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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

CENTRO DE CIÊNCIAS DA SAÚDE


FACULDADE DE MEDICINA

Benjamim Braga de Almeida Neves

TRANSMASCULINIDADES E O CUIDADO EM SAÚDE:


DESAFIOS E IMPASSES POR VIDAS NÃO-FASCISTAS

Rio de Janeiro
2015
Benjamim Braga de Almeida Neves

TRANSMASCULINIDADES E O CUIDADO EM SAÚDE:


DESAFIOS E IMPASSES POR VIDAS NÃO-FASCISTAS

Dissertação de Mestrado apresentada ao


Programa de Pós-Graduação em Clínica
Médica, Faculdade de Medicina, Universidade
Federal do Rio de Janeiro, como requisito
parcial à obtenção do título de Mestre em
Ciências.

Orientadores: Prof. Dr. Marcelo Gerardin Poirot Land e Profa. Dra. Maria de Fátima Lima
Santos

Rio de Janeiro
2015
Benjamim Braga de Almeida Neves

TRANSMASCULINIDADES E O CUIDADO EM SAÚDE:


DESAFIOS E IMPASSES POR VIDAS NÃO-FASCISTAS

Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Clínica


Médica, Faculdade de Medicina, Universidade Federal do Rio de Janeiro, como
requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Ciências.

Aprovado em: ___________________________________________

Banca examinadora:

_____________________________________________________
Professora Dra: Eliane Borges Berutti – UERJ

_____________________________________________________
Professor Dr. Rodrigo Borba – UFRJ

_____________________________________________________
Professor Dr. Neio Lucio Fernandes Boechat – UFRJ

_____________________________________________________
Professora Dr. Maria Paula Cerqueira Lima – UFRJ (Suplente)

_____________________________________________________
Professor Dr. José Roberto Lapa e Silva – UFRJ (Suplente)
Aos/às mutiladores/mutiladoras de gênero: os/as que exterminam
outras possibilidades de vivências (porque estes/as precisam ler) e
os/as que as extravasam, liquidando com as normas.
AGRADECIMENTOS

Aos meus deuses e deusas, por me ajudarem das mais diversas maneiras neste
processo.
À eterna compreensão e amor incondicional de minha mãe, Helena Braga, durante
todo o percurso do mestrado.
Ao meu irmão, Guilherme Braga de Almeida Neves, pela ajuda high- tech e apoio.
À minha namorada e amiga, Tatine Rosato, pelas inúmeras contribuições, paciência,
cuidado, inteligência, sensibilidade e carinho.
À minha orientadora, Prof.ª Dr.a Maria de Fátima Lima Santos, pela inspiração,
atenção, oportunidade de aprendizagem, liberdade e reconhecimento de minhas
potencialidades, proporcionadas durante o mestrado. Tenho certeza que a professora Dra
Márcia Arán, onde quer que ela esteja, está muito orgulhosa de nossa parceria. “Eu não estava
buscando uma orientadora, mas uma mentora.”
Ao orientador, Prof. Dr. Marcelo Gerardin Poirot Land, o meu muito obrigado por
acreditar em meu potencial e por garantir que essa dissertação pudesse ser defendida no
Centro de Ciências da Saúde.
À professora, Dra Eliane Borges Berutti, por aceitar participar da minha banca e pela
aprendizagem que me foi proporcionada através de seu instigante curso sobre Literatura
Norte-Americana, durante a minha graduação na Universidade do Estado do Rio de Janeiro.
Aos professores Dr. Rodrigo Borba, Dr. Neio Lucio Fernandes Boechat e à professora
Dra Maria Paula Cerqueira Lima por aceitarem participar da minha banca.
A todos/todas os/as integrantes da Linha de pesquisa Micropolítica do Trabalho e o
Cuidado em Saúde (UFRJ), em especial a Emerson Elias Merhy, pelo estímulo, contribuições
e acolhimento. Esta dissertação é uma aposta na vida, portanto, não poderia mesmo ter sido
realizada em outro lugar ou com outras pessoas.
A todos os membros da comunidade trans do YouTube, em especial ao Alex e ao
Jackson Tyller, pela atenção, interesse, ajuda e carinho. Muito obrigado pela confiança e por
compartilharem comigo suas vidas. Sem a participação de vocês, essa dissertação já não faria
mais sentido para mim. Tyller, muito obrigado por ajudar a nossa comunidade trans brasileira
e a mim, não só como pesquisador trans, mas também em minha própria busca por cuidado
em saúde. Precisamos multiplicar nossas ideias juntos!
As amigas, professoras e mães mais lindas do ano, Cristiane Adiala e Dra Michele
Allonso, pela escutatória, apoio, sugestões e refúgio.
Ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por ter
me proporcionado a bolsa de estudos.
A todos os meus companheiros de militância (institucionalizadas ou não), em especial
aos amigos André Guerreiro, Guilherme Almeida, Johi Farias, Jordhan Lessa, Leonardo
Peçanha, Luciano Palhano, Patrick Lima e Samuel Castro. Vocês me ensinam todos os dias
que a militância pode ser feita das mais diversas maneiras. Sermos fiéis a nós mesmos e
àquilo em que acreditamos é fundamental. Juntos, somos mais fortes e, sim, não tenho
dúvidas de que “irá brotar do chão”.
À Márcia Brasil, assistente social do Hospital Universitário Pedro Ernesto, Dra Helena
Malzac, ginecologista, Dr. Erick Carpaneda, cirurgião plástico e ao Núcleo de Defesa da
Diversidade Sexual e Direitos Homoafetivos (Nudiversis), pela competência e compromisso
com o trabalho de vocês e com todo e qualquer usuário/a ou paciente.
Aos ativistas e escritores trans, João W. Nery e Les Feinberg (in memorian), obrigado
por me reconstruírem.
À Indianara Siqueira, ativista trans e presidente do coletivo Transrevolução, pelo
acolhimento e aprendizagem. Viva a vida!
Eu vivenciei o desprezo por parte de alguns profissionais de saúde
que se recusaram a me atender. Guerreiros trans lutam por acesso à
saúde como um direito, não um privilégio. Nós somos os precursores
de um movimento de massa que demanda uma mudança essencial.

Les Feinberg
RESUMO

NEVES, Benjamim Braga de Almeida. Transmasculinidades e o cuidado em saúde:


desafios e impasses por vidas não-fascistas. 2015. 130f. Dissertação (Mestrado em Clínica
Médica) – Faculdade de Medicina, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro,
2015.

A presente pesquisa, ao analisar diversos videoblogues – diários virtuais cujos conteúdos


principais consistem de vídeos parresiastas postados em um portal de compartilhamento
gratuito de vídeos (YouTube) – produzidos por homens trans, teve como objetivo
compreender de que modo estes diários virtuais constituem dispositivos para se pensar a
articulação entre relações de gênero, masculinidades (HALBERSTAM, 1998) e a produção do
cuidado no ciberespaço. Neste percurso, trocas de mensagens escritas nos diários virtuais
contidos em dois canais foram analisadas, além de uma entrevista semi-estruturada presencial
com um dos produtores destes videoblogues. Observou-se nestas narrativas um
tensionamento entre o saber-poder médico, que reitera suas verdades sobre o que é legítimo
para o outro, e a produção de um movimento para além desta relação de assujeitamento,
revelando o potencial destes videoblogues na criação de relações de cuidado entre homens
trans e pessoas transmasculinas. A partir destas análises que permeiam a produção do cuidado
em saúde de homens trans e pessoas transmasculinas, esta pesquisa buscou produzir
conhecimentos para o campo da saúde, principalmente voltados aos/às profissionais desta
área que trabalham nos serviços especializados de atendimento às pessoas transexuais, como
também nas redes de atenção à saúde.

Palavras-chave: transmasculinidades; videologues; cuidado em saúde.


ABSTRACT

NEVES, Benjamim Braga de Almeida. Transmasculinidades e o cuidado em saúde:


desafios e impasses por vidas não-fascistas. 2015. 130f. Dissertação (Mestrado em Clínica
Médica) – Faculdade de Medicina, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro,
2015.

This research analyses several vlogs – virtual diaries whose main contents consist of
parrhesiastic videos posted on a free video-sharing portal (YouTube) - produced by trans
men, seeking to understand how these virtual diaries constitute devices to debate about the
relationship among gender relations, masculinities (HALBERSTAM, 1998) and health care in
cyberspace. Therefore, we analyzed written messages in the virtual diaries present in two
channels and a face-to-face semi-structured interview with one of the producers of these
vlogs. We observed in these narratives a tension between the medical knowledge-power
dichotomy, reiterating its truths about what is legitimate for the other, and a movement
beyond this subjectifying relationship, revealing the potential of these vlogs into create care
relations between transmen and transmasculine transgendered people. From the analysis of
these relations, this research aims to produce knowledge in the healthcare field, primarily
focused on professionals working in this area who are specialized in care services aimed at
transsexuals, as well as in other networks of health care.

Keywords: transmasculities. vlogs. health care


SUMÁRIO

INTRODUÇÃO...................................................................................................................... 10
Metodologia............................................................................................................................. 19

1. TRANSEXUALIDADE, TRANSMASCULINIDADES E SAÚDE............................... 26


1.1. Transexualidade................................................................................................................ 26
1.2. Transmasculinidades......................................................................................................... 37
1.3. Transexualidade e saúde pública no Brasil....................................................................... 47

2. JACKSON TYLLER E SEU PASSAPORTE PARA A FELICIDADE....................... 58


2.1. Jackson Tyller: um agenciador da Rede Viva de Cuidado em Saúde............................... 58
2.2. Nome social, direitos e o Sistema Único de Saúde (SUS): “Mas você é quem afinal?”.. 61

3. CUIDADO EM SAÚDE..................................................................................................... 73
3.1. Relação da prática de si, (in) visibilidade e o cuidado: dos fascismos diários à poesia do
encontro................................................................................................................... 73
3.2. Psiquiatria e Psicologia: saberes e poderes em disputa..................................................... 81
3.3. Testosterona: encaminhamentos e os impasses dos dispositivos de cuidado................... 96

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS.......................................................................................... 101

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS............................................................................... 104


GLOSSÁRIO........................................................................................................................ 111

ANEXOS............................................................................................................................... 113
Anexo 01 – Entrevista com Jackson Tyller........................................................................... 113
Anexo 02 – Videologues de Jackson Tyller........................................................................... 117
Anexo 03 – Videologue de Alex............................................................................................ 124
Anexo 04 – Escutatória – Crônica de Rubem Alves.............................................................. 128
10

INTRODUÇÃO

Influenciado pela obra “Anti-Édipo: Capitalismo e Esquizofrenia” de Gilles Deleuze e


Félix Guattari, publicado no início dos anos 70, Michel Foucault (1991), nos apresenta um
breve e belo artigo denominado “Anti-Édipo: Uma introdução à vida não fascista”. Tomando
esse texto, desde a escolha do título, posso afirmar que esta dissertação aposta nas relações da
construção de si e dos outros, orientadas pela cautela, pela autonomia e pelo alargamento das
práticas de liberdade. Existem possibilidades de criação de modos libertários de vidas e essas
vidas não são mais ou menos dignas de serem vividas e nem devem ser controladas ou
tolhidas por outros.
É possível perceber um crescimento desenfreado das formas de biopolíticas de
controle social, na denúncia da violência das formas de exclusão e estigmatização que
dominam no mundo de hoje. Há forças Estatais e institucionais que (re) implantam regimes de
verdade como naturais, absolutos e universais. Por outro lado, existem outras forças que
paralelamente a essas e impulsionadas por uma vontade de superação, tensionam o que se tem
como dado e investem na elaboração de formas não-fascistas de pensamento e de vida.
Publicado na França em 2003 e traduzido para a língua portuguesa em 2006, no curso
de 1973-1974 – O Poder Psiquiátrico -, Foucault indica outra forma de inteligibilidade para a
questão do poder. Não interessa a ele saber o que é o poder. De acordo com Gondra (2009),
Michel Foucault abandona esse tipo de interrogação pelo que ela supõe de geral, total
universal e neutro. O interesse de Foucault vai ser dirigido para um questionamento de outra
ordem. A observação do funcionamento do poder, do sistema de diferenciação que permite
que uns atuem sobre os outros, que objetivos se perseguem (como manter privilégios,
acumular riquezas), que formas de institucionalização estão implicadas (costumes,
regulamentos) e que tipo de racionalidade está em jogo (tecnológicas, econômicas...).
A partir do deslocamento do modo de pensar o poder, Foucault, (2006, p.28) passa a
trabalhar com a hipótese do poder disciplinar, que no curso de 1973-1974, aparece como algo
discreto, dividido, que funciona em rede e cuja visibilidade se encontra na ingenuidade e na
submissão daqueles sobre quem, em silêncio, ele se exerce.
Com isso, ainda segundo Gondra (2009), Foucault descreve o poder a partir de três
eixos: o poder disciplinar implica uma apropriação total ou tende a ser uma apropriação
exaustiva do corpo, dos gestos, do tempo, do comportamento do indivíduo; o poder
disciplinar é isotópico ou tende à isotopia, cada elemento tem seu lugar bem determinado;
como as patentes no exército e a nítida distinção entre as diferentes classes de idade e, nas
11

diferentes classes de idade, a posição de cada um na classe das escolas, por exemplo. O curso
de 1973-1974 alerta para uma espécie de propriedade do poder disciplinar: uma certa relação
com o corpo, gestos, tempo e comportamento do indivíduo e seu caráter contínuo e isotópico.
Tendo em vista esses apontamentos, é importante destacar que somos o que
experimentamos ou imaginamos ao longo de nossas vidas. Nossos modos de existência são
construídos todos os dias. A presença e o convívio entre nossos familiares na infância, o/a
professor/a na escola, a pedalada sem rodinhas, o primeiro e o último beijo dado, aquela
viagem dos sonhos, o primeiro emprego, o/a último/a chefe, o debate na universidade, o
mercado da esquina e seus/suas funcionários/as, um livro marcante. Todas essas pessoas,
situações e relações intrínsecas contribuem todos os dias para nossas reflexões,
questionamentos, aprendizagem e desenvolvimento pessoal.
As palavras masculinidade e feminilidade sempre chamaram a minha atenção. Estas
palavras engendram imagens claras de dois sets opostos de comportamento e atributos
pessoais. De alguma maneira, todos nós sabemos que características são estas. Na verdade,
um dos mais impressionantes aspectos destas imagens é a extensão que nós ocidentais as
dividimos.
Homens devem ser fortes, racionais, agressivos; mulheres devem ser fracas,
emocionais e submissas. Ao mesmo tempo, de que maneira estas imagens cabem ou servem a
maioria das pessoas na vida real? Homens e mulheres realmente se encaixam nestas imagens,
ou estas imagens são estereótipos? Se homens e mulheres não se encaixam nestes
estereótipos, como é que eles existem? Uma vez estabelecidos, de que maneira estes
estereótipos afetam homens e mulheres em nossa sociedade? Uma vez afetado por estes
estereótipos, como se libertar deles e se movimentar para além deles?
Existe pouca evidência fisiológica ou psicológica para apoiar os estereótipos de gênero
como distinções entre os sexos. Todavia, os estereótipos são firmemente enraizados nas
nossas psiques individuais e culturais, e são passados para as gerações futuras, direta e
indiretamente via cada agente social de nossa sociedade (pais, professores, mídia e a religião,
por exemplo). Os efeitos destes estereótipos são intensos e prejudiciais a todos os indivíduos
(homens e mulheres), seus relacionamentos, e para a sociedade como um todo.
Foi através da leitura de um livro em particular que senti novamente a necessidade de
um devir borboleta. Como em uma espécie de recrutamento, senti-me disposto a dar
prosseguimento a um trabalho executado por Les Feinberg. Historiador/ra e ativista trans
norte – americano/a, falecido/a em novembro de dois mil e quatorze - “deu asas” a palavra
transgênero em um clássico da literatura daquele país com a obra Stone Butch Blues.
12

Seu trabalho e seu/sua personagem principal Jess Goldberg tocam e falam direto ao
coração daqueles que sofrem ou se orgulham em ser diferentes. A vida de Goldberg move não
só a estes sujeitos, mas qualquer ser humano e não há quem a/o conheça e não se atinja.
A partir da segunda metade dessa obra, Feinberg apresenta o que estava querendo
dizer. Sua personagem principal se questiona e nos mostra de uma maneira bastante clara que
existe uma dificuldade ou impossibilidade de uma pessoa existir no espaço entre (ou seria
fora?) do masculino e do feminino. Esta não é uma dúvida exclusivamente pessoal ou uma
excentricidade. O binarismo de gênero é fascista e causa danos sérios a muitos indivíduos.
Os estudos queer apontam o gênero como um exercício de poder sobre os corpos,
logo, há uma possibilidade de deslocamentos de gêneros, onde o resistir à normalização dos
corpos de “dentro” do discurso de gênero, produz outros corpos e não apenas o masculino e o
feminino da heteronormatividade. Nesta ótica, podemos pensar e praticar não apenas um
binarismo de gênero, como o discurso da heteronormatividade postula, mas também uma
proliferação e dispersão de gêneros, uma euforia de gêneros, como nos propôs Lima em seu
manifesto intitulado Por uma Euforia de Gêneros (2014). Portanto, as problemáticas das
minorias sexuais são antes de tudo questões de gênero.
Se o caráter imutável do sexo é contestável, talvez o próprio “sexo” seja tão
culturalmente construído quanto o gênero, de tal forma que a distinção entre sexo e gênero
revela-se nenhuma:
Se o sexo é, ele próprio, uma categoria tomada em seu gênero, não faz sentido
definir o gênero como a interpretação cultural do sexo. [...] Resulta daí que o gênero
não está para cultura como o sexo está para a natureza; ele também é o meio
discursivo/cultural pela qual ‘a natureza sexuada’ ou ‘um sexo natural’ é produzido
e estabelecido como ‘pré-discursivo’, anterior à cultura, uma superfície
politicamente neutra sobre a qual age a cultura. (BUTLER,2008, p. 25)

Logo, o binarismo sexual homem-mulher seria uma das infindas possibilidades de


práticas de gênero. Sexo seria uma performance de gênero, dentre várias possíveis. Butler
lança mão do conceito de performatividade, para desconstruir a noção naturalizada de gênero
ou de identidade sexual. Performatividade seria o “poder reiterativo do discurso, para produzir
os fenômenos que ele regula e constrange” (BUTLER, 2001, p.155). Ou seja, os discursos
heteronormativos – e na perspectiva queer, todos os saberes institucionalizados no Ocidente
são heteronormativos: psicologia, psicanálise, saberes médicos, ciências sociais, pedagogia,
etc. – agem como se apenas analisassem “dados” anteriores aos discursos, como a identidade
sexual dos sujeitos. Mas, na verdade, os discursos heteronormativos criam estes “dados”; os
discursos produzem sujeitos com identidades heterossexuais através de uma constante
13

reiteração, que começa desde o nascimento dos indivíduos e os acompanha até o final de suas
trajetórias de vidas.
Como podemos perceber, o conceito de gênero, reelaborado e distante de noções
essencialistas e naturalizantes, é fundamental, do ponto de vista queer, para se analisar tanto o
poder normalizador – produtor voraz de corpos masculinos ou femininos, corpos coerentes e
inteligíveis, daí a intervenção médica no corpo intersexual ou no corpo transexual, que devem
ser ou masculinos ou femininos, não havendo lugar para ambiguidades – quanto para a
produção de resistência de minorias sexuais, que procuram elaborar performances de gênero
em seus corpos que são ininteligíveis para norma heterossexual; são performances do
estranho, do abjeto, portanto, queer.
É muito fácil invalidar as existências de sujeitos trans. Conservadores dizem “você
está pervertendo a maneira como Deus gostaria que você fosse. Você está confuso (a)”.
Liberais por sua vez dizem: "Você se deixa capturar pelas construções sociais que ditam o que
o gênero significa para você. Você está confuso”.
Retomando Feinberg, é revigorante poder ler algo que mostra de uma maneira tão
singular e ao mesmo tempo bela que isto é real, não é somente algo “perturbador” dentro da
mente de uma pessoa. Nós não estamos ou somos doentes. Nós não somos confusos/as.
Quanto mais contato você trava conosco, mais você percebe e sente conosco.
De acordo com Prosser (1995), a obra de Feinberg pode ser considerada como uma
necessidade de um lar para e no corpo, assim como na comunidade, o que é algo comum nas
narrativas de pessoas transexuais. Ainda no início do livro, Jess explica que acha “estranho
ser exilado/a do seu próprio sexo e enviado/a para uma fronteira que nunca será sua, nunca
será o seu lar” (FEINBERG, 2003, p.11). Ele/a é um “exílio solitário” e suas experiências
subsequentes com a hormônioterapia e a mamoplastia masculinizadora – não esquecendo
ainda de mencionar a busca dele/a por uma comunidade em bares gays e no movimento dos
trabalhadores, por exemplo – são todas tentativas de encontrar um “lar”, um local de
pertencimento, ou seja, um local seguro para ele/a em um mundo como o nosso.
Todavia, como bem observou Prosser (1995, p. 488), no final da estória, Jess recusa a
identidade transexual:
A partir do instante em que Jess recua na transição, ele/a acaba por recusar o
“refúgio” de torna-se alguém do outro sexo e o grande final prometido pelo mapa da
transição. Ele/a escolhe, em vez disso, um corpo – sexo incoerente, terminando em
uma difícil fronteira entre o que se entende por homem e mulher, no qual ele/a
falha ao tentar transitar como um dos dois.
14

Jess aceita, de alguma forma, a posição de gênero do chamado “terceiro sexo”. O texto
se recusa a consumar a tradicional narrativa trans, e Jess, juntamente com o texto, é deixada
sem um lar, sem um lugar específico. Lugar este que em diversas outras narrativas pode ser
“facilmente encontrado” por muitos daqueles que conseguem ter seus corpos adaptados à suas
expressões de gênero, ou que sejam congruentes com suas expressões de alguma forma.
Como nós veremos mais a frente, o lugar de Jess é um pouco mais complexo que isto;
na verdade, é da envolvente natureza deste “lugar” que Stone Butch Blues tenta escapar, ou
seja, tenta evitar a categorização como uma narrativa convencional transexual de “sentir-se
finalmente em casa”. O projeto de Feinberg não é, como Jack Halberstam acredita ser, “uma
recusa da dialética de lugar e fronteira” (HALBERSTAM, 1998, p.170), mas sim o
questionamento e talvez a reabilitação destes conceitos.
Há uma tendência a interpretarmos Jess como uma perfeita tradução da teoria de
gênero pós- moderna – Butler e Halberstam – uma vez que esta é repudiada pelo incessante
desejo da personagem principal em encontrar um lugar para si, e da terrível violência que
este/esta sofre em sua vida diária a partir do momento em que ele/ela falha ao tentar parecer
ser de um ou de outro gênero.
Jess é vista como marginal desde a primeira infância e para além desta – uma de suas
primeiras recordações é a repetitiva pergunta: ‘é um menino ou uma menina?”(FEINBERG,
2003, p.13). Embora ele/ela não quisesse ser diferente, e afirmar que seguiu todas as regras,
tentou ao máximo agradar, ele/ela não é capaz de se passar, de ser vista como fêmea, até
mesmo quando ainda criança, o que novamente nos deixa ignorar a noção de que a
performance de gênero invariavelmente constitui uma realidade de gênero. Prosser (1995,
p.490) entende que:
Stone Butch Blues não pode ser lido sem levarmos em consideração a subjetividade
da experiência em se ser transgênero, sem o dito ‘essencialismo de risco’. Nós
precisamos correr o risco mesmo que, ou talvez especialmente quando, a tarefa
envolva esboçar categorias que nós acreditamos necessitarem de uma desconstrução,
sendo estas: a experiência, o corpo, o sexo, o sentimento.

O problema de Jess não é meramente de performance – ironicamente, ele/ela aprende a


usar a performatividade de gênero masculina suficientemente para convencer outras pessoas,
embora ele/ela não tenha tido o mesmo sucesso ao tentar ser feminina durante sua infância.
Mesmo conseguindo “iludir” diversas pessoas, ele/ela se sente isolado/a e infeliz. Sua decisão
de se modificar fisicamente denuncia estes sentimentos. Em um determinado dia, Jess acorda
de um sonho no meio da noite: “No sonho eu tinha barba e meu peito estava reto. Isto me
fazia tão feliz. Era uma parte de mim que eu não consigo explicar... Eu não me sentia como
15

uma mulher ou como um homem, e eu gostava do quão diferente eu era” (FEINBERG, 2003,
p.143).
Mais ou menos pela metade do livro, Jess e diversas outras butches – desesperadas por
empregos (estamos falando dos Estados Unidos da década de 1960) – tentam usar perucas
“femininas” na esperança de conseguirem oportunidades em uma loja de departamentos.
Todavia, elas falham na tentativa: “As perucas nos faziam parecer palhaças” (FEINBERG,
2003, p.143). Esta “brincadeira de gênero”, no sentido butleriano, é mais humilhante para as
butches do que empoderante. Jess e sua amiga Ed depois desta experiência decidem começar
a tomar hormônios na tentativa de se “passarem” como homens.
Incapaz de viver como uma mulher, incapaz também de se passar por um homem sem
alterar fisicamente o seu corpo, e incapaz de sobreviver em um corpo andrógino, Jess não está
“livre” na androginia, está preso/a. “Que merda eu vou fazer, Theresa?”, ele/ela pergunta a
sua amante. “Me diga, o que eu posso fazer?” (FEINBERG, 2003, p.151). É interessante
percebermos que neste momento da narrativa, por exemplo, somos lembrados da tensão
teórica que existe entre pessoas transmasculinas e pessoas ‘’transexuais binárias’’.
Para diversos indivíduos genderqueers ou pessoas transmasculinas, não
necessariamente concomitantemente, a desterritorialização faz parte de seus desejos. Eles/elas
não anseiam por um único e exclusivo território, eles/elas saem de um para o outro. É a partir
deste trânsito e desta fluidez que eles/elas reivindicam suas existências. Não há culpa e não há
melancolia. A androginia é muitas vezes celebrada e enunciada.
Halberstam e Butler não estão totalmente equivocados/das em seus conceitos, porém
me parece que Prosser nos aponta também outras possibilidades de existências. Existências
estas que não são necessariamente tão festivas quanto às peformatividades queer nos parecem
ser. Estamos falando de modos de existência não menos sofríveis que as de Jess, mas de vidas
ávidas por políticas de enunciação maiores, vidas querendo ser vividas em todas as suas
potencialidades.
Por fim, não poderia deixar de mencionar alguns trechos muito impactantes e
emocionantes do livro onde a ficção se mistura com a realidade, excluindo-se a escolha pelo
gênero literário do/da autor/autora, é claro. São “cenas” fortes, verdadeiros socos em nossos
estômagos e que nos chamam a atenção para a atual necessidade de políticas públicas de
saúde atuantes para toda a população transmasculina, principalmente brasileira. Ainda que a
obra seja norte-americana, os assujeitamentos aos quais Jess é obrigado/a a experienciar, são
universalizados no âmbito das experiências trans mundiais e nacionais.
16

Como primeiro exemplo, cito a conversa entre Jess e Duffy, um colega de trabalho
da/do primeira/ro, logo após o reencontro dos dois pós “suposto acidente na fábrica” onde
trabalhavam juntos.
“Mas quando eu fui ao hospital com você, eu vi como eles te trataram, como eles
falavam sobre você.” “Quando ele olhou de volta para mim, eu vi lágrimas em seus
olhos.” “Eu continuei gritando com eles que você era um ser humano, que você era
importante para mim, e era como se eles não estivessem me ouvindo.” “Eu não pude
fazer nada para ajudá-la e eu não pude fazer com que eles cuidassem de você do
modo que eu queria, sabe?” (FEINBERG, 2003, p.93Tradução minha)

Em um outro momento da trajetória de Jess, podemos acompanhá-lo/la no hospital no


dia de sua mamoplastia masculinizadora – cirurgia de retirada das mamas e reconstrução do
peitoral com contornos masculinos:
Eu tentei me sentar. Uma forte dor tomava meu peito. Eu chamei por uma das
enfermeiras que estavam de pé em frente à porta. “Vocês podem me dar algo para
dor?” Elas saíram. Uma das enfermeiras retorna em seguida. “Olhe”, ela disse, “Eu
não entendo nada disto. Mas eu te garanto que este hospital é para pessoas doentes.
Se você e sua gente combinam algo com o Dr. Constanza por baixo dos panos, é
problema de vocês. Mas esta cama e o nosso tempo são para pessoas doentes”.
(FEINBERG, 2003, p.177 Tradução minha)

Como último exemplo, farei a transcrição do episódio onde Jess, que se encontra com
uma infecção vaginal, recorre a uma clínica de saúde para mulheres em seu bairro:
“Esta clínica é para mulheres”, a recepcionista sorriu. “Eu sei, eu tenho uma
infecção vaginal,” eu sussurrei. “O que você tem?” ela perguntou. Eu respirei fundo
e falei com uma voz mais forte. “Uma infecção vaginal”. As pessoas que
aguardavam atendimento na sala de espera ficaram petrificas. O silêncio me puniu.
A recepcionista me olhou de cima a baixo. “Você está brincando comigo?” Eu
balancei a cabeça. “Eu tenho uma infecção vaginal e vim aqui para ser ajudado”.
“Sente-se senhor”. Todos na sala de espera me olhavam e faziam comentários em
voz alta. “Ele é maluco.”
Após uma discussão com uma das atendentes, e quase um abandono da clínica, uma
médica impede sua saída. “O que está acontecendo?” A atendente faz um sinal para
a médica, mas Jess não consegue vê-lo. “Venha comigo”. “O que está
acontecendo?”, ela me perguntou. Eu suspirei. “Estou com uma infecção vaginal”.
Ela verificou meu rosto com seus olhos. “Você tomou algum antibiótico
recentemente?”. “Talvez. Eu tomei algo há uns meses atrás por causa de uma tosse”.
“Há quanto tempo você está com esta infecção?”. “Há alguns meses”. Os olhos dela
se abriram. “Você está com isto há meses e não fez nada a respeito?”. “Bem, eu
esperava que fosse passar”. Ela sorriu levemente. “Vamos dar uma olhada. Venha
comigo”. Eu tive medo. Muita coisa já tinha acontecido comigo até aqui. Eu não
podia deixá-la me tocar lá. “Eu não posso”, eu disse a ela. “Por favor. Está sendo
difícil fazer isto. Eu não posso”. Ela presenciou as emoções que eu não pude
esconder. A médica me receitou um remédio e recomendou que eu tomasse um
iogurte juntamente com este. “Você acredita em mim, não é?”. Eu perguntei a ela.
Ela hesitou. “Você pode ser um homem. Mas se você for uma mulher, eu não quero
mandá-la embora. Não me custa nada te prescrever uma receita. Quando foi a última
vez que você fez um preventivo?”. Eu congelei. Ela me pressionou. “Nos últimos
três anos?” Eu abaixei meus olhos, mas ela insistiu novamente. “Nos últimos cinco,
seis?” Eu balancei a cabeça. “Eu não sei o que é isto”, eu admiti. Quando eu olhei de
volta para cima, ela estava chorando. “Agora eu acredito em você”, ela disse. “Por
quê?”, eu perguntei a ela. “Muitos homens não sabem sobre estas coisas, sabem?”.
Ela concordou. “Sim, mas eles não se sentem envergonhados. Quem é o seu
médico?”. “Eu não tenho um.”
17

Ela continuou a olhá-lo/la e o/a convidou a retornar a clínica para um exame e também
para fazer o preventivo. Jess, por educação aceita retornar, mas acha que não terá energia para
encarar a cena da recepção novamente. Ele/ela a agradece pelo atendimento e por ouvi-lo/la.
Comenta com a médica que quase ninguém o/a ouvia ultimamente. Ela pede que Jess marque
uma consulta antes de ir embora, se retira da sala e segue em direção ao corredor. Na saída da
sala de exames, Jess reencontra a atendente. Ele/ela pergunta a ela pelo nome da médica e esta
em um tom bem frio diz: “Você conseguiu o que você desejava, agora saia.” Jess diz: “Você
está errada, Roz”, e a corrige. “Eu consegui o que eu precisava. Você não faz idéia do quanto
eu desejo.” (FEINBERG, 2003, p.235 Tradução minha)
Através das angústias de Goldberg e de outros transgêneros, por conta da dificuldade
em obterem cuidado em saúde, pude perceber que não só os estereótipos eram divergentes,
mas também as reivindicações. Ainda que os modos de existências sejam cada vez mais
experimentados, a falta de uma política pública do cuidado parece persistir. Há relatos de
transgêneros denunciando psicólogos/psicólogas de família, por exemplo.
Psicólogos/psicólogas estes/estas que os acompanharam durante anos, os abandonam ao
perceberem que estes indivíduos desejam fazer a transição, como veremos mais a frente em
um videologue postado por um homem trans chamado Alex. Enfermeiros/enfermeiras e
seguranças que debocham do cuidado e do compromisso com a vida, deixam pacientes
indefesos/indefesas e inseguros/inseguras dentro de hospitais, logo após cirurgias tão
delicadas.
Impactado e perplexo diante do episódio da infecção vaginal vivida por Jess e de sua
luta para conseguir assistência em saúde nos Estados Unidos na década de 1960, me flagrei
pensando sobre como estaria à situação naquele país nos dias de hoje. Tive curiosidade de
investigar também sobre a situação da assistência e de acesso ao cuidado em saúde
envolvendo a população transmasculina brasileira.
Primeiramente busquei informações na internet, mas só descobri artigos e algumas
poucas obras que tratavam sobre a transexualidade masculina e nada a respeito das
transmasculinidades. Todos os textos por mim lidos, em português, haviam sido escritos
apenas por pessoas cisgêneras. Eu desejava ver, conhecer, conversar com uma pessoa trans e
saber como ele/ela estava (sobre) vivendo em nosso país.
Apaixonado por e reconhecido como Jess Goldberg, fui atrás de outras/outros
“Goldbergs”. No ano de 2009 foi difícil encontrar um homem trans ou pessoa autodeclarada
transmasculina no Estado do Rio de Janeiro, local onde resido, disposta a dialogar ou me
18

encontrar pessoalmente. Este “encontro” então aconteceu por volta de meados do ano de
2009, por acaso, ao navegar na internet.
Através de um link sobre transexualidade, encontrei um videologue norte- americano
de um transgênero chamado M. Xavier. A partir do vídeo de Xavier, do avanço e acesso às
novas tecnologias (digitais e cirúrgicas), pude conhecer diversos outros sujeitos que fugiam de
estereótipos normativos e observei inúmeras produções de vídeos sobre as mais variadas
temáticas por eles postadas e compartilhadas no portal YouTube.
O primeiro registro de videologue na internet data do começo do ano de 2000, criado
por Adam Kontras. Em fevereiro de 2005, foi lançado o site americano YouTube, que se
tornou um estrondoso sucesso internacional e teve grande impacto na popularização destes.
Existem centenas de portais no mundo que permitem a publicação e compartilhamento
simples de vídeos.
As pessoas utilizam estes portais para publicar ou simplesmente assistir diversas
produções. A maior parte das visualizações dos vídeos é gratuita e permite que seus conteúdos
atinjam lugares que antes eram inacessíveis. Dentre os principais pode-se citar Myspace,
Yahoo! Video e o próprio YouTube.
Ainda no ano de 2009 eu mesmo criei uma conta no famoso portal e postei um único
vídeo para que assim pudesse me comunicar mais e melhor com essas pessoas e também para
que elas tivessem uma maior confiabilidade em mim. Não queria que as pessoas trans ali
presentes naquele universo, achassem que eu não existia. Muito pelo contrário, queria que
mais pessoas soubessem da minha autocategorização como pessoa trans. Durante os anos de
2009 e de 2010, eu apenas postei aquele único vídeo de apresentação, e no mais, fiz diversas
observações, mas pouco participei das discussões.
Acredito que meu trabalho de campo teve início em 2009 e perdurou ao longo desses
quase seis anos. Tendo em mãos diversas informações, dúvidas e achados, no ano de 2010
nascia o esboço desta atual dissertação. Utilizando parte do material observado somado à
minha excitação com a temática, à minha necessidade de deixar na literatura trans brasileira
algo composto por um pesquisador trans e a busca por respostas para a minha própria
subjetividade, concluí uma especialização em Gênero e Sexualidade no Instituto de Medicina
Social na Universidade do Estado do Rio de Janeiro ainda no ano de 2011. No ano seguinte,
fui convidado a participar do coletivo Micropolítica do Trabalho e o Cuidado em Saúde1, e
pude dar sequência ao trabalho que estava sendo construído a partir de minhas inquietações.

1
Linha de pesquisa – Universidade Federal do Rio de Janeiro
19

A utilização desta ferramenta de interação, os videologues, é relativamente nova.


Estamos falando de produções que se iniciaram por volta do ano de 2009. No Brasil, o uso
desta potência teve seu início no final do ano de 2010 e novos vídeos vêm sendo postados a
cada dia que passa e em uma velocidade estonteante. Primeiramente, voltei meus olhos a estas
primeiras produções que foram realizadas por indivíduos de países como Canadá, Estados
Unidos, Austrália, Alemanha, Finlândia e Nova Zelândia e mais tarde para as nacionais.
Partindo desses pressupostos teóricos, a dissertação aqui apresentada compõe-se de
três capítulos. O primeiro, Transexualidade, transmasculinidades e saúde tem como
propostas centrais fazer um breve apanhado histórico sobre a transexualidade, em escala
internacional e nacional, discutir a partir do pensamento de Halberstam (1998) e Smith
(1996), sobre as outras formas de masculinidades e não só a hegemônica, e por fim, revisitar
como foi feita a inclusão e a regulamentação de pessoas trans no campo da Saúde Pública
brasileira.
O segundo capítulo, intitulado Jackson Tyller e seu passaporte para a felicidade,
constitui o coração da dissertação. Nele, seremos introduzidos a Jackson Tyller, um homem
trans de São Paulo, que, além de ser um agenciador da rede viva de cuidado em saúde trans, é
também meu principal interlocutor nesta pesquisa. Estas incursões visam discutir a questão da
busca por uma rede de cuidado em saúde, assim como a importância do nome social para
usuários trans do Sistema Único de Saúde.
O terceiro e último capítulo Cuidado em saúde, traz o debate acerca dos saberes
médicos e dos saberes trans e, através dele, é possível perceber uma oportunidade desses
saberes serem construídos em equipe, menos fascistas, respeitando assim a autonomia dos
sujeitos e ao mesmo tempo, reconfigurando e impulsionando novas práticas por parte dos
profissionais de saúde. Ao final deste mesmo capítulo, discorro ainda sobre algumas
problemáticas entorno da hormonioterapia, como, por exemplo, o alto custo de alguns tipos
de testosterona, a dificuldade de acessá-la e a necessidade de se estudar e conhecer mais sobre
os seus efeitos, de uso em longo prazo, em corpos designados femininos ao nascimento.

