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Apostila: Parmênides

História da Filosofia I / 2016-01 / noturno / UFMG


Celso Vieira
(trabalho em construção, favor não citar sem consultar)

Obs: Os pré-socráticos encontram-se num período de transição que também é constitutivo da


filosofia na cultura ocidental. Estão na transição de uma cultura oral para escrita que tinha como
base do conhecimento o mito e começa a buscar explicações no logos. De modo que ao constituir
seu discurso filosófico eles recorrem a estilos, ferramentas e crenças prévias para formular uma
nova maneira de entender o mundo. Parmênides, por exemplo, escreve um poema* para veicular o
que se pode considerar o primeiro esforço de formalização de um pensamento lógico.

* A poesia na Grécia antiga é caracterizada pela métrica, não pela rima. Isso quer dizer que a sua
característica estrutural mais marcante é o ritmo marcado pela longura das sílabas em sequência.
Diferentes estilos de poesia tinham diferentes métricas. O poema de Parmênides segue o ritmo mais
tradicional da poesia épica, o hexâmetro dátilo. Esse verso, de maneira simplificada, consiste em
seis pés de sílabas com a sequência longa – breve - breve / longa - breve - breve.

Texto I: Platão no Sofista critica através do estrangeiro de Eleia que Parmênides escreve uma
historinha (mythos) para criança.
No Sofista Platão faz o estrangeiro de Eleia, a personagem principal, citar de cor o que ouvia na
infância: “mas Parmênides, o grande, começando quando nós éramos crianças e até o fim, afirmou
isso, falando como se segue em toda ocasião, tanto em prosa quanto em poesia: 'pois o que não é,
nunca deve ser forçado a ser’.” Sofista, 237a , e, mais a frente, vem a crítica: “Me parece que
Parmênides e todos que um dia procurarm uma definição crítica do número e da natureza do que
existe falou conosco sem cuidado (…) Cada um deles me parece ter-nos narrado um tipo de
historinha (mythos), como se fôssemos crianças.” Sofista, 242c

Atualmente, o mais comum é dividir o poema em três partes. O proêmio, o caminho da verdade
(aletheia) e o caminho da opinião (doxa). Após narrar a ascensão ao conhecimento de maneira
mística Parmênides aponta dois (ou três) caminhos a seguir. O primeiro, lida com o ser e a verdade
e constitui o cerne do poema. Na interpretação tradicional ele dá as bases para o que será chamado
de monismo, no qual tudo que existe é o ser. O segundo trata das aparências e constrói a melhor
versão para uma cosmologia pluralista e, portanto, incompatível com o caminho do ser. Em seguida,
vamos problematizar alguns detalhes de cada uma dessas partes.

I. Proêmio:
Entre os elementos poéticos do poema se destaca o proêmio que narra a história de como o poeta
ascende ao conhecimento divino que lhe dá a capacidade de cantar palavras (ou alcançar um
conhecimento) sobre-humano.
cp. por exemplo com a poesia de Hesíodo em que ele narra seu encontro com as musas.

(I.1) As condutoras éguas, tanto quanto ímpeto alcançasse

2. me encaminhavam, e iam me impelindo para (1) polifônica


3. senda do gênio, a que conduz <...> o lúcido humano.
4. Lá conduzido, pois lá conduziam-me mui hábeis éguas
5. impulsionando a charrete,e moças aduziam a senda.
6. O (2) eixo nas buchas emitia um som similar a uma flauta.
7. Incandescente pois com duas girantes rodas pressionava-se
8. de ambos lados, quando apressavam o encaminhar.
9. (3) Do Sol as Moças, deixando as moradas da Noite em rumo
10. a luz, tirando das cabeças, com suas mãos, os seus véus.
11. Ali estão as portas dos caminhos de Noite e Dia.
12. Elas têm marco e umbral de pedra de ambos os lados
13. e elas mesmas etéreas se enchem com grandes batentes.
14. (4) Destes, Justiça, a de muitas penas, tem chaves cambiantes.
15. A esta, clamantes moças através de singelos (4) discursos
16. persuadiram habilmente que para elas a barra
17. com rapidez das portas retirasse. E estas, dos batentes,
18. uma abertura enorme fizeram voando, os mui brônzeos
19. eixos transversos alternadamente fazendo girar
20. nas dobradiças e cavilhas juntas; lá, pelas portas
21. nas quais as moças, reto pela via, tinham charrete e éguas.
22. E a mim a (5) deusa afável acolheu, e minha mão direita
23. na sua aninhou, e assim falava e me dirigia sua palavra:
24. Ó companheiro jovem de imortais aurigas, tu que, com
25. as condutoras éguas, alcança a nossa morada,
26. Bem vindo! Já que nenhum mau destino te mandou seguir
27. por esta senda, (6) (pois fora está do passo dos humanos)
28. mas sim justiça e lei. Precisa se instruir de todas coisas:
29. (7) O coração inabalável da verdade persuasiva
30. ou pareceres dos mortais, nos quais não há crença verídica.
31. Porém também estes aprenderás, como tais pareceres
32. em aparência devem ser, por tudo todos transpassando

