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A ECONOMIA SOLIDÁRIA E O TRABALHO

ASSOCIATIVO
Teorias e realidades*

Marcia de Paula Leite

Introdução objetivos principais. Em primeiro lugar, busca deli-


mitar a discussão teórica sobre o tema, abarcando
Este texto consiste em um balanço de estudos não só os que a entendem como o prenúncio de
sobre Economia Solidária, um fenômeno que vem um processo de transformação social, mas também
se difundindo rapidamente no contexto de pro- aqueles que têm uma visão mais crítica do fenôme-
fundas transformações por que vem passando o no, enfatizando seu caráter efêmero e pouco alenta-
mundo do trabalho. Trata-se de discutir, de um dor no sentido de se configurar como uma alterna-
lado, o quadro teórico que os estudos sobre o tema tiva de geração de emprego e renda. Em segundo
vêm conformando tanto em nível internacional, lugar, ele se debruça sobre o exemplo argentino, uma
como nacional, e, de outro, a importância que o das experiências mais interessantes de difusão do
fenômeno vem adquirindo nos dois casos. cooperativismo como um fenômeno social expressi-
Ele se articula, nesse sentido, a partir de três vo nos primeiros anos da presente década. Finalmen-
te, o texto propõe uma análise da experiência brasi-
* Texto elaborado no âmbito do projeto “A crise do traba-
lho e as novas formas de geração de emprego e renda: as leira a partir de balanços nacionais. As considerações
distintas faces do trabalho associado, os trabalhadores e a finais traçam algumas conclusões sobre os estudos
questão de gênero”, financiado pela Fapesp (projeto te- analisados, sublinhando a complexidade do tema e
mático) e pelo CNPq (Edital Universal).
a impropriedade de se pensar em termos dualistas
Artigo recebido em agosto/2008 seja no sentido de suas potencialidades e virtualida-
Aprovado em dezembro/2008 des, seja no de seus limites e vulnerabilidades.

RBCS Vol. 24 no 69 fevereiro/2009

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Economia solidária e cooperativismo novos significados no atual contexto econômico e


social.
A difusão das experiências de economia soli- Juntamente com Chanial, Laville contextualiza
dária não pode ser pensada sem o cuidado de inse- a economia solidária na ampla crise econômica e
ri-las no quadro do conjunto de transformações cultural que marcou o final dos anos de 1960, na
que vêm reconfigurando o social. De fato, é no qual se incluem a exigência de uma maior “qualida-
quadro atual de crise do trabalho assalariado1 que de” de vida, a reivindicação de um crescimento
os estudiosos começaram a detectar desde os anos qualitativo e de uma política do nível de vida, “de
de 1980, mas especialmente a partir da década se- levar em conta as dimensões de participação nas
guinte, um conjunto de movimentos empunhados diferentes esferas da vida social, de preservar o meio
por trabalhadores que perderam seus empregos e ambiente, de mudar as relações entre os sexos e as
que não conseguiram se reinserir no mercado de idades” (Chanial e Laville, 2006, p. 50). É nesse
trabalho ou, ainda, por aqueles que sempre vive- quadro que a década seguinte serà marcada por
ram na informalidade. Centrando-se, especialmen- uma renovação das atividades associativas que tes-
te, na formação de cooperativas de trabalho e de temunham não só uma alternativa à crise do em-
produção e de associações de trabalhadores, nas prego, mas também o desejo de “trabalhar de ou-
quais se busca a autogestão, tais experiências vêm tra maneira” (Idem, p. 51).
sendo reconhecidas sob o nome de Economia Outros ainda consideram tais experimentos
Solidária2 . É a essa discussão que este tópico se como efêmeros e fugazes, que tendem a se multi-
dirige, a partir de uma reflexão centrada em quatro plicar em momentos de crise do capitalismo, para
temas: (i) uma discussão teórica geral, buscando cir- desaparecer logo em seguida, em função das difi-
cunscrever a temática e as questões que ela traz para culdades que enfrentam para sobreviver em um
os estudos atuais; (ii) um exame das teorias que in- contexto capitalista, como a baixa capitalização, a
terpretam a economia solidária como uma forma falta de capacitação técnica dos trabalhadores para
de transformação social; (iii) uma síntese das visões gerir os negócios, a falta de comprometimento do
críticas da economia solidária; e, finalmente, (iv) uma conjunto dos trabalhadores com os ideais coope-
reflexão sobre os limites e as possibilidades da eco- rativistas, para citar apenas os argumentos mais lem-
nomia solidária. brados. Nesse sentido, seriam experiências destituí-
das de importância social.
Discussão teórica Essa discussão, que já se tornou clássica, espe-
cialmente entre os estudiosos de esquerda, colo-
Antes de tudo, é importante sublinhar que não cando em lados opostos renomados pesquisado-
existe qualquer tipo de unanimidade no que se re- res, como Rosa Luxemburgo (1986), Webb e Webb
fere ao conceito de Economia Solidária. Para al- (1914), Bernstein (1961) e o próprio Marx (1979),3
guns, ele remete às experiências britânicas do início ressurge no momento atual, tendo em vista a gran-
do século XIX, inspiradas por Richard Owen, nas de quantidade de experiências que vêm se espa-
quais sobressai a idéia da transformação social das lhando pelo mundo afora, em virtude das mudan-
relações de produção capitalistas e sua substituição ças que têm ocorrido no mercado de trabalho.
pelos princípios socialistas de igualdade e solidarie- Essa difusão das experiências cria, ademais, um
dade, baseados na idéia de autogestão e de contro- conjunto de movimentos de economia solidária em
le operário sobre a produção (Singer, 2000b). nível nacional e internacional, colocando para os
Para outros (Laville, 2006; França Filho, 2006) estudiosos novos problemas que não haviam sido
trata-se de um fenômeno novo, que tem a ver com pensados anteriormente.
a crise da relação salarial que se abriu no último É nesse contexto que a discussão sobre os li-
quartel do século passado e que, embora retome mites e as potencialidades do cooperativismo se
experiências do século XIX como as cooperativas avivam e que novas teorias surgem para dar conta
e os empreendimentos autogestionários, adquire do fenômeno. Em que medida essas novas expe-

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riências não poderiam ser tomadas no novo con- decisões sobre a distribuição de proveitos); auto-
texto, tendo em vista a dimensão que o fenômeno nomia e independência em relação ao Estado e a
vem tomando, como portadoras de uma capaci- outras organizações; compromisso em relação à edu-
dade de transformação social? cação de seus membros; cooperação entre coope-
Essa hipótese não pode deixar de considerar, rativas por meio de organizações locais, nacionais e
entretanto, que os estudos sobre o fenômeno ainda mundiais; e contribuição para o desenvolvimento
são poucos; que ele carece de avaliações mais con- da sociedade em que está localizada. Nesse sentido,
fiáveis em nível mundial, regional ou nacional e que elas extrapolam o simples objetivo de alternativa
as interpretações mais otimistas não levam em con- ao desemprego, adquirindo um nítido potencial
ta um sem número de “falsas cooperativas”, que emancipador.
em vez de experiências de trabalho solidário funcio- Esses princípios ressurgem, contudo, reconfi-
nam como forma de flexibilização do trabalho, a gurados no contexto atual, dando margem a dife-
serviço do capital, nas quais os princípios de auto- rentes teorias que buscam explicar o fenômeno re-
gestão, igualdade e solidariedade não estão presentes. cente de expansão do cooperativismo. A elas serão
Por outro lado, vale pensar que muitas experiên- dedicados os próximos itens.
cias, embora localizadas e prenhes de dificuldades,
que muito dificilmente poderiam apontar para um Os teóricos e defensores da economia solidária
projeto de transformação mais radical da socie-
dade, despontam como novas formas de sociabi- Laville e o princípio da reciprocidade
lidade, nas quais setores mais vulneráveis da socie-
dade vêm encontrando possibilidades de inserção Sob os auspícios do Crida, Jean Louis Laville
social que lhes têm permitido recuperar a dignida- tem sido um dos principais teóricos da economia
de e a auto-estima. Essas experiências poderiam solidária. Vale destacar, em primeiro lugar, que sua
estar apontando não para uma transformação ra- análise não se restringe às cooperativas, mas ao con-
dical da sociedade em seu conjunto, mas para um junto de “práticas que contribuem para rearticular
tipo de convivência com a produção capitalista o econômico às outras esferas da sociedade, na
(Gaiger, 2000, p. 189). perspectiva de uma sociedade mais democrática e
É a esse debate que este tópico do trabalho se igualitária” (Guérin, 2005, p. 79). Tais práticas in-
dedica, buscando dialogar com a bibliografia in- cluem a criação ou a manutenção de empregos; a
ternacional. Talvez uma das primeiras questões a produção e a comercialização coletiva; a moradia
ser tematizada consiste em lembrar que, sendo o coletiva; a poupança e o crédito solidários; as tro-
contexto de expansão das experiências associativas cas não monetárias; os serviços coletivos de saúde;
o de crise generalizada (crise ambiental, de um a proteção coletiva do meio-ambiente; a segurança
modo de acumulação, do trabalho assalariado, de alimentar; o apoio à criação de atividades indivi-
uma forma de estar no mundo), tais experiências duais ou coletivas; a criação de novos serviços. Em-
carregam consigo as disjuntivas de risco e possibi- bora as cooperativas (de consumo, de trabalho, de
lidade, de velho e novo, emergindo, portanto, como produção e de crédito) constituam uma das for-
portadoras a um só tempo de um conjunto de mas importantes por meio das quais tais práticas
potencialidades e de limites. sociais se desenvolvem, elas não são as únicas; de
No que se refere ao passado, vale lembrar que fato, há varias outras formas importantes como os
essas experiências resgatam os princípios estabele- clubes de troca, a autoconstrução, o microcrédito
cidos pela cooperativa de Rochdale, criada em ou o crédito solidário, os jardins comunitários, as
Manchester, em 1844, tais como: vínculo aberto e cozinhas coletivas, os serviços da vida cotidiana
voluntário; controle democrático por parte de seus (como cuidar de crianças ou idosos) (Idem, ibidem).
membros (baseado no lema “um membro, um A economia solidária estaria emergindo como
voto); participação econômica dos membros (ba- fruto ao mesmo tempo da crise da sociedade sala-
seada, sobretudo, no direito à participação nas rial e do processo de terceirização da economia.