Metodologia
Recentemente, houve um aumento considerável de trabalhos dedicados ao estudo do
ciberespaço, com foco em diferentes lugares e abordando temáticas diversas. Para citar
alguns, vale ressaltar o trabalho de Bruno Dallacort Zilli (2007) em seu estudo do discurso de
legitimização do BSDM – sigla que descreve diversas práticas ou jogos sexuais como o
Sadismo e o Masoquismo - na internet e seu diálogo com a psiquiatria, o de Carolina Parreiras
20

Silva (2008) sobre espaços e homossexualidade a partir de uma comunidade online (rede
social – Orkut), e também o de Raquel Souza de Oliveira (2014) através da sua tese sobre as
performances discursivas de artríticos/as reumatoides nos domínios online.
Considerando a natureza interdisciplinar do meu projeto, tive que elaborar uma
metodologia de certa forma “fora” dos métodos disciplinares mais usuais. Utilizando o que eu
chamo de “cartovlogging” – cartografia do videologues, eu me apropriei de algumas
combinações como a crítica textual, a etnografia, a pesquisa histórica, a produção de
categorização/catologação e a cartografia2.
Eu chamo minha metodologia mais especificamente de cartovlogging porque ela é
uma tentativa de flexibilizar as várias localizações das informações acerca das
transexualidades masculinas. Obviamente, eu poderia ter produzido uma consistência
metodológica confinando-me exclusivamente a textos literais, mas a metodologia aqui usada é
não-fascista e exemplifica uma das muitas formas de resistência.
Embora a maior parte dos trabalhos informativos ou de catalogação sobre
comunidades sexuais alternativas sejam feitos através de etnografias, e sabendo ainda que
autobiografias e histórias narrativas se inclinam a serem tipos de materiais aos quais nós nos
apoiamos, existem desavenças entre acadêmicos/acadêmicas queers sobre como nós devamos
coletar e interpretar tais informações sobre modos de existência e sexualidades.
Na Filosofia e na Psicanálise, por exemplo, encontramos outras cartografias, em que
os mapas convencionalizados não conseguiriam representá-las, como nos revelam os filósofos
Gilles Deluze e Félix Guattari, sobre uma cartografia do sujeito. A geografia subjetiva nos faz
seres geografados sem, no entanto sermos geograficamente fixados, nosso desenho é refeito a
cada momento. As linhas não estão fixadas no ponto ancorado, tampouco são visíveis, o que
as permitem serem modificadas a todo o momento, em decorrência de um desejo.
Deleuze & Guattari (1996, p.22) definem o mapa como:

[...] aberto, é conectável em todas as suas dimensões, desmontável, reversível,


suscetível de receber modificações constantemente. Ele pode ser rasgado, revertido,
adaptar-se a montagens de qualquer natureza, ser preparado por um indivíduo, um
grupo, uma formação social. Pode-se desenhá-lo numa parede, concebê-lo como
obra de arte, construí-lo como uma ação política ou como uma meditação.

Os mapas abertos por diferentes métodos, conectáveis e modificáveis, dependerá do

2
Cartografia é um conceito e método criado por Gilles Deleuze e Félix Guatarri para se referir à observação e
interpretação dos processos individuais e coletivos. A partir dessas discussões, tomo o termo cartografar como
um operador conceitual e metodológico que supõe que uma orientação do trabalho do pesquisador não se faz de
forma prescritiva, com regras prontas, entendendo as realidades enquanto processos em curso. (PASSOS;
KASTRUP; ESCÓSSIA, 2009)
21

que se quer cartografar, porquê e para quê. Suely Rolnik, em Cartografia Sentimental, afirma
que paisagens psicossociais também podem ser cartografáveis. Rolnik revela o/a
cartógrafo/cartógrafa que prospecta a subjetividade flexível de uma personagem feminina,
atravessada por acontecimentos sociais, políticos e econômicos, através de uma sequência de
24 figuras − tipo3.
A autora nos convida a participar da aventura do/da cartógrafo/cartógrafa, como se
fôssemos exploradores/exploradoras e aprendizes de seu percurso. Para Rolnik, o mapa é
móvel, é observância e escuta e conhecimento. Não é necessário produzir representações
gráficas desta cartografia. Ela relata que para os/as geógrafos/geógrafas, a cartografia −
diferentemente do mapa: representação de um todo estático, é um desenho que acompanha e
que faz ao mesmo tempo os movimentos de transformação da paisagem. Mais adiante,
considera que
sendo tarefa do cartógrafo dar língua aos afetos que pedem passagem, dele se espera
basicamente que esteja mergulhado nas intensidades de seu tempo e que, atento às
linguagens que encontra, devore as que lhe parecerem elementos possíveis para a
composição das cartografias que se fazem necessárias (ROLNIK, 2006, p.23)

Na linguagem dos videologues, diferentemente da fotografia, tudo vaza, nada é


engessado. Tudo fica registrado. Temos corpos-sujeitos que se utilizam dessa linguagem para
exorcizarem seus demônios, seus monstros. “É uma manobra de deslocamento de
transformação do próprio sujeito” (DELEUZE & GUATTARI, 1977).
A cada videoblogue assistido me emocionei, me indignei, me contorci, me exaltei,
refleti ou me silenciei. Este fenômeno chamado videologue é um devir de vidas, de sujeitos
que não se apoderam de suas transformações e anseios uniformemente ou de uma maneira
egoísta, mas de indivíduos que se apropriam de suas próprias reflexões para em outro
momento voltarem a elas fazendo uma nova avaliação. Como uma espécie de catarse coletiva,
todos/todas se (re)conhecem e se diferenciam.
Na obra Mil Platôs, Gilles Deleuze e Félix Guattari (2000) tratam sobre a noção de
rizoma, que assume um caráter ontológico nas suas obras. A ontologia deve aqui ser
entendida como o jogo de forças que acontece entre o virtual e atual. Diferentemente da
ontologia clássica que fala de seres e coisas – ou seja, de fluxos que já estariam reduzidos a
um conceito – a ontologia nestes autores trata do movimento das diferenças que agem no
interior e no exterior das multiplicidades.

3
24 figuras – tipo – São as 24 noivinhas cartografadas por Rolkink. Do começo ao fim, atravessando os livros
Um e Dois, é possível encontrá-las vivendo novas aventuras a cada passagem do texto.
22

Se a ontologia clássica trata da identidade, do ser e do uno, em Deleuze e Guattari é


exatamente a diferença que permite o processo de criação, que deve ser repetido
incansavelmente. Este movimento paradoxal traz consigo o próprio devir que está sempre se
repetindo, se reafirmando, sendo que ao retornar este nunca é o mesmo.
Os videologues nos permitem acompanhar ou até mesmo participar, da abertura para a
vida que cada indivíduo se permite naquele determinado momento. Ao assistirmos, é fácil
perceber “[...] o quanto a vida está encontrando canais de efetuação”. (ROLNIK, 1989, p.70)
Trata-se de uma tecnologia altamente sofisticada que não para de se entranhar, ou seja, “um
processo que não para de se alongar, de romper-se e retornar”. (DELEUZE & GUATARRI,
2000, p.32)
Os videoblogues podem ser ou são como mapas, e como mapas estão sempre se
reconfigurando através de movimentos de territorialização e desterritorialização; expansão e
retração; produzindo assim novas linhas de fuga.
Os dispositivos videologues, produzidos por distintos sujeitos, são relativamente
novos. Uma considerável parte dessas produções teve seu início por volta do ano de 2009. No
Brasil, o uso desta potência surgiu um ano mais tarde e novos vídeos vêm sendo postados a
cada dia que passa e em uma velocidade estonteante.
Os indivíduos inicialmente por mim observados fizeram uso da língua inglesa em suas
produções por ser a língua nativa ou mais usual da plataforma e de mais fácil compreensão
entre eles. É válido mencionar que os videologues não pretendem serem cartilhas ou manuais
onde se ensine a “ser uma pessoa transexual ou uma pessoa transmasculina”, nem mesmo
impor qualquer tipo de escolha.
Alguns meses depois, notei que outras produções nacionais e internacionais surgiam e
eram postadas e atualizadas com maior frequência. O ano de 2011 pode ser considerado um
marco para a visibilidade dos homens trans no Brasil após o lançamento do livro de João W.
Nery, intitulado Viagem Solitária e também do personagem Max, um homem transexual,
interpretado pela atriz Daniela Sea na série de TV norte- americana The L word.
Pude perceber que o número de homens trans que confessavam virtualmente seus
desejos, suas angústias e expectativas, aumentava na mesma proporção em que as vidas de
João W. Nery, o primeiro homem trans brasileiro autodeclarado, e a do personagem trans da
série mencionada acima, se tornavam mais e mais conhecidas.
No presente momento em que trabalho nesta dissertação, inúmeras produções
nacionais estão sendo gravadas semanalmente. Há uma rica possibilidade de material
23

surgindo e dentre tantas ofertas, devido ao pouco tempo que teria para analisar essas diversas
produções no mestrado, busquei discutir ou problematizar apenas cinco produções.
Como exatamente e por qual motivo selecionei essas cinco produções para analisar?
Tendo em mente a minha preocupação inicial sobre como os homens trans e as pessoas
transmasculinas brasileiras estavam conseguindo acessar ou não assistência em saúde, o tipo
de assistência que conseguiam e se elas se sentiam cuidadas, encontrei nas produções de
Jackson Tyller e de Alex4 um valoroso material de investigação.
Alguns meses antes de ter tido contato com as produções de Jackson Tyller,
acompanhei a transição de um jovem norte-americano chamado Alex. Entre tantos de seus
muitos vídeos, encontrei um no qual ele relatava sua experiência e relação com sua psicóloga.
Até então eu não havia encontrado nenhum homem trans relatando esse tipo de experiência
tão profundamente. Este vídeo de Alex me afetou e afeta até hoje e penso que, ainda que essa
experiência tenha sido vivida por um rapaz norte-americano, branco e universitário, que ela
pode ser muito útil como ferramenta para discutirmos a atuação dos profissionais de
psicologia em escala internacional, mas principalmente em nosso país.
Como posso descrever Jackson Tyller? Ainda me lembro como se fosse hoje, os
primeiros videologues que assisti dele, um homem trans do interior São Paulo. Jackson tem
hoje 31 anos, embora aparente ter muito menos idade, é bastante carismático e articulado. De
uma maneira leve, didática e divertida, através de suas narrativas eu me percebia fazendo
inúmeros deslocamentos.
O paulista inicia suas produções ao mesmo tempo em que toma sua primeira dose de
testosterona. Esse é o seu marco zero e também o meu. A partir deste ponto, tanto ele quanto
nós, espectadores, vamos percorrendo esses caminhos sem mapas. Os mapas na verdade são
criados a partir desse momento em que Jackson inicia sua jornada. Nós somos convidados a
participar dessa grande viagem.
Seguindo uma lógica cronológica, o jovem paulista nos convida a desbravar com ele
os caminhos para se conseguir alcançar o que ele chama de passaporte para a felicidade, a
testosterona. Neste momento em que menciono essas produções, outras tantas já foram por ele
criadas. Existem aproximadamente sessenta videologues do jovem disponíveis na rede.
Jackson Tyller não é meu objeto de estudo. Jamais poderia ser. Jackson é um
indivíduo, que além de ter muito a nos ensinar, é também uma multidão. Jackson sou eu e eu
sou Jackson. Aqui me interessa trazer a voz dele, que também é minha, a narrativa dele, que

4
Alex não disponibiliza seu sobrenome em seu canal de vídeo e eu não tenho autorização para utilizá-lo nesta
dissertação.
24

também se confunde com a minha, à tona em outro(s) espaço(s) que não somente o virtual.
Jackson e eu, por caminhos e de maneiras diferentes, queremos por muitas vezes evidenciar
situações muito similares.
Ideias como as verdades universais, a noção de sujeito hegemônico, a relação binária
de causa e efeito para explicar o mundo, a neutralidade e objetividade do conhecimento, a
separação entre pesquisador/pesquisadora e objeto estudado, e a hegemonia do conhecimento
científico como única forma de saber válido e fundamentado – cf. Venn (2000); Moita Lopes
(2006); e Santos (2008) – vão de encontro ao que pesquisadores/pesquisadoras
comprometidos/comprometidas com novos modos de fazer pesquisa, incluindo a mim, estão
com o intuito de produzir (OLIVEIRA, 2014).
Em Corpo e Imagem, Berutti (2002, p. 112) comenta sobre a importância de se dar voz
aos sujeitos “objetos da pesquisa”. Ao falarmos sobre Teoria de gênero e pessoas trans, por
exemplo, mais do que ouvir os depoimentos delas, seria essencial não teorizar a questão sem
levar em consideração suas emoções, vivências, seus olhares sobre si mesmo e sobre o mundo
ao seu redor.
Tendo em vista os apontamentos de Berutti, posso afirmar que meu conhecimento é
interessado e político. Eu me afeto e me misturo a eles. Não sou e não posso ser neutro nesse
processo. Letherby (2002, p. 09) afirma que “não é incomum para
pesquisadores/pesquisadoras sociais, investigar áreas de relevância particular para suas
próprias vidas.” Moita Lopes (2006, p. 100) por outro lado, nos relata que “a compreensão de
que estamos diretamente imbricados no conhecimento que produzimos começa a interessar
pesquisadores/pesquisadoras de vários campos”. Desta maneira, realizar pesquisas que tratam
das nossas próprias performances é um jogo aberto de que reconhecemos que, na qualidade de
pesquisadores/pesquisadoras, não estamos descobrindo ou revelando uma verdade, mas
assumindo o papel principal de autores/autoras das estórias que contamos (LETHERBY,
2002).
Reforçando a ideia de que ao sermos pesquisadores/pesquisadoras, mas também
pessoas trans, Dean Spade (2000), professor, advogado e ativista trans norte-americano,
esclarece em seu artigo intitulado Mutilating Gender (Mutilando o gênero), ter escolhido usar
uma narrativa em primeira pessoa, pois segundo sua opinião:

a combinação de trabalho teórico sobre os relacionamentos das pessoas trans com os


protocolos médicos e as normas de gênero, e a experiência das pessoas trans, é
raramente encontrada. Riki Anne Wilchins (1997) descreve que as experiências trans
têm sido usadas por psiquiatras, feministas de estudos culturais, antropólogos, e
sociólogos. “... eles viajam pelas nossas vidas e problemas como turistas... brincam
25

com nossas identidades...selecionando as mais saborosas, com as quais ilustram uma


teoria ou promovem um livro.” Na maior parte das obras escritas sobre as pessoas
trans, nossa performance de gênero é colocada embaixo de um microscópio para
provar teorias ou construir “conhecimento”, enquanto que as performances de
gênero dos autores permanecem intactas e naturalizadas. Eu quero evitar a mais
remota das possibilidades de participar de uma tradição deste tipo. A recente
proliferação de trabalhos acadêmicos e ativistas sobre assuntos trans, têm criado a
impressão em muitas pessoas (a maior parte delas cisgêneras) de que os problemas
de acesso aos serviços para as pessoas trans têm sido aliviados, e que a educação de
muitos especialistas, que provém serviços para as pessoas trans, têm tornado os
espaços mais acolhedores. (SPADE, 2000, s./p. Tradução minha)

Spade, assim como diversos/diversas outros/outras acadêmicos/acadêmicas e ativistas


trans norte-americanos/americanas, por exemplo, têm produzido conhecimento e demarcado
um território antes ocupado exclusivamente por pessoas cisgêneras. Aqui no Brasil, essa
realidade não é muito diferente. Existe pouco material produzido por
pesquisadores/pesquisadoras e ativistas trans, principalmente pelos homens trans e pelas
pessoas transmasculinas, e por esse motivo, em diversos momentos, faço uso de minhas
experiências enquanto usuário do Sistema Único de Saúde e também de ativista trans. Desta
forma, tenho como intuito, passar diversas informações adiante e alargar espaços para que “as
pessoas trans sejam vistas como autocríticas, feministas, produtoras de conhecimento e não
apenas meros estudos de caso” (SPADE, 2000, s./p.).
Ao trazer para o mainstream as narrativas produzidas por Jackson e Alex, assim como
as (re) invenções das subjetividades destes dentro e para além de suas redes de cuidado
cibernéticas e “reais”, busco fazer dialogar os saberes científicos com os “subalternos”. Aqui
me interessa desvendar os modos de vida desses indivíduos, as linhas de fuga que estes
encontram ao resistirem aos discursos biomédicos fascistas mas também ao os reiterarem
pelos mais diversos motivos. Quando se trata de vidas trans, as narrativas desses jovens nos
mostram que não há somente captura, assujeitamento ou vitimização. Eles resistem, inventam,
tensionam e (re)inventam também novas práticas de cuidado, forçando transformações.
Diante destas colocações, ao longo deste trabalho, tentarei desenhar de que maneira os
videologues podem ser considerados dispositivos de produções de vidas e ao mesmo tempo
auxiliarem pessoas que têm ‘problemas de gênero’ ou que são ‘questionadoras de gênero’.
Buscarei também e, principalmente, sugerir maneiras pelas quais especialistas no cuidado à
saúde podem explorar este espaço micro – político. Acredito que muito possa e deva ser
explorado e é a esta prática a que me proponho.
26

1. TRANSEXUALIDADE, TRANSMASCULINIDADES E SAÚDE

1.1. Transexualidade

Com o avanço dos estudos feministas em nosso país, por volta da década de 1970,
diversos institutos, núcleos e grupos de pesquisa foram criados. Novas teorias e conceitos
foram formulados, dentre eles, o conceito de gênero. O grande número de pesquisas
envolvendo este conceito resultou no aparecimento de outro campo de estudo, os chamados
estudos de gênero. Todavia, dentro dos estudos de gênero existem ainda poucas produções
acerca das transexualidades/transgeneiridades autoradas por pesquisadores/pesquisadoras
trans (GROSSI, 1999).
Nos Estados Unidos, por exemplo, os estudos trans emergem juntamente com a teoria
queer, na década de noventa e, embora os estudos trans tenham dividido uma agenda com os
estudos queer, existem objetos de estudo que sejam talvez de interesse exclusivamente trans,
como por exemplo, aspectos que dizem respeito a saúde dessa população.
Retomando Letherby (2002), e assumindo o papel principal de autor/pesquisador e
também de protagonista da estória que conto, é válido destacar que existem hoje em nosso
país, especialmente após 1980, diversas publicações a respeito das transexualidades. Todavia,
a maior parte dessas publicações foi realizada por pesquisadores/pesquisadoras
cisgêneros/cisgêneras e, ainda que muitos desses/dessas possam ser vistos como
aliados/aliadas na luta por cidadania das pessoas trans, existem especificidades que talvez só
possam ser apontadas por pessoas que vivenciam essa experiência e que também são
produtoras de conhecimento.
Diversos pesquisadores aliados – como o historiador Pierre-Henri Castel (2001), as
sociólogas Berenice Bento (2003, 2006 e 2008) e Flávia Teixeira (2003), a psicanalista
Márcia Arán (2009), a psicóloga Daniela Murta (2009), a cientista social Fátima Lima (2010),
o linguista Rodrigo Borba (2014), dentre outros – já fizeram uma historicização da
transexualidade em suas teses. Tendo em vista essas produções mencionadas, eu não pretendo
historicizar este fenômeno novamente, porém, acho interessante fazer um breve apanhado
histórico para que todos/todas possam compreender que a produção da transexualidade é
historicamente construída e, muitas vezes se relaciona, interfere e sofre interferências das
historicidades.
A principal preocupação da minha investigação é problematizar e (des)construir o
conceito de “transexual verdadeiro” e (des)patologizar esta experiência, inicialmente através
27

da análise de videologues produzidos por homens transexuais brasileiros que evidenciam a


disputa entre o saber-poder médico e jurídico que, enquanto decidem e reiteram suas verdades
fascistas sobre o que é legítimo para o outro, praticam a violência institucional de quem fecha
os olhos e “cobre os ouvidos”, impedindo ao outro lhe dizer quem é e o que de fato deseja.
Através de muitas dessas produções midiáticas, os videologues, podemos acessar essas
vozes, essas multidões. Ainda que as pessoas trans sejam constantemente violentadas nesse
processo de fabricação de si ou nesse exercício de liberdade, suas narrativas nos mostram que
não há apenas assujeitamento. Esses sujeitos também resistem à medida que combatem o
poder, a dominação e a sujeição, ao (re) criarem novos modos de subjetividade.
Em meados do século XIX, dois campos de conhecimento, médico e jurídico, tiveram
que refazer suas práticas e renovar seus conteúdos. Haja visto que o saber médico requisitado
pelo Estado Moderno se incorporava a um tipo de política cientifica que tinha como objetivo
o controle dos comportamentos, a homogeneização dos hábitos e a reafirmação das funções
simbólicas e ideológicas da justiça criminal e do judiciário. (CANCELLI, 2001, p. 31). A
justiça se viu então obrigada a ceder, cada vez mais, espaço a um tipo especifico de saber
médico, pois dependia dos laudos médicos para formalizar com segurança as sentenças
aplicadas aos “supostos criminosos/criminosas”.
Quando pensamos na população transexual brasileira e na sua busca por cuidado em
saúde e direitos civis, sabemos que ela está intrinsecamente ligada à vontade e à autorização
médica-fascista. A justiça brasileira por sua vez, em uma nítida disputa de poderes, é ainda
dependente do discurso médico e raramente concede, por exemplo, retificações de nome e de
gênero de pessoas trans, quando estas ainda não realizaram todas as etapas exigidas pelo
processo médico transexualizador para se tornarem então cidadãos/cidadãs de direito.
Há cem anos, o sexólogo alemão Magnus Hirschfeld (1868-1935) estabeleceu os
fundamentos para uma exploração científica dos grupos trans com observações acerca do
“terceiro sexo”, dos “estados sexuais intermediários” e também sobre “travestismo”
(HIRSCHAUER, 1999). Os estudos do sexólogo se referiam a homossexuais, mulheres
lésbicas e pessoas trans que ele definia como “estados sexuais intermediários” e não como
desviantes ou anormais.
Seus estudos científicos e o seu conceito de estados intermediários nos mostra uma
multiplicidade de variações de expressões de gênero. Essas múltiplas formas de expressões de
gênero representam um modelo alternativo ao discurso médico heteronormativo ocidental
fascista que contribui para a criminalização, patologização e que causa um grande sofrimento
social aos indivíduos pertencentes a um dos grupos acima mencionados.
28

Os conceitos de “mudança de sexo” e de cirurgia de mudança de sexo existiram muito


antes da expressão “transexual” fazer parte do vocabulário médico. Porém, a existência de
pessoas trans em muitas culturas e épocas históricas é conhecida e anterior a esses conceitos,
como bem nos reporta Leslie Feinberg em sua obra intitulada Transgender Warriors (1997).
No início do século XX alguns cientistas europeus realizaram experimentos de
“mudança de sexo”, primeiramente em animais e mais tarde também em humanos. Eugene
Steinach, um fisiologista da Universidade de Viena, ficou conhecido internacionalmente por
seus experimentos em “transplantar” ovários em ratos machos, observando que o
comportamento destes se aproximava do comportamento de uma fêmea da sua espécie, e de
implantar testículos em roedoras fêmeas e perceber que estas desenvolviam certas
características típicas dos machos, incluindo o comportamento sexual.
A pesquisa de Steinach influenciou o desenvolvimento da endocrinologia, que tentava
encontrar a essência do sexo, do gênero e da sexualidade nas secreções das gônadas. Seu
instigante trabalho convenceu diversos médicos de que o comportamento sexual estava ligado
aos hormônios, ao mesmo tempo em que sugeria a possibilidade médica de modificação do
sexo (BALZER, 2008).
As pesquisas com animais acabaram influenciando as cirurgias experimentais em
humanos. Robert Lichtenstern, por exemplo, por volta de 1915, transplantou testículos de um
homem saudável em outro homem que nunca os havia desenvolvido e também em homens
que os haviam perdido em algum acidente. Outros cirurgiões também implantaram testículos
de animais em homens e óvulos de uma mulher para outra. Porém, vale mencionar, que esses
experimentos com transplantes não tinham como objetivo final transformar homens em
mulheres ou mulheres em homens.
Existem alguns registros de que as primeiras intervenções corporais ou tentativas de
cirurgias aconteceram em 1902. Entre as décadas de 1920 e 1930, médicos afiliados ao
Instituto Hirschfeld, realizaram e propagaram algumas cirurgias de mudança de sexo em
pacientes que eles haviam denominado de “travestis” (BALZER, 2008).
As notícias sobre a possibilidade de ser submetido a uma cirurgia de “mudança de
sexo” alcançaram os Estados Unidos, via cultura popular, e depois em revistas e jornais, a
partir de 1930. A atmosfera havia mudado. Não se tratava mais apenas de pessoas que se
“passavam” por homens ou mulheres, ou seja, que investiam em vestuário e performances,
mas em pessoas que haviam passado por uma cirurgia, confirmada por médicos e que tiveram
alguma ou várias modificações corporais. Antes mesmo dos anos 50, os/as norte-
americanos/americanas foram expostos/expostas à ideia de que o sexo não era mais imutável.
29

Harry Benjamin, endocrinologista e sexólogo nascido em Berlim (1885-1986) e autor


do livro The Transsexual Phenomenon (1966), quando ainda jovem fez algumas visitações ao
Instituto de Sexologia de Hirschfeld. Com ideias e observações bastante diferenciadas das de
Hirschfeld, Benjamin funda com sexólogos norte-americanos na segunda metade do século
XX, a medicalização das identidades trans como discurso hegemônico, primeiro nos Estados
Unidos e depois em escala internacional.
Foi através da publicação do livro The Transsexual Phenomenon, no ano de 1966, que
Harry Benjamin passou a ser referência conceitual sobre transexualidade. A definição e a
classificação da transexualidade, com seus contornos e especificidades de um objeto próprio
no campo nas patologias sexuais, surge nessa obra. Benjamin definiu a singularidade da
transexualidade em oposição ao hermafroditismo, à homossexualidade e ao travestismo,
estabelecendo uma tipologia gradativa que ia do pseudo transexual ao transexual verdadeiro.
Vale ainda mencionar que ele foi responsável por estabelecer uma condução terapêutica que
se transformou numa referência na segunda metade do século XX, através do instituto que
levou o seu nome, e que é até hoje uma das maiores e influentes autoridades em se tratando de
transexualidade (LIMA, 2010).
De acordo com Harry Benjamin, o ou a travesti poderia ser definido/definida como
aquele/aquela que usa roupas inapropriadas para o seu gênero e possivelmente fetichista. As
pessoas transexuais poderiam ser definidas como sujeitos que desejam obter a cirurgia de
redesignação sexual e também de viver uma vida de acordo com o seu gênero verdadeiro.
Esta diferenciação não só causou a patologização das identidades trans mais diversas,
como também uma inversão de poderes. As “partes interessadas” deixaram de ter autonomia
de decisão sobre suas vidas para terem seus destinos guiados, moldados e regulados por
profissionais da área da saúde. Esse deslocamento de poderes possibilitou a
institucionalização do diagnóstico e dos padrões de cuidado da transexualidade que se deu em
1960 e 1970, assim como a introdução do dignóstico de transexualismo como transtorno
mental no catálogo de diagnósticos DSM – III da APA (HIRSCHAUER, 1999; BULLOUGH
& BULLOUGH, 1998) em 1980.
Em 1965, começa nos Estados Unidos o primeiro programa de identidade de gênero
no Hospital John Hopkins, em Baltimore. O nome de John Money está ligado a um grupo de
trabalho deste hospital, onde pesquisas no âmbito da clínica de identidade sexual foram
desenvolvidas e geraram formulações teóricas fundamentais na separação da transexualidade
dos casos de intersexualidade. Os trabalhos de Money também foram importantes na
introdução de uma perspectiva sociológica e psicológica a partir das noções de identidade e
30

papéis sexuais na compreensão e explicação do fenômeno da transexualidade (LIMA, 2010).


Até o final de 1970, 40 centros semelhantes foram fundados e ficaram mais
conhecidos como clínicas de disforia de identidade de gênero ou somente clínicas de
identidade de gênero (HIRSCHAUER, 1999; BOLIN, 1994). A obra escrita por Harry
Benjamin, intitulada The Transsexual Phenomenon, se converteu em obra de referência para
os/as profissionais que diagnosticavam e tratavam das pessoas trans e ironicamente passou a
ser também internalizada por parte da população trans.
A Associação Internacional de Disforia de Gênero Harry Benjamin, fundada em 1979
e hoje conhecida como Associação Profissional Mundial de Saúde Transexual (WPATH),
elaborou o Standards of Care, publicado a primeira vez em 1979, e intencionalmente dirigido
a profissionais do mundo todo. Não é difícil perceber que por volta dos anos 90, os discursos
norte-americanos sobre a transexualidade se tornaram os mesmos em vários outros países do
mundo com termos patologizantes como transexualidade, travestismo e intersexualidade.
A HBIGDA, abreviação de Harry Benjamin International Gender Dysphoria
Association, nome anterior da WPATH, legitimou-se então como uma das associações
responsáveis pela normatização do “tratamento” para as pessoas transexuais em todo o mundo
e publica, regularmente, as Normas de Tratamento (Standards of Care - SOC, atualmente em
sua 7ª versão) que orientam profissionais que trabalham com transexualidade. Além desse
guia, dois outros documentos são reconhecidos como oficiais na orientação do diagnóstico de
transexualidade: o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM - 5ª
versão), e o Código Internacional de Doenças (CID, em sua 10ª versão).
O DSM, publicado desde 1952, pela Associação Psiquiátrica Americana (APA), serve
de guia para hospitais e seguradoras de saúde ao redor do mundo. Nele, a transexualidade é
classificada como uma doença. Já o CID, elaborado pela Organização Mundial de Saúde
(OMS), a define como “transtorno de identidade de gênero”. Existem exceções e na França,
por exemplo, ela não é considerada mais uma patologia graças à ação do Movimento de
Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros.
Nesses documentos há o pressuposto de que a transexualidade, por se tratar de uma
doença, tem basicamente os mesmos sintomas em todas as partes do mundo. No Brasil, é
exatamente o fato de ser classificada como doença que permite que a cirurgia seja feita
gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde, o SUS. Desde 1997, o procedimento é autorizado
pelo Conselho Federal de Medicina como solução terapêutica para adequar a genitália ao sexo
psíquico. As intervenções cirúrgicas só são possíveis se atenderem a critérios estabelecidos
por uma resolução do Conselho. Uma equipe composta por psiquiatra, cirurgião,
31

endocrinologista, psicólogo e assistente social deve produzir um laudo unânime sobre a


necessidade do procedimento.
De acordo com informações encontradas na página da associação WPATH, essas
normas foram estabelecidas para “tratarem” as desordens de identidade de gênero. Esses guias
são supostamente designados para promover a saúde e o bem estar de pessoas com desordens
de identidade de gênero. Os Standards of Care são atualizados e revisados com novas
informações científicas e estão disponíveis para serem baixados no site da associação. Vale
ainda mencionar que foi a partir da reprodução e divulgação desses critérios e padrões
transexualizadores que uma nova história trans, agora devidamente medicalizada, diferenciada
e fascista, passou a ser construída. É desta maneira que sua universalidade é (con) firmada.
No final da década de 1950 e início da década de 1960, quando já havia sido
estabelecida a dicotomia transexual x travesti nos discursos médicos nos Estados Unidos, no
Brasil democrático pós Segunda Guerra Mundial, as pessoas trans tinham uma aceitação
social considerável. Novos estabelecimentos gays surgiam ao mesmo passo em que novas
identidades eram autodeterminadas pelas próprias pessoas envolvidas. Era possível ver
personalidades trans, como a transformista Rogéria, na grande mídia e sendo respeitada.
Rogéria foi denominada como travesti uma vez que, naquela época, artistas que
trabalhavam com performances transformistas, assim eram (re) conhecidos/ (re) conhecidas.
Ela sempre havia se percebido feminina e fazia uso de hormônios para ter uma aparência
“conforme” (BALZER, 2008). Com o golpe militar de 1964, o governo militar apontou as
travestis como inimigas da moral da família brasileira e as combatiam. As que puderam sair
do país, o fizeram. As que ficaram, se envolveram com o trabalho sexual. Ser trans não era
mais glamouroso, mas sim sinônimo de criminalidade. Foi na ilegalidade que elas se
organizaram e encontraram métodos próprios de cuidado. O silicone líquido surgia como um
arriscado aliado.
Em sua obra intitulada Travesti (1998), Don Kulick, professor de antropologia da
Universidade de Chicago, nos conta que ao entrevistar diversas travestis no Rio de Janeiro e
em Salvador no fim da década de 1990, e perguntá-las sobre o motivo de elas estarem
injetando silicone industrial, todas lhe davam a mesma resposta: “queremos modificar nossos
corpos para termos uma forma mais feminina”. Não convencido, Kulick resolve fazer a
mesma pergunta, porém individualmente.
O professor não se conformava de que o desejo delas pudesse ser apenas esse, ter
formas mais femininas. O sueco esperava ouvir como resposta que elas transformavam e
arriscavam a saúde delas desta maneira, pois internamente se sentiam mulheres. A ideia de só
32

querer transformar o corpo sem de fato ter uma essência ou um forte sentimento de
pertencimento ao outro gênero, lhe era difícil de ser digerida, assim como o foi para diversas
outras pessoas e o é até hoje.
Kulick (1998) e Balzer (2008) realizaram suas pesquisas com travestis e mulheres
trans brasileiras em épocas diferentes, e chegaram a uma mesma conclusão. Ao observarem
mais de perto as autodeterminações destas pessoas e mulheres, eles perceberam que existia
um espectro múltiplo de identidades travestis. A maior parte das pessoas que Balzer
entrevistou, por exemplo, que se identificavam como travestis, haviam modificado parte(s) de
seus corpos e viviam permanentemente em um papel de gênero diferente do papel masculino
que haviam sido atribuídas ao nascer.
É válido mencionar que essas pessoas e mulheres faziam essas modificações corporais
na clandestinidade. Não havia qualquer tipo de regulação no país quanto a isso e as que
faziam, ao mesmo tempo em que se arriscavam, nos apontavam o caminho para a atual
discussão sobre quem deve ter autoridade sobre esses corpos: o Estado ou as próprias pessoas
trans?
Durante a ditadura militar um famoso cirurgião brasileiro foi preso e condenado. Ele
havia realizado algumas cirurgias de redesignação, porém, esta prática ainda era considerada
ilegal no Brasil. A legalização desta prática só se deu no final da década de 1990 e veio
impregnada dos discursos médicos patologizantes norte-americanos. As pessoas e mulheres
criminalizadas da ditadura militar se transformaram nas pessoas e mulheres patologizadas da
medicina.
Não há registros de estudos acerca de como viviam os homens trans brasileiros pós
Segunda Guerra Mundial e nem durante a ditadura militar. A história do primeiro homem
trans a ser operado no Brasil, acontece justamente no final da década de 1970. Vale lembrar
que naquela época, as clínicas e os hospitais ainda não estavam liberados para fazer esse tipo
de cirurgia, e os médicos que se propunham a realizá-las eram considerados mutiladores, a
ponto do médico que operou João W. Nery, primeiro homem trans autodeclarado brasileiro e
operado, chegar a ser indiciado por lesão corporal por outras cirurgias de “mudança de sexo”.
É através da biografia de João W. Nery, Viagem Solitária (2011), que reconta e
atualiza o relato de sua primeira obra, Erro de Pessoa (1985), que ficamos conhecendo um
pouco mais sobre o universo transmasculino brasileiro. Em um dos capítulos de Viagem
Solitária, João nos narra uma ida à praia no município de Niterói, Rio de Janeiro, para
conversar e dividir experiências com outros homens trans brasileiros. É neste capítulo que o
leitor “descobre” que, além de João, outros homens trans brasileiros existiam e que alguns
33

destes também haviam se submetido a algumas mudanças corporais.


O que o leitor ainda desconhece é a vontade de parte dos homens trans brasileiros de
permanecerem invisíveis. Não há registros na história porque esses indivíduos, diferentemente
das travestis e mulheres trans da década de 1950, eram invisibilizados. Como ainda há uma
invisibilização dos homens trans brasileiros, e principalmente dos homens trans hoje com
mais idade, o que pode ser por mim percebido, através de conversas informais com alguns
deles no I ENAHT (I Encontro Nacional de Homens Trans), realizado na Universidade de São
Paulo, SP, no início deste ano, é que eles buscavam ser discretos para tentarem garantir a
segurança deles próprios e também das pessoas com quem eles se relacionavam.
Com essa atitude, uma parcela desses homens trans conseguiu se manter afastada da
criminalidade e muitos deles puderam, dessa maneira, investir em educação e em
profissionalização. Todavia é válido mencionar que essa é uma das construções narrativas de
homens trans sobre suas invisibilidades. Somente uma parcela deles esteve presente no
Encontro Nacional, tinha conhecimento sobre a realização do mesmo e pôde participar.
Existem diversos outros homens trans que não têm conhecimento ou não fazem parte de
movimentos sociais, por exemplo, e, exatamente por esses motivos, suas narrativas não são
reveladas.
De acordo com Bento (2006, p.43):

quando se diz 'transexual', não se está descrevendo uma situação, mas produzindo
um efeito sobre os conflitos do sujeito que não encontra no mundo nenhuma
categoria classificatória e, a partir daí, buscará comportar-se como 'transexual'. O
saber médico, ao dizer 'transexual' está citando uma concepção muito específica do
que seja um/a transexual.

