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O Discurso Midiático e a Construção da Notícia:

relações entre infraestrutura e superestrutura da teoria


bakhtiniana
Marcília Luzia Gomes da Costa Mendes∗
Maria Ivanúcia Lopes da Costa†

Índice isso, adotamos alguns conceitos da teoria


Bakhtiniana aplicáveis aos estudos de co-
Introdução 1 municação e mídia, como as conceituações
1 A concepção bakhtiniana 2 de Infraestrutura e Superestrutura, para en-
2 Mídia e sociedade: Uma relação de tendermos as suas relações. Nesta perspec-
interdependência entre infraestrutura e tiva, partimos da compreensão de que a mí-
superestrutura 3 dia, fragmento da superestrutura, interfere
3 O discurso ideológico 6 no processo histórico social de um determi-
Considerações Finais 7 nado grupo, evidenciando o processo de in-
Referências 8 teração.
Palavras-chave: Ideologia. Mídia. Notí-
Resumo
cia. Infraestrutura. Superestrutura.
Este artigo aborda a influência ideoló-
gica na construção do discurso midiático e, Introdução
consequentemente, no processo de fabrico
Mikail Bakhtin foi um dos mais importantes
da notícia – matéria-prima do jornalismo,
pensadores do século XX. Seu nome é uma
bem como seus reflexos nas estruturas soci-
referência para diversas teorias que, de uma
ais. De forma específica, o objetivo, naquilo
forma ou de outra, discutem e problemati-
que nos interessa, liga-se à questão de saber
zam a questão da comunicação hoje. Mais
como a realidade (a infraestrutura) deter-
que uma ponte entre os estudos da comu-
mina o signo e como o signo reflete e re-
nicação e as teorias de Bakhtin, é possível
frata a realidade em transformação. Para
visualizar uma estrada completa que se en-
∗ trecruza no meio das relações, concebendo a
Departamento de Comunicação Social, Pro-
grama de Pós Graduação em Letras – PPGL/UERN, linguagem como imanentemente social.
marciliamendes@uol.com.br. Baseando-se na ideia bakhtiniana do pro-

Programa de Pós Graduação em Letras – PPGL/
UERN, Ivanucialopes@bol.com.br. cesso dialético de evolução que vai da
infraestrutura às superestruturas, observa-
2 Marcília Luzia Gomes da Costa Mendes e Maria Ivanúcia Lopes da Costa

se que o caráter ideológico do discurso de todos os signos ideológicos.” (BAKHTIN,


midiático torna-se mais presente nos meios 2006, p. 34).
de comunicação de massa na medida em Bakhtin nos mostra uma boa direção para
que se estreitam as relações homem x mídia pensarmos a relação entre as estruturas colo-
x sociedade, de modo que o homem passa cadas por Marx: através do signo ideológico.
a ser elemento da mídia, e a mídia artifí- Para ele, todo signo é ideológico. “Sem sig-
cio deste. Neste sentido, estas reflexões são nos não existe ideologia.” (BAKHTIN, 2006,
necessárias, mais especificamente no âmbito p. 21). E completa: “Um corpo físico
do jornalismo, a fim de entendermos essas vale por si próprio: não significa nada e
relações. coincide inteiramente com sua própria na-
tureza. Neste caso, não se trata de ideo-
logia.” (Idem). A partir do momento que
1 A concepção bakhtiniana
este objeto passa a ter um significado ex-
A teoria da linguagem de Bakhtin vem re- terno à sua própria natureza, temos então
forçar o campo dos estudos midiáticos, que o signo ideológico, que não só reflete a
concebe a comunicação como terreno das in- realidade material, como também a refrata.
terações, conflitos e disputas sociais. Nesse Baseando-se na ideia bakhtiniana de que o
caso, não é nem um sistema de regras a ser estudo do signo linguístico permite observar
transmitido e decodificado (como pensaram de maneira mais fácil e de forma mais pro-
os “objetivistas abstratos”), nem um espaço funda a continuidade do processo dialético
para ação de sujeitos livres para expressarem de evolução que vai da infraestrutura às
suas vontades (como imaginaram os “subje- superestruturas, pode-se concluir que cada
tivistas individualistas”). signo é constituído de uma funcionalidade
Para Bakhtin, todo ato comunicativo é vital.
contextual – situado por sujeitos, institui- Dentro desta arena de luta de classes
ções, tempos e espaços definidos. Sendo (BAKHTIN, 2006) há uma diversidade de
assim, comunicar é um processo dialógico. significações ideológicas, isto é, pela in-
Não se trata apenas de dizer alguma coisa teração social os signos mantêm-se vivos,
para alguém, mas para alguém e com ou- trazendo com eles concepções de mundo
trem, levando em conta a alteridade, o in- diferentes, jogos de interesse contrários etc.
terlocutor, os modos e as circunstâncias da Isso ajuda a compreender porque não se
interação verbal. Bakhtin foi contundente ao pode considerar as palavras (que são signos
considerar o interlocutor (leitor, ouvinte ou ideológicos por excelência, segundo a teoria
espectador) como personagem ativo do pro- bakhtiniana) como um simples reflexo, ou
cesso de comunicação. a representação pura da realidade material,
A comunicação é concebida, assim, como mas sim como uma refração (ou refrações)
um terreno de interações, conflitos e disputas desta realidade. Para o ponto de vista dia-
sociais e marcações adequadas a uma dada lético e dialógico de Bakhtin, a palavra “é
época e lugar. “A existência do signo nada sempre interindividual e reúne em si as vozes
mais é do que a materialização dessa co- de todos aqueles que a utilizam ou a têm uti-
municação. É nisso que consiste a natureza lizado historicamente” (MIOTELLO, 2008,

