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UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS SOCIAIS


PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM SOCIOLOGIA E ANTROPOLOGIA

MARCIO ANDRÉ ARAUJO DE OLIVEIRA

TRABALHO E NEGÓCIO EM VIAS PÚBLICAS: a experiência de Manaus (AM) no limite


da informalidade

RIO DE JANEIRO
2017
Marcio André Araujo De Oliveira

TRABALHO E NEGÓCIO EM VIAS PÚBLICAS: a experiência de Manaus (AM) no limite


da informalidade

Tese de doutorado submetida ao Programa de Pós-


Graduação em Sociologia e Antropologia do
Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da
Universidade Federal do Rio de Janeiro, como
parte dos requisitos necessários à obtenção do
título de Doutor em Ciências Humanas
(Sociologia).

Orientador: Prof. Dr. José Ricardo Ramalho

Rio de Janeiro
2017
Marcio André Araujo de Oliveira

TRABALHO E NEGÓCIO EM VIAS PÚBLICAS: a experiência de Manaus (AM) no limite


da informalidade

Orientador: Prof. Dr. José Ricardo Ramalho

Tese de doutorado submetida ao Programa de Pós-


Graduação em Sociologia e Antropologia do
Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da
Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte
dos requisitos necessários à obtenção do título de
Doutor em Ciências Humanas (Sociologia).

Aprovada por:
_____________________________________________
Presidente, Orientador Prof. Dr. José Ricardo Ramalho (UFRJ)
_____________________________________________
Profa. Dra. Maria Izabel de Medeiros Valle (UFAM)
_____________________________________________
Profa. Dra. Marina de Carvalho Cordeiro (UFRRJ)
_____________________________________________
Prof. Dr. Fernando Rabossi (UFRJ)
_____________________________________________
Prof. Dr. Rodrigo Salles Pereira dos Santos (UFRJ)

Suplentes:
_____________________________________________
Prof. Dr. Raphael Jonathas da Costa Lima (UFF)
_____________________________________________
Prof. Dra. Maria Raquel Passos Lima (UFRJ)
RESUMO

OLIVEIRA, Marcio André Araujo de. Trabalho e Negócio em Vias Públicas: a experiência
de Manaus (AM) no limite na informalidade. Rio de Janeiro, 2017. Tese (Doutorado em
Sociologia e Antropologia) - Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2017.

Abordagens teóricas que tratam da noção de informalidade, a partir de uma explicação


funcional-estrutural, tendem a destacar em contextos urbanos o seu caráter desregulado e
ilegal da economia e do trabalho. Contudo, a face mais exposta é aquela que ocorre no limite
do trabalho e do negócio na via pública, e como fenômeno social costuma aparecer por meio
das ações e das interações cotidianas entre os agentes em “ação situada”. Em vista disso, o
objetivo desta pesquisa de doutorado é problematizar o processo de transferência e de
adaptação de “camelôs”, das ruas da zona central de Manaus (AM, Brasil), em 2014, para um
Centro Popular de Compras (CPC), buscando compreender a interdependência entre a ação
governamental e os agentes estratégicos, pelas interações e efeitos relacionais durante o
processo. A categoria analítica “ação situada” foi utilizada conforme a sociologia pragmatista
francesa de Louis Quéré (1997), Albert Ogien (1999) e Michel de Fornel (1999), entendida
como dimensão qualitativa e relacional entre a experiência, a organização social e o ambiente.
O desafio da pesquisa consiste em discutir os mecanismos de controle, de resistência
cotidiana e de conexões entre elementos sociais que apareciam distintos e desconectados no
cenário montado pela política público municipal. Por fim, pretendeu-se demonstrar que a
perspectiva pragmática do trabalho e do negócio na via pública e fora dela possibilita uma
proposta de compreensão oposta à explicação convencional centrada no setor informal.

Palavras-chave: Organização Social da Experiência. Interação Social. Sociologia Pragmatista


Francesa. Ação Governamental. Comércio de Varejo.
ABSTRACT

OLIVEIRA, Marcio André Araujo de. Trabalho e Negócio em Vias Públicas: a experiência
de Manaus (AM) no limite na informalidade. Rio de Janeiro, 2017. Tese (Doutorado em
Sociologia e Antropologia) - Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, da Universidade
Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2017.

