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SOBRE O MEU CADÁVER

(Over My Dead Body - 1940)


Rex Stout

CAPÍTULO 1

A campainha da porta tocou. Fui atender, abri-a e vi pela primeira vez a nossa visitante.

— Bom dia, senhorita, disse cortesmente a recém-chegada.


— Bom dia, senhor, respondeu ela. — Gostaria de ver o senhor Nero Wolfe.

A pronúncia com que disse estas palavras, que não era certamente a dos habitantes de Middle
West, nem dos de New England, nem dos de Park Avenue, nem sequer do East Side, me irritou
um pouco. No obstante, convidei para que entrasse, conduzi-a ao escritório e ofereci uma
cadeira, perguntando em seguida seu nome, que teve que me repetir três vezes consecutivas e
em seguida soletrar.

— O senhor Wolfe estará ocupado até as onze, declarei, dando uma olhada no relógio de
parede que havia em frente da minha mesa. — Eu sou Archie Goodwin, o seu secretário
particular... Se desejar evitar um dispêndio inútil de tempo, pode começar a... Não me deixou
terminar. Moveu energicamente a cabeça e disse:
— Disponho de muito tempo, senhor Archie Goodwin.

Perguntei se queria se entreter lendo um livro ou uma revista. Ela voltou a mover a cabeça e eu
decidi deixá-la em paz e sentei à minha mesa, recomeçando a tarefa interrompida de escrever
com grandes letras um monte de cartazes que iriam ser utilizados. Cinco minutos mais tarde
tinha terminado o serviço e estava verificando a escrita, quando ouvi a sua voz atrás de mim.

— Acho que gostaria de ler um livro, senhor... Permite? Apontei a estante, disse que
escolhesse o que mais gostasse, e prossegui com minha obra de arte. Quando levantei a cabeça
a vi se aproximar com um livro na mão.
— O senhor Wolfe lê isso?

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Tinha uma voz deliciosamente modulada que soaria como música celestial aos meus ouvidos se
tivesse tido o trabalho de aprender a pronunciar bem. Olhei o título do volume e respondi que o
senhor Wolfe já o havia lido há algum tempo.

— Mas... Ele estuda?


— Para quê...? O senhor Wolfe é um gênio... Não precisa estudar mais nada...
— Então ele lê uma vez só?
— Sim. A jovem se dirigiu a sua cadeira. De repente se voltou de novo.
— E você...? Também lê?
— Não, respondi enfaticamente. Ela sorriu.
— É muito complicado para você a historia dos Balcãs, senhor Goodwin?
— Não sei; nunca tentei lê-la... Mas segundo entendi, todos os reis daquelas regiões sempre
morrem assassinados... Prefiro ler as colunas de esportes nos jornais.

A visitante parou de sorrir, sentou na cadeira com o livro na mão e pareceu se absorver na
leitura. Não se moveu quando, poucos minutos mais tarde, recolhi o meu trabalho e saí da sala.
Subi os dois lances de escada que levavam ao andar superior, atravessei o corredor que dava ao
terraço e cruzei por entre as orquídeas que enchiam tudo, com exceção da estufa e do canto
onde Hortsmann dormia. Passei através dos dois primeiros aposentos, caminhei pelos
corredores onde ficavam as estantes prateadas e os bancos de cimento repletos de vasos que
continham desde os primeiros espécimes até os Odontoglosums e Dendrobiums mais
desenvolvidos, e encontrei Nero Wolfe na estufa, com as mãos nos quadris, olhando para
Hortsmann que, por sua vez, admoestava amargamente um enorme botão de Coelogyne de
pétalas brancas.

— Duas semanas já...! Ou pelo menos, doze dias... A esse passo nunca será nada... Se
pudesse... O que aconteceu, Archie? Apontei minha mão para Hortsmann.
— São para a fornada de Miltonians e Lyncates... Inclui as datas de germinação exatamente
como você me deu. Senhor Wolfe. Lá em baixo tem uma estrangeira que quer falar com o
senhor... Eu acho que veio pedir um livro emprestado... Tem uns vinte e dois anos e magníficas
pernas, rosto astuto, ainda que agradável, e olhos negros, bonitos e inquietos... Possui uma voz
harmoniosa, mas fala como Lynn Fontanne em O PRAZER DO IDIOTA... Chama-se Carla Lovchen.
Wolfe tinha apanhado as fichas da mão de Hortsmann para examiná-las, mas interrompeu a
tarefa para me dar uma rápida olhada.
— Como disse, Goodwin...? Como ela se chama?
— Carla Lovchen... L, O, V, C, H, E, N... Sorri. — Eu também estranhei... Lembre que li O
REGRESSO DO INDÍGENA... Essa garota tem um sobrenome que recorda o nome de uma
montanha... A Montanha Negra... Monte Lovchen. Tsernagora. Montenegro; a variante
veneziana de Monte Nero, e você se chama Nero... É possível que se trate de uma mera
coincidência; mas quando se aspira a ser um bom detetive...
— O que essa senhorita quer?
— Disse que queria falar com você, mas eu acho que veio pedir um livro emprestado...
Apanhou da estante o volume de IUGOSLÁVIA UNIDA, de Henderson, e me perguntou se você já
o lera, se o estudou, se eu o li. Deixei-a lendo-o com reconcentrada atenção... Mas, como disse
antes, parece inquieta... Estive a ponto de lhe dizer que, dada a excelente situação de nossa
conta-corrente...

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Interrompi-me ao notar que ele não me escutava. Pensando que aquele era um gesto
inusitadamente pueril, já que faltavam somente três minutos para as onze, hora em que
invariavelmente deixava suas plantas para se dirigir ao escritório, tossi violentamente e voltei
para a escada.

A estrangera se achava na poltrona, lendo, mas havia largado o livro, substituindo-o por uma
revista. Procurei o volume para colocá-lo em seu local habitual, mas vi que ela havia se adiantado
na ação, coisa com que fez melhorar minha opinião sobre ela, já que sei por experiência própria,
como são negligentes a maioria das garotas no que se refere à ordem das coisas de casa.

Anunciei-lhe que Wolfe não demoraria a descer, apanhei meu livro de anotações e um punhado
de folhas em branco, e não havia feito nada além de retirar a capa da minha Underwood,
quando ouvi a porta do elevador e um instante depois Nero Wolfe entrava no escritório. Parou a
um passo de sua mesa para cumprimentar nossa visitante com um movimento de cabeça quase
imperceptível; em seguida prosseguiu até chegar a sua cadeira, afundando nela, deu uma olhada
ao jarro em que pusera um ramo de Cattleias, outra ao correio da manhã, colocado sob o peso
de papéis, apertou a sineta para pedir cerveja, se recostou e deu um suspiro. A visitante, com a
revista fechada sobre o colo, observava-o com os olhos entornados. Wolfe disse bruscamente:

— Lovchen...? Você não se chama assim! Não existe ninguém que se chame assim... As
pálpebras da garota se agitaram.
— Meu nome é o que eu disse, respondeu quase sorrindo. — Digamos que eu o escolhi para
não irritar os americanos com um nome como Kraljevitch, por exemplo...
— Seu sobrenome é Kraljevitch?
— Não.
— Bem... Não importa... Para o que você quer me ver? Abriram-se os lábios dela para soltar
uma risadinha suave.
— Você parece um tsernagore... Ou um montenegrino, como dizem os americanos.
Indubitavelmente você se diferencia deles porque crescem para cima, enquanto que você cresce
para os lados... Não obstante, quando o ouço falar, tenho a sensação de que estou em casa... É
assim precisamente como um tsernagore falaria com uma senhorita. Voltei a cabeça para ocultar
um sorriso. Wolfe perguntou, quase irritado:
— O que posso fazer por você, senhorita Lovchen? No olhar dela apareceu uma expressão
de nervosismo.
— Ah, sim...! Havia esquecido... É um homem célebre, ainda que não pareça... Você se
assemelha mais a um... Interrompeu-se, formou um beicinho com os lábios e prosseguiu: — O
caso é que você é famoso e que já esteve em Montenegro... Como vê, sei muitas coisas sobre
você. Hvala Bogu... Desejaria que você se ocupasse de um assunto muito desagradável...
— Lamento...
— Não se trata de mim, continuou Carla precipitadamente, — Mas de uma amiga minha,
uma garota que chegou na América não faz muito... Chama-se Neya Tormic... Piscou as
longuíssimas pestanas negras, — Como eu me chamo Carla Lovchen... Nós duas trabalhamos no
estúdio de Nikola Miltan, na Rua Quarenta e Oito... Conhece? Dão aulas de esgrima e de dança.
— Lembro que me apresentaram a Nikola Miltan na casa de meu amigo Marko Vukcic,
respondeu Wolfe secamente, — Mas neste momento, senhorita...

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— Neya e eu somos excelentes esgrimistas. Corsini nos ensinou em Zagreb o manejo do
florete, a espada e o sabre... E quanto à dança, é extraordinariamente simples. Aprendemos o
lambeth walk em vinte minutos e em seguida nos dedicamos a ensiná-las a pessoas ricas que
pagam generosamente, ainda que a nós só chegam alguns cêntimos... Este é o motivo de que
Neya e eu não possamos lhe oferecer para que nos retire de nosso apuro o preço que você está
acostumado a receber por seus serviços, mas procuraremos que fique contente conosco... Além
disso está o fato de que somos as duas de Zagreb, compreende...? Não é um problema qualquer
o que atormenta Neya, não... Trata-se de um caso sumamente desagradável, tanto mais quanto
que ela não teve culpa alguma, já que ela não é uma ladra, como qualquer um que não fosse
americano se daria conta no ato... Se você não agir rapidamente, senhor Wolfe, a colocarão na
cadeia...

No rosto de Nero Wolfe havia aparecido uma careta que demostrava que se achava na angústia
de uma agitação estranha, à sua crônica vontade de não atormentar o cérebro com casos
complicados, quando o balanço de sua conta no banco mostrava um saldo composto de mais de
cinco dígitos. Estendendo uma mão com a palma voltada para ela, tentou dizer:

— Repito que lamento... Ela se pôs de pé de um salto e disse:


— Eu vim no lugar de Neya, porque ela precisa dar algumas lições importantes nesta manhã
e não queremos que nos despeçam de nossos empregos. Mas você precisa vê-la, então é
necessário que vá até lá... Miltan convocou todo mundo para hoje, com objetivo de elucidar o
caso de uma vez por todas... Confiamos em que nesta tarde se esclarecerá tudo... É o maior
absurdo que se possa imaginar, pensar que Neya pôde colocar a mão no bolso de um de nossos
clientes para roubar seus diamantes; mas será terrível se esses diamantes não aparecerem...
Espere um momento...! Deixe-me lhe dizer...

Abri a boca. Depois de passar um par de horas de pé entre as plantas, quando entrava em seu
escritório as onze em ponto e se afundava em sua cadeira, depois de ouvir algumas bobagens
minhas e fazer servir a cerveja gelada por Fritz Brenner, Wolfe permanecia habitualmente tão
imóvel como uma rocha de duas toneladas; mas agora estava se levantando... Levantou-se,
murmurou algo entre dentes, que podia ser uma desculpa ou uma imprecação, e sem olhar para
nenhum dos dois, saiu do escritório pela porta que dava ao vestíbulo. A estrangeira voltou para
mim seus olhos desmesuradamente abertos.

— O senhor Wolfe está doente? Perguntou. Eu balancei a cabeça.


— Não, senhorita. Ele é excêntrico... É possível que seja uma doença, mas não se trata de
nada tangível, como a comoção cerebral ou a tosse ferina... Uma vez, precisamente quando um
advogado respeitabilíssimo se achava sentado na mesma cadeira que ocupa você agora... O que
aconteceu, Fritz? A porta que Wolfe havia fechado ao sair, se abriu de novo para dar passagem a
Fritz Brenner, em cujo semblante se pintava o assombro.
— Archie, esperam-no na cozinha...

Levantei-me, murmurei umas palavras de desculpas e me dirigi até a cozinha. Sobre a mesa se
achavam espalhados os ingredientes do almoço, mas era evidente que não havia sido a
curiosidade para saber dos pormenores da minuta o que havia arrastado Nero Wolfe até ali. Este
estava do outro lado da geladeira, quando eu entrei, e me olhando de um modo inconveniente e
incompreensível, me disse com extraordinária brusquidão:

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— Mande-a embora!
— Deus meu! Confesso que me indignei um pouco. — Ela disse que pagaria...? Isso é
suficiente para gelar o sangue de um réptil... E se você leu em seus olhos que sua amiga Neya
roubou realmente as pedras, o menos que você podia fazer seria...
— Archie! Jamais havia notado em sua voz um tom tão hostil. — Só fugi em minha vida de
uma pessoa... Uma montenegrina... Aconteceu há muitos anos e ainda não consegui esquecer...
Não tento, nem quero explicar o que senti ao ouvir a voz dessa garota quando disse: Hvala
Bogu... Mande-a embora!
— Mas, não...?
— Archie! Vi que qualquer coisa seria inútil e regressei lentamente ao escritório.
— Senhorita Lovchen, lamento ter que lhe dizer que o senhor Wolfe está ocupadíssimo e é
impossível para ele se ocupar do caso de sua amiga... Ela levantou a cabeça para me olhar e vi
em seus olhos uma expressão de incredulidade.
— Não pode... Precisa...

Deu um passo para mim com um brilho no olhar que me fez retroceder.

— Ignora que somos de Tsernagora...? Ela... Minha amiga... É... A indignação não a deixou
continuar.

— É inútil, senhorita, disse bruscamente. — Não quer... Há vezes que consigo que ele mude
de ideia, mas nesta não há nada a fazer... O que significa Hvala Bogu?
— Graças a Deus... Quando o vir, eu direi...
— Não devia ter dito isso, senhorita Lovchen. Irrita-o enormemente ouvir uma
montenegrina falar montenegrino. É uma espécie de alergia. Sinto muito; mas não há a menor
esperança de convencê-lo. Conheço-o bem e é mais teimoso que uma mula. Quando diz não, é
não.
— Preciso vê-lo, senhor Goodwin, e lhe dizer...

A garota também era teimosa e tive que empregar cinco longos minutos para persuadi-la a que
fosse embora, e como os únicos problemas que eu tinha com as montenegrinas eram baseados
em sua pronúncia, coisa que, depois de tudo, não é de importância vital, não fui grosseiro com
ela. Quando consegui fechar a porta da rua atrás de Carla Lovchen voltei para a cozinha e
anunciei sarcasticamente:

— Desapareceu o perigo, senhor Wolfe. Venha atrás de mim e se encontrar algum motivo
de alarme, comece a correr.

Pelo grunhido que soltou Wolfe ao virar as costas para se dirigir ao escritório, compreendi que o
forno não estava para assados, pelo que, quando ele chegou e se instalou em seu lugar de
costume, uns minutos mais tarde, não fiz a menor tentativa para que a conhecesse a minha
opinião sobre o assunto.

Ele bebeu a cerveja e começou a folhear uma porção de catálogos, enquanto eu verificava umas
faturas de Hohen. Três minutos depois me pedia que abrisse um pouco uma das janelas e então
compreendi que a tensão diminuíra até chegar ao normal. Se algum dos dois tinha ideia de que

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havíamos terminado com os Balcãs por aquele dia, não demoramos em nos convencer do erro
de nossa prematura suposição.

Era costume de Fritz abrir a porta das onze em diante, horas em que eu me achava no escritório
com Wolfe. Ao redor de meio-dia e meia o vimos entrar, dar os três passos do ritual, se
enquadrar militarmente e anunciar com voz grossa que um cavalheiro chamado Stahl desejava
falar com o senhor Wolfe; não quisera dizer o motivo da visita, ainda que havia declarado, sem
ser perguntado, que era agente secreto do Serviço Federal de Investigação. Deixei escapar um
pequeno assovio e exclamei.

— Ah!

Wolfe abriu os olhos um centésimo de milímetro, fez um sinal para Fritz e este saiu para fazer
entrar o nosso visitante. No curso de nossas atividades jamais havíamos tratado com um agente
do serviço secreto e quando este entrou, lhe dei a honra de examiná-lo cuidadosamente dos pés
à cabeça. Era de mediana estatura, costas largas e excelentes olhos, ainda que muito
descuidado no barbear e uns sapatos que pediam graxa aos gritos. Disse-nos seu nome outra
vez, apanhou uma carteira de couro do bolso interior de seu flamante paletó, abriu-a e mostrou-
a a Wolfe com amistoso sorriso.

— Minhas credenciais, disse com voz educada. Possuía, certamente, bons modos, algo
assim como os de um inspetor de seguros. Wolfe deu uma olhada na carteira, moveu a cabeça
afirmativamente e lhe ofereceu uma cadeira.
— Diga-me em que posso lhe servir, cavalheiro. O agente secreto disse com acento
apologético:
— Lamentamos ter que importuná-lo, senhor Wolfe, mas não temos outra opção a não ser
cumprir com nosso dever. Gostaria de lhe perguntar se conhece a disposição do Governo
recentemente editada, em que se ordena a todos os agentes a serviço de empresas estrangeiras
e residentes em nosso país, que declarem suas atividades na subsecretaria de Estado.
— Não sei muito bem, mas me lembro de ter lido algo nos jornais.
— Mas conhece a disposição?
— Sim.
— E já foi declarar?
— Não, porque não sou agente de nenhuma empresa estrangeira. O agente secreto cruzou
as pernas.
— A lei se refere a agentes de empresas estrangeiras, sejam individuais ou organizações,
assim como de governos estrangeiros.
— Perfeitamente.
— E também determina que são obrigados a se inscrever tanto os estrangeiros quanto os
cidadãos americanos. Você é cidadão norte-americano?
— Sim. Nasci aqui.
— E não foi agente do governo austríaco?
— Sim, mas quando ainda era jovem, e não aqui, mas no estrangeiro. Foi muito pouco
tempo... Em seguida entrei no exército montenegrino e estive a ponto de morrer de fome em
mil novecentos e dezesseis... Tivemos que fazer frente aos austríacos sem poder nos opor as
suas metralhadoras... Quando os Estados Unidos entraram na guerra percorri seiscentas milhas
para me reunir a eles e só então pude comer, depois de ter me mantido durante uma infinidade

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de tempo com ervas secas... Terminada a guerra regressei aos Balcãs, vi se perder ali outra de
minhas ilusões e em pouco tempo voltei a América.
— Hvala Bogu! Exclamei. Stahl me deu uma olhada rápida.
— Por casualidade você é montenegrino?
— Não, senhor. Sou de Ohio nada mais. A exclamação foi involuntária. Wolfe, sem me fazer
caso, continuou:
— Quero lhe dizer, senhor Stahl, que meu temperamento me inclina a desconfiar e me opor
a tentativa de qualquer indivíduo de investigar a minha vida ou meus assuntos particulares.
Agora bem, não considero você um indivíduo... Você representa o Governo Federal e é
realmente a América, sentada em meu escritório, fazendo perguntas sobre a minha humilde
pessoa... Eu estou muito agradecido ao meu país de origem pelas poucas coisas decentes que
conseguiu conservar... E a propósito! Quer um gole de cerveja norte-americana?
— Não, muito obrigado. Wolfe apertou o botão do timbre e se ajeitou na cadeira.
— Vou responder a sua pergunta, senhor Stahl. Não represento nenhum chefe estrangeiro,
nem empresa, indivíduo, organização, ditador ou governo algum. De vez em quando peço
alguma investigação daqui, na minha profissão de detetive, para algum colega da Europa,
especialmente ao senhor Ethelbert Hitchcock, de Londres, que as faz por sua vez em seu país
quando eu solicito. Na atualidade não persigo ninguém. Não sou agente do senhor Hitchcock
nem de nenhum outro.
— Perfeitamente, repôs Stahl, — Mas poderia me dizer se em suas estadias anteriores na
velha Europa conheceu o príncipe Donevitch?
— Conheci há muito tempo. Creio que está em Paris.
— Não me refiro a esse. Não há outro?
— Sim; o sobrinho do velho Pedro. O príncipe Estéfano Donevitch. Acho que mora em
Zagreb. Quando estive ali em mil novecentos e dezesseis tinha seis anos de idade.
— Você tem tido recentemente contato de algum tipo com ele?
— Não. Nem agora nem nunca.
— Nem lhe enviou dinheiro, seja a ele mesmo, a alguma organização dele, ou para causa
que representa?
— Não.
— Não fez transferências de dinheiro para a Europa?
— Que... Murmurou Wolfe fazendo uma careta. — Sempre de minhas economias
particulares... Tenho enviado dinheiro a... A tradução é Liga da Juventude Iugoslava... Mas não
acho que o príncipe Estéfano Donevitch tenha algo a ver com isto.
— Não sei... E que me diz de sua esposa, senhor Wolfe? Não se casou lá?
— Casado...? Não. Isso é o que... Wolfe estremeceu na cadeira e adicionou: — Acho, senhor
Stahl, que tocou um ponto em que, até um americano agradecido, o mandaria plantar batatas.
Eu disse enfaticamente:
— Eu faria isso e olhe que tenho sessenta e quatro por cento de índio. O agente secreto
sorriu:
— Suponho, disse se levantando, — Que não verá inconveniente em assinar a declaração
que acaba de me fazer. Não é verdade?
— Se me pedir, por que não?
— Perfeitamente. Fica entendido que você não representa nenhum estrangeiro direta nem
indiretamente.
— É verdade.
— Pois isso é unicamente o que queria saber. Muito obrigado.

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— De nada, senhor. Bom dia.

Saí primeiro para abrir a porta da rua para a América e me convencer de que tinha saído quando
a fechei outra vez. Wolfe podia se permitir sentimentalismos, mas a mim não me agradava que
algum estranho metesse o nariz em meus assuntos privados, ainda que o faça em nome de uma
nação de cento e trinta milhões de habitantes. Quando regressei ao escritório, Wolfe se achava
reclinado em sua cadeira com os olhos fechados.

— Está vendo? Exclamei impulsivamente. — Somente porque tem um bom saldo no banco
recusou nove casos no espaço de três semanas, sem contar esta pobre garota estrangeira que
tem uma amiga cleptômana. Negou-se a investigar e o que acontece então? A América começa a
suspeitar, pois não é de americanos recusar fazer dinheiro, e envia um agente secreto... Agora
precisará investigar a si mesmo. Não havia necessidade...
— Archie, cale-se! Abriu os olhos. — É um mentiroso. Desde quando é índio a sessenta e
quatro por cento?

Antes que eu pudesse parar seu contra-ataque, Fritz apareceu para anunciar que o almoço
estava servido. Sabia que teríamos pastelão de pato e não quis perder meu tempo discutindo.

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CAPÍTULO 2

Já haviam passado das duas horas quando terminamos de tomar o café e regressamos ao
escritório. Wolfe foi andando lentamente, como era seu costume; eu, em grandes passadas. Ali,
em vez de folhear catálogos ou brincar com alguns de seus outros brinquedos, se ajeitou na
cadeira, cruzou beatificamente as mãos sobre o depósito em que se depositaram os pedaços do
pastelão de pato e fechou os olhos. Não que tivesse entrado em estado de coma, pois várias
vezes, no transcurso da hora em que assim ficou, o vi mexer os lábios para dentro e para fora,
por isso adivinhei que estava pensando furiosamente em algo. E de repente falou:

— Archie. Por que acha que aquela garota queria um livro emprestado? Estivera pensando
todo aquele tempo na montenegrina.
— Foi uma brincadeira... Uma inocente...
— Não. Você me disse que ela perguntou se eu havia lido.
— Realmente.
— E se eu estudei.
— Também.
— E se você estava lendo.
— Exatamente.
— E não lhe ocorreu a ideia de que ela queria se certificar de que nenhum de nós dois havia
olhado esse livro em um passado muito próximo?
— Não, senhor. Tinha a minha mente ocupada naquele momento. Estava sentado e ela se
achava em frente a mim, e não pude pensar em outra coisa que não fossem as suas deliciosas
curvas.
— Isso não é pensar, Archie. Os nervos que utilizava naquele instante não se encontram no
cérebro, mas na medula espinhal... Disse que o livro era IUGOSLÁVIA UNIDA, de Henderson?
— Sim, senhor.
— Traga-o, por favor. Atravessei o escritório, apanhei o volume e o entreguei.
— Onde estava quando voltou ao escritório?
— Em seu lugar, senhor. Creio que para uma montenegri...
— Cale-se.

Acariciou o livro um instante, em seguida o suspendeu segurando-o com os indicadores pelos


dois extremos da lombada e nesse momento caiu sobre a mesa, um papel que estava entre as
folhas. O papel fora dobrado várias vezes. Ele o desdobrou, enquanto eu sentava com os dentes
apertados.

— Quer que eu o leia, Archie? Perguntou Wolfe.


— Se for amável, senhor.

Começou a dizer algo incoerente em uma língua esquisita que não tinha nada de humano. Sabia
que ele esperava que eu reclamasse, pelo que contive meus desejos de fazê-lo e continuei
apertando furiosamente os dentes. Quando terminou, sorri compreensivamente.

— Muito bem, disse; — Mas não explicou por que ela não disse na minha cara, como bonito
e sedutor lhe parecia, em vez de escrever e colocar a carta nesse livro. Especialmente esta
última...

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— Está escrito em servo-croata... Fala servo-croata, Archie?
— Não.
— Então traduzirei. Está datado de Zagreb, em vinte de agosto de mil novecentos e trinta e
oito e ostenta o selo dos Donevitch. Diz assim, mais ou menos:

A portadora da presente, minha esposa, a princesa Vladanka Donevitch, fica autorizada, sem reserva de nenhum tipo,
a falar e trabalhar em meu nome e comprometer meu nome e honra com sua assinatura, que aparece embaixo da
minha ao pé deste documento, em todos os assuntos financeiros e políticos relacionados comigo e com a dinastia dos
Donevitch, especialmente no que diz respeito à concessão dos bosques da Bósnia e a disposição de certos créditos
confiados atualmente à custódia de Barret & De Russy, banqueiros de Nova Iorque.

Wolfe dobrou o papel e fechou a mão, apoiando-a em cima.

— Está assinado por Estéfano Donevitch e por Vladanka Donevitch e as duas assinaturas
foram devidamente legalizadas.
— Deixe-me pensar... Como você sabia que esse papel estava no livro?
— Não sabia... Mas deduzi lhe perguntando...
— Compreendo... Despertei sua curiosidade e... Quer dizer que a garota é uma autêntica
princesa dos Balcãs?
— Ignoro. Estéfano se casou há apenas três anos. Soube precisamente por este livro... Não
se irrite, Archie... Não gosto deste assunto. De todas as atividades do homem, a intriga
internacional é a mais repugnante. Conheço superficialmente a corrupção. O regente que
governa atualmente a Iugoslávia corteja tortuosamente a amizade de certas nações. É um
Karageorgevitch; enquanto que o príncipe Estéfano, chefe da casa Donevitch, agora que o velho
Pedro está agonizando, é utilizado por outras nações, que ele emprega por sua vez para
conseguir a sua máxima ambição... E agora, isso! Golpeou o papel com a palma da mão. —
Traíram a América! Se eu pudesse utilizá-lo para aniquilá-los, o faria! Interrompeu-se um instante.
Lançou em seguida uma exclamação depreciativa: — Bah!

E finalmente simulou cuspir, coisa que nunca o vi fazer de novo durante os muitos anos que
convivi sob seu teto.

— Puf! Concessões dos bosques bósnios de um Donevitch! Quando vi a aquela garota e ouvi
sua voz soube que o diabo rondava... Malditos sejam por cruzar o oceano e vir até aqui! Maldita
seja ela por entrar no meu escritório e sujar um de meus livros com este... Este nauseabundo...!
— Acalme-se! Exclamei. — Respire profundamente três vezes...! Como sabe que foi ela que
o pôs lá...? Há muitos meses que você não toca nesse livro e é possível que alguém...
— Quem? Quando?
— Deus meu! E eu que sei...? Mas Vukcic também é montenegrino...
— Não diga besteira!
— Está bem. Então foi a garota estrangeira que o fez. E ela é uma princesa dos Balcãs
incógnita ou não é... E por que haveria de ser...? Não poderia se dar o caso de que ela tivesse
roubado esse papel da verdadeira princesa e viesse escondê-lo aqui...?
— Archie...
— Diga, senhor.
— Escreva a máquina um envelope com o endereço da senhorita Carla Lovchen, estúdio de
Nikola Miltan... Encontrará tudo na lista telefônica. Enfie isto no envelope e coloque-o no correio
imediatamente... O que foi, Fritz?

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Fritz Brenner, que acabara de entrar, deu os três passos regulamentares, se enquadrou e disse:

— Uma senhorita deseja vê-lo, senhor. A senhorita Carla Lovchen.

Assoviei. Wolfe ficou olhando-o com olhos atônitos. Fritz, impassível, precisou esperar por dois
minutos a resposta de Wolfe, que finalmente perguntou:

— Onde está?
— Na sala da frente, senhor. Achei que...
— Feche essa porta e venha até aqui. Fritz obedeceu e se aproximou da mesa. Wolfe se
voltou para mim.
— Escreva um envelope com o endereço particular de Saul Panzer e cole um selo. Descobri
a máquina, segui suas instruções e perguntei:
— Certificada ou especial?
— Nenhuma das duas coisas. É do pouco que podemos nos jactar na América. O correio
entrega sempre intacto e rapidamente.

Meteu o papel dobrado no envelope, humedeceu com a língua a borda engomada, fechou e
disse a Fritz:

— Coloque-o na caixa de correio da esquina... Depressa!


— A senhorita...
— Já a atenderemos. Fritz saiu. Wolfe esperou que ouvíssemos o som da porta da rua ao
abrir e fechar e então me disse em voz baixa: — Lembre que precisará telefonar para Saul e
avisar sobre o envio do envelope, dizendo que tenha muito cuidado com ele... E agora vá buscar
a garota e traga-a aqui.

Quando trouxe a senhorita Lovchen a presença de Wolfe, este lhe disse secamente:

— Esta manhã lhe enviei um recado pelo senhor Goodwin, dizendo que não podia ajudá-la a
sair de seu apuro... Bem, que não poderia ajudar a sua amiga... Ela moveu a cabeça.
— Sim... E fui embora desgostosa, porque nós somos da Iugoslávia e sabemos que você já
esteve lá... Não tínhamos ninguém mais a quem procurar. Quando disse isso a minha amiga
Neya, ela também ficou muito desgostosa. Achava que, se não se tratasse de uma coisa tão
séria, não nos atreveríamos a molestá-lo. Você precisa nos retirar deste aperto, senhor Wolfe...
— Não, disse Wolfe secamente. — Não posso me comprometer a isso; mas gostaria de
saber...
— Não me pergunte nada... Precisa fazê-lo... As cinco em ponto todos se reunirão e há um
individuo que está disposto a... Juro que se trata de um tremendo erro...
— Sinto muito muito, senhorita, mas...
— Você precisa nos ajudar... É obrigado, porque minha amiga, Neya Tormic, é... É... É sua
filha...

Os olhos de Wolfe se abriram desmesuradamente e não gostando de seu olhar, transferi o meu
para a garota.

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— Minha filha? Explodiu Wolfe. — Que farsa é essa?
— Não é nenhuma farsa... É sua filha...
— Minha fi...! Wolfe ficou engasgado momentaneamente; mas em seguida conseguiu
encontrar um fiozinho de voz e adicionou: — Você me disse que se chamava Neya Tormic.
— Disse que seu nome na América é Neya Tormic como o meu é Carlota Lovchen. Wolfe,
erguido, olhava-a com aterradora fixação.
— Não acredito... Não posso acreditar... Tudo isso é uma trama indigna... Minha filha
desapareceu...
— Você não a vê desde que ela tinha três anos... Não é verdade?
— Realmente.
— Pois agora a verá. É muito bonita. Abriu a bolsa e procurou algo nela. — Já imaginava que
o deixaria em dúvida, adicionou, — Por isso fiz com que Neya me desse algo que você não terá
esquecido... Olhe!

Entregou a Wolfe um papel que este examinou com escrupulosa atenção. Eu observei que à
medida que o fazia franzia ainda mais as sobrancelhas. Quando terminou a leitura, dobrou-o
deliberadamente e o guardou no bolso. A senhorita Lovchen estendeu a mão.

— Não, disse, — Precisa me devolver... Tenho que entregá-lo a Neya, a menos que você
mesmo queira fazê-lo... Wolfe olhou-a e repôs:
— Não sei nada sobre isto; mas o documento é autêntico. É minha assinatura sem dúvida
alguma e pertencia a minha filha... Mas, quem me assegura que não foi roubado?
— Para quê? Exclamou ela encolhendo os ombros. — Você é teimoso até o exagero... Acha
seriamente que iriam roubá-lo e trazê-lo através do oceano para induzi-lo a que nos ajudasse
neste...? Não seja estúpido... Foi ela mesma que me deu para que o mostrasse a você... O que
ainda faz aí sem se mover?... Você é duro como a pedra...? Vai deixar que metam a sua filha na
cadeia, que irá voltar a ver depois de vinte e tantos anos, podendo salvá-la?
— Não sei... Claro que não sou insensível, mas tampouco cândido... Não pude dar com o
paradeiro dessa garota, quando regressei para a Iugoslávia. Não a conheço.
— Mas América a conhecerá... A filha de Nero Wolfe presa por roubo...! Com a coincidência
de que jamais roubou algo... Puf!

Wolfe deu um profundo suspiro. Fez-se um longo silêncio durante o qual distingui a respiração
dos dois. Finalmente ele murmurou:

— É absurdo, grotesco...! Por muito que alguém imagine, a vida nos faz sempre a melhor...!
Coloquei muita gente na cadeia, mas também salvei outras da reclusão. Senhorita Lovchen,
tenha a bondade de informar ao senhor Goodwin os detalhes do aperto em que se encontra sua
amiga. Ajeitou-se na sua cadeira e fechou os olhos.

Da atropelada narração da jovem eu pude compreender que ela e sua amiga ensinavam dança e
esgrima no estúdio de Nikola Miltan, na Rua Quarenta e Oito Este. É uma espécie de clube
particular com clientela escolhidíssima e preços apropriados às lições. Conseguiram seus
empregos pela recomendação de Donald Barret, filho de John P. Barret, da firma Barret & De
Russy, banqueiros.

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O vestíbulo, situado no andar superior, se compunha de uma sala grande e duas pequenas.
Havia também dois guarda-roupas, um para homens e outro para mulheres, onde os clientes
trocavam seus trajes de rua pelo da esgrima. Um dos alunos da esgrima era um individuo
chamado Nat Driscoll, de idade mediana, gordo e rico. Na tarde anterior havia declarado a Nikola
Miltan que: quando se dirigia ao vestiário, depois de terminar a lição de esgrima, que a senhorita
Carla Lovchen havia lhe dado, vira a outra professora de esgrima, Neya Tormic, junto da porta
aberta do guarda-roupa, revistando os bolsos de seu paletó, colocando-o em seguida no cabide,
fechar a porta e se dirigir tranquilamente ao vestíbulo. Depois de fazer uma inspeção em seu
traje, coisa que fez o quanto antes possível, comprovou que sua carteira estava com o conteúdo
intacto, e até que tivesse se vestido não se lembrou dos diamantes, que guardava em uma caixa
de pílulas. Revistou minuciosamente todos os bolsos e não os encontrou. Haviam desaparecido.
Imediatamente Driscoll exigiu que fossem devolvidos.

Respondendo as perguntas que Nikola Miltan fez, a senhorita Tormic negou que soubesse da
existência dos diamantes, assim como a afirmativa do senhor Driscoll de que ela havia revistado
o paletó dele. A acusação, disse, era ultrajante, infame e falsa. Ela não estivera no vestiário e
jamais pensaria em remexer nos bolsos dos clientes. Neya se submeteu a uma revista na sua
pessoa, que Jeanne Miltan, a esposa de Nikola, efetuou. Todos os que se encontravam no
estúdio naquele momento, empregados e clientes, foram interrogados por Miltan. Driscoll
declarou reiteradamente que vira Neya revistando seu paletó e que reconhecera perfeitamente
seu rosto, e que estava certo de que estava vestida com o traje de esgrima. Neya e Carla
insistiram que as revistassem uma vez mais antes de sair do estúdio para retornar à casa.

Miltan ficou frenético ante a ameaça do que o escândalo traria para a reputação de seu
estabelecimento e resistiu vitoriosamente à exigência de Driscoll de que chamasse a polícia no
ato. Gastou duas horas daquela mesma manhã suplicando a Neya que lhe dissesse onde estava
os diamantes, o que havia feito com eles, a quem os havia dado e quem era seu cúmplice; mas
ela lhe respondeu com o desprezo que suas palavras mereciam. Em uma tentativa desesperada
para resolver o mistério sem o concurso da policia e para evitar a publicidade negativa,
convocou a todos os que se achavam no estúdio, em qualquer de seus dois andares, no dia do
roubo, para que se reunissem naquela mesma tarde as cinco em ponto.

Na presença de Neya Tormic, Miltan disse à sua mulher que iria a solicitar a ajuda de Nero Wolfe
para esclarecer o assunto, e Neya, sabendo que este era seu pai, declarou impetuosamente que
Nero atuaria em seu favor. Mas não era partidária de revelar sua identidade a seu pai por razões
compreensíveis para ela, e Carla, quando se dirigiu ao escritório de Wolfe, havia prometido não
contar o segredo a ninguém que não fosse o interessado. Terminada a narrativa, Carla olhou
para o seu relógio de pulso e exclamou:

— São cinco para as quatro...! Precisamos sair imediatamente... Sem mover sequer os olhos,
Wolfe grunhiu:
— Por que o senhor Driscoll não denunciou Neya Tormic no ato, quando a viu, como afirma,
revistando os bolsos?
— Porque estava nu. Vinha do banho.
— E é tão gordo, que preferiu perder os diamantes a afrontar o ridículo de que o vissem
pelado?

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— Disse que ficou muito surpreso para poder falar e que a ladra fechou rapidamente a porta
e desapareceu na direção do vestíbulo. Em seguida, como encontrou a cigarreira de ouro e a
carteira intactas, não voltou a pensar no acontecido até que, já vestido, se lembrou dos
diamantes...
— Os guarda-roupas tem chave?
— Sim, mas são muito descuidados lá. As chaves são deixadas em qualquer lado.
— Você afirma que a senhorita Tormic não roubou os diamantes?
— Juro.
— E não sumiu nenhuma outra coisa dos bolsos do senhor Driscoll...? Algo cuja menção ele
tenha omitido inadvertida ou intencionadamente, como cartas, documentos ou torrões de
açúcar?
— Nada... Absolutamente nada.
— A senhorita Tormic esteve no vestiário?
— Por que haveria de ir?
— Responda... Esteve?
— Não.

Os olhos de Wolfe estiveram a ponto de se abrir, mas continuaram fechados depois de um


ligeiro piscar.

— Desde quando sabe que é minha filha? Continuou perguntando.


— Eu sei toda a minha vida... Tenho sido... Sua mais íntima amiga e por ela soube seu...
Nome...
— Você ia dizer minha deplorável intransigência, não é? Inquiriu de repente Wolfe com
extraordinária violência. — Ah, insensatas, que enchem seus peitos com ardor ao pensar nas
heroicidades dos séculos passados! Acodem ainda de gatinhas para recolher as migalhas
debaixo da mesa de Donevitch?
— Nós somos... Levantou o queijo e sus olhos soltaram chispas. — Preservaremos a honra,
adicionou. — E dividiremos a glória.
— O que dividirão algum dia será a ignomínia, loucos, cegos e egoístas... Você é uma
Donevitch?
— Não. O peito da garota inchou, mas não só com ardor, pelo que parecia.
— Como se chama?
— Carla Lovchen.
— Como se chama em sua pátria?
— Não estou na minha pátria agora. A garota levantou a mão em um gesto de impaciência e
agregou: — A que vêm todas estas perguntas sobre mim? Não se dá conta do que lhe contei
sobre Neya? Que é sua filha? Repito que se não procurar esclarecer este caso, a policia intervirá
e...

Wolfe se levantou. O relógio de parede marcava quatro horas e dois minutos e sua rotina diária,
que incluía uma sessão vespertina nas orquídeas das quatro em ponto até as seis, e se imaginava
inalterável pelo fogo, a água ou o assassinato, estava irremediavelmente atrasada. Fiquei
estupefato ao observar que, ainda que tenha dado uma olhada no relógio, ele se limitou a se
colocar de pé.

