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Ezequiel 34

1 A palavra do SENHOR veio a mim nestes termos: 2“Filho do


homem, profetiza contra os pastores de Israel! Profetiza, dizendo-
lhes: Assim diz o Senhor DEUS aos pastores: Ai dos pastores de
Israel que se apascentam a si mesmos! Acaso os pastores não devem
apascentar as ovelhas? 3Comeis de seu leite, vestis sua lã e matais os
animais gordos, mas não apascentais as ovelhas. 4Não fortalecestes a
ovelha fraca, não curastes a ovelha doente nem enfaixastes a ovelha
quebrada. Não trouxestes de volta a ovelha desgarrada, não
procurastes a ovelha perdida, mas as dominastes com dureza e
brutalidade. 5As ovelhas se dispersaram por falta de pastor, tornaram-
se presa de todos os animais selvagens. Dispersaram-se 6minhas
ovelhas e vaguearam sem rumo por todos os montes e colinas
elevadas. Minhas ovelhas se dispersaram por toda a extensão do país,
sem que ninguém perguntasse por elas ou as procurasse. 7Por isso,
pastores, ouvi a palavra do SENHOR! 8† Juro por minha vida —
oráculo do Senhor DEUS — uma vez que minhas ovelhas foram
entregues à pilhagem, tornando-se presa de todos os animais
selvagens por falta de pastor; uma vez que meus pastores não se
preocuparam com minhas ovelhas, apascentando-se a si mesmos em
vez das ovelhas, 9por isso, pastores, ouvi a palavra do SENHOR!
10Assim diz o Senhor DEUS: Eu mesmo me ponho contra os pastores

para reclamar deles as minhas ovelhas e lhes cassar o ofício de pastor.


Esses pastores não mais poderão apascentar-se a si mesmos.
Resgatarei de sua boca minhas ovelhas, que não lhes servirão mais de
alimento. 11Pois assim diz o Senhor DEUS: Eis que eu mesmo
buscarei minhas ovelhas e tomarei conta delas. 12Como o pastor toma
conta do rebanho quando ele próprio se encontra no meio das ovelhas
dispersadas, assim irei visitar as minhas ovelhas e as resgatarei de
todos os lugares em que foram dispersadas em dia de nuvens e de
escuridão. 13Eu as retirarei do meio dos povos e as recolherei do meio
dos países para conduzi-las à sua terra. Apascentarei as ovelhas sobre
os montes de Israel, no vale dos córregos e em todas as regiões
habitáveis do país. 14Eu as apascentarei em viçosas pastagens, e no
alto monte de Israel estará o seu curral. Ali repousarão num belo
redil e pastarão em suculentas pastagens sobre os montes de Israel.
15Eu mesmo apascentarei minhas ovelhas e as farei repousar —

oráculo do Senhor DEUS. 16Procurarei a ovelha perdida, reconduzirei


a desgarrada, enfaixarei a quebrada, fortalecerei a doente e vigiarei a
ovelha gorda e forte. Vou apascentá-las conforme o direito. 17“Quanto
a vós, minhas ovelhas, assim diz o Senhor DEUS: Julgarei entre uma
ovelha e outra, entre carneiros e bodes. 18Não vos bastou pastar na
viçosa pastagem para ainda pisotear com as patas o restante de
vossos pastos? Beber água cristalina e turvar com os cascos o resto
das águas? 19Assim minhas ovelhas devem pastar o que pisoteastes
com as patas e beber a sujeira de vossos cascos. 20Por isso, assim diz
o Senhor DEUS: Aqui estou, eu mesmo, para julgar entre a ovelha
gorda e a ovelha magra. 21Porque empurrastes com os flancos e com
as espáduas todas as ovelhas fracas, dando-lhes chifradas a ponto de
dispersá-las para longe, 22vou libertar minhas ovelhas e já não
servirão para a pilhagem. Vou julgar entre uma ovelha e outra.
23“Para apascentá-las estabelecerei sobre elas um único pastor, o meu

servo Davi. Ele as apascentará e lhes servirá de pastor. 24Eu, o


SENHOR, serei o seu Deus e o meu servo Davi será príncipe entre
eles. Eu, o SENHOR, falei. 25Farei com eles uma aliança de paz, farei
desaparecer os animais ferozes do país, de modo que poderão morar
em segurança no deserto e dormir nos bosques. 26Darei a eles e aos
arredores de minha colina uma bênção, farei cair chuva a seu tempo,
chuvas que serão uma bênção. 27As árvores do campo produzirão
fruto e a terra dará seu produto, e eles estarão em segurança na sua
terra. Saberão que eu sou o SENHOR quando eu lhes quebrar as
cavilhas do jugo e os libertar da mão dos que os escravizam. 28Já não
servirão de pilhagem para as nações, e os animais selvagens não
tornarão a devorá-los. Morarão em segurança sem que ninguém os
aterrorize. 29Farei germinar para eles plantações tão fabulosas que
não haverá mais focos de fome no país, nem terão de suportar a
injúria das nações. 30Assim saberão que eu, o SENHOR, sou o Deus-
com-eles, e eles, o meu povo, a casa de Israel — oráculo do Senhor
DEUS. 31E quanto a vós, minhas ovelhas, ovelhas de minha pastagem,
vós sois seres humanos, e eu sou o vosso Deus — oráculo do Senhor
DEUS”.