É esse saber médico que apaga a pluralidade, uma vez que põe em funcionamento um
conjunto de regras reunidas nos protocolos, que visam encontrar o/a “verdadeiro/a
transexual”. O ato de nomear o sujeito transexual implica pressuposições e suposições sobre
maneiras apropriadas e não apropriadas que as pessoas trans devem reforçar em suas práticas.
Em um texto apresentado no 38o Encontro Anual da Associação Nacional de Pós-
Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais, intitulado A Construção do Dispositivo Trans:
Saberes, Singularidades e Subversões da Norma, Lima (2014) procura nos trazer atualizações
ou novas/outras configurações do dispositivo da transexualidade, recobrando como hipotética
a ideia de que por dentro do próprio dispositivo as linhas de força, que Michel Foucault toma
enquanto poder, estão em constantes conflitos produzindo regimes discursivos e práticos. As
pessoas trans visibilizam-se tanto nos processos de captura e controle quanto nos processos
34

de negociação, de subversão às normas que uniformizam e reduzem a rica experiência das


transexualidades a um caráter estritamente patológico e medicalizante.
Ao mesmo tempo em que algumas pessoas trans se tornam assujeitadas pelas
estratégias de controle e deixam suas subjetividades serem capturadas, como nos relata Borba
(2014), ao nos apresentar diversas narrativas, outras tantas subvertem o sistema, podendo
fazer uso da vitimização ou da mentira como estratégias não-fascistas, para acessarem os
mais diversos procedimentos, como veremos a seguir, através de Agnes, uma mulher trans
cuja narrativa foi transformada em um clássico da literatura sociológica.
Agnes, “uma menina de 19 anos, criada como menino, cujas medidas eram 96-63-96
acompanhadas de pênis e escroto totalmente desenvolvidos” (GARFINKEL, 1967, p. 117)
apareceu no Departamento de Psiquiatria da U.C.L.A. no ano de 1958, onde conheceu Stoller
e o etnometodólogo Harold Garfinkel, alegando ser intersexual e apresentando um “forte e
permanente desejo” de viver no gênero que se sentia, o feminino.
Garfinkel transformou a história de Agnes em um clássico da literatura sociológica
com a publicação de seu Studies in Ethnomethodology (1967). No apêndice de um dos
capítulos de sua obra, o etnometodólogo revela que depois de oito anos da realização das
cirurgias, Agnes confessou a Stoller, por carta, que havia mentido. Agnes revela
primeiramente à equipe de pesquisadores da U.C.L.A que tinha nascido com um problema
congênito ironicamente “confirmado” em exames clínicos (uma disfunção rara que Stoller
chama de “síndrome de feminização testicular”). No entanto, mais tarde surge a revelação de
que Agnes, desde os 12 anos de idade, tomara os medicamentos receitados para a reposição
hormonal de sua mãe.
Independentemente da classificação psiquiátrica “transexual” estar à época em estado
inicial, aprendemos neste apêndice que a jovem, de fato, não era uma pessoa intersexual, o
que transforma o relatório de Garfinkel na primeira discussão sociológica profunda sobre a
construção de performances de gênero da/na transexualidade (RABY, 2000; BORBA, 2014).
As performances de Agnes foram construídas para e com Garfinkel com vistas a servir
propósitos específicos, que em seu caso, era o de obter as intervenções corporais que julgava
serem necessárias para sua construção como mulher.
De acordo com Borba (2014, p. 164):

o foco das análises de Garfinkel se limita às fronteiras textuais dos eventos


discursivos dos quais ele e Agnes participaram. Embora ele não se preocupe com a
35

produção do “status sexual” 5 como resultado de uma série interconectada de


encontros entre os quais certos signos de identidade circulam e acabam por
solidificar uma performance identitária para os indivíduos que pressupõem, sua
discussão pode nos fornecer subsídios para entender o papel das “mentiras”, como
técnicas de si, na constituição do modelo metapragmático de “transexual verdadeiro”
e na configuração das práticas de cuidado à saúde trans-específicas correntes
atualmente.

A experiência de Agnes é intricada. Ao construir com/para Garfinkel performances


que a produziam como uma mulher heteronormativa, homofóbica e reprodutora de
estereótipos femininos, Agnes conseguiu a aprovação das cirurgias que tanto desejava.
Utilizando-se de técnicas de si movidas pela necessidade de satisfazer as expectativas de seus
interlocutores, ela contribuiu para que a categoria psiquiátrica “transexual” se solidificasse
com base nas “mentiras” que Garfinkel e Stoller acreditavam ouvir. Tais “mentiras”, não
obstante, forjaram o modelo metapragmático que constrange as ações de pessoas transexuais
em programas de transgenitalização hoje em dia (BORBA, 2014).
Podemos tomar a experiência acima descrita como um pontapé para o
estabelecimento/fortalecimento dos dispositivos de controle que operam no âmbito da saúde,
reforçando a heteronormatividade, produzindo subjetividades e estabelecendo um único
modelo de transexual, o “verdadeiro”. Como outro exemplo, destaco aqui o fragmento do
relato de Eduardo, um homem trans entrevistado durante o trabalho de campo na tese de
doutoramento de Lima (2014). Ao fazer referência a um determinado profissional de saúde
(M.), ele nos revela:
Para M., eu não sou transexual, sou travesti porque tenho um filho. Transexual não
teria um filho, é aquela coisa doente mesmo, se você pega o pinto assim, se você
tem nojo do seu corpo. Por isso que já tem uma escola, por exemplo, você já foi lá
(referência aos serviços de saúde – grifo da autora) e conseguiu fazer uma cirurgia,
então, o que eu tenho que falar? Porque é isso, é metódico, é aquela coisa (LIMA,
2014, p. 67).

O profissional em questão não avaliava e nem produzia um regime de verdade que


considerasse Eduardo como um homem trans pelo fato dele ter uma filha, como se a condição
da maternidade/paternidade pudesse ser atribuída somente aos heterossexuais e, portanto, em
se tratando de Eduardo, essa experiência era excludente e o retirava da categorização de
“transexual verdadeiro”. Esse tipo de violência, incompreensão e exclusão fascistas podem ser
vistas com frequência sendo reproduzidas no âmbito da saúde e principalmente nos serviços
de atendimento à população trans (LIMA, 2014).
Por fim, retomo aqui a discussão de que inicialmente a institucionalização da

5
Garfinkel chama o que hoje entendemos por gênero de “status sexual” . O conceito de “gênero”, apesar de já
existir, não era usual à época.
36

assistência a pessoas trans foi associada ao modelo estritamente biomédico – diagnóstico:


transtorno de identidade de gênero; tratamento: cirurgia de transgenitalização -, hoje a noção
de saúde integral há que promover uma abertura para redescrições da experiência transexual.
Este deslocamento exige em parte a problematização da gramática normativa dos sistemas de
saber dos especialistas, que consideram o “transexualismo” uma patologia, ou seja, o tido
“transtorno de identidade de gênero”– devido a não conformidade entre sexo biológico e
gênero (ARÁN, 2006).
Nem todas as pessoas trans desejam as mesmas coisas, desejos distintos fazem parte
da condição humana, não são características específicas destas pessoas e nem caprichos.
Algumas pessoas trans se encaixam nesse script biomédico e devem ter seus direitos
garantidos e respeitados. Todavia, existe uma multidão trans, incluindo as pessoas
transmasculinas, que não se encaixam nesse script e que por razões distintas não conseguem
sequer procurar serviços em saúde específicos. Muitas dessas pessoas não têm as cirurgias de
redesignação sexual como meta para viverem sua transexualidade, elas já o vivem.
Uma das razões encontradas nos discursos de alguns homens trans militantes, por
exemplo, é a de se recusarem a buscar esses serviços, pois não querem compactuar com o
diagnóstico que os classificam como doentes mentais e que delimitam suas sexualidades.
Algumas dessas pessoas constroem suas próprias redes de cuidado - os videologues podem
ser prova disto também - de maneiras diferentes e às vezes até funcionais, mas outras tantas
ficam à mercê da própria sorte e arriscam suas vidas. Essas pessoas também merecem e
devem ter acesso à saúde garantido.
Existe um forte temor por parte de algumas pessoas trans, principalmente por parte
daquelas que detém de poucos recursos financeiros e que são normativas, por exemplo, de
despatologizarem a transexualidade. Muitas dessas pessoas, quando perguntadas se elas se
consideram doentes, respondem que não. No entanto, essas pessoas sabem que para terem
acesso ao “tratamento hormonal” e a outras tantas outras modificações corporais desejadas,
elas precisam reforçar estereótipos e sempre que necessário, afirmarem e confirmarem que
passam por sofrimentos e que são “anormais” ou doentes.
Há uma grande disputa em evidência dentro da própria comunidade trans, quando se
trata de transexualidade e do movimento ativista internacional pela sua despatologização.
Existe uma parcela de pessoas trans que não quer ter seus direitos tomados, pois muitas destas
dependem exclusivamente do SUS. A despatologização da transexualidade e o não
reconhecimento dela enquanto doença poderia tirar as chances dessas pessoas de conseguirem
realizar suas adequações.
37

O que muitas dessas pessoas desconhecem é que sim, é possível falar/lutar pela
despatologização da transexualidade e ainda assim conseguir acessar as diferentes alternativas
que ela oferta. Um clássico exemplo dado nas discussões do movimento ativista pela
despatologização TT no Brasil e o SUS, é o da gravidez. Gravidez possui um CID (Código de
Doenças Internacional), e mesmo assim, pessoas grávidas conseguem assistência médica no
SUS uma vez que a gravidez não é mais considerada uma enfermidade.
Esse diálogo ainda é muito delicado dentro da própria comunidade, pois além do fato
mencionado acima, existe também receio por parte de algumas pessoas trans de não
encontrarem uma forma de justificarem para suas famílias ou amigos/as e parceiros/parceiras
sua transexualidade. Algumas pessoas se sentem seguras a respeito de viverem suas novas
vidas com “respaldo médico”. Elas acreditam que para aqueles/aquelas que estão “de fora” da
experiência transexual, a doença seja mais suscetível à compaixão, a compreensão, do que o
desejo. A doença é muitas vezes digna de compaixão, a autodeterminação, não.
Visando aprofundar estas discussões em torno das comunidades trans, em seus
aspectos políticos de articulação de demandas, apresento na seção a seguir apontamentos
relevantes em torno de noções de masculinidade hegemônica, masculinidade feminina,
identidades transexuais masculinas, assim como identidades transmasculinas “não-binárias”.
Permeando estas discussões identitárias, convido a uma reflexão a partir, também, de como
tem se dado a organização da sociedade civil, na atualidade, em torno de demandas da
população transmasculina brasileira.

1.2. Transmasculinidades

A masculinidade não é um privilégio exclusivo dos homens. Existem meninas


masculinas, assim como mulheres masculinas ou masculinizadas. Infelizmente, na nossa
sociedade ocidental, as mulheres masculinas são ainda muito estigmatizadas e invisibilizadas.
As subjetividades femininas e lésbicas são infindas e nos levam a refletir sobre os próprios
gêneros lésbicos.
O autor norte-americano Jack Halberstam em sua obra intitulada Female Masculinity,
do ano de 1998, nos mostra que mesmo não tendo uma resposta exata quando perguntado o
que era a masculinidade, nos faz algumas propostas sobre o motivo pelo qual a masculinidade
não deve e não pode ser reduzida ao corpo masculino e aos seus efeitos. Ao mesmo tempo em
que temos muita dificuldade em definir este termo, temos bem pouca em reconhecê-lo.
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Na nossa sociedade ocidental, o modelo de masculinidade mais valorizado é aquele


que está associado à autoridade e ao poder, e que há longo prazo, garante o privilégio e a falsa
segurança dos homens. A existência de uma masculinidade hegemônica é uma das razões para
a crença popular de que apenas essa é possível. Pouco se discute em nosso país sobre a
masculinidade feminina, por exemplo. Afinal, onde já se viu uma masculinidade ser
produzida fora desse contexto? Aí é que está o segredo! Diferentes masculinidades são
produzidas no mesmo contexto social, pois as relações se dão entre homens e homens,
mulheres e homens, e ainda, existem diversas outras masculinidades agrupadas ao redor da
hegemônica, daí se falar em masculinidades, no plural (HALBERSTAM, 1998).
A masculinidade em nossa sociedade agrega noções de poder, legitimidade e
privilégio. Halberstam, ainda no início de sua obra, já citada acima, nos mostra que a
masculinidade feminina pode ser notada em diversos filmes, inclusive em Goldeneye (1995).
Nesta película, o chefe de James Bond é uma caminhoneira mais velha que faz várias piadas e
que acusa Bond de ser sexista e misógino. A masculinidade neste filme é prostética e tanto
em Goldeneye como em outros, percebemos que a masculinidade pouco tem a ver com
hombridade biológica, mas sim como um efeito técnico especial. A chefe é a pessoa que mais
convincentemente nos presenteia com uma performance masculina. Ela nos convence de que
a misoginia e o sexismo não são, necessariamente, parte ou parcela da masculinidade.
Várias questões acerca da transexualidade vêm sendo levantadas, especialmente, na
última década. Existem poucos estudos sobre as experiências e o que se compreende entre os
espaços divididos entre lésbicas masculinizadas (butches ou “caminhoneiras”), mulheres
masculinas, homens trans, pessoas transmasculinas e a definição de gênero ou expressão de
gênero para cada um desses indivíduos.
A masculinidade feminina muitas vezes está ligada à homossexualidade feminina.
Todavia, é importante pontuar que nem toda lésbica é masculinizada e que nem toda mulher
masculinizada é, por sua vez, lésbica. Existem várias atletas olímpicas, por exemplo, que
possuem uma estética corporal e/ou um comportamento masculino, mas que têm como
orientação sexual a bissexualidade ou a heterossexualidade. Embora algumas poucas mulheres
masculinas tenham conseguido aparecer na grande mídia e/ou serem identificadas como
personalidades de sucesso, ainda não há uma aceitabilidade ou reconhecimento dessas
masculinidades.
Nos últimos quarenta anos, as descrições médicas acerca da transexualidade parecem
ainda estar mais preocupadas com o discurso do “ nasceu no corpo errado” e em descrever a
construção social dos corpos trans como um “erro da natureza”, deixando de lado outras
39

questões, não menos importantes obviamente, como as que tangem a identidade de gênero e o
sexo biológico.
Devido a um maior avanço em algumas técnicas específicas envolvendo
procedimentos cirúrgicos realizados em homens trans, a visibilidade dos transexuais
masculinos, a partir dos anos 90, parece ter complicado as discussões acerca da
transexualidade, uma vez que expôs aos olhos da sociedade elementos que, até então, viviam
à sombra da dicotomia na categorização de gênero.
No livro intitulado Female Masculinity, Jack Halberstam (1998) dedica um capítulo
inteiro para discutir a suposta fronteira de guerra entre butches (caminhoneiras), homens trans
e questiona:
Se algumas pessoas, nascidas com o sexo feminino, agora demonstram um claro
desejo de tornarem-se homens, qual é o efeito dessas transições sobre a
masculinidade do homem do sexo masculino e na categoria da butch? Qual será o
efeito de uma população transexual visível perante jovens que se identificam como
aqueles que “brincam de cruzar fronteiras”? De que maneira, ao remover-se o
estigma que recai sobre a categoria, mais tomboys anunciariam suas aspirações
transexuais? (HALBERSTAM, 1998, p.142, tradução minha)

Existe no autor uma preocupação acerca de uma maior visibilidade dos homens trans e
as consequências dos efeitos dessa visibilidade sobre diversas outras categorias, como a das
caminhoneiras, por exemplo. À medida que a tecnologia médica se torna mais acessível e,
consequentemente, a possibilidade de transicionar também, ele questiona que outras mulheres
poderiam querer fazê-la. Ainda segundo Halberstam, não se pode descartar também os efeitos
da visibilidade dos homens trans sobre a masculinidade dos homens cisgêneros.
Para Halberstam (1998), a transição de gênero de feminino para masculino permite
que pessoas registradas como do sexo feminino ao nascer tenham acesso, dentre outras
possibilidades, a privilégios como salários mais altos e colocações profissionais de maior
prestígio. Em se tratando de hierarquias de gênero, não se pode descartar a ideia de que a
transição possa ser uma solução à mobilidade social para algumas mulheres.
É preciso cuidado ao mencionarmos esta hipótese, pois em se tratando de um assunto
tão delicado quanto a transexualidade, precisamos levar em consideração os sentimentos e as
angústias dessas pessoas. É preciso compreender que para muitos transexuais, a decisão pela
cirurgia não só os transforma ou lhes dá acesso a outras oportunidades, mas também, na
maioria das vezes, lhes traz de volta, a vontade de viver.
Halberstam (1998) tenta ser cauteloso ao fazer essas observações exatamente por saber
o quão doloroso e árduo esse processo pode ser, mas ao mesmo tempo, seu questionamento
não é de todo imprudente. Infelizmente, as consequências sociais e políticas envolvendo
40

cirurgias de redesignação ou adequação de sexo em homens trans não podem ser totalmente
ignoradas. Elas existem e “incomodam”, principalmente a algumas mulheres feministas
radicais, como observaremos mais a frente.
Nem todos os transgêneros que experimentam a “disforia de gênero” lidam com ela da
mesma forma. Nem todas as pessoas trans tomam hormônios e nem todas aquelas que tomam
hormônios podem ser consideradas transgêneros. Algumas pessoas se identificam como
homens e “passam” perfeitamente, ou seja, são vistas pelas pessoas cisgêneras como homens,
sem utilizarem recursos de modificações corporais mais radicais. Paralelamente, podemos
mencionar também as lésbicas “caminhoneiras”.
Lésbicas “caminhoneiras” são mulheres masculinizadas facilmente confundidas com
homens por conta da aparência física e também da vestimenta, mas que podem se identificar
única e exclusivamente como mulheres. Logo, pode não haver esforço ou vontade por parte
dessas em se passarem por homens, consequentemente, não existiria o sentimento de
frustração por não serem bem sucedidas nesse processo.
Em alguns países, existe uma forte tensão entre algumas lésbicas feministas e homens
trans. Essas mulheres acusam os homens trans binários ou não binários, de terem sucumbido
à heteronormatividade e aos papéis de gênero, ao invés de continuarem lutando ao lado delas,
para combatê-los. Alguns homens trans, por sua vez, acusam essas mesmas mulheres de
serem transfóbicas e ainda, apontam que muitas delas têm o mesmo desejo, mas que por
medo, não transicionam.
Mais recentemente, algumas lésbicas feministas manifestaram-se em oposição aos
homens trans por considerá-los traidores e como “mulheres” que literalmente tornaram-se “o
inimigo”. Homens trans são comumente afastados de suas antigas comunidades e “apagados”
da história lésbica feminista. Algumas feministas mais fervorosas os acusam ainda, de
sofrerem de “falta de acesso a um discurso lésbico liberal” e simplesmente os punem por total
falta de senso de irmandade (HALBERSTAM, 1998).
Jeffreys (2002) aponta que por volta da década de 1970, quando as lésbicas feministas
tomaram conhecimento acerca da transexualidade, notaram que a maior parte das cirurgias de
redesignação sexual eram realizadas em homens. Naquela época, quatro vezes mais homens
que mulheres recorriam à cirurgia. A transexualidade foi analisada como uma forma de
controle social no sentido que “gentilmente oferecia” ao indivíduo “diferente” a alternativa de
se readequar ao padrão binário e ter uma vida saudável. Até então, essas poucas cirurgias não
causavam nenhum tipo de abalo na comunidade lésbica.
No final da década de 1980 e início de 1990, a configuração se transformou e muitas
41

lésbicas fizeram a cirurgia de redesignação de sexo. Esse número vem aumentando e


rapidamente. Na opinião de Jeffreys (2002), os homens trans estão destruindo o lesbianismo,
pois ao optarem por fazer a transição, escapam da opressão social da qual ainda vivem
milhares de mulheres e lésbicas no mundo e deixam de contribuir para a existência de uma
sociedade livre de estereótipos de gênero e de privilégios pré-concedidos. Qual a razão para
tanto sofrimento, gastos e mutilações para uma transição que atende somente ao indivíduo?
Não seria mais fácil lutar por uma mudança nas relações de poder e da hegemonia masculina
em nossa sociedade?
Um tanto quanto intrigante, é saber que muitos homens trans, em algum momento ou
em boa parte de suas vidas, “saem do armário” e vivem como lésbicas antes mesmo de se
“assumirem” como homens trans. Todavia, é válido mencionar que muitos outros não o
fazem. Por essa razão, é que não se pode afirmar exatamente o que distingue as lésbicas dos
homens trans. Muitos transgêneros, possivelmente em algum momento, também se
identificaram como butches em uma comunidade lésbica, mas desejam ou gostariam de poder
manter os laços com a mesma.
O que Benjamin (1966), Jeffreys (2002) e diversos outros – mutiladores de gênero -
autores, cientistas, médicos, professores e outros personagens presentes nas mais diversas
instituições fascistas não previam, era que o comportamento sexual e a capacidade de
subverter os discursos médicos reguladores, fosse ainda permanecer forte, presente e
inalterável nas produções das subjetividades de diversos indivíduos transmasculinos.
Aqui me aproprio e faço uso proposital do verbo mutilar, como contraponto aos
discursos reacionários em relação à transição médica. Diversas pessoas, principalmente
alguns profissionais da área da saúde, não acreditam na transição médica e creem que
aqueles/aquelas que dela participam, sejam mutiladores/mutiladoras de corpos. Dean Spade,
em Mutilating Gender (2000) associa o verbo mutilar, não ao que deveria ser apenas mais um
procedimento cirúrgico específico, mas à covardia com que alguns serviços e instituições das
mais diversas, mutilam as diferentes expressões de gênero e identidades. Gosto de pensar na
ideia de nós, pessoas trans, nos reapropriarmos do verbo mutilar e darmos a ele outro
significado. Não sinto que eu tenha um corpo mutilado. Meu corpo está muito longe disso.
Meu corpo é livre e legítimo. Não me senti/o mutilado por meus cirurgiões, mas me sinto
mutilado pelas autoridades médicas que insistem em nos patologizar e a em exterminar com
todas e quaisquer outras possibilidades de se viver a vida. Não sou um transexual
“verdadeiro”, sou um mutilador de gênero. (grifos meus)
Existem inúmeros indivíduos transgêneros/transmasculinos que são homossexuais, por
42

exemplo. São esses indivíduos que furam os discursos médicos para obterem as mudanças
corporais que desejam. Eles dizem exatamente aquilo que os médicos desejam ouvir. E os
médicos por sua vez, “compram” o que está sendo dito e muitas vezes sabem que aquele
discurso não é verdadeiro. Não há detector de mentiras nas clínicas ou nos centros
especializados para essa população.
Não há diagnóstico ou testes suficientes que caibam ou modelem os nossos desejos.
Fora do ambiente médico-regulador, esses indivíduos podem usar e abusar de diferentes
papéis de gênero. Ainda que o “corpo vestido” nos informe um papel específico e uma
performance sexual heterossexual compatível, esses sujeitos vão ou podem experimentar ao
longo de suas existências, diversas outras performances. O que se vê não necessariamente é o
que se quer mostrar.
É nesta tensão do “me diga a verdade que eu quero ouvir, mesmo eu sabendo que ela é
uma mentira”, que as pessoas transgêneras acabam se submetendo a manutenção da
patologização e do diagnóstico dos seus desejos e ainda, que consequentemente, a equipe
médica também não repensa seu próprio discurso. Como garantir um atendimento acolhedor,
especializado, seguro e gratuito, se as pessoas forem contra a patologização da
transexualidade?
A masculinidade hegemônica que nós (re)conhecemos e confiamos, só existe porque
outras versões de masculinidades, consideradas subalternas, também existem. Uma depende
da outra. Uma se sustenta por conta da outra. Um outro exemplo dessas outras versões de
masculinidade, é a produzida por pessoas transmasculinas, como a dos homens trans ou das
pessoas não binárias6. Longe de serem imitações das masculinidades produzidas por homens,
essas produções nos mostram como a masculinidade é construída como masculinidade. Como
essas masculinidades são subalternas, recebem menos créditos e parecem menos legítimas ou
inexistentes.
Na maior parte dos estudos acadêmicos sobre masculinidade dos homens, há uma
lacuna acerca das discussões sobre outras masculinidades, incluindo nesse rol, as
transmasculinidades. Na antologia editada por Paul Smith, Meninos: Masculinidades na
Cultura Contemporânea, para uma série sobre Estudos Culturais, Smith sugere que a
masculinidade deve ser sempre pensada no plural, como masculinidades e definidas e
recortadas por diferenças e contradições de todos os tipos.
______________
6
Para mim e para diversas outras pessoas trans é contraditório afirmar que homens trans são binários.
Para nós, todas as pessoas trans são não binárias.
43

Todavia, ao longo desta obra, Smith (1996) não consegue fazer a desconstrução da
masculinidade dos homens e biológica com a figura poderosa do homem branco. Embora ele
reconheça a força de vozes subalternas que produzem outras masculinidades, ele não as
legitima, ou seja, ele continua fazendo delas algo menor.
Smith (1996) nos inquieta uma vez que, conforme ele nos aponta, a soma da
masculinidade com a hombridade é que faz com que ela tenha legitimidade social, seria
preciso que prestássemos mais atenção nessa masculinidade hegemônica para que
pudéssemos (re)construí-la ou destruí-la. Halberstam (1998) nos aponta que é exatamente
porque a masculinidade branca ofuscou e ofusca todas as outras masculinidades, que temos
que afastar essa construção dos holofotes e trazer à cena todas as outras masculinidades e suas
distintas construções.
Umas das estudiosas brasileiras sobre as transmasculinidades, Simone Ávila, em sua
obra intitulada Transmasculinidades – A emergência de novas identidades políticas e sociais
(2014) - define as transmasculinidades como sendo identidades masculinas produzidas por
transhomens. Todavia, esta definição é um pouco mais complexa, pelo o que se pôde
presenciar e ouvir no I ENAHT (Primeiro Encontro Nacional de Homens Trans), realizado na
USP entre os dias 20 e 23 de fevereiro de 2015. Este foi o primeiro encontro nacional de
homens trans, mas também contou com a presença de pessoas transmasculinas. Discutiu-se
dentre diversos tópicos, as identidades transmasculinas. Quem eram as pessoas que se
identificavam com elas? Essas identidades, como o próprio nome nos informa, são múltiplas e
não são identidades masculinas produzidas apenas por homens trans. Essas identidades
também são produzidas pelas pessoas não binárias que se identificam com as
transmasculinidades. Diversas pessoas que se identificavam com as transmasculinidades ou
com as masculinidades, ali se fizeram presentes, mas muitas dessas pessoas não se
identificavam exclusivamente como homens.
Desde 2010, e principalmente após o lançamento da obra intitulada Viagem Solitária
de João W. Nery, um homem trans ativista e escritor, podemos observar a crescente
visibilidade de trans homens, ftms, homens, homens trans, travestis, transgêneros masculinos
e pessoas não binárias que se identificam com a masculinidade no nosso país, tanto na grande
e independente mídia, quanto no movimento LGBTIQ.
Em dezembro de 2014, dezessete homens trans brasileiros, sendo eu um destes,
participaram do IX Encontro Regional Sudeste de Travestis e Transexuais, evento organizado
pelo Fórum Paulista de Travestis e Transexuais. Neste encontro foi decidido e aprovado em
plenária, que a partir da data onde foi votada a decisão, a identidade política dos homens trans
44

brasileiros seria nominada como homens trans e o movimento de pessoas trans do Encontro
Regional Sudeste, concordou que este passaria a se chamar de movimento de travestis,
mulheres transexuais e homens trans.
É válido mencionar que diferentemente do movimento de travestis e de mulheres
transexuais, o nosso movimento, o movimento de homens trans, vem se organizando de
maneira distinta e o termo homens trans, engloba uma diversidade de homens trans. Existem
homens trans intersexuais, transgentes masculinos, transgêneros masculinos, trans homens,
homens trans, ftms, homens e pessoas não binárias que se identificam com as
transmasculinidades ou com as diferentes construções de masculinidades.
Ainda não há registros no movimento trans brasileiro de pessoas reivindicando a
identidade política travesti masculino. É possível que esta identidade exista, mas enquanto
esta parcela da população não se manifesta ou apresenta as suas demandas específicas,
continuará sendo incluída no movimento de homens trans. O movimento de homens trans
brasileiro é aberto a todas as transmasculinidades e somente se esse grupo achar que têm
ideologias e demandas muito distintas das nossas e quiserem criar o seu próprio movimento,
terão total apoio dos homens trans, e assim como as pessoas não binárias foram agrupadas ao
movimento de homens trans, os travestis masculinos também poderão ser.
Ainda que os homens trans e as pessoas não binárias possuam demandas em comum,
existem várias outras especificidades de cada um desses grupos que precisam ser tratadas de
formas diferenciadas. Entre os espaços que têm pensado e discutido essas questões, encontra-
se o IBRAT - Instituto Brasileiro de Transmasculinidades. O IBRAT constitui uma rede
nacional de homens trans ativistas que atua nos eixos da formação política, estudos e
pesquisas sobre transmasculinidades e controle social, possui atualmente diversos núcleos de
ativismo espalhados pelas mais diversas regiões de nosso país e conta com inúmeros ativistas.
Diversos núcleos foram criados nos últimos anos e foi determinado no I Encontro Nacional de
Homens Trans, que as pessoas não binárias teriam um núcleo para elas dentro do IBRAT para
discutirem e articularem suas demandas em diversos setores.
Ativistas como Alexandre Peixe, Régis Vascon, Raicarlos Coelho, Sillvyo Nóbrega,
dentre outros, foram os primeiros ativistas que galgaram este trabalho desde o inicio do
movimento transmasculino no Brasil e somente agora, dez anos depois, a luta do movimento
começa a ser (re)conhecida.
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A proposta do Encontro Regional Sudeste de Travestis e Mulheres Transexuais do ano


passado será levada ao ENTLAIDS, Encontro Nacional de Travestis e Transexuais 6, e todos
os homens trans contarão com o apoio de pessoas trans e aliadas para que de fato a presença e
a representatividade nesses espaços sejam para eles garantidas.
Nos últimos dois anos houve um aumento considerável de homens trans que estão
criando núcleos de ativismo em seus respectivos Estados, como mencionei anteriormente, e
através do IBRAT têm conseguido participar de diversos eventos, organizando encontros
nacionais, regionais e no ano de 2014, alguns membros do IBRAT Bahia representaram os
homens trans no ENUDS, Encontro Nacional Universitário da Diversidade Sexual e agora
também de Gênero, por exemplo, graças à militância destes jovens.
Neste contexto, segundo Ávila (2014), as transmasculinidades vêm se constituindo
como “novas” identidades sociais e políticas no contexto brasileiro. Essas identidades, ao
mesmo tempo em que se apoiam nas definições patologizantes, por outro lutam pela
despatologização de suas identidades de gênero. Não existe um modelo universal de
transmasculinidade, seja ela do homem, do homem trans, de uma caminhoneira ou de uma
pessoa não binária.
Ainda de acordo com Simone Ávila (2014), as transmasculinidades brasileiras podem
ser consideradas diferentes, ainda que estejam incluídas em práticas de marginalização,
subordinação e dominação. Ao produzirem uma masculinidade sem pênis, as transexualidades
poderiam ser tomadas como um desestabilizador de masculinidades hegemônicas, trazendo à
tona a arbitrariedade e complexidade do sexo e do gênero e questionando a certeza de sermos
homens ou mulheres.
Acredito que a autora tenha deixado de fora um ponto: nem todos os homens trans
produzem uma masculinidade sem pênis. Alguns homens têm orgulho e fazem bom uso de
suas vaginas, inclusive fazendo uso político desta também, todavia, outros recorrem a diversas
tecnologias, incluindo aí as cirúrgicas e ganham ou têm seus pênis reconstruídos, moldados e
mesmo assim, esses homens podem continuar a desestabilizar o cistema.
Não é a presença ou ausência de um pênis, seja ele um pênis trans ou um que se
assemelhe a um pênis de um homem cisgênero que tornam os homens trans, os homens que
são, ou que lhes dão a capacidade de transformar ou quebrar essa masculinidade hegemônica.

6
ENTLAIDS ou Encontro Nacional de Travestis e Transexuais, é um espaço central de visibilidade,
representatividade social e articulação política do movimento social de pessoas trans. Uma atividade financiada
pelo Ministério da Saúde, e realizada em parceria com as lideranças políticas do movimento em questão.
46

O que pode causar essa ruptura são as atitudes destes ou como esse “novo” gênero é
representado.
Não tenho a menor intenção de provocar Ávila, mas acho importante fazer esse
deslocamento, pois tenho receio de que muitos profissionais da saúde, principalmente aqueles
que não trabalham em centros transexualizadores de referência, acabem por conceber uma
ideia de um só tipo de anatomia de corpos transmasculinos. Alguns homens trans, por
exemplo, podem ter realizado diferentes tipos de cirurgias, terem feito uso de hormônios ou
não, e conhecer os diversos corpos trans e respeitá-los é fundamental, uma vez que cada corpo
e cada subjetividade terá uma necessidade única.
Diversos homens trans ou pessoas transmasculinas com nenhuma, muitas ou poucas
alterações corporais, já acessam ou precisarão em algum momento de suas vidas, acessar
serviços de saúde públicos ou privados. É interessante refletirmos sobre de que maneira essas
‘’masculinidades sem pênis’’, esses corpos “não conformes” são ou serão assistidos. As
pessoas trans que já participam de programas transexualizadores, por exemplo, têm
possivelmente menos chances de sofrerem estranhamentos, pois se pressupõe que os
profissionais de saúde que nestes locais trabalham, já estejam familiarizados com essas
diferentes produções corporais.
Todavia, acredito que ainda atualmente muitos homens trans e muitas pessoas
transmasculinas deixam de acessar serviços de saúde, justamente pelo medo que têm de
sofrerem constrangimentos dos mais diversos. No I ENAHT um tema também bastante
discutido foi o acesso e o cuidado em saúde e principalmente, a dificuldade que alguns
homens trans e algumas pessoas não binárias têm de consultarem um/uma ginecologista, por
exemplo. Muitos homens trans relataram que esses/essas profissionais não estão
preparados/preparadas para lidar com a diversidade sexual e nem de gênero.
Alguns homens trans apontaram o fato de que eles não precisam somente de
preventivos, mas que tendo em vista que alguns deles desejam procriar, eles também precisam
de um acompanhamento específico para tal.
Uma das muitas consequências dessa falta de preparo de algumas especialidades
médicas com relação a essa diversidade acima mencionada é a fuga, o não comparecimento
dessas pessoas e seu consequente adoecimento. Muitos homens trans desenvolvem simples
infecções urinárias e acabam, por vezes, se automedicando e/ou comprando remédios na
ilegalidade. A saúde dessas pessoas é exposta e comprometida duas vezes: a primeira quando
lhes são negados atendimentos e a segunda quando elas tentam se cuidar sozinhas
(FEINBERG, 2003).
47

Por outro lado, sabemos que não há oferta sem demanda ao mesmo tempo em que não
há conhecimento sem exposição. Se a pessoa trans não comparece à consulta, não apresenta o
que deseja, o profissional por sua vez também não tem como (re) pensar a sua prática. Por
mais que às vezes seja desgastante essa busca por um atendimento digno e de qualidade, não
se pode desistir deste. É na desistência deste que a invisibilidade das pessoas trans e de suas
demandas se perpetua nos serviços de saúde e em diversos outros serviços e instituições.
As transmasculinidades ou as masculinidades (re) produzidas ou inventadas pelos
homens trans ou pelas pessoas transmasculinas foram ainda pouco exploradas por
pesquisadores ou até mesmo por seus atores. Muitos homens trans ainda estão buscando uma
maneira gentil, menos normativa, de exercer essa masculinidade ou de representá-la.
Enquanto alguns estão atentos a esta dinâmica e desejam evitar reproduzir machismos e
abusos de poder, outros tantos reproduzem esses estúpidos comportamentos, na tentativa de se
auto-afirmarem como homens viris.
Os homens trans são ainda invisíveis para a maioria dos LGBTs, invisíveis para os
gays, para as lésbicas, para as travestis e até mesmo para as mulheres transexuais, das quais
muitas têm se relacionado com os homens trans e se mostrado mais abertas e proporcionando
assim possíveis outras performances de gênero ou orientações sexuais (ÁVILA, 2014).
Os homens trans ainda estão se organizando e começando a falar sobre políticas
públicas e sociais que visem o cuidado específico e de sua inserção em nossa sociedade.
Foram quase dez anos vivendo de maneira dependente do movimento das travestis e mulheres
transexuais, que nos apoiam, mas que incentivam a autonomia e o nosso protagonismo.

Dadas a relevância das demandas transmasculinas para a área da saúde, a seção final
deste capítulo apresenta questões acerca de como tem ocorrido o acolhimento e cuidado à
população trans no Brasil, tensionando aspectos legais que, na prática de atendimento aos
usuários trans do Sistema Único de Saúde, causam sofrimento e não atendem aos princípios
democráticos deste sistema.