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Diante da exclusão social provocada por esses fe- mia doméstica representa uma liberação à qual nem se
pensa em retornar (2004, pp. 104-105).
nômenos, ou da chamada nova questão social, “o
fenômeno da economia solidária se apresenta [...]
numa perspectiva de busca de novas formas de Os serviços de proximidade baseiam-se, as-
regulação da sociedade, sob a forma de auto-or- sim, nas práticas cotidianas das populações, nas re-
ganização social em torno de ações, ao mesmo tem- lações e nas trocas simbólicas que tecem a trama
po econômicas e políticas” (Idem, p. 111). diária da vida local, nas aspirações, nos valores e
Criticando o reducionismo que explica a ação desejos das pessoas que são os usuários (Idem, p.
econômica apenas pelo interesse material e indi- 105). Mas, embora se apóiem nos recursos familia-
vidual, Laville recupera o conceito de Polanyi (2000) res, eles não visam a ratificar relações de subordi-
de que a economia é plural, constituída por uma di- nação no interior da família. Ao contrário, reúnem
versidade de formas de produção, entre as quais se pessoas preocupadas em “articular criação de em-
encontrariam as baseadas na reciprocidade.4 prego e reforço da coesão social, ou geração de ati-
As formas de produção baseadas na recipro- vidades econômicas, com fins de produção do
cidade emergiriam, assim, como formas de resis- chamado liame social” (Idem, p. 112).
tência ao mercado, resultantes de ações coletivas A segunda característica da economia solidária
que, diferentemente das filantrópicas, seriam capa- reside na elaboração de formas de coordenação e
zes de promover a solidariedade democrática, a de alocação de recursos alternativas à concorrência
democratização da economia. Tal poder de demo- ou à regulamentação administrativa representada pela
cratizar a economia, por sua vez, se basearia, se- coordenação estatal, por meio de “espaços públicos
gundo o autor, em duas características da econo- de proximidade” que conduzem a uma co-constru-
mia solidária, qualquer que seja a forma particular ção da oferta e da demanda (Guérin, 2005, p. 80).
de que ela se revista. Laville entende que diante da crise da socieda-
A primeira delas reside na importância das prá- de salarial, a crise do emprego não pode ser atacada
ticas de reciprocidades entendidas não como um isoladamente, mas deve ser pensada em conjunto
resultado da tradição ou uma virtude feminina, mas com a crise da socialização, o que o leva a, junta-
antes como uma forma completa de agir econo- mente com França Filho, privilegiar três preocupa-
micamente. A economia solidária tem como espe- ções: (i) a de assegurar a busca de uma repartição
cificidade combinar dinâmicas de iniciativas priva- do emprego menos desigual do que a realizada em
das com propósitos centrados não no lucro, mas detrimento de certos grupos sociais como as mu-
no interesse coletivo. A razão econômica é acom- lheres, os jovens, os idosos, de forma a concorrer
panhada por uma finalidade social que consiste em para o reforço dos vínculos sociais; (ii) a de explo-
produzir vínculos sociais e solidários, baseados rar todas as oportunidades de criação de emprego,
numa solidariedade de proximidade; o auxílio sob a reserva de que elas se façam em condições
mútuo e a reciprocidade estariam, assim, no âma- socialmente aceitáveis; (iii) a de favorecer outras
go da ação econômica (Idem, p. 80). formas de trabalho além do emprego, contribuin-
O recurso à reciprocidade consiste em tratar do com a socialização e o reconhecimento social
coletivamente problemas cotidianos na esfera pú- (França Filho e Laville, 2004, p. 88). Essas orienta-
blica, em vez de cada um tentar resolvê-los indivi- ções devem ser tomadas na sua complementarida-
dualmente na esfera privada. Mas, como alertam de e, entre os vários objetivos que poderiam dar
França Filho e Laville, coerência à sua articulação, os autores destacam:

[...] essa inscrição na esfera pública diferencia radical- [...] a relativização no seio da esfera econômica do lugar
mente a economia solidária da economia doméstica. Não assumido pela economia monetária [que] implica uma
se trata, portanto, de encorajar, através da economia so- revalorização de diversas formas de economia não-mo-
lidária, um retorno à família, lugar das solidariedades netária, que não se reduzem às formas dependentes re-
naturais. Os movimentos de êxodo rural ou de profissio- presentadas pela economia subterrânea e o trabalho no
nalização das mulheres revelaram que a saída da econo- câmbio negro (Idem, p. 90).

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É precisamente no quadro da realização desse articular com os engajamentos cidadãos na econo-


objetivo que a economia solidária poderia, segun- mia?” (Chanial e Laville, 2006, p. 53).
do os autores, encontrar o seu lugar. Isso significa para os autores a necessidade de
A economia solidária teria para Laville uma um mundo institucional que redesenhe os contor-
natureza híbrida, na medida em que não atua ex- nos da ação pública em matéria de economia, o
clusivamente sob o princípio da reciprocidade; de que estaria ocorrendo tanto no caso do Brasil, como
acordo com ele, ela recorre também a recursos mo- no da França com a criação respectivamente da
netários. Nesse sentido, ela seria responsável por rede de gestores públicos e da rede dos territórios
religar o econômico ao social, combinando a reci- para a economia solidária, ambas criadas em 2002.
procidade às lógicas redistributiva e de barganha, Isso considerando que as mudanças sociais não
visando a reforçar a auto-organização da socieda- implicam absolutamente em alternativas revolucio-
de civil. nárias e radicais, em escolhas entre duas formas de
A democracia da economia consiste, portanto, sociedades contraditórias, mas se fazem por pro-
para o autor, na emergência de uma nova regulação cedimentos de construção de grupos e de novas
que leve em conta a possível complementaridade instituições ao lado e por cima das antigas.
entre os aspectos redistributivos e de reciprocida- Convém lembrar ainda que em seus estudos
de, promovendo um fortalecimento da sociedade mais recentes, Laville tem dado um importante
civil, o que não significa, contudo, uma substituição destaque à relação que as experiências de economia
do Estado pela sociedade civil. Antes, seria um re- solidária vêm criando com o desenvolvimento eco-
torno do Estado baseado numa mudança de inte- nômico local, o que lhes estaria conferindo uma
ração entre o Estado e a sociedade (Idem, p. 86). relevante dimensão pública e política. Como afir-
Assim como Polanyi, Laville acredita na im- ma em trabalho publicado com França Filho:
portância das práticas para informar a existência e
para analisar as perspectivas de conciliação entre Em todo caso, as formas cooperativadas de produção,
igualdade e liberdade. Nesse sentido, elas devem tratando-se de economia solidária, conhecem uma preo-
cupação crescente com a questão do desenvolvimento
ser reconhecidas e analisadas a partir do movimen- local. Portanto, para além da sua ação no mercado, cujo
to econômico real e não de um projeto de refor- benefício social restringir-se-ia apenas ao grupo dos coo-
ma social construído pela teoria aprioristicamente perados internos [...] a tendência do movimento é aquela
em relação ao seu aparecimento histórico. de valorização de uma dimensão pública da sua ação
mediante a ênfase nos impactos da organização na vida
De acordo com o autor, não se trata de esco- local. É exatamente esta dimensão pública da ação, ou
lher entre sociedade civil e Estado, mas de “encarar seja, de um agir no espaço público, que confere à econo-
uma democratização recíproca da sociedade civil e mia solidária uma dimensão política fundamental (Fran-
dos poderes públicos” (Laville, 2006, p. 37), em ça Filho e Laville, 2004, pp. 18 e 19).
que “a pluralização da democracia e da economia
entram em ressonância. A democratização recíproca Nesse sentido, o devir da economia solidária
da sociedade civil e da ação pública é congruente depende da evolução das formas de regulação
com uma economia fundada na pluralidade dos pública (Laville, 2006, p. 39).
princípios econômicos e das formas de proprie-
dade” (Idem, ibidem). Coraggio e a economia do trabalho
A questão que se coloca para Laville é, dessa
forma, saber que instituições seriam capazes de as- Diferentemente de Laville, a reflexão teórica
segurar nos dias atuais a pluralização da economia de Coraggio não se desenvolve em torno do con-
para inseri-la em um quadro democrático. Ou como ceito de economia solidária, mas a partir do que ele
expressa juntamente como Chanial, “quais são as chama de economia do trabalho. Esta é entendida
regulações públicas suscetíveis de favorecer um pelo autor como uma economia social que vai além
modelo de desenvolvimento sustentável, tanto no dos interesses individuais e que busca, primordial-
plano social quanto no do meio ambiente, e de se mente, a criação de bens coletivos.

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Este tipo de economia, baseada nas unidades autogerindo os recursos de políticas sociais de modo a
domésticas, contemplaria um conjunto de atividades, fortalecer os laços sociais entre seus membros, seus seg-
mentos, suas micro-regiões; uma economia que estrutu-
entre as quais as cooperativas e outras formas de ralmente distribua com mais igualdade, que supere essas
ações econômicas, incluídas por Laville na econo- tendências à exploração ou à violência, que seja um setor
mia solidária, apareceriam juntamente com o tra- da sociedade mais harmônico e integrado com outros
valores de solidariedade, com maiores recursos voltados
balho por conta própria e as atividades de produ-
para a cooperação (Idem, p. 116).
ção de bens e serviços que são consumidos pelas
unidades domésticas sem passar pelo mercado. Tais É a partir dessas considerações que Coraggio
atividades incluem o trabalho de limpeza, da cozi- acredita ser possível pensar em uma estratégia de
nha, de tomar conta das crianças, na horta, do con- desenvolvimento de uma economia centrada no
serto e confecção de roupas, de construção de mó- trabalho, uma “outra economia” que, sem a pre-
veis, da própria casa etc. (Coraggio, 2000, p. 98). tensão imediata de substituir a economia centrada
Para ele, a incapacidade do capitalismo atual de no capital, seja capaz, no entanto, de disputar com
inserir o conjunto da população trabalhadora em ela (Coraggio, 2003, p. 13).
seus empreendimentos, bem como a limitação das Embora o autor não considere que essa alter-
políticas públicas compensatórias em face do desas- nativa seja inexorável, ele a vê como possível, na
tre social do desemprego e da precarização do tra- medida em que essa outra economia pode satisfa-
balho estariam levando a população excluída a bus- zer diretamente parte das necessidades das maiorias
car formas de subsistência na economia doméstica, locais e competir exitosamente no mercado nacio-
cuja lógica não é da reprodução do capital, mas da nal ou global, “gerando ocupações mercantis e os
reprodução ampliada da vida. ingressos monetários necessários para sustentar-se
Retomando o conceito de empresa social utili- e ampliar-se sobre suas próprias bases de interde-
zado por De Leonardis, Mauri e Rotelli, Coraggio pendência” (Idem, p. 166).
considera que é a partir da economia do trabalho, Tal organicidade não se constituirá, contudo,
da economia doméstica, que se poderia apoiar a naturalmente, mas “requer que se invistam energias
empresa social: “os empreendimentos que não só importantes no desenvolvimento, consolidação e
produzem mercadorias, mas que ‘produzem socie- alimentação de redes que articulem, comuniquem e
dade’ ou o social (formas sociais, instituições, com- dinamizem a multiplicidade de empreendimentos
portamentos) [...]. Tal tipo de empreendimento ‘in- e microredes populares” (Idem, ibidem).
veste num único capital que possui: ‘as pessoas’ e Apesar do mesmo otimismo de Laville com
isto começa por dar créditos a elas, contraditoria- relação à possibilidade de uma transformação so-
mente à categorização de ‘desvalidos”, que lhes é cial profunda, a partir de uma outra economia,
dada pelos programas compensatórios (Idem, p. haveria que se considerar uma diferença importan-
102). A reprodução ampliada da vida significa, para te de interpretação entre os dois autores no que se
o autor, a melhoria da qualidade de vida com base refere à idéia do devir histórico. Enquanto para
no desenvolvimento das capacidades e das opor- Laville a transformação social aparece quase como
tunidades sociais das pessoas. uma decorrência natural do desenvolvimento das
Coraggio admite a possibilidade do desenvol- experiências cooperativistas, para Coraggio ela
vimento de relações de concorrência ou até de ex- aparece apenas como uma possibilidade que não
ploração no interior dessa economia em vez de obrigatoriamente deverá ocorrer. Para ele, a even-
relações de solidariedade. Ao mesmo tempo, en- tualidade de que ela venha a se concretizar está
tretanto, o autor acredita na possibilidade de uma colocada na ação sociopolítica, baseada em um
economia alternativa programa que proponha “com audácia, mas res-
ponsavelmente, tudo aquilo que pode ser feito para
[...] que se desenvolveria a partir da economia dos seto-
res populares, fortalecendo suas vinculações e capacida-
transformar a economia dos setores populares num
des, potencializando seus recursos, sua produtividade, sistema de economia do trabalho” (Coraggio, 2000,
sua qualidade, assumindo novas tarefas, incorporando e p. 116).

