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Obra originalmente publicada sob o título

Nuevos paradigmas, cultura y subietividad


@ Editorial Paidós, 1994

Capa: Joaquim da Fonseca

Preparação do original: Flávio Cesa, Maria Lúcia Badejo

Revisão técníca da tradução:


Ana Ibraima Simões da Cunha
Cláudio Osório
Eny Toschi
Janecy T. S. Lopes
kilaFigal Suslik
Marilene Marodin
MarisaEizirik
Paulo CésarT. D'Ajello
SueliBrunstein

Supe rv isão editorial: LetíciaBispo de Lima

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LOJA CENTRO
2) nNoÇÃo DE sIrEIro
Edgar Morin

I . A noção de sq1_q-iQ-é*U!0g-usçáo-QLlrem4me-Íì-tp-eontmv-ql.tj"d-LDesde o princí-


pio, manifesta-sèÌfe f.o-pp4pqq{o3al: é, simultaneamente, ev-idS,ntç e não-evidente. Por
um lado é uma evidênciá õËvìà, oãdo que, em quase todas as rinÁuái,ãiiï" umã iirimei
ra pessoa do singular; mas também é uma evidência à reflexão, tal como indicou Des-
cartes: se duvido, não posso duvidar de que duvido, portanto penso, ou seja, sou eu
quempenqtÉ,t1essenívelque*apar€çe-.o-gqigúo.
Sém dúvida, a noção de sujeito não é evidente: onde se encontra esse sujeito? O
que é? Em que se baseia? É uma aparência ilusória ou uma realidade fundamental?
Certamente, pode aparecer sob a forma de realidade suprema. Assim, quando o Eterno
aparece ante Moisés, que se encontra na casa de seu sogro Jetro, à pergunta de Moisés:
"Quem és Tu?", o Eterno responde: "Eu sou quem sou", ou, em outra tradução: "Eu sou ,,.:F
o que sou". Dito de outra maneira, Deus aparece como a subjetividade absoluta. -.\
Em muitas filosofiqç_q-,qe*taf-isi-cês-o-sqiçitq c-o-l-tqrylqre--qqnt.aslma*çagì-*a\
@-com.n-qger*.nosés-,lp-çriqiïâiu-e-,qql9--ç9*f-i1-4po juízor-'.Í
llibãuoç,-a uiliãd* *oral, etc. Não obstant", ," o à p".tti dè-outro
| ,."
"ônJíããràr*ó; ururvórvvò' òwru-
uò' biológicos,
lado, por exemplo, pela ciência, só observamos determinismos físicos, socio- I
lógicos ou culturais, e nessa ótica o sujeito dissolve-se. \

No seio de nossa cultura ocidental, desde o-sécqloXYII, vivemos uma estranha


disiunção
+ esquizofrênica: na vida cotidiana, sentimos-nos sujeitos e vemos aos outros
como sujeitoslDiãhõs, por exemplo: 'ég4Ubom h-o-me-q.!.q,gr-4 excelente pessoa", ou
'1é-Ltmscmtuergpnha, gm cana_lha", porque, efetivamente, em sua subjetividade se en-
contram esses traços. Mut lg pg*"--,p-g-ç-9-nó,s-f"r-Les-nos-pglq.p-oxto-'dp
".rulqatrno"-eslAs
aista do dejç:rminismo, o pujgitg novamente se dis.sql.vp, de-sap,ar-e-ç-e* Vivemos essa disjun-
çào-em-função de um paradigma prófundamente emaizado em nossa cultura. Paradigma
que formulou muito bem Descartes, que, por outro lado, não o inventou, mas só o
expressou à sua maneira. Dçsça$Ss viu que havia dois mundos: um que era relevante ao
co^nhecimento objetivo, cfeiffi-o mundo dos objetos; e outro, ú mundo que com-
46 Dora Fried Schnitman .\b

pete a outra forma de conhecimento, um mundo intuitivo, reflexivo o mundo dos


iujeitos. plff1q1AOq, a alma, o espírito, a sensibilidade, a filosofia, -a literatura; pjf
poiio, ut Écnicas, a matemática. Vivemos dentro desta oposição' Isso.qüël
ã#que "ìê"õïasís
nãogojemos encontrar a menqr su!-tentação p?r41loç4g,4e sujeito na ciência
clássica. Em troca, .nqgãntó abandonamo, o.u.po^"ientífico e reflëIimbs cglnltÊt
ijË *d*";# ;õã-"ïil;; ;;: *j é i i o, o * u iu n d ame n to, f u n dament o;!a yçfia
" ", oego tiansCéndental, transcendentalizado
dèllíõãaìèrãâãe possível. E reenioniiámos
**-
nt filõ ío-iïããêXarif.
Na ciência clássica, a subjetividade aparece como contingência, fonte de erros (o
..noise" da linguagem da informrítica, o ruído que é absolutamente_necessário eliminar).
P-o-r isse;a+iânç-i-ã-q!,4t-t-iga exçluiu sempre o oble-rvador dç* sua obpg-LYeçÃo'
e o pensa-
àãi o q"" ô-õïõèìtos, de sua concepfáo, ôomô se fosse praticamente inexistente
"onst.Oï
ou se encontrasse na sede da verdade suprema e absoluta'
Mais tarde, no século XX, assistimos à invasão da cientificidade clássica nas
ciências humanas e sociais. Expulsou-se o sujeito da psicologia e o substituímos por
estímulos, respostas, comportamentos. Expulsou-se o sujeito dahistória, eliminaram-se
as decisões, aí personalidãdes, para só ver determinismos sociais.E{pqs-Su:!qAjH9.-tio
da antropúqgiâ, para ver só estruturas, e ele também foi expulso da sociologia.
Pode-se
momento, e cada um à sua maneira, L+YI| qatp
Althusser e Lacân liquidaram de vez a noção de homem I qloçã9 de sujeito, adotando
ãìV-ersc;ãa faììõsa hã-m-a-ffirrud. Freud dizia: " Aí onde èstá o isto (Das Es) deve
devir o eu". S,egUULo a-visão estruturalista-ç çjen-trfiçrs-ta-4í q4d9-9$4o- 9g-.b4*qg9
1iq4e1* OrGÏ|!! . Ndõo:rsranfe,l*ué alguns retornos áõs sujeitos, ièiòrno1, às

