Você está na página 1de 13
ddl i Hade TMeda: * Trovadorismo (1189 ou 1198-1434); Humanismo (1434-1527) “Se outros por ventura em esta cronica buscam fremosura e novidade de palavras, non a certidom das estorias, desprazer-Ihe-4 de nosso razoado, muito ligeiro a d'ouvir e nom sem gram trabalho a nés de ordenar. Mas nés, nom curando de se Ieixados 05 compostos ¢ afeitados razoamentos, que muito deleitom aqueles que ‘ouvem, ante poemos a simprez verdade que a afremosentada falsidade,”” (Fernéo LOPES — Cranica de D. Joao !). * Primeiro perfodo: Trovadorismo (1189 ou 1198-1434) Portugal: de Dona Tareja a Afonso Henriques A independéncia portuguesa foi conseguida de forma gradativa contra ‘os reinos cristos da Peninsula Ibérica, regido que abarca os atuais territ6rios de Portugal e Espanha. Ao final doséculo XI, Afonso VI, do reino de Lefo, havia conseguido uma ténue unidade politica entre esses reinos cristdos. Estreitou as fronteiras entre eles. Dentro dos princfpios do feudalismo, casou Urraca, sua filha que deveria sucedéo no trono, com o conde Rai- mundo de Borgonha, que viera lutar contra os mouros. Outra filha sua, no legitima, D. Tareja, casou-se com.o primo do primeiro genro, D. ae de Borgonha. Ao primeiro genro 0 rei doou a regio da Galicia. Ao segundo, a érea entre 0 Minho e 0 Tejo, denominada Condado Portucalense. A tranqililida- de politica era, entretanto, enganosa: com a morte do imperador Afonso VI, vo ocorrer novamente as lutas politico-militares entre os reinados cristaos. A hegemonia politica da Peninsula Ibérica foi disputada entre Urraca e o rei de Aragao, com vantagem para a primeira. E 0 Condado Portucalense procurou ir afastando-se da tutela desses reinos mais fortes, em especial dos galegos. A revolta ocorreu com Afonso Henriques, filho de Tareja, que nfo aceitava 0 dominio de sua regio. O processo de independéncia de Portugal estd ligado & diferenciago das atividades econdmicas da regiffo e as rivalidades entre os grupos feudais. Foi, entretanto, 0 povo quem participou ativamente desse processo, através de organizacdes municipais, os concelhos populares. Havia neles maior liber- dade e relagdes sociais mais avangadas, que levaram a populagdo a lutar para afastar do pais a serviddo de outras regides cristas. Os concelhos propiciaram ao rei D. Afonso Henriques as forgas mil tares necessérias para a Independéncia. As lutas contra Afonso VII foram constantes. $6 em 1143 foi negociado um acordo definitive de paz, na Conferéncia de Samora. Apesar do reconhecimento de Ledo e Castela, fal- tava que 0 papa desse a Afonso Henriques 0 titulo de rei. Isso s6 acontece em 1179. Portugal tornava-se assim um pais auténomo, mas a luta pela concre- tizagdo dessa independéncia alongou-se até o reinado de D. Afonso III (1248-1279), com a expulsdo dos sarracenos. Portugal: estrutura social O feudalismo se caracteriza como um sistema social em que predo- minam grupos sociais fechados, impossibilitando uma grande mobilidade social. Além disso, h4 a profunda liga¢do de dependéncia de homem para homem: relagdo entre os senhores (os que tém a propriedade da terra) e 08 servos (os que nao tém a propriedade e esto presos a ela). Aos servos competia trabalhar; 4 nobreza feudal competia defender asociedade; e a Igreja, orar pela sociedade. Portanto, os nobres — defensores militares — podiam ocupar esca- Ides superiores nessa hierarquia feudal e vassdlica. O direito 4 propriedade era reservado a eles, bem como o parcelamento do poder publico, criando assim, em cada regio, uma hierarquia de instancias autonomas, A estrutura social portuguesa dos séculos XI a XIV revelava tipicos caracteres feudais. Em Portugal dentro dos “‘coutos” (se a propriedade fosse da Igreja) ou das “honras” (se fosse da nobreza) os senhores eram a autoridade absolu- ta e sO prestavam obediéncia ao rei — que detinha os direitos de justica suprema, Nesse tipo de propriedade vivia uma populacdo composta principal- mente por servos — trabalhadores impedidos de deixarem o senhorioe obri- gados ao pagamento de tributos, prestagGes de servigo e de uma renda pro- porcional 4 produgao do ano. f Também havia os escravos muculmanos capturados nas campanhas militares da Reconquista que teoricamente foi a guerra contra os infiéis e na prdtica foi a luta peninsular pela ampliagdo dos dominios territoriais. Em tomo da morada dos nobres (pago solar), vivia um outro tipo de servo: aquele que se dedicava a servico doméstico ou artesanato. Era alimen- tado e vestido pelo senhor. Ainda havia os trabalhadores rurais que se distinguiam dos servos por estarem ligados ao senhor por contratos de arrendamento ou de trabalho assalariado. Aparentemente podiam deixar seus senhores. Cultivavam a terra sen- tindo-se proprietdrios e com isso estavam mais estreitamente associados a 10 um espago que — em teoria — possufam. Na pratica esse espaco pertencia ao senhor que ndo desmembrava seus dominios. ‘Acima desses havia os infangdes, nobres de alta linhagem, e os fidalgos (cavaleiros e escudeiros) que formavam uma pequena nobreza de homens de armas, ligados 4 casa do grande senhor. Na posigdo mais alta, havia os senhores — ricos-homens — que exer- ciam dominio administrativo, militar e judicial num distrito chamado “terra” e cuja ago estava sempre limitada pela ago do rei. Por ultimo, o clero desempenhava um papel importante pela in- fluéncia religiosa e pelas riquezas que possuia. Podia ser subdividido em alto e baixo clero, clero regular e clero secular. As terras da nobreza e do clero eram isentas de impostos, ¢ seus domi- nios aumentavam por novas doagGes ou por usurpacdo. Boa parte dos rendi- mentos do rei era também cedida aos nobres e ao clero, a titulo de prés- timos. Em conseqiiénéia da Reconquista, os homens que trabalhavam na terra — a agricultura era a base da economia portuguesa — ¢ que se ofere- ciam a lutar tinham condigGes de sofrer uma promogdo social. Porém, mes- mo com a perspectiva de aquisig&éo de um novo status social, 0 certo é que 0 sistema politico-social dessa época se caracterizou pela intensa relagao de dependéncia das diversas categorias, pois enquanto os trabalhadores eram vassalos dos senhores (nobres ¢ eclesidsticos), estes eram vassalos do rei. Cada grupo tinha seus cédigos de comportamento, deveres e direitos bem diferenciados, mas todos relacionavam-se nesse nivel de dependéncia vassé- lica. Essa organizacdo social é reiterada pelo espirito teocéntrico, pois a visio de Deus como ser absoluto, capaz de ditar as notmas sociais, 0 com- portamento individual, de estabelecer o limite entre o bem e o mal, acaba por determinar também toda uma concepgao servil em que o homem nasce para obedecer, ou mesmo para seguir o caminho previamente determinado pelo ser absoluto. A explicacgao dos atos humanos por forgas ocultas era a conseqiiéncia da ignoréncia cientifica. A religiosidade do portugués medieval revelava-se pela freqiiéncia a missa e a outras cerimonias da Igreja, nas abstinéncias ¢ jejuns, nas peregrinagdes ou romarias. As Igrejas eram lotadas todas as ma- nhas. Havia santudrios nas cidades e no campo. Mas foi sobretudo a partir do século XIII que se notou — como no resto da Europa — uma modificacdo nas praticas religiosas: 0 homem passa a entender a necessidade de se unir mais diretamente a Deus. O maior con- tato entre homem e natureza — que € obra divina — representa a ligagdo homem e Deus. Fa busca da santificagdo da vida cotidiana. E a fase da pre- gacdo do amore humildade como esséncia do cristianismo. Porém 0 dogma do homem fadado por forgas ocultas permanece orientando 0 espirito do homem medieval. 