial, além 4.1. Percepção dos profissionais quanto à
da gestão pública de saúde. A definição da amostra atuação da área de gestão de pessoas na
deu-se de forma não-aleatória, intencional e por organização
acessibilidade, ou seja, considerando o acesso e as
As áreas de gestão de pessoas das organizações de
características das organizações a serem envolvidas,
saúde envolvidas na pesquisa estão estruturadas, na
segundo os objetivos do estudo. A amostra foi for-
grande maioria, no nível tático de atuação. Ou seja,
mada por profissionais que atuavam em dez organi-
definem a forma como as políticas de gestão de pessoas
zações, vinculadas ao setor de saúde de Florianópolis,
são desenvolvidas, porém sem uma atuação direta na
que apresentavam unidades de atuação específicas
decisão sobre que políticas devem ser implantadas.
junto aos recursos humanos em sua estrutura orga-
nizacional. Assim, fizeram parte da amostra deste Nas organizações ligadas ao setor público, a área
estudo profissionais de uma organização de gestão de gestão de pessoas segue as determinações das
pública de saúde – quatro de serviço assistencial políticas estaduais de administração de recursos hu-
(hospitalar-ambulatorial); quatro de diagnóstico (labo- manos, notadamente no que diz respeito à gestão de

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ATUAÇÃO ESTRATÉGICA DA ÁREA DE GESTÃO DE PESSOAS EM ORGANIZAÇÕES DE SAÚDE:
UM ESTUDO À LUZ DA PERCEPÇÃO DOS PROFISSIONAIS DA ÁREA

pessoal. Além disso, a referida área também precisa dica, é comum perceber-se o seu despreparo e desco-
seguir as políticas de recursos humanos da Secretaria nhecimento acerca de princípios básicos de gestão
da Saúde, vinculada ao Sistema Estadual de Recursos administrativa, notadamente na gestão das pessoas.
Humanos. Neste sentido, a ação do setor de gestão Exemplo disso é a constatação sobre a dificuldade em
de pessoas na organização que atua diretamente com serem aprovados programas de capacitação, reali-
os profissionais de saúde se caracteriza pela pouca zação de cursos e capacitações para os funcionários
autonomia em termos de inovação nas práticas de que necessitam aperfeiçoar-se, de modo a melhor
gestão ou mudanças nos modelos de recursos huma- executarem seu trabalho. Por terem uma visão muito
nos. Estruturalmente, o setor é vinculado à direção- técnica, os dirigentes parecem não perceber tal ne-
geral ou gerência administrativa do órgão em que se cessidade, bem como a importância na modificação
situa e, política e tecnicamente, à Diretoria de Recursos de rotinas e definição de ações voltadas às pessoas,
Humanos (DRH) da Secretaria de Estado da Saúde. que seriam básicas e essenciais para melhorar o seu
Já na esfera privada, a maioria dos setores de ges- desempenho, mas que são por eles negadas.
tão de pessoas está subordinada à gerência admi- Em relação às características dos setores de gestão
nistrativa ou à direção-geral da organização. Nesse caso, de pessoas nas organizações estudadas, pode-se dizer
destaca-se que tais organizações apresentam uma es- que foram identificadas duas situações ao mesmo
trutura típica de empresas privadas, e a área de recur- tempo contrastantes e contraditórias. No setor públi-