ve?esltardios, cômôëniFoucault ou em Barthes, coincidindo com um retorno do Eros


e um retorno da literatura UtqqÉ q!!gg'-99,!-t9-s"9li1o 9t!9ito se e{ìcqn-lra lqYq1ryl!:
problematizado.
-:- - - euerí, é o sujeito? Trata-se realmente de algo que sejl necessário conhecer ou
reconheìer? Ou é um epifenômeno, uma ilusão? Farei a seguinte proposição: creio na
possibilidade de fundamentar científi ca, e náo metafisicamente, a noção de sujeito e de
propor uma definição que chamo "biológica", mas não nos sentidos das disciplinas
illoiOgl.ur aruais. Éu diiia biológica, que corresponde è !óei"a pfóDria dg set:$ Por
qu" pãd"*os iniciar e conceber agora ãìõ@le sujeito de maneira cientíttca'l Em
pri.nãiro lugar, porque é possível õonceber a autonomia, o que era impossível numa
visão mecanicista e determinista.
se relaciona com a de liberdade, que
era,dealgutrGToffi lerialed@gênciasrÍsiõ1r9t9
/: contráriolessa é uma noção-pSIrçúAnruts"ligq@è4*epèndTncial e a de dependência é
inseparável da noção de.lrjg-greanização. Heinz Von , dm um breve e magis-
ï tral iexto publicad'o emT96,On seelf-ïQanizing systems andtheir organization,havia
{.. / il'sslll4r4uu desde vo início
assinalado uçJuv rrl o paradoxo da auto-organizaçáo. "A auto-organização signi-
; í ii.a obuiamente autonomia, mas um sistema auto-organizador é um sistema que deve
I trabalhar para construir e reconstruir sua autonomia e que, portanto, dilapida energia"'
I

'ì{ é necessário que este sistema ex-


lEm uirtude do segundo princípio -é, da termodinâmica,
H

(3 ' Ouiu .n"rgia do e"xterioi; isto p4ra ser autô-nomo. é necessário dep-eqdeJ do mundo
externo. Esabemos, pelo que podemos observar. que esta @p91dên9ra]i999i+nao e so
€, ,
informativa, poìs ser vivo extrai
-: :,-f---^^:^
informação
i^
ilõ *,,-l^
muntfo exterior a fim de
mãíÍffiUem , t Í
o
1- -:-^i^ .^-^
^!t^rt^

.l^ *"-,{^ ovfarinr nnmn


org@to'Maisainda.t ^ ^--^-'.-^^X^ como
bem o havia assinalado Schrodinger. Nós, por exemplo, Ievamos, lnscrlta em nosso
organismo, a organização crcnõIma da Terra, a rotação da Terra ao redor do sol'
Noztos Paradipnas, Cultura e Subiuiailade 47 ,ít:
.s,
"j
lgrnqxourtageug3is e plantas, tambémlróslqmgslr[ritmolnelg, Íl.9j}pla$ryg?TÍl- ç: \
G 2ãhorus; éãquãõh'-amamos!!1q9:Iq4di3qs-o que significa dizer que temos Ï* n\''
Teffifiõìnte*o, qu. registra o processo de alternância do dia e da noite. Por outro lado'
# !

ç.s-tabç-Lqcld-9 -e-111f'11'1,919-9u-!:l1e dS tSl'


{" ^un"ìíïãguffiu.
"ossa.-soçredú+-r9gem'se-porupqelp-ndáno
r,o.râ vida coiãtiva. {n rytolg!1a pois, há.úlï:glUg4#g-
pendênciaeneriética,informativaeorganiza@rior.
"-ffins'ãú;-rist""rn"n;raamq !ryg ,ã
eco-orginização, ãm função do princípio de von Foe-ster, segundo o qual a auto-orga- It
ìitaçãõ@nte. E, ólaro "stá, ra6"mos que1lgplge.dqlqssi.-r0eto-arút-e41e' lga . y'r,u
ou cultural._E pòssível conceber certa aujolo,Ti.
biológico, meteorolóeico. sociológi.ço
hì de õãlemfio central, por exemplo' produz' me NY
,rï
diante sãu dispositivo de retroação, autonomia térmica, e isso permitequeÌm ambtente ""f
permaneça à mesma temperatura, independente de, qu9 n9311e-riorhqiafng-o-u-çalor.
o
regulá!ãõffirÌõmaKõõmffio e que lhe permite a
ãrganisrno tem um sistema de lc9,
valores õonslantes de temperatura, de pH,de todos os elemen-
homeostase, ou melhor,
ros que constituem o meio interno. Sem dúvida, há u-uëg!11pi&rp!91e1y99-or$a-
nismovivoeessasq4guuas*qq9-pgssqe.mcertaautonomra-Iggut3gT'JaqueeSSa
auronomiaãè--_pende,ãtõi"*"ì6 não õffi@il do combustivEÏ com que lhe
abastecemos á partir do exterior, mas também do engenheiro humano que conserta a
máquinas têm a capacidade de auto-reparar-
máquina quandã faha. Diferentemente, as
Se e auto-regenerar-Se Sem cessar, segundo um processo que chamo de organização
recursiva, oí seja, uma organização na qual os efeitos e os produtos são necessários
para asua própiia causu e srra própria produção, uma organização em.forma de anel.
póir, cônceituais para a noção de autonomia, que se torna
ìenho uqui algumas basós
muito importante quando se trata de uma otganizaçáo vivente.

II. Devemos, agora, considerar uma segunda noção, que já existia mas que ga-
nhou novo destaque: ã nogq d" rryllÉdoi,.O pensamento biológico compreendeu, há
uãriot séculos, quã existeffiãElãffi-entre a espécie e o indivíduo. Havia uma maneira
de conceber essâ relação, na qual a espécie era considerada como um
oadrão' um mode-
lo g":g1,4:gygl!u,uT os indivídlos' Hauia oíÍãiããêirããe
que "xedlg:çuarUçulare-s,
consïsTíãiildida-máíilêpêcréïão existel Nunca vemos uma
ver as corsas,
espécie. Vemos indivíduos, mas jamais vemos uma espécie."Segundo as
perspectivas a
purtit dut quais se nutre, ou bem a espécie desaparece e o indivíduo ocupa todo o nosso
conceitual, ou, pelo contrário, é o indivíduo que desaparece; torna-se contingen-
"u*po
te, riortal, efêmero, e è a espécie que atravessa o tempo que tem verdadeira
realidade'
trata-se é de
il ;;;. prevalece uma viião, às vezes outra, enquanto que, no fundo, diferen-
registrar um paradoxo que, de fato, também se encontra num terreno fatalmente
I +-.-_
te: o da mlç!9!!!94.-
Nï , a ProPósito da contradição

