Você está na página 1de 18

Luciana Teixeira de Andrade

O ESPAÇO METROPOLITANO NO BRASIL:


nova ordem espacial?

Luciana Teixeira de Andrade*

O texto tem como objetivo principal analisar as recentes mudanças na ordem espacial das regiões metro-
politanas brasileiras e, em particular, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Inicia-se com um diálogo
com a literatura internacional sobre o tema, para, em seguida, mostrar os debates nacionais. Tem, como re-
ferente empírico, uma série de estudos e índices construídos a partir dos resultados do Censo Demográfico
de 2010. Mostra como o modelo dual centro versus periferia é limitado para a compreensão da atual ordem
socioespacial das metrópoles brasileiras; identifica mudanças significativas ocorridas nas últimas décadas,
mas chama a atenção também para várias continuidades no que se refere às desigualdades socioespaciais.
Palavras-chave: Ordem espacial. Metrópoles. Desigualdades espaciais. Centros. Periferias.

Pesquisadores de vários países têm des- criadas pelos estudiosos na tentativa de com-
pendido esforços para a compreensão das mu- preender e captar o que teria efetivamente mu-
danças ocorridas na ordem espacial das metró- dado (Jamenson, 1996; Soja, 2000; Mollenkopf
poles nas últimas décadas do século passado, e Castells, 1991; Harvey, 1992; Sassen, 1998;
em consequência do processo de globalização Zukin, 1996; Marcuse e Van Kenpem, 2000).
e da nova ordem econômica mundial. A im- Outra vertente interpretativa ponderou que as
portância desses estudos deve-se ao fato de a transformações não seriam tão radicais a ponto
organização espacial urbana não ser apenas de ensejar uma configuração totalmente nova,
um reflexo dessas forças, mas uma dimensão mostrando a permanência de formas de organi-
importante da ordem social, uma vez que im- zação espacial anteriores e argumentando que

Caderno CRH, Salvador, v. 29, n. 76, p. 101-118, Jan./Abr. 2016


plica oportunidades e riscos, define lugares o atual cenário seria uma combinação de mu-
sociais, aumenta ou diminui as chances das danças com continuidades em função de uma
pessoas, seja por questões objetivas, como pro- relativa inércia das estruturas construídas, as-
ximidade ou facilidade de acesso ao trabalho, sim como das relações sociais (Beauregard e
seja por questões subjetivas, como as discri- Haila, 2000 e Van Kempen, 2007). Como se vê,
minações advindas das representações sobre não há um consenso, principalmente porque,
os diferentes territórios das cidades. Esses ainda que globais, as mudanças incidem em
esforços analíticos deram origem a distintas cidades com histórias e contextos distintos,
explicações, ora enfatizando mais os aspectos o que contribui para que os seus efeitos não
econômicos, ora os socioculturais. Cidade pós- sejam homogêneos.1
moderna, fractal, dual, dividida, mundial e 1
Ao questionar o papel homogeneizante da globalização
pós-metrópole são algumas das denominações sobre a ordem espacial das cidades Van Kempen (2007)
enumera sete fatores que precisariam ser levados em conta
no estudo de cada cidade: ambiente físico, história, desen-
*
Pontifícia Universidade Católica (PUC) Minas. Departa- volvimento econômico, desigualdade, raça e racismo, po-
mento de Ciências Sociais e do Programa de Pós-gradua- der político e governança. Já Banerjee-Guha (2010) chama
ção em Ciências Sociais. a atenção para a lógica hierárquica da globalização, que
Avenida Itaú, 505. Dom Cabral. Cep: 30535012. Belo Hori- tanto inclui quanto exclui países, cidades e áreas no inte-
zonte – Minas Gerais – Brasil. lucianatandrade1@gmail.com rior das cidades.

http://dx.doi.org/10.1590/S0103-49792016000100007 101
O ESPAÇO METROPOLITANO NO BRASIL ...

No Brasil, o chamado padrão de segre- Além disso, os seus sentidos passam atual-
gação centro-periferia marcou o debate sobre a mente por uma revisão.
ordem espacial por algumas décadas, ainda que Segundo os pesquisadores brasileiros, a
frequentemente tenha sido objeto de críticas ordem espacial metropolitana, a partir os anos
comuns a representações duais, em geral, sim- 1990, teria se tornado mais heterogênea, com
plificadoras.2 Originalmente, periferia e centro algumas regiões apresentando maior mistura
compunham os pares de um modelo analítico social, contrariando, portando, a homogenei-
que teve início com a intensificação dos proces- dade que caracterizaria tanto as áreas centrais
sos de urbanização e metropolização brasileiros quanto as periferias. Essa ordem espacial te-
a partir dos anos 1960 e que resultou em uma ria se tornado também mais fractal ou mais
organização das metrópoles com áreas muito fragmentada com a proximidade, ainda que
distintas em relação à renda de seus habitantes em forma de enclaves, de grupos de diferentes
e à infraestrutura. As chamadas áreas centrais níveis socioeconômicos. As principais evidên-
foram caracterizadas como aquelas que con- cias empíricas desse debate podem ser sinteti-
centravam os grupos de alta e de média renda zadas em quatro. A primeira trata da presença
e que contavam com boa infraestrutura urbana, dos condomínios fechados para população de
oferta de serviços e de empregos. Nesse sentido, média e de alta renda em algumas periferias
tratava-se da área central e não apenas do cen- das metrópoles, ou seja, um deslocamento de
tro histórico das cidades, esse mais próximo da uma parte da população que vivia nas áreas
categoria bairro. Já as periferias se constituíram centrais para as periferias metropolitanas, o
em locais afastados dessas benfeitorias, mas, que as teria transformado em espaços mais
ao mesmo tempo, acessíveis economicamente heterogêneos (Caldeira, 2000; Costa, 2006).
como locais de moradia para as populações de A segunda chama a atenção para a existên-
baixa renda, na ausência de uma política habi- cia de espaços pericentrais ocupados pelos
tacional pública.3 grupos de média renda e localizados entre os
Atualmente, a crítica a esse modelo espaços centrais e as periferias. Tal presença
acentuou-se em função de várias mudanças teria sido minimizada frente à força da repre-
que teriam ocorrido nas metrópoles brasileiras sentação dual (Ribeiro, 2002). A terceira trata
tornando-as mais complexas socioespacial- de mudanças nas áreas centrais relacionadas à
mente e também por influência do debate in- composição da sua população e às atividades
Caderno CRH, Salvador, v. 29, n. 76, p. 101-118, Jan./Abr. 2016

ternacional. Isso não significou o abandono econômicas. No primeiro caso, parte da área
das categorias centro e periferia, tratadas, ago- central, que teve sua qualidade de vida afetada
ra, não como pares exclusivos de uma ordem por fatores como trânsito, barulho, poluição e
espacial, mas como territórios da metrópole. violência, perdeu população de médio estrato
e passou a atrair população de mais baixo sta-
2
Outro tipo de crítica dirigida às representações duais, tus socioeconômico, seja como residente, ocu-
mas não só a elas, foca a questão hierárquica. No Brasil, há
uma discussão, mais forte no campo cultural, que questio- pante de prédios abandonados, moradora de
na a suposta hierarquia do centro, argumentado sobre as
potencialidades criativas da periferia (Cf. VIANNA, 2007). rua, além da manutenção ou intensificação das
Outra crítica se dirige aos modelos que procuram hierar- tradicionais áreas de prostituição e as novas de
quizar as metrópoles, como os das cidades mundiais e glo-
bais. Uma das primeiras reflexões nessa direção pode ser consumo de drogas como o crack.4 No segundo
encontrada em King (1990) e uma revisão atual do debate
em Robinson (2002). caso, ainda que seja um fato intimamente re-
3
Ainda que a periferia tenha sido preponderantemente lacionado à perda da parcela de médio status,
obra da iniciativa privada – loteadores privados – combi-
nada com a autoconstrução das moradias, a ação do Esta- 4
Esse tipo de uso do espaço, presente em algumas capi-
do não pode ser desconsiderada, seja pela falta de controle tais brasileiras, mas não em todas, pode ser encontrado
sobre essa ocupação, seja abrindo os caminhos e levando, em partes muito específicas do centro histórico. Exemplos
mesmo que a posteriori, a infraestrutura. Há de se consi- de distintas territorializações do crack já foram estudados
derar ainda a construção, pelo Estado, de conjuntos habi- por Frúgoli Jr. e Cavalcanti (2013) e Medeiros (2010) e da
tacionais em várias periferias metropolitanas. prostituição por Jayme, Chacham e Morais (2013).