Sermão sobre os pastores, de Santo Agostinho, bispo


(Sermo 46,1-30: CCL 41,529-557) (Séc. V)
Somos cristãos e pastores
Não é de agora que vossa caridade sabe que nossa esperança está
toda em Cristo e que nossa verdadeira glória de salvação é ele. Sois
do rebanho daquele que guarda e apascenta Israel. Mas por haver
pastores que apreciam este nome, porém não querem exercer seu
ofício, vejamos o que a seu respeito diz o Profeta. Escutai vós com
atenção; escutemos nós com temor.
Foi-me dirigida a palavra do Senhor que dizia: Filho do homem,
profetiza contra os pastores e dize aos pastores de Israel (Ez 34,1-2).
Acabamos de ouvir a leitura deste trecho; resolvemos então falar-vos
algo. O Senhor nos ajudará a dizer o que é verdadeiro, se não
dissermos o que é nosso. Pois se dissermos o que é nosso seremos
pastores a nos apascentar a nós, não as ovelhas. Se, ao contrário,
dissermos o que é dele, será ele que vos apascenta por intermédio de
quem quer que seja.
Assim diz o Senhor Deus: Ó pastores de Israel, que se
apascentam a si mesmos! Acaso não são as ovelhas que os pastores
têm de apascentar? (Ez 34,2) quer dizer, os pastores apascentam
ovelhas, não a si mesmos. É este o primeiro motivo de repreensão a
tais pastores, que apascentam a si e não as ovelhas. Quem são estes
que se apascentam? O Apóstolo diz: Todos procuram seu interesse,
não o de Jesus Cristo (Fl 2,21).
Quanto a nós, a quem o Senhor, por sua benevolência e não por
mérito nosso, estabeleceu neste cargo de que teremos difíceis contas
a dar, devemos distinguir bem duas coisas:a primeira, somos cristãos,
a segunda, somos bispos. Somos cristãos para nosso proveito; e
somos bispos para vós. Como cristãos, atendemos ao proveito nosso;
como bispos, somente ao vosso.
E são muitos os cristãos não bispos que vão a Deus por caminho
mais fácil talvez, e andam com tanto mais desembaraço quanto
menos peso carregam. Nós, porém, além de cristãos, tendo de prestar
contas a Deus de nossa vida, somos também bispos e teremos de
responder a Deus por nossa administração.
Pastores que se apascentam a si mesmos
Vejamos, portanto, o que aos pastores que se apascentam a si
mesmos, não as ovelhas, diz a palavra divina que não adula a
ninguém: Eis que bebeis o leite e vos cobris com a lã; matais as mais
gordas e não apascentais minhas ovelhas. Não fortalecestes a fraca;
não curastes a doente; não pensastes a ferida, não reconduzistes a
desgarrada e não fostes em busca da que se perdera; tratastes com
dureza a forte. E minhas ovelhas se dispersaram, por não haver
pastor (Ez 34,3-5).
Começa por dizer que é que apreciam e o que descuidam aqueles
pastores que se apascentam a si, não as ovelhas. Que apreciam?
Bebeis o leite, vos cobris com lã. Diz o Apóstolo: Quem planta uma
vinha e não se alimenta de seu fruto? Quem apascenta um rebanho e
não se serve do leite? (1Cor 9,7) Entendemos por leite do rebanho
tudo quanto o povo de Deus dá ao bispo para sustento da vida
terrena. Era o que queria dizer o Apóstolo com as palavras citadas.
Embora preferisse viver do trabalho de suas mãos, sem esperar,
nem mesmo o leite das ovelhas, o Apóstolo, no entanto, declarou ter
o direito de recebê-lo, e ter o Senhor determinado que vivam do
Evangelho aqueles que anunciam o Evangelho (cf. 1Cor 9,14). E
acrescentou que os outros apóstolos usavam deste direito, não
usurpado, mas concedido. Mais fez ele, por não querer receber o que
lhe era devido. Dispensou a dívida, mas não era indevido aquilo que
outros aceitaram; ele fez mais. Talvez o prefigurasse aquele que, ao
levar o ferido à estalagem, dissera: Se gastares mais, pagar-te-ei ao
voltar (Lc 10,35).
Daqueles, pois, que não precisam do leite das ovelhas, que
diremos ainda? São misericordiosos, ou melhor, com liberalidade
maior cumprem seu ofício de misericórdia. Podem, e o que podem,
fazem. Elogiemos a estes sem condenar os outros. Este mesmo
Apóstolo não procurava presentes. Desejava com ardor que fossem
fecundas as ovelhas, não estéreis, sem a riqueza do leite.
O exemplo de Paulo
Estando Paulo, certa ocasião, em grande indigência e preso pela
proclamação da verdade, alguns irmãos enviaram-lhe com que acudir
a suas necessidades. Agradecido, responde-lhes: Fizestes bem
provendo-me do necessário. Eu, porém, aprendi a bastar-me em
qualquer situação. Sei ter muito e sei passar privações. Tudo posso
naquele que me dá forças. No entanto fizestes bem em enviar-me
aquilo de que preciso (cf. Fl 4,10-14).
Mas desejando mostrar o que é que lhe interessava neste gesto em
seu favor – não houvesse acaso entre eles algum dos que se
apascentam a si e não as ovelhas – não se alegra tanto por ter sido
socorrido em sua necessidade, quanto se congratula com eles por sua
liberalidade. O que procurava então? Diz: Não porque espero dádivas
para mim, mas porque busco frutos para vós (Fl 4,17). Não para que
me sacie eu, mas para que não fiqueis vazios vós.
Que aqueles que não podem, como Paulo, sustentar-se com o
trabalho de suas mãos, aceitem o leite das ovelhas, supram as suas
necessidades, mas não descuidem a fraqueza das ovelhas. Não
procurem isto para o próprio proveito, como se anunciassem o
Evangelho só para atender a sua penúria, mas tenham em mira a luz
da palavra da verdade a fim de iluminar os homens. Pois parecem-se