1.3. Transexualidades e saúde no Brasil

A partir de algumas transformações no campo da Saúde Pública, as transexualidades


ganharam visibilidades e legitimidades. Uma associação de fatos, aliados a sujeitos e
instituições colaborou para a construção de uma modalidade de assistência pública a
transexuais no nosso país. Neste novo contexto, pode-se notar a atuação do Conselho Federal
48

de Medicina (CFM), através de resoluções que normatizaram as cirurgias de


transgenitalização; a participação dos movimentos sociais de lésbicas, gays, bissexuais,
travestis e transexuais (LGBTT) que tensionaram o campo da Saúde Pública para inclusão e
regulamentação da atenção à saúde das populações de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e
transexuais; a atuação de grupos de profissionais e técnicos em diferentes unidades da
federação que se propuseram a construir modalidades de assistência aos usuários e a
participação da comunidade acadêmica seja nas discussões no campo da Saúde Coletiva, das
Ciências Sociais, do Direito e, principalmente, a crescente demanda de usuários (as)
transexuais por assistência que envolve transformação corporal (LIMA, 2010).
A compreensão do processo transexualizador se situa num âmbito maior que podemos
designar como a Política Nacional de Saúde LGBT, um divisor de águas para as políticas
públicas de saúde no Brasil e um marco histórico de reconhecimento das demandas desta
população em condição de vulnerabilidade. A visibilidade das questões relativas à saúde da
população LGBT se deu a partir da década de oitenta, quando o Ministério da Saúde adotou
estratégias para o enfrentamento da epidemia HIV/Aids juntamente com os movimentos
sociais vinculados à defesa dos direitos de grupos gays. A formulação da Política Nacional de
Saúde LGBT seguiu as diretrizes de governo expressas no Programa Brasil sem Homofobia,
que foi coordenado pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República
(SDH/PR) e que atualmente compõe o Programa Nacional de Direitos Humanos (PNDH3).
Devido ao reconhecimento da complexidade da saúde LGBT, fez com que o
movimento social buscasse parcerias com outras áreas do Ministério da Saúde, buscando
assim ampliar o conjunto de suas demandas em saúde. Sua formulação contou com a
participação de diversas lideranças e deu à Política um caráter transversal, que englobou todas
as áreas do Ministério da Saúde, fossem elas relacionadas à produção de conhecimento,
participação social, promoção, atenção e cuidado. Posteriormente, ela foi aprovada pelo
Conselho Nacional de Saúde.
Diversas ações vêm sendo implantadas para evitar a discriminação contra lésbicas,
gays, bissexuais, travestis e transexuais nos serviços públicos de saúde. Este compromisso
ético-político deve existir em todas as instâncias do Sistema Único de Saúde (SUS), de seus
gestores, conselheiros, técnicos e de trabalhadores da saúde de uma maneira geral. A garantia
ao atendimento em saúde é um direito constituinte garantido a todo cidadão e cidadã
brasileiros, tendo em vista suas especificidades de gênero, raça/etnia, geração, orientação e
práticas afetivas e sexuais.
49

À medida que o processo de redemocratização em nosso país avançou, no final da


década de setenta, surgiram vários movimentos sociais em defesa de grupos específicos e de
liberdade sexuais. As reflexões e práticas ativistas têm contribuído para importantes
mudanças de valores na nossa sociedade. O início dos anos oitenta, época fortemente
relacionada aos gays e à epidemia HIV/Aids, tivemos um governo brasileiro bastante atuante
no sentido de apoiar diversas mobilizações da população homossexual masculina na
prevenção da doença. As mobilizações contribuíram para um grande efeito sanitário diante
no enorme número de casos que atingiu este grupo.
Aos poucos, o movimento que até então era composto basicamente por homens, foi
agregando outros grupos de diversas identidades sexuais e de gênero, especialmente as
lésbicas e as travestis. Esses dois grupos trouxeram novas demandas e assim, redirecionaram
as estratégias de prevenção e do cuidado de pessoas em relação ao HIV/Aids (BRASIL,
Ministério da Saúde, 2008).
Na década seguinte, foi a vez do movimento das travestis. Pautando o governo para o
atendimento de suas demandas específicas para além daquelas de prevenção ao HIV/Aids.
Essas outras questões giraram em torno da homossexualidade feminina, contribuindo para a
visibilidade das lésbicas e das mulheres bissexuais que já haviam tentado trazer essas questões
na década anterior, mas foram invizibilizadas dentro do movimento gay.
As demandas dos movimentos organizados LGBT permeiam reinvindicações nas áreas
dos direitos civis, políticos, sociais e humanos. Eliminar a discriminação e a marginalização,
de acordo com os Princípios de Yogyakarta – Princípios sobre a aplicação da legislação
internacional de direitos humanos em relação à orientação sexual e a identidade de gênero, a
Política LGBT representa mais um passo na transformação de posição histórica à qual essa
população está submetida na sociedade brasileira e é sem dúvidas, um desafio para o nosso
atual governo (PRINCÍPIOS DE YOGYAKARTA, 2007)
No ano de 2004, o Ministério da Saúde constitui o Comitê Técnico de Saúde da
População LGBT com vistas à elaboração de uma política específica para o SUS. A conquista
por representatividade no Conselho Nacional de Saúde, pelo segmento LGBT dois anos mais
tarde, traz um novo sentido de atuação do movimento nos processos de participação
democrática no SUS, assim como permite promover o debate de forma estratégica e
permanente sobre as questões ligadas à orientação sexual, identidade de gênero e suas
repercussões na saúde. No ano de 2007, na 13ª Conferência Nacional de Saúde (BRASIL,
2008), a orientação sexual e a identidade de gênero são incluídas na análise da determinação
social da saúde.
50

Algumas recomendações emanaram dessa conferência tais como: a ampliação da


participação dos movimentos sociais LGBT nos conselhos de saúde, a garantia dos direitos
sexuais e reprodutivos e o respeito ao direito à intimidade e à individualidade, o
estabelecimento de normas e protocolos de atendimento específicos para as lésbicas e
travestis, o aprimoramento do Processo Transexualizador, a sensibilização dos profissionais a
respeito dos direitos LGBT, com inclusão do tema da livre expressão sexual na política de
educação permanente do SUS, dentre algumas outras.
A I Conferência Nacional de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais foi
realizada no ano de 2008 pela Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da
República e promoveu uma mobilização do governo e da sociedade civil reunindo mais de
seiscentos delegados. Foram debatidos temas relevantes aos 18 ministérios. A Política LGBT
foi aprovada pelo Conselho Nacional de Saúde em novembro de 2009 e foi legitimada através
de um amplo processo democrático e participativo.
Durante as décadas de setenta e oitenta, o sistema de saúde focou suas prioridades no
combate ao HIV/Aids, inicialmente exclusivamente com a população gay, como vimos
anteriormente e mais tarde também nas pessoas travestis e transexuais. No entanto, os
problemas desta população hoje são bem mais complexos e podemos incluir aí os problemas
de saúde, uma vez que as demandas dessas pessoas são numerosas e que nem todas foram
ainda sequer ouvidas, quiçá incluídas.
A população LGBT, assim como outras minorias, na maioria das vezes é excluída
socialmente devido ao desemprego, a falta de acesso à moradia e alimentação digna, bem
como o acesso à educação e a permanência nela, à saúde, ao lazer e a cultura. Essas formas de
preconceito como a homofobia, a lesbofobia, a bifobia, a travestifobia e a transfobia podem
ser consideradas como contribuintes para a determinação de sofrimento e saúde.
Seguindo uma tendência internacional, mas com especificidades brasileiras, esse
processo teve seu início em novembro de 1997. O Conselho Federal de Medicina, por meio da
Resolução 1482/97, aprovou a realização de cirurgia de trangenitalização nos hospitais
públicos universitários do nosso país. Há registros de cirurgias consideradas de caracteres
sexuais secundários realizadas em serviços de saúde privados na década de setenta. Estas
cirurgias foram realizadas em mtfs e ftms. No entanto, estas foram consideradas ilegais e
como uma de suas consequências, tivemos conhecimento midiático inclusive de que um
famoso cirurgião brasileiro, que operava pessoas trans, teve seu registro caçado.
A resolução de 1997 considerou que a cirurgia de transgenitalização ainda tinha como
motivo essencial uma “intenção benéfica”, baseada nos princípios terapêutico, à busca da
51

integração entre o corpo e a identidade sexual psíquica do interessado/a e o outro, se refere ao


direito da autonomia e justiça, ao direito de dispor do próprio corpo e a não- discriminação na
demanda à cirurgia. No ano de 2002, a Resolução 1652 do Conselho Federal de Medicina
revogou a Resolução 1482/97 que autoriza a cirurgia de transgenitalização a título
experimental (ARÁN & MURTA, 2009).
Após essa segunda Resolução, e levando em consideração o estágio atual e
acompanhamento dos casos de transexualismo e o bom resultado estético funcional das
neocolpovulvoplastias e/ou procedimentos outros, se estabelece que as cirurgias para
adequação do fenótipo masculino para feminino, podem ser praticadas em hospitais públicos
ou privados independentemente da atividade de pesquisa. Com relação à neofaloplastia e/ou
outros procedimentos, a realização se manteve condicionada à prática em hospitais
universitários ou hospitais públicos adequados para a pesquisa.
Para que um indivíduo transexual consiga acessar os serviços de saúde
transexualizadores, ele precisa ter o diagnóstico de transexualismo confirmado e ainda, só
poderá realizar essas cirurgias após acompanhamento psiquiátrico por, no mínimo, dois anos.
Desde 2002, vários serviços interdisciplinares especializados começaram a ser organizados
devido às demandas de transexuais que procuraram o atendimento público após essa
resolução ter sido divulgada midiaticamente.
A partir da busca e interesse por parte da população trans que procura assistência para
a realização do processo transexualizador, se percebe que os serviços que prestam assistência
a essa população, foram organizados a partir da regulamentação desta prática, após a
publicação da Resolução no 1.482/97 do Conselho Federal de Medicina. Tendo em vista que
esse atendimento é considerado de alta complexidade, a maioria desses serviços encontra-se
em hospitais públicos universitários, localizados nas regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste do
país.
Na pesquisa intitulada “Transexualidade e Saúde: condições de acesso e cuidado
integral” (IMS-UERJ/MCT/CNPq/MS/SCTIE/DECIT), a professora Dra Márcia Arán e a
psicóloga Daniela Murta (2009), realizaram um levantamento preliminar desses serviços e
notaram que praticamente todos possuíam um ambulatório especializado para o atendimento
desta população. Os serviços eram compostos por uma equipe interdisciplinar constituída por
profissionais do quadro permanente do hospital. Todavia, é válido mencionar que de 2009 até
agora, os serviços mudaram consideravelmente.
Esta equipe normalmente era e é composta por cirurgião reconstrutor genital
(urologista/ginecologista), psiquiatra, psicólogo, endocrinologista, cirurgião plástico,
52

assistente social e enfermagem, sendo que o número de profissionais envolvidos pode variar,
assim como as especialidades, em cada uma dessas instituições. Além disso, sabe-se que
alguns desses serviços têm convênio com uma assessoria jurídica para a “mudança” ou
retificação do nome civil, que até o ano de 2014, por exemplo, para os homens trans, estava
condicionada à realização da cirurgia de transgenitalização.
Durante o período da pesquisa em que os serviços foram analisados, as intervenções
médico-cirúrgicas atendem aos critérios estipulados pela Resolução no 1.652/2002 do
Conselho Federal de Medicina (CFM), que determinam que o prazo mínimo de dois nos de
acompanhamento terapêutico com condição para a realização da cirurgia de
transgenitalização, assim como a maioridade e o diagnóstico de transexualismo. Passados
esses dois anos, caso a/o usuária/o seja considerada/o apta/o e tenha condições clínicas, esta/e
pode ser encaminhada (o) para a realização do procedimento cirúrgico. As filas de espera
são/estão cada vez maiores, e pouco ou nada se sabe sobre as listas de espera com os nomes
dessas pessoas, sejam elas mulheres ou homens. Ainda que esse levantamento tenha sido feito
no ano de 2009, a falta de informação acerca das listas de espera com os nomes dessas
pessoas, ainda acontece nos serviços, conforme relataram os usuários do Sistema Único de
Saúde e ativistas trans, Barbara Aires e Bruno Chaves, em matéria cedida ao jornal O DIA,
em abril de 2015.
É válido mencionar que em caso de internação médico-hospitalar, na maioria das
vezes, os homens e mulheres transexuais eram internados na enfermaria conforme o sexo com
o qual se identificam socialmente, a despeito do nome que constasse no registro civil, ou
ainda, em um leito específico para esse programa assistencial. No entanto, como não havia
uma regulamentação acerca das internações, uma resolução conjunta da Secretaria Municipal
de Saúde (SMS) e da Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual (CEDS), passou a
segurar o respeito à identidade de gênero das pessoas travestis e transexuais nas Unidades de
saúde da rede municipal do Rio de Janeiro em julho deste ano, conforme matéria publicada no
Jornal O DIA de 02 de julho de 2015.
Sete dias após a divulgação da resolução, outra matéria é publicada no mesmo Jornal
O DIA. Em 09 de julho de 2015, a Prefeitura do Rio de Janeiro, por meio da Secretaria
Municipal de Saúde, revoga a resolução, alegando ter tomado essa decisão por critérios
técnicos. De acordo com o Secretário Municipal de Saúde, Daniel Soranz, a decisão passa a
ser novamente dos médicos. Ainda na mesma notícia, é possível ler os depoimentos de dois
ativistas transexuais, sendo um deles o de um homem trans, Patrick Lima. Este último, que
também é o coordenador do Instituto Brasileiro de Transmasculinidades no estado do Rio de
53

Janeiro, lamenta em seu depoimento que “a nossa pauta sempre é ignorada, e, quando é
contemplada, uma força maior aparece e consegue derrubar um direito duramente
conquistado. Ninguém luta pela gente a não ser a gente mesmo”.
O ano de 1997 foi um marco para o cenário trans brasileiro. Houve um crescimento
considerável do número de usuários (as) que se definem como transexuais e que procuram
assistência para a realização do processo transexualizador. Tomando como referência os
dados coletados na pesquisa “Transexualidade e Saúde: condições de acesso e cuidado
integral”, no início de 2008, 700 mulheres transexuais e 120 homens transexuais já haviam
sido atendidos. Dentre estes usuários, 366 se encontravam em atendimento – 256 mulheres
transexuais e 22 homens transexuais, sendo estes últimos ainda em acompanhamento pré-
operatório e 57 mulheres transexuais e 31 homens trans que estão em acompanhamento pós-
operatório (ARÁN & MURTA, 2009).
As cirurgias realizadas em mulheres transexuais, aproximadamente 160 até o início de
2008, é bem superior ao de cirurgias realizadas em homens transexuais, que foram de apenas
30, no mesmo período. No caso dos homens transexuais, a maioria são modificações de
caracteres sexuais secundários, uma vez que a transexualização de mulher para homem é mais
complexa e permanece sendo uma cirurgia experimental (ARÁN & MURTA, 2009).
Todavia, vale destacar que estes números são aproximados e que considerando o
aumento da visibilidade desta modalidade de assistência no último ano, assim como um
aumento da visibilidade na mídia da transexualidade masculina, que o número de pacientes
seja mais expressivo do que o reportado e que tenda a aumentar ainda mais. Esses números
não incluem a provável demanda reprimida e as barreiras de acesso na busca por essa
assistência, uma vez que não existe uma política de atenção básica para essa clientela e nem
se conhece também dados sobre pessoas que buscaram assistência nos serviços privados de
saúde e nem no mercado ilegal para aqueles que se hormonizam por conta própria, por
exemplo.
O protocolo de atendimento desses profissionais consiste em hormonioterapia,
atendimento psicológico e psiquiátrico, na assistência social, e na polêmica cirurgia de
transgenitalização. Os procedimentos foram normatizados por meio da Portaria GM no 1.707,
de 18 de agosto de 2008 (BRASIL, 2008 a) do Ministério da Saúde, que determinou algumas
diretrizes técnicas e éticas para o processo transexualizador no SUS.
Tendo isto em vista, o Ministério da Saúde reconhece que a orientação sexual e a
identidade de gênero são fundamentais, condicionantes da situação de saúde, e que o mal estar
e o sentimento de inadaptação, em relação ao sexo anatômico dos usuários trans devem ser
54

acolhidos e assistidos assim como os da integralidade e da equidade de gêneros pelo SUS. Os


preceitos da universalidade, integralidade e da equidade da atenção.
Na realidade de nosso país, usuários (as) transexuais que chegam aos serviços de
saúde se encontram muitas vezes numa condição de extrema vulnerabilidade psíquica, física e
social, sendo a “ saúde” responsável por proporcionar a construção de uma rede de
conhecimento e inclusão social para essas pessoas. Inúmeras pessoas trans chegam aos
serviços sem informações básicas sobre seus direitos e sua condição. Muitas pessoas trans
perderam seus vínculos familiares e empregatícios. Por esses motivos, faz parte da rotina da
maioria dos serviços acolher uma demanda social que pode se expressar através de um intenso
sofrimento psíquico ou não.
Dentre as principais ofertas, podemos citar a hormonioterapia ou reposição hormonal,
as cirurgias de redesignação sexual e também os atendimentos psicológico e psiquiátrico. A
reposição hormonal tem como objetivo induzir o aparecimento dos caracteres sexuais
secundários compatíveis com a identificação de gênero desejada e necessita de
acompanhamento clínico. Ela pode ou deve ser realizada pelo resto da vida e poderá ser
interrompida para realização da cirurgia ou por outros motivos. Cada pessoa receberá uma
dosagem apropriada do medicamento e é importante destacar que não importa a quantidade de
testosterona que você injeta, as mudanças físicas serão gradativas e tomar altas doses não
acelerará esse processo, apenas estará colocando a sua saúde em risco.
A reposição hormonal é normalmente prescrita depois de você ter cumprido os pré-
requisitos para ser um “transexual verdadeiro”. As mulheres trans costumam administrar
antiandrogênicos e estrogênio através de doses adequadas para um melhor resultado e também
menos efeitos colaterais. Vale mencionar que existem poucos estudos sobre os efeitos da
reposição hormonal em corpos trans, então, mesmo que se faça com consciência, não se está
imune a não tão gratas surpresas.
Os estrogênios mais prescritos para as mulheres trans são o Estradiol e o Acetato de
Ciproterona. Já para os homens trans, existem diversas opções de reposição hormonal no
mercado. A testosterona é o principal hormônio utilizado para desenvolver os caracteres
sexuais masculinos secundários, e pode ser administrada através de injeções intra-musculares,
vias transdérmicas como adesivos, géis e sistemas subcutâneos e adesivos bucais, dentre
outras (ARÁN & MURTA, 2009).Quando falamos sobre cirurgias de redesignação sexual,
diferentes táticas e técnicas cirúrgicas são utilizadas em mulheres trans e também em homens
trans. Como cada indivíduo é único, suas necessidades são diferentes e os efeitos da reposição
hormonal também serão distintos em cada um dos corpos que a utiliza. As MTFs têm/podem
55

ter a retirada ou desmembramento do pênis, a retirada parcial do escroto, dentre outros


procedimentos. Alguns homens trans, como tática para a sua ressignificação corporal ou arte
corporal, utilizam-se da mamoplastia masculinizadora, dentre outros procedimentos. A
mamoplastia masculinizadora (retirada das mamas) é tida para diversos homens trans e
pessoas transmasculinas como um dos procedimentos mais cobiçados e imprescindíveis em
suas reconstruções. Esta cirurgia nos proporciona entre diversos benefícios, conforto.
Na redesignação sexual de homens trans, a qual permanece ainda experimental de
acordo com a Resolução no. 1652, de maio de 2002, do Conselho Federal de Medicina, são
utilizadas táticas e técnicas também distintas. A mamoplastia masculinizadora, muito
desejada por diversos homens trans e pessoas transmasculinas, consiste na retirada das mamas
e na reconstrução do tórax, pode ser realizada independentemente da cirurgia genital, mas esta
é considerada apenas como uma cirurgia de caractere sexual secundário.
Tendo em vista essa nova conjuntura, o atendimento psiquiátrico para a confirmação
do diagnóstico de transexualismo tem sido um dispositivo de assistência e prudência para a
realização da cirurgia. Alguns usuários optam por fazer uma psicoterapia, outros comparecem
apenas para confirmar o diagnóstico. Todavia, alguns profissionais da saúde que trabalham
diretamente com esta população, como psiquiatras e psicólogos, não se sentem confortáveis
nesta situação, já que estes profissionais sabem que este diagnóstico é também patologizante e
estigmatizante. Para muitos destes profissionais, fica claro que esta “condição trans” não pode
ser traduzida como uma “incapacidade mental”, e que a maioria das pessoas têm total
condições de exercer a autonomia sobre o seu próprio corpo. (CALIFA, 2003).
Desta forma, a transexualidade não fixa uma única posição subjetiva. Alguns usuários
expressam uma certeza quanto ao pertencimento ao gênero oposto e às vezes possuem uma
crença fixa sobre o que é uma essência “masculina” ou “feminina”. O acolhimento e o
reconhecimento desta crença tem uma função terapêutica, por vezes até essencial. É preciso
que se faça um exercício de deslocamento da necessidade de traduzir esse desejo numa
estrutura ou modo de funcionamento específico, o que permitiria a diversos profissionais
escapar da psiquiatrização ou mesmo da violência da interpretação psicanalítica (ARÁN,
ZAIDHAFT & MURTA, 2006).
Neste contexto, é importante que profissionais da área da saúde não percam de vista
em que contexto social e cultural alguns outros sintomas possam aparecer. A linha que separa
essas percepções é muito tênue e o risco de se patologizar um problema social está sempre
presente. Arán (2003) nos sugere que um estudo mais aprofundado sobre o tema seja feito,
para que a psicoterapia, quando desejada, não fique capturada pela exigência institucional de
56

confirmação de diagnóstico e nem muito menos pela indicação de cirugias, mas que possa
seguir trilhas únicas de subjetivação, as quais confiem que a transexualidade possa ser vivida.
É válido ainda mencionar que muitas destas cirurgias acima apontadas são de grande
porte e têm caráter irreversível. Por conta disto, algumas observações se fazem necessárias.
O/a usuário/usuária precisa estar esclarecido/esclarecida sobre todas as consequências
funcionais e estéticas destes procedimentos e de todos os riscos. Se consultar com os médicos
por diversas vezes para discutir esses procedimentos e riscos é tão importante quanto buscar
conversar com pessoas que já os realizaram. Outro ponto bastante relevante é com relação à
forma como se dá a opção pela transformação corporal, uma vez que para muitas destas
pessoas já vulnerabilizadas, a cirurgia de trangenitalização pode ser uma tábua de salvação
para o limbo social em que muitas ainda vivem.
Se vivêssemos em um mundo onde a diversidade de gênero fosse possível, a cirurgia
de redesignação de sexo seria realmente necessária para todas as pessoas trans? Muitas
pessoas trans que buscam os programas transexualizadores já são reconhecidas como
pertencentes ao gênero que se reconhecem e possuem uma vida sexual e afetiva saudáveis.
Muitas vezes o que ainda percebemos, são pessoas trans buscando essas cirurgias não como
um desejo intrínseco, mas como uma maneira de encontrar reconhecimento e dignidade em
suas vidas.
Até o ano de 2014, a retificação do nome na justiça carioca estava atrelada à
autorização médica, ao diagnóstico médico de transexualismo e somente uma pessoa ‘’trans
verdadeira’’ redesignada passava a ter direito a um nome que a contemplasse. Todas as
demais que não se encaixavam nesta forma estavam fadadas a ficarem de fora da pirâmide
hierárquica. Suas vidas eram menos valorizadas. Se a retificação do nome civil em nosso país
não estivesse ligada à autorização médica e posteriormente à justiça, que ainda está muito
atrelada a essa autorização médica, mas sim ao direito de autonomia de um indivíduo sobre o
seu próprio corpo e ao seu desejo, a real necessidade de realizar esta cirurgia poderia ser
relativizada.
Contudo, é válido mencionar que para muitas pessoas trans essas cirurgias fazem parte
de suas construções de si e muitas vezes essa modificação é fundamental para a construção
dos projetos de vida dessas pesssoas. Entre uma ponta e outra, existe um continuum de
pessoas trans que desejam coisas distintas. Existem, por exemplo, homens trans que desejam
realizar a cirurgia de metodoiplastia (construção de um pênis a partir do clitóris aumentado
pela reposição hormonal) e outros, incluindo aí as pessoas transmasculinas, que só querem
realizar a mamoplastia masculinizadora, ou nenhum procedimento cirúrgico, apenas
57

hormonal. É por esse motivo que a individualização do cuidado deve ser parte construtiva de
qualquer projeto baseado na integralidade da assistência (ARÁN, 2009).
Tendo em vista a complexa relação apresentada neste capítulo entre as demandas
transmasculinas no atendimento em saúde, os tensionamentos realizados pela sociedade civil
sobre estas, assim como as políticas de atendimento e cuidado em saúde trans no Brasil,
observa-se a necessidade urgente de superação de aspectos que tem se mostrado perniciosos
aos usuários e usuárias trans do Sistema Único de Saúde, visando garantir um atendimento
pautado em princípios democráticos e capazes de atuar no sentido do cuidado em saúde.
Neste percurso ao encontro de novas possibilidades reflexivas que venham contribuir
com o cuidado em saúde, apresento no próximo capítulo a narrativa produzida em videologue
por um homem trans em busca de sua própria rede de cuidado. Esta trajetória, anunciada a
partir da vivência de um homem trans usuário do Sistema Único de Saúde, colabora
profundamente para a compreensão de como tem se dado a produção da rede de cuidado em
saúde, tanto na relação direta deste homem trans com os/as trabalhadores/trabalhadoras do
Sistema Único de Saúde, quanto na surpreendente rede de cuidado que passa a ser produzida
por ele neste processo.
58

2. JACKSON TYLLER E SEU PASSAPORTE PARA A FELICIDADE

2.1 – Jackson Tyller: um agenciador da Rede Viva em Cuidado em Saúde

O processo de hormonização, foi como seu estivesse nascido de novo com aquela primeira
injeção...foi como se dali por diante Deus tivesse me dado o direito de viver e andar pelo mundo
dele sem medos. Sim, sempre digo que a testosterona é o passaporte da felicidade. No meu ponto
de vista, conhecer o que a testosterona pode proporcionar pra mim, foi como se eu tivesse
ganhado uma passagem pra felicidade, para o fim dos medos, para a liberdade de andar na rua
sem medo de alguém me constranger. Minha autoconfiança aumentou sim e muito. Isso foi por
conta da testosterona. Ela, dia após dia, foi me moldando fisicamente e me deixando como o que
eu sempre quis... Um homem. Eu era um cara tímido, retraído. Eu mal falava com as pessoas.
Hoje, sou um homem que conversa, que não tem medo de fazer amigos. Um fato importante, a
testosterona não mudou só meu corpo e meu rosto, ela mudou meu coração. De um coração triste
para um coração feliz, com vontade de viver e não de morrer.

Jackson Tyller

Conheci Jackson Tyller primeiramente através de seus videologues. Ele me permitiu,


desde a sua primeira produção, entrar um pouco em sua vida, conhecê-lo e a partir daí
aprender muito com ele. Lembro que ao ler uma chamada para uma de suas produções, que
discorria sobre a testosterona ser seu passaporte para a felicidade, fiquei um tanto inquieto.
Como um artifício químico, injetável ou aplicável por meio de géis e adesivos cutâneos, de
venda e receitas controladas e de uso continuado em corpos biológicos “femininos” pouco
pesquisado, seria capaz de provocar tamanho efeito? Que felicidade era essa que ele
mencionava? Como ele a definia? Sendo a felicidade um conceito altamente subjetivo, me
interessei pela produção das subjetividades de Tyller e, por conta própria, decidi continuar
acompanhando suas produções, embarcando nessa viagem com ele. Como já mencionado
anteriormente, Tyller hoje possui cerca de quase sessenta produções em seu canal7 no
YouTube, sobre os mais variados temas.
O jovem paulista, assim como diversas outras pessoas trans que mantém produções de
videologues ativas, os faz não só para darem visibilidade as suas subjetividades, mas também
para as trabalharem e ajudarem outras pessoas trans. Meus primeiros contatos com ele
aconteceram via mensagem de texto, dentro do espaço para comentários que são
disponibilizados logo abaixo do vídeo.
Diante de uma narrativa extremamente encantadora, de muita coragem, resistência e
potência, este rapaz inicialmente revolucionou e movimentou a rede básica de saúde de sua
cidade. Tendo em vista a falta de recursos próprios e da proximidade com grandes centros

7
O endereço do canal de vídeos de Jackson Tyller no youtube pode ser encontrado no Anexo dessa dissertação.
59

urbanos onde existem programas transexualizadores, o jovem sai em busca de criar


virtualmente, e também em “tempo real”, sua própria Rede Viva de existência e de Cuidado
em Saúde. É esta mobilização de Jackson que o torna um agenciador da Rede Viva de
Cuidado em Saúde.
A ideia de redes não é algo novo no Sistema Único de Saúde, apesar de, na atualidade,
o conceito de rede pautar os discursos e práticas dos campos institucionais nas três esferas
federativas. Segundo Merhy (2014), “Quando o Ministério da Saúde fala de rede, ele tem a
ideia de uma rede inteira, sólida, como se fosse um controle de governabilidade extenso.
Quando na verdade, as Redes Vivas são fragmentárias e em acontecimento”.
Tyller é uma Rede Viva de si e, através de seus videoblogues, está o tempo inteiro
produzindo movimentos, elaborando saberes, construindo e partilhando cuidados. Tyller
também busca e pede à rede de cuidado em saúde “formal”. Esta rede de cuidado em saúde
formal não estava dada e não podia ser preenchida de forma protocolar; ela foi sendo moldada
à medida que Tyller a demandava. Portanto, nesse contexto, Tyller foi e é uma Rede Viva em
produção.
Ainda que ele não acesse mais aquela rede específica por conta de sua mudança para
São Paulo capital, seus vídeoblogues permanecem disponíveis na plataforma e são
atemporais. Pelo fato dos videologues estarem em constante movimento, eles permitem o
surgimento de outros novos/novas agenciadores/agenciadoras. A existência de Tyller e a sua
busca por cuidado em saúde através do Sistema Único da Saúde, mais especificamente através
da clínica da família, me mobilizou. Com a ajuda e parceria de outros homens trans ativistas
do estado do Rio de Janeiro, estamos criando outra Rede Viva e, ao acessarmos ao mesmo
tempo, ainda que redes de saúde em locais distintos da cidade e do estado, como Duque de
Caxias, Riachuelo, São Gonçalo e Maricá, por exemplo, nos tornamos visíveis e
impulsionamos uma rede viva de saúde integral.
Considerando a pouca disponibilidade de tempo hábil para avaliar todas essas
produções e os diversos temas que nelas são tratados, selecionei quatro vídeos de Jackson,
que se referem ao material empírico que ilumina as inquietações aqui levantadas, para
trabalhar. Esses quatro videologues tratam da luta e das experiências de se buscar por cuidado
em saúde no interior de São Paulo quando se é um homem trans.
Ao observarmos seu canal, percebemos que sua primeira produção segue uma espécie
de “script internacional de videologues” e Tyller se apresenta neste universo. Menciona sua
idade, seu nome, se autodeclara um homem trans do interior de São Paulo, nos anuncia o
início do seu processo de transição e nos convida a participar deste.
60

Seu segundo videologue, que é um dos primeiros que me interessa analisar, trata de
sua busca por um endócrino pelo SUS. Ele inicia o vídeo anunciando que explicará como
outros jovens como ele podem conseguir acessar essa especialidade. O primeiro passo
consistia em procurar um posto de saúde próximo. Ele pontua que esses postos existem em
qualquer bairro e em qualquer cidade brasileira.
Tyller nos mostra aqui já ter algum conhecimento sobre o processo transexualizador e
seus programas específicos e as especialidades disponíveis. Alerta aos que assim como ele
não habitam grandes centros, que é possível conseguir esse cuidado ainda que as pessoas que
o assistam não saibam exatamente do que você precisa. Ele sugere que você apenas as mostre
o que precisa e siga adiante.
O jovem revela em uma entrevista, que sua namorada foi a primeira pessoa a
questioná-lo sobre sua “suposta transexualidade”. Incentivado por ela, Tyller procura algumas
respostas na internet e descobre uma entrevista de Marília Gabriela com João W. Nery. Essa
entrevista se encontra disponível na plataforma YouTube e foi assistida por muitos outros
homens trans. A visibilidade que João W. Nery, primeiro homem trans autodeclarado e
operado brasileiro, deu aos homens trans brasileiros é incontestável. Tanto sua obra, Viagem
Solitária, quanto essa entrevista ajudou e salvou muitas vidas, segundo relatos escritos por
diversos homens trans na página/perfil desta mesma obra mencionada, na rede social
Facebook.
Nery é também um ativista trans atuante nas redes sociais e muitas informações a
respeito dos direitos já conquistados pela população trans brasileira são por ele divulgadas.
Seu trabalho nas redes sociais é muito importante e educativo. Além de Jackson, Nery
contribuiu e contribui para o empoderamento de diversos homens trans em nosso país.
Em 2013, adiciono Tyller em uma famosa rede social e trocamos algumas mensagens.
Após me apresentar a ele, pergunto se este me autorizaria a usar alguns de seus vídeos em
minha pesquisa e ele o autoriza. Sempre preocupado em atualizá-lo sobre o que eu estava
fazendo e em saber se ele concordava com o que estava sendo exposto, mando algumas
páginas de minha produção para ele. Ao longo do mesmo ano, tentamos marcar um encontro
pessoal, mas devido à distância, aos nossos horários e a mudança dele para São Paulo capital,
ele é adiado.
Nosso encontro só se dá na capital paulistana um ano mais tarde. Aproveitando que
iria participar do IX Encontro Regional Sudeste de Travestis e Transexuais em dezembro de
2014, agendamos para conversarmos ao longo daquela semana em seu local de trabalho. O
61

encontro é rápido. Tyller trabalha com vendas e finais de ano sempre são um período de muito
movimento para esse setor.
A ida ao seu local de trabalho foi uma verdadeira odisseia. Chovia muito em São
Paulo e mesmo já tendo morado na cidade por alguns meses no passado, tive dificuldades de
chegar à região onde ele trabalhava. Usando um par de sapatos emprestado por uma amiga,
pois os meus haviam sido encharcados em um temporal do dia anterior, mal pude me conter
quando descobri que ele trabalhava em uma sapataria. No entanto, minha felicidade foi breve.
Por ironia do destino a sapataria onde Tyller trabalhava era feminina.
Levei alguns planfetos e cartilhas que recebi no IX Encontro Regional Sudeste de
Travestis e Transexuais para ele e também umas lembrancinhas. Conversamos bastante,
tiramos fotos juntos e nos abraçamos ao final. Mais simpático e belo que nos vídeos e de alma
magnética, Tyller é realmente encantador. Um rapaz que de forma independente construiu em
sua cidade, dentro de seu canal do YouTube e, para além desses espaços, uma potente rede de
cuidado e de ativismo trans. A trajetória de Jackson me inspirou e com certeza inspira e
inspirará a luta de outros homens trans e pessoas transmasculinas em nosso país.
Esta potência revelada nas ações de Tyller em busca de sua rede de cuidado o insere
enquanto um agenciador da Rede Viva, como apresentado nesta seção. Outro enfrentamento
narrado por Tyller refere-se ao processo de reconhecimento de seu nome social por parte de
trabalhadores/as do SUS, quando busca seus atendimentos clínicos. Esta é uma demanda
muito importante para pessoas trans e, permeando este processo, o cartão de usuário do SUS
traz uma contribuição muito importante. A seção seguinte, por meio da narrativa de Tyller,
nos apresenta como tem sido vivenciar a transmasculinidade enquanto usuário do SUS
também no que se refere ao reconhecimento do nome social e, novamente, anuncia a potência
deste autor dos videologues enquanto um agenciador na produção do cuidado em saúde.

2.2. Nome social, direitos e o Sistema Único de Saúde (SUS): “Mas você é quem afinal?”

Esta placa

Como se eu mesmo dissesse,


como se eu próprio afirmasse
(começa com eu, meu nome)
que sou o que me nomeia:

lugar de não ser ainda,


solo tão só prometido,
projeto de geografia
para depois de amanhã.
62

Me nome não sou agora,


moro no mundo futuro.
Meu pai me deu esse nome
sem que eu pudesse fazê-lo.

Mal posso escrevê-lo certo


nos documentos que o pedem.
Não existo no meu nome,
coisa que vive sem mim.

Ele se diz sendo eu,


este nome que me afirma,
mas o que nele me aponta
é também o que me acusa

de eu não ser o que ele diz.


Queria viver sem nome,
ser o que sou: eu-ninguém.
Me chamarem - ei, você! -

e eu me reconheceria,
perfeitamente não sendo
senão uma coisa livre
do que jamais prometi.

Mas à cara está colada


(certas tintas nunca se apagam)
esta placa, este engano
à beira de mim-estrada.

Se terra, sou terra a terra,


o agora sem vaticínios
de um norte que mel e leite
jorrassem fáceis, sem dor.

Só existo em chão estreito,


nuns versos de amor e morte,
palavras ditas no escuro,
fósforo, poço, você.

Sou o exilado do nome


que carrego, vice-versa,
sem ter nunca visto a pátria
que minto quando me digo

toda vez que respondo:


como é que você se chama?
Vou aos livros, não encontro.
Pergunto. Não está no atlas.

E o infinito infinito.

A terra estará cumprida


quando estiver concluída.
Então, morarei ali,
sob ela, dentro dela,

sem ser eu, sem eu, não ser.