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Singer: economia solidária e socialismo tivismo, seja no que se refere à experiência interna-
cional, seja no que respeita à experiência brasileira:
Uma das visões mais otimistas da economia
É possível considerar a organização de empreendimen-
solidária é a de Singer, que considera os princípios
tos solidários o início de revoluções locais, que mudam o
cooperativistas como sendo não capitalistas. Dife- relacionamento entre os cooperados e destes com a famí-
rentemente de Laville e Coraggio, Singer vê um lia, vizinhos, autoridades públicas, religiosas, intelectuais
continuum entre as primeiras experiências operárias etc. Trata-se de revoluções tanto no nível individual como
no social. A cooperativa passa a ser um modelo de orga-
de formação de cooperativas e as atuais e é nesse
nização democrática e igualitária que contrasta com
sentido que as entende como um projeto em dire- modelos hierárquicos (Singer, 2000b, p. 28).
ção ao socialismo. De acordo com suas palavras:
De acordo com ele, as cooperativas que vêm
A economia solidária é o projeto que, em inúmeros países sendo formadas por universidades, sindicatos e
há dois séculos, trabalhadores vêm ensaiando na prática Secretarias Municipais do Trabalho, entre outras
e pensadores socialistas vêm estudando, sistematizando e
propagando. Os resultados históricos deste projeto em
iniciativas, deverão constituir uma vasta economia
construção podem ser sistematizados do seguinte modo: solidária no Brasil (Singer, 2000a, p. 150). Isso não
1) homens e mulheres vitimados pelo capital organizam- quer dizer, contudo, que a economia solidária ve-
se como produtores associados tendo em vista não só nha a se impor sobre as outras formas de produ-
ganhar a vida, mas reintegrar-se à divisão do trabalho em
condições de competir com as empresas capitalistas; 2)
ção. Ao contrário, assim como para Laville e Corag-
pequenos produtores de mercadorias, do campo e da gio, Singer vê uma convivência entre diferentes
cidade, se associam para comprar e vender em conjunto, formas de produção. A economia brasileira esta-
visando economias de escala e passam eventualmente a ria, nesse sentido, caminhando para uma economia
criar empresas de produção socializada, de propriedade
deles; 3) assalariados se associam para adquirir em conjun-
mista “com uma certa presença de Estado, uma
to bens e serviços de consumo, visando ganhos de escala presença de economia socialista ou solidária forte,
e melhor qualidade de vida; 4) pequenos produtores e uma presença de produção simples de mercadoria
assalariados se associam para reunir suas poupanças em e, quem sabe, até, uma presença grande de econo-
fundos rotativos que lhes permitem obter empréstimos a
juros baixos e eventualmente financiar empreendimentos mia doméstica” (Idem, p. 165).
solidários; 5) os mesmos criam também associações mú- Embora consciente do perigo de as coopera-
tuas de seguros, cooperativas de habitação etc. (Singer, tivas se transformarem em simulacro da empresa
2000b, p. 14). capitalista, com normas igualitárias que não são le-
vadas efetivamente em consideração, Singer acre-
Para ele, a questão da autogestão é definitiva dita no poder de desalienação que a própria práti-
na caracterização desses empreendimentos como ca autogestionária confere a seus trabalhadores, assim
experiências que se baseiam na igualdade e na de- como no poder de uma educação crítica e desalie-
mocracia. Nesse sentido, o cooperativismo consti- nante contra a degenerescência que pode ocorrer
tui um modo de produção específico e as empresas pela acomodação (Idem, p. 158).
autogestionárias, “ensaios de empresas socialistas” Conforme as palavras do próprio autor:
(Singer, 2000a, p. 159). Retomando os princípios
socialistas das cooperativas de meados do século A Economia Solidária não é uma receita que se aplica, dá
XIX, Singer interpreta o ressurgimento das coopera- certo e o sujeito já pode esquecer, ir para outra. É uma
luta contínua: descobri que a luta pela democracia, pela
tivas como um resultado da crise do trabalho assa- igualdade provavelmente vai prosseguir sempre [...]. Acho
lariado, do socialismo real e da social-democracia; que a democracia tem, junto com o cooperativismo, jun-
tudo isso teria resultado, segundo o autor, num des- to com as formas igualitárias, uma propensão à degenera-
locamento do foco dos movimentos emancipa- ção, portanto, é preciso lutar contra essa degeneração, é
preciso regenerar essa democracia, eu diria, mais ou me-
tórios da tomada do poder do Estado para o for- nos periodicamente (Idem, p. 149).
talecimento da sociedade civil (Pinto, 2006, p. 42).
Esse raciocínio permite que o autor mantenha Vale destacar que o pensamento de Singer se
seu otimismo e esperança em relação ao coopera- diferencia claramente do de Laville e de Coraggio

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no que se refere à centralidade do cooperativismo para sua disseminação. Discutindo a questão a par-
na economia solidária. Na verdade, tanto Laville tir de um conjunto de estudos de caso reunidos no
como Coraggio apresentam uma visão mais am- livro organizado por Souza Santos (2002), o autor
pla desse conceito. debate tais experiências a partir da problemática de
Embora considerem as cooperativas como a se elas podem ou não ser consideradas sistemas al-
forma principal de expressão das experiências de ternativos de produção. Embora peça cautela tan-
economia solidária, França Filho e Laville (2006) to às expectativas sobre o seu potencial anticapita-
incluem também as experiências de comércio justo lista, como às conclusões negativas apressadas sobre
(que visam a estabelecer relações comerciais mais esse mesmo potencial, suas reflexões sobre os casos
justas entre países do Norte e certos produtores estudados são desalentadoras, ao apontar que os em-
do Sul); de finança solidária (que visam ao forneci- preendimentos que conseguem sobreviver o fazem
mento de crédito para pessoas que não têm acesso por meio de redes de relações comerciais e finan-
ao sistema bancário, como o microcrédito, a pou- ceiras no mundo empresarial;5 que em geral o nú-
pança solidária etc.) e de formas alternativas de tro- mero de trabalhadores tende a diminuir em lugar
cas, não baseadas no dinheiro, como por exemplo de aumentar e ainda que, também em geral, a divi-
os clubes de troca. são interna do trabalho não é muito diferente da
Já Coraggio (2000), ao tratar das diferentes for- empresarial (Idem, ibidem). De acordo com o autor,
mas de economia popular, considera que o coope- as organizações da economia solidária
rativismo não consiste no caminho único, nem no
mais importante para se chegar à outra economia. [...] surgem por iniciativa ou com o apoio de instituições
de ajuda assistencial aos “pobres” [...], subsistem e até
parecem ajudar no desenvolvimento da convivência so-
A economia solidária do ponto de vista de seus críticos cial dos seus membros em direção a uma ética de solida-
riedade. Mas quase todas elas desintegram-se logo que é
Como era de se esperar, os críticos da econo- interrompida a ajuda financeira externa. E as muito pou-
cas que sobrevivem transformam-se em pequenas ou mé-
mia solidária não têm dedicado a ela a mesma aten-
dias empresas dedicadas, explícita ou conscientemente,
ção de seus defensores. O ponto principal que os ao lucro individual e sob o controle e em benefício dos
unifica é o descrédito na capacidade de que as co- que administravam essas organizações (Idem, p. 496).
operativas possam vir a significar uma experiência
social importante baseada em outros princípios que Esse tipo de análise não o impede, contudo,
os capitalistas, seja por sua necessidade de se inserir de ressaltar experiências importantes no sentido de
no mercado capitalista, seja pelas dificuldades que propiciar novas formas de sociabilidade como a
enfrentam em termos tecnológicos, de capital, de Self Employed Women’s Association (SEWA), or-
mercado etc. ganizada por Gandhi em 1918, que possui hoje
Castel, por exemplo, criticando o conceito de 250 mil associadas e que promove a organização
“serviços de proximidade” de Laville considera que de cooperativas em diversas áreas de atividade e de
poucas realizações desse tipo são inovadoras ou por- cooperação técnica e administrativa (Quijano, 2002,
tadoras de futuro e que, ao contrário, elas são em p. 497). Referindo-se às cooperativas de coletoras
geral pouco visíveis socialmente, não logrando ul- de lixo associadas à SEWA, Quijano salienta que se
trapassar o estágio da experimentação (Castel, levarmos em consideração que elas congregam não
1998, pp. 574-575). Embora reconheça que as ati- “apenas pobres, mulheres e trabalhadoras [...], mas
vidades inseridas na chamada “economia social” também intocáveis,6 pode inferir-se o extraordiná-
estão em vias de expansão, o autor acredita que rio valor que para elas tem a associação em uma
essas realizações “têm sua utilidade numa conjun- cooperativa e, sobretudo, o fato de estarem associa-
tura catastrófica”, mas não podem ser pensadas das a uma instituição como a SEWA”. O autor re-
como políticas de emprego. fere-se aqui à melhoria da renda e das condições
Também Quijano (2002) arrola as dificuldades de trabalho, à proteção contra os riscos de trabalho,
que as experiências de cooperativismo enfrentam à aprendizagem da leitura, da escrita e da gestão. E,