(1) Polifonia: O pensamento monista será caracterizado por uma luta contra a pluralidade de
caminhos, seres e modos de existência. Parmênides vai tentar provar que só há um jeito de ser. cp.
com Heráclito cuja crítica é contra a pluralidade de fontes e de explicações (Sua resposta é que tudo
é uma união de opostos B53 + 51).
(2) A charrete e a flauta: na imagem de ascensão do proêmio o poeta é conduzido por uma charrete
de cujos eixos giram tão rápidos que emitem sons sibilados de flauta. cp. a união de um instrumento
de guerra, a charrete, e um de música, a flauta com os símbolos usados por Heráclito para ilustrar
sua teoria de união de opostos: o arco (bélico) e a lira (musical).
(3) O caminho do conhecimento sobe, com ajuda de uma moça, até chegar a duas portas: sol e
noite. A dualidade por se referir ao caminho da verdade (ser) e da não verdade (não ser) tratado na
parte da aletheia ou às forças opostas de criação luz e noite na parte da doxa. Talvez às duas. Como
nos proêmios da tragédia, já anuncia o fim desde o começo.
(4) Justiça: A justiça tem as chaves cambiantes das portas. Há quem interprete como sendo uma só
porta que se alterna entre dia e noite. Nesse caso, mais interessante é pensar que a chave cambiante
seria o que muda a porta. Ou seja, é o instrumento escolhido para entrar na porta (verdade ou
opinião) que vai definir qual porta será e qual de qual caminho ela será o início. Também é
importante notar que é a persuasão que convence a justiça a usar uma chave e abrir as portas.
(5) A ascensão do humano conduzido pelas moças chega até uma divindade que o acolhe. A Justiça
é personificada e vai apontar o caminho que o humano por si só não teria conseguido alcançar.
Desse modo o poeta, ao narrar o que experienciou, espera ser como as moças que condziu o leitor/
ouvinte até a porta do conhecimento e o guia pelo caminho.
(6) Caso não aceite a companhia do poeta os humanos estão fora do caminho para o conhecimento
que a divindade detém. A filosofia como uma experiência mística. Há de se abandonar a pluralidade
que a experiência humana identifica no mundo.
(7) Ser vs. Parecer: A oposição entre uma verdade (aletheia) inabalável (estável) e persuasiva contra
os pareceres/ crenças/ opiniões (doxa) dos mortais. Desses não há crença verídica (plural e instável).
Mesmo assim, por ser parte constitutiva da experiência humana, também será necessário aprender
esses pareceres (suas várias versões). A parte da doxa é vista como uma tentativa de dar a melhor
dessas versões.

I.2 Quantos caminhos?

(II.1) Venha, eu direi, e tu ouvindo, te ocupa do relato


2. nas sendas únicas de indagação que são para pensar.
3. (1) Uma que é e conseqüentemente que não é não ser,
4. da persuasão é caminho, já que acompanha a verdade.
5. (2) Outra que não é, conseqüentemente, preciso é não ser,
6. então te explico este ser atalho ignoto pois nem
7. conhecerias o não ente, pois não exeqüível, e nem
8. explicarias

Princípio do meio-excluído ou da binomialidade, mas depois, na doxa, ameniza.

(2) O não ser não é e é necessário que não seja. Por conseguinte tampouco seria conhecível
ou explicável. Aqui começa a associação entre o 'que é' e o objeto do conhecimento.
Conhecer é saber como as coisas são. O não ser apesar de incognoscível e inexplicável não
é inútil pois é através da sua negação que se desenvolve o raciocínio de Parmênides.
Mesmo que a via do não ser seja impercorrível, ela funciona de 'chave' para se percorrer o
caminho do ser.