63

Eucanaã Ferraz (Escuta, 2015)

A pergunta que o estado brasileiro formula ao cidadão/cidadã nacional dentro de sua


fronteira sobre quem ele/a é pressupõe uma resposta que consiste na apresentação da cédula
de identidade, o cartão emitido pela Secretaria de Segurança Pública. Neste documento,
podemos encontrar o nome, o número de registro geral, a filiação, a naturalidade, a data de
nascimento, uma fotografia e, também, a assinatura e a impressão digital do polegar direito do
portador.
Todas as informações contidas neste documento devem estar de acordo com as
normas. Dispostos de uma mesma maneira, dados como quem a expede, assinatura e foto, por
exemplo, podem ser rapidamente verificados pelas devidas autoridades e demais pessoas.
Desta maneira, nada mais fixo, imutável, na vida civil, que a identidade.
De acordo com Campos (2001), uma série de adequações e de restrições é pressuposta
pela cédula, ao configurar a identidade civil, delimitando para o estado nacional que somente
determinadas pessoas podem existir, as que a possuem. Todas as demais, embora tenham
existência empírica, por não portarem uma, não dispõem de um registro civil. Desta maneira,
não portar uma “identidade” equivale a não existir para este estado. Essas pessoas são
lançadas à exclusão total e esta exclusão, que atinge uma parcela considerável da população
de nosso país, faz com que milhares de brasileiros/brasileiras morram sem nunca ter,
oficialmente, existido.
O RIC ou Registro de Identidade Civil, documento que tem previsão de substituir a
atual cédula de identidade ou Registro Geral até o ano de 2020, apresenta diferenças muito
específicas como, por exemplo, um chip na parte da frente. No verso do cartão, encontram-se
números de outros documentos e a impressão digital, além de alguns números e letras de um
sistema de segurança popular entre passaportes e vistos de viagem.
Além do chip e dessas outras informações mais específicas no verso do novo Registro
de Identidade Civil, não há nada mais novo ou que possa chamar a atenção do cidadão, exceto
se este for uma pessoa trans: a impressão de uma parte específica da anatomia humana, o
sexo. Embora muitas pessoas trans possuam uma cédula de identidade civil ou um Registro de
Identidade Civil, e que estes documentos supostamente lhes identifiquem como cidadãos/ãs
de direito existentes, seus nomes e/ou suas anatomias, os/as apontam, acusando-os/as e
empurrando-os/as para um lugar de não pertencimento.
64

Incentivados pelos movimentos sociais LGBTs brasileiros e apoiados em leis de


identidade de gênero de outros países, no ano de 2013, os deputados federais Jean Wyllys e
Erika Kokay protocolizaram na Câmara o projeto de lei 5002/2013, mais conhecido como Lei
João W. Nery – a Lei de Indentidade de Gênero. Este projeto se assemelha com a lei argentina
de identidade de gênero, em vigor naquele país desde 09 de maio de 2012 e tem como
objetivo garantir o direito do reconhecimento à identidade de gênero de todas as pessoas
transexuais no Brasil, sem que se necessite demandar, em juízo, nem laudos médicos e
psicológicos, nem hormonioterapia ou cirurgias. De acordo com o projeto, o/a transexual
deverá ir a um Cartório e solicitar a retificação em seus documentos (BRASIL, 2013).
Com a eleição do deputado Marco Feliciano, conhecido por suas posições
homofóbicas, transfóbicas, racistas e machistas, para presidir a Comissão de Direitos
Humanos e Minorias, por onde tramitaria o PL 5002/2013, é possível perceber que um longo
período em que projetos que avançam na democratização do acesso aos bens simbólicos e
materiais da cidadania permanecerão estacionados. Diante deste contexto político, o nome
social8, que pode ser considerado por muitos como mais uma “gambiarra tupiniquim”, acaba
por ganhar destaque durante este hiato.
Universidades, escolas, ministérios e outras esferas do mundo público, como o SUS,
aprovam regulamentos que garantem às pessoas trans a utilização do nome social. No entanto,
esses mesmos regulamentos não são conhecidos ou amplamente divulgados nesses espaços.
Um estudante transexual poderá ter seu nome masculino na chamada escolar, mas no mercado
de trabalho e em todas as outras dimensões da vida terá que continuar se submetendo a todas
as situações constrangedoras e portar documentos em completa dissonância com suas
performances de gênero. De acordo com Bento (2014):
Embora se possa explorar e defender as potencialidades desse “jeitinho brasileiro”
por 1) garantir ambientes menos hostis às pessoas trans e 2) fornecer argumentos
locais e gerais contra a patologização, acredito que aqui ainda nos movemos em uma
dimensão da cultura política brasileira onde cidadania é transmutada em dádiva. A
aprovação do nome social, por exemplo, nas universidades não é uma garantia
imediata de sua efetivação. Pelos relatos de pessoas trans em encontros nacionais,
nota-se que há um segundo momento de luta: a implementação nas chamadas e em
outros documentos. (BENTO, 2014, p.177)

As práticas de violência e preconceito contra as comunidades transexual e travesti vão


além das universidades, escolas, do ambiente familiar e do trabalho, perpassando por um dos
espaços sociais considerado mais urgente: a saúde. Um desses direitos diz respeito ao uso do
nome social no SUS. Após terem sofrido diversos constrangimentos, a população de travestis

8
É o modo como a pessoa é reconhecida, identificada e denominada na sua comunidade e no meio social, uma
vez que o nome oficial não reflete sua identidade de gênero ou possa implicar em constrangimento.
65

e transexuais obteve algumas conquistas setorizadas. Existem hoje diversas resoluções,


portarias e decretos que autorizam o uso do nome social por travestis e transexuais, de acordo
com sua identidade de gênero, antes mesmo de qualquer reconhecimento judicial.
Entre estas, a Portaria nº 1.820, do Ministério da Saúde, de 13 de agosto de 2009,
dispõe sobre os direitos e deveres dos usuários da saúde, e estabelece, em seu art. 4º,
parágrafo único, I, que é direito da pessoa, na rede de serviços de saúde, registrar o nome
social, independente do registro civil, sendo permitido o uso do nome de preferência, não
podendo ser identificado por nenhuma forma desrespeitosa ou preconceituosa. Um pouco
mais tarde, a Portaria do Ministério da Saúde Nº 940 de 28 de Abril de 2011 assegura que o
CNS – Cartão Nacional de Saúde - deva garantir um campo para o registro do nome social,
independente do registro civil (D.O., 2013).
Todavia, foi somente a partir de julho de 2013 que o Cartão Nacional de Saúde (CNS)
pode ser expedido exclusivamente com o nome social do usuário. Nos anos anteriores, o CNS
continha um campo chamado “Nome Social/Apelido” onde o nome de registro civil ou de
batismo do usuário aparecia em letras garrafais e seu nome (somente o prenome nos primeiros
cartões e depois nome e sobrenome) ao lado, após o campo “Apelido”. Esta alteração foi um
reconhecimento da legítima identidade dessa população, além de uma conquista dos
movimentos sociais de travestis e transexuais. Com esta ação, o Ministério da Saúde
contribuiu para a redução do estigma, preconceito, violência e discriminação social,
promovendo o acesso à saúde de todos de forma humanizada. Segue abaixo as palavras
proferidas pelo secretário de Vigilância em Saúde Jarbas Barbosa no evento do Dia da
Visibilidade Trans de 2013, quando esta notícia foi então divulgada:

Gostaríamos que todos os gestores municipais que agora iniciam seus mandados se
conscientizem da importância do bom acolhimento que essa população precisa ter
nos postos de saúde. A visibilidade é um dos caminhos para que a saúde possa
contribuir para a redução da vulnerabilidade social a que essa população está
submetida.

Nesse sentido, apresento imagens distintas desses cartões. Na primeira delas (a),
anterior à resolução de 2013, o nome de registro civil/batismo pode ser visto primeiro,
omitindo a identidade ‘’social’’ da usuária e incluindo também um sexo equivocado. No caso
de Luciana Stocco, no campo de preenchimento do sexo, deveria constar F e não M . Na
segunda delas (b), o nome de registro civil/batismo é retirado. A identidade ‘’social’’ do
usuário é respeitada. O sexo agora também condiz com a identidade. No caso de Severino dos
66

Santos, um homem trans fictício, no campo de preenchimento sexo consta M e não F,


portanto correto.

a)

Figura 01 – Cartão Nacional de Saúde (anterior à resolução de 2013)


Fonte: http://g1.globo.com/sp/piracicaba-regiao/noticia/2013/03/transexual-de-piracicaba-poe-nome-social-no-
cartao-sus-mas-reclama.html

b)

Figura 02 – Cartão Nacional de Saúde (posterior à resolução de 2013)


Fonte: http://marcoscostaob.blogspot.com.br/2014/06/novo-cartao-do-sus-com-codigo-de-barras.html

Cartazes como o que se segue abaixo foram distribuídos aos profissionais de saúde
para reforçar o direito ao uso do nome social e a ideia principal era de promover o acesso
digno nos serviços de saúde. Embora seu uso também tenha sido aprovado, sua efetivação não
foi ou é garantida até hoje.
67

Figura 3 – Cartaz “Nome Social”


Fonte: http://diversidadeiff.blogspot.com.br/2015/05/nome-social-cidadania-e-respeito.html

Retomando Tyller e sua narrativa, o mesmo revela durante nossa entrevista que até se
descobrir um homem trans sofria sem saber bem de que. Quando o jovem ‘’opta’’ por ser
capturado pelo dispositivo da transexualidade e se reconhece nele, nos confessa que parte de
68

seu sofrimento é diminuído. Ele transforma a sua angústia em resistência e (re) existência. Ele
busca informações a respeito de suas subjetividades e a partir delas passa a ter conhecimento
de seus direitos. Com esses direitos em mãos, literalmente, pois Jackson buscou o serviço
com vários decretos impressos, ele parte em busca da testosterona, seu passaporte para a
felicidade e para uma vida mais digna.
Através dos olhos e da escuta de Tyller, somos convidados/convidadas a vivenciar a
busca por esse direito. Segue abaixo a transcrição de seu videologue intitulado “Nome Social
no Cartão SUS”:
E aí pessoal, tudo bem? É, hoje eu vou tá falando sobre os direitos do cartão SUS e
eu demorei um pouco pra correr atrás, mas consegui. Não foi fácil. É, eu fui num
local da cidade que faz o cartão SUS e lá eu perguntei, eu pedi pra tá falando com
pessoa mais responsável pelo lugar e fui falar com a pessoa. Era um senhor. De
início ele não queria não, falava pra mim que não tinha como fazer isso.
É, mostrei pra ele meus direitos, as leis que saíram, mostrei todos os artigos que eu
tinha em mãos, mas mesmo assim foi difícil pra ele acreditar que eu poderia ter meu
nome social no cartão SUS. Ahm,, mais ou menos a gente ficou discutindo umas
duas horas, quase isso, mas foi bastante tempo.
É, apenas depois, eu fui muito educado, mas depois que eu falei pra ele que eu teria
que denunciar o lugar por falta de informação, foi aí que ele começou a tomar
atitude. Aí ele começou a fazer algumas ligações pra cidade vizinha, pro ministro
não sei do que lá e conseguiu, é, no sistema, encontrar onde coloca o meu nome no
meu cartão SUS.
Então agora eu tenho o meu nome social no cartão SUS e toda vez que eu for passar
num médico eles vão, eles vão ver meu nome social e vão tá falando prá, tá me
chamando pelo nome social. Vai ficar mais fácil a identificação.
Aí no caso ficou meu nome de registro acima e o meu nome social logo abaixo do
meu novo cartão SUS, tá vendo? E é isso. Eu acho que você deve correr atrás sim
porque, ainda mais a gente que procura passar bastante no médico, e ainda mais
quem tá fazendo tratamento pelo SUS, usa muito. Eu tô indo muito em posto, em
AME aqui, no caso. E dependendo de São Paulo é UPA, vai variar.
Então eu acho que você deve correr atrás. E os documentos que eu mostrei pra ele
eu vou colocar aqui no link abaixo prá você poder tá imprimindo e indo atrás
também do seu cartão SUS, que eu acho que é mais uma vitória pra gente. Mais
uma conquista. Valeu aí pessoal!

Após essa conquista, em um segundo momento, Tyller posta um outro videologue


relatando de que maneira seu retorno ao endocrinologista acontece e também nos atualiza
sobre o que ele chama de “Procedimento pelo SUS”. Este outro videologue é um exemplo
claro de como a efetivação do nome social nos serviços não foi/é garantida até hoje. Pessoas
trans precisam reforçar o tempo todo um direito que já lhes foi dado.

As pessoas lá me respeitam prá caramba, me chamam só pelo meu nome social. Eu


achei muito bacana. Segundo: o dia do meu retorno no endocrinologista, tive um
problema. Porque o meu cartão SUS tá com meu nome social, então eu pedi que
eles me chamassem pelo meu nome social, mas teve uma controversa lá. Não
quiseram. Aí eu falei que eu tinha os meus direitos pra isso, que eu podia né, que
eles poderiam, tem no sistema como mudar, mas eles não quiseram.
Até então, como a moça lá olhou, olhou, olhou e me chamou. Aí me chamou de novo
e resolveu toda a pendenga que tava lá, que até uma mulher teve problemas lá
porque ela gritou bem alto o meu nome e a mulher lá do lado tomou o cartão dela e
69

me chamou pelo meu nome social e me pediu desculpas. E essa outra mulher
simplesmente falou assim: “ Por hoje já deu, já tive minha bronca do dia.” E as
pessoas ali ficam muito p. da vida com ela porque ela me desrespeitou, chamando
eu bem alto com meu nome de registro.
E foi tudo ok. Então, nesse dia eu consegui. Até guardei ó, o meu crachá, que eu
consegui já com meu nome social. Então, quando eu for no AME, da minha cidade
ou em qualquer outro AME, vai sair o meu nome social como tô adentrando naquele
local, como quando se entra no hospital quando você ganha o crachazinho que
cola, Então já sai com o meu nome social. Quase nem quis tirar isso do peito, já saí
assim todo, todo. Né? E o meu cartão do SUS, do AME também, com o meu nome
social eles atualizaram, né? E o meu prontuário, deixa eu ver aqui. Aqui não tá nos
meus exames não tá mas na ficha lá do médico eles já colocam o meu nome social.
Ele mesmo escreve a punho o meu nome social. Dos encaminhamentos, dos pedidos
dos exames já com meu nome social. Então eu achei isso muito bacana, né?
É uma cidade pequena, as pessoas têm medo de fazer isso em cidade pequena
porque, como eu, eu não vi ninguém aqui. Não conheço ninguém desta cidade aqui.
Então, eu tô percebendo que eu estou revolucionando todo esse atendimento.
Porque se você não mostrar o que você tem direito, se você não se mostrar o que
você precisa, eles não vão saber porque chegam os do... as coisas pra eles, eles vão
ter preguiça de olhar. Vai saber, isso não existe mesmo, então não vai nem tá nem
aí. Então eu acho que você tem que ser a primeira pessoa a mostrar pra eles que
você existe. E é tá aqui. Eu mostrei pra eles que eu existo, consegui os meus
direitos, tá aqui. Não é porque é cidade pequena que você não vai conseguir. Tentar
não custa, poxa. Se você não conseguir, você vai se levantar e vai tentar de novo. Só
não desistir, certo?
E essa semana, quando eu precisei pegar meus remédios e pra ansiedade, cheguei
na farmácia, no ambulatório, apresentei o meu cartão do SUS, que é como pega o
remédio. A moça olhou assim “esse cartão não existe”, não poderiam mudar o seu
nome”. Simplesmente falou isso pra mim. Falei “não”. Aí ela olhou no sistema e viu
meu nome social “ não pode mudar, não poderiam ter mudado esse nome pra
você.” Falei “pode sim, senhora, é lei, é meus direitos”. Aí ela “mas você é quem
afinal, você é o que?” Nossa, levantou um cara, conversou com ela e só falou assim
“toma cuidado que você fala que isso é justa causa”. A mulher ficou papel, cor de
papel de tão nervosa. Aí o cara me pediu desculpas e eu simplesmente falei assim
pra ela: “senhora, se a senhora estiver aqui na sexta-feira que vem, eu trazer as leis
bonitinho pra senhora conseguir entender o que eu sou, tudo bem? Aí a senhora vai
ficar mais informada pra se acontecer mais um caso de alguém aparecer aqui, a
senhora não fazer esse show todo.” Ela ficou super sem graça. O cara me pediu
desculpas. Eu peguei meu remédio. E a moça falou assim: “ Pode assinar com o seu
nome social.” Fui embora. “ (grifo meu)

A pergunta feita pela funcionária, dado o contexto, foi extremamente ofensiva. No


entanto, essa pergunta é feita para as pessoas trans, que ainda não fizeram a retificação de
seus nomes ou que por diversas razões não desejam ou sentem que devam fazê-lo, são
obrigadas a escutar todos os dias nas mais diversas instituições e nas ruas. Uma prática
fascista, pouco percebida mas muito exercida.
Em uma recente entrevista cedida ao Blog do Constant, do jornalista Pedro Edson
Constant em 16 de julho deste ano, Indianara Siqueira, ativista trans do Coletivo
Transrevolução, afirma querer ser processada pelo Estado. Cansada de escutar essas mesmas
perguntas feitas a Jackson e a tantas outras pessoas trans, ela nos revela:
70

Na verdade, eu faço o manifesto com o peito de fora, já que eu tenho aparência de


mulher e tenho peito e a lei diz que eu não sou mulher, então, se eu digo que sou
mulher, me declaro mulher tem muitos anos, e insistem em dizer que não, que sou
homem e que legalmente sou homem, então, com documento masculino, eu tenho o
direito de andar com o peito de fora como todos os homens andam! Eu sou detida
todas às vezes e liberada em seguida. Quando chega a julgamento, eles não querem
julgar a questão porque, julgar a questão seria o Estado, através de um tribunal,
reconhecer ou que sou homem ou que sou mulher. Meus advogados chegam, sou
liberada, vai para audiência e eles arquivam. Tive uma audiência marcada, outra
adiada, agora vou para a terceira. Na terceira vez que será em setembro, vou entrar
com uma ação na justiça obrigando o Estado a me processar, a me julgar. Quero que
julguem, decidam a questão. Eles vão ser obrigados a decidir, já que eles decidem
tudo, rotulam tudo.

A ativista, por exemplo, deseja entrar com uma ação contra o Estado para que sejam
retirados o gênero e o sexo de seus documentos. Além da exclusão das marcações masculinas
ou femininas, Siqueira deseja que conste no campo nome, a inclusão do feminino, Indianara,
ao seu nome de registro civil.

Acho um direito você usar um nome contrário daquele que recebeu e eu vou incluir
Indianara, porque não acho estranho que Sérgio esteja ali, acho estranho que
Indianara não esteja. Quero os dois, e retirar a marcação de sexo porque as pessoas
têm suas genitálias e sofremos uma castração antes da adolescência em que seu
corpo tem que ser normatizado, nós temos que incluir as pessoas.

Enquanto as pessoas trans não são incluídas em nossa sociedade e algumas delas
apenas podem sonhar com uma cédula de identidade nos moldes da que Indianara Siqueira
nos propõe, estão expostas a todos os tipos de violência, inclusive a da abordagem policial.
Segundo relato da própria ativista, policiais femininas, por exemplo, se recusam a fazer
abordagens em travestis e mulheres transexuais, ficando esta a cargo dos policiais masculinos.
A abordagem realizada nos homens trans ou nas pessoas transmasculinas normalmente
fica a cargo de policiais masculinos, não por imposição, mas por conta destes existirem em
maior número no Município do Rio de Janeiro, com exceção da Zona Sul. Todavia, ela
também pode ser realizada por policiais femininas, quando presentes, se este for o desejo da
pessoa abordada e se essa pessoa não estiver, aos olhos das autoridades, em atitude suspeita.
Não há relatos de recusa de abordagem por parte de policiais femininas em homens trans ou
pessoas transmasculinas.9
O que todas essas informações nos interessam e qual a relação delas com o cartão
SUS? Exatamente por não existirem ainda cédulas de identidade que correspondam às mais
variadas e atuais identidades trans, esses sujeitos muitas vezes utilizam dois recursos para se

9
Obtive essas informações por conta de minha participação e atuação na vídeo-aula sobre abordagem policial e a
população LGBT, mas especificamente as realizadas em homens trans e pessoas transmasculinas, em maio deste
ano. O projeto é uma parceria da SuperDir/ SEASDH (Secretaria de Estado Assistência Social e Direitos
Humanos) com a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro.
71

identificarem como são: o cartão de usuário do SUS e/ou um laudo psicológico ou


psiquiátrico.
Diversas pessoas trans relatam que o cartão SUS lhes serve como uma espécie de
cédula de identidade provisória, e que, ainda ele que não contenha uma fotografia, o que para
muitas dessas pessoas também é um aspecto positivo, uma vez que a pessoa em transição
(hormonal ou não) muda muito a aparência, funciona melhor que os laudos. O cartão SUS é
idêntico a todos os usuários, trans ou cisgêneros. Como pudemos observar na segunda figura
exemplificada mais acima (figura b), o sexo que aparece no atual cartão SUS é conforme a
“nova” identidade da pessoa.
Os laudos psicológicos e psiquiátricos serviram durante um tempo como uma prova
fascista de existência daquelas pessoas; porém, esses mesmos laudos que identificavam as
pessoas trans pelos seus nomes sociais, as acusavam de serem doentes ou anormais. Que
cidadão/cidadã de direito iria querer usar como identidade um papel que lhe nega por duas
vezes a sua existência? Uma por não ser uma cédula e sim um laudo, um simples papel. A
segunda, por ser um papel onde outra pessoa diz quem você é e o aponta como um desviante,
um doente mental com direito apenas a um CID.
O novo cartão SUS ainda que não tenha sido criado com o propósito de identificar as
pessoas trans como cidadãs de direito, mas sim como usuárias de um sistema de saúde, têm
cumprido uma lacuna que o Estado e as autoridades responsáveis não conseguem fazê-lo:
prover uma identificação formal digna para essas pessoas com abrangência nacional10.
Nem toda pessoa trans deseja ter ou tem acesso a esses laudos psiquiátricos ou
psicológicos fascistas, mas toda pessoa trans brasileira tem direito a fazer o seu cadastro no
SUS e obter assim o seu cartão. “Sem querer”, esse mesmo Estado que ainda nega diversas
retificações de nomes, gênero e sexo de pessoas trans e lhes tira a possibilidade de viverem
vidas dignas, lhes oferta um cartão - não estigmatizante como as carteiras de identidade
emitidas no RS, MS e PA - que as retiram do exílio.
Ainda inquieto com as inúmeras possíveis definições de felicidade e com a afirmativa
de Jackson, recorri aos meus alunos do Ensino Médio de uma escola pública estadual do Rio
de Janeiro para contribuírem com minhas reflexões. Cerca de duzentos e quarenta

10
Existe uma carteira de identidade, que não substitui o RG, confeccionada pelo Instituto-Geral de Perícias
(IGP), em Porto Alegre, contendo tanto o nome civil quanto o nome social da pessoa. O documento contém o
RG original da pessoa e foto, sem CPF ou assinatura. No entanto, a carteira não tem validade fora do Rio Grande
do Sul. O banco de dados da SSP (Secretaria de Segurança Pública) e de órgãos da administração estadual
contém tanto o nome civil quanto o nome social da pessoa. Já há iniciativas semelhantes em Mato Grosso do Sul
e no Pará.
72

alunos/alunas, com idades entre 15 e 17 anos, de classes, etnias, gêneros, raças, religiões e
gostos distintos discorreram sobre o conceito felicidade em uma redação.
As “respostas” foram as mais diferentes possíveis. Alguns comentaram sobre a
felicidade estar ou não estar associada a poder aquisitivo, por exemplo, e outros comentaram
sobre a possibilidade da felicidade estar associada ao fazer bem aos outros e a si mesmo. Eu
obtive duzentas e quarenta colocações diferentes. No entanto, para cada um de meus
estudantes, o conceito de felicidade era e é verdadeiro. Ele é verdadeiro justamente por ser
único e autêntico. Tyller, ao fazer uso da testosterona, faz um bem a si mesmo. O seu “sair do
armário” enquanto homem trans, o seu ativismo e cuidado em saúde, cibernéticos e não
cibernéticos, somados ao uso da testosterona, lhe proporcionam segurança e dignidade. Para
Tyller e para inúmeras outras pessoas trans e cisgêneras, inclusive a mim, a felicidade está
ligada a autenticidade, a verdade de si próprio, a segurança e a dignidade.
Concluindo, esta busca por reconhecimento, resvalada em dificuldades impostas pelo
sistema de saúde, aponta para a necessidade de ações de enfrentamento e de criação de novas
alternativas que acolham, de fato, as demandas da população trans. Tendo isto em vista, o
capítulo a seguir visa analisar como tem se dado este (des) encontro entre as reais demandas
anunciadas pelas pessoas trans e os discursos médicos e psi que as (des) legitimam enquanto
sujeitos. Pensando como tem se dado este cuidado em saúde para pessoas transmasculinas e
homens trans, este último capítulo aborda também uma questão de demanda em saúde
bastante específica desta população: a utilização do hormônio testosterona.
73

3. CUIDADO EM SAÚDE

Ser cuidado pra mim, é ser respeitado pelo o que sou, respeitar o que sinto e ser
respeitado pelas mudanças e cirurgias que quero.

Jackson Tyller

3.1. Relação da prática de si, (in) visibilidade e o cuidado: dos fascismos diários à poesia
do encontro

Uma concepção que aparece conquistando um espaço acadêmico e institucional cada


vez maior para a compreensão das práticas e do trabalho em saúde é o discurso sobre o
cuidado de si. Este conceito-intercessor vem sendo utilizado para compreender o sujeito e as
relações que estabelece com os outros a partir do eixo poder – saber – verdade.
O Cuidado de si ou a prática de si foi abordado de forma específica durante o curso
ministrado por Michel Foucault no Collége de France nos anos de 1981 e 1982, e publicado
no Brasil sob o nome de A hermenêutica do sujeito. É válido mencionar que o pensamento de
seu autor, no momento da sua produção, está atravessado por dois conceitos que organizam
sua obra, o biopoder e o de biopolítica.
Por biopoder entende-se a estatização da vida biológica. Ou seja, produz-se um
esvaziamento da subjetividade e do direito sobre o próprio corpo, que é tomado como
formando parte de uma noção que nasce a partir do século XVI, que é a de população. O
“viver” entra em campo do controle do saber e das intervenções do saber (LIMA, 2010).
A biopolítica por sua vez tem como objetivo o corpo múltiplo, a população. Estuda os
fenômenos de massa em longo prazo, tentando prevenir e estimar estatísticas, perseguindo o
equilíbrio da população e sua regulamentação. É a relação de poder que se estabelece entre o
Estado e o sujeito – enquanto pertencente a uma categoria maior: população. É a maneira de
racionalizar os problemas com os quais o governo tem que lidar em relação a uma população,
como por exemplo: a natalidade, mortalidade, saúde e higiene (LIMA, 2010).
Cuidado de si é um conceito usado por Foucault (1985) para referenciar e traduzir uma
noção complexa e rica que os gregos utilizavam para indicar uma série de atitudes ligadas ao
cuidado de si mesmo, ao fato de ocupar-se e de preocupar-se consigo, que é a epimeléia
heautoú. A epimeléia heautoú é antes de tudo uma atitude ligada ao exercício da política. Ou
seja, um determinado modo de encarar as coisas, de estar no mundo, de praticar ações, de ter
relações com o outro. É uma forma de olhar para si mesmo; são ações que são exercidas de si
para consigo e pelas quais nos assumimos, nos transformamos, nos purificamos e nos
74

transfiguramos. Em torno dos cuidados consigo se desenvolve toda uma atividade de palavra
e de escrita, que liga o trabalho de si sobre si e a comunicação com outrem. A prática do
cuidado não se constitui “um exercício de solidão, mas sim uma verdadeira prática social”
(FOUCAULT, 1985, p. 57).
Isto significa, por um lado, poder construir uma cultura de si que dê conta de testar a
capacidade de um indivíduo se manter independente em relação ao mundo exterior e, por
outro, um indivíduo poder produzir uma transfiguração de si mesmo enquanto sujeito de
conhecimentos verdadeiros. Um dos pontos mais importantes da atividade do cuidado de si é
que ela não constitui um exercício de solidão, mas uma verdadeira prática social que
constantemente se modelou em estruturas mais ou menos institucionalizadas.
Pode-se dizer que Foucault centrou-se na “vida” e nos diferentes processos de
subjetivação. Em suas palestras no Collége de France, ele iniciou uma nova linha de
investigação, a do Governo de vida, onde o sujeito deve e pode operar livremente em si para
chegar à verdade. Ser livre coloca o sujeito sobre duas possibilidades como alvo do poder:
como alvo do governo de si mesmo e também do governo dos outros. Neste contexto, uma
questão emerge: como atenuar as investidas da sociedade disciplinar? O grande desafio que se
enfrenta até hoje e que ele nos apontou, é re (formular) e reproduzir (novos) conceitos que
possam “desbancar” ideias previamente estabelecidas e fortemente enraizadas, tidas como
naturais.
Contrária à sujeição, a subjetivação, a pedagogia a qual se remete Foucault, contribui
para o surgimento das técnicas de si ou a ética do sujeito. Nele, o sujeito encontra uma forma
de constituir uma prática reflexiva consigo mesmo. As práticas de si ou também conhecidas
como o cuidado de si refletem uma conduta de fiar a si mesmo, uma autogestão. A “conduta”
pode ser caracterizada pela maneira de lidar com os outros, bem como a forma de se conduzir
a si próprio.
Para que a ética ou o cuidado de si possam ‘’amenizar’’ os efeitos do poder disciplinar
sobre os corpos individuais, entende-se a ética de Foucault como sendo a construção da
própria subjetividade. Esta é a proposta para uma possível investida contra o poder: uma
postura de permanente desconfiança e questionamento sobre as formas discursivas ou de
verdades instituídas, ou seja, tomadas como naturais. Se o poder é constante, assim também
deve ser a reflexão.
Neste sentido, o cuidar de si deve permitir uma pessoa não só adquirir novos
conhecimentos, mas também livrar-se de maus hábitos ou falsas opiniões que venham ou
partam de multidões, mestres, da mídia de massa ou de qualquer outra fonte que tente impor
75

uma determinada maneira de viver a vida, que possa ofender sentimentos, a decência e a
dignidade humana.
Existem várias razões pelas quais este princípio foi esquecido, dentre elas a produção e
legitimação de uma ética cristã. Nela, o cuidado de si tomou a forma do sacrifício, da
“renúncia de si”. A outra se refere à maior parte das técnicas do cuidado encontradas na
Medicina, na Psicologia e na Pedagogia, por exemplo. Essas técnicas foram empregadas no
mundo de uma maneira fascista, disciplinar. Ou seja, a prática de si hoje nos é imposta
perdendo assim o seu caráter independente.
Cuidar de si é um modo determinado de olhar. É um olhar do exterior para si mesmo,
mas é também, um conjunto de ações, de práticas e técnicas para modificar-se, torna-se ético
no processo de subjetivação em função de uma estética da existência. A escolha pessoal da
forma de viver, que é uma das muitas demandas de meu interlocutor, Jackson Tyller, se
produz no âmbito das experiências, onde algumas escolhas são possíveis e outras não. A base
está justamente na crítica dos domínios de saber e dos dispositivos de poder que condicionam
essa e outras experiências, e, delimitam as possibilidades da época, as quais não são
necessárias, nem imutáveis, e mostram os lugares de transgressão possíveis. Portanto, a crítica
de nossa época e do próprio eu é ao mesmo tempo prática de si e deslocamento de limites,
modo de experimentação de uma estética da existência (FOUCAULT, 1985).
Considerando uma reflexão feita por Merhy (2012) sobre medicalização, biopolítica e
uma suposta nova lógica na construção das políticas públicas no campo da saúde, será que
poderíamos também tomar as pessoas trans como as novass anormais do desejo e/ou não -
humanos? Seriam as pessoas trans exclusivamente vítimas e capturas do dispositivo médico
transexualizador?
Quando as pessoas trans passam a ser (in) visíveis ou (in) existentes? Quando elas
mesmas se autodeterminam/reconhecem trans e já vivem/se percebem pertencentes ao gênero
ao qual se identificam ou quando elas acessam um serviço de saúde ou um programa
transexualizador onde quem elas são e o que podem ou não acessar será autorizado ou não por
outros?
A ideia de que ao acessarem um programa transexualizador, por exemplo, os
indivíduos trans estariam deixando de ser sujeitos desejantes para serem meros objetos inertes
e irresponsáveis quanto aos seus próprios atos e, portanto, passíveis de atos fascistas por parte
daqueles que supostamente saberiam mais sobre eles do que os próprio é restritiva.
Segundo Merhy (2012), diversos setores sociais com pensamentos conservadores e
reacionários produzem formulações supostamente “científicas”, logo, produtoras das verdades
76

sobre problemas que eles mesmos nomeiam, como as expressas por certas entidades
corporativas do campo da saúde, como os conselhos profissionais, sociedades de
especialidades e até mesmo alguns médicos midiáticos.
A sociedade e suas práticas apresentam desafios e a medicina os mecanismos de
controlá-los. Não são os avanços de seus saberes que produzem esses “objetos”. Não se trata
de estabelecer a diferença entre o normal e o patológico no humano, mas sim nas construções
sociais de como devem ser os normais e os anormais. Ainda segundo Merhy (2012, p.08):
Nesse movimento, a medicina e seus equivalentes se figura de sua face de política
social para garantir uma certa normalidade humana, vigiando, controlando e
punindo. O “louco muito louco” passa a ser o principal anormal do momento,
atravessando os séculos XIX e XX como o ícone mais cristalino do que é ser um
humano não-humano.

As pessoas trans, incluídas no grupo desses “loucos muito loucos”, recebem uma
“etiqueta” de transexuais na literatura médica em meados do século XX. As verdades que
operam no discurso médico no sentido de produção e reprodução das margens são muitas
vezes também interiorizadas pelo próprio discurso de algumas pessoas trans.
Diversas instituições sociais contribuem para a (re) produção desses “loucos muito
loucos” através da exposição desses que estão fora das normas de gênero, por meio das mais
diversas técnicas, como por exemplo, dos insultos e pela invisibilização. (BENTO, 2014).
A identificação ou ressignificação dessa identidade, a de transexual, por exemplo,
muitas vezes só dá nos espaços hospitalares. São nesses espaços que as subjetividades trans
são visíveis e ao mesmo tempo invisibilizadas. Elas são visíveis no sentido de que muitas
pessoas trans não revelam suas subjetividades a ninguém e vivem seus desejos e suas vidas no
anonimato fora desses espaços e somente dentro deles é que conseguem ser e agir com
realmente são ou se sentem. Os espaços hospitalares também são espaços de socialização.
São também invisibilizadas, pois nesses espaços não cabem comportamentos
“desviantes”. Se você é uma pessoa trans verdadeira, a sua identificação só é reconhecida e
autorizada quando você reforça as margens e reproduz insultos como marca de diferenciação,
posicionando o gay, a lésbica ou o bissexual, por exemplo, como o desviante, o pecaminoso.
De acordo com Bento (2006), o processo de organização social das identidades é o
mesmo, tanto para pessoas cisgêneras, quanto para as pessoas transexuais. Temos um sistema
fundamentado na diferença sexual, onde gênero, sexualidade e corpo devem concordar. As
instituições estão presentes e atuantes, normatizando, policiando, vigiando deslizes ou
deslocamentos. No entanto, esses deslocamentos existem, se apresentam e instigam. Assim,
como aponta Bento (2006, p.67):
77

No dispositivo da transexualidade, nada é enunciação constatativa. Mais do que uma


fábrica de corpos dimórficos, o hospital tenta reorganizar as subjetividades
apropriadas para “um homem/uma mulher de verdade”. No hospital, realiza-se um
trabalho de “assepsia de gênero”, retirando tudo que sugira ambiguidades e possa
pôr em xeque um dos pilares fundantes das normas de gênero: o dimorfismo natural
dos gêneros.

Considerando as discussões aqui levantadas, e o meu trabalho de campo, buscarei


evidenciar e discutir adiante as maneiras pela quais os encontros entre usuários/usuárias trans
e profissionais de saúde, têm se dado nos serviços de saúde especializados e não
especializados. Deste modo, a partir dos fascismos diários impostos por parte dos
profissionais de saúde com relação às pessoas trans, é possível também perceber que linhas de
fugas são produzidas a partir desses encontros e as relações são estreitadas.

Escutatória11
Escutar é complicado e sutil. (l.5)
É preciso tempo para entender o que o outro falou. (l.79)
Não basta o silêncio de fora. (l.133)
É preciso silêncio dentro. (l.134)
Ausência de pensamentos. (l.134)
E aí, quando se faz o silêncio dentro, (l.135)
a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. (l.136)
Rubem Alves (O amor que acende a lua, 2003)

Quando um/uma usuário/usuária procura um serviço em saúde, ele/ela busca um


atendimento especializado e acolhedor. Independentemente da demanda, se entende que o
sujeito que se dirige até ali é portador de uma necessidade de saúde. Um/uma profissional de
saúde por sua vez, ali está por ser portador/portadora de um saber-fazer tecnológico, ou seja,
ele/ela é o produtor/produtora de cuidado em saúde para o/a outro/outra. O/a profissional é
aquele/aquela que, por ter essa ferramenta se transforma no/na solucionador/solucionadora do
problema do/da outro/outra. O/a usuário/usuária se dispõe a se colocar na posição de objeto da
ação do/da outro/outra, supondo que assim a sua demanda será atendida e que ele poderá
continuar a viver a sua vida da maneira que a representa e deseja (MERHY, 2006).
Em cada encontro que se realiza, e em cada um deles, profissionais e
usuários/usuárias, existem diferentes linhas de força atuando. Algumas são gerais e outras
bem específicas. Quando usuário/usuária e profissional conseguem se encontrar no ato, ou
seja, quando os saberes de um/uma consegue de fato solucionar o problema daquele/daquela
que demanda algo, e que também possui saberes, podemos considerar que da diferença à
11
A crônica Escutatória, de Rubem Alves, pode ser lida na íntegra no Anexo.
78

poesia desse encontro se fez.


Segundo Merhy (2006), um/uma profissional de saúde utiliza três tipos de valises: a
que está vinculada à sua mão, como por exemplo, uma caneta e papéis, outra que está na sua
cabeça onde cabem saberes bem estruturados como a epidemiologia, por exemplo, que
expressam as “tecnologias leve-duras” e, finalmente, uma última que está relacionada com a
valise das “tecnologias leves”, implicadas com a produção das relações entre usuário/usuária e
profissional e que só acontece no ato, no encontro.
Vários recortes são feitos ao longo de um atendimento e um profissional pode precisar
fazer uso das três valises. A valise que está na cabeça é que vai guiar o olhar do trabalhador
sobre o usuário, enquanto objeto de sua intervenção, em um processo de compreensão da
forma de viver e das necessidades daquele que o procura com o intuito de significá-los. O
problema justamente pode surgir daí, pois esse olhar é elaborado a partir de saberes bem
definidos.

Mas, nos momentos de sua concretude no agir sobre o usuário, através do seu
trabalho vivo em ato, é “contaminado” no seu processar produtivo, dando-lhe certa
incerteza no produto a ser realizado e desviando-o de sua dureza pela relação
centralmente leve que o usuário real impõe para o raciocínio clínico. Mesmo que
armado, o olhar vai se singularizar no ato (MERHY, 2006, p.4).

É válido destacar que a dita captura está presente tanto no trabalho do/da profissional
de saúde quanto na do/da usuário/usuária. Ainda que o agir do/da profissional seja hoje em
dia praticamente quase sempre tomado pela captura do saber tecnológico, não existe uma
única maneira de se fazer clínica, um único modelo de profissional e, ainda, o lado mais leve
também pode conseguir se beneficiar desse encontro, resistindo.
Em se tratando das demandas da população trans em cuidado e tomando a
transexualidade ainda como uma doença, não é difícil perceber que as chances do mundo
do/da usuário/usuária penetrar como capturador das finalidades dos processos produtivos em
saúde trans, por exemplo, são remotas, mas não impossíveis. Mesmo em ambientes duros e
fascistas, como os programas transexualizadores, pode haver a construção de acolhimento e
vínculo. Os/as profissionais que trabalham nesses espaços não são os/as mesmos/mesmas e
possuem subjetividades distintas, assim como os/as usuários/usuárias.
Para Merhy (2006), existe um empobrecimento da valise das tecnologias leves, a das
relações, e uma maior valoração das demais valises. A relação que se dá entre profissionais e
usuários é cada vez mais dirigida à competência do agir médico. Possuindo condutas bem
delimitadas, às vezes quase que mecanizadas, com as quais estabelecem vínculos, esses
79

profissionais buscarão capturar usuários e seu mundo.