com lâmpadas, como foi dito: Estejam vossos rins cingidos e
lâmpadas acesas (Lc 12,35); e: Ninguém acende uma lâmpada e a põe
debaixo da vasilha, mas sobre o candelabro a fim de iluminar aqueles
que estão em casa; assim brilhe vossa luz diante dos homens para que
vejam vossas boas obras e glorifiquem vosso Pai que está nos céus
(Mt 5,15-16).
Se para teu uso acendessem em casa uma lâmpada, não lhe porias
mais óleo para não se extinguir? Todavia, se mesmo com óleo a
lâmpada não brilhasse, não seria de modo algum digna de ser posta
no candelabro, mas logo quebrada. O bastante para viver, por
necessidade se aceita, por caridade se dá. Não seja o Evangelho um
objeto venal, como se fosse o preço que recebem os que o anunciam
para terem com que viver. Se assim o vendem, por uma ninharia
vendem uma coisa preciosa. Do povo recebem o sustento necessário;
do Senhor, a recompensa de seu ministério. Não é o povo o indicado
para dar a recompensa àqueles que servem ao Evangelho na caridade.
Estes esperam sua recompensa da mesma fonte de que os outros
aguardam a sua salvação.
Por que então são repreendidos? Por que censurados? É que,
bebendo o leite e cobrindo-se com a lã, descuravam as ovelhas.
Procuravam apenas seu interesse, não o de Jesus Cristo.
Não procure cada um os seus interesses, mas os de Jesus Cristo
Já dissemos o que é tomar o leite. Vejamos o que seja cobrir-se
com a lã. Quem oferece o leite, dá o alimento; e quem oferece a lã,
presta homenagens. São estas as duas coisas que esperam do povo
aqueles que se apascentam a si mesmos e não as ovelhas: lucros para
prover a suas necessidades, honras e aplausos.
Há motivo para se entender a veste como honra, pois cobre a
nudez. Todo homem é fraco, e, portanto, é frágil o vosso pastor.
Aquele que vos governa não é um homem como vós? Tem corpo, é
mortal, come, dorme, levanta-se; nasceu, irá morrer. Se refletes no
que é em si mesmo, é um homem. Tu, porém, dando-lhe honra a
mais, como que lhe cobres a fraqueza.
Vede como o próprio Paulo aceitou uma veste do bom povo de
Deus: Vós me recebestes como um anjo de Deus. Dou testemunho de
que, se fosse possível, teríeis arrancado os olhos para mos dar (Gl
4,14-15). Mas, acolhido com tanta honra, teria, porventura, por causa
desta honra, poupado os transgressores para não ser rejeitado e
menos aplaudido ao censurar? Se assim tivesse agido estaria entre
aqueles que se apascentam a si e não as ovelhas. Diria talvez de si
para consigo: “Que me importam? Que façam o que quiserem; meu
sustento está garantido, minha boa fama está salva: leite e lã, isto me
basta; que cada um se arranje como puder”. Então tudo está perfeito,
se cada um se arranjar como puder? Não te vou considerar bispo;
imagino-te como um do povo: Se um membro padece, todos os
demais membros padecem com ele (1Cor 12,26).
Por conseguinte, recordando como se haviam comportado com
ele, não parecesse esquecido de suas atenções, o Apóstolo dá
testemunho de ter sido acolhido como um anjo de Deus e de que, se
pudessem, arrancariam os olhos para lhos dar. E, no entanto, foi à
ovelha doente, à ovelha infeccionada para cortar a ferida e não para
manter a podridão. Assim fala: Logo tornei-me vosso inimigo por
pregar a verdade? (Gl 4,16). Reparai: aceitou o leite das ovelhas, como
lembramos acima, e vestiu-se com a lã, mas não deixou de cuidar das
ovelhas. Porque não buscava seu interesse, mas o de Jesus Cristo.
Sê modelo dos fiéis
O Senhor mostrou o que estes pastores amam, mostrou também o
que negligenciam. Os males das ovelhas estendem-se por toda parte.
As sadias e robustas, isto é, as fortes pelo alimento da verdade, que se
aproveitam bem das pastagens, por dom de Deus, são pouquíssimas.
Os maus pastores, porém, não as poupam. É-lhes pouco não
cuidarem das doentes, das fracas, das desgarradas e perdidas. Tanto
quanto podem, também matam as fortes e gordas. Mas estas
continuam vivas. Vivem pela misericórdia de Deus. Contudo, no que
diz respeito aos maus pastores, eles matam. “Matam de que modo?”
perguntas. Vivendo mal, dando mau exemplo. Foi em vão que se
disse ao servo de Deus, ao colocado mais alto entre os membros do
supremo Pastor: Mostrando-te a todos como exemplo de boas obras?
e: Sê modelo dos fiéis (cf. 1Tm 4,12).
Presenciando continuamente a má conduta de seu pastor, uma
ovelha, mesmo forte, se desviar os olhos dos preceitos do Senhor e
fixá-los no homem, começará a dizer em seu coração: “Se meu
superior vive desse modo, quem sou eu para não fazer o que ele faz?”
Matou a ovelha forte. Se matou a forte a quem não alimentou, que
fará com as outras, ele que, vivendo mal, destruiu o que encontrara
forte e robusto?
Digo à vossa caridade e repito. Mesmo que as ovelhas continuem
vivas, ainda que sejam fortes pela palavra do Senhor e guardem o que
dele ouviram: Fazei o que dizem, não o que fazem (Mt 23,3).
Contudo aquele que vive mal diante do povo, no que lhe diz respeito,
mata o que o observa. Não se iluda porque se vê que ele não morreu.
Este continua vivo, aquele é homicida. Assim como um homem que
olha para uma mulher desejando-a, embora ela permaneça casta, ele
já cometeu adultério. É verdadeira e clara a palavra do Senhor: Quem
olhar para uma mulher com mau desejo, já cometeu adultério em seu
coração (Mt 5,28). Não entrou em seu quarto, mas no quarto de seu
coração já a abraçou.