(1) O ser é, e não é não ser. Definição pela via negativa de uma aparente tautologia. Para entender
melhor a questão é preciso ter em mente os sentidos que o verbo 'ser' (einai) tem em grego. Em
geral, esses são divididos em três:
1. Existencial: em grego o verbo 'ser' pode equivaler a 'existir'. Assim, 'Sócrates é' significa
'Sócrates existe'.
2. Predicativo: 'ser' também é usado na formação de uma sentença predicativa, ou seja, uma
sentença que vai dizer alguma qualidade, propriedade ou equivalência do sujeito. Por exemplo:
Sócrates é mortal'
3. Veritativo: 'ser' ainda tem o uso que equivale a 'é o caso' ou 'é verdade'. No sentido pré-filosófico
esse uso equivale a um testemunho de algo que aconteceu no mundo como em 'dizer as coisas como
são' ou seja, como eu vi que aconteceram.
Já no sentido filosófico ele se aproxima mais ao nosso sentido de verdade em que se trata de como
as coisas realmente são. Parmênides, como dito acima, está em um período de constituição do
discurso filosófico. Assim, os sentidos em que esse verbo ocorre são motivo de discussão.

Para um tratamento cuidadoso da questão cf. Kahn, C.


Para ele o sentido inicial é o sintático de predicativo do qual se derivam o existencial e o veritativo
(que ele passa a chamar de semântico). Esse une a noção de instanciação, existência e verdade.

Existência e verdade são conceitualizados a partir do seu papel na predicação.

Instanciação é postular o atributo ele mesmo. ‘Verde é uma cor’.

Questão: Dado a pluralidade de leituras, como entender o princípio do o ‘ser existe’ e o ‘não-ser não
existe’ em Parmênides?

Resposta tradicional: Existencial (uma tese monista física) – universo é um item único
imutável sem predicados.

Resposta mais recente: Predicativo (uma tese monista metafísica) – cada coisa que é, só
pode ter um predicado. (mas pode haver pluralidade numérica. Cf. Mourelatos, Curd.

Obs: No monismo existencial o ser é o que existe. A gente acha que essa ser humano que chamamos
de Sócrates existe, mas, na verdade, se seguirmos a via da verdade: aquilo que é é e não pode não-ser.
Logo não pode ter vindo do não ser nem ir para o não ser (não exsitência). Sócrates que nasceu e
pereceu não satisfaz os critérios do ser, logo não existe/ é (no sentido estrito da palavra).

No monismo predicativo o que existe só pode ter um predicado. Assim, Sócrates é um ser
humano, e ser humano é um animal racional. Sócrates nasce e morre, logo ele deixa de ser
um ser humano. Por isso não existe no sentido estrito do termo. Por outro lado, ser
humano que é sempre definido pelo predicado animal racional existe nesse sentido.
Satisfaz assim o monismo predicativo. Tem apenas um predicado que é sempre o mesmo.

(VI.1) Precisa o ente tanto (1) dizer quanto pensar seer, pois é ser
2. E (2) nada não é; estas coisas eu mando-te explicar
3. pois a partir dessa (3) senda primeira de indagação <guio-te>
4. mas depois d’outra, a que mortais de nada sabedores plasmam,
5. duplas cabeças, pois (4) falta de engenho nos peitos dirige
6. o pensamento errante. E eles se deixam levar
7. igual a surdos e cegos, perplexos, multidão confusa,
8. nos quais o estar tanto quanto não ser estima-se o mesmo
9. e não o mesmo, assim é caminho de tudo reversível

(1) A união de ser e pensar agora também ganha a participação do dizer.


(2) A oposição ao não-ser aqui é feita através do nada. Formulação do princípio de que
nada pode vir a ser do nada (nihil ex nihilo).
(3) O primeiro caminho de investigação é o ser, mas há uma outra que os humanos de
duplas cabeças criam. Aqui há quem veja uma referência a Heráclito e sua insistência nos
opostos. Uma vez que a identificação de opostos em Heráclito segue da sua união, não
creio que seja referência a ele. Se trataria mais de uma crítica aos humanos em geral e sua
maneira múltipla de ver o mundo.
(4) A falta de engenho no peito prejudica o pensamento e as sensações (surdos e cegos). cf.
Repetição da crítica que os sentidos não funcionam bem sem a ajuda da razão em
Heráclito (as almas bárbaras em B107)
(5) Crítica a união de ser e não ser e do caminho reversível. Aqui sim parece se ter chagado
a uma referência crítica à supracitada harmonia revoltante (B51) de Heráclito e o seu
caminho para baixo e para cima que é um e o mesmo (B60).