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p.203). Neste sentido, para Bakhtin, ela é o [...] sua pureza semiótica, sua
modo mais puro e sensível de relação social neutralidade ideológica, sua im-
(BAKHTIN, 2006, p.34) e serve como indi- plicação na comunicação humana
cador de mudanças, sendo veiculada através ordinária, sua possibilidade de
da língua para refletir-se nas ideologias. interiorização e, finalmente, sua
De certo modo, conforme Bakhtin, é presença obrigatória, como fenô-
através do estudo do signo linguístico que meno acompanhante, em todo
se observa mais facilmente e de forma mais ato consciente – todas essas pro-
profunda a continuidade do processo dia- priedades fazem dela o objeto fun-
lético de evolução que vai da infraestrutura damental do estudo das ideologias.
às superestruturas. Mas afinal, que estruturas (BAKHTIN, 2006, p.36).
são essas? E como podem ser assimiladas
para os estudos da mídia? O caráter ideológico das informações e
do discurso midiático torna-se mais presente
nos meios de comunicação de massa na me-
2 Mídia e sociedade: Uma dida em que se torna mais estreita a relação
relação de interdependência homem x mídia x sociedade. O homem passa
entre infraestrutura e a ser elemento da mídia, e a mídia artifí-
superestrutura cio do homem. Consequentemente, a mídia
torna-se decisiva no desenvolvimento da so-
Mikhail Bakhtin (2006) diferencia conceitos ciedade, que por sua vez, reflete na realidade
que acabaram por se tornar básicos para dos meios de comunicação de massa.
os estudos da linguagem, como os de in- Processa-se, então, uma relação de inter-
fraestrutura e superestrutura. Para ele, a ação e interdependência entre infraestrutura
infraestrutura compõe a base da sociedade, e superestrutura. Relações que se estabele-
as informações e fatos constituintes do so- cem na e pela linguagem, tanto em sua di-
cial. Já a superestrutura refere-se aos re- mensão verbal, quanto escrita, que se produz
flexos que as mudanças na realidade acar- nas relações sociais e materiais. Neste sen-
retam, ou melhor, são essencialmente, ele- tido, estas reflexões se mostram favoráveis,
mentos e relações sociais gerados e geridos no campo da mídia e mais especificamente
pela infraestrutura. Entre os elementos cons- do jornalismo, para compreendermos seus
tituintes da superestrutura estão, entre ou- discursos e o processo de construção das
tros, a psicologia, o Estado, a ideologia so- notícias.
cial, a educação, a política e a mídia.
A mídia, especificamente no campo jor-
nalístico, é uma área que facilita a visua-
2.1 Do fato à notícia: Um passeio
lização destas relações entre infraestrutura e pelas estruturas
superestrutura. Principalmente porque tra- Se o discurso é a matéria-prima da pro-
balha, mesmo que inconscientemente, com a dução midiática, a notícia – prática discur-
palavra enquanto signo ideológico e que in- siva – exerce grande influência sobre a cons-
fluencia no cotidiano social. tituição social de uma determinada comu-