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A ECONOMIA SOLIDÁRIA E O TRABALHO ASSOCIATIVO 39

acima de tudo, à criação de um sentimento de auto- siste em considerar que, embora não sejam capazes
estima individual e social dessas mulheres que acar- de promover uma transformação social mais sig-
reta, sem sombra de dúvida, “uma perspectiva e nificativa, elas são parte da nossa história e vêm
um sentido novos para a sua própria existência” deixando marcas importantes em nossa sociedade
(Idem, p. 498). ao promover a solidariedade e a autonomia. Nesse
Vale ressaltar, contudo, que ao mesmo tempo sentido, emergem como formas de resistência im-
em que afirma que a preocupação em promover portantes à realidade atual do mercado de trabalho
uma economia solidária é respeitável, Quijano (Idem, e adquirem um significado extremamente relevan-
p. 575) a considera mais como uma declaração de te para os trabalhadores que nelas se inserem, des-
intenções do que a afirmação de uma política. pontando como um elemento central à compreen-
são do novo momento do mundo do trabalho.
Economia solidária: uma hipótese sobre seus limites Ainda que elas venham a desaparecer no futu-
e possibilidades ro, constituem um tipo de movimento que deixará
marcas, que ficará na história da classe trabalhado-
Em suma, o que se deve reter, sobretudo, dessa ra, na memória não só de seus atores, mas de toda
discussão é a complexidade que a caracteriza, as- a sociedade.
sim como o contraste entre opiniões e teorias, crian-
do uma zona nebulosa de contradições e discor-
dâncias, com muito poucos pontos consensuais. O exemplo argentino
Entre eles vale destacar para seus defensores a idéia
de economia plural, presente em Laville, Coraggio Tomarei neste item a experiência argentina de
e Singer, que dá espaço para o surgimento de for- recuperação de empresas quebradas como um
mas de produção capazes de se relacionar com o exemplo de resistência à crise do trabalho, vivida
mercado e o Estado a partir de uma lógica dife- de forma extrema pelo país nos três primeiros anos
rente daquela baseada na acumulação capitalista: a do novo milênio, o qual, embora tenha perdido a
lógica da sobrevivência. Se a existência dessas ou- importância social de que desfrutou naquele perío-
tras formas de economia (economia do trabalho do, certamente deixou marcas profundas naquela
para Coraggio; economia distributiva para Laville; sociedade. Um exemplo concreto, portanto, dos
economia socialista para Singer) possuem potencial limites e das possibilidades da economia solidária.
transformador que poderá levar a uma reforma Embora as primeiras empresas recuperadas
social mais substantiva é uma questão que fica em despontem desde o início dos anos de 1990, o
aberto. Até o momento, a experiência concreta des- número de empreendimentos mantém-se mais ou
ses empreendimentos não nos autoriza grandes menos estável até 1999, subindo vertiginosamente
esperanças seja pela subsunção de muitos deles à a partir de 2000 e especialmente em 2001 e 2002
economia capitalista (como é o exemplo de Mon- quando quase 200 empresas recuperadas passam a
dragón), seja pelo enfraquecimento das experiências existir no país. Este incremento corresponde ao
em momentos de ascensão econômica (como é o aprofundamento das dificuldades econômicas des-
exemplo da Argentina), seja ainda pela sua dificul- de o início dos anos de 1990, quando começam a
dade de se expandir de forma a mudar efetiva- tomar lugar as reformas estruturais implementadas
mente a regulação social como esperam as análises pelo governo Menem: abertura comercial, desre-
mais otimistas, como demonstram os vários exem- gulação econômica, privatizações e paridade cam-
plos internacionais, tanto quanto o brasileiro. bial com um peso supervalorizado (Rebón e Saa-
Isso não significa, contudo, que essas experiên- vedra, 2006, p. 14). A agudização das dificuldades
cias sejam carentes de significado, especialmente para deu lugar a um processo recessivo a partir de 1998
os atores nelas envolvidos. Ao contrário, nossa hi- e desembocou em uma profunda crise em 2001
pótese principal, a qual buscaremos desenvolver (quando os credores se negaram a seguir empres-
adiante a partir da análise dos casos concretos, con- tando dinheiro à Argentina), que atingiu o seu auge

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no primeiro trimestre de 2002, momento em que nham um impacto significativo na economia nacio-
ocorreu uma virtual paralisação da atividade eco- nal. Seus efeitos sobre a sociedade, nesse sentido,
nômica. De outubro de 1998 a novembro de 2002 deveram-se mais a seus traços qualitativos do que
a atividade econômica caiu em relação ao mesmo quantitativos.
mês do ano anterior em praticamente todos os Embora a maior parte dos processos de recu-
meses (Magnani, 2003, p. 37). peração tenha sido animada por algum tipo de pro-
É nesse quadro que muitas empresas que ha- moção (movimentos de empresas recuperadas8 ,
viam conseguido sobreviver às dificuldades da dé- funcionários do Estado, sindicatos e partidos polí-
cada de 1990 entram em processo de falência. Ao ticos), o impulso inicial foi, na maioria dos casos, o
mesmo tempo, o mercado de trabalho é atingido medo de ficar sem trabalho, mais do que qualquer
por um assombroso aumento do desemprego, que ideário libertário ou autogestionário (Rebón e Saa-
cresce de 6% em 1991 a 22% em 2002 e a socieda- vedra, 2006; Magnani, 2003; Fajn, 2004).
de passa a viver um profundo processo de empo- Segundo entrevista de Alejandro Lopez, tra-
brecimento, englobando mais da metade da popu- balhador da cooperativa de cerâmicas Zanon, sur-
lação, sendo que em 1974 atingia apenas 5,8% dela gida em março de 2002:
(Rebón e Saavedra, 2006, p. 16).
Nesse contexto o clima de protesto toma con- Tudo o que pensamos é que tínhamos que manter nossos
ta do país com uma intensa disseminação de mani- familiares... Fomos ver o governo, mas não nos deram
nenhuma resposta... Batemos em 20 milhões de portas e
festações de rua, cacerolazos, assembléias de bairro e nos fecharam 20 milhões. A única porta que não estava
piquetes. Os piquetes consistiam em grupos de sin fechada foi a vontade dos trabalhadores quando viemos
nada que ocupavam as ruas reivindicando trabalho trabalhar. Por isso é que sempre destacamos essa decisão,
inclusive foi muito difícil decidir e foi uma questão de
e subsídios de desemprego, construindo empreen-
necessidade. Mas antes disso, não foi uma decisão arbi-
dimentos autogestionários em seus bairros (Idem, p. trária de nossa parte, como dizer um dia: ‘Ocupemos e
22) e criando uma situação favorável para a expan- comecemos a produzir’. Não, foi uma seqüência. Bate-
são das recuperações de empresas a partir de uma mos em portas, não obtivemos respostas, não acontecia
nada... Então, tomamos a iniciativa. Tomamos esta inicia-
sensibilidade social que as legitimou aos olhos de tiva que hoje está sendo tomada por outros companhei-
uma boa parte da sociedade (Idem, ibidem.). Con- ros como os do supermercado Tigre, como Bruckman,9
forme explicita Magnani, como outras cooperativas, e estamos fazendo algo con-
creto, estamos lutando contra o desemprego. É uma al-
[...] em muitas das ocupações que terminaram exitosas, ternativa. É uma alternativa concreta que os trabalhado-
as assembléias de bairro foram importantes tanto do ponto res enfrentamos diante da falta de resposta do governo e
de vista logístico, como moral, já que lhes deram apoios dos patrões (Magnani, 2003, p. 150).
para seguir a luta contra forças muito superiores encarnadas
geralmente em síndicos e juízes (Magnani, 2003, p. 39). Em alguns casos, contudo, esses ideários auto-
gestionários foram se desenvolvendo na luta e no
Esta relação com a comunidade deu-se de for- contato com organizações de apoio que os profes-
ma tão forte em alguns casos que consolidou um savam de maneira mais explícita, como o MNER.
sentimento de solidariedade entre as empresas re- De acordo com Magnani, todavia, as fábricas
cuperadas e a comunidade por meio de práticas recuperadas mantiveram sempre uma preocupação
por parte das empresas que incluíram desde a cria- muito grande com relação à sua autonomia, embora
ção de centros culturais e de saúde até o apoio a as relações dos empreendimentos com o MNER e
movimentos de desempregados7 e de aposentados. o MNFRT sejam de natureza distinta.10
A recuperação recorta vários setores da eco- Conforme assinalam Rebón e Saavedra, desde
nomia, embora se concentre em 2/3 das empresas o primeiro movimento a questão jurídica emergia
no setor industrial e 1/4 delas no ramo metalúrgi- sempre a partir da decisão dos trabalhadores de
co. No que se refere ao tamanho, as empresas mais tomarem a fábrica em processo de quebra. As es-
atingidas foram as de pequeno e médio porte, o tratégias postas em prática para viabilizar a forma-
que faz com que as fábricas recuperadas não te- ção das cooperativas foram no início um jogo de