Essa captura é escorregadia e pode ser até mesmo fatal. Ela funciona com e para
alguns usuários/usuárias? Sim, certamente. Todavia, essa captura também expressa uma
relação de dominação, exclusão e de eliminação. O agir do/da profissional deveria se ocupar
em disparar produção de vida no usuário/usuária e vice-versa.
Conforme visto na epígrafe deste capítulo, Tyller, meu principal interlocutor, define o
ser cuidado como algo que consiste em ter seus desejos atendidos e respeitados. Para ele, e
para diversas outras pessoas trans, a transexualidade não se resume só à doença e sofrimento.
A descoberta da possibilidade de existir nesse mundo de outra maneira, ainda que capturante,
de morte, é também de produção de vida.
Quando uma pessoa trans busca assistência em saúde para ajudar a si própria nesse
processo de uma nova produção de vida, ela não pode encontrar nos serviços a produção da
sua própria morte. Esses desejos não são caprichos. Como já mencionado anteriormente,
muitas pessoas trans quando procuram os serviços, já sabem como pretendem viver, e muitas
já o fazem, elas só precisam que determinados profissionais as auxiliem a tornarem esses
desejos reais.
Quando um/uma profissional de saúde se nega a atender uma pessoa trans e se diz ser
contra a transição médica, por exemplo, ou quando ele/ela se vê na posição de selecionar
quem tem direito ou perfil para fazer parte de um programa transexualizador, temos aqui um
impasse e um desafio muito grande para a saúde dessa população em nosso país. Nem todas
as pessoas trans possuem recursos, disponibilidade ou estão próximas a centros de referêcia
transexualizadores, por exemplo. Nem todas as pessoas trans são empoderadas e sabem ainda
o que querem para si quando acessam um serviço. Nem todas as pessoas trans apresentam
esse “perfil” fascista que alguns profissionais julgam que um/uma ‘’transexual verdadeiro/a’’
deva ter. O mesmo dispositivo que possibilita novas produções de vida muitas vezes oferta a
morte já na sua porta de entrada. O direito de agenciar e protagonizar o cuidado com si
mesmo e as escolhas de sua vida é negado.
Assim, Merhy, Feuerwerker & Cerqueira (2010, p.04) nos instigam a pensar quando
nos provocam dizendo:

[...] acho interessante pensar sobre o que significa alguém ser o dono de um certo
saber sobre o seu modo de viver e dizer que esse modo de viver é patológico, que
por conta dele você vai ficar doente. Acho que essa “imposição” é fruto de uma
relação de poder e se você não tem noção dela, acaba aceitando como única
verdade possível e torna-se objeto da decisão do outro. Não participa de armar a
sua própria representação do que faz ou não sentido para você e escolher de que
modo de viver lhe interessa.
80

Tendo em vista a provocação dos autores acima mencionados, esse saber é sem
dúvidas, um jogo paradoxal. Quando um/uma usuário/usuária demanda cuidado, por ele/ela
não possuir as “ferramentas técnicas necessárias”, coloca no outro a responsabilidade de
prescrever os modos de como sua vida deva seguir. Desta maneira, parte da sua
responsabilidade é transferida ao profissional, para a ciência e o seu corpo, sua mente, seus
desejos, estão sujeitos a serem determinados pelo outro/outra.
Todavia, nem tudo pode ser considerado um fracasso da/na captura. Halberstam, em
The Queer Art of Failure (2011), nos propõe a pensar fora dessa imposição do sucesso. Em se
tratando de cuidado em saúde e desse encontro entre usuários/usuárias trans e profissionais de
saúde, o que pode ser considerado um fracasso ou um sucesso?
A poesia do encontro pode acontecer quando o saber médico não se sobrepõe ao saber
do/da usuário/usuária. Esse saber não deve diminuir ou aniquilar a possibilidade do outro, que
procura uma assistência, usufruir dos benefícios técnicos que obviamente ele/ela não possui,
mas que o especialista pode lhe oferecer. Não pode haver poesia e nem aprendizado com o
“fracasso” quando não há diálogo, quando não se afasta a doença no acontecimento deste,
mas sim quando se decide juntamente, quando se constrói juntamente planos para este
cuidado.
Essa poesia acontece, por exemplo, quando Tyller nos revela que o endocrinologista
que o atendeu no posto de saúde de sua cidade, mesmo não se considerando um especialista
em endocrinologia trans, a partir daquele encontro e daquela demanda, se propôs a ajudá-lo, a
acompanhá-lo no seu modo de viver. Na consulta seguinte, Tyller nos informa que seu
médico busca na literatura médica uma melhor maneira de atender a sua demanda. Por não
poder fazer uso de uma única valise, Tyller foi também um intercessor no modo de agir de seu
médico, forçando que esse acessasse outras valises, muitas vezes esquecidas no dia-a-dia das
práticas desses profissionais. Como ressaltam Deleuze e Guattari (1995 apud MERHY, 1996,
p.10):

O encontro que produz cuidado deve ser sustentado por uma aposta de que é
possível produzir diferença, mesmo ali, onde, em princípio, nada se movimenta.
Talvez resida aí um desafio para todos dessa equipe, qual seja: a necessidade de
recolher movimentos ainda não observados, a-significantes, gestos indiciários, falas
ainda inaudíveis, atos ainda não perceptíveis dessa mãe, filha, nessa família.

É no encontro de dois, no olho no olho, no silêncio de dentro e de fora, e na ausência


de pensamentos, que se pode ter uma escutatória (ALVES, 2003). A poesia do encontro do
cuidado só pode acontecer quando usuário e profissional de saúde se permitem ouvir “coisas
81

que não ouviam”. Quando o saber-humano, quando a valise das relações é acionada,
prevalecendo sobre qualquer outra valise-saber, outras construções de planos de cuidado
passam a ser possíveis.
Quando um/uma profissional de saúde dá continuidade à sua prática com um olhar
cientificamente armado, tanto pela clínica quanto pela epidemiologia, definindo tecnicamente
o que são necessidades de saúde legítimas, não ampliando sua escutatória e se colocando no
lugar do/da outro/outra, ele/ela também produz a sua própria morte. Essa morte acontece tanto
como ser humano, que deveria cuidar de si, quanto como profissional, uma vez que o/a
profissional não pode ser visto/vista separadamente do humano e vice-versa. Nestes
encontros, ao se deixar capturar pelas valises das “tecnologias duras” e também pelas
“tecnologias leve-duras”, a sua prática não é renovada ou ampliada.
Diante destas considerações, reforço a relevância do cuidado em saúde no atendimento
à população trans e, na seção a seguir, enfoco os discursos da Psicologia e da Psiquiatria
imbricados neste processo.

3.2. Psiquiatria e Psicologia: saberes e poderes em disputa

Quando se solicita a uma autoridade ser reconhecido como trans, se solicita ao


mesmo tempo, que essa autoridade transforme sua concepção de gênero, de desejo e
de corpo. Portanto, a questão não é simplesmente se você, a autoridade, permitirá e
reconhecerá minha transformação, mas se a minha demanda produzirá mudanças
radicais na sua prática e na sua auto compreensão ética como profissional.

(Butler, 2009)

A partir da segunda metade do século XX, a Medicina e a Psicologia, contribuíram


para a construção do dispositivo da transexualidade. Essas duas áreas, além da Sociologia,
atuaram como saberes e práticas únicas nas definições dos aspectos que envolviam esses
sujeitos, seus corpos, sexo e orientações sexuais.
Devido a um conjunto de acontecimentos como avanços médicos tecnológicos e a
liberação sexual, houve uma redefinição dos conceitos de sexo e gênero no meio científico.
Com os estudos de Harry Benjamin (1966), John Money (1969) e Robert Stoller (1973,
1982), especificidades da transexualidade foram esboçadas e novas teorizações acerca desta
foram delineadas.
Somadas ao progresso da biologia e da viabilidade técnica para (re) adequação do
corpo à identidade de gênero, a experiência trans foi deslocada de uma experiência de
construção de si única para um problema médico-legal reconhecido e passível de tratamento.
82

Diante desta nova configuração, as redesignações sexuais passaram a ser inseridas em


processos terapêuticos formais e seus procedimentos foram normatizados. Diversos centros
transexualizadores foram criados, assim como protocolos de atendimento com base nas
definições de Harry Benjamin.
No ano de 1973, Norman Fisk fundamenta uma nosografia psiquiátrica para o
“transexualismo”, baseada num autodiagnóstico. Quatro anos mais tarde, essa condição é
incorporada à categoria psiquiátrica de “Disforia de Gênero” que incluía outras “doenças”
ligadas à identidade de gênero. Esta nomenclatura significa uma insatisfação decorrente da
discordância entre o sexo biológico e a identidade sexual de um indivíduo e sugere como
única possibilidade de “tratamento” a realização da cirurgia de conversão sexual e a utilização
de hormônios (MURTA, 2008).
No ano de 1980, esta condição foi adicionada ao manual diagnóstico psiquiátrico
DSM III (Manual Diagnóstico e Estatístico das Desordens Mentais). Desde 1993, pela
Classificação Internacional de Doenças (CID -10), as pessoas transexuais apresentam um
Transtorno de Identidade Sexual (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE, 1993) e em
1994, com a publicação do DSM IV, o termo “transexualismo” foi substituído por
“Transtorno de Identidade de Gênero”.
No ano anterior à revisão do último manual, havia mais de 100 organizações e quatro
redes internacionais na África, Ásia, Europa, América do Norte e do Sul engajadas na
campanha pela retirada da transexualidade do CID e também do DSM V. De acordo com
Bento & Pelúcio (2012, p.537):
As mobilizações se organizam em torno de cinco pontos: 1) retirada do Transtorno
de Identidade de Gênero (TIG) do DSM-V e do CID- 11; 2) retirada da menção de
sexo dos documentos oficiais; 3) abolição dos tratamentos de normalização binária
para pessoas intersexo; 4) livre acesso aos tratamentos hormonais e às cirurgias (sem
a tutela psiquiátrica); e 5) luta contra a transfobia, propiciando a educação e a
inserção social e laboral das pessoas transexuais.

As reformas publicadas pelo DSM-V no ano de 2013 causaram muitas discussões.


Várias patologias foram retiradas, acrescentadas ou mesmo modificadas e recategorizadas.
Em seu novo manual, a Associação Psiquiátrica Americana (APA) modificou o
termo "transtorno de identidade de gênero" para o termo "disforia de gênero", um termo que
expressa o sofrimento causado pela "incongruência marcante entre o sexo de nascimento e a
expressão de gênero atribuída." De acordo com a Associação, o objetivo da mudança foi de
oferecer um “tratamento” sem estigmatizar os pacientes como tendo um transtorno mental. No
83

entanto, tendo em vista essas reformas, Sampaio & Coelho (2013), nos chamam atenção para
o fato que:
De acordo com o Movimento Ativista, a Associação Psiquiátrica Americana
aprovou a remoção, do DSM V, do “Transtorno de Identidade de Gênero”, propondo
usar o diagnóstico de “Disforia de Gênero”. Algumas pessoas vêem nessa alteração
um passo importante para a despatologização. Porém, ativistas trans de todo o
mundo lutam pela retirada de tais classificações dos manuais de psiquiatria,
afirmando que as identidades trans não são uma doença, lutando, assim, pelo direito
de decidirem autonomamente sobre seus corpos. “[...] a necessidade de uma
avaliação psiquiátrica e um acompanhamento regular de candidatos à modificação
corporal do sexo impõe uma adaptação a modelos tradicionais de masculinidade de
feminilidade”, o que exclui a diversidade dessa experiência e revela uma obstrução
do direito à autodeterminação (AMARAL, 2011, p. 84). (SAMPAIO & COELHO,
2013, p.09).

Conforme o que foi mencionado acima, percebe-se que a relação entre a Psiquiatria e
as pessoas trans é complexa. Primeiramente, o/a médico/médica ocupa uma posição
hierárquica dentro dela. Quando um/uma pessoa trans o/a procura, ela deve saber de antemão
que não terá voz ou discurso. Não caberá a ela, que está em “tratamento”, elaborar ou revelar
nada que lhe esteja acontecendo ou que deseja.
Este privilégio da fala pertence somente à Psiquiatria, que acaba funcionando
basicamente, dentro deste dispositivo, apenas como um instrumento fascista de controle
social. A maneira como este dispositivo foi implantado é inerentemente autoritária e
excludente, pois se impõe a todos/todas e exclui a possibilidade de existência de outras
experiências possíveis. A impressão que se tem é a de que para a experiência do/a “transexual
verdadeiro/verdadeira” ser crível, é preciso negar todas as outras formas de existência. Se as
pessoas cisgêneras também fossem perguntadas sobre como se sentem ou se definem
enquanto pessoas no mundo, será que encontraríamos respostas iguais? Se entre pessoas
cisgêneras encontrássemos respostas similares e distintas, estas as deslegitimariam enquanto
pessoas cis? Por qual motivo exatamente essa experiência é diferente para as pessoas trans?
A Psicologia, como campo científico, compartilhou historicamente um entendimento
sobre a sexualidade ligada ao modelo biomédico, associando a ideia do sexo, a diferença entre
órgãos genitais, bem como ao conceito de normalidade. Apenas por volta da década de 80 que
os aspectos culturais e históricos em torno do sexo passaram a ser incluídos nas teorias e
entendimentos nesse campo científico.
Tendo em vista esses discursos dominantes, pode-se compreender que a
transexualidade seria um reflexo da relação entre conhecimentos demarcados por relações e
práticas de poder, as quais instituíram uma tipologia do sexo e da sexualidade sobre os
84

corpos, conceito este que permitiu a legitimação deste modo de estar no mundo como um
fenômeno médico-psiquiátrico.
No Brasil, a partir de esforços dos movimentos sociais por melhores condições para o
segmento LGBT e da defesa dos direitos humanos no campo da diversidade sexual foram
desenvolvidas políticas públicas que acolhessem as necessidades e peculiaridades dessa
população como, por exemplo, o Programa Brasil sem Homofobia, lançado em 2004,
reafirmado pelo Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de LGBT’s
em 2009. De acordo com o Ministério da Saúde, a orientação sexual é um dos determinantes
do estado de saúde do individuo, pelo fato de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e
Transexuais estarem expostos a ofensas, danos entre outros agravos que decorrem da exclusão
social, como por exemplo, o desemprego, a miséria, etc. (Grupo Arco Íris, 2010)
No campo da Transexualidade, de acordo com esses esforços políticos mencionados,
foi lançada em agosto de 2008, a Portaria nº 1707 do Ministério da Saúde sobre o Processo
Transexualizador. Esta Portaria garantiu a cirurgia reconhecida pelo Conselho Federal de
Medicina como um procedimento de alta complexidade no Sistema Único de Saúde (SUS).
Alguns meses depois, a Portaria nº 457, também de 2008, foi instaurada para organizar os
serviços e procedimentos associados ao Processo (BRASIL, 2008)
Para que uma pessoa trans se candidate à cirurgia de redesignação sexual, passa a ser
indispensável que a instituição de saúde contenha o registro com todas as informações do/da
paciente, desde sua identificação pessoal, histórico clínico até dados a respeito de sua
avaliação médica, psiquiátrica e psicológica. Informações acerca das etapas do procedimento,
caracterizado por tratamentos clínicos, hormonais, metabólicos, nutricionais, psicológicos,
cirúrgico, evolução, alta hospitalar e acompanhamento posterior, também devem ser
declaradas (BRASIL, 2008).
Nessa batalha por direitos a sua própria construção e a sua saúde, a pessoa que busca
readequação cirúrgica pelo SUS é obrigada a realizar terapia psicológica durante um período
mínimo de dois anos, realizar análises de laboratório e fazer uso de hormônios e ainda
evidenciar um comportamento coerente com o gênero desejado. (Bento; Pelúcio 2012)
Segundo Lionço (2009), o/a psicólogo/psicóloga, incluído/incluída e participante da
equipe multidisciplinar do Processo transexualizador, deve estar atento às diretrizes deste
processo e também responder a Resolução n° 001/99 do Conselho Federal de Psicologia
(1999) que normatizou a atuação desses/dessas profissionais em interface com a sexualidade.
O conteúdo desta Resolução implica que o conhecimento dessa ciência está a favor das
reflexões críticas em relação ao preconceito, igualmente ao de não praticar atos que
85

corroborem com a patologização do gênero. A atenção deve estar voltada de forma a não
contribuir para um atendimento coercitivo, combatendo a discriminação e o estigma sofridos
por aqueles vistos com fora da heteronormatividade.
De acordo com o que foi mencionado acima, podemos notar que a Psicologia e a
Transexualidade coexistem em campos paradigmáticos em construção, ora se aproximando de
um processo de despatologização de gênero via Resolução 001/99, ora integrando-se ao
modelo biomédico, no momento em que o profissional passa a ser inserido em uma equipe
pautada por esses discursos e procedimentos.
Lembrando o porquê da relação de complexidade do debate entre a Psicologia e os
movimentos sociais, podemos observar que ao mesmo tempo em que temos um Processo
Transexualizador vinculado a intervenções biomédicas, este Processo não se deu/dá só de um
lado. Ele está em consonância com as demandas dos movimentos sociais, incluindo as
demandas de parte da própria comunidade trans, e compõe um ganho político por salientar
direitos dos usuários de saúde e suas visibilidades enquanto sujeitos. (BRASIL, 2008).
Em contrapartida, sabe-se também que existe outra perspectiva em debate. Tanto
ativistas trans, que são a favor da despatologização da transexualidade, quanto alguns
psicólogos, questionam a obrigatoriedade do acompanhamento psicológico (dois anos) para as
pessoas trans. Diversos/diversas profissionais, principalmente aqueles/aquelas que não fazem
parte dos Programas Transexualizadores, relatam que muitas vezes as pessoas trans só os/as
procuram por conta da obrigatoriedade deste acompanhamento. É válido mencionar que para
terem direito de realizarem uma readequação cirúrgica ou para acessarem a hormonioterapia
e/ou se (re)construírem enquanto sujeitos, as pessoas trans precisam também de um laudo ou
carta emitida por este profissional.
Não é a importância ou a qualificação do trabalho desses/dessas profissionais que se
está questionando. Diversas pessoas trans e cisgêneras podem os/as procurar pelos mais
diversos motivos, desde problemas emergenciais muito bem focalizados, orientações ou
esclarecimentos, dificuldades existenciais e até mesmo pela busca de autoconhecimento.
Entre tais motivos, podem-se destacar perdas de entes queridos, separações conjugais, stress,
dentre tantos outros.
Os motivos pelos quais as pessoas procuram esses/essas profissionais, como
mencionados anteriormente, são muitos e são legítimos. No entanto, quando as pessoas fazem
o movimento de buscar essa ajuda profissional, elas o fazem para sentirem-se bem. Uma
pessoa que deseja se divorciar, por exemplo, pode estar em grande sofrimento. No entanto,
esse sofrimento não é entendido como uma patologia. Ela não precisa que alguém faça uma
86

carta (“laudo psicológico”) o confirmando. Alguém esse/essa que, diga-se de passagem, não
pode conhecer melhor do que você a dinâmica de seu casamento. Divórcios, neste contexto,
não necessitam de cartas/laudos psicológicos para serem autorizados.
Considerando as dimensões continentais de nosso país e que existem apenas quatro
Programas Transexualizadores nele funcionando, diversas pessoas trans, incluindo neste
grupo aquelas que desejam buscá-los, não conseguem sequer acessá-los. Diante deste desafio,
e tendo conhecimento das especialidades necessárias envolvidas no Processo
Transexualizador, muitas dessas pessoas recorrem às unidades básicas de saúde em seus
estados e municípios para as obterem.
A seguir, através do conteúdo de dois videologues distintos, um produzido por Tyller e
outro por Alex, buscarei evidenciar e refletir sobre alguns fascismos diários extremamente
graves pelo quais pessoas trans, ao terem que se submeter a esses acompanhamentos
psiquiátricos/psicológicos obrigatórios vivenciam: serem submetidas a uma hierarquia de
saberes de um/uma profissional sobre o/a outro/outra, a rejeição ou ao não acolhimento por
parte de alguns/algumas desses/dessas profissionais.
Comecemos por Tyller:
“E aí pessoal, tudo bem? Tô aqui mais uma vez postando um vídeo pra vocês, prá
dar mais um pouco de informação de como tá sendo meu processo com a transição.
Ahm, eu vou falar hoje de como eu consegui o meu psicólogo e psiquiatra pelo SUS.
Muita gente pagam pra isso, mas eu achei melhor primeiro tentar pelo SUS. E
consegui. É aquele mesmo esquema. Você vai num posto mais próximo da sua
residência, você passa com um clínico geral, pede um encaminhamento pro
psicólogo. Na data marcada, você vai no ambulatório, mas aí que tá, eles não vão te
passar diretamente pra o psicólogo. Eles vão tá te passando com o psiquiatra
primeiro, pra ver seu estado mental e tá passando talvez alguma medicação, caso
você precise. Tipo depressão, ansiedade, tal.
No caso, o psiquiatra passou remédio pra ansiedade. Não tem como. Quando a
gente tá nesse processo de transição, a gente acaba ficando muito ansioso. Não tem
como fugir disso. Aí foi de boa.
Ahm, aí depois de um tempo, foi esse começo desse ano, ah, eu fui no psiqui, no
psicólogo e passei, passei na triagem aí agora eles vão me chamar pra ter mais uma
sessão. Aí eu tô esperando, mas tá caminhando. Eu acho melhor tentar pelo SUS do
que você ficar parado, esperando juntar uma grana pra pagar um particular. Eu
acho que não custa nada você primeiro tentar pelo SUS porque tem alguns lugares
que o SUS tá indo bem.
Acredito que o SUS tem alguns lugares que tão ruim, mas eu acho que a gente não
custa tentar. Ficar parado a gente não vai conseguir. Se a gente tentar é uma
oportunidade que tá conseguindo. Bom galera é isso. [... Galera, eu esqueci de dar
uma informação pra vocês. Eu não sei se todos os casos são desse jeito, mas o meu
caso, quanto eu fui, atendido pela triagem, no psicólogo, é, ela me disse que é
importante eu tá passando no psiquiatra também porque, com o tratamento
psicológico, é, é só o psicólogo que vai dar apenas uma carta dizendo que eu tenho
“transexualismo”, entendeu?
Tipo, é só uma carta, não é um laudo. Então, ela vai dar essa carta pra mim, que
eu vou tá passando pelo psiquiatra e que ele sim vai tá dando um laudo que eu
tenho “transexualismo” e tenho direito de tá fazendo as cirurgias.
Eu resolvi postar isso porque achei muito importante, no meu caso tá sendo assim e
acredito que nos outros casos também porque o psicólogo, ele não dá laudo, ele só
87

dá uma carta dizendo o que você tem. Psiquiatra vai tá dando esse laudo, beleza?
Valeu aí mais uma vez galera. Até a próxima.”

Jackson, por já conhecer os trâmites burocráticos do processo transexualizador


enquanto usuário, não acessa o serviço de saúde sem saber o que deseja. Muito pelo contrário.
Na entrevista que me cedeu, antes de procurar o serviço, o mesmo me revelou ter conversado
com outras pesssoas trans e feito muitas pesquisas por conta própria na internet sobre como,
onde e o que exatamente buscar no serviço.
A partir de seu relato, podemos perceber que o jovem já dá indícios de conhecer o
“caminho das pedras”. Ele sabe, por exemplo, que para conseguir ter acesso às cirurgias que
deseja, precisará de laudos. Laudos esses que ele acredita inicialmente, que poderão ser
emitidos tanto por um/uma psiquiatra quanto por um/uma psicólogo/psicóloga. No entanto,
como o próprio relato do jovem nos apresenta, ao longo de sua busca, ele descobre que o
saber psiquiátrico se sobrepunha ao psicológico.
A quem interessa essa hierarquia de saberes? Estaria Jackson de fato sentindo a
necessidade de fazer um acompanhamento psicológico ou suas necessidades eram outras? O
que esta necessidade tão específica dele provoca na prática Psi? Quanto tempo leva (ria) para
um/uma profissional perceber que aquele/aquela paciente não está lá por vontade própria, mas
sim por conta de um único objetivo? Se Jackson já chega ao serviço sabendo como deve agir,
por que os/as profissionais, tanto os/as psiquiatras quanto os/as psicólogos/psicólogas,
acreditariam que ele agiria diferentemente durante suas sessões?
Seguindo a ordem acima proposta, observaremos mais de perto alguns trechos sobre a
experiência de atendimento psicológico vivido e narrado por Alex, o rapaz norte-americano já
mencionado anteriormente:

E aí pessoal, tudo bem? Eu só queria atualizá-los sobre coisas relacionadas à


terapia que estão acontecendo. Eu faço terapia há bastante tempo. Me pediram que
fizesse terapia aos 14 ou 15 anos de idade. Foi aos 14, quando eu tomei uma
superdosagem de tylenol como uma tentativa de suicídio. Eles cortaram meu
estômago e eu comecei a fazer terapia. Esta terapeuta é incrível e nós somos
amigos. Obviamente hoje não é mais uma relação terapêutica, mas de amizade. Ela
tem sido ótima e eu a amo. Eu quero visitá-la qualquer dia desses...ela se mudou
para o Arkansas. Eu quero visitá-la. Os filhos dela são meus amigos e ... foi uma
relação ótima. Eu vi muito sobre mim e ela me ajudou a me ver também.
Quando eu entrei na faculdade eu comecei a ver uma mulher chamada Esther e... o
que eu amava nela são as mesmas coisas que eu odeio. Porém, ela é incrivelmente
inteligente e... nós conversamos sobre o motivo pelo qual eu agi de uma forma não
segura, sabe? Mas ela esteve comigo em várias situações. Ela esteve comigo
quando eu fui expulso das Forças Armadas e eu era suicida. Ela esteve comigo
quando fui pego com um pouco de maconha em um parque nacional, eu fiquei em
liberdade condicional por um ano e por isso não passava nos testes de antecedentes
criminais mas eu tinha acabado de terminar a faculdade e por isso não conseguia
88

arrumar um novo emprego. Eu era suicida nesta época também. Não tinha auto
estima. Nenhuma. [...]
Então, eu trabalhei com a Esther enquanto eu estava na Coréia. Nós tivemos
sessões pelo telefone. Nós tivemos sessões pelo telefone enquanto eu estava em
Cincinneti. Eu lutei contra a depressão. No inverno ela piorava. E mais de uma vez,
foi considerada a hipótese de eu ir para uma instituição de tratamento ou pelo
menos ser internado por um curto período. Eu não sei quanto tempo mas eu estava
sem plano de saúde e não havia promessas de que isso fosse fazer as coisas
melhorarem. Eu tomei antidepressivos e só...Só... assisti. Eu assisti outras pessoas
crescendo, fazendo as coisas delas, fazendo algo com as vidas delas. Mas eu só
assisti aquilo. Eu não podia fazer aquilo. Mas cheguei em um momento em que eu
podia. Eu podia ter minhas próprias aventuras e minha própria forma de crescer.
Eu sei agora que eu relutava tanto em tentar conseguir um desses “empregos de
adulto” porque eu não era um adulto e não sabia o que fazer quando crescesse. Se
fosse para eu crescer e me tornar uma executiva, eu poderia simplesmente atirar em
mim agora. Porque esse não era eu. E eu não entendia que o que me impedia era a
minha identidade. Eu não podia crescer porque o que eu estava crescendo para ser
era muito aprisionador, sabe? E minha terapeuta me ajudou com tudo isso. Eu acho
que eu não estaria aqui se não fosse pela Esther, que me atendeu cobrando sessões
baratas e falou comigo no meio da noite e “esteve lá.”, realmente comigo e me
amou. Teve consideração, compaixão e compreensão. Ela era uma terapeuta
incrível e daí eu me mudei para a Coréia e como eu falei antes, nós nos falávamos
pelo telefone e aquilo estava bom. E daí eu comecei a ``sair do armário`` como
trans e nós falávamos sobre isso e eu podia perceber que algo não ia bem, mas ela
não falava a respeito. Então, nós nos falamos por cerca de um ano mas durante
aquele ano eu aprendi que ela acha que a transição médica é...não sei a
palavra...só... auto-prejudicial ou prejudicial. Ela acha que a cirurgia é uma
mutilação do corpo e que hormônios, o risco de câncer ao tomá-los, ela não ia me
dar um laudo para eu tomar testosterona, ela não apoia.

A partir das tensões que as demandas das pessoas trans provocam na atualidade, a
narrativa de Alex nos serve como um potente disparador para pensarmos acerca das práticas
da Psicologia. Ainda que não tenhamos acesso à narrativa de sua psicóloga e que essa
experiência tenha ocorrido em outro país, acredito que os apontamentos abaixo não devam ser
(in) validados, mas sim (re) pensados e talvez (re) construídos.
Temos duas situações distintas que merecem ser analisadas. A primeira delas diz
respeito ao “conhecimento da situação”. Em algum momento da dinâmica entre eles, Alex
revela a sua terapeuta que se identifica como trans. Ele nos conta que chegam a iniciar um
diálogo sobre essa revelação, e que visivelmente, sua terapeuta não se sentiu confortável com
a mesma. Uma tensão ainda maior é criada quando ela também percebe, mas mantém o
silêncio.
De acordo com o código de ética de Psicologia, Art 1º, é dever fundamental do/da
psicólogo/psicóloga assumir responsabilidades profissionais somente por atividades para as
quais esteja capacitado/capacitada pessoal, teórica e tecnicamente. A psicóloga de Alex,
mesmo sabendo sobre a revelação de seu paciente e não se sentindo confortável, continua o
atendendo. Embora não tenhamos acesso aos reais motivos deste desconforto, a dúvida sobre
89

se ele teria sido causado por uma falta de conhecimento técnico ou se teria sido um ato
discriminatório, paira no ar.
A segunda delas diz respeito à opinião da psicóloga sobre a transição médica. Segundo
o código de ética de Psicologia, Art 2º, é vedado ao psicólogo praticar ou ser conivente com
quaisquer atos que caracterizem negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade
ou opressão. Alex estava ali porque dependia dessa “estranha-com-autoridade” (BUTLER,
2010) para poder obter melhores condições de viver e bem. Ele não estava ali para ser julgado
ou discriminado, ele precisava ser acolhido.
Ainda de acordo com o código de ética de Psicologia, Art 1º, é dever fundamental do
psicólogo/psicóloga sugerir serviços de outros/outras psicólogos/psicólogas sempre que, por
motivos justificáveis, não puderem ser continuados pelo/pela profissional que os assumiu
inicialmente, fornecendo ao seu/sua substituto/substituta as informações necessárias à
continuidade do trabalho. Em outras palavras, independentemente das razões (de ordem
técnica ou moral) da psicóloga, ela tinha como dever ético acolhê-lo e buscar fazer um
encaminhamento.
É válido ainda mencionar que quando encontramos uma pessoa em situação de
vulnerabilidade como a de Alex, percebe-se que não só há necessidade de encaminhamento
para outro profissional de psicologia, mas para um profissional de psicologia que esteja
capacitado pessoal, teórico e tecnicamente.
Não são comumente encontradas disciplinas específicas sobre gênero e sexualidade,
não patologizantes, nos cursos de graduação das áreas de saúde nas universidades brasileiras.
Os desafios que profissionais da área da saúde que trabalham nos serviços especializados ou
não, assim como os movimentos sociais e as pessoas trans têm pela frente, são inúmeros.
Talvez, a força de parte de uma nova geração de pessoas trans e aliados/aliadas, que não
concordam com o diagnóstico patologizante, possam apontar para uma necessidade das
próprias autoridades em ousar e radicalizar mais suas práticas. Práticas estas que devem ser
norteadas sempre pela ética e pela defesa dos direitos humanos.
Assim, as vivências de Tyller com o atendimento psiquiátrico e psicológico anunciam
não um cuidado em saúde mental, mas a construção de um saber psi que se antecipa às reais
necessidades dos/das usuários/usuárias trans, servindo como legitimador de um discurso
patologizante. Alex, por sua vez, ao narrar sua vivência com a psicoterapia oferece indícios de
como estes discursos transfóbicos e fascistas podem sobrepor às reais demandas por
atendimento de uma pessoa trans. Sendo este um ser humano global, suas demandas não se
resumem a questões de gênero, ainda que estas perpassem a sua subjetividade, e precisa,
90

portanto, ter respeitado seu direito de receber atendimento psicológico, caso seja este seu
desejo.
Assim, as vivências de Tyller com o atendimento psiquiátrico e psicológico anunciam
não um cuidado em saúde mental, mas a construção de um saber psi que se antecipa às reais
necessidades dos usuários trans, servindo como legitimador de um discurso patologizante.
Alex, por sua vez, ao narrar sua vivência com a psicoterapia oferece indícios de como estes
discursos transfóbicos podem sobrepor as reais demandas por atendimento de uma pessoa
trans. Sendo este um ser humano global, suas demandas não se resumem a questões de
gênero, ainda que estas perpassem a sua subjetividade, e precisa, portanto, ter respeitado seu
direito de receber atendimento psicológico, caso seja este seu desejo.
Aquém da realização de um atendimento pautado nas reais demandas trazidas pelas
pessoas trans, este cinismo psi não tem alcançado o cuidado em saúde da população
transmasculina.
Dando continuidade às discussões sobre cuidado em saúde, na seção a seguir
apresento uma discussão acerca de outra demanda bastante presente no atendimento às
pessoas transmasculinas: a utilização da testosterona e o cuidado como dispositivo nesta
“terapia hormonal”.

3.3. Testosterona: encaminhamentos e os impasses do dispositivo do cuidado

Sou verdadeiramente livre quando todos os seres humanos que me cercam, [..], são
igualmente livres. A liberdade do outro, longe de ser um limite ou a negação da
minha liberdade, é, ao contrário, sua condição necessária e sua confirmação. Apenas
a liberdade dos outros me torna verdadeiramente livre, de forma que quanto mais
numerosos forem os homens livres que me cercam, e mais extensa e ampla for sua
liberdade, maior e mais profunda se tornará minha liberdade. [...] Minha liberdade
pessoal assim confirmada pela liberdade de todos se estende ao infinito.

Bakunin (1871 apud GALLO, 1995, p. 25)

Arán & Murta (2009), em artigo que discute os desafios para a gestão de políticas
públicas para esta população, incluem, por exemplo, algumas informações acerca do
“tratamento hormonal” ou “terapia hormonal”. Uma das muitas demandas nos processos de
construção de si, por parte da população transmasculina no país, é pelo acesso e uso da
testosterona. Este mesmo hormônio, que em menor escala também é produzido nas fêmeas da
espécie humana, é responsável por induzir o desenvolvimento dos caracteres sexuais
secundários masculinos.
91

Ainda de acordo com as autoras acima, ao resgatarem as ideias de Hausman (1995


apud ARÁN & MURTA, 2009), elas nos revelam ser impossível se desassociar e entender o
fenômeno da transexualidade e principalmente na endocrinologia, dos avanços tecnológicos.
Associadas ao advento da endocrinologia em meados do século XX, as cirurgias plásticas
também se desenvolveram e contribuíram para um novo desenho da transexualidade.
Com informações obtidas dentro de um serviço de atendimento a transexuais no Rio
de Janeiro (HUPE)12, Arán & Murta (2009) informam que três tipos diferentes de hormônios
“masculinos” podem ser encontrados no mercado, porém um deles, mais custoso13, é tido por
profissionais como o menos agressivo ao organismo. As doses administradas e as maneiras de
se aplicarem esses hormônios também são variáveis. Elas podem ser intramusculares,
transdérmicas – como adesivos – e em géis.
Algumas pessoas iniciam seus processos de alterações corporais, mais conhecidas
como “terapias hormonais”, expressão médica prescrita após o diagnóstico de
“transexualismo”. Diversas outras pessoas transmasculinas chegam aos serviços já tendo feito
uso anterior (automedicação) de algum tipo de hormônio, seja por indicação de amigo, na
academia, através de informações obtidas na internet ou no mercado paralelo.
Assumindo em suas reflexões o hormônio “masculino” testosterona como um
dispositivo, o dispositivo “testo”, Lima (2014), por exemplo, retoma as discussões
foucaultianas sobre os diferentes dispositivos de controle e resistências (FOUCAULT, 2002,
DELEUZE, 1990, AGAMBEN, 2005). De acordo com os autores, estes dispositivos podem
ser entendidos como mecanismos complexos, compostos por práticas e/ou discursos
heterogêneos, multilineares, produzidos historicamente e com uma função estrategista de
compactuar saberes e poderes. Se produzindo e funcionando como uma maquinaria, captura
em suas engrenagens indivíduos e corpos múltiplos, de maneira difusa. Não se constituem
enquanto um elemento fechado, mas um conjunto de subterfúgios que interagem, conservando
em seu interior, a tensão. É também contraditório, pois revela o jogo paradoxal que se observa
entre sujeitos e normas, revelando os espaços e as camadas integrantes nos modos de
subjetivação (LIMA, 2014).
Segundo ainda a própria autora, a testosterona seria produzida num âmbito de
dispositivos maiores, como os processos de medicalização, e tem papel de destaque por
produzir discursos e práticas, revelando deste modo, um aparato de controle dos corpos e

12
Hospital Universitário Pedro Ernesto.
13
Nebido® - Undecanoato de testosterona, Registro no M.S. MS-1.0020.0123.Schering do Brasil, Química e
Farmacêutica Ltda.
92

sexualidades. Todavia, Lima (2014) nos aponta que por dentro dos próprios dispositivos,
também se pode encontrar resistências. Ao utilizar a discussão sobre o dispositivo no
pensamento de Foucault, ela nos mostra que Agamben (2005, p. 14) a retoma destacando a
ideia de que “na raiz de cada dispositivo está [...] um desejo demasiadamente humano de
felicidade, e a captura e a subjetivação deste desejo em uma esfera separada constitui a
potência específica do dispositivo.”
Ainda que a discussão sobre o dispositivo “testo” possa ser interessante, não pretendo
adentrá-la. Em se tratando de testosterona e a população trans, o dispositivo que aqui me
interessa é o do cuidado. De que maneira as pessoas transmasculinas que não estão inscritas
em um dos programas transexualizadores em nosso país, pelos mais diversos motivos, podem
acessar o processo de hormonização? Seriam somente os/as endocrinologistas e/ou
urologistas, que trabalham nos serviços especializados transexualizadores, os/as únicos/únicas
profissionais aptos/aptas a receitar a testosterona?
Quando se descobre, por exemplo, que uma pessoa transmasculina, diagnosticada
como uma pessoa trans em um programa transexualizador, não pode iniciar o processo de
hormonização por motivos outros de saúde, estaria ela dispensada do programa? E a pessoa
que não quer fazê-lo por motivos de outra ordem?14 Esta pessoa deixaria de ser um homem
transexual? A “cura” deixaria de existir para ela? E o homem trans que viesse a engravidar?
Ele deve interromper seu processo de hormonização por quantos meses? Em quanto tempo ele
poderia retornar a acessá-lo? Pensando nessas questões, que dispositivo(s) de cuidado
podem/poderiam ser acionado(s) a partir de então?
No Brasil, o uso de hormônios continua sendo controverso e muitas vezes arriscado.
Ainda que seu uso tenha sido regulamentado no país, o acesso a ele continua sendo muito
limitado. Muitos homens trans e pessoas transmasculinas não fazem parte de programas
transexualizadores, pelos mais diversos motivos, como pouca disponibilidade de vagas ou por
não aceitarem ser patologizados/patologizadas. Na ânsia de construírem seus corpos-arte,

14
Existem pessoas transmasculinas que não podem ou que não desejam se hormonizar. Há de se pensar em
alternativas outras de masculinização do corpo. Tristan Sky (2011), um homem trans norte-americano, escreveu
um livro com Sicily Sky, personal trainer, sobre transição natural. Intitulado de Natural Transitioning: An FTM
alternative- Transição Natural: Uma alternativa para FTMs, suplementos vitamínicos associados a uma dieta
balanceada e a exercícios físicos específicos para essa masculinização do corpo, são descritos como métodos de
masculinização menos agressivos e tão eficazes quanto à testosterona. Vale destacar que educadores físicos,
nutricionistas e fonoaudiólogos não fazem parte da equipe multidisciplinar dos programas ¬transexualizadores
brasileiros. Todavia, estes profissionais assim como os/as ginecologistas, especialidade não inclusa na obra de
Sky, enquanto responsável pela masculinização do corpo, também são de grande importância para os processos
de adequação e saúde dos corpos transmasculinos.
93

burlam a burocracia, os protocolos e se automedicam, colocando em risco muitas vezes, a


própria saúde.
Diversas pessoas trans, sabendo das dificuldades de acesso a programas
transexualizadores, acabam encontrando nos postos de saúde ou clínicas da família de suas
cidades ou bairros, uma ou senão a única alternativa para não apelarem para a automedicação
na ilegalidade. Entretanto, como bem como pontuou Duarte (2014, p. 149)
o Caderno de Atenção Básica (CAB) que, no seu número 26 (BRASIL, 2010ª), ao
tratar do tema da saúde sexual e saúde reprodutiva, apresenta um capítulo específico
sobre saúde sexual e saúde reprodutiva na diversidade e um subcapítulo sobre a
população LGBT. [... no entanto, apesar de apresentar a temática da diversidade
sexual, o mesmo vem de cima para baixo e não se vê nenhuma capacitação por parte
da gestão, nem para as equipes da ESF nem mesmo para as equipes de ACS, quiçá
no território em que se dá na articulação com as diversas redes de atenção e cuidado
à saúde.

