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INTERLÚDIO EM SILICO V

Autor
KURT BRAND

Tradução
RICHARD PAUL NETO

Digitalização e Revisão
ARLINDO_SAN
Tenente THOMAS CARDIF... só cinco
pessoas conhecem o segredo de sua origem.

Os calendários da Terra registram outubro de 2.041. Na


Academia Espacial de Terrânia, mais uma turma de cadetes
concluiu os exames finais. Entre estes está Thomas Cardif, o
filho de dois mundos.
Apenas cinco pessoas conhecem o segredo da origem
deste jovem oficial. E até agora o segredo foi guardado.
Porém, durante o Interlúdio em Silico V, verificou-se que
os pais de Thomas haviam cometido um grave erro, isto é,
falharam em suas considerações de política cósmica...
Sim, Perry e Thora cometeram um erro grave ao
deixarem o filho na ignorância de sua origem. E agora que
Cardif descobriu, por acaso, o segredo, poderá acontecer
aquilo que seus pais queriam evitar...
E todas as ações mais se complicam, pois mãe e filho
tornam-se prisioneiros dos robôs arcônidas, na fortaleza de
Silico V.

======= Personagens Principais: = == = = = =


Thomas Cardif — Filho de Rhodan e Thora. Tem os olhos da mãe. Nos
momentos de concentração, o rosto adquire os traços do pai.
Thora — A arcônida, esposa de Perry.
Perry Rhodan — Administrador do Império Solar.
Julian Tifflor — Coronel transferido para servir na Terra.
1

Os nervos de oitenta e três jovens não estavam em bom estado. À medida que o
relógio se aproximava das onze horas, mais uniformes se tornavam os rostos, pois cada
um tentava não revelar a menor comoção, procurando, pelo contrário, irradiar uma
expressão de segurança e autoconfiança.
Segundo o plano de trabalho da Academia Espacial do Império Solar, oitenta e três
jovens, cuja idade média era de vinte e um anos, teriam de comparecer às onze horas
desse dia ao grande salão, a fim de receberem das mãos do comandante da Academia a
patente de Tenente da Frota Espacial, ou serem obrigados a, num curso de um ano,
adquirir o saber que ainda lhes faltava para submeter-se a novo exame.
Os sessenta minutos que se seguiriam às onze horas seriam um marco importante na
vida dos oitenta e três cadetes; para muitos era um momento decisivo, porque o restante
de seu tempo de vida seria uma atuação ininterrupta.
O relógio marcava onze horas.
Oitenta e três cadetes ficaram em posição de sentido.
O comandante foi pontual.
Atrás da tribuna, a grande porta rolou para trás, e o chefe da Academia Espacial
entrou juntamente com seu Estado-Maior.
O Major Wals anunciou a presença dos cadetes ao comandante. Este respondeu com
um ligeiro cumprimento. Seu agradecimento tinha um tom impessoal.
Adiantou-se um passo além dos oficiais. Com um olhar abrangeu oitenta e três
rostos. Conhecia cada um dos cadetes não apenas pelo nome, mas também pelo passado,
pelas qualidades de caráter e pelo desempenho. Durante o tempo de aprendizagem não
fora apenas o chefe. Esforçara-se em relação a cada um, para que lhes fosse dado no
âmbito da Frota Espacial um lugar adequado.
A Frota Espacial chamava os homens que, com sua atuação no cumprimento integral
do dever, eram capazes de entusiasmar mais vinte ou trinta homens.
No momento em que o chefe iniciava sua alocução, o relógio do salão nobre
apontava onze horas e um minuto.
Era homem de poucas palavras. Com dez frases atingiu o núcleo da matéria. Não
utilizou qualquer registro de nomes. Citou apenas três.
Três rostos empalideceram. Três jovens deixaram cair a cabeça. Não haviam sido
aprovados nos exames finais da Academia Espacial. Continuariam a ser cadetes por mais
um ano.
Mas, até mesmo para os cadetes reprovados, o comandante teve algumas palavras de
estímulo.
— Não desanimem por causa deste fracasso. Não renunciem a si mesmos, pois o
Império Solar os espera. Deverão transformar-se num sustentáculo do Império Solar, tal
qual todos os oficiais da Frota. Ao afirmar que qualquer um dos senhores poderá ser um
dia o fator decisivo, do qual dependerá a existência ou a destruição do Império, não
estarei dizendo uma frase vazia.
“Uma vez que cada oficial da Frota Espacial, representa um fator de poder no seu
campo de atuação, vemo-nos obrigados a aplicar os padrões mais rigorosos a todos
aqueles que queiram pertencer a essa comunidade.”
Oitenta homens adiantaram-se um por um. Ainda envergavam o uniforme de
cadetes. Mas, em conformidade com o plano de trabalho, teriam de comparecer dali a
uma hora, no uniforme simples de oficial da Frota, diante do chefe de seu setor, para
serem informados sobre a posição que lhes seria designada.
Não tiveram nem um dia de folga, ou melhor, nem mesmo uma hora. Isso não tinha
sua origem nas normas oficiais, pois embora os oitenta homens fizessem jus a férias,
preferiram não fazer uso desse direito.
Cada um recebeu sua patente das mãos do comandante e, depois disso, oitenta
homens envergaram pela primeira vez o uniforme de oficial.
— Isso está liquidado! — exclamou Tilf Reyno em tom de alívio, examinando seu
uniforme. — Você acha que isto assenta bem, Thomas?
Tilf Reyno, um sueco com o aspecto de viking, de cabelos louros e olhos azuis,
girou o corpo diante de Thomas Cardif, seu colega de quarto, e pediu-lhe para que
verificasse se o uniforme lhe assentava bem.
— Assenta perfeitamente, Tilf — disse Thomas depois de ligeiro exame. — E o meu
uniforme? — levantou-se, e só agora que se encontrava em pé sua figura adquiria o realce
merecido.
A seu lado, Tilf parecia pálido e apagado. Thomas Cardif irradiava personalidade e,
o que era de admirar nos seus vinte e um anos, demonstrava um orgulho indefinível, que
não chegava a ser tão pronunciado que causasse uma impressão desagradável.
— Caramba! — disse Tilf Reyno com toda sinceridade, acenando a cabeça num
gesto de reconhecimento. — Você até parece ser o chefe.
— Será que não poderia ter inventado uma piada menos idiota?! — indignou-se
Thomas Cardif, dirigindo-se ao colega de quarto.
Depois, lançou-lhe um olhar penetrante que realçava a estranha coloração amarela
dos olhos, porém, no mesmo instante, fez um gesto com a mão, que eliminou a aspereza
de que a pergunta parecia revestir-se.
Thomas Cardif muitas vezes costumava ser como se mostrara naquele instante.
Embora não soubesse, era uma das numerosas personalidades-problema para psicólogos,
que, durante o tempo de aprendizado na Academia, observavam e testavam discretamente
cada um dos cadetes.
Muitos dos testes não haviam produzido resultado muito favorável para Thomas
Cardif, enquanto os resultados de outras séries de experiências eram surpreendentemente
positivos. Foi o cadete mais enigmático para os psicólogos. Segundo todas as
probabilidades, dificilmente encontraria amigos enquanto cursasse a Academia.
Acontece, todavia, que quase todos os cadetes eram seus amigos. Sua solidariedade e
franqueza eram proverbiais, motivo pelo qual, de bom grado, os colegas fechavam um
olho sempre que demonstrava aquele orgulho indefinível.
A voz do robô percorreu a ala do prédio em que residia o novo tenente.
O relógio indicava 11:55 h.
Segundo as normas de serviço, cada um dos cadetes deveria apresentar-se às 12:00 h
ao chefe de seu setor, para tomar conhecimento de sua designação.
O superior hierárquico de Tilf Reyno e Thomas Cardif tinha a seu cargo o setor
“Assuntos Gerais”.
Para qualquer cadete, a ordem de participar da solução de assuntos gerais
representava um exame final com excelentes resultados.
O setor “Assuntos Gerais” tinha o programa de ensino mais extenso. Incluía a
astronomia, a técnica de telecomunicação, a astronavegação, o estudo dos mecanismos de
propulsão, o treinamento hipnótico arcônida, a metalurgia e mais trinta especialidades,
inclusive a doutrina Zyan. Era o setor em que o futuro oficial da Frota Espacial adquiria o
maior volume de saber.
O processo de aprendizagem, que chegara ao fim nesse dia, com a entrega da
patente de oficial, incluíra três homens que deveriam apresentar-se ao Major Knight.
Estes três novos oficiais acabavam de desaparecer atrás da porta à qual estava afixada
uma placa com a indicação vaga “Assuntos Gerais”.
— Tenente Hal Stockman! — disse o ibero-africano e ficou em posição de sentido.
— Tenente Thomas Cardif!
— Tenente Tilf Reyno!
O Major Knight, um homem de seus sessenta anos, de cabelos grisalhos e cego de
um dos olhos, agradeceu laconicamente. Fitou os três homens um por um, e depois
apertou-lhes efusivamente as mãos e os felicitou.
— Tenente Stockman, o senhor foi designado para servir em Vênus. Será o segundo-
ordenança do Coronel Dirkan. Mantenha-se preparado para partir das quatorze horas em
diante. O senhor irá na nave-correio. É só. Obrigado.
O Tenente Hal Stockman retirou-se.
Tilf Reyno foi designado para servir em Hellgate, um planeta muito quente, situado
a 12.348 anos-luz, na periferia do Império de Árcon, onde substituiria o Tenente Bings no
comando da base.
Essa base consistia numa gigantesca cúpula de aço que servia de central receptora
de mensagens dos agentes. A tarefa de Reyno consistiria em classificar as mensagens
segundo o grau de urgência, armazenando-as ou transmitindo-as imediatamente à Terra
pelo processo de condensação. Tilf Reyno partiria à uma da madrugada.
E nesta mesma hora, um cruzador do Império Solar, levando o Tenente Thomas
Cardif a bordo, entrava na primeira órbita de frenagem sobre o planeta Rusuf.
O sistema solar nativo estava mergulhado no espaço, a 1.062 anos-luz.
Às 9:34 h, tempo de bordo, a nave esférica do Império Solar pousou no espaço-
porto que servia ao pequeno destacamento militar estacionado no planeta.
Às 9:57 h, tempo de bordo, o Tenente Thomas Cardif apresentou-se ao novo chefe, o
Coronel Julian Tifflor, comandante da pequena unidade terrana.
No mesmo instante, Thomas Cardif pensou, indagando-se:
“Por que será que o coronel me olha de forma tão esquisita?”
E não foi uma pergunta de que se esqueceu dali a um instante; esta perseguia-o
como uma sombra, desde o primeiro instante de sua permanência na guarnição.
Pela primeira vez alguma coisa perturbava a jovem vida de Thomas Cardif.
Teve de concentrar-se para acompanhar as palavras do Coronel Tifflor. O oficial
superior falou na missão que o destacamento cumpria naquele mundo arcônida, nas
dificuldades do dia-a-dia, nos conflitos constantes entre os terranos e os mercadores
galácticos que se haviam instalado em Rusuf.
— Aproveite o dia de hoje para conhecer a base e apresente-se amanhã, às seis e
trinta da manhã, antes da primeira conferência. Obrigado, tenente.
O Coronel Julian Tifflor — há uns sessenta anos realizara, como cadete, missões
mais arriscadas com uma bravura extraordinária — lançou um olhar pensativo à saída do
Tenente Thomas Cardif.
Respirou profundamente.
Sacudiu a cabeça.
— Chefe — disse para si mesmo — receio que desta vez a coisa não dê certo.
Lembrava-se de Perry Rhodan.
No Império Solar só havia um chefe, tal qual só havia um Tiff.
Podia chamar Rhodan de chefe sem que ninguém levasse a mal, e este chamava-o de
Tiff, um apelido que seus amigos lhe haviam dado há sessenta anos, quando ainda era
cadete.
Entre Rhodan e Tiff, havia uma intensa ligação invisível. Fundava-se não apenas no
fato de que também Julian Tifflor havia recebido no planeta Peregrino, um mundo
artificial, a ducha celular que prolongava a vida. Mas, acima de tudo, pelo fato de Rhodan
lhe confiar quem era Thomas Cardif.
Era filho de Thora e Perry Rhodan!
Julian Tifflor voltou a murmurar:
— Tenente Thomas Cardif...
Voltou a respirar profundamente, e, com certo receio, pensou no instante em que
Thomas Cardif ficasse sabendo quem eram seus pais...
2

Thora, esposa de Perry Rhodan, estava mergulhada em profundas reflexões


enquanto fitava a área coberta de parques que antigamente fora o deserto de Gobi, hoje
transformada num verdadeiro paraíso.
À sua direita, levantavam-se os primeiros edifícios industriais e administrativos.
Eram o único sinal de que o milagre acontecido no antigo deserto estava estreitamente
ligado à tecnologia, à política e à vontade férrea de certos homens.
A Frota Espacial do Império Solar, uma das obras grandiosas de Perry Rhodan,
exigia homens desse tipo, e estes eram formados pela Academia Espacial, num
treinamento ininterrupto.
Thora estendeu a mão e ligou o fone. A central robotizada de sua casa respondeu.
Pediu uma ligação para a Academia.
— Faça o favor de chamar assim que seja possível falar com o comandante.
Para a arcônida, o fato de falar com um robô não era motivo de esquecer a cortesia
que dispensava aos outros.
Antes que tivesse tempo de reclinar-se na poltrona, a tela do videofone iluminou-se,
perdeu o tom cinzento e adquiriu cores.
Nela se viu o rosto marcante do dirigente da Academia Espacial. O homem inclinou
ligeiramente a cabeça, a título de cumprimento. Thora respondeu com um sorriso.
— Depois de tanto tempo, gostaria de estar presente novamente, quando os cadetes
da Academia, que tivessem sido aprovados nos exames, recebessem suas patentes de
oficial. O dia de formatura é amanhã, não é?
— Sinto muito — disse o comandante, cujo rosto assumiu uma expressão triste. —
Tivemos de antecipar a formatura. As patentes foram entregues ontem, e hoje os jovens
oficiais já se encontram nos lugares onde estão servindo.
— Obrigada — disse Thora. A palavra foi proferida no mesmo tom de sempre,
embora não conseguisse respirar. — Fico-lhe muito grata, comandante.
Desligou. Já não estava em condições de sorrir.
Estava só.
Thora, a arcônida orgulhosa, filha de uma das mais antigas e conceituadas famílias
da nobreza de Árcon e esposa de Perry Rhodan, cobriu o rosto com as mãos e chorou.
A causa de suas lágrimas era Thomas Cardif, o jovem tenente, que servia no planeta
Rusuf, sob o comando do Coronel Julian Tifflor.
— Perry... — soluçou, enquanto uma dor atroz lhe sacudia o corpo. — Pecamos
contra nosso filho. Cometemos um grande erro...
Ela sabia; e Perry Rhodan também sabia. Mas quando se deram conta da renúncia
que estavam praticando e do sacrifício que impunham ao filho, já era tarde para voltar
atrás.
Thomas Cardif teria de continuar a ser Thomas Cardif. O menino já era bem
crescido e, paradoxalmente, também muito novo para suportar o abalo psíquico que
resultaria da revelação da verdade.
Tanto Perry, o pai de Thomas, como ela, só lhe desejavam o melhor. Queriam que
Thomas se tornasse um verdadeiro homem por meio de seus próprios esforços, e não em
virtude da ilustre ascendência. Até que se transformasse em homem, teria de abrir seu
próprio caminho, sem sentir a mão invisível do pai, que o dirigia sem que ele o
percebesse.
Foi assim que renunciaram ao produto mais valioso de seu amor: o filho. Depois de
algum tempo, perceberam que ele crescia num mundo frio, sem o calor humano
proporcionado pelo aconchego do lar.
Era tarde!
E hoje, mais uma vez, lamentava-se. Thomas não estava mais em Terrânia. Não teria
oportunidade, nem de longe, de contemplar seu filho.
Continuou a chorar em silêncio. Ninguém a perturbou. Nenhum ser humano
aproximou-se dela. A primeira dama do Império Solar era uma mulher solitária.
Seu marido Perry não se encontrava na Terra. Naquele instante, estava em Tats-Tor,
um mundo em que seis dos seus homens haviam desaparecido no outro plano temporal.
Não poderia chamá-lo para que ele a consolasse. Não deveria fazê-lo.
Mas podia deixar a Terra.
Podia requisitar uma gazela e voar para Vênus. Qualquer um veria que precisava de
descanso.
Em Vênus, seria mais fácil decolar às escondidas, sem chamar a atenção das
estações de superfície, sempre menos vigilantes do que no planeta Terra.
Para ela, que já comandara uma grande nave expedicionária de Árcon, não haveria
nenhuma dificuldade em pilotar uma gazela. A realização de um salto pelo hiperespaço,
que a transportaria a alguns milhares de anos-luz, nada mais era senão a aplicação da
tecnologia arcônida.
Rusuf, o quarto planeta do sol Krela, era o novo paradeiro de Thomas Cardif. Thora
sabia disso há muito tempo, e também sabia que havia sido aprovado, com distinção, nas
três séries de exames. Tinha motivo de sobra para orgulhar-se dele. No Império Solar, só
havia cinco pessoas que sabiam da existência de um filho de Rhodan: ela e Perry, Crest, o
arcônida, Reginald Bell e o Coronel Julian Tifflor, comandante da guarnição de Rusuf.
Thomas Cardif não prestara seus exames na qualidade de filho de Rhodan; não
tivera nenhuma vantagem. Mas fora privado de uma coisa que todos os outros cadetes
haviam recebido: o amor.
O amor dos pais.
Ainda com o rosto coberto pelas mãos, soluçou:
— Perry, não agüento mais! Tenho de ir ao lugar em que se encontra. Preciso vê-lo!
O momento de desespero teria de ceder diante da educação arcônida. E Thora
continuava a ser uma arcônida, embora tivesse encontrado a felicidade ao lado de Perry
Rhodan.
No auge de seu esplendor e no estágio de grande expansão, Árcon obrigara seus
filhos a se tornarem duros e a contemplarem os fatos sem a menor hesitação.
Muitas vezes, esses fatos eram representados por planetas virgens que Árcon
pretendia incorporar a seu Império. Muitos deles não demoraram em transformar-se em
membros do reino estelar que tinha sua sede na nebulosa M-13, uma vez que os
arcônidas, como conquistadores natos, renunciavam às vantagens pessoais e às
comodidades para servir ao Império.
Thora lembrou-se da palestra que pouco antes do nascimento do filho tivera com
Rhodan, Crest e Bell. Bell, o amigo sincero e impulsivo de Rhodan, só chegara quando a
palestra já estava para terminar, e exclamou em meio à mesma:
— Que pais são vocês! Céus, estrelas e foguetes!
Não proferira outras palavras para dar vazão à sua revolta. Perry colocara a mão em
seu braço e o fitara intensamente. Havia um sorriso triste em seus lábios e, mesmo a
contragosto, fizera um gesto de assentimento.
— Que pais somos nós, Bell! Nunca ninguém nos disse isso de forma tão grosseira e
sincera como você. Não precisa lançar estes olhares furiosos contra Thora e contra mim,
gorducho. Não somos pais desnaturados; você sabe tão bem quanto Crest, como nos
sentimos felizes com o filho que teremos.
— “Acontece que só Crest soube enxergar mais longe que nós.” Quando entrei
ainda ouvi essa parte, Perry! Vocês são uns pais desnaturados que pretendem...
Perry Rhodan atirou violentamente a cabeça para trás e interrompeu Bell em tom
áspero:
— Quer fazer o favor de me deixar falar até o fim, Bell?
— Pois fale — resmungou Bell, mas logo proferiu uma ameaça: — Se não mudarem
de idéia, nossas relações passarão a ser puramente oficiais.
Sem dizer uma palavra, Perry entregou-lhe a interpretação do computador
positrônico instalado em Vênus.
Bell indignou-se ao ler qual seria o caráter do filho de Perry Rhodan.
— Que tolice! — disse em tom indignado. — Realmente acredita nisso, Perry? Quer
que o destino de seu filho dependa de uma fita perfurada?
Naquele instante, Thora lembrou-se dessa cena. E, mais uma vez tornou a sentir o
mesmo choque. Só que, daquela vez, fitou Bell com os olhos radiantes e o coração cheio
de alegria, gratidão e esperança.
Bell levantara-se de um salto, atirara a fita sobre a mesa, e se dirigira em tom
agressivo a Crest:
— É claro que só mesmo um arcônida poderia ter uma idéia desse tipo! Quero que
todos vão para o inferno! Uma criança, que ainda nem nasceu, está sendo negociada
como um objeto qualquer...
Acontece que Crest nem empalideceu sob as palavras de Bell, nem se mostrou
nervoso. Respondeu com toda calma:
— Bell, a mãe desse menino é Thora, uma arcônida. Não se esqueça de que durante
decênios Thora tem demonstrado um orgulho inflexível.
— Não se esqueça de que, por mais de uma vez, Thora se deixou levar pelo orgulho
e levou a Terra à beira do abismo — retrucou Bell.
— Procure lembrar-se das qualidades que vicejam em Perry. Admitamos que seu
filho herde apenas uma pequena parte dessas qualidades. De um lado o orgulho arcônida,
a arrogância, a presunção. De outro lado, um filho de Rhodan em formação, um ser cujo
pai criou o Império Solar. Qual será o caráter do filho de Perry, se este for influenciado
por um fator decisivo, pelo fato de Perry Rhodan ser seu pai? Ele se permitirá fazer
qualquer coisa — concluiu Crest.
Naquela época, há mais de vinte e um anos, fora de admirar que Bell não tivesse
interrompido o arcônida. Mas mal este se calou, Reginald Bell lançou um olhar
penetrante para seu amigo Perry, segurou a fita perfurada como se fosse ferro em brasa,
sacudiu-a de um lado para outro e disse:
— Perry, você não disse em certa ocasião que o computador positrônico de Vênus
não pode realizar uma avaliação cem por cento correta dos seres humanos, porque foi
construído por arcônida? Disse ou não disse?
— Disse e continuo a dizer. Mas, apesar disso, Thora, uma arcônida, será a mãe de
meu filho.
Bell não respondeu. Dirigiu-se a Thora.
— Diga não e fique firme...
— Bell, Perry já me fez essa sugestão e repetiu-a há uma hora, mas...
— O quê? Não há mas nem porém! — disse Bell em tom furioso, lançando-lhe um
olhar de desespero.
— Sim, gorducho, existe um mas e um porém: um dia nosso filho poderá censurar-
nos de não termos permitido, por motivos puramente egoísticos, que sua vida se
desenvolvesse livremente. Dirá que, no dia em que nasceu, seu destino já estava traçado.
Bell, você sabe como me sinto feliz juntamente com Perry, e chego até a me esquecer que
venho de Árcon. Nós, os arcônidas, não podemos rebelar-nos contra a nossa natureza, que
é arrogante, orgulhosa e obstinada.
“Eu o sinto, Bell. Nosso filho virá ao mundo com as qualidades da mãe, e as
desesperadas horas de choro não poderão impedi-lo. Tenho medo do preço que Perry e eu
teremos de pagar pela nossa felicidade. Se nosso filho, sem saber quem são seus pais,
consegue por suas próprias forças formar-se para o bem, um dia saberá agradecer-nos
pela chance que lhe demos. Perry e eu teremos todos os motivos para esperar que,
juntamente com nosso filho, sejamos uma família feliz.”
A lembrança dessa palestra decisiva empalideceu em sua mente. Thora levantou-se e
olhou para o céu azul. Em qualquer lugar, a milhares de anos-luz, estava seu filho
Thomas Cardif.
Ele já provara que era capaz de, por suas próprias forças, formar-se para o bem.
Não teria chegado a hora em que podia saber quem eram seus pais?
O coração de Thora e as saudades maternas disseram sim à pergunta. É bem verdade
que sua inteligência penetrante a preveniu. Mas, mesmo numa mãe arcônida, o desejo
natural de abraçar o filho é muito mais poderoso que qualquer outra força.
— Thomas... — disse. — Thomas, irei para junto de você. Logo estarei aí.
3