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A ECONOMIA SOLIDÁRIA E O TRABALHO ASSOCIATIVO 41

tentativa e erro que, pouco a pouco, se caracterizou velam que, uma vez superados os problemas le-
como um aprendizado no interior do movimento gais, as empresas em geral funcionaram bem, con-
consubstanciado nos seguintes passos: tomada da seguindo crescer, ampliar vendas, aumentar a reti-
empresa, formação da cooperativa, negociação com rada dos cooperados, atingir novos mercados e
o dono ou juiz visando à expropriação. A produ- inovar tecnologicamente. Ainda que não tenham tido
ção reiniciava-se o quanto antes. Como explicitam grande impacto no PIB (por seu porte em geral
os autores, “na maioria dos processos de recupe- não muito grande), muitas delas criaram novos
ração, os trabalhadores não questionavam o Esta- postos de trabalho e dinamizaram bairros e pe-
do, mas sim pediam sua proteção e apoio” (Rebón quenos povoados, como a fábrica de tratores Za-
e Saavedra, 2006, p. 56). nello,11 que acabou empregando todos os oficiais
As relações com os distintos níveis de governo mecânicos, soldadores e torneiros da cidadezinha
foram, no entanto, muito diversas. No nível local, a de Las Varillas, reativando o comércio local (Mag-
cidade de Buenos Aires foi a que mais apoiou o nani, 2003, p. 117).
processo, chegando, em novembro de 1994, a pro- Rebón e Saavedra (2006, p. 101), todavia, cha-
mover a expropriação definitiva de empresas que mam a atenção para o fato de que com a retoma-
se encontravam nesta situação temporariamente, da do crescimento do país o movimento entrou
garantindo a transferência da propriedade do imó- em uma fase descendente, anunciando seu fim. Os
vel sob condições creditícias favoráveis. Situações autores apontam para sua institucionalização, con-
favoráveis desenvolveram-se também nas províncias comitantemente a um processo de diminuição de
de Buenos Aires, Rio Negro e Entre Rios, enquanto sua capacidade de mobilização e articulação social:
nas de Rioja, Neuquén e Santa Fé as empresas en-
contraram forte oposição do governo provincial. [...] por uma parte alguns de seus promotores, que ante-
riormente lutavam nas ruas, fizeram da recuperação [de
No âmbito do governo federal, houve uma empresas] seu espaço de ingresso na institucionalidade
posição bastante ambígua até a gestão Kirchner. A política. No outro extremo, muito trabalhadores que já
partir de então, o governo criou o Programa de obtiveram a cobertura legal da empresa, e a mesma já está
Trabalho Autogestionado, na Secretaria de Empre- funcionando relativamente bem, não vêem porque se-
guir lutando por outros. Nesse sentido, pode se esperar
go do Ministério do Trabalho, que passou a pro- que os movimentos tendam a converter-se em pequenas
mover um assessoramento legal e organizativo, além corporações, em associações de defesa de interesses pri-
de facilitação de créditos e apoio técnico e econô- vados, atuando mais como grupos de interesse que cana-
lizam demandas particulares do que como movimentos
mico para a implementação de projetos.
sociais que se articulam com outros grupos na luta por
Para o movimento, contudo, a ação do gover- objetivos mais amplos (Idem, p. 102).
no federal foi muito incipiente: os pedidos de uma
lei de expropriação definitiva não foram atendidos Isto não significa, contudo, que o movimento
e, apesar de alguns gestos positivos, o governo nun- não tenha cumprido um papel extremamente im-
ca chegou a pensar na recuperação como uma po- portante na história da resistência operária argenti-
lítica de Estado (Idem, p. 59). na (e mundial) a uma crise profunda que jogou uma
Os empreendimentos desenvolveram-se, assim, porcentagem extremamente expressiva dos traba-
a partir de suas próprias forças e em uma relação lhadores no desemprego e na miséria. Se o sonho
de oposição, distanciamento ou, na melhor das hi- de construção de um novo país, presente em mui-
póteses, indiferença com empresários, vários níveis tos experimentos (especialmente os vinculados ao
do governo, partidos políticos e sindicalistas. Estes MNER), não se consolidou, a experiência foi im-
últimos não conseguiram desenvolver qualquer li- portante por ter criado um número significativo
nha de apoio às cooperativas, optando no geral de postos de trabalho, nos quais os trabalhadores
simplesmente por ignorá-las como se fossem algo vivenciaram experiências relevantes de trabalho
completamente alheio à sua prática. participativo e democrático, as quais deixaram mar-
No que se refere à viabilidade dos empreendi- cas indeléveis não só em sua subjetividade como
mentos, não obstante, os estudos sobre o tema re- também na cultura operária de uma forma ampla.

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42 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 24 No 69

A economia solidária no Brasil A primeira, a Cáritas Brasileira, entidade liga-


da à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil
As experiências de cooperativismo no Brasil (CNBB), possui desde o início dos anos de 1990
concentraram-se, até os anos de 1980, no meio ru- um conjunto de incubadoras de cooperativas es-
ral.12 Nas cidades, seu surgimento deveu-se a um palhadas pelo país, embora haja uma evidente con-
duplo processo. De um lado, a crise econômica centração das atividades da entidade no Sul, sobre-
que se abre no início da década com seu forte im- tudo no Rio Grande do Sul.
pacto sobre o desemprego será seguida de um pro- Em 1994 nasce a Anteag (Associação Nacio-
cesso de reestruturação produtiva e econômica que nal de Trabalhadores em Empresas de Auto-ges-
especialmente, a partir da década de 1990, terá for- tão e Co-gestão), a partir da iniciativa de um deter-
tes repercussões no mercado de trabalho com um minado setor sindical, com a finalidade de apoiar
significativo processo de desestruturação do mes- experiências já existentes, especialmente em termos
mo, evidenciado em todos os seus indicadores: de assessoria técnica.
diminuição do trabalho industrial, aumento do de- Também as Incubadoras Universitárias mere-
semprego e do tempo em que os trabalhadores cem destaque nesse quadro. A primeira Incubado-
passam a levar para encontrar outras formas de ra Universitária surgiu em 1998, como uma inicia-
colocação no mercado de trabalho, aumento da in- tiva do Centro de Pós-Graduação em Engenharia
formalidade, queda do valor real dos salários etc. (Cope) da UFRJ. Ainda em 1998 foi fundada a
Tal desestruturação será uma conseqüência direta Rede Universitária de Incubadoras Tecnológicas
não só das baixas taxas de crescimento econômico de Cooperativas Populares (ITCP) com o objetivo
(quando não de retração), como também dos pro- de difundir a experiência do Cope pelas universi-
cessos que acompanham a reestruturação empre- dades do país e de vincular as incubadoras de for-
sarial, tal como o enxugamento das empresas e a ma interativa e dinâmica, fomentando a transferência
decorrente terceirização e precarização das condi- de tecnologias e conhecimentos. A Rede rapida-
ções e das relações de trabalho. mente favoreceu a expansão das Incubadoras pe-
É nesse contexto que serão fortalecidas medi- las universidades públicas brasileiras, congregando,
das voltadas à geração de emprego e renda, entre nos dias atuais, 37 incubadoras universitárias.
as quais a economia solidária desponta como uma Por fim, a Central Única dos Trabalhadores
alternativa importante. Vale lembrar também que, (CUT) possui três entidades que, conjuntamente,
à semelhança do que ocorreu na Argentina, a crise fomentam a economia solidária: a Agência de De-
ensejou que os trabalhadores procedessem à recu- senvolvimento Solidário (ADS), a Central de Coo-
peração de empresas que entraram em processo perativas e Empreendimentos Solidários (Unisol) e
falimentar, como forma de garantir seus postos de a Cooperativa Central de Crédito e Economia So-
trabalho. lidária (Ecosol).
De outro lado, a democratização do país nos A ADS foi criada em dezembro de 1999 “a
anos de 1980 fortaleceu, no movimento social bra- partir de um intenso debate no sindicalismo cutista
sileiro, um processo de discussão dirigido à ques- sobre as novas configurações do mercado de tra-
tão da democratização no mundo do trabalho, a balho e da reestruturação produtiva no Brasil e a
partir do qual “trabalhadores de diversos ramos necessidade de constituir novos referenciais de gera-
de atividades iniciam a formação de cooperativas, ção de trabalho e renda e de alternativas de desen-
movimentos sociais passam a fomentar práticas de volvimento, tendo como princípios fundamentais
autogestão, universidades e outras entidades come- a Economia Solidária e o desenvolvimento local
çam a apoiar a criação de empreendimentos soli- sustentável” (ADS, 2004, p. 9). Sua ação está cen-
dários” (Pereira, 2007, p. 18). trada no planejamento e na articulação dos em-
A organização desse movimento apoiou-se em preendimentos solidários, tendo como estratégia
quatro importantes iniciativas, que podem ser con- básica a formação de complexos cooperativos por
sideradas como seus pilares fundamentais. meio da vinculação dos diversos atores e organiza-

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A ECONOMIA SOLIDÁRIA E O TRABALHO ASSOCIATIVO 43

ções econômicas dos territórios em torno de obje- têxteis orgânicos de algodão e respeitando os princí-
tivos e metas comuns (ADS, 2005, p. 14). pios do comércio solidário. A cadeia compõe-se
A ADS entende que a formação de redes de de muitos segmentos: insumos para a agricultura;
cooperação com base na consolidação de parcerias produção agrícola; beneficiamento do algodão;
entre os empreendimentos, as instituições financei- fiação; tecelagem; acabamento (tinturaria e estampa-
ras e outras organizações facilita o fluxo de infor- ria); confecção e distribuição. Começando no Ceará
mações: “os complexos cooperativos possibilitam (cidade de Tauá), onde o algodão é plantado, pas-
maior proximidade entre empreendimentos que, sa por Fortaleza, onde ele é beneficiado, vai para
por sua vez, contribuem para ampliar a produtivi- Nova Odessa e Santo André em São Paulo, onde é
dade e a capacidade de inovação” (Idem, ibidem). feita a fiação e a tecelagem e termina em Santa Cata-
Segundo essa Agência, as maiores dificuldades rina e no Rio Grande do Sul, onde é realizada a
que as experiências de economia solidária enfrentam confecção e o acabamento (ADS, 2002, pp. 43-66).
estão relacionadas com as condições de acesso aos A ADS considera, ainda, como um de seus ob-
mercados. Nesse sentido, questões relativas à comer- jetivos a implementação de uma política de organi-
cialização também adquirem centralidade nos com- zação sindical articulada à economia solidária, tendo
plexos cooperativos. As políticas de comercialização a CUT como condutora do processo. Tal política,
são implementadas por meio da articulação de ato- desenvolvida por intermédio do sindicato dos tra-
res para a criação de sistemas locais de comerciali- balhadores dos empreendimentos autogestionários,
zação, buscando caminhos para reduzir as assime- está voltada para a luta conjunta contra o desem-
trias do mercado e os custos de transação. A partir prego e a favor dos direitos trabalhistas, sociais e
destas práticas – criando novas instituições, ado- previdenciários de todos os trabalhadores.
tando políticas de marketing e fomentando a orga- A Unisol foi fundada em 2000 com a finalidade
nização de espaços públicos e cooperativos para a de atuar na busca da melhoria socioeconômica de
comercialização de produtos e serviços da econo- entidades e empresas coletivas e de garantir a ge-
mia solidária – a ADS tenta ampliar o acesso dos ração de trabalho e renda com dignidade. A enti-
empreendimentos solidários aos mercados (ADS, dade surgiu inicialmente como Unisol-SP, congre-
2002, p. 42). A Agência possui parceria com vários gando doze empreendimentos solidários do estado
ministérios do Governo Federal, entidades nacio- de São Paulo. Em 2004 ela já contava com mais de
nais e internacionais: Ministério do Desenvolvimen- setenta empreendimentos; além disso, a existência
to Agrário (MAD), Ministério da Educação (MEC), de várias cooperativas de outros estados que eram
Ministério do Trabalho e Emprego (MET), Servi- atendidas pela entidade fez com que ela se trans-
ço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Em- formasse em um complexo nacional: Unisol-Bra-
presas (Sebrae), Central Sindical Alemã (DGB), sil. Hoje, de acordo com seu diretor, ela possui 230
Organização Intereclesiástica para a Cooperação e empresas filiadas, entre cooperativas (65%) e asso-
Desenvolvimento (ICCO) e Fundação Rosa Lu- ciações (35%).14
xemburgo Stiftung (RLS). As entidades filiadas pagam uma mensalidade
A ADS vem atuando na formação de vários a esta entidade e em troca recebem assistência téc-
complexos cooperativos. Atualmente, há 27, sen- nica, formação, assessoria em markentig e comercia-
do 13 na área agrícola (congregando 20 cooperati- lização, e, sobretudo, uma representação política. A
vas e 8.124 trabalhadores) e 14 distribuídos entre Unisol também presta serviço de financiamento aos
as áreas de indústria, serviços, pesca, reciclagem, empreendimentos filiados.
comércio e artesanato (reunindo 177 empreendi- O principal projeto da entidade atualmente –
mentos e 8.115 trabalhadores).13 Alguns desses com- Programa de Inclusão e Organização Produtiva dos
plexos abrangem empreendimentos em diversos Empreendedores Cooperados – vem sendo de-
Estados como, por exemplo, o Complexo Coo- senvolvido com o Sebrae em conjunto com 99 em-
perativo Têxtil, que articula atores de diferentes preendimentos. O objetivo do programa é fortale-
partes da cadeia produtiva, visando à produção de cer os empreendimentos, articulando-os entre si por