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— Archie, disse, — Faça o favor de levar a senhorita Lovchen para a sala da frente e volte
para receber instruções. Ela tentou protestar...
— Não há tem...
— Por favor, interrompeu-a Wolfe. — Deixe-me trabalhar do meu modo. Vá com o senhor
Goodwin.

Saí e ela me seguiu. Quando, depois de deixá-la na sala vizinha, regressei ao escritório, Wolfe me
disse:

— Atrasei-me. Não vale a pena dizer nada ao senhor Driscoll, nem a ninguém, até que você
venha dali e me informe. Precisarei telefonar ao senhor Hitchcock, de Londres, antes de ir para
cima. Apanhe o livro em que está anotado o seu telefone particular.

Apanhei-o do cofre e entreguei.

— Obrigado. Vá com ela se encontrar com a senhorita Tormic. Segundo este documento,
tem o direito a usar o meu nome. Se for assim, é impossível que tenha subtraído diamantes do
bolso do paletó de um homem. Parta desse princípio.
— A senhorita Lovchen quer que lhe devolva esse documento.
— Nada disso. Conservá-lo-ei por enquanto. Nikola Miltan também é da península, da Sérvia
do Sul, a antiga Macedônia. Encontre a senhorita Tormic e fale com ela. Sua primeira
preocupação serão os diamantes; a segunda, o documento que a senhorita Lovchen guardou no
meu livro. Se não conseguir resolver o problema com os diamantes e o senhor Driscoll insistir
em avisar a polícia, traga-o aqui.
— Como e em quantos pedaços?
— Traga-o. Você sabe fazê-lo.
— Muito obrigado por opinião tão favorável; mas acho que é melhor que apresente a minha
demissão...
— Sua demissão?
— Sim, senhor Wolfe. Você afirmou ao agente secreto que jamais se casou. Não obstante,
você tem uma filha... Não que eu seja puritano, mas há limites...
— Não seja estúpido. Trata-se de uma órfã que adotei... Movi a cabeça ceticamente.
— É uma boa saída, mas muito simples. O que você acha que minha mãe diria se soubesse?

Vi no rosto de Wolfe que ele não estava para brincadeiras, e sem dizer uma palavra apanhei no
vestíbulo meu paletó e chapéu, retirei do escritório a princesa imigrante e saí da casa. Quando
partimos no carro e eu entrei na Avenida do Parque, pensei que Wolfe devia estar disposto a
fazer qualquer coisa por sua filha, pois não vacilou em gastar vinte dólares numa reunião
transatlântica com Londres, ainda que não pudesse compreender naquele momento como meu
chefe conseguiria proporcionar a sua filha a ajuda de que ela precisava.

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CAPÍTULO 3

Até certo ponto a reunião das cinco no estúdio de Nikola Miltan se parecia a um jogo fora de
moda, em que "o castigado" devia perguntar a todos os assistentes: "Diamantes, diamantes!
Quem tem os diamantes?"

As pretensões do lugar eram mais reais que aparentes. Não havia nada que não fosse novo ali,
mas não dava a impressão de que tudo tivesse sido disposto para causar sensação agradável aos
clientes. Segui Carla em suas tentativas para localizar Neya e dei uma olhadela ao que me
rodeava. Tratava-se de uma dessas casas velhas de quatro andares. No rés-do-chão havia uma
recepção, uma sala grande e duas pequenas; subindo um lance de escada se chegava a um
longo corredor com um tapete cinzento e portas que levavam às salas particulares destinadas às
aulas de dança; dois andares mais e se viam duas salas de dimensões medianas, uma grande, as
duchas e os vestiários; no último andar superior, morava Miltan e sua esposa. Estes não os vi
então. Encontramos finalmente Neya no vestiário de senhoras. Carla trouxe-a até o corredor
onde eu permaneci esperando, me apresentou e apertamos as mãos.

— Você poderá fazer algo neste horrível assunto, senhor Goodwin? Perguntou-me. —
Precisa fazer...! Esse homem que me acusa, está mentindo...! Eu esperava que Nero Wolfe, o
meu pai...

Sua voz tinha um ligeiro acento estrangeiro, mas pronunciava as palavras muito melhor que
Carla. Verifiquei que não se parecia em nada com Nero Wolfe, mas como qualquer mulher que se
parecesse com ele, poderia se exibir nas barracas das feiras, na certeza de ficar rica em pouco
tempo. Tinha os olhos tão negros quanto Carla e era quase da mesma estatura, uma polegada
mais alta do que normal, mas seu queixo e todo seu rosto traziam a ideia de que era uma dessas
mulheres que parecem falar sem mover os lábios: "Aproxime-se, mas não me toque.".
Conhecendo seu pai há muito tempo, submeti-a a um exame preliminar com muito mais
interesse do que até então tivera com qualquer outra mulher e minha primeira impressão foi
que havia nela excelentes qualidades, tanto físicas como morais, mas para poder chegar a um
julgamento definitivo sobre ela deveria esperar uma análise ulterior. Quando me apresentaram
usava sobre o vestido uma bata verde com cinto, fechada negligentemente na frente, deixando
ver uma blusa branca de seda, uma saia curta da mesma cor e sapatos de treinamento.

— Estava dando uma aula, disse. — Miltan me pediu que o fizesse. Não quer nenhum
escândalo... Mas esse idiota do Driscoll parece empenhado em que ele tenha. Se esse mentiroso
estivesse em meu país, já teríamos lhe dado o que merece... Porque o meu pai não veio, senhor
Goodwin?
— Nero Wolfe...? Ah, senhorita! É um caso típico de inércia perniciosa. Jamais vai a algum
lugar por alguém.
— É que eu sou sua filha adotiva.
— Isso eu já entendi. Indubitavelmente, você já está em Nova Iorque há um par de meses e
o nome de Nero Wolfe se acha em todas as listas telefônicas, daí...
— É que ele, senhor Goodwin, me abandonou... Ensinaram-me a odiá-lo e não pensei...
— ...Dar-se a conhecer se não tivesse nessa difícil situação, não é...? Minha impressão é que
foi você que o abandonou ao fazer três anos. Mas não discutamos. Enviaram-me aqui para
impedir que a detenham e o tempo é curto. Parece-me que você é suficientemente inteligente

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para compreender que precisará me contar toda a verdade sem omitir nenhum detalhe. O que
você fazia mexendo na roupa de Driscoll? Levantou o queijo e me fuzilou com os olhos.
— Nada. Eu não toquei nela.
— Então o que estava fazendo no vestiário dos homens?
— Não estive ali.
— Tem aqui alguma outra garota que se pareça com você?
— Não... Não.
— Não há quem se assemelhe o suficiente para que Driscoll pudesse confundi-la com você?
— Não.
— O que você fazia ontem na hora em que Driscoll afirma que a viu revistando seu paletó?
— Dava aula ao senhor Ludlow.
— De esgrima?
— Sim, de espada.
— Na sala grande?
— Não; na pequena do fundo.
— Quem é o senhor Ludlow?
— Um cavalheiro que vem ter aulas de esgrima e espada.
— Você está certa de que estava com ele, na hora em que Driscoll disse que a viu revistando
o paletó?
— Sim. O senhor Driscoll foi ver Miltan. Às vinte para as cinco. Disse que havia demorado
quinze minutos para se vestir. Eu comecei a aula do senhor Ludlow às quatro e ainda estávamos
na lição de esgrima quando Miltan veio me procurar.
— Você não saiu da sala em que estava dando a aula todo esse tempo?
— Não. Carla Lovchen interveio para dizer:
— Neya... Esqueceu-se que Belinda Read afirma que a viu, no corredor, um pouco antes das
quatro e meia?
— Belinda está mentindo, repôs Neya com calma.
— O cavalheiro que estava com ela a viu também.
— Pois ele também mente.

Pensando que a reunião de família iria se realizar na cadeia, se a coisa continuasse assim,
perguntei:

— E o senhor Ludlow? Mente também?

Neya titubeou, levantou as sobrancelhas e antes que pudesse responder, se ouviu uma voz
masculina, ao mesmo tempo em que o dono da voz aparecia na quina do corredor que levava à
escada. Era da minha idade e estatura, com um par de olhos claros e um terno cinzento de corte
perfeito, o que demostrava que o alfaiate não era um desses que trabalham nas lojas de roupas
prontas.

— Estava lhe procurando, disse se aproximando com um sorriso convencional. — Miltan


pediu que vá ao seu escritório. Trata-se desse ridículo assunto. Carla Lovchen disse:
— Senhor Ludlow, o senhor Goodwin.

Apertamos as mãos, nossos olhares se encontraram e ele me causou boa impressão, não porque
em seus olhos lera amizade, mas porque demostrava bom senso.

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— Senhor Ludlow, perguntei, — A senhorita Tormic lhe deu ontem à tarde aula de esgrima?
— Sim, senhor.
— Esteve continuamente com você desde as quatro até quatro e meia? Levantou as
sobrancelhas e sorriu.
— Olhe, a única coisa que sei de sua pessoa é que você se chama Goodwin.
— Represento a senhorita Tormic. Ela solicitou os serviços de Nero Wolfe e eu sou seu
ajudante. Ludlow olhou para Neya, que confirmou com a cabeça.
— Nero Wolfe...? Poderá ajudá-la?... Bem... Acredito que a senhorita Tormic afirmou ontem
que esteve todo o tempo comigo.
— E o que você diz? Ludlow levantou as sobrancelhas de novo.
— Não gostaria de chamar a senhorita Tormic de mentirosa... Vamos descer ao escritório...?
Driscoll ainda não chegou, mas não vai demorar.

Enquanto descíamos a escada, eu ia pensando no modo de me apoderar de Driscoll e levá-lo à


Rua Trinta e Cinco, pois não via outra solução para impedir que Neya Tormic fosse parar na
cadeia.

O escritório era a sala grande situada no fundo do andar inferior. Em seu interior se via um
grande tapete vermelho, duas mesas de escritório e várias cadeiras espalhadas. As paredes eram
decoradas com quadros em que apareciam homens e mulheres dançando e esgrimindo de pé,
com um florete na mão. Havia também um retrato a óleo do mesmo Miltan, vestido com uma
espécie de uniforme. Também se viam espadas e adagas penduradas. Descobri que o retrato era
de Miltan, porque Carla Lovchen me puxou pela mão e me apresentou a ele e a sua esposa.

Nikola era pequeno e magro, quase um anão, com olhos e cabelos negros e um grande bigode
cujas pontas estavam viradas para Este e Oeste. Parecia nervoso e agia como se estivesse. Tão
rápido como apertou minha mão, pediu desculpas e saiu do escritório. Sua esposa, apesar de
suas roupas nova-iorquinas e de seu penteado mil novecentos e trinta e oito, parecia uma dessas
gravuras coloridas que vemos na Geografia, com um rodapé que diz: "Mulher camponesa de
Wzcibrrcy levando um urso à igreja.". Por outro lado, era bonita para os que gostam desse tipo e
tinha olhos perspicazes. Coloquei-me junto a uma vitrina de vidro que continha numerosas
curiosidades, entre elas uma pequena espada sem gume e com ponta rombuda que, pelo que
parecia, não era uma realmente, pois em uma etiqueta apoiada sobre ela se lia:

ESTA ARMA FOI USADA POR NIKOLA MILTAN EM PARIS EM 1931, GANHANDO COM ELA O
CAMPEONATO MUNDIAL

Dei uma olhada ao meu redor e vi o campeão do outro lado da sala, se elevando sobre as pontas
dos pés para falar com um individuo de ombros largos, seis pés de estatura, uns trinta anos de
idade, nariz ligeiramente resfriado e olhar inexpressivo. Continuei olhando. Se a filha tanto
tempo perdida por Wolfe não tinha subtraído os diamantes de Driscoll, era provável que a
pessoa que o fez estivesse entre os presentes. Ouvi em seguida a voz de Carla Lovchen junto ao
meu ouvido:

— Você não vai fazer nada? Dei de ombros.


— Não posso fazer nada, senhorita... Pelo menos agora. O que Miltan espera?

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— O senhor Driscoll ainda não chegou.
— Ele falou que viria?
— Disse que sim. Concordou unicamente em esperar até agora para avisar a policia.
— Com quem Miltan está conversando? Carla voltou a cabeça e respondeu:
— Chama-se Gill. É um aluno de dança. Era o que estava ontem com Belinda Read quando
viram Neya no corredor. Pelo menos eles dizem isso.
— Quem é Belinda Read?
— Aquela que está de pé junto a cadeira. A mais bonita, com cabelos como âmbar amarelo,
que fala neste momento com aquele jovem.
— Parece uma bonequinha com roupa nova de seda... Quando ao jovem, me parece que já o
vi em filmes... Quem é?
— Donald Barret.
— O filho de John P. Barret, da firma Barret & De Russy? O mesmo que conseguiu o
emprego para vocês?
— Justamente.
— Quem são as outras garotas?
— As três do canto e a que está sentada em um extremo da mesa são professoras de dança.
A que está falando neste momento com a senhora Miltan é Zorka.
— Zorka?
— Sim, a famosa modista. Cobra quatrocentos dólares por um vestido... Mais de vinte mil
dinares...
— Pois se parece com uma senhora que está numa pintura da biblioteca que temos em casa
e que se aproveitou do sono de Sansão para lhe cortar o cabelo... Não me lembro o nome da
dama a quem me refiro, mas apostaria a que não é Zorka... Vende diamantes em seu
estabelecimento?
— Ignoro.
— Claro que os que foram roubados ela não venderia. Atenção, Miltan vai começar um
discurso.

O campeão de espada, com Percy Ludlow a seu lado, foi até o centro da sala para atrair a
atenção dos presentes. Mas alguns continuaram distraídos e ele precisou bater palmas para que
voltassem os olhos para ele. Dois continuaram falando e a senhora Miltan os reduziu ao silêncio
com um psiu enérgico.

— Por favor! Estava tão nervoso quanto parecia. — Senhoras e cavalheiros... O senhor
Driscoll ainda não chegou... É muito desagradável para mim ter que pedir que aguardem mais
um pouco... Enquanto isso o senhor Ludlow dirá a vocês algo muito interessante. Percy Ludlow
cravou seus olhos nos rostos dos que o rodeavam.
— Bem, observou com tom de conversação. — Realmente não vejo por que precisamos
esperar Driscoll... Foi ele quem armou este escândalo... Quero fazer uma declaração que
gostaria que vocês ouvissem... Todos conhecem a absurda acusação de Driscoll com respeito à
senhorita Tormic. Poderão compreender perfeitamente o acontecido, se examinarem a roupa
que eu estou usando e que é a mesma que eu estava ontem à tarde. Vocês não observaram
nada estranho nela?
— Eu sim, clamou uma voz. Ludlow sorriu.
— E o que você observou, Madame Zorka?

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— Que o material é do mesmo tecido que a roupa que o senhor Driscoll usava. Duas vozes
femininas também exclamaram simultaneamente.
— Eu também notei! Ludlow assentiu com a cabeça.
— Pelo visto, disse, — Driscoll utiliza os serviços do mesmo alfaiate que eu. Em sua voz se
notava uma espécie de ressentimento, como se aquele fato lhe parecesse deplorável. — O corte
é idêntico, prosseguiu. — Eu estranho que nenhum de vocês mencionasse isso ontem à tarde...
Esta coincidência explica por que Driscoll, quando viu a senhorita Tormic retirando a cigarreira
do bolso do meu paletó, achou que ela estava revistando suas roupas. O armário em que
penduro a minha roupa quando me troco fica junto do dele...

Houve um coro de exclamações. Os olhares se afastaram do rosto de Ludlow para se cravarem


no de Neya e vice-versa. Os dedos de Carla Lovchen se cravaram nervosamente em meu braço,
mas não reagi porque queria ter a mente clara e disposta para a ação. Ludlow adicionou no
mesmo tom casual:

— Ontem à tarde, quando a senhorita Tormic ouviu a terrível acusação de Driscoll, ficou
estupefata. Impulsiva e talvez insensatamente, negou que tivesse estado no vestiário. Ao ouvir
sua negação me surpreendi. Se a tivesse contradito, minha afirmativa teria produzido uma
impressão errônea, pelo que decidi confirmar sua declaração de que estivera comigo o tempo
todo... Não obstante, depois de pensar muito, me convenci de que agi mal... Driscoll está certo
de ter visto a senhorita Tormic revistando seu paletó. A senhorita Read e o senhor Gill afirmam
também que a viram no corredor, junto à porta do vestiário, pouco antes das quatro e meia.
Está claro que a única maneira de desvirtuar a acusação que pesa sobre a senhorita Tormic é
dizer a verdade, que é esta: Ontem tarde, quando estávamos na aula de esgrima, se rompeu a
minha correia do peito e precisei trocá-la. Enquanto estava fazendo isso tive vontade de fumar...
Nem a senhorita Tormic nem eu, tínhamos cigarros, pelo que lhe dei as chaves do meu armário e
pedi que fosse buscá-los...

Deixei de observar o rosto de Ludlow para examinar o de Neya, mas não pude ler nada em seu
semblante nem em seus olhos. Não estava nem assustada, nem contente. Parecia surpresa, mais
do que outra coisa; eu assim afirmaria, ainda que fosse improvável. Houve um murmúrio na sala,
que Miltan interrompeu ao dizer, se dirigindo mais ao espaço do que à plateia:

— Então esteve lá! Ludlow assentiu negativamente.


— Sim, esteve lá; mas foi revistar meu paletó, não o de Driscoll. Estou certo disso, porque
retornou com meu isqueiro e os cigarros. Demos algumas tragadas e em seguida recomeçamos
os assaltos até que chegou o recado de que Miltan desejava ver a senhorita Tormic...

Interrompeu-se e perdeu os seus espetadores. Abriu-se a porta e entraram dois homens. O


primeiro era um indivíduo de cabelos grisalhos, cheio de dignidade e com um ar que infundia
respeito. Atrás dele, praticamente escondido atrás do primeiro, entrou um exemplar de
obesidade de cinquenta anos de idade, lábios grossos e espaçadas sobrancelhas. Miltan saiu ao
encontro dos recém-chegados.

— Estávamos esperando-o, senhor Driscoll...

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— Eu lamento, disse o gordinho tartamudeando. — Creia que sinto... Muito... Senhor Miltan.
Apresento-o ao senhor Thompson, meu advogado. O homem de cabelos grisalhos estendeu
displicentemente a mão para Miltan e disse com voz sonora:
— Sou o conselheiro do senhor Driscoll... Achei preferível vir pessoalmente para esclarecer
este assunto tão extremadamente desagradável... Tenha a bondade de me apresentar à
senhorita Tormic?
— Aquela é a Senhorita Tormic... O advogado se inclinou cortesmente ante Neya e disse:
— São estas as pessoas ante as quais o senhor Driscoll acusou-a ontem? Neya permaneceu
silenciosa. Miltan se apressou a responder por ela:
— É verdade. Estávamos esperando o senhor Driscoll para...
— Eu sei. Atrasamo-nos porque o meu cliente não queria vir e precisei persuadi-lo de que
sua presença era absolutamente necessária. Senhorita Tormic, o que vou dizer será dirigido
principalmente a você, mas em honra à justiça devem ouvi-lo também todos estes senhores e
senhoritas que nos rodeiam. Vamos aos fatos. Quando o senhor Driscoll saiu de casa ontem de
manhã, trazia no bolso uma caixa de pílulas que continha certo número de diamantes, que ele
iria levar a um joalheiro para que os engastasse em uma pulseira. Do seu escritório ligou para o
joalheiro e discutiram o assunto. Seu secretário apanhou a caixa com os diamantes para levá-la à
joalheria, onde está neste momento. Em seguida, mais tarde, o senhor Driscoll esqueceu
inocentemente, que seu secretário...

Interrompeu-lhe um coro de comentários. Sorriu para Neya, mas ela não lhe devolveu o sorriso.
Driscoll havia retirado um lenço e secava o suor que brotava de sua testa congestionada,
tentado em vão encontrar um lugar onde fixar a vista sem achar um par de olhos cravados com
expressão rancorosa nos dele. Miltan balbuciou:

— Quer dizer que esta infamante... Que esta vil...?


— Por favor! O advogado levantou uma mão. — Deixe-me terminar. O eclipse amnésico do
senhor Driscoll é indesculpável, mas ele estava honradamente convencido de que vira a
senhorita Tormic revistando seu paletó...
— Era o meu! Exclamou Ludlow. — Como você pode ver, o tecido é idêntico.
— Isso explica tudo... Estavam no mesmo armário?
— Não. O meu estava no contíguo... E o senhor Driscoll deveria se certificar bem antes de
fazer uma acusação tão grave.
— Você tem razão. O advogado concordava com tudo. — Nem sequer a semelhança dos
tecidos constitui um perdão para o meu cliente. Por isso insisti em que viesse apresentar
pessoalmente as suas desculpas à senhorita Tormic na presença de todos vocês. Sua vacilação é
compreensível. Está extremadamente embaraçado e humilhado. Voltou-se para o seu cliente e
adicionou: — Fale! Driscoll, com o lenço na mão, se dirigiu a Neya Tormic.
— Apre... sen... to... Um pedido... De... Descul... pas. Acredite que sin... to muito... Nikola
Miltan disse gravemente:
— Você tem bons motivos para sentir muito, senhor Driscoll. Isso teria sido desastroso para
a senhorita Tormic e para mim, se você tivesse levado a cabo seu propósito de avisar a...
— Já disse que lamento muito... O advogado interveio para dizer amável:
— Podemos esperar que nos perdoe, senhorita Tormic? Apanhou um envelope do bolso e
prosseguiu: — Trouxe uma carta do senhor Driscoll em que ele apresenta suas desculpas
confirmando o que já foi dito verbalmente... Você poderia assinar uma notinha renunciando a
processar o meu cliente pela injúria que lhe fez? Estou certo de que...

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— Um momento! Eu disse interrompendo-o. — Represento a senhorita Tormic e... O modo
com que me olhou era uma ameaça.
— E quem é você, senhor, se pode saber? Perguntou-me. — Você é advogado?
— Não, não sou, respondi; — Mas falo inglês, represento à senhorita Tormic e não estamos
ante um tribunal... Ela não assinará nada...
— E por que não, meu senhor? Trata-se simplesmente de um par de frases sem carácter
formal...
— Pois esse é o caso, eu odeio as informalidades... O que aconteceria se Miltan, chateado
por este escândalo, colocasse-a na rua? E se a coisa se estender pela cidade e todo o mundo a
apontar com o dedo...? Você já sabe o que diz o proverbio sobre a calúnia... Miltan disse
gravemente:
— Não tenho a menor intenção de despedir a senhorita Tormic, mas concordo em que não é
necessário que ela assine nada. Tenho certeza de que ela não irá causar ao senhor Driscoll o
menor problema... Não é, senhorita Tormic? Neya falou pela primeira vez.
— Não... Claro que não.

Disse isso com uma estranha indiferença, para uma garota que acabava de escapar do perigo de
ser tratada como uma ladra. Deu-me a sensação de que estava pensando em outra coisa. O
advogado insistiu:

— Então, senhorita Tormic, se pensa assim, não verá inconveniente em assinar a...
— Maldito seja! Deixe-a em paz de uma vez! Exclamou iradamente o senhor Driscoll. —
Malditos advogados! Se não tivesse me faltado coragem teria vindo sozinho e teria feito melhor
que você! Encarou Miltan e adicionou: — Já lhe apresentei minhas desculpas... Lamento,
lamento muito... Você não pode saber o quanto me desgosta isso... Há muitos anos que estou
muito gordo. Já fiz de tudo para emagrecer... Pratiquei exercícios ridículos, estive em hospitais
campestres, participei de odiosas brincadeiras de crianças jogando balões no ar e correndo,
remando, nadando... Montei em cavalos tão altos como arranha-céus... A única coisa que tenho
feito para perder gordura e que gostei, foi a esgrima... Serei um mau esgrimista, mas estou
gostando muito... Não me importo se a senhorita Tormic assinar esse papel ou não... O que eu
quero é continuar sendo amigo do senhor Miltan... Senhorita Lovchen! Também desejaria
continuar sendo seu amigo... A senhorita Tormic é sua amiga e eu me comportei com ela como
um imbecil. Você gostaria de continuar me dando aula de esgrima?

Alguém soltou uma risadinha. Os assistentes começaram a se mover. O advogado recobrou seu
aspeto digno. Carla disse:

— Sou empregada do senhor Miltan e seguirei suas instruções.

Nikola falou algumas palavras diplomáticas de conciliação. Era indubitável que Driscoll não se
veria privado de sua diversão. Voltei-me para ver o que acontecia atrás de mim. O fenômeno
sem queixo, cujo nome ainda ignorava, um garoto ruivo de lábios delgados e nariz agressivo que
andava como um militar, se aproximou de Neya sorrindo debilmente e lhe disse algo agradável,
seguindo-o Donald Barret, que o imitou em tudo. A senhora Miltan deu a Neya uns golpezinhos
nas costas. Percy Ludlow se aproximou da garota e falou com ela uns instantes.

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— Suponho que não terá se irritado comigo, senhorita, disse sorrindo, quando ela veio até
mim. — Nero Wolfe não teria lhe permitido assinar nada que não fosse um cheque ao seu favor.
— Vou dar a aula de esgrima ao senhor Ludlow. Muito obrigado por ter vindo, senhor
Goodwin.
— Seus olhos estão brilhando, senhorita.
— Sempre brilham.
— Não dirá nada para seu pai?
— Agora não...
— Por que não vai visitá-lo?
— Irei qualquer dia... Até a vista.
— Até a vista.

Ao se virar, Neya tropeçou com o advogado, que se desfez em desculpas. Em seguida, o senhor
Thompson me encarou.

— Quer me dizer o seu nome, senhor? Eu disse. Ele repetiu: — Archie Goodwin... Muito
obrigado... Permite-me perguntar em que conceito você representa a senhorita Tormic? Eu
fiquei exasperado.
— Ouça, disse, — Acredito em que um advogado tem direito a viver, mas estou convencido
de que, quando morrer, nem as minhocas vão querer entrar em seu ataúde, com medo de que
as faça assinar algum papel. Suponho que, se não assinarem esse que trouxe, vai ter uma
síncope... Passe-o para cá. Do envelope que ainda segurava na mão, apanhou o documento e me
entregou. Uma olhada me convenceu de que suas duas frases, sem carácter de formalidade,
eram cinco parágrafos dos grandes, repletos de conceitos legais. Apanhei a caneta e com minha
melhor letra escrevi no lugar marcado com uma cruz ao pé do memorial: "Rainha Victoria.".

— Tome, disse entregando-o e saindo escapado antes que pudesse reagir, pois sei muito
bem do que é capaz um homem a quem se fere a dignidade.

A sala estava quase vazia. A esposa de Miltan se achava junto à uma mesa de escritório falando
com Belinda Read, Carla Lovchen. Os demais haviam desaparecido, provavelmente para
proporcionar ao rico gordinho a sua diversão favorita. Apanhei o chapéu e o paletó, que havia
deixado no cabide do vestíbulo e após colocá-los saí para a rua.

O relógio de pulso me dizia que faltavam quatro para as seis. Wolfe ainda estaria nas sala
destinada as plantas; e ainda que não ficasse muito contente que o interrompessem quando se
achava ali, eu considerei que nesta ocasião não se tratava de negócios, mas de um assunto de
família, e entrando no primeiro estabelecimento com telefone público, entrei na cabine e
disquei o número do meu chefe.

— Senhor Wolfe? Goodwin. Estou em uma drogaria, entre a Rua Quarenta e Oito e
Lexington... Tudo terminou... Foi uma comédia em três atos. No primeiro, ela... Refiro-me a sua
filha... Parecia estar mais irritada que preocupada... No segundo, um individuo chamado Percy
Ludlow, afirmou que Neya estivera revistando seu paletó, procurando cigarros a seu pedido:
esta confissão assombrou a garota, a julgar por sua expressão... No terceiro ato Driscoll entrou
acompanhado de um advogado e de uma carta de desculpas. Não levara os diamantes no bolso
ontem à tarde, então não podiam ter sido roubados. Foi um erro. Disse muitas vezes que sentia

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muito... Decidi retornar para casa, mas antes quero adicionar que ela não parece com você em
nada e que é uma garota deliciosa...
— Está certo de que foi tudo esclarecido?
— Eu não afirmaria, mas parece que sim.
— Dei-lhe duas tarefas. O que me diz da outra?
— Nada. Havia muita gente e quando a reunião acabou as duas saíram para dar suas aulas
de esgrima.
— Quem é esse Percy?
— Percy Ludlow. Um homem da minha idade e estatura, muito parecido comigo, educado,
distinto...
— Disse que a mi... Que a senhorita Tormic parecia irritada? Tem aspeto de estúpida...?
— Nada disso. Talvez seja um pouco, como diria eu...? Complexa; é isso, complexa... Mas de
estúpida não têm nada. Fez-se um silêncio que durou tanto que por fim exclamei: — Está aí,
senhor Wolfe?
— Sim. Traga-a. Quero vê-la .
— Imaginava isso. É um sentimento natural que lhe honra muito; mas eu perguntei se ela
queria mandar dizer algo para você e me disse que não, que irá a visitá-lo qualquer dia... Neste
momento está medindo armas com Percy...
— Volte lá, espere que termine e traga-a.
— Está falando sério?
— Sim.
— Precisarei raptá-la, por que...

Desligou, me deixando com as palavras na boca, uma das coisas que mais raiva me dá neste
mundo.

Entrei em um bar, pedi um copo de suco de uva e enquanto bebia estive pensando sobre a
forma de persuadir Neya a que me acompanhasse sem necessidade de utilizar força bruta, mas
não consegui encontrar nenhum raciocínio que me convencesse, então paguei o suco e desci
pela Rua Quarenta e Oito em direção novamente ao teatro de operações.

No escritório só restavam Nikola Miltan e sua esposa. Pareceu-me que esta se dirigia à porta
quando eu entrei, mas assim que viu que eu pendurava o chapéu no cabide e que, retirado o
paletó, deixava-o junto daquele, ao mesmo tempo em que manifestava a intenção de esperar
que a senhorita Tormic terminasse de dar sua aula, para falar com ela, a senhora Miltan mudou
de ideia decidindo permanecer junto ao seu esposo. Miltan me ofereceu uma cadeira e me
sentei a curta distância da mesa onde ele se achava, enquanto sua esposa abria a porta da
grande vitrina e colocava em ordem o que realmente não estava desordenado.

— Lembro-me ter sido apresentado ao senhor Nero Wolfe, começou a dizer Miltan
cortesmente.
— Isso eu já soube, assenti com um gesto.
— É um homem notável, notabilíssimo...
— Conheço um senhor que é do mesmo parecer.
— Um somente?
— Pelo menos um. O senhor Wolfe.

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— Ah! É uma piada... Riu cortesmente. — Creio que há muitos outros. Na realidade... O que
é, Jeanne? A senhora Miltan acabava de soltar uma exclamação em língua estrangeira,
exclamação que ao mesmo tempo podia ser de surpresa e de espanto.
— Col de mort! Disse por fim. — Não está aqui... Você apanhou?
— Não... Estava aí... Estou certo... Levantou e se aproximou trotando da vitrina. Eu o imitei.
Os dois ficaram olhando alguns segundos para um ponto determinado. Em seguida Miltan
começou a abrir e fechar gavetas.
— Não, disse a senhora Miltan. — Não está aqui... E não falta mais nada... Há tempos que
quis comprar um cadeado para colocar aqui.
— Mas, querida, respondeu Nikola. — Não há motivo plausível para supor que alguém
tenha roubado o col de mort. É um objeto curioso, mas sem nenhum valor intrínseco...
— O que é um col de mort? Perguntei.
— É uma pequena peça.
— Que tipo de pecinha?
— Não sei como explicar... Olhe... Passou um braço através da porta aberta da vitrina e
golpeou um dedo na ponta da espada que havia nela.
— Como você pode ver, a espada não espeta, pois é chata...
— Estou vendo.
— Uma vez, em Paris, há muitos anos, um homem quis matar outro e fabricou uma peça
com uma ponta afiadíssima, um dispositivo engenhoso que se podia adaptar ao extremo da
espada. Apanhou a arma da vitrina e a empunhou. — Depois de ter colocado o dispositivo na
espada, fez um ataque em quarta.

E se atirou a fundo sobre uma imaginaria vítima situada tão próxima de mim e com uma
celeridade tão inesperada e incrível, deu um salto de costas com uma agilidade que jamais tinha
suspeitado possuir. Levantei um braço disposto a vencer o campeonato e vi que com a mesma
celeridade que se lançara havia recobrado a posição normal.

— Assim, sorriu ao mesmo tempo em que colocava a arma no seu lugar. — Uma estocada
em quarta atravessa teoricamente o coração; naquela ocasião não foi precisamente uma teoria.
Um policial que era amigo meu, me deu a diminuta peça como mera curiosidade. Os jornais a
batizaram com o nome de col de mort. Colar da morte. Porque se adapta ao extremo da espada
como se fosse um colar.
— E agora desapareceu, murmurou a esposa.
— Espero que não, repôs Miltan. — Não há motivo para que o roubem. Já se falou muito de
roubos por aqui... O encontraremos. Perguntaremos a todos.
— Deus queira que não esteja errado, eu disse. — E agora que falou de perguntar, me
permitiria que fizesse um par de perguntas à pessoa encarregada da limpeza das salas de
esgrima?
— Para quê?
— Simples curiosidade. Quem faz a limpeza?
— O porteiro, mas não posso adivinhar para... A mulher o interrompeu com os olhos.
— Quer saber se foram encontradas pontas de cigarros e cinza, na sala onde a senhorita
Tormic deu aula de esgrima ontem à tarde ao senhor Ludlow, disse ela serenamente. Fiz uma
careta e declarei:

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— Se me permite uma observação pessoal, senhora Miltan, lhe direi que devia ter
adivinhado em seus olhos que você é muito mais inteligente do que parece. Ela continuou me
olhando em silêncio.
— Da minha parte, disse Miltan, — Não compreendo em que pode interessá-lo as pontas de
cigarros, nem por que a minha mulher conseguiu adivinhar que lhe interessam. Sou um pouco
lerdo.
— É uma justa compensação por essa terrível agilidade que você possui, ao empunhar esse
brinquedo. Permite-me falar com o porteiro?
— Não, respondeu Jeanne.
— Por que não?
— Porque não é necessário. Ignoro a que se propõe, mas acho que a senhorita Tormic está
errada se acredita que você é seu amigo. Se quiser saber se ela e o senhor Ludlow estiveram
fumando, por que não pergunta a ela?
— Penso em fazê-lo; mas antes gostaria de falar com o porteiro... Que dano eu posso
acarretar com isso?
— Não sei. Talvez você não tenha más intenções, mas o assunto de hoje já terminou... Teria
sido muito prejudicial para nosso estabelecimento... Era algo muito delicado, se tratando de um
lugar como este. Um sopro pode destruir o que tanto trabalho nos custou construir. Por isso
não estranhará que, ainda que você não pretenda causar dano à senhorita Tormic, nem a nós,
direi ao porteiro que não responda às suas perguntas. E agora vai querer examinar os peitos
para ver se alguma correia está rompida.
— Como sabe que pensei nisso?
— Simplesmente, não acredito que seja um idiota. Se você sentiu curiosidade pelos cigarros,
também sentirá pela correia rompida. Dei de ombros.
— Está bem... Empregou a palavra precisa... Sou curioso... Todos os detetives são... Mas se
você conhece Nero Wolfe, saberá que só cria problemas a quem os causam.

A senhora Miltan me olhou um instante, correu a porta de vidro da vitrina e se voltou para mim
de novo.

— Esta manhã, disse, — Meu marido anunciou que estaria disposto a encarregar Nero
Wolfe, para que investigasse o desaparecimento dos diamantes do senhor Driscoll. A senhorita
Tormic estava presente e disse que ela já havia solicitado a Nero Wolfe que agisse em seu favor.
Pouco depois sua amiga, a senhorita Lovchen, me pediu permissão para sair e fazer umas
compras. Não só os detetives possuem o defeito da curiosidade. Se eu...

Interrompeu-se e ficou com a boca aberta e o corpo rígido. Miltan girou sobre os calcanhares
para se virar até a porta do corredor. Eu fiz o mesmo. O alarido que acabava de ressoar
estremecendo as paredes era algo que, ainda que o tivéssemos esperando, teria feito que nós
tremêssemos de pavor se fosse ouvido em plena selva durante a noite. Quando ressoou o
segundo alarido, nós três nos lançamos de tácito acordo para a porta. Miltan se adiantou e no
corredor aumentou a velocidade em direção à escada e nós nos seus calcanhares. Não se
ouviram mais gritos, mas sim rumores de comoção, passos, vozes... No segundo andar, as
pessoas que saíam de todas as salas obstruíam a passagem. Miltan parecia um canguru. Não o
teria alcançado, ainda que me tivessem oferecido um prêmio. No patamar do segundo lance da
escada precisamos fazer alto. Um homem de cor se debatia entre os braços do fenômeno sem
queixo; Nat Driscoll dava saltos de epiléptico e as duas garotas dos Balcãs, com roupa de

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esgrima, se apoiavam, palidíssimas, contra a parede. Zorka gemia sistematicamente um pouco
afastada do grupo. Antes que Nikola Miltan pudesse avançar um passo e de que eu o alcançasse,
Jeanne me empurrou bruscamente para um lado e se adiantou.

— Arturo! Gritou com voz que teria parado um furacão. — O que aconteceu?

O negro parou de se debater, voltou seus olhos para ela e disse algo que não compreendi, mas
ela sim, pois se lançou instantaneamente para o corredor. Eu a segui e notei que alguém vinha
atrás de mim. Jeanne chegou à última porta, a da sala do fundo. Estava aberta e passou através
da abertura sem diminuir a velocidade. De repente parou e eu não pude imitá-la a tempo, pelo
que tropecei nela. Vi então Percy Ludlow, estendido de lado, tão inclinado que teria adotado a
posição de decúbito supino se não o tivesse impedido a ponta da espada que o atravessara de
lado a lado.

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CAPÍTULO 4

Jeanne Miltan e eu demos meia volta ao mesmo tempo. Donald Barret e o fenômeno sem
queixo vinham atrás de nós.

— Não entrem na sala do fundo. Percy Ludlow foi assassinado. Procurem reunir todos no
escritório. Isso simplificará as coisas quando a polícia chegar. E sem prestar atenção à onda de
perguntas que seguiu a esta declaração, me lancei à escada, seguido pela senhora Miltan.

Ao chegar em baixo, ela se dirigiu à parte de trás, onde ficava o escritório, enquanto eu
continuava para a porta que dava à rua, depois de atravessar o vestíbulo. Por um momento
estive tentado a sair para avisar Nero Wolfe pelo telefone, mas imediatamente pensei que, se
cruzasse a porta da rua, me daria muito trabalho entrar novamente e decidi me posicionar junto
a ela como um vulgar carcereiro. Do lugar em que me achava podia ver todos os ocupantes da
casa agrupados na escada. A maioria estava silenciosa e assustada, mas duas das professoras de
dança conversavam sem parar. Belinda Read, a bonequinha com roupa nova de seda, veio até
mim em vez de se dirigir ao escritório e me disse que tinha uma entrevista importantíssima, ao
qual lhe respondi que nos achávamos no mesmo caso, mas que ambos precisaríamos adiá-las
para uma melhor ocasião. Donald Barret, que havia se mantido em segundo plano, se aproximou
de nós.

— Ouça, senhor... Compreendo que eu fique aqui, já que sou quase um espetador do
acontecido; mas esta jovem... Você é policial?
— Não.
— Então, meu querido amigo, você se vire, fale comigo um momento e deixe que a
senhorita saia e vá à entrevista.
— E antes de um quarto de hora toda a polícia sairá atrás ela e a deterão em um segundo.
Não sejam bobos. Vocês nunca interviram em assassinatos, não é verdade...? Claro que não... O
pior que podem fazer é fugir e dar motivos de suspeitas à polícia... Senhorita Tormic!

Apareceram as duas sérvias, que cruzaram com Donald e a outra garota, olhares que se tinham
para elas algum significado para mim não tiveram nenhum. Belinda Read disse:

— Vamos, Don. E se dirigiu com o jovem para o escritório.

Carla havia colocado um casaco sobre seu traje de esgrima e Neya ainda usava a bata verde,
fechada tão negligentemente como antes, com uma mão escondida entre suas dobras.

— Não há tempo para falar, senhoritas. Vou lhes fazer uma pergunta e é possível que a vida
das duas dependa da resposta que me deem. Cravei meus olhos nos de Neya e inquiri:
— Você matou Ludlow?
— Não.
— Repita! Você o matou?
— Não. Voltei-me para Carla.
— E você?
— Tampouco, mas devo lhe dizer...