11 Nao haveria teocentrismo sem existir o feudalismo e vice-versa, afinal um esté a servigo do outro da mesma forma que nao haveria o nobre ocioso se no houvesse o servo trabalhador. ‘A Igreja, rica senhora feudal, ensinava os mistérios da £6, as orag6es, a missa, mas também teve o papel importante de divulgar a educagao. Com as dificuldades de comunicagao e de transporte, com a raridade de livros (antes da invengdo da imprensa os livros eram reproduzidos em cOpias manuscritas) e com o analfabetismo geral, o cehtro da instrugdo pi- blica s6 poderia se localizar nas catedrais ou escolas episcopais, nos conven- tos e mosteiros. Ensinava-se a gramitica: ler e escrever o latim. Mas Portugal dos sécu- los XII a XV ndo falava o latim, a no ser entre embaixadores. Logo, havia a necessidade de vocabularios das duas Ifnguas: a latina e a portuguesa. O portugués converteu-se em lingua oficial desde o reinado de D. Di- nis (1279-1325), mas as escolas e mestres particulares nao o ensinavam até finais da Idade Média. Os poucos que aprendiam a escrever aproximavam a linguagem escrita da linguagem falada e por isso os primeiros textos escri- tos em portugués, nos princfpios do século XIII, sao quase tradugées literais do substrato latino. ‘As grandes massas adquiriam conhecimentos tedricos e praticos trans- mitidos por via oral. Tradi¢des populares, romances, sermées e provérbios tinham papel importante na formagdo dos individuos. A vida fechada, a extensdo restrita dos conhecimentos, 0 conservado- rismo das crencas, a dificuldade de acompanhar o que acontecia noutros lo- cais no dava para estabelecer graus de ensino. Entrava na Universidade gente de qualquer idade. O estudante nao tinha como se manter, pois néo havia possibilidade de trabalhar e estudar, e era comum o estudante pedir esmolas. Desde o reinado de D. Afonso Henriques, o pais conheceu o desen- volvimento da navegacdo costeira e comercial. A dinamizagdo dos portos maritimos (Lisboa e Porto) e fluviais propiciou a atividade mercahtil que j4 existia na Europa, A economia portuguesa — de base essencialmente agri- cola — jé oferecia para esse comércio de exportago 0 azeite, o vinho, o mel, 0 Sal, o peixe salgado e tinha de retorno o cereal e os téxteis. Casamentos entre filhos de reis e senhores franceses, a crescente ativi- dade de mercadores ambulantes propiciaram o desenvolvimento do comér- cio externo. Quanto ao comércio interno, cada latifiindio mandava a cidade 86 08 excedentes para serem trocados por dinheiro. Mais tarde, passou-se a enviar 0 maximo de sua producao, estabelecendo-se uma troca organizada entre campo e cidade. Além dos mercados havia as feiras que agilizaram o desenvolvimento do comércio interno e que chegam a atingir seu Apice no reinado de D. Dinis. Foi esse rei que fomentou a agricultura, incentivou 4 distribuigdo e circulagdo da propriedade — favorecendo o estabelecimento de pequenos proprietarios —, desenvolveu as feiras, fundou a Universidade portuguesa 12 em Lisboa (1290), transferida depois para Coimbra, mandou traduzir obras, notaveis e foi, além de tudo, um grande trovador. Com 0 inicio da dinastia de Avis (1385), 0 pats comega a sofrer trans- formagées na sua estrutura social. A ascensio de D. Joao I, depois de uma Revolugio em que o Mestre de Avis vence os castelhanos em Aljubarrota, marca a vit6ria da burguesia e registra um novo caminho que serd trilhado pelos Descobrimentos. E a queda da antiga aristocracia — representada pela dinastia afonsina — e a substituigdo por uma gente nova, constitufda pelos burgueses merca- dores. ‘A tomada de Ceuta (1415), a chegada de Vasco da Gama as Indias (1498) e a descoberta do Brasil (1500) caracterizam a formacdo do grande império portugués. Sobre essa etapa, Fernando Pessoa registra: “OMAR SALGADO, quanto do teu sal ‘Sdo lagrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mées choraram, Quantos filhos em vdo resaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, 6 mar!" Jograis, Trovadores. Cancioneiros Desde o reinado de D. Sancho I (1185-1211), filho de Afonso Henri- ques, a literatura oral foi divulgada por jograis recitadores, cantores e miisi- cos que perambulavam pelas feiras, castelos e aldeias. O jogral cantava a poesia (a poesia estava ligada a miisica), que era composta pelo trovador, mediante soldo. O trovador, de nivel social supe- rior, era em geral representante da nobreza. Havia também o menestrel, miisico agregado a uma corte. A grande época da cultura trovadoresca ou das cantigas foi entre 1250 e 1350. Essa literatura cantada foi registrada em colegdes, Os Cancioneiros. Eles nos dao a mostra de uma literatura peninsular, em lingua galego-portu- guesa, e ndo propriamente de uma literatura portuguesa, como se houvesse na época uma sé literatura romanica peninsular. Trés Cancioneiros s4o conhecidos: “Cancioneiro da Ajuda” (o mais antigo, com 310 cantigas — quase todas de amor); “Cancioneiro da Biblio- teca Nacional” (também chamado de ‘‘Colloci-Brancutti”, com 1 647 canti- gas distribuidas em quatro tipos); e “Cancioneiro da Vaticana’ (com 1 205 cantigas, também distribufdas em quatro tipos). Cantigas de amigo e suas relagdes sociais As cantigas de amigo se caracterizam pelo fato de o trovador cantar a realidade da mulher: o “eu” feminino exterioriza suas emogoes, afligdes, expectativas, encontros amorosos, desencontros etc. 13 Nesse tipo de cango hd formas e objetivos bastante particulares. Observa-se que a cantiga é comumente construfda em paralelismos, a saber: a unidade ritmica nfo € a estrofe mas 0 conjunto de estrofes ou um par de disticos (duas estrofes de dois versos). Esse par de disticos sempre procura dizer a mesma idéia, E 0 ultimo verso de cada estrofe é 0 primeiro verso da estrofe seguinte. Exemplificando com uma cantiga de D. Dinis: “"— Ai flores, ai flores do verde pino, se sabedes novas do meu amigo? Ai, Deus, eu é? Ai flores, ai flores do verde ramo, se sabedes novas do meu amado? Ai, Deus, eu 6? Se sabedes novas do meu amigo aquel que mentiu do que pds comigo? Ai, Deus, eu 6? Se sabedes novas do meu amado aquel que mentiu do que mi 4 jurado? Ai, Deus, eu 6? — Vés preguntades polo voss’amigo? E eu ben vos digo que ¢ san’e vivo. Ai, Deus, eu é? \Vés me