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4 Marcília Luzia Gomes da Costa Mendes e Maria Ivanúcia Lopes da Costa

nidade, até porque todo discurso é carregado constituídos nas circunstâncias de uma co-
de ideologia. Neste sentido, a construção municação verbal espontânea como a ré-
da notícia não se dá de forma totalmente plica do diálogo cotidiano ou a carta, por
livre, uma vez que os eixos de poder e ins- exemplo) e os gêneros secundários (aque-
tâncias produtivas se inter-relacionam e es- les predominantemente escritos, que surgem
tão em constante movimento, transitando en- nas condições de um convívio cultural
tre um eixo e outro das estruturas. Nesse mais complexo e relativamente muito desen-
caso “as notícias, ao surgirem no tecido so- volvido e organizado), a exemplo do artís-
cial por ação dos meios jornalísticos, parti- tico, científico, sociopolítico, etc. Nesse
cipam da realidade social existente, confi- caso, para Bakhtin (2003), os gêneros se-
guram referentes coletivos e geram determi- cundários (romance, teatro, discurso cientí-
nados processos modificadores dessa mesma fico, discurso jornalístico etc.), que se cons-
realidade.” (SOUSA, 2002:119). troem em circunstâncias complexas de co-
Embora com diferentes perspectivas, as municação, absorvem e modificam, durante
teorias do discurso de forma geral apontam o processo de sua formação, os gêneros
para o caráter histórico-social de todo dis- primários. E isso só é possível pelo caráter
curso, sem esquecer os da mídia. Nesse caso, dialógico e pela diversidade de vozes que
é atributo do discurso jornalístico contem- repercutem suas ideologias, através da pro-
porâneo se postular o papel de remissor da dução de sentidos gerada pela heterogenei-
verdade, testemunha do fato. No entanto, dade discursiva.
o que vemos é uma apropriação deste real Neste sentido, imaginar o discurso como
através de estratégias enunciativas, tanto ver- dotado de um sentido único e portador de
bais como não verbais, tendo formulados os uma única voz é não concebê-lo como pro-
discursos não só a partir do sujeito que fala duto social, como ação social, já que pra
– a partir de outras falas, mas também na a análise do discurso, é fundamental reco-
interação com o sujeito que recebe ou que nhecer os discursos como práticas descon-
se supõe que receberá. Essas apropriações tínuas, sem transformá-los em um jogo de
do real não são condutoras de significados significações prévias. Neste sentido, deve-se
por elas mesmas, mas pela interação entre levar em consideração que
os sujeitos, no processo comunicativo, que
para Bakhtin é um processo interativo, muito Sempre que tentamos dar conta
mais amplo do que a mera transmissão de in- da realidade empírica, estamos às
formações. voltas com um real construído,
Isso nos remete aos conceitos de polifonia e não com a própria realidade.
e dialogia, que embora não sejam sinônimos, [...] O espaço social é uma rea-
se encontram pela concepção sociointera- lidade empírica compositória, não
cionista da linguagem. homogênea, que depende, para sua
Nos estudos da linguagem, é importante significação, do olhar lançado so-
destacarmos que Bakhtin distingue, de forma bre ele pelos diferentes atores so-
bem abrangente, dois tipos de gêneros do ciais, através dos discursos que
discurso: os gêneros primários (aqueles produzem para tentar torná-lo in-

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teligível. (CHARAUDEAU, 2007, entre o discurso que reporta e o discurso re-


p. 131). portado; uma interação dinâmica dessas duas
dimensões”. (FARACO, 2009, p. 140).
Sendo assim, Tezza (1998) recorre à Sendo assim, esta perspectiva torna-se, en-
Bakhtin para explicar que o discurso não é tão, ponte de apoio para os estudos da notí-
uma obra fechada e acabada de apenas um cia enquanto prática discursiva construída de
indivíduo, mas é um processo heterogêneo, diferentes olhares e vozes, e permeável –
conjunção de discursos entre eu e o outro. pela pureza da palavra – em vários espaços.