"l* "
da observação, como um c ou sela. c
:-":ï:d:,:::ïi*::
cular. limitãdo, ou como ' Há uma contradi-
" fato,.e{nifc1lente, um e outro t" tT!:-"Ï
ìã" lógt"" ""t* esses dois terrìõï, mas, depróprio Bohr.disse: "há complementaridade
."gonão as condições da observação. E o
duas noções, não obstante, excluem-se logicamente entre Si"' Do mesmo
modo,"rru,
"rrï." ies e indivíduos
hfgqmplel4entaridade entre espp-cjggç-ildfrdUqg'r44lnulgientidq!|Igllglp-art
<Loxal.@cebera uAglfglg;e o
se

prq!@@gr1o do qual falei. O indivíduo é, evidentemente,


48
Dora Frird Scltnitman
Àoi

,'r. Falta-nos, agora,6ã; mGüòoevemos chegar à noção de indivíduo-


sujeito,e,certamente,essanoçffitaneamente,eilàutono*iaedependên-
cia' Dito de ourra maneira, a definiôão de suieito s_qp_9g3
ir-dgrtldl gg: nao sè@ ""r"1,ãrri"=t"pglq_c'rçrgó
ilii ;, para compreender
esse algo
@ee"dãõ
vivaé biologia
q"a=qËnau-"nìur*"n,", u q'rlõirã_
çãq moletular e a genèti"aoos deram todos os elemenros para compre-
ender essa otganização. É uma dai carências fundamentais
da ciência biológica,liãs
isso não tem nada de surpreendente. sabemos, por exemplo,
que a ciência riri"ã, qí" i",
descobrimentos notáveis no século passado, uiu"u iaËia tmitaaa (hoje ínà.iuO
"o-^u totArn"nte
de que o universo era uma máquina totalmente determinirtu,
mecanicista. E,
i! sem dúvida, desde o início do século XIX havia aparecido
o segundo princípio dá
i- termodinâmica, que introduzia a desordem nesse universo.
! Pois bem, o biólogo molecular, mui
íi- ntificar as moléculas, os
-{ Í ggLS. qlryac ulas, gq
os pJgg.es_sql pò@
.pjÌti c.ut areç. e g guçc-e
o jgLYlYoJ jlls-Toquandodescobriurodosoielemenìõìffi
.,L\
Efeti v ãmente, foi d€te-è
ÈÌÍ{atraequlvilffi
'qLc'r'
formação, ao programa, à memória, isto
t!to]g esse algo cognitivo ocupa
m papel permanente em todõsìffi plogssos da oQãnìzação
lç( viva; são os elos entre
t( proteínas DNA e RNA que controlm urÀã*. ã"rrã
produção, ou seja, areorganização das mãléculas que se " esies proces_
aegraáarn. são
sos os que controlam o comportamento da bactéria, são
esõs processos os que orde-
nam a auto-reprodução dos organismos unicelulares. E o processo
@ãose tomamos, não diria-õbaso mais --:""--
que permite a reor-

simples, mas sim o menos complexo da orga_


nização vivente
-
a g€g123ção bacteri vemos que a bactéria é ao mesmo
Jemp e y r s er, u rg áqüi naììÌ m õo mpuÌãdor, c o rì fun did$jn or * o. i uào, Gnã--ã
que em nossas máquinas'.n
artificiais, temos, põilm lado, o controla, e,
por outro, a máquina a qual está conectado. Ali, em troca, "omputaaor,q-È
nãoìemos nem computador
separado nemmáquinas, mas sim os dois num mesmo. Temos
um ser, um ser-máquina
que é um ser "compJtJaqte"..Emprego o termo "computante"
pira não utilizar,.cálcu-
oemasiaoamenre arirmético. teinJu quãnào o empregamos
ll-:Xïrlll*.:"rj1d"
sentidos não aritméticos, como no cálculo lógico de proposìçáàr.l
com
oigó qú e u. ,"i
os, de íuçliqeì, d-e daâos: algú qrre ood"_ìÃ-
chãmarde "in que podemos usar esse termo, se naì-poilêmõíelïminá_lo.
Noaos Paradìernas, Cubura e Subietiuidade 49

exterior. Aqui vemos simultaneamente uma analogia, e sobrefudo, uma grande diferen-
ça com a operação dos computadores a-
ãíntéìeu-mpr@rque se produz um processo muito mais
misterioso, mais mais analógico, no qual ainda não se penetìõu-ìFÍãíãÌfiTE
rença res em que a computa por conta , por si mesmae
ja, está animada por uma prutiilií
sl mesma, ou seJa, mesma para
ú-esrna,?ã cogito cartesiano upur"""

IV.ConsideremoSabaseo",,qo.ffiueàprimeiravistapare-
ce bem complexo porque não é assimilável ao princípio de identidade aristotélico. Esse
princípio necessário para o funcionamento da computação, sem o qual não seria possí-
vel a computação, não haveria computo, é um princípio de diferença, e de equivalência
que formularei assim: "Eg Squlnelhor?" "Que é "eu"?
*Err" é o ato de ocupry
posição egocêntrica,
mo" é especificamente a objetivação do eu. " nãoéexatámenteoeu. H-"3:ï::',",

permite qve o computo possa tratar objetivamente o ser sujeito. Assim, a bactéria pode
tratar suas moléculas de maneira objetiva uma vez que segue sendo um ser animado por ^tH'
sua subietividade auto-org anizadora. F, acrescentaria que o eu mesmo, que é a objetivação Y\'''.
do inÌIfrïcluo sujeito, rem#ãõsimesmo, que é a entidade corporal. No si mesmo estão \^'.1
incluídos o qu é o eu mesmo. Com efeito, na um )^'
sãõ, porïüiïeZldênÌrcos-e diferentes: eu, qu meslno, 1úesnno Certamente esiou ,ìJ

exoressando-o em nossa linsuagem humana. bactéria ignora


cue aabactéria
.na, -Ere ign ora totalmente, mas es s a
--ì--_-_ì----77-T-"-,;'.tr(.----j;-
í-p fo-ïnTõ"rmti ii o ( Io g i c i e l), " eu s òü èü me ffió", e s@raüãg{ neI4 ïõ-*
ibilita todas as opera-
as, de um organismo policelular,
das ações; um tratamento obj
princípio permite a tratar-me a mìmìffio, referir-me a õì-m-
mesmo, ito um mínimo de objeti