preguntades polo voss ‘amado? E eu ben vos digo que é viv'e sano. Ai, Deus, eu é? E eu ben vos digo que é san’e vivo, @ ser vosc’ant’o prazo safdo, Ai, Deus, eu 6? E eu ben vos digo que é viv'e e sano @ ser vosc’ant’o prazo pasado. Ai, Deus, eu é? O paralelismo e 0 refrdo so elementos tipicos da cantiga de amigo. Essa forma € importante porque pressup6e a existéncia de um coro. As estrofes, organizadas aos pares, sugerem a alternancia de dois cantores ou mesmo de dois grupos deles. O verso da estrofe anterior, que é repetido no inicio da nova estrofe, parece ser a mesma técnica da primitiva composigaéo improvisada, comum aos repentistas, . Essa cantiga pode ser reduzida a poucos versos se’eliminarmos as repe- tigdes, mas 0 que interessa é que tal processo paralelfstico mostra-nos que a 14 cantiga, enquanto texto, estava ligado ao canto e 4 danga. O processo da apresentacdo da cantiga de amigo evidencia um aspecto importante: ela era representada pelo texto, pelo canto e pela danga. O texto, portanto, nao era autonomo, Pressupée-se que esses trés elementos dessem dinamicidade a apresentagao. Importante observar que um grande ntimero de cantigas de amigo, registradas pelos Cancioneiros, revelam sua inspiracdo na vida popular das zonas rurais. ‘A mulher é personagem principal, que vai se encontrar com o namo- rado junto A fonte, que vai 4 romaria e l4 espera encontrar o amigo, que vai lavar as roupas ov os cabelos etc. Ha, portanto, uma agdo da personagem, no apenas o desabafo intimista. Essa aco se desenrola com diélogos ou monélogos, em um cenério muito simples, paisagisticamente primitivo e natural. Esses caracteres, a nivel de contetido, revelam que o lirismo da can- tiga de amigo confunde-se com as formas dramética e narrativa. A narra- cdo — que implica aco, personagem, tempo, espago — torna essas cangdes mais vivas, mais proximas da realidade da mulher. Em outros termos, a vida popular da mulher torna-se material das can- tigas, e o dinamismo dessa vida (que inclui amor, decepcdo, alegria, tristeza etc.) se traduz no que é cantado-narrado e na forma de cantar. Mas ha outro tipo de cantiga de amigo, a nivel de contetido: a moga estd restrita ao ambiente de casa, a discutir com a mae, com as amigas, ou mesmo a pedir autoriza¢do para namorar. Sente citime, sabe provocé-lo, sabe conquistar. Curiosamente os trovadores que desenvolveram tal tipo de cantiga de amigo mostram a expectativa da mulher em relagdo ao namo- ro e casamento. O enfoque mudou: a esse romance do amor burgués liga-se uma estru- tura formal mais complicada. Em lugar dos disticos, agora so estrofes de trés, quatro ou mais versos. Ao invés do paralelismo, hé o emparelhamento (ou a segunda estrofe de cada par s6 repete a idéia geral da anterior). O re- fro deixa de existir. Estamos diante de uma cantiga de maestria. E ha ainda a cantiga de amigo de amor cortés, to elaborada quanto a de amor burgués, s cantigas de amigo refletem o ambiente das comunidades agricolas onde a mulher era vista com importancia social. Mas, j4 no século XI, poe- tas arabes e hebreus compunham suas carjas, que eram cantigas de mulher, compostas em lingua mocérabe (Ifngua romanica fortemente influenciada por arabismos). Mesmo que remontemos as carjas para buscarmos as origens da canti- ga de amigo, 0 certo é que esse tipo de lirismo se fez possivel gragas a im- portancia da mulher no ambiente rural As figuras naturais (fonte, riacho, arvores, aves) contextualizam ‘0 ambiente e também atuam sobre o “eu” feminino, despertando 0 amor, ou a confissio do desejo. E o ambiente com a atuagao animista integrando sen- timentos e objetos. 15 as cantigas de amigo so impregnadas de um realismo amoroso que nos parece exprimir mais do que uma situagdo indivi- dual: de origens populares, reflete uma visio de mundo sem solenidade, sem as artificiosas cortesias to comuns ao ambiente nobre. : Naquelas em que 0 trovador expressa 0 amor burgués e/ou cortés, sintomaticamente existem artiffcios formais e de contetido. Ha os jogos amorosos, subterfiigios de conquista e a propria perspectiva do casa- nto. | am O contato do trovador com a mulher simples, burguesa e cortesa, resultou no conhecimento de sua psicologia, de suas ansias ¢ expectativas. ‘A variedade tematica da cantiga de amigo é a comprovagao disso. E é nessa variagdo e na forma pela qual a mulher é configurada (mais simples ou me- nos simples) que podemos perceber a medida do artificialismo desse ou da- quele ambiente, desse ou daquele objetivo feminino. Sensuais, ndo raras vezes, Cantigas de amigo e suas variedades QUANTO AO ASSUNTO — albas (alvas ou serenas): cantigas de influéncia provencal cujo tema fala do amanhecer. — pastorelas: cantigas em que a personagem central € uma pastora, 8 que se referem ao mar ou ao rio. — barcarolas (ou marinhas): cantis em que ha danga ou baile. — bailias (ou bailadas): cantis cantigas que se prendem a peregrinagéo. = romari — tengées: cantigas em que a moca dialoga com a mae, a irmé, uma amiga e até com a natureza, QUANTO A FORMA — maestria: cantigas de amigo que néo tém refréo, sob evidente influén- cia provencal. — refréo: cantigas que possuem refrao ou estribilho, — paralel/sticas: cantigas que tém paralelismo. 1.1.4 Cantigas de amor e suas relagSes sociais Na cantiga de amor o trovador fala das emogdes do “eu” masculino. Diferentemente da maioria das cantigas de amigo, é aqui que o trovador assume o ideal do amor cortés. O amor nio é a experiéncia vivida ou aguar- dada as margens da fonte mas é — acima de tudo — a experiéncia de amar sem ser correspondido, de sonhar com o objeto inaceessivel, P quanto mais inatingivel se torna a figura feminina, mais ela é simbolo de perfeigo e pureza. 16 A falta de reciprocidade a coloca num plano superior ao do poeta que, por sua vez, ama com verdadeiro amor e como verdadeiro poeta, porque o amor existe no plano ideal, Cria-se assim um esteredtipo: a mulher deve ser inaccesstvel, ¢ a esse ideal de amor corresponde um tipo fisico. E a mulher delicada, de cabelos claros, de riso sutil, de gestos refinados e dignos. Como se vé, diferente em tudo da mulher rural que, no minimo, era estragada pelo sol, ou embrute- cida pelo trabalho rude. O trovador vive servilmente em fungo da dama, A relagdo servil se consuma tal como na organizagGo social. Ele deve ser fiel a um cédigo de obrigagGes e deveres como, por exemplo, jamais perder a discrigdo, pois tor- nar piblico o objeto de amor é romper as barreiras do mundo ideal. E faltar A obrigacdo do autodominio. O amor aristocratico nao é tao objetivo e real como na cantiga de ami- go. Esconde-se o trovador no requinte e convencionalismo de salao. Nessa caracterizacdo do amor cortés, a figura do trovador nos faz retomar algumas caracteristicas do cavaleiro medieval: defensor do senhor feudal, deveria ter coragem, lealdade e generosidade. A nivel religioso, deveria ser obediente casto. A nivel social, deveria