sos humanos tem um papel estratégico na organização, co, a área de gestão de pessoas é formalizada na
atuando tanto no nível decisório quanto na implemen- estrutura dos órgãos de saúde, tem atribuições espe-
tação das políticas do setor. Este tipo de vínculo foi cíficas, porém ainda conservadoras e centralizadas,
especialmente observado em uma das organizações com o predomínio de funções operacionais.
pesquisadas, na qual os profissionais têm um papel Já no setor privado, onde poderiam ser identi-
estratégico na definição e no desenvolvimento de ativi- ficadas estruturas flexíveis e baseadas em princípios
dades que extrapolam a gestão de pessoas tradicional. que definissem a gestão de pessoas de uma forma
Sua atuação é de assessoria e consultoria interna, o mais estratégica, encontrou-se, em sua maioria, orga-
que demonstra as novas tendências para as quais se nizações com áreas pouco estruturadas e pouca auto-
volta a área de gestão de pessoas das organizações. nomia, com atribuições clássicas da administração
Em relação à estrutura de gestão de pessoas das de recursos humanos e não-formalizadas no contexto
organizações estudadas, vale ressaltar, entretanto, que, da estrutura da organização de saúde. Tal quadro
na maioria das vinculadas ao setor privado, a área se pode decorrer do tamanho da organização e do grau
restringe à pessoa do profissional de gestão de pes- de profissionalização administrativa em que tal orga-
soas. Isto é, o setor de gestão de pessoas não é for- nização se encontra, bem como pelo modo como
malizado na estrutura da empresa, mas sim o profis- está estruturada em termos de natureza do negócio:
sional, que está vinculado à direção da mesma. Este normalmente, são constituídas por vários sócios, pro-
dado também pode ser associado a uma visão mais fissionais da área médica que mantêm a cultura da
contemporânea de gestão de pessoas, na qual a área clínica ou do consultório particular, não percebendo
se estabelece de forma descentralizada, à medida que que sua empresa tem toda uma complexidade a ser
se considera que “todos os gestores são gestores de gerenciada para que possa funcionar adequadamente
pessoas”, cabendo ao especialista da área dar suporte e alcançar os resultados esperados.
para que os demais atuem dentro deste princípio. Em relação ao perfil dos profissionais de saúde
Apesar disso, o que se observou também, em envolvidos na pesquisa, na análise dos dados da
depoimentos de alguns profissionais entrevistados, foi pesquisa de campo foi possível verificar que os
uma grande dificuldade de se disseminar uma nova profissionais de gestão de pessoas das organizações
idéia de gestão e o princípio de que as pessoas podem de saúde abordadas neste estudo possuem um perfil
ser o diferencial dentro da organização de saúde, des- bem diversificado. Observou-se que, dos 13 entrevis-
de que se desenvolvam políticas adequadas às suas tados, apenas quatro possuem graduação em Admi-
necessidades demandadas das relações de trabalho. nistração. A formação dos demais está distribuída
Considerando que, nessas organizações, a direção, em nas áreas de Psicologia, Medicina, Ciências Sociais,
sua maioria, é assumida por profissionais da área mé- Serviço Social, Filosofia, Enfermagem, Agronomia