Ainda segundo o autor, no referido caderno, não há nenhum tipo de informação sobre
o processo transexualizador do SUS. A única informação disponível é sobre os riscos à saúde,
tanto na utilização de hormônios fertilizantes e masculinizantes pelas pessoas trans. Diante
dessa falta de capacitação e informação, a recomendação que os serviços de atenção básica
têm dado é que as pessoas trans devem ser encaminhadas aos serviços de atenção
especializados, sendo esse cidadão então, mais uma vez deixado para trás, em uma fila de
espera por atendimento integral à sua saúde sexual, sem controle de início ou fim.
Em se tratando de redução de custos em saúde, de filas menores e de qualidade de vida
para o usuário, a possibilidade de se fazer parte do “tratamento” em uma unidade básica de
saúde parece ser bastante promissora e viável. Considerando as largas dimensões geográficas
de nosso país, as mais distintas realidades, mas também nas condições sócio econômicas dos
usuários do SUS e que hoje contamos apenas com quatro centros de referência
transexualizadores credenciados por este sistema, por que não se pensar na divulgação desta
possibilidade e criar campanhas informativas para usuários e profissionais de saúde que
trabalham em clínicas da família, por exemplo?
Em busca de respostas para alguns desses desafios, lhes trago de volta Tyller e sua
experiência em conseguir acompanhamento com um endocrinologista pelo SUS, quando no
videoblogue do dia 27 de dezembro de 2012 nos diz:

E aí galera, tudo bem? Hoje eu tô aqui para compartilhar um pouquinho de


informações com vocês e vou tá falando como eu consegui a consulta com o
endocrinologista pelo SUS. Pode parecer um bicho de sete cabeças mas é muito
simples de conseguir. Ahn, vou tá explicando como eu consegui. É, primeira parte é
você ir num posto de saúde mais próximo da sua residência. Isso tem em qualquer
bairro, qualquer cidade, não tem erro, é só você ir. Lá você vai tá passando com um
clínico geral e na hora da consulta lá, que na hora que você faz você vai tá
94

explicando a sua situação. Tipo, independentemente dele tá entendendo ou não o


seu caso ou ser especialista ou não, você vai pedir o encaminhamento pro
endocrinologista. Aí tá, aí vem a parte da espera. No meu caso não demorou não.
Demorou tipo um mês, mas eu fiquei com um pouco com medo de não ter um
acompanhamento porque sendo pelo SUS e pelas coisas que eu já li e algumas
informações que eu tive, fica um pouco difícil do endócrino, pelo SUS, ter coragem
de acompanhar a gente, acompanhar não, no caso passar. Quando a gente não tá
tomando. Então eu acabei comprando por conta própria e acabei tomando a
primeira dose por conta própria.

Neste trecho podemos perceber que mesmo amedrontado, Tyller desiste de esperar
pela consulta com o endocrinologista e não conseguindo mais lidar com sua ansiedade,
compra a testosterona no mercado ilegal e a toma. Ele nos revela que muitas vezes se
consegue acompanhamento de um profissional da área, mas que este não se compromete em
prescrever a testosterona. Mais adiante, ele nos revelará o motivo.
Quando Tyller finalmente se consulta com seu endócrino, que leva cerca de um mês,
uma espera relativamente curta em se tratando de SUS, segundo o próprio jovem, o encontro
foi tranquilo e o médico se mostrou atencioso e respeitoso. Jackson o comunicou que havia
tomado a testosterona por conta própria e nós espectadores sabemos que ele e muitos homens
trans o fazem, pois foi difundida a informação entre alguns homens trans usuários das mais
diversas tecnologias, que quando já se está tomando a testosterona, é mais fácil conseguir
acompanhamento, e Jackson nos confirma essa informação.
Existem dois lados desta história ainda não esclarecidos exatamente. Não se sabe se os
médicos que aceitam acompanhá-los o fazem por terem uma maior convicção de que esses
usuários são mesmo homens trans e que estes sabem o que querem ou se independentemente
de eles terem essa certeza ou não, têm a dimensão de que a vida daquele usuário/usuária pode
estar em risco por ele/ela já ter tomado e diante dessa informação, se sentem responsáveis por
acompanhá-los/acompanhá-las.
O endocrinologista ainda faz algumas perguntas à Tyller e este nos revela estar se
sentindo muito bem. Apesar de ainda sentir dores de cabeça, que já sentia anteriormente a
testosterona, ele expressa que suas dores até haviam diminuído ao tomá-la: “até dores de
cabeça que eu tinha mais dores de cabeça, eu achei que eu ia ter mais ainda por conta da T,
porque a galera diz que dá dor de cabeça. As minhas dores de cabeça até diminuíram, eu
acho que é de tanta felicidade de tá tomando a T.”
O médico lhe faz mais algumas perguntas para certificar-se de que o uso da
testosterona era mesmo da vontade de seu paciente. Em seguida, ao obter a confirmação de
Tyller, lhe diz que por não entender muito sobre o assunto, mas por estar o vendo ali, animado
95

e disposto, iria encaminhá-lo para um lugar onde houvesse endócrinos que tratassem sobre
“isso”, onde já houvesse um caso sobre transexualidade.
Tyller então obtém um encaminhamento para a cidade vizinha e também para São
Paulo, onde existe um programa transexualizador credenciado pelo SUS (Sistema Único de
Saúde). O endocrinologista ainda no final da consulta fez a requisição de alguns exames e
garantiu a Tyller que iria acompanhá-lo até que ele fosse atendido na outra cidade. Nas
palavras do jovem:
Ele falou assim que queria exames, pra ver se eu tava bom e me acompanhar até eu
ser atendido na outra cidade. Então, por mais que ele não entendesse do assunto,
ele ia tá me acompanhando para ver o meu estado de saúde, alguns efeitos que
estava dando. Eu achei que ia ser tipo um bicho de sete cabeças, o cara tipo, me
crucificar, porque eu tô tomando hormônio ou porque não tô ou porque quero, mas
não, tipo, acho que vai de médico pra médico, cada pessoa tem uma cabeça, médico
não se rotula, tipo “todos iguais”. Acho que vai da sorte de a gente pegar um legal,
mas se a gente não tentar, a gente não vai conseguir.

Por fim, o paulista orienta outros colegas que assim como ele desejam tomar
testosterona a não seguirem seu exemplo e esperarem para tomá-la com acompanhamento. Ele
poderia estar bem, mas outros tantos, com organismos, idades e alimentações distintas,
poderiam apresentar sérios problemas de saúde.
Essa experiência de Tyller nos revela muitas informações. Essas informações são
interessantes e importantes para diversos outros homens trans, mas principalmente para
endocrinologistas e outras especialidades necessárias ou que devem estar disponíveis a
qualquer homem trans que deseja fazer a transição. Ela é instigante, pois nos revela que
existem outras possibilidades de acompanhamento e que talvez, esses profissionais não
precisem ser especializados em transexualidade e nem trabalharem em centros de referência
transexualizadores.
No que se refere aos documentos do SUS, é possível perceber que, de alguma forma, a
questão da hormonização aparece na Resolução 1.652 de novembro de 2002 do Conselho
Federal de Medina. Esta última fornecia a base normativa para a realização regular dos
procedimentos em pessoas trans e, acompanhado da crescente demanda, o serviço se
organizou em termos de estrutura e capacitação de pessoal para um atendimento integral aos
indivíduos que vivenciam a transexualidade. Não foi uma tarefa fácil, considerando a
necessidade de articulação com outros setores do hospital e a necessidade da especialização
de profissionais de outras áreas de atuação, além da urologia, no caso do programa do
Hospital Universitário Pedro Ernesto, que por sua vez tinham a temática da transexualidade
como algo novo ou até mesmo desconhecido. (CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA,
2002)
96

As Portarias 1.707/2008 e 457/2008 do Ministério da Saúde, ao instiruírem o processo


transexualizador no SUS, idealizam as prerrogativas necessárias para o credenciamento das
unidades de saúde que serão responsáveis pela condução desse procedimento no Brasil. No
caso do Rio de Janeiro, essa unidade é o HUPE (Hospital Universitário Pedro Ernesto),
atendendo aos critérios exigidos pela referida Portaria em seu artigo 2º, onde as diretrizes
dessa assistência eram definidas de acordo com a seguinte transcrição:
Definir como Unidade de Atenção Especializada no Processo transexualizador – a
unidade hospitalar que ofereça assistência diagnóstica e terapêutica especializada
aos indivíduos com indicação para a realização do processo transexualizador e
possua condições técnicas, instalações físicas, equipamentos e recursos humanos
adequados a este tipo de atendimento. (BRASIL, 2008)

No que tange à integralidade da atenção, é primordial compreender que o sujeito


submetido ao processo transexualizador necessita de um acompanhamento que vá ao encontro
das múltiplas demandas que sua identidade de gênero impõe, reivindicando a atuação de
diversos profissionais em reposta a inúmeras outras necessidades que não se encerram nas
cirurgias. No que diz respeito aos Recursos Humanos, a Portaria 457/2008 coloca como parte
da equipe mínima do processo transexualizador:
Médico cirurgião: médico com título de especialista em cirurgia urológica, sendo
que a habilitação pode ser comprovada por certificado de Residência Médica
reconhecida pelo Ministério da Educação (MEC), título de especialista da
Associação Médica Brasileira (AMB) ou registro no cadastro de especialistas dos
respectivos Conselhos Federal e Regionais de Medicina; b. Anestesiolista: médico
com certificado de Residência Médica reconhecida pelo MEC em anestesia, ou título
de especialista em anestesiologia pela Sociedade Brasileira de Anestesiologia; c.
Enfermagem: enfermeiro coordenador e enfermeiros, técnicos de enfermagem e
auxiliares de enfermagem em quantidade suficiente; d. Equipe multidisciplinar: -
Equipe Médica: equipe composta por psiquiatra e endocrinologista. Estes
profissionais devem possuir comprovada certificação de Residência Médica
reconhecida pelo Ministério da Educação (MEC), título de especialista da
Associação Médica Brasileira (AMB) ou registro no cadastro de especialistas dos
respectivos Conselhos Federal e Regionais de Medicina; - Psicólogo; - Assitente
Social. (BRASIL, 2008)

A Portaria 457/2008 em momento algum menciona que esses especialistas devam ser
especializados em suas áreas de atuação e em transexualidade. O que a Portaria informa é que
todos os profissionais envolvidos precisam possuir comprovada certificação de Residência
Médica reconhecida pelo Ministério da Educação, título de especialista da AMB ou registro
no cadastro de especialistas dos respectivos Conselhos Federal e Regionais de Medicina,
dentro de suas especialidades.
Várias especialidades, muitas vezes também podendo ser consideradas demandas
importantes para a saúde dos usuários, não são contempladas ainda dentro do programa. Com
relação especificamente ao programa transexualizador do HUPE, não há educadores físicos
(elaborando atividades para a masculinizacão do corpo), fonoaudiólogos (auxiliando na
97

impostação/treinamento da voz das pessoas transmasculinas que fazem ou não uso da


testosterona, por exemplo), nutricionistas (alimentação também tem relação com a construção
desse novo corpo) e endocrinologistas. No caso do HUPE, a especialidade que acaba por
cumprir essa lacuna é a de urologia. São os médicos urologistas que prescrevem a testosterona
para os homens trans, fazem a avaliação de seus exames e a partir destes, modificam ou não a
dosagem hormonal, o tipo e/ou a frequência de uso da testosterona de seus pacientes.
Podemos perceber que, talvez utilizando a própria dinâmica deste programa, seria
possível apresentar a outros médicos/médicas, a outras especialidades, que não existe uma
única maneira de se fazer cuidado. Não cabe aqui apontar se há falhas no programa por conta
da ausência de endocrinologistas, por exemplo, mas aproveitar essa lacuna e revertê-la a favor
das demandas dos homens trans de outras regiões do país, que não moram próximos a
nenhum desses centros especializados, e ainda, contribuir para futuras novas práticas de
outras especialidades.
Se um/uma urologista do programa transexualizador credenciado pelo SUS, que é um
dos quatro grandes centros transexualizadores do país assiste diversas pessoas trans mesmo
sem ter tido qualificação teórica em endocrinologia ou em transexualidade, por qual motivo
um/uma endocrinologista de uma clínica da família do interior de um estado da região norte
do país certificado também não poderia?
Quando por mim perguntado na entrevista que aconteceu em dezembro de
2014 em São Paulo sobre a experiência, assistência e tratamento dado pelo endocrinologista
do posto de saúde da cidade em que morava no Estado com o mesmo nome, Tyller nos revela
o seguinte:
Consegui ..Endocrinologista, Psicólogo e psiquiatra pelo SUS. Posso disser que
conseguir os profissionais foi fácil... difícil foi fazer alguns deles entender que eu
existia e tinha direitos. O primeiro que consegui foi o endocrinologista, um médico
que só havia por alto ouvido falar sobre os trans...mas se propôs a aprender para
me ajudar. Ele não me receitava hormônio. Mas ficamos combinados que eu
tomaria o hormônio indicado certinho..e faria exames a cada 3 meses, e ele era
rigoroso com os exames, a cada 3 meses eu fazia e estava no consultório dele. A
cada vez que eu voltava ele tinha aprendido mais um pouco sobre o assunto..Ah,ele
me encaminhou para o HC de São Paulo também...mas fiquei apenas 1 ano e 3
meses em tratamento no interior e o encaminhamento de SP nunca chegou pra mim.
Até que eu resolvi mudar para SP...ele me deu todo apoio, sempre foi respeitoso em
me tratar como o Jackson.

A partir dessa fala de Tyller, é possível analisarmos esse encontro dele com o
endocrinologista por vários ângulos. O primeiro deles diz respeito a inicial pouca informação
do profissional dessa especialidade sobre a existência de homens transexuais, de suas
demandas e de seus direitos. O segundo está relacionado com a insegurança ou dificuldade de
98

lidar com a nova situação, talvez justamente por acreditar não ter conhecimento técnico das
especificidades trans; e o terceiro parece estar atrelado à circunstância de que, mesmo não
conhecendo muito sobre aquela vivência, o fato de o médico ter se prontificado e
transformado de certa forma a sua prática, o seu olhar sobre ela a partir do momento em que o
encontro com Tyller aconteceu.

Para garantir a integralidade é necessário operar mudanças na produção do cuidado,


a partir da rede básica, secundária, atenção à urgência e todos os outros níveis
assistenciais. A resolutividade na rede básica está ligada ao recurso instrumental e
conhecimento técnico dos profissionais, mas também à ação acolhedora, ao vínculo
que se estabelece com o usuário, ao significado que se dá na relação
profissional/usuário, que sugere o encontro de sujeitos com o sentido de atuar sobre
o campo da saúde. (FRANCO; MAGALHAES JR.; MERHY, 2003)

É este último ângulo o que mais interessa quando se pensa na construção do que
Merhy (2003) chama de “linhas de cuidado”. A integralidade começa pela organização dos
processos de trabalho na atenção básica, onde a assistência deve ser multiprofissional,
operando através de diretrizes como a do acolhimento e vinculação de clientela, onde a equipe
se responsabiliza pelo seu cuidado. Um dado projeto terapêutico cuidador, na rede básica de
assistência à saúde, deve ser levado ao seu esgotamento, deixando os exames de maior
complexidade para a função real de apoio ao diagnóstico. Ela parte da rede básica, ou em
qualquer outro lugar de entrada no sistema, para os diversos outros níveis assistenciais.
Quando Tyller procura o posto de saúde de sua cidade e entra em contato com essa
pequena equipe multidisciplinar composta por um endocrinologista, uma psicóloga e um
psiquiatra, ele revoluciona sim esse ambiente, como ele mesmo nos sugere em um de seus
vídeos. Ele revoluciona porque além de ele não conhecer nenhum outro homem como ele
naquela cidade, os profissionais de saúde daquele posto também não. Até a ida de Tyller,
nenhum outro homem trans havia procurado um serviço de saúde para tratar de demandas tão
específicas.
O jovem paulista também nos revela na entrevista que até se descobrir um homem
trans, sofria sem saber bem de que. Quando Tyller “opta por ser capturado pelo dispositivo da
transexualidade” e se reconhece nele, nos confessa que parte de seu sofrimento é diminuído.
Ele transforma a sua angústia em resistência e (re) existência. Ele busca informações a
respeito de suas subjetividades e a partir delas passa a ter conhecimento de seus direitos. Com
esses direitos em mãos, literalmente, pois Tyller buscou o serviço com vários decretos
impressos, ele parte em busca da testosterona, seu passaporte para a felicidade.
99

O processo de hormonização, foi como seu estivesse nascido de novo com aquela
primeira injeção...foi como se dali por diante Deus tivesse me dado o direito de
viver e andar pelo mundo dele sem medos.Sim...sempre digo que a testosterona é o
passaporte da felicidade, no meu ponto de vista, conhecer o que a testosterona pode
proporcionar pra mim, foi como se eu tivesse ganhado uma passagem pra
felicidade, para o fim dos medos, para a liberdade de andar na rua sem medo de
alguém te constrangem. Minha auto confiança aumentou sim e muito...e isso foi por
conta da testosterona...ela dia após dias...foi me moldando fisicamente e me
deixando como o que eu sempre quis...um homem. Eu era um cara tímido
retraído...mal falava com as pessoas. Hoje sou um homem que conversa...que não
tem medo de fazer amigos. Um fato importante, a testosterona não mudou só meu
corpo e meu rosto... ele mudou meu coração... de um coração triste...pra um
coração feliz...com vontade de viver e não de morrer.

Acredito ser interessante pontuar que percebo, a partir dessas experiências de Tyller, a
potência delas servirem como dispositivos para contribuírem com a despatologização da
transexualidade e também da desconstrução da figura do homem transexual “verdadeiro”. Nos
centros onde funcionam os programas transexualizadores, muitos dos/das profissionais de
saúde que trabalham com esta população acreditam que possuem um saber sobre o modo de
viver das pessoas transexuais e que este é patológico.
Nos pequenos postos de saúde das mais diversas regiões de nosso país, muitas vezes
diversos/diversas profissionais de saúde, como pudemos perceber através dos vídeos
analisados, não têm esse certo saber sobre os modos de vidas trans e nessa lacuna há talvez
uma chance de se conseguir uma maior flexibilização e mais livre negociação dessa relação
médico/usuário. Por ainda não conhecerem o dispositivo da transexualidade e não estarem
“viciados/viciadas em protocolos trans”, as pessoas trans, principalmente aquelas ainda em
processo de construção de si, talvez tenham a chance de acessar o serviço e certos recursos
com olhares e ações menos ou não-fascistas. Não há ofertas que o/a trabalhador/trabalhadora
de saúde possa lhes fazer porque não há saber. O saber pode vir do próprio usuário/usuária ou
ser construído juntamente.
Acho interessante pensar sobre o que significa alguém ser o dono de certo saber sobre
o seu modo de viver e dizer que esse modo de viver é patológico, que por conta dele você vai
ficar doente e irá morrer por isso. Acho que essa “imposição” é fruto de uma relação de poder
e se você não tem noção dela, acaba aceitando como única verdade possível e torna-se objeto
da decisão do outro. Não participa de nenhuma possibilidade de armar a sua própria
representação do que faz ou não faz sentido para você e escolher de que modo viver a vida lhe
interessa. O que se passa é a não oferta do saber de um para o outro de modo intercessor, que
possibilitaria poder falar de si ou mesmo decidir por si. Essa tensão já existe mesmo quando o
encontro entre um que diz ser o dono/dona do saber e o outro/outra que vira seu objeto não é
intencionalmente realizado com a ideia de um encontro intercessor, no qual todos entendem e
100

topam sofrer os efeitos desse mesmo encontro e topam falar dele claramente, um para o outro
(MERHY, FEUERWERKER& CERQUEIRA, 2010).
É válido ainda mencionar a urgência em se pesquisar sobre os efeitos do uso
prolongado de testosterona em “corpos biológicos femininos.” Não existem estudos sobre
esses efeitos e para tal é importante haver um maior diálogo entre usuários/usuárias, equipe de
atendimento (serviços) e também com alunos/as dos cursos da área de saúde, por exemplo,
estreitando laços com as universidades e seus hospitais universitários.
As pessoas trans possuem necessidades em saúde outras que não somente as ligadas
aos seus processos de transição. Quando uma pessoa trans está com diarréia, por exemplo, ela
não precisa procurar um centro de referência transexualizador ou especializado em
transexualidade para tratar dessa indisposição. Ela pode ir a um posto de saúde próximo a sua
residência e lá ser assistida.
Por fim, gostaria de retomar a citação que abre este capítulo e pontuar que quando se
trata de demandas e cuidado em saúde, homens trans e pessoas transmasculinas devem
procurar se unir, pois independentemente de questões identitárias divergentes, esses
indivíduos possuem diversos desejos e necessidades similares. Ainda que os homens trans
sejam muito diferentes entre si, todos devem ser respeitados. Nenhum indivíduo é igual ao
outro, logo, os desejos refletem essas desigualdes. Se um deseja se hormonizar e o outro
prefere fazer uma transição natural, ambos devem ter em mente que a “liberdade do outro,
longe de ser um limite ou a negação da sua liberdade, é, ao contrário, sua condição
necessária e sua confirmação” BAKUNIN (1871 apud GALLO, 1995, p.25) e que ambos os
grupos precisarão e devem ter o direito de acessar os mais diversos serviços em saúde.
Diante das questões apresentadas neste capítulo, o cuidado em saúde revela-se também
enquanto um cuidado de si comprometido com uma poesia do encontro, com o
reconhecimento do outro/outra e de suas demandas específicas. Saberes psi e outros saberes
médicos podem estar comprometidos com esta abordagem, no entanto, precisam pautar-se no
respeito aos direitos humanos.
101

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Através da análise da troca de mensagens escritas nos diários virtuais contidas em dois
canais e de uma entrevista semiestruturada com um dos videoblogueiros, foi possível
identificar o potencial destes diários virtuais na criação de uma rede social e de cuidado em
saúde de homens trans e pessoas transmasculinas, além da produção de conhecimentos para o
campo da saúde, principalmente voltados aos profissionais desta área que trabalham nos
serviços transexualizadores, como também nas redes de atenção à saúde.
Dentre alguns desses conhecimentos produzidos pelos homens trans para o campo da
saúde destacam-se: os desafios a serem enfrentados perante a falta de conhecimento técnico
sobre a temática, associada à discriminação e ao não acolhimento por parte de alguns/algumas
profissionais da psicologia; a importância de se fazerem pesquisas nos centros
transexualizadores e/ou nos cursos da área da saúde nas universidades brasileiras acerca do
uso prolongado do hormônio masculino (testosterona) em “corpos tidos como
‘‘biologicamente femininos’’; a necessidade de se capacitar os profissionais que trabalham
nos centros transexualizadores e também nas unidades básicas de saúde a respeito do direito
do cidadão ao uso no nome social dentro dos serviços e por fim, a dificuldade de se conseguir
fazer e acessar a reposição hormonal, evidenciando além do seu alto custo, diversos
encaminhamentos desnecessários.
Pude perceber também que os conhecimentos por eles produzidos, de uma maneira
geral, evidenciaram alguns aspectos negativos, mas também positivos na assistência a essa
população no SUS, tanto nos hospitais universitários, onde funcionam os centros de
referência, quanto nas unidades básicas de saúde.
Com relação aos aspectos negativos, destacam-se: a não divulgação pública dos nomes
dos usuários que estão aguardando para fazerem suas cirurgias, mais especificamente no
estado do Rio Janeiro, onde funciona um dos quatro centros de referência trans; por exemplo,
é válido chamar atenção também acerca das poucas consultas médicas agendadas para se
acompanhar o processo de hormonização do/da usuário/usuária (há um intervalo muito grande
entre uma consulta e a seguinte) e de uma maneira geral, a não-homogeniedade, no que tange
ao atendimento, de um centro transexualizador para o outro. No Centro de Referência e
Treinamento DST/Aids de São Paulo (CRT), onde funciona um ambulatório de Saúde
102

Integral para Travestis e Transexuais do CRT, mais consultas são marcadas ao longo do ano e
há distribuição gratuita15 do hormônio masculino, a testosterona (Nebido).
Como já mencionado anteriormente, essa testosterona por eles distribuída é a mais
cara do mercado, mas também a menos agressiva ao corpo. Considerando a possibilidade da
despatologização da transexualidade, um dos grandes medos de parte da população
transmasculina brasileira em geral diz respeito justamente à perda de acesso gratuito a esse
hormônio.
Com relação aos aspectos positivos, especificamente no acesso à rede básica de saúde
em nosso país destacam-se: um maior acolhimento, no sentido de que muitos dos/das
profissionais considerados necessários/necessárias ou desejados/desejadas no
acompanhamento desse processo de transição podem ser mais facilmente acessados nas
unidades da rede básica, como as clínicas da família, por exemplo; a não necessidade de haver
vagas em contraposição aos programas, onde muitos as delimitam16. Há de se registrar a
possível diminuição de gastos e de tempo por parte do estado e dos próprios usuários/usuárias
que não moram próximos a nenhum desses quatro centros transexualizadores17.
Por fim, com relação aos aspectos positivos, vale ainda mencionar que diversos
homens trans têm acessado as unidades básicas de saúde de seus bairros/municípios para
terem a testosterona aplicada de maneira segura e gratuita. Este procedimento precisa ser mais
amplamente divulgado, tanto dentro das próprias redes de cuidado trans, quanto na rede de
cuidado dos/das profissionais que trabalham direta ou indiretamente com esta população.
Tendo agora já pontuado esses aspectos específicos sobre o cuidado em saúde da
população transmasculina, tecerei algumas últimas reflexões acerca das comunidades online
de identidades, como esta por mim investigada e sobre a importância de pesquisas que
trabalhem com as temáticas das transmasculinidades ou das transexualidades, serem
produzidas também e principalmente, pelos próprios pesquisadores/pesquisadoras trans.

15
Além da Constituição, a Lei do SUS estabelece que a atenção à saúde deve ser integral, ou seja, deve assegurar
que todo cidadão tem direito de obter, gratuitamente, os medicamentos que necessita. Até porque os cidadãos já
pagaram antes por eles, por meio dos impostos. Portanto, as unidades da rede pública de saúde devem,
obrigatoriamente, fornecer aos pacientes os medicamentos receitados. Embora a Nebido seja considerada o
melhor medicamento, seu custo é muito alto. Todavia, existem outras testosteronas disponíveis no mercado e
elas poderiam perfeitamente ser distribuídas. Enquanto a transexualidade for patologizada, e parte do tratamento
consistir da hormonioterapia, este medicamento precisa ser disponibilizado para todos os usuários trans que a
desejarem.
16
No centro de referência transexualizador que funciona no Hospital Universitário Pedro Ernesto no RJ, por
exemplo, novas vagas não foram disponibilizadas desde o final do ano de 2011.
17
Ainda que o estado garanta o acesso a esses deslocamentos, através do mais diversos encaminhamentos,
muitas vezes a verba que é disponibilizada não cobre todos os custos que o usuário vem a ter ao deslocar-se.
(Tratamento fora do domicílio – artigos 197 e 198 da Constituição Federal de 1988; Lei Orgânica da Saúde nº
8.080, de 19 de setembro de 1990, disciplinada pela Portaria Federal nº 055, de 24 de fevereiro de 1999 da
Secretaria de Assistência à Saúde/Ministério da Saúde).
103

Muitos desses sujeitos que foram por mim analisados e escutados anseiam nos contar
estórias e muito têm a nos ensinar. A micropolítica enunciada por essas vozes “subalternas”,
muito pouco escutadas até bem pouco tempo atrás, além de muito potente, traz a público
questões atuais sobre gênero e sexualidade e contribuem para um aprendizado coletivo sobre
essas temáticas, esses sujeitos, suas vivências e suas demandas, contribuindo não só para com
as redes de atenção à saúde, mas com as diversas outras redes existentes, como por exemplo, a
da educação. O preconceito e discriminação podem prevalecer ou acontecer, exatamente
porque não há conhecimento prévio. Quando não se conhece, se tem medo, se rejeita algo ou
alguém. Os diários virtuais produzidos e compartilhados publicamente por essas pessoas, são
uma maneira simpática e generosa de apresentar ao mundo outros modos de vida. Vidas essas
dignas de serem vividas, não-fascistas, não tolhidas, desprezadas(zíveis), marginalizadas ou
objetificadas.
Os estudos trans18, principalmente aqueles realizados exclusivamente com o
protagonismo das pessoas trans, começam a despontar no Brasil. Artigos e pesquisas como
os/as que foram realizadas por André Guerreiro, Guilherme Almeida, Leonardo Peçanha,
Marina Reidel e agora a minha, por exemplo, nos apontam talvez que haja uma emergência
desse lugar de fala não nos ser mais retirado. Ele pode ser compartilhado, mas não mais
conduzido por pessoas cisgêneras.
Em um país como o Brasil, campeão em homicídios de pessoas trans, e, lugar este
onde essa população ainda vive e sente na própria pele os efeitos da exclusão e da opressão
em todas as instituições, a inserção e a visibilidade de pesquisas e pesquisadores trans na
academia brasileira são não somente importantes por se tratarem de questões de interesse
particular deste segmento, mas também por se tratarem de trabalhos de representatividade e
inclusão.

18
Os estudos trans emergiram, como um campo interdisciplinar, no início dos anos noventa, nos Estados
Unidos. Todavia, de acordo com a teórica trans norte-americana Susan Striker (2014), os estudos trans não se
organizaram primeiramente em torno da sexualidade. Questões como gênero, estudos tecnológicos, diferenças
corporais, cuidado em saúde e diversas outras temáticas, que nunca foram centrais aos estudos queer, são
fundamentais para estes outros estudos.
104

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111

GLOSSÁRIO

BDSM – sigla que descreve diversas práticas ou jogos sexuais como o Sadismo e o
Masoquismo

Butch – lésbica masculinizada ou também uma pessoa transmasculina

CEDS - Coordenadoria Especial da Diversidade Sexual

CID – Código de Doenças Internacional

Cisgênera – uma pessoa que se sente confortável com o seu sexo/gênero designado ao nascer.
Politicamente mantém um status de privilégio em detrimento das pessoas não-cis, dentro da
cis norma.

CIStema ou cisnorma (sistema) – O prefixo é destacado para chamar a atenção quanto a


inserção e dominação de pessoas cisgêneras em nossa sociedade. As pessoas cis detém o
poder de decisão sobre as pessoas não-cis dentro de vários âmbitos: Médico, Político,
Jurídico, Financeiro etc.

DSM – Mental Disorder desease – Distúrbio ou doença mental

FTM – female to male – de fêmea para macho

Homofobia, lesbofobia, bifobia, travestifobia e transfobia – Ódio, preconceito ou


intolerância à: gays, lésbicas, bissexuais, travestis, transexuais e trangêneros (pessoas não
binárias, pessoas transmasculinas, e outras)

Mamoplastia masculinizadora – cirurgia de reconstrução peitoral, realizada em pessoas


designadas fêmeas ao nascimento. Este procedimento dá contornos masculinos ao peitoral.

MTF – male to female – de macho para fêmea

Não-binária – pessoa que se vê/está/vive fora do binarismo de gênero. Não possui uma
identidade fixa, sua identidade podem ser fluída e múltipla.

Queer/genderqueer – Originalmente um termo pejorativo para as pessoas gays, muitos


indivíduos LGBT fizeram um reapropriação e positivamente o utilizam para identificar não
heterossexuais e/ou pessoas que transcendem/mutilam o gênero. Algumas pessoas ainda se
sentem incomodadas com essa etiqueta, mas muitos/muitas jovens LGBTs fazem uso político
dela visto que ela reflete a forma como entendem/vêem questões de gênero e sexualidade.

SMS – Secretaria Municipal de Saúde

Trans – Termo amplo usado para descrever diversas pessoas cujas identidades de gênero e
expressões, não correspondem à cisnorma.
112

Transexual – Uma pessoa cuja identidade de gênero difere das expectativas culturais que a
associam ao ‘’sexo biológico designado ao nascimento’’. Alguns, mas nem todos/todas os/as
transexuais desejam alterar seus corpos ou ‘’conformarem/confirmarem’’ suas identidades de
gênero através de cirurgias de redesignação sexual ou de reposição hormonal. Muitas pessoas
transexuais referem a si próprias como transgêneros.

Transgênero – comumente usado como um termo guarda-chuva que abrange mais


amplamente aqueles/aquelas que transgridem as normas sociais de gênero.

Transmasculinas/transmasculinidades – são ou incluem pessoas que têm diferentes


construções de masculinidades.

Videoblogues - diários virtuais cujos conteúdos principais consistem de vídeos postados em


um ou mais portais de compartilhamento gratuito.

WPATH – Associação Mundial Profissional de Saúde Trans

YouTube – portal de compartilhamento gratuito de vídeos


113

ANEXOS

ANEXO 1 - Transcrição da entrevista com Jackson Tyller

São Paulo, dezembro de 2014

(Bê) 1. Como foi o processo de hormonização pra você? Em um de seus vídeos, você
afirma que a testosterona é o seu passaporte para a felicidade. “Eu agora não sou mais
um ser estranho para a sociedade”. Em menos de um ano você passou a ser ouvido e
visto como o Jackson e sua auto-confiança nitidamente aumentou. Na sua opinião, a
felicidade está ligada a auto confiança?

(Tyller) O processo de hormonização, foi como seu estivesse nascido de novo com aquela
primeira injeção...foi como se dali por diante Deus tivesse me dado o direito de viver e andar
pelo mundo dele sem medos. Sim... sempre digo que a testosterona é o passaporte da
felicidade, no meu ponto de vista, conhecer o que a testosterona pode proporcionar pra mim,
foi como se eu tivesse ganhado uma passagem pra felicidade, para o fim dos medos, para a
liberdade de andar na rua sem medo de alguém te constrangem. Minha auto confiança
aumentou sim e muito...e isso foi por conta da testosterona...ela dia após dias...foi me
moldando fisicamente e me deixando como o que eu sempre quis...um homem. Eu era um
cara tímido retraído...mal falava com as pessoas. Hoje sou um homem que conversa...que não
tem medo de fazer amigos. Um fato importante, a testosterona não mudou só meu corpo e
meu rosto... ele mudou meu coração... de um coração triste... pra um coração feliz...com
vontade de viver e não de morrer.

(Bê) 2. “Não ter mais que se esconder é muito poderoso.” Você concorda com essa
afirmativa? Por que?

(Tyller) Concordo. Porque não ter mais que se esconder, a nossa vida se torna melhor. Vamos
nos dar bem com a família, vamos trabalhar melhor, não ter que se esconder no trabalho é
satisfatório, produzimos mas e o ambiente fica mas confortável. Não se esconder para os
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amigos... é aliviante, poder ser você mesmo com os amigos.. porque você vai saber que
aqueles que estão com você, que estão ao seu redor são de fato seus amigos. E por ai
encontrar uma pessoa pra ficar ao seu lado... uma namorada(o).. alguém que te ame pelo que
você é.

(Bê) 3. Em um outro vídeo seu você nos conta que em menos de um mês de espera você
conseguiu assistência em saúde com três profissionais de saúde, de especialidade
distintas através do SUS de sua cidade, você pode falar sobre essa experiência? Como foi
tratado, você se sentiu cuidado? Pra você o que é ser cuidado?