A Drusus, uma nave esférica de 1.500 metros de diâmetro, pertencente ao Império


Solar, saiu do hiperespaço com um ruído trovejante, juntamente com o cruzador ligeiro
Sambo. Graças aos seus compensadores estruturais, o imenso abalo da estrutura espaço-
temporal não pôde ser registrado pelas estações de controle do sistema solar nativo, nem
pelo Império de Árcon.
Foi o último salto das duas naves esféricas. Encontravam-se agora a 132 anos-luz de
Tats-Tor, um mundo no qual Perry Rhodan realizara uma missão arriscada, durante a qual
salvara os membros da chamada expedição do tempo e os tripulantes de uma nave girino
que foi “raptada” por outro plano temporal.
O sol e seus planetas espalharam-se na gigantesca tela da Drusus. Desenvolvendo
0,6 vezes a velocidade da luz, as duas naves, que viajavam separadamente, aproximavam-
se da órbita de Plutão. Os aparelhos de bordo transmitiram em mensagem condensada os
seus sinais de identificação. Esses sinais foram captados pelas estações retransmissoras
que, por sua vez, os modificaram e os retransmitiram à Terra, a Vênus e a Marte, sob
outro código. Dali a cinco segundos, a Drusus e a Sambo receberam licença de pousar.
Perry Rhodan estava dormindo. Bell o substituía na sala de comando do couraçado
espacial; não tinha nada a fazer. A tripulação da Drusus estava tão bem entrosada que teve
tempo para ir à sala de rádio, a fim de saber as últimas notícias.
Ao entrar, o oficial fez menção de apresentar-se formalmente. Reginald Bell,
representante de Perry Rhodan, fez um gesto de recusa. Sentou-se ao lado do
coordenador, pegou a pilha de mensagens e folheou-a como se fossem as cartas de um
baralho.
Bell não estava com vontade de trabalhar; apenas queria saciar sua curiosidade.
Mas, desta vez, seu desejo não foi satisfeito.
— É uma guerra de papéis — resmungou e continuou a folhear rapidamente a pilha.
Uma notícia dizia que havia surgido mais um grupo dos CAL — Colonos
Associados Livres — que acreditavam não agüentarem mais a vida na Terra.
— Vão embora! Ainda bem que na Galáxia existem muitos mundos para os quais
podemos mandá-los.
Bell não gostava muito desse tipo de gente, e quem conhecesse Bell ficaria
espantado se ele não demonstrasse abertamente sua antipatia.
Mas agora leu uma notícia interessante. Thora acabara de entrar em férias.
— Em Vênus — disse Bell baixinho.
Rememorou a apavorante selva do planeta Vênus, ouviu em sua mente as trovoadas
inconcebíveis e os berros dos sáurios e outras feras gigantescas.
— Hoje, em certos lugares, as coisas já estão melhores. Hum! Por que será que os
burocratas não disseram nesta notícia que lugar de Vênus Thora escolheu para descansar?
Leu mais duas mensagens e, com isso, as novidades haviam chegado ao fim. Bell
esperara ler mais notícias.
— É só isso? — perguntou ao coordenador.
Sem dizer uma palavra, este empurrou-lhe uma mensagem cujo texto decifrado
acabara de sair da máquina.
— Bem... — disse Reginald Bell, levantando-se. — Isso é com o chefe.
Não queria ter nada a ver com a legislação e suas modificações. Era um homem que
apreciava as coisas palpáveis. Não gostava da guerra de papéis e dos detalhes
administrativos, embora soubesse preencher muito bem o lugar de representante de Perry
Rhodan, sempre que este se via obrigado, por circunstâncias extraordinárias, a sair da
Terra e do sistema solar.
Enquanto se retirava da sala de rádio, procurou pensar em coisas mais agradáveis.
Lançou um olhar ligeiro para dentro da sala de comando e disse que, se precisassem dele,
poderiam encontrá-lo no centro de computação positrônica.
Bell, que era engenheiro eletrônico, sentia-se atraído constantemente pela seção à
qual, durante vários anos, se dedicara de corpo e alma. Por isso, não era de admirar que
dali a três horas, quando se visse frente a frente com Perry, no seu camarote, esquecesse
de dizer: “Ouça, Perry, sua esposa está de férias em Vênus. Quando voltar a Terrânia,
não encontrará Thora.”
Voltaram a discutir os resultados da atuação do Tenente Rous em Tats-Tor. A Drusus
e a Sambo pousaram no gigantesco espaçoporto de Terrânia. Apesar disso, Rhodan e Bell
prosseguiram em sua palestra, e só quatro horas depois o primeiro soube que sua esposa
não se encontrava na Terra, já que resolvera descansar em Vênus.
— Com que nave viajou? — perguntou, sem qualquer intenção especial.
— Com uma gazela nova, de velocidade superior à da luz, Sir — respondeu o Major
Mys sem desconfiar de nada. — O tipo está começando a ser produzido em série.
Colocamos à disposição de sua esposa um aparelho da série mais recente. Perdão, Sir,
será que fizemos mal?
Mys vira o brilho temível nos olhos de Rhodan, mas sentiu-se aliviado quando este
respondeu em tom amável:
— Fizeram bem, major, obrigado.
Mas Bell conhecia o amigo tão bem que não deixaria enganar-se. Quando ficou a
sós com Rhodan, no gabinete deste, onde ninguém os perturbaria, disse:
— Você está preocupado com alguma coisa, Perry.
Era uma afirmativa típica de Bell, mas se a situação fosse outra, Perry Rhodan não
se deixaria envolver pela pergunta. Suas preocupações realmente eram tamanhas que
preferiu não pedir a Bell que desse as provas do que afirmara.
— É claro que sim, gorducho. Por que Thora resolveu ir a Vênus com uma gazela
do último tipo? Por que não esperou até que eu voltasse de Morag II? Foi o que
combinamos.
Bell passou a mão pelo cabelo. Teve o cuidado de não dizer nenhuma palavra
irrefletida, mas ainda não estava disposto a confessar a si mesmo que as informações de
Rhodan o inquietavam.
Thora costumava ser um modelo de confiabilidade.
Uma terrível suspeita surgiu em seu cérebro. Será que o processo de envelhecimento
tivera início no organismo de Thora? Será que o fato de estar irremediavelmente
condenada a transformar-se numa mulher velha a tivesse feito fugir para a solidão de
Vênus?
Ele ou Aquilo, o senhor do planeta artificial denominado Peregrino, até então
recusara a Thora e Crest, os dois arcônidas, a ducha celular vivificadora. Thora e Crest
haviam sido conservados jovens por meio das fórmulas dos aras e dos soros produzidos
na Terra. Mas, a qualquer momento, todos estes remédios poderiam falhar e o processo de
envelhecimento teria início. E esse processo, uma vez iniciado, não pode ser detido.
Lançou um olhar discreto para Perry, mas os pensamentos deste estavam ocupados
com outro assunto.
De seu gabinete, podia-se falar diretamente com os lugares mais importantes de
Terrânia.
Quando subitamente viu o comandante da Academia Espacial surgir na tela, Bell
engoliu em seco.
— Sim, senhor — respondeu este a seu superior. — Todos os oitenta tenentes já
estão em seus postos.
— Obrigado — respondeu Rhodan. — Providencie para que me seja fornecida
imediatamente a lista completa dos jovens tenentes com os respectivos locais de serviço.
Desligo.
Bell estava sentado sobre a escrivaninha de Rhodan. Encheu as bochechas e soltou
ruidosamente o ar.
Rhodan não disse nada. Seu rosto marcante parecia petrificado. Olhava
incessantemente para o céu límpido que cobria o Gobi.
Bell começou a tamborilar nervosamente com os dedos. Em sua mente, havia um
único pensamento:
Se as suspeitas de Perry fossem corretas, Thora já não estaria em Vênus, mas sim no
lugar onde Thomas Cardif estivesse servindo.
— Nem poderia ser outra coisa — Bell nem se deu conta de ter pensado em voz
alta.
— O quê? — perguntou Rhodan em tom áspero.
Bell assustou-se. Mas ainda conseguiu dizer:
— Por que pergunta o quê? Não há nenhum o quê. Por que faz essa pergunta, Perry?
— Está bem.
Um sorriso fugaz passou pelo rosto de Rhodan. Compreendera por que o amigo
estava mentindo. Se estivesse no lugar de Bell, também mentiria. Uma mentira desse tipo
não é uma mentira; é um ato de amizade.
A tela situada do lado direito da escrivaninha iluminou-se. Nela surgiu a cabeça de
um oficial de certa idade e, ao mesmo tempo, a voz deste soou no alto-falante:
— Permite que, para terminar mais depressa, a lista completa seja...
— Permito — interrompeu Rhodan. Logo após a tela exibiu, em vez da cabeça do
oficial, a lista completa dos nomes de oitenta tenentes com os locais em que estavam
servindo.
— Hal Stockman... Reyno... Thomas Cardif, sistema de Krela, planeta Rusuf,
guarnição terrana, Coronel Julian Tifflor — leu Rhodan a meia voz e acenou ligeiramente
com a cabeça. Não esperara outra coisa.
Desligou. Inclinou lentamente a cabeça para trás e fitou o amigo, que continuava
sentado sobre a escrivaninha. Bell mantinha-se em silêncio. Lembrou-se de um
apaixonada palestra mantida há vinte e um anos atrás com Perry, Thora e Crest.
Por isso mesmo, não estava dizendo uma única palavra.
Perry Rhodan — o criador do Império Solar, um homem que soubera enfrentar até
mesmo o computador-regente de Árcon, transformando-se em sócio do mesmo — sentia-
se tomado de uma excitação febril.
Era um pai que temia pela sorte do filho único.
A essa hora, Perry era apenas pai — nem mais nem menos que isso. E todos os pais
que temem por seus filhos são iguais uns aos outros, assim como todas as mães se
igualam em seu modo de agir, quando querem ir para junto dos filhos.
— Escute, Bell. Confiei o segredo a Tiff, antes que fôssemos para Morag II — estas
palavras continham algo mais que seu sentido literal; representavam um pedido de
socorro de amigo para amigo. Era como se Rhodan dissesse: ajude-me.
— Perry... — Reginald Bell desceu da escrivaninha. Estava de pé ao lado do amigo.
Bell transformara-se num homem sério e pensativo. — Não o ajudarei a manter o status
quo, mas estou pronto a empenhar todas as energias para ajudar os três, se houver uma
catástrofe.
— Você acha que haverá uma catástrofe. Bell?
Perry Rhodan era apenas pai. Bell teve consciência disso.
— Bem, agora você não sabe o que fazer. Neste meio tempo, Thora deve ter feito
alguma bobagem para a qual não há mais remédio. Por que é que vocês dois não
recepcionaram o rapaz, quando pela primeira vez saiu da Academia, envergando seu
uniforme de tenente?
— Será que tenho de lembrar que estávamos em Tats-Tor?
— Ora essa! — protestou Bell. — Quer que eu acredite nessa? Afinal, quem é você?
Não é o chefe? Então não podia ter dado uma ordem para que a concessão das patentes de
oficial fosse adiada?
Depois de uma pausa, Bell prosseguiu:
— Diga-me uma coisa. O que pretende fazer do rapaz? Por quanto tempo Thomas
ainda terá de cuidar da própria formação? Homem, essa... Há vinte e dois anos esta
expressão me pesa no estômago, sem que consiga digeri-la. Tenham cuidado! Quem sabe
se a formação de Thomas a esta hora é tão completa que vocês não a possam mudar em
mais nada? Se fosse você, chamaria Vênus, Perry...
A estação de vigilância espacial de Vênus informou laconicamente e em tom
imparcial a que hora Thora Rhodan decolara numa gazela do tipo mais recente, em
direção ao sistema de Krela.
— Já está lá, Perry...
— Está — foi a única resposta de Rhodan.
O velho Perry Rhodan voltara a manifestar-se. Num instante, pesou todas as
possibilidades e as respectivas conseqüências.
— Se Tiff não cometer nenhum erro e Thora...
Bell colocou pesadamente a mão sobre o ombro do amigo.
— Perry, pegue a Drusus e corra para o sistema de Krela.
— A nave acaba de voltar de uma missão.
— E daí? Seria a primeira vez que você utilizaria seu poder para resolver um
assunto pessoal. Será que não pode fazer uma coisa dessas? Acha que o assunto não é tão
importante assim?
Bell estava lançando um ataque maciço, pois pretendia coagir o amigo de qualquer
forma a finalmente “remover” uma ferida dolorosa chamada Thomas Cardif.
Mas Perry Rhodan não era um homem fácil de influenciar. E, ao contrário de Bell,
era uma pessoa que muitas vezes sabia por intuição o que devia e o que não devia fazer.
Perry Rhodan resolveu esperar.
4

Num gesto de desespero, o Coronel Julian Tifflor apertou a cabeça com as mãos.
— Era só o que faltava — disse num cochicho, mas logo se controlou e entrou em
contato com o porto espacial.
Deu uma ordem pelo microfone:
— Thora será recebida na pista por uma escolta de seis oficiais que a conduzirão à
minha presença o mais rápido possível. Desligo.
No mesmo instante, o encarregado do setor de controle espacial surgiu na tela.
— Onde está a gazela?
A resposta, proferida em tom rotineiro, foi a seguinte:
— Neste momento está entrando na última órbita de aterrissagem. Deverá pousar
dentro de três ou quatro minutos...
O Coronel Tifflor nem chegou a ouvir o resto. Saiu correndo. Ao menos um oficial
teria de recepcionar Thora Rhodan. A escolta por ele solicitada não chegaria em tempo.
Naquele momento, Thora já estava realizando o vôo visual.
O mundo de Rusuf deslizava abaixo dela como numa fita de cinema. Era um astro
semelhante à Terra, no qual havia uma velha colônia arcônida. A gravitação de 1,42 G
estava no limite daquilo que poderia ser tolerado por meio da força de vontade. Apesar
disso, fizera, no curso de muitas gerações, com que os arcônidas nascidos em Rusuf se
adaptassem fisicamente ao novo ambiente. Além de um esqueleto reforçado e de uma
estrutura muscular robusta, os colonos tinham um tórax que lhes conferia um aspecto
disforme.
O sistema de Krela, que incluía o planeta Rusuf, ficava tão distante de Árcon que
não chegou a ser atingido pelo fenômeno de degenerescência. Os arcônidas residentes
nesse planeta continuavam a ser um povo orgulhoso, um tanto arrogante, mas cheio de
energia.
Manifestando uma generosidade que só se adquire no curso de milênios, toleraram
que os mercadores galácticos construíssem povoações no planeta. Mas nunca permitiram
que os saltadores se arrogassem outros direitos que não aqueles previstos no contrato.
Por duas vezes houvera conflitos entre os arcônidas e os mercadores galácticos. Por
duas vezes os saltadores cometeram o engano de entender que um arcônida é sempre
igual a outro arcônida e imaginaram que os arcônidas radicados em Rusuf eram criaturas
indolentes que nem os de seu mundo central.
Durante a primeira refrega, os mercadores revoltados receberam sua lição: saíram
derrotados e tiveram de registrar a perda de nove naves cilíndricas. Já o segundo conflito
lhes custou a destruição de três clãs dos saltadores juntamente com suas frotas.
Dali em diante, os mercadores galácticos não tiveram outra alternativa senão manter
um conceito bastante elevado a respeito de Rusuf. Os saltadores que ali se encontravam
tomavam todo o cuidado para que não houvesse novos contratempos.
Também não protestaram quando as naves terranas pousaram e desembarcaram
soldados. Mantiveram-se tranqüilos ao verem os terranos instalar sua guarnição e um
espaçoporto a quarenta e cinco quilômetros de Gelgen, uma pequena cidade arcônida na
qual havia o maior contingente de saltadores.
Esses saltadores, que viam a finalidade da vida em negociar e obter elevados lucros,
obedeciam às ordens do computador-regente de Árcon, tal qual os arcônidas que viviam
nesse mundo.
E, desde que a pequena guarnição se instalara, não houvera o menor mal-entendido
com os mercadores galácticos ou os colonos. Mas se havia alguém que não confiasse
muito nessa paz estranha, era o Império Solar, especialmente seu chefe, Perry Rhodan.
Sempre encarecia ao chefe da guarnição que ficasse com os olhos bem abertos. O
computador-regente não era um sócio honesto. Deviam ser amáveis com os saltadores,
mas não deveriam levar a amabilidade a um ponto que pudesse representar um perigo
para sua vida.
Thora, cuja gazela penetrara nas camadas mais densas da atmosfera e voava em
direção ao espaçoporto, já sabia disso.
Subitamente, a estação de superfície: dos colonos chamou. Thora venceu o susto!
Ao ouvir sua língua materna tão “esticada” e transformada num feio dialeto.
Pediram que fornecesse seu número de identificação. Mas antes que pudesse pensar
em responder, uma voz inconfundível de terrano disse no melhor intercosmo:
— Aqui fala a guarnição terrana. Há uma hora e oito minutos a nave irradiou do
espaço o número terrano de identificação. Segundo o contrato celebrado com Árcon, isso
basta para satisfazer todas as exigências. Solicito resposta pela faixa F-0775. Câmbio.
Um sorriso de alívio passou pelos lábios de Thora. Sentia-se satisfeita pela
vigilância do controle espacial terrano, mas não se entregou à ilusão, pois acreditava não
ser a primeira vez que se verificavam interferências como esta.
E o setor de vigilância espacial da guarnição terrana cometeu um erro: não informou
o Coronel Julian Tifflor sobre o incidente.
A mesma voz voltou a ranger:
— Quer que a conduzamos para cá pelo raio vetor?
O orgulho da arcônida despertou na mente de Thora. Será que ela, que comandara a
última nave expedicionária de Árcon, não seria capaz de pousar a gazela no local
indicado? Numa atitude quase automática, e principalmente em virtude do nervosismo,
respondeu num excelente arcônida:
— Obrigada; eu mesma pilotarei minha nave.
Acontece que fazia muito tempo que Thora não pilotava qualquer espaçonave.
Embora ainda se lembrasse perfeitamente de todos os comandos, teve de concentrar-
se ao máximo, e sentiu-se feliz com isso.
Durante cinco minutos, seu cérebro deixou de martelar um nome: Thomas Cardif!
Ao longe, surgiram os contornos da base. O espaçoporto ficava do lado direito.
Estava assinalado por vários cruzadores ligeiros com seu típico formato esférico. Thora
ainda reconheceu três grupos de gazelas, estacionadas na extremidade oposta do campo
de pouso. Agora também viu o carro que se dirigia em velocidade vertiginosa ao lugar
onde deveria pousar.
A gazela pousou macia e elegantemente, segundo todas as regras da Astronáutica.
Thora desativou os campos defensivos, moveu uma chave do quadro de comando que
abria a comporta e fazia descer a rampa. No momento em que o sinal de controle
anunciou que o caminho para fora da nave estava livre, colocou todos os comandos da
nave na posição zero.
Não se levantou. Fitou rigidamente os instrumentos. Os olhos de sua mente viram
um jovem — Thomas — com o qual se defrontaria ainda hoje, não como Thora, esposa
do administrador do Império Solar, mas como mãe.
Não sabia como era bela com o sorriso maternal no rosto. Conservou este sorriso ao
reconhecer Julian Tifflor no pé da rampa. Sim, sentia-se muito satisfeita em revelo.
Fez como se não notasse que pretendia prestar-lhe as honras militares que lhe
cabiam como esposa do administrador. Thora apertou sua mão e disse com uma
amabilidade cativante:
— Tiff, sinto-me tão feliz por ser você a primeira pessoa com quem me encontro em
Rusuf.
E Tiff — mais precisamente, o Coronel Julian Tifflor — que já tinha oitenta anos de
idade, embora ainda parecesse um jovem na flor dos anos, enrubesceu. Sentira que o
cumprimento impulsivo de Thora vinha do fundo do coração e, ao mesmo tempo,
percebeu como era difícil a missão que lhe fora confiada pelo chefe.
Enquanto iam de carro em direção à sede da guarnição, conversaram sobre assuntos
indiferentes, até que o Coronel Tifflor pedisse desculpas por ainda não ter arranjado um
apartamento no hotel para Thora.
— Por que não estamos preparados para receber visitas tão importantes, dona Thora.
— Ora, Tiff! — disse Thora com uma risada.
A expectativa febril de encontrar Thomas dali a pouco fazia com que tudo se
apresentasse sob uma luz rósea.
— Apenas preciso de um quarto. Não estou aqui em caráter oficial. Será que não
posso ocupar um quarto na sede da guarnição?
Demonstrando uma solicitude surpreendente, o Coronel Tifflor deu resposta
afirmativa à pergunta. Chegou mesmo a afirmar que seria mais agradável morar na sede
da guarnição que no hotel.
Em qualquer outra oportunidade, Thora teria lançado um olhar desconfiado para o
coronel e perguntado em tom frio o que pretendia conseguir com a oferta. Mas, nesse
instante, era apenas uma mãe que viera para revelar essa qualidade ao filho.
O carro parou diante do edifício simples e funcional em que estava instalada a
administração da guarnição. O Coronel Tifflor ajudou Thora a descer. Passaram atrás das
sentinelas e penetraram num longo corredor. Saíram deste para entrar num grande parque,
em cuja extremidade se via um bangalô.
— Tiff — disse em tom de surpresa, quando viu que em todas as peças do bangalô
os robôs de trabalho estavam em atividade. — O senhor fez seus preparativos para
receber minha visita.
— Ora — respondeu Tifflor. — Os preparativos consistiram unicamente em,
enquanto me dirigia ao carro que me levaria ao espaçoporto, gritar para a sentinela que
arejasse o bangalô. Os robôs ainda estão trabalhando.
Dali a uma hora, o Coronel Tifflor bateu delicadamente na porta de Thora Rhodan.
Com a voz exultante a mesma disse:
— Tiff, se for o senhor, faça o favor de entrar.
Disposta e juvenil, com um estranho brilho nos olhos de arcônida, Thora estava em
pé junto à janela enquanto via o coronel entrar. Já sacudira a poeira da viagem, utilizara
todas as vantagens da cultura habitacional arcônida para refrescar o corpo. Ficou
satisfeita ao constatar que Julian Tifflor substituíra o uniforme por um elegante traje civil.
Enquanto Julian Tifflor sentava à sua frente, ela o examinou atentamente. Teve a
atenção despertada por seu rosto severo, quase enrijecido.
— O que há, Tiff?
O coronel acenou com a cabeça.
— Pois bem, dona Thora. Sei por que veio a Rusuf. O chefe me ordenou que
cuidasse do Tenente Thomas Cardif.
Thora Rhodan enrijeceu-se. Ficou imóvel diante de Julian Tifflor e fitou-o
intensamente.
— Coronel Tifflor, o senhor não se atreverá a impedir-me de entrar em contato com
o tenente.
Thora não viu outra alternativa senão bancar a arcônida altiva e arrogante. Mas tudo
aquilo era apenas um esforço desesperado, gerado pelo sentimento de desamparo.
Fazia quase sessenta anos que Julian Tifflor conhecia a esposa de seu chefe.
Haviam-se aproximado durante muitas missões perigosas. E não há nada que possa ligar
duas pessoas mais estreitamente que a ameaça da morte e o perigo em geral. Por isso,
compreendeu perfeitamente por quê, naquele instante, fazia o papel de arcônida
orgulhosa e esposa do administrador.
Compreendeu e perdoou.
Afinal, era a mãe de Thomas Cardif!
Mas não lhe demonstrou quanta pena sentia. Continuava a ser um oficial da Frota
Espacial, cujo comandante supremo era Perry Rhodan.
Foi o que lhe disse. Não fez o menor comentário.
— Tiff...
Fez de conta que não ouvira a voz suplicante.
— Dona Thora, neste instante preferia sair numa missão sem retorno a estar sentado
diante da senhora. Eu...
Thora levantou-se. Seus olhos chamejavam, mas uma vontade quase sobre-humana
obrigou a voz a não revelar o furacão sentimental que lhe varria a mente.
— Coronel Tifflor, meu marido lhe deu ordem expressa de impedir-me de falar com
Thomas? Sim ou não?
— Não.
— Então, por que se julga com o direito de barrar-me o caminho?
O Coronel Julian Tifflor também se levantou. Foi para trás de sua poltrona. Ele, que
arriscara cem vezes a vida por Perry Rhodan e pelo Império Solar, temia os próximos
trinta minutos.
— Coronel Tifflor, por que se julga com o direito de impedir-me de fazer o que
quero? — Thora não gritava. Muito pior: falava baixo, e os olhos pareciam dardejar fogo.
Não o chamou mais de Tiff. Naquele momento, só via nele o Coronel Julian Tifflor,
oficial da Frota Espacial Terrana e chefe da guarnição de Rusuf.
— É meu senso de responsabilidade! — ele o disse com a voz rangedora, como
quem se defende.
Com uma tranqüilidade apavorante, Thora perguntou:
— E o senhor se atreve a sepultar meus sentimentos de mãe sob seu senso de
responsabilidade?
A acusação fortaleceu Julian Tifflor. Sentiu instintivamente que essa pergunta tocara
num ponto que Thora não poderia deixar de compreender, justamente por ser a mãe de
Thomas Cardif.
Por enquanto esquivou-se à pergunta que representava uma acusação. Apoiando a
mão sobre o encosto da poltrona, obrigou-se a perguntar em tom suave:
— Posso aproximar-me da senhora, Thora?
— Pois não! — respondeu a arcônida. Julian Tifflor colocou-se bem à sua frente e
formulou outra pergunta:
— Permite que segure sua mão? Thora não disse sim nem não, e Tiff — ou melhor,
o Coronel Julian Tifflor — deixou-se dominar pelo sentimento. Segurou as mãos de
Thora entre as suas.
Sentiu fisicamente a rejeição que irradiava dela. Sentiu a força que lhe enchia a
alma, e teve a honestidade de confessar a si mesmo que, nessa hora, Thora Rhodan era
mais forte que ele. No entanto, Tifflor tinha na mão um trunfo com que poderia tirar-lhe a
força, substituindo-a pela reflexão.
— Tenho pena de Thomas Cardif. Seu trunfo era este.
Thora desprendeu-se dele. O Coronel Tifflor percebeu que ela ainda não o havia
compreendido. Mas, se dissesse mais alguma coisa, diluiria a força que havia atrás de
suas palavras.
Ela mesma teria de compreender o que ele queria dizer.
A expressão do olhar de Thora mudava constantemente. Tifflor percebeu como os
arcônidas sabem odiar, como é terrível sua raiva, mas também viu a força de vontade e o
autodomínio dos arcônidas.
— Por que... por que tem pena de Thomas, coronel?
— Porque durante os poucos dias que está servindo em Rusuf, eu o estudei
constantemente.
“Thomas Cardif é um arcônida em todos os sentidos. É um ser de dois mundos.
Com um dos pés pisa firmemente na Terra, enquanto o outro está apoiado com a mesma
firmeza em Árcon.
“É nisso que reside sua infelicidade...”
Falara sem a maior paixão, com a mesma objetividade do jurista que defende um
acusado perante o juiz.
— Arcônida? — disse Thora, repetindo a palavra do coronel.
Estaria agora perscrutando em sua mente a palavra arcônida?
Subitamente, Julian Tifflor teve medo dessa mulher. Pela primeira vez, deu-se conta
de que, entre a Terra e Árcon, havia o abismo da eternidade. O terrano e o arcônida eram
seres semelhantes, mas apenas pelo aspecto exterior; na mentalidade eram totalmente
estranhos uns aos outros.
— Será mesmo?
Com o Coronel Tifflor, acontecia a mesma coisa que se passara com Reginald Bell
durante a palestra com Perry: estava transformando seus pensamentos em palavras.
— O quê, coronel?
Não se valeu apenas da mentira de conveniência. Disse a Thora o que acabara de
pensar.
E ela prestou atenção às suas palavras. Nem poderia deixar de fazê-lo, pois aquilo
lhe dizia respeito. Era a esposa de um terrano; a esposa de Perry Rhodan. Será que
haviam pecado ao se casarem?
Thora esteve prestes a sucumbir a esse medo, mas lembrou-se do filho. Naquele
instante, brilhou em seus olhos o orgulho da mãe que deu a vida a um filho sadio.
— Tiff, não é verdade. Thomas está são ou doente?
Tiff fez soar sua risada atrevida.
— Está são! — disse com a voz rangedora. — Goza uma saúde de ferro.
— Neste caso, deve haver um caminho que eu possa seguir sem que o senhor tenha
motivo de ter pena de Thomas.
Tiff não lhe deu nenhuma esperança. Mais uma vez seu instinto lhe disse que, nem
mesmo com a mentira mais sofisticada, conseguiria enganar essa mulher.
— Dona Thora, não vejo nenhum caminho, e mais uma vez insisto nas minhas
observações. Nos sentimentos Thomas Cardif é um arcônida, enquanto seu pensamento é
o de um terrano. Por isso, a senhora não poderá encontrar o caminho que levará a ele.
— Se meu marido...
O Coronel Tifflor não deixou que concluísse. Quanto mais cedo soubesse da
verdade, melhor seria para ela.
— O chefe sente-se desesperado, dona Thora. Não tenho o direito de dizer-lhe isso,
mas agora é meu dever.
— Queira deixar-me só, Tiff — Thora sorriu entre lágrimas e, quando o coronel já
se encontrava na porta, disse: — Tiff, o senhor é o mesmo sujeito formidável de sempre.
Julian Tifflor fechou apressadamente a porta atrás de si. Uma vez no corredor,
esfregou os olhos.
Enquanto se encontrava a caminho do edifício da Administração, um robô de
vigilância deteve-o por um instante. Um largo círculo de engenhos desse tipo cercava o
bangalô. O Coronel Tifflor nem pensava em afastar os robôs. Não queria nem podia
assumir o menor risco com Thora. O espaço aéreo acima do bangalô também era
constantemente observado.
Muito preocupado, o coronel entrou em seu gabinete. O ordenança seguiu-o de
perto. Mas hoje Tifflor nem queria saber de quaisquer trabalhos administrativos.
— Deixe-me só. Incomode-me somente se surgir um caso de extrema urgência.
Descansou a cabeça nas mãos. Seus pensamentos giravam constantemente em torno
de um ponto, e o nome desse ponto era Thomas Cardif.
O orgulho de arcônida desse jovem, sua arrogância e sua teimosia, que por vezes
surgia inesperadamente, constituía o maior obstáculo para que seus pais pudessem
identificar-se perante ele.
O computador positrônico de Vênus, que avaliara seu caráter, chegara ao mesmo
resultado e encarecera a inconveniência de qualquer outro procedimento.
Era uma verdadeira tragédia.
Thomas Cardif era um homem de dois mundos. Carregava as características
principais desses mundos. Thomas Cardif era uma união dos extremos.
Julian Tifflor não se atreveu a formular qualquer acusação, mesmo em pensamento.
Nunca se esqueceria da dor desesperada de Thora, nem o esforço que tivera de fazer para
pronunciar estas palavras: “Tenho pena de Thomas Cardif.”
Com esta frase, acusara Thora e Perry Rhodan de se entregarem ao egoísmo mais
crasso.
Um som e uma imagem surgidos de repente representaram um verdadeiro alívio
para o Coronel Julian Tifflor.
— Pois não — disse em tom distraído, mas acordou instantaneamente ao ver o rosto
de Thora projetado na tela.
— Venha para cá, Tiff.
Dali a alguns minutos, viu-se de novo frente a frente com ela, em seu bangalô.
Thora falava. Tiff escutava comovido. Cada uma de suas palavras exprimia uma
renúncia. Cada frase baseava-se nesta afirmativa: “Tenho pena de Thomas Cardif.”
— ...mas posso vê-lo, Tiff, não posso? Acho que não é necessário que eu lhe
prometa que me apresentarei somente como a esposa do administrador.
— Pode passar perto dele — restringiu Tifflor. — De acordo, Thora.
Thora acenou fortemente com a cabeça.
— Quando poderei vê-lo, Tiff?
— No momento, o Tenente Cardif está realizando um vôo de patrulhamento pelo
sistema de Krela. Deverá estar de volta pelas vinte horas, tempo local. Pelas vinte e uma
horas, reunirei os oficiais numa conferência. Posso pedir-lhe a gentileza de dirigir
algumas palavras aos mesmos?
Num gesto impulsivo, a arcônida apertou-lhe a mão.
— Conte comigo, Tiff — disse.
E, atrás das lágrimas que lhe enchiam os olhos, brilhava o sorriso de renúncia de
uma mãe.
5