-E
e-ssã Aistì-nç-ilffinÌlãmental não é s{ gognitiva; ao
Jlg!$g11eupg.q_dilllibutiva de valor: atribui-se valo_r ao si,e não-valor
w
ao não-si. Esse
--sz
50 Dora Frfud Schnitman

da i{e$idade subjetiva. E assim


ílí""rro o" auro-exo;FferêOcia é o que é constitutivoentr€
illã.*rí" aÈnneãeárlre si/não-si' mim/não-mim,
o -ffi;#ffirlf,o;ì;ï""ì=á;ãt
o eu e os outro eus'
a"ilisríifã entre
= êtttáã. ô-i"Àiiii*' reconheceiarn
o si e o não-si, num terreno particular da biologia: a imunologia. o sisrEntelryllolg.*go
a' que nos protege das agressões externas é um sistema que permite reconhecer tuclõ-õ que
um si mesmo mediante uma espécie de carteira de identidade 49teqg!:ggp-19 g,
I

t' é
^.-o.icmnnorticrrlnrf)ntrecorresnondeàmaceiióloôuènão
\\ *.r
1r
:r!
s. ' ,
:
". cosnição entramos ao mesmo tempo no mundo4o 91rò. O eÍro ocoÍre quando aparecem
\\ô
':-';
1ffiilãà oì mesmos sì-gnosfdiÍenïfdadõ molecular; é como se soldados inimigos se
partir
vestissem com nosso póprio uniforme para entrar nafortaleza e conquistá-la a
\\ do interior.
Temos, pois, um sistema baseado na 4ifele*nça en!rg"gs.i e g nã-o=sl eyl{q$:TgT-
te,nadist-ribniça-odg.v@ìië.dêleôÏaçôdenão.si.Mas'ãïrrcla
muito difeiénciado, òõmôno$"ãfiïftais superio-
"*;üüãË;i;ï;riiiã-âìúú"ológúo
,"r, o 5^". celular discerne o si do não-si e, quando absorve alimentos do exterior, tealiza
-
rl rtÁ cracking, tomando o que é assimilável è que se converterá em parte de si rechaçando
....''J
-\1rì "l o que não õ assimilável ã que se tornará resíduo, desperdício e' nos seres evoluídos,
, '.L. '{ l urina, excrementos, etc.
I

ì ,Ll A idéia do sujeito começa, pois, lentamente, a aparecer. Não tem sido fácil, posto que
tivemos que elaboú o princÍpio de ,o*puto e o princípio informático de identidade'
Há um s.ggunAÂ*p'Ueípiq.dç identigqd.e, muito..interessante, pois mantém a
invariância do ffsujeito, apesar de éxtraõr<íinárias modificações corporais, celulares,
moleculares, de transformação do si. Não se trata somente de que' a cada quatro anos,
a *aio. parte das células quê constituem meu organismo desaparecem
e são substituí-
Ju, por. óutras, ou seja, bioìogicamente já não sou o mesmo que era há quatro anos. Há
também enormes modificaçõés que fazem com que uma criança se converta em adoles-
cente, depois em adulto, depois óm ancião. E, não obstante, quando olho uma fotografia
de minhá infância, digo: "sou eu!". Sem dúvJüq*LQ"laqjgg criança, já não tenho
esse corpo e esse rosto. mas a ocupação de
*ìGãh*e *ìilqaas a"ç-ïT!õ-dif ïffi
&S - its
úoS, ìncfisive, a ilúião de possuir uma
-*-! ãsáv,et s em, daF;nosõôilïã*ãe que
sojrnos-muiQllifereqler lggundo os trgnple.s e pzr!1õ.egs.9gr*-d-o amemos e odiemos e
r,ol-aa qu;toooi iaìnos umu-áup'[a'ïmâ. ifin
urãa múltipla personalidade. O eu realiza a unida4g;.aqui temos um segundo princípio
de identidade.
v
'i

v. No entanto, há algo mais na noção elementar do sujeito, pois ainda não che- \
IT

L' vevidentemente, tudo isto de que falo concerne também aos \


v' E,
guei ao sujeito humano.
sujeitos humanos. \
Hádois princípios subjetivos associados: oPnn4lPlg.,çlg-9rçl$fu-e"!-Oe;119.1Ï:b
assinalaram que qualquer um pode olzer
Que é o princípio de exclusão? os lingüistas
.àu", ,4izê-lo por mim. ou seja, "eu" é a coisa mais corrente,
-âr que ninguéu_pede
mas ao mesmo tempo eïm".a*ã-ãbs-oÌ"ta*ente única. E isto se comprova inclusive
quando não há nenhìma diferença de singularidade, como, por exempÌo, *U."
gêmeos
que têm mesma carga genética, que são idênticos' E certo que,
homozigóticos, ou seja, a
particular, mas nenhum deles pode dizer "eu",
n"r,", gãmeos,'existõ uma cumplicidade
em lugfu do outro. No Zoológicode San Diego, na Califómia, pode-se ver algo bastante
raro, ainda que não excepcional: s,elpg!!g! do mesmo deserto californiano
que, devido a
algum tipo de acidente genético, t4ãfas cabeç,as em um só organlsmo.
Este é um caso
bastante complicado porque etaJìaãlïõãcèrtez4 um mes*ã sisrema
i-onoiogi*, ì
uma mesma subjetividadel orgânica, até o momento em que suas duas
?o T9n9l li
se separam. Mas, sem dúvida,-hrí dois sujeilgg-d.qponto de vistatetebral. precisamente- "uuïçu.
moÍrem por causa disso: devido a qìe-caila cabeça 6üõããlirnentoìèì* ludo, quandó
uma o encontra, a outra desvia em direção contrária e, assim, essas pobres
serpentes de
duas cabeças dificilmente conseg,rem aiimentar-se e nãopodem
sobieviver a não ,".
zoológicos, onde se dê de,comer a cada uma das cabeças. vemos, poir, qo" p.irr"rpiã ",n
o
de exclusão funciona, inclrsive"entrê duas çabçSas__d__-qçry-elìtg
---Mãí-esiìe prirrciitioãe qge têm-o-!4"9---------------_sm,o
exclusão é ilepaì'ávelF;* pú*?tiò ae iriòrusao qìJra, ""ó;
ãutros7,. .,
com que possamos integrar em nossa subjetividade outròs difãrentes de nós, *
=
:"j":r..r
va: ,P,g*Igfilt"glg_t'9'_sa
"nós".ìIõssãascendêncià,
subjetividãde pes_soat numa subiçtiy1&dg
poi exêmplõ, nossôs pais, fazem partãAesiê birCulo o" y'
naìiigË,i:'f, a'
-inõluffi'o:FazempaÍtede nós
fur"-os parte deïes, súbietivamente. Muitas vezes
se produzem conflitos entre o "ìór
princípio de exìlusão e o prinlípio de inclusão. Épofi
vel ver esse antagonismo nos animais. Surpreende, às veàs, ver leoas que
devorain sua
prole. Isto ocoÍre no mundoanimal, apesar dos pais cuidarem tanto de iua
cria; ou bem
se sacrificam para defegÇla-eonfta-o opressoi ou bem a devoram
se escasseia o ali-
mento. Há, pois,
!4g&*!f ntamqs, confor-" as1/f /