(Tyller) Isso mesmo, me mudei para o interior onde vive a minha família de sangue. Para eles
acompanharem as minhas mudanças. E lá por ser uma cidade do interior de SP. O SUS é
muito bom...o que precisei mostrar pra eles, é que pessoas como eu existe e precisa ser
tratadas com acompanhamento, saúde e respeito. Consegui.. Endocrinologista, Psicólogo e
psiquiatra pelo SUS. Posso disser que conseguir os profissionais foi fácil... difícil foi fazer
alguns deles entender que eu existia e tinha direitos. O primeiro que consegui foi o
endocrinologista, um médico que só avia por alto ouvido falar sobre os trans... mas se propôs
a aprender para me ajudar. Ele não me receitava hormônio. Mas ficamos combinados que eu
tomaria o hormônio indicado certinho... e faria exames a cada 3 meses, e ele era rigoroso com
os exames, a cada 3 meses eu fazia e estava no consultório dele. A cada vez que eu voltava
ele tinha aprendido mais um pouco sobre o assunto... Ah, ele me encaminhou para o HC de
São Paulo tbm... mas fiquei apenas 1 ano e 3 meses em tratamento no interior e o
encaminhamento de SP nunca chegou pra mim. Até que eu resolvi mudar para SP..ele me deu
todo apoio, sempre foi respeitoso em me tratar como o Jackson. Logo em seguida consegui
consulta com o psiquiatra, no ambulatório da cidade que eu morava, pacientes com problemas
mentais (pois é assim que na época ele nos tratava) tinha que passar pelo psiquiatra primeiro.
Era um psiquiatra recém-formado, com sede em conhecimento ele me ajudou muito...
procurou entender...e me fez enxergar muitas coisas. Às vezes achamos que é bobagem passar
por um psiquiatra, mas não achei. Bom eu por conta de querer logo tomar a T, estava agitado,
não dormia quase, então ele me passou uma medicação pra tomar no período de um ano (para
não viciar ) foi muito bom.. só não foi confortável sair do remédio.. mas consegui. Bom o
psiquiatra me ajudou muito foi gentil, se preocupava com tudo...desde com o relacionamento
com a minha mãe que era meio ruim desde com o relacionamento com a minha namorada que
era e é solido como rocha. Ele até mesmo pediu pra falar com elas pra saber como eu estava
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indo com o tratamento. Bom e logo em seguida consegui a psicóloga... bom... aí não foi bem
fácil... ela era uma senhora de idade...e teimava que o que eu sentia era passageiro. Era difícil
fazer ela entender...eu cheguei a perder a linha com ela e sair da sala dela... eu não me sentia
cuidado por ela. Mas o psiquiatra pedia pra eu ter paciência... e assim fui tentando. Ser
cuidado pra mim, é ser respeitado pela o que sou, respeitar o que sinto e ser respeitado pelas
mudanças e cirurgias que quero. E isso eu tive do Endocrinologista e do psiquiatra. Quando
resolvi me mudar pra SP capital...me cadastrei no CRT e lá fui muito e estou sendo muito
respeitado tbm. O único problema é que lá atende muitos trans, e por isso a demora das
consultas.

(Bê) 4. O endocrinologista de sua cidade se comprometeu a “cuidar” de vc. Esse cuidado


se resumiu a olhar seus exames de sangue de 3 em 3 meses, mas não incluía o
comprometimento em lhe receitar a testosterona. O que ele alegou?

(Tyller) Isso, ele cuidou de mim ..olhando os exames de sangue e sempre me dando outros
exames como, eletrocardiograma, controle de pressão e ultrassom dos rins, porque meu
coração por parte de família não tende a ser tão forte, e tenho pressão alta, então ele também
me orientou na alimentação para não ter que tomar remédio pra hipertenso. Os rins porque já
tive 3 cristais nos ris. Em questão a exames e preocupação com que a T ele sempre teve. Até
mesmo quando perguntei sobre bloqueadores de estrogênio ele disse que não se seria bom pra
mim, pelos efeitos colaterais que poderia dar, já que tenho hipertensão enxaqueca. Mas me
deu o nome do medicamento pra eu pesquisar e ver os efeitos...se caso eu quisesse ele me
receitaria. Mas achei melhor não. Agora o fato dele não me receitar a T. Ele dizia que ele não
podia receita uma droga tão seria, sem ele ter conhecimento completo sobre isso. Então eu só
tinha que entender, ele era o único endócrino do SUS e pela limitação de me passa a
receita...ele em todo os outros pontos me tratava muito bem.

(Bê) 5. Como você soube que era um direito seu, ter o seu nome social respeitado e
ainda, que você poderia poder ter um cartão SUS com o seu nome impresso? Como se
deu esse processo e como esse empoderamento foi fundamental no seu processo de
transição dentro do SUS de sua cidade e para outras pessoas trans* de nosso país que
não moram próximas a nenhum centro de referência transexualizador?
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(Tyller) Soube pelos artigos que o João Nery costuma postar nos grupos. Então imprimi tudo
e fui atrás....no caso usar nome social no cartão SUS, você adquire o cartão, no posto perto da
sua casa, fui lá uma moça me atendeu...não entendeu nada... mas mostrei os papeis e disse que
era direito meu...ela meio que já estava me tratando mal sabe, mas uma outra moça ouviu e
veio falar comigo, me chamou dentro da sala, e conversamos e expliquei tudo, nisso ela foi
chamar um senhor, devia ser o chefe do setor, ele tentava entender mas a falta de
conhecimento dele atrapalhava... aí tive que ser mas durão, disse que então ligaria para meu
advogado, porque estava logo ali a baixo da lei, recusado nosso direito, podemos denunciar.
Me levantei e ele me chamou e disse que ia fazer umas ligações... ligou pra varias pessoas, até
que ligou para uma cidade maior vizinha. Lá orientaram ele com fazer o meu cartão... nisso
tudo fiquei umas 2h lá... mas sai com o meu cartão em mãos. Bom agora pra mim seria mais
fácil ir nas consultas e exames, porque com o cartão SUS, eu pude mudar o cartão do posto, e
do AME onde me consultava... e sempre era horrível quando me chamavam pelo nome de
RG eu já chegava na consulta e quando iam medir minha pressão já estava alta de nervoso.
Depois de mudado... nossa era muito orgulho quando me chamavam pelo nome social. E isso
abriu portas pra muitos outros trans mudar também, foi muita alegria receber várias
mensagens dizendo que também conseguiram fazer o cartão SUS depois de visto o meu vídeo.
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ANEXO 2 - Videologues de Jackson Tyller

Atualizando meu procedimento pelo SUS


Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=y2zGXsfovEU>
postado em: 12 mai de 2013

As pessoas lá me respeitam pra caramba, me chamam só pelo meu nome social. Eu achei
muito bacana. Segundo o dia do meu retorno no endocrinologista, tive um problema porque o
meu cartão SUS tá com meu nome social, então eu pedi que me chamassem pelo meu nome
social, mas teve uma controversa lá. Não quiseram. Aí eu falei que eu tinha os meus direitos
pra isso, que eu podia né, que eles poderiam, tem no sistema como mudar, mas eles não
quiseram.

Até então como a moça lá olhou, olhou, olhou e me chamou. Aí me chamou de novo e
resolveu toda a pendenga que tava lá, que até uma mulher teve problemas lá porque ela gritou
bem alto meu nome e a mulher lá do lado tomou o cartão dela e me chamou pelo meu nome
social e me pediu desculpas. E essa outra mulher simplesmente falou assim: “Por hoje já deu,
já levei minha bronca do dia”. E as pessoas ali ficam muito P da vida com ela, porque ela me
desrespeitou, chamando eu bem alto, com meu nome de registro. E foi tudo ok.

Então, nesse dia eu consegui, até guardei Ó, o meu crachá, que eu consegui já com meu nome
social. Então, quando eu for no AME, da minha cidade ou em qualquer outro AME, vai sair o
meu nome social como tô adentrando naquele local, como se entra no hospital quando você
ganha o crachazinho que cola. Então lá saí com meu nome social. Quase nem quis tirar isso
do peito, já saí assim todo, todo. Né? E o meu cartão do Sus, do AME também, com o meu
nome social eles atualizaram, né? E o meu prontuário, deixa eu ver aqui. Aqui não tá nos
meus exames não tá, mas na ficha lá do médico eles já colocam o meu nome social. Dos
encaminhamentos. Dos pedidos de exame já com meu nome social. Então eu achei isso muito
bacana, né?

Ë uma cidade pequena, as pessoas tem medo de fazer isso em cidade pequena porque, como
eu, eu não vi ninguém aqui. Não conheço ninguém desta cidade aqui. Então, eu estou
percebendo que eu estou revolucionando todo esse atendimento. Porque se você não mostrar o
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que você precisa, eles não vão saber porque chegam as coisas pra eles, eles vão ter preguiça
de olhar. Vai saber, isso não existe mesmo. Então não vai tá nem aí.

Então eu acho que você tem que ser a primeira pessoa a mostrar pra eles que você existe. E é
tá aqui. Eu mostrei pra eles que eu existo, consegui os meus direitos, tá aqui. Não é porque a
cidade é pequena que você não vai conseguir. Tentar não custa, poxa. Se você não conseguir,
você vai se levantar e vai tentar de novo. Só não desistir, certo?

E essa semana, quando eu precisei pegar os meus remédios (não entendi) e pra ansiedade,
cheguei na farmácia, no ambulatório, apresentei meu cartão do Sus, que é como pega o
remédio. A moça olhou assim: “Esse cartão não existe. Não poderiam mudar o seu nome”.
Simplesmente falou isso pra mim. Falei NÃO! Aí ela olhou no sistema e viu meu nome
social. “Não pode mudar, não poderia ter mudado esse nome pra você”. Falei pode sim
senhora, é lei, é meus direitos. Aí ela: “mas você é quem afinal, você é oque?”. Nossa,
levantou um cara e só falou assim: “Toma cuidado com o que você fala que isso é justa
causa.” A mulher ficou papel, cor de papel de tão nervosa. Aí o cara me pediu desculpas e eu
simplesmente falei assim pra ela: senhora, se a senhora estiver aqui na sexta-feira que vem, eu
vou trazer as leis bonitinho pra senhora conseguir entender o que eu sou, tudo bem? Aí a
senhora vai ficar mais informada, pra se acontecer mais um caso de alguém aparecer aqui, a
senhora não fazer esse show todo. Ela ficou super sem graça. O cara me pediu desculpas. Eu
peguei o meu remédio. E a moça falou assim: “Pode assinar o seu nome social”. Fui embora.

Sabe gente, acontecem coisas ruins, mas se a gente primeira, às vezes, não passar por um
constrangimento, à próxima vez a gente não vai ter o tratamento que a gente merece.
Infelizmente é assim, mas a cada passo, pelo menos que seja devagar, a gente tá tendo nossos
direitos, certo?

Então você que tá no interior, que tem medo de correr atrás de todas essas coisas, não tenha
não. Vai atrás, sabe. Pelo Sus é demorado? É, mas é melhor que você ficar tomando por
conta, sem um acompanhamento médico, né? Demora, mas uma hora você consegue. Então
tenta, não desiste não. Pode ser uma cidade de duas mil habitantes, não importa. A internet tá
lá vai lá, imprime tudo bonitinho lá e mostra Ó, tá aqui. Meus direitos. Mas eu procuro não
pensar tanto nisso. Minha psicóloga falou que eu penso muito de lei que eu penso muito em
direitos, mas é isso, eu sou assim.
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Mas galera, é isso, qualquer dúvida pergunta aqui embaixo que eu vou estar respondendo. E
se quiserem me adicionar pra eu tá tirando algumas dúvidas, informações. Eu não sou nenhum
especialista, não sou nenhuma base de conhecimento. Eu só tô passando pra vocês o que eu tô
vivendo. Beleza? Qualquer coisa eu tô aqui. Até o próximo vídeo e até mais pessoal.

Como conseguir endócrino pelo SUS


Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=F_7O-H4ENtM>
Postado em: 27 dez 2012

E aí, galera, tudo bem? Hoje eu ô aqui pra compartilhar um pouquinho de informações com
vocês eu vou tá falando como eu consegui a consulta com o endocrinologista pelo SUS. Pode
parecer um bicho de sete cabeças, mas é muito simples de conseguir. Aí, vou tá explicando
como eu consegui.

É, primeira parte é você ir num posto de saúde mais próximo da sua residência. Isso tem em
qualquer bairro, qualquer cidade, não tem erro, é só você ir. Lá você vai tá passando com um
clínico geral e na hora da consulta lá, que na hora que você faz, você vai tá explicando a sua
situação. Tipo, independente dele tá entendendo ou não o seu caso ou ser especialista ou não,
você vai pedir o encaminhamento pro endocrinologista.

Aí, tá, vem a parte da espera. No meu caso não demorou não. Demorou tipo nem um mês,
mas eu fiquei um pouco com medo de não ter um acompanhamento porque, sendo pelo Sus e
pelas coisas que eu já li e informações que eu tive, fica um pouco difícil do endócrino, pelo
Sus, ter coragem de acompanhar a gente, acompanhar não, no caso passar O, (assim mesmo,
ele não diz o que), quando a gente não tá tomando. Então eu acabei comprando por conta
própria e acabei tomando a primeira dose por conta própria. Tomei com consciência porque,
tipo, né, eu tava me alimentando bem e a dois meses atrás eu fiz um exame geral, tipo sangue,
ultrassom de rim, eletro de coração. Então tava tudo ok, então eu resolvi tomar que eu não
aguentava mais ficar esperando isso. E eu achei que , até, tipo, ia demorar muito a data dessa
consulta porque ainda não tinha data. Eu só fico na espera, né? Aí, resolvi tomar. Não passou
uma semana e já me chamaram pra consulta. Tipo um mês depois que eu pedi o
encaminhamento, eles já me chamaram. Eu achei que não foi tão demorado. Por conta de ser
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o Sus, né? Tudo bem que deve ter alguns lugares que demora, mas aqui foi rápido. Acho que
não custa tentar pelo Sus, né? Então eu tomei por conta e no caso, no dia da consulta, aí, fui
lá.

Aí, na hora eu falei pra ele que eu já tava tomando, tinha tomado a minha primeira dose
porque eu tava com medo dele não me passar, mas eu fiquei sabendo que se a gente tá
tomando geralmente eles acompanham, né, pelo menos eu achei até, que quando falei isso, ele
ficaria mó zangado comigo, mas, tipo, não ficou não. Ele só perguntou se eu tava me sentindo
bem ou se tinha sentido algum efeito colateral. Aí eu disse pra ele que não, pelo contrário, eu
tava sentindo mó disposição, que eu não tava me sentindo mal não. Até dores de cabeça que
eu tinha mais dores de cabeça, eu achei que ia ter mais ainda por conta da T, porque a galera
diz que dá dor de cabeça. As minhas dores de cabeça até diminuíram, eu acho que é de tanta
felicidade de tá tomando a T, sei lá.

Aí tá. Aí ele conversou um pouco comigo, perguntou se era isso mesmo. Aí perguntou que eu
tava bem até, né? Aí eu falei pra ele que era isso mesmo que eu queria que,... Aí ele falou que
não entendia muito do assunto, mas por tá me vendo ali, tipo mó animado, mó disposição, ele
iria tá me encaminhando pra um ligar que tem endócrinos que trata sobre isso, que já tem caso
sobre isso.

Aí ele me mandou encaminhamento pra cidade vizinha. Aí ele me disse que esse
encaminhamento para a cidade vizinha que, vou passar pelo endócrino que já tem é, como que
eu digo, (suspiro. oum) fugiu da cabeça, deu branco, ufh, am, que já tem que já entende do
assunto, né?

Aí ele me falou que ia me passar pra lá pra também já me mandar o encaminhamento pra São
Paulo, né? No caso, se a sua cidade for pequena e você achar, “poxa, aqui não vai ter.” ou
então “o pessoal aqui é muito careta, não entende nada”, fica tranquilo, que pelo Sus, se na
sua cidade não tem e na cidade vizinha tem, o Sus vai pagar o seu transporte. Foi isso que ele
disse pra mim. E realmente. No caso agora eu to esperando, né? To esperando a data da
consulta pra cidade vizinha. Acho que vale a pena esperar, sei lá, acho que vale tentar. Ainda
mais por que eu to tomando a T e to bem animado, sei lá, e também, no caso, ele já me passou
alguns exames pra ver minha taxa hormonal. Ele foi super de boa, assim, tipo, não
simplesmente falou, “ah, vou te encaminhar pra outro médico e não quero nem saber de
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você”, não. Ele falou assim que queria exames, pra ver se eu tava bem e me acompanhar até
eu ser atendido na outra cidade. Então, por mais que ele não entendesse do assunto, ele ia tá
me acompanhando pra ver o meu estado de saúde, alguns efeitos que tava dando. E foi isso,
galera, tipo, eu achei que ... seria tipo, mó uá, tipo bicho de sete cabeças, o cara vai tipo, me
crucificar porque eu to tomando hormônio, ou porque não to, ou porque quero, mas não, tipo
vai de médico em médico, cada pessoa tem uma cabeça, médico não se rotula, tipo todos
iguais.

Acho que vai dar sorte de a gente pegar um legal, mas se a gente não tentar a gente não vai
conseguir. Então pra quem não tem muita condição, acho legal tá tentando pelo Sus também,
né? Mas não aconselho ninguém tomar assim, por conta própria, não, porque vai acontecer
algum efeito tipo não tão legal. Eu tive sorte de logo na primeira dose eu já consegui
acompanhamento, mas sei lá, eu vejo que tem bastante gente que toma a bastante tempo, não
tem acompanhamento e tá super bem, né, mas eu acho que vai de casos em casos. Tem que,
não pode só, a gente pode, como que eu digo? Eu posso tá bem, mas o organismo de outras
pessoas não são iguais, entendeu? Então acho que a gente tem que tomar muito cuidado
porque é uma mudança muito radical no nosso corpo, porque a gente, não só fora, mas dentro
dos nossos órgãos, do nosso organismo é diferente, sei lá, eu penso assim. Tem que tomar
cuidado, mas assim. Não critico ninguém que tá tomando por conta porque eu comecei assim
também.

Eu acho que a nossa vontade é maior, né? E é isso galera. Semana que vem vou ver se faço
alguma coisa, vamos ver se eu tenho alguma mudança. Por enquanto eu to com treze dias de T
e alguma coisa que eu senti que mudou é minha voz, tá estranha, pesada, minha garganta tá
um pouco dolorida. Pode ser efeito da T, acredito que seja. E é isso galera, abraço pra vocês
aí, até a próxima, valeu.

Nome social no cartão SUS


Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=JQniuicN3iY>
postado em: 28 fev 2013

“E aí pessoal, tudo bem? É, hoje eu vou tá falando sobre os direitos do cartão do Sus e
eu demorei um pouco pra correr atrás, mas consegui. Não foi fácil. É, eu fui num lugar da
cidade que faz o cartão Sus e lá eu perguntei, eu pedi pra tá falando com a pessoa mais
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responsável pelo lugar e fui falar com a pessoa. Era um senhor. De início ele não queria não,
falava pra mim que não tinha como fazer isso.

E, mostrei pra ele meus direitos, as leis que saíram, mostrei todos os artigos que eu
tinha em mãos, mas mesmo assim foi difícil ele acreditar que eu poderia ter meu nome social
no cartão SUS. Am, mais ou menos a gente ficou discutindo umas duas horas, quase isso, mas
foi bastante tempo.

É, apenas depois, eu fui muito educado, mas depois eu falei pra ele que eu teria que
denunciar o lugar por falta de informação, foi aí que ele começou a tomar atitude. Aí ele
começou a fazer ligações pra cidade vizinha, pro ministro do não sei o que lá e conseguiu, é,
no sistema, encontrar onde coloca meu nome no meu cartão SUS. Então agora eu tenho o meu
nome social no cartão SUS e toda vez que eu for passar num médico eles vão, eles vão ver
meu nome social e vão tá falando pra tá me chamando pelo meu nome social, vai ficar mais
fácil a identificação.

Aí no caso ficou meu nome de registro acima e meu nome social logo abaixo no meu
novo cartão SUS. Tá vendo? E é isso. Eu acho que você deve correr atrás sim porque, ainda
mais a gente que procura passar bastante em médico, e ainda mais quem tá fazendo
tratamento pelo SUS, usa muito. EU tô indo muito em posto, em AME aqui, no caso e
dependendo de São Paulo é UPA, vai variar.

Então eu acho que você deve correr atrás. E os documentos que eu mostrei pra ele eu
vou colocar aqui no link abaixo pra você poder tá imprimindo e indo atrás também do seu
cartão SUS, que eu acho que é mais uma vitória pra gente. Mais uma conquista. Valeu aí
pessoal.

Como eu consegui psiquiatra/psicólogo pelo SUS


Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=qG756hISsBc>
Postado em: 10 jan 2013

E aí, pessoal, tudo bem? To aqui mais uma vez postando um vídeo pra vocês, pra dar mais um
pouco de informação de como tá sendo meu processo de transição. Ah, eu vou falar hoje de
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como eu consegui meu psicólogo e psiquiatra pelo SUS. Muita gente paga por isso, mas eu
achei melhor primeiro tentar pelo SUS. E consegui.

É aquele mesmo esquema, você vai num posto próximo da sua residência, você passa com um
clínico geral, pede um encaminhamento pro psicólogo. Na data marcada, você vai no
ambulatório, mas aí que tá, eles não vão te passar direto pro psicólogo. Eles vão tá te
passando pro psiquiatra primeiro, pra ver seu estado mental e tá passando talvez uma
medicação, caso você precise. Tipo depressão, ansiedade, tal. No caso, o psiquiatra passou
remédio pra ansiedade. Não tem como. Quando a gente tá nesse processo de transição, a gente
acaba ficando muito ansioso. Não tem como fugir disso. Aí foi de boa. Am, aí depois de um
tempo, foi esse começo desse ano. Ah, eu fui no psiqui, no psicólogo e passei, passei na
triagem... Aí agora eles vão me chamar pra ter mais um, mais uma sessão. Aí eu to esperando,
mas tá caminhando. Eu acho melhor você tentar pelo SUS do que você ficar parado,
esperando juntar uma grana pra pagar um particular. Eu acho que não custa nada você
primeiro tentar pelo SUS porque tem alguns lugares que o SUS tá indo muito bem. Acredito
que o SUS tem alguns lugares que tão ruim, mas eu acho que a gente não custa tentar. Ficar
parado a gente não vai conseguir. Se a gente tentar é uma oportunidade de tá conseguindo.

Bom galera é isso. Desculpe a demora em tá postando o vídeo, é que esta semana que passou
foi festa e sei lá, foi muito corrido, foi uma semana de muito médico, sei lá. Foi muito difícil,
mas tô postando aqui. Vou tentar postar toda semana, tá bom? Ah, a semana que vem vou tá
fazendo um mês de T. E vou tá postando aqui um vídeo, na segunda –feira. Bom, é isso. Até
mais, pessoal. Galera, eu esqueci de dar uma informação pra vocês. Eu não sei se todos os
casos são desse jeito, mas o meu caso, quando eu fui atendido pela triagem, no psicólogo, é ,
ela me disse que é importante eu tá passando no psiquiatra também porque, com o tratamento
psicológico, é só o psicólogo que vai dar apenas uma carta dizendo que eu tenho
transexualismo, entende? Tipo, é só uma carta, não é um laudo. Então, ela vai dar esta carta
pra mim, que eu vou tá passando pelo psiquiatra e ele sim vai tá dando um laudo que eu tenho
transexualismo e tenho direito de tá fazendo as cirurgias. Eu resolvi postar isso porque achei
muito importante, no meu caso tá sendo assim e acredito que nos outros casos também porque
o psicólogo, ele não dá laudo, ele só dá uma carta dizendo o que você tem. Psiquiatra vai tá te
dando esse laudo. Beleza? Valeu aí mais uma vez galera. Até a próxima.
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ANEXO 3 - Videologue de Alex


Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=FfQI2b2JMRE>
Publicado em: 03 de jan de 2011.
Tradução minha

E aí pessoal, tudo bem? Eu só queria atualizá-los sobre coisas relacionadas à terapia que estão
acontecendo. Eu faço terapia há bastante tempo. Me pediram que fizesse terapia aos 14 ou 15
anos de idade. Foi aos 14, quando eu tomei uma superdosagem de tylenol como uma tentativa
de suicídio. Eles cortaram meu estômago e eu comecei a fazer terapia. Esta terapeuta é
incrível e nós somos amigos. Obviamente hoje não é mais uma relação terapêutica, mas de
amizade. Ela tem sido ótima e eu a amo. Eu quero visitá-la qualquer dia desses... ela se
mudou para o Arkansas. Eu quero visitá-la. Os filhos dela são meus amigos e ... foi uma
relação ótima. Eu vi muito sobre mim e ela me ajudou a me ver também.

Quando eu entrei na faculdade eu comecei a ver uma mulher chamada Esther e... o que eu
amava nela são as mesmas coisas que eu odeio. Porém, ela é incrivelmente inteligente e... nós
conversamos sobre o motivo pelo qual eu agi de uma forma não segura, sabe? Mas ela esteve
comigo em várias situações. Ela esteve comigo quando eu fui expulso das Forças Armadas e
eu era suicida.

Ela esteve comigo quando fui pego com um pouco de maconha em um parque nacional, eu
fiquei em liberdade condicional por um ano e por isso não passava nos testes de antecedentes
criminais mas eu tinha acabado de terminar a faculdade e por isso não conseguia arrumar um
novo emprego.

Eu era suicida nesta época também. Não tinha auto estima. Nenhuma. E aí eu comecei um
relacionamento, um relacionamento ruim com minha ex namorada que talvez me fez rejeitar
todas as meninas ao mesmo tempo, eu não sei. Mas... aquele relacionamento confirmou todos
os meus pensamentos. Todos os meus pensamentos internos que às vezes eram externos
porque eu tinha que dizê-los, porque eles eram intensos e eu precisava por para fora. Eu não
sou o bastante, eu sou um perdedor, e... suspiro Eu estou indo a lugar algum, minha vida é
patética, sabe? E aí eu fiz esse trabalho estúpido...
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Eu mudei para Cincinneti e eu vendi de porta a porta. Eu fui um vendedor de porta a porta. E
mudou a minha vida! Trabalho de vendedor de porta a porta. Jesus Cristo! Todos os dias,
todos os dias eu tinha que lembrar o que era bom em mim. E eu tinha que bater nessas portas
com confiança. Eu não estava vendendo um produto, eu estava vendendo confiança. Eu estava
me vendendo. E todos os dias eu ficava um pouco mais seguro com a minha própria
confiança. Cincinneti me deu a confiança que eu precisava para me mudar para a Coréia.

E a Coréia me permitiu “sair do armário.”. Está tudo conectado, sabe? Eu não teria “saído do
armário” se não fosse pela Coréia e eu tive que mudar muitas coisas antes de mudar para um
outro país. Então, eu trabalhei com a Esther enquanto eu estava na Coréia. Nós tivemos
sessões pelo telefone. Nós tivemos sessões pelo telefone enquanto eu estava em Cincinneti.
Eu lutei contra a depressão.

No inverno ela piorava. E mais de uma vez, foi considerada a hipótese de eu ir para uma
instituição de tratamento ou pelo menos ser internado por um curto período. Eu não sei quanto
tempo mas eu estava sem plano de saúde e não havia promessas de que isso fosse fazer as
coisas melhorarem. Eu tomei antidepressivos e só... Só... assisti.

Eu assisti outras pessoas crescendo, fazendo as coisas delas, fazendo algo com as vidas delas.
Mas eu só assisti aquilo. Eu não podia fazer aquilo. Mas cheguei em um momento em que eu
podia. Eu podia ter minhas próprias aventuras e minha própria forma de crescer. Eu sei agora
que eu relutava tanto em tentar conseguir um desses “empregos de adulto” porque eu não era
um adulto e não sabia o que fazer quando crescesse. Se fosse para eu crescer e me tornar uma
executiva, eu poderia simplesmente atirar em mim agora.

Porque esse não era eu. E eu não entendia que o que me impedia era a minha identidade. Eu
não podia crescer porque o que eu estava crescendo para ser era muito aprisionador, sabe? E
minha terapeuta me ajudou com tudo isso. Eu acho que eu não estaria aqui se não fosse pela
Esther, que me atendeu cobrando sessões baratas e falou comigo no meio da noite e “esteve
lá.”, realmente comigo e me amou. Teve consideração, compaixão e compreensão.

Ela era uma terapeuta incrível e daí eu me mudei para a Coréia e como eu falei antes, nós nos
falávamos pelo telefone e aquilo estava bom. E daí eu comecei a “sair do armário” como trans
e nós falávamos sobre isso e eu podia perceber que algo não ia bem, mas ela não falava a
126

respeito. Então, nós nos falamos por cerca de um ano, mas durante aquele ano eu aprendi que
ela acha que a transição médica é... não sei a palavra...só... auto-prejudicial ou prejudicial.

Ela acha que a cirurgia é uma mutilação do corpo e que hormônios, o risco de câncer ao tomá-
los, ela não ia me dar um laudo para eu tomar testosterona, ela não apóia. Então, eu precisava
ver um outro terapeuta para que eu conseguisse um laudo para tomar a testosterona. Daí eu
comecei a ver um terapeuta especializado em gênero, meio que “pelas costas dela”.

E eu achava que nós pudéssemos trabalhar nisso porque se a minha tia que... e eu já vinha
sendo atendido pela Esther há nove anos, não é um período curto de tempo. Eu sei que era
isso que ela estava sentindo enquanto eu estava na Coréia, mas eu não podia dizer: “Talvez a
gente devesse parar de trabalhar juntos” porque eu estava na Coréia, eu precisava de algum
apoio, mesmo não sendo o apoio que eu queria, eu ainda precisava dela.

Porque se eu tivesse uma crise ou ficasse deprimido e não conseguisse me mover, ela era
aquela pessoa que saberia da minha experiência com isto no passado e isto era muito
importante para mim, ter alguém que conhecia meu passado, enquanto tão longe... Então, eu
continuei trabalhando com ela, eu achava que se fosse minha tia com esta opinião, que eu não
deveria fazer a transição médica, ser trans é ok, está tudo bem mas você precisa manter seus
peitos, não tomará testosterona, e daí eu diria: “tia, eu te amo mas eu vou tomar hormônios e
vou fazer uma mastectomia. Sua opinião sobre o meu corpo não é mais válida do que a minha.
Mas você é minha tia, eu te amo e vamos jantar! Você sabe o que eu quero dizer?”. Eu não
vou simplesmente apagar minha tia ou alguém da minha família ou alguém que possa dividir
o mesmo sentimento que a minha terapeuta. Então eu pensei por um tempo que talvez eu
pudesse trabalhar com ela.

Sabendo disso, eu obtive muito dela, nós temos uma relação que não é baseada na transição,
então seria ótimo ainda conseguir tirar algo desta relação, mas o que aconteceu foi que... ela
diz coisas do tipo cirurgia é como mutilação e eu digo não, não é. E você não consegue ver o
quão confinador mamas podem ser quando você se identifica como homem. Como você não
pode ver isso? E eu tenho mamas grandes, não é como se eu pudesse escondê-las usando uma
faixa. Se eu tivesse mamas pequenas, talvez eu não estivesse tão a fim de operar, mas eu
estou. E então eu pensei que nós pudéssemos continuar, porque ela já me ajudou tanto...
como eu disse, eu não estaria aqui se não fosse por ela, mas na nossa ultima consulta
127

novamente ela falou que associava a cirurgia a uma mutilação do corpo e eu pensei, acho que
é isto, é o fim.

Isto me deixa tão triste, eu realmente gosto dela. Ela me irrita, sim mas... eu definitivamente
estou mais forte e muito mais capaz. Muitas coisas que eu gosto em mim hoje, eu sou capaz
de ver com a ajuda dela, foi ela quem me ajudou. Então é muito difícil me afastar desta
relação. A razão de eu me afastar é porque eu não sinto que eu possa falar sobre a minha
transição.

Não é mais terapêutico. Não tem como eu falar sobre a transição com ela sem ser julgado. Ela
acha que estou fazendo mal ao meu corpo, como já fiz no passado. E ela não está longe da
verdade. Eu tomei antidepressivos por anos, por sete anos e fui depressivo e suicida também.
Quando eu me assumi como trans, em 5 meses, foi no inverno, e no inverno costuma ser mais
difícil para mim, mas em cinco meses eu parei com os antidepressivos. Eu não estou
deprimido. E eu não preciso de antidepressivos por agora.

Talvez no futuro eu precise. Eu estou bem, não estou deprimido ou suicida. Sair do armário
me libertou tanto! Tanto ódio por mim mesmo que eu não sabia porque isto existia. Se eu
tivesse “saído do armário” em qualquer outra situação, teria sido devastador. Eu teria me
matado. Eu acho que se eu estivesse em Utah e não fazendo nada da minha vida e me
descobrisse trans, provavelmente me mataria.

Eu tinha que estar na Coréia. Tinha que estar lá para sair do armário e perceber que foi uma
benção eu poder entender isto sobre mim mesmo. E eu estou triste que eu esteja perdendo
realmente um bom suporte, sabe? E eu não vou dizer nada ruim sobre ela, nós temos opiniões
diferentes, mas ela totalmente pode ter a opinião dela. Estou apenas dizendo que nossa relação
não é mais terapêutica.

E eu queria que tivesse terminado de uma maneira mais orgânica, sabe? Em vez de “tire os
sapatos já que você não é capaz de calçá-los do jeito que eu quero”, sabe? Isto me deixa
triste. Eu realmente a amo.
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ANEXO 4 - Escutatória - Crônica de Rubem Alves


(O amor que acende a lua, 2003)

Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo
mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de
escutatória. Mas acho que ninguém vai se matricular. Escutar é complicado e sutil. Diz o
Alberto Caeiro que "não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso
também não ter filosofia nenhuma". Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre
como são as coisas. Aí a gente que não é cego abre os olhos. Diante de nós, fora da cabeça,
nos campos e matas, estão as árvores e as flores. Ver é colocar dentro da cabeça aquilo que
existe fora. O cego não vê porque as janelas dele estão fechadas. O que está fora não consegue
entrar. A gente não é cego. As árvores e as flores entram. Mas - coitadinhas delas - entram e
caem num mar de idéias. São misturadas nas palavras da filosofia que mora em nós. Perdem a
sua simplicidade de existir. Ficam outras coisas. Então, o que vemos não são as árvores e as
flores. Para se ver é preciso q que a cabeça esteja vazia. Faz muito tempo, nunca me esqueci.
Eu ia de ônibus. Atrás, duas mulheres conversavam. Uma delas contava para a amiga os seus
sofrimentos. (Contou-me uma amiga, nordestina, que o jogo que as mulheres do Nordeste
gostam de fazer quando conversam umas com as outras é comparar sofrimentos. Quanto
maior o sofrimento, mais bonitas são a mulher e a sua vida. Conversar é a arte de produzir-se
literariamente como mulher de sofrimentos. Acho que foi lá que a ópera foi inventada. A alma
é uma literatura. É nisso que se baseia a psicanálise. VoItando ao ônibus. Falavam de
sofrimentos. Uma delas contava do marido hospitalizado, dos médicos, dos exames
complicados, das injeções na veia - a enfermeira nunca acertava -, dos vômitos e das urinas.
Era um relato comovente de dor. Até que o relato chegou ao fim, esperando, evidentemente, o
aplauso, a admiração, uma palavra de acolhimento na alma da outra que, supostamente, ouvia.
Mas o que a sofredora ouviu foi o seguinte: "Mas isso não é nada". A segunda iniciou, então,
uma história de sofrimentos incomparavelmente mais terríveis e dignos de uma ópera que os
sofrimentos da primeira. Parafraseio o Alberto Caeiro: "Não é bastante ter ouvidos para se
ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma." Daí a dificuldade: a
gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que
ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de
descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer,
que é muito melhor. No fundo somos todos iguais às duas mulheres do ônibus. Certo estava
Lichtenberg - citado por Murilo Mendes: "Há quem não ouça até que lhe cortem as orelhas."
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Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil da nossa arrogância e


vaidade: no fundo, somos os mais bonitos. Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou
para os Estados Unidos, estimulado pela revolução de 64. Pastor protestante (não
"evangélico"), foi trabalhar num programa educacional da Igreja Presbiteriana USA, voItado
para minorias. Contou-me de sua experiência com os índios. As reuniões são estranhas.
Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. (Os pianistas, antes de
iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, como se estivessem orando.
Não rezando. Reza é falatório para não ouvir. Orando. Abrindo vazios de silêncio.
Expulsando todas as idéias estranhas. Também para se tocar piano é preciso não ter filosofia
nenhuma). Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala.
Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande
desrespeito. Pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que julgava essenciais.
Sendo dele, os pensamentos não são meus. São-me estranhos. Comida que é preciso digerir.
Digerir leva tempo. É preciso tempo para entender o que o outro falou. Se falo logo a seguir
são duas as possibilidades. Primeira: "Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não
ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que eu iria falar quando
você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado." Segunda: "Ouvi o que
você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa
velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou." Em ambos os casos
estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada. O longo silêncio quer dizer:
"Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou." E assim vai a reunião. Há
grupos religiosos cuja liturgia consiste de silêncio. Faz alguns anos passei uma semana num
mosteiro na Suíça, Grand Champs. Eu e algumas outras pessoas ali estávamos para, juntos,
escrever um livro. Era uma antiga fazenda. Velhas construções, não me esqueço da água no
chafariz onde as pombas vinham beber. Havia uma disciplina de silêncio, não total, mas de
uma fala mínima. O que me deu enorme prazer às refeições. Não tinha a obrigação de manter
uma conversa com meus vizinhos de mesa. Podia comer pensando na comida. Também para
comer é preciso não ter filosofia. Não ter obrigação de falar é uma felicidade. Mas logo fui
informado de que parte da disciplina do mosteiro era participar da liturgia três vezes por dia:
às 7 da manhã, ao meio-dia e às 6 da tarde. Estremeci de medo. Mas obedeci. O lugar sagrado
era um velho celeiro, todo de madeira, teto muito alto. Escuro. Haviam aberto buracos na
madeira, ali colocando vidros de várias cores. Era uma atmosfera de luz mortiça, iluminado
por algumas velas sobre o altar, uma mesa simples com um ícone oriental de Cristo. Uns
poucos bancos arranjados em "u" definiam um amplo espaço vazio, no centro, onde quem
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quisesse podia se assentar numa almofada, sobre um tapete. Cheguei alguns minutos antes da
hora marcada. Era um grande silêncio. Muito frio, nuvens escuras cobriam o céu e corriam,
levadas por um vento impetuoso que descia dos Alpes. A força do vento era tanta que o velho
celeiro torcia e rangia, como se fosse um navio de madeira num mar agitado. O vento batia
nas macieiras nuas do pomar e o barulho era como o de ondas que se quebram. Estranhei. Os
suíços são sempre pontuais. A liturgia não começava. E ninguém tomava providências. Todos
continuavam do mesmo jeito, sem nada fazer. Ninguém que se levantasse para dizer: "Meus
irmãos, vamos cantar o hino" Cinco minutos, dez, quinze. Só depois de vinte minutos é que
eu, estúpido, percebi que tudo já se iniciara vinte minutos antes. As pessoas estavam lá para se
alimentar de silêncio. E eu comecei a me alimentar de silêncio também. Não basta o silêncio
de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio
dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir. Fernando Pessoa
conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar
onde não há palavras. É música, melodia que não havia e que quando ouvida nos faz chorar.
A música acontece no silêncio. É preciso que todos os ruídos cessem. No silêncio, abrem-se
as portas de um mundo encantado que mora em nós - como no poema de Mallarmé, A
catedral submersa, que Debussy musicou. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar
- quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Me veio agora
a idéia de que, talvez, essa seja a essência da experiência religiosa quando ficamos mudos,
sem fala. Aí, 'livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que
não havia, que de tão linda nos faz chorar. Para mim Deus é isto: a beleza que se ouve no
silêncio. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é
quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.

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