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— Não há tempo para que me digam nada... Mas poderiam... Pelos chifres de Belzebu! Já
estão aqui!

Saíram correndo para o escritório ao mesmo tempo em que os policiais atravessavam o


vestíbulo. Abri a porta de vidro para que entrassem e em seguida a voltei a fechar de novo. Eram
dois agentes uniformados.

— Vocês são agentes do distrito?


— Não... Radiopatrulha... Quem é você?
— Archie Goodwin, detetive particular da agência de Nero Wolfe. Encontro-me aqui por
pura casualidade. Lá, no escritório, estão a senhora Miltan, seu esposo, outros e outras e dois
andares mais acima há um cadáver.
— Quer ficar de vigia um pouquinho mais? Vamos, Bill.

Dirigiram-se para o escritório enquanto eu brincava com os dedos. Dois minutos depois um deles
voltou ao vestíbulo e começou a subir a escada. Dois minutos mais tarde chegaram outros
agentes à paisana, mas se via a cem léguas que eram do distrito, não da brigada criminal. Fiz um
breve relato do acontecido. Um dos deles me substituiu na porta, outro subiu as escadas, e um
terceiro se dirigiu para o escritório, me pedindo que o acompanhasse. Um da radiopatrulha, com
a língua entre os dentes, anotava nomes em um livro de notas. O agente do distrito falou com
ele um instante e ambos seguiram até a senhora Miltan.

Decidi me ocultar perto de um armário. Clientes e empregados se achavam espalhados pelo


escritório, uns sentados, outros de pé, silenciosos. Dei uma olhada em seus rostos buscando
algo interessante ou significativo, e de repente vi algo ante meus olhos que me sobressaltou.
Meu paletó estava no lugar onde o havia deixado, pendurado num cabide, mas a aba do bolso
esquerdo estava metida por dentro e o mesmo bolso aparecia inchado por algo que havia em
seu interior. Não é que eu presuma elegância nem muito menos, mas jamais me aconteceu de
sair à rua com as abas dos dois bolsos do paletó enfiadas para dentro. Além disso, o bolso a que
me refiro estava vazio quando pendurei o paletó. Estava certo disso. Estive a ponto de estender
a mão para apalpar o conteúdo do meu bolso, mas me contive. Olhei ao meu redor para ver se
alguém me observava, e convencido do contrário, apanhei tranquilamente o paletó e o chapéu
do cabide e me dirigi com extraordinária serenidade até a porta do corredor. Um grunhido que
soou atrás de mim me fez parar.

— Ei! Aonde você vai, amigo? Dei meia volta e disse em voz alta, mas sem grosseria, ao
policial que acabava de falar:
— A direção deste estabelecimento não é responsável pelos chapéus e paletós que possam
desaparecer, e como sei que ainda virá muita gente, decidi guardar os meus debaixo de chave
em algum armário pelo que possa acontecer.

E ao terminar de dizer isso comecei a andar muito decidido para a porta. Havia uma
probabilidade contra três de que o sabujo abandonasse a senhora Miltan e se lançasse em
minha perseguição, mas não o fez. No corredor nem sequer olhei para a esquerda, onde se
achava um policial de guarda. Sabia que teria sido inútil tentar convencê-lo de que me deixasse
passar. Voltei para a direita e cheguei a uma porta estreita que já vira antes. Abri-a e vi uma
escada de madeira que levava para baixo. Havia um interruptor elétrico ao meu alcance, mas

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sem acioná-lo fechei a porta atrás de mim, acendi a minha lanterna de bolso e desci a escada em
silêncio, mas sem perder tempo. Fazendo oscilar a luz verifiquei que me achava em uma sala de
teto baixo cheia de caixas de papelão de embalagem. Estas ocupavam todo o centro da sala. Dei
a volta ao seu redor procurando o fundo da sala, onde via os retângulos de duas janelas
separadas entre si por um pequeno espaço.

De repente fiquei imóvel ao descobrir, ajudado pela luz da lanterna, a ponta de um sapato que
sobressaia de uma pilha de caixas. Por sua posição deduzi que havia um pé dentro do sapato e
que o dono do mesmo havia notado a minha presença. Imediatamente movi a lanterna para
cima, meti a mão no bolso apanhei a pistola e disse em voz alta, ainda que não muito:

— Não se mova! Estou apontando uma arma e confesso que sou muito nervoso. Se estiver
com as mãos vazias, coloque-as por cima das caixas. Se não... Ouvi um som atrás do monte de
papelão, metade gemido, metade lamento. Retirei a mão do bolso e avancei com um gesto de
desgosto. — Pelo amor de Deus! O que aconteceu, Arturo? O negro gemeu:
— Eu vi...!
— Eu também. Olhe, Arturo, não disponho de tempo para perder. O que pensava fazer...?
Ficar aqui escondido até morrer de fome?
— Não quero ir para lá, senhor. Digo que...
— Está bem. Deixei a lanterna em cima de uma caixa. Coloquei o paletó e o chapéu, guardei
a pistola no bolso posterior da calça e apanhei de novo a lanterna. — Vou para a parte de trás da
casa, tentar impedir que o assassino escape. O melhor que você pode fazer é ficar aqui onde
está... Tem a chave daquela porta?
— Não tem chave... Só uma maçaneta...
— E do outro lado...? Um pátio com uma cerca ao redor?
— Um muro, senhor.
— Com porta?
— Sem porta, senhor.

Sobre a minha cabeça, pois o teto da sala correspondia ao andar do escritório, ouvi dezenas de
passos pesados, entre os quais me pareceu reconhecer as pisadas dos sapatos quarenta e cinco
do inspetor Cramer. A brigada criminal já tinha chegado. Tive sorte, pois ao começar a andar
descobri uma escada da altura de uma criança apoiada sobre as caixas. Apanhei-a, pedi a Arturo
que gritasse pedindo socorro se ouvisse vir alguém, puxei a maçaneta da porta traseira e saí
para o pátio com a escada.

O pátio tinha uns quarenta pés de comprimento por trinta de largura e os muros eram um metro
mais altos do que eu. Cheguei ao final do pátio, apoiei a escada no muro e antes de pular olhei o
que havia ante meus olhos. Era um pátio parecido ao que eu me achava, mas com uma porção
de objetos desconhecidos espalhados por ele e um outro objeto conhecido. Tratava-se de uma
pessoa corpulenta, vestida de branco com um avental. O individuo parecia estar fazendo
exercícios respiratórios a julgar pelo modo como resfolegava. A poucos metros além dele saía
luz por uma porta aberta. Sem pensar mais subi no muro e saltei para o outro lado. Pelo ruído
que fiz ele levantou a cabeça, mas antes de expressar seu assombro eu perguntei:

— Você viu o gato?


— Que gato?

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— O gato da minha esposa. Um animal monstruoso de pelo amarelo. Ele correu para cá e
saltou o muro. Quando o encontrar eu vou estrangulá-lo. Você deve tê-lo visto.
— Eu não vi, senhor.
— Bem, é possível que não o tenha visto, mas estou certo de que veio para cá... Talvez foi
atraído pelo agradável cheiro que vem da cozinha... Entrei nesta, e ante os assombrados olhares
que recebi de ajudantes e cozinheiros, me limitei a dizer:
— Estou procurando um gato.

Segui um garçom que saía com uma bandeja e cheguei ao restaurante propriamente dito, onde
uma multidão de garçons se afanavam em servir os clientes com seu costumeiro zelo. Um deles
me bloqueou a passagem e eu lhe disse secamente:

— Estou procurando um gato.

O garçom se afastou como se eu tivesse dito que estava com lepra. No salão o caixa ficou me
olhando estupefato e a garota do guarda-roupa estendeu instintivamente as mãos para mim;
mas eu repeti pela última vez:

— Estou procurando um gato. Atravessei mais duas portas finalmente saí para a rua.

Meu primeiro impulso foi dobrar a esquina e entrar no carro, mas imediatamente pensei que o
tinha estacionado a poucos metros da porta de Miltan e decidi apanhar um táxi. Fiz parar um,
subi nele, dei ao motorista o endereço de Wolfe e resisti à tentação de olhar o objeto que tinha
no bolso, por temor a que o taxista pudesse vê-lo pelo retrovisor também.

Quando atravessei o vestíbulo, pendurei o chapéu num cabide, mas conservei o paletó vestido.
Wolfe estava sentado ante a mesa de seu escritório, tendo na frente dele a caixinha de metal
que se guardava ordinariamente em uma gaveta do cofre e da qual só ele tinha chave e que
jamais havia aberto na minha presença. Sempre imaginei que continha documentos particulares,
mas o mesmo podia ter sido fios de cabelos ou as chaves secretas do exército japonês. Eu o vi
colocar algo na caixinha e fechar a tampa. Em seguida me olhou com expressão inquisitiva.

— O que aconteceu? Perguntou-me. Movi a cabeça.


— Fracassei. Eu a teria trazido se tivesse a menor ocasião de colocar em jogo meus dotes de
fascinação pessoal, mas circunstâncias imprevistas...
— Que circunstâncias puderam obrigá-lo a vir sozinho?
— Não me obrigaram exatamente, senhor. Lembra que mencionei quando falei com você
pelo telefone de um indivíduo chamado Percy Ludlow afirmara que sua... Que Neya Tormic fora
apanhar os cigarros no seu paletó por seu próprio pedido...? Pois bem, foi assassinado.

Referi-lhe detalhadamente todo o acontecido, vendo aparecer em seu rosto gordo a surpresa
que o caso lhe produzia. Quando terminei me perguntou:

— E que objeto encontrou no bolso do paletó?


— Ignoro, disse retirando o paletó e estendendo-o em sua mesa. — Pensei que seria mais
divertido se descobríssemos juntos. Ao tato me pareceu ser um pedaço de ferro... Sim, é de

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ferro. Meti dois dedos e o apanhei. Era uma luva e ao abri-la uma peça diminuta de metal caiu
sobre a mesa. Uma peça de ferro reforçada...
— Não toque! Falei, me inclinando para examinar o estranho objeto. Media tinha um quarto
de polegada de grossura. Num extremo possuía três protuberâncias em forma de dedal e o
outro era longo e agudo. — Eu sabia! Murmurei, me erguendo.
— E que diabos é isso?
— Não se deu conta, senhor Wolfe? É o col de mort!
— E acha que este objeto foi utilizado para...?
— Não tenho a menor dúvida, senhor. O extremo da espada que matou Ludlow era tão
chato quanto o seu nariz e Miltan me afirmara antes que não poderia atravessar ninguém
daquele modo. Por conseguinte, esta peça foi retirada da espada depois de se ter efetuado o
assassinato. Considero desnecessário observar as manchas existentes sobre a luva em que
estava envolto o col de mort.
— Obrigado, já vi.
— Você também terá se dado conta de que se trata de uma luva de mulher. Parece grande
pela forma com que está feito, mas não é o suf...
— Obrigado, Archie; já vi tudo.
— Suponho que já pensou no que poderia acontecer se tivessem me revistado e
encontrassem essa pecinha no meu bolso...

Interrompi-me porque vi que seus lábios se moviam. Havia fechado os olhos e ficou deste modo,
silencioso, uns trinta segundos. Em seguida apertou o timbre e Fritz apareceu como um gênio
benéfico, vestido com um gorro e um avental similares ao do individuo do pátio vizinho ao de
Miltan que não vira o gato da minha mulher.

— Apague a luz do vestíbulo e não abra a porta da rua, apareça quem aparecer, disse Wolfe.
— Está bem, senhor.
— Se o telefone tocar, atenda da cozinha. Archie não está aqui e você não sabe nem onde
se encontra nem quando virá e eu estou ocupado e não quero que me interrompam. Feche as
cortinas das janelas e... Antes de mais nada, sobrou algum pão desses italianos redondos?
— Sim, senhor.
— Traga-o, assim como uma faca pequena e um rolo de papel encerado.

Quando Fritz saiu, eu o segui, pendurei meu paletó no cabide e passei o ferrolho da porta
principal. Ao regressar ao escritório, Fritz já havia voltado com uma bandeja na qual trazia os
objetos pedidos e Wolfe atacou o pão com uma faca que cortava como uma navalha de barbear.
Descreveu um círculo de quatro polegadas de diâmetro no centro do pão e em seguida cavou
um buraco redondo até a parte de baixo, deixando esta intacta. Então apanhou o col de mort
com as pontas dos dedos polegar e indicador, o colocou na palma da luva, envolveu tudo no
papel encerado e o colocou no buraco aberto no pão. O espaço que ficou livre ele encheu com
pedaços de papel, colocando por cima outro pedaço do papel encerado para tapar a abertura.
Em toda a operação não gastou mais de três minutos. Quando terminou, disse a Fritz:

— Faça um creme gelado de chocolate, cubra o pão com ela o coloque na geladeira. Leve as
migalhas e coma-as se quiser.
— Sim, senhor. Fritz recolheu a bandeja e saiu para terminar o pedido.
— Deixei esse objeto bem guardado porque há alguém que sabe que está aqui.

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— Quem?
— A mesma pessoa que o colocou no seu bolso. Quem teve a oportunidade de fazê-lo?
— Todos. Estavam todos no escritório enquanto eu estava vigiando a porta.

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CAPÍTULO 5

Eram quinze para as dez quando nos levantamos da mesa e voltamos ao escritório. Uma vez ali
comecei a fazer ligações telefônicas. Johnny Keems e Orrie Cather haviam saído de suas casas e
deixei recado para que ligassem para o escritório tão logo regressassem. Consegui falar com
Fred Durkin e Saul Panzer e disse que esperassem ordens. Não fazia cinco minutos que havia me
sentado quando tocaram o timbre da porta. Wolfe me autorizou a abrir e quando esperava uma
nuvem de policiais, entrou uma pessoa conhecidíssima de todos nós, com o chapéu de feltro
sobre um dos dois olhos e com um charuto apagado na comissura de uma boca ampla e
voluntariosa.

— Muito honrado, disse, passando para um lado; — Muito honrado, inspetor.


— Vá para o inferno, grunhiu o inspetor Cramer ao entrar.

Fechei a porta, apanhei seu paletó e chapéu, Pendurei-os no cabide e voltei ao escritório. Wolfe
cumprimentou-o amavelmente e afirmou que sua visita constituía um prazer que não havia tido
ocasião de sentir há vários meses. Cramer sentou, tirou o charuto da boca, se colocou em uma
posição melhor, me olhou com expressão colérica e disse:

— Onde você estava, Goodwin? Não, não fale... Sei que não dirá a verdade... Você é o diabo
mais inoportuno com quem tropecei em minha vida. Infinitas vezes já o encontrei, sem
conseguir sacar de você nada de proveitoso e hoje ao investigar um assassinato, me dizem que
uma importantíssima testemunha acaba de apanhar o paletó e chapéu e sair tranquilamente.
Depois descubro que essa testemunha é você... Na única vez em que deveria estar em um lugar
quando eu cheguei havia desaparecido! Disse-lhe em outras ocasiões que o estrangularia por um
centavo. Hoje, meu querido Goodwin, eu faria gratuitamente. Perguntei sem pestanejar:
— Você encontrou o Arturo?
— Encontramos... Não lhe interessa o que encontramos. Por que fugiu?
— Para não ser despedido, inspetor. O senhor Wolfe me enviou ali com uma missão e
instruções precisas para que viesse informá-lo tão logo tivesse terminado o assunto que ali me
levava. Você sabe que o senhor Wolfe não admite desculpas.
— Responda-me, Goodwin! O que aconteceu no espaço de tempo que se passou entre a
chegada dos agentes e o momento em que você apanhou o chapéu e o paletó do cabide e
desapareceu?
— Nada.
— Sim, aconteceu algo e vou descobrir.
— Está errado, inspetor. Não aconteceu nada. Um dos agentes já estava na porta e como eu
não tinha mais nada o que fazer ali e o senhor Wolfe estava me esperando...
— Posso afirmar, inspetor, disse Wolfe lentamente, — Que a missão que confiei a Goodwin
não era para prevenir, nem para provocar assassinatos. Realmente ignorávamos que fosse ser
cometido um.
— Sei perfeitamente por que foi. É o assunto dos diamantes de Driscoll. Mas esqueçamos
disso. Goodwin esteve vigiando a porta até a chegada dos agentes de distrito; quer dizer, os da
radiopatrulha. Estes entraram e o deixaram sozinho na porta. Pouco mais tarde chegaram novos
agentes e então o substituíram. Goodwin sabe perfeitamente como age a brigada criminal,
quando aparece um caso destes. Se tivesse necessidade de vir informar você sobre o
acontecido, precisaria apenas apanhar o carro e vir num momento. Em vez disso esperou a

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chegada dos agentes, passou em seguida ao escritório e de repente apanhou o chapéu e o
paletó, desceu ao sótão, ameaçou com um revólver o Arturo, o criado negro, saiu ao pátio com
uma escada, saltou o muro, disse ao cozinheiro do restaurante contíguo que procurava o gato
da mulher, chegou à Rua Quarenta e Nove, apanhou um taxi, ordenando ao motorista que o
trouxesse aqui a toda velocidade... E diz que não aconteceu nada no intervalo de tempo
compreendido entre a chegada dos agentes e o momento em que decidiu desaparecer da casa
de Miltan! O que acha?
— Parece-me simplesmente um processo cerebral complicado. Estou acostumado a essas
coisas, desgraçadamente.
— Goodwin não tem nada de idiota.
— Não é... Quer dizer, não é de todo... Quer um pouco de cerveja, inspetor?
— Não, Obrigado. Wolfe apertou o botão, se ajeitou em sua cadeira e apoiou as mãos no
voluminoso ventre.
— Realmente, senhor Cramer... Você precisa dormir... Considerando o ponto que acaba de
colocar, responderei pelo Archie dizendo que não queria ficar ali até a meia-noite como estão
acostumados. Se algo aconteceu no intervalo que citou, posso afirmar que não temos a menor
intenção de contar, pelo menos por agora; assim não valerá a pena insistir. Por outro lado, que
poderia Archie dizer que já não tivessem dito seus agentes?

Fritz chegou com uma bandeja que continha uma garrafa de cerveja e um copo. Wolfe
destampou a garrafa, se serviu e continuou falando:

— Quer saber por que enviei Archie ali? É muito simples. Uma garota chamada Carla
Lovchen, a quem nenhum dos dois tínhamos visto na vida, veio aqui nesta tarde me pedir que eu
fizesse uma investigação em favor de uma amiga dela chama Neya Tormic, que havia sido
acusada de furto. Este assunto se esclareceu pela intervenção do mesmo senhor Driscoll que,
pelo que parecia, é um cretino incurável. Perguntará agora por quê, terminado o assunto,
Goodwin voltou a casa de Miltan, depois de ter saído? Eu responderei que ele me informou por
telefone do acontecido e eu lhe ordenei que voltasse. Você sabe perfeitamente que quando me
encarregam uma coisa gosto que me paguem. Talvez sejam sintomas de velhice, pois se diz que
os idosos são avaros, mas gosto de cobrar o estipulado, ainda quando, como neste caso
particular, tenha posto no assunto mais vontade que raciocínio. Fiz o senhor Goodwin voltar
para falar com a senhorita Tormic e a estava esperando no escritório de Miltan quando se
ouviram os gritos do porteiro.

Cramer coçou o queixo com expressão de incredulidade. Observou Wolfe enquanto este bebia o
copo de cerveja e em seguida se voltou para mim e exclamou:

— Você não tem nada de idiota, Goodwin. Algum dia, quando não estiver ocupado, lhe direi
o que você é, mas não é idiota... Quer me contar algo mais?
— Sim... Achava-me no escritório conversando com o senhor e a senhora Miltan, quando
ouvimos os gritos...
— Não, não... Comece a história de muito antes; desde quando chegou ali e sem esquecer
os detalhes.

Fiz assim, no meu melhor estilo. Pelo tom de Wolfe compreendi que a táctica a seguir era
semear o relato com dados sem importância, coisa que fiz conscienciosamente. Quando

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terminei, Cramer me fez algumas perguntas que não ofereciam dificuldade, concluindo com
algumas alusões ao acontecido no intervalo compreendido entre duas fracções determinadas de
tempo. Minha única adição à primeira explicação foi a de que havia sentido fome. Cramer
permaneceu silencioso um instante, mastigando seu charuto e franzindo as sobrancelhas. Em
seguida se voltou para Wolfe e exclamou:

— Não acredito!
— Não? O que não acredita, senhor Cramer?
— Não creio que Goodwin seja idiota. Não creio que saísse do modo como o fez porque se
sentisse aborrecido nem com fome. Não creio que voltou ali para cobrar da senhorita Tormic.
Não creio que você não esteja interessado no assassinato.
— Eu disse que não estou interessado?
— Então está?
— Sim, repôs Wolfe com uma careta. — Sim. Enquanto Archie estava de guarda na porta, a
senhorita Tormic se aproximou e lhe pediu que solicitasse a minha ajuda para demostrar sua
inocência. Ele aceitou em meu nome e espero ganhar uma boa soma... Isso é o que aconteceu e
por esse motivo Archie quis e se comunicar comigo rápida e privadamente. Como você pode ver,
senhor Cramer, eu também sou capaz de ser ingenuamente sincero quando se apresenta a
ocasião. O inspetor cravou os dentes no charuto e disse raivosamente:
— Eu sabia! As sobrancelhas de Wolfe se levantaram um milímetro.
— Sabia?
— Soube no momento em que descobri de que Goodwin estivera ali e em seguida escapuliu
fingindo que caçava um gato. Já havia começado a me parecer um quebra-cabeça dos bons...
Então você tem um cliente! E apostaria que era seu cliente que estava na sala de esgrima com a
vítima quando esta foi assassinada. Olhe, Wolfe; vim aqui decidido a que colaborássemos,
apesar da suja treta de Goodwin... E o que consegui? Quer me fazer acreditar que em dez
segundos seu secretário, ou o que quer que seja, aceitou em seu nome que se encarregasse de
um caso de homicídio... Histórias...! Conheço perfeitamente suas artimanhas e eu, como um
idiota, vim aqui esperando ter uma conversa desinteressada... E você me diz que... Não acredito
em uma só palavra...

Levantei a mão e o fiz se calar. O telefone havia tocado e não ouvia uma palavra. Chamavam
Cramer. Este se levantou com um grunhido, se aproximou da minha mesa e ficou escutando
silenciosamente durante vários minutos. Parece que lhe diziam algo desagradável, pois violou a
lei sobre o uso da blasfêmia no telefone. Deu algumas instruções, desligou o aparelho, voltou a
seu assento e exclamou:

— Só faltava isso! Mordeu os lábios raivosamente e adicionou: — O caso está quase


resolvido. Não preciso mais me preocupar com dele.
— Verdade? Murmurou Wolfe.
— Verdade. Três agentes federais apareceram por lá. Qualquer um imaginaria que um
assassinato em Manhattan seria assunto da brigada criminal da qual sou o indigno chefe, mas
não... O que sou eu comparado com um agente do governo? Mas isto apresenta agora dois
aspetos agradabilíssimos. Em primeiro lugar, significa um ângulo inteiramente novo, que
nenhum de nós teria suspeitado... Em segundo, quem quer que o resolver, serão os agentes
federais que levarão a glória, como sempre acontece.

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— Leve em conta, inspetor, disse eu, — Que um agente federal é o representante do povo
americano, e não seria muito exagerado afirmar que um agente federal é a América...
— Cale-se! Oxalá consiga um emprego no Departamento de Investigação e o mandem para
o Alaska! Colocaria em ação toda a minha influência para que isso acontecesse...
— Não acredito que você tenha influência para tanto, inspetor. Mas há alguma lei que
impeça que um homem, horrorizado ante a vista do sangue, apanhasse um táxi e viesse para
casa?
— Onde você viu esse sangue?
— Não vi. Trata-se de uma figura de dicção.
— Metonimia, murmurou Wolfe.
— Podem brincar... Não vou me aborrecer... Então você tem uma nova cliente, Wolfe?
— Em principio, sim. Archie aceitou em meu nome, mas eu não a conheço nem sequer de
vista. Quando a vir e falar com ela eu vou saber se é culpada ou não, e...
— Admite que seja?
— Claro que sim, mas não lhe serviria de nada me interrogar, senhor Cramer, já que, como
você disse, não acreditaria em nada do que eu lhe respondesse, e eu, de minha parte, não
poderia colocar alguma luz neste assunto por desconhecer a minha cliente... Indubitavelmente
talvez conseguíssemos algo se você me permitisse que eu o submetesse a um interrogatório.
— Grande ideia! Maravilhosa!

Cramer jogou seu mastigado charuto no cinzeiro, apanhou outro do bolso, colocou-o na boca e
disse:

— Comece.
— Obrigado. Em primeiro lugar, vamos aos resultados obtidos. Você já prendeu alguém?
— Não.
— Conseguiu estabelecer algum motivo adequado para o crime?
— Não.
— Tem alguma conclusão definida?
— Nem definida nem indefinida.
— Não conseguiu saber nada pelo exame de impressões digitais, fotografias, encontro de
objetos acusatórios, etecetera?
— Nada. Deveríamos ter encontrado um objeto ou dois, mas não conseguimos. Você sabe
algo de esgrima? Wolfe moveu a cabeça.
— Nem uma palavra, meu querido senhor Cramer.
— Pois bem, o instrumento com o que foi cometido o crime é um objeto ao qual dão o
nome de espada. É de seção triangular, sem fio, e seu extremo inferior é tão rombudo, que se
tentasse atravessar um homem com esta arma, a única coisa que conseguiria, seria quebrar a
folha, que é extremadamente flexível. Ao esgrimir se costuma colocar nesse extremo, um botão
de aço com de três pontinhas minúsculas, com o fim de marcar no uniforme do adversário
quando este foi tocado, mas a parte grossa do botão não permitiria que a espada trespassasse o
peito que os esgrimistas usam nem a máscara com que protegem o rosto. Eu disse:
— A vítima não usava máscara alguma.
— Já sei... E isso demonstra que não estava esgrimindo quando o assassinaram. Miltan me
afirmou que ninguém esgrime a espada sem utilizar a máscara. A que Ludlow havia levado
estava sobre um banco junto à parede, e a espada que o atravessou não tinha botão, e com a
ponta rombuda é impossível que pudesse fazê-lo. Existe um pequeno dispositivo cujo

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desaparecimento a senhora Miltan descobriu quando Goodwin estava presente e que ela
chamava um coldemó... Você, que sabe francês, saberá falar melhor que eu.
— Col de mort.
— É isso... Existe um milhão de probabilidades contra uma, que esse dispositivo
desaparecido tenha sido usado na espada com que Ludlow foi assassinado. A uma distância de
alguns passos e com a arma em movimento, a vítima não pode se dar conta de que havia sido
substituído o habitual botão por esse artefato infernal... Mas o tal coldemó não estava na
espada. Alguém se apressou a retirá-lo. Revistamos todo mundo. Foi realizado, por vinte de
meus melhores homens, uma minuciosa busca. Não o encontramos. Somente uma pessoa, de
todas as que se achavam na casa quando se cometeu o assassinato, havia se ausentado...
Goodwin... Por acaso ele não o trouxe como lembrança? Wolfe sorriu levemente.
— Não acredito. Pensou na possibilidade de que o tenham jogado por uma janela?
— Claro que sim. Estão procurando ainda na escuridão, com ajuda de lanternas. Também
procuram outro objeto desaparecido. A senhorita Tormic declarou que sumiu uma luva do
armário que há no vestiário das senhoras, mas a senhorita Lovchen e outra chamada Zorka,
dizem que a senhorita Tormic está errada, e que não falta nada. A senhora Miltan não se atreve
a opinar. Ninguém parece saber o número exato de luvas para esgrima que havia ali.
— E o botão que retiraram da espada para substituí-lo pelo col de mort?
— Na gaveta de um dos armários. Contaram e localizaram todos.
— Bem. Os únicos dois objetos que poderiam servir de algo, senhor Cramer,
desapareceram. Eu prometo que se Archie os apanhou, farei que os entregue a você tão logo eu
os tenha examinado... Quer me dizer quantas pessoas havia na casa quando foi encontrado o
cadáver?
— Contando a todos, vinte e seis.
— Quantas pessoas você já eliminou?
— A quase todas, menos oito ou nove.
— Que são...?
— A primeira, a que estava esgrimindo com a vítima. Sua cliente.
— Se continuar sendo minha cliente, depois eu falar com ela, eliminá-la-ei eu mesmo. E os
outros suspeitos?
— Nikola Miltan e a esposa. Cada um deles garante a inocência do outro, mas é um álibi que
eu não dou um níquel. Temos também à garota que veio ver você. Carla Lovchen... Ela estivera
dando aula de esgrima a Driscoll, mas quando terminou foi ao vestiário. Dali poderia deslizar
furtivamente à sala do fundo e cometer o crime. Os outros suspeitos são Driscoll, Zorka, Ted Gill,
que se achava com aquela, Belinda Read, Donald Barret e um individuo chamado Rudolph Faber.
— O fenômeno sem queixo!
— É Isso. Por isso ainda não se fez nenhuma detenção. Quantos no total?
— Dez.
— Dez, então. E não conseguiu descobrir algum motivo que pudesse empurrar uma dessas
dez pessoas a...

Interrompeu-se ao soar o timbre do telefone. Atendi à ligação. Queriam falar com Cramer.

— É o chefe.
— Quem?
— O comissário de polícia. Cramer se levantou resignado e segurou o auricular com um
grunhido. Falou um longo tempo.

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CAPÍTULO 6

Aquela conversa telefônica foi realizada em duas partes. Durante a primeira, que foi bastante
longa, Cramer foi a voz principal, informando com voz respeitosamente belicosa sobre a
situação e a falta de resultados positivos até o momento. Durante a segunda, que durou muito
menos, se limitou a escutar algo que não devia ser particularmente agradável para ele, a julgar
por seus grunhidos e a expressão de seu rosto quando finalmente cortou a comunicação e
voltou a se sentar. Wolfe disse:

— Você falava sobre a falta de motivo...


— Ah, sim...! Perderia com gosto uma noite de descanso se descobrisse o que você sabe
neste momento, Wolfe.
— Custaria a você muito mais do que uma noite, senhor Cramer... Tenho lido muitos livros.
— Ao diabo os livros! Tenho certeza de que você conhece muitas coisas relacionadas com
este assassinato, mas que eu ignoro por completo. Se eu pudesse descobrir algo olhando em
seu rosto, lhe diria, sem afastar os olhos dele, que o comissário acabava de me contar que há
dez minutos ligaram do Consulado Geral Britânico. O cônsul lhe disse que recebeu com
estupefação e surpresa a notícia da morte violenta e repentina de um súdito britânico chamado
Percy Ludlow, e que esperava que não se poupasse nenhum esforço para descobrir o autor de
tão horroroso crime e castigá-lo merecidamente. Wolfe moveu a cabeça negativamente.
— Não lhe servirá de muito ficar olhando para o meu rosto.
— Estou convencido disso.
— Minha única reação ante essa notícia, senhor Cramer, é o pensamento de que o cônsul
geral britânico deve ter maravilhosas fontes de informação. São dez e meia da noite e o
assassinato aconteceu há somente umas quatro horas.
— Não há nada maravilhoso nisso. Escutou a notícia no rádio.
— Foram vocês que informaram a imprensa?
— Naturalmente.
— E vocês descobriram que Ludlow era súdito britânico?
— Não. Nenhum dos assistentes o conhecia bem.
— Então, se há algo de maravilhoso, ou pelo menos de notável, no fato de que a rádio deu a
notícia de que um indivíduo chamado Percy Ludlow havia sido assassinado na escola de Miltan,
na Rua Quarenta e Oito, é o cônsul podido deduzir imediatamente, por esta informação, que o
assassinado era súdito britânico. E não somente isso, mas não esperou até amanhã... O cônsul
telefonou imediatamente para o comissário... Destes fatos eu deduzo que Percy Ludlow era, ou
um grande personagem, ou fora encarregado de uma missão de importância excepcional. Talvez
o cônsul possa lhe dar mais detalhes a este respeito.
— Muito obrigado. O comissário terá uma reunião com ele às onze. O que acha, se
enquanto isso, você me adiantasse estes detalhes?
— Não sei de nada. Ouvi o nome do senhor Ludlow pela primeira vez pouco depois das seis
da tarde de hoje; mas você poderia me dizer por que se deve a Rudolph Faber que não tenha
feito alguma detenção?
— Não deveria lhe contar, mas não sou rancoroso... Pelo que parece, a única pessoa que
poderia ter cometido o crime é a sua cliente, Neya Tormic. Ela confessou que estivera dando
aula de esgrima ao senhor Ludlow e não há informação de que alguma outra pessoa tivesse
entrado na sala, ainda que pudesse fazê-lo sem que vissem. A senhorita Tormic adicionou que,
quando ela saiu da sala, o senhor Ludlow lhe disse que pensava se entreter um tempo ainda com

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o dummy. O dummy é um dispositivo fixo na parede com um braço mecânico ao que se pode
adaptar uma espada. Neya afirma que se dirigiu imediatamente ao vestiário, onde deixou seu
peito, luva e máscara, e em seguida...
— E a espada?
— Declarou que a havia deixado na sala de esgrima. Temos uma dezena ou mais no armeiro.
No chão, não muito longe de Ludlow, havia um daqueles botões de luta, que devia ser o que a
vítima usou. Ludlow não tinha máscara, mas depois da declaração da senhorita Tormic
tampouco há motivo para que a tivesse, a não ser que o assassino quisesse nos fazer crer que
Ludlow estava esgrimindo quando foi assassinado. Tampouco há alguma razão lógica para que
desaparecessem com o tal coldemó depois de cometido o crime... Bom isso é tudo... E no que se
refere a Faber, este se achava embaixo, numa das salas de dança, com Zorka, até que esta saiu
com Ted Gill para ensiná-lo a manejar a espada. Então ele foi para cima e vestiu a roupa de
esgrimir, com a ideia de praticar um pouco com Carla Lovchen quando esta tivesse terminado de
dar a aula de Driscoll. Achava-se no corredor superior quando viu Neya Tormic sair da sala do
fundo acompanhada de Ludlow. Este, ao ver Faber, lhe pediu que praticasse com ele um pouco,
mas Faber respondeu negativamente, então Ludlow, depois de afirmar que treinaria no dummy,
voltou à sala do fundo e fechou a porta. Faber e a senhorita Tormic se dirigiram então para uma
sala situada no outro extremo do corredor e se sentaram para fumar. Ainda se achava ali
quando o porteiro entrou na sala do fundo para limpar, achando que não havia ninguém e
encontrou Ludlow morto. Neya e Faber saíram ao ouvir os gritos do negro assim como os
outros. Wolfe, que havia fechado os olhos, os abriu uma fração de milímetro e murmurou:
— Não poderia detê-la depois disso, ainda que soubesse que era minha cliente, senhor
Cramer. Puderam ver algo do que acontecia no corredor enquanto estavam sentados?
— Não.
— Há muito que fumavam quando começaram os gritos do negro?
— Quinze ou vinte minutos.
— Alguém os viu?
— Sim. Donald Barret. Estava procurando a senhorita Tormic para convidá-la a jantar. Bateu
na porta do vestiário de senhoras e a senhorita Lovchen lhe disse que Neya não estava ali. Barret
foi procurá-la na salinha e já estava há uns cinco minutos com Faber e Neya quando o negro
começou a gritaria.
— Não lhe ocorreu procurá-la na sala do fundo?
— Não, porque a senhorita Lovchen informou-o de que Neya estivera ali para deixar o peito,
a luva e a máscara, então imaginou que Neya já havia terminado a aula. Depois de um instante
de silêncio, Wolfe exalou um suspiro.
— Bem, disse suavemente irritado. — Não vejo por que diabos você suspeita de minha
cliente. Parece estar envolta em um manto de inocência de pés a cabeça.
— Isso são apenas aparências. Existe um par de detalhes que a acusam. Pelo que se sabe,
somente ela esteve naquela sala com a vítima e estiveram precisamente se atacando com as
espadas. Quando ao álibi que Faber lhe deu, é um desses tão infantis que pode ser verdade
noventa e nove por cento, e não obstante, ser totalmente falso. Retirando a parte de sua
declaração, segundo a qual viu e falou com Ludlow quando a senhorita Tormic saiu daquela sala,
o resto fica reduzido à nada, e esta afirmativa de Faber não pode ser comprovada. Claro que não
conheço nenhuma razão que possa me fazer suspeitar de que Faber...

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A interrupção foi devida à entrada de Fritz, que se deteve um instante, e quando Wolfe lhe fez
sinal para que se aproximasse, chegou até ele e lhe estendeu a bandeja dos cartões de visita.
Wolfe apanhou o cartão, leu-o e levantou as sobrancelhas.

— Olhe Cramer, disse, — Já que você se dispõe a ir embora, eu poderia mandar colocar este
visitante na sala da frente até que você tivesse saído. Mas gosto de colaborar quando posso. Um
de seus dez suspeitos eludiu a vigilância de seus sabujos; a menos que o tenham seguido até
aqui, como é a táctica habitual.
— Qual deles? Wolfe olhou a cartão de novo.
— Rudolph Faber.
— E você disse que não o conhecia? É estranho que um desconhecido venha visitá-lo numa
hora tão intempestiva.
— Claro que sim. Faça-o entrar, Fritz.

Observei admirado ao fenômeno sem queixo. Podia se envergonhar de seu queixo, mas não de
seus nervos. É possível que não tivesse motivo algum para que a inesperada presença do
inspetor Cramer lhe produzisse terror, mas sim surpresa; mas não pude ler em seu rosto
impressão alguma. Parando simplesmente de um modo que devia ter feito soar seus saltos, mas
não soaram, levantou uma sobrancelha e em seguida continuou avançando. Cramer lhe grunhiu
algo, deu boa noite para Wolfe e para mim, e saiu. Eu me levantei para receber o recém-
chegado, deixando a cerimônia de despedida do inspetor para Fritz. Wolfe apertou a mão do
fenômeno sem queixo e apontou para a cadeira que Cramer acabara de deixar. Faber, depois de
agradecer amavelmente, se voltou para mim e disse:

— Como conseguiu escapar dali? Subornou o policial? Não gostei do tom que empregou ao
fazer esta pergunta e lhe respondi adequadamente:
— Faça-me essa consulta por carta certificada e mandarei que lhe responda o secretário de
meu secretário.
— Já está bom, Archie, disse Wolfe sem me olhar, pois tinha os olhos no visitante. — Pelo
visto senhor Faber, é pouco simpático ao senhor Goodwin. Não o leve em conta. Em que posso
servi-lo?
— Em primeiro lugar, disse Faber em perfeito inglês, — Creio que devia instruir o seu
subordinado para que respondesse às perguntas que lhe fazem.
— Tentarei, mas em outra ocasião. Em que outra coisa posso lhe ser útil?
— Não existe disciplina em seu país, senhor Wolfe?
— Claro que existe. Temos várias aulas de disciplina. Submetemo-nos às leis do trânsito e às
disposições sanitárias; mas também somos extraordinariamente aficionados a certas liberdades.
Mas suponho que não veio aqui unicamente para disciplinar o senhor Goodwin, não é verdade?
Se assim fosse, aconselharia a que não tentasse. Que outra coisa...?
— Vim satisfazer minha curiosidade quanto a sua situação e intenções no que concerne à
senhorita Neya Tormic.
— Sua curiosidade?
— Quis dizer meu interesse. Posso explicar sob certas condições e você sairia beneficiado se
me permitisse. Conheço sua reputação e métodos. Sei que você gasta muito e que precisa de
dinheiro.
— Gosto do dinheiro e sei gastá-lo. Trata-se de seu dinheiro, senhor Faber?
— Será seu quando eu lhe der.

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— Perfeitamente. O que preciso fazer para ganhá-lo?
— Não sei. Trata-se de um assunto que exige muita discrição. Você me garante que não é
um agente secreto da polícia?
— Não sei como garantir isso. Posso dar a minha palavra, pois sei perfeitamente o que ela
vale, mas você não. Agora bem; antes de entrar na discussão sobre o assunto que lhe trouxe
aqui, quero que você me diga a sua própria situação e intenções a respeito da senhorita Tormic.
Já compreendi que não é hostil para com ela, pois lhe forneceu um álibi perfeito no momento
em que se dispunham a acusá-la de homicídio premeditado. Rudolph Faber me deu uma olhada
e disse a Wolfe:
— Faça-o sair daqui! Preparava-me para fazer uma careta, mas fiquei gelado ao ouvir Wolfe
dizer:
— Faça o favor de sair, Archie. Levantei-me cambaleando; mas quando já estava na porta,
Wolfe me deteve para adicionar: — A propósito. Prometemos telefonar ao senhor Green. Ligue
da sala do senhor Brenner.
— Está bem, senhor, disse.