Ë:i:""i,j:;ï'Jm
O mesmo ocorre a respeito da pátria nos momentos de perigo. prontamente
esta
ít[,(
sociedade na qual vivemos de man-eiã-egocêntrica, guiando-no^s pJo irrt"r"rr",
," uc
perigo e então, de repente, nos sentimos tomados por uma onàu "Ã
somos
"Ílós", somos irmãos, somos os filhos dapâtria, upàttiaé nossa mãe,
"o-rrnitiíria,
o estado é nosso
pai. Devemos obedecê-lo: Adiante!... Mãs alguns fogem. Dizem: .,Eu quero
salvara
minha vida"' Desertam. Aqui também há urna luta útre o princípio dó inclusão
eo
princípio de exclusão. Assim, poìs, o sujeito, e em particulai o sujeito humano,
pode
oscilar entre o egocentrismo absoluto, ou seja, o predãmínio do priniípio de exclusão, e
a abnegação, o sacrifício pessoal, de inclusão.
Também encontramos casos bastante confusos, complexos, interessantes. Há
um
livro de Jaynes, The origin of consciousness in the breakàown of the bicameral mind.
Não sei se sua tese é,verídica, mas me pÍìrece bastante ilustrativá de algo que pode
ser
veúdico'Jayaessupõequ"p ng.-urpç-q*o-qiqr!igo-s'ep-m.q ggipqio-e-o-assiuo, qo_s
-q [!ais o
n9-0..":-de -r-i e--de" s.e-tlp sacerdúes õòúpàva o topo, na ménìe oôs sujeiros hatiã-düu*
câmaras; e digo sujeito não só como sujèitos indivíduos, mas também;orno
sujèiÇão, ou seja, indivíduos que não são cidadãos. Há, então,
ú,,o, ,ú
4UAs_çâmalirr,^a_
einarn os imperativos do Estado, do poder,
oÌèclãce!". E o indivíduo obèdece, como um autômatò, a ordãm superior. Há
qu"-ffiúiirËl
outra
-9âmrylqug !gí r9ag4g-rad"aà-y-rda-doméstiça,,às çrianças,aos aferps coridianos. Temos
aqut duas câmaras que não sç colLqn_ic4m entre si. Mais tarde, em Àlèïàs
e iiãs ilhas
gregas' com a imrpção do cidadão e da demo cÍacia, as duas câmaras vão
comuni.*-r",
o que permititâ ao sujeito lançar um olhar sobre o poder, sobre o Estado,
sobre Deus.
No_1.qç:smos' em çertosenti-do, temos essas duas entre as quais, amiúde, se
produzem correntes de ar. Isto ilustra como podem"^â-arus,
combinar-se os dãis princípios de
inclusão e de exclusão.
Háum tercei{o princípio q'e i!gc--e$Tig jgregar: o de intercomurucr&4s
. çom o
semelhante, o congênere, e que de algunìõ0aaia;ivaa";p;ffio de inclusão. pode_
52 Dora Fried Scbnitman

mos vê-lo já nas bactérias. observou-se um fenômeno, que, num primeiro momento, se
considerou como uma Eerr1!ËIqçgglu r"lo4lidudq das bactérias, porque uma delas se
através do qual
p g!g:3 nabactéiiaffi dÌhe*nrp-l4nlay_au-l!ì-pgqg9_4e,D-NA,umgene.
pensar, Ìambefl{ue este presente ãe u- gene tffi ãlém dïssõìmientido utilitário.
Uma das hipóteses que foram formuladas é de que quando as bactérias são agredidas
pelos antibióticos, algumas conseguem resistir porque outras bactérias irmãs lhes inje-
tam defesas. Enfim, é um problema que vai além de meu propósito, mas queria mani-
festar minha admìração arlteg$ç-ataao-frlqlmo tempo anterior e posterior ao sexual,
que é menos e mais que o sexual, esse preseìtë-rnara'/rltÍoSõíirèïËã-bméríã6;ã
outra, de uma parte de sua substância. Nós mesmos quereríamos ser bactérias e dar um
presente assim quando amamos!
Há pouco, se descobriu que há uma comunicação entre as árvores de uma mesma
espécie. Numa experiência realizada por gíclicos (como convém que seja um
-cign!i!.!4r
cientista pesquisador, não é certo?), foram retiradas todas as folhas de uma árvore, p,ara
ver como se comportava. A árvore reagiu d ua
segregar seiva mais intensamente, pÍÌra repor, o mais rápido possível, as folhas que lhe
haviam tirado. E também segregou uma substância que a protege contra parasitar. A
árvore havia compreendido muito bem que um parasita a havia atacado, só que acredi-
.tava, coitada, que se tratasse de um inseto. Não sabia que era o maior dos predadores,
o ser humano. Mas o que é interessante é que as árvores vizinhas da mesma espécie
começaram a segregar a mesma substância anti-parasitária que a árvore agredida se-
gregava.
Assim, a intercomunicação existe, então, no mundo unicelular, no mundo vegetal
e, certamente não necessito de exemplos, no mundo animal. Entre os humanos estabele-
ce-se o paradoxo, ligado pelos demais ao jogo dialético dos princípios de inclusão e de
exclusão, de ter muita comunicação e muita incomunicabilidade. Mas, ao menos, temos
a possibilidade de comunicar-nos nossa incomunicabilidade, o que efetivamente permi-
te tornar complexo o problema da comunicação.

