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PARECER JURIDICO

Ementa MANDADO DE SEGURANÇA DIREITO


CONSTITUCIONAL E ADMINISTRATIVO
SERVIDORES PÚBLICOS ESTADUAIS AGENTES
TETO REMUNERATÓRIO PRETENSÃO AO
RECEBIMENTO DOS VENCIMENTOS SEM O
REDUTOR SALARIAL POSSIBILIDADE. 1.
Preliminarmente, o ajuizamento do mandado de
segurança coletivo não obsta a impetração individual.
Litispendência ausente. 2. No mérito, a Lei Estadual
nº 6.995/90 foi revogada pela EC nº 19/89. 3.
Prevalência do princípio da irredutibilidade de
vencimentos, como uma das modalidades de direito
adquirido. 4. Inteligência dos artigos 5º, XXXVI e 37,
XV, da CF. 5. Efeito repristinatório do artigo 37, XI,
da CF, em sua redação original, ante a promulgação
da EC nº 19/89, que não pode ser concedido. 6. Nova
limitação remuneratória imposta pelo artigo 37, XI, da
CF, com a redação dada pela EC nº 41/03. 7. Vedação,
porém, à subtração de valores. 8. Excessos que devem
ser absorvidos ao longo do tempo, até que alcançado
o novo limite máximo de remuneração. 9. Precedentes
deste Tribunal de Justiça e do Supremo Tribunal
Federal. 10. Sentença de improcedência reformada.
11. Mandado de Segurança provido.

RELATÓRIO

Trata-se de Mandado de Segurança impetrado por Luciene Leão Felix de Melo e outras,
em face de um suposto ato ilegal praticado pela Mesa Diretora da Assembléia
Legislativa do Estado de Alagoas, consubstanciado na determinação de incidência do
redutor constitucional com base na Lei Estadual n.º 7.348/2012.

Devidamente notificado, o Estado de Alagoas apresentou defesa às fls. 64/71,


argumentando a inexistência de direito adquirido a regime jurídico remuneratório, bem
como que seria legal a edição de diploma normativo que altera o teto remuneratório dos
proventos de aposentadoria, desvinculando da referência anterior, desde que respeitado
o princípio da irredutibilidade de vencimentos.

Com vista dos autos, a Procuradoria de Justiça ofertou parecer às fls. 75/89, opinando
pela denegação da segurança, ante a ausência de direito líquido e certo a amparar a
pretensão das impetrantes.
FUNDAMENTAÇÃO

Como se sabe, a via do Mandado de Segurança é a apropriada para o resguardo de


direito líquido e certo da parte, não amparado por habeas corpus, sempre que haja o
receio de que alguma autoridade o viole, consoante dicção inserta no inciso LXIX do
artigo 5º da Constituição Federal e artigo 1º da Lei nº 12.016/2009. 08.

Nas palavras de Hely Lopes Meirelles, “a liquidez e certeza do direito restam


evidenciadas quando este se mostrar manifesto na sua existência, delimitado na sua
extensão e apto a ser exercitado no momento da impetração, com expressa previsão em
norma legal, e que traga em si todos os requisitos e condições de sua aplicação”
(Mandado de Segurança. 29ª ed. São Paulo: Malheiros, 2007, pp. 36-37).

No caso concreto, o suposto ato ilegal consistiria na aplicação, tida como indevida, do
teto remuneratório constante na Lei nº 7.348/2012 aos servidores públicos inativos e
pensionistas da Assembléia Legislativa, que corresponde ao subsídio mensal do Diretor
Geral e do Coordenador Geral para Assuntos Legislativos, fixado no valor de R$
9.635,25 (nove mil, seiscentos e trinta e cinco reais e vinte e cinco centavos).

Os dispositivos que amparam o ato coator


se encontram redigidos da seguinte forma:
"Art. 1º O subsídio mensal do Diretor Geral e do
Coordenador Geral para Assuntos Legislativos é
fixado no valor de R$ 9.635,25 (nove mil,
seiscentos e trinta e cinco reais e vinte e cinco
centavos), a ser pago em parcela única, vedado o
acréscimo de qualquer gratificação, adicional,
abono, prêmio, verba de representação ou qualquer
outra espécie remuneratória, reservadas as verbas
de caráter indenizatório e 13º salário. Art. 2º os
valores percebidos pelos servidores públicos
inativos e pelos pensionistas da Assembleia
Legislativa, a título de subsídio, provento, pensão
ou outra espécie remuneratória não poderão exceder
o montante do subsídio mensal fixado no caput do
art. 1º desta Lei.