Assim, quem vive mal diante de seus subordinados, no que lhe diz
respeito, mata até os fortes. Quem o imita, morre; quem não o imita,
vive. No entanto, quanto a ele, destrói a ambos. E o que é robusto
matais e não apascentais minhas ovelhas (Ez 34,3).
Prepara-te para a tentação
Já sabeis o que amam os maus pastores. Vede o que descuidam.
Ao enfermo não fortificastes; do doente não cuidastes; o machucado,
isto é, fraturado, não pensastes; ao desgarrado, não reconduzistes; ao
que se perdia não fostes procurar e ao forte oprimistes (Ez 34,4),
matastes, destruístes. A ovelha se enfraquece, quer dizer, tem coração
débil, imprudente e desprevenido, a ponto de ceder às tentações que
sobrevierem.
O pastor negligente, quando alguém se lhe confia, não lhe diz:
Filho, vindo para servir a Deus, mantém-te na justiça e prepara-te
para a tentação (cf. Eclo 2,1). Quem assim fala fortifica o fraco e de
fraco faz firme, de modo que, se lhe forem confiados os bens deste
mundo, não se fiará neles. Se, contudo, houver aprendido a fiar-se na
prosperidade terrena, por esta mesma prosperidade será corrompido;
sobrevindo adversidades, ferir-se-á e talvez pereça.
Quem assim o edifica, não o constrói sobre pedra, mas sobre a
areia. A pedra era Cristo (cf. 1Cor 10,4). Os cristãos têm de imitar os
sofrimentos de Cristo e não, ir atrás de prazeres. O fraco se fortifica,
quando lhe dizem: “Espera, sim, provações neste mundo, mas de
todas elas te livrará o Senhor, se teu coração não voltar atrás. Pois
para fortalecer teu coração veio padecer, veio morrer, veio ser
coberto de escarros, veio ser coroado de espinhos, veio ouvir
insultos, veio enfim ser pregado na cruz. Tudo isto por tua causa, e tu,
nada: não para ele, mas em teu favor”.
Quais são estes que, por temerem ofender os ouvintes, não apenas
não os prepararam para as inevitáveis provações, mas prometem a
felicidade neste mundo, que Deus não prometeu a este mundo? Ele
predisse labutas e mais labutas, que até o fim sobreviriam a este
mundo. E tu queres que o cristão esteja isento destas labutas?
Justamente por ser cristão, sofrerá algo mais neste mundo.
Com efeito disse o Apóstolo: Todos aqueles que querem viver
sinceramente em Cristo, sofrerão perseguições (2Tm 3,12). Agora tu,
pastor insensato, que procuras os teus interesses e não os de Jesus
Cristo, deixa que ele diga: Todos aqueles que querem viver
sinceramente em Cristo, sofrerão perseguições. E por tua conta vai
dizendo: “Se em Cristo viveres piedosamente, terás abundância de
todos os bens. Se não tens filhos, tê-lo-ás e os criarás, e nenhum
morrerá”. É esta tua construção? Olha o que fazes, onde a colocas.
Sobre a areia a constróis. Virá a chuva, o rio transbordará, soprará o
vento, baterão contra esta casa; ela cairá e será grande sua ruína.
Tira-a da areia, põe-na sobre a pedra: esteja em Cristo aquele a
quem desejas ver cristão. Observe os injustos sofrimentos de Cristo,
observe-o sem pecado, pagando o que não devia, observe a Escritura
a lhe dizer: O Senhor castiga todo aquele que reconhece como filho
(Hb 12,6). Ou se prepare para ser castigado, ou não procure ser aceito.
Oferece a atadura do conforto
Diz a Escritura: Deus castiga todo aquele que reconhece como
filho (Hb 12,6). E tu dizes: “Quem sabe ficarás de fora?” Se ficares
fora do sofrimento dos castigos, ficarás de fora do número dos filhos.
“Quer dizer então, perguntas, que castiga todo filho?”
Castiga sem exceção todo filho, como também o Único. O
Unigênito, nascido da substância do Pai, igual ao Pai na forma de
Deus, o Verbo por quem tudo foi feito, este não tinha por onde ser
castigado. Para isto revestiu-se de carne, de modo a não ficar sem
castigo. Aquele, pois, que castiga o Único sem pecado, irá poupar o
adotado pecador? Fomos chamados para a adoção, assegura o
Apóstolo. Recebemos a adoção de filhos, para sermos coerdeiros do
Único, sermos também sua herança: Pede-me e eu te darei as nações
por herança (Sl 2,8). Deu-nos o exemplo em seus sofrimentos.
Todavia para que o fraco não desanime totalmente ante as
provações futuras, nem se iluda com falsa esperança nem se deixe
abater pelo medo, diz-lhe: Prepara tua alma para a tentação (Eclo
2,1). Talvez comece a escorregar, a tremer, a não querer aproximar-se.
Lês em outro lugar: Fiel é Deus que não permitirá serdes tentados
além do que podeis suportar (1Cor 10,13). Afirmar e anunciar futuros
sofrimentos é fortalecer o enfermo. Se prometes a misericórdia de
Deus a quem está por demais acovardado, e por isso aterrorizado, não
porque faltarão provações, mas porque Deus não permite alguém ser
tentado acima de suas forças, estás com isto medicando a fratura.
Há alguns que, ouvindo falar de futuras tribulações, se armam
ainda mais e têm sede delas como de bebida. Julgam fraco o remédio
dos fiéis e buscam a glória dos mártires. Há outros, porém, que com
o anúncio das futuras e necessárias provações, que precisamente
devem vir ao cristão e não atingem senão ao que quiser ser
sinceramente cristão, na iminência delas, ficam alquebrados e
vacilam.
Oferece-lhe a atadura da consolação, pensa o que está fraturado.
Dize: “Não tenhas medo. Não te abandonará nas provações aquele
em quem acreditaste”. Fiel é Deus que não permitirá seres tentado
acima do que podes suportar. Não sou eu que digo isto, mas o