102
Luciana Teixeira de Andrade

parte da área central, mais especificamente, o 2001) e periferias consolidadas (Saraiva, 2008)
centro histórico das metrópoles, perde impor- são alguns deles. Em relação ao centro, a litera-
tância econômica com a transferência de seu tura, ainda que mais restrita, trata das mudan-
comércio e serviços mais sofisticados para os ças no centro histórico das cidades, mas tam-
shopping centers e outras áreas da cidade, o bém e, em menor número, da emergência de
que dará início ao surgimento de novas centra- novas centralidades (Frúgoli Jr., 2000; Tonucci
lidades em diferentes partes do território me- Filho, 2009; Soares e Schneider, 2012).
tropolitano. Outro fator que, apesar de não ser Duas hipóteses podem explicar, neste
novo, evidencia a heterogeneidade do centro é momento, a maior atenção da literatura para
a presença das favelas, o que passou a ser mais a discussão das mudanças nas periferias em
contemplado pela literatura à medida que se detrimento das mudanças no centro. Primei-
reforça o argumento da diferenciação das áreas ramente, devido ao maior interesse, nos anos
centrais, subsumido pela representação dual, 1970 e 1980, pelas investigações da vida nas
mas também em função da conquista do direi- periferias em função da novidade e dos desa-
to dos moradores das favelas de permanece- fios que colocavam para a urbanização, o que
rem onde estão em contraposição às políticas gerou um número muito maior de estudos so-
de remoção. Por fim, a quarta evidência trata bre elas, comparativamente àqueles dedicados
da mudança na infraestrutura das periferias, às áreas centrais, criando-se, portanto, uma
o que altera um dos seus elementos original- tradição de estudos sobre as periferias. Em
mente definidores: a precariedade. Se, antes, segundo lugar, porque as mudanças nas áreas
as periferias foram caracterizadas como espa- centrais são mais incipientes. Diferentemente
ços de carência (Maricato, 1979), hoje, seus do que ocorreu em muitas capitais europeias e
indicadores de infraestrutura urbana – água, em algumas cidades norte-americanas, as áre-
luz, esgoto e demais serviços urbanos – não as as centrais das grandes cidades brasileiras não
diferenciam de forma significativa das áreas passaram por intensos processos de gentrifica-
centrais (Torres; Marques, 2001). Com essas tion (Smith, 1996; Zukin, 1996) que pudessem
mudanças, as periferias passaram a atrair em- estimular estudos sobre elas. A principal mu-
preendedores imobiliários e os grupos médios, dança em relação aos deslocamentos espaciais
o que também contribuiu para a sua maior he- das classes média e alta se deu em direção aos
terogeneidade (Caldeira, 2000; Ribeiro, 2002; condomínios fechados. E, ainda que bairros

Caderno CRH, Salvador, v. 29, n. 76, p. 101-118, Jan./Abr. 2016


Costa e Mendonça, 2011; Lago, 2011). Esse específicos das metrópoles tenham passado
processo não ocorreu de forma homogênea em por processos de elitização, com elevação do
todo o território metropolitano, daí a pertinên- padrão das moradias e dos moradores, eles são
cia, como se discutirá ao longo do texto, de se distintos daqueles que configuraram stricto
falar atualmente de periferias no plural, dada à sensu o fenômeno da gentrification.7
sua maior diferenciação interna. Sintetizando, essas mudanças teriam le-
O reconhecimento das mudanças nas vado à constituição de espaços mais fragmen-
periferias não significou a substituição ou o tados, ou fractais, e mais heterogêneos social-
abandono da categoria periferia,5 mas o acrés-
cimo de algum adjetivo: novas periferias (Cos- mente integradas em termos urbanos.” (Torres e Marques,
2001, p. 3).
ta, 2006), hiperperiferias6 (Torres; Marques, 7
Há um conjunto de estudos que analisa a desconcentra-
5
Uma prova são coletâneas como Sobre periferias: novos ção, mas com foco prioritário nas atividades econômicas,
conflitos no Brasil contemporâneo (Vieira e Feltran, 2013) e outro conjunto que foca processos específicos de mudan-
e outros livros e artigos que tratam de temas específicos ças nos centros históricos de algumas capitais, discutin-
tais como comunicação, arte, entre outros, além de blogs, do as questões relativas à renovação e (ou) gentrification
teses e dissertações. desses espaços. Alguns exemplos desses estudos, pelo viés
econômico: Diniz e Campolina (2007) e Simões e Amaral
6
Categoria utilizada para distinguir as novas periferias (2011) e de renovação urbana: Leite (2004), Rubino (2009)
precárias (hiperperiferia) das mais antigas “[...] crescente- Frúgoli Jr. Sklair (2009).

103
O ESPAÇO METROPOLITANO NO BRASIL ...

mente. Fala-se, portanto, de periferias no plural do emprego das categorias periferias e centro
e de múltiplas centralidades, além de outros (ou área central), ainda que de forma distin-
espaços mais heterogêneos que abrigariam pre- ta da sua gênese nos anos 1970, este artigo
ponderantemente os grupos médios.8 Em rela- procurará compreender, prioritariamente por
ção às novas centralidades, algumas ainda esta- meio de estudos realizados com os dados do
riam por acontecer como resultado de recentes Censo de 2010, as mudanças nos espaços cen-
investimentos estatais e (ou) privados. trais e nos periféricos das metrópoles brasilei-
Se o modelo centro-periferia teve uma ras. Maior ênfase será dada às periferias, uma
virtude, inclusive política, de chamar a aten- vez que grande parte da literatura relaciona as
ção para as desigualdades sociais, a atual con- atuais transformações na ordem espacial me-
figuração mais heterogênea e mais fragmenta- tropolitana às mudanças nas periferias, como
da não deve levar a uma leitura de que a ordem foi mostrado anteriormente. De toda forma, a
espacial metropolitana tenha se tornado mais periferia não será analisada isoladamente, mas
igualitária. Em muitos casos a proximidade de em relação a outros espaços metropolitanos.
grupos diferentes tem levado a um aumento da Como partes de uma ordem espacial, os espa-
tensão e a políticas segregadoras de fechamen- ços são relacionais, e as mudanças em um pre-
to de áreas públicas, como também de controle cisam ser vistas em relação a outros. Há de se
de certas práticas, como o comércio informal e ponderar, entretanto, que essas mudanças têm
a ocupação de espaços públicos por moradores muitas dimensões e que os dados apresentados
de rua. O que se percebe são novas formas de a seguir captam apenas uma parte, justamente
organização das desigualdades, algumas delas aquela mais abrangente e possível de ser re-
levando, inclusive, à intensificação da segrega- velada pelos dados censitários. A dimensão
ção e do conflito pela complicada proximidade da sociabilidade, por exemplo, não será aqui
dos diferentes grupos sociais. Alguns autores contemplada.
têm utilizado a denominação cidades dividi- A partir dessas considerações analíticas,
das como uma alternativa a cidade dual. Ain- o texto desenvolve a hipótese de que a ordem
da que a divisão das cidades não seja um fato espacial brasileira mudou, que o modelo cen-
novo e que todas as cidades sejam, de alguma tro-periferia é insuficiente para descrevê-la,
forma, divididas, ela chama a atenção para a mas, ao mesmo tempo, chama a atenção para
separação e (ou) segregação que existem entre algumas importantes continuidades.
Caderno CRH, Salvador, v. 29, n. 76, p. 101-118, Jan./Abr. 2016

os diferentes grupos sociais, mas, ao mesmo O texto está estruturado do seguinte


tempo, não as reduz a uma divisão dual. Van modo. Numa primeira parte, apresenta o atual
Kempen (2007, p. 15) assim define as cidades cenário das regiões metropolitanas brasileiras
divididas: “Divided cities imply the existence à luz de dois recentes estudos, assim como as
of different areas within a city. These all have questões metodológicas envolvidas. Vai se va-
different characteristics; they may be pros- ler, tanto nessa primeira parte como na seguin-
perous or poor, deprived or privileged, old or te, de estudos do Instituto Brasileiro de Geo-
new, dominated by high rise apartment blocks, grafia e Estatística (IBGE), do Observatório das
or by single family homes, or contrasted on Metrópoles e do Mapa da Violência, em função
countless other factors.” de suas abordagens nacional e metropolitana.
Considerando as mudanças acima des- Foram esses estudos que permitiram contem-
critas, mas, ao mesmo tempo, a continuidade plar, no espaço deste artigo, vários indicadores
relacionados aos diferentes aspectos da ordem
8
Os espaços metropolitanos brasileiros, com raras exce- espacial metropolitana. Na segunda parte, o
ções, abrigam diferentes grupos sociais. O que permite no-
mear um espaço, tendo como referência um grupo social, texto se detém na compreensão das mudanças
é a predominância de um grupo em relação a outros, mas
não sua exclusividade (Ribeiro, 2003). e das continuidades nos espaços metropolita-