ser cortés, humilde. O cavaleiro nao possuia direitos, s6 deveres. Tais virtudes, que lhe permitiriam ascender socialmente, tornavam-no honrado e digno. O trovador mantém sua dignidade a medida que cumpre com seus deveres: ama um simbolo feminino o que o dispensa de adentrar nos domi- nios sensuais da mulher. Em algumas cantigas em que o sensualismo é suge- tido, o efeito produzido é de exaltago a pureza da mulher. O trovador se mantém honrado pela fidelidade a esse simbolo e pela discrigdo social. Sua cortesia é fundamentada na humildade, na certeza de que a realizacao amo- rosa é impossivel. Historicamente, em Portugal, os cavaleiros esto ligados aos trovado- res, Viviam na corte com papéis e deveres bem discernidos, A corte era 0 local onde as gracas femininas nasciam, onde filhos e filhas de nobres apren- diam as artes, as maneiras proprias de donzéis e donzelas. E 0 cavaleiro, que ocupava 0 espaco da nobreza sem ter os poderes do senhor feudal, acaba por ser vassalo desse tipo feminino, numa relagdo em que se evidencia a me- téforasocial do vassalo e senhor feudal, quando nao revela a sublimagao da posi social do vassalo. A cantiga de amor teve suas origens no sul da Franga. A influéncia francesa chega a Portugal gracas 4 atuaco dos jograis, pelas estreitas rela- g6es entre a Peninsula e aquele pais (era comum o casamento entre portu- gueses ¢ princesas que foram criadas em cortes politica e culturalmente ligadas 4 Franga). Mas, se 0 amor cortés surgiu nas cortes occitanicas e teve os provencais como os grandes mestres, 0 certo é que ele é expresso de um amor que re- flete nitidamente o nivel das relagdes sociais de um dado momento feudal. Se retomarmos as caracteristicas do prdprio sistema feudal veremos com que identidade o amor cortés as reflete. 17 Apesar das influéncias provencais, os trovadores peninsulares rompe- ram com algumas obrigatoriedades da moda (descrever a brisa da primavera, © canto dos rouxindis etc.) e introduziram novos aspectos: paralelismos e refrio. A cantiga de maestria (artificiosa e refinada) cede as influéncias populares. 0 primeiro documento literdrio galego-portugués foi de Paio Soares de Taveirds: “Cantiga da Ribeirinha”, de 1189 ou 1198. Muitos outros trova- dores se destacaram: D. Dinis, o rei trovador, Joao Soares de Paiva, Joao Garcia de Guilhade, Martim Codax, Nuno Fernandes Torneol e outros. desse autor a cantiga de amor que apresentamos: “Quer'eu a Deus rogar de coragon, com’ome que é cuitado d'amor, que el me leixe veer mia senhor mui ced’; ese mel non quiser’ oir, logo Ih‘eu querrei outra ren pedir: que me non leixe mais eno mundo viver! E se m’el 4 de fazer algum ben, oir-mi-é quanto ben no mundo’ei, E se mio el non quiser ‘amostrar, logo Ih’eu outra ren querrei roger ‘que me non leixe mais eno mundo viver! E se m’el amostrar’a mia senhor, que am’eu mais ca o meu coragon, vedes, 0 que the rogarei enton: que me dé seu ben que m’é muit mester; e roga-Ih’ei que, se o non feze! que me non leixe mais eno mundo viver! E roge'-Ih’ ei, se me ben 4 fazer, que el me leixe viver en logar wa vejae Ihe possa falar, por quanta coita me por ela deu; se non, vedes que Ihe rogarei eu: » ‘que me non leixe mais eno mundo viver!" Cantigas de amor e suas variedades QUANTO AO ASSUNTO — temética pouco variada. A “fremosa senhor’’ é enaltecida. © amor é um fatalismo que provoca grande dor (coita), ¢ o resultado é morrer de amor. 18 Cantigas de amor e suas variedades (Cont.) QUANTO A FORMA — meestria: cantiga sem refréo ou estribilho, tem trés ou mais estrofes regulares, devendo submeter-se a certos formalismos estil (sticos (do- bre, atafinda, finda etc.) — ett cantiga com estribilho ou refréo. = descordo ou desacordo: cantiga em que a intranqiiilidade de espirito era expressa pela variedade métrica, diferente estrutura estrofica. 1.1.5 Cantigas satfricas As modalidades satiricas medievais mais conhecidas so: escdrnio maldizer. j Cantigas de escdrnio so aquelas em que o trovador critica sem indivi- dualizar a personalidade criticada. Maldizer é aquela em que a pessoa criti- cada ¢ individualizada. Essas cantigas revelam aspectos tipicos da vida dos jograis, bem como da corte. Eles levam uma vida diferente daquela de artificialismo cortés ou do regime servil do trabalhador. Socialmente péria, suas experiéncias contam da mulher versatil, de uma bebedeira, do fidalgo com pretensGes a senhor feudal, da sovinice de um senhor etc. Esse tipo de cantiga ndo se restringe ao jogral, pois qualquer trovador, até o rei D. Dinis, tratava dessa tematica. Ha cantigas que mostram a rivali- dade entre jograis e trovadores: aqueles queriam ascender da condig&o de executadores para compositores e estes defendiam a manutengdo da hierar- quia. Politicamente a sdtira foi pouco utilizada, mas ela €é o documento de uma época, pois a condi¢do dos jograis, andando de castelo a castelo, de feira em feira, propiciou o conhecimento da realidade sob miiltiplos aspec- tos. Observemos a cangdo de Joao Garcia Guilhade: "Ai dona fea! foste-vos queixar Porque vos nunca louv‘en eu trobar mais ora quero fazer un cantar en que vos loarei toda via e vedes como vos quero loar; dona fea, velha e sandial Ai'dona fea! se Deus me perdon! € pois havedes tan gran coragon que vos eu loe en esta razon, vos quero jé loar toda via; e vedes qual seré a loacon: dona fea, velha e sandia! 19 Dona fea, nunca vos eu loei en meu trobar, pero muito trobei; mais ora jé un bon cantar farei en que vos loarei toda via; @ direi-vos como vos loarei: dona fea, velha e sandia! Cantigas sat/ricas e suas variedades Cantiga de escérnio : -— — sdtira a alguém com sutileza. Processo estilistico utilizado: ironia. Cantiga de maldizer — sétira direta, com linguagem obscena. Cantiga de seguir — imitagSo cémica de outra cantiga. Tengéio de briga : — constituida por um didlogo entre dois ou mais trovadores com a obri- gacdo de que a resposta de cada um tinha de ser iniciada com as rimas do verso anterior. 