Apóstolo: Quereis conhecer por experiência que Cristo fala em mim?
(cf. 2Cor 13,3). Portanto, ouvindo estas palavras, ouves a Cristo,
ouves aquele pastor que apascenta Israel. A ele disseram: Tu nos
darás a beber lágrimas, com medida (Sl 79,6). O apóstolo diz: Não
permitirá serdes tentados além do que podeis suportar. É a mesma
coisa que dissera o Profeta: Com medida. Somente não despeças
aquele que corrige e exorta, amedronta e consola, fere e cura.
Os cristãos enfermos
Ao enfermo, diz o Senhor, não fortificastes (Ez 34,4). Diz aos
maus pastores, aos pastores falsos, que buscam seu interesse, não o
de Jesus Cristo. Aos que se alegram com as dádivas do leite e da lã,
mas descuram totalmente as ovelhas e não cuidam das doentes.
Parece-me haver diferença entre enfermo e doente – pois costuma-se
chamar de enfermos os doentes; enfermo quer dizer não firme, e
doente o que se sente mal.
Na verdade, irmãos, esforçamo-nos de algum modo por distinguir
estas coisas, mas talvez com maior aplicação poderíamos nós ou
outro mais entendido e com o coração mais cheio de luz discernir
melhor. À espera disto, para que não sejais privados em relação às
palavras da Escritura, falo o que penso. É de se temer sobrevenha
uma tentação ao enfermo que o debilite. O doente, ao contrário, já
adoeceu por alguma ambição e por esta ambição se vê impedido de
entrar no caminho de Deus, de submeter-se ao jugo de Cristo.
Observai esses homens que desejam viver bem, já decididos a
viver bem. São, no entanto, menos capazes de suportar os males do
que fazer o bem. Pertence à firmeza do cristão não apenas fazer o
bem, mas também tolerar os males. Aqueles, pois, que parecem
ardentes nas boas obras, mas não querem ou não podem suportar as
provações iminentes, estes são enfermos. Por outro lado, aqueles que
amam o mundo e por qualquer desejo mau se afastam até das obras
boas, jazem gravemente doentes, visto que pela doença, sem forças,
nada de bom podem realizar.
O paralítico era um destes, na alma. Os que o carregavam, não
podendo levá-lo até junto do Senhor, descobriram o teto e fizeram-no
descer. É isto que terias de fazer: descobrir o teto e colocar junto do
Senhor a alma paralítica, com todos os membros frouxos, e vazia de
obras boas, curvada sob o peso dos pecados e doente com o mal de
sua cobiça. Portanto, se todos os seus membros estão frouxos e há
paralisia interior para levá-la ao médico – talvez o médico esteja
escondido no teu interior: seria este um sentido oculto nas Escrituras
– se queres descobrir-lhe o que está oculto, descobre o teto e faze
descer diante dele o paralítico.
A quem assim não procede e desdenha fazê-lo, ouvistes o que lhe
dizem: Aos doentes não fortalecestes, ao fraturado não pensastes (Ez
34,4); já explicamos esta passagem. Estava alquebrado pelo terror das
provações. Mas surge algo que restaura a fratura, estas palavras de
consolo: Fiel é Deus que não permitirá serdes tentados além do que
podeis suportar, mas com a tentação vos dará o meio de sair dela para
que a possais suportar (1Cor 10,13).
Insiste a tempo e fora de tempo
A desgarrada não reconduzistes e a que se perdia não fostes
procurar (Ez 34,4). Aqui às vezes caímos em mãos dos ladrões e nos
dentes dos lobos vorazes. Rogamos, pois, que oreis por estes nossos
perigos. Também as ovelhas são rebeldes. Quando procuramos as
erradias, declaram não ser nossas, para seu erro e perdição: “Que
quereis de nós? Por que nos procurais?” Como se não fosse o mesmo
motivo que nos faz querê-las e procurá-las; porque se desviam e se
perdem. “Se estou no erro, diz, se na morte, que queres de mim? Por
que me procuras?” Justamente porque estás no erro, quero
reconduzir-te; porque te perdeste quero encontrar-te. “Quero assim
errar, quero assim me perder”.
Queres vaguear assim, queres perder-te assim? Muito bem, mas eu
não quero. Ouso dizer isto mesmo: sou importuno. Escuto o Apóstolo
que diz: Prega a palavra, insiste a tempo e fora de tempo (2Tm 4,2).
Com quem, a tempo? Com quem, fora de tempo? A tempo com os
desejosos, fora de tempo com os que não querem ouvir. Sou
inteiramente importuno, ouso dizer: “Tu queres errar, tu queres
perecer; eu não quero”. E afinal não o quer Aquele que me faz
tremer. Se eu quiser o erro, vê o que me dirá, vê como me
repreenderá: Ao desgarrado não reconduzistes, ao que se perdera
não fostes procurar. Temerei mais a ti do que a Ele? Teremos todos
de nos apresentar ao tribunal de Cristo (2Cor 5,10).
Reconduzirei a desgarrada, procurarei a perdida. Quer queiras
quer não, assim farei. E se, em minha busca, os espinhos dos bosques
me rasgarem, eu me obrigarei a ir por todos os atalhos difíceis.
Baterei todos os cercados; enquanto me der forças o Senhor que me
ameaça, percorrerei tudo sem descanso. Reconduzirei a desgarrada,
procurarei a perdida. Se não queres que eu sofra, não te desgarres,
não te percas. É pouco dizer que tenho pena de ti, desgarrada e
perdida. Tenho medo de que, se te abandonar, venha a matar o que é
forte. Escuta o que se segue. E ao que era forte, matastes (Ez 34,3).
Se eu abandonar a desgarrada e perdida, o que é forte terá gosto em
desgarrar-se e perder-se.
A Igreja, qual videira, ao crescer estende-se por todos os lados
Por todo monte, por toda colina e por toda a face da terra se