104
Luciana Teixeira de Andrade

nos por meio de três tipos de indicadores: de- temente, por critérios de natureza política. A
mográficos, de infraestrutura e de violência. questão que se coloca hoje para os investiga-
Em todos os tópicos, a apresentação geral das dores é como separar o que é metropolitano do
tendências das regiões metropolitanas brasilei- que não é. O Instituto Brasileiro de Geografia e
ras será seguida de um foco sobre a região me- Estatística (IBGE) e o Observatório das Metró-
tropolitana de Belo Horizonte, em função de poles (OM) realizaram estudos que buscaram
ser esse o local das minhas pesquisas e porque, aferir a hierarquia dessas regiões, com o intuito
ainda que o fato metropolitano esteja presen- de identificar o que pode ser considerado como
te em todo o território nacional, há diferenças metropolitano, na realidade urbana brasileira.
internas, históricas e contextuais, que tornam Esses estudos chegaram a um conjunto
temerárias certas generalizações. No final, o bem mais reduzido, em relação às RMs ins-
texto retoma as questões analíticas sobre a or- titucionalizadas. O Estudo de Influência das
dem espacial apresentadas nesta introdução. Cidades – REGIC (IBGE, 2008, p. 11) – consi-
derou como metropolitanas 12 regiões10 cara-
terizadas “[...] por seu grande porte e por fortes
AS REGIÕES METROPOLITANAS relacionamentos entre si, além de, em geral,
NO BRASIL: como apreendê-las? possuírem extensa área de influência direta.”
Em 2009, o Observatório das Metrópoles (OM),
O Brasil tem hoje uma rede bastante no estudo Níveis de integração dos municípios
complexa de regiões metropolitanas, com ta- brasileiros em RMs, RIDEs e AUs à dinâmica
manhos e relevância econômica, social, polí- da metropolização, obteve como resultado um
tica e cultural muito diferenciada. Em 2012, o conjunto de 15 espaços metropolitanos (Ribei-
País contava com um conjunto de 51 regiões ro, 2009).11 Em 2012, o OM refez o estudo de
metropolitanas institucionalizadas, três Re- 2009 com os dados do Censo de 2010 e, no pla-
giões Integradas de Desenvolvimento (RIDE) e no nacional, seguiu a hierarquização do REGIC
cinco Aglomerações Urbanas (AU), totalizan- com 12 espaços.12 Como o REGIC, destacou o
do 59 espaços (Observatório das Metrópoles, papel de centralidade na definição de metró-
2012). Entre eles, há metrópoles nacionais, re- pole “[...] a metrópole é considerada a partir
gionais e, até mesmo, locais. de características desses aglomerados que lhes
A institucionalização das regiões me- permitem constituírem-se como centros do po-

Caderno CRH, Salvador, v. 29, n. 76, p. 101-118, Jan./Abr. 2016


tropolitanas no Brasil aconteceu na década der econômico, social e político. Portanto, são
de 1970 por meio de uma legislação federal unidades capazes de polarizar o território nas
que criou nove regiões metropolitanas.9 Com escalas nacional, regional e local” (Observató-
a Constituição Federal de 1988, a competên- rio das Metrópoles, 2012, p. 2). Ambos desta-
cia para criar e realizar mudanças nas regiões cam o poder de polarização das metrópoles no
metropolitanas passou a ser exercida pelos es- território nacional e a intensidade de trocas
tados federados. O resultado foi uma prolife- que se efetivam interna e externamente.13
ração de regiões metropolitanas, assim como 10
Além das nove criadas na década de 1970, considerou
o inchaço de muitas delas (Faria, 2012). Parte também Brasília, Goiânia e Manaus.
desse processo é resultado do crescimento ur- 11
Além das 12 identificadas pelo REGIC, também incluiu
Vitória, Campinas e Florianópolis.
bano metropolitano, mas grande parte foi feita
12
Apesar de o OM ter seguido a classificação do REGIC no
à sua revelia, ou seja, pautou-se, predominan- estudo de 2012, com 12 RMs, ele retomará a antiga classi-
ficação do estudo de 2009, com 15 RMs, em outros estu-
dos, como no IBEU, que será apresentado na parte sobre a
9
A Lei Complementar n. 14, de 8/06/1973, instituiu oito infraestrutura.
RMs: Belém, Belo Horizonte, Curitiba, Fortaleza, Porto
Alegre, Recife, Salvador e São Paulo, e a Lei Complemen- 13
Esses estudos utilizaram vários indicadores (demográ-
tar n. 20, de 1/07/1974 incorporou o Rio de Janeiro entre ficos, econômicos e de interação entre os municípios) ca-
elas. pazes de aferir a centralidade exercida pelas metrópoles e,

105
O ESPAÇO METROPOLITANO NO BRASIL ...

Entretanto, as dificuldades para a com- há, em todos os espaços (em uns mais do que
preensão da realidade metropolitana não se em outros), interações e trocas entre os dife-
encerram na distinção acima apresentada. rentes habitantes da metrópole.
Outro desafio refere-se às distintas escalas dos Para a discussão da atual configuração
dados disponíveis. Alguns têm como escala o espacial das metrópoles, elegeram-se três ti-
município, não permitindo, portanto, a com- pos de indicadores. O primeiro grupo reúne
preensão de uma realidade com muitas desi- indicadores econômicos e demográficos e tem
gualdades espaciais. Nesse caso, tentar-se-á como objetivo conferir e comparar as taxas
completar a análise com outros dados que se de crescimento demográfico, a capacidade de
aproximam da escala dos bairros ou regiões atração ou de dependência dos municípios e
dentro de um mesmo município. Para efeitos o seu o poder econômico. O segundo avalia a
da análise que será aqui apresentada, no caso atual situação da infraestrutura urbana e o ter-
dos dados em escala municipal, o município- ceiro, a violência. Esse último indicador tem,
-polo será tratado como um tipo de centralida- como um de seus efeitos, a estigmatização de
de e, em relação aos outros municípios, serão territórios e de pessoas.
utilizadas as agregações pelo grau de integra-
ção metropolitana, para não analisá-los como
se fossem um todo homogêneo.14 No segundo DINÂMICAS METROPOLITANAS:
caso, já será possível refinar a análise por meio mudanças e continuidades
da distinção entre diferentes tipos de espaços
no interior do polo assim como nos municí- Para a caracterização econômica, de-
pios metropolitanos. mográfica e de integração, a fonte dos dados
Essas duas questões dizem respeito a é o estudo Níveis de integração dos municípios
vários outros estudos, e não especificamente brasileiros em RMs, RIDES e AUS à dinâmica
ao que está sendo aqui realizado. Uma última da metropolização (Observatório das Metrópo-
relaciona-se diretamente à tentativa de com- les, 2012), que teve como universo as 59 re-
preensão de espaços que, apesar de distintos, giões metropolitanas, Rides e Aglomerações
são interdependentes. A fragmentação em cen- Urbanas.15 Tais indicadores têm como referên-
tros, periferias, favelas, subcentros, espaços cia espacial os municípios. Por isso mesmo,
pericentrais ou qualquer outra denominação será tratado aqui como centro o município-po-
Caderno CRH, Salvador, v. 29, n. 76, p. 101-118, Jan./Abr. 2016

não os faz universos independentes, pois inte- lo e, em função da heterogeneidade dos outros
gram uma mesma ordem espacial com diferen- municípios metropolitanos, serão utilizados
tes níveis de interações sociais. Até mesmo os como critério de agregação e diferenciação os
condomínios fechados recebem diariamente seus graus de integração à dinâmica metropo-
um número muito expressivo de empregados litana. No estudo do OM, os 945 municípios
domésticos e prestadores de serviços, ou seja, estudados foram classificados em sete níveis
hierárquicos de integração: Polo, Extensão do
no caso do estudo do OM, aferiu-se também a hierarquia
e o grau de integração dos municípios no interior de cada
metrópole. A metodologia de cada um está disponível para
15
Os indicadores utilizados para aferir o grau de integra-
consulta na internet, conforme as referências bibliográfi- ção foram: grau de concentração e distribuição de popu-
cas. lação, produto, rendimentos e fluxos de população em
movimentos pendulares para trabalho e (ou) estudo entre
14
Tendo como hipótese que as atuais regiões metropoli- municípios das aglomerações, assim como realização de
tanas institucionalizadas não são a expressão do efetivo funções específicas e fundamentais para a realização das
fenômeno urbano-metropolitano, o Observatório das Me- atividades econômicas e suporte aos fluxos interaglomera-
trópoles construiu o indicador grau de integração à dinâ- ções, como a presença de portos e aeroportos. Em relação
mica da metropolização, com o objetivo de distinguir os à análise estatística, os procedimentos utilizados foram:
municípios efetivamente metropolitanos dos não metro- Análise por Componentes Principais (ACP) e Análise de
politanos. Os diferentes graus de integração que vão do Cluster por Classificação Hierárquica Ascendente. Para
polo, passando por municípios com alta, média e baixa mais detalhes a respeito da metodologia, ver o estudo,
integração, aferiram a inserção de cada município das uni- assim como a descrição dos testes realizados no Anexo I
dades institucionalizadas à dinâmica metropolitana. (OBSERVATÓRIO DAS METRÓPOLES, 2012).

106
Luciana Teixeira de Andrade

polo, Muita alta, Alta, Média, Baixa e Muito a década de 1980. Esse cenário contrasta com
baixa. Até a integração Média, eles foram con- as décadas de 1950, 1960 e 1970 com altas ta-
siderados como efetivamente metropolitanos xas de crescimento devido, principalmente, a
(437 municípios); já os níveis de integração uma forte corrente migratória, primeiro para as
Baixo e Muito baixo como não metropolitanos periferias do município-polo e depois para os
(508 municípios). (Observatório das Metrópo- municípios vizinhos. A Tabela 1 mostra as ta-
les, 2012). xas de crescimento dos polos de 15 metrópoles
entre 1950 e 2010.16
Se os polos não são hoje mais atrativos
INDICADORES DEMOGRÁFICOS do ponto de vista da moradia, seja pela alta
concentração habitacional, seja pelo alto custo
Comparando-se os municípios-polo monetário da moradia e da terra, as chamadas
com os outros segundo o grau de integração, deseconomias da aglomeração, há um grupo
chama a atenção a centralidade que os polos de municípios, classificados como de Alta in-
continuam a exercer em termos de geração e tegração ao polo (102 do universo de 945 mu-
concentração de renda, e também pela pre- nicípios), que apresentou, em 2010, taxas rela-
sença de portos e aeroportos, importantes no tivamente altas de crescimento, 3,36. Um fator
suporte aos fluxos econômicos e de pessoas. que justifica a atratividade desses municípios
Os polos concentram 60,7% do PIB e 66,5% é sua densidade demográfica baixa (786,8 ha-
da renda. Dos 39 aeroportos e dos 30 portos bitantes por km2), quando comparados aos
presentes em todos os municípios das aglome- municípios hierarquicamente superiores do
rações pesquisadas, os polos concentram 33 ponto de vista da integração metropolitana, os

Caderno CRH, Salvador, v. 29, n. 76, p. 101-118, Jan./Abr. 2016

aeroportos e 15 portos. Paralelamente, verifi- 16


Sobre a tese que o centro de São Paulo teria voltado a
ca-se um crescimento populacional baixo dos crescer nos anos 2000, ver Marques (2013), que mostra a
heterogeneidade desse processo, com algumas áreas apre-
polos (1,15) em relação aos outros municípios sentando crescimento moderado, outras intenso e outras
esvaziamento continuado: “contrariando a ideia de que ge-
metropolitanos, tendência já observada desde nericamente o centro teria voltado a crescer” (2013, p. 36).