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Aniele Fischer Brand, Suzana da Rosa Tolfo, Maurício Fernandes Pereira e Martinho Isnard Ribeiro de Almeida

e licenciatura em Geografia. Apesar da suposta tempo de serviço no referido setor. Dos entrevistados,
discrepância na relação entre formação acadêmica três estão na área há menos de um ano, sete atuam
e função profissional, destaca-se que oito entre- entre um ano e meio e sete anos, um respondente
vistados têm cursos de pós-graduação em nível de há oito anos e meio e dois há mais de dez anos.
especialização em gestão de pessoas, além dos que
se especializaram em áreas diretamente ligadas à Constatou-se, também, que 61,54% dos profis-
gestão de organizações e à área hospitalar. Um en- sionais têm mais de 36 anos de idade. Isso pode
trevistado tem formação em nível de mestrado. explicar as razões de a maioria das referidas organi-
zações ainda estar atuando sob um enfoque de
Esse quadro demonstra que a gestão de pessoas gestão de pessoas mais tradicional ou operacional.
nas organizações não está necessariamente exigindo Os profissionais não desenvolveram uma visão mais
uma formação específica em Administração, no caso holística para gerir os recursos humanos da empresa,
das organizações de saúde pesquisadas. Existe uma pois já assumiram uma cultura que pode não aceitar
certa flexibilidade e abertura para o acesso a outras muito facilmente as mudanças, uma vez que, para
categorias profissionais neste tipo de trabalho, espe- estas se consolidarem, precisam ser quebrados
cialmente no setor público, em que o sistema de as- conceitos que até então foram por eles adotados.
censão a determinados cargos administrativos não
pressupõe uma formação técnica específica na área. Dessa forma, pode-se afirmar que o perfil do gestor
Todavia, sabe-se que o conhecimento do setor em de pessoas também influencia as formas de
que se atua como gestor de pessoas torna-se funda- comportamento organizacional. Caso não estejam
mental para uma análise mais consubstanciada da rea- preparados para enfrentar e desencadear as mudanças
lidade, para o planejamento e a tomada de decisões. necessárias com o passar dos anos, a organização po-
derá apresentar limitações no seu funcionamento inter-
No caso de profissionais eminentemente técnicos no, seja pela ineficiência das rotinas desenvolvidas nos
e sem nenhum tipo de formação administrativa, a setores de gestão de pessoas, seja pelas dificuldades
gestão de pessoas tende a limitar-se ao controle mais de relacionamento organizacional ou, até mesmo, pela
burocrático ou a práticas essencialmente operacio- falta de motivação dos seus colaboradores.
nais, sem a necessária abordagem de outros aspectos
que são necessários para a integração dos cola- Em termos das atividades desenvolvidas pelos
boradores à missão organizacional, como os progra- setores de gestão de pessoas nas organizações
mas de compensação, benefícios, treinamento ou pesquisadas, pode-se distinguir entre o setor público
remuneração. Como ilustração dessas questões, foi e o privado. No setor público, as práticas são
mencionado que profissionais graduados na área instituídas e padronizadas segundo as políticas
médica, por exemplo, por possuírem uma visão muito públicas de administração de recursos humanos,
técnica e não terem clareza quanto às especificidades caracterizando-se, principalmente, como operacionais
da gestão administrativa, tendem a dificultar as e de controle. Nesse sentido, são desenvolvidas
atividades diárias da área de gestão de pessoas, como atividades típicas dos tradicionais setores de pessoal,
demonstraram três participantes: como controle da vida funcional do trabalhador,
controle de ponto, férias, organização e controle de
(...) é difícil trabalhar com pessoas com visão
hora-plantão, escala de trabalho, vale-transporte e
técnica, mais fechada, como médicos, bioquí-
vale-alimentação, projetos e controle de programas
micos etc. (...) (Entrevistado 1);
de estágio e orientações ou encaminhamentos às
(...) o RH não tem apoio da direção (médicos), que
áreas da psicologia e médica.
não percebem (sic) que são as pessoas que vão
gerar lucros para empresa (...) (Entrevistado 2); Ainda no setor público, é atribuição da área de
(...) há dificuldades de se trabalhar porque a gestão de pessoas a coordenação de atividades de
direção não entende a importância do setor educação continuada e treinamento. Porém, segundo
de recursos humanos (...) (Entrevistado 3). os depoimentos, as políticas para estas atividades
encontram-se cada vez mais limitadas, assim como é
Um outro aspecto ligado ao perfil dos profissionais bastante restrita a participação dos funcionários
que atuam nos setores de gestão de pessoas é o quando os programas de treinamento acontecem.

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ATUAÇÃO ESTRATÉGICA DA ÁREA DE GESTÃO DE PESSOAS EM ORGANIZAÇÕES DE SAÚDE:
UM ESTUDO À LUZ DA PERCEPÇÃO DOS PROFISSIONAIS DA ÁREA