Theoretical approaches that deal with the notion of informality, from a functional-
structural explanation, tend to highlight in urban contexts its unregulated and illegal character
of economics and labor. However, the most striking feature is that one which occurs at the
boundary of work and business on the public road, and as a social phenomenon it usually
appears through the actions and the everyday interactions among the agents in “action
situated”. In view of this, the objective of this doctoral research is to discuss the process of
transfer and adaptation of “street vendors”, from the Central zone of Manaus (AM, Brazil), in
2014, to a Popular Shopping Center (PSC), seeking to understand the interdependence
between the government action and the strategic agents, by the interactions and relational
effects during the process. The analytical category “action situated” was used according to
the French pragmatist sociology of Louis Quéré (1997), Albert Ogien (1999), and Michel de
Fornel (1999), perceived as a qualitative and relational dimension between experience, social
organization and the environment. The challenge of this research consists of discussing about
the control mechanisms, the everyday forms of resistance, and the connections between social
elements that appeared distinct and disconnected in the stage set up by the municipal public
policies. Finally, it was intended to demonstrate that the pragmatic perspective of the work
and business inside or outside the public road enables a proposal of understanding opposed to
the conventional explanation focused on the informal sector.

Keywords: Social Organization of Experience. Social Interation. French Pragmatic


Sociology. Government Action. Retail Trade.
Para
Nádia Kelly, esposa e incentivadora. Grande parte desse
tempo de trabalho lhe é devido.
AGRADECIMENTOS

Ao longo do processo de construção da pesquisa, encontrei pessoas e instituições pelas