O coronel Julian Tifflor quase não prestou atenção quando, pelas 19 horas e 44
minutos, o cruzador pesado Zyklop se dispôs a pousar sob o farfalhar dos campos
antigravitacionais. Tinha muito trabalho para preparar a conferência dos oficiais,
designada a curto prazo, e não poderia reduzir a força de combate da guarnição. Apesar
do nervosismo, que crescia à medida que se aproximavam as 21 horas, parecia calmo.
Seu ajudante, o Major Lens, entrou. Tifflor mal o olhou. Lens passou imediatamente
ao assunto.
— O espaçoporto manda perguntar se ainda precisamos dos robôs de vigilância.
Para falar com franqueza, não compreendo essa proteção superconcentrada, coronel. Por
aqui já se anda dizendo que o senhor prendeu dona Thora.
— Ah! Então vivem dizendo isso, major? Muito bem. Os comandantes de gazelas já
foram convocados para a reunião.
O Major Lens enrubesceu ligeiramente. Acabara de receber uma das temidas
bofetadas morais. Tifflor não as distribuía com muita freqüência. Só recorria a estas em
caso de necessidade, e estava convencido de que agora o major faria os boatos
silenciarem de vez.
— Os comandantes das gazelas foram convocados para as vinte e uma horas,
coronel. Além de todos os oficiais do estado-maior dos cruzadores e todos os dirigentes
administrativos...
— Naturalmente — a observação foi proferida em tom mordaz.
— Quer que os desconvide? — o Major Lens também não gostava dos camaradas
que passavam a vida nos alojamentos ou nos serviços de retaguarda.
— Não. O Serviço de Comunicações tem alguma notícia especial?
Lens compreendeu imediatamente o motivo da pergunta. Tudo girava em torno da
segurança de Thora.
— Por enquanto não.
— Mais alguma coisa, major?
Julian Tifflor preferia ficar só. Viu Lens caminhar em direção à porta. No momento
em que este pretendia abri-la, ouviu-se um ruído estranho, vindo de fora.
Lens também ouvira.
— É um bombardeio de radiações, coronel?
Este colocou a guarnição em estado de alarma. O espaçoporto também ficou em
prontidão rigorosa.
Mais uma vez, o horrível chiado vindo de fora rompeu as paredes dotadas de
isolamento acústico.
— Major, é o bangalô!
A constatação de Tifflor não se revestiu da natureza de um grito histérico. Os
sessenta anos de serviços prestados a Perry Rhodan representavam um duro treinamento,
que obrigara os homens a saberem lidar com todas as situações.
O Coronel Tifflor permaneceu junto à escrivaninha e expediu suas ordens. Não
havia a menor dúvida de que o ataque era dirigido contra Thora. Correu para fora
juntamente com o Major Lens.
No mesmo instante, as sereias uivaram nos cruzadores estacionados na periferia do
campo de pouso. Dentro de menos de um minuto, as naves se prepararam para entrar cm
combate.
Na guarnição, os primeiros grupos de robôs de combate estavam assumindo suas
posições.
Tifflor chegou à grande porta de entrada antes do major, mas subitamente sentiu-se
ofuscado por um raio verde- pálido.
— Abrigue-se! — gritou Tifflor para o major, empurrando-o para trás.
Caíram ruidosamente ao chão. Nesses poucos instantes, três raios destruíram toda a
entrada e, ainda, penetraram um bom pedaço pelo corredor, até que o espetáculo cessasse
numa tremenda explosão que se verificou do lado de fora. O Coronel Tifflor tivera alguns
segundos para combinar os dados. Tinha certeza de que o ataque era dirigido contra
Thora. Ligou o rádio de bolso e transmitiu a seguinte mensagem:
— Enviar relatório ao comandante! Depois que o triplo raio destruidor s desfez
numa tremenda explosão, levantou se de um salto. Correu através de um escritório, viu
quatro homens que se haviam abrigado no chão, abriu a janela e saltou para fora.
Três metros abaixo dele, ficava um canteiro de flores bem cuidado. A terra macia
absorveu o impacto do salto. Enquanto se ajoelhava, recebeu as primeiras informações:
— Os robôs de vigilância foram destruídos por máquinas de combate
desconhecidas. O bangalô foi incendiado.
O comandante do cruzador pesado Zyklop esteve a ponto de entrar na palestra.
— Não transmita nenhum relatório! — disse Tifflor em tom enérgico.
Atravessou canteiros, tropeçou em meio à escuridão, voltou a levantar-se e berrou
para dentro do rádio:
— Quero o relatório sobre o bangalô. Acontece que, no momento, por lá só havia
robôs terranos em luta contra máquinas de guerra desconhecidas. O coronel não
compreendia. Onde estavam os três oficiais com os 25 homens que, segundo o plano de
emergência, deveriam ter assumido suas posições junto ao bangalô?
— Tenente Hecks — fungou para dentro do telefone enquanto se desviava de um
galho baixo.
Viu o bangalô que ardia na outra extremidade do parque e oito robôs terranos que
brilhavam sob o reflexo das chamas. Disparavam todas as armas de radiações de que
dispunham, pois estavam em luta com um inimigo duas vezes superior em forças.
Naquele instante, Julian Tifflor não viu nem a casa incendiada, nem a luta dos robôs.
Segurou seu rádio e falou em voz rouca:
— Alguém viu Thora? Avisem imediatamente.
Do lado oposto do parque, surgiu outra fileira de máquinas de combate, seguida de
perto por homens.
O Coronel Tifflor fê-los parar.
— Verifiquem imediatamente se Thora está no parque.
Naquele instante, raios térmicos vindos de três lados se cruzaram. Numa fração de
segundos, destruíram oitenta por cento das árvores do parque.
Mais uma vez Tifflor procurou abrigar-se. Deixou-se cair no lugar em que estava.
Mas os robôs terranos, programados para a destruição do inimigo, eram seres
positrônicos que não conheciam o susto, o medo ou qualquer outro sentimento humano.
Viraram-se instantaneamente sobre seus membros de aço, perceberam a direção da qual
vinham os raios térmicos e dispararam.
Quatro robôs inimigos explodiram numa chuva de faíscas que se abriu em todas as
direções. Mas o bombardeio de raios térmicos não se tornou menos intenso. Subitamente
o céu que cobria a guarnição envolveu-se de uma luz ofuscante. O Coronel Tifflor não
teve tempo para esconder o rosto, a fim de escapar à cegueira que duraria alguns minutos.
Porém, compreendeu a finalidade da luta que se travava no parque.
— Atenção, todos os homens! — disse para dentro de seu rádio. — A bomba
luminosa destina-se a cobrir a retirada do inimigo. Thora está desaparecida. Prestem
atenção a qualquer nave inimiga! A frota de cruzadores está pronta para decolar?
— Estamos prontos para decolar, coronel! — disse a voz do comandante do Zyklop.
Depois, o receptor permaneceu em silêncio. Não houve qualquer informação sobre
Thora.
Subitamente as informações começaram a precipitar-se.
Só mesmo um homem que tivesse passado pelo treinamento hipnótico estaria em
condições de ordenar a confusão de dados em sua mente e obter uma visão de conjunto.
E as notícias fizeram com que o Coronel Julian Tifflor temesse o pior em relação a
Thora. Nem por um instante, chegou a acreditar que tivesse morrido no bangalô
incendiado.
Naquele momento, a zona de combate tinha quinhentos metros de largura,
atravessando a sede da guarnição e estendendo-se até as imediações do campo espacial,
ultrapassando a fronteira extraterritorial.
O inimigo desconhecido devia ter lançado na batalha algumas centenas de robôs de
combate. Era uma quantidade inacreditável, mas esta não deu o que pensar ao Coronel
Tifflor, muito menos o espantou.
O ataque era dirigido contra Thora, e só mesmo um feliz acaso poderia livrá-la das
garras do inimigo.
O combate entre as máquinas positrônicas foi cessando de repente. De um instante
para outro os robôs terranos não tiveram mais qualquer alvo contra o qual pudessem
disparar. Novas notícias saíram do rádio de Tifflor.
O combate travado nas imediações do espaçoporto ameaçava a estação de controle
espacial.
No mesmo instante, Tifflor transmitiu novas ordens.
Três cruzadores leves saltaram do solo para pousar junto à estação de controle. Ao
mesmo tempo, intervieram com trinta por cento de sua capacidade de fogo na batalha de
robôs. Mas não podiam atirar sem mais nem menos contra os monstros positrônicos.
Havia um obstáculo insuperável, representado pela advertência do Coronel Tifflor:
cuidado com Thora!
Em todos os pontos, a violência da batalha diminuía, enquanto em torno do
espaçoporto as fúrias do inferno pareciam estar à solta. Talvez, o inimigo desconhecido
lançara nessa área todas as máquinas de que dispunha.
Subitamente, houve unia notícia que deveria esclarecer o ataque. Porém, apenas
contribuiu para que, na mente de Julian Tifflor, a situação ainda se tornasse mais confusa:
— São robôs arcônidas! Não existe a menor dúvida.
Uma suspeita tresloucada apossou-se de Tifflor.
Jamais Árcon cometeria uma violação tão grosseira do tratado. As máquinas
arcônidas serviriam para camuflar a identidade do inimigo que raptara Thora. Naquele
mesmo instante, teve a impressão de que a luta feroz que se travava nas imediações do
espaçoporto não passava de uma manobra “desviacionista”.
— Atenção, forças combatentes...
O Coronel Tifflor não conseguiu prosseguir. O grupo que pretendia chamar, e que
combatia cinco quilômetros além da fronteira do território do Estado de Rusuf, fez-se
ouvir no rádio:
— Inimigo embarcando mais de duzentos robôs em pequenas naves. Nave esférica
atacando com radiações. Perdas: três homens, dezenove robôs. Posição da nave...
Caramba! Está decolando.
— Tenente, forneça a posição ou prepare-se para enfrentar uma corte marcial!
Era a primeira vez que o coronel gritava desde o início do combate, e estava falando
sério ao ameaçar o oficial com a corte marcial.
A estação terrana de controle espacial acompanhou a palestra. Adiantou-se ao
tenente. Para não bloquear a freqüência com palavras desnecessárias, um homem disse:
— Localizamos nave inimiga. Está realizando decolagem de emergência...
Julian Tifflor transmitiu suas ordens:
— Haja o que houver, mantenham contato instrumental com a nave desconhecida.
Zyklop, envie imediatamente uma nave auxiliar para recolher-me a bordo. Desligo.
De propósito, não dera ordem de decolar a qualquer dos cruzadores. A vida de Thora
era tão preciosa que não desejava colocar seu destino nas mãos de outrem.
A ordem do coronel provocou o espanto do pessoal da estação de controle espacial.
Era apenas natural que não deixassem de manter o controle da posição da nave
desconhecida.
Subitamente, o homem sentado junto ao ajustador de coordenadas ergueu os braços,
num gesto de desespero. O companheiro que estava sentado a seu lado, diante da tela,
pôs-se a praguejar.
De uma hora para outra, a imagem da nave desconhecida começou a tornar-se
menos nítida; parecia desmanchar-se. À frente do ajustador de coordenadas, que poderia
fornecer a qualquer instante as coordenadas de uma nave detectada pelos instrumentos de
localização, o homem viu que todas as colunas de algarismos se encontravam na posição
zero.
— Que dispositivo de antilocalização será este? — disse num gemido Gil Besser, o
primeiro a perceber o que estava acontecendo.
O Coronel Julian Tifflor logo se adaptou à nova situação. A ordem por ele
transmitida foi dirigida ao cruzador ligeiro III. Enquanto ainda falava, a nave esférica
saltou para o céu escuro.
Num raio de cem quilômetros, todos deviam acreditar que o dia do juízo final havia
chegado, tamanho era o rugido dos propulsores e o uivo das massas de ar incandescente
deslocadas pela nave.
Sem fôlego, Tifflor chegou à grande área livre. Quase no mesmo instante, a nave
auxiliar da Zyklop estava pousando. Naquele momento, o coronel teve oportunidade de
provar que a ducha celular recebida no planeta Peregrino não apenas lhe prolongara a
vida, mas também conservara a juventude. Atravessou a área — um corredor de cem
metros — e saltou para o interior da comporta da nave auxiliar.
— Decolar! — gritou.
No mesmo instante em que a comporta se fechava atrás dele, forças titânicas
arrastaram a pequena nave para o céu noturno.
Ininterruptamente as coordenadas saíam do receptor.
A Zyklop também havia decolado. A nave auxiliar corria no encalço da nave-mãe,
que subia em marcha reduzida.
Graças a uma conjugação inacreditável da tecnologia e da perícia, a pequena nave
pôde penetrar a toda velocidade no hangar da Zyklop. No interior deste, freou com todas
as energias antigravitacionais de que dispunha e pousou suavemente.
Enquanto subiam em direção à Zyklop, o coronel colocara um traje espacial. Passou
os últimos dois minutos de viagem junto à comporta. Mal a nave auxiliar entrou em
contato com o solo do hangar, a comporta abriu-se. Julian Tifflor correu pelo gigantesco
pavilhão, em direção à comporta que estava mais próxima. As bombas ainda estavam
insuflando ar no hangar das naves auxiliares.
Apesar do elevador antigravitacional e da fita rolante, o Coronel Tifflor levou três
minutos e meio para chegar à sala de comando. Sem dizer uma palavra, o Major Holbein,
comandante da Zyklop, cedeu-lhe o lugar.
O cruzador pesado já se encontrava fora das camadas mais densas da atmosfera e
corria, a toda potência, em direção ao lugar que o cruzador ligeiro indicara poucos
momentos antes.
No interior da Zyklop os geradores e transformadores uivavam, zumbiam e
cantavam em conjunto; os conversores chiavam, e nas fases sucessivas que terminavam
nas torres de combate as energias se acumulavam, prontas para desencadearem-se num
mortífero fogo de radiações.
Os propulsores montados na gigantesca protuberância equatorial da Zyklop rugiam.
Usando a tranqüilidade do homem que conhece as limitações a que está sujeito, Tifflor
tangia a nave espaço afora. Seu aspecto exterior era o de um oficial da Frota Espacial
Terrana que não se abalava, fosse qual fosse a situação. Mas, por dentro, era um vulcão
em irrupção, e sua preocupação por Thora crescia a cada segundo.
No momento, não tinha nada a fazer; por isso, resolveu liquidar um assunto que não
poderia ser adiado.
— Hipermensagem dirigida ao chefe. Código de condensação e de distorção um, um
A e zero um...
A sala de rádio anunciou que estava pronta para transmitir.
Os oficiais da sala de comando fitaram-se com uma expressão de espanto. O código
um, um A e zero um só costumava ser usado por Perry Rhodan em pessoa. Quem teria
autorizado o coronel a utilizá-lo?
Julian Tifflor nem pensou nas pequeninas preocupações que enchiam a mente dos
oficiais. Ainda estava ocupado com a formulação da notícia do desastre, quando notou
que há bastante tempo estava fitando Thomas Cardif. Este estava sentado diante do
instrumento de localização, onde desempenhava as funções de segundo-oficial.
Naquele momento, resolveu modificar o texto da mensagem.