Já nas organizações de caráter privado, as práticas organização, a maioria dos profissionais entrevistados
de gestão de pessoas são mais abrangentes. A maioria reconhece o setor de gestão de pessoas como o mais
dos setores de gestão de pessoas atua em todos os importante da organização. Eles percebem que o de-
processos ligados à área, responsabilizando-se desde sempenho eficiente da organização, a motivação e a
a admissão do funcionário até o seu desligamento da satisfação dos funcionários, e o clima organizacional
organização. Nesse sentido, desenvolve atividades de favorável só se estabelecem se houver uma gestão de
recrutamento, seleção, avaliação de desempenho, pro- pessoas bem estruturada e que trabalhe em conjunto
gramas de treinamento e desenvolvimento, programas com os níveis estratégicos e gerenciais da organização.
de benefícios e remuneração, além das ações voltadas Nesse sentido, constataram-se três manifestações:
à qualidade de vida e à melhoria da satisfação e da (...) se não tiver uma gestão de pessoas bem
produtividade no trabalho. estruturada, vinculada com a direção (gestão
Destacou-se, dentre as organizações privadas en- de pessoas estratégica), participando ativamen-
volvidas na pesquisa, uma que tem no setor de ges- te das decisões da empresa, isso gera funcio-
tão de pessoas o principal suporte em termos de nários insatisfeitos e, conseqüentemente, pode
gestão organizacional. A área atua em todas as fren- gerar um atendimento com pouca qualidade
tes da organização, enquanto consultoria interna e (Entrevistado 4);
de caráter estratégico, descentralizando a função e (...) o RH é todo o suporte da organização (...)
preparando outros gerentes para atuar como gestores (Entrevistado 8);
de pessoas. Nessa perspectiva, essa organização, em (...) o RH é a mola propulsora dentro da
termos de gestão de pessoas, é um dos exemplos da empresa (Entrevistado 12).
aplicação da visão dos colaboradores como parceiros, Em relação às atividades desenvolvidas pelos
e não como recursos. setores de gestão de pessoas, os entrevistados do
Nas organizações do setor público, fatores como setor público manifestaram-se no sentido de que,
a centralização do poder, a má qualificação de pessoas na maioria das organizações públicas, não são atin-
que ocupam cargos estratégicos, o desvio de função, gidos os reais objetivos da área. Dentre as justificativas
o desinteresse por parte da direção com relação à para essa manifestação, estão as seguintes: a centra-
importância do setor de recursos gestão de pessoas, lização, tanto administrativa como de recursos, que
dentre outros, contribuem para uma avaliação nega- impede o investimento em ações mínimas de gestão
tiva da gestão de pessoas. de pessoas; a falta de preocupação dos dirigentes
Em algumas organizações privadas abordadas, por com o setor, não dando a ele a importância necessária;
outro lado, pôde-se constatar, na prática, que quase a falta de profissionais com qualificação adequada
sempre os funcionários são vistos como colaboradores para exercerem cargos estratégicos na área; e a
que trabalham em equipes, existindo a interdepen- ausência de estrutura adequada para se capacitar
dência entre os colegas e as equipes de trabalho; o adequadamente os funcionários, sendo alguns cargos
conhecimento, a inteligência e o talento individual mais beneficiados do que outros em relação à capa-
são valorizados na organização; a prioridade é o aten- citação de recursos humanos.
dimento e a satisfação dos clientes, e o funcionário No setor privado, por sua vez, a maioria dos
deve atuar vinculado à missão e à visão da orga- profissionais percebe que, por meio das suas ativida-
nização, com o reforço da ética e da responsabilidade des desenvolvidas, consegue atingir seus objetivos, pois
social dentro da empresa. Porém, alguns fatores cada colaborador possui a sua meta, o que permite a
apresentados na teoria, que dizem caracterizar a visão observação concreta dos resultados da política implan-
de pessoas como recursos, também são observados tada e da sua operacionalização pela organização. As
em algumas dessas instituições, tais como: o funcio- pessoas são adequadamente distribuídas nos cargos,
nário é subordinado e dependente da chefia; há gran- na medida do possível respeitando-se seu perfil e sua
de preocupação acerca do cumprimento de normas competência. Há, ainda, uma boa comunicação da área
e regras; os horários são rigidamente estabelecidos com os funcionários. Nesse setor, apenas profissionais
e controlados. de duas organizações privadas relataram não conseguir
Em termos da percepção dos profissionais quanto atingir os reais objetivos do setor, em decorrência de
aos objetivos, às funções e à importância da área na uma área de gestão de pessoas ainda mal estruturada

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Aniele Fischer Brand, Suzana da Rosa Tolfo, Maurício Fernandes Pereira e Martinho Isnard Ribeiro de Almeida