O texto do art. 37, inciso XI, da Constituição Federal, em sua redação originária,
remetia ao legislador ordinário a incumbência de fixar o limite máximo e a relação entre
a maior e a menor remuneração dos servidores públicos, observados, como limites
máximos e no âmbito dos respectivos poderes, “os valores percebidos como
remuneração, em espécie, a qualquer título, por membros do Congresso Nacional,
Ministros de Estado e Ministros do Supremo Tribunal Federal e seus correspondentes
nos Estados, no Distrito Federal e nos Territórios, e, nos Municípios, os valores
percebidos como remuneração, em espécie, pelo Prefeito”.

Por meio da Emenda Constitucional nº 19/1998, o referido inciso ganhou nova redação,
com a fixação de novos tetos remuneratórios e exclusão da competência inicialmente
atribuída ao legislador ordinário para a criação de subtetos:

Posteriormente, a Emenda Constitucional nº 41/2003, modificou o dispositivo


mencionado, reavivando a fórmula inicial, com a instituição de parâmetros para cada
um dos poderes, mas tendo como teto máximo o subsídio mensal, em espécie, dos
Ministros do Supremo Tribunal Federal:

“Art. 37. [...] XI - a remuneração e o subsídio dos


ocupantes de cargos, funções e empregos públicos da
administração direta, autárquica e fundacional, dos
membros de qualquer dos Poderes da União, dos
Estados, do Distrito Federal e dos Municípios, dos
detentores de mandato eletivo e dos demais agentes
políticos e os proventos, pensões ou outra espécie
remuneratória, percebidos cumulativamente ou não,
incluídas as vantagens pessoais ou de qualquer outra
natureza, não poderão exceder o subsídio mensal, em
espécie, dos Ministros do Supremo Tribunal Federal,
aplicando-se como limite, nos Municípios, o subsídio
do Prefeito, e nos Estados e no Distrito Federal, o
subsídio mensal do Governador no âmbito do Poder
Executivo, o subsídio dos Deputados Estaduais e
Distritais no âmbito do Poder Legislativo e o
subsídio dos Desembargadores do Tribunal de Justiça,
limitado a noventa inteiros e vinte e cinco centésimos
por cento do subsídio mensal, em espécie, dos
Ministros do Supremo Tribunal Federal, no âmbito do
Poder Judiciário, aplicável este limite aos membros
do Ministério Público, aos Procuradores e aos
Defensores Públicos”

Percebe-se, pois, que tanto a Emenda Constitucional nº 19/1998 quanto a Emenda


Constitucional nº 41/2003, esvaziaram a competência originalmente estabelecida pelo
legislador constituinte para fixação de subteto de âmbito local com limites inferiores aos
estatuídos na norma constitucional.

Da clara dicção do inciso XI do art. 37, com a redação que lhe foi dada pela Emenda
Constitucional nº 41/2003 para o texto atualmente vigente, o limite remuneratório a ser
observado para o serviço público como um todo é o subsídio mensal dos Ministros do
Supremo Tribunal Federal (teto geral). Além da criação de um teto específico para os
entes municipais, tendo por parâmetro o subsídio do Prefeito, foram estatuídos limites
especiais para cada um dos poderes constituídos do Estado e do Distrito Federal (teto
especial ou subteto), considerando: no Poder Executivo, o subsídio mensal do
Governador; no Poder Judiciário, o subsídio mensal dos Desembargadores; e no Poder
Legislativo, o subsídio mensal dos Deputados Estaduais e Distritais.

Pelo que consta dos autos, as impetrantes antes da edição da Lei Estadual nº
7.349/20121 , percebia proventos na base de 50% (cinquenta por cento) incidente sobre
o valor do subsídio dos Deputados Estaduais e com a superveniência da referida Lei, a
situação das partes teria sido invertida, já que o valor dos proventos passou a ser inferior
a metade do novo patamar remuneratório dos parlamentares.