Thora foi raptada por robôs arcônidas. No momento,


encontra-se a bordo de uma pequena nave esférica. Iniciamos
perseguição com cruzador ligeiro III e Zyklop.
Coronel Tifflor

A mensagem ainda estava sendo processada pelo conversor quando o cruzador


ligeiro III enviou uma comunicação visual. E esta era tão importante que Tifflor ainda
reteve a mensagem destinada a Perry Rhodan.
Os técnicos do cruzador III haviam conseguido num tempo extremamente curto
romper a proteção contra a localização instrumental montada no pequeno veículo esférico
desconhecido. E, naquele instante, os oficiais da Zyklop viram na grande tela que a nave
inimiga saía com a aceleração máxima do sistema solar de Krela.
Julian Tifflor agiu com o maior sangue-frio, deixando de lado todas as convenções
celebradas entre a guarnição terrana e o governo do planeta Rusuf.
“Realizar transição ligeira no interior do sistema de Krela!”
Moveu uma chave e desligou o piloto automático da Zyklop. Adquiriu uma
semelhança notável com Perry Rhodan, enquanto uma ordem após outra obrigava os
oficiais da sala de comando a darem o máximo de si.
Envergava o traje espacial; apenas atirara o capacete para trás. Manteve-se imóvel,
enquanto os dados lhe eram fornecidos de todos os lados. Por pouco, os cinco oficiais que
operavam o computador positrônico de bordo não conseguiram acompanhar a velocidade
da ação. O Coronel Tifflor nem sequer chegou a demonstrar uma concentração muito
intensa. Ainda movia numerosas chaves, realizava controles e ajustes.
Subitamente, viu que o oficial no assento do co-piloto ia cometer um erro, pois em
vez da chave número 6, que correspondia ao cabo-mestre de energia, estava para mover a
chave correspondente ao campo antigravitacional de emergência.
No último instante, Tifflor afastou sua mão. No mesmo instante, disse com a voz
rangedora e em tom indiferente:
— Quero o Tenente Cardif no assento do co-piloto!
Nenhum dos oficiais que se encontravam na sala de comando teve tempo de
assustar-se. A mudança foi realizada num instante. Thomas Cardif teve de orientar-se para
saber até que ponto haviam sido manipulados os controles manuais para a transição de
curta distância. Nem se deu conta de que era um tenente recém-formado, cujo lugar não
era o assento do co-piloto de um cruzador pesado, e que na sala de comando havia
companheiros muito mais experientes que ele.
Tifflor não teve necessidade de proferir o algarismo 6. Thomas Cardif já estava
orientado. Com uma segurança de sonâmbulo, cheia de responsabilidade, desempenhava
sua difícil tarefa.
O computador positrônico de bordo expeliu os dados necessários. Naquele instante,
começou a contagem regressiva para a transição.
Dali a vinte segundos, a Zyklop saltaria t para o ponto no espaço em que o pequeno
veículo espacial havia escapado aos instrumentos de localização do cruzador ligeiro III.
Durante vinte segundos, reinou na sala de comando um silêncio que correspondia às
circunstâncias.
Os pensamentos e as preocupações de Julian Tifflor dirigiam-se a Thora. A fuga
precipitada da nave desconhecida, sua extraordinária capacidade de aceleração, que
permitira que escapasse até mesmo ao cruzador ligeiro, o novo sistema de proteção contra
a localização instrumental, ainda desconhecido na Terra — tudo isso, sem a menor
sombra de dúvida, indicava que Thora se encontrava a bordo do pequeno veículo
espacial.
Sem querer, Julian Tifflor fitou Thomas Cardif. j Foi de propósito que o mandou
sentar-se no lugar do co-piloto.
Naquela época — quanto tempo faria? — em que ele mesmo ainda era um jovem
tenente, o chefe também mandara que numa situação catastrófica ocupasse o lugar de co-
piloto, e então, juntamente com Perry Rhodan, havia decolado com a gigantesca Titan. O
fato de ter chamado Thomas Cardif para tomar lugar a seu lado era uma espécie de
agradecimento mudo ao chefe por aquela ordem que tão orgulhoso o deixara.
Mas, subitamente, uma exclamação vinda dos fundos da sala de comando o fez
estremecer:
— Cardif não se parece com o chefe?
Imediatamente Cardif virou-se para a pessoa que acabara de falar. Seus olhos,
estranhos para um humano — eram olhos de arcônida — chisparam. De um instante para
outro, traços marcantes desenharam-se em seu rosto jovem.
Bilhões de inteligências da Galáxia já conheciam este rosto. Era o rosto de Perry
Rhodan.
Enquanto o Coronel Julian Tifflor ainda lutava com o susto, a Zyklop efetuou seu
salto pelo hiperespaço, em direção à nave desconhecida.
O choque provocado pela transição foi um martírio para todos, inclusive para Julian
Tifflor. Uma única pessoa parecia não sentir nada. Era Thomas Cardif.
— Ali está ele, coronel! — a voz de Cardif tinha o timbre de uma fanfarra, e o braço
estendido apontava para a grande tela de visão global da Zyklop.
Julian Tifflor superou a si mesmo. Não pretendia expor-se diante do jovem tenente.
— Onde? — perguntou num gemido. Porém ouviu a retificação de Cardif, proferida
em voz alta e em tom assustado e zangado:
— Eu me enganei, coronel. A nave não é esta. A que aparece na tela é muito maior.
Esteve a ponto de dizer mais alguma coisa, mas o minúsculo ponto fulgurante que
corria em direção à grande nave parecia abalroá-la.
O tenente e o coronel fitaram-se sem dizer uma palavra.
Ambos haviam compreendido.
A pequena nave acabara de pousar no interior da gigantesca esfera espacial.
Naquele instante, ouviu-se uma voz zangada vinda do setor de observação:
— Parece que a nave está entrando em transição...
No momento em que foi transmitida a notícia, a nave desconhecida desapareceu da
tela.
— Conseguiu fazer a localização estrutural? — perguntou Tifflor em tom áspero.
A resposta veio em tom desanimado:
— Também têm seu compensador estrutural, coronel!
A mesma praga que o oficial acrescentou a essa notícia estava na mente de Julian
Tifflor.
Este levantou-se e voltou a entregar o comando da nave ao Major Holbein. Cardif
esteve a ponto de deixar o assento do co-piloto, mas o major ordenou-lhe que ficasse.
— Saiu-se muito bem, Cardif. E as palavras que foram ditas pouco antes da
transição estavam na ponta da minha língua. O senhor tinha uma semelhança espantosa
com o chefe, mas agora não se vê mais o menor sinal dessa semelhança. Bem, não
falemos mais sobre isto. Passarei à pilotagem automática. Solicite os dados sobre a rota
do porto de matrícula da nave, tenente.
Só agora Julian Tifflor retirou o traje espacial. Deixou-o caído no lugar em que dele
se desvencilhara.
A observação do Major Holbein sobre a semelhança entre Cardif e Perry Rhodan
fora demais para ele.
A esposa de Rhodan acabara de ser levada a um lugar desconhecido. E, em virtude
de um jogo da natureza, Thomas Cardif estava prestes a descobrir que era filho de Perry e
Thora Rhodan.
6

O Supercouraçado Drusus, uma nave esférica de 1.500 metros de diâmetro, viera da


Terra em três saltos, realizados sob a proteção do compensador estrutural. Só a quarta e
última transição foi realizada sem esse disfarce.
Quem quer que estivesse envolvido no rapto de Thora, não poderia ter deixado de
constatar o imenso abalo estrutural provocado pela Drusus, e teria de contar com o fato
de que Rhodan lançaria mão de todos os meios de que pudesse dispor para libertar a
esposa.
O gigantesco veículo espacial pousou pouco depois da Zyklop no campo espacial da
guarnição terrana. Ainda pairava sobre o campo, sustentada por gigantescos campos
antigravitacionais, quando o Coronel Tifflor recebeu ordens de Rhodan para comparecer
a bordo da Drusus e relatar o acontecido.
Naquele instante, Julian Tifflor se encontrava no camarote do Major Holbein. Os
dois estavam comparando as observações que haviam feito durante a fuga da pequena
nave esférica.
— Trata-se de uma nave especial, coronel! Tem um sistema propulsor superpotente.
A capacidade de aceleração é tremenda e, por isso, não posso culpar o comandante do
cruzador ligeiro III, por ter deixado escapar a nave desconhecida.
— Sou da mesma opinião, Holbein. Até chegaria a dizer que a pequena nave foi
construída especialmente para o rapto de Thora. O grande ataque de robôs lançado contra
a guarnição desviou nossa atenção. Deixamos...
Naquele instante, Julian Tifflor recebeu a ordem de apresentar-se ao chefe, a bordo
da Drusus.
Dali a pouco, atravessou a última barreira no interior da Drusus, passou por dois
robôs de vigilância que o examinaram por meio de seus dispositivos positrônicos.
Logo depois, viu-se à frente do administrador.
Estavam a sós. Perry Rhodan estava de pé no centro do camarote, com os braços
cruzados sobre o peito. Convidou o coronel a sentar-se e ouviu atentamente o relatório
que este lhe ofereceu. No momento em que Tifflor aludiu à nova proteção contra a
localização instrumental de que dispunha a pequena nave esférica, Rhodan o
interrompeu.
— Conseguiram descobrir o princípio de seu funcionamento, Tiff?
— A proteção é realizada por meio de três campos de proteção fracos e superpostos,
que descrevem movimentos de rotação em sentido contrário um em relação ao outro. Por
isso não refletem o raio de localização, e provocam um pequeno desvio de mais de
noventa e cinco por cento de sua potência. O restante da potência, que consegue penetrar
nos campos, é absorvido pela rotação dos mesmos.
— Ah! Uma fraqueza triplicada representa uma força duplicada. Bem, já
conhecemos este princípio. Faça o favor de prosseguir, Tiff.
A interferência de Rhodan representava uma atitude típica do administrador. Nunca
negligenciava qualquer detalhe que um dia pudesse assumir alguma importância. Era de
opinião que toda arma ofensiva ou defensiva perdia grande parte de seu valor depois de
conhecido o princípio de seu funcionamento.
Mas, subitamente, Perry Rhodan atirou a cabeça para trás, num gesto de surpresa.
Tifflor acabara de contar que, por alguns segundos, o rosto de Thomas Cardif apresentara
uma semelhança espantosa com o do pai.
Naquele momento, a alma daquele homem que, em poucos decênios, criara um
gigantesco império estelar, começou a fervilhar.
— Tiff, será que ele já sabe? Será que desconfia de alguma coisa?
Quem fez essa pergunta não foi o administrador do Império Solar, mas o pai de
Thomas Cardif.
— Não senhor, ainda não sabe. Mas quem poderia dizer se desconfia de alguma
coisa? Eu mesmo não sei explicar este fenômeno repentino, esta semelhança momentânea
com o senhor. Quando descontraído, seu rosto nem mesmo de perfil apresenta qualquer
semelhança com o do senhor. Mas num momento de extrema concentração, aconteceu; a
semelhança foi completa. Quem estava no assento do co-piloto não era Thomas Cardif,
mas o senhor. E mais de trinta oficiais da Zyklop reconheceram o senhor.
Rhodan fitou seu confidente com uma expressão pensativa, obrigando-se a
conservar a calma.
— Tiff, sabe o que deve fazer?
Julian Tifflor já conhecia o chefe há tanto tempo que não poderia deixar de
compreender suas palavras. Num gesto de defesa débil, como uma manifestação do
instinto de que nem ele nem Rhodan poderiam deter o destino, disse com a voz
embargada:
— Tentarei o que puder, Sir...
— Nada de tentativas, Tiff! Nunca mais faça experiências com seres humanos. Nós
dois, Thora e eu, teremos de pagar nossa dívida com juros. Coloque Thomas em ação.
Dê-lhe tanto trabalho que nem tenha tempo para pensar...
— Chefe! — nesse momento o Coronel Tifflor poderia interromper o administrador
do Império Solar sem merecer qualquer repreensão, e manifestar uma oposição indignada
às opiniões do mesmo. — Mandar que atue nesta situação? Isso significaria...
— Pare, Tiff! — Rhodan sublinhou suas palavras com um movimento enérgico do
braço. — O senhor já viu algo demais em enviar um tenente a uma missão perigosa? Pois
então. Mas o simples fato de que esse tenente é meu filho faz com que o senhor veja as
coisas sob um ângulo distorcido. A idéia acompanha-o que nem uma sombra: é o filho de
Rhodan. Dê-lhe um tratamento diferente.
“Acorde, Tiff, meu caro! Pense no caráter de Thomas. Metade do sangue que corre
nas suas veias é de origem arcônida. E Árcon é nosso maior inimigo, nosso inimigo mais
perigoso e implacável. Não gosto de superlativos. Mas, no presente caso, estes são
plenamente adequados. O que seria feito de Thomas? O ilustre filho poderia permitir-se
qualquer coisa, porque o nome de seu pai é Perry Rhodan. O que seria dele, Tiff?”
— O que será dele agora, chefe?
— Tomara que não venha a ser meu inimigo.
Perry Rhodan também era apenas um humano. Sua voz parecia cansada. E cansados
foram os passos com que atravessou o camarote e sentou atrás da escrivaninha.
Julian Tifflor não se espantou com o fato de que pouco haviam falado sobre o
desaparecimento de Thora. Por experiência própria, sabia que o chefe desenvolveria uma
ação rápida e abrangente.
— Sir, sua esposa veio numa gazela do tipo mais recente. O senhor tem alguma
objeção a que Thomas pilote essa nave de reconhecimento?
— Entregue-o a Holbein; acho que ele está subordinado ao major, não está?
— Está, sim, senhor.
— Muito bem. Não me decepcione, Tiff, e cuide bem do menino...
— Trata-se de uma tarefa difícil, chefe, de uma tarefa quase sem solução, porque o
senhor quer que Thomas realize as missões mais arriscadas. Não gosto de fazer uma coisa
dessas. Mas, por outro lado, eu o compreendo. Permite que me retire?
Rhodan fez um gesto afirmativo e seguiu o coronel com os olhos, enquanto este saía
lentamente do camarote do chefe.
Julian Tifflor entrou imediatamente em contato com o Major Holbein, comandante
do cruzador pesado Zyklop.
— Quem foi que raptou Thora?
Com essa pergunta, Holbein recebeu o coronel.
— Como posso saber, Holbein?
— O senhor vem da Drusus, coronel. E o chefe trouxe mais de trinta mutantes. Se
estes não conseguirem descobrir para onde foi levada Thora...
Era sempre a mesma coisa.
No seio da Frota Espacial, o Exército de Mutantes era considerado uma unidade
formada por semideuses, que realizava milagres. Poucos davam-se ao trabalho de
procurar enxergar atrás dos bastidores e perceber que todos os êxitos dos mutantes foram
obtidos por meio de lutas duríssimas, e que as derrotas que tiveram de engolir se
contavam pelas centenas.
— O chefe encarregou-se da operação de busca. Holbein, o senhor já deve imaginar
com que disposição ele vai entrar na briga! O que me dá de pensar no momento é a ótima
atuação desenvolvida por Cardif, no assento do co-piloto. Deve ficar de olhos nele,
Holbein.
— Mande-o pilotar o novo tipo de gazela em que Thora veio a este planeta. Aliás,
acho que deveríamos mandar que nossas naves de reconhecimento de longo curso
vasculhassem o espaço num raio de mil anos-luz. É possível que, então, consigamos
localizar a pista da nave que realizou o rapto, muito embora todas as probabilidades
falem contra esta ação.
— Bem, Holbein, vamos ao motivo de minha vinda. O senhor será responsável
pelas providências necessárias para que todos os cruzadores possam decolar
imediatamente. Diga aos homens que Rhodan espera oferecer em breve alguma coisa que
possa neutralizar o novo sistema de proteção contra a localização instrumental.
A Frota Espacial do Império Solar era um órgão bastante sofisticado. Bastou que o
Major Holbein desse algumas ordens, para que toda a frota da guarnição, relativamente
numerosa, se colocasse de prontidão para decolar a qualquer momento.
Não foi necessário exercer qualquer pressão sobre os técnicos; bastou dizer-lhes que
o chefe aguardava o resultado de seu trabalho.
Foi necessário acordar o Tenente Thomas Cardif.
Dali a alguns minutos, o jovem tenente, de estatura alta, encontrava-se à frente do
major. Uma expressão de orgulho enchia seus olhos amarelados quando ouviu que, além
de voar numa missão, pilotaria o tipo mais recente de nave de reconhecimento de longa
distância.
— É claro que você levará uma tripulação, Cardif. Já pilotou alguma vez esse novo
tipo de gazela?
— Já, major. Nosso treinamento na Academia foi feito com dois modelos diferentes.
— Muito bem. A ordem de entrar em ação será transmitida pelo rádio. Aguardo seu
aviso de prontidão para decolar.
Thomas Cardif retirou-se. Usou a campainha de alarma para acordar sua tripulação,
formada por Mac Urban, um escocês de 32 anos, dotado de uma calma fenomenal, e de
Alim Achmed, um árabe de 24 anos, nascido em Dchida, um sujeito moreno, que sabia
ser ágil e frio quando se tornava necessário assumir um risco.
Enquanto se dirigiam ao elevador anti-gravitacional central, encontraram-se com as
tripulações de mais duas naves de reconhecimento. Estas tinham de ir aos hangares onde
estavam guardadas as gazelas. Naturalmente, quiseram saber por que Thomas Cardif e
sua tripulação não seguiam o mesmo caminho.
Sem demonstrar a menor inveja, o Tenente Scheck assobiou entre os dentes:
— Uma gazela do último tipo, Cardif! Caramba! Tem um raio de ação de dez mil
anos-luz. Em comparação com esta nave de reconhecimento, as antigas não passam de
patas chocas. Que sorte!
Mac Urban e Alim Achmed disseram a mesma coisa, enquanto corriam pelo campo
espacial em que estava estacionada a gazela na qual Thora viera a Rusuf.
Quanto às dimensões, o novo tipo não apresentava qualquer alteração. O disco de
trinta metros de diâmetro tinha uma altura de dezoito metros. Acontece que o disco a ser
tripulado por eles dispunha não apenas de um mecanismo de propulsão triplamente
reforçado e de um imenso raio de ação de dez mil anos-luz. Além desses aparelhos,
estava equipado com as mais potentes armas ofensivas e defensivas.
Thomas Cardif levou meia hora para explicar a seus homens o funcionamento da
nova nave. Depois ficaram familiarizados com as inovações. Não regateou os elogios,
mas Mac Urban, o escocês, repeliu-os com um gesto.
— No fundo, só devemos isso aos maus tratos que todos têm de suportar nos
primeiros dois anos passados na Frota Espacial. Muitas vezes, até fiquei sem fôlego por
causa disso. Bem, mas isto aqui é um lindo asteróide!
Era o maior elogio que um astronauta poderia dispensar a uma nave. Os olhos
escuros de Alim Achmed chispavam, enquanto ele acariciava a pesada chave do canhão
de impulsos.
— Avise o Major Holbein de que estamos prontos para decolar, Achmed! —
ordenou o Tenente Cardif.
O árabe foi para o rádio e transmitiu o aviso. Dali a dois minutos, receberam ordens
para entrar em ação.
Alim Achmed revirou os olhos. Mac Urban encheu o cachimbo com uma calma
enervante. Não se abalaria com essa missão.
— Com uma estrela cadente como esta a busca será um prazer, Alim!
— É verdade — confirmou o árabe. — Mas vasculhar um trecho de mil anos-luz...
Subitamente, o perfurador do decifrador começou a martelar. O comando da Drusus
não assumia o menor risco: ninguém poderia captar suas mensagens.
Com um gesto pensativo, o Tenente Cardif guardou a fita perfurada, que continha os
sinais de identificação diária dos próximos dez dias, que na hipótese de um encontro com
uma nave de Árcon representaria o “abre-te, Sésamo”, que garantiria o prosseguimento
do vôo.
A comporta da gazela fechou-se. Os conjuntos já estavam aquecidos. Os três
tripulantes envergavam trajes espaciais. O capacete estava jogado para trás. Cada homem
ocupava seu lugar. O tempo de bordo começara a correr.
— Decolagem dentro de quarenta segundos!
Juntamente com a gazela do último tipo, mais dezenove naves de reconhecimento de
longa distância saíram dos hangares da Zyklop e correram espaço afora.
Thomas Cardif concentrou-se. Ele o fez inconscientemente e sem que isso lhe
custasse o menor esforço. Apenas desligou todos os setores da mente que não estavam
ligados à decolagem da gazela. Para ele, só existia a nave. Naquele instante, embora
estivesse “encapsulado”, ouviu Mac Urban, o escocês dotado de uma calma fenomenal,
dizer em tom de espanto:
— Tenente, o senhor se parece com o chefe!
— O que foi que o senhor disse? — no último instante, Thomas Cardif percebeu que
o tempo de bordo corria em direção ao ponto zero.
O momento da decolagem havia chegado.
O mecanismo propulsor começou a chiar, o sistema de neutralização gravitacional
uivou. Em torno da gazela, as massas de ar deslocado rugiram com a força de um
furacão.
A nave de reconhecimento de longa distância subiu verticalmente ao céu noturno,
sob a direção do computador positrônico de bordo.
Sentado atrás dos controles de armamento, Mac Urban continuava a fitar o jovem
comandante com uma expressão de perplexidade. Não compreendeu por que, poucos
segundos antes da decolagem, chegara a ter a impressão de ver Perry Rhodan no assento
do piloto. Agora não se via mais a menor semelhança entre o rosto do chefe e o do
tenente.
Urban lançou um olhar indagador para seu companheiro Achmed. Ao que parecia, o
árabe observara a mesma coisa. Seu rosto espelhava a perturbação, o espanto e a dúvida.
Enquanto isso, a gazela acelerava cada vez mais. O indicador do altímetro subiu
vertiginosamente pela escala. Quando chegou aos 40 mil metros acima do normal,
desligou-se automaticamente. Acabara de cumprir sua missão.
Agora se jogaria com padrões mais elevados. Saía do oceano de ar que envolvia
Rusuf e precipitava-se no espaço.
Rota: 32-12,43 pi; 45-02,53 psi; 06-58,09 chi.
— Controle de armamentos, Mac Urban! — chamou o Tenente Cardif. — Controle
dos instrumentos de medição e comunicação, Achmed!
Ele mesmo tinha muito que fazer. A começar pela determinação da intensidade dos
campos defensivos que envolviam a gazela. Depois observou o desempenho do
dispositivo de absorção de gravidade e dos conjuntos energéticos e transformadores. E,
por fim, o mecanismo de propulsão da nave.
Thomas Cardif verificou tudo da forma como aprendera na Academia.
Suas intervenções na trajetória da gazela foram reguladas imediatamente por meio
dos cálculos automáticos do computador positrônico de bordo. Mesmo depois de ter
desligado o computador positrônico por trinta segundos e realizado a pilotagem manual, a
gazela levou apenas quatro segundos, a partir da experiência, para retomar com toda
exatidão a rota nos setores pi, psi e chi.
O sol Krela corria velozmente sobre a tela de visão global da nave de
reconhecimento. Depois de surgir na parte inferior esquerda, desapareceu na extremidade
superior direita. A luz fria de sóis distantes refletiu-se na tela. Brilhavam com todo
esplendor, mas não conseguiam preencher o vasto negrume infinito do Universo, que
parecia tão ameaçador, mas era dominado pelo homem.
Thomas Cardif lançou mais um olhar para o velocímetro, que indicava o algarismo
0,7. Naquele momento, a gazela afastava-se do sistema solar de Krela à velocidade de
210 mil quilômetros por segundo.
O tenente virou-se para Mac Urban.
— O que foi que o senhor disse a respeito de minha semelhança com o chefe?
O escocês já recuperara a calma proverbial, mas assim mesmo a pergunta do tenente
deixou-o um tanto embaraçado.
— Devo ter sofrido uma alucinação, tenente. Todo o tempo fico perguntando a mim
mesmo por que fiz essa observação. É só o que sei dizer a este respeito.
— E se eu lhe disser que nesta mesma noite ouvi a mesma coisa em dois lugares
diferentes, o senhor ainda acreditará que sofreu uma alucinação?
A pergunta do Tenente Cardif foi formulada em tom tão estranho que Alim Achmed
também teve sua atenção despertada.
Um sorriso largo cobriu o rosto de Mac Urban.
— Tenente, não me venha com esta... Apesar da leve tensão que se espalhou pela
gazela, o Tenente Achmed não se esqueceu de ficar de olho nos instrumentos de
localização. Com a voz fria interveio na palestra:
— Localização no setor verde... — e acrescentou os dados.
No mesmo instante, ouviu-se uma voz saída do receptor:
— Que nave é essa? Forneçam o código de identificação.
A ordem fora dada em intercosmo, mas a língua que a proferira pertencia a um
terrano.
Alim Achmed logo identificou as naves.
— Oito cruzadores pesados.
Com um gesto indiferente, como se nunca tivesse feito outra coisa, o Tenente Cardif
atirou a indicação do código para o telegrafista. Tratava-se de um conjunto de nove letras
e algarismos.
O telegrafista transmitiu o código. A resposta veio como que num eco:
— Boa viagem!
Após isso, o silêncio instalou-se na pequena sala de comando da gazela. Oito
cruzadores terranos deslocavam-se a toda velocidade em direção a Rusuf, onde há poucas
horas pousara o supercouraçado de Perry Rhodan, a nave Drusus. Essa concentração de
poderio do Império Solar não fazia esperar nada de bom.
Thomas Cardif foi o primeiro a avaliar a situação global.
— Acredito — disse, dirigindo-se à pequena tripulação de sua nave — que, dentro
em breve, teremos uma batalha espacial que será comentada durante os próximos dez
anos. Se o chefe mandou vir oito cruzadores de uma só vez, deve ter encontrado a pista
que levará à sua esposa. Gostaria de saber quem está atrás desse rapto.
Mas logo seus pensamentos tomaram outro rumo. Virou-se automaticamente para
Mac Urban e fitou-o, sem que o visse.
“Como posso ter uma semelhança com Perry Rhodan? É impossível! Minha
ambição nunca chegou a ponto de identificar-me com ele. Como é que essa gente
descobre a semelhança no meu rosto?”, pensou intensamente.
Foi uma hora decisiva para Thomas Cardif.
Lançou um olhar pensativo para Mac Urban, mas não notou o susto estampado no
rosto do escocês. Mais uma vez, o escocês teve a impressão de ver o chefe à sua frente.
Naqueles segundos, o rosto de Thomas Cardif tinha os traços de Perry Rhodan.
7