vI. Já podemos definir o sujeito como uma qualidade fundamental, própria do


ser vivo, que não se reduz à si
dissemos, dois gêmeos idênticos,
ferentes. É umirealidade que compreendã um entrelaça*mento de múltiplos
tes. Interessa assinalar que, como o indivíduo vive num universo onde existe"o*pon"n-
o acaso, a
incerleza, o perigo e a morte, o sujeito tem, inevitavelmente, um caráter existencial.
Leva em si a fragilidade e a incetlezada existência entre o nascimento e a morte.
Tudo que é
modo alguiiìã-redu ojL+_K-Há muito mais. Emìiimffiugar nosïõ
slstema neuroce . Não somôS os únicos-ãÌêÌo,ïõisïoi desenvolvido nos vertebra-
dos g, entre esses, nos mamíferos, nos primatas, nos hominídeos, etc. O sistema neurocere-
bral forma tanto o conhecimento quanto o comportamento, enlaçando a ambos. Mani-
festa-se nele um nível de subjetividade diferentedo nível imunológico, ainda que ambos
I
osníveis,certamente'secomuniquem'ouseja,@ralqueéugr I
slU94g!99!9_!qgqg9 da percepção, da representação, da deqisã@
notamos que no anrmal e, em partrcúIú no dos mamíferos, a
erebral; afetividade, sim, que parã muiìõ
a
deÌiilsaparece como único rasgc,constituìmffiGïljeito (porque, corretamente, quando
dizemos que algo é "subjetivo" erludimos ao que está ligado à emoção, ao sentimènto, e
r

l.

maior grau de liberdade. no-


Finalmente, norru.obj"riuidud" hu*_qq?j!lg L,lgry hubitudq o"lu*
"^iì" "-
çõesdealma,deespíffiososentimentoprofundodeumainsufi-
'
ôìc-rrcra oa ama q*{;ïËË
amor, no sentlmento ;;;;;;,;ãì iáeiu uç
sentimento oe amor' esLa a luçrd que v
oé qqv vulrvêstitui
óïuúo
diferente
il:1Ï1Ï:: *"li:
de nós mesmot:
r \

tude de nossa própriu uf*u, í"tmanecendo toialmente P lótl


mesmos, ainda sendo outro. Tenho aqui' então' a-"i: "tytit g:,tt9]::Y9?*;"Y.Ï:it
meSmoS'alnuaStrlluu\JuLlv.rvrllrvgYul'-.:.*"'_w
vezes se acreditou encontrar o fundamènto do
concèitõÌlêTfréito nesses nívets hurna-
há um nível prévio, bio-lógico, do conceito de
sujei-
nos, que só podem
"ó;õ;rq*
,".sS9g9q1o+*es;Gl9güie*rUiçs-"iOs$.-",*.1-e:ag,*t-eli:r4de'"--à-ç-9l!i"-g:9ry1u'
t"" t logo sou"'
ïi:ï:ïïïro quando Descartes disse: cogito ergo, sum,"penso'
-oao,
"eu penso" é uma asserção que quer
em realidad e fez aoperaçãã implícita seguinte:
dizer "eu penso qu" .LupËnro"' úesse "eu-penso que gensl-'1zu se objetiva em um
,,eu "u
"o me penso,,, me penso a mim mesmo pensando''. Por isso,
mimmesmoimplícito,
54 Dora Fried Schnitman

Descartes fez, inconscientemente, a operação de computação elementar: "eu sou eu


mesmo". Dito de outra maneira,fazendo a operação "eu sou eu mesmo", descobre que
este eu mesmo pensante é um sujeito. Eu sou. Se o cogito dissesse: "Ah, então existo !"
çeria uma vedadeìÌm-pêuqo insossa; poder-se-ia dizer-lhe: "bltsta que te belisques para
*oi-Ogúfet". gá mlt maneiiã; àe poderprov-ar-q"êíe ê*i*tâõrmeresffi
teu
ergo: não posso duvidar que sou um sujeito". Mas o que Descartes fez implicava o
computo. Selu cogito necessitava de um computo.
E quanto a nós mesmos, nosso cogito, ou seja,.nossa consciência de sujeito,
necessita do computo fundamental que os milhões de células de nosso cérebro fazem
emergir, sem cessaÍ, de suas interações organizadoras e criadoras. Dito de outra manei-
ra, não há cogitação (ou seja, pensamento) sem computação. Ou seja, não há cogito
semcomputo. É justamente o conhecimento que nos põe frente à tragédia da subjetivi-
dade, da que creio que a bactéria não tem consciência (que nós ao menos saibamos, pois
muitas yezes temos desconhecido a capacidade inteligente do munto vivo). Até ter maior
informação, pensamos que a bactéria não tem consciência, no sentido humano, pois a
consciência requer, ao mesmo tempo, um cérebro sumamente desenvolvido e uma lin-
guagem, ou seja, uma cultura.

'ria,
ã iiúal é necessária para a existên cia do comp1io. Dilo de outra maneira, Qçglqlgto
stnge dealgo quenão é computante, aisim"c-o.,mo ãüida, enqqqtg vida, surgg-de algo
quenao e.vi-vente,
Tas fislggquímjeg.Y_T lu,+qlry-naï1o determinado, a organização
físico-química adquire c#âèteres propriãnìènte viventes e, adquirirrdo esses cfffríeies,
obtérnápossibilidade da computação na primeira pessoa. Islo signlfica também,,que,
quando fãlo, ao mesmo tempo que eu, falamos "nós"; nós, a comunidade cálida da ciual
somos parte. Mas não há somente o "nós": no "eu falo" também está o "se fal4*Fãla-
se, álgõ-ãrìôiiiino, algo que é 4 coletividade fria. Em cada "eu" humano há algo do "nós"
e do "se". Pois o eu não é puro e não está só, nem é único. Se não existisse o se, o eu não
poderia falar.
{: E logo, certamente, est{o elqgue faìXDo, Es. Que é esse ele? É uma máquina
ti biológica, ãlgo organizacionaÌ,-dõffidõíma máquina, ainda mais anônimo que o
\ "se". Cada vez que "eu" falo, "se" fala e "ele" fala, o que leva alguns a pensar que "eu"
'\ I não existe. I pensamento unidimensional só vê q"Se'l q anula o "eu". Pelo contrário, os
que .ão vêgm mais õüe õ-ïeu'- i9 w9 a concepção
\ complexa-ãõìfreito nos@ente o "eu" a nós, ao "se" e a
"isto". Mas, aqui, aprçsenta-se o princípio daincerteza, porque nunca sei, exatamente,
em que momento sou eu quem fala, se não sou eu falando, se não há algo que fale por
=ì mim, mais forte que eu, no momento em que eu creio falar. E, talvez, neste momento,
seja isso o que está ocorrendo? Então, sempre temos incertezas: g1rÌgqq rn9ü9ry99
faia sou eu? É pot isso que a frase de Freud deve s
inspii@ò fundameìtal: "Onde está o ele, o eu deve devir". O que não significa que o
"ele", que o "se" devam desaparecer, mas que o "eu" deve emergir
.-[.[Lum segundo princípio de incerteza, o de que o sujeito oscila, por natureza,
entre o tudo e o nada. Para si mesmo, el-ãíüdo. Em virtude do princípio egocêntrico,
está no centro do mundo, é o centro do mundo. Mas, objetivamente, não é nada no
universo, é minúsculo, efêmero. Por um lado há uma gnrlnomia.-enlreJsscglyj&gi_o