1.1.6 Prosa medieval Novelas de cavalaria. Foi a partir do século XIII, durante o reinado de ‘Afonso III, que apareceram as novelas de cavalaria. Nenhuma autentica- mente portuguesa, as novelas eram traduzidas do francés ndio em raros momentos sofreram alteragoes. Originariamente, essa prosa cavaleiresca surgiu da evolugao das poesias de temas guerreiros (cangdes de gesta) e, prosificadas, passaram a ser lidas na corte, Das que circularam, notabilizaram-se “Histéria de Merlim” (cuja versio portuguesa desapareceu), “José de Arimatéia” e “A Demanda do Santo Graal”. : : Tais narrativas, de caréter mistico, apresentam o cavaleiro concebido pela Igreja: 0 heréi casto, fiel, dedicado, o escolhido para a peregrinagdo mistica. Observamos que esta concepgao de cavaleiro medieval contrapoe-se a do cavaleiro freqiientador da corte que comumente estava envolvido em amores ilicitos. Alids, a origem do cavaleiro feudal estd ligada luta pela defesa da Europa Ocidental contra os sarracenos, eslavos, magiares e dina- marqueses que ameagavam destruir a cristandade. Esses cavaleiros no eram os perfeitos gentis-homens, cheios de dogura e poesia. Eram animalescos na sua fdria guerreira. : a Com as Cruzadas era preciso conceber outro tipo de cavaleiro mais condizente com a realidade. As novelas de cavalaria tratam da nova versio 20 1.2 do cavaleiro. Daquele que € tentado sexualmente, mas permanece casto. Daquele que é cortés e que tem em troca a honra e/ou a vida eterna. Esse tipo de narrativa ¢ a expresso da ideologia religiosa: para ser heréi é preciso cumprir juramentos e obrigagdes ¢ s6 assim o homem é levado 4s alturas da santidade. Opondo-se a esse tipo, surgiu a novela de cavalaria Amadis de Gaula (1508). Escrita em 12 livros, na Peninsula Ibé- rica, sua autoria é desconhecida. Amadis € 0 perfeito cavaleiro: amor cortés e vassdlico. Mas h4 a quebra da ordem medieval, quando Amadis e Oriana se casam. Essa novela reflete 0 fim da Idade Média e 0 inicio da Idade Moderna, época de transigao cujos marcos literdrios mais significativos foram representados por Fernao Lopes e Gil Vicente. Outras produgSes A produgdo de hagiografias (narragdes que contam a vida de santos) foi comum no perfodo trovadoresco. Escritas em latim, elas refletem o espi- tito do homem medieval. Paralelamente, desenvolvia-se a crénica, que é a origem da historio- grafia portuguesa. Destacamos as Crnicas Breves do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra (correspondentes a quatro fragmentos publicados por Alexandre Herculano em Portugaliae Monumenta Historica) ¢ a Cronica Geral de Espa- nha (1344) — que talvez tenha sido elaborada por D. Pedro, Conde de Barcelos — filho bastardo de D. Dinis. Os livros de linhagens eram relagdes genealdgicas com 0 objetivo de estabelecer graus de parentesco. Com dupla finalidade, essa produgao evitava © casamento entre parentes préximos (até 0 79 grau) e solucionava proble- mas relativos a herangas. Sfio essas produgdes que antecedem a historiografia de Ferndo Lopes, cuja obra marca transformagoes da hist6ria e da propria concepedo histérica. Segundo perfodo: Humanismo (1434-1527) Com a ascensdo do Mestre de Avis, em 1385, Portugal comegou a trilhar o caminho dos Descobrimentos. O Mestre D. Joao I e seus sucessores eram apoiados pela burguesia, 0 que implicou 0 maior desenvolvimento, do comércio ¢ da camada de mercadores (0 que desafia o poder dos nobres). O efeito imediato do desenvolvimento do comércio é 0 crescimento das cidades que passam’a ganhar novas fungdes: € o lugar de competicao € de vendas. O espirito do homem medieval fechado no feudo, na obediéncia ao senhor e aos princfpios teocéntricos, ganha nova dimensfo. As transforma- Ges sociais implicam uma nova descoberta: a consciéncia de que o homem 21 é uma forga criadora capaz de dominar 0 universo (como nos descobri- mentos) e transformé-lo. Hé a consciéncia de que € necessdrio o saber: é através do conheci- mento que o homem e a vida se transformam. O mercador de tecidos esta- ‘belecido no Porto ou em Lisboa, além de ler e escrever, aprende a contar. ‘A extensdo de seus negécios acarreta maiores conhecimentos geograficos. Conhecedor do seu ramo, entende de tecelagem, tinturaria, decoracio de panos. Conhece o mercado: entende de oferta e procura; sabe do transporte, do que o pais pode fabricar, dos recursos ¢ do poder de compra das provin- cias, Seu saber nao é local (como era para o servo), € nacional. ‘A nogdo de destino fadado por forgas ocultas comega a ser substitufda pela nog&o pritica do Iucro: com mais lucro ou menos, a vida é melhor ou pior. A cultura se amplia. Na Europa, a descoberta da imprensa reflete 0 crescimento de um piblico leitor. A difusdo de noticias se acelera. La se intensifica o conhecimento da cultura grecolatina porque agora a desco- berta do poder humano identifica 0 novo ao classico homem. Mas acultura religiosa convive com a cultura classica, como feudalismo convive com 0 comércio, apesar da nitida decadéncia do teocentrismo. ‘A essa fase de transig&io chamamos Humanismo. Como toda transi¢io, essa também registra a decadéncia de uma estrutura social, de um modo de vida, e o surgimento de outro. S6 é possivel entender o Renascimento antropocéntrico do século XVI a partir desse movimento: Trovadorismo ¢ Humanismo. Os primeiros antincios dessa transi¢ao foram registrados pela literatura (que 6 uma das maneiras de ver e pensar o mundo): Dante Alighieri (1265- 1321), Francesco Petrarca (1304-1374), Giovanni Boccaccio (1313-1375), entre outros. Em Portugal, 0 Humanismo teve como marco inicial, em 1434, a nomeagiio de Ferndo Lopes como cronista-mor do reino. Ferndo Lopes De incerto nascimento (1378? 1383; local desconhecido) os docu- mentos mais antigos em que se encontra o nome do autor sfo de 1418-1419, quando D. Duarte 0 nomeou “guarda” das escrituras da Torre do Tombo — ainda no reinado de D. Joao I. $6 em 1434, D. Duarte — sucedendo ao pai — 0 incumbe de colocar em crénicas a vida dos reis de Portugal, desde Afonso Henriques até D. Joi I. ‘Afonso VI substitui Ferno Lopes, em 1454, por jd estar “tam velho ¢ flaco que per ssy nem pode bem servir 0 dito officio”. O primeiro cronista portugués deve ter morrido em 1459. 22 1.2.2 O humanismo de Ferndo Lopes Muitas das crOnicas que Ferno Lopes teria escrito se perderam. Res- taram: “Cronica d’El Rei D. Pedro”, “Cronica d’El Rei D. Fernando” e “Cronica @’El Rei D. Jodo I” (14 ¢ 24 partes, até 1411). © autor comegou por refundir e completar as histérias dos reis portu- gueses inclufdas na Cronica Geral de Espanha de 1344, 0 que lhe atribui a qualidade, inédita na época, de investigar. Tal virtude se alarga pelas pesquisas feitas nos arquivos Uo Estado, nos cartérios de Igrejas e sepulturas que the deram subsidios para corrigir as memérias. Rejeitando versOes contraditérias, sujeitando as fontes a visio critica, ele se incumbe de, no meio da narrativa, fazer consideragGes: “porque a hist6ria hé-de ser luz da verdade e testemunha dos antigos tempos, e n6s, posto que as ndo vissemos, de muito revolver livros com grande trabalho e diligéncias, juntamos as mais chegadas a razio em que os mais dos autores pela maior parte consentem; . . .” ‘A visio de Ferndo Lopes foi diferente da visdo parcial e fragmentada dos cronistas medievais: sempre com a nogdo de conjunto, apresenta-nos visualmente 0 panorama da sociedade portuguesa, colocando a vida pala- ciana com as contradigdes de quem as conhece intimamente, 0 movimento dos trabalhadores nas aldeias, as festas nas cidades, o romance de Leonor Teles com D. Fernando, a revolucdo que aclamou o Mestre de Avis e a deca- déncia da aristocracia, entre outros aspectos. A essa visio de conjunto associa-se a visio de que 0 povo ¢ agente das mudangas histéricas. Nao hd a idéia da historia factual feita por herdis individualizados. Nas cronicas nao hd o cavaleiro de aventuras