“Nossas palavras não são ‘nossas’ [...] o discurso reportante e o


apenas; elas nascem, vivem e mor- discurso reportado só têm uma e-
rem na fronteira do nosso mundo xistência real, só se formam e
e do mundo alheio; elas são res- vivem através dessa inter-relação,
postas explícitas ou implícitas às e não de maneira isolada. Ou em
palavras do outro, elas só se ilu- outras palavras, entre os dois dis-
minam no poderoso pano de fundo cursos estabelecem-se relações di-
das mil vozes que nos rodeiam” alógicas e eles se formam e vivem
(TEZZA, 1988, p. 55). nessas relações. (idem)

A partir disso, não parece remota, então, Consumidas em contextos sociais diver-
a ligação da teoria Bakhtiniana com os estu- sos, de forma coletiva ou individual, as notí-
dos de comunicação social, principalmente cias obedecem à rotina de produção coletiva,
se compreendermos que um dos fenômenos com o envolvimento de diferentes profissio-
linguísticos mais discutidos por Bakhtin – o nais, norteados pelas relações hierárquicas e
discurso reportado – é figura constante na concepções ideológicas.
mídia que, explicitamente, recorre aos dis- Neste sentido, ao refletir sobre a notícia
cursos de outrem. Neste caso, o caráter in- enquanto discurso, observamo-la como re-
tertextual da notícia é fator constituinte de sultado da interação socioideológica, em que
sua prática discursiva, sendo esta a condição emerge de uma multidão de vozes.
que todo texto tem de estar ou ser repleto
Desse ponto de vista, nossos enun-
de fragmentos de outros, os quais podem ser
ciados são sempre discurso citado,
facilmente identificados ou não. No caso das
embora nem sempre percebidos
notícias elas se situam no campo da intertex-
como tal, já que são tantas as vozes
tualidade sempre que os jornalistas lançam
incorporadas que muitas delas são
mão de discursos diretos ou indiretos, recor-
ativas em nós sem que percebamos
rem à ironia, usam pressuposições etc.
sua alteridade (na figura bakhtini-
Charaudeau (2007) explica que as mídias
ana, são palavras que perderam as
têm por tarefa reportar os acontecimentos do
aspas). (FARACO, 2009, p. 85).
mundo (p. 133). Nesse caso, “reportar não
é fundamentalmente reproduzir, repetir; é Sendo assim, o estudo da notícia é uma
principalmente estabelecer uma relação ativa das maneiras de analisar as ideologias em

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atuação na mídia e como esses filtros ideo- no conjunto dos títulos); a quanti-
lógicos permitem sua fabricação, já que de dade de superfície redacional (ou
acordo com Erbolato (2006) elas são “a icônica) comparada a de outras
matéria-prima do jornalismo” (p.49). Con- notícias, em porcentagem. (p.
siderando as notícias como artefatos linguís- 146-147).
ticos que representam aspectos da realidade,
Souza (2000) descreve que elas resultam da Nesta perspectiva, a escolha do que deve
interação de diversos fatores: ser noticiado, a forma como fazê-lo, a es-
colha de testemunhas, de ângulos, de falas a
[...] resultam de um processo de reportar, de perspectivas a abordar, demons-
construção e fabrico onde inter- tra o quanto essa visão da realidade (in-
agem, entre outros, diversos fa- fraestrutura) é parcial, logo e consequente-
tores de natureza pessoal, social, mente, ideológica (superestrutura).
ideológica, cultural, histórica e do
meio físico/tecnológico, que são Esse tipo de comunicação tem
difundidos pelos meios jornalísti- vínculo direto tanto com os pro-
cos e aportam novidades com sen- cessos de produção material da
tido compreensível num determi- vida, no lugar da infraestrutura,
nado momento histórico e num de- quanto com as esferas das diver-
terminado meio sociocultural (ou sas ideologias especializadas e for-
seja, num determinado contexto), malizadas, na superestrutura, en-
embora a atribuição última de sen- tendida como sistema de referên-
tido dependa do consumidor da cia que troca sentido com toda a
notícia (p.15). sociedade. (MIOTELLO, 2008, p.
171)
Desse modo, a realidade é (re)construída
a partir dos recursos específicos de cada tipo Como já vimos, no conceito bakhtiniano
de mídia. Na imprensa escrita, por exemplo, a palavra é, por essência e por excelência,
Charaudeau (2007) destaca: ideológica. Assim sendo, e levando-se em
consideração que esta (a palavra) é o instru-
a notícia é apresentada segundo mento de trabalho do comunicador e o e-
critérios determinados de cons- lemento que o relaciona com a sociedade,
trução do espaço redacional e supõe-se, que o discurso da mídia é, neces-
icônico, que seria correspondente sariamente, ideológico.
ao grau de importância que se
atribui a ela: a localização (na
3 O discurso ideológico
primeira página, ou numa página
interna, no alto ou no fim da O conceito de ideologia é um dos mais am-
página, com pré-título, título ou plos e variados a que se pode ter acesso. Em-
subtítulo); a tipografia (dimensão e bora não se tenha alcançado uma definição
corpo dos caracteres de impressão rematada, que abrangesse toda a riqueza de