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44 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 24 No 69

atividade econômica; está dirigido para alguns se- As diferentes visões sobre a economia
tores específicos, como construção civil, apicultu- solidária no Brasil
ra, confecção e têxtil, metalurgia, artesanato e reci-
clagem.15 O programa pressupõe a contratação de Existe já um conjunto bastante amplo de pes-
um técnico para acompanhar cada projeto.16 quisas sobre os empreendimentos solidários no
A Unisol já possui um centro de formação e Brasil. Em sua grande maioria trata-se de estudos
está desenvolvendo uma parceria com Mondragón de caso que vêm apresentando dados preciosos para
e com cooperativas de Quebec para a construção a reflexão teórica. Tendo em vista, contudo, a difi-
de um Centro Tecnológico. culdade de trabalhar com um conjunto muito di-
Por fim, a Ecosol, criada em 2004, em parceria versificado de casos, centrarei a discussão em tor-
com o Sebrae, congrega um conjunto de cooperati- no de alguns textos que fazem balanços mais gerais
vas de crédito que operam segundo os princípios da de resultados de pesquisa, tais como os de Gaiger,
economia solidária. Seu objetivo é promover a soli- (2000, 2004); Pinto (2006); Lima (2002, 2007); Viei-
dariedade financeira entre associados, utilizando tez e Dal Ri (2001); Singer (2000a, 2000b, 2006).
recursos poupados pelos cooperados que resultam Alguns outros estudos serão lembrados também
na geração de renda para empréstimos aos demais na análise de pontos específicos.
membros. A Ecosol propõe-se a viabilizar a inclusão Um primeiro aspecto a ser destacado é a di-
da população de baixa renda no sistema financeiro versidade do universo do cooperativismo no país,
por meio desses recursos, com o intuito de impul- que vai desde as “falsas” cooperativas, formadas
sionar o desenvolvimento das regiões em que atua. pelas próprias empresas como forma de rebaixa-
Com o governo Lula, a economia solidária mento de custos, até empreendimentos verdadei-
ganha estatuto de política pública federal, ingres- ramente autogestionários, formados pelos próprios
sando no Ministério do Trabalho e Emprego por trabalhadores ou, mais comumente, sob a iniciativa
meio da Secretaria Nacional de Economia Solidá- de alguma entidade de fomento, que buscam se
ria (Senaes), criada por lei em maio de 2003. Para- manter fiéis aos princípios cooperativistas. Diver-
lelamente, é criado o Fórum Brasileiro de Econo- sos autores chamam a atenção para o fato de que o
mia Solidária (FBES), com a finalidade de articular quadro é bastante complexo e que a oposição en-
as experiências de economia solidária no território tre falsas e verdadeiras cooperativas não dá conta
nacional e representá-las junto aos governos e fó- da realidade (Lima, 2007; Pinto, 2006), tendo em
runs internacionais17 (Barbosa, 2007). O FBES tra- vista que muitas delas nascem com o ideal autoges-
balha diretamente com a Senaes e desdobra-se em tionário, mas vão perdendo sua independência na
fóruns estaduais, buscando fornecer capilaridade ao medida em que começam a se vincular a redes em-
movimento organizado de economia solidária. Em presariais para poder sobreviver, abrindo um am-
vários estados já foram também criados fóruns plo espectro de distintos níveis de dependência.
municipais e microrregionais, reunindo um conjunto Para complexificar um pouco mais a questão,
de municípios (Singer, 2006, p. 202). vale lembrar o estudo de Guimarães et al. (2006, p.
Esse conjunto de organizações aponta, no caso 318), que considera a possibilidade de uma evolu-
do brasileiro, para um quadro mais amplo e mais ção das experiências no sentido inverso, ou seja, de
diverso de experiências autogestionárias se compa- um desenvolvimento dos empreendimentos que
rarmos à Argentina, no qual as empresas incubadas caminharia no sentido da concretização da auto-
ocupam um importante papel. Por outro lado, ele gestão ao longo do tempo. Essa pesquisa (realiza-
representa, em parte, as diferentes visões que exis- da com 25 cooperativas em Santa Catarina) evi-
tem no país sobre a economia solidária. Visões, no dencia que a autogestão deve ser analisada como
entanto, que envolvem um espectro muito mais uma categoria dinâmica, “num crescendo ou conti-
extenso, contemplando também concepções teóri- nuum, partindo de formas embrionárias, até atingir
cas críticas às experiências autogestionárias, tal como experiências concretas de autogestão no contexto
ocorre na discussão internacional. organizacional, onde não somente os meios de pro-

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A ECONOMIA SOLIDÁRIA E O TRABALHO ASSOCIATIVO 45

dução e o controle acionário da empresa passam verifica uma transformação mais evidente nas rela-
para os trabalhadores, mas também o controle da ções de trabalho” (Idem, ibidem). Consoante os au-
gestão, inserindo-se aí o controle sobre o processo tores, o fato de terem tido origem em um esforço
de trabalho” (Idem, ibidem). coletivo em torno de uma causa comum, de con-
Em segundo lugar, há uma certa unanimidade teúdo transformador e emancipatório reveste-os
nos estudos em ressaltar as dificuldades que os em- de um cunho ideológico não encontrado nas de-
preendimentos enfrentam. Essa visão perpassa toda mais experiências.
a bibliografia, abarcando desde os mais céticos até Nesse quadro, outros estudos também desta-
os mais entusiastas das potencialidades do coope- cam alguns aspectos positivos das experiências de
rativismo. A defasagem tecnológica, a falta de re- economia solidária, no sentido de facilitar a sua via-
cursos, a baixa escolaridade dos associados, o uso bilização. Além dos já levantados por Guimarães et
de mão-de-obra intensiva, a fragmentação do tra- al., cabe ressaltar o destaque de Gaiger a essa ques-
balho, as longas jornadas que exaurem os trabalha- tão, ao sublinhar a facilidade de transferência de
dores, as diferenciações na distribuição das retira- saberes, menor rotatividade, maior estabilidade,
das, o pouco compromisso dos trabalhadores com maior comunicação entre os trabalhadores, maior
o ideal autogestionário são alguns dos aspectos as- facilidade para identificar problemas no processo
sinalados (cf. Vieitez e Dal Ri, 2001; Lima, 2007; de trabalho, maior envolvimento na busca de solu-
Singer, 2000a; Guimarães et al., 2006; Pinto, 2006). ções, entre outros aspectos (Gaiger, 2000, p. 184).
Aprofundando a discussão, Guimarães et al. Esse conjunto de elementos positivos poderia, em
apontam, na pesquisa citada, diferenças importan- certas circunstâncias, estabelecer o que o autor cha-
tes entre as cooperativas originárias de falência de ma de círculo virtuoso do trabalho cooperativo,
empresas, as formadas por programas de fomen- em que “há um estímulo material, que redunda
to de ONGs ou órgãos governamentais e as oriun- numa série de atitudes positivas que acabam resul-
das de iniciativas do movimento social. Segundo tando numa diminuição de conflitos laborais, o que,
os autores, as dificuldades das primeiras são bas- por sua vez, fortalece moralmente os trabalhado-
tante evidentes, tendo em vista o choque cultural res” (Idem, p. 185).
que vivem os trabalhadores com a brusca transfor- Outra questão bastante discutida na literatura
mação das relações de trabalho: diz respeito ao papel das políticas públicas, enten-
didas cada vez mais como um elemento central para
Habituados com uma estrutura rígida e autoritária, a o bom desempenho dos empreendimentos.
passagem para uma administração autogestionária no França Filho (2006) apresenta uma reflexão bas-
mesmo ambiente de trabalho acarreta muitas dificulda-
des para a participação plena na tomada de decisão, auto-
tante estruturada sobre o tema, a qual ressalta o
nomia e controle do processo de trabalho (Guimarães et caráter recente das políticas. De fato, o autor con-
al., 2006, pp. 308-309). sidera que a atual política pública brasileira de eco-
nomia solidária encontra-se em processo de cons-
Nas organizações formadas por ONGs e ór- trução, cujas metodologias ainda estão em fase de
gãos governamentais, Guimarães et al. destacam as experimentação (Idem, p. 260), apresentando uma
relações de dependência dos empreendimentos para significativa heterogeneidade. Esta expressa, para o
com os órgãos de fomento, especialmente no que autor, os diferentes níveis de organização do pró-
se refere à gestão, interferindo, algumas vezes, até prio movimento de economia solidária nos diver-
mesmo nos processos de tomada de decisão de sos contextos locais e regionais. Apesar dessa hete-
forma democrática (Idem, ibidem). rogeneidade, França Filho sublinha uma importante
Já os empreendimentos originados de iniciati- mudança na visão estratégica da política pública,
vas dos movimentos sociais teriam sido os que re- ao substituir a preocupação com a simples reprodu-
velaram características mais evidentes de autoges- ção das condições de vida por “uma possibilidade
tão, “com participação efetiva dos trabalhadores de reprodução ampliada do modo de vida, o que
em todos os níveis decisórios [...] e nos quais se permite transformações institucionais efetivas nas