Fechei a porta atrás de mim e dei três passos até a cozinha. Parei ao chegar à parede esquerda, a
que separava a cozinha do vestíbulo, onde havia um quadro dividido em três seções, ficando as
duas dos lados unidas a do centro por meio de dobradiças. Fiz girar a seção da direita, me
inclinei um pouco, pois havia sido feita para o nível dos olhos de Wolfe, e olhei pelo buraco feito
ali, e que ficava escondido no outro lado, por meio de um quadro cujas duas aberturas
correspondentes haviam sido cobertas pelo óleo do quadro. Pude ver o perfil de Faber e o rosto
de lua cheia de Wolfe. Apliquei o ouvido e ouvi o que falavam; ambos diziam coisas
insubstanciáveis e decidi entrar na cozinha. Fritz estava de meias, lendo um jornal, com os
sapatos em cima de uma cadeira ao seu lado.

— Quer um pouco de leite, Archie? Perguntou ao me ver entrar.


— Não. Fale em voz baixa. O buraco está destampado.
— Ah! Seus olhos brilharam. Amava extraordinariamente as conspirações e as coisas
sinistras. — Um bom caso?
— Diabólico! A segunda guerra mundial. Começou esta tarde na Rua Quarenta e Oito. Mas é
melhor não falar.

Fiquei sentado na borda da mesa dois minutos justos e em seguida me dirigi ao telefone interior
instalado contra a parede e liguei para o escritório.

— Goodwin falando, disse ao reconhecer a voz de Wolfe. — Green diz que quer falar com
você.
— Diga que estou muito ocupado... Não, espere... Talvez se trate de algo interessante... Que
não se retire do aparelho... Vou em seguida.
— Está bem.

Desliguei e voltei ao buraco na parede do corredor. Um instante depois a porta do escritório se


abriu e Wolfe saiu, fechando-a atrás de si. Chegou rapidamente aonde eu estava, ocupou meu
posto e murmurou em voz muito baixa:

— Atenção ao meu sinal.

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Não se passara dez segundos que Wolfe havia aplicado seu olho direito no buraco, quando
levantou uma mão e a agitou. Imediatamente me pus em movimento para o escritório pisando
forte. Abri a porta e avancei até a mesa. Faber, em atitude de homem surpreendido, se achava
de costas ao armário da biblioteca, mas tinha as mãos vazias. Olhou-me uma vez, mas eu
observei que seu rosto continuava impassível. Eu sentei ante minha mesa, abri uma gaveta,
apanhei um monte de papéis e comecei a folheá-los, como se procurasse algo. Ele não disse uma
palavra, nem eu tampouco. Terminei com o primeiro monte de papéis e apanhei outro. Estava
disposto a continuar assim indefinidamente, mas não foi necessário. Quando me achava na
metade do segundo monte ouvi passos no corredor e um instante depois levantei a cabeça e
tive uma surpresa. Nero Wolfe acabava de entrar com o paletó vestido, chapéu, lenço, luvas e
bengala.

— Lamento não poder continuar atendendo-o, senhor Faber, declarou. — Pois preciso sair
neste momento. Se quiser que continuemos nossa conversa, tenha a bondade de vir amanhã
entre onze e uma, duas e quatro ou seis e oito, que são as minhas horas no escritório. Archie,
levaremos o sedan. Fritz! Fritz! Quer ajudar o senhor Faber a colocar o paletó?

Desta vez os saltos de Faber soaram fortes. O visitante saiu sem prometer que viria no dia
seguinte. Quando Fritz retornou, Wolfe lhe disse:

— Guarde isto. E lhe estendeu a bengala, o chapéu, as luvas, o lenço e o paletó.


— Ele veio revistar a "Iugoslávia Unida"... Não é, senhor Wolfe? Perguntei. Wolfe assentiu
com a cabeça.
— Tinha as mãos em cima do livro quando você abriu a porta.
— Foi um feliz acerto...
— Errou... Foi uma experiência... Em todo o tempo que esteve aqui, não disse nada lógico
nem tinha a menor intenção de dizer... Mas queria que você saísse da sala... Por quê? Para ficar
mais livre?
— Essa dedução me parece boa, mas como esperava fazer você sair também?
— Ignoro... Mas saí.
— Talvez uma das garotas dos Balcãs o tenha enviado para que recuperasse o papel...
Também pode ser que tenha obrigado a senhorita Tormic que lhe dissesse o esconderijo, já que
ele constitui seu álibi... Eureca! Ele é o príncipe Donevitch!
— Não diga besteira, Archie... Não estou com humor para ouvi-las. Preparava-me para
responder adequadamente quando o telefone soou.
— Escritório de Nero Wolfe, disse no aparelho. — Archie Goodwin falando.
— Ah, é você, mister Goodwin! Eu sou Madame Zorka.
— Verdade? Fiz um sinal para Wolfe escutasse em sua extensão e adicionei: — A vi esta
tarde na...
— Sim... Por isso é pelo que telefonei... O acontecimento foi horrível.
— Disse-o bem.
— Sim... A polícia me fez um longo interrogatório... Mas não lhes disse que vira a senhorita
Tormic colocar algo no bolso de seu paletó, mister Goodwin.
— Não?
— Não... Pensei que não era meu assunto e não queria que me aborrecessem mais. Mas
agora estou muito preocupada... Trata-se de um assassinato e a consciência não me deixa
descansar.

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— Não ligue ainda para polícia. Onde você está?
— Em meu apartamento... Rua Sessenta e Oito, 542 Este.
— Pois bem, vou apanhar a senhorita Tormic e iremos vê-la. Se você acha que somos
assassinos, coisa que não é verdade...
— Oh, não tenho medo, mas estou muito preocupada...!
— Pare de se preocupar por uns minutos. Antes de uma hora estaremos aí.

Desliguei o aparelho e me voltei para Wolfe. Mas este havia fechado os olhos e fez sinais para
que me calasse. Finalmente disse em voz baixa:

— Ligue para o senhor Cramer. Liguei para o estúdio de Miltan, mas Cramer não estava lá.
Então liguei para a sua sala, na Chefatura, onde consegui encontrá-lo. Wolfe segurou o aparelho
e disse: — Senhor Cramer? Tenho algo interessante referente ao caso Ludlow... Não. Trata-se de
algo complicado... Desejaria que enviasse um de seus homens para apanhar Madame Zorka e a
senhorita Tormic e trazer ambas ao meu escritório o quanto antes for possível... Sim, quero
colaborar com você, mas não há outra solução a não ser agir da forma que lhe proponho... Não,
não resolvi o caso ainda... Esta é uma derivação que lhe interessará... Você mesmo virá...?
Ótimo... Desligou coçou o nariz com o indicador. Eu explodi.
— Antes de trazerem estas mulheres para aqui me contará tudo o que sabe!
— Deixe-me em paz, Archie! Agora apanhe o que está dentro daquele maldito pão e volte a
colocá-lo no bolso, exatamente como estava antes.

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CAPÍTULO 7

Neya Tormic foi a primeira a chegar. Era quase meia-noite quando atendi à chamada do timbre
da porta, contente por ter a ocasião de esticar um pouco as pernas e evitando a Fritz o
problema de colocar os sapatos.

— Alô! Disse, fingindo surpresa.

Foram três pessoas as que cruzaram o umbral da porta e eu conhecia as três. A primeira a entrar
foi Neya Tormic, em seguida Carla Lovchen, e na retaguarda o sargento Purley Stebbins. Purley e
eu havíamos sido alternadamente amigos e inimigos um par de vezes. Enquanto ajudava-o a se
desembaraçar do paletó ele me disse:

— Esta outra garota fez questão de vir e eu precisaria empregar a força para separá-la da
amiga. Se não for indicada a sua presença vamos separá-las aqui...
— Cramer se encarregará disso, respondi. — Não demorará a chegar. Vá à cozinha e Fritz
lhe dará um bom pedaço de lombo de porco... Você já sabe o caminho, não é?
— Sim, mas... Não queria perder de vista a...
— Vamos, amigo... Trata-se de uma reunião e já sabe que pode confiar no senhor Wolfe e
em mim... Ou não lhe atrai a ideia de se atracar ao lombo de porco e a uma xícara de café? Sem
responder, ele se encaminhou rapidamente para a cozinha. Eu levei as duas garotas para o
escritório.

Temia que Wolfe se complicasse, ao se ver ante duas montenegrinas ao mesmo tempo, mas o vi
se levantar e cumprimentá-las como um homem. Em seguida se sentou, depois de tê-las
convidado, e examinou atentamente o rosto de Neya Tormic. Esta disse de repente:

— Você mandou a polícia me buscar?


— Não. Foi o inspetor Cramer.
— Mas você deve ter sugerido.
— Agora você acertou, senhorita Tormic. Precisei fazê-lo, dadas as circunstâncias. Precisava
impedir que detessem o senhor Goodwin, que é meu secretario particular e você entende que
não poderia continuar em seu posto, ao ficar na cadeia... Ainda que talvez se trate de uma
mentira, depois de tudo... Quero que fique bem clara a acusação que pesa sobre você, na
presença do inspetor Cramer.
— Disse-lhe que sou sua filha adotiva? Wolfe levantou as sobrancelhas e se voltou para mim.
— O agente que as trouxe aqui está na cozinha?
— Sim, senhor. É Stebbins... Você se lembra dele não é?
— Sim... Indubitavelmente, senhorita Tormic, acho preferível deixarmos essa conversa para
mais tarde. Não disse a polícia que você é minha filha adotiva. Por agora é convenente que não
suspeitem da existência de um vínculo tão íntimo... Não acha? Antes que a interpelada pudesse
responder soou o timbre da porta e eu exclamei involuntariamente:
— Deve ser Madame Zorka!
— Zorka? Repetiu Carla Lovchen, surpresa. Mas não foi Zorka, mas Cramer, quem entrou,
acompanhado de Fritz. O inspetor percorreu a sala com o olhar, nos cumprimentou
coletivamente, e vendo que seu assento habitual havia sido ocupado por Neya Tormic, foi sentar
junto de Carla Lovchen.

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— Onde está essa Zorka? Perguntou.
— Ainda não chegou, respondi.
— E Stebbins?
— Na cozinha.
— Pois você diz, senhor Wolfe...
— Esperemos a chegada de Madame Zorka... Entretanto me diga o que o comissário soube
por intermédio do cônsul geral. Cramer o olhou estupefato. — Vamos! Não exagere na
discrição... Se alguma destas garotas matou Ludlow é porque sabia quem ele era... E se não o
mataram, o que importa que saibam? Cramer grunhiu.
— Tem razão. Amanhã provavelmente isso será publicado todos os jornais... Ludlow era
agente secreto à serviço do governo britânico.
— Verdade...? E o que procurava no estúdio de Miltan?
— O cônsul não sabe. Ludlow recebia ordens diretamente de Londres. Agora estão
tentando entrar em contato com alguém de lá. Já lhe disse antes que isto parece...

Interrompeu-se para me permitir atender ao telefone. Queriam falar com ele e me levantei para
ceder o meu assento. Depois de ter escutado um momento, o inspetor faltou uma vez mais as
disposições sobre a blasfêmia. Cortou em seguida a comunicação, voltou a seu assento e disse
olhando nos olhos de Wolfe:

— A que se devia a ideia de trazer Zorka aqui? Fale!


— Espero que venha... Foi ela quem ligou...? Não vai vir?
— Que diabos ela vai vir! Pirou-se!
— Como?
— Que se mandou! Que sumiu! Que se foi...! Ah, Wolfe, já lhe disse muitas vezes que não
brinque comigo, pois...!
— Contenha-se, senhor Cramer... Não gosto de brincar quando se trata de um assassinato.
Não pude imaginar que Madame Zorka pensasse em fugir. Ela telefonou... Que horas eram,
Archie? Consultei meu caderno de notas e respondi:
— Vinte e três e vinte e um.
— Obrigado. Como ia dizendo, senhor Cramer, ligou nessa hora para nos contar algo. Archie
respondeu que iria vê-la acompanhado da senhorita Tormic...
— Não perca tempo, Wolfe. O que disse Madame Zorka ao seu ajudante?
— Bem. Já que, segundo você me diz, Madame Zorka fugiu, trabalharemos sem ela. Ainda
que eu achasse que você a tinha submetida à vigilância.
— Acha que disponho de um milhão de homens para vigiar todos os suspeitos de
assassinatos? Enviei um homem para que a trouxesse e lhe disseram que havia saído com uma
mala e uma bolsa, dez minutos antes que o agente chegasse. Wolfe se ajeitou na cadeira e
entornou os olhos. Neya Tormic não podia imaginar que naquele momento a estava observando
como um falcão que avistara a sua presa.
— Madame Zorka afirmou que pouco depois de ter sido cometido o assassinato, viu a
senhorita Tormic colocar algo no bolso do paletó do senhor Goodwin, que estava pendurado no
cabide do escritório. Adicionou que não quisera dizer nada para a polícia, mas que sua
consciência não a deixava descansar, então havia decidido telefonar para o senhor Goodwin
antes de informar a polícia... Cramer se inclinou sobre Neya e grunhiu:
— O que você colocou no bolso de Goodwin? Ela manteve os olhos cravados nos de Wolfe e
não respondeu. Wolfe disse com acento autoritário:

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— Um momento, inspetor. Fui eu quem marcou esta reunião e quero dirigi-la. Archie disse
a Madame Zorka que apanharia a senhorita Tormic e em seguida iriam os dois juntos procurá-la.
Claro que fez isto para ganhar tempo. Foi ao vestíbulo investigar e viu algo no bolso de seu
paletó que ele não colocara ali. Não o apanhou, então decidimos telefonar a você para que na
presença de Zorka e da senhorita Tormic... Archie! Traga o paletó.

Fui ao vestíbulo, apanhei o paletó e voltei ao escritório, colocando-o em cima da mesa de Wolfe
com o bolso que continha o embrulho para cima.

— Prefiro que você seja o primeiro a ver do que se trata, senhor Cramer, disse Wolfe.

Dizendo isto, Wolfe não olhou para o inspetor, mas continuou com os olhos entornados para
Neya. Cramer deu um passo para frente, colocou a mão no bolso e apanhou o embrulho. Olhou-
o por um instante, enquanto que eu me colocava a seu lado, fingindo curiosidade e em seguida
o pôs em cima da mesa e desembrulhou. As manchas já haviam adquirido a cor da ferrugem e
quando apareceu à luz o dispositivo de metal, eu me permiti exalar uma exclamação de espanto.
Wolfe disse:

— O que eu suspeitava. Não são esses os dois objetos que procurava, senhor Cramer? O
inspetor me disse entre dentes:
— Por isto é que você então... Eu olhei-o friamente.
— Está errado. Ouviu as palavras do senhor Wolfe... Cramer se voltou para Neya e
colocando o col de mort debaixo de seu nariz, grunhiu enfurecido:
— Você colocou isto no bolso do paletó de Goodwin?
— Sim.

Cramer ficou com a boca aberta e eu também. Quando a ela, permaneceu tranquila, sem fazer o
menor gesto de desespero nem temor. O inspetor se dispôs a falar, fechou a boca, abriu-a outra
vez e finalmente foi até a porta e gritou:

— Stebbins! Venha aqui! Purley veio trotando, com uma expressão de embaraço, porque
queria mastigar e engolir ao mesmo tempo. Cramer apontou a cadeira que estivera ocupando e
disse: — Apanhe seu caderno de notas.
— Espere um momento, interveio Wolfe. — Você vai acusar a senhorita Tormic?
— Não. Vou interrogá-la. Tem alguma objeção a fazer? Se for assim, levá-la-ei para a
chefatura.
— Nada disso. Prefiro que o faça aqui. Somos quatro contra dois.
— Não me importaria, mesmo que fossem cem os contrários. Cramer mostrou os dois
objetos ao sargento e adicionou: — Anote que mostrei esta luva e este instrumento de aço para
Neya Tormic, e que perguntei se ela os colocara no bolso do paletó de Goodwin e que ela me
respondeu que sim... Voltou-se para a garota. — Você confirma que pôs estes dois objetos no
bolso do paletó de Archie Goodwin que estava pendurado no cabide do escritório de Miltan,
pouco depois de ter sido descoberto o cadáver de Percy Ludlow?
— Sim.
— Você matou Percy Ludlow? A interpelada respondeu com voz clara e harmoniosa:
— Você já me perguntou isso antes e eu já lhe disse que não. Carla Lovchen interveio.
— Ela pode explicar satisfa...

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— Cale-se! Reitera sua negativa?
— Sim.
— Você retirou este instrumento de aço do extremo da espada que matou Percy Ludlow?
— Não.
— Você não o retirou da espada com a luva colocada e ao ver que ficara manchada de
sangre decidiu se desfazer de ambos os objetos?
— Não.
— Quando apanhou o col de mort da vitrina do escritório de Miltan?
— Não apanhei.
— Mas colocou-o no bolso de Goodwin, assim como sua luva, não é assim?
— Já disse que sim, mas a luva não é minha.
— Confessa, que tinha ambas as coisas em seu poder, não é?
— Sim.
— Onde as encontrou?
— No bolso da minha bata verde, que costumo colocar por cima de minha roupa de
esgrimir.
— Quando, como e por quê as encontrou?
— Um momento, senhor Cramer, disse Wolfe. — A senhorita Tormic é estrangeira.
Aconselho-a que não diga mais nada até que tenha um advogado ou que eu lhe diga um par de
coisas...
— O que pensa lhe dizer?
— Vai saber. Senhorita Tormic, é impossível que a acusem de assassinato enquanto subsista
o álibi que lhe deu o senhor Faber. Poderão detê-la no máximo como testemunha material,
unicamente para impedir que despareça, sendo em seguida posta em liberdade mediante
juramento de se apresentar quando as autoridades determinarem. Vão pedir que faça um
depoimento circunstancial, sobre a sua relação com o instrumento do crime que você confessa
que se achava em sua posse, pouco depois de ter sido cometido o assassinato. Suas palavras
serão registradas por um taquígrafo. Se você quiser dar o depoimento que lhes interessa,
deverá procurar se ater em tudo à verdade. Se se recusar, a deterão como testemunha material.
Decida por si mesma. Entendeu? Neya sorriu.
— Claro que sim. Não há nada que me impeça de dizer a verdade... É a única coisa que posso
fazer... Achava-me no escritório do senhor Miltan, esperando a chegada da polícia, quando, ao
colocar a mão no bolso da bata, senti que havia nele algo estranho. Pelo tato adivinhei que se
tratava de uma luva de esgrima. Eu não a colocara no me bolso... Assustei-me... Pensei que se
me revistassem e encontrassem a luva, sabendo que andara esgrimindo com o senhor Ludlow...
Procurei um local para me desfazer do embrulho e vi o paletó do senhor Goodwin. Sabia de
quem era porque todos os outros paletós estavam lá em cima, nos guarda-roupas. Aproximei-
me do cabide e, quando achei que ninguém estava me vendo, apanhei a luva do meu bolso e
coloquei-a no bolso do paletó...
— Não sabe quem o colocou no bolso da bata?
— Não.
— Nem quando fizeram isso?
— Também não... Já pensei muito nisso... Deixei a bata no guarda-roupa sobre a prateleira,
quando fui dar a aula de esgrima na sala do fundo. Em seguida deixei o senhor Ludlow ali e me
encontrei no corredor com o senhor Faber, que me acompanhou até o guarda-roupa, onde
deixei o peito, a luva e a máscara, colocando a bata e me dirigindo, na companhia do senhor
Faber, ao escritório. Quem quer que tenha colocado estes objetos no bolso da bata, deve ter

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feito isso depois, pois eu teria notado. Quando o porteiro começou a gritar, todos nós acudimos,
se chocando uns com outros, assustados... Suponho que foi então quando, se aproveitando da
confusão...
— E você não se deu conta?
— Não me dei conta até chegar ao escritório.
— E então se assustou, apesar de ser completamente inocente...
— Era e sou.
— Mas, não obstante sua inocência, não disse uma palavra à polícia, nem pensava em
dizer... Não teria confessado, se Madame Zorka não tivesse informado a Goodwin que a havia
visto... Bem, bem... Faber lhe proporcionou um álibi... Mas, quem nos diz que esse álibi não foi
fabricado para se proteger a si mesmo...? Leve em conta, Wolfe, que se trata de um álibi de
duplo uso.
— Sim... É possível... Quer um pouco de cerveja?
— Não.
— E vocês, senhorita Tormic, senhorita Lovchen?
— Não. Muito obrigado. Wolfe apertou o botão e continuou:
— Isto é um verdadeiro enigma, senhor Cramer. Precisarei me encarregar eu mesmo de
descobrir quem assassinou o senhor Ludlow. Não permitirei que você aborreça mais a minha
cliente. Falarei com ela quando você sair e a aconselharei que se aferre ao álibi fornecido por
Faber, ainda que possa ter sido forjado por ele e para ele. Não duvido que proteja Faber, mas
também protege a ela. Quando você descobrir a existência de um motivo que pudesse induzir
Faber a cometer o assassinato, venha a me dizer e rediscutiremos o álibi.
— Você suspeita que ela esteja mentindo?
— Especificamente não. Qualquer um pode contar uma mentira, pelo menos por
aquiescência, antes que permitam que o acusem de homicídio... Quando ao senhor Faber, você
está errado em suas suspeitas de que não me era absolutamente desconhecido. Jamais o vira ou
ouvira falar dele até hoje. E também, casualmente, será um agente secreto? Cramer piscou.
— Como sabe disso se não o conhece?
— Não sei. É mera conjetura. Se soubesse não teria perguntado. Mas não está à serviço da
Inglaterra, não é verdade?
— Não.
— Nem a Archie nem a mim nos é simpático. É uma lástima que o álibi de minha cliente
dependa dele... Preferiria estabelecer a inocência da garota sem seu concurso... Você acha que o
ataque a Ludlow foi o do águia contra o leão?
— Foi o de um ser humano que assassinou outro ser humano.
— Sim... Certo... Bem; já passou da meia-noite e ainda quero conversar com a senhorita
Tormic... Tem algo mais a perguntar?
— Não, mas gostaria de ter certe... Entende?
— Não fugirá, pelo menos não nesta noite. Amanhã definiremos a fiança, se é o que você
quer dizer. Cramer grunhiu:
— Leve em conta de que se trata de uma testemunha importantíssima. Tinha a arma
assassina em seu poder. Gostaria que fosse amanhã de manhã ao meu escritório, às nove, para
que o tenente Rowcliff a interrogue. Wolfe franziu a sobrancelha.
— Esse Rowcliff é o mesmo que veio aqui um dia revistar a minha casa com um mandato
judicial?
— Sim... Ainda não esqueceu isso?
— Não... Nem você tampouco. Entre, Fritz.

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— Um cavalheiro pergunta por você... É o senhor Stahl, que já esteve aqui à tarde.
— Faça-o entrar.

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CAPÍTULO 8

O agente federal entrou com o mesmo terno e os mesmos modos. A única mudança visível nele
era que havia limpo o sapato. Cramer lhe deu uma olhada desgostosa, reprimiu um grunhido e
se apoiou sobre a borda da minha mesa. Stahl se desculpou dizendo com sua voz educada:

— Não sabia que estava ocupado, senhor Wolfe... Lamento interrompê-lo...


— Ainda ficarei ocupado durante um longo tempo. Você precisa me ver a sós? O agente
federal franziu as sobrancelhas e percorreu com o olhar os rostos dos demais presentes.
— Talvez não seja necessário... Trata-se unicamente da disposição sobre a necessidade de
inscrição dos agentes a serviço de empresas estrangeiras.
— O que há nisso?
— Nada... Gostaria de me convencer que você compreendeu todos os artigos.
— Eu creio que sim.
— Não estou duvidando, senhor. Mas o parágrafo quinto diz textualmente: "Todo aquele
que conscientemente deixe de fazer qualquer das declarações estipuladas, ou no cumprimento
destas disposições, fizer uma declaração falsa de um fato material ou conscientemente omitir a
declaração de um fato material estipulado na mesma, será, convicto de seu delito, apenado com
uma multa não superior a mil dólares ou com detenção não superior a dois anos, ou a ambas as
penas juntas."
— Entendi perfeitamente.
— Outra seção da disposição define como agente de uma empresa estrangeira, a todo
indivíduo, companhia, associação ou corporação que trabalhe ou atue como agente
representante de uma empresa estrangeira, e a empresa estrangeira está definida como o
governo de um país estrangeiro, pessoa domiciliada no estrangeiro, ou qualquer casa
estrangeira, seja companhia, associação, corporação ou organização política.
— Tenha a bondade de repetir. O agente repetiu. Wolfe moveu a cabeça negativamente. —
Não tenho necessidade de fazer declaração nem inscrição alguma. Neste momento estou
atuando a serviço de uma jovem chamada Neya Tormic, que é estrangeira, mas não é casa,
companhia, associação, corporação nem organização política, nem está atualmente domiciliada
no estrangeiro.
— Onde ela está?
— Sentada ali. O agente federal olhou para Neya, examinou-a atentamente; em seguida se
voltou para Wolfe e repetiu o exame. Finalmente moveu a cabeça e disse:
— Esta é uma situação com a qual nunca me enfrentei. Precisarei consultar o promotor
geral. Já o notificarei sobre a resposta que conseguir. Inclinou-se numa perfeita mesura, girou
sobre seus calcanhares e saiu.

Cramer levantou as mãos e se dirigiu para a porta, mas antes de chegar nela se voltou e disse:

— Não acreditei em nenhuma palavra do que me disse, Wolfe. Vamos, Sttebins. Traga a luva
e o outro. E você, senhorita Tormic, esteja pronta amanhã às oito e meia. Um de meus agentes
irá apanhá-la em seu apartamento para levá-la ao meu escritório.
— Certo.
— Boa noite. E Cramer saiu com Sttebins grudado em seus calcanhares.

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Wolfe bebeu um longo gole de cerveja enquanto eu reprimia um bocejo. Neya Tormic
perguntou, enrugando a testa:

— Foi um erro meu fazer essa confissão? Achei que era a única coisa que podia fazer.
— A verdade é essa? Perguntou Wolfe.
— Sim.
— Se deu conta de que com essa declaração confirmou o álibi de Faber?
— Sim.
— E de que, sem esse álibi, há esta hora você já estaria presa, acusada de homicídio?
— Sim.
— Você sabia que Ludlow era um agente do governo britânico?
— Sim.
— E que Faber é um agente do governo alemão?
— Sim.
— Você é agente de algum governo?
— Não.
— E a senhorita Lovchen?
— Também não. Wolfe se remexeu um pouco em seu assento.
— Você matou Rudolph Ludlow, senhorita Lovchen?
— Não, senhor.
— Tem alguma ideia de quem possa ser o assassino?
— Não, senhor. Wolfe suspirou.
— Vejamos os outros. Você sabe se Nikola ou Jeanne Miltan, Driscoll, Gill, Barret, a senhorita
Read ou Zorka se relacionavam com Ludlow política ou pessoalmente? Neya cravou os olhos em
Carla e em seguida os pousou em Wolfe. Abriu a boca, fechou-a e finalmente disse:
— Não sei até que ponto chegavam as suas relações. Todos eles se conheciam entre si. Nós
estamos empregadas ali há muito pouco tempo.
— Conheceram Ludlow e a Faber na casa de Miltan?
— Sim.
— Como você descobriu de que eram agentes de diferentes governos?
— Por que... Eles mesmos me disseram.
— Caramba! Disseram para iniciar uma conversa?
— O caso é que me disseram... Suponho que não ignorará que, em determinadas condições,
um homem é capaz de dizer muitas bobagens a uma mulher...
— E você era amiga íntima do senhor Ludlow? Ou é do senhor Faber?
— Oh, não!
— Mas ambos lhe confessaram que eram agentes secretos... E você diz que não é agente de
nenhum governo... E agente político? Você não terá vindo para este país, com uma missão
política?
— Não.
— E você, senhorita Lovchen?
— Também não.
— As duas mentem.

Ambas olharam para ele. Neya levantou a queixo. Os olhos de Carla se reduziram, ficando
apenas suficientes para satisfazer suas necessidades ordinárias. Wolfe continuou a dizer:

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— Como intrigante, senhorita Lovchen, é incrivelmente descuidada. Duas vezes, desde que
entrou nesta sala, olhou para o lugar do armário-biblioteca em que se acha o volume
IUGOSLÁVIA UNIDA. Sei que você pôs certo documento nesse livro, mas eu mesmo o retirei dali
e o guardei em outro local. Neya continuou olhando-o com firmeza, mas Carla deu um salto para
ele com o rosto palidíssimo e gritou:
— Eu não queria... Mais...
— Você só queria guardá-lo lá. Ficou melhor agora onde eu o coloquei. A razão para que eu
tenha mencionado esse documento é...
— Onde está?

Os olhos de Neya Tormic eram dois punhais envenenados. Levantou-se e se aproximou da mesa
de Wolfe com um movimento que me recordou a estocada de Miltan a um inimigo imaginário,
para me demonstrar como se fazia o ataque em quarta.

— Onde está? Repetiu. Mas se voltou ao sentir que Carla, que também havia se levantado,
havia segurado-a pelo braço. Debateu-se para se soltar, mas Carla continuou segurando com
força dizendo:
— Neya! Neya! Sente-se...! Não se dá conta de...?

Neya lhe dirigiu uma torrente de palavras para as quais eu carecia de símbolos, assim não
poderia anotá-las ainda que tivesse na minha frente o caderno de taquigrafia. Carla lhe
respondeu, ainda que não em torrente, mas fria, serena e dona de si mesma. Wolfe
interrompeu-as ao dizer:

— Informo a ambas que compreendo servo-croata.


— Oh! Exclamaram ambas em uníssono. Houve um longo silêncio que Carla Lovchen
interrompeu por fim para dizer:
— Tenha a bondade de me devolver o documento, senhor Wolfe. Preciso dele. Wolfe
respondeu serenamente:
— Já sei que precisa, senhorita Lovchen, mas não vou sequer discutir este assunto, se vocês
não se sentarem e se conduzirem como duas garotas bem educadas. Sentaram-se as duas. —
Sim... Mencionei esse documento unicamente para demostrar que sei que mentiram ao afirmar
que não se achavam em nosso país com uma missão política... Suponho que também mentiram
à polícia, não é? Claro que sim... De onde você apanhou o documento a que nos referimos,
senhorita Lovchen? Carla demorou um momento em responder. Por fim disse:
— Roubei. Neya interrompeu:
— Fui eu! Wolfe encolheu os ombros.
— Dividam os lauréis... De quem roubaram?
— Da pessoa que o tinha.
— Da princesa Vlandanka Donevitch?
— Não diremos.
— Perfeitamente. Isso é preferível a que tentem me enganar. A princesa está agora em
Nova Iorque?
— Não diremos nada, nem sobre ela, nem sobre o documento.
— Olhe, senhorita Tormic. Você está em perigo... Em perigo de morte. O insustentável álibi
de Faber é a única coisa que se opõe neste instante, a que a acusem de assassinato. Você quer
que a ajude para fugir desse perigo?

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— Sim. Por um instante parecia que Neya ia sorrir, mas não sorriu.— Sim, repetiu.
— Você poderá me pagar os honorários que costumo cobrar nestes casos? Leve em conta
que ascenderão a vários milhares de dólares.
— Oh, Deus meu...! Não poderia! Olhou para Carla e adicionou: — Mas procuraria...
— Quando você enviou aqui a senhorita Lovchen, esperava que a ajudasse pelo único fato
de ser a minha filha adotiva, não é? Ela assentiu:
— Sim... Eu achava que seus sentimentos...
— A gordura me impede de ter sentimentos. Sei tivesse me conservado magro e
continuasse a levar a vida de antes, já há muito tempo que estaria morto. Tenha em conta que
não possui prova alguma de que seja minha filha. Você se limitou a enviar Carla com um
documento assinado por mim, mas esse documento, como o outro, pode ter sido roubado por
qualquer uma de vocês... Carla exalou uma exclamação de indignação. Neya se levantou com um
olhar fulgurante.
— Se for verdade que me acha capaz disso, não vale a pena continuarmos...
— Não acredito que tenha feito isso, mas poderia. Tenha a bondade de sentar outra vez,
senhorita Tormic. Obrigado... Em outro tempo, eu era estupidamente romântico... Creio que
ainda sou, mas sei me conter... Achava romântico, quando era jovem há vinte e cinco anos, ser
agente secreto do governo austríaco... Meu crescimento para a maturidade foi interrompido
pela guerra mundial e ao mesmo tempo minha experiência. A guerra não amadurece os homens,
mas os submerge no profundo mar do terror e do desprezo à vida... Depois da guerra eu ainda
era magro, muito magro... Em Montenegro assumi a responsabilidade do sustento e da
educação mental e física de uma órfã de três anos ao adotá-la... Fiz outras coisas que
precipitaram a minha maturidade... Mas outra coisa que fiz em Montenegro me obrigou a sair de
lá, deixando a garota, segundo acreditei, em boas mãos e retornando a América. Wolfe se
ajeitou em seu assento, entornou os olhos e murmurou: — Prossiga. Neya disse:
— Você me deixou em Zagreb com Pedro Brovnik e sua esposa.
— Isso é verdade. Como você se chama?
— Ana. Quando acabava de fazer oito anos, o casal com quem você me deixou foi preso,
sendo ambos fuzilados como revolucionários no dia seguinte... Não me lembro muito bem, mas
acho que...
— Sim, murmurou Wolfe. — Durante três anos, o dinheiro que eu continuei enviando
alguém se apropriou em nome de Pedro Brovnik, e quando tive suspeitas e me dirigi até lá, ainda
que não fosse mais magro, não consegui encontrar ninguém. Nem achei a garota, nem me
deram alguma notícia de seu paradeiro, nem do destino do meu dinheiro. Colocaram-me na
cadeia e o cônsul americano conseguiu me retirar dali, com as autoridades me dando dez horas
de prazo para abandonar o país. Desde então não voltei à Europa nem à cadeia... Onde você
estava?
— Não posso dizer.
— Ou me diz, ou saia daqui e não volte... E lembre que tenho em meu poder o outro
documento que uma de vocês roubou e que sua amiga deixou guardado em um livro meu para
maior segurança... Carla interveio:
— Conte, Neya.
— Carla! Então ele saberá...
— Conte.
— E não minta, aconselhou Wolfe, — Porque não vou demorar a descobrir toda a verdade,
quando receber resposta do telegrama que mandarei para a Europa. Neya encolheu os ombros
e disse:

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— Quando prenderam os Brovnik eu fui enviada para uma instituição. Um ano mais tarde fui
retirada dali por uma senhora de sobrenome Campbell.
— Quem era essa senhora?
— A secretária inglesa do príncipe Pedro Donevitch.
— E para que a queria ter consigo?
— Porque visitou a instituição e lhe fui simpática. Quis me adotar, mas não pôde fazê-lo
legalmente por sua causa.
— E por que não entrou em contato comigo?
— Por causa de suas relações com... Indivíduos como os Brovnik, assim como por sua
situação na casa do príncipe Donevitch... Não gostaria de ter laços com um americano.
— Claro... Não se pode fuzilar um filho de Tio Sam assim sem mais nem menos... Então, era
ela que se apropriava do dinheiro que eu enviei durante três anos... Era?
— Ignoro.
— Onde está a senhora Campbell agora?
— Morreu há quatro anos.
— Onde foi morar quando ela morreu?
— Continuei onde estava.
— Na casa dos Donevitch?
— Sim.
— Morava ali também o jovem príncipe Estéfano?
— Sim... Ele e... Suas irmãs.
— E a esposa?
— Quando se casou, também... Casou-se há dois anos.
— Tratavam você como se fosse da família?
— Não. A garota titubeou e em seguida adicionou enfaticamente: — Não, nem muito
menos. Wolfe se voltou de repente para Carla Lovchen e lhe perguntou a queima-roupa para
apanhá-la de surpresa:
— Você é a esposa de Estéfano? A princesa Vladanka?
— Eu? Exclamou. — Boga ti! Não!
— Mas você possuía o documento que pôs no meu livro. Neya interveio:
— Disse-lhe antes, senhor Wolfe, que esse documento fui eu que roubei e nem sempre
minto.
— Onde o roubou, em Zagreb ou Nova Iorque?
— Não posso dizer. Você faça o que quiser. Wolfe grunhiu:
— Sua maldita missão política a obriga a se manter silêncio. Morrer, mas não falar. Eu
também era aficionado por esses papéis estúpidos em outro tempo... Bem, já que você viveu na
mesma casa da princesa Vladanka, deve conhecê-la perfeitamente. Você é amiga dela?
— Não.
— Como é a princesa?
— Inteligente, bonita, egoísta e traiçoeira.
— Verdade? Descreva-a.
— É alta... Move os braços como se fossem serpentes... Seu rosto forma um oval perfeito e
seus olhos são tão negros como os meus, às vezes mais...
— Está em Zagreb agora?
— Estava quando eu saí... Disse que pensava ir a Paris ver o idoso príncipe Pedro e em
seguida a América.
— Você mente. Neya olhou Wolfe aos olhos.

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— Às vezes é necessário mentir, disse lentamente. — Existem muitas coisas das quais não
posso falar.
— Engraçado...! Sobre o meu cadáver! Você tem gravado em seu coração as tatuagens de
um velho bandido...! Quando terminará a sua missão política?
— Espero que... Amanhã...
— Já é mais de meia-noite... Você quer dizer hoje?
— Sim. Mas me fará falta o documento. Você não tem o direito de ficar com ele. Quando
aquele imbecil do Driscoll armou o escândalo pelo suposto roubo de seus diamantes, temi que a
polícia revistasse o apartamento onde eu moro e então pensei em você, no americano que me
adotou quando eu era criança. Trouxera comigo o certificado de adoção quando saíra de
Zagreb. A senhora Campbell me dera antes de morrer... Carla e eu pensamos que o documento
estaria mais seguro em sua casa que em qualquer outro lugar, e achávamos ter encontrado o
modo de guardá-lo aqui sem que você soubesse, de forma que pudéssemos recuperá-lo
facilmente quando passasse o... Perigo... Devolva-o!
— Você espera realmente terminar hoje mesmo a sua missão?
— Sim.
— Você se dá conta de que a polícia não permitirá que saia de Nova Iorque até que se
resolva este caso de homicídio?
— Mas... Você não disse que o álibi...?
— O álibi não esclarece o caso. Não faça bobagens. Quando terminar sua missão não vá
tentar embarcar disfarçada de Nereida... Quem é Madame Zorka? As duas garotas olharam
surpresas para Wolfe. — Não a conhecem? Carla deu uma gargalhada. Neya declarou:
— Zorka é... Pouco mais que ninguém... Uma modista...
— Isso eu sei... Mas de onde retirou esse nome, que é o da filha do Rei Nikita de
Montenegro?
— A rainha Zorka morreu...
— Eu sei.. Onde a modista conseguiu esse nome? Carla riu outra vez.
— Suponho que terá lido em algum livro.
— Bem... Já é hora de irem embora. Amanhã você precisará comparecer ante Rowcliff e lhe
convém descansar... Amanhã, às onze, eu lhe entregarei o documento... Boa noite, senhorita
Tormic... Boa noite, senhorita Lovchen.

Acompanhei-as até a porta da rua e em seguida passei o ferrolho.

— Hvala Bogu! Exclamei quando voltei ao escritório. — Gostei das montenegrinas, mas já é
hora de ir para a cama... E ainda preciso ir à Rua Quarenta e Oito apanhar o carro... Senhor
Wolfe, tenho o pressentimento de que este caso chegará a ter um desenlace romântico...
Quando chegar a lua cheia, pedirei formalmente nesta sala a mão de sua belíssima filha... Mas
precisará me ajudar a retirar dela o feio vício de mentir...
— Cale-se!
— Vou apanhar o carro?
— Não tem outra solução a não ser ir apanhá-lo... A que horas Saul virá?
— Às nove da manhã.
— Ligue para ele e peça que traga o envelope.
— Vai entregá-lo mesmo?
— Claro que sim. Quero saber o que pensam fazer com esse documento. Fred e Orrie
também virão às nove?