(VII.1) Pois isto não submeta jamais, ser não sendo


2. Mas (1) tu afastas pensamento, desta de indagação senda
3. nem força a ti o (2) hábito da senda multiexperiente
4. mover o olho sem observar e ressoante ouvido e
5. língua, mas julga (3) no discurso muito controversa prova
6. por mim exposta.

(1) Pede para se afastar da senda que diz que o ser não é (seria o caminho de Heráclito).
(2) Pede para sair da senda multi-experiente (cp. com a polifonia do Proêmio) acessada
pelos sentidos (olhos, ouvidos e boca)
(3) Pede para que julgue a controversa prova que exibirá sobre qual caminho o
conhecimento deve percorrer.

I.3 Equivalência entre ser, pensar e dizer

(III.1) pois o mesmo é pensar e conseqüentemente ser

(1) Equivale pensar e ser. A questão é qual a força dessa equivalência. Ela quer dizer que
tudo que se pensa é o que é. Tudo que se pensa é verdade só faz sentido se 'pensar' tiver
sua amplitude bem reduzida. a) Uma opção é reduzir 'pensar' a 'pensar do jeito certo' ou
'percorrer o caminho do ser'. Ao pensar sobre o 'que é' se chega a o 'que é'.
b) Outra solução: quando se pensa o que não é, se está pensando o ser da maneira que ele
parece ser mas não é. As duas não são excludentes e podem fazer parte do que Parmênides
está pensando.
Para crítica a igualação total entre ser e pensar ver Górgias que reduz ao absurdo.
Consigo pensar ‘carruagens andando sobre o mar’ logo seria verdade.

(IV.1) Vê, mesmo ausentes firmemente ao (1) pensamento presentes


2. não (2) cindirá assim o ente para se abster do ente
3. (3) Nem dispersado totalmente em tudo através do mundo
4. Nem convergido

(1) Ausentes/ presentes: oposição entre os que parecem estar ausentes, mas que em
pensamento se apresentam. cf. o mesmo tema em Heráclito B34 (onde ele diz que se
trata de um ditado). Ambos estão recorrendo a um ditado popular para explicar como a
novidade da suas teorias, na verdade, seria inevitável se todos conhecessem como as
coisas são. É no pensamento que se encontra a chave para essa compreensão.
(2) Quem divide o ente acaba chegando no não-ser. Confirma a segunda interpretação b)
acima em que sempre se pensa sobre o ser, mas o dividindo acaba se abstendo dele.
(3) Nem dispersado/ nem convergido: A divisão do ser se encontra dispersado no mundo.
Talvez uma alusão à pluralidade dos sentidos. A negação à convergência pode ser
referência a Heráclito (cf. B8, B10, B51). Parmênides parece defender uma negação mais
radical dos sentidos. Não se trata, como Heráclito, de usar os sentidos para identificar
opostos e depois convergi-los. Seu método é mais puramente racional como veremos
em VIII abaixo.

(V.1) (1) Comum para mim é


2. D’onde comece, pois lá mesmo outra vez retornarei

(1) No pensamento (?) qualquer ponto de começo chega ao mesmo lugar que é de onde se
começou. Como se começa do ser e se chega no ser essa união faz sentido (cp. III)
2. O ser
Obs: O fragmento VIII contém o cerne do argumento de Parmênides para a existência única e
imóvel do ser. Suas características são definidas, em sua maioria, pela via negativa. Em outras
palavras, ele nos mostra como o ser é dizendo como ele não é. Isso faz sentido já que se fossem
usados adjetivos positivos se poderia entendê-lo como uma pluralidade de partes ou qualidades
que o monismo não aceita.

(VIII.1) (1) E só resta ainda relato da senda


2. que é, e sobre esta, ainda muito mais signos são
3. de que (2) ingênito Ente também imperecível é
4. é inteiro-único, inabalável e inacabável.
5. (3) Nunca nem era, nem será, pois é agora todo igual,

(1) Reafirma que o único caminho verdadeiro é o do ser.