107
O ESPAÇO METROPOLITANO NO BRASIL ...

com Muito alta integração (2.065,2hab/km²), oferta de empregos e de serviços educacionais.


extensão dos polos (5.164,1) e polos (3.676,7). Os municípios classificados como Extensão
Hierarquicamente, na frente dos muni- dos polos têm uma atratividade ligeiramente
cípios com Alta Interação, estão os municípios superior à dos municípios com Muito alta e
classificados como extensão dos polos e com Alta integração, confirmando sua capacidade
Muito Alta integração, cuja dinâmica popula- maior de atração. Já os de Muito alta integração
cional se aproxima do polo. São municípios destacam-se pelos altos fluxos de saída (71,1).
que cresceram muito nas décadas passadas e São municípios cuja função primeira, no con-
agora apresentam taxas de crescimento infe- texto metropolitano, é a da moradia, uma vez
riores às do grupo dos municípios com Alta que dependem de outros municípios, em geral,
integração, justamente por já estarem bastante dos polos, para trabalho e estudo. Os de Média
adensados. e Baixa integração apresentam perfil muito se-
Os dados sobre o movimento pendular melhante com fluxos de entrada próximos de
– pessoas que se deslocam cotidianamente do 30% e de saída em torno de 70%. Os de Muito
seu município de residência para outro muni- Baixa integração dependem menos, comparati-
cípio para trabalho ou estudo – completam os vamente dos outros, mas, de toda forma, é alto
dados do crescimento populacional na carac- o volume de saída, 65,6%.
terização da dinâmica metropolitana. Os mu- Os 20 municípios classificados como
nicípios-polo concentram 40% dos fluxos, mas Extensão dos polos se caracterizam por um
com prioridade absoluta para os de entrada [...] avançado processo de metropolização, com uma
(74,6%), o que confirma sua centralidade na dinâmica de integração altíssima, tanto na escala
regional quanto na nacional. Esses municípios, jun-
Caderno CRH, Salvador, v. 29, n. 76, p. 101-118, Jan./Abr. 2016

108
Luciana Teixeira de Andrade

tos, reúnem expressiva parcela da população, pro- Belo Horizonte concentra os fluxos de entrada,
dução de riqueza e apropriação de renda no País” e os municípios com Alta integração caracteri-
(Observatório das Metrópoles, 2012, p. 3).
zam-se pelos altos fluxos de saída somados à
Por essas razões, eles podem ser per- baixa atratividade (fluxo de entrada).19
cebidos como a expressão de um processo Os dados de Belo Horizonte mostram,
de desconcentração dos polos, uma vez que como os nacionais, que o polo Belo Horizonte
também exercem funções de centralidade. Por continua a exercer sua função de polarização
outro lado, o crescimento dos municípios com do movimento pendular, ou seja, concentra
Alta integração é um indicador de processos postos de trabalho e de instituições de ensino.
de extensão das periferias metropolitanas.17 De Os municípios com Muito alta integração são,
onde se conclui que há movimentos levando depois do polo, os que apresentam maior fluxo
à emergência de novas centralidades, como de pessoas, mas com predomínio dos fluxos de
outros movimentos em direção à expansão das saída (68,7%). Com valores absolutos menores,
periferias, de espraiamento e de continuidade mas com taxa ainda maior de saída (83,7%),
da periferização da população sem acesso às estão os municípios com Alta integração. Am-
áreas centrais das regiões metropolitanas. bos concentram 52,6% dos fluxos da RMBH,
Focando agora a Região Metropolitana ou seja, um alto número de pessoas que expe-
de Belo Horizonte (RMBH)18, o município-po- rimenta a desconexão entre lugar de moradia
lo, Belo Horizonte, cresceu 0,59 na década. Os e local de trabalho. Essa é uma característica
municípios com Muito alta integração, 2,1 e os das periferias metropolitanas. Nesse conjunto,
de Alta integração, 2,5. Diferentemente dos re- estão representadas periferias mais antigas e
sultados nacionais, para a RMBH, verifica-se novas, mas o que se nota é a manutenção de
um crescimento apenas ligeiramente superior dependência em relação ao trabalho em outro
ao dos municípios com Alta integração em re- município. Nesse aspecto e analisados rela-
lação aos de Muito alta, mas ambos superio- cionalmente, esses municípios permanecem
res ao crescimento total da RMBH (1,14). Em como cidades-dormitório da RMBH.20

Caderno CRH, Salvador, v. 29, n. 76, p. 101-118, Jan./Abr. 2016

19
Sobre o grau de integração dos municípios da RMBH,
relação ao movimento pendular, já se verifica ver o capítulo escrito por Alexandre Diniz e Luciana An-
drade: Metropolização e hierarquização das relações entre
situação semelhante à do contexto nacional. os municípios da RMBH no livro Belo Horizonte: Transfor-
mações na ordem urbana (2015).
17
Os dados de infraestrutura que serão apresentados a seguir
caracterizarão melhor essas áreas de expansão na RMBH.
20
Cidade-dormitório é outra denominação para periferias
que enfatiza a sua dependência em relação a outros espa-
18
O núcleo de pesquisadores do OM da RMBH refez o es- ços da metrópole para trabalho e estudo. Como periferia é
tudo nacional do OM para a RMBH utilizando a mesma empregada para se referir aos territórios da pobreza, uma
metodologia do estudo de 2009, que, no estudo de 2012, vez que não é usada, por exemplo, para se referir às cida-
sofreu algumas alterações. O principal objetivo foi torná- des com alta presença de condomínios fechados e também
-los comparáveis no tempo. Mais detalhes do estudo po- com alta dependência de outros espaços metropolitanos.
dem ser encontrados em Diniz e Andrade (2015). Sobre suas origens e usos ver Ojima et alii (2010).

109
O ESPAÇO METROPOLITANO NO BRASIL ...

Ao analisar separadamente os movi- de serviços e os empregos domésticos. Vespa-


mentos pendulares dos municípios com Muito siano é um município que abriga uma grande
alta integração, notam-se processos distintos. periferia na sua fronteira com Belo Horizonte e
Betim, cidade industrial como Contagem, tem cujo crescimento foi impulsionado pela cons-
um poder de atração de pessoas para trabalho trução de conjuntos habitacionais na década
e estudo proporcionalmente superior ao de de 1980 (Nazario e Andrade, 2010), mas, di-
Contagem, e ambos são altos em relação a esse ferentemente de Ribeirão das Neves e Ibirité,
grupo de municípios, respectivamente, 45,5 e conta com atividades industriais, principal-
41,5, em 2010. Contudo, em ambos como em mente da indústria cimenteira. Dai a atração
todos os outros municípios da RMBH, com um pouco superior à desses dois municípios.
exceção do polo, os fluxos de saída são maio- Ribeirão das Neves é o típico município perifé-
res do que os de entrada. Nova Lima, cidade rico da RMBH e cuja característica de cidade-
que abriga muitos condomínios fechados para dormitório se mantém desde a década de 1960.
grupos de média e alta renda, também tem um Observam-se, portanto, na RMBH, como
fluxo relativamente alto de entrada, 49,1, em no conjunto das RMs brasileiras, movimentos
2010. Torna-se interessante atentar para a cons- de desconcentração do polo e de extensão da
tituição aqui de um novo tipo de centralidade, periferia. Esse último é identificado aqui, prin-
distinta daquela presente nos municípios in- cipalmente, nos municípios com Alta integra-
dustriais como Betim e Contagem. Nova Lima ção, cujas densidades populacionais ainda são
reúne instituições de ensino superior, serviços relativamente baixas. Notam-se, ainda, dinâ-
e comércio sofisticado, instituições hospitala- micas diferenciadas entre um grupo de muni-
res e muitos empregos domésticos gerados pe- cípios com crescimento intenso nas décadas de
las moradias em condomínios fechados (An- 1960 e 1970 devido à imigração, mas também
drade e Mendonça, 2010). Entre todos os mu- expansões novas, como no caso de Nova Lima,
nicípios da RMBH, é o que apresentou maior que, por diversas razões, ambientais entre as
crescimento dos fluxos de entrada na última principais (Andrade, 2003), teve sua ocupação
década, passando de 35,9, em 2000, para 49,1, controlada nas décadas de 1960 e 1970, fator
em 2010. Sendo um município com 81.162 que contribuiu, a partir dos anos 1980, para o
habitantes, em números absolutos, esses flu- crescimento dos condomínios fechados e para
xos são bem menores quando comparados aos uma nova centralidade baseada nos serviços.
Caderno CRH, Salvador, v. 29, n. 76, p. 101-118, Jan./Abr. 2016

de municípios com maiores como Contagem O estudo de Mendonça e Marinho (2015)