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condições mais gerais de existência das pessoas num exercida pelo poder público passa a ser uma política dos
território” (Idem, p. 266). Segundo ele, sujeitos sociais e, desta forma, desaparece o problema da
descontinuidade, decorrente da mudança de orientação
pública dos gestores municipais, provocada pelas elei-
[...] esta é também a visão estratégica da passagem de um ções (Idem, ibidem).
estado de subsistência das iniciativas empreendidas para
um estado de sustentabilidade, refletindo o salto estraté-
gico necessário que induzem tais políticas de uma condi- Observa-se, portanto, que não só a discussão
ção de economia popular apenas, para uma condição de sobre as políticas públicas, mas também as próprias
economia popular e solidária (Idem, ibidem). propostas de política voltadas para a economia
solidária vêm avançando significativamente no país,
Nesse salto estratégico a política pública deslo- preocupando-se com sua continuidade, com o for-
caria sua ênfase das noções de assistência e com- talecimento do tecido social da sociedade civil orga-
pensação para a de emancipação, passando a cons- nizada, entendido como suporte das ações políticas
tituir-se como uma política de “organização da (Girard, 2006, p. 287), e com as formas de monito-
sociedade”, cujos resultados remetem ao médio e ração das mesmas que passam a se dirigir aos avan-
longo prazos. ços qualitativos, como o da organização política,
Também Gaiger sublinha a mudança de foco das relações sociais, das atitudes individuais etc.
das políticas públicas nos últimos anos, passando (França Filho, 2006, p. 266).
da promoção de empreendimentos com um cará- Esses progressos da política pública se con-
ter emergencial ou paliativo, no sentido de prover substanciaram no Ciclo de Debates sobre Desen-
condições mínimas de sobrevivência, para a cons- volvimento Econômico Sustentável e Economia
trução de alternativas duradouras e generalizáveis, Solidária, realizado pela Rede de Gestores durante
focadas na busca de novos formatos de geração e o ano de 2004, objetivando contribuir para “a ela-
apropriação de tecnologias que visam à auto-sus- boração de uma política pública de economia so-
tentação dos empreendimentos (Gaiger, 2000, pp. lidária que seja estruturada federativamente e que
176-177). Nesse sentido, as políticas públicas de- seja capaz de atuar no combate efetivo às causas
sempenham um papel de enorme importância na estruturais da pobreza e promover a inclusão e o
viabilização das experiências solidárias. desenvolvimento social” (Schwengber, 2006, p.
Outro estudo importante sobre políticas públi- 293). Um dos avanços importantes da contribui-
cas de economia solidária é o de Alves (2006), vol- ção do Ciclo de Debates está em compreender o
tado para os municípios de Santo André, Diadema fomento à economia solidária como uma política
e São Bernardo no ABC paulista e o de São Carlos. de desenvolvimento, que não deve ser relegada às
O autor destaca a política de Santo André, que pro- políticas de corte assistencial; outra contribuição que
põe uma nova forma de atuação do poder muni- merece destaque é a de que como política de de-
cipal ao considerar que o município deve ter um senvolvimento, voltada para um público tradi-
cionalmente excluído socialmente, ela demanda
[...] papel de estimulador de projetos e ações demandadas
ações transversais que articulem instrumentos das
e concebidas pelos sujeitos sociais e para isto é necessário
que ele deixe de ser o autor e executor de projetos e várias áreas do governo, como educação, saúde,
ações. Para isto, é necessário que haja envolvimento maior trabalho, habitação, desenvolvimento econômico,
dos atores sociais, objetos das ações na concepção da tecnologia, crédito e financiamento, entre outras
política, deixando de ser objetos das ações para se torna-
(Idem, p. 294).
rem sujeitos sociais (Idem, p. 275).
Apesar desses efetivos avanços, não se deve
Para Alves, essa mudança na orientação da po- perder de vista o alerta de França Filho sobre a
lítica pública é exemplar e deveria servir de mode- fragilidade do marco institucional sob o qual as
lo a outros municípios na medida em que, políticas públicas ainda repousam, o que o deixa
“em alguns casos muito dependente das caracterís-
[...] somente quando a concepção da política é realizada ticas e sensibilidade do gestor público responsável
pelos próprios sujeitos, a política de economia solidária pela política” (França Filho, 2006, p. 267).

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A ECONOMIA SOLIDÁRIA E O TRABALHO ASSOCIATIVO 47

Por fim, uma discussão central, e é nesse ponto Vieitez e Dal Ri, chegaram a resultados menos al-
que encontramos mais discordância entre os estudos, vissareiros. Embora tenham encontrado um grupo
refere-se ao potencial das cooperativas como uma de empresas que apresentam mais características de
forma alternativa de organização que aponta para autogestão (as originadas nos movimentos sociais,
uma possibilidade de inserção ocupacional demo- conforme explicitamos anteriormente), Guimarães
crática. As divergências quanto a esse tema apresen- et al. acreditam que não se pode utilizar a expressão
tam-se já nas diferentes maneiras a partir das quais organizações autogestionárias, mas apenas organi-
os estudos abordam a realidade das cooperativas. zações com características autogestionárias, “consi-
Enquanto alguns se debruçam principalmente sobre derando-se a impossibilidade de experiências au-
as cooperativas de empresas (Lima, 2002, 2007),18 togeridas plenas no modo de produção capitalista”
que em alguns casos chegam a ser induzidas pelo (Guimarães et al., 2006, p. 318).
próprio governo estadual, como no caso do Ceará, No mesmo sentido vão as conclusões de Viei-
na área de calçados e confecções, outros dirigem o tez e Dal Ri, baseadas em pesquisa realizada em
olhar às experiências mais bem-sucedidas (Gaiger, dezenove empresas autogestionárias, localizadas em
2000, p. 172), a partir da compreensão de que não vários estados do país e ligadas à Anteag. Os auto-
se deve discutir as potencialidades do fenômeno ana- res também constataram nessas empresas contradi-
lisando o seu lado fraudulento, ou o lado que fracas- ções relacionadas tanto com o não desenvolvimento
sa. Sob essa perspectiva, Gaiger sustenta que a no- da gestão coletiva de forma plena e democrática,
ção de eficácia para a economia solidária não pode como com incompatibilidades entre as virtualida-
ser a mesma utilizada para pensar a trajetória de des democráticas e socialistas da comunidade de
uma empresa capitalista, já que os objetivos são trabalho e o seu caráter atual de produção inde-
diversos. Nesse sentido, o autor retoma o conceito pendente de mercadorias (Vieitez e Dal Ri, 2001, p.
de reprodução ampliada da vida, formulado por 145). Eles advertem, ainda, para a possibilidade de
Coraggio (2000), para pensar o desempenho dos evolução regressiva dos empreendimentos no sen-
empreendimentos solidários. A questão central que tido de se reconverterem ao estatuto capitalista ou
lhe interessa é saber como esses empreendimentos de manterem uma gestão de quadros tecnocrata
provêm a reprodução ampliada da vida e não ape- ou conservadora (Idem, p. 146).
nas a acumulação de capital (Gaiger, 2000, p. 181). Também João Roberto Pinto, em pesquisa rea-
Em texto mais recente, baseado em uma pes- lizada em treze empreendimentos acompanhados
quisa de caráter nacional realizada em nove estados pelo escritório da Anteag no Rio Grande do Sul
do país, o autor ressalta que a economia solidária (escolhidos como uma amostra representativa dos
deve ser pensada como uma experiência de eman- 100, que constituem o universo dos empreendimen-
cipação do trabalho desumanizado e desprovido tos ligados à entidade no estado) chama a aten-
de sentido, na restituição do trabalhador à condi- ção para o caráter incipiente dos mesmos, assim
ção de sujeito de sua existência. Gaiger é cuidado- como para o fato de que, por estarem voltados à
so, contudo, ao apontar não só que os empreendi- recuperação ou à manutenção dos postos de tra-
mentos enfrentam dificuldades que, muitas vezes, balho, os trabalhadores mostravam-se pouco pre-
os inviabilizam, mas também que não há receitas ocupados com a troca de conhecimento e expe-
que possam ser aplicadas a todas as experiências, riência, ou com o estabelecimento de intercâmbios
tendo em vista que o conjunto de empreendimen- mercantis (Pinto, 2006, pp. 176-177).
tos existentes é muito variado do ponto de vista de Uma última questão refere-se ao significado das
seus atores, suas escolhas organizativas, suas razões experiências para os próprios trabalhadores nelas
de ser, suas formas de inserção na economia e suas envolvidos. Os estudos que se referem ao tema
possibilidades de influência no entorno em que se apontam para conclusões que corroboram nossa
localizam (Gaiger, 2004). hipótese de que essas experiências sugerem novas
Há que considerar, ainda, que outras pesquisas formas de sociabilidade para a recuperação da iden-
abrangentes, como as de Guimarães et al. e as de tidade e da dignidade dos trabalhadores.

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João Roberto, por exemplo, apresenta achados nados com a economia solidária, voltando-se tan-
nesse sentido ao explicitar que para 63% dos trabalha- to para o debate teórico sobre seus limites e poten-
dores (num total de 367 abordados pela pesquisa) cialidades, como para políticas públicas dirigidas à
“o comportamento pessoal se alterou depois que sua promoção, no caso brasileiro. As conclusões
passou a trabalhar no empreendimento associado. desse debate apontam para uma realidade complexa
Destes, 19% ‘está mais tranqüilo e bem-humorado’, e heterogênea, que inclui experiências extremamente
18% ‘ficou mais responsável’ e 16% ‘se tornou mais diversificadas de formas de assalariamento disfarça-
cooperativo e solidário’”. O autor ressalta a valori- do até exemplos bastante interessantes de complexos
zação dos ganhos relativos ao próprio engajamen- cooperativos que envolvem conjuntos expressivos
to associativo, citando a frase de um entrevistado: de cooperativas e de trabalhadores e que indicam
“porque resgatamos nossa dignidade” (Idem, p. 171). experiências sociais muito significativas.
A pesquisa de Pereira (2007), levada a cabo em Os estudos aqui discutidos e comentados leva-
duas cooperativas da ITCP da Unicamp, apresenta ram à hipótese de pesquisa que consiste em enten-
exatamente as mesmas conclusões. Embora alguns der os empreendimentos cooperativos vinculados
entrevistados tenham dito que abandonariam a co- à economia solidária como alternativas de inserção
operativa se tivessem oportunidade de assumir um social que, embora não tenham a potencialidade de
trabalho no mercado formal, grande parte subli- transformação social apontada por aqueles que as
nha a satisfação com as relações pessoais no interior consideram germes de uma nova sociedade, po-
do empreendimento, associadas a relações familia- dem vir a ser experiências importantes de resistên-
res, de ajuda, de cooperação, de solidariedade, em cia ao desemprego, apontando para novas formas
contraste com as experiências vividas anteriormen- de sociabilidade – espaços abertos para a constitui-
te em empresas privadas. A autora destaca esses ção de uma identidade coletiva dos trabalhadores
aspectos, sublinhando a perspectiva de “libertação” e para a recuperação de sua dignidade.
vivida por algumas mulheres em relação ao traba- Ainda que esse tipo de inserção social não pos-
lho anterior como empregadas domésticas ou à si- sa ser considerado uma tendência de longo prazo,
tuação de donas de casa. (Pereira, 2007, p. 85). como testemunha a experiência argentina, ele pode
Também Singer refere-se a esse sentimento, ao se configurar como uma reação dos trabalhadores
afirmar que em suas conversas com os coopera- ao desemprego aberto pela nova realidade do
dos, eles dizem geralmente não pretender voltar ao mercado de trabalho. Trata-se, nesse sentido, de uma
trabalho assalariado porque “já não agüentam mais experiência de mobilização e organização dos tra-
trabalhar para patrão” (Singer, 2000b, p. 28). balhadores que, baseando-se em princípios demo-
É importante considerar, entretanto, que esse cráticos, pode ser capaz, em alguns casos, de deixar
fato não representa uma unanimidade entre as pes- marcas significativas não só na vida daqueles que a
quisas. Em seus estudos sobre cooperativas que tra- experimentam concretamente, como também na
balham como terceirizadas de outras empresas no sociedade em seu conjunto.
Ceará e no Rio Grande do Sul, Lima afirma que,
embora o trabalho cooperativado seja valorizado Notas
“por permitir um cotidiano de trabalho mais tran-
qüilo e, enquanto estável, não percebido como pre- 1 Vários são os estudos sobre a atual crise do trabalho.
cário” (Lima, 2007, p. 151), o “ideal do trabalho Como não é este exatamente o objetivo deste texto,
assalariado não foi substituído pela possível superio- remeto o leitor a algumas análises já consagradas so-
ridade do trabalho autogestionário” (Idem, ibidem). bre o tema, como Castel (1998) e Hirata e Preteceille
(2002), entre outros.
Considerações Finais 2 A expressão Economia Solidária foi criada na França,
no início de 1990, “fruto, sobretudo, das pesquisas
A discussão bibliográfica apresentada aqui se desenvolvidas em Paris no Crida (Centre de Recher-
debruçou sobre um conjunto de aspectos relacio- che et d’Information sur la Democratie et l’Auto-