mondrquicas. O tinico cavaleiro ressaltado é Nuno Alvares Pereira que, sob 0 angulo do autor, é a expressdo de uma nobreza “defensora do povo”. Ferndo Lopes teve perspicdcia e sensibilidade para perceber a interfe- réncia dos fatos econdmicos no destino dos personagens protagonistas. Por isso dedica atengao para explicar o sistema monetério ou a administragao do tesouro real Associa 4 to rara visio um estilo simples e elegante, coloquial. O autor ndo se limita a descrigdes ou narrag6es. Hé agdes simultdneas, cortes abruptos na narrag&o. Os didlogos, os retratos psicolégicos dos personagens acabam por presentificar a histéria mais distante. Irénico, mas nunca é ctitico com as agdes do povo. Anténio José Saraiva e Oscar Lopes, em Histéria da literatura portu- guesa, entendem que em muitos aspectos a cronicas de Ferndo Lopes se aproximam da epopéia: “a combinagao de feitos individuais e de movimentos de massas, a mesma uni- dade de acdo fazendo convergir acontecimentos miltiplos para um desfecho”, 23 (123 ou mesmo a identidade entre o autor e as pessoas anonimas: 1" coletividade com que Ferndo Lopes se identifica 6, conforme o ponto de vista, a gente mitda que triunfa sobre os opressores (isto é, os senhores feudais), ou 0 povo portugués que repele os castelhanos.Trate-se, de fato, da mesma entidade, visto que, segundo as crdnicas, 6 no povo mitido que se encontra a genuidade nacional, 0 ‘amor da terra’, e 0s fidalgos ‘desnaturados’ se comprometem com Castela”. A genialidade desse cronista (espirito de investigago e criativa ma- neira de narrar), sucedem outros cronistas de menor importéncia em termos de renovagao. Gomes Eanes de Azurara (14102-1473 ou 1474), autor da 34 parte da “Cronica de D. Joao I’, “Crénica do Infante D. Henrique” (ou 0 “Livro dos Feitos do Infante”), “Crénicas de D. Pedro de Meneses”, “Cronica de D. Duarte de Meneses”, “Cronica dos Feitos de Guiné”, “Cronica de D. Fer- nando”, “Conde de Vila-Real” (extraviada). O cronista tenta continuar a linha de Fernfo Lopes, apoiando-se, entretanto, em testemunhos orais (relatou fatos quase ou contemporaneos a ele). A visio hist6rica também difere do antecessor: sfio individuos que fazem a histéria. E a visdo cavalei- resca que ainda permanece nos finais da Idade Média. Vasco Fernandes de Lucena foi o terceiro cronista-mor, mas deixa 0 cargo sem nada escrever. Rui de Pina, quarto cronista-mor, teria vivido entre 1440-1522. Autor de “Sancho I”, “Afonso II”, “Sancho II”, “Afonso III”, “D. Dinis”, “Afonso Iv”, “D. Duarte”, “Afonso V” e “D. Joao II”. Sua experiéncia pessoal estd ligada a nobreza e foi o homem de confianga das cortes de D. Joao Ie D. Manuel. De visio mais ampla que a de Azurara, Rui de Pina procura ressaltar nas cronicas 0 papel do povo nas transformagoes histéricas. Pesa sobre ele o fato de haver escrito obras calcadas de outras e até mesmo de crOnicas perdidas de Ferndo Lopes. Poesia humanista O novo clima cultural a partir da dinastia de Avis ndo deixou de influenciar o desenvolvimento da poesia. Garcia de Resende recolheu essa postica do final do século no “Cancioneiro Geral” (1516). Sdo poesias jé dissociadas da musica, elaboradas para serem lidas ¢ recitadas nas cortes, nos serdes literérios enquanto os nobres se divertiam jogando ou ouvindo miisicas. Hi grande variedade temitica:.0 amor (ainda ligado ao sofrimento), a sétira (a expansio maritima é tratada por alguns poetas como uma aven- tura desastrosa), a religido e algumas incipientes iniciativas épicas. E importante ressaltar que em algumas poesias jé aparecem reflexos da poesia italiana, principalmente de Petrarca — 1304-1374 —: a idealizagao da mulher, a saudade do tempo em que foi feliz no amor mesmo o reflexo 24 1.2.4 2.5 do mundo interior sobre os lugares onde viveu seus amores. Entre os 286 poetas, figuram o préprio Garcia de Resende, Gil Vicente, S4 de Miranda e Bernardim Ribeiro. Esse Cancionteiro registra a poesia que circula em ambientes fechados. A arte poética escrita que vem prenunciar um novo estado: a maior indivi- dualizagdo da arte, a arte a servico de um ptiblico letrado, como um meio de comunicagdo para uma classe social e no como um processo capaz de estabelecer relagGes inter-humanas. As origens do teatro portugués Nao hé documento que registre a existéncia do teatro litargico em Portugal. Entretanto, se ndo houvesse esse teatro ndo haveria motivo para a existéncia de numerosas proibigdes destinadas a extinguir tal “devassidao” dos costumes. Bispos e arcebispos portugueses protestavam contra o pecado de dangar nas Igrejas ou de usar méscaras profanas. Aceitavam as represen- tages como a do presépio, dos reis magos. Evidentemente eram contra 0 teatro que as pessoas simples traziam para dentro da Igreja: a experiéncia humana exterior ao adro nao era pos- sivel encenar dentro da Igreja. Em pracas piiblicas e na corte havia os jograis remedadores, cujo trabalho consistia em imitar, ridicularizando, pessoas. Nao chega a constituir teatro porque nfo hd a unidade texto-representacio. Havia o momo que era apresentacao mascarada, pomposa, fundamen- tada na mimica — comum no reinado de D. Joao II, como documentou Rui de Pina (quarto cronista-mor de Portugal) e também Garcia de Resende — poeta e compilador das poesias humanistas; o arremedilho que seria uma farsa curta (farsa é a pega de critica aos costumes); 0 entremez que era uma encenagao entre um ato e outro; os mistérios e milagres, que eram breves quadros religiosos encenados em datas como Natal e Pascoa, foram comuns no restante da Europa. Esses elementos compdem a fase pré-vicentina e sero fundamentais na produgao de Gil Vicente. Gil Vicente e o teatro portugués : Nasceu em 1465 ou 1466, provavelmente em Guimaraes. Em 1509, 0 rei D. Manuel o nomeou ourives da rainha D. Leonor (vitiva de D. Joao II) e em 1513 foi nomeado oficialmente mestre da balanga da Casa da Moeda de Lisboa. No documento de nomeagdo estd registrado Gil Vicente como tro- vador e mestre da balanga. A primeira pega de Gil Vicente, “Auto da Visitagdo” ou “Monélogo do Vaqueiro”, foi encenada em 1502, na camara da rainha D. Maria, em 25 comemoragdo ao nascimento do principe (futuro D. Joao Ill). Assistiram A encenagdo o rei D. Manuel, D. ‘Leonor (irma de D. Manuel e vitiva de D. Joao Il), a infante D. Beatriz (mie de D. Manuel) e também a duquesa de Braganga (irma do rei). Como a corte era bilfngiie, Gil Vicente recitou em castelhano, 4 ma- neira palaciana do poeta Juan del Encina. ‘0 sucesso foi tamanho que D. Leonor pediu para que fosse repetida a encenagdo por ocasiao do Natal. Gil Vicente entdo apresenta na data reli- giosa o “Auto Pastoril Castelhano”. A partir daf estava inaugurado 0 teatro portugués. Na sua carreira de dramaturgo foi protegido pela rainha D. Leonor. Sua atividade foi inclusive de organizar festas palacianas; era remunerada, recebia tengas de D. Joao III. Era homem de confianga ¢ isso Ihe deixa 4 vontade