(603.442 hab.) e Betim (378.089 hab.), mas é sobre a estrutura socioespacial da RMBH na
significativo na medida em que aponta para década de 2010 corrobora o que até aqui foi
novas dinâmicas de atração de pessoas, não apresentado. Eles mostram uma continuida-
mais os empregos industriais, mas a prestação de da concentração espacial dos grupos supe-

110
Luciana Teixeira de Andrade

riores21 no município de Belo Horizonte, mas condições de vida entre diferentes periferias
também a sua expansão sobre o município de da RMBH.24
Nova Lima. Observa-se também a presença de Esse índice contemplou cinco dimen-
grupos médios e médio superiores em algumas sões da vida urbana: mobilidade, condições
sedes municipais como as de Contagem, Betim ambientais, condições habitacionais, atendi-
e Nova Lima. Com esses dados, os autores qua- mento de serviços coletivos urbanos e infraes-
lificam essa desconcentração pela presença de trutura urbana. Cada uma dessas dimensões
grupos de alta e média renda em outros espa- foi constituída por um conjunto de indicado-
ços que não apenas no polo. Já os grupos popu- res, tendo como fonte o Censo Demográfico de
lares22 continuam concentrados nas periferias 2010. Os autores do estudo destacam, como
da RMBH em um processo de “... permanente uma de suas qualidades, a concepção do bem-
urbanização dos espaços periféricos.” (Men- -estar urbano como um bem coletivo que deve
donça e Marinho, 2015, p. 172). ser usufruído e compartilhado por todos. “A
concepção de bem-estar urbano presente nes-
te trabalho que estamos propondo decorre da
INFRAESTRUTURA URBANA compreensão daquilo que a cidade deve propi-
ciar às pessoas em termos de condições mate-
Para a análise da infraestrutura urba- riais de vida, a serem providas e utilizadas de
na será usado o Índice de Bem-Estar Urbano forma coletiva.” (Ribeiro e Ribeiro, 2013, p. 9).
(IBEU) calculado para 15 regiões metropolita- E, mesmo que sejam experimentadas indivi-
nas do Brasil.23 Esse índice tem duas escalas. dualmente e a partir de diferentes alternativas,
Na primeira, será possível comparar o bem-es- como no caso da mobilidade, por exemplo, o
tar entre 15 RMs (IBEU Geral), mas o mais im- impacto se faz sobre a vida coletiva. 25
portante, para completar a análise mais geral O IBEU varia entre zero e um: quanto
anteriormente apresentada, é o fato de o IBEU mais próximo de um, melhor; quanto mais pró-
contemplar as condições intraurbanas, desde ximo de zero, pior. Trata-se de um índice com-
que se concentre em uma região em particular; parativo entre as regiões metropolitanas (IBEU
no caso deste artigo, e pelas razões já expos- Geral) e entre os municípios e as áreas de pon-
tas, será a RMBH (IBEU Local). Na análise in- deração de cada região metropolitana (IBEU
traurbana da RMBH, será possível perceber as Local). Ele mede, portanto, as distâncias entre

Caderno CRH, Salvador, v. 29, n. 76, p. 101-118, Jan./Abr. 2016


periferias presentes no interior da cidade-polo: essas diferentes unidades. Na análise compara-
Belo Horizonte, assim como as áreas centrais tiva das 15 RMs, o valor médio encontrado foi
de alguns municípios que, por questões eco- de 0,605. Campinas foi a única RM que apre-
nômicas ou por maior diferenciação interna da sentou índice superior a 0,8. Além de Campi-
sua população, têm algum poder de atração, nas, outras oito RMs apresentaram valores aci-
ainda que em escala bem diferenciada daque- ma da média: Florianópolis (0,754), Curitiba
la do polo. Será possível também comparar as (0,721), Goiânia (0,720), Porto Alegre (0,719),
Grande Vitória (0,699), Belo Horizonte (0,658),
21
Constituídos pelas categorias sócio-ocupacionais dos di- São Paulo (0,615) e RIDE-DF (0,610), enquan-
rigentes dos setores público e privado e de profissionais
de nível superior (Cf. MENDONÇA e MARINHO, 2015). to outras seis apresentaram índices abaixo da
22
Constituidos pelos operários da construção civil, traba- média. Entretanto, nesse grupo, é possível dis-
lhadores de serviço não-especializado, domésticos, ambu-
lantes e biscateiros. 24
Como se trata de uma medida em um momento especí-
fico no tempo, não será possível identificar com o IBEU
23
Belém, Belo Horizonte, Campinas, Curitiba, Florianópo- as melhorias nas periferias. Em relação a essa mudança, o
lis, Fortaleza, Goiânia, Grande Vitória, Manaus, Porto Ale- artigo contemplou outros estudos já realizados.
gre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo e RIDE-DF.
A fonte dessa seleção foi o primeiro estudo realizado pelo 25
Sobre a metodologia e o peso dos indicadores, ver capí-
Observatório das Metrópoles sobre a integração metropo- tulo 1 do estudo IBEU - Índice de bem-estar urbano (Ribei-
litana em 2009. ro e Ribeiro, 2013).

111
O ESPAÇO METROPOLITANO NO BRASIL ...

tinguir dois subgrupos: um com três RMs com em algumas novas periferias, como foi demons-
índices próximos da média: Salvador (0,573), trado por Esmeraldas.
Fortaleza (0,564) e Rio de Janeiro (0,507); e ou- O que se pode perceber, por esse índice
tro com três RMs com índices bem inferiores e comparativo, é que, apesar de a ordem socioes-
que podem ser considerados ruins ou péssimos: pacial se apresentar de forma mais fragmentada
Recife (0,443), Manaus (0,395) e Belém (0,251). espacialmente, as desigualdades permanecem.
Para a análise interna da RMBH, que E, apesar da melhoria dos indicadores de in-
conta com 34 municípios, serão considerados fraestrutura urbana nas periferias, as distâncias
apenas os municípios mais integrados à dinâ- em relação às áreas centrais continuam. Soma-
mica metropolitana, ou seja, aqueles que foram se a isso o fato de que a periferia traz a marca
considerados como metropolitanos. O que se da falta de planejamento, da falta de espaços
pode perceber, por este estudo, é que as melho- públicos de qualidade e de controle na sua ocu-
res condições estão fortemente concentradas pação, uma realidade que se inscreve nas estru-
em Belo Horizonte, em uma parte do município turas construídas. Se a autoconstrução foi o que
de Nova Lima, que concentra os condomínios, viabilizou a casa própria para os imigrantes que
e nas áreas centrais de Betim e Contagem, os chegavam às regiões metropolitanas, ela foi exe-
municípios industriais mais antigos da RMBH. cutada sob condições muito precárias e por uma
Já as piores áreas estão em Ribeirão das Neves população com poucos recursos econômicos.
que, como foi mostrado anteriormente, perma- Há de se considerar também que a maior oferta
nece como município-dormitório, e em áreas de serviços públicos urbanos nas periferias, um
relativamente próximas de Ribeirão das Neves, indicador que as aproxima das áreas centrais e
num processo que se pode chamar de expansão pericentrais, pouco diz sobre a sua qualidade
da periferia sobre uma parte do município de (Torres e Marques, 2001). Para ficar com apenas
Esmeraldas. Esmeraldas está entre o grupo de um dos indicadores, mas dos mais importantes
municípios de Alta integração e com baixa den- do ponto de vista da mobilidade social, a quali-
sidade populacional, 380 hab./km², ou seja, um dade das escolas nas periferias é muito inferior
município com capacidade de atração de novos à das outras áreas. Segundo o estudo Análise
moradores. Tal processo vem sendo verificado espacial dos indicadores educacionais de Belo
desde a década passada. Segundo os resultados Horizonte e região metropolitana, a região cen-
aferidos pelo IBEU, 53,1% da população des- tro-sul de Belo Horizonte, a que reúne os grupos
Caderno CRH, Salvador, v. 29, n. 76, p. 101-118, Jan./Abr. 2016

sa expansão concentram as piores condições de mais alta renda, apresenta os melhores indi-
de bem-estar urbano (0,500 e 0,001). Passando cadores educacionais, com exceção das favelas.
para o nível imediatamente a seguir (0,700 a À medida que se afasta de Belo Horizonte, os
0,501), observa-se uma baixa qualidade de vida indicadores pioram.
nas áreas periféricas de Belo Horizonte, o que
Esse processo espacial parece ser contínuo e ultra-
evidencia a desigualdade interna ao polo, e em passa os limites de Belo Horizonte de forma que os
várias porções do território metropolitano, com municípios próximos possuem taxas semelhantes
maior concentração no entorno da metrópole, às áreas periféricas de Belo Horizonte e os muni-
como em Ribeirão das Neves, Vespasiano, Santa cípios mais distantes possuem indicadores piores
Luzia, São José da Lapa, Esmeraldas e Sabará, ainda.” (Riane e Rios-Neto, 2007, p. 2).
os primeiros no eixo Norte e o último no eixo
Leste, mais Ibirité, Betim e Contagem no eixo
Oeste. O que se conclui é que persiste a manu- VIOLÊNCIA
tenção de uma baixa qualidade de vida tanto
em algumas periferias tradicionais, como aque- A violência nas metrópoles tem sido
las que se formaram na década de 1970, quanto estudada com maior frequência por meio das