John Marshall, um dos primeiros mutantes que se colocara a serviço de Perry


Rhodan, encontrava-se em Gelgen, a cidadezinha situada a 45 quilômetros da guarnição
terrana. Naquele momento, estava sentado no Ook-Taan; depois de uma hora, o copo de
rhegis que se achava à sua frente ainda não havia sido tocado.
Pelo aspecto exterior já se notava que Ook-Taan era um local típico dos saltadores.
Ao que parecia, os colonos de Árcon não o visitavam. Ao entrar ali, Marshall não havia
visto nenhum arcônida e, a essa hora, ainda esperava o aparecimento do primeiro
representante dessa raça.
Qualquer um reconheceria em John Marshall um terrano; por isso, nem se esforçou
para adotar um comportamento que não chamasse a atenção. A chegada do
supercouraçado de Perry Rhodan, a Drusus, e o pouso de oito cruzadores pesados,
ocorrido poucas horas depois, criara um clima tenso em Rusuf.
O governo enviara uma nota enérgica face a essa demonstração de poder, e
formulara um protesto junto ao computador-regente de Árcon. Além disso, os mercadores
galácticos viram nesse agrupamento de naves de guerra uma ameaça aos seus interesses,
e intervieram junto ao governo de Rusuf, ameaçando-o de suspenderem todo e qualquer
comércio com o planeta.
Não tiveram a menor dificuldade em demonstrar que Rhodan e sua naves já lhes
haviam causado muitos prejuízos. E, também, o menor escrúpulo em aludir aos aras, os
médicos galácticos, dando a entender que uma súbita suspensão das remessas de
medicamentos poderia ter conseqüências gravíssimas.
Marshall esperava um colega. Tratava-se de Kitai Ishibashi, o sugestor, ao qual
pedira, pouco antes de entrar no Ook-Taan, que seguisse uma levíssima pista mental.
Fora um único pensamento que captara no momento em que se encontraram com
três saltadores que caminhavam do lado oposto da rua, e lhes lançavam olhares
provocadores.
Um deles pensara em Thora e perguntara a si mesmo se a esta hora já teria chegado
ao destino.
Não era muita coisa, mas bastara para que John Marshall pedisse imediatamente a
Ishibashi que vigiasse esses saltadores, apontando na direção do sujeito maciço que
caminhava no meio do grupo.
— Cuide dele, Kitai; transforme-o num autômato — com estas palavras se
separaram.
John Marshall dirigira-se ao Ook-Taan, enquanto o japonês Ishibashi fizera meia-
volta para seguir os mercadores galácticos.
O desejo de Marshall, que pretendia transformar um dos saltadores em autômato,
não provinha de qualquer instinto sanguinário. Ishibashi tinha a capacidade de impor sua
vontade aos outros, deixando que a pessoa atingida continuasse a acreditar que agia
espontaneamente.
Durante a hora passada no local, Marshall fora duas vezes ao toalete. Pouco
importava o que pensassem os saltadores sentados em torno das mesas vizinhas. Uma vez
no toalete, transmitia seus relatórios por meio do minúsculo rádio de bolso e indagava se
os outros mutantes haviam encontrado outras pistas.
Quem respondeu foi Rhodan em pessoa.
— Não, por enquanto não surgiu nenhuma pista — dissera. — Sua notícia constitui
a primeira indicação, mas esta me parece incompreensível. Será que os saltadores
poderiam estar atrás desse rapto encenado em grande estilo?
Os pensamentos de John Marshall também giravam em torno deste ponto.
Os mercadores galácticos não eram seus amigos; quanto a isso não havia a menor
dúvida. E os aras, que eram verdadeiros gênios na área da medicina, também não
gostavam de Perry Rhodan nem do Império Solar.
Não havia ninguém que compreendesse melhor os aras que Marshall, que lhes
pregara várias peças.
Por fim, ainda havia o computador- regente de Árcon.
Bell tinha razão em não demonstrar o menor respeito para com o gigantesco cérebro
positrônico instalado no mundo central de Árcon. Chamava-o de montão de lata.
Com esse montão de lata, Rhodan havia celebrado um acordo, como representante
do Império Solar. Na oportunidade, Perry estivera convencido de que esse mecanismo
sem alma não seria capaz de enganá-lo.
Mas, com o correr dos meses, surgiram vários acontecimentos que lhe impuseram a
convicção de que os construtores do cérebro-mamute, que não eram outros senão os
arcônidas, haviam introduzido nele a fraude, a traição, a astúcia e a malícia.
Não se tratava de tentativas grosseiras de tapear o sócio; o que ocorria
constantemente era a tentativa de recorrer a todos os meios para recuperar a força
perdida, assim que o sócio suspendesse por um segundo sua vigilância.
— É mesmo o montão de lata! — disse John Marshall em voz alta e clara,
esforçando-se para usar o intercosmo.
De todos os lados lhe foram lançados olhares atentos. Nenhum deles era amável. A
permanência nesse local estava ligada a certos riscos. Gelgen, uma cidadezinha arcônida,
não era uma área extraterritorial controlada pela Terra. Mas isso não incomodou. Estava
interessado exclusivamente em conseguir uma pista palpável da esposa de Perry Rhodan.
Subitamente, um ligeiro choque elétrico atravessou seu corpo. A Drusus ou Kitai
Ishibashi estava chamando. Esse choque representava o pedido de anunciar à estação
transmissora que estava pronto para receber a mensagem.
John Marshall olhou as palmas das mãos. Ainda o estavam fitando de todos os
lados. Girou as mãos. O anel num dos dedos da mão esquerda estava torto. Naturalmente,
ao girá-lo produziu o efeito desejado. John Marshall aprendera a comprimir a minúscula
saliência que havia nele.
Desde a época em que alguns milhares de microtécnicos haviam sido levados à
Terra, todo o Exército de Mutantes foi equipado com esses instrumentos milagrosos de
reduzidas dimensões e grande desempenho.
Marshall apoiou a cabeça na mão esquerda, colocando o anel junto ao ouvido. Não
era necessário recorrer ao instrumento que trazia no bolso. Um micro transmissor do
tamanho da cabeça de um alfinete daria conta do recado.
Kitai Ishibashi estava chamando.
— Estou preso. Rangeroo-n, subterrâneo, do lado esquerdo. Construção de plástico
cinza-escura com os emblemas dos saltadores. Desligo.
O gesto de pegar o copo e tomar a aguardente rhegis foi apenas uma reação normal.
Kitai Ishibashi estava preso!
Ele também!
No interior de Ook-Taan os mercadores galácticos não permitiram que houvesse
qualquer dúvida quanto a isso. Alguns deles haviam colocado as armas de radiações sobre
a mesa. Estas deveriam servir-lhe de advertência. Os rostos zangados diziam o resto.
Cinco saltadores dirigiram-se à porta. Provavelmente sua tarefa consistia em não permitir
a entrada de espectadores.
Marshall realizou um controle instantâneo de seus pensamentos. Leu-os como quem
lê num livro aberto. Quando examinou a mente do homem que se encontrava no bar, teve
de controlar-se para não estremecer.
Os pensamentos frios e assassinos dirigiram-se contra sua pessoa.
“Com este não vamos perder tanto tempo como perdemos com Thora, a arcônida
traidora.”
No mesmo instante, John Marshall mexeu no anel:
— Aqui fala Marshall — cochichou, enquanto colocava ambas as mãos à frente da
boca. — Bar Ook-Taan, situado na rua principal. Enviar imediatamente um contingente
de robôs.
A mensagem só consumira um segundo e meio. Passou a mão pela boca, desceu o
braço, pegou o copo vazio e fez um sinal em direção à copa, para que lhe servissem mais
um rhegis.
Outro choque débil anunciou que nova mensagem estava sendo expedida. Marshall
não teve necessidade de examinar os rostos dos saltadores. Era muito mais simples ler
seus pensamentos. Todos estavam aguardando o sinal de agir contra ele.
John mexeu no anel, desligando o microfone e ligando o alto-falante. Nesse instante,
o chefe dos mercadores galácticos saiu do lugar que ocupava junto ao balcão e
aproximou-se da mesa de Marshall. Este desistiu de ler os pensamentos. Mal teve tempo
de ouvir a mensagem que estava recebendo.
Será que não provocaria suspeitas se mais uma vez apoiasse a cabeça na mão
esquerda?
— Marshall, você não conseguirá sair do bar. Já solicitei auxílio...
Não ouviu o resto da mensagem de Ishibashi. O mercador galático de rosto
traiçoeiro encontrava-se a seu lado e apontava o radiador térmico para ele.
— Venha conosco, terrano!
A palavra terrano exprimia o ódio e o desprezo de uma galáxia.
— É a polícia? — perguntou John Marshall em tom de espanto. — Mas...
— Venha logo; não discuta. Marshall levantou-se, nem muito depressa, nem muito
devagar.
Os mercadores galácticos aproximaram-se de todos os lados. Só o caminho da porta
ficou livre. Lá, cinco robustos saltadores já o esperavam.
— Vamos logo para a porta, terrano. Ande depressa!
John Marshall, um homem alto e de cabelos escuros, voltou o rosto alongado para o
chefe dos saltadores. Apesar da situação crítica em que se encontrava, teve coragem de
perguntar:
— O senhor pensou bem nas conseqüências do ato que está praticando?
A resposta foi uma risada que não anunciava nada de bom. Duas pessoas seguraram-
no por trás. No mesmo instante, três saltadores aproximaram-se pela frente e passaram a
revistá-lo.
Não se espantaram ao encontrar um radiador de impulsos. Mas sentiram-se
perplexos por não descobrirem qualquer aparelho de comunicação.
— Onde será que deixou essa droga? — chiou o mercador galático que dirigia o
grupo.
John Marshall o guardava no bolso esquerdo da calça. Acontecia que o aparelho era
tão pequeno que só se poderia pegá-lo com uma pinça. Qualquer mão humana passaria
por cima do mesmo, a não ser que algum acaso o fizesse entrar embaixo da unha.
A busca infrutífera proporcionou alguns preciosos segundos ao mutante de Perry
Rhodan. Este não resistiu quando lhe torceram o braço nas costas. Parecia indiferente
diante do que estavam fazendo com ele. Na verdade, esforçava-se para estabelecer
contato telepático com Kitai Ishibashi, que o prevenira pouco antes do ataque dos
saltadores.
Como o sugestionador japonês, que também se encontrava em situação crítica,
poderia saber que ele, Marshall, não conseguiria sair de Ook-Taan?
A ação telepática realizada por Marshall não produziu o menor resultado. Os três
saltadores desistiram de procurar o aparelho de comunicação.
— Deve tê-lo jogado no toalete — resmungou um deles e recuou.
Marshall leu os pensamentos dos saltadores. Também o dirigente do bando já se
convencia de que o terrano fora ao toalete para livrar-se do aparelho de comunicação.
— Levem-no para fora!
Naquele instante, houve outro pequeno contratempo.
Alguém que se encontrava nos fundos do local gritou algumas palavras. O rosto do
chefe do bando contorceu-se num riso de satisfação.
Falando em tom presunçoso, disse a Marshall:
— Você será o quinto que daqui a pouco nos revelará todos os segredos sob os
efeitos de uma lavagem cerebral.
Ao dizer estas palavras, o saltador pensava intensamente em Thora, e estabeleceu
uma ligação entre a arcônida e o êxito da ação que resultará na captura de cinco agentes
terranos. O resultado final seria um alto negócio.
John Marshall contava com sessenta anos de atividade de agente, fora beneficiado
por várias vezes com o treinamento hipnótico arcônida, e sempre recebera de Perry
Rhodan o ensinamento de que dentre uma série de acontecimentos deveria reconhecer
sempre o que mais importava. E John Marshall leu nos pensamentos do chefe o nome
Itzre Delagin.
Era o homem de quem o chefe dos saltadores queria arrancar uma soma absurda
pela captura dos cinco agentes terranos. Além disso, queria conservar um trunfo:
conservar todo o saber terrano, que seria obtido por meio da lavagem cerebral.
Em toda a Galáxia, não havia coisa mais infame que a lavagem cerebral. Uma
pessoa submetida a esse processo revelava tudo que sabia e, ao sair do aparelho, estava
transformada num idiota.
Marshall sabia que não poderia esperar a menor compaixão dos saltadores. Estava
em perigo de dali a algumas horas ser um idiota. Apesar disso, não se esqueceu da missão
em que se lançara juntamente com Perry Rhodan e os outros mutantes.
Foi empurrado em direção à porta, onde cinco saltadores já o aguardavam. Os dois
indivíduos que lhe haviam torcido o braço entregaram-no aos outros. No mesmo instante,
Marshall soltou um gemido bem estudado e caiu ao solo.
Meia dúzia de gigantescas mãos de saltadores estenderam-se para agarrá-lo, mas
atrapalharam-se umas às outras. Marshall aproveitou a oportunidade para atirar os braços
para a frente, ligar o microfone do anel... e jamais o treinamento levado a efeito por horas
a fio, que lhe permitia encontrar instantaneamente os comandos, rendera dividendos tão
altos.
Caiu para a frente. Pôs a boca sobre o punho cerrado e, sem que qualquer dos
saltadores pudesse ouvi-lo, cochichou duas palavras para dentro do microfone:
— Itzre Delagin.
Quase no mesmo instante o chefe, zangado com a demora, berrou:
— Será que vocês não conseguem pôr para fora um miserável terrano?
Estas palavras também foram transmitidas pelo micro aparelho de Marshall. A sala
de rádio da Drusus era mantida a par de sua situação.
Marshall foi levantado como se fosse um saco. A porta abriu-se. Logo à frente, havia
um jipe. Foi atirado para dentro da pequena cabine da viatura como se não passasse de
uma massa de matéria inerte.
Dois saltadores seguiram-no de perto. A porta fechou-se. Um arcônida de vestes
relaxadas estava junto à direção. Um olhar bastou-lhe para perceber que estava na hora de
dar a partida. O motor de radiações começou a rugir e estava atingindo o desempenho
máximo, quando um uivo diabólico, vindo de cima, atingiu os ouvidos de quem se
encontrava no veículo. Este foi atingido de raspão pela gazela, que o atirou para o interior
de Ook-Taan.
A larga porta foi atirada para dentro do bar.
Acontece que, mesmo depois de abalroado, o jipe ainda desenvolvia metade de sua
potência.
E essa potência foi suficiente para atirar o veículo contra o bar, com uma aceleração
de 3 G, passando por cima de mesas, cadeiras e dos saltadores, que não foram bastante
rápidos para afastar-se.
As garrafas foram quebradas com um estrondo, pois não representaram nenhum
obstáculo para o jipe.
John Marshall não via nem ouvia mais nada. Durante o primeiro impacto havia
batido com a cabeça contra alguma coisa e perdera os sentidos. Mas seu micro
transmissor continuava a emitir e, na sala de rádio da Drusus, ouviu-se todo o barulho
infernal que enchia Ook-Taan.
Houve um homem que não se impressionou com isso: Perry Rhodan.
Entrou em contato com três dos seus agentes que trabalhavam em Cill, capital do
planeta Rusuf.
— Procurem Itzre Delagin!
A condensação da ordem implicava a maior urgência.
Enquanto isso, o jipe desgovernado e com a frente deformada ficara preso nas
paredes firmes do local.
Da gazela saíram precipitadamente vários homens-máquina.
Dois robôs de guerra terranos usaram suas armas de impulso para paralisar o motor
do jipe. Seis outros saíram em perseguição dos saltadores que fugiam. O chefe dos
mercadores galácticos era um deles.
À frente de Ook-Taan, quatorze das máquinas de guerra fecharam hermeticamente a
rua e cercaram o quarteirão em que ficava o bar dos saltadores.
A polícia arcônida de Rusuf, alarmada pela violência usada por uma nave de
reconhecimento terrana em pleno centro da cidade, nada pôde fazer contra os robôs
fortemente armados.
O canhão de impulsos da gazela descrevia círculos ameaçadores de 360 graus.
Mesmo os mais curiosos dentre os arcônidas perdiam a vontade de se deleitarem com o
espetáculo.
Um grito de indignação passou pela multidão mantida à distância, quando oito
mercadores galácticos expulsos de Ook-Taan pelo contingente de robôs foram tangidos
para o interior da gazela.
As máquinas de guerra de Rhodan não olhavam para a direita nem para a esquerda.
Trabalhavam segundo sua programação e só obedeciam aos comandos de seu dispositivo
positrônico. Era bem verdade que um sistema de lentes e um aparelho auditivo ultra-
sensível permitiam-lhes que registrassem as reações do ambiente. Porém, uma vez que o
dispositivo positrônico nada tinha a dizer sobre isso, a gritaria e as paixões humanas
desencadeadas ao seu redor não existiam para eles.
Depois de haverem destruído com suas armas de impulsos o motor do jipe, os dois
robôs encontrados no interior do bar retiraram John Marshall da cabine deformada.
Não negligenciaram os três tripulantes do jipe: um arcônida de roupas desleixadas e
dois saltadores. Também estavam inconscientes.
Um dos robôs carregou Marshall nos braços mecânicos como se fosse uma criança.
Outro colocou os dois saltadores sobre os ombros largos e arrastou o arcônida atrás de si,
como se fossem sacos.
Vendo na atuação das máquinas de guerra terranas uma usurpação intolerável, os
arcônidas e os mercadores galácticos gritaram de indignação. E, a seguir, desencadearam
um ataque absurdo, pois achavam-se desarmados.
Romperam o tênue cordão de isolamento. As máquinas de guerra, que se mantinham
em pé em meio à multidão exaltada como se fossem colunas de aço, não usaram as
armas. Sua programação não o previa. Os robôs, que se encontravam a bordo da gazela,
possuíam outro tipo de programação.
Sua reação foi imediata!
De repente o canhão de impulsos da nave de reconhecimento deixou de descrever
seus círculos de 360 graus. Em compensação os anteparos das peças hipnóticas foram
retirados. Sem provocar o menor ruído, estas passaram a expelir seus raios.
Estes agiram sem o menor ruído, e a gritaria saída de centenas de bocas cessou
como por encanto.
Era um quadro fantasmagórico. De qualquer maneira, os robôs atrás das peças
hipnóticas não poderiam modificar nada. Sua programação previra a liberação do hipno;
duração de 0,25 segundos, intensidade 10 a partir de jota 20.
Era uma dose muito suave...
O silêncio foi rompido pelos passos retumbantes de numerosos robôs, que corriam
rapidamente em direção à gazela, vindos de todos os lados. Não houve a menor pressa ou
confusão junto à comporta. Subiram pela gigantesca rampa como se estivessem num
campo de provas.
A rampa foi recolhida. A comporta fechou-se. Os propulsores começaram a uivar.
Enquanto a gazela se desprendia do solo, seus campos defensivos foram ativados. As
pessoas que se encontravam na área de atuação destes foram atiradas para os lados.
O robô-comandante não tomou conhecimento do fato.
O comando introduzido em sua programação era simples. Uma vez cumprida a
missão, deveria voltar à Drusus pelo caminho mais rápido e pousar.
Assim que a gazela iniciou o curto salto de 45 quilômetros, a três quilômetros dali,
outra gazela subiu na Rua Rangerro-n. Também concluíra sua missão, que consistia em
libertar o mutante Kitai Ishibashi.
Vinte e dois minutos depois de John Marshall regressar à Drusus, o outro mutante
entrou a bordo do supercouraçado. Para ele, os robôs haviam surgido no último instante.
Se não fosse o micro transmissor, que funcionara ininterruptamente, transmitindo a
palestra dos saltadores para a Drusus, os homens-máquina não o teriam localizado tão
depressa.
Já estava amarrado à cadeira do aparelho de lavagem cerebral, esperando apenas que
a máquina diabólica fosse ligada.
Perry Rhodan acabara de ser informado de que os cinco mutantes haviam regressado
sãos e salvos. Encontrava-se em seu camarote, juntamente com Crest. Os dois
aguardavam notícias dos agentes que trabalhavam em Cill. O nome fornecido por John
Marshall era a única indicação que poderia permitir a Rhodan seguir a pista dos
seqüestradores de Thora.
Era a única esperança.
Mas, nem mesmo Crest, o arcônida, acreditava que os mercadores galácticos
estivessem atrás do seqüestro de Thora. Transmitiu sua opinião a Rhodan.
— Isso parece ser obra de Árcon, Rhodan!
— É possível — disse o administrador do Império Solar, esquivando-se de um
pronunciamento direto. — Acontece que já sabemos do que os saltadores são capazes. No
momento, minhas suspeitas se dirigem contra Árcon e contra um clã dos saltadores que
ainda não conhecemos. Já constatamos que minha esposa foi seqüestrada por mercadores
galácticos. Infelizmente os indivíduos trazidos pelos robôs não sabiam mais que isso. Só
o chefe do grupo conhece Itzre Delagin, mas não sabe como é, onde mora e a que clã ele
pertence.
“Isso não é de estranhar, Crest. Não se esqueça de que a esse grupo cabia apenas
usar todos os meios para impedir as investigações que pudessem levar-nos ao paradeiro
de minha esposa. Para mim, é apenas natural que o tal do Itzre Delagin faça o possível
para manter-se distante desses acontecimentos de ordem secundária.”
— Tomara que o nome esteja certo...
Estava. Mas os três agentes não conseguiram encontrar Itzre Delagin na cidade de
Cill
8

