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A vida é um show.

Celebridades e heróis no
espetáculo da mídia
Felipe Pena∗
Universidade Estácio de Sá
2002

Índice dão direito a entrar na intimidade dos atores,


formar alteridades e idealizar heróis, mas a
1 A vida é um show 1 platéia não está satisfeita e quer ela mesma
2 Bibliografia 9 encenar o espetáculo. E na esquizofrenia de
ser ao mesmo tempo personagem e espec-
tadora, ela tenta ler o letreiro em néon que
Resumo: O texto aborda a espetaculari- anuncia o título da obra: realidade.
zação da mídia e a apropriação do biográfico Para Neal Gabler, a tendência de con-
como pauta predominante. Para isso, pro- verter a realidade em encenação é justificá-
cura fazer uma distinção entre os conceitos vel, já que “a cultura produz quase todos
de herói e celebridade, defendendo a idéia os dias dados de fazer inveja a qualquer ro-
de que o segundo tomou o lugar do primeiro mancista.”1 Mas, atualmente, não se trata
no palco contemporâneo. Como recorte apenas de questionar se a ficção pode con-
teórico, os arquétipos da mitologia grega, tinuar competindo com a dramaticidade da
a mudança estrutural da esfera pública e vida real, nem de acreditar tanto na ilusão a
privada e a redefinição dos papéis sociais no ponto de tentar viver nela. Não se trata ape-
espetáculo da mídia. nas de olhar pelo buraco da fechadura, mas
de estar do outro lado da porta. Não se trata
Palavras-chave: mídia, biografia, teoria apenas de ver o filme, mas de ser o próprio
da comunicação, mitologia, reality show. filme. A vida é o veículo.
No ponto em que chegamos, a platéia quer
1 A vida é um show ver o espelho. Na novela da vida real, os
personagens somos nós, como conclui Ivana
No palco contemporâneo, o espetáculo em Bentes, ao analisar os reality shows “Big
cartaz é a vida. Os ingressos na bilheteria Brother” e “Casa dos Artistas”: “lá estão a
∗ empresária paulista, o artista plástico, a de-
Jornalista, doutor em Letras pela PUC/RJ, pro-
fessor de Telejornalismo e sub-Reitor da Universi-
1
dade Estácio de Sá Gabler, pág 12
2 Felipe Pena

signer, o cabeleireiro, o dançarino de axé, a por Maria Eugênia, uma boneca que cons-
modelo, a socialite, o rapper irado, os ma- truiu com pedaços de sucata e um cabideiro.
rombeiros com visual estilizado de menino Quando a produção do programa retirou a
de rua, cara de mau e gorro enterrado na ca- boneca da casa, Kleber chorou copiosamente
beça.”2 e pediu aos produtores para devolverem a
Mas o espelho carrega o melodrama. Ape- única “amiga” que fez em seu naufrágio pela
sar da aura de realidade, os personagens dos comunicação. Quarenta milhões de brasilei-
reality shows têm que interpretar papéis pré- ros assistiram a cena. Sessenta e oito por
definidos pela produção. Ou seja, eles não cento dos votantes deram a vitória a Bam-
são eles próprios, apenas interpretam a si bam, identificados não com a ignorância do
mesmos, o que é bem diferente. O mocinho, rapaz, mas com a humilhação que ele sofreu
a carente, o malvado, o ignorante, a sensual, ao longo de dois meses. Quantos desses vo-
o arrogante, a mal-educada, o inteligente, a tantes não sofreram humilhações análogas?
doente e outras tantas caracterizações carre- O conhecimento ou a cultura, assim como o
gam o enredo da trama, sustentando confli- dinheiro, podem ser usados para subjugar o
tos e gerando identificações por parte do pú- próximo. E não há dúvidas de que, no es-
blico. Identificações essas que podem seguir petáculo vida, a maioria dos atores está no
roteiros mimetizados da ficção: a vida imi- papel de subjugado.
tando a arte. Vamos ver dois exemplos. Mas para aqueles que defendem a idéia
No filme “O náufrago”, o principal pro- de que Kleber é um retrato do Brasil, há
blema do personagem interpretado por Tom o segundo exemplo, também inspirado em
Hanks não era a fome ou o frio, mas a soli- uma comparação com um filme protagoni-
dão. Para enfrentá-la, ele desenha dois olhos, zado por Tom Hanks: Forrest Gump. Sé é
um nariz e uma boca em uma bola de vôlei verdade que há identificação com a ignorân-
e a batiza com o nome de Sr. Wilson. Hu- cia caipira, a prosódia interiorana e o bizarro
manizada, a bola passa a ser a única compa- estereotipado, então este não é um fenômeno
nhia do personagem, mas ele a perde e en- brasileiro. Sua disseminação já ultrapassou
tra em desespero. Alguma semelhança com fronteiras e conquistou até os membros da
uma “estória da vida real” ? academia de Hollywood, justamente a maior
A casa do Big Brother Brasil I sempre foi fábrica de ilusões do mundo. Ou será de re-
um oceano para Kleber, o grande vencedor alidades?
do programa. Mesmo acompanhado, ele es- A resposta está em Gabler: “vivemos no
tava só, isolado na própria incapacidade de mundo da pós-realidade.”3 Na encenação
se comunicar. Foi taxado de burro pelos ou- do real, o veículo vida gera novos episó-
tros condôminos, que não conseguiram dife- dios diariamente, fazendo com que as apli-
renciar burrice de ignorância. Sofreu com a cações que a mídia descobre para esses epi-
rejeição. Vagou pela casa. Foi quatro vezes sódios ultrapassem a própria dinâmica do
para o paredão. Sentiu que a pior solidão é palco. Revistas de fofocas, periódicos so-
a solidão da companhia. A não ser, é claro, bre famosos e programas de TV como “Ví-
2 3
Folha de São Paulo, caderno mais: 3/4/2002 Gabler, pág. 17