Acontece que a redução dos proventos continuou a ser efetuada, desta vez, não com
base no valor do subsídio dos Deputados Estaduais, mas do Diretor Geral e do
Coordenador Geral para Assuntos Legislativos da Assembleia Legislativa, em razão da
superveniência da Lei nº 7.348/20122 , que criou um subteto específico de âmbito local
para os servidores inativos e pensionistas do referido Órgão.

Analisando a situação a partir de um juízo de interpretação histórica da evolução da


norma constitucional demonstra que o poder constituinte reformador, através das
Emendas Constitucionais nºs 19/1998 e 41/2003, simplesmente esvaiu a competência,
originariamente atribuída ao legislador ordinário, de fixar o limite máximo e a relação
entre a maior e a menor remuneração dos servidores públicos, denotando a
impossibilidade de criação de subtetos em âmbito local neste interstício temporal.

Tanto isso é verdade que o legislador constituinte, por meio da Emenda Constitucional
nº 47/2005, inseriu o § 12 ao art. 37 da Constituição Federal, facultando “aos Estados e ao
Distrito Federal fixar, em seu âmbito, mediante emenda às respectivas Constituições e
Lei Orgânica, como limite único, o subsídio mensal dos Desembargadores do respectivo
Tribunal de Justiça, limitado a noventa inteiros e vinte e cinco centésimos por cento do
subsídio mensal dos Ministros do Supremo Tribunal Federal, não se aplicando o
disposto neste parágrafo aos subsídios dos Deputados Estaduais e Distritais e dos
Vereadores”.
Ora, se o legislador criou a possibilidade da fixação do subteto em âmbito local,
evidentemente que não existia tal permissivo no texto constitucional vigente, pois não
seria crível que o poder constituinte derivado concebesse uma norma que já estivesse
prevista em âmbito constitucional, sob pena de se admitir um verdadeiro bis in idem de
ordem normativa.
No caso vertente, entendo que a criação do subteto, de âmbito local, levado a termo pela
Lei Estadual nº 7.348/2012 é inconstitucional, o que afirmo com base em 03 (três)
razões primordiais:

a) primeiro, por não ser possível a fixação de subteto direcionado apenas para um grupo
específico de servidores (servidores públicos inativos e pensionistas da Assembleia
Legislativa), ante a exigência constitucional de tratamento igualitário entre os servidores
ativos e inativos, inclusive no que diz respeito a aspectos remuneratórios (art. 40, §2º,
da Constituição Federal);
b) segundo, porque a despeito de a lei ter sido posterior à égide da Emenda
Constitucional nº 47/2005 que admitiu a criação de subteto no âmbito local , não foi
observado o requisito formal de que, para a sua concepção no sistema jurídico, a
inovação deveria se dar por meio de emenda à Constituição Estadual; e,
c) terceiro, por ter utilizado como parâmetro remuneratório local o subsídio mensal do
Diretor Geral e do Coordenador Geral para Assuntos Legislativos, quando o limite
único a ser obrigatoriamente observado seria o subsídio mensal dos Desembargadores
do Tribunal de Justiça.

Não se aplicando a limitação imposta pela Lei Estadual nº 7.348/2012, por força dos
argumentos invocados, e não havendo compatibilidade desta espécie normativa com a
disposição no art. 37, §12, da Constituição Federal, não tenho dúvida de que os
proventos 25. Nesse diapasão, o Órgão Plenário deste Tribunal de Justiça já declarou a
inconstitucionalidade do art. 2º da Lei Estadual nº 7.348/2012 que fixou como subteto o
subsídio de Diretor Geral e/ou do Coordenador Geral para Assuntos Legislativos da
Assembleia Alagoana, pelo que se faz desnecessário suspender o curso desta ação e
instaurar novo incidente acerca da compatibilidade do dispositivo ao texto
constitucional, uma vez que já houve Decisão acerca dessa matéria, em conformidade
com o parágrafo único do artigo 949 do CPC/2015. 26.