Fazia dezoito horas que o Tenente Cardif decolara com sua gazela do planeta Heet-
Ris, depois de um ligeiro pouso. Transmitira uma mensagem codificada e condensada de
hipercomunicação e, imediatamente, recebera da Drusus a ordem de seguir a pista.
Com isso, foi eliminada a restrição segundo a qual só deviam deslocar-se pelo
espaço num raio de quinhentos anos-luz em torno de Rusuf.
A pista era tênue, e só deram com ela por acaso. Mac Urban pedira que pousassem
em Heet-Ris.
Tratava-se de um mundo de oxigênio inóspito, onde havia uma colônia arcônida
abandonada. Mas, muito antes dos arcônidas, outro povo importante devia ter vivido no
sexto planeta do sistema de dois sóis, pois os vestígios de sua existência perduraram por
mais de dez mil anos, embora o povo tivesse sido tragado na voragem dos séculos.
Mac Urban sabia da existência de misteriosos monumentos metálicos de setecentos
metros de altura, espalhados ao acaso por Heet-Ris. Mas nunca vira esses monumentos,
nem qualquer fotografia dos mesmos.
Era um homem que gostava de ocupar-se em caráter particular com coisas
misteriosas, e, por isso, manifestara o desejo de pousar no sexto planeta, enquanto
passavam pelo sistema de dois sóis. Seu entusiasmo pelas culturas desaparecidas e não
esclarecidas fora transmitido a Thomas Cardif, que depois de ligeira hesitação concordou
em pousar em Heet-Ris.
O sistema ficava a trezentos e setenta e seis anos-luz do sol Krela.
No momento em que pousava a gazela junto a um dos monumentos, Thomas Cardif
não pensava em outra coisa senão naquelas gigantescas construções metálicas de
setecentos metros de altura. Sentira-se tocado pela expressão alegórica das colunas. Para
um homem, aquilo era muito estranho, embora lhe tocasse a alma intensamente.
Ainda impressionado com os monumentos, Thomas Cardif não notou, ao desligar os
propulsores, que o aparelho automático de análise da atmosfera registrava a presença de
uma elevada dose de radiações no ar de Heet-Ris.
— Abra os campos, tenente! — gritou Alim Achmed por cima do ombro. — Há
perigo de radiações.
As palavras de Alim Achmed e o ato de Thomas Cardif foram praticamente
simultâneos. O jovem tenente reagiu com uma rapidez espantosa diante da situação
inesperada. Percebeu a dose perigosa de radiações contida na atmosfera e, no mesmo
instante, a suspeita se instalou em sua mente.
— Achmed, verifique de que direção vêm as radiações! Urban, está preparado para
entrar em combate?
— Todas as peças de artilharia prontas para disparar, tenente — gritou o escocês
junto ao painel de controle do armamento. Imaginara que o pouso em Heet-Ris fosse
menos dramático. Mas aquilo cheirava a perigo.
Alim Achmed procurou determinar a direção da qual vinham as radiações
extremamente intensas. No momento em que se inclinou sobre os instrumentos, com uma
expressão de espanto no rosto, Cardif e Urban compreenderam que alguma coisa não
estava em ordem. Antes que pudessem formular uma pergunta, o árabe exclamou:
— As radiações vêm da ponta dessa coluna, tenente!
***

— OK! — rangeu a voz de Cardif. — Prontidão rigorosa. Vamos verificar o que


houve na ponta da coluna.
Os dados sobre as colunas de Heet-Ris, armazenados no computador positrônico da
nave, foram bem extensos. O que impressionava era o fato de que a base de cada coluna
cobria uma área de cerca de cinco quilômetros quadrados, enquanto no topo ainda media
1,5 quilômetros quadrados.
Deslocando-se paralelamente ao monumento metálico, a três mil metros deste, a
gazela subiu à altura do topo. A intensidade das radiações cresceu vertiginosamente.
— Isso é mau — disse Achmed, e continuou a transmitir as cifras representativas da
intensidade das radiações.
Ao alcançar a altitude de trezentos metros, Thomas Cardif fez a nave subir à
velocidade de apenas cinco metros por segundo. Não sabia por que agia dessa forma.
Concentrou-se cada vez mais sobre as indicações fornecidas por Achmed.
Seiscentos metros de altitude!
A intensidade das radiações era tamanha que até parecia que estavam entrando num
reator de elevada potência.
— A... bem... a... aaa. — gaguejou Achmed.
Thomas Cardif lançou um olhar apressado em sua direção. Ao perceber que
subitamente o valor das radiações diminuíra em oitenta por cento, não pareceu ficar
muito impressionado.
Parou abruptamente o movimento da gazela. Passou a descer à velocidade de um
metro por segundo. A cada metro descido as radiações se tornavam mais intensas. A nave
de reconhecimento chegou à zona em que estas eram mais fortes.
Thomas Cardif descreveu uma rota circular. Contornou a coluna.
— É interessante! — murmurou, sem dar-se conta de que naquela situação se
mantinha frio como gelo.
Os olhos corriam alternadamente para os instrumentos e para a tela de visão global.
A três mil metros, as apresentações alegóricas contidas na coluna pareciam uma pintura
de doido.
Haviam contornado dois terços da coluna, a 643 metros de altitude, quando uma
abertura de cem metros de diâmetro apareceu na tela.
— Abertura à vista! — anunciou Mac Urban com a maior tranqüilidade.
Sob a proteção dos potentes campos defensivos que envolviam a nave, Thomas
aproximou-se a duzentos metros da abertura.
— Vândalos! — disse Mac Urban em tom indignado.
Continuava junto ao painel de controle de armamento, e com aquela única palavra
exprimira tudo que estava sentindo.
A abertura fora produzida pela ação do calor. As massas metálicas parecidas com
cera falavam uma linguagem inconfundível.
— Radiações inalteradas — anunciou Alim Achmed a meia voz.
Thomas Cardif tomou sua decisão: fez a gazela penetrar no inferno de radiações.
Os campos defensivos da nave foram solicitados até o limite de sua capacidade. O
suor começou a porejar na testa de Alim Achmed. Porém, Mac Urban, o escocês,
continuou tranqüilamente junto ao painel de controle de armamento, e contemplou, em
sua pequena tela, a confusão que havia no interior da coluna.
A nave de reconhecimento encontrava-se quarenta metros acima da gigantesca
instalação esfacelada, derretida e atirada para todas as direções por meio do processo de
desintegração atômica não dirigido. Pela grande abertura, não penetrava luz suficiente
para iluminar todos os ângulos. Cardif ligou todos os holofotes e, quando dirigia o feixe
principal para a esquerda, viu uma série de destroços que revelavam traços
inconfundíveis de tecnologia arcônida.
— A coisa começa a ficar interessante — murmurou e pediu que Urban se afastasse
de seu posto junto ao controle de armamentos. — Assuma meu lugar, Urban. Irei lá fora.
Urban esteve a ponto de formular uma objeção, mas Cardif cortou-lhe a palavra com
um gesto autoritário.
— Por que me olha com essa cara, Urban? Sei perfeitamente o que estou fazendo.
Essas radiações não impedirão que eu volte são e salvo.
Thomas Cardif não sabia que, nesse instante, apresentava novamente uma
semelhança assustadora com Perry Rhodan.
Dali a dez minutos, saiu da gazela, que pousara numa pequena área livre em meio
aos destroços. No interior da cabine de comando, Alim Achmed e Mac Urban fitaram-se
perplexos.
— Você notou? — perguntou Urban com a voz rouca.
O árabe falou apressadamente:
— É uma coisa medonha, Mac. É mais que estranho. Sempre que o tenente se
concentra, torna-se igualzinho ao chefe. Será que Rhodan é pai de Cardif?
O escocês achou que seu companheiro fora longe demais ao formular essa pergunta.
— Alim, nunca mais faça essa pergunta. Haja o que houver, será preferível ficar
quieto. O que está fazendo Cardif lá fora?
Na grande tela de visão global, viram o Tenente Cardif desaparecer em meio aos
destroços. Depois de quinze minutos martirizantes, o rádio de capacete de Thomas
transmitiu esta interrogação:
— O que é isso?
Depois voltou a reinar o silêncio; apenas se ouvia a respiração ofegante do tenente.
— Urban!
O escocês estremeceu. Fora a voz de Perry Rhodan. Respondeu prontamente:
— Pois não, Sir.
Thomas Cardif nem parecia notar essa forma de tratamento. Falando com a mesma
ênfase, pediu:
— Verifique o que significa o número 4186-4-162.
Mac Urban moveu cinco chaves e introduziu a indagação no computador
positrônico. Mal havia acionado a última chave, a fita perfurada foi expelida pela
máquina.
— Então?! — indagou-se Urban, admirado.
Lançou um olhar para a fita, decifrou os sinais perfurados e recuou, surpreso.
— Tenente Cardif — disse pelo microfone de bordo.
— Sim — respondeu este no recinto em que fervilhava o inferno atômico.
— 4186-4-162 é o número-código de um sol, que... um momento, vou fazer o
cálculo... que fica a 8.055 anos-luz daqui, na direção da base arcônida 776-B-667. Esse
sol não tem nome, tal qual o seu único planeta gigante. É estranho: só uma lua do planeta
gigante tem um nome: Silico V. Nunca ouvi-o antes.
— Obrigado. Continuarei a revistar a área. Como estão as radiações, Achmed?
— Constantes; vêm da direita.
— Obrigado.
Thomas Cardif demonstrava um estranho laconismo. Dali a meia hora, voltou a
entrar na nave de reconhecimento e, ainda no interior da comporta, trocou seu traje
espacial por vestes não contaminadas de radiações. Deixou-se cair no assento do piloto,
sem dizer uma única palavra.
Achmed e Urban não o molestaram com perguntas. Lançaram-lhe um olhar de
expectativa. O tenente saíra só para fazer o reconhecimento, e só ele saberia avaliar suas
descobertas.
Virou-se lentamente para eles; fitou-os com o rosto de Perry Rhodan; os olhos
arcônidas exprimiam um máximo de concentração.
— Urban, quero ver o registro dos fortes estelares de Árcon.
O escocês demonstrou um enorme espanto.
— Aquilo ali — apontou para fora — é um forte blindado, tenente?
— Já foi, Urban. Pelo que pude constatar, foi urna instalação automática que, apesar
de uma sofisticada vigilância positrônica, explodiu num processo catastrófico de
desintegração atômica.
Urban voltou a lançar um olhar para a tela de visão global da nave de
reconhecimento. Viu o quadro de uma tremenda destruição. A onda de calor e de pressão
gerada pela explosão se deslocara com temperaturas solares e sua tremenda força soprara
para fora o anteparo metálico como se fosse uma simples rolha.
Nesse momento, a maior parte do material gaseificou-se e o restante pingou pela
face externa da coluna como se fosse cera líquida.
— Tenente, precisamos sair daqui — advertiu Achmed. — Duas vezes desligamos
os campos defensivos por um breve instante, mas isso bastou para que um bom volume
de radiações penetrasse na nave.
— Está bem, Achmed. Poderá dar-me a lista quando estivermos lá fora, Urban.
Dali a dez minutos, a gazela pairava cem quilômetros acima da superfície do
planeta. Thomas Cardif acabara de estudar a lista dos fortes blindados de Árcon. O
planeta Heet-Ris não constava da mesma.
— Vamos para junto da próxima coluna, Urban!
— Tenente, o senhor acredita que todas as colunas...?
— Isso mesmo, Urban. Tenho certeza de que estamos na pista de uma artimanha
refinada dos arcônidas. Foram eles quem espalharam essa conversa da origem pré-
histórica das colunas, depois de terem instalado às escondidas seus equipamentos
cósmicos nesses monumentos gigantes. Achmed, o senhor e seus instrumentos dirão se
acertei no alvo, ou se me deixei levar por um engano.
A próxima coluna surgiu à sua frente. A gazela desceu a dez quilômetros.
Subitamente, Achmed soltou um assobio.
— Localização, tenente. Caramba, nem teria notado, se o senhor não me tivesse
pedido que prestasse atenção. O que nos atingiu nem chegou a ser um raio, mas apenas
um “esfregão vazio”.
Quando se aproximaram do terceiro monumento, passaram pela mesma experiência.
— Mudar de rumo! — disse o Tenente Cardif e, recorrendo à força dos
superpropulsores, levou a nave para o espaço cósmico com a velocidade de uma estrela
cadente.
Dali a alguns minutos, o hipercomunicador, com o condensador e o codificador
acoplados, levou a mensagem do Tenente Cardif em direção ao planeta Rusuf, onde foi
captada pela Drusus.
A resposta não se fez esperar:

Verifiquem se lua Silico V situada no sistema 4186-4-162 é


uma fortaleza cósmica. Não assumam qualquer risco.
A ordem de procurar localizar pistas da nave seqüestradora
está cancelada.
Perry Rhodan.

Mac Urban, o escocês, acariciou os controles de armamentos; um sorriso de orgulho


surgiu no rosto de Achmed; e o orgulho também brilhou nos olhos do Tenente Cardif.
Desde o início da existência do Império Solar, sempre fora uma raridade alguém receber
uma ordem expedida diretamente pelo administrador.
— Acho que estamos numa pista muito importante — resmungou Mac Urban. —
Estes arcônidas são de amargar. Que amigos! Mas afinal, o que é que se poderia esperar
de tipos como estes? Uma raça que prefere deixar-se governar por um computador em
vez de dirigir o próprio destino não pode levar a honestidade muito a sério. Aliás, como
foi que o senhor descobriu o número-código 4186-4-162?
— Estava escrito na placa de decifração de um decodificador antiquado, meio
derretido. Não há dúvida de que é um produto da tecnologia arcônida.
9

A nave do Tenente Thomas Cardif desenvolvia 0,39 da velocidade da luz ao penetrar


no sistema 4186-4-162. O único planeta do sistema encontrava-se em oposição ao sol.
Gravitava em torno de seu astro rei a setecentos e vinte milhões de quilômetros.
Aquele sol, um astro de pequenas dimensões, com a metade do tamanho do sol
terrano, exibiu enormes manchas solares aos três tripulantes da gazela. Essas manchas
cobriam um terço da superfície do sol.
Alim Achmed, que estava sentado junto aos instrumentos, fungou muito contrariado.
— Esse forno não deixa de ter suas qualidades! Isto é um verdadeiro fogo cruzado
de interferências.
Desenvolvendo pouco menos que a velocidade da luz, passaram a duzentos e
sessenta milhões de quilômetros do sol. O astro começou a desaparecer na margem
direita da tela. Nesse momento, o único planeta do sistema surgiu do outro lado de sua
atmosfera incandescente.
Por estranho que pudesse parecer, o catálogo estelar dos arcônidas, geralmente tão
meticuloso, não trazia qualquer indicação sobre o gigantesco planeta. Além disso,
sonegava o número exato de luas e, contrariando a numeração usual, deu à quinta lua o
nome de Silico, para caracterizá-la pelo algarismo V.
— Tenente, a tal lua Silico V tem pouco menos de oitenta quilômetros de diâmetro
— anunciou Alim Achmed. — Mas não foi só isso que meus instrumentos constataram.
Essa luz está envolta por campos defensivos mais potentes que os da Drusus.
Thomas Cardif freou a gazela, reduzindo abruptamente a velocidade para 0,3 da da
luz. Os aparelhos de absorção de pressão da nave de reconhecimento tiveram de trabalhar
ao máximo de sua capacidade, mas só o trovejar de seu mecanismo revelou o tremendo
impacto que tiveram de anular.
— Oitenta quilômetros de diâmetro... — repetiu Thomas Cardif em tom pensativo.
Dali a um instante, ordenou a Achmed:
— Irradie o código de identificação, no ritmo vinte.
Isso significava que o código deveria ser irradiado vinte vezes por minuto.
A gazela descreveu uma curva suave e passou pelo gigantesco planeta, entre a
segunda e a terceira lua. O planeta propriamente dito ocultava sua face sob uma
atmosfera borbulhante de cloro.
A quarta lua encontrava-se atrás do planeta, enquanto Silico V se afastara em sua
órbita excêntrica a 5,7 milhões de quilômetros do mundo de cloro.
Naquela distância, o minúsculo astro não era visível na tela. Thomas Cardif moveu
uma chave e ligou a ampliação setorial máxima. O espaço cósmico parecia precipitar-se
para o interior da gazela. De um instante para outro, o planeta gigante e o cintilar das
estrelas haviam desaparecido. A ampliação setorial, regulada para a distância de 5,7
milhões de quilômetros, adaptava-se automaticamente à velocidade que a nave
desenvolvia a cada momento, oferecendo uma visão nítida do respectivo setor.
Thomas Cardif dirigiu a nave diretamente para Silico V. Aquele mundo estranho,
sem ar, cobria dois terços da altura da tela. Viram-se marcos de dez metros, mas nenhum
deles indicava outra coisa senão que Silico era uma esfera de oitenta quilômetros de
diâmetro.
— Não houve resposta ao código de identificação, Achmed?
— Nem resposta, nem qualquer localização partida de Silico V.
— Nem mesmo um “esfregão vazio”? — Thomas Cardif resolveu usar a expressão
do árabe.
— Nada, tenente, mas não acredito nessa calma. Para que servem os superpotentes
campos defensivos desse astro?
— Farei essa pergunta ao astro, assim que tivermos chegado mais perto —
respondeu o jovem tenente e perguntou a si mesmo quantos seriam os fortes cósmicos
blindados cuja existência Árcon havia ocultado ao Império Solar.
Naquele instante sentiu um calafrio. Detectara um erro de lógica: por que Silico V se
identificava como um sistema cheio de armas energéticas ao ativar seus campos
defensivos? Por que resolvera dispensar o fator surpresa? Poderia deixar que o inimigo se
aproximasse sem desconfiar de nada e destruí-lo numa ação instantânea, antes que este
tivesse tempo de esboçar qualquer reação.
Cardif reduziu a velocidade para 0,1 da da luz. Precisava de tempo para refletir
melhor. Apesar disso, continuava a aproximar-se rapidamente da quinta lua, cujos
contornos recortados se tornavam cada vez mais nítidos na tela.
Um tanto distraído, voltou a perguntar:
— Nenhuma resposta ao nosso código de identificação, Achmed?
— Nenhuma, tenente.
Cardif manteve a rota inalterada. Achmed lembrou-o disso, indicando a distância
sem que isso lhe tivesse sido solicitado:
— Trezentos e noventa mil quilômetros, tenente!
Se fosse mantida a velocidade de 0,1 da luz, dali a treze segundos a gazela colidiria
com Silico V.
Thomas não reagiu à observação. Dirigindo-se a Urban, perguntou:
— As armas estão preparadas?
— Estão prontas para disparar, tenente.
— Distância: duzentos e dez mil quilômetros.
Isso significava que dali a sete segundos a nave colidiria com os campos defensivos
superpotentes da lua Silico V e seria destruída.
— Transmita o sinal de emergência pelo raio direcional, Achmed.
Alim Achmed reagiu com uma rapidez espantosa. Sabia que não poderia usar o
hipercomunicador. Não queria que metade da Via Láctea descobrisse a situação fingida
de emergência em que se encontravam.
Enquanto Thomas Cardif freava a gazela, reduzindo sua velocidade a cem
quilômetros por segundo, Achmed expediu o sinal de telecomunicação pelo raio
direcional. Por uma questão de cautela, usou a língua arcônida.
Silico V não respondeu. Mas a gazela aproximava-se cada vez mais dessa lua, que
era a única imagem a aparecer na tela de visão global.
Thomas Cardif estreitou os lábios. Sentiu todo o peso da responsabilidade. Porém,
nem pensou em fazer meia-volta e fugir diante dos campos defensivos superpotentes sem
ter conseguido nada.
— Atenção, gente! — exclamou em tom martirizado. — Aproximar-me-ei desta lua
anã com o máximo de aceleração até a distância de quinhentos quilômetros. Achmed,
envie ininterruptamente o sinal de emergência. Continue a acrescentar o código de
identificação. Urban, preste atenção para perceber quando nos afastarmos da luz e
voltarmos a mergulhar em sua sombra.
— Posso disparar com todas as peças; tenente?
— Pode, ao menor sinal de ação hostil vindo de Silico V.
A decisão acabara de ser tomada. O clima no interior da gazela não sofreu qualquer
modificação. Alim Achmed e Mac Urban já haviam realizado outras missões desse tipo, e
sempre voltaram sãos e salvos.
Desta vez, também não se preocuparam. Seu comandante, um tenente recém-
formado, agia tal qual uma velha raposa do espaço, como se já tivesse cumprido algumas
missões deste tipo sob o comando de Perry Rhodan.
— Fechar os capacetes espaciais! — foi a última ordem expedida por Thomas
Cardif.
No mesmo instante, a nave acelerou ao máximo de sua capacidade. A gazela
precipitou-se vertiginosamente de uma distância de cento e cinqüenta e seis mil
quilômetros sobre a lua Silico V.
O sinal de emergência e o código de identificação continuavam a ser irradiados
ininterruptamente.
As mãos robustas de Mac Urban seguravam tranqüilamente as duas chaves dos
canhões de impulso. Não se desviava por um segundo sequer do dispositivo ótico de
pontaria, no qual aparecia a lua.
Distância: oitenta mil quilômetros.
A gazela continuava a acelerar. E a distância decrescia na razão inversa da
aceleração, reduzindo-se para trinta mil quilômetros.
Dez mil quilômetros de distância!
Não houve qualquer resposta, nem ao sinal de emergência, nem ao código de
identificação.
— É obstinado como só um arcônida pode ser obstinado — foram as palavras que
Thomas Cardif ouviu o árabe dizer pelo rádio de capacete.
A distância descia vertiginosamente: 8.000, 5.000, 3.000, 2.000, 1.000...
A quatrocentos quilômetros de altura, os campos defensivos superpotentes
envolviam a lua Silico V. Thomas Cardif não tinha a intenção de colidir com os mesmos.
700 quilômetros...
600...
A gazela parecia voar em direção ao centro da lua anã. Se em Silico V houvesse
algum observador atento, teria a impressão de que o mecanismo direcional da pequena
nave se danificara, e que esta iria de encontro ao pequeno mundo deserto e entrecortado,
cuja superfície consistia em milhares de pequenas cadeias de montanhas.
500 quilômetros...
Thomas Cardif começou a levantar a nave.
Naquele instante, os campos defensivos da gazela sofreram o impacto frontal de um
terrível raio energético. Por uma fração de segundo, os campos pareciam absorver a
torrente energética. Mas logo estouraram como uma bolha de sabão. Em primeiro lugar,
romperam-se à esquerda da nave, dando-lhe um ligeiro empurrão para a direita, e
arremessando-a para fora do inferno.
Thomas Cardif apenas chegara a ver o terrível raio energético. Depois perdeu os
sentidos.
Quando voltou a si, os destroços fumegantes da gazela passavam silenciosamente
por ele, precipitando-se em direção ao solo lunar.
— Urban; Achmed. Façam o favor de responder imediatamente! — gritou para
dentro do microfone de seu rádio de capacete.
Mas o receptor apenas emitiu um chiado monótono. Urban e Achmed não
responderam.
O Tenente Cardif fez mais três tentativas de entrar em contato com os mesmos.
Finalmente convenceu-se de que não haviam resistido ao traiçoeiro ataque.
Ao contemplar aquele mundo inóspito e mortífero, seu rosto não traiu a menor
emoção. Seu traje espacial, que lhe permitia voar, evitaria que se esfacelasse na rocha.
Mas quando contemplou o altímetro automático e viu que a altura era de duzentos e
oitenta e sete quilômetros, seu rosto transformou-se numa máscara.
Silico V desligara seus superpotentes campos defensivos. Naquele momento, não
passaria de um corpo celeste de oitenta quilômetros de diâmetro para quem o
contemplasse de fora.
O que estaria oculto em seu interior?
Thomas Cardif não esperava nada de bom.
10

A realidade ultrapassou seus piores receios.