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deo Show” e “TV Fama” vivem da ence- das tradicionais formas de entretenimento.
nação e a repercutem infinitamente em no- Cada momento da biografia de um indivíduo
vas encenações. A mídia produz celebrida- é superdimensionado, transformado em ca-
des para poder realimentar-se delas a cada pítulo e consumido como um filme. Mas a
instante em um movimento cíclico e inin- valorização do biográfico é diretamente pro-
terrupto. Até os telejornais são pautados porcional à capacidade desse indivíduo em
pelo biográfico e acabam competindo com roubar a cena, ou seja, em tornar-se uma ce-
os filmes, novelas e outras formas de en- lebridade. Aliás, as celebridades tornaram-
tretenimento. São notícias do parque en- se o pólo de identificação do consumidor-
cantado, como se os redatores-chefes fos- ator-espectador do espetáculo contemporâ-
sem Lewis Carroll ou Monteiro Lobato. E neo. São elas que catalizam a atenção e pre-
mesmo quando há assassinatos ou graves enchem o imaginário coletivo. O que é muito
acidentes, o assunto principal é sempre a ce- diferente da identificação com os heróis, uma
lebridade ou o candidato ao estrelato, que, tradição da cultura ocidental, como alerta
inclusive, pode ser o próprio assassino ou um Ronaldo Helal, recorrendo às interpretações
outro delinqüente qualquer. de Joseph Campell e Edgar Morin para di-
ferenciar herói de celebridade: “o primeiro
“O julgamento do ex-astro do futebol vive para ‘redimir a sociedade de seus pe-
americano OJ.Simpson, a vida e a morte cados’, vive para os outros, enquanto o se-
da princesa Diana, a interminável no- gundo vive somente para si.”5
vela fornecida pelas peripécias de Eli- O herói acredita que tem uma missão a
zabeth Taylor ou pela apresentadora de cumprir. Ele deve domar o cotidiano e viver
televisão Oprah Winfrey, o assassinato na esfera do extraordinário. Deve entregar-se
da dona-de-casa de Long Island Mary ao seu propósito maior e ao seu destino glori-
Jo Buttafuoco pela jovem amante do ma- ficado, que será construído única e exclusiva-
rido, a bomba colocada pelo dissidente mente por ele mesmo, já que ele é senhor de
de direita numa repartição federal em seus atos, pois tem “um senso interior de cer-
Oklahoma City, as constantes alegações teza de que com circunspecção, habilidade e
de aventuras extraconjugais do presi- compulsão é possível superar os maiores pe-
dente Bill Clinton, para lembrar apenas rigos e infortúnios, e de que é capaz de fazer
um punhado, entre literalmente milhares seu próprio destino.” 6
de outros episódios gerados pela vida,
Na Grécia, por exemplo, a essência do he-
são esses os novos sucessos de bilheteria
rói estava ligada aos conceitos de areté e
que ocupam as mídias tradicionais e do-
timé. O termo areté tem relação etimológica
minam as conversas nacionais por sema-
com o grego aristeúen, que siginifica ser o
nas, às vezes meses ou até anos a fio, ao
mais notável. Sua utilização mais freqüente
passo que o entretenimento comum desa-
está ligada à essência do herói, ou seja, às
parece rapidamente de cena.” 4
habilidades e atitudes que o diferenciam dos
A espetacularização da vida toma o lugar 5
Helal, pág. 18
4 6
Gabler, pág. 13 Featherstone, pág.87

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outros mortais. Assim, ter areté proverá o lhe seja restituída.” 9 Da mesma forma pensa
herói da destreza e do vigor que o permi- Kitto, apenas mudando o termo: “ e Aga-
tam ser um grande guerreiro, não só para mêmnon e Aquiles não se travam de razões
defender seu povo, como para representá- apenas por causa de uma rapariga; é a recom-
lo. Sendo, portanto, uma força, uma ca- pensa, que representa o reconhecimento pú-
pacidade, um mana, a areté é definida por blico de sua areté.” 10 Assim, nas palavras
M.Hoffman, citado por Jaeger: “El vigor y la de Paul Mazon, na Introducion a l’Iliade, “a
salud son areté del cuerpo. Sagacidad y pe- Ilíada é o primeiro ensaio de uma moral de
netración areté del espíritu.” 7 O herói, en- honra.”
tretanto, não está em estado de areté o tempo A areté coberta de timé faz de Aquiles a
todo. Na Ilíada, por exemplo, Aquiles ma- figura proeminente entre os aqueus. Ele é o
neja bravamente sua lança, mas tem o calca- melhor entre seus pares, aquele que os repre-
nhar fraco, enquanto Heitor luta bravamente senta. Quando volta ao campo de batalha,
durante dezoito cantos do poema, para fugir não está sozinho, mas escudado por toda a
covardemente perante a investida do melhor cultura aquéia, cuidadosamente representada
dos aqueus. pelos símbolos cinzelados por Hefestos na
O pelida, colérico, arrasta o cadáver de seu famosa armadura. Aquiles carrega, entre as
adversário ao redor das muralhas de Tróia, cenas da vida aquéia, os arquétipos que cons-
mas se rende aos apelos de Príamo para dar tituem o inconsciente coletivo de seu povo.
sepultura ao filho, chorando ao lado do ini- Este reconhece o herói, enaltece-o e leva-o à
migo. É o momento em que completa a mol- kléos, ou seja, à glória.
dura de sua timé, conceito estritamente li- O reconhecimento do povo, que leva o he-
gado à areté, cujo significado mais explícito rói à glória, também fixa sua imagem mitifi-
é traduzido por honra. Alguns autores nem cadora, diferenciando-o dos meros mortais.
consideram o termo timé, inserindo-o no pri- Talvez por isso, tantos políticos, artistas e
meiro. Como Kitto, para quem “num con- outros habitantes (ou não) do espaço público
texto geral, a um homem, implicará excelên- contemporâneo tentem construir imagens de
cia , na medida em que ele tem possibilidade heróis em torno de suas vidas. Mas se não
de ser excelente moral, intelectual, física e é possível estar em um enredo de Homero,
praticamente.” 8 talvez seja mais simples escrever a própria
A timé está ligada à honra e à mo- estória, produzindo uma autobiografia. E é
ral. Quando Agamêmnon toma Briseida de claro que os arquétipos do herói estarão pre-
Aquiles, este se retira da Guerra de Tróia, sentes na narrativa, afinal se o indivíduo se
pois foi ferido em sua timé. “(...) Agamêm- dispôs a escrever a própria estória, sua exis-
non o despojou do público reconhecimento tência só pode ter sido excepcional. Lá es-
de sua superioridade, tomando-lhe Briseida. tarão a areté, a timé, a missão a cumprir, o
Tétis implora a Zeus que a timé de Aquiles controle do destino, o gesto do conquistador
e todas as outras características extraordiná-
7 9
Jaeger, págs 21e 22. Brandão, pág 143.
8 10
Kitto, pág. 285. Kitto, pág. 96.

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rias de sua personalidade. Em sua autobio- próprio destino a partir da crença em um pro-
grafia11 , por exemplo, Carlos Lacerda quer pósito superior fez com que cada um acre-
mostrar sua vida heróica, ilustrada pela luta ditasse ser um indivíduo especial, único, o
corajosa e pelo senso interior de que tem a mais insubstituível dos seres. Mas eles não
missão de reconstruir o Brasil. Ele tenta fa- foram os primeiros. No século XVIII, Jean
zer isso intercalando a narrativa com fatos Jacques Rousseau já deixara patente essa
da vida cotidiana, mas não consegue disfar- crença na introdução de suas confissões: “ a
çar seus claros propósitos. Para Lacerda, seu natureza perdeu a fôrma em que me moldou.
destino é óbvio: ser presidente da república. ”13
E não poderia ser menos, já que carrega a Rousseau segue as estratégias da mitolo-
honra e a excelência dos heróis. Se Aquiles gia grega na tentativa de se caracterizar como
é o melhor dos aqueus, ele é o melhor dos herói arquetípico de seu tempo, sempre exal-
brasileiros: tando a virtude e a moral, ou seja, a areté
e a timé. Ambos os termos são encontrados
“O sentido de que se tem uma missão a dezenas de vezes nas Confissões, imbuídos
cumprir, seja de criar os filhos ou de re- de considerações temáticas utilizadas, inclu-
formar uma nação, de fazer o que se sabe sive, para a análise do filósofo sobre o estado
e o que se pode – não importa o vulto da de natureza. Mas é impossível não notar as
tarefa e sim sua significação – a idéia de semelhanças entre a quimera de Aquiles com
que se deve procurar fazer bem feito tudo o comandante dos aqueus, na Ilíada, e a qui-
o que se tem a fazer, por mais simples ou mera entre Rouseau e o líder dos enciclope-
arriscado que seja, faz parte desse sen- distas, nas Confissões.
tido de missão. Também dele é estar dis- Assim como Agamêmnon, também Dide-
ponível par cumpri-la. E ser acessível, rot assume a postura de comandante de tro-
(...) de modo a ser mobilizado, a qual- pas que estão em guerra. Se o primeiro
quer momento, para a missão a que se guerreava contra os troianos, o segundo trava
está, por assim dizer, destinado.”12 combate contra um poder despótico e ar-
bitrário, contra uma epistemologia arcaica,
O sentido de missão a cumprir descrito nas contra a ignorância. Se entre os aqueus havia
autobiografias pode, muitas vezes, ser iden- heróis como Nestor, Ulisses e Aquiles; entre
tificado nos próprios títulos. Carlos Lacerda os philosophes estavam os heróis Voltaire,
batizou a sua de “Rosas e pedras de meu ca- D’Alembert e o próprio Rousseau - apesar
minho”. Samuel Wainer escreveu “Minha de ocupar uma posição marginal dentro do
razão de viver.” Adolf Hitler pariu “Mi- movimento. Todos como figuras arquetípi-
nha Luta”. Todos tentaram justificar suas cas inseridas no imaginário de cada época.
“ações heróicas” , independente das impli- Como coloca Robert Darnton:
cações ideológicas. O senso de controle do
11
Publicada na década de 70 pela revista Man- “Uma tal versão do passado coloca os
chete, e reeditada pela editora da universidade de Bra- philosophes num papel heróico. (...)
sília em 2001.
12 13
Lacerda, pág. 81. Rousseau, pág. 9.

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D’alembert reconheceu a existência de talha, neste caso a propria pólis, da mesma


verdadeiros generais, travando guerras forma que Aquiles o fez. Mas sua volta não
reais, mas escreveu como se não hou- tardará. Assim como Homero prepara a volta
vesse história alguma, a não ser a his- de Aquiles , sob o pretexto da morte de seu
tória intelectual, e os philosophes fossem amigo Pátroclo, Rousseau prepara a sua pró-
seus profetas.” 14 pria, sob o pretexto da autobiografia. Esta
não é apenas uma palavra literária, mas a
O mesmo Darnton aborda o culto aos phi- expressão imediata de seus sentimentos. “É
losophes durante toda a história do ilumi- uma resolução que jamais houve exemplo e
nismo como guerreiros em luta pela civili- que não terá imitador”, pois “(...) ele não re-
zação. Mais do que isso, poderíamos dizer tomará a pena exceto para retificar a imagem
em luta pelo avanço de um processo de iden- anterior que deu ao mundo e da qual se apo-
tidade, com consequências históricas inegá- deraram seus inimigos.” 16 Rousseau cons-
veis. trói, sob a égide das Confissões, a sua ar-
Assim, podemos comparar o aviltamento madura de Hefestos. E com ela derrota seus
da timé de Aquiles com o de Rousseau. O inimigos e fixa sua imagem de herói perante
herói genebrino, que já conta com o pre- a sociedade francesa do século XVIII.
conceito de não pertencer à aristocracia, não A construção mítica da figura do herói
sendo portanto considerado digno de possuir “expressa o mundo e a realidade humana ,
areté, se vê traído pelo amigo, que o execra cuja essência é uma realidade coletiva, que
publicamente, humilhando-o. Até mesmo chegou até nós através de várias gerações.”17
Thérèse, mulher de Rousseau, pode ser com- Desde estas antigas gerações vem se for-
parada com Briseida, onde, se não há rapto, mando o arquétipo, que etimologicamente
há a intriga: “ uma coisa me surpreendeu se traduz por modelo primitivo e constitui o
muito mais: foi saber das conversas parti- conteúdo do inconsciente coletivo, a herança
culares que Diderot e Grimm tinham tido, das vivências anteriores.
freqüentemente, com uma e outra (mulher e
Entender o mito, então , é entender-se, é
sogra) para desligá-las de mim, e que não ti-
participar da teia de significações e conexões
nham triunfado por resistência de Thérèse”
15 que constituem a realidade, mesmo que ela
seja encenada. Para isso, é preciso fazer a
Pior faz Voltaire, que, ao saber que Rous-
equivalência conceitual que se expressa atra-
seau enviara os cinco filhos para instiuições
vés do símbolo, reconhecer a linguagem, es-
públicas, e, considerando-os filhos bastardos
tar atento às imagens e, nas palavras de Go-
de uma lavadeira, imprime O sentimento
ethe, entender “as relações permanentes da
dos Cidadãos, e o distribui pelas ruas de Pa-
vida”, “pois os símbolos da mitologia não
ris, retratando um pai violento e cruel.
são fabricados; não podem ser ordenados ,
Essas e muitas outras ofensas à timé de
inventados ou permanentemente suprimidos.
Rousseau fazem com que seu retiro seja ine-
Esses símbolos são produções espontâneas
vitável. Ele deve abandonar o campo de ba-
14 16
Darnton, pág.268 Starobinski, pág. 279
15 17
Rousseau, pág. 378 Brandão, pág. 36

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da psiquê: cada um deles traz em si, intacto, na era das celebridades instantâneas é a Adri-
o poder criador de sua fonte.” 18 ane Galisteu. Quando a casa dela é assaltada,
Mas será que ainda existe lugar para a primeiro ela chama a revista Caras, depois
exaltação do herói no espaço da contem- chama a polícia.” 22
poraneidade? Para Featherstone, se o mo- A atitude de Adriane não é gratuita. A ex-
dernismo cultural “favoreceu o éthos anti- posição da intimidade é uma das principais
heróico”19 , com a valorização do prosaico estratégias de sobrevivência das celebrida-
e do ordinário, na contemporânea cultura de des. Despertar com a buzina do programa do
consumo, a vida heróica ainda é uma ima- Gugu, enquanto o Brasil conhece seu quarto
gem importante. Só que esta é uma pseudo e sua camisola (ou a falta dela), mantém a
vida heróica, já que os heróis não são he- celebridade no espelho. Mais do que se iden-
róis, apenas “interpretam heróis”20 . Sua va- tificar, o espectador se vê na figura da estrela
lorização está na capacidade de representar instantânea. Aquela poderia ser a cama dele,
efeitos dramáticos e manter um fascínio so- tamanha é a intimidade que os une. A mídia
bre si. Em outras palavras, na capacidade de cria um sentido de auto-semelhança.
tornarem-se celebridades. “A característica No artigo Invasão de privacidade? Re-
que se exige das celebridades é que tenham flexões sobre a exposição da intimidade
uma personalidade, que possuam a capaci- na mídia 23 , Maria Celeste Mira analisa a
dade do ator, no sentido de apresentar um eu transformação histórica da noção de intimi-
colorido, de manter uma postura, um fascí- dade para defender a tese de que o conceito
nio, um mistério.” 21 de intimidade das classes populares não é o
As celebridades são as estrelas do coti- mesmo das classes de maior poder econô-
diano, o eu espetacularizado. Elas acabam mico. Baseando suas reflexões em Jürgen
sobrepondo-se às próprias estrelas produzi- Habermas e Norbert Elias, Mira volta à Idade
das pela mídia no âmbito das tradicionais Média para mostrar que os cômodos das ca-
formas de entretenimento, como o teatro, o sas e palácios não eram especializados como
cinema e a TV. Quando os atores da TV hoje, o que só vai acontecer com a ascensão
Globo dão entrevistas sobre os participantes da burguesia: “como se sabe, a intimidade é
do Big Brother Brasil, eles estão entrando uma criação burguesa que, como esclareceu
nessa lógica. É a estrela opinando sobre o Habermas, vai dividir o espaço social entre a
anônimo que virou uma celebridade instan- esfera pública e a esfera privada, no interior
tânea. O movimento inverso do star system. da qual se situará outra ainda mais recolhida,
Até os próprios autores de novelas, acos- a esfera íntima.” 24
tumados a produzir estrelas, percebem esse No Antigo Regime, o mesmo aposento po-
movimento. Para Silvio de Abreu, por exem- deria servir para comer, dormir a até receber
plo, o fenômeno é bem anterior aos reality visitas. Na ausência de corredores, passava-
shows: “o melhor exemplo de que vivemos se pelo interior dos cômodos para circular
18 22
Campbell, pág. 15. Entrevista a Gabriela Goulart. Caderno B. Jornal
19
Featherstone, pág. 97. do Brasil. 12/01/2002.
20 23
Benjamim, pág.97 Revista “Lugar Comum” n. 5-6, pp. 97-116.
21 24
Featherstone, pág. 97. Mira, pág. 98

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pelas casas. Na interpretação de Mira, “não profissional deve ser separada da vida fami-
estava aí presente a idéia de que determina- liar. A casa, como diz Benjamim, é a ex-
das atividades da vida diária pertenciam a pressão da personalidade do burguês. E ela
uma esfera íntima.”25 O próprio despertar vai ser individualizada, com cômodos espe-
do Rei era acompanhado por integrantes da cíficos e isolados, valorizando a intimidade.
corte, que o auxiliavam em sua toalete ma- O amor romântico, difundido pelo romance
tinal. O impulso de esconder a nudez ou os burguês, e a moral puritana também serão
cuidados corporais não era tão difundido. Os determinantes para a valorização da esfera
banhos eram coletivos e não havia roupas es- íntima no imaginário da burguesia. A vida
peciais para dormir. Era comum pessoas de sexual pertence à intimidade.
sexos e idades diferentes dormirem nuas no Toda essa reconstrução histórica serve
mesmo quarto. para Mira justificar a maior penetração que
Para Norbert Elias, a partir do século as revistas de fofocas e os programas inva-
XVII, começa a haver uma preocupação sores de privacidade na TV têm nas classes
maior com o pudor, primeiro nas classes populares. Segundo a pesquisadora, as con-
mais altas e depois nas mais baixas, que dições de vida das classes populares conti-
mantêm por mais tempo os velhos costumes. nuam precárias e elas ainda recorrem aos cír-
Mira defende a idéia de que essa demora culos de sociabilidade como estratégia de so-
se deve à pouca significação que a casa po- brevivência, identificando seus pares em lo-
pular tem para seus moradores, já que seu cais de encontro como bares, templos ou clu-
espaço reflete as difíceis condições de vida bes, e socializando o acesso ao espaço da
dessa classe. A própria relação com a famí- casa, sem se importar com a diluição da pri-
lia é esvaziada de sentimentos, limitando-se vacidade Da mesma forma, o modo de apro-
a uma estratégia de sobrevivência. O ver- priação do conteúdo midiático também é so-
dadeiro “lugar de trocas afetivas”, como ob- cializado. A audiência da TV é coletiva. O
serva Elias, é no interior do que ele chama de aparelho é colocado na sala, de frente para a
“comunidade familiar estendida,”26 ou seja, porta, e os vizinhos têm livre aceso ao sofá.
um círculo social que incluía comadres, pri- “Há boas razões para acreditar que a propa-
mos, afilhados e vizinhos. Como as carên- gação do modo de vida burguês não destruiu
cias sociais eram grandes, o isolamento re- totalmente o que as classes populares culti-
presentava um grande perigo para as classes varam durante séculos em todo o ocidente.”27
baixas. Daí a sociabilidade popular funcio- A partir desse raciocínio, Mira conclui que,
nar como um cinturão de proteção contra o lendo sobre a vida das celebridades, a pes-
frio, a fome e outras mazelas. soas tornam-se cada vez mais íntimas delas,
Mas esse raciocínio é inverso na burgue- recriando o contexto do bairro ou da pequena
sia, que passa a valorizar o isolamento e os comunidade popular, onde a vida privada do
valores ligados à família, numa tentativa de indivíduo interessa a todos e a intimidade é
se diferenciar das classes populares. A vida socializada. “Através da mídia e das novas
tecnologias podem ser criados novos senti-
25
ibid, pág. 99.
26 27
Ibid, pág. 100. Ibid, pág.109.

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dos de comunidade: uma comunidade ‘sem las celebridades. A superexposição substitui


lugar’ ou, como propõe Meyerowitz, uma a virtude (areté) como valor supremo. As
comunidade que independe do local.” 28 imagens são pré-concebidas. As estórias já
Mas se as classes altas valorizam mais a foram contadas. E a encenação continua até
privacidade, inclusive no ato de assistir TV, mesmo após a morte (Elvis ainda não mor-
já que os aparelhos ficam nos quartos ou reu). O que nos leva a refletir sobre o papel
em ambientes específicos, não é verdade que do biógrafo no mundo contemporâneo. Que
elas sejam menos seduzidos pela exposição tipo de discurso ele deve construir ? Que
da intimidade das celebridades. É possível linguagem empreender ? Que informações
que o raciocínio de Mira refira-se mais espe- priorizar? Como fugir da ilusão de que se
cificamente às revistas de fofoca e a progra- pode apresentar a vida como uma estória co-
mas de TV como Ratinho ou Gugu, pois seu erente? Como explorar as múltiplas iden-
texto é anterior à explosão dos reality shows tidades? E, principalmente, quem escolher
no Brasil. Mas a audiência do Big Brother como personagem e de que maneira evitar a
Brasil I demonstra que as classes mais altas “celebrização” de sua imagem ?
também gostam do buraco da fechadura, o Jornalistas, escritores, produtores, drama-
que talvez se explique pelos motivos apre- turgos, cineastas, diretores e todos os outros
sentados no começo desse texto: a identifi- responsáveis pelo discurso midiático estão
cação dos personagens com a classe média em xeque. Se a vida é um show e a mídia
e o desejo da platéia de também ser ator do é o palco, os roteiristas do espetáculo correm
espetáculo. o risco de tornarem-se os bobos da corte.
O fato é que todos conhecem a intimidade
de Kleber Bambam e a bulimia de Leka, as- 2 Bibliografia
sim como, há anos, acompanham os namo-
ros de Adriane Galisteu e Luciana Gimenez, BENJAMIM, Walter. Obras escolhidas.
celebridades instantâneas que já foram ins- Vol.1. São Paulo. Brasiliense. 1985.
titucionalizadas. A vida é midiática e deve
ser vivida como um espetáculo em que todo BENTES, Ivana. Guerrilha de sofá. In:
dia há um novo capítulo, e onde, invariavel- Caderno Mais, Folha de São Paulo.
mente, a intimidade está presente. “Sei mais 31/03/2002.
sobre a vida íntima de Lady Di que sobre mi-
BRANDÃO, Junito. Mitologia grega. Vol.1.
nhas amigas.”29
Petrópolis. Vozes. 1993.
Se, no passado, era preciso ler a biogra-
fia de uma estrela para conhecer passagens CAMPBELL, Joseph. O herói de mil faces.
de sua intimidade que ela julgasse conveni- São Paulo. Cultrix. 1993.
ente divulgar, hoje a biografia é escrita di-
ariamente na mídia. O espaço dos heróis DARNTON, Robert. O grande massacre de
(mesmo os pré-fabricados) foi ocupado pe- gatos. Rio de Janeiro. Graal. 1986.

28
Ibid, pág. 113. FEATHERSTONE, Mike. O desmanche da
29
Mira, pág. 97. cultura. São Paulo. Nobel. 1997.

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10 Felipe Pena

GABLER, Neal. Vida, o filme. São Paulo.


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