(2) Em seguida lista seus atributos (anunciando o que vai falar como um proêmio interno a
essa parte): ingênito, imperecível, interio-único, inabalável e inacabável (prevalência dos
negativos). O ser não nascera, não perece, não é divisível, não se altera e não acaba.
Começa pelas afirmações (controversas segundo VII) para depois explicar como chegou
nelas. (esta estratégia é comum nos ditos sapienciais dos sete sábios e também em
Heráclito cf. B61)
(3) Para mostrar que o ser está fora da temporalidade ele usa uma versão negativa da
fórmula da eternidade*: Nunca foi, nem será, pois é agora. cp. Com Heráclito B30 em
que a fórmula da eternidade é usada na sua versão positiva (o cosmos é, era e será
sempre fogo).
* Fórmula hierática da eternidade é um recurso poético que se vale do verbo ser no
passado, presente e futuro para falar da totalidade do tempo. 'Foi, era e será': mas é
sempre usada com variações. (Para um tratamento comparativo da fórmula da
eternidade nos pré-socráticos cf. Vieira, 2015.)

6. uno, contínuo. (1) Pois indagarás dele que origem?


7. Por e de onde crescido? De não ente não deixarei
8. a ti falar nem pensar. Já que não falável nem pensável
9. é que não é. E que (3) necessidade o teria erguido
10. depois ou antes, começando do nada, para brotar?

(1) Depois das negativas refaz a lista a partir de perguntas. Traz o ouvinte para a
discussão. Sem respostas, presumivelmente, ele abriria a guarda para escutar os
argumentos de Parmênides.
Qual é a origem? Ingênito. De quem cresceu? Inalterável. Onde? Único. Quando? Nunca.
(2) As respostas saem da mesma fórmula: não é possível falar que o que é, não seja.
(3) Em sua maioria essas perguntas afirmam a negação da origem do nada. A pergunta
pela necessidade é interessante. É a cobrança para que haja uma explicação do por quê de
algo ter começado a existir.

11. Portanto é preciso ou estar totalmente ou não,


12. nunca nem força da crença do <não> sendo permitiu algo
13. gerar ao longo dele. E por causa disso nem gerar
14. nem perecer liberou a (1) Justeza relaxando amarras,
15. mas retém. Sobre isto (2) julgamento no seguinte é:
16. é ou não é. (3) julgado então, como se deve, deixar
17. uma impensável e inominável, pois não verdadeira
18. é, senda, outra enquanto autêntica estar e ser

(1) Reforça a justiça como algo que está além do querer ou da crença em poder mudar. É
preciso ser desse jeito e conhecer é conhecer como é preciso ser.
(2) Formula a lei da bivalência (se o 'ser' for veritativo) ou do terceiro excluído (se o ser for
predicativo): Duas opções: ou é e não é. Como não pode não ser, é. Melhor parece aceitar
um valor intermediário no sentido do ser. Ele é existencial porque predica a existência, e o
que existe é o que é o caso (portanto veritativo). As raízes dos princípios lógicos estão aqui,
mas não podem ser lidos como princípios lógicos puro. Parmênides trata da natureza; de
como as coisas são. Talvez podemos chamá-lo por um nome geral de Princípio de não
inexistência pois tem por base a impossibilidade que o não ser seja.
(3) Seguindo a lei acima o não ser se faz impensável e inominável. Mais dois adjetivos
negativos (cf. VIII.3-4 acima) e a equivalência entre ser, pensar e dizer (VI.1 e III).

19. (1) e depois como pereceria sendo? Como geraria?


20. Pois se gerou, não é, nem se alguma vez deverá ser.
21. Assim então gênese apagada e extinção inédita.

(1) Após a reiteração do princípio a ser seguido passa a responder as perguntas. Se o 'ser'
tivesse sido gerado, haveria um tempo anterior em que o ser não existiria, o que não faz
sentido se o ser não pode não ser. Se o 'ser', algum dia, perecer, ele será não ser, o que
também não faz sentido. Logo, geração e morte do ser não são possíveis.

22. (1) Nem divisível é, por conseguinte todo é idêntico.


23. Nem algo nele a mais, que o seu conter encerraria,
24. nem algo a menos. Contudo é todo repleto do ente
25. com isso é todo contínuo, pois ente justapõe ente.
26. Ainda assim imóvel nos limites dos grandes liames
27. é incessante incomeçado, logo extinção e gênese,
28. impulsionadas longe, afastou-as crença verdadeira.