para escrever ao rei, em 1531, uma carta na qual se pronunciava contra a persegui¢dio movida aos cristdos-novos e judeus. E provavel que Gil Vicente tenha morrido entre 1536 ¢ 1540. Sua ‘iltima pega — “Floresta de Enganos” — foi encenada em 1536. Seu filho, Luis Vicente, editou suas obras em 1562: Compilacam de todalas obras de Gil Vicente. A parte a omissio de algumas obras que desapareceram ¢ outras cujo texto ele alterou, restam-nos 46 pegas, sendo uma em castelhano, 16 bilingiies e as restantes em lingua portuguesa. Gil Vicente viveu no contexto histérico marcado pelas grandes desco- bertas e ao mesmo tempo pelo ambiente palaciano, medieval, religioso ¢ conservador. A formagdo ¢ atuago do autor estdo ligadas a trés reinados que interferiram evidentemente na sua concepedo de vida. O restante da Europa vivia a auténtica Revolugao Comercial, e a bur- guesia se constituia em um poder capaz de alterar a estrutura feudal, ini- ciando a Idade Moderna. Enquanto isso Portugal se debatia entre a agdo dos mercadores e dos senhores que ndo aceitavam a agonia do feudalismo. D. Jogo Il, no seu reinado (1481-1495), tentou travar o crescente poderio das casas nobres do reino (jé vimos que a realeza doava terras aos nobres leigos e religiosos. Por essa época o proprio rei D. Joao II dizia que © pai o deixara “rei das estradas de Portugal”. A terra era da nobreza e do clero). Ao mesmo tempo o monarca dava um grande impulso & navegagao. Esse rei e 0s dois posteriores no conseguiram esmagar 0 poderio de algumas das mais importantes familias, mas conseguiram criat uma nova “nobreza de corte”. Esse grupo oferecia os funciondrios para cargos metropolitanos ¢ ultra- marinos, para a colonizagao, para o exército e diplomacia etc. Simultanea- mente, a grande maioria dos nobres se dedicava a atividades comerciais em franca competigdo com a crescente burguesia. O rei era o grande exemplo- -mercador ¢ monopolista — e os nobres investem seus rendimentos em transporte e exploragao econdmica. Nao se tornaram verdadeiros homens de negécio (afinal reinvestiam os lucros em terra e em atividades nao produ- tivas como luxo e construgdo), mas impediam desenvolvimento pleno da burguesia. 26 Em Portugal o nobre se envolveu com o comércio para alargar seu poderio, enquanto na Itélia a burguesia ascendia a aristocracia. Os sucessores, D. Manuel (1495-1521) e D. Joao III (1521-1557), herdaram o vasto império. D. Manuel fez voltar ao pais os nobres exilados por seu antecessor. Aparentemente mais tolerante com os judeus (que D. Jogo reduzira 4 escravatura), acaba obrigando-os 4 conversio, pois no interessava ao reino a saida dos infiéis lucrativos. D. Joao Ill, no seu longo reinado, teve uma atuago cultural que quase © elevou a condicao de mecenas. Nesse perfodo a corte foi o centro de letra- dos e artistas: desenvolvia-se 0 teatro vicentino e simultaneamente surgia 0 Renascimento (com S4 de Miranda). No perfodo anterior a 1536, deu-se uma influéncia das idéias erasmitas no pensamento nacional. O rei chegou a encarar a hipétese de Erasmo de Roterdam (1469-1536) se instalar na corte. Incentivador do ensino, reforma a Universidade, custeia bolsas-para estudantes portugueses estudarem em Paris. Em contraposi¢do, conseguiu 0 estabelecimento da Inquisigdo (1536) ¢ entrega-se nas maos da Companhia, de Jesus — 1540 — (a grande arma da Igreja contra os protestantes; 0 “exér- cito de Cristo” que atuava catequizando os homens dos novos mundos ¢ que também atuava em escolas, nas ruas, alfabetizando qualquer camada social). Enquanto a maioria dos que recebiam instrugdo so conservadora- mente educados pelos jesustas, os que podem vio estudar nas universidades do exterior. O contato com novas idéias (precursoras da Reforma protes- tante) que propunham a reforma interna da Igreja (Erasmo de Roterdam) a leitura da Biblia, independente das interpretagdes da Igreja, induz o homem letrado a concepgGes cada vez. mais distantes da orientagZo medieval teocéntrica. Gil Vicente se formou e atuou no ambiente politico-econdmico ¢ cultural desses trés reinados, desse clima que gera o Renascimento, movi- mento ao qual ele nao est inserido. Humanista, reflete o estado oscilante de um mundo velho e de sua decomposigo. F evidente que nessa deca- déncia esté a origem dos novos tempos. O proprio fato de receber tencas pelo trabalho artistico anuncia um tempo em que o artista terd sua obra transformada em objeto de consumo, Caracter(sticas da obra vicentina O teatro de Gil Vicente foi considerado, jé na época do autor, teatro rico e original. Foi o primeiro a fazer valer 0 texto literdrio sobre a cenografia e 0 espetaculo. __A princfpio buscou as idéias nas representagdes pastoris de Juan del Encina. Mas a essa experiéncia integra outros elementos tipicamente popu- lares, desenvolvidos na Idade Média: as narrativas (de origens cavaleirescas) os milagres e mistérios, as farsas (género popular com finalidades satiricas), . 27 os entremezes, a mistura do comico € religioso, a oritica social e o mistério, 0 lirismo de cantigas etc. De cultura teolégica, expressando uma concepedo teocéntrica numa época de nitidas transformagGes, acreditou na necessidade de desnudar o tbmem, dizer das suas misérias e apontar 0 caminho para a redengdo. (0 ser humano é sew objeto de preocupagio.O homem de seu tempo, de qualquer categoria social, é motivo de reflexdo porque vive num con- texto em que os costumes se degradam. Gil Vicente cria o retrato do cigano, do judeu, do camponés, da moga casadoura, do papa, do médico, do camponés, do fidalgo decadente, da alco- viteira, do marido traido e de outros mais que compoem a realidade da época. Ressalta as crencas, o artificialismo, a imoralidade, as superstigoes. Critica o homem que abandona o campo e se entrega as aventuras do mar. Os costumes sao outros. Os novos valores se associam a decadéncia humana. Criador de tipos sociais, consegue definir o personagem a partir do seu vestudrio caracteristico, do tipo psicolégico e mesmo de yma linguagem peculiar. Nao perdoou nada. Acreditando na fungdo moralizadora do teatro, colocou em cena fatos e situagdes que revelam a imoralidade dos frades, 08 teligiosos so mais atacados pelo autor. A ambigfo, a indisciplina e 0 utilitarismo so a contradic&o entre o ideal e a pritica religiosa. Hé eriticos que o consideraram pré-reformista, como Teéfilo Braga, no século XIX. Mas Gil Vicente, crftico dos costumes, estava longe de expressar (ou propor) a rebelido dos reformistas protestantes. Esses se opuseram 4 Igreja porque estavam imbufdos de um espfrito antropocén- trico, fortalecidos e apoiados pela burguesia. Gil Vicente nao se identifica com os valores da burguesia. De espirito e formagiio medievais, ele esteve enraizado numa concepcao teolégica. ‘A critica ao homem tem como fungao abrir sua consciéncia e reapro- ximélo de Deus. Nesse prisma, € facil perceber que 0 autor expressa os valores sociais hierdrquicos