dispersaram (Ez 34,6). Que significa: Por toda a face da terra se
dispersaram? Entregando-se a tudo que é terreno, amam o que brilha
na face da terra, preferem isto. Não querem morrer para que sua vida
fique escondida em Cristo. Por toda a face da terra, pelo amor às
coisas terrenas; ou porque há ovelhas desgarradas por toda a face da
terra. Estão em diversos lugares; uma só mãe, a soberba, as deu à luz,
como uma só, a nossa mãe católica, gerou todos os fiéis cristãos
dispersos por todo o mundo.
Não é de admirar se a soberba gera a separação, a caridade, a
unidade. Contudo esta mãe católica, este pastor dentro dela procura
por toda parte os desgarrados, fortifica os enfermos, cura os doentes,
pensa os fraturados; a uns por meio destes, a outros por meio
daqueles, sem se conhecerem mutuamente. No entanto ela a todos
conhece porque por todos se estende.
Ela se assemelha à videira que, ao crescer, se estende por todos os
lados; junto dela há ramos inúteis, cortados pela foice do agricultor
por causa de sua esterilidade, de sorte que a videira é podada, não
amputada. Estes ramos, onde foram cortados, aí ficaram.
A videira, porém, crescendo por todos os lados, não só conhece os
ramos presos a ela, mas ainda os que foram cortados.
Todavia aí vai buscar os erradios porque a respeito dos ramos
partidos diz o Apóstolo: Deus é poderoso para enxertá-los de novo
(Rm 11,23). Quer compares a ovelhas desgarradas do rebanho, quer a
ramos cortados da videira, não é menos poderoso Deus para
reconduzir as ovelhas do que é para enxertar os ramos, pois é o
grande pastor, o agricultor verdadeiro. E por toda a face da terra se
dispersaram; e não houve quem as buscasse, quem as reconduzisse;
entre os maus pastores, porém, não houve um homem que as
procurasse (cf. Ez 34,7).
Por isso ouvi, pastores, a palavra do Senhor: Por minha vida, diz
o Senhor Deus (cf. Ez 34,7). Vede por onde começa. Como por um
juramento de Deus, um testemunho de sua vida: Por minha vida, diz
o Senhor. Os pastores morreram, mas as ovelhas estão em segurança;
o Senhor vive. Por minha vida, diz o Senhor Deus. Quais os pastores
que morreram? Os que procuravam seu interesse, não o de Jesus
Cristo. Haverá então e se poderão encontrar pastores que não
busquem o que é seu, mas o que pertence a Jesus Cristo? Sem dúvida
alguma, haverá e decerto se encontrarão; não faltam nem faltarão
jamais.
Fazei o que dizem, não o que fazem
Por esta razão ouvi, pastores, a palavra do Senhor. Mas, pastores,
ouvi o quê? Isto diz o Senhor Deus: Vou intimar os pastores e
reclamarei de suas mãos as minhas ovelhas (Ez 34,9).
Ouvi e ficai sabendo, ovelhas de Deus: ele reclama dos maus
pastores as suas ovelhas e pede-lhes contas das que morreram. Em
outro lugar diz pelo mesmo Profeta: Filho do homem, eu te constituí
sentinela na casa de Israel. Ouvirás uma palavra de minha boca e
alertá-los-ás de minha parte. Se eu disser ao pecador: Morrerás por
certo e se tu não a repetires para que o ímpio abandone seus
caminhos, ele, pecador, morrerá com seu pecado, mas exigirei de tua
mão seu sangue. Se, ao contrário, advertires ao pecador que deixe
seu caminho e ele não quiser dele se afastar, morrerá por seu
pecado, mas tu livrarás tua alma (Ez 33,7-9).
Que quer dizer isto, irmãos? Vedes como é perigoso calar? Morre
o ímpio e morre justamente; morre em sua impiedade e em seu
pecado; sua indiferença o matou. Pois poderia encontrar o pastor
interessado que diz: Por minha vida, diz o Senhor. Mas por ser
indiferente e não advertido por aquele que é guarda e sentinela, é
justo que morra aquele e que este seja condenado. Se porém disseres
ao ímpio a quem ameacei com a espada: Morrerás por certo e ele
nada fizer para evitar a espada, esta virá e o matará. Morrerá por seu
pecado; tu, porém, livraste tua alma. Por isto, a nós cabe-nos não
calar; a vós, mesmo se calarmos, cabe ouvir pela Sagrada Escritura
as palavras do Pastor.
Vejamos, como era a minha intenção, se ele retira as ovelhas aos
maus pastores e as dá aos bons. Vejo-o, de fato, tirando as ovelhas
aos maus pastores, quando diz: Eu enfrentarei os pastores e
reclamarei as minhas ovelhas das suas mãos; não permitirei que
apascentem mais as minhas ovelhas e deixarão de ser pastores (Ez
34,10). Eu disse-lhes que apascentassem as minhas ovelhas, mas eles
apascentam-se a si mesmos e não as minhas ovelhas. Por isso, não
permitirei que apascentem mais as minhas ovelhas.
Como é que afastará, a fim de que não mais apascentem suas
ovelhas? Fazei o que dizem, não façais o que fazem (cf. Mt 23,3).
Como se dissesse: “Dizem o que é meu, fazem o que é seu”.
Quando não fazeis o que os maus pastores fazem, estes não vos
apascentam; quando fazeis o que dizem, sou eu que vos apascento.
Em boas pastagens apascentarei minhas ovelhas
E as retirarei dentre as nações, reuni-las-ei de todos os lugares e
as conduzirei para sua terra e as apascentarei sobre os montes de
Israel (Ez 34,13). Ele criou os montes de Israel; são os autores das
divinas Escrituras. Alimentai-vos ali onde com segurança
encontrareis alimento. Que vos cause gosto tudo quanto dali
ouvirdes; aquilo que lhe é estranho, rejeitai. Não vagueeis no meio do
nevoeiro; ouvi a voz do pastor. Reuni-vos nos montes da Sagrada
Escritura. Aí se acham as delícias de vosso coração; aí, nada de