e cercada pelas restrições gerenciais e pela falta de apoio Para esses profissionais, mesmo considerando as
por parte da direção. limitações que enfrentam dentro de seus próprios
setores de trabalho, a área de gestão de pessoas
precisa atuar no sentido de que os funcionários sejam
5. CONCLUSÕES vistos como colaboradores essenciais da organização,
As informações obtidas na pesquisa permitem os agentes que podem fazer a diferença na relação
demonstrar que a percepção dos profissionais nem entre o cliente externo e a própria empresa.
sempre demonstra a realidade como é tratada a área Apesar dessa compreensão, os profissionais de
de gestão de pessoas nas organizações de saúde. gestão de pessoas das organizações pesquisadas
Por se tratar de organizações de natureza técnica e demonstraram não conseguir, por vezes, executar ta-
voltadas à produção de serviços, observa-se uma refas que julgam essenciais para o desenvolvimento
maior preocupação com os resultados (a qualquer de seus colaboradores e da própria organização.
preço) do que com o processo. Nesse aspecto, os
profissionais de gestão de pessoas demonstraram Isso ocorre principalmente no setor privado, onde
que, apesar de perceberem a área como sendo de os profissionais técnicos que ocupam cargos de
fundamental importância, as organizações (direção direção entendem que a área de gestão de pessoas
ou setores/pessoas a que a área de gestão de pessoas deve limitar-se a controlar o cartão de ponto, recrutar,
encontra-se diretamente ligada), em sua maioria, têm punir e fazer outras tarefas “mecânicas”. No setor
a visão dos funcionários ainda como recursos, que público, os maiores problemas são os seguintes: a
estão ali somente para produzir e dar retorno finan- centralização do poder, a burocracia e as especi-
ceiro para a empresa, o que vem prejudicar a atuação ficidades das políticas do SUS.
da referida área. Qualquer que seja a natureza do setor abordado,
Todavia, eles também revelaram que essa percep- público ou privado, o que se pode concluir é que há
ção vem mudando, de maneira que as áreas de gestão uma enorme carência de profissionalização no geren-
de pessoas precisam cada vez mais reforçar a im- ciamento dos setores de gestão de pessoas das orga-
portância das pessoas para o sucesso da organização, nizações de saúde. São raras aquelas que já criaram
à medida que são envolvidas e reconhecem a neces- programas ou estruturas próprias para a gestão das
sidade de atuar na direção da missão organizacional. pessoas, e mais raro ainda que essa gestão se desen-
Os profissionais revelaram ter consciência da influên- volva sob uma perspectiva de parceria entre colabo-
cia que o setor de gestão de pessoas exerce na orga- radores e organização, descentralização das ações e
nização como um todo. Por isso, percebem a impor- valorização efetiva das pessoas.
tância de se investir em cursos de capacitação e desen- Sendo assim, acredita-se que seja necessária uma
volvimento, estabelecer um ambiente de trabalho revisão na forma como as organizações de saúde
agradável para que as pessoas se sintam motivadas, estão gerenciando seus colaboradores, considerando-
estimular a realização de programas de qualidade os como os elementos principais no estabelecimento
de vida e a definição de benefícios que recompensem das relações com a sociedade e com os consumidores
os trabalhadores pelas metas alcançadas. dos seus serviços.

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ATUAÇÃO ESTRATÉGICA DA ÁREA DE GESTÃO DE PESSOAS EM ORGANIZAÇÕES DE SAÚDE:
UM ESTUDO À LUZ DA PERCEPÇÃO DOS PROFISSIONAIS DA ÁREA

REFERÊNCIAS

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Revista de Gestão & Regionalidade
Volume 24 – número 71 – edição especial - XI Semead - out/2008 Universidade Municipal de São Caetano do Sul ISSN 1808-5792

Processo de tomada de decisão do Felipe Bogea

Vol. 24 • Nº 71 • edição especial • XI Semead • outubro 2008


investidor individual brasileiro no mercado Lucas Ayres Barreira de Campos Barros
acionário nacional: um estudo exploratório
enfocando o efeito disposição e os vieses
da ancoragem e do excesso de confiança

Tecnologia social de inclusão de jovens pelo Silvia Pires Bastos Costa


trabalho: uma análise da experiência de um Francisco Antônio Barbosa Vidal
consórcio de ONGs no desenvolvimento de
ação intersetorial com empresas e governo

Estrutura de capital na América Latina Veronica Favato


e nos Estados Unidos: uma análise de Pablo Rogers
seus determinantes e efeito dos
sistemas de financiamento

A influência do ambiente competitivo Felipe Mendes Borini


nas estratégias das subsidiárias Edson Renel da Costa Filho
estrangeiras de multinacionais brasileiras Moacir de Miranda Oliveira Júnior

O comportamento do consumidor Ricardo Jato, Reginaldo Braga Lucas


insatisfeito pós-compra: um estudo Milton Carlos Farina, Paulo Henrique
confirmatório Tentrin e Mauro Neves Garcia

Curso de administração da Universidade Shalimar Gallon


Federal de Santa Maria/UFSM: a percepção Cláudia Medianeira Cruz Rodrigues
dos professores e alunos sobre o tema
“práticas pedagógicas”

Atuação estratégica da área Aniele Fischer Brand


de gestão de pessoas em Suzana da Rosa Tolfo
organizações de saúde: Maurício Fernandes Pereira
USCS

um estudo à luz da percepção dos Martinho Isnard Ribeiro


profissionais da área de Almeida
Universidade

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