Trago alguns dos precedentes do Tribunal Pleno acerca desta declaração da


inconstitucionalidade do referido verbete normativo estadual:

"0006244-94.2012.8.02.0000 Mandado de
Segurança / Sistema Remuneratório e Benefícios
Relator(a): Des. Tutmés Airan de Albuquerque Melo
Comarca: Comarcar não Econtrada Órgão julgador:
Tribunal Pleno Data do julgamento: 23/09/2014 Data
de registro: 29/09/2014
Ementa: MANDADO DE SEGURANÇA.
REAJUSTE DE REMUNERAÇÃO. REDUTOR
CONSTITUCIONAL. CRIAÇÃO DE SUBTETO DE
RETRIBUIÇÃO. PARÂMETRO DEFINIDO EM
LEI. INCONSTITUCIONALIDADE DO ART. 2.º
DA LEI 7.349/2012. 1 – A Lei estadual n.º
7.348/2012 estendeu o seu comando, a título de
reserva legal, para além da estrita definição do valor
real da retribuição de servidores públicos. Ao
estipular uma espécie de subteto de retribuição,
vinculandoo ao subsídio mensal do Diretor-Geral e do
Coordenador-Geral para Assuntos Legislativos, cargo
público não contemplado no inciso XI do art. 37 da
Constituição da República, assim o fez de forma
flagrantemente inconstitucional. 2 – Apesar do
reconhecimento da inconstitucionalidade do teto de
retribuição estabelecido na lei estadual arguída, o
objeto do presente mandado de segurança não poderia
implicar a discussão sobre se este faria jus aos
proventos de R$ 20.042,34 (vinte mil e quarenta e
dois reais e vinte centavos). É que, como este valor é
o subsídio mensal dos Deputados estaduais,
estabelecido na Lei n.º 7.349/2012, logo representaria,
em tese, o legítimo teto de retribuição no âmbito do
Poder Legislativo estadual. 3 – Entretanto, no
presente mandamus, por se tratar de decisão judicial,
não se deve fixar o valor da remuneração do
impetrante, mas apenas julgar a legitimidade do
redutor aplicado em seu contracheque sob a rubrica de
"redutor Este documento foi liberado nos autos em
15/07/2016 às 13:49, é cópia do original assinado
digitalmente por Fernando Tourinho de Omena Souza.
Para conferir o original, acesse o site
http://www2.tjal.jus.br/esaj, informe o processo
0803969-71.2014.8.02.0000 e código 2771C7. fls.
145 Tribunal de Justiça Gabinete do Desembargador
Fernando Tourinho de Omena Souza Mandado de
Segurança n.º 0803969-71.2014.8.02.0000.05
constitucional". 4 – Mandado de segurança julgado
procedente. Ordem concedida por decisão unânime.
Mandado de Segurança n.º 0803969-
71.2014.8.02.0000.05

Não se trata, portanto, como veiculado pelo Estado de Alagoas, de invocação de direito
a regime remuneratório, mas sim de adequação ou não da criação de um subteto criado
no âmbito local, o qual, como visto, não passa pelo filtro de constitucionalidade, já que
incompatível com o texto da CF/88.

Por fim, a Procuradoria de Justiça argumentou que faltaria direito líquido e certo às
impetrantes, em razão de que a lei nº 7.349/2012, cujo conteúdo majorou os subsídios
dos deputados alagoanos, teria desrespeitado a Lei de Responsabilidade Fiscal, visto
que o limite de gasto com pessoal estaria excedido.
CONCLUSÃO

Nesse particular, a despeito dessa assertiva, tenho que a parte visa, na verdade, à
exclusão do redutor constitucional dos vencimentos dos impetrantes, não impugnando,
portanto, as implicações do diploma normativo que majoraram os subsídios dos
parlamentares alagoanos, sendo tal matéria estranha aos limites da presente lide.

Desta forma, ante o conjunto jurisprudencial aqui colacionado, tenho por caracterizado
o ato ilegal praticado, devendo ele ser afastado através da presente ação, com o
restabelecimento da normalidade constitucional.

Diante do exposto, VOTO por CONCEDER A SEGURANÇA, no sentido de declarar


incidentalmente a inconstitucionalidade do art. 2º da Lei Estadual n.º 7.348/2012, e
determinar que seja aplicado como redutor dos proventos dos impetrantes o subsídio
percebido pelo Deputado Estadual, em atenção ao disposto nos termos do art. 37, inciso
XI, da Constituição Federal.