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A ECONOMIA SOLIDÁRIA E O TRABALHO ASSOCIATIVO 49

nomie), sob a coordenação de Jean Louis Laville, vi- inserção de muitos deles na empresa quando de sua
sando a exatamente dar conta da emergência e do consolidação e crescimento (Magnani, 2003).
desenvolvimento do fenômeno da proliferação de 8 Em 2001 surge o MNER (Movimiento Nacional de
iniciativas e práticas socioeconômicas diversas, as cha- Fábricas Recuperadas) e, em 2003, o MNFRT (Movi-
madas iniciativas locais na Europa” (França Filho e miento Nacional de Fábricas Recuperadas por los Tra-
Laville, 2004, p. 109). bajadores), como uma cisão do MNER. A partir de
3 Rosa Luxemburgo sustentou uma acirrada polêmica 2005 o MNER entra em uma grave crise.
com Bernstein sobre o tema; enquanto o último foi 9 Trata-se de uma fábrica de confecção recuperada.
um defensor das experiências cooperativistas como
10 O estudo de Magnani aponta para uma relação de
um caminho para o socialismo, a primeira alertava
poder mais concreta das empresas recuperadas com o
para o duplo perigo que elas enfrentavam: ou se tor-
MNFRT do que com o MNER. Tendo em vista,
navam exitosas e entravam na lógica do capitalismo,
entretanto, o caráter menos ideológico do primeiro
ou mantinham seus ideais de solidariedade e auto-
movimento, sua interferência se exerce mais no sen-
gestão e acabavam sucumbindo à concorrência capita-
tido de encarregar-se dos problemas legais das em-
lista. O mesmo argumento foi defendido pelo casal
presas. De todo modo, ele pode significar um risco
Webb, dando origem à tese da degenerescência das
para os empreendimentos, na medida em que pode
cooperativas. Já Marx manteve uma posição ambí-
levar os trabalhadores por caminhos não desejados
gua com relação ao tema, destacando ao mesmo tem-
por eles mesmos (Magnani, 2003, p. 56).
po a importância das cooperativas como possibilida-
de de um novo modo de produção e os riscos de elas 11 Esta cooperativa possuía um capital misto que con-
se transformarem em instrumento de auto-explora- templava, além do seu próprio, capitais privados e do
ção operária. Estado.
4 Polanyi identifica quatro princípios de comportamen- 12 Isso não significa, entretanto, que não tenha existido
to econômico que operam em nossas sociedades até então nenhuma experiência importante de coo-
como fatores de organização da produção e distribui- perativismo no meio urbano. Rizek e Pereira lem-
ção da riqueza: (i)os princípios do mercado, que per- bram, por exemplo, que a própria cidade de Osasco
mitem o encontro entre oferta e demanda de bens e teve sua origem ligada a um grupo de operários anar-
serviços com fim de troca por meio da fixação de quistas que, depois de demitidos da vidraçaria Santa
preços; (ii) os da redistribuição, a partir dos quais a Marina devido à participação em um movimento gre-
produção é remetida a uma autoridade central (o Es- vista, tentaram criar uma empresa na região que veio
tado) que tem a responsabilidade de reparti-la; (iii) os a se constituir como a cidade de Osasco. O bairro
da reciprocidade, que correspondem à relação estabe- Rochdale provavelmente teve esse nome como he-
lecida entre os grupos ou pessoas a partir de doações rança deste movimento (Rizek, 1988; Pereira, 2007,
ou préstimos mútuos, cujo sentido está na vontade pp. 17-18).
de manifestar um liame social entre as partes envolvi- 13 Dados disponíveis no site http://www.ads.org.br/
das; e (iv) os da domesticidade, a partir dos quais as downloads.asp, consultado em 20/5/2008.
pessoas produzem para o seu próprio uso, proven- 14 Segundo entrevista realizada com o diretor da Uni-
do as necessidades dos membros do grupo (Pinto, sol, as associações são grupos de trabalhadores que
2006, p. 46; França Filho e Laville, 2004, pp. 32-33). ainda não conseguem se organizar como cooperativa.
As atividades comandadas pelos princípios da do- Mas, de acordo com a legislação, a associação não está
mesticidade e da reciprocidade constituiriam a econo- voltada para fins comerciais ou produtivos, como as
mia não monetária, enquanto as de mercado e redis- cooperativas, mas à promoção, à educação e à assistên-
tributivas fariam parte da economia monetária (Pinto, cia social. A atividade comercial só pode ser realizada
2006, p. 46). para a implementação de seus objetivos sociais. Os
5 “As que não conseguem, desaparecem de cena”, assi- associados não podem ser remunerados, salvo se esti-
nala Quijano (2002, p. 493). verem envolvidos com atividades necessárias ao cum-
6 Os/as intocáveis constituem a classe mais oprimida e primento da função associativa, caso em que devem
socialmente desprezada da sociedade indiana. ser contratados como empregados da associação.
7 Houve casos, por exemplo, em que o apoio dos de- 15 A reciclagem é o setor mais presente entre as empre-
sempregados à recuperação da empresa implicou na sas filiadas à Unisol.

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50 REVISTA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS SOCIAIS - VOL. 24 No 69

16 A Unisol possui atualmente vinte técnicos contrata- CORAGGIO, José Luís. (2000), “Da economia dos
dos para o acompanhamento de projetos. setores populares à economia do trabalho”, in
17 De acordo com o Atlas da economia solidária reali- Gabriel Kraychete, Francisco Lara e Beatriz
zado pela Senaes, ela contempla um conjunto de quase Costa (orgs.), Economia dos setores populares: entre
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RESUMOS / ABSTRACTS / RESUMÉS 201

A ECONOMIA SOLIDÁRIA SOCIAL ECONOMICS AND L’ÉCONOMIE SOLIDAIRE ET LE


E O TRABALHO ASSOCIATIVO: COLLECTIVE WORK: TRAVAIL ASSOCIATIF :
TEORIAS E REALIDADES THEORIES AND REALITIES THÉORIES ET RÉALITÉS

Marcia de Paula Leite Marcia de Paula Leite Marcia de Paula Leite

Palavras-chave: Economia solidária; Keywords: Social economics; Income Mots-clés: Économie solidaire; Géné-
Geração de emprego e renda; Cooperati- and employment generation; Coopera- ration d’emploi et de rente; Coopératives;
vas; Autogestão; Mercado de trabalho. tives; Self-management; Labor market. Autogestion; Marché de travail.

Este texto consiste em um balanço sobre This text is a balance of current studies Ce texte est un bilan des études liées à
estudos relacionados com a economia so- on Social Economy, with three goals in l’économie solidaire. Il a été conçu à par-
lidária a partir de três objetivos. Em pri- mind: Firstly, it seeks to set out a profile tir de trois objectifs. Le premier consiste
meiro lugar, busca delimitar a discussão of theoretical discussions, examining à délimiter la discussion théorique sur le
teórica sobre o tema, abarcando tanto os those authors who consider Social Econo- thème, en y incluant aussi bien ceux qui
que a entendem como o prenúncio de my a process of social transformation or la comprennent comme l’annonce d’un
um processo de transformação social, those who emphasize the ephemeral char- processus de transformation sociale, ainsi
como aqueles que têm uma visão mais acter of economic units inside this sec- que ceux qui ont une approche plus criti-
crítica do fenômeno, enfatizando seu ca- tor; secondly, it analyses the Argentinean que du phénomène, en mettant l’accent
ráter efêmero. Em segundo lugar, a auto- experience, one of the most important sur son caractère éphémère. L’auteur se
ra debruça-se sobre o exemplo argentino, social phenomenon in the first years of penche ensuite sur l’exemple argentin,
uma das experiências mais interessantes the current decade; finally, based on some une des expériences les plus intéressantes
de difusão do cooperativismo como fe- balances on the national level, it looks at de diffusion du coopératisme en tant que
nômeno social expressivo nos primeiros the Brazilian experience. The final con- phénomène social expressif des premiè-
anos da presente década. Por fim, pro- siderations underline the complexity of res années de la décennie actuelle. Fina-
põe-se uma análise da experiência brasi- the Social economy phenomenon, criti- lement, une analyse de l’expérience
leira com base em alguns balanços nacio- cizing dualistic analyses, which empha- brésilienne est proposée, sur la base de
nais. As considerações finais sublinham a size either its potentialities or its limits. quelques bilans nationaux. Les considéra-
complexidade do fenômeno e a impro- tions finales mettent l’accent sur la
priedade de se pensar em termos dualis- complexité du phénomène et l’impro-
tas, seja no sentido de suas potencialida- priété de penser en termes dualistes, soit
des, seja no de seus limites. dans le sens de ses potentialités, soit de
ses limites.

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