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— Sim. Precisarão seguir alguém?
— Seguir... Não... Proteger... Não esqueça que o senhor Faber quer se apoderar desse
papel.
— O fenômeno sem queixo sabia onde estava... E, já que foi Carla quem o pôs ali, é de
presumir que foi ela quem lhe disse... Ou seria algum membro da sua família, senhor Wolfe?
— Não tenho família.
— Uma filha se considera comumente como um membro de nossa família. Neste caso não é
exagerado dizer que uma filha é uma família... Quando me casar com ela, terei inevitavelmente
de chamá-lo de papai...
— Archie, eu juro...!
— E serei seu herdeiro quando você morrer... Serei o beneficiário de seu seguro de vida...
Jogaremos golfe como pai e filho. Em seguida, permitirei que segure o seu neto nos braços...
Que diabos será isso?

O timbre da porta acabava de soar naquele instante.

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CAPÍTULO 9

— Donald Barret! Respondeu o visitante noturno quando lhe perguntei pela fresta da porta.
Abri e o fiz entrar, levando-o em seguida ao escritório.
— Senhor Wolfe, disse, — Este cavalheiro se chama Donald Barret, e deseja falar com você.
— Tenha a bondade de sentar, senhor Barret, e me dizer a que devo esta honra.
— Vim perguntar se o indivíduo que você enviou a casa de Miltan representava realmente a
senhorita Tormic.
— Que indivíduo?
— Seu ajudante, moveu a cabeça em minha direção e adicionou: — Goodwin.
— Senhor Barret, não sou burro, mas gosto que designem as pessoas por seus nomes. O
senhor Goodwin agia, efetivamente, em nome da senhorita Tormic.
— Isso é o que ele disse.
— E ela confirmou, não é?
— Sim. Não obstante, aquilo se referia unicamente ao assunto dos diamantes de Driscoll...
Você a representa ainda...? Refiro-me a este caso de homicídio.
— Você faz essa pergunta como amigo ou curioso?
— Como amigo, sim... E não é mera curiosidade.
— Pois bem, sim... Continuo representando a senhorita Tormic... O que pode induzi-lo, além
da curiosidade, a fazer esta pergunta?
— Você verá... Conheci a senhorita Tormic e a senhorita Lovchen há um par de meses e
consegui o emprego que elas têm atualmente na casa de Miltan... Como são estrangeiras, me
sinto responsável de certo modo pelo que pudesse acontecer, e queria me convencer de que
seu conselheiro neste caso é uma pessoa capacitada e digna...
— E se convenceu?
— Sim.
— Agradeço muito sua boa opinião sobre mim, senhor Barret.
— Há algo mais, senhor Wolfe... Queria que procurasse não misturar o nome dela neste
escândalo... Murmura-se que a senhorita Tormic pôs algo no bolso do paletó desse indivíduo...
O senhor Goodwin... Se a polícia descobrir, Deus sabe o que acontecerá... Eu, sinceramente, não
creio que nem a senhorita Tormic, nem alguém fizesse tal coisa... Você encontrou algo no bolso
de seu paletó, Goodwin?
— Claro que sim, respondi. — Os diamantes de Driscoll.
— Não admito...
— Perdoe-me, senhor Barret, interrompeu-o Wolfe. — Se conhecemos detalhes que
acreditamos devem permanecer secretos no interesse da senhorita Tormic, não os revelaremos
certamente nem à polícia, nem a ninguém, incluindo você... Se o senhor veio aqui procurando
alguma informação desse tipo vai ter uma decepção.
— Sou amigo da senhorita Tormic.
— Então lhe satisfará verificar que dispõe de discretos conselheiros.
— Claro que sim... Mas não ignoro que vocês colaboram às vezes com a polícia e se ela, a
senhorita Tormic, foi a última que viu Ludlow vivo, depois de ter estado esgrimindo com ele,
esse rumor de que pôs algo no bolso de... Goodwin pioraria muito a situação dela... Se a polícia
chegar a saber a interrogarão empregando seus habituais métodos de persuasão... Por isso
quero observar que...
— Olhe, senhor Barret; talvez careçamos de inata sutileza, mas a experiência nos ensinou
muitas coisas, por exemplo, a de não desperdiçar munição, lançando-as de qualquer maneira

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sobre o inimigo, mas distribuindo-as para nos defender o trocando-as por algo melhor... E a
propósito, você não se encontrou com a senhorita Tormic quando veio para cá?
— Não... Acaso ela esteve aqui?
— Sim... Veio acompanhada de sua amiga, a senhorita Lovchen, e estivemos conversando
um bom tempo... Saíram um pouco antes de você chegar... Por isso perguntei se a viu.
— Não.
— Você teve oportunidade de falar com ela detalhadamente sobre tudo Isto?
— Não. A polícia me interrogou em primeiro lugar e me mandaram sair ao redor das oito...
Ela ficou ali... Ignoro até quando...
— Verdade...? É estranho que você, sendo tão amigo dela como afirma, deixasse-a ali...
— Que outra coisa eu poderia fazer...? A casa estava cheia de agentes e eu não sabia o
tempo que a senhorita Tormic demoraria para sair... Além disso, o que eu tenha feito ou deixado
de fazer não é assunto seu...
— Você tem razão, senhor Barret. O tom de Wolfe, como de costume, não se alterou
quando disse, depois de traçar um círculo com o polegar na polido braço de sua cadeira: —
...Mas isto sim é assunto meu... Onde você escondeu Madame Zorka?

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CAPÍTULO 10

Abriu-se a boca e os olhos de Barret, parou sua respiração. As duas primeiras coisas poderiam
ser consequência de inocente surpresa, a terceira não. Mas não demorou em recuperar o
domínio sobre si mesmo. Olhou com firmeza para Wolfe e coçando suas sobrancelhas suaves e
bem desenhadas, perguntou:

— Onde eu escondi quem?


— Madame Zorka. Moveu a cabeça.
— Se for uma piada, você precisará me explicar. Não compreendi. Wolfe disse
pacientemente:
— Explicarei. Madame Zorka telefonou para cá nesta tarde e disse que vira quando a
senhorita Tormic colocou algo no bolso do paletó do senhor Goodwin. E adicionou que se
preparava para informar imediatamente à polícia.
— Que diabos...!
— Peço que não interrompa... O senhor Goodwin a convenceu de que não fizesse a ligação,
até que ele levasse a senhorita Tormic ao apartamento de Madame Zorka e discutissem o
assunto. Quando uns minutos mais tarde ambos chegaram lá, encontraram o apartamento vazio
e souberam que Madame Zorka havia saído quinze minutos antes, levando consigo uma mala e
uma bolsa... Então o senhor Goodwin trouxe para aqui a senhorita Tormic e a amiga dela, a
senhorita Lovchen...
— Bem, e o quê...?
— As duas garotas estiveram falando comigo uns minutos e saíram... Pouco depois você
chegou... De suas manifestações, senhor Barret, se depreendem as três seguintes
consequências: a) Que alguém lhe disse que viu a senhorita Tormic metendo algo no bolso do
paletó do senhor Goodwin; b) Que essa informação, segundo declaração da mesma pessoa não
chegou ainda ao conhecimento da polícia...; e c) Que chegou ao meu... As duas primeiras você
poderia ter sabido por uma infinidade de meios, mas não a terceira. Não é possível que você
soubesse que essa informação havia chegado a mim, a menos que Madame Zorka ligasse para si
depois de ligar para cá. Barret se levantou, pensando que havia chegado a hora de sair.
— Se essas são as deduções... Wolfe interrompeu-o:
— Olhe, não quero perder tempo lhe enfiando na cabeça como cheguei a saber o que sei.
Tenho plena certeza que Madame Zorka disse a você tudo quanto revelou a mim.... Confessa
que foi assim?
— Sim.
— Pelo telefone?
— Sim.
— E você, como amigo da senhorita Tormic, se deu conta que o único modo de impedir que
o que Zorka sabia, chegasse nos ouvidos da polícia, era encerrá-la em algum lugar próximo... E
conseguiu persuadi-la para que o acompanhasse. Em seguida você pensou na possibilidade de
que eu pusesse a língua de fora e veio aqui para tapar esse buraco... Onde está Madame Zorka,
senhor Barret?
— Ignoro. Suponho que esteve em sua casa até que a viram sair com a mala e a bolsa, como,
segundo você, disseram a Goodwin... Não gosto do modo como você conduz este assunto e vou
aconselhar a senhorita Tormic para que se coloque nas mãos de um bom advogado.... Quanto
você quer para não revelar à polícia que alguém viu a senhorita Tormic colocar algo no bolso do
paletó de Goodwin? Levantei-me e dei um passo até ele.

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— Não, Archie, disse Wolfe. — Deixe-me...
— Perdoe-me, grunhi. — Há vezes que você perde a cabeça e há vezes que eu perco. Farei
uma concessão. Ia bater e a falar depois, mas vou falar primeiro. Coloquei meu rosto a dois
palmos do de Barret e adicionei: — Estou me contendo à duras penas... Você deu a entender
que este escritório tem um departamento sujo... Que prova você tem disso? Fale como homem,
ainda que não seja... E advirto que estou fora de mim... Tem alguma prova?
— Não... Não quis dizer...
— Retrata-se do que disse?
— Sim.
— Sinceramente... Preferiria que dissesse que não... Vou perguntar de novo... Retrata-se do
que disse?
— Sim.
— Covarde! Exclamei. E voltei para a minha cadeira. Wolfe tomou então a palavra:
— Precisará aprender a reprimir esses impulsos, Archie. A violência física, a menos que seja
levada a um extremo intolerável, é uma arma miserável. Apontou com um dedo a Barret e
adicionou: — Não é que tenha alguma objeção da violência quando se faz necessária, como
neste caso... Não me importa conhecer o que induziu Madame Zorka a lhe contar por telefone
que falou comigo; tampouco me importa a modalidade persuasiva que você utilizou com ela.
Mas é óbvio que, quer você a escondesse, quer não, pelo menos sabe onde ela está neste
instante, já que foi você quem a fez recolher suas coisas e desaparecer...

Barret começou a andar até a porta.

— Não se vá ainda, senhor Barret! Gritou Wolfe. — A menos que queira que todo o mundo
saiba das concessões dos bosques bósnios e dos créditos iugoslavos...

Hei de confessar que a violência de Wolfe foi muito mais efetiva que a minha... Eu acabava de
fazê-lo engolir um pouco de bílis, mas as palavras de Wolfe lhe gelaram o sangue. A três passos
da porta se deteve, ficando com o corpo rígido e a cara da cor da cera virgem. Voltou-se
lentamente, olhou com firmeza para Wolfe e eu sentei de novo em minha cadeira para apreciar
o espetáculo. Vi que ele humedecia os lábios com a língua um par de vezes. Em seguida avançou
até a mesa de Wolfe e o ouvi dizer com voz quebrada:

— O que disse? Você sabe o que disse?


— Claro que sim... Estou me referindo a um caso de bandidagem... Um eufemismo utilizado
para evitar a pronúncia desta feia palavra é "finança internacional", representada neste caso
pela firma Barret & De Russy...
— O que quer dizer?
— Não quero adicionar detalhes, senhor Barret. Você os conhece melhor que eu, sobretudo
o referente à quantia dos créditos em poder de sua firma e a extensão das relações com a
gangue de Donevitch. Não quero informar mais detalhes com o objetivo de fazê-lo vítima de
uma chantagem, que é o motivo que me guia neste assunto. Desejo ver Madame Zorka e tenho
certeza de que você me ajudará, em vez de consentir que este despojo da Iugoslávia seja
exposto à curiosidade pública.

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Barret, imóvel e silencioso, continuou olhando para ele. Ao sudoeste de sua orelha, sobre a
borda de seu branco pescoço, pude ver como se inchavam os tendões de seu aristocrático
pescoço. Finalmente disse:

— Para quem você está trabalhando?


— Para a senhorita Tormic.
— Perguntei, para quem está trabalhando...? Para Roma?
— Já lhe respondi que é para a senhorita Tormic... Atuo em um caso de assassinato e só
trabalho no interesse do meu cliente...
— Acha que sou idiota...? O que quer vender e a que preço? Deixei passar. Se ele pensava
em continuar nos insultando era preferível esperar que terminasse e depois resolver tudo de
uma vez. Wolfe se ajeitou na cadeira e suspirou:
— Quer ter a bondade de sentar, senhor?
— Estou melhor de pé.
— Então faça o favor de ir para lá. Fico incomodado com a cabeça levantada... E agora,
escute... Está errado ao imaginar que eu represento alguém com interesses amistosos ou hostis
para a sua empresa sobre os Balcãs... Estranhou que eu esteja sabendo disso...? Compreendo...
Mas, não obstante, deve acreditar quando eu lhe digo que não tenho o propósito de exigir uma
parte do botim... Por mais incrível, por mais imoral que isso possa parecer, a um homem de seu
instinto, nível e educação, senhor Barret, não lhe peço nada mais do que levar o senhor
Goodwin ao lugar em que Madame Zorka está parar trazê-la aqui... Se não fizer isso enviarei um
relatório a três lugares diferentes, avisando a vários personagens deste projeto sobre a
propriedade do povo iugoslavo... Você sabe melhor que eu o escândalo que tal notícia
produziria... Não complique as coisas me imaginando capaz de uma corrupção muito superior
aos limites que conhece.. Quando um financista internacional se vê frente a frente com um
homem armado de uma pistola, não somente se apressa a entregar o dinheiro e as joias que
leva, mas também as calças e a camisa, porque não consegue pensar que quem o ameaça pode
estar procurando outra coisa... Eu quero que me entregue Madame Zorka e nada mais. Depois
que a vir e falar com ela deixarei de representar uma ameaça para você... A menos que seja você
o assassino de Percy Ludlow. Archie! Vá com o senhor Barrett apanhar o carro. Ele o
acompanhará até o lugar onde está Madame Zorka... É muito longe daqui, senhor Barret?

O "financista", imóvel, parecia querer coordenar os pensamentos. Movia silenciosamente os


lábios e continuava olhando para Wolfe.

— Se se atrever a contar o que sabe a alguém... Resmungou finalmente. Wolfe respondeu


secamente:
— Não me ameace porque será pior. Onde está Madame Zorka?
— Não muito longe daqui.
— Na cidade?
— Sim.
— Bem. Não tente fazer nenhuma brincadeira com o senhor Goodwin. Tem muito mau
gênio e seria capaz de lhe dar um sério desgosto.
— Voltarei aqui com eles. Queria falar com você antes de...
— Não. Nesta noite, não. Amanhã... Não o deixe vir com você, Archie!
— Está bem... Vamos, Barret...! Estou com um desejo horrível de terminar logo tudo isto e ir
para a cama dormir.

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* * *

Não era muito moderna a casa na frente à qual paramos, mas um velho edifício cujos dias de
glória pertenciam a um passado remoto. Barret apanhou uma chave, abriu uma porta e me
levou por um pequeno corredor ao final do qual encontramos um diminuto elevador. Subimos
cinco andares e em seguida tivemos pela frente mais um lance de escadas. O lugar não era
precisamente miserável, mas tampouco tinha algo de fastuoso. Desde o final da escada, Barret
me precedeu através de uma espécie de vestíbulo e utilizou outra chave para abrir uma porta de
sólida aparência. Segui-o, ele fechou a porta e se voltou para gritar:

— Uuuuuu! Uma voz feminina respondeu:


— Aqui, amorzinho!

Cheirava a perfumes. A temperatura do vestíbulo era superior aos trinta graus. Imitei seu
exemplo, quando retirou o chapéu e o paletó, mas ele se voltou para mim e disse:

— Espere um momento aqui.

Não atendi e o segui a um quarto grande e estranho, cheio de calor, de odores sintéticos, de
grossos tapetes, divãs, almofadas, mesinhas com quinquilharias e... Um par de damas. As duas
estavam estendidas, uma sobre um divã, a outra em uma chaise-longue. Zorka, com um
quimono vermelho desabotoado moveu uma mão em um gesto de benvinda a Barret, mas ao
notar a minha presença, ficou com a mão no ar. Belinda Read, em trajes de Eva, exclamou:

— Como está meu amorzi...?

Interrompeu-se de repente, dando um oh de surpresa e se apressou a se cobrir com uma bata


azul pálido que estava no respaldo do divã.

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CAPÍTULO 11

Barret se voltou para mim e grunhiu:

— Não disse que esperasse lá fora?


— O que importa...? Quando tenho a mente ocupada em assuntos profissionais nem vejo
nem ouço nem...
— Olhe! Exclamou Belinda com inocente delicia. — Se não é o detetive...: Quer beber
alguma coisa?

Dispôs-se a servir um uísque com soda. Zorka tinha um copo cheio na mão, havia se levantado
um pouco na chaise-longue se apoiando em um cotovelo e me olhava estupidamente, sem
aparente intenção de fazer nada.

— Cale-se, Bel! Grunhiu Barret. — Este indivíduo veio... Voltou-se pra Zorka. — ...Veio por
sua causa...
— Beba, insistiu a senhorita Read. — Nunca bebi com um detetive, especialmente com um
tão bonito como você... Venha, sente ao meu lado... Zorka murmurou:
— Quer fazer ciúme, Donald... Está com ciúmes de Neya...
— Como se chama? Perguntou-me Belinda.
— Archie... Beba você também, Barret! Cairá bem... Enfrentei-me com Zorka e disse: —
Quando você telefonou para o escritório de Nero Wolfe e me disse...
— O que você está falando?
— Disse que quando você telefonou para me dizer que vira a senhorita Tormic colocar algo
no bolso do meu paletó...
— Eu não telefonei...! Belinda, não o deixe beber mais...! Disse que eu lhe telefonei!
— E o que tem isso...? Telefona para tantos homens, querida...! Não me estranha que o
tenha feito... É encantador.
— Ou será para você... Não telefonei...
— Não está se lembrando... Belinda cravou em mim seus olhos azuis e murmurou: — Beba
um gole a minha saúde, Percy.
— Chamo-me Archie, preciosa... Percy é o nome de quem assassinaram na casa de Miltan.
— Oh! Exclamou a garota levantando as sobrancelhas. — É verdade...! Por isso estamos
bebendo... Para esquecer... E chamei-o de Percy...! Que engraçado! Não achou engraçado,
amorzinho?
— Não, respondeu secamente Barret. — Este indivíduo veio em busca de Zorka... Afirma
que ela ligou para ele e quer que o acompanhe a...
— Quero que me acompanhe simplesmente a minha casa... Está amanhecendo e não é hora
de que esteja aqui... Madame, pegue sua mata e sua bolsa, se calce, se vista e vamos embora... E
você, Barret, me ajude a convencê-la para que me siga.
— Se ela não quer ir, eu não posso...
— Não?

Parti para um aparelho telefônico de metal pintado de rosa que acabava de ver em uma
mesinha, disquei um número e quando ouvi a voz de Nero Wolfe, disse em voz alta:

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— É da Chefatura de Polícia...? Quero falar com o inspetor Cramer... Não está...? Quem está
falando...? Diga-lhe quando voltar que há uma mulher que pretende ter visto a senhorita Tormic
colocando no bolso de um paletó...
— Basta já! Barret, depois de me arrebatar o fone da mão, cortou a comunicação, se voltou
para Zorka e disse: — Vá com ele! Não quero mais problemas por sua causa. Coloque os sapatos,
se vista e vá com ele. Não percamos mais tempo.
— Mas... Eu... Não...
— Saia!

Unindo a ação à palavra, a fez calçar os sapatos, ajudou-a a colocar uma camisola e a empurrou
para a porta. Apressei-me a segurá-la pelo braço ao vê-la cambalear e deste modo chegamos até
a escada, donde Barret fez subir o elevador. Entrando os três nele, descemos e alcançamos a
porta da rua.

— Quer ajuda para levá-la até o carro? Perguntou-me Barret.


— Não é necessário... Boa noite...

* * *

No caminho comecei a falar com madame Zorka, tentando persuadi-la de que devia responder
sem ocultar a verdade à todas as perguntas que Nero Wolfe lhe fizesse, mas um único olhar me
fez notar a inutilidade de meus esforços. Zorka estava adormecida como um tronco. Quando
chegamos em frente à casa de Wolfe, parei o carro, coloquei-a em meus braços e toquei o
timbre, segurando-a como se fosse um saco de farinha. Fritz exclamou ao me ver com aquela
carga:

— Está morta?
— Não... Nem sequer doente... Feche a porta.

A do escritório estava aberta. Entrei de lado para evitar que batesse com a cabeça e vi Wolfe a
ler um livro, que fechou depois de fazer uma marca na página que estava quando me viu entrar.
Depositei minha carga no chão, no centro do tapete, e disse, apontando-a com o dedo:

— Madame Zorka. Wolfe cruzou os braços.


— O que aconteceu? Perguntou.
— Nada.
— Teve necessidade de bater?
— Não.
— Como então está sem sentidos?
— Acho que o estresse... Apostaria que finge estar adormecida pelo álcool que ingeriu, mas
tudo é pura comédia... Encontrei-a no ninho que Barret tem com Belinda Read na Avenida
Madison. Barret administra os fundos e Belinda o amor. Zorka negou que tivesse me telefonado
e por este motivo precisei fingir que ligava para a polícia para pressioná-la. Tenho certeza de que
neste momento não perde palavra do que dizemos. Faz muito calor aqui para deixá-la com essa
roupa. Quando comecei a tirar a roupa dela, Wolfe se levantou, deu a volta na sua mesa e
permaneceu um momento olhando-a.

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— O que é isso que ela veste? Uma camisola de noite?
— Não. Eu acho que é uma camisola para beber.
— E acredita que essa inconsciência é fingida?
— Sim.
— Veremos então. Voltou-se para a porta e gritou: — Fritz! Traga gelo!

Quando Fritz apareceu com a bandeja em que trazia o gelo pedido, eu me ajoelhei junto à
paciente, lhe tomei o pulso, abri os olhos para examinar a córnea e anunciei que se achava em
perfeitas condições para suportar a experiência. Wolfe, ao meu lado, concordou gravemente e
então pedi as pedras de gelo à Fritz, peguei uma e a coloquei suavemente na testa de Zorka,
mas o gelo resvalou e caiu. Apanhei-a novamente e voltei a colocar, desta vez na pequena
depressão onde começa o ombro. Em seguida apanhei outra pedra de gelo, lhe levantei o braço
e, tão honradamente quanto pude, fiquei manipulando debaixo da camisola até colocar a outra
pedra de gelo na ossada de sua axila, abaixando então o braço.

A reação foi tão repentina e violenta que me fez jogar o restante das pedras de gelo sobre o
tapete, ficando eu também a ponto de cair de bruços, ao fazer uma finta para evitar o duplo
pontapé que me dirigiu ao estômago. Ela não se levantou devagar, mas se pôs em pé de um
salto, ao mesmo tempo em que Wolfe dava dois passos para trás. Zorka estremeceu
espasmodicamente e a pedra de gelo caiu da sua axila para o chão. Olhou-nos esfregando os
olhos, então viu uma cadeira e se deixou cair nela.

— O quê...? O quê...? Gaguejou.


— Não é essa a fala, repus. — Deveria dizer: "Onde estou?"

Ela gemeu e pôs as palmas das mãos na testa. Wolfe esperou que Fritz tivesse apanhado todas
as pedras de gelo, voltou para sua cadeira, olhou-a silenciosamente durante um longo minuto e
então me disse:

— O que acha que devo fazer com ela?


— Não sei!... Não me mandou buscá-la?
— Mas não nesse estado.
— Mande-a para casa de táxi, propus.
— Não podemos mandá-la para casa. A polícia a está procurando. Deve ter alguém na porta
de seu apartamento. E queria falar com ela antes.
— Fale então.
— Queria fazer algumas perguntas. Acha que ela é capaz de me responder com coerência?
— Capaz, sim. Mas duvido que queira responder ao que perguntar, com gelo ou sem ele...
Tente, assim mesmo.
— Madame Zorka. Sou Nero Wolfe... Queria perguntar algo a você... Quando esteve pela
última vez na Iugoslávia?

Com o rosto coberto por ambas as mãos, ela moveu a cabeça, gemeu e murmurou algo não
muito mais inteligível que o grunhido de um urso polar.

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— Madame, disse Wolfe pacientemente, — Lamento que não esteja bem, mas se trata de
uma pergunta simplicíssima. E lhe dirigiu um par de frases das quais não entendi nada. Ela nem
sequer moveu a cabeça. — Não compreende servo-croata? Perguntou Wolfe.
— Não, murmurou ela. — Não compreendo...

Wolfe continuou insistindo durante mais uma hora. Quando queria era tão paciente quanto
gordo, e parecia que estava disposto a se exceder nesta ocasião. Tomei notas taquigraficamente
de tudo no meu caderno e jamais enchi tantas páginas com tão pouca informação. Zorka não
respondeu às perguntas que foram feitas à respeito a quando estivera na Iugoslávia, como e
quando havia adquirido o nome que usava e se havia nascido lá ou não. A única coisa que pode
se estabelecer em princípio foi que ela havia residido em Paris, pelo menos uma noite, que havia
se instalado como modista com ajuda de capital emprestado, que sua língua materna não era o
servo-croata e que não se achava em termos muito amistosos com Neya Tormic, nem com Carla
Lovchen, que havia conhecido superficialmente Percy Ludlow, que tomava lições de esgrima
para não engordar, mas que não era particularmente experiente com a espada. Wolfe conseguiu
fazê-lo confessar que havia ligado para o nosso escritório, mas foi um triunfo pobre: não
conseguiu que recordasse o que havia dito. As quatro e vinte, Wolfe se levantou de sua cadeira,
deu um suspiro e me disse:

— Coloque-a no quarto sul, e feche com chave. Ela se levantou também, se apoiou na borda
da mesa para se segurar e declarou:

— Quero ir para minha casa.


— Está rodeada de polícias. Como lhe disse antes, estão informados do que você me disse
por telefone. Levariam-na para a Chefatura e ali utilizariam meios para fazê-la confessar muito
mais violentos do que os que eu empreguei... O que decide?
— Dormirei aqui.
— Perfeitamente. Boa noite, Madame... Boa noite, Archie.

Quando chegamos ao quarto que Wolfe havia lhe destinado, Zorka parecia já quase adormecida.
Fritz havia colocado em cima de sua mesinha-de-cabeceira o jarro de Catleias da mesa de Wolfe.
Zorka não tinha chinelos nem de escova de dentes, mas tinha orquídeas. Fritz desfez a cama e
me ajudou a sentá-la na borda.

— Quer que lhe ajude a tirar a roupa? Perguntei para minha vítima. Ela moveu a cabeça. —
Abro a janela? Outro gesto negativo.

Saímos. Fechei a porta por fora e guardei a chave no bolso. Eram dez para as cinco de uma
manhã de novembro e o dia estava clareando quando me deixei cair sobre a cama.

Às oito da manhã, banhado e vestido, mas com olheiras e atordoado, subi ao andar superior
com uma xícara de café. Quando minha terceira e mais enérgica batida ficou, como as outras,
sem resposta, dei volta à chave e entrei. Zorka não estava ali. A cama continuava igual como
Fritz a havia deixado, e a janela da esquerda, a que dava à escada de incêndio, se achava aberta
de par em par.

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CAPÍTULO 12

Desci a toda velocidade para o quarto de Wolfe, tamborilei um instante na porta e entrei.
Encontrei-o recostado sobre os travesseiros, disposto a atacar valorosamente a bandeja do café-
da-manhã, composto de suco de laranja, ovos au beurre noir, duas fatias de presunto da
Geórgia, batatas cozidas, bolinhos quentes e uma xícara de chocolate fumegante. Ao me ver,
gritou:

— Ainda não tomei o café-da-manhã!


— Nem eu, disse amarguradamente. — Não estou de melhor humor que você. Assim nos
unem laços comuns. Acabo de levar para a nossa convidada uma xícara de café...
— Como ela está?
— Não sei.
— Ainda está dormindo?
— Ignoro.
— Que diabos está diz...?
— Preparava-me para lhe contar e você me interrompeu. Peço que me deixe falar. Zorka foi
embora. Nem sequer se deitou. Saiu pela janela que dá para a escada de incêndio e é de
presumir que chegou à Rua Trinta e Quatro, utilizando o corredor que nós empregamos algumas
vezes. Agora, já que desceu pela escada de incêndio, precisou passar ante essa janela, em frente
a você, e já havia começado a amanhecer...
— Já estaria dormindo.
— Assim parece. Mas eu esperava que, com uma mulher em casa, uma mulher que pode
muito bem ser uma criminosa, você procuraria vencer uma debilidade que podia colocar em
perigo as vidas de...
— Cale-se!

Bebeu um bom gole de suco de laranja, me olhou irritado durante cerca de meio minuto e
terminou o suco.

— Telefone para o senhor Cramer, disse finalmente, — E conte tudo.


— Incluindo minha visita ao ninho dos passarinhos? Wolfe fez uma careta.
— Não empregue termos como esse quando estou com o estômago vazio. Pode contar
tudo, excetuando o que constituiu a minha ameaça ao senhor Barret.
— A dos bosque bósnios... Certo?
— Sim... É preciso evitar que saibam disso até o momento oportuno. Se o inspetor desejar
uma transcrição de nossa conversa com Zorka, faça. Ele possui recursos para vigiar essa gente e
descobrir o paradeiro da fugitiva. Se quiser me ver, marque para as onze.
— A essa hora virá sua filha, senhor Wolfe.
— Então marque Cramer para as doze... Em seguida telefone para a "Rádio Seven Seas" e
pergunte se eles têm algo para mim. Em caso negativo, que me enviem o que chegar
imediatamente, sem demora. Peça uma ligação para o senhor Hitchcock, de Londres, para as
nove em ponto.

— Precisarei tomar nota da conversa?


— Não. Quem já chegou?
— Ninguém ainda. Mas não demorarão a chegar.

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— Quando Saul chegar, coloque o envelope no cofre. Vou vê-los tão logo termine a ligação
com o senhor Hitchcock. Mande-me primeiro Saul, em seguida Fred e finalmente Orrie... Tomou
o café-da-manhã?
— Sabe que não.
— Então, vá tomar.

Quando Saul, Fred e Orrie chegaram, os levei para a sala de espera. Liguei para o inspetor
Cramer e relatei a triste história. Ele não havia dormido muito mais que eu e se indignou ao saber
que tivemos em nossas mãos Madame Zorka durante duas horas sem avisá-lo. Disse-me que
queria um relatório escrito, não somente do que havíamos falado com Zorka, mas também da
conversa com Barret e da minha visita à Avenida Madison. Mas não pude escrever muito, ainda
que me tivesse proposto fazê-lo. As nove a ligação para Londres foi completada, que não
escutei, já que Wolfe havia me dito que não se tomasse nota dela. Em seguida enviei Saul para
receber instruções, depois de ter apanhado o envelope e guardado no cofre. As instruções para
Saul deveriam ser muito complicadas, pois se passaram quinze minutos antes que descesse, e
quando o fez, me pediu tranquilamente cinquenta dólares para gastos. Deixei escapar um
assovio e lhe perguntei a quem se propunha subornar, me respondendo que ao promotor do
distrito. Wolfe me chamou pelo telefone interno e disse que Fred esperasse e que fizesse subir
Orrie Cather. A missão deste deveria ser muito simples, pois voltou quase imediatamente e me
pediu três mil dólares em notas pequenas.

— E se apresse, porque tenho que passar o dia nas bibliotecas públicas...

Sem olhar o maço de notas que lhe entreguei, colocou no bolso e saiu apressadamente. Quando
me preparava para recomeçar a datilografia, chamaram ao timbre da porta e saí para abrir. Era
Rudolph Faber.

Admito que aquela era a casa de Wolfe, que eu era um empregado seu e que a urbanidade é
urbanidade, mas o visitante precisou retirar seu paletó e pendurá-lo por si mesmo no cabide.
Entrou em seguida diante de mim no escritório, porque não quis me seguir, e não precisou que o
convidasse a sentar. No vestíbulo lhe expliquei que o senhor Wolfe jamais recebia alguém pela
manhã antes das onze, mas me ouviu como quem ouve chover e eu sentei à minha mesa e
chamei Wolfe pelo telefone interno.

— O senhor Faber acaba de chegar, disse.


— O que quer?
— Vê-lo. Disse que esperará.
— Duvido um pouco que possa atendê-lo antes do almoço.
— Já lhe disse.
— Bem... Ligue para o senhor Green. Mas antes dê ao senhor Faber um bom livro para que
se entretenha, e vejamos o que acontece.
— Está bem. Girei em minha cadeira e disse ao nosso visitante: — O senhor Wolfe precisa de
mim lá em cima, mas me disse que lhe dê um bom livro para que não se aborreça.

Levantei-me, abri o armário-biblioteca, e apanhei o volume de IUGOSLÁVIA UNIDA. Em seguida


me voltei para ele para entregar.

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— Acho que gostará... É um dos dois livros mais interessantes que...

Ergueu-se, jogou o livro no chão e se dirigiu para a saída. Eu trotei atrás dele e consegui me
colocar entre ele e a porta.

— Apanhe o livro do chão! Gritei.

Reconheço que era uma fanfarronada, mas ardia de desejo de alterar no que fosse possível
aqueles traços imóveis e orgulhosos, e por outro lado estava impressionado pelos relatos da
imprensa sobre determinados atos de certas pessoas em algumas partes do mundo. Ofereci-lhe
uma segunda oportunidade de sair incólume repetindo:

— Apanhe o livro do chão!

Mas ele quis continuar a marcha para a porta. Não apontei para o queixo porque ele não tinha e
não estava disposto a pagar os gastos que originaria sua estada no hospital. Em vez disso, dirigi
um soco de direita ao seu olho esquerdo, e me deixei levar... Abriu-se a porta da sala de espera e
Fred Dudkin assomou a cabeça.

— Precisa de mim, Archie? Perguntou.


— Venha, respondi. — O que acha disto? Aproximou-se e contemplou um instante a inerte
figura de Rudolph Faber.
— Quantos socos deu?
— Um só.
— Deus meu! E o seu sobrenome é Goodwin...? Algumas vezes me sinto inclinado a pensar...
A sua mãe esteve alguma vez na Irlanda?
— Qualquer dia se verá como este desgraçado. Retire-o daqui pois está despertando.

Faber se levantou pouco a pouco. Primeiro sobre as mãos, em seguida sobre mãos e joelhos;
finalmente conseguiu se colocar de pé. Voltou-se lentamente, me olhou e eu desviei o olhar para
não ver a expressão de seus olhos. Tive a intenção de obrigá-lo a apanhar o livro, mas não o fiz.
Quando começou a andar para a porta dei um passo para o lado e deixei que Fred o
acompanhasse à rua. Em seguida apanhei o livro, coloquei-o em seu lugar, esfreguei os nós dos
dedos, abri e fechei a mão direita um par de vezes e telefonei para Wolfe. Sua resposta foi um
grunhido ininteligível.

Quis prosseguir a minha obra datilográfica, mas não me deram tempo. Além de minha
repugnância natural a estragar papel para proporcionar matéria legível a um policial antipático,
tive constantes interrupções. Miltan perguntou por telefone se havia alguma notícia,
respondendo-o eu mesmo que não. Em seguida, um indivíduo de San Luis quis falar com Wolfe
sobre orquídeas, obtendo uma reunião para o dia seguinte. Orrie Cather, e algo mais tarde Saul
Panzer, solicitaram que lhes pusesse em comunicação direta com Wolfe, e não soube sobre o
que conversaram. As onze, o telefone voltou a soar. Era uma voz de mulher que perguntou pelo
senhor Wolfe.

— Quem é? Perguntei.
— O senhor Barret.

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— Diga que venha ao telefone.
— Um momento. Esperei e um instante depois ouvi uma voz de homem.
— Quero falar com o senhor Wolfe, falou.
— Você é o senhor Barret? Perguntei.
— Não.
— Quem é o que quer falar com o senhor Wolfe?
— O senhor Barret.
— Passe para ele.
— Um momento. Após uma pausa algo longa, voltei a ouvir uma voz de homem muito mais
agradável que a outra.
— Barret falando... É o senhor Wolfe?
— É Donald Barret?
— Não, não... Sou John P. Barret.
— O pai de Donald...? O de Barret e De Russy?
— Realmente, senhor Wolfe... Você poderia...?
— Um momento... Não sou o senhor Wolfe, mas Archie Goodwin, seu secretário particular...
O senhor Wolfe estará ocupado até as onze... Se quiser me dizer algo para ele...
— Sim... Diga que passe no meu escritório o mais rápido possível.
— Sinto muito, senhor; o senhor Wolfe nunca faz visitas.
— É que se trata de algo importantíssimo... Algo que pode proporcionar benefícios
insuspeitados.
— Sinto muito, senhor... Não insista... O senhor Wolfe somente concede audiências em seu
escritório... Não cruzaria a rua nem para receber as chaves do Banco da Inglaterra.
— Isso é ridículo.
— Tem razão, senhor. Sempre fui da sua opinião; mas não vale a pena discutir, pois é um
caso interessante de teimosia inconsciente. Durante dez segundos não ouvi nada. Em seguida a
voz de Barret perguntou:
— Onde fica seu escritório?
— Rua Trinta e Cinco, número 506, Oeste.
— Muito obrigado.

Quando Wolfe desceu, uns minutos mais tarde, contei minha conversa com Barret, mas não
pareceu impressioná-lo muito. Deu uma olhada às três páginas do relatório que havia
conseguido terminar e começou a abrir o correio. Pouco depois Fritz entrou para anunciar a
visita da senhorita Neya Tormic, fazendo-a entrar no ato. Neya cumprimentou Wolfe
apressadamente, sem me fazer o menor caso e sem sequer sentar perguntou:

— E o documento? Wolfe repôs:


— Sim... Está aqui... Tenha a bondade de sentar...
— Dê-me o documento!
— Entregue, Archie.

Abri o cofre. O documento ainda estava dentro do envelope dirigido a Saul Panzer, então o
extraí e joguei o envelope no lixo, entregando o documento à garota, que o desdobrou e
examinou atentamente. Wolfe estendeu uma mão e disse:

— Me permite que o veja?

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Quando ela, com visível má vontade, entregou o documento, ele deu uma olhada, dobrou-o
cuidadosamente e perguntou:

— Onde está a senhorita Lovchen?


— Suponho que estará no estúdio. Pelo menos disse que iria para lá.
— Não acredito que tenha lições de esgrima hoje.
— Não sei. Ela disse que iria.
— Você viu-a nesta manhã?
— Claro que sim... Moramos juntas em um apartamento na Rua Trinta e Oito. Dê-me isso...
— Espere um momento... Não sei por que havia presumido que a senhorita Lovchen a
acompanharia aqui nesta manhã... Talvez lhe pareça estúpido, mas é assim... Além disso, como
foi ela que deixou aqui este documento, gostaria de devolvê-lo a ela...
— Eu o levarei.
— Não, não... Archie, acompanhe a senhorita Tormic até a casa de Miltan e entregue isto
para a senhorita Lovchen...
— Isso é absurdo! Protestou nossa cliente. — Que diferença há entre Carla e eu?
— Nenhuma, talvez, mas isso me satisfaz mais. Entregou-me o papel e olhou-a gravemente.
— Suponho que se dará conta do que está fazendo... O senhor Faber esteve aqui duas vezes
com a ideia de se apoderar desse documento.
— Oh! Neya mordeu os lábios. — Verdade?
— Sim... Na segunda e última vez foi há uma hora, e o senhor Goodwin perdeu os estribos e
lhe deixou um olho roxo... Então, presumo que vocês se dão conta de que a posse desse papel...
— Nos damos conta.
— Perfeitamente... Espera terminar a sua... Missão hoje mesmo?
— Sim.
— Onde e quando? Ela moveu a cabeça. Wolfe encolheu os ombros. — Foi se encontrar com
o senhor Cramer?
— Sim, mas não vi o senhor Cramer. Um policial foi me apanhar em casa e me levou à
Chefatura, onde me interrogaram outros dois.
— Você falou das coisas que encontrou?
— Sim.
— Não perguntaram nada sobre a sua missão política ou algo parecido?
— Não... A polícia não sabe uma palavra disso.
— Seguiram-na quando veio para cá?
— Não acho... E não me faça perder mais tempo, senhor Wolfe...
— Está bem... Já sabe o que lhe disse, Archie... Entregue esse documento a senhorita
Lovchen na presença da senhorita Tormic. Eu sugeri:
— Fred está na sala de espera.
— Não... Faça isto você mesmo.
— Cramer virá dentro de meia hora.
— Já sei... Apresse-se.