Quando, depois de ter pousado na superfície lunar, foi conduzido à frente de um
robô, deu-se conta de que naquele astro não havia nenhum ser humano. Silico V era um
mundo robotizado. Os homens-máquina, dirigidos por um mecanismo positrônico,
deveriam proteger o forte blindado arcônida instalado no interior da lua por meio da
artilharia pesada e dos canhões energéticos superpotentes; deveriam disparar sempre que
sua programação o exigia.
Thomas Cardif foi escoltado por cinco robôs. Eram diferentes dos outros; não eram
máquinas de guerra, nem de trabalho. Pareciam desempenhar funções policiais e
administrativas. Possivelmente disporiam de poderes limitados.
Sob o ponto de vista positrônico, sua inteligência chegava mesmo a ser excepcional.
Cardif já fizera experiências nada agradáveis nesse terreno. Não se sentira muito à
vontade ao ouvir o que um dos cinco robôs lhe disse. Com sua inteligência fria e
desalmada provou a Cardif, face a observações precisas, que o sinal de emergência da
gazela terrana era apenas um blefe, e que a rota de colisão da nave fora determinada pela
vontade do comandante.
Thomas Cardif caminhava no meio dos robôs.
Já andara algumas centenas de metros abaixo da superfície lunar.
Mostraram-lhe tudo, e o que viu bastou para deixá-lo sem fala.
Nem mesmo a Drusus possuía canhões energéticos daquele tamanho. Nem se
atreveu a avaliar-lhe a potência. O fato de todos eles trazerem sinais de velhice
representava o único consolo. Mas isso só até quando se deu conta de que esse forte
arcônida fora construído num corpo celeste de oitenta quilômetros de diâmetro.
Silico V era uma base arcônida de dimensões estelares. Ao lembrar-se das
numerosas colunas-mamute de Heet-Ris — cada uma das quais devia ter a potência de
fogo de uma nave do tipo da Drusus — Cardif deu-se conta de que, na realidade, o
Império de Árcon era mil vezes mais forte do que se apresentara aos olhos de Perry
Rhodan.
Passaram por uma ponte que cruzava uma sala de trezentos metros de comprimento
e setenta metros de altura. O Tenente Cardif não acreditou no que seus olhos viram: a
gigantesca catedral era uma estação conversora.
Chegaram ao elevador antigravitacional. Desceram rapidamente, sempre escoltado
pelos cinco robôs.
Atravessaram um corredor abaulado de trinta metros de largura e chegaram a uma
porta minúscula, bloqueada por várias barreiras de radiações.
Enquanto, ao lado da pequena porta, um robô ainda estava removendo as barreiras,
Thomas Cardif ouviu pelo microfone externo os passos pesados de outros homens-
máquina.
Ainda envergava o traje espacial, com o capacete fechado. Virou-se
automaticamente para os robôs que acabavam de chegar. No primeiro instante, não viu
quase nada, pois uma lâmpada o ofuscava, mas quando seus olhos, numa adaptação
rápida, conseguiram enxergar de novo, nem chegou a estremecer diante do quadro que se
lhe oferecia.
Não acreditou no que estava vendo.
“Como poderia Thora ter parado aqui?”, indagou-se mental e friamente.
Uma pancada nas costas, desferida pelo punho de um dos robôs, obrigou-o a
prosseguir em sua marcha. A minúscula porta abriu-se. Atrás dela havia uma comporta.
Assim que entrou, ouviu um robô dizer pelo microfone externo:
— Pode tirar o traje espacial. A atmosfera existente aqui tem a mesma composição
do ar terrano.
Os robôs o excediam em altura em mais de um metro. Sem mostrar o menor
nervosismo, Cardif tirou o pesado traje espacial. Agora, não se sentia tão tranqüilo, pois
naquele instante tornava-se indefeso. Mas logo se lembrou do lugar onde estava e deixou
o traje espacial para trás sem que isso lhe provocasse a menor tristeza.
Ao recinto vazio em que se encontrava, seguiu-se outro que logo o fez evocar um
filme arcônida que lhes fora exibido na Academia, a fim de que conhecessem de vista as
salas típicas de interrogatório dos arcônidas.
“Permitiram-lhe” que se sentasse.
Quatro robôs permaneceram a seu lado, enquanto o quinto saiu por uma porta
lateral. Não voltou. Em compensação, dali a pouco, se ouviu a voz metálica que, em tom
áspero, dirigiu a primeira pergunta a Thomas Cardif.
“Isso é um cérebro positrônico!”, pensou Cardif, que se lembrou do computador
gigante de Árcon III, que dirigia o gigantesco Império do grupo estelar M-13.
Graças ao treinamento recebido na Academia Espacial Terrana, Thomas Cardif
manteve-se tranqüilo, enquanto respondia às perguntas que lhe eram dirigidas. Quando o
locutor invisível quis saber por que ele, Cardif, resolvera pousar na estrela Heet-Ris, o
alarma soou em sua mente.
Inclinou-se quase imperceptivelmente para a frente. E uma modificação quase
imperceptível surgiu em seu rosto. Respondeu sem a menor hesitação. Disse que haviam
pousado em Heet-Ris para satisfazer o interesse de Mac Urban pelas construções pré-
históricas.
Depois de alguns segundos de silêncio, teve-se a impressão de que o locutor
invisível acreditou na veracidade da resposta. Na opinião de Cardif, a pergunta seguinte
representava um perigo para a segurança do Império Solar. Enquanto pesava rapidamente
as diversas possibilidades, uma porta se abrira a seu lado, e dela saíra uma mulher alta e
esbelta, de cabelo muito claro, peculiar à raça arcônida.
A mulher viu um homem sentado entre quatro robôs. Naquele instante, este se
concentrava ao máximo para responder a uma pergunta. Antes que pudesse compreender
o que estava fazendo, a mulher soltou um grito estridente:
— Perry, como é que você veio parar aqui?
No mesmo instante, percebeu a quem realmente dirigira estas palavras.
Reconheceu-o pelo uniforme de tenente, não pelo rosto.
Era Thomas Cardif, seu filho!
E ela o chamara pelo nome de Perry... ela, a esposa de Perry Rhodan.
Porém, o jovem continuava a parecer-se com o pai. Muito mais agora, que se
levantava de um salto, sem que os robôs o impedissem.
Então era este seu filho!
O rapaz, que a fitava com os olhos dela e que tinha a aparência de Rhodan há
sessenta anos antes, aproximava-se dela. Os movimentos do jovem eram iguais aos de
Perry Rhodan.
Mas havia mais alguém que vira e ouvira tudo: o locutor invisível. Subitamente sua
potente voz metálica se fez ouvir:
— Fico-lhe muito grato, dona Thora!
Naquele instante, Thomas Cardif berrou:
— Isto é uma... — mas logo se calou.
Dobrou o cotovelo direito. Levou a mão à testa. Enxugou o suor.
Não continuou a caminhar em direção a Thora.
Não conseguiu dar mais um passo.
Uma terrível suspeita mantinha-o preso ao lugar em que se encontrava.
11

Rhodan leu a mensagem:

Localizamos Itzre Delagin. Thora encontra-se em Silico V,


no sistema 4186-4-162. Seqüestro realizado exclusivamente por
mercadores galácticos. Na maioria pertencem ao clã...

Perry não leu o resto.


Deu o alarma. Decolariam dali a quatro minutos. Destino: 4186-4-162, Silico V, em
conformidade com o catálogo estelar arcônida.
Dali a quatro minutos, a Drusus subiu ao espaço com um ribombo, juntamente com
nove cruzadores pesados e vinte e três cruzadores ligeiros. Rhodan em pessoa pilotou a
Drusus. A direção acoplada faria com que toda a frota, que participava da formação, fosse
guiada pelo supercouraçado.
4186-4-162 ficava a 8.431 anos-luz do planeta Rusuf. Qualquer espaçonave cujos
mecanismos de propulsão estivessem em bom estado conseguiria alcançar o sistema num
único hipersalto.
A formação da frota terrana realizou seis transições.
Durante a primeira e a terceira não se recorreu aos compensadores estruturais.
Quem quer que se mantivesse à espreita na Galáxia seria enganado pela manobra.
Os três primeiros saltos conduziam em direção oposta a 4186-4-162. Só os últimos três,
realizados sob a proteção do compensador estrutural, levaram a formação ao destino.
A setenta e cinco minutos-luz do sistema 4186-4-162, as naves saíram do
hiperespaço para retornar ao cosmo normal. O choque da transição continuava a ser
intenso e desagradável. Mas cada indivíduo o sentia de maneira diferente. Perry Rhodan
não demorou tanto em livrar-se dos seus efeitos como Crest, o arcônida.
Naquele instante, Rhodan — administrador do Império Solar e sócio do Império de
Árcon em igualdade de condições, ao qual o computador-regente conferira poderes
extraordinários — não sentia muita simpatia pelo cérebro desalmado, cujo modo de agir
provinha de uma logística muito sutil.
Logo após a decolagem de Rusuf, mandou que todos os arquivos fossem revistados
em busca de dados sobre 4186-4-162. Ao mesmo tempo, solicitou detalhes relativos ao
planeta Heet-Ris.
Mas só conseguiu generalidades, tanto sobre Silico V como sobre Heet-Ris. Nada
indicava que os dois mundos fossem posições cósmicas avançadas, dotadas de
extraordinário poder ofensivo.
— Crest — começou Rhodan, dirigindo-se ao arcônida. — Por que será que o
senhor não sabe nada sobre isso?
A palestra estava sendo mantida na gigantesca sala de comando da Drusus. O
comando acoplado, que ligava os cruzadores leves e pesados com o centro de astro-
navegação do supercouraçado, fora suspenso há um minuto. Cada nave voltara a
transformar-se numa unidade autônoma.
Crest deu de ombros.
— É possível que essas fortalezas tenham sido construídas há dez ou doze mil anos
e, por algum contratempo não identificado, tenham perdido o contato com Árcon. Esta
suposição não constitui nenhum absurdo. Basta lembrarmo-nos do grande computador
positrônico instalado em Vênus, cuja existência era desconhecida a mim e continua a sê-
lo aos arcônidas de hoje. Ainda é possível que a construção tenha sido realizada sob o
regime de sigilo absoluto. Nesse caso, só três pessoas têm conhecimento da...
— Além do computador-regente! — afirmou Rhodan.
— Naturalmente. Este é o primeiro a saber — respondeu Crest em tom ligeiramente
deprimido.
Para Rhodan, o assunto estava encerrado. Usou o sistema de intercomunicação de
bordo para chamar a sala de rádio.
— A gazela comandada pelo Tenente Cardif ainda não deu nenhum sinal de vida?
A resposta foi imediata.
— Não senhor. Estamos tentando por todos os meios.
— Obrigado — disse Rhodan em tom lacônico.
Só Crest compreendeu o olhar que Rhodan lhe lançou: Perry estava preocupado com
a sorte do filho.
A formação terrana avançava em frente ampla em direção a 4186-4-162, formando
um enorme semicírculo. O sol sem nome foi crescendo em meio à cintilância de milhares
de estrelas. Transformou-se num disco, e passou a emitir uma luminosidade cada vez
mais forte. Seu único planeta, de dimensões gigantescas, surgiu sob a forma de uma foice
pálida, que emitia um brilho verde. Os satélites daquele mundo gigante ainda não se
haviam tornado visíveis na tela global da Drusus.
Todos que se encontravam a bordo das naves, inclusive Perry Rhodan e Crest,
formavam uma idéia errada sobre o tamanho de Silico V.
As naves voavam sob a mais forte proteção contra a localização, mas era evidente
que essa proteção se tornava cada vez mais fraca, à medida que se aproximavam do
destino. A partir de certa distância, os instrumentos inimigos mostrariam os temíveis
diagramas triplos que, embora fossem apagados e incapazes de fornecer dados precisos,
constituíam uma indicação inequívoca da presença de naves desconhecidas. Um homem
bem treinado, que já tivesse lidado várias vezes com os diagramas triplos, seria capaz,
apesar do sombreamento, de determinar a posição das naves que se aproximavam com o
uso do dispositivo protetor.
As naves de guerra terranas dirigiam-se ao destino à velocidade de 0,96 da da luz.
Quando se encontravam a quinze minutos-luz de distância, apenas a Drusus desligou o
sistema protetor contra a localização, transmitiu seu código de identificação e anunciou
que Perry Rhodan se encontrava a bordo.
Silico V não respondeu. Os transmissores superpotentes da Drusus emitiram o sinal
numa seqüência ininterrupta, utilizando todas as faixas possíveis. Os chamados dirigidos
à gazela do Tenente Cardif foram transmitidos sem prejuízo desse sinal. O setor de
instrumentos anunciou:
— Silico V tem oitenta quilômetros de diâmetro e a forma de um globo. Atmosfera
ausente. Gravitação 1,1.
Rhodan acenou com a cabeça. Seu rosto anguloso tornou-se ainda mais expressivo.
Num mundo que apresentava essas dimensões ridículas, a gravitação de 1,1 só poderia
significar uma gravidade artificial.
Naquele momento, teve certeza de que os mercadores galácticos haviam levado sua
esposa para Silico V.
Mas por que a gazela de Thomas não respondia?
Usou o sistema de intercomunicação de bordo para entrar em contato com o setor de
investigação de raios cósmicos.
— Verifique o espaço em torno de Silico V. Quero saber se a radiatividade é idêntica
em todos os setores. Considerem os efeitos das manchas solares. A medição deve ser
iniciada no ponto da órbita em que Silico V se encontrava há vinte e quatro horas. Os
resultados deverão ser fornecidos imediatamente a mim.
Crest encolheu-se. Compreendeu a terrível suspeita que Perry Rhodan trazia na
mente. Em sua opinião a gazela já deixara de existir. Provavelmente fora destruída nas
últimas vinte e quatro horas pelo fogo de radiações da fortaleza.
Da parte esquerda da sala de comando da Drusus, ouviu-se subitamente uma
exclamação exaltada:
— Silico V acaba de ativar campos defensivos. Santo Deus... têm a potência dos
campos arcônidas... — o homem passou a recitar cifras que provocaram uma reação de
espanto até mesmo em Crest, o arcônida. Mas este não teve tempo de fazer qualquer
observação a este respeito.
O setor de investigação de raios cósmicos, situado novecentos metros abaixo deles,
no interior do corpo gigantesco da Drusus, estava chamando.
— Nas coordenadas pi... constatamos fortes radiações. Verificamos sem a menor
sombra de dúvida que provêm de aço 465-r-02. Com base nas medições da órbita de
Silico V, pode-se afirmar que o processo foi desencadeado há oito horas e dezessete
minutos, a cerca de seiscentos quilômetros da superfície da lua. O curso acelerado do
processo de desintegração só pode ter sido provocado por raios de impulsos.
O aço 465-r-02 era um material criado na Terra, que, em comparação com o aço
Árcon-T, utilizado na construção dos veículos espaciais do Império, possuía
consideráveis vantagens. Especialmente sob o aspecto térmico. E, mesmo sem qualquer
proteção especial, era mais resistente à ação da radiatividade.
Mantendo os olhos semicerrados, Rhodan permaneceu imóvel no assento do piloto e
deixou que alguns segundos se passassem em silêncio.
Só Crest sabia o que o amigo estava sofrendo.
Ali estava o homem mais poderoso do Império Solar, instalado no comando de uma
das naves espaciais mais potentes da Via Láctea. No entanto, não passava de um pobre
homem martirizado, impotente face ao destino, que lhe roubara ao mesmo tempo a
esposa e o filho.
Quanto a Thomas Cardif, todas as esperanças estavam perdidas.
E a probabilidade de rever Thora era inferior a um por cento.
A formação continuava a aproximar-se do sistema a 0,96 da velocidade da luz. O
sistema de proteção contra a localização, que envolvia todas as naves, com exceção da
Drusus, consumia quantidades enormes de energia. Apesar disso, todas as naves ainda
dispunham de imensas reservas energéticas, que apenas aguardavam o momento de serem
utilizadas.
Protegida apenas pelos campos defensivos, a Drusus, uma esfera espacial de mil e
quinhentos metros de diâmetro, atravessava o sistema em direção a Silico V.
Rhodan deu ordem para que a formação de cruzadores se mantivesse trinta
segundos-luz atrás da Drusus. Porém, face às distâncias astronômicas e ao alcance dos
canhões energéticos e dos lançadores de raios, esse “atraso” não teria a menor
importância.
No momento em que pela primeira vez apareceu na grande tela de visão global do
supercouraçado, a lua Silico V não passava de um grãozinho de pó perdido no negrume
do Universo. Agora já se apresentava como um corpo insignificante, um nada inofensivo.
— Gravitação de 1,1 — disse Crest, que se mantinha atrás de Perry Rhodan e não
podia deixar de pensar constantemente em Thora e em Thomas Cardif.
Queria distrair-se e desejava que também Perry Rhodan se concentrasse
inteiramente na manobra de aproximação da fortaleza cósmica. Mas, apesar da
convivência de sessenta anos, Crest ainda não conhecia perfeitamente o terrano Perry
Rhodan.
Este já se encontrava em estado de concentração.
Era duro e desumano consigo mesmo, muito mais duro do que jamais poderia ser
para com outro homem. Sufocara sua dor, sua angústia mental. Foram apagadas pela
força de sua vontade. Naquele momento, só visava aos interesses do Império Solar e aos
homens que se encontravam na Drusus e nas outras naves que se aproximavam
vertiginosamente da lua esférica.
Os dados foram chovendo de todos os lados. O grande computador positrônico de
bordo trabalhava ininterruptamente. Enviava cifras novas, ligeiramente alteradas, às
torres de canhões da gigantesca Drusus. Realizou cálculos cada vez mais precisos da
potência dos campos defensivos estelares que envolviam Silico V. Qualquer modificação
de dados que representasse uma vantagem para a fortaleza cósmica enfraquecia em grau
exponencial a posição da Drusus, até que esta disparasse o primeiro tiro.
A três minutos-luz de Silico V, a formação freou, reduzindo a velocidade para 0,1 da
da luz. Os cruzadores ligeiros e pesados continuavam a voar sob a proteção contra a
localização. Apenas a Drusus estava “de viseira erguida”.
— Rhodan, não quer chamar o computador-regente? — Crest não pôde deixar de
formular esta pergunta.
O computador positrônico de bordo acabara de calcular que, se todas as armas das
naves terranas bombardeassem simultaneamente os campos defensivos de Silico V, este
só consumiria dez por cento de sua capacidade.
Dali se concluía que Perry não conseguiria romper esses campos.
Rhodan nem sequer chegou a voltar a cabeça quando ouviu a pergunta de Crest.
Disse com a maior tranqüilidade, e era exatamente isso que constantemente abalava o
arcônida:
— Já se foi o tempo em que eu acreditava que um computador positrônico não é
capaz de mentir. Não chamarei Árcon III, mas proporcionar-lhe-ei um prazer bastante
duvidoso. Terá de manter-se inativo, enquanto eu transformar esta casa de marimbondos
numa lua inofensiva.
Inclinou-se ligeiramente para a frente, comprimiu um botão e falou para dentro do
microfone:
— Atenção, arquivo, procure imediatamente todos os dados relativos à construção
das fortalezas cósmicas dos arcônidas. Desligo.
Mantendo-se na mesma posição, efetuou rapidamente outra ligação e chamou o
setor do qual nenhum dos numerosos oficiais que estavam na sala de comando se havia
lembrado:
— Transferir todos os robôs, dentro da respectiva capacidade, ao hangar B-65.
Programação 1-1. Execução dentro de oito minutos. Desligo.
A próxima ordem foi transmitida à sala de rádio:
— Enviar uma mensagem de hipercomunicação por toda a Galáxia. Todos os
cruzadores ligeiros e pesados, couraçados e destróieres deverão entrar em estado de
prontidão. Ao receberem a mensagem 45-1-00, entrarão imediatamente em transição, em
direção ao sistema 4186-4-162 do catálogo estelar arcônida. Perry Rhodan. Desligo.
Um sorriso fugaz passou pelo rosto angustiado de Crest.
O código 45-1-00 era apenas um blefe preparado há muito tempo. Qualquer nave de
guerra, que recebesse essa ordem, apenas faria uma ligeira interrupção nas ações
costumeiras. A ordem não causaria grande alarma.
Tratava-se de um comando inventado especialmente para o computador-regente
instalado em Árcon III e para os mercadores galácticos, que também estavam metidos
naquilo.
Uma das características da mentalidade de Perry Rhodan consistia no empenho de
obter o melhor resultado possível ao menor custo e com o menor risco.
Subitamente, o espaço cósmico negro com a cintilância fria de milhares de sóis
rompeu-se.
Silico V estava golpeando sem aviso prévio!
Seis canhões de impulsos da fortaleza procuraram romper os campos defensivos da
Drusus e transformar a nave numa nuvem luminosa de gases. Mas a Drusus apenas sofreu
um ligeiro abalo. Prosseguiu na mesma velocidade de 0,1 da da luz em direção à lua
liliputiana.
— Ataque vindo de vermelho vinte e cinco — disse alguém do posto de comando.
Silico V estava atacando com a potência triplicada, e dois terços dessa potência
atingiram os campos defensivos do supercouraçado, provocando uma verdadeira cascata
luminosa de energias desencadeadas.
Qualquer outra nave se teria evaporado sob o impacto de tamanho volume de
energia. Os campos defensivos da Drusus apenas tremeram fortemente e repeliram a
energia.
— Indicador de capacidade: setenta e dois por cento!
Quase chegava a representar um alarma. Esperava-se que isto fizesse Rhodan liberar
o fogo.
Crest observou-o.
O que estaria acontecendo na alma de Perry Rhodan naquele instante? Em que
estaria pensando esse homem, que ao ver de Crest estava predestinado a transformar-se
um belo dia no senhor do Universo?
— O transmissor fictício está pronto para entrar em ação?
Enquanto a pergunta era formulada, a gigantesca Drusus levou a efeito uma
mudança inesperada de rota para bombordo.
O dispositivo de absorção de pressão uivou ligeiramente, fazendo com que a
gravitação de 1 G permanecesse inalterada na nave. No lugar em que, uma fração de
segundo antes, se encontrara o supercouraçado via-se um monstro energético feito de
trinta raios de impulso enfeixados, que se perdeu nas profundezas do espaço.
Crest fitou Rhodan. O que fizera com que justamente nesse instante o terrano
modificasse subitamente a rota da nave?
Não teve tempo para pensar no assunto. Chocou-se com a ordem seguinte emitida
por Rhodan.
— Colocar os robôs de guerra em Silico V por meio do transmissor fictício.
Apressem-se!
— Sir — gritou o oficial do posto número 8, e o tom de voz anunciava um desastre
iminente. — Estamos constatando um enorme represamento de força magnética em Silico
V. Parece que se trata de um ataque de bomba gravitacional.
A bomba gravitacional era uma das armas mais terríveis que se conhecia. Qualquer
objeto atingido por sua ação era atirado para a quinta dimensão.
A reação de Rhodan foi imediata.
— Transição de fuga! — ordenou à formação de cruzadores.
A proteção contra a localização voltou a envolver a Drusus, enquanto a nave se
afastava com o máximo de aceleração e num desvio de rota de 43 graus.
O computador positrônico de bordo “conservou” a mesma calma de Perry Rhodan.
Forneceu ao transmissor fictício todos os dados necessários para que essa arma
extraordinária, da qual Rhodan recebera dois exemplares da estranha inteligência coletiva
do planeta Peregrino, pudesse colocar os robôs de guerra na superfície de Silico.
O transmissor fictício trabalhava na sexta dimensão. Em todo o Universo, não havia
qualquer proteção contra essa arma, que podia ser utilizada para o transporte imediato de
qualquer tipo de matéria a uma distância ilimitada.
Enquanto a Drusus se afastava vertiginosamente com um desvio de rota de 43 graus,
o transmissor fictício transferiu uma leva de robôs após outra à superfície de Silico V.
Para ele, os potentes campos defensivos da fortaleza estelar não existiam.
— Ligar a localização com o transmissor fictício!
Perry Rhodan não pretendia assumir o menor risco. O transporte de robôs sofreu
uma ligeira interrupção. O oficial que se encontrava no comando principal do transmissor
ouviu o que lhe cabia fazer.
A bomba de gravitação seria interceptada pelo transmissor fictício, no caminho da
lua liliputiana para a Drusus, para explodir em qualquer ponto do espaço em que não
pudesse causar qualquer desastre.
Poucos oficiais se encontravam presentes por ocasião da luta contra Topthor, o
superpesado, quando os homens de Rhodan também tiveram que se defender contra uma
bomba gravitacional. Esses oficiais sabiam o que estava acontecendo. Os outros tremiam
por dentro.
— Ataque! — exclamou o oficial do posto 8 com a voz ansiosa. — Sem dúvida
trata-se de uma bomba gravitacional.
Subitamente, ouviu-se uma respiração ofegante, seguida de uma frase proferida em
tom de espanto:
— Já não há mais nada.
O transmissor fictício retirara a bomba do campo energético que se deslocava em
direção à Drusus, para atirá-la no espaço vazio, onde acabou explodindo.
— Prosseguir no transporte dos robôs!
Perry Rhodan não perdeu tempo. A localização fora desligada do transmissor. Do
hangar B-65 do supercouraçado, centena após centena de máquinas de guerra
desapareciam sob a ação do misterioso aparelho, para no mesmo instante assumir sua
posição na face oculta da lua-anã.
Finalmente Rhodan recebeu os dados sobre a construção das fortalezas estelares de
Árcon. Mais uma vez deu prova de sua genialidade universal. Examinou ligeiramente o
complicado desenho, reconheceu-lhe os aspectos mais importantes, e os observou com
ligeiras variações, no segundo, terceiro e quarto desenhos, sempre no mesmo lugar.
Já sabia onde procurar o computador positrônico de Silico V.
— Transmissor fictício, como vai a manobra de transporte de robôs?
— Operação concluída, Sir.
— Regular o transmissor para a Drusus. O aparelho levará a nave para Silico V. O
computador de bordo fornecerá as coordenadas. Desligo... Sala de rádio. Chame de volta
a formação de cruzadores. Deverão realizar um ataque concentrado assim que a Drusus
abrir fogo. Desligo... Transmissor fictício, tudo preparado?
— Tudo preparado, Sir. Aguardo as coordenadas...
Mais uma vez, os campos defensivos da Drusus foram atingidos. Pareciam não
resistir mais ao impacto energético. Na nave ouviu-se o rugido dos geradores aos quais
cabia absorver e neutralizar a energia vinda de fora. O indicador de capacidade
aproximou-se perigosamente da marca dos cem por cento, mas depois de alguns
segundos martirizantes o rugido dos geradores foi diminuindo e o ribombo dos campos
abalados também foi amainando.
— Será dentro de cinco segundos, Sir! Essa indicação vinha do posto do transmissor
fictício.
O tempo começou a correr. O contador robotizado foi indicando os segundos.
— Já! — gritou uma voz.
Os tripulantes da Drusus, que esperavam sentir um choque de transição, acreditaram
que a tentativa tivesse fracassado, pois não sentiram a menor alteração.
— O fogo poderá ser iniciado por todas as peças!
Estas palavras foram proferidas pelo chefe.
Os oficiais que se encontravam diante do dispositivo ótico de pontaria fitaram os
alvos. E os homens que se achavam na sala de comando olharam fixamente para a grande
tela de visão global.
Silico V encontrava-se menos de mil metros abaixo do lugar em que estavam.
Silico V — um mundo destrutivo inteiramente automatizado, de oitenta quilômetros
de diâmetro, dotado de toda a sofisticação da tecnologia arcônida — sentiu os efeitos da
tormenta terrana.
A Drusus disparou todas as armas, nas mais variadas direções, e a uma distância
extremamente reduzida.
Dentro de dois segundos, a rocha morta da lua foi transformada em nuvens de gases
esvoaçantes e numa lava que escorria preguiçosamente.
O centro de computação, situado nas profundezas da lua — uma estação
retransmissora do computador-regente de Árcon III — era uma instalação positrônica.
Mas, nem por isso, estava em condições de tomar as medidas defensivas com a necessária
rapidez, já que em três setores importantes ficara bloqueado.
Não sabia dar resposta à pergunta sobre o motivo por que os campos defensivos que
envolviam Silico V estavam intactos, enquanto a Drusus voava a apenas mil metros
acima da superfície da lua.
Representando o problema em forma numérica, poderíamos dizer que o computador
se via diante de uma tarefa semelhante à de explicar por que um mais um seriam três.
— Destruição da superfície! — ordenou Rhodan.
Por alguns segundos admirou-se pelo fato de que o fogo de sua nave não era
respondido, mas logo imaginou por que a reação do computador-retransmissor era tão
lenta.
— Tomem cuidado com nossos robôs! Mas a maior parte destes se encontrava na
face oposta. Graças a seu aparecimento inesperado, puderam atuar numa superfície de
cem quilômetros quadrados, onde fecharam as bocas das peças de artilharia com rocha
vitrificada.
Outra tormenta terrana, vinda do espaço, irrompeu sobre Silico V.
A formação de cruzadores acabara de regressar e, assim que emergiu da transição,
abriu fogo contra um único ponto do campo defensivo estelar. À medida em que as naves
se aproximavam, a força de impacto de raios crescia. Não demorou um minuto para que
os campos defensivos de Silico V desmoronassem no ponto atingido, desencadeando um
verdadeiro inferno naquele mundo anão.
Os raios dos cruzadores ligeiros e pesados penetravam livremente até a superfície da
lua. Atingiram Silico à esquerda da calota polar, tomando por referência a posição das
naves, e descongelaram-na numa faixa de dez quilômetros, transformando-a numa nuvem
de gases.
Das bocas de fogo que a Drusus ainda não havia destruído, saiu uma profusão de
raios destrutivos. Mas estes só puderam desenvolver-se por uma fração de segundos, pois
a nave de Rhodan logo bombardeou os pontos dos quais os feixes de raio ainda se
precipitavam espaço afora.
A resistência inimiga cessou de repente. Logo após, notou-se o desmoronamento
total e inesperado dos campos defensivos de Silico V.
Descendo em formação cerrada, o grupo de cruzadores caiu sobre a pequena lua.
Com a nave capitania de Rhodan, os cruzadores circularam em torno desse mundo
liliputiano, deixando atrás uma faixa de vinte quilômetros de rocha liquefeita, que ia
endurecendo lentamente.
Dali a duas horas, toda resistência na superfície cessou. Rhodan mandou que os
robôs de guerra retornassem. A utilização radical destes custara sessenta e sete máquinas.
Mas, por outro lado, não teve de lamentar sequer um único ferido entre os tripulantes.
Mas a luta ainda não chegara ao fim.
Teriam de penetrar no interior de Silico V, para atingir o lugar em que se encontrava
o comando positrônico e o gigantesco conjunto de controles... e ainda para o lugar em
que Thora era mantida presa.
Perry Rhodan não acreditava na possibilidade de encontrar seu filho Thomas com
vida.
12