(1) Se fosse divisível surgiria espaço para o não ser. Portanto deve ser total, idêntico e
contínuo na sua totalidade. Não pode haver nada a mais nem a menos. (cp. com os
'elementos' nas cosmologias dos filósofos pluralistas que surgem após Parmênides. Os
elementos de Empédocles satisfazem o critério do ser por serem indestrutíveis, ingênitos e
idênticos. Assim também é a cosmologia de Anaxágoras (eles violam apenas a sua
unicidade. cf. Curd, xx)

29. Ficando o mesmo e no mesmo, pousa sobre ele mesmo


30. e assim firme nele fica. Pois forte Necessidade o
31. retém nos liames do limite que encerra seu entorno.
32. Por conseqüência disso, ser lei o ente não inacabado
33. pois não carente é, se fosse, de tudo careceria.

(1) A necessidade (equivalente a justiça) personificada contém os limites do ser. O ser tem
que ter limite no sentido de ser acabado, caso contrário lhe faltaria algo, o que abriria o
espaço para o não ser e violaria o princípio de não inexistência acima. Se faltar algo,
faltaria tudo. (cp. com Lucrécio e o experimento de chegar ao limite do universo e lança
uma flecha. Para onde ela iria? Esse experimento teórico é usado por quem defende ou que
o universo não tem limite ou que o vazio existe após os limites. Nenhum dos dois se aplica
a Parmênides)

34. (1) E o mesmo é pensar e também por isso é pensamento,


35. já que não fora do ente, no qual esse exposto é,
36. encontrarás o pensar. Uma vez que nem é ou será
37. outro além do ente, pois (2) Destino o encadeou

(1) Reiteração da equivalência entre pensar e ser. O pensamento também é ser. A sua
exposição pode sair do ser (quando se fala das aparências ou se une mesmo e não mesmo),
mas isso não caracteriza o pensamento propriamente dito (o pensamento sobre o ser e que
pensa do jeito que o ser é).
(2) Surge a terceira personificação que garante a completude do ser. o Destino, junto com a
Justiça e a Necessidade parecem ter o mesmo papel. Trata-se apenas da polifonia (cf. o
proêmio) para explicar a mesma coisa, a completude do ser. Portanto não viola a
unicidade, identidade e indivisibilidade do ser.

38. a ser completo e imóvel. Por isso tudo será (1) nome
39. quanto mortais puseram, persuadidos serem verdadeiros.
40. Tanto gerar quanto perecer, tanto ser quanto não -
41. tanto mudar o lugar quanto a cor flamejante trocar.

(1) Depois do pensar, a linguagem entra em questão. A interpretação do pensar deve


seguir coerente com a da linguagem. Tudo que se pensa é o ser, mas pode se pensar errado
sobre o ser (por ex. Se se seguir a multiplicidade e o movimento que se experiencia com os
sentidos). Assim, a linguagem segue o mesmo caminho polifônico. É possível nomear uma
pluralidade como é possível pensar uma pluralidade, o que não é possível é pensar o ser
como sendo uma pluralidade. Por conseguinte, não se deve nomear o ser como uma
pluralidade. Os humanos colocam vários nomes que acreditavam ser verdadeiros para
descrever como experienciavam o mundo. Eles falam de gerar e morrer, de ser e não ser,
quando, na verdade, se fossem seguir o caminho da verdade deveriam concluir que tudo é
ser e que a mudança não existe. Porém, em face de que o raciocínio do qual se extrai essas
conclusões faz o uso de nomes como 'não ser' fica a questão se eles são 'chaves' imperfeitas
mas necessárias para percorrer o caminho correto do conhecimento. (cp. também os vários
nomes dados à justiça, necessidade e destino acima).

42. Ainda assim, segue limite último, acabado é


43. de todo lado, volume igual de esfera circular
44. equivalente do meio em tudo, pois nada maior
45. e nem menor é preciso estar aqui ou acolá.
46. Pois nem não ente é, que pausaria o seu convergir para
47. o igual; nem ente é de maneira que seria de ente
48. aqui mais lá menos. Portanto é todo inviolado
49. pois a si igual de todo, igualmente atinge limites.