venenoso, nada de contrário; são pastagens fertilíssimas. Vinde,
somente vós, sadias, nutri-vos nos montes de Israel.
E nas nascentes e em todo lugar habitado da terra (Ez 34,13 Vulg).
Dos montes a que nos referimos brotaram as nascentes da pregação
evangélica, quando por toda a terra se difundiu sua voz (cf. Sl 18,5).
E toda a terra habitada se tornou amena e fecunda para alimento das
ovelhas.
Em boas pastagens e nos altos montes de Israel as apascentarei.
E ali estarão colocados seus redis (Ez 34,14), quer dizer, onde irão
descansar, onde dirão: “Como é bom aqui”, onde dirão: “É verdade,
está tudo claro, não fomos enganadas”. Repousarão na glória de
Deus, como em seu redil. E dormirão, isto é, repousarão, em
grandes delícias.
Em férteis campos serão apascentadas sobre os montes de Israel
(Ez 34,14). Já falei dos montes de Israel, dos bons montes para onde
erguemos os olhos para daí nos vir auxílio. Mas o nosso auxílio vem
do Senhor, que fez o céu e a terra (cf. Sl 123,8). Por isso, para que
nem mesmo nos bons montes esteja nossa esperança, tendo dito:
Apascentarei minhas ovelhas sobre os montes de Israel, e para que tu
não te fixes nos montes, acrescenta logo: Eu apascentarei minhas
ovelhas. Ergue os olhos para os montes, donde te virá auxílio, mas
presta atenção ao que te diz: Eu apascentarei. Pois teu auxílio vem
do Senhor que fez o céu e a terra.
Termina assim: E as apascentarei com justiça (Ez 34,16). Reparai
que só ele apascenta desse modo, aquele que apascenta com justiça.
Que pode um homem julgar acerca de outro homem? Tudo está
repleto de juízos temerários. Aquele de quem desesperávamos, de
repente se converte e se torna ótimo. De quem muito esperávamos,
subitamente fraqueja e se faz péssimo. Nem nosso temor é seguro,
nem certo nosso amor.
Aquilo que cada homem é hoje, mal sabe ele próprio. No entanto,
é alguma coisa hoje. O que será amanhã, nem ele o sabe. Portanto, é
só Ele quem apascenta com justiça, restituindo a cada um o que é
seu: a estas, umas coisas; àquelas, outras. Dando o devido a cada
uma, isto ou aquilo. Pois sabe o que faz. Apascenta com justiça
aqueles que redimiu ao ser justiçado. Apascenta, portanto, com
justiça.
Os pastores bons estão todos no único pastor
Cristo te apascenta com justiça; ele distingue as suas ovelhas das
que não são suas. As minhas ovelhas ouvem minha voz e me seguem
(cf. Jo 10,27).
Encontro aqui todos os pastores bons no único pastor. Os pastores
bons não faltam, mas estão no Único. Os que estão divididos são
muitos. Aqui se fala de um só, porque se quer valorizar a unidade. Na
verdade não se diz agora que os pastores se calarão e será um só o
pastor, porque o Senhor não encontra a quem confiar suas ovelhas.
Ele as confiou porque encontrou a Pedro. Mais ainda, no próprio
Pedro, ele recomendou a unidade. Eram muitos os apóstolos, mas a
um só disse: Apascenta minhas ovelhas (Jo 21,17). Deus nos livre de
que não haja agora bons pastores, de que nos venham a faltar. Esteja
longe de sua misericórdia não criá-los e constituí-los.
Na realidade, se houver boas ovelhas, haverá também bons
pastores, pois das boas ovelhas se formam os bons pastores. Mas os
bons pastores estão todos no Único, são um só. Se eles apascentam, é
Cristo que apascenta. Os amigos do esposo não dizem ser sua a voz,
mas com imensa alegria se rejubilam com a voz do esposo. Por
conseguinte, é ele que apascenta quando aqueles apascentam. E diz:
“Eu apascento”, porque sua voz está neles, sua caridade neles se
encontra. Ao próprio Pedro, a quem entregava suas ovelhas como a
outra pessoa, queria torná-lo um só consigo, e depois entregar-lhe as
ovelhas, de forma que ele fosse a cabeça, fosse a personificação do
corpo, isto é, da Igreja, e, à semelhança do esposo com a esposa,
fossem dois em uma só carne.
Querendo, pois, entregar as ovelhas, mas não como se as confiasse
a outro, que lhe diz antes? Pedro, tu me amas? Respondeu ele: Eu te
amo. De novo: Tu me amas? Respondeu: Amo. Pela terceira vez: Tu
me amas? E respondeu: Amo (cf. Jo 21,15-17). Confirma a caridade
para consolidar a unidade. É ele, portanto, que apascenta; um só
neles e eles no Único.
Cala-se a respeito dos pastores, mas não se cala. Gloriam-se os
pastores, mas quem se gloria, no Senhor se glorie (2Cor 10,17). É isto
apascentar o Cristo, é isto apascentar por Cristo, é isto apascentar em
Cristo; não se apascenta fora de Cristo! Não foi, na verdade, por falta
de pastores, como se o Profeta houvesse predito estes maus tempos
futuros que disse: Eu apascentarei minhas ovelhas, não tenho a quem
confiá-las. Ainda Pedro estava nesse corpo e nessa vida terrena e
também os Apóstolos, quando aquele Único, em quem todos são um,
disse: Tenho outras ovelhas que não são deste redil. Preciso buscá-
las para que haja um só rebanho e um só pastor (Jo 10,16).
Estejam então todos no Único pastor e façam ouvir a única voz do
pastor, aquele que as ovelhas escutam, e possam seguir seu pastor;
não a este ou àquele, mas ao Único. E todos nele falem com uma só
voz, não tenham vozes diferentes. Rogo-vos, irmãos, dizei todos a
mesma palavra e não haja divisão entre vós (1Cor 1,10). A esta voz,
lavada de toda a divisão, purificada de toda a heresia, ouçam-na as
ovelhas e sigam seu pastor, aquele que diz: As ovelhas que são
minhas escutam minha voz e me seguem (Jo 10,27).