112
Luciana Teixeira de Andrade

taxas de homicídios, um crime de alta gravi- de 27,1 (Waiselfisz, 2013).


dade, mas que representa apenas uma dimen- Essa estabilidade nacional dos últimos
são da criminalidade urbana. Isso se deve, anos, aferida pelos dados nacionais, esconde
principalmente, ao acesso a esse dado de uma mudanças significativas entre as regiões metro-
mesma fonte, o Sistema de Informações sobre politanas (Andrade, Souza e Freire, 2013). Como
Mortalidade (SIM), com cobertura nacional. exemplo, as RMs do sudeste, que durante a déca-
Um limite desse dado é a sua escala munici- da de 1980 apresentaram as mais altas taxas de
pal, da qual escapa a distribuição territorial de homicídios, sofreram uma redução muito forte.
um fenômeno que é muito concentrado espa- Já as regiões metropolitanas do Norte e Nordes-
cialmente (Andrade e Diniz, 2013 e Andrade, te mostraram as mais altas taxas de crescimen-
Souza e Freire, 2013).26 to. Em ambos os casos, há diferenças internas às
Depois do acelerado crescimento dos regiões. A queda no sudeste é muito expressiva
homicídios no País – iniciado na década de na RMSP, até porque ela se fez sentir de forma
1980 e que se manteve até o início dos anos mais homogênea, e não apenas na capital, como
2000, mais precisamente até 2003 –, observa- é o caso da RMRJ, que ainda mantém taxas al-
se uma estabilização, mas com taxas em pata- tas nos municípios periféricos. Vitória e a RMV
mares ainda muito altos. Em 1980, a taxa de apresentam queda, mas as taxas ainda estão em
homicídios para 100 mil pessoas no País era de patamares muito altos. O caso de Belo Horizonte
11,7. Em 1990, passa para 22,2. 2003 é o ano destoa, uma vez que evidencia crescimento na
de pico, com taxa de 28,9. Nos anos seguintes, capital, tendência oposta à das outras capitais do
as taxas oscilaram entre 25 e 27 homicídios sudeste. Entre 2001 e 2011, os homicídios na ci-
por 100 mil habitantes. 2011 acusa uma taxa dade de São Paulo caíram quase 80%. No Rio de

Caderno CRH, Salvador, v. 29, n. 76, p. 101-118, Jan./Abr. 2016

26
Algumas metrópoles têm esses dados espacializados,
Janeiro, 55,2% e, em Vitória, 25,8%. Já em Belo
mas o mesmo não ocorre com o conjunto dos municípios Horizonte, cresceu 21,5%. As taxas dos homicí-
metropolitanos. Além disso, o acesso a esses dados não é
público, como ocorre com o Datasus. dios por 100 mil habitantes nessas capitais, em

113
O ESPAÇO METROPOLITANO NO BRASIL ...

2011, foram: São Paulo 11,9, Rio de Janeiro 23,1, 1998 e 2006. O que ele observou foi a sua forte
Belo Horizonte 40,3 e Vitória 56,6. A tabela 6 concentração em determinadas áreas ao longo
mostra a situação dos homicídios nos municípios do tempo. Nas palavras do autor, “... outro fator
da RMBH com mais de 20 mil habitantes. que nos chamou a atenção foi a forte estabilida-
Chama a atenção o fato de Esmeraldas de espacial de homicídios, isto é, nos nove anos
apresentar a taxa mais alta de homicídios des- considerados neste estudo, verifica-se que a vio-
se grupo, a posição 1 na última coluna. Tra- lência característica de uma determinada área se
ta-se de um município que vem evidenciando repete ao longo do tempo, indicando uma forte
altas taxas de crescimento populacional (7,6, previsibilidade com respeito aos locais violen-
em 1991-2000 e 2,5, em 2000-2010) em virtu- tos.” (Silva, 2012, p. 144). Essas áreas coincidem
de da expansão de uma ocupação de tipo pe- com as favelas localizadas nas áreas centrais e
riférico nas suas bordas, mais especificamente com as periferias situadas ao norte do município
nos limites com Contagem e Ribeirão das Ne- nas fronteiras com Sabará e Santa Luzia, ao sul
ves, ocupação marcada pelo nível mais baixo com Ibirité e a oeste com Contagem.
do Índice de Bem-Estar Urbano. Nos segundo, Essas informações sobre a incidência dos
terceiro e quinto lugares, há municípios com homicídios são importantes, pois evidenciam
Muito alta integração e com áreas de periferia outra face perversa das periferias que não esta-
com baixo bem-estar urbano (IBEU): Betim, va presente, pelo menos, com tanta intensida-
Vespasiano e Ribeirão das Neves. Nas posi- de, nos anos da sua formação: a concentração
ções seguintes, quarto e sexto lugares, estão da violência. Esse fenômeno foi responsável,
dois municípios com Alta integração: Juatuba inclusive, por um redirecionamento dos te-
e Sarzedo. Belo Horizonte ocupa a sétima posi- mas de pesquisa, tanto nas favelas (Valadares,
ção. Outros três municípios chamam a atenção 2005), quanto nas periferias (Feltran, 2011). E,
pelas taxas mais baixas de homicídios: Lagoa se as melhorias (ainda que relativas) na infra-
Santa (15), Brumadinho (13) e Nova Lima (12). estrutura minimizam a antiga representação
Os três apresentam alta concentração de con- da periferia como lugar de precariedade, já a
domínios e poucas áreas de periferias.27 violência atuou na direção contrária, ou seja,
Esses dados tratam da incidência dos ho- como um elemento a mais de estigmatização.
micídios nos municípios, mas não da sua distri- O estigma é um atributo negativo que dificulta
buição interna. A importância da espacialização a aceitação social de uma pessoa. Pode ser, tan-
Caderno CRH, Salvador, v. 29, n. 76, p. 101-118, Jan./Abr. 2016

deve-se tanto ao fato de os homicídios apresen- to um atributo físico, quanto social, e entre os
tarem forte concentração espacial, quanto, para mais importantes atributos sociais negativos
os objetivos deste artigo, poder comparar sua está a pobreza (Goffman, 1975). Se a categoria
incidência nas diferentes áreas metropolitanas. periferias identifica os territórios da pobreza e
Na falta desse dado para toda a RM, a análise é, portanto, estigmatizante, morar numa peri-
aqui apresentada vai se valer de um estudo so- feria (ou numa favela) violenta aumenta ainda
bre Belo Horizonte. O sociólogo Bráulio F. A. da mais o estigma e a suspeição. E, se a violência
Silva examinou, em sua tese, a distribuição es- é seletiva (ainda que, muitas vezes, seja tam-
pacial dos homicídios em Belo Horizonte entre bém arbitrária), o estigma territorial atinge to-
dos os que moram no território estigmatizado.
27
O caso de Sabará, na 14ª posição, e com uma periferia
bastante precária no limite com Belo Horizonte precisa ser
olhado com mais atenção, pois parece haver um problema
com os dados em função de variações muito bruscas de
um ano para outro: 0 homicídios em 2009, 21 em 2010 e 9, CONSIDERAÇÕES FINAIS
em 2011, anos trabalhados pelo Mapa da Violência (2013)
para o cálculo da taxa, em 2011, apresentada na tabela.
Esses dados também contrariam a trajetória anterior do Este texto colocou como problema en-
município com taxas altas em 2008 (30,8), 2007 (39,4) e
2006 (29,8) (Cf. ANDRADE e MARINHO, 2013). tender as mudanças que se processaram nas

114
Luciana Teixeira de Andrade

últimas décadas nos espaços metropolitanos a blemático em relação a uma inércia das peri-
partir de um conjunto de questões apontadas ferias. A precariedade habitacional, somada à
pela literatura e por uma relação entre elas e os falta de oferta de trabalho, fez com que o muni-
dados do último Censo Demográfico. A RMBH cípio continuasse a ser, cinco décadas depois,
foi tomada como caso para aprofundamento um município dormitório, pois 58,32% de sua
pelo fato de conhecê-la melhor e também de- população ocupada desloca-se cotidianamente
vido à impossibilidade de analisar, de forma para outros municípios, índice que, inclusive,
detida e individualizada, um conjunto tão di- cresceu em relação à década anterior, 55,42 em
verso de regiões. 2000 (Souza, 2014). Além disso, o município
A primeira constatação é de que o es- registrou uma taxa de 52 homicídios por 100
paço metropolitano continua muito desigual, mil habitantes, a oitava pior taxa do estado de
ainda que a forma dessa desigualdade tenha se Minas Gerais. Verifica-se também a continui-
transformado. A antiga divisão entre centro e dade da periferização em espaços ainda mais
periferia é por demais limitada para se com- afastados das áreas com oferta de serviços e
preender um espaço que é muito mais frag- trabalho, como pôde ser verificado no municí-
mentado e complexo. Os municípios-polo con- pio de Esmeraldas.
tinuam a exercer uma forte centralidade para o Essas considerações remetem à compre-
conjunto das RMs, mas seu baixo crescimento ensão da RMBH como marcada por processos
populacional é um reflexo de sua alta densida- de mudanças e de continuidades. De manuten-
de, sua elitização, e da consequente perda de ção de uma centralidade no polo, acompanha-
atratividade para outros centros, mais capazes da de processos de descentralização, de conti-
de atrair investimentos como também popula- nuidade e expansão de novas periferias. Falar
ção. Se os polos, em um determinado momen- de permanência e inércia não é o mesmo que
to, deixaram de ser atrativos para a população argumentar que as periferias não mudaram,
de baixa renda, que se deslocou para os mu- mas que essas mudanças não foram suficientes
nicípios periféricos, hoje eles perdem também para alterar sua posição em relação aos outros
população de média e de alta renda, assim espaços da metrópole, de forma a diminuir as
como investimentos, para outros municípios. diferenças sociais e espaciais. Ou seja, as de-
Esse processo levou à constituição de novas sigualdades espaciais continuam inscritas nos
centralidades, algumas ainda vinculadas ao territórios metropolitanos, e as distâncias so-