(1) Por fim, Parmênides se dedica a fornecer uma imagem espacial-matemática do ser. A
imagem é uma esfera, igual de todos os lados, equivalente em tudo, não tem partes, nem
relações entre lados, nem lugares já que qualquer pensamento desse tipo implicaria na
possibilidade do não ser surgir por oposição. Há quem leia a espacialização como uma
metáfora para se entender melhor os atributos do ser. Há quem leia como uma imagem fiel
que se segue a partir do raciocínio lógico acerca do ser. Desde o início da filosofia (física e
metafísica gregas) a matemática tem um papel importante (cf. as medidas em Heráclito
B30 e as metades em B31)

50. (1)E aqui pauso o crível discurso e o pensamento


51. sobre verdade. E a partir de pareceres mortais
52. o falaz mundo das minhas palavras aprende ouvindo.
53. Pois (2) duas formas para nomear pensamentos puseram
54. não necessária é uma dessas, nisso desviados estão.

(1) Anuncia o fim do discurso e pensamento sobre a verdade e o começo do tratamento de


como as coisas são segundo as opiniões falsas dos humanos.
(2) Vimos que o princípio da não inexistência nega o não ser para afirmar somente o ser
(somente um lado da oposição). Agora, no caso das falsas opiniões humanas, os nomes e
pensamentos acontecem em duplas. O erro deles então é achar que uma delas (a negação
do ser) tenha existência. Uma maneira de entender isso melhor seria a comparação entre a
medição do calor em graus celsius ou fahrenheit. Os graus celsius, ao estabelecerem o 0°
como a temperatura de congelamento da água*, requerem o uso de graus negativos. Isso
pode levar a crer que 'existe' o frio (uma contraparte negativa ao calor). Já o Fahrenheit, ao
colocar o 0° no zero absoluto dá a entender que frio é apenas ausência de calor. (É apenas
uma analogia, é claro que Parmênides sequer aceitaria se pensar o não ser como ausência
de ser já que o ser é completo e imutável)

* Depois de 1954 o congelamento e a ebulição da água deixaram de ser as referências dos


sistema de medição em Celsius.

3: A doxa (opinião)

Obs. Ainda em VIII Parmênides começa a descrição de como seria o mundo segundo o caminho das
opiniões humanas. Em vista do já trilhado caminho do ser na Aletheia e a negação absoluta da
possibilidade de se pensar ou falar o não ser, muitos comentadores leem a parte final do poema como
um misto de ser e não ser. A preferência aqui será de seguir a interpretação da união de pensamento
e ser na qual quando se usa a pluralidade das experiências humanas para pensar o ser através de
vários nomes acaba se pensando e falando do ser de maneira enganosa.

55. (1) Segundo o corpo tais coisas contrárias julgaram (2) e signos
56. separados puseram uns dos outros, num , fogo etéreo
57. da flama sendo doce, leve, nele o mesmo por tudo;
58. e noutro que não o mesmo, mas também segundo aquele os
59. contrários, da noite desbrilhe de corpo pesado e denso.
60. (3) a ordem do mundo toda verossímil eu a ti enfatizo
61. para que nunca nenhum pensamento de mortais te passe

(1) Fica claro que é usar o corpo (as sensações, o modo como experienciamos o mundo) leva a
julgar as coisas como contrárias. Em seguida, se colocam signos separados em acordo com essa
experiência.
(2) O par escolhido por Parmênides para ser o paradigma desse modo de pensar é o fogo que é
flama leve e brilhante e a noite de corpo denso e pesado. As caracterizações mostram que ele quer
abarcar senão todas pelo menos várias oposições através desse par.
(3) Por fim há uma justificativa para percorrer esse caminho das opiniões. Parmênides estaria
compondo a melhor mentira possível a partir das ilusões dos humanos para que quem, após ter
conhecido o ser, possa ainda vencer os defensores das opiniões humanas no seu jogo. Aqui parece
haver um gérmen da natureza agonística do pensamento filosófico (entre erística e a dialética).
Além da verdade, é preciso saber também a melhor versão para convencer quem não sabe a
verdade.

(IX.1) todavia desde que (1) nomeadas todas coisas luz e noite
2. e sobre essas e aquelas tais (nomes) por suas potências
3. tudo é pleno conjunto de luz e de noite deslustre
4. por igual de ambas, logo de (2) nenhuma das duas, o nada

(1) a polifonia prossegue. Agora os pares são luz e noite, que ganham seus nomes pelos seus
poderes. A luz ilumina e a noite apaga.
(2) Mesmo na via da doxa a negação do nada prossegue. Se os dois extremos luz e escuro são
poderes ativos, nenhum dos dois é o nada. Talvez aqui esteja a chave para, a partir da via da doxa,
começar a ver a via da aletheia. Como vimos é com o princípio da negação da inexistência que se
desenvolve a concepção do ser único, inteiro e imutável. Assim, se quem aceita que os opostos luz e
noite existem (e nisso está iludido), mas pelo menos aceita que o nada então não existe. Ele já tem a
ferramente para então, quem sabe na próxima vez que ouvir o poema, concordar com o caminho
percorrido na via da verdade.