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significações do termo, este conceito é fun- as relações sociais. E em cada


damental nos trabalhos e no pensamento de uma delas os signos de revestem
Mikail Bakhtin e do seu Círculo. de sentidos próprios, produzidos
Assim como se distinguiram por suas a serviço dos interesses daquele
ideias e seus estudos sobre o problema da grupo. (p.171)
ideologia, em uma perspectiva marxista, os
membros do Círculo de Bakhtin também A infraestrutura do contexto social pode-
aprofundaram outras questões que Marx En- ria ser alterada, entre outras, pela su-
gels apenas haviam tocado, como a questão perestrutura midiática – ou então, pode-
da relação da infraestrutura com a superes- ria ser influenciada por distintos cami-
trutura, por exemplo. Neste sentido, eles nhos/direcionamentos na superestrutura da
não trabalham, portanto, a questão da ideolo- mídia, possibilitando novas leituras para os
gia como algo pronto e já dado, ou vivendo fatos.
apenas na consciência individual do homem,
mas inserem essa questão no conjunto de Considerações Finais
todas as outras discussões filosóficas, que
eles tratam de forma concreta e dialética, Em face destas reflexões observou-se a
como a questão da constituição dos signos, abrangência da teoria bakhtiniana nos estu-
ou a questão da constituição da subjetivi- dos de comunicação e, mais ainda, as pontes
dade. (MIOTELLO, 2008, 169). propiciadas por estes estudos no campo da
Dito isto, se poderia caracterizar ideo- mídia. De acordo com as teorias apresen-
logia, da perspectiva bakhtiniana, como tadas, visualizamos a influência da ideo-
a expressão, a organização e a regulação logia no processo de fabrico da notícia, lo-
das relações histórico-materiais dos homens. calizando as relações entre Infraestrutura e
Neste caso, não se pode decidir se um enun- Superestrutura na construção do discurso
ciado é ideológico ou não, analisando-o iso- midiático.
ladamente de seu contexto discursivo, o que Sendo assim, no discurso jornalístico, o
fica mais evidente as relações entre a infra e lugar midiático articula-se também com o
a superestrutura. saber e com o poder. O jornalista não pode
Segundo Miotello (2008) Bakhtin defende falar como quiser, pois tem se submeter a
que a relação constante entre superestrutura certas regras internas e externas da institui-
e infraestrutura é possível pela intermedia- ção midiática. Ou seja, é a realidade e seus
ção dos signos: conflitos de interesse gerados por questões
políticas, pessoais e/ou financeiras que in-
A superestrutura não existe a fluenciam diretamente o fazer jornalismo, e
não ser em jogo e relação cons- consequentemente a carga ideológica de seus
tante com a infraestrutura, defende discursos.
Bakhtin, e essa relação é esta-
belecida e intermediada pelos sig-
nos e por sua capacidade de estar
presente necessariamente em todas

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8 Marcília Luzia Gomes da Costa Mendes e Maria Ivanúcia Lopes da Costa

Referências
BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e Filosofia
da Linguagem. São Paulo: Hucitec,
2006.

— Estética da criação verbal. Trad. Maria


Ermantina Galvão. 3. ed. São Paulo:
Martins Fontes, 2003.
CHARAUDEAU, Patrick. Discursos
das mídias. São Paulo: Contexto, 2007.

ERBOLATO, Mário. Técnicas de codi-


ficação em jornalismo. Petrópolis:
Vozes, 1984.

MIOTELLO, Valdemir. Ideologia. In:


BRAIT, Beth. Bakhtin conceitos-chave.
São Paulo: Contexto, 2008.

SOUZA, Jorge Pedro. As notícias e os


seus efeitos. Coimbra: Editora Minerva
Coimbra, 2000.

TEZZA, Cristovão. “Discurso poético


e discurso romanesco na teoria de
Bakhtin”.In: FARACO et al. Uma in-
trodução a Bakhtin. Curitiba: Hatier,
1988.

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