Evangelho de São João 10


7Jesus continuou dizendo: “Eu garanto a vocês: eu sou a porta das
ovelhas. 8Todos os que vieram antes de mim são ladrões e assaltantes,
mas as ovelhas não os ouviram. 9Eu sou a porta. Quem entra por
mim, será salvo. Entrará, e sairá, e encontrará pastagem. 10O ladrão só
vem para roubar, matar e destruir. Eu vim para que tenham vida, e a
tenham em abundância.
11Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas. 12

O mercenário, que não é pastor a quem pertencem, e as ovelhas não


são suas, quando vê o lobo chegar, abandona as ovelhas e sai
correndo. Então o lobo ataca e dispersa as ovelhas. 13O mercenário
foge porque trabalha só por dinheiro, e não se importa com as
ovelhas.
14Eu sou o bom pastor: conheço minhas ovelhas, e elas me

conhecem, 15assim como o Pai me conhece e eu conheço o Pai. Eu


dou a vida pelas ovelhas. 16 Tenho também outras ovelhas que não são
deste curral. Também a elas eu devo conduzir; elas ouvirão a minha
voz, e haverá um só rebanho e um só pastor. 17O Pai me ama, porque
eu dou a minha vida para retomá-la de novo. 18Ninguém tira a minha
vida; eu a dou livremente. Tenho poder de dar a vida e tenho poder
de retomá-la. Esse é o mandamento que recebi do meu Pai.”
19Essas palavras causaram de novo divisão entre as autoridades

dos judeus. 20Muitos diziam: “Ele tem um demônio! Está louco! Por
que vocês o escutam?” 21Outros diziam: “Essas palavras não são de
um possesso, porque um demônio não pode abrir os olhos de um
cego.”