Caderno CRH, Salvador, v. 29, n. 76, p. 101-118, Jan./Abr. 2016


setor industrial, como as de Contagem e Be- ciais permanecem, mesmo quando há proxi-
tim, e outras ao setor de serviços qualificados midade física, como nos casos das favelas das
e também para as moradias dos estratos de alta áreas centrais e também dos condomínios nas
renda, como se verifica em Nova Lima. periferias. E, se a percepção da insegurança
As periferias passam por distintos pro- atinge a todos, o mais letal dos crimes, o homi-
cessos de mudanças. A atração de grupos mé- cídio, concentra-se nas periferias.
dios em função das melhorias na infraestrutu- Sobre uma nova configuração espacial,
ra não foi possível de ser captada pelos dados o que se constata, a partir do que foi aqui apre-
aqui analisados, mas outros estudos já se de- sentado, é que os modelos duais não expres-
dicaram à sua análise (Caldeira, 2000, Lago, sam a diversidade metropolitana brasileira.
2007 e Costa e Mendonça, 2011). Por outro Por outro lado, cidades divididas é um concei-
lado, foi possível perceber, para a RMBH em to bastante alargado e, em tese, se adequaria
especial, que algumas periferias antigas conti- a todas as cidades. A questão que merece ser
nuam ainda muito precárias quando compara- mais bem analisada é como a divisão se inscre-
das com outros espaços e são hoje muito mais ve no território. Algumas divisões expressam
violentas. O caso de Ribeirão das Neves é em- uma segmentação da sociedade por diferenças

115
O ESPAÇO METROPOLITANO NO BRASIL ...

étnicas, profissionais ou culturais e não ne- e cidadania em São Paulo. São Paulo: Editora 34/Edusp,
2000.
cessariamente a segregação. Um bairro étnico
COSTA, H. S. de M. (Org.). Novas periferias metropolitanas.
que reúne pessoas por questões de natureza Belo Horizonte: C/Arte, 2006.
sociocultural é muito diferente de um gueto. DINIZ, A. M. A e ANDRADE, L. T. Metropolização e
hierarquização das relações entre os municípios da
A segregação por questões etnicorraciais ou RMBH. In: ________, MENDONÇA, J. G. E DINIZ, A. M.
(Eds.). Belo Horizonte: Transformações na ordem urbana.,
socioeconômicas implica acesso diferencia- Rio de Janeiro, Letra Capital, 2015.
do aos bens urbanos, o que contribui para a DINIZ, C. C. e CAMPOLINA, B. A região metropolitana
continuidade das diferenças sociais. O que as de São Paulo: reestruturação, re-espacialização e novas
funções. Revista Eure, Santiago de Chile, v.1, n. 98, p. 27-
divisões das metrópoles no Brasil indicam é a 43, mayo 2007.
manutenção de uma forte segregação e a falta FARIA, C A. P. Explicando o inchaço da Região
Metropolitana de Belo Horizonte. Revista do Observatório
de integração entre os seus distintos espaços do Milênio de Belo Horizonte, Belo Horizonte, v. 3, p. 36-
59, 2012.
sociais. Ou seja, nesse aspecto fundamental da
FELTRAN, G de S. Fronteiras de tensão: política e violência
vida em sociedade, a configuração espacial das nas periferias de São Paulo. São Paulo: Editora Unesp,
metrópoles aponta mais para a continuidade 2011.

do que para a ruptura. FRÚGOLI JR., H.; CAVALCANTI, M. Territorialidades da(s)


cracolândia(s) em São Paulo e no Rio de Janeiro. Anuário
Antropológico, v. 2, p. 73-97, 2013.
________. Centralidade em São Paulo: trajetórias, conflitos
Recebido para publicação em 07 de setembro de 2014 e negociações na metrópole. São Paulo: Cortez/Edusp/
Aceito em 13 de março de 2015 Fapesp, 2000.
_______; SKLAIR, J. O bairro da Luz em São Paulo: questões
antropológicas sobre o fenômeno da gentrification.
Cuadernos de Antropología Social, v. 30, p. 119-36, 2009.
REFERÊNCIAS GOFFMAN, E. Estigma: notas sobre a manipulação da
identidade deteriorada. Rio de Janeiro: LTC, 1975.
ANDRADE, L. T. Segregação socioespacial e construção HARVEY, D. A condição pós-moderna: uma pesquisa sobre
de identidades urbanas. In: MENDONÇA, J. G. de; as origens da mudança cultural. São Paulo: Loyola, 1992.
GODINHO, M. H. de L. (Orgs.). População, espaço e gestão
na metrópole. Belo Horizonte: PUC Minas, 2003, p. 59-72. IBGE. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Regiões de influência das cidades 2007. Rio de Janeiro:
ANDRADE, L. T.; SOUZA, D. M. B. de L.; FREIRE, F. H.A. IBGE, 2008.
(Orgs.) Homicídios nas regiões metropolitanas. Rio de
Janeiro: Letra Capital, 2013. _______. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Censo Demográfico de 2000. Rio de Janeiro: IBGE, 2001.
ANDRADE, L. T.; DINIZ, A. M. A. A reorganização espacial
dos homicídios no Brasil e a tese da interiorização. Revista _______. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística.
Brasileira de Estudos de População, v. 30, p. 171-91, 2013. Censo Demográfico de 2010. Rio de Janeiro: 2011.

ANDRADE, L. T.; MARINHO, M. A. C. Organização social JAMESON, F. Pós-modernismo. A lógica cultural do


do território e violência letal na Região Metropolitana capitalismo tardio. São Paulo: Ática, 1996.
Caderno CRH, Salvador, v. 29, n. 76, p. 101-118, Jan./Abr. 2016

de Belo Horizonte: o balanço de uma década. In: ______; JAYME, J. G.; CHACHAM, A.; MORAIS, M. R. de. Mulheres
SOUZA, D. B.; FREIRE, F. H. M. de A. (Org.). Homicídios da Zona Grande: negociando identidade, trabalho e
nas regiões metropolitanas. Rio de Janeiro: Letra Capital, território. Sexualidad, Salud y Sociedad, Rio de Janeiro,
2013, p. 15-44. p. 138-63, 2013.
ANDRADE, L. T.; MENDONCA, J. G. Explorando as KING, A. D. Urbanism, colonialism and the world-economy.
consequências da segregação metropolitana em dois London: Routledge, 1990.
contextos socioespaciais. Cadernos Metrópole (PUCSP),
São Paulo, v. 23, p. 169-88, 2010. LAGO, L. C.  Autogestão da moradia na superação da
periferia urbana: conflitos e avanços. E-metropolis: Revista
BANERJEE-GUHA, S. Introduction: Transformative cities Eletrônica de Estudos Urbanos e Regionais, Rio de Janeiro,
in the new global order. In: ______; (Ed.). Accumulation v. 5, p. 6-12, 2011.
by dispossession. Transformative cities in the new global
order. New Delhi: Sage, 2010. LEITE, R. P. Contra-usos da cidade: lugares e espaço
público na experiência urbana contemporânea. Campinas:
BEAUREGARD, R. A. e HAILA, A. The unavoidable Editora Unicamp/Editora UFS, 2004.
continuities of the city. In: MARCUSE, P. e VAN KEMPEN,
R. (Eds.) Globalizing cities: a new spatial order? London MARCUSE, P.; VAN KEMPEN, R. (Eds.) Globalizing cities:
and Cambridge: Blackwell Publishers, 2000. a new spatial order? London and Cambridge: Blackwell,
2000.
BRASIL. Lei Complementar n. 14, de 8 de junho de 1973.
Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/ MARICATO, E. A produção capitalista da casa (e da
lcp/Lcp14.htm. Acesso em: 28 mar. 2014. cidade) no Brasil industrial. São Paulo: Alfa-Ômega, 1979.
BRASIL. Lei Complementar n. 20,  de 1 de julho de 1974. MARQUES, E C. L.; REQUENA, C. O centro voltou a crescer?
Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/ Trajetórias demográficas diversas e heterogeneidade na
LCP/Lcp20.htm Acesso em: 28 mar. 2014. São Paulo dos anos 2000. Novos Estudos CEBRAP, p. 17-
36, 2013.
CALDEIRA, T. P.do R. Cidade de muros: crime, segregação