ar s pleclos o,!ãq é_ r-r-ada de


e o altruís um dado momento somos
capazes de icar esse tesouro por algo qúëlõãtenha uma subjetividade mais rica,
ou ainda por 4lg_o*aq.-e-,trans:e_!=gej,ï_gje,ti-vidade e a que pogeríamos ghamar d"
le, a crença na verdade. -u-ç:dei
de, Pplg_félfgr DélSl Pglq5gçjialis*ol-.* "*
yeldade. Pç1á'fõ!'PciiDëüí'i'Perc;
+;-*
vemos, assrm. ess-ôJaradoxo da condição+!o indiyídug-:qjeilo-l A morte, para
:ada sujeito, é o equivalenìe
cada equivalente à morte do universo. É a morte total de- universo. F
um rniverqn
de rrm nor
E, por
sua vez' essa morte revela fragilidade, o quase nada dessa entidade que é o sujeito. Mas,
ao mesmo tempo, somos capazes de buscar essa morte, horror, quando oferecemos
nossas vidas pela pâtria, pela humanidade, por Deus, pela verdade.

g TanglItsupJrpa losps*c-grl9 Elsggqo, E


@u
ar, e multo mals toglco_gg_qlrg atetlvo. E uma estrutllra org41Lzado13t. E creio
que essa o nos obriga a
-...".....+**.#**
complexo. ou seJa, um pensamento capaz de unir conceitos que se rechaçam entre si e
que são suprimidos e catalogados em compartimentos fechadòs. Sabemoi que o pensa-
mento compartimentado e disciplinário ainda reina em nosso mundo. Estè obeàece a
um paradigma que rege nosso pensamento e nossas concepções segundo os princípios
a base
glg9.!p_g_gerqÊf_?,q ?mbi_v-ql-"-nç-i+-q, as incerteA4s
-e-,4,r4-g,rf,içiên-
;mo tempo, seu carátercentral e perifé-
"
rïcõ, slgnlncan-te_.gln
s i gn i fi c an!g_. 9
-i_nsigoif ircante..
-"--- -PëÏiSôQue esse é o trabalho que precisa
ser feito para que emerja a noção de
sujeito. Do contrário, só continuaremos dissolvendo-o e trãnscendentaliiando-o, e não
chegaremos a compreendê-lo j amais.

RBFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

Foerster, H.von, On self-organizing systems and their environment. Em M.C. Yovits e S. Cameron
(eds), Self organizing systems. Londres: Pergamon press, 1960.
Jaynes, J.,The originof consciousness inthe breakdownof the bicameralmrzd. Boston: Houghton
Mufflin,1976.
Morin, 8., L'Homme et la Mort. Paris: Le Seuil, 1970. [tradução para castelhano "El hombre y
la muerte", Barcelona: Kairós, 197 4.]
56 Dora Frted Schnitns

DúLOGO
Bdgar Morin, Mony Elkaïm, Félix Guattari

Mony Elkaïn: Pela riqueza da apresentação de Edgar Morin, intervirei apen:ìs


sobre um aspecto próximo às perguntas que nos colocamos no campo da terapia fami-
liar nos últimos anos.
Um dos aspectos surpreendentes nos inícios da terapia sistêmica foi um tipo de
impasse sobre a experiência vivida pelo terapeuta no contexto da terapia. A vontade &
fazer ciência nos levou a estudar os sistemas familiares, pretendendo analisar as regras
da interação familiar ou a função da sintonia da famflia, fazendo abstração da pessoa
do terapeuta. Estávamos, precisamente, na disjunção explicitada por Morin: falar, uti-
lizando uma linguagem científica, requeria fazer um impasse sobre si mesmo (o terapeuta).
Contávamos com teorias como a dos tipos lógicos que insistiam em distinguir
- lutar com os paradoxos e-a auto-referência. Este período
entre membros e classes, para
teve uma vida breve.
Edgar Morin expõe que essas disjunções se tornam insustentáveis, porque não se
pode pensar no objeto sem o sujeito e nem no sujeito sem o objeto. Assim, a partir do
impacto que produziram na terapia familiar os trabalhos de Heinz von Foerster sobre
sistemas observantes e sua insistência na auto referência, começamos a pensaÍ o sujeito
no mesmo contexto onde surge o vivido.
Nos últimos anos, no meu trabalho em terapia familiar, insisto, por exemplo, em
perguntar-me: qual é, para o sistema terapêutico em seu conjunto e os sistemas que
estão em ressonância com ele, a função do que vive e constrói o terapeuta? Em outras
palavras, quando Morin pergunta "quem fala quando eu falo?", essa pergunta ressoa
com a que eu me formulo sobre quem fala através de mim. Parto do qüe vivo, sabendo
que, obviamente, isto vai remeter a mim mesmo, porém a mim enquanto membro de um
sistema muito mais amplo.
Insisto na importante relação entre o que Morin apresentou e o que acabo de expor. A
disjunção entre sujeito e objeto, a temos vivido no cÍìmpo da terapia familiar; a ênfase na
relação entre a auto-eco-org anizaçáo e aatto-exo-referência é, efetivamente, o eixo de nossa
pesquisa atual. A reivindicação do sujeito, da subjetividade é a reivindicação de pensar em
termos sistêmicos, incorporando tanto o sujeito como o contexto.