e tradicionais. O pensamento cfistdo e a critica aos costumes nfo chegam a se cons- tituir uma bipolaridade: a critica existe em fungdo do pensamento cristdo. © paraiso esta reservado ao simples ¢ humilde, a0 puro, ¢ ndo ao frade que, ambicionando a ascensfo, utiliza de artificios para fingir a palidez. do jejum (“Romagem dos Agravados”, 1533). Ou entdo, 08 tradicionais usurpa- ores e exploradores do povo: meirinhos, corregedores, juizes — que repre- sentam uma justiga com bolsos cheios (‘‘Barca do Inferno”, 1517; “Floresta de Enganos”, 1536). ‘A esses personagens que so tipos sociais, opde-se a figura do lavrador (“Barca do Inferno”; “Barca do Purgatério”, 1518; “Romagem dos Agra- vados”): € sugado pelo trabalho, pelos frades ¢ pelos cobradores de renda. A corte, 0 clero, 0 homem do povo, tipos foleloricos (a alcoviteira, © bobo, a beberrona, 0 judeu etc.) sio somados @ figura da moga da vila 28 (“Quem tem Farelos”, 1515; “Parsa de Inés Pereira”, 1523). Sinal dos novos tempos, elas expressam a rebeldia contra o trabalho doméstico, ou a fideli- dade conjugal. _Evhé a figura do soldado que, no “Auto da India” (1509), parte para 0 Oriente com o propésito de se enriquecer. Além de voltar pobre foi traido pela mulher. Sobre isso comenta Luciana Stegagno Picchio, em Histéria do teatro portugués: “€ a outra face do imperialismo: no mais os cavaleiros da Fé montados em seus cavalos, de vitoriosas espadas em riste, mas a arraie-miGda, pera quem o Oriente é o mals das vezes negécio magro, no qual se se salva a pele se perde a mulher pelo menos. Este povo néo fala de cruzadas e apenas di Meca, pelejamos e roubamos’ ”. Fomos ao rio de __ Nas pegas religiosas 0 autor coloca sempre em relevo a oposi¢do dos dois mundos: material e sobrenatural, profano e divino, trevas ¢ luzes. © “Auto da Alma” (1518) é a exemplificaga coped liar de GilViceni alsa Stace Eee ana Te eral pelo deménio. O pecado é representado por braceletes, espelho, sapatos vestido colorido e por um tempo cronolégico, pois o diabo ensina a noe de dias da semana, é 0 tempo material. H4 a oposigfo entre o mundo ima- terial ¢ intemporal da alma e © mundo material e temporal do deméni ‘Avalinate Tastings scat por tates eleraeat eae) anindotanreall matte segue ser seduzida pelo demdnio porque o Anjo a socorre. A ordem se sestableee: enidade dvina permanece disociada do mundo material ss lux rman o empo eronsloglen pores a0 pla dvino et 0 teatro de Gil Vicente era representado na corte, numa época em que o Renascimento ja se fazia presente. Mas o teatro vicentino difere do teatro renascentista. As pegas de Gil Vicente apresentam uma sucesso de pequenos quadros. Tudo acontece sem que o autor observe 0 tempo ¢ espago. No teatro renascentista desenvolvido por autores, seus eotath sg rineos (Sé de Miranda), o tempo histérico estd associado ao tempo dine tico, segundo as leis cldssicas da verossimilhanga. Mas 0 teatro vicentin prenuncia 0 renascentista como 0 quadro abaixo exemplificard: : Teatro Vicentino Caracteristicas medievais Caracteristicas renascentistas 1, Emprego de alegorias e sim- bolos 1, Atitude critica perante o drama social e religioso da época 1 Teatro Vicentino (Cont.) Caracterfsticas renascentistas Caracter{sticas medievais 2. Temas espirituais, biblicos, 2. Humanismo religioso condenan- com alusées 4 vida eterna do a perseguic¢éo aos judeus e cristaos-novos 3. Personagens populares com 3. Emprego de figuras mitolégicas seus hdbitos e linguagem 4, Personagens sobrenaturais figuras alegéricas 5. Inclusdo de cantigas e dancas populares 6. Verso usado: redondilha maior (7 silabas) ——_—— Sugestées para leitura Em “As relagdes de dependéncia” (Portugal na Europa do seu tempo — Histéria sécio-econémica medieval comparada. Lisboa, Seara Nova, 1977. p. 185-329), de Armando CASTRO, encontra-se um estudo em que sao esta- belecidas as relagdes de subordinacdo entre os individuos e grupos da socie- dade portuguesa medieval. Além dessas relacdes sociais de dependéncia, em “OQ Romantismo da cavalaria cortesa” (Histdria social da literatura e da arte. So Paulo, Ed. Mestre Jou, 1972. v.1, p. 269-312), de Arnould HAUSER, en- contra-se uma andlise de cardter socio-cultural do amor cortés e da mulher, esta como “elemento dinamizador da cultura”. Hé ainda o estudo compa- rativo entre poesia cavaleiresca (do amor espiritualizado) e a novela de cavalaria (do amor sensual e erético), para concluir que houve uma inverso das relagdes amorosas, o que implica em novo culto do amor. Em “Das origens a Ferndo Lopes” (Histéria da literatura portuguesa. 5, ed. Porto, Porto Ed., s.d. p. 30-96), de Antonio José SARAIVA e Oscar LOPES, encontra-se um estudo social das institui¢Ges de cultura, do ambiente cultural da Europa e das producées literdrias iniciais de Portugal. Em “Gil Vicente’ (Histéria do teatro portugués. Lisboa, Portugdlia Ed., 1964. p. 39-86), de Luciana Stegagno PICCHIO, encontra-se um estudo do homem e da obra vicentina, mostrando através de textos todo o contexto sécio-cultural em que viveu o autor, justificando assim sua postura satfrica em relagao a época. 30 ——————————— Sintese — perrodo me 4. Primeira fase: 11890u 1198-1434 — Origem e formacao de Portugal ‘ val — Portugal e estrutura social: feudalismo — Jograis, trovadores, cancioneiros: da literatura oral a escrita — Cantigas de Amigo — Cantigas de Amor — Cantigas Satiricas — tengo de briga Prosa Medieval — crénicas, livros de linhagens Caracteristicas Predominio da literatura oral © Cantares de amigo associados ao canto e a danca; impregnacdo do realismo da vida campesina; sensualidade; queixume; euforia; amor popular e amor burgués * Cantares de amor e 0 amor cortés: “vassalagem" amorosa; impregnagao do idealismo; “coita”’ de amor e idealizagdo da mulher; origem provencal © Cantares satfricos: escérnio, mal-dizer, seguir e tengo de briga Prosa medieval; novelas de cavalaria, biografias, crdnicas, livros de linha- gem; o herofsmo de influéncia religiosa e feudal Principais autores Paio Soares de Taveirés D. Dinis . Martim Codax Aires Nunes Joao Garcia de Guilhade — Trovadores Segunda fase: 1434-1527 — Portugal e estrutura social: do feudalismo aos mercadores — Humanismo: Fernao Lopes e seus sucessores — Gomes Eanes de (A)Zu- rara, Vasco Fernandes de Lucena, Rui de Pina — Poesia humanista: Cancioneiro Geral de Garcia de Resende Teatro portugués: das origens a Gil Vicente Caracteristicas © Divulgagdo dos mestres da Antiguidade greco-latina © Incentivo as Universidades e laicizac&o da cultura Culto do Homem , Crénicas e histérias voltadas para a coletividade Poesia palaciana e Teatro popular Principais autores — Ferndo Lopes © Caracteristicas — Gil Vicente © Caracteristicas Cronista realista Técnica literdria da narrativa Criador de perfis psicolégicos Pintor de cenas e paisagens Povo como agente da historia Teatro popular Sétira a sociedade portuguesa Visdo religiosa medieval moralizadora