116
Luciana Teixeira de Andrade

MEDEIROS, R. Clínica e croni(cidade): impactos do uso/ SARAIVA, C. P. A periferia consolidada em São Paulo:
abuso de crack na configuração urbana e nos tratamentos categoria e realidade em construção. 2008, 162p.
da toxicomania. In: ______; SAPORI, L. F. (Orgs.). Crack: Dissertação (Mestrado em Planejamento Urbano) -
um desafio social. Belo Horizonte: Ed. PUC Minas, 2010. Universidade Federal do Rio do Janeiro, Instituto de
Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional. Rio de Janeiro.
MENDONÇA, J G.; COSTA, H S. M. Dinâmica imobiliária
e a formação de um obscuro objeto de desejo: localização SASSEN, S. As cidades na economia mundial. São Paulo:
residencial e representação simbólica. In: ______. (Org.). Studio Nobel, 1998.
Estado e capital imobiliário: convergências atuais na
produção do espaço urbano brasileiro. Belo Horizonte: C/ SILVA, B. F. A. da. Desorganização, oportunidade e crime:
Arte, 2011, p. 169-87. uma análise “ecológica” dos homicídios em Belo Horizonte.
2012, 175p. Tese (Doutorado em Sociologia). Programa de
MENDONÇA, J. G.; MARINHO, M. A.C. As transformações Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal de
socioespaciais na Região Metropolitana de Belo Horizonte. Minas Gerais.
In: ANDRADE, Luciana T. ______; DINIZ, Alexandre M.
(Org.) Belo Horizonte: transformações na ordem urbana, SIMÕES, R. e AMARAL, P. V. Interiorização e novas
Rio de Janeiro, Letra Capital, 2015. centralidades urbanas: uma visão prospectiva para o
Brasil. Economia, Brasília (DF), v.12, n.3, p.553–79, set./
MOLLENKOPF, J.; CASTELLS, M. (Eds.). Dual city: dez. 2011.
restructuring New York. New York: Sage, 1991.
SMITH, N. The new urban frontier. London & New York:
NAZARIO, R. O.; ANDRADE, L. T. Da favela para o conjunto: Routledge, 1996.
a periferia no entorno do novo Centro Administrativo de
Minas Gerais. Cadernos de Arquitetura e Urbanismo, Belo SOARES, P R. R.; SCHNEIDER, L. P. Notas sobre a
Horizonte, v. 1, p. 55-71, 2010. desconcentração metropolitana no Rio Grande do Sul.
Boletim Gaúcho de Geografia, v. 39, p. 113-28, 2012.
OBSERVATÓRIO DAS METRÓPOLES. Níveis de
integração dos municípios brasileiros em RMs, RIDES SOJA, E. W. Postmetropolis: critical studies of cities and
e AUS à dinâmica da metropolização. Rio de Janeiro, regions. Malden, MA: Blackwell, 2000.
Observatório das Metrópoles, 2012. Disponível em: http:// SOUZA, J. De. Organização social do território e
observatoriodasmetropoles.net/download/relatorio_ mobilidade urbana. In: ANDRADE, L. T., MENDONÇA, J.
integracao.pdf Acesso em: fevereiro de 2014. G. E DINIZ, A. M. (Eds.). Belo Horizonte: Transformações
OJIMA, R et alii. O estigma de morar longe da cidade: na ordem urbana. Rio de Janeiro, Letra Capital, 2015.
repensando o consenso sobre as “cidades-dormitório” no TONUCCI FILHO, J. B. M. Cidade fractal – Transformações
Brasil. Cadernos Metrópole, São Paulo, v. 12, n. 24, p. 395- recentes na Região Metropolitana de Belo Horizonte. In: XII
415, jul./dez. 2010. ENCONTRO NACIONAL ENANPUR, 2009, Florianópolis.
RIANI, J.L.R; RIOS-NETO, E.L.G. Análise espacial dos Anais..., Florianópolis: ANPUR, 2009.
indicadores educacionais de Belo Horizonte e Região TORRES, H. da G.; MARQUES, E. C. Reflexões sobre a
Metropolitana. Belo Horizonte: Fundação João Pinheiro, hiperperiferia: novas e velhas faces da pobreza no entorno
2007. Texto para Discussão n. 31. municipal. Revista Brasileira de Estudos Urbanos e
RIBEIRO, L C. de Q.; RIBEIRO, M. G. (Orgs.). IBEU - Índice Regionais. n. 4, p. 49-70, maio 2001
de bem-estar urbano. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2013. VALLADARES, L. do P. A invenção da favela: do mito de
______. (Org.). Hierarquização e identificação dos espaços origem à favela. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2005.
urbanos. Série Conjuntura Urbana. v. 1. Rio de Janeiro: VAN KEMPEN, R. Divided cities in the 21st century:
Letra Capital: Observatório das Metrópoles, 2009. challenging the importance of globalization. J Housing
Disponível em: www.observatoriodasmetropoles.net. Built Environ, v. 22, p. 13–31, 2007
Acesso em: fevereiro de 2014.
VIANNA, H. Manifesto da periferia. Revista
________. Segregação residencial e políticas públicas: Raiz, jan. 2007. Disponível em: ttp://revistaraiz.
análise do espaço social da cidade na gestão do território. uol.com.br/portal/index.php?option=com_
In: Saúde nos aglomerados urbanos: uma visão integrada.

Caderno CRH, Salvador, v. 29, n. 76, p. 101-118, Jan./Abr. 2016


content&task=view&id=220&Itemid=181. Acesso em:
In: NETO, E. R.; BÓGUS, C. M. (Orgs.). Brasília: março de 2014.
Organização Pan-Americana da Saúde, 2003.
VIEIRA, N C.; FELTRAN, G S. (Org.) Sobre periferias:
________.  Segregação, acumulação urbana e poder: classes novos conflitos no Brasil contemporâneo. Rio de Janeiro:
e desigualdades na metrópole do Rio de Janeiro. Cadernos Lamparina /FAPERJ, 2013.
IPPUR, Rio de Janeiro, 2002, p. 79-103.
WAISELFISZ, J J. Mapa da violência 2013: homicídios e
ROBINSON, J. Global and world cities: a view from off juventude no Brasil. Brasília: OEI, 2012.
the map. International Journal of Urban and Regional
Research, v. 23, n. 6, p. 531-54, Sept. 2002, ZUKIN, S. Paisagens urbanas pós-modernas: mapeando
cultura e poder. Revista do Patrimônio Artístico e Histórico
RUBINO, S. Políticas de enobrecimento. In: FORTUNA C.; Nacional, 24, p. 205-19, 1996.
LEITE, R. P. (Org.). Plural de cidades: léxicos e culturas
urbanas. Coimbra: Almedina, 2009, p. inicial e final.

117
O ESPAÇO METROPOLITANO NO BRASIL ...

METROPOLITAN SPACE IN BRAZIL: a new L’ESPACE MÉTROPOLITAIN AU BRÉSIL: un


spatial order? nouvel ordre spatial?

Luciana Teixeira de Andrade Luciana Teixeira de Andrade

The goal of the text is to analyze the recent changes L’objectif de ce texte est d’analyser les changements
in the spatial order of Brazilian metropolitan récents qui ont eu lieu dans l’ordre spatial
areas and, particularly, the metropolitan area of des régions métropolitaines brésiliennes et en
Belo Horizonte. It begins with a dialogue with the particulier dans la région métropolitaine de Belo
international literature on the issue, and, after Horizonte. L’analyse commence par un dialogue
that, discusses the national debates. The empirical avec les publications internationales sur ce thème
reference is a series of studies and indices built from pour en arriver ensuite aux débats nationaux.
the results of the Demographic Census of 2010. It La référence empirique est constituée par toute
shows the dual system downtown vs outskirts is une série d’études et d’indices construits sur la
too limited for comprehending the current socio- base des données du recensement de 2010. On y
spatial order or Brazilian metropoles. It identifies montre comment le double modèle centre versus
significant changes occurred over the last decades périphérie est limité pour comprendre l’ordre socio-
and calls attention to several continuums regarding spatial actuel des métropoles brésiliennes. On
socio-spatial inequalities. identifie aussi les changements importants qui ont
eu lieu au cours des dernières décennies, mais on
attire également l’attention sur la permanence de
nombreuses inégalités socio-spatiales.

Keywords: Spatial order. Metropoles. Spatial Mots-clés: Ordre spatial. Métropoles. Inégalités
inequalities. Downtown. Outskirts. spatiales. Centres. Périphéries.
Caderno CRH, Salvador, v. 29, n. 76, p. 101-118, Jan./Abr. 2016

Luciana Teixeira de Andrade - Doutora em Sociologia. Professora do Departamento de Ciências Sociais


e do Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da PUC Minas. Tem experiência acadêmica na área
de Sociologia, com ênfase em Teoria Sociológica, e pesquisas realizadas sobre os seguintes temas: Belo
Horizonte, Região Metropolitana, Condomínios Fechados, Espaços Públicos, Representações Urbanas
e Criminalidade Urbana. Pesquisadora do CNPq, da Fapemig. Membro da equipe de pesquisadores do
Observatório das Metrópoles. Consutora ad hoc da Capes e do CNPq. Publicações recentes: Circuito
cultural Praça da liberdade: turismo e narrativas museológicas. Revista Iberoamericana de Turismo, v.
5, p. 5-17, 2015; Espaços públicos: interações, apropriações e conflitos. Sociologia (Porto), v. 29, p. 129-146,
2015; Intervenções urbanas mediadas pela cultura e os usos dos espaços públicos. Revista Ciências Sociais
Unisinos, v. 50, p. 225-233, 2014.

118