Félix Guattari: Sei que Edgar Morin não simpatizacom a extrapolação do con-
ceito de máquina que utilizo seguidamente. Sem dúvida, Morin acaba de dar-nos um
belo exemplo de máquina conceitual, uma máquina quase implacável em seu remontar
desde os fundamentos biológicos do sujeito. Pergunto-me se poderemos descer da altura
a que nos levou a partir da discernibilidade dos princípios construtivos da maquinação
subjetiva.
Neste modo de pensar achei interessante que a apresentação de Morin não só
culminou na problemática dos valores, mas que também começa pelo sistema de valo-
res, com sua oposição entre o lugar do si mesmo e o lugar do não si mesmo que constitui
o primeiro temor de valorização. Essa tensão entre o lugar do si e não si questiona não
só a relação do indivíduo consigo mesmo, como as relações do indivíduo com seu par,
como presa de sua espécie, com contextos agressivos (enquanto pode ser apanhado em
sistemas nos quais ele desenvolve uma resposta imunitária)...
Noaos Paradipmas. Cultura e Subiethtidade 57

Seria como dizer que o local do si é, desde o princípio, um local folhado em


lâminas, um local onde as entidades de auto-referência tomam dimensões que eu chamo
"agenciamentos de enunciação à escala múltipla", implicam não só elementos de subje-
tividade, elementos de tipo humano, mas também elementos de tipo maquínico, de tipo
ambiental, contextual.
A partir daí penso que se pode amadurecer a idéia que o elemento que caracteriza
o sistemá de agenCiamento, o sistema maquínico, é o desenvolvimento de uma multis-
subjetividade enquanto indivíduo, o desenvolvimento de um filoma evolutivo enquanto
espêcie, que considera não somente o passado evolutivo, a filogênese da espécie, mas
também as virtualidades possíveis.
E, quanto à subjetividade, da qual Morin nos mostrou a composição elemento
por elemento até chegar a uma complexibilidade cerebral particularmente desenvolvida,
èxiste a possibilidade de postular bases de valorização aos níveis mais elementares?

Morin: Com Mony Elkaïm creio que confirmamos um acordo em profundidade.


Quando se fala de ciência há sempre dificuldades, porque, com freqüência, se fala
da
ciência clássica para mostrar que falamos de uma ciência limitada, encerrada numa
concepção determinista, mecânica. Prigogine e Stengers referem-se a isto em kt Nouvelle
Atianìe, mas é difícil ngmea-Lalgo-quq çeg,uq s-e1d-o_ g!ênc.ia e-q9j_teT características
completamen6ãrErenÍtt; esta mç!!agÌo-rf9^s-"_qeg:q gol}pletor. Eu falo de "ciência nova"

dou um
Itl4ò ltrç uvu sentido
ulrr òvlrltuv diferente. rge uma
Çõõã nwa õientificidade permite coÌrìi-
ona"e umã
+.^'*
derar corsas que a antiga não consiãerava, mas as velhas concepções persistem em J

enorÍnes setores do pensamento e da consciência de muitos cientistas.


Devemos lutar cütra a disìunção
disì g a favor datoniungã ou seja, estabelecer
ligações entre coisas li \
Ë;ï,ïffïï\
ïmffi*u:m"
tã7íãrtíi árticulações-ã a.temõí ffiZer um'èStõiffiãrã habïúârmõ:nõs a ôssès
macroconceltos.
as difíceis perguntas que propõe Félix Guattari. Primeiro, estamos to-
\
talmenteãe acordo em que o sujeito emerge como tal num formidável processo anterior
-*VêË*õs
ao sujeito mesmo no qual, quando há sujeito, também há outros fenômenos que não
e
são subjetivos, ainda que sejam, sem dúvida, inseparáveis'
Consideremos, agora, a questão dos valores. Os valores estão, em geral, cultural-
mente estabelecidos, em forma implícita ou explícita. Mas, o problema do sujeito é o
problema de sua identificação com seus valores. Tomemos um exemplo antropológico,
ò famoso artigo de Marcel Mauss, So!*re um priryitivo, tm ser arcaico que infringe um
tabu, e sabe qúe qualquerum que infriis6esTãffiú deveria moÍrer. Então morre, só
porque está cõnvencido de que infringiu esse tabu. Nesse momento o sujeito adere tanto
aos valores de seu grupo que finalmente sofre o poder dos valores.
Nós vivemos em sociedades onde @, como tal, gmerge a l
plqdary!ìell51gq;qUq 919-fa?*Ug.l-qqqq!bg-qe-S9Ë-YF.lqreL- os elege e' nesse I
úõ*ànto, fe't a-os consigìãre iOõtÏõâ õom eles. Eú diria que a tomada de consciência I
não pode ser, por si mesma, um ato de princípio ético, mas pode ser um ato de ilumina- J
ção ética. "'/
s8 Dora Fried SdÌnin

A consciência do nexo entre o auto e o eco dahumanidade e a biosfera permin-


nos não aderir simplesmente ao humanismo clássico que privilegiava o homem e o
tornava sobrenaturâI, se não, ao contrário, o voltava a um humanismo arraigado tanb
no mundo biológico exterior como no próprio ser biológico do homem. Penso que e
consciência nor ãá a possibilidade de ilúminar uma ética que excede aqu-eles imperai
vos que não podem sãr provados como um teorema ou uma teoria científica'
penso que o sujeiìo moderno é a sede de conflitos éticos, ou seja, de imperativm
que são igualàente fórtes, mas que, num dado momento, são igualmente antagônicos
iouis MÃsignon, que foi um gránde conhecedor das civilizações islâmicas, gostavade
citar o exemplo de uma mulhei de uma tribo beduína, cujo marido havia sido assassie
do por um hòmem de u@ fatal da v endetta. O assassino de
seu marido, procurado pelos irmãos do morto, chega uma noite
pedindo asilo na tendl
desta viúva. Esta viúva tem um duplo vínculo, um conflito ético entre duas leis sagra-
das: a lei sagrada da hospitalidaa"@gança. como podia resolver
com os cunhadm
este noiteãïì^ilõnõcfiãTeguinte
que não sfo
matar o assassino. Este é umìonflito ético que se situa em civilizações
modernas, que não são as nossas.
Nós mesmos temos conflitos entre uma ética da proxemia, que nos diz que deve-
demanda
mos ajudar aos que estão perto de nós, e uma ética da universalidade que nos
dedicar-nos uo b"* coletivo. Pode haver conflitos, temos conflito justamente porqrc
temos múltiplas injunções contrárias'
Os duplos ufn"uto. não são só cognitivos. D,o, meu ponto de vista, são também
éticos. Há dois bens que lutam e não sJpode sacrificar um ao outro. Aqui
se situa a
tomada de consciênciá. A tomada de consiiência, hoje, não é somente tomar consciêrr
a
cia ética, mas, também, falar como Félix Guattari, consciência ecosófica, expressão
que estou aderindo. É umãTómdla-ilêõínsciência em permanente conflito, que somente
que nos volta a trezer sempre a
ìiõõefiõsffiFTazendo apostas incertas e aleatórias, o
nossa condi çío de sujeito, que é a de viver na incerteza e no risco.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
prigogine, I. e Stengers,I. La nouvelle alliance. Paris: Gallimard,19'19.

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