Dezoito quilômetros abaixo da superfície de Silico V, no recinto destinado a Thomas


Cardif, reinava um silêncio absoluto, que indicava um isolamento total.
Thomas não sentia o silêncio.
Não sabia como era a sala fechada em que se encontrava. Estava inerme diante do
tremendo abalo psíquico que o sacudia; não fez nada para defender-se das terríveis
conseqüências do trauma.
Tinha vinte e um anos.
Era o filho de Perry Rhodan; Thora era sua mãe.
— Thora Rhodan quer ser minha mãe? — disse, repetindo a pergunta que, sob
formulação ligeiramente diversa, dirigira a Thora Rhodan na presença do computador-
retransmissor, que se mantinha atento.
Sua jovem vida voltou a desfilar diante dos olhos de sua mente.
Pelo que se lembrava, sempre passara bem, mas nem como criança, nem como
jovem sentira o calor e o aconchego de um lar.
Nestas horas, compreendeu de quanto coisa fora privado. Mas não entendeu por que
Perry Rhodan e Thora haviam agido dessa forma.
Não quis compreender! A herança materna, o sangue da mãe arcônida, fervia em
suas veias, fazendo crescer em seu interior a j cólera, o desprezo e o ressentimento frio.
— Perry Rhodan, é bom que saiba que meu nome é Thomas Cardif, e com este
nome morrerei! — murmurou convicto.
Os robôs de Silico V haviam colocado ele e Thora em compartimentos distintos.
Pensar numa fuga a dezoito quilômetros de profundidade seria uma idéia ilusória.
Subitamente, Thomas Cardif ouviu a gargalhada que ele mesmo acabara de soltar.
Era uma risada colérica, mas apesar disso esfregou as mãos, num gesto de satisfação.
Não queria fugir.
Por que iria fazê-lo?
Seu mundo era Árcon. Sentia por Perry Rhodan o ódio de que só um arcônida é
capaz.
— Rhodan, você me roubou o amor do pai e da mãe. Você quis assim. Agora sou eu
que quero. Quero ir ao lugar de que provêm meus olhos amarelados. Para casa, para
Árcon.
Começou a caminhar nervosamente pela sala luxuosamente instalada. Vez por outra,
olhava para o espelho, e este lhe mostrava um rosto que odiava até às profundezas da
alma: o rosto de Perry Rhodan!
A mãe; seu grito ainda lhe ressoava nos ouvidos.
“Como minha mãe deve ter sofrido por não poder enlaçar-me. E tudo isso apenas
porque o tal do Perry Rhodan proibia”, pensou Thomas.
Aqui, a dezoito quilômetros de profundidade, na prisão guardada pelo robôs de
Árcon, começava a compreender por que Thora fora a Rusuf. Quis ir para junto dele,
contrariando todas as ordens desumanas do ditador Perry Rhodan.
— Perry Rhodan, você viu em mim não um filho, mas apenas um homem que um
dia poderia representar um perigo para você. Rhodan, agora suas previsões se realizam.
Minha vida será dedicada a uma única tarefa: destruí-lo.
Odiava-o com a intensidade de que só os jovens são capazes. Pensava raciocinar
logicamente, mas na verdade esquecia-se da lógica. Era dominado pelo sangue arcônida
que corria em suas veias. Por isso não teve a menor dificuldade em perdoar integralmente
a mãe, em encontrar uma explicação para todos os atos praticados por Thora. Mas Perry
Rhodan...
O ribombo surdo vindo de uma direção indeterminável arrancou-o dos seus
pensamentos odientos, chamando-o de volta à realidade. Thomas aguçou o ouvido e teve
a impressão de que o chão tremia sob seus pés. Por acaso, olhou para o espelho e viu
Perry Rhodan.
Sua mão agarrou um objeto pesado.
— Tome! — gritou em tom raivoso e atirou o objeto com tamanha força contra o
espelho, que a face metálica deste se encurvou, não permitindo a reprodução fiel das
imagens. — Desta vez até você desapareceu, Perry Rhodan!
Soltou uma risada de raiva e triunfo.
À sua frente, viu o pequeno painel, que lhe permitia estabelecer contato audiovisual
com quinze pontos diferentes.
Fez uma ligação com o computador-retransmissor, mas apenas ouviu outro ribombo,
que desta vez parecia mais selvagem, mais perigoso, mais catastrófico. Um tremor bem
perceptível sacudiu o chão. Thomas Cardif até chegou a ter a impressão de que tudo
balançava como num terremoto.
O saber adquirido na Academia Espacial do Império Solar revelou-se mais forte que
o fogo odiento que lhe incendiava a alma. Seu espírito objetivo pôs-se a avaliar o
ribombo e o tremor do solo. Lembrou-se da última missão que lhe fora confiada, e que
seria dirigida contra o sistema 4186-4-162. E sabia como Perry Rhodan costumava
golpear sempre que algum homem enviado numa missão não retornava ou não era
encontrado.
— Pois venha...
O ódio do arcônida voltou a irromper em sua alma. Nem se espantou com o fato de
não conseguir entrar em contato com o computador e os outros quatorze pontos a que
correspondiam as chaves do painel.
Perry Rhodan estava a caminho; viria para junto dele e de sua mãe!
Thomas atirou-se ao chão, cruzou as mãos sob a cabeça e lançou um olhar
indiferente para o teto. O ribombo tornou-se mais forte e furioso, passou a soar
ininterruptamente e aproximava-se cada vez mais.
Isso não o interessava.
Além da barreira energética, que lhe tolhia os movimentos, rugia a luta sem sangue,
entre os robôs de Árcon e as máquinas de guerra terranas, manipuladas pelos homens
bem treinados da frota espacial.
Apesar da terrível excitação que lhe enchia a alma, e também por estar dominado
pelo fragor da batalha, Thomas tentou ouvir. Os estrondos aproximavam-se
inexoravelmente, e dali se concluía que os robôs de Árcon recuavam sem cessar.
Subitamente, o ribombar das explosões, o chiado infernal das fontes de energia que
entravam em curto-circuito, o esfacelamento surdo dos gigantescos transformadores —
tudo isso diminuiu. O único ruído ouvido era o rugido da batalha travada pelos robôs.
Estes carregavam sua própria fonte de energia, e sua programação conferia-lhes poderes
quase humanos e uma liberdade quase total no âmbito do combate.
Mais uma vez o ruído da batalha cresceu a uma altura quase insuportável, mas
depois cessou de repente e desfez-se num crepitar penetrante e em algumas explosões
ligeiras. Os passos fortes dos robôs com suas toneladas de peso foram o único ruído.
A luz da sala de Thomas tremeu. A fonte de energia entrou em pane, diagnosticou
Cardif sem a menor emoção, sem erguer os olhos para a lâmpada. Mas a luz não se
apagou conforme esperara. A fonte luminosa manteve-se inalterada.
No momento em que a porta foi aberta repentinamente, Thomas não se moveu.
Calculou quem era o homem que se aproximava dele: PERRY RHODAN.
Mas sentiu alguma coisa mais forte que o ódio e a raiva. Os três anos de treinamento
rigoroso na Academia Espacial não poderiam deixar de produzir marcas em seu espírito.
Thomas Cardif ergueu-se rapidamente diante do administrador do Império Solar.
Viu-se frente a frente com Rhodan, que estava acompanhado do Coronel Julian Tifflor e
do telepata John Marshall.
— Tenente Cardif, derrubado durante o cumprimento da missão no sistema 4186-4-
162. Mac Urban e Alim Achmed foram mortos.
Recuperara o autodomínio. Com uma expressão fria, fitou os olhos cinzentos do
administrador.
Com o mesmo autodomínio, Perry Rhodan fitou seu filho, e via seu próprio rosto.
Naquele instante, Thora entrou na sala, acompanhada de Crest e um grupo de
oficiais. Esteve a ponto de interpor-se entre o marido e o filho, mas num movimento
instantâneo Thomas afastou-se para o lado, criando uma distância que seria insuperável.
Às costas de Rhodan, os oficiais cochichavam nervosamente. Viram-se colocados
diante do fato de que o chefe tinha um filho, e que esse filho era tenente da Frota
Espacial.
Perry Rhodan preferiu não recorrer a suas limitadas faculdades telepáticas para
penetrar na mente do filho.
— Perry! — o desespero vibrava na voz de Thora. — Thomas sabe...
— Já sei.
Disse o homem que naquele instante era apenas pai, e estudava todos os ângulos do
rosto do filho. Lembrou-se do que o grande computador positrônico de Vênus dissera
sobre o caráter do rapaz. Mas uma resistência feroz surgiu na alma de Perry Rhodan, que
se defendeu com todas as forças contra as regras frias da lógica positrônica. Seu filho
Thomas não era exclusivamente um descendente dos arcônidas; seu pai era um terrano.
— Também já sei, administrador! — disse Thomas Cardif em tom áspero, e nem
parecia perceber que a mãe estremeceu e segurou o braço do marido como quem
precisasse de amparo.
— Façam o favor de nos deixar a sós com nosso filho — disse Perry Rhodan em
tom tranqüilo.
Todos saíram apressadamente; inclusive Crest.
— Seu filho? — disse Thomas Cardif em tom de deboche. — Desde quando sou seu
filho, administrador? Meu nome é Thomas Cardif, e não troco de nome como quem troca
de camisa — enquanto isso, seus olhos amarelentos tremiam de raiva; eram a herança
materna.
Mas o gesto com que empertigou o corpo era do pai.
— Thomas...
Na voz de Thora, sentia-se o desespero. Chegou a tocar o coração do jovem.
Num tom menos frio e insensível, mas conservando certa distância, respondeu:
— Prefiro o tratamento Tenente Cardif. Por favor, madame!
— Muito bem — disse Perry Rhodan. — Usemos por enquanto o tratamento
Tenente Cardif e...
O jovem levantou abruptamente a cabeça. Seus olhos exprimiam o sarcasmo, e as
palavras foram proferidas em tom áspero:
— Até hoje tive de arranjar-me sem pai e mãe. Daqui por diante, não precisarei
deles. Quero fazer-lhe uma pergunta, administrador: seu cargo lhe dá o direito de
imiscuir-se em minha vida particular?
— Procure compreender-nos... — a súplica de Thora não atingiu seu coração.
— Não! — disse num cochicho odiento, e seu olhar foi dirigido apenas ao pai. —
Não quero compreender; não posso compreender. Só sei odiar. Odeio meu rosto, que não
é meu. Será que me exprimi com suficiente clareza?
Perry Rhodan teve de segurar Thora, que ia caindo ao chão. Um choro convulso e
silencioso sacudiu seu corpo. Em seus olhos não havia lágrimas. Não acreditava que as
palavras ouvidas realmente tivessem sido proferidas.
— Thomas, meu filho... — implorou, mas Thomas Cardif não deu atenção às
palavras da mãe.
— Tem mais alguma ordem, administrador? — a expressão do rosto do Tenente
Cardif quase chegava a ser de desafio.
— Tenho! — era Perry Rhodan, administrador do Império Solar, que falava. —
Retire-se, tenente. Entre em contato com o Coronel Julian Tifflor e traga-o até aqui. Será
que tenho de pedir-lhe para não esquecer de que prestou um juramento de fidelidade ao
Império Solar?
Pela primeira vez, notou-se uma reação em Thomas Cardif. Com o corpo imóvel,
prendeu a respiração e fitou o pai. Finalmente disse num tom que quase chegava a ser de
ameaça:
— Não deixarei de cumprir o juramento, administrador, mas um dia o senhor me
dispensará do juramento por sua livre e espontânea vontade.
— Faça o favor de deixar isso por minha conta! — disse Perry Rhodan em tom
áspero.
Mais uma vez, seus olhares se encontraram. Finalmente o Tenente Cardif passou por
Perry Rhodan e Thora e retirou-se para procurar o Coronel Tifflor.
Não o encontrou. Depois de andar durante meia hora pelos corredores parcialmente
destruídos da fortaleza subterrânea, voltou para junto de Perry Rhodan.
— Obrigado — disse Rhodan, ao receber a informação. — Fique comigo, tenente!
Thomas manteve-se em silêncio, mas seus olhos amarelados e cintilantes falavam
uma linguagem inconfundível.
Depois voltou o dia-a-dia das missões, dos relatórios e das decisões. Ao ouvir que o
computador-retransmissor fora destruído por completo, Rhodan franziu a testa.
Refletiu ligeiramente e tomou sua decisão:
— Um cruzador pesado e dois cruzadores leves ficarão em Silico V. Os
comandantes das três unidades tomarão as providências necessárias para que esta lua
nunca mais possa ser utilizada como fortaleza estelar.
Thora já não se encontrava ao lado de Rhodan. O Tenente Cardif não perguntou por
ela. Juntamente com o chefe empreendeu a marcha difícil que o levaria à superfície da
lua, dezoito quilômetros acima do lugar em que se encontrava. Foi só graças aos trajes
espaciais, que lhes permitiam voar, que conseguiram chegar à Drusus.
Uma vez na sala de comando, Rhodan chamou o oficial de rádio do supercouraçado.
— Use o hiper-rádio para entrar em contato com Árcon III. Quero falar com o
regente. O código do computador já é de seu conhecimento. Esperarei.
Imóvel, o Tenente Cardif manteve-se de pé ao lado de Perry, que estava sentado na
poltrona do piloto da Drusus. Rhodan parecia tê-lo esquecido, mas a mensagem que
transmitiu ao cruzador pesado Zyklop provou o contrário.
— O Coronel Tifflor está a bordo?
— Sim senhor.
— Aguardo-o em meu camarote. Desligo.
Nem mesmo agora, Perry Rhodan se valeu de suas reduzidas capacidades telepáticas
para ler os pensamentos do filho. Mas nunca renunciaria ao direito de agir. E não estava
disposto a desistir da luta quase sem esperanças que travava pelo coração do filho.
A sala de rádio chamou:
— O regente de Árcon!
Rhodan lançou um olhar curioso para a objetiva. Queria que a lente atingisse
Thomas. O regente deveria ver quem estava a seu lado.
— Aqui fala Rhodan, regente. Encontro-me em Silico V, no sistema 4186-4-162 —
sua voz era fria, implacável e acusadora.
— Pois não — respondeu o computador-regente de Árcon III.
— Com o auxílio do Tenente Cardif, que está a meu lado, libertei minha esposa, que
se encontrava presa nas fortificações, dezoito quilômetros abaixo da superfície. Durante o
vôo...
O gigantesco centro de computação de Árcon III interrompeu Rhodan.
— Não conheço qualquer fortaleza cósmica que tenha o nome Silico V. Apenas
conheço a lua Silico V, situada no sistema 4186-4-162.
— Regente, minha esposa foi seqüestrada em Rusuf. Durante a operação foram
utilizadas duas naves especiais de Árcon, que a levaram para Silico V. O computador-
retransmissor de Silico V...
Mais uma vez o computador-regente de Árcon III interrompeu Rhodan.
— Administrador, não conheço qualquer estação retransmissora instalada em Silico
V. Pergunte a seu computador, e este só poderá dizer que não conheço. Seus técnicos não
terão a menor dificuldade em examiná-lo para verificar se havia uma ligação entre nós.
Tem mais alguma coisa a dizer, Rhodan?
— Não — respondeu Rhodan.
No mesmo instante, o regente interrompeu a ligação pelo hiper-rádio.
Crest ouvira a palestra. Ao notar o olhar indagador de Rhodan, disse em tom
queixoso:
— Desta vez, nossos robôs e homens trabalharam bem demais. A esta hora o regente
já sabe que a estação retransmissora de Silico V está reduzida a um montão de lixo. Por
isso, pôde pregar essa mentira desavergonhada. Se ouvi bem, a mentira do computador
positrônico não foi apenas desavergonhada, mas também tola. Meu caro Rhodan, às
vezes, ser tolo não é nenhuma tolice, embora possa parecer. O computador-regente de
Árcon voltou a sentir-se forte. Gostaria de saber por quê.
— Um belo dia descobriremos — respondeu Rhodan. Levantou-se e pediu a
Thomas Cardif que o seguisse.
Levou-o a seu camarote. Pouco depois, chegou o Coronel Julian Tifflor. Rhodan foi
diretamente ao assunto.
— Coronel, considere-se transferido para a Terra a partir deste momento. Lá lhe
indicarão suas tarefas. O Tenente Thomas Cardif será seu ajudante. Para facilitar as
coisas, o senhor regressará a bordo da Drusus. Peço-lhe que tome cuidado para que em
hipótese alguma o Tenente Cardif tenha oportunidade de sair do sistema solar.
Sem que ninguém o esperasse, Thomas Cardif ficou em posição de sentido. Seus
olhos arcônidas chisparam uma luz ofuscante.
— Fico-lhe muito grato, administrador! Isso me facilitará extraordinariamente o
cumprimento das tarefas que daqui em diante me caberão.
Perry Rhodan resistiu ao fogo dos olhos do tenente. Falando lentamente, como
quem resiste a uma carga sobre-humana, respondeu:
— Faço votos de que um belo dia não me veja obrigado a ser apenas o
administrador. Faça o favor de retirar-se, Tenente Cardif.
Perry Rhodan e Julian Tifflor seguiram-no com os olhos.
Thomas Cardif acabara de retirar-se. Os dois homens mantiveram-se em silêncio.
Finalmente, o coronel rompeu o silêncio, dizendo em tom constrangido:
— Chefe, seu filho é um homem de dois mundos...
— Isso mesmo — respondeu o homem cansado. — É de dois mundos.
E o silêncio voltou a reinar no camarote.

***
**
*

Após resolver racionalmente a questão criada pelo


filho, Rhodan volta-se para A Caça das Dimensões. Este é o
título do próximo volume da série.