Acompanhei a Neya até porta. O carro ainda estava onde o havia deixado naquela madrugada.
Subimos, e não demoramos em chegar frente à casa de Miltan. Quando chegamos, um agente à
paisana me perguntou:

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— O que procuram aqui?
— Trata-se de um assunto particular, garoto, respondi sem me deter na escada.

Jeanne Miltan estava rodeada de três polícias, um deles com caderno e lápis. O indivíduo
anotava as respostas que os outros dois obtinham, das perguntas que estavam fazendo à
esposa do campeão de espada. Neya se dirigiu a Jeanne e perguntou:

— A senhorita Lovchen está lá em cima?


— Não... Esteve aqui um momento nesta manhã, mas foi para casa há uma meia hora.
— Para que a procuram? Perguntou-me um dos policiais.
— Para vender uma papeleta que íamos... Vamos, senhorita Tormic.

Chegamos junto ao carro e ela me disse:

— É estúpido que me acompanhe, senhor Goodwin... Por que não me entrega esse
documento e vai embora?
— Porque seu papai me poria na rua se o fizesse. Qual é o endereço senhorita?
— Rua Trinta e Oito, 404, Este.
— Ótimo... Não demoraremos... Interrompi-me ao ver algo que me pareceu
extraordinariamente cômico. — Suba no carro, disse, — E me aguarde um instante... Volto em
seguida.

Deixei-a e me encaminhei para um táxi que acabava de parar a dez passos do meu carro. Havia
descoberto a identidade do ocupante do táxi. Quando coloquei o pé no estribo, o motorista me
disse:

— Ocupado.
— Já sei. Estendi o pescoço para ver melhor Fred Durkin, encolhido no assento, e adicionei:
— Vamos para a Rua Trinta e Oito, 404, Este.

Voltei ao carro, coloquei-o em marcha e disse a Neya que acabava de reconhecer um nobre
russo, íntimo amigo meu, que dirigia um táxi por vontade própria, mas ela não me respondeu.
Deveria estava pensando na historia dos Balcãs ou em algo parecido.

O número 404 da Rua Trinta e Oito Este, era um antigo edifício convertido em apartamentos
baratos à custa de algumas reformas. Oito degraus ante a porta de entrada, em seguida uma
porta que dava a um vestíbulo cheio de caixas de correio e timbres, depois uma porta que dava
para um corredor estreito. Não foi necessário que Neya utilizasse chave alguma, porque a porta
estava aberta e precisei apenas empurrá-la para entrar. Deixei-a entrar primeiro e subi dois
lances de escada, com luz apenas suficiente para não ter que andar às cegas, até uma parte
onde se deteve para abrir a bolsa e apanhar uma chave. Em seguida pensou melhor e apertou o
timbre. Ouvi o barulho, mas ninguém saiu para abrir. Neya voltou a chamar, com o mesmo
resultado negativo. A garota murmurou:

— Jeanne nos disse que ela vinha para cá.


— Sim... Não tem a chave?

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Neya abriu a bolsa e desta vez apanhou a chave. Colocou-a na fechadura, girou e abriu a porta.
Demos quatro passos e entramos. Neya parou de repente, deu um grito de espanto, e eu, por
cima de seu ombro, vi estendido no chão o corpo de um homem em estranha atitude. O rosto
era o mesmo que meu punho havia desfigurado duas horas antes. Antes que pudesse impedir,
Neya jogou a cabeça para trás a e gritou com todas as suas forças:

— Carla!

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CAPÍTULO 13

— Quer ter a bondade de fechar o bico? Disse-lhe cortesmente.

Ela não se moveu. Olhei seu rosto e me pareceu que não iria continuar gritando, então me
aventurei a examinar rapidamente o cadáver. Permaneci de joelhos meio minuto, utilizando meu
cérebro em toda a sua capacidade. Finalmente me levantei e disse:

— O pior de tudo é que estou com esse maldito papel no bolso. Ela cravou seus olhos nos
meus e repôs quase sem mover os lábios:
— Dême-o.
— Isso seria uma solução magnífica, assegurei, — Mas prefiro conservá-lo. Dei a volta a uma
mesa para chegar a uma das janelas, assomei a cabeça e vi o que esperava ver. — Mais calma?
Disse voltando para junto de Neya.
— Sim.
— Então, venha comigo à janela. Ela foi. — Vê aquele táxi cinza e branco, parado no meio da
rua?
— Sim.
— Desça e se aproxime dele. Pergunte ao passageiro que está dentro se se chama Fred
Durkin, e se disser que sim, adicione que quero que suba imediatamente, sem entrar em
detalhes porque o motorista poderá ouvi-la. Volte com ele e utilize suas chaves. Eu estarei
vigiando da janela, e se se pensar em fugir...
— Não vou pensar.
— Bem. Vá então. Você é uma garota valente.

Da janela a vi sair à rua, se dirigir ao táxi, abrir a porta e falar com seu ocupante, regressando em
seguida com Fred. Não muito certo do que podia fazer uma montenegrina em um caso como
aquele, permaneci na janela até que os dois entraram no apartamento. Fred parou
imediatamente ao ver figura de Faber.

— Bom trabalho! Exclamou, me olhando.


— Não fui eu, me apressei a explicar. — Mas aqui tem algo importante, adicionei,
entregando o documento. — Como fui eu quem descobriu o cadáver, então... Dê-me isso, diabo!

Neya havia se jogado como um campeão de espada, arrancara o documento de minha mão e
dera um salto para trás.

— Você é tão rápida como um relâmpago! Exclamei. — Mas não valerá de nada. Precisa ficar
aqui comigo, e quando a polícia vier a revistarão assim mesmo... Se não quer que se apoderem
desse papel, o entregue a Fred. Fred estendeu uma mão.
— Dê-me, garota!
— O que fará com ele? Perguntou Neya.
— Vou guardá-lo. Em vista de que ela continuava imóvel, avancei um passo, apanhei o
documento e dei-o a Fred.
— Desça, disse, — E despeça o táxi. Apanhe o meu carro e vá para o escritório. Se Wolfe
estiver sozinho, lhe dê o papel. Se não estiver, vá à cozinha e diga a Fritz que avise Wolfe de sua
chegada e lhe dê o papel em mãos.

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— E digo...?
— Não se preocupe. Eu telefonarei. Se perguntarem, pode contar tudo o que viu, sem
mencionar para nada o documento. Mando-o ao escritório porque sei que me prenderão aqui
até Deus sabe quando, e eu estando ausente, Wolfe precisará de você. Compreendeu bem?
— Compreendi... Até a vista.
— Espere um momento.

Comecei a examinar a sala. Olhei atrás e debaixo de um sofá, abri a porta do banheiro para dar
uma olhada no seu interior, e tinha a mão na maçaneta de outra porta que levava à parte
posterior do apartamento, quando Fred grunhiu:

— Cuidado com as impressões digitais!


— Ao diabo as impressões digitais! Eu não tenho direito de procurar um assassino?

Continuei examinando tudo, em particular os lugares que podiam oferecer esconderijo a um


homem ou a uma mulher. Não demorei muito, porque o apartamento se constituía de um
banheirinho, uma cozinha minúscula e dois quartos. Voltei então à sala e disse a Fred:

— Já pode ir. Neya estava tremendo, então a convidei a sentar, mas ela meneou a cabeça.
— Não... Estou bem. Onde estará Carla?
— Como vou saber? Dei a volta à mesa, levantei o fone e disquei um número.
— Espere...! Por que não va... mos? Poderíamos ir procurar a... Car... la!
— Esplêndida ideia! Todas as suas são geniais, como a de ontem ao colocar aqueles objetos
no meu bolso... Como quer que a gente saia daqui quando os rapazes que havia a casa de Miltan
sabem que viemos para cá, além do motorista do táxi de Fred...?
— Nero Wolfe, ouvi dizer no telefone.
— Alô, chefe... Cramer está aí?
— Sim.
— Bem... Então responda coisas que não o deixem adivinhar do que falamos... Estivemos na
casa de Miltan, e Carla havia saído para vir para sua casa. Viemos para cá, Rua Trinta e Oito, 404,
Este... Lembrará do endereço?
— Sim.
— É uma casa velha, com uma escadinha na entrada, dois lances de degraus. Encontramos
Rudolph morto, com um buraco no costado esquerdo, cheio de sangue. Não achei arma
nenhuma... Neya está ao meu lado... Telefono do apartamento que foi cometido o crime...
— Um momento... Minha boa amiga...
— Posso continuar?
— Fale, fale você; mas creia que lamento...
— Fred estava nos seguindo. Enviei Neya para que o avisasse, ele subiu e lhe entreguei o
papel. Neste momento se dirige ao seu escritório. A polícia não demorará em descobrir que ele
esteve aqui... Notei que alguém andou revistando a casa... Todas as gavetas estão abertas,
vários objetos estão espalhados pelo chão... O número deste telefone é Hammond três, quatro,
cinco, zero, cinco... Quer que continue falando?
— Não.
— Vai pensar sobre o que lhe disse...? Quer meditar tranquilamente e que ligue de novo
dentro de três minutos?

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— Não... Não desligue... O inspetor Cramer está aqui e vou contar tudo a ele. Ao cabo de
dois minutos escutei a voz rude de Cramer:
— Goodwin!
— Diga senhor.
— Fique aí! Ouviu?
— Sim, senhor.

Isso foi tudo. Desliguei o telefone, me aproximei de Neya, segurei-a pelo braço e fiz com que se
sentasse.

— Olhe, senhorita, comecei dizendo, — Se tentar convencer Cramer de que você não sabe
nada de Faber e que não pode imaginar por que veio aqui, perderá lastimosamente o tempo e a
saliva. Por outro lado, se lhe disser a verdade, você vai se encontrar na maior encrenca de sua
vida... Além disso temos um pequeno detalhe: Quem quer que tenha assassinado Faber a privou
de seu álibi no assassinato de Ludlow. Não quero assustá-la, mas que compreenda...

Interrompeu-me o timbre do telefone. Atendi a ligação, e disse:

— Aqui é Hammond três, quatro, cinco...


— Archie, Cramer não demorará em chegar aí.
— Muito bem.
— Como está a senhorita Tormic?
— Assustada.
— Quando a interrogarem sobre o que fez a partir das dez da manhã, hora em que o senhor
Faber saiu daqui, que se negue a responder a não ser na presença de seu advogado, coisa que as
circunstâncias justificam amplamente.
— Falarei com ela.
— Procurarei que se encarregue de aconselhá-la o senhor Parker... O que ela diz da
senhorita Lovchen?
— Não sabe de nada. A primeira coisa que fez quando chegamos aqui e viu o cadáver foi
chamar aos gritos a sua amiga...
— Bem, bem... Ouça! Onde colocou os dados sobre a germinação dos híbridos de oncidium?
Queria examiná-los!
— Santo Deus! Exclamei irritado. — Aqui está a sua filha a ponto de sofrer uma comoção
cerebral e eu com as mãos empapadas do sangue de Faber, e você só pensa em...!
— Onde colocou os dados que pedi?

Eu disse. Ele agradeceu e cortou a comunicação. Olhei para Neya, com o queixo afundado no
peito e as mãos contraídas.

— Me parece que em vez de pai adotivo, você tem um maluco, senhorita... Você sabe o que
ele está fazendo...? Examinando os dados de germinação de umas sementes de orquídeas que
plantou há um ano...! Incidentalmente me disse que não responda às perguntas que a polícia lhe
faça sobre o que você fez desde as dez da manhã em diante... Adicionou que vai contratar um
advogado.
— Um advogado para mim?
— Sim.

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Através da janela, que eu havia deixado aberta, chegou aos nossos ouvidos a estridente sirene
da polícia.

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CAPÍTULO 14

Às duas e cinco, Wolfe bebeu as últimas gotas do café de seu almoço, pôs a xícara no pratinho e
emitiu dois sons orais distintos e espaçados. O primeiro foi para expressar satisfação e prazer
pelo passado imediato; a hora passada na mesa; o segundo foi um grunhido de resignado
desespero ante o futuro imediato, representado pela maciça figura do inspetor Cramer, que
chegara ao bater as duas horas e estava esperando no escritório. Wolfe e eu então e nos
sentamos. O extremo do apagado charuto de Cramer descrevia um 8 quase perfeito.

— Lamento tê-los obrigado a comer depressa, disse sarcástico. Wolfe eructou. O inspetor
então me dirigiu seus sarcasmos. — Não tem nenhuma ideia nova sobre o propósito de sua
visita ao domicilio da senhorita Tormic, na companhia desta?
— Como lhe disse antes, senhor inspetor, fomos lá com a única intenção de apanhar a
senhorita Lovchen.
— Para quê?
— Porque o senhor Wolfe queria falar com ela. Wolfe cortou a disputa na raiz.
— Olhe, senhor Cramer... É estúpido achar que meu ajudante vai lhe dizer algo, se enfiou na
cabeça que não vai dizer nada... Assim aconselho que não malgaste seu precioso tempo. Cramer
permaneceu um instante pensativo. Finalmente declarou:
— Estive pensando enquanto vocês comiam e cheguei à conclusão de que não terei
necessidade de sair desta sala para elucidar este caso... Não me surpreenderia que você já saiba
quem matou Ludlow e quem matou Faber.
— Está errado, senhor Cramer. Não sei.
— Não obstante, você sabe muitas coisas sobre este assunto, que eu ignoro por completo.
Referindo-me à garota, por exemplo... Por que é sua cliente? Ela pode pagar os honorários que
você costuma cobrar...? Não. Quem os pagará então...? Sei muito bem que você jamais trabalha
por filantropia... Em seguida, temos Fred... É um de seus empregados e Archie confessa que o
chamou para que subisse ao apartamento onde Faber fora assassinado e que em seguida o
enviou para cá. Apostaria que trouxe Carla Lovchen consigo.
— Não enlouqueça... Fred veio diretamente daquela casa... Sozinho.
— Acreditarei porque você está dizendo.
— Pergunte a Fritz, que abriu a porta.
— O que me adianta perguntar a qualquer um de seus subordinados...? Mas lhe prometo
que encontraremos Carla Lovchen e Zorka... E a propósito desta... Você a teve aqui, em suas
mãos...
— Estava bêbada.
— Bêbada ou não, não é verdade, segundo você, que escapou utilizando a escada de
incêndio. Não se dá conta de que podia prendê-lo por atrapalhar o trabalho da justiça?
— Por que não tenta?
— Por uma boa razão: porque o comissário de polícia e o promotor do distrito coxeiam do
mesmo pé. São muito brandos.
— Verdade?
— Como ouviu. Este é um assunto que está me deixando maluco. Eu sou policial. Pagam-me
para descobrir se a morte de uma pessoa se deve a um crime ou para deter, em caso afirmativo,
o autor do mesmo e fazer cair sobre ele todo o peso da lei. De cada cem vezes, em noventa e
nove eu consigo colaboração oficial para o desempenho da minha missão, mas de vez em

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quando um grupo de políticos se encarrega de me atar mãos e pés para que não possa fazer
nada.
— E ataram nesta ocasião?
— Sim... O cônsul britânico telefonou ao comissário para expressar a sua dor pela violenta
morte de um súdito britânico e sua esperança de que tal e qual... O comissário foi visitá-lo na
noite passada, às onze, e o cônsul lhe disse que iria entrar em contato com Londres o quanto
antes possível... Nesta manhã perguntei ao comissário o que havia de novo e ele me respondeu
que o cônsul havia lhe dito que não podia dar informação alguma referente a Ludlow, mas que
esperava que se fizesse justiça. Exatamente é o mesmo que dizer que esperemos que o inverno
próximo seja mais benigno que o atual... Algo mais tarde, sugeri que telefonasse à Embaixada
britânica em Washington, mas ele se negou redondamente, declarando que duvidava de que as
investigações dirigidas naquele sentido dessem resultados positivos... Estive a ponto de
telefonar a Washington por minha conta.
— E por que não o fez?
— Porque já sou muito velho para procurar outro emprego. Além disso, tenho quase
certeza de que teria sido um passo infrutífero. O que fiz esta manhã, cinco minutos depois de
visitar da casa da Rua Trinta e Oito foi telefonar ao cônsul geral de Alemanha e perguntar o que
sabia de Faber... E adivinha o que ele respondeu...? Que não tinha a menor noção do que Faber
estava fazendo em Nova Iorque... Depois de ter me dito à noite que respondia por ele em tudo,
referente ao assassinato de Ludlow...! Telefonei depois para a Embaixada alemã em Washington
e obtive idêntica resposta... Por que eles enviam esses homens cujas atividades têm vergonha
de falar depois...? Nem sequer dão informações, quando esses desgraçados morrem
assassinados... Wolfe meneou a cabeça. Cramer ficou olhando-o em silêncio e, de repente,
adicionou: — Enviei também um telegrama a certo lugar de Iugoslávia chamado Zagreb. Wolfe
murmurou:
— Não me diga!
— Zagreb é a cidade de procedência dessas duas garotas, segundo reza em seus
passaportes. Afirmaram que vieram para cá, porque a América é o país das oportunidades, e ao
perguntar por que não desembarcaram com os imigrantes em vez de obter vistos de turistas,
responderam que queriam ver se gostavam antes se estabelecerem...
— Não creio que consiga nada, meu amigo. Se essas garotas agem em nome ou ao serviço
do governo iugoslavo, não lhe dirão uma palavra... E se estão ao de outra pessoa, lembre que
Zagreb é a capital da Croácia e que as autoridades não se mostrarão muito dispostas a ajudá-lo...
Posso perguntar por que escolheu preferentemente a essas duas garotas?
— Não escolhi ninguém. Suspeito de todos... Mas agora, com Faber apunhalado no
apartamento delas... É surpreendente que... Posso perguntar se a senhorita Tormic continua
sendo sua cliente?
— Sim; ainda é.
— Pois se for inocente, creio que você faz mal em não deixá-la falar.
— Eu não acho assim.
— Pois eu sim... Olhe, vou ser sincero, não acho que foi ela quem assassinou Faber... Baseio-
me em duas razões: a primeira é que continua sendo sua cliente. Confesso que é uma razão de
peso. A outra é que a morte de Faber a despoja de seu álibi no assassinato de Ludlow... Não a
acho tão idiota para matá-lo sabendo isso... Tenho certeza de que saiu da chefatura às dez e
quinze, seguida por um de meus homens. Apanhou um táxi, e ao chegar à Rua do Canal,
abandonou subitamente o táxi e entrou no Metrô. Aquilo foi tão inesperado que o meu agente a
perdeu de vista, já que, quando chegou na plataforma, ela já havia pego um trem que acabara

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de partir. O que fez, então, sua cliente no lapso de tempo entre a hora de seu desaparecimento
e às onze e dez, quando chegou ao seu escritório?
— O que ela disse?
— Declarou que havia ordenado ao motorista do táxi que a trouxesse diretamente para cá,
mas que de repente pensou que se pegasse o Metrô teria tempo suficiente para ir a casa de
Miltan encontrar a sua amiga Carla, e assim fez. Quando desceu do trem se deu conta de que
faltaria tempo. Achava-se então na Grande Central... Entrou em uma cabine, ligou para a
senhorita Lovchen e em seguida apanhou outro táxi para chegar até aqui.
— E onde estava a senhorita Lovchen quando Neya lhe telefonou? Na casa de Miltan?
— Sim... Interroguei Miltan e me disse que ele mesmo havia atendido a ligação e que
reconheceu a voz da senhorita Tormic. Imediatamente avisou a senhorita Lovchen para que
atendesse.
— Que horas eram então?
— Aproximadamente quinze para as onze.
— Para que a senhorita Tormic telefonou para a amiga?
— Para algo que não me interessa, segundo me respondeu quando perguntei... Mas, não
obstante, não creio que tenha sido ela quem matou Faber...
— Quem acha que foi? A senhorita Lovchen?
— Como diabos quer que eu saiba...? Não lhe disse já cem vezes que não entendo uma
palavra de tudo Isto...? Não consegui colocar alguém naquele apartamento entre as dez, hora
em que Faber saiu daqui por seus próprios pés, e a hora em que Goodwin e a senhorita Tormic
apareceram ali e encontraram seu cadáver. Não consegui encontrar ninguém que visse alguém
entrar ou sair do edifício naquela hora... E não demorará em começar o inquérito judicial e
sempre se costuma apresentar ao juiz, alguma informação para a localização do assassino! Estou
tentado a dizer que Goodwin foi quem o matou com sua faca de caça! Protestei:
— Nunca carrego faca de caça. Uso corta-unhas.
— Talvez seu campo de investigação esteja muito estreito, sugeriu Wolfe. — Você
considerou que...?
— Não tenho campo algum... Interrogamos todos que estiveram na casa de Miltan na noite
passada. O jovem Gill se achava em seu escritório. Um que fica fora. Miltan e sua esposa
estavam em casa. Três descartados; o que nos deixa seis suspeitos. Driscoll saiu para passear às
dez e meia e chegou ao seu escritório às onze e trinta. Donald Barret afirma que estava em seu
escritório da casa Barret & De Russy, mas ainda não se verificou. A senhorita Lovchen e Zorka
desapareceram. Belinda Read saiu de seu apartamento pouco depois das dez para fazer
algumas compras e ainda não foi localizada.
— E a arma do crime?
— Não foi encontrada. Faber foi apunhalado pela frente; na parte esquerda do tórax. A
folha da arma atravessou o coração e seu assassino a retirou da mortal ferida alguns minutos
depois, a julgar pela quantidade de sangue que brotou dela... Tive ocasião de comprovar, assim
mesmo, que antes de ser apunhalado, Faber recebeu um golpe tremendo no olho esquerdo com
um objeto contundente, duro e pesado. É improvável que tenha recebido o golpe citado ao cair,
porque então não teria apresentado a tumefação que aparecia em seu olho... Isso indica que
houve luta... A que vem isso? Esta pergunta ele fez, por que eu havia dobrado meu punho direito
e o segurava firmemente por baixo de seu nariz.
— Contundente, duro e pesado, declarei.
— O quê?

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— Sim, senhor inspetor; fui eu. Mostrou-se um pouco grosseiro aqui e precisei lhe dar uma
lição de urbanidade. Confesso isso, por que, se encontrar alguém que o viu sair daqui e se lhe
ocorrer de me acusar por ocultar provas...
— Você não é capaz de apunhalar ninguém! Exclamou Cramer, me interrompendo.
— Claro que não.
— Talvez, quando você e a senhorita Tormic chegaram lá, poderiam tê-lo surpreendido
revistando o apartamento. Você perdeu a cabeça e o derrubou com um soco, e a senhorita
Tormic, enlouquecida de raiva, lhe afundou uma faca. Em seguida você chamou Fred Durkin e
entregou a arma para que a fizesse desaparecer. Imediatamente depois você telefonou para cá,
onde eu me encontrava e...
— Magnífico processo dedutivo, mas vai enfrentar a questão do motivo. Que coisa poderia
enfurecer a senhorita Tormic até o ponto de induzi-la a matar...? Outra coisa que se opõe à esta
estupenda dedução, é que Fred se achava aqui quando estropeei o físico de Faber... Ah, senhor
Cramer, sua maravilhosa teoria está cheia de lacunas...! Tire-me da lista de suspeitos eu suplico...

O telefone me interrompeu. Chamavam Cramer, que esteve emitindo sons vocais durante dez
minutos, desde o grunhido inarticulado às mais detalhadas instruções. Quando terminou voltou
a sua cadeira. Olhou-me fixamente e disse:

— Ouça, meu filho, você possui um par de boas qualidades que o faz parecer simpático às
vezes, ainda que em outras eu seria capaz de ver como lhe arrancavam a pele em tiras sem
verter uma lágrima. Você tem uma calma que só Nero Wolfe pode igualar... Neya Tormic está na
chefatura, acompanhada do advogado que você, Wolfe, lhe proporcionou. Nega-se a responder
às perguntas de meus subordinados... Pensei em telefonar para Rowcliff, para que diga a ela que
você, Goodwin, confessou que Faber estava vivo quando você e ela chegaram lá e que enquanto
você lhe dava um direto no olho esquerdo...
— Adiante! Instei. — Será interessante ver o resultado de sua argúcia! Agora bem, no que se
refere a minha calma, jamais a tive, nem a tenho, nem a terei, para enfrentar o risco de que me
façam sentar na cadeira eléctrica.
— Ontem à tarde você fugiu do teatro do crime com a arma utilizada para cometê-lo.
— Mas não estava sabendo que a levava. Além disso, não fugi; saí simplesmente... Não
complique as coisas.

Cramer se ajeitou em sua cadeira, suspirou e esfregou o nariz pensativamente. A porta naquele
momento se abriu e Fritz entrou para anunciar:

— O senhor Cather. Orrie entrou com o paletó colocado e o chapéu na mão.


— Algo novo? Perguntou Wolfe.
— Nada, senhor. Wolfe fez uma careta.
— Encontrou o que lhe disse?
— Sim, senhor... Seu nome foi citado em vários artigos e às vezes nos cabeçalhos... Mas
como não entendia o que diziam...
— Não havia fotografias?
— Não, senhor.
— Já esteve na Segunda Avenida?
— Ainda não.

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— Pois vá até lá. É possível que encontre... Ah, é provável que o senhor Cramer tenha
ordenado que sigam a todos quantos saiam desta casa! Se vier alguém atrás de você, procure
despistá-lo. Não quero que a polícia se intrometa em meus assuntos particulares.
— Será um prazer para mim, senhor... Cramer bufou, desgostoso.

Soou o telefone naquele instante. Cramer se pôs no aparelho e depois de curta conversa voltou
a sua cadeira com uma careta de satisfação.

— Bem... Bem... Apanharam Zorka...


— Verdade? Perguntou Wolfe. — Onde foi encontrada?
— Em um quarto do Hotel Brissenden. Havia se hospedado com nome suposto. Chegou ali
nesta manhã às cinco e dez.
— Espero, murmurou Wolfe, — Que tenha vestido alguma coisa a mais do que aquilo
vermelho que usava ontem à noite.
— O quê? Inquiriu Cramer estranhado.
— Nada... É um monólogo... O que houve, Fritz?

Fritz trazia a bandeja dos cartões de visita. Wolfe apanhou o cartão, leu e franziu as
sobrancelhas.

— Diabo! Exclamou. — Onde está?


— No vestíbulo, senhor.
— Pois leve-o para a sala, feche por fora e volte aqui. Quando Fritz voltou, Wolfe se dirigiu
ao inspetor: — Não tem nada a fazer por aí, senhor Cramer?
— Não. Gosto de estar aqui dentro. Se saísse, tenho a certeza de que não me permitiria
voltar a entrar a menos que viesse com um mandato judicial.
— Temia isso... Bem, Fritz, quer acompanhar o senhor Cramer até lá em cima, utilizando o
elevador, e dizer a Teodoro que lhe mostre as orquídeas? Sorriu ao inspetor e adicionou: — Já
faz muito tempo que você não vai lá em cima... Estou certo de que gostará.
— Como gostar? Vou enlouquecer! Respondeu Cramer. E seguiu Fritz docilmente. Wolfe me
estendeu o cartão e li:

JOHN P. BARRET
Barret & De Russy
Nova Iorque

Ouviu-se o ruído do elevador ao subir. Pouco depois voltou a se escutar ao descer. A porta se
abriu e Fritz reapareceu.

— Faça o senhor Barret entrar, ordenou Wolfe.

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CAPÍTULO 15

A figura do pai do "amorzinho" correspondia exatamente à voz que eu havia ouvido no


telefone. Era o tipo de homem que se costuma designar com o qualificativo de distinto e que eu
chamo de "garçom chefe". Teria uns cinquenta anos, estava muito bem barbeado e possuía um
par de olhos cinzentos que não necessitavam olhar mais que uma vez, para dar conta de tudo.
Além disso, usava roupas no valor de quatrocentos e oitenta e cinco dólares, talhadas a olho de
um bom alfaiate. Apertou ambas as mãos de Wolfe, rindo nesse gesto, como se não tivesse
pressa alguma.

— Da sua sacada você vê passar o rio a seus pés, observou originalmente ao mesmo tempo
em que se sentava. Wolfe assentiu com a cabeça e repôs:
— Sim... Adquiri esta casa há alguns anos e não gosto de sair dela. Perdoe-me, senhor
Barret, se me vejo obrigado a dizer que não disponho de muito tempo. Recebi-o por se tratar de
você, mas tenho um visitante que concordou bondosamente ir contemplar as minhas plantas
durante nossa entrevista... O senhor Cramer, da chefatura de polícia.
— Cramer?
— Sim, senhor. O inspetor Cramer, chefe da brigada criminal. Barret exclamou, negligente:
— Oh! Mas em seus olhos se notou uma certa expressão de intranquilidade. — Serei breve,
declarou. — Vim vê-lo por causa de algumas observações que você fez ontem à noite ao meu
filho concernente aos bosques bósnios, créditos sustentados por minha casa e a gangue de
Donevitch... Creio que foram estas as palavras, não? Wolfe respondeu:
— Creio que sim... Não gostou?
— Oh, não...! Nada disso...! Permita-me que fume?

Recebida a aquiescência do dono da casa, Barret apanhou um charuto de uma cigarreira que fez
subir meus valores de carga a oitocentos dólares pelo menos. Acendeu-o, lançou uma baforada
de fumaça e me agradeceu cortesmente pelo cinzeiro que me apressei a colocar ao seu alcance.

— Este meu filho, começou dizendo em um tom de contida exasperação, — Ainda é muito
verde. É inevitável que a juventude divida as pessoas em determinadas categorias à primeira
vista para evitar confusão; mas o retorno é demasiado pervertido para estas coisas. Superestima
uns e menospreza outros... Talvez eu tenha boa parte de culpa por ter lhe dado demasiadas
asas... A presunção de um pai pode levar às vezes a um verdadeiro desastre. Retirou a cinza do
seu charuto com um gesto elegante e perguntou de repente: — O que você quer, então, senhor
Wolfe? Wolfe meneou a cabeça.
— Agora, nada. Queria simplesmente ver madame Zorka, e seu filho me facilitou
amavelmente uma entrevista com ela.
— Sim... Já me falou disso... Mas, o que mais quer você?
— Agora, mais nada. Barret sorriu.
— Bem... Tenho entendido que na sua qualidade de investigador particular recebe algumas
empresas que lhe proporcionam valores adequados a seus extraordinários dotes.
— Realmente, senhor. Mas vou fazer uma pequena ressalva. Só aceito aquelas empresas
que não estão em luta com meus prejulgamentos. Barret riu bondosamente.
— É natural...! Não podemos permitir que alguém defenda nossos prejulgamentos por nós...
Voltou a retirar a cinza do charuto e adicionou: — Meu filho me disse também que você está

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atuando nos interesses de uma garota chamada Neya Tormic, amiga sua por certo, ou, pelo
menos, conhecida, em conexão com o assassinato desse tal Ludlow... Wolfe concordou:
— Realmente. No princípio meus serviços foram solicitados por parte da senhorita Tormic,
para provar a sua inocência em relação ao roubo de uns diamantes de certo cavalheiro chamado
Driscoll; em seguida, assassinaram o senhor Ludlow, e a senhorita Tormic precisava de ajuda por
ter ficado envolvida no crime pelas circunstâncias...
— E foi da senhorita Tormic de quem você recebeu as informações que lhe permitiram
exercer certa pressão sobre meu filho? Porque você obrigou-o a que fizesse algo contra a sua
vontade... Foi assim?
— Sim.
— Ameaçando-o de revelar certas informações... Obteve essas informações da senhorita
Tormic? Wolfe apontou a seu interlocutor com um dedo e repôs:
— Meu querido senhor... Não acredito que seja tão inocente a ponto de esperar que eu
responda a esta pergunta. Barret sorriu. Wolfe prosseguiu: — Sempre fui reticente em dar
informações gratuitamente, assim como você em toda a sua vida reagiu a perder dinheiro. Você
é banqueiro e seu negócio consiste em vender dinheiro; eu sou detetive e o meu negócio
consiste em vender informações... Mas não quero pecar por mesquinho... No que respeita às
atividades de que falávamos, não represento outros interesses a não ser os da senhorita Tormic.
— E, além disso, os seus próprios.
— Sempre. Barret apertou o charuto contra o fundo do cinzeiro.
— Bem... Atrevo-me a crer que isso nos aplainará o caminho... Não me considere inocente.
Fiz algumas indagações e descobri que você goza de reputação de homem de boa fé. Queria
fazer uma proposta referente ao projeto em que minha companhia está interessada...
Precisamente o... Assunto que você mencionou ao meu filho... Temos necessidade de seus
serviços... Não é nada oneroso, nem nada que ofenda seus prejulgamentos... Apanhou uma
carteira de couro do bolso interior do paletó e adicionou: — Começarei por dar um cheque na
qualidade de antecipação... O que lhe parecem dez mil dólares?

Fiz uma careta, pensando que o "amorzinho" havia herdado de seu progenitor a necessidade do
suborno, e olhei para Wolfe. Tinha a boca contraída, o que demostrava que estava sofrendo.
Aquela era uma situação que ele se vira obrigado a encarar numerosas vezes em todo o curso de
sua carreira de detetive, e a tortura estava na razão direta do número de cifras do valor
oferecido. Dez mil dólares constituíam uma fortuna suficiente para manter um bom agente, Ray
Brothers, por exemplo, na América Central, durante todo um ano, dedicado à caça de orquídeas
raras, com a possibilidade de encontrar alguma absolutamente nova... Ou cinco mil caixas de
cerveja... Ou seiscentos gramas de caviar... Mas Wolfe disse valentemente, ainda que com um
pouco mais de esforço que o necessário para pronunciar uma palavra tão simples:

— Não.
— Não?
— Não.
— E se lhe afirmar que não precisará fazer nada que o coloque contra os interesses da
pessoa a qual você representa?
— Não há nada a fazer.
— Pense bem. No caso de que a certeza que lhe dou não o satisfaça, você fica autorizado a
rescindir seu compromisso e me devolver os dez mil dólares...

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Contraíram-se de novo os lábios de Wolfe e eu voltei a cabeça. Mas sua voz demostrou que
havia triunfado rotundamente sobre os poderosos incentivos da tentação.

— Não, senhor. Receber essa quantidade de dinheiro perturbaria a minha digestão durante
uma semana pelo menos; isso se me decidisse a fazê-lo, coisa que duvido... Abandone essa ideia,
senhor... Não aceito comissão, nem depósito algum...
— Definitivamente?
— Irrevogavelmente.

Um tique nervoso apareceu na testa de Barret, que voltou a colocar no bolso interior do paletó a
carteira de couro e em seguida ficou olhando para Wolfe. Finalmente, sem o menor sinal de
afabilidade em seu tom, disse:

— O único recurso que me resta é tirar as minhas próprias conclusões.


— Se assim achar melhor, faça-o.
— Mas confesso que estou assombrado. Não é frequente em mim, e afirmo isso. Não sou
suficientemente crédulo para admitir que seu interesse se limita exclusivamente ao que me
declarou. Tenho muito boas razões para não acreditar, além do fato de que neste caso não
existiria explicação para recusar a minha proposta... Meu filho acha que você trabalha ao serviço
de Londres ou Roma, mas há duas objeções a essas hipóteses: primeira, que não nos
informaram de suas relações com nenhum dos governos interessados, e segunda, que, no caso
de que fosse verdade, você teria se exposto como o fez ontem à noite...? Compreende por que
cheguei a pensar que suas palavras significavam simplesmente um convite para fazer uma
associação?
— Lamento que as tenha interpretado mal, senhor.
— Não me dirá para quem trabalha?
— Já lhe disse que não tenho outro cliente a não ser a senhorita Tormic, senhor Barret.
— Está decidido a não tratar conosco? Wolfe moveu negativamente a cabeça, se não com
entusiasmo, pelo menos com decisão.

John P. Barret se levantou. Em seu rosto se desenhava uma vaga espécie de interrogação, como
a do homem que se dá conta de que ao sair, esquecera alguma coisa sem saber o que era, nem
onde a deixara.

— Queira Deus, disse com tom levíssimo de ameaça, — Que, para sua própria segurança,
não se coloque inconscientemente em nosso caminho. Sabemos perfeitamente quem são
nossos adversários, e não ignoramos o modo como tratá-los. Se se meteu nisto por gosto e
pretende... Wolfe lhe interrompeu com um gesto brusco.
— Não diga bobagens... Sou detetive e estou agindo como tal... Não sou dos que se
interpõem nos caminhos dos outros pelo mero prazer de prejudicá-los... Não obstante, existe a
possibilidade de que, para levar a bom fim o caso que estou investigando, tenha necessidade de
enfrentá-lo... Se isso acontecer, o farei conhecer de antemão.

Desvaneceu-se outra ilusão. Jamais teria suposto que um homem do aspeto e da educação de
Barret, e especialmente com a roupa que ele usava, pudesse fazer ou dizer algo grosseiro e
vulgar. Mas a expressão de seus olhos e até o tom de sua voz não poderiam ser mais
grosseiramente vulgares, quando exclamou:

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— Nunca tente, senhor Wolfe! Que não lhe ocorra se interpor em meu caminho! Girou sobre
seus calcanhares disposto a ir embora.

Afortunadamente eu havia ouvido o rumor dos passos de Fritz ao se dirigir ao vestíbulo, e


fazendo sinal a Wolfe para que retivesse Barret um momento, saí precipitadamente, fechando a
porta do escritório atrás de mim, ainda que não no nariz de Barret, porque este se voltou para
atender a uma observação de Wolfe. Quando descia para o vestíbulo, Fritz acabara de abrir a
porta da rua para deixar entrar três pessoas que irromperam em forma de sanduíche: um
policial, Zorka e outro policial. Sem cerimônias nem desculpas os fiz entrar na sala de espera e
fechei-os por fora. Em seguida me lancei a todo galope para o escritório, estando a ponto de
jogar Barret de bruços no chão ao abrir violentamente a porta.

— Perdoe-me, senhor... Não fiz de propósito, disse, fingindo arrependimento.

Ele me dirigiu um frio olhar e saiu. Eu permaneci no umbral até que vi Fritz acompanhá-lo à rua
com o ritual de costume e então gritei para Wolfe que Zorka chegara acompanhada de seus
apreensores, perguntando se ele achava que Cramer preferiria continuar olhando suas
maravilhosas orquídeas.

— Telefone para Hortsman e diga que faça descer o inspetor. Fiz assim e imediatamente saí
para apanhar Zorka. Os dois policiais se levantaram no ato, dispostos a acompanhá-la.
— Fiquem aqui... Estou levando Madame para o inspetor Cramer.
— Nós ajudaremos, responderam em uníssono, como se fossem gêmeos, e seguraram
Zorka, ainda que não tão próximos que pudessem serem tachados de atrevidos.