quais sou imensamente grato por terem me acolhido e compartilhado comigo seu tempo e sua
confiança. De fato, tantos foram esses encontros e em contextos diferentes que não
conseguiria agradecer respectivamente a todos da maneira devida. Sendo assim, nesse
momento de expressar minha gratidão nominalmente às pessoas e instituições, desejo que esta
alcance o conjunto de todos aqueles que contribuíram de um modo ou outro neste processo.
Agradeço ao meu orientador, Professor Dr. José Ricardo Ramalho, por me receber no
PPGSA, pela sensibilidade humana, pela oportunidade oferecida e pelo conhecimento
compartilhado. Como pesquisador de rigor acadêmico, apresentou-me a forma da pesquisa
profissional, a ousadia no tratamento do tema e uma grande generosidade e atenção no
caminho percorrido por este orientando. Pela confiança e liberdade que me foram concedidas
para modificar o tema e a perspectiva da investigação. Uma gratidão enorme pela experiência.
À Profa. Dra. Izabel Valle, pelo prazer de reencontrá-la em um importante momento
acadêmico, pela amizade ao longo do tempo e respeito profissional. Pelos momentos de
acolhida e observações do caminho da pesquisa, das críticas pertinentes e a ótima conversa e
alegria nos momentos “tensos” na cidade maravilhosa. Muitíssimo obrigado.
Ao Prof. Dr. Fernando Rabossi, imensa gratidão pela formação recebida, por dispor
seu tempo para ouvir minhas dúvidas e ideias e contribuir para uma perspectiva nova da
dinâmica do trabalho nas vias públicas e fora delas. Sua amizade, preocupação com a temática
e as indicações de leituras e práticas foram fundamentais no desenvolvimento desta pesquisa.
Aos professores Dr. Rodrigo Salles e Dra. Marina Cordeiro que gentilmente
concordaram em participar da banca de avaliação da tese e contribuíram com sugestões,
observações de correção e desdobramentos do trabalho, meus sinceros agradecimentos por
essa experiência ímpar.
Ao Núcleo de Pesquisa Desenvolvimento, Trabalho e Ambiente na pessoa da
professora Dra. Neide Esterci e demais coordenadores, que regularmente promove um tempo
para os encontros, debates, desenvolvimento e exposição da pesquisa dos participantes do
núcleo e convidados. Foram momentos oportunos de formação e aprendizagem sobre
processo de pesquisa, construção dos dados e formas de análise.
Aos professores do Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia, pela
formação profissional. Quero agradecer em especial à Profa. Dra. Lícia do Prado Valladares,
quando parte da turma 2013 do PPGSA acabou se encontrando em seu curso e tivemos ótimos
momentos de arguição acerca de nossas pesquisas e trajetórias. Foi um curso marcante. Um
ano memorável em minha experiência particular e na experiência social dos estudantes do
Programa e do IFCS em geral. À Tainá Turri, Rosina Perez, Raphael Bezerra, companheiros
da turma de 2013, pelos momentos de descontração e de discussões.
Ao corpo técnico do Programa, minha gratidão à Cláudia Vianna, à Gleidis Corrêa e à
Ângela (do DTA) por organizarem as condições de funcionamento e as explicações
imprescindíveis para quem chega e vivencia o PPGSA, simplesmente a vida acadêmica sem
elas se torna inviável.
Ao prof. Dr. Antonio Pedroso que, na Anpocs de 2015, e, mesmo de longe, foi um
ouvinte e interlocutor importante nos momentos de encruzilhada da tese, das dúvidas e
angústias. Sugeriu desdobramentos e caminhos possíveis, dispôs-se a dialogar, apresentou
exemplos para a pesquisa, compartilhou tempo e saberes. Sou muito agradecido por seu
interesse e empatia.
Ao prof. Dr. Jordão Horta Nunes que, na reunião da SBS de 2015, analisou e discutiu
no GT18, alguns pontos e dados iniciais do artigo que apresentei naquele momento. Agradeço
sua sugestão, em conversa posterior, sobre o argumento da “política pública focalizada” de
Lautier. Além disso, foi um ótimo companheiro de viagem a caminho de Caxambu para a
reunião da Anpocs daquele mesmo ano. Ao Prof. Dr. Roberto Véras e à Profa. Dra. Liliane
Segnini coordenadores do GT18, por receberem o artigo e oportunizar a discussão na SBS.
Ao Marcos Roberto, da Biblioteca Pública do Amazonas, em Manaus, que me atendeu
prontamente e disponibilizou o acervo de jornais para esta pesquisa.
Para todos os permissionários da Galeria Espírito Santo, sem os quais não haveria a
narrativa da experiência, das pistas, dos eventos e das situações aqui apresentadas. Em
especial, aos participantes da pesquisa pela relação de confiança, pelo tempo cedido, pelas
narrativas e trajetórias que apontaram o rumo deste trabalho; uma construção da experiência e
identidade da via pública e formas cotidianas de resistência. Meu agradecimento ao Davi
Castelo pelos materiais e informações importantes. Quero estender meu agradecimento
também ao Duda, presidente da Associação dos Comerciantes do Mercado Popular Leonel
Brizola (no Rio de Janeiro), que abriu espaço para o diálogo, observação do lugar e minha
participação em uma reunião com os associados, pela atenção e disponibilidade em mostrar
algo que estava no horizonte desta experiência de pesquisa.
Aos amigos professores da Universidade Federal do Amazonas, David Spencer
(doutorando na UFRGS), Dra. Sâmia Miguez (da Universidade do Estado do Amazonas), Dr.
Thiago Jacaúna e Dr. Fabio Candoti pela abertura ao diálogo, pelo espaço para exposição do
projeto no Grupo Ilhargas, pelas críticas e sugestões, pelo incentivo dado e pelos momentos