(X.1) E saberás a natureza do éter e também no éter


2. todos os signos e ainda as puras fontes do sol
3. de chama que tem obra ofuscante e de onde germinam; e
4. persuadir-se-á da face-ronda lua com obra contornante e
5. sua natureza; verás também o céu que contém ambos
6. de onde brotou e como o impelindo encadeou a
7. (1) Necessidade para os limites reter dos astros

(1) A necessidade retém os astros. Cp. com o papel da justiça em Heráclito em que suas
servas, as eríneas, impedem o sol de sobrepassar suas medidas (B94)

(XI.1) como a terra, o sol e também a lua


2. e o comum éter e ainda a Láctea celeste e o Olimpo
3. extremo e também a (1) força quente dos astros, lançados
4. para gerar

(1) Calor como força motriz, agente de geração (coisa que não existe no ser)

(XII.1) Já que as mais estreitas encheram de (1) imesclado fogo


2. e outras sobre elas de noite, e mexeu parte de flama e
3. no meio desses Gênio que todas as coisas governa.
4. Já que em tudo governa odioso parto e união
5. mandando no macho se unir fêmea e o contrário
6. macho na fêmea
(1) Fogo imesclado e noite, no meio deles o Génio (Daimon: equivaleria ao éter?) movem
parte da flama e governa todas as coisas. Cf. Em Heráclito B64 o raio que governa todas as
coisas (em referência a Zeus).

(XVI.1) (1) Pois como tem cada vez crase de membros muito errantes,
2. assim a mente nos humanos se apresenta. Pois mesmo
3. é o que a natureza dos membros nos humanos capta
4. a todos e a cada porque o pleno é o pensamento

(1) Parece uma alusão à sensação de que temos de que cada membro (órgão) da percepção
é uma parte separada, ao passo que a mente, a sentimos como uma mesma e única.
Basta usar essa percepção plena que temos da mente para entender como é a plenitude
do ser? É uma conjectura possível.

(XVIII.1) (1) Fêmea e macho juntos, a semente do amor misturam


2. nas veias, força de sangue diverso formando; guardando
3. moderação modela corpos muito bem constituídos.
4. Se com efeito forças misturadas no sêmen lutarem
5. e não fizerem mistura-unida no corpo, terríveis
6. afligirão ao sexo de um duplo sêmen nascido

(1) Fêmea e macho seriam mais uma ocorrência da oposição frio e calor? Sêmen é
associado ao calor. Eles misturam a força do amor e geram outros corpos. Se não se
unirem, e seguirem lutando, gerarão um algo terrível.

(XIX.1) Por parecer assim brotaram tais que também são agora
2. para ti e depois disso nutrindo acabar-se-ão
3. humanos nomes em cada puseram lhes sinalizantes

(1) Reitera a noção de que aquilo que nasce é apenas como nos parece e assim nomeamos o que
reforça a ilusão de que eles existem. A intuição de que criar um nome é o primeiro passo para criar
uma ilusão que os outros vão acreditar é bem perspicaz. Talvez por isso ele opte por falar sempre do
'não ser' sem criar um nome como 'inexistente' ou 'obscuro' para não dar a menor chance para os
outros suporem que ele pode existir.

Bibliografia Sucinta
CORDERO, Néstor Luis. Sendo, se é: a tese de Parmênides . São Paulo: Odysseus, 2011
CURD, P. The Legacy of Parmenides: Eleatic Monism and Later Presocratic Thought, Princeton:
University press, 1998
GUTHRIE, W. K. C. Historia de la filosofia griega. Madrid: Gredos, 1984
MARQUES, Marcelo Pimenta. O caminho poetico de Parmenides. São Paulo: Edições Loyola,
c1990
MOURELATOS, A. The Route of Parmenides, Michingan, Parm. Pub, 2008
SANTOS, José Trindade. Da natureza [de] Parmênides. Brasília: Thesaurus, 2000
VIEIRA, C. Foi, era e será? A fórmula da eternidade na filosofia pré-socrática. Nuntius Antiquus,
Fale/UFMG, v. 10, n. 2 2014, p.33-54