Wolfe franziu a sobrancelha ao ver entrar nós quatro em procissão. Uns momentos mais tarde já
eram meia dezena quando Cramer se reuniu a nós. Cinco homens contra uma pobre modista.
Um dos policiais apanhou um caderno de taquigrafia e eu me acomodei com o meu ante a minha
mesa. Wolfe se ajeitou em sua cadeira com as mãos cruzadas sobre seu voluminoso depósito de
frangos, olhando para Zorka com os olhos entornados. Cramer a fuzilava com a vista. Recordei
naquele momento o nome da mulher bíblica a quem se parecia a que tinha em frente a mim...
Dalila... Mas parecia cansada, com largos círculos violáceos em ambos os olhos, assustada,
nervosa e intranquila. Vi com satisfação, por causa do exagerado pudor de Wolfe, que Zorka
havia conseguido colocar uma roupa vermelho-escura, assim como sapatos e meias, mas como
era próprio de Wolfe, ele se aproveitou disso para confundi-la. Naturalmente, o fez porque
estava furioso contra a modista por ter fugido pela escada de incêndio... Sem que ele visse. Ouvi-
o grunhir de repente:

— De onde retirou essas roupas? Ela se olhou como se não tivesse se dado conta de que
usava.
— Isto? Inquiriu.
— Refiro-me aos sapatos e às meias... Quando fugiu daqui nesta manhã, usava somente
uma coisinha vermelha... Essas coisas que completam seu vestuário estavam na maleta que você
levou para o apartamento da senhorita Read... Não é verdade?
— Quando você o diz...
— Por acaso estou errado...? Quem as levou ao Hotel Brissenden...? O senhor Barret? Ela deu
de ombros. Cramer berrou:

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— Poderemos provar isso... E não é isso tudo o que poderemos provar... Depois de você ter
recebido essas roupas nesta manhã, colocou-as e saiu do hotel, sendo seguida por um de meus
homens.
— Isso não é verdade! Ela exclamou. Em seguida mordeu os lábios e prosseguiu: — Por uma
razão muito simples... Se tivesse acontecido assim, saberia onde eu estava e não teria esperado
tanto tempo para me prender. Além disso, não saí do hotel até que estes homens chegaram e...
— Permite-me que seja eu a interrogá-la, senhor Cramer? Perguntou amavelmente Wolfe.
— Se achar que vai conseguir algo, faça-o, repôs o inspetor. Wolfe tossiu para aclarar a
garganta e se voltou para Zorka.
— Você realmente se chama Zorka?
— Naturalmente que sim.
— Sei que é o nome que aparece no cabeçalho de suas cartas e na lista telefônica; mas é o
seu? Colocaram o nome de Zorka quando a batizaram?
— Sim.
— Qual é seu sobrenome? Ela moveu uma mão nervosamente e respondeu:
— Não tenho sobrenome.
— Olhe, senhora... Na noite passada você parecia um tanto bêbada, mas hoje não está. Vai
nos dizer seu sobrenome ou não? A mulher titubeou um instante. Em seguida disse com
repentina determinação:
— Não posso.
— Por quê?
— Porque seria perigoso.
— Perigoso? Para quem? Para você?
— Não tanto para mim como para outros...Exalou um profundo suspiro e adicionou: —
Estou refugiada aqui... Escapei...
— De onde? Ela moveu a cabeça negativamente. Wolfe disse com certa brusquidão:
— Vamos, vamos...! Não diga o lugar, ou a cidade, ou o povoado, se não achar conveniente,
mas nos diga o país... Alemanha...? Rússia...? Itália...? Iugoslávia...?
— Foi da Iugoslávia.
— Ah!... Da Croácia... Da Sérvia...? De Montenegro...?
— Disse da Iugoslávia. Wolfe encolheu os ombros.
— Está bem... Há quanto tempo fugiu?
— Já fez um ano.
— E veio para a América diretamente...? Para Nova Iorque?
— Não... Primero fui para Paris, onde fiquei algum tempo... Em seguida vim para a América...
— Trouxe muito dinheiro consigo?
— Oh, não! Zorka elevou as mãos para o céu para rechaçar aquele absurdo e adicionou: —
Uma refugiada não pode ter dinheiro, como você sabe, senhor.
— Segundo entendi, você possui um estabelecimento em Nova Iorque, cuja instalação deve
ter custado uma fortuna. Zorka sorriu.
— Sabia que me perguntaria isso... O dinheiro foi emprestado um amigo generoso...
— Donald Barret, por casualidade? Ela permaneceu pensativa um momento e finalmente
declarou:
— Sim... Foi Donald Barret... Não me serviria de nada negar, porque vocês não demorariam
a descobrir... O senhor Barret é o que se chama um sócio privado...
— Você está em dívida então com o senhor Donald Barret?
— Em dívida...? Ah, sim...! Devo-lhe muito. Wolfe moveu a cabeça.

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— Tenho pena então, madame... Eu também já tive dívidas... Existem pessoas a quem as
dívidas não preocupam... Desgraçadamente eu não sou dessas... E a propósito... Essas pessoas
da Iugoslávia que ficariam em perigo se você dissesse seu sobrenome, são parentes seus?
— Sim.
— Você é judia?
— Oh, não...! Pertenço a uma antiquíssima família iugoslava...
— Nobre? Ela deu de ombros. — Bem... Não obrigarei a que me diga. O perigo para seus
parentes viria por causa de suas atividades em Nova Iorque?
— Eu só tenho atividades na minha loja...
— Não compreendo então como a revelação de seu sobrenome iria colocar em perigo os
seus familiares.
— Porque seriam suspeitos...
— Suspeitos de quê? Zorka moveu a cabeça. Cramer grunhiu:
— Esta mulher não é normal... Devia ter dito... Quando fomos revistar seu apartamento
nesta manhã... Zorka se voltou para o inspetor e mostrou a sua indignação.
— Como se atreveram a revistar meu apartamento? Cramer repôs tranquilamente:
— Não nos limitamos simplesmente a isso, madame... Fizemos o mesmo com seu
estabelecimento... Você teve sorte de a chefatura não estar neste momento telefonando para
seu generoso amigo para que pague a fiança, mas logo iremos... Voltou-se para Wolfe e
adicionou com rancor: — Não encontramos nada, nem em sua casa nem em seu escritório...
Nada que se refira a uma época anterior há um ano, data em que veio para Nova Iorque... Por
isso lhe disse que não é uma pessoa normal.
— Você encontrou o passaporte, inspetor?
— Não.
— Onde está seu passaporte, madame? Ela humedeceu os lábios com a língua e respondeu:
— Entrei legalmente neste país.
— Então deve ter passaporte... Onde está? Zorka estendeu as mãos com gesto significativo.
— Perdi, murmurou.
— O assunto vai se complicando cada vez mais, comentou Wolfe. — Passemos agora a
ontem à noite, madame Zorka... Por que telefonou para dizer que vira a senhorita Tormic
quando colocava algo no bolso do paletó do senhor Goodwin?
— Porque essa é a verdade.
— E por que não contou à polícia?
— Por temor ao escândalo... Quando telefonei ao senhor Goodwin pensava contar
imediatamente depois à polícia; mas em seguida repensei e decidi contar antes ao senhor
Barret, já que ele é amigo da senhorita Tormic... Telefonei-lhe... Ele sabe que sou uma refugiada,
como fugi, o temor de colocar em perigo aos meus familiares...
— Onde você conheceu o senhor Barret?
— Em Paris.
— Conte-nos o que o senhor Barret disse, quando você ligou para falar da senhorita Tormic.
— Disse que a polícia é extremamente curiosa. Que me interrogariam até me obrigar a
revelar tudo quanto se refere a mim e que poria em perigo a liberdade e até a vida dos meus.
— O que mais?
— Em seguida me aconselhou que fosse fazer uma visita à senhorita Read... Então fiz as
malas...

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Houve uma batida na porta e Fritz entrou, deu três passos e disse por cima do ombro de um dos
agentes:

— O senhor Panzer, senhor.


— Diga que estou ocupado com madame Zorka e com o senhor Cramer.
— Já disse, senhor; mas insiste em vê-lo imediatamente.
— Faça-o entrar então. Cramer grunhiu:
— Foi Barret então o que a induziu a "se mandar"...? Wolfe interrompeu dizendo:
— Não empregue vocábulos tão vulgares, inspetor, e tenha paciência, porque acho que
receberemos reforços.

Ninguém que visse pela primeira vez Saul Panzer pensaria que pudesse constituir um reforço
para nada, mas quem tivesse opinado, teria se equivocado completamente. Eram muitas as
pessoas que o haviam avaliado mal e que em seguida haviam se arrependido. Ao entrar, Panzer
havia deixado o chapéu castanho e o paletó da mesma cor no cabide do corredor, e agora,
enquanto permanecia imóvel, examinando numa só olhada os mais mínimos detalhes de seu
descomunal nariz, parecia insignificante. Wolfe lhe perguntou:

— Resultados, Saul?
— Sim, senhor.
— Definidos?
— Sim, senhor.
— Bem, fale.
— Ia trazer sua certidão de nascimento, mas me dei conta de que podia provocar um
escândalo e decidi tirar uma cópia... Deu um passo para trás, porque Zorka se colocara
repentinamente de pé e, enfrentando-o, gritou enfurecida:
— Não é possível que você tenha feito isso...! Não é pos...!

Interrompeu-a um polícia que a segurou pouco amavelmente por um braço, enquanto colocava
a outra mão sem a menor suavidade sobre seus lábios. Cramer grunhiu:

— Sente-se! Saul continuou falando:


— Não tive necessidade de fazer os gastos que você imaginou, mas precisei gastar três
dólares e noventa centavos em uma conversa telefônica, porque a julguei imprescindível.
— Não duvido. Prossiga. Saul deu um passo para trás.
— A primeira coisa que fiz foi ir ao apartamento de madame Zorka. Haviam quatro detetives
fazendo uma revista. A donzela, sentada no quarto, chorava sem parar... Eu já havia decidido o
que devia fazer em um caso semelhante, então entrei... Interrompeu-se para dar uma olhada no
rosto de Cramer e os de seus acólitos.
— Não se preocupe com eles, comentou Wolfe. — Continue. Se descobrirem seu modus
operandi, encontrará outro melhor para a próxima vez.
— Obrigado, senhor... Estive um minuto somente, falando em termos amistosos com os
agentes e fazendo que a donzela se fixasse em mim. Em seguida me dirigi à loja de modas que
madame Zorka tem instalada na Rua Cinquenta e Quatro. Ali encontrei mais detetives e o
assunto se apresentava pouco prometedor, então decidi deixar aquele lugar como último
recurso. Consegui saber, não obstante, os endereços de vários amigos da dona e gastei quatro
horas fazendo infrutíferas investigações. Finalmente, lá para as duas horas, voltei ao

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apartamento. Pelo porteiro soube de que dois dos detetives permaneciam na casa, então
esperei até que saíssem, ou seja, até as duas e trinta e cinco, e então subi. Pela impressão que
consegui pela manhã, a donzela deu por certo que eu pertencia à polícia, ainda que eu não
dissesse isso. Mas quando entrei comecei a revistar a... Cramer grunhiu:
— Isso já é demasiado! Como se atreveu a usurpar as funções de um agente de polícia? Saul
pareceu estupefato.
— Como inspetor? Jamais teria me atrevido a usurpar as funções de ninguém. Suspeito que
a garota me confundiu com um de seus agentes porque não fez objeção alguma quando
comecei a revistar os aposentos. Pensei então que; se ela havia acreditado que eu fosse agente
da polícia, me chamaria de embusteiro se tentasse convencê-la do contrário, portanto me calei...
E se não considerar impertinência, adicionarei que nunca vi uma revista tão perfeita como o que
levaram a cabo seus homens. Ninguém poderia dizer que a polícia estivera ali. Tudo,
absolutamente tudo, estava em seu lugar correspondente, e, tenho certeza, de que não
deixaram nada por revistar... Por isso prescindi de procurar nos lugares onde fizeram uma busca
minuciosa e me dediquei a procurar nas coisas pessoais... Assim foi como achei um fundo duplo
em uma caixinha de couro. Ali encontrei a certidão de nascimento de madame Zorka, umas
quantas cartas e algumas outras coisas... Saí dali depois de anotar os dados do documento,
entrei em uma sucursal da central telefônica e fiz uma ligação para Ottumwa, Iowa... Para a mãe
da interessada... Fiz isso unicamente para me convencer da veracidade do documento
encontrado... Zorka gritou exasperada:
— Atreveu-se a telefonar para a minha mãe?
— Sim, senhora... Mas não se preocupe... Não disse nada que pudesse assustá-la... Já sabia
pela certidão de nascimento que você se chama Pansy Bupp e além disso li uma carta. Wolfe
interrompeu.
— Como disse que ela se chama?
— Pansy Bupp. Saul apanhou uma folha de papel do bolso e leu:
— Pansy, P.A.N.S.Y. Bupp, B.U.P.P., filha de William O. Bupp... Ela nasceu em Ottumwa em
nove de abril de mil novecentos e doze...
— Dê-me esse papel.

Panzer o entregou e Wolfe, que depois de lê-lo detidamente, cravou seus olhos em
madame Zorka e rugiu pela primeira vez desde que o conheço:

— Por que inventou essa farsa ridícula? Essa imbecil história do perigo de seus parentes e o
seu próprio...! Ela o olhou com a mesma expressão que se estivesse a ponto de afundar uma
faca nas costelas.
— O que você acha que aconteceria a uma couturière da Quinta Avenida se chegassem a
saber que se chama Pansy Bupp...? Responda você a isso. O que acha que aconteceria? Wolfe,
louco de furor, estendeu uma mão para ela e gritou:
— Responda...! Você se chama realmente Pansy Bupp?
— Sim.
— Nasceu em Ottumwa, Iowa?
— Sim.
— Quando saiu de lá?
— Eu costumava passar as férias em Denver...
— Não falei de férias em Denver... Quando saiu definitivamente de lá?

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— Há um par de anos... Meu pai me deu dinheiro para passar férias em Paris... Mas lá
consegui um emprego e aprendi a desenhar... Em seguida conheci Donald Barret e ele me
sugeriu...
— De onde você apanhou o nome de Zorka?
— Vi escrito não me lembro aonde e gostei...
— Esteve alguma vez na Iugoslávia?
— Não.
— Nem em nenhum outro lugar de Europa, excetuando Paris?
— Não.
— É verdade o que disse sobre o motivo que a impulsionou a telefonar para cá e em seguida
fugir para o apartamento da senhorita Read?
— Sim, sim... Fui uma imbecil... Deixei-me convencer por minha própria consciência porque
se tratava de um assassinato... Oh...! Se não o tivesse feito, nada disto teria acontecido...! Parece
impossível...! Que idio...!
— Senhorita Bupp, troou Wolfe, — Que não pense...! Archie, tire-a daqui!
— Com o maior prazer, respondi.

E era sincero.

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CAPÍTULO 16

— Se quiser me expulsar daqui, disse Cramer ao ver Wolfe olhar o relógio, — Precisará
chamar a polícia. Tenho o pressentimento de que você conseguiu descobrir algo e não sairei
daqui sem saber... O tenente Rowcliff me telefonou para dizer que o senhor Barret esteve aqui,
na mesma hora que você me mandou contemplar suas orquídeas; quer dizer, as duas e
cinquenta e cinco...
— Você mandou seguir o senhor Barret?
— Não.
— Ah...! Compreendo... Tem um regimento vigiando a minha casa...
— Tanto como um regimento não; mas estou muito interessado em saber o que acontece
aqui... Ah, outra coisa que Rowcliff me disse é que encontraram Belinda Read... Está em uma
matinê no teatro Lincoln... Quer que venha até aqui?
— Não.
— Então os rapazes se encarregarão dela... É para mim? O telefone tocara.

Fiz um sinal de assentimento e me levantei de minha cadeira para que o inspetor a ocupasse. A
conversa foi relativamente curta. Cramer emitiu uns quantos grunhidos, fez algumas
observações engenhosas, desligou e voltou para sua cadeira. Apenas tinha sentado na minha
quando o telefone interno tocou. Ao pegar o fone ouvi Wolfe perguntando a Cramer se havia
algo novo, ao que o inspetor respondeu que não era nada importante. No auricular escutei a voz
de Fred Durkin que disse:

— Archie?
— Sim.
— Suba! Respondi irritado:
— Não me atrapalhe, Fred...! Acaso não sabe que estou muito ocupado? Esperei um
momento e adicionei: — Está bem... Está bem... Vou em seguida.

Levantei-me e passei ao corredor, fechando cuidadosamente a porta do escritório.


Silenciosamente subi um lance de escadas e cheguei ao quarto de Nero Wolfe. Fred Durkin
estava ali, sentado em uma cadeira junto à cama, ao alcance do telefone, onde lhe fora
ordenado que permanecesse duas horas antes. Ao me ver entrar começou a grunhir:

— Que empreguinho o meu!


— Não se queixe, garoto... A cada um lhe dão uma ocupação possível para seus dotes e
capacidade... De que se trata...? Da senhorita Lovchen? Concordou com a cabeça.
— Não chamei quando recebi a informação sobre Zorka porque ouvi dizer que a trariam
para cá, mais...
— O que descobriu sobre Carla?
— O homem que a segue telefonou para a Chefatura... Fred consultou uma folha de papel e
adicionou: — Viram-na entrar em casa de Miltan nesta manhã... Saiu dali às dez e cinquenta e
três e retornou à Rua Trinta e Oito, para o número 404, Este...
— Diabo...! Alguém ia com ela?
— Não... Estava sozinha... Permaneceu ali dez minutos... Às onze e quinze saiu, se dirigindo
à Segunda Avenida e apanhando um táxi, que a levou ao Maidstone Building, na Rua Quarenta e

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Dois. Seus seguidores estavam em seus calcanhares quando ela entrou no edifício, mas Carla
apanhou um elevador no momento em que ia fechar a porta e... Desapareceu...
— E não a encontraram mais?
— Não... Interrogaram o ascensorista, mas este não conseguiu informá-los sobre ela... Nem
sequer se lembrava do andar em que a havia deixado... Não obstante, estão completamente
certos de que a garota ainda não saiu do edifício.
— Nada mais?
— Nada mais. Fiz uma careta e adicionei:
— E o porco do Cramer disse que não havia nada de importante...! Agora subirá com
Wolfe... Quando ouvir subir o elevador, desça ao escritório e fique lá... Atenda todas as
ligações... Se alguém aparecer avise Wolfe pelo telefone interno... Escreva um relatório sobre o
que acaba de me dizer e adicione que eu fui para o Maidstone Building... Envie a Wolfe por meio
de Fritz... Se eu lhe telefonar e tiver alguém no escritório, utilize a chave secreta...
Compreendeu?
— Compreendi... Mas, por que não deixa que eu vá...?
— Porque isto é coisa de profissionais. Deixei-o em seu posto, desci a escada apressado, o
que consegui sem fazer o menor ruído, entrei na cozinha e disse a Fritz:
— Vá ao escritório e diga a Wolfe que ainda não trouxeram o pato, então me mandou ao
Mercado de Washington apanhá-lo. Diga também que protestou acerbamente pela minha
linguagem... Isto é pelo inspetor Cramer... Fred está de vigilância... Compreendeu...?
— Sim, Fritz afirmou.

Saí pela porta da frente, apanhando no vestíbulo chapéu e paletó. Na rua não se via regimento
algum, mas um policial na calçada, próximo da esquina, e outro na calçada em frente. Um táxi se
achava parado a umas cinquenta jardas. O carro de Cramer estava junto ao meu. Subi no meu
carro, coloquei o motor em marcha e gritei para o chofer de Cramer:

— Siga-me ao teatro do crime!

Saí a todo gás, mas não fui muito longe. Depois de percorrer duas quadras da Quinta Avenida,
parei o carro numa curva, cortei a ignição, saltei e peguei o primeiro táxi que apareceu. Esperei
um minuto para ver se o carro da polícia ou o táxi viravam a esquina da Rua Trinta e Cinco, mas,
parecia então, que meu convite havia sido declinado.

— Leve-me ao cruzamento das Ruas Quarenta e Dois e Lexington, disse ao motorista.

Quando entrei no vestíbulo de mármore do Maidstone Building, arranha-céu de cinquenta e dois


andares, me senti humildemente pequeno. Fui, porque Wolfe havia me instruído para que se
Fred conseguisse interceptar alguma comunicação sobre Carla Lovchen, a seguisse e o único
modo de fazer isso era vir aqui, mas ao observar a extensão e complicações do vestíbulo, os
quatro elevadores, incessantemente em movimento, e a enorme quantidade de gente que
entrava e saía, não pude conter um estremecimento de desânimo. No táxi havia pensado num
plano para iniciar minhas pesquisas e o coloquei imediatamente em prática. Os nomes dos
habitantes do edifício se achavam expostos em duas seções em ambos os lados do vestíbulo.
Em um, resenhados por ordem alfabética, os nomes de A até L e no outro de M à Z.

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Li cuidadosamente os nomes da primeira seção, esperando um palpite, mas todos eram
completamente desconhecidos. Fui então para o outro lado do vestíbulo e na segunda seção vi,
já quase ao final, um endereço que fez palpitar meu coração de esperança. Wheeler e Driscoll,
estive a ponto de ler em alta voz, sala número 3259. Imediatamente me dirigi ao empregado das
informações e perguntei:

— Teria a bondade de responder a uma pergunta, senhor...? Procuro um dos inquilinos


deste imenso imóvel e não conheço a sua razão social. Ele se chama Nat Driscoll; ou melhor dito,
Nathaniel Driscoll...

Sem responder uma palavra, o empregado abriu um livro com gesto cansado, olhou uma de
suas páginas com olhos cansados e disse numa voz cansada:

— Driscoll, Nathaniel, três mil duzentos e cinquenta e nove, trigésimo segundo andar,
elevadores...

Não esperei o final da informação. Cheio de satisfação ao ver o feliz resultado do estratagema,
eu me lancei como um louco ao primeiro elevador que vi aberto, me fiz levar ao andar indicado e
ali, depois de percorrer cerca de meia milha dando voltas e mais voltas, consegui encontrar o
número 3259. Na porta, em uma placa com letras douradas, se lia:

WHEELER & DRISCOLL


IMPORTADORES E EXPORTADORES DE COMÉRCIO

Abri a porta e entrei, já me encontrando na antessala, nos umbrais da opulência, a julgar pelos
tapetes, móveis e a funcionária que apareceu ante meus olhos experientes. Era dessas que dão a
impressão de que devem seu emprego a que foram educadas navegando em iates e caçando
raposas à cavalo.

— O que deseja, cavalheiro? Perguntou-me com voz doce e educada.


— Sou Archie Goodwin, senhorita, e vim ver o senhor Driscoll.
— Ele marcou?
— Não, mas... Você ouviu-o falar de seus diamantes...? Refiro-me aos que acha que foram
roubados...
— Ah, sim! Exclamou, contraindo os lábios em um sorriso aristocrático. — Claro que ouvi
falar deles!
— Pois bem, diga que venho visitá-lo em nome da senhorita Tormic.
— Sinto muito, cavalheiro; mas o Senhor Driscoll está ausente neste momento.
— Foi para casa?
— Não esteve aqui durante toda a tarde.

Não precisava ter dotes especiais para me dar conta de que aquela garota estava mentindo,
então lancei mão do meu livro de anotações, arranquei uma folha e escrevi nela.

Se não quiser que a polícia reviste sua casa dentro de alguns minutos, procurando a sua professora de esgrima, me
conceda uma entrevista. Não permita de nenhum modo que ela coloque a cabeça no corredor.
A.G.

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Sorri à garota para demonstrar que não guardava rancor e disse:

— Teria a bondade de me conseguir um envelope?

Ela me entregou um; coloquei nele o bilhete que acabava de escrever, fechei e devolvi, dizendo
amavelmente:

— Tome, seja uma boa menina e faça chegar isto às mãos do senhor Driscoll... Eu tenho cara
de ser um homem dos que vem procurar alguém sem estar certo de que quem procura está?

Sem dizer uma palavra, ela apertou um botãozinho. Abriu-se uma porta à esquerda e apareceu
um mensageiro. A garota lhe entregou o envelope e ordenou:

— Entregue isto ao senhor Driscoll.


— Em mãos, eu adicionei.

Quando o mensageiro desapareceu, me dirigi à porta de entrada, abri e permaneci um instante


olhando o corredor em ambas as direções. O meu exame já durava uns três minutos quando vi, a
uns vinte metros mais abaixo, a parte superior de uma cabeça e em seguida um par de olhos
escrutadores que apareciam pela fresta de uma porta entreaberta. Imediatamente gritei com
voz autoritária:

— Ei, venha cá! A cabeça desapareceu e não voltara a aparecer quando ouvi a voz da
funcionária de Driscoll que chamava meu nome. Voltei-me. O mensageiro mantinha a porta
aberta e me disse:
— Por aqui, senhor.

Segui-o por um corredor interior através de três portas até que chegamos à do fundo. A sala em
que entrei agora era três vezes maior que a antessala e outro tanto mais luxuosa. Dei-me conta
de tudo isto em um só olhar. Em seguida me deparei com Driscoll, que estava erguido em um
canto junto a uma elegantíssima mesa de escritório e lhe disse:

— Se permitir que ela saia enquanto eu estou aqui com você, a polícia a deterá antes de um
minuto. Apoiando a sua mão sobre a mesa com tal força que vi os nós dos dedos empalidecerem
pela pressão, Driscoll murmurou:
— Hum! Parecia tão aterrorizado como um tio da província que foi convencido a fazer uma
viagem no "Ziparoo", do parque de diversões de Coney Island. Olhei ao meu redor e perguntei:
— Onde ela está? Ele respondeu eloquentemente:
— Hum!

Havia duas portas na sala, além da que eu havia aberto para entrar. Abri uma e vi um luxuoso
lavabo, com uma toalha de banho deslumbrante e um toucador imaculado. Fechei-a e fui a abrir
a outra, o que me permitiu ver uma estupenda mesa de secretária e vários armários de aço. A
secretária ficou me olhando dos pés a cabeça com seus grandes olhos azuis. Em um canto, não
menos boquiaberta que a secretária, estava Carla Lovchen.

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Esta não disse nada; se limitou a engolir em seco, enquanto que eu me voltava ao notar uma
tremenda pressão em meu braço direito, comprovando agradavelmente que o dono daqueles
dedos que pareciam tenazes era Nat Driscoll. Puxei-o e quando nós dois estávamos dentro da
sala da secretária, fechei a porta.

— O que pensava fazer? Perguntei. — Tê-la aqui encerrada até depois dos funerais? Carla
perguntou em voz baixa e tensa, sem parar de me olhar.
— Onde Neya está?
— Está bem por agora, mas você foi seguida.
— Por quem?
— Pela polícia. Neste momento há uma dezena de agentes vigiando os elevadores e as
saídas... Driscoll se deixou cair em uma cadeira e deu um gemido, enquanto a secretária de olhos
azuis me perguntava com acento friamente comercial:
— Você é Archie Goodwin, da agência de Nero Wolfe?
— Sim, senhorita... Encantado em conhecê-la ... Cravei meus olhos nos de Carla e perguntei:
— Você matou Rudolph Faber?
— Não. Eu a vi estremecer, mas se conteve e permaneceu rígida. Driscoll murmurou:
— Quis dizer Ludlow... Percy Ludlow...
— Quis dizer o que disse, repus bruscamente. Em seguida encarei a secretária e perguntei:
— A que horas o senhor Driscoll chegou nesta manhã?
— Pergunte a ele.
— Olhe, senhorita... É possível que não seja o mais querido e melhor de seus amigos, mas
sou quase um irmão para todos vocês, comparado com os indivíduos que esperam lá em baixo e
que eu mencionei antes. Se não fosse assim, teriam subido comigo... Mas posso fazer isso a
qualquer momento... A que horas o senhor Driscoll chegou?
— Meio-dia e meia aproximadamente.
— A que horas saiu?
— Não saiu. Trouxeram o almoço por causa da senhorita Lovchen.
— Ela chegou às onze e vinte.
— Sim... Como sabe...? Como descobriu que eu estava aqui?
— Intuição... Voltei-me para Driscoll e perguntei à queima-roupa:
— Você matou Rudolph Faber? Ele gaguejou:
— Quer dizer Ludlow...
— Quero dizer Rudolph Faber... Pouco antes do meio-dia foi encontrado no apartamento de
Neya Tormic e Carla Lovchen, morto com uma punhalada... A senhorita Tormic foi comigo
procurar Carla e encontramos o cadáver.

A secretária ficou impressionada. Os olhos e a boca de Driscoll se abriram


descompassadamente. Dirigi-me a Carla:

— Ele estava ali quando você chegou... Vivo ou morto... Ou vivo e em seguida morto...
— Eu não fui...! Não estive lá!
— Não diga bobagens... Foi seguida desde a casa de Miltan e a viram entrar em seu
domicilio as onze e cinco e sair às onze e quinze... Faber estava lá então. Carla estremeceu de
novo.
— Eu não o matei.
— Mas ele estava lá quando você chegou? Carla moveu a cabeça e disse gaguejando:

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— Não di... rei na... da. Vou pa... ra longe da... qui. Lon... ge da A... mé... ri... ca... Por fa...
vor...! A... ju... de... me! Driscoll perguntou com voz dura:
— Você disse que Faber estava no apartamento desta garota... Morto?
— Sim.
— De uma punhalada?
— Sim.
— E esta senhorita esteve ali pouco antes?
— Apenas meia hora antes de ser encontrado o cadáver.
— Meu Deus! Chefe e secretária ficaram olhando para a garota com olhos fora de órbita. Eu
me apressei a dizer:
— Ela afirma que não foi ela... Eu não sei, mas Nero Wolfe quer vê-la antes que a polícia a
detenha... O que você pensava fazer...? Ajudá-la a fugir? Driscoll assentiu com a cabeça. Em
seguida retorceu as mãos e adicionou:
— Mas ela não havia me dito nada sobre Faber...
— Dá na mesma... Preciso ajudá-la a sair daqui sem cair nas mãos da polícia... Mas não para
fugir da América, como é seu propósito, mas para levá-la à presença de Nero Wolfe...
— Acha que conseguirá?
— Naturalmente... Permite-me que use o telefone...? Obrigado.

Quando a telefonista me colocou em comunicação com o número que pedi, comecei a falar:

— É do Hotel Alexander...? Desejaria falar com Ernie Flint... Sim, o detetive da casa... Alô...! É
você, Ernie...? Archie Goodwin... Como vai? Fico feliz... Não posso me queixar... Estou fazendo
aulas de detetive... Oh, não... Vou contar... Penso fazer uma brincadeira com um amigo e queria
que me fizesse um favor... Envie um mensageiro de uniforme ao Maidstone Building, sala três
mil duzentos e cinquenta e nove, trigésimo segundo andar... Quero que o mensageiro seja
pequeno, ao redor de um metro e cinquenta e cinco, magro e moreno... Que traga boné e na
mão um pacote com roupa diária, incluindo o chapéu... Não, não demorará muito... Dentro de
uma hora estará aí de novo... Claro que sem uniforme... Sim, já disse que se trata de uma
brincadeira... Contarei tudo da próxima vez que nos vermos... Apresse-se, Ernie...! Até logo e
Obrigado...

Desliguei, apanhei no bolso o maço de notas destinadas a gastos, apanhei uma de dez dólares e
estendi à secretária.

— Tome, vá a loja de calçados mais próxima e compre um par de sapatos Oxford de pouco
salto que caibam na senhorita Carla e que se pareçam aos que possa usar um mensageiro... Ela
olhou para Carla e perguntou:
— Trinta e cinco? Carla assentiu com a cabeça. A secretária já se preparava para sair, quando
Driscoll a chamou e disse:
— Devolva esse dinheiro a Goodwin. Tome vinte dólares e compre os melhores sapatos que
encontrar na loja. Quando a secretária de olhos azuis saiu, depois de me devolver os dez dólares,
Carla exclamou:
— Não quero ver o senhor Wolfe... Quero fugir da América...
— Precisa optar: Ou ver o senhor Nero Wolfe, ou se entender com a polícia... Driscoll tomou
a palavra para dizer:

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— Olhe, senhorita Lovchen... Que você não queira falar com a polícia eu entendo... Fazem
seus interrogatórios sem a menor noção de respeito nem bom modos... Mas, já ouvi falar de
Nero Wolfe...

O gordinho ainda falava quando soou o telefone interno, para anunciar a chegada do
mensageiro. Coloquei Driscoll e Carla na sala daquele e fiz que me trouxessem o garoto. Este era
talvez uns dois centímetros mais alto que Carla, mas magro e elegante. Entrou sorridente,
sabendo, sem dúvida, de que se tratava de uma brincadeira. Abri o pacote que ele trouxe
enquanto retirava o uniforme, lhe dei um par de dólares e disse:

— Isto é pelos problemas que possa ter ocasionado... Além disso, pegue outros cinco para
que feche a boca sobre esta brincadeira e não diga uma palavra a ninguém... Agora vista a roupa
que trouxe e sente junto a essa janela... Tem uma vista maravilhosa... Dentro de vinte minutos
uma garota de olhos azuis avisará para que vá embora... Voltará ao hotel e pedirá que lhe deem
outro uniforme para continuar trabalhando... Entendeu?
— Sim, senhor.

Apanhei o uniforme e o boné, assim como o papel em que vinha envolto a sua roupa e voltei à
outra sala. Encontrei Carla, sentada na ponta de uma cadeira, e a secretária, ajoelhada a seus pés
no tapete, com a primeira trocando os sapatos, enquanto Driscoll, com as mãos nos bolsos e os
lábios apertados, vigiava a operação. Carla se levantou por fim, deu meia dezena de passos e
afirmou que o sapato calçava muito bem. Eu lhe entreguei o uniforme de mensageiro para que
trocasse por sua roupa. Enquanto ela se trocava, Driscoll e eu nos viramos de costas. Estava
ficando escuro na rua e as luzes estavam acesas na sala, então os vidros das janelas faziam às
vezes de espelhos. É possível que faça uma injustiça ao furibundo Driscoll, mas me pareceu que
olhava disfarçadamente para algo que não havia no vazio através do vidro da janela. Quando
Carla estava pronta embrulhei suas roupas no papel, incluindo o paletó e o chapéu, e fiz um
pacote com tudo.

— Caminhe um pouco para que a veja, senhorita Lovchen, disse a Carla. Obedeceu e movi a
cabeça com gesto de desgosto. — Esses quadris estão muito mal... Bom, estão muito bem,
mas... Você já me entendeu... Coloque o boné e procure que cubra todo o cabelo... Incline-o um
pouquinho sobre a orelha esquerda... Assim... Bem, creio a coisa dará resultado... O que você
acha? A secretária disse com frieza:
— Eu não acho nada... Foi ideia sua. Driscoll murmurou:
— A mim me parece muito ruim... Eu a conheceria da calçada em frente...
— Oh! Exclamei sarcasticamente. — Leve em consideração que não vamos enganar a você,
senhor Driscoll... Através do vestíbulo deste edifício entram e saem sem cessar centenas de
pessoas... Não acredito que os policiais vão prestar atenção em um simples mensageiro. Vamos
começar...

Coloquei o pacote com as roupas de Carla debaixo do braço e disse à garota:

— Neste andar não temos nada a temer. Desceremos no mesmo elevador. Quando
chegarmos ao térreo você sairá antes de mim. Dirija-se à entrada da Avenida Lexington e não
olhe para trás... Eu a seguirei. Quando terminar a avenida vire à direita e atravesse a Quarenta e

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Três... Entre esta e a Quarenta e Dois há uma parada de táxis. Apanhe um e diga ao motorista
que a leve ao cruzamento da Rua Trinta e Sete com a Décima Avenida. A secretária perguntou:
— Você não irá com ela?
— Eu irei atrás em outro táxi... É provável que algum dos policiais me conheça e não quero
que me vejam na companhia de um mensageiro com tão belos quadris... Bem... Senhorita
Lovchen... Vai me esperar entre a Rua Trinta e Sete e a Décima Avenida... Entendido? Não se
esqueça de minhas instruções.
— Certo.
— Perfeitamente. Esperará dentro do táxi até que eu chegue, que será provavelmente atrás
de você... Que não pense em me fazer alguma brincadeira porque ficaria mal... Leve em conta
que quase toda a polícia de Nova Iorque está atrás da sua pista...
— Sim, mas... Eu queria...
— Você queria algo diferente. Exatamente a mesma coisa acontece com os que caem de
avião. Irá para esquina que lhe disse e me esperará dentro do táxi?
— Sim.
— Muito bem. Até mais ver, boa gente... Dentro de dez minutos, não antes, mandem o
mensageiro embora... Cruzaremos espadas algum dia, Driscoll...

Saímos e pegamos o elevador. Os outros ocupantes do mesmo não deram a menor atenção a
minha companheira. Ao chegar ao térreo ela saiu antes de mim e começou a atravessar o
vestíbulo misturada à multidão. De repente fiquei gelado ao ouvir uma voz conhecida que me
chamava:

— Goodwin!

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CAPÍTULO 17

Era o sargento Purley Stebbins, que vinha até mim. Carla constituía o perigo, mas, por uma vez,
a garota trabalhou como se tivesse senso comum. Com certeza ouviu que me chamavam, mas
nem gritou, nem se voltou, nem apressou o passo. Continuou andando para a entrada e a vi sair
com o rabo do olho, enquanto fazia para Purley uma careta de cordialidade.

— Há quanto tempo!
— O que há aqui? Grunhiu. Olhei ao meu redor para me convencer de que ninguém poderia
me ouvir, aproximei meus lábios de suas orelhas, grandes e vermelhas, e sussurrei:
— Não lhe interessa. Stebbins murmurou:
— É uma coincidência.
— Qual?
— Que você esteja neste edifício. Coloquei uma mão no peito e exclamei:
— Isso sim é engraçado!
— O que é engraçado?
— Que você tenha dito: "É uma coincidência". É engraçado porque é exatamente o que eu
ia dizer. E se não se irritar, eu direi... É uma coincidência.
— Vá para o diabo!
— O mesmo. Posso perguntar o que fazem neste edifício você e seus companheiros de
brincadeira?
— O que leva nesse pacote?
— Coisas horríveis, diabólicas... Revólveres, facas, narcóticos, esmeraldas roubadas e uma
garrafa com sangue... Quer dar uma olhadinha?
— Vá para o diabo! Dei de ombros cortesmente, disse que nos veríamos na esquina, e fui
embora.

Na porta do edifício apanhei um táxi, dizendo ao motorista que me levasse à Décima Avenida,
esquina da Rua Trinta e Sete. Com a alma pendente por um fio, pois não os tinha todos comigo,
cheguei ao lugar marcado, exalando um suspiro de alívio ao ver que ela havia cumprido a
palavra. Despedi o táxi, me aproximei do dela e a fiz descer depois de pagar o motorista,
esperando que desaparecesse da vista para levar a minha companheira ao lugar onde havia
deixado meu carro. Convidei-a a subir então e lhe entreguei o pacote. Em três minutos
atravessamos a Nona Avenida, descemos a Rua Trinta e Quatro e ao chegar à metade, parei o
carro longe de um semáforo, desliguei o motor, apaguei as luzes e disse:

— Em frente da casa de Wolfe há um grande número de policiais; vamos entrar pela parte
de trás. Siga-me e não diga uma só palavra até que entremos.
— Espere um momento, me disse com um fio de voz. — Neya está aí?
— Ignoro... Quando eu saí não estava.
— Onde ela está?
— Na Chefatura de Polícia... Mas não como detida. Estavam interrogando-a, mas ela imitou
perfeitamente as mudas... É possível que a tenham levado para a casa de Wolfe, ainda que
também é possível que não o tenham feito... Ah, o inspetor Cramer está aqui com Wolfe.
— Mas você me disse que eu não precisaria falar com ninguém mais além do senhor Wolfe.
— Sim... Vamos entrar.

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Levei-a pelo corredor entre uma loja e uma garagem e o percorremos na mais completa
escuridão até chegar à porta do pátio. Era a mesma que Zorka havia usado quando escapou pela
escada de incêndio, com a diferença de que para abrir a porta ela só precisou puxar a maçaneta
interior, enquanto que desta vez eu me vi obrigado a fazer uso de minha chave. Atravessamos o
pátio e subimos os degraus. Apanhei outra chave do bolso, abri a porta e entrei na cozinha,
seguido por Carla. Na cozinha não havia ninguém além de Fritz. Este me olhou assustado e
exclamou:

— Caramba, Archie, devia ter...


— Me esqueci, mas não é motivo para se assustar... Cuide da senhorita Lovchen até que eu
volte. Serei rápido.
— A senhorita Lovchen? Exclamou olhando o mensageiro com expressão de assombro.
— Sim... Coloque-a na despensa.

Pus o pacote em cima de uma cadeira, voltei sobre meus passos, apanhei o carro, coloquei-o em
marcha e dobrei o quarteirão para chegar na Rua Trinta e Quatro, parando em frente à casa.
Junto do carro da polícia havia outro e o táxi continuava no mesmo lugar de antes. O motorista
falava com o chofer de Cramer quando desci do carro. Ao entrar no escritório encontrei a
explicação do segundo carro da polícia. Em um canto estava sentado um policial que parecia
mais fechado que uma ostra e em um das poltronas de ouro amarelo se achava sentada Neya
Tormic. Ao me ver, me dirigiu um olhar fulminante. Aquela olhada era uma pergunta, mas eu me
fiz de sueco e disse a Fred Durkin que estava sentado na minha mesa:

— Levante-se da minha cadeira, seu folgado, e venha me ajudar um momento. Obedeceu-


me. Saímos do escritório e quando fechei a porta, perguntei: — Wolfe e Cramer estão lá em
cima?
— Sim.
— Alguém na sala?
— Não.
— Pois fique aqui e segure a maçaneta dessa porta pois o policial lá de dentro pode pensar
em sair para esticar as pernas. Dirigi-me à cozinha, e Fritz, ao me ver, pôs a um lado a frigideira
que estava no fogão e murmurou:
— Na despensa.

Empurrei a porta. Carla estava sentada em uma cadeira que Fritz havia lhe dado. Tinha o pacote
nas mãos. Apanhei o pacote, fiz sinais de que me seguisse e se mantivesse silenciosa, e saímos.
Fred continuava segurando a maçaneta da porta do escritório. Mostrei-lhe o dedo ao passar.
Subi, seguido de Carla, um lance de escada, demos seis passos pelo corredor, abri uma porta, a
fechei atrás de nós, acendi a luz, coloquei o pacote sobre uma mesa e então corri as cortinas da
janela.