de descontração. Uma gratidão enorme por vocês nesse processo.
Aos secretários da Subecretaria Municipal do Centro Histórico (Subsemch) e do
Fundo Municipal de Fomento à Micro e Pequena Empresa (Fumipeq), Sr. Glauco Francesco e
Sr. João Augusto Ramos, respectivamente. Pela gentileza com o pesquisador, pelo tempo
cedido e presteza nas informações solicitadas, meu agradecimento por suas contribuições
fundamentais para compreender o processo e situação da política urbana e de
desenvolvimento da cidade.
À Fapeam pela bolsa de pesquisa que financiou grande parte deste trabalho.
Aos meus irmãos, irmãs e parentes pelo apoio e incentivo.
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ...................................................................................................................... 16
A EXPERIÊNCIA DE MANAUS OU “O QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI?” ............. 16
A PESQUISA EM QUATRO MOMENTOS........................................................................... 25
1 EM MANAUS E OUTROS LUGARES ............................................................................ 30
1.1 A POLÍTICA PÚBLICA FOCALIZADA EM COMBINAÇÃO COM OUTRO SENTIDO
DE INFORMALIDADE .......................................................................................................... 48
1.2 O DESAFIO DA PESQUISA OU COMO AVANÇAR DO PROBLEMA PESSOAL
PARA A QUESTÃO SOCIAL E PÚBLICA ........................................................................... 55
2“LÁ NA RUA, VOCÊ TEM UM PADRÃO. AQUI É DIFERENTE” (PERMISSIONÁRIO DO
CPC) ..................................................................................................................................................... 61
2.1 SEGUINDO AS PISTAS E CONSTRUINDO O CAMINHO DO PROCESSO
RELACIONAL......................................................................................................................... 61
2.2 A TEORIA DA AÇÃO SITUADA NA PERSPECTIVA DA SOCIOLOGIA FRANCESA
PRAGMÁTICA ........................................................................................................................ 66
2.3 DE ONDE SE OLHA O ENQUADRAMENTO INICIAL................................................ 71
2.4 HÁ UM CAMPO EMPÍRICO AQUI? O PROCESSO, OS AGENTES E O PRIMEIRO
MOVIMENTO ......................................................................................................................... 86
2.5 DA PRÁTICA INICIAL E SEGUINDO EM FRENTE: O CAMINHO TEÒRICO E
METODOLÓGICO .................................................................................................................. 89
2.6 SOBRE INSTRUMENTOS E CATEGORIAS DO CAMPO.......................................... 100
2.7 AS OCUPAÇÕES NO CPC POR QUALIFICADORES INTERACIONAIS E
NORMATIVOS ..................................................................................................................... 106
3 NEM BELLE ÉPOQUE, NEM ZONA FRANCA. É PELA OCUPAÇÃO EM VIA
PÚBLICA?. ........................................................................................................................... 111
3.1 O PROCESSO EM VÁRIAS PERFORMANCES ENTRE O CENÁRIO E A
PLATEIA................................................................................................................................113
3.2 A SITUAÇÃO TEMPORAL E A EXPERIÊNCIA SOCIAL DO LUGAR .................... 149
3.3 O CENTRO POPULAR DE COMPRAS – GALERIA ESPÍRITO SANTO .................. 174
3.4 ATÉ ONDE SE ESTENDE O PROCESSO? ................................................................... 180
3.5 O MICROPROCESSO DE IN/CORPO(R)/AÇÃO E INTER/AÇÃO NO NOVO
MERCADO ............................................................................................................................ 190
3.6 COMO DEFINIR O LIMITE DA MUDANÇA? ............................................................. 199
4. A INSTITUCIONALIDADE DO PROCESSO, SEU VOCABULÁRIO DE MOTIVOS
E AS INTERCONEXÕES: FUMIPEQ, SEMCH E REGIMENTO INTERNO ............ 223
4.1 O FUMIPEQ ..................................................................................................................... 224
4.2 A SECRETARIA MUNICIPAL DO CENTRO HISTÓRICO (SEMCH) ....................... 236
4.3 O REGIMENTO INTERNO ............................................................................................ 259
4.3.1 Definições, Relação de Poder e Obrigações .............................................................. 261
4.4 A AUTONOMIA CONTROLADA ................................................................................. 271
CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................... 275
REFERÊNCIAS....................................................................................................................282
ANEXOS ................................................................................................................................ 302
LISTA DE IMAGENS

Foto 1. “Camelódromo Provisório da Epaminondas” entrada pela Rua Lobo d’Almada


.................................................................................................................................................124
Foto 2. “Camelódromo Provisório da Epaminondas” entrada pela av. Epaminondas (vista do
interior para fora......................................................................................................................