— Hvala Bogu, disse. — Este é o quarto do senhor Wolfe... Que não pense em sair. Se tentar
abrir uma porta ou uma janela, começarão a soar timbres em toda a casa. Troque de roupa. Ali é
o banheiro. Deixei a garota, saí ao corredor e gritei para Fred: — Já pode ir sentar em uma
cadeira que não seja a minha.

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Depois do qual, continuei subindo escadas até chegar ao andar superior, me encaminhando às
salas destinadas às orquídeas. Wolfe, acompanhado de Teodore, examinava uns brotos recentes
com a ajuda de uma lente de aumento, enquanto Cramer se achava sentado em um tamborete,
com as costas apoiadas na parede. Eu sentei em um banco e me entretive em balançar as pernas
até que, passados uns minutos, Wolfe pareceu despertar da letargia e me perguntou:

— Trouxe o pato?
— Sim, senhor.
— Está bem.

Continuou examinando os brotos e eu prossegui balançando as pernas. De repente o telefone


soou. Teodore atendeu a ligação e disse ao inspetor que o requeriam com urgência. Cramer
ficou grunhindo durante três ou quatro minutos, desligando ao final deste tempo e regressando
ao seu tamborete. Dei-me conta de que estava me olhando, mas eu continuei vendo subir e
descer as pontas de meus deslumbrantes sapatos.

— Goodwin, me disse de repente, — Desde quando transferiram o mercado de Washington


para o Maidstone Building?
— Você estava falando com o sargento Stebbins... O que acha da minha dedução?
— Ótima.

Cramer jogou o charuto no cesto de lixo, não acertou e precisou se levantar para consegui-lo;
em seguida voltou ao tamborete.

— Não ache que vou explodir de indignação. Dez minutos depois de você ter saído, eu disse
a Wolfe que Carla Lovchen havia sido seguida até o Maidstone Building e que não demoraria em
trazê-la aqui... Mas isso foi depois de você ter saído. Vou fazer uma pergunta simplíssima... Que
diabos você foi fazer no Maidstone Building? Fiz uma careta e respondi:
— A primeira resposta que vem na minha mente é esta: Ao meio-dia recebemos aqui uma
ligação telefônica, que foi identificada como tendo sido feita de um telefone do Maidstone
Building... Parece boa?
— Não.
— Então, pergunte a Wolfe.

Continuei contemplando os pés, até que faltando cinco para as seis, Nero Wolfe guardou a lente
em uma gaveta, deu a Teodore algumas instruções concernentes aos brotos de orquídeas e
disse que havia chegado a hora de descer para o escritório. Considerando pouco certo o
elevador, desci pela escada, seguido do inspetor. Chegamos quando Nero Wolfe saía do
elevador e paramos junto dele.

— Vou ao meu quarto vestir algo um pouco mais limpo, Archie... Quer vir comigo...? Iremos
em seguida ao escritório, senhor Cramer. Ali você encontrará Neya Tormic.

Cramer titubeou, olhou-o suspicazmente e, encolhendo os ombros, se dirigiu para o escritório.


Quando Cramer fechou a porta, entramos no quarto de Wolfe sem bater. Carla Lovchen estava
sentada em uma cadeira de alto respaldo, junto à parede. Tinha os ombros afundados, a cabeça
baixa e as mãos apoiadas nos joelhos; mas havia trocado de roupa, quero dizer, usava a dela. A

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do mensageiro, cuidadosamente dobrada, descansava sobre a mesa. Wolfe se deteve em frente
a ela e disse:

— Como você está, senhorita Lovchen? Ela levantou a cabeça um instante; em seguida, sem
pronunciar palavra, voltou-a a inclinar. Wolfe adicionou: — Não tenho tempo a perder. Esperam-
me no escritório. O senhor Goodwin acaba de dizer que me trouxe um pato... Errou de sexo,
mas nada mais... Tenha ou não matado Ludlow e a Faber, você é a mais imbecil que conheci.
Para que lhe sirva de consolo confesso que há muita gente que se parece com você. Se me
mostro duro, é porque jamais me compadeço das pessoas que vem me pedir ajuda, e não me
contam mais do que mentiras. Por agora, fique nesse quarto. Não demorarei em vir aqui para
interrogá-la. Carla levantou a cabeça, moveu-a de um lado a outro e declarou:
— Não responderei a pergunta alguma, seja quem for que me interrogue...
— Não?
— Não... Não me importa o que me aconteça... Se não disser nada, o que poderão provar se
eu não confessar? Talvez você ache que careço de energias para ficar calada, mas eu as tenho...
— Pode ser que as tenha durante uns minutos... Tente, se quiser... Bem; voltarei ou
mandarei buscá-la... Vamos, Archie. Com a mão na maçaneta, adicionou: — Tem fome? Quer
comer algo?
— Não, obrigado. Saímos.

O trio do escritório havia se convertido em quarteto e conosco se transformou em sexteto. O


policial continuava calado. Fred havia se acomodado na minha cadeira contrariando as minhas
instruções, mas quando me viu se apressou a trocar de lugar. Cramer havia se colocado junto ao
grande globo terrestre, se entretendo em fazê-lo girar, enquanto que os olhos de Neya Tormic
se cravaram em Wolfe quando entrou e o seguiram até que deu a volta em sua mesa e se
acomodou em sua cadeira. Dei-me conta de que Wolfe estava de mau humor, porque pediu a
cerveja sem convidar ninguém. Neya Tormic disse de repente:

— Quero falar com você a sós... Preciso lhe perguntar algo. Wolfe respondeu:
— Sei o que você quer. Mas isso precisará esperar. Não poderá levar a cabo sua missão. Não
é isso?
— Eu... Neya se interrompeu e humedeceu os lábios. — Você prometeu...
— Não, senhorita Tormic... Não prometi nada. Sei que passou uma tarde ruim, mas suponho
que recordará por que foi com o senhor Goodwin procurar a senhorita Lovchen... E não a
encontraram.
— Foi embora.
— Como sabe?
— Este... O inspetor Cramer acaba de me dizer que não conseguiram encontrá-la.
— Para onde ela foi?
— Não sei. Wolfe destapou uma garrafa de cerveja e encheu um copo.
— De qualquer maneira, declarou, — Isso precisará esperar... Maldito seja o diabo...! Tudo
precisa esperar...! Esvaziou o copo de um gole e adicionou: — Senhor Cramer... Você está em
minha casa desde as duas da tarde... Mostrei uma paciência e uma resignação admiráveis,
sobretudo no que concerne à visita de Archie ao Maidstone Building... Mas sei a que se deve...
Você espera encontrar algo aqui, pois acha que não conseguiria encontrar em outra parte. Eu
lhe digo sinceramente que está errado. Suponho que depois disto não vai passar a noite em
minha casa...

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Não ouvi o resto do discurso para obrigar o inspetor a ir embora, porque naquele momento
soou o timbre da porta e fui abrir. Geralmente eu só prestava este serviço das seis as oito, hora
em que Fritz se achava atarefadíssimo fazendo o jantar, mas nesta ocasião, levando em conta o
pato que acabava de trazer, tinha especial interesse em impedir a intromissão de hordas
invasoras. Mas o que encontrei no umbral da porta de entrada não era uma horda, mas um
garoto com um vistoso uniforme, portador de um pacote e disse que queria entregar para Nero
Wolfe. Estendi uma mão para apanhá-lo, mas ele declarou formalmente que havia recebido
instruções precisas para entregá-lo exclusivamente nas mãos de Nero Wolfe. Fomos para o
escritório. Na frente de Wolfe ele se enquadrou militarmente e perguntou com urbanidade:

— O senhor é Nero Wolfe?


— Sim, senhor.
— Trago este pacote da "Rádio Sevens Seas..." Tenha a bondade de assinar aqui...? A fatura,
senhor... Vinte dólares...

Wolfe assinou e ordenou que eu pagasse os vinte dólares e adicionasse outro tanto de gorjeta
para o educadíssimo mensageiro. Este guardou o dinheiro e o recibo de entrega e foi na minha
frente para o vestíbulo. Quando ele saiu, passei o ferrolho na porta e voltei ao escritório. Wolfe
estava desfazendo o pacote, e Cramer, em frente a ele, apoiado na mesa, não perdia de vista um
só de seus movimentos. Aquilo era, certamente, uma exibição de má educação. Wolfe disse:

— Sente-se, senhor Cramer; está me deixando nervoso.


— Estou muito bem assim.
— Mas eu não... Tenha a bondade de sentar!

Cramer grunhiu algo entre dentes, ocupou a cadeira que eu lhe entreguei e ficou silencioso, mas
com a vista grudada no pacote. Wolfe desenrolou o papel e deu uma olhada em seu conteúdo.
Em seguida deu um suspiro de alívio, dobrou o papel e me entregou o pacote, dizendo:

— Coloque isso no cofre, Archie. Quando terminei, Wolfe adicionou: — É o que estávamos
esperando, senhor Cramer.
— O que estávamos esperando?
— Sim... Há um momento eu lhe disse que não estava aqui o que você queria... Pois... Agora
está.

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CAPÍTULO 18

Lenta e cuidadosamente, como se estivesse sentado em cima de um monte de ovos, Cramer se


ajeitou em sua cadeira e levantou o indicador da mão direita para coçar o nariz. Wolfe havia feito
o mesmo; tinha os olhos fechados, e movia os lábios como se falasse para ele. Naquele silêncio,
o policial do canto tossiu, ganhando um olhar de indignação de todos. O silêncio continuou
durante mais três minutos, ao final dos quais Wolfe disse sem abrir os olhos:

— Senhor Cramer, duvido que você pudesse conseguir o que eu consegui. Mas ainda que
conseguisse, dada a atitude de seus oficiais superiores, duvido que pudesse servir de algo...
— Não discuto, Wolfe, e já sabe que não há de esperar minha gratidão...
— Já sei... Sua única virtude, senhor Cramer, é a franqueza. Proporcionarei a você o que
quer na condição de que me deixe, sem reservas de nenhum tipo, conduzir até o fim este caso
da minha maneira...
— Isso é muito vago... O que eu quero?
— Não diga bobagens... Falta dizer que quer saber a identidade do assassino e o motivo do
crime...?
— E você sabe?
— Sim.
— Tem provas?
— Suficientes para satisfazer todas as suas exigências... Posso adicionar que algumas delas
somente poderá obtê-las aqui.
— O que Archie acaba de guardar no cofre?
— Oh, não...! Isso você poderia conseguir em vinte e quatro horas... A mim me custou vinte
e cinco... Não precisarei mais que abrir um olho para dar a conhecer a prova do que lhe
mencionei. Cramer olhou-o um momento e disse:
— Fale, então.
— Conto com que não terá interferência, reserva nem protestos de sua parte, certo?
— Aceito. Fale. Wolfe abriu um olho e disse:
— Archie... Ligue para o senhor Barret.
— O "amorzinho" ou seu pai?
— O pai. Neya Tormic exclamou:
— Você não pode...!

Wolfe se esforçou para fazê-la calar enquanto eu tentava um após o outro até três números. Por
fim dei com o senhor Barret no clube Thistle. Neya ficou silenciosa quando Wolfe se pôs no
aparelho e começou a dizer:

— Senhor Barret...? Nero Wolfe... Ligo para demostrar que sou fiel cumpridor de minhas
promessas... Eu lhe disse que se alguma vez considerasse necessário me imiscuir em seus
assuntos o faria a conhecer de antemão... Lamento ter que lhe dizer que o notifico com
antecedência de poucos minutos sobre uma declaração pública... Oh, por favor...! Com isso não
conseguirá nada... Sim, em meu escritório... Bem, consinto nisso. Não...! Se o seu filho estiver
com você, é preferível que o traga... Sim... Esperaremos durante um quarto de hora.

Wolfe se pôs de pé quando cortou a comunicação e se dirigiu para a porta. Neya Tormic imitou
seu movimento e o segurou por um braço.

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— Aonde vai? Perguntou. —Sairei com você...
— Não, senhorita Tormic... Voltarei em seguida... Archie!

Levantei-me para desembaraçar Wolfe de Neya, mas antes de chegar ele já havia se soltado da
garota. Como não conhecia suas intenções, me coloquei junto à porta, apoiando-a nas costas,
enquanto que Neya, sem voltar a sua cadeira, me cravava os olhos... É possível que olhasse para
a porta; minha modéstia me obriga a confessar. Fiquei nesta posição três ou quatro minutos,
quando notei que a porta me empurrava. Passei para o lado e Wolfe entrou, com um envelope
na mão em que se lia em letras grandes: PARA NEYA TORMIC. Foi em linha reta para sua cadeira,
fez um sinal a Cramer indicando o policial do canto, e perguntou:

— Como se chama seu agente?


— Charlie Heath.
— Peça que obedeça as instruções que vou dar. Cramer voltou a cabeça para seu
subordinado.
— Heath... Obedeça as ordens do senhor Wolfe.
— Obrigado, disse Wolfe, olhando para o policial, que acabava de se levantar. — Você está
de carro, senhor Heath?
— Sim, senhor.
— Bem. Pegue este envelope e guarde-o no bolso... Não, no bolso interior. Agora,
acompanhe a senhorita Tormic a seu carro e leve-a a... Neya gritou:
— Não quero ir!
— Acho que irá...! Você tem dinheiro?
— Disse que não quero...!
— Não seja estúpida! Tem dinheiro?
— Sim.
— Quanto?
— Alguns dólares.
— Archie! Dê a senhorita Tormic cem dólares.

Saquei o maço de notas destinado a gastos e apanhei o valor indicado por Wolfe, entregando-o
a Neya. Wolfe continuou dizendo ao policial:

— Leve a senhorita Tormic à Rua Trinta e Cinco, esquina da Quinta Avenida, desça-a ali,
entregue o envelope e volte aqui imediatamente... Não se detenha a olhar para onde vai. Não
fale com ninguém nem na ida nem no regresso. Eu disse gravemente:
— Por que não a acompanhamos Fred ou eu?
— Acha que será necessário, senhor Cramer?
— Siga as instruções ao pé da letra, Heath.
— Sim, senhor. Vou levá-la à Quinta Avenida, ela descerá lá, entregarei o envelope e
retornarei para aqui imediatamente. Wolfe assentiu.
— Fará assim?
— Sim, senhor.
— Bem. Wolfe se voltou para a garota:
— Au revoir, senhorita Tormic, disse.
— Ah! Exclamou ela, cravando nele seus negros olhos. — Acha isso?

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— É uma conjetura... Não me surpreenderia nada.
— Você é tão idiota quanto gordo!
— Sim, sou gordo... E todos nós temos alguma coisa de idiota... Sinto muito, mas não estará
aqui para ver o final disto... Uma vitória minguada e simples, mas é minha...
— Vitória?
— Sim. Ela se dirigiu à porta, que eu me apressei a abrir. Antes de chegar a ela, Neya se
voltou e disse a Wolfe:
— Teega mee bornie roose. Se não foi isso exatamente, parecia.

Neya Tormic saiu então, com a cabeça orgulhosamente erguida, seguida do policial. Eu
acompanhei ambos até a rua e permaneci na porta de entrada vendo-os partir. Então pude ver
que o policial não fez sinal algum para seus colegas e quando desapareceu rua abaixo não foi
seguido por nenhum outro carro. Continuei em meu posto até estar absolutamente certo do
que acabo de expor, sabendo do que é capaz um policial em seu amor apaixonado à Lei e a
Ordem, e já me dispunha a retornar ao escritório quando vi parar a poucos passos de onde eu
estava um enorme carro negro de passeio.

Um chofer uniformado saltou e se apressou a abrir a porta de trás, levando a mão


respeitosamente ao quepe, quando um dos dois homens que desceram, lhe disse algo que não
ouvi. Os recém-chegados se dirigiram à entrada da casa de Wolfe e eu saí ao seu encontro para
cumprimentar as duas gerações de Barret. Pedi que esperassem um instante no vestíbulo e fui
informar Wolfe no escritório.

— Pai e filho, disse laconicamente.


— Faça-os entrar.
— Já fiz.

John P. Barret, que não havia trocado de roupa, se acomodou na cadeira que Neya havia
ocupado. Tinha o rosto muito sério e o olhar que dirigiu a Wolfe e em seguida a Cramer não
tinha nada de conciliador. Aproximei uma cadeira para Donald, que tinha um rosto tão agressivo
de fera que estive a ponto de ir à cozinha apanhar um pedaço de carne crua. Nem visitantes nem
visitados fizeram o menor gesto para trocarem apertos de mãos, como os cavalheiros bem
educados fazem... Wolfe rompeu o silêncio para dizer:

— Fred, espere lá fora. Fred saiu. — Archie, disse para mim, — Apanhe o caderno de
taquigrafia. Obedeci. John P. Barret perguntou então:
— Você é o inspetor de polícia Cramer?
— Sim, senhor... Da Brigada Criminal. John P. se voltou para Wolfe:
— Isto é ridículo...! Trata-se de um assunto absolutamente confidencial e você disse a seu
subordinado que tome nota do que vamos falar. Wolfe se ajeitou em sua cadeira e apertou as
pontas dos cinco dedos de sua mão direita contra as dos dedos correspondentes da esquerda.
— Não, respondeu. — Eu não chamaria de ridículo... A presença do senhor Cramer é, sem
dúvida alguma, adequada, já que uma das coisas que você quer, é que seu filho escape de uma
acusação de homicídio em primeiro grau.

Cramer levantou a cabeça, Donald reprimiu uma exclamação e ao desaparecer a cor de seu rosto
perdeu boa parte de sua firmeza. John P., por sua parte, não pareceu ter ouvido nada mais

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provocativo que se acabassem de fazer uma observação sobre o tempo. Não obstante, repôs
com voz tão seca como o estalido de um chicote:

— Isso é pior que ridículo e... Mais perigoso... O que acaba de dizer pode ser um crime!
— Claro que sim... Olhe, senhor Barret, vou jantar dentro de uma hora e não quero perder o
tempo em discussões que a nada levam. Seus contratos com a gangue de Donevitch ficam
anulados a partir deste instante. Aceite sua derrota. E partindo desta base...
— Quero falar a sós, disse John P. se levantando: — Faça sair a todos ou me leve a outro
aposento.
— Não... Sente-se.
— Para que vou me sentar...? Você acaba de dizer que meus contratos com Donevitch
deixaram de existir... Seja verdadeiro ou não, não quero falar sobre este assunto... Vamos,
Donald. Dispôs-se a executar suas palavras, mas Wolfe o impediu.
— Dentro de uma hora será assinada uma ordem de prisão contra seu filho, por
assassinato... Então será muito tarde para falar. Donald havia se levantado para seguir o pai, mas
este se voltou de repente, enfrentou Cramer e rugiu:
— Você é um funcionário que representa à Lei... Acaba de ouvir a ameaça de Nero Wolfe...
Você sabe quem eu sou? Cramer respondeu sem titubear:
— Claro que sei...! Sente-se e deixe-o falar... É o dono desta casa e de um milhão de
orquídeas... Você é muito afortunado ao poder contar com meu testemunho no caso de que
decida proceder judicialmente contra ele... Wolfe grunhiu, irritado:
— Saia, se quiser, senhor Barret, e se atenha às consequências... Você está se portando
como um colegial a quem acabam de admoestar... Não se dá conta de que tenho algo a dizer e
que a melhor de suas alternativas é sentar e escutar...? Acha que estou lhe ameaçando sem me
escutar? Donald gritou:
— É um fanfarrão, papai...!

Mas um olhar do autor de seus dias o reduziu ao silêncio, e um grunhido da mesma procedência
que o olhar o fez voltar para sua cadeira humildemente. Quando Donald se sentou, John P.
Barret fez o mesmo, ao mesmo tempo em que disse a Wolfe laconicamente:

— Fale. Wolfe voltou a unir as pontas dos dedos e suspirou:


— Assim é melhor... Expressar-me-ei com a maior brevidade possível, já que você sabe de
tudo e o senhor Cramer não precisa mais que um lampejo da situação... Voltou-se ao inspetor e
adicionou: — Para começar, vou lhe dizer o nome do assassino, como lhe prometi... É a princesa
Vladanka Donevitch. Cramer grunhiu:
— Não a conheço.
— Sim, conhece... Vive habitualmente em Zagreb, Croácia, Iugoslávia... É casada com o
jovem Estéfano Donevitch e, como seu marido, é partidária de certo governo não muito
simpático à maioria dos croatas. Na única coisa que coincidem os Donevitch e outros de seus
concidadãos é em seu ódio comum a Belgrado. Belgrado não se decidiu ainda a ser dominada, e
Alemanha, Itália, França e Inglaterra estão fazendo todo o possível para apressar o processo. A
atitude dos croatas é o maior obstáculo para os alemães, por cujo motivo tentam comprá-los se
valendo da gangue de Donevitch. Os outros países, por sua parte, tentam com os meios a seu
alcance fazê-lo... Cramer grunhiu:
— Eu não sou mais que um policial nova-iorquino.

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— Eu sei, mas a maior parte do dinheiro do mundo se acha em Nova Iorque ou se manipula
daqui. Por isto é que vêm diariamente pessoas de todas as procedências com assuntos como
este... Wolfe colocou a mão no bolso interior do paletó e apanhou um papel dobrado que
entregou a Cramer. — Guarde isso... É uma das provas... Não poderá lê-lo, mas está assinado
pelo príncipe Estéfano Donevitch e faculta a sua esposa, a princesa Vladanka, para levar a cabo,
em seu nome, certas transações de... Os lábios de John P. se contraíram.
— Onde conseguiu isso? Perguntou secamente.
— O que importa de onde eu consegui, senhor Barret? Wolfe se voltou para Cramer e
prosseguiu: — As transações a que me refiro são, concretamente, concessões nos bosques
bósnios e a transferência de créditos em poder de certos banqueiros internacionais, para Barret
e De Russy. A princesa veio para Nova Iorque incógnita, com nome suposto, e começou as
negociações. Como o segredo era necessário por causa das restrições americanas em relação
com a exportação de capitais na forma de empréstimos, e eu suspeito da existência de outras
fraudes, além da violação das citadas restrições, ela precisou se resignar a passar por emigrante
e solicitar um emprego em uma academia de esgrima. Não acho que sejam muito numerosas as
pessoas que conheciam a sua verdadeira identidade, mas estou certo de que três pelo menos
sabiam. O senhor Barret, seu filho e um indivíduo chamado Rudolph Faber, que acompanhava às
negociações como agente secreto do governo alemão. Como pode ver, Barret e De Russy tem
relações financeiras com os alemães. Donald começou a dizer explosivamente:
— Nós atuamos simplesmente... Mas um novo olhar de seu pai o voltou a reduzir ao
silêncio. Wolfe moveu a cabeça tristemente.
— A moral está acabando por causa do dinheiro, murmurou sentenciosamente. — Bem. Um
agente britânico, chamado Ludlow, conseguiu saber o que acontecia e descobriu a princesa, a
quem ameaçou revelar tudo ao governo americano. Foi no preciso momento em que haviam se
ultimado todos os detalhes e o assunto estava pronto para a execução. Por este motivo
Vladanka assassinou Ludlow. Ressalto que ela planejou o assassinato e o levou a cabo
completamente sozinha. Uma amiga, que veio com ela de Zagreb, também com nome falso, não
tomou parte alguma em nenhum dos dois crimes. Compreendeu, senhor Cramer? O interpelado
respondeu:
— Continue.
— Falta pouco. Rudolph Faber soube do que a princesa havia feito e se aproveitou. Até
então havia sido meramente um agente intermediário; a partir do assassinato de Ludlow se
converteu no tirano de Vladanka, ameaçando-a denunciá-la se não lhe dissesse onde tinha
guardado o documento em que o príncipe Estéfano a autorizava a trabalhar em seu nome.
Suponho que o documento devia se unir ao contrato que seria assinado entre vocês, não é
assim, senhor Barret?

John P. não se dignou a responder. Wolfe encolheu os ombros e prosseguiu:

— Ela então matou Faber. Marcou um encontro em seu próprio apartamento e quando ele
chegou apunhalou-o... Só Deus sabe o que se propunha a fazer depois essa mulher. Não há
modo de adivinhar o que se passava em sua cabeça. Deu-me a impressão de que está
completamente maluca. É possível que tenha contado com a reserva dos governos e dos
financistas internacionais, que não se envolvem em intrigas particulares; mas por quem diabos
tomou a mim...? Uma criatura como essa está muito por cima de todo cálculo. Não teria me
surpreendido que tentasse apunhalar a mim também... Você teria sido capaz de tratar com ela
em uma base racional, senhor Barret? John P. repôs secamente:

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— Estou esperando que termine de falar.
— Já terminei.
— Bah...! Você fez um punhado de acusações sem valor, já que carece de provas.
— Temos esse documento, por exemplo...
— Que você roubou.
— Não é verdade, mas ainda que assim fosse, essa circunstancia não diminui seu valor como
prova...
— Como prova de dois assassinatos? Wolfe lhe apontou com o indicador e em seguida disse
gravemente:
— Leve em conta, senhor Barret, que jamais ameaço em vão... Disse que seu filho estava
exposto a uma acusação de assassinato... Esqueci de mencionar que não será acusado de
homicídio, mas de cúmplice; mas o resultado vem a ser quase o mesmo... Com certeza ele sabia
que a princesa Vladanka assassinara Ludlow... Provavelmente você sabia também, mas careço
de provas que o demonstrem, enquanto que as possuo para acusar seu filho, assim como o
testemunho de três pessoas: Belinda Read, madame Zorka e o senhor Goodwin, meu ajudante.
— Isso não é mais que... John P. Barret dirigiu estas carinhosas palavras ao seu entorno, sem
tirar nem por um momento os olhos de Wolfe. — O que mais? Perguntou depois.
— Nada que possa atingi-lo... Olhe, senhor, confesso sinceramente que não tenho nenhuma
bomba para fazer explodir a seus pés. Mas o senhor Cramer não gosta de assassinatos. Não
gosta que os perpetrem com impunidade, quaisquer que sejam as circunstâncias, mas neste
caso se viu obstaculizado por um muro de reservas e vacilações que ele sozinho não teria
conseguido franquear. Afortunadamente, eu pude fazer um buraco no muro e o fiz passar para
o outro lado. Se você conhecesse o inspetor tanto como eu, saberia que já não tem nada que o
impeça fazer cair sobre o criminoso todo o peso da Lei. Possui o documento e prenderá a
princesa, com o que seu contrato será anulado, e tem provas para deter seu filho como cúmplice
ou testemunha material. Com esse papel poderá obter uma autorização dos tribunais
competentes para examinar seus arquivos e correspondências. Claro que ele somente fará isto
se se for obrigado; quer dizer, se persistir em...

Parei de ouvir o que continuou dizendo, porque precisei atender à porta. Era Charlie Heath, que
se encaminhou para o escritório como se fosse o proprietário da casa, mas eu o impedi e
perguntei:

— Por que demorou tanto tempo?


— Direi ao inspetor.
— Está ocupado agora. Terá que esperar aqui. Levei-o para a sala, onde Fred lia uma revista.

Voltei ao escritório e aproveitei o momento em que Cramer, os Barret e Wolfe se olhavam


rancorosamente em silêncio, para dar a notícia do regresso de Heath. Tudo o que consegui foi
que Cramer me desse uma olhada de cinco segundos, cheia de ameaças. Wolfe não se
preocupou em me olhar. Parece que buscava, sem encontrar, o modo de fazer explodir uma
bomba aos pés de John P.

— Não, disse de repente, — Não esperava isso de você, senhor Barret, confesso. Mas me
parece que você esqueceu algo muito importante... Ignora por acaso que há uma pessoa que
sabe deste assunto tanto quanto a princesa...? Refiro-me à garota que veio com ela de Zagreb.

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— Talvez ele ignore; mas eu não, declarou o inspetor. — E você a deixou sair e até lhe deu
dinheiro. Wolfe repôs secamente:
— Isso não é verdade. Cramer ficou olhando atônito.
— Archie, pediu Wolfe, — Apanhe do cofre o pacote que enviaram da "Rádio Seven Seas " e
dê ao senhor Cramer. Fiz o que me ordenava, e quando o inspetor teve o pacote em seu poder
se apressou a desfazê-lo. — Essa é a fotografia da princesa Vladanka Donevitch, afirmou Wolfe,
irradiada desde Londres. Se a tivesse nesta manhã... Cramer deu um pulo e rugiu:
— É Neya Tormic!
— Acalme-se, inspetor, disse Wolfe serenamente. — Você tem razão; é a senhorita Tormic...
— E você fez com que um de meus homens a acompanhasse e a deixasse em liberdade...
— Que outra coisa eu podia fazer, senhor Cramer? Achava-se aqui, no meu escritório,
achando que era minha cliente, que estava sob a minha proteção... Não disse que iria prender o
assassino e colocá-lo em suas mãos; mas unicamente revelar a sua identidade e o motivo do
crime. Se quiser aceitar meu conselho, o meio mais simples para detê-la ...

Mas Cramer não estava disposto a aceitar conselho algum. Assim me arrancou da cadeira ao
pular no telefone. Pai e filho continuaram sentados, muito rígidos. Wolfe deu uma olhada no
relógio e exalou um suspiro. Cramer conseguiu se comunicar com o número discado e começou
a dar ordens a alguém. Apanhei a radiofoto da princesa, coloquei-a sobre a mesa de Wolfe e
joguei o papel em que estivera envolta no lixo. Cramer terminou a comunicação, se ergueu e
disse a Wolfe com feroz acento:

— Caso não consiga encontrá-la...


— Recorde que fizemos um acordo, Wolfe interrompeu-o.
— Um diabo! Começou a andar para a porta, mas de repente se voltou para dizer aos Barret:
— Precisarei falar com vocês... E não tentem colocar em jogo sua influência, porque aviso que
estimo mais meu amor próprio que minha carreira...

Dito isto, saiu. Eu o acompanhei e enquanto colocava o paletó e o chapéu, tirei Heath da sala,
contente de limpar a casa de policiais. Segui chefe e subordinado até a porta da rua, descendo
com eles a escadinha, depois de deixar a porta encostada, e me entretendo em ver como se
mobilizava todo o regimento que rodeava a casa. Cramer, quando todos os seus homens
estavam juntos, deu ordens ríspidas. Em seguida vi como seu carro dava marcha-a-ré para poder
arrancar sem bater no para-choque posterior do luxuoso carro dos Barret. O táxi da calçada em
frente foi o primeiro em romper a marcha, em seguida o carro de Heath, e finalmente o de
Cramer, que se deteve um instante assomando a cabeça para me dizer:

— Venha aqui um momento, Goodwin! Aproximei-me ao carro, e Cramer grunhiu: — Preciso


daquela foto!
— Sim... Para nós não nos servirá de nada... Quando você quiser, pode vir apanhá-la. O carro
recomeçou a marcha e eu fiquei um instante vendo como desaparecia na próxima esquina.

O instante foi muito longo.

O que aconteceu foi muito rápido, mas não obstante eu poderia alcançá-la se tivesse me virado
dois segundos antes. Neya Tormic saiu de perto do porta-bagagens do carro dos Barret,

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atravessou a calçada de um salto, subiu a escadinha como um gato montês e abriu a porta que
eu havia deixado encostada.

Afirmo que ainda não estou muito velho, incapacitado, para fazer rápidos movimentos. Quando
ela atravessou a porta, eu chegava ao primeiro degrau da escadinha, e à luz do vestíbulo vi
brilhar um objeto que Neya trazia na mão. Isto me serviu de inspiração para aumentar a
velocidade, mas é impossível alcançar um raio. Quando cheguei à porta do escritório ela havia
entrado e esgrimia a brilhante folha, enquanto que Wolfe, sentado ante sua mesa, parecia
incapaz de evitar a horrível sorte que o esperava. E eu não tinha arma alguma, então não pude
fazer outra coisa a não ser gritar.

Não sei como Wolfe conseguiu, nem nunca saberei, ainda que ele tenha me explicado
posteriormente uma dezena de vezes. Afirma que quando ouviu os passos no vestíbulo pôs em
ação todos seus sentidos, e que ela ao se lançar sobre ele, adaga na mão, recebeu-a com uma
garrafa de cerveja em cada mão e golpeou com uma a que segurava a adaga e com a outra a
cabeça da agressora... Não sei... O caso é que a princesa Vladanka caiu no chão tão rapidamente
como começara seu ataque, com um pulso quebrado e uma violenta comoção cerebral. Ao
chegar junto de Wolfe vi que ainda segurava as garrafas em suas mãos e que a agressora, caída
atrás da cadeira de Nero, movia as pernas espasmodicamente. Examinei meu chefe para ver se
estava ferido, mas não estava. Fred Durkin irrompeu de repente no escritório, seguido de Fritz.
Pai e filho permaneceram onde estavam, pálidos e mudos.

— Não está ferido? Perguntei a Wolfe.


— Não, me respondeu.

Tentou se levantar, mas não conseguiu porque o corpo de Vladanka impedia que empurrasse a
cadeira para trás. Ajoelhei-me junto dela. Havia cessado de chutar e não pude encontrar o pulso.
Dei volta à mesa para tentar retirá-la pelo outro lado e naquele momento ouvi uma voz que
disse:

— Perdoe-me por entrar sem bater, senhor Wolfe, mas a porta estava aberta... Vim lhe dizer
que esperamos uma decisão do promotor geral referente ao registro de agentes de serviço de
empresas estrangeiras quando...

Levantei-me o suficiente para ver o rosto de Stahl, o agente federal, cortês e grave. Em seguida
me deixei cair sobre os calcanhares e prorrompi em gargalhadas.

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CAPÍTULO 19

Wolfe disse exasperado:

— Fritz acabava de me dizer que você não tocou no que foi servido... Por que não come?
Carla meneou negativamente a cabeça e respondeu:
— Sinto muito, mas não posso...

Eu mesmo a trouxera ao escritório. O relógio da parede marcava onze e vinte. Todos os


assentos se achavam em ordem. Wolfe suspirou:

— Queria saber se você havia se dado conta de que a princesa é louca.


— Não estava... Começou Carla a dizer, mas se interrompeu. — Pelo menos eu não observei
nada estranho até que... Agitou as mãos e em seguida voltou as deixar cair sobre o regaço.
— Você não era amiga dela?
— Amiga, não... Quando a senhora Campbell morreu eu passei a depender da família
Donevitch. Em seguida o príncipe Estéfano se casou com ela, que não tardou em se converter na
dona absoluta de tudo... A mim me tratou muito melhor do que eu podia imaginar, já que não
era uma Donevitch. Tinha algum medo, como todos, incluindo o príncipe Estéfano. Mais tarde,
quando ela decidiu vir para a América, escolheu a mim para que a acompanhasse... Suponho que
o motivo desta escolha foi porque sabia da minha adoção por você e tinha o propósito de
utilizar este conhecimento se fosse o caso. A razão desta suposição é que ela me pediu que
trouxesse comigo o documento que você...

— Sim... Perdoe-me... Traga-o, Archie......

Dirigi-me ao cofre, retirei o papel e o entreguei a Wolfe, quem depois de dar uma olhada,
dobrou-o cuidadosamente em duas dobras e o estendeu a Carla. Ela o olhou um momento como
se temesse que a mordesse. Finalmente esticou a mão e apanhou-o.

— Vim com ela, prosseguiu, — Porque não tinha outra escolha, mas, além disso, porque
gostei... Seria uma grande aventura vir para a América... Eu sabia perfeitamente o motivo de sua
viagem, já que ela confiava em mim... Sabia que teria necessidade de fazer coisas perigosas, mas
jamais acreditei que seria capaz de matar... Esta manhã, quando cheguei em casa e vi o cadáver
de Faber, compreendi que tanto este assassinato como o outro haviam sido cometidos por ela...
O medo não me permitiu pensar... Eu não podia responder às perguntas que me fizessem sobre
ela; havia me comprometido sob juramento a não traí-la, mas tampouco estava disposta a seguir
mentindo por ela. Pensei em fugir, mas me achava em um país estranho e... Compreendo que fui
muito estúpida... Wolfe murmurou:
— Se se deu conta de que foi estúpida é que não o é tanto como eu acreditava. Carla ficou
silenciosa. Wolfe perguntou: — O que pensa em fazer agora? Ela moveu a cabeça tristemente.
— Não sei.
— Legalmente você é minha filha adotiva... Este fato me faz responsável por sua conduta.
Carla levantou a cabeça e interrompeu:
— Eu não pedi...
— Já sei... Mas até agora sempre viveu a expensas de alguém... Não é verdade, filhinha?
— Sim...

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— Pensa em voltar para a Iugoslávia?
— Não.
— Está decidida?
— Sim.
— O que fará então? Ficar na América?
— Sim.
— Como espiã da gangue de Donevitch? Carla olhou para Wolfe e respondeu:
— Não!
— E onde pensa em dormir esta noite? No apartamento da Rua Trinta e Oito? A garota
estremeceu.
— Oh, não...! Não conseguiria... Não voltarei mais para lá... Mas irei para outro lugar... Ainda
disponho de um pouco de dinheiro... Levantou-se e adicionou: — Poderia ir...
— Não digas bobagens, garota, interrompeu-a Wolfe. — Está sem comer e sua cabeça não
funciona bem... Vou chamar Fritz para que sirva algo nutritivo...
— Não. Não conseguiria comer...
— Dormirá então e pedirá você mesma a comida quando despertar de manhã. De qualquer
maneira não está agora em condições de fazer algo razoável. Falaremos amanhã sobre isso... Se
se propõe residir em América e não rasgar esse documento, suponho que seu nome será Carla
Wolfe, em cujo caso... Do que está rindo, Archie? Estúpido...! Acompanhe à senhorita... A mi...
Acompanhe-a ao quarto e avise-a que se pensar em utilizar a escada de incêndio, que procure
não me despertar. Levantei-me.
— Venha comigo, senhorita... Mi... Carla.

Dez minutos mais tarde regressei ao escritório. Não havia ouvido o elevador, então sabia que o
encontraria ainda ali. Não me equivoquei. Não somente permanecia no escritório, mas acabava
de receber uma nova remessa de cerveja.

— Há uma coisa, eu disse, — Que gostaria de esclarecer de uma vez por todas. Cometi uma
falta, confesso, mas só uma, quando deixei a porta encostada e atendi a chamada de Cramer...
Mas fora isso, não pude evitar o que aconteceu... Vladanka esteve falando com o chofer de
Barret e conseguiu se ocultar na parte posterior até que achou que chegara o momento de
agir... Quando saltou de seu esconderijo e se lançou para a porta, nem Paavo Nurmi, o grande
campeão olímpico, poderia alcançá-la... Wolfe encolheu os ombros e disse com insuportável
entonação:
— Já viu que não precisei de você. Apertei os dentes e quando consegui engolir meu
ressentimento, bocejei e adicionei:
— Outras duas perguntas... O que continha o envelope que você entregou ao policial para
que ele, por sua vez, entregasse para ela?
— Nada... Uma nota dizendo que não era minha cliente e que não havia sido nunca, já que
impus minhas condições para aceitar ajudá-la.
— E que disse aquele demônio quando saiu daqui...? Aquele Teega mee bornis roose ou algo
parecido...
— Uma frase em sua língua nativa.
— O que significa?
— Sobre o meu cadáver.

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— Podia estar louca, mas era uma profetisa. Outra coisa que não compreendo é por que
Ludlow disse que a havia enviado ao guarda-roupa em busca de cigarros... Como ele se atreveu,
um espião britânico, a dar ordens a uma princesa...?
— Mentiu... Ela foi ao guarda-roupa apanhar algo do bolso dele. Provavelmente se tratava
do mesmo documento que enviou aqui na manhã seguinte para escondê-lo e que ele havia
roubado antes dela. Com sua afirmação quis dar a entender que havia se dado conta do despojo
de que havia sido vítima.

Wolfe deu um suspiro, empurrou a cadeira para trás e se pôs de pé.

— Vou me deitar, disse. Mas antes de chegar à porta, meu chefe se voltou e adicionou: —
Ah! Lembre-me amanhã de pedir ao senhor Cramer aqueles cem dólares que dei para Vladanka...
Queria poder me curar de uma vez desses estúpidos gestos românticos...
— Aqueles cem dólares, respondi, acariciando o bolso, — Estão aqui. Foi a primeira coisa
que fiz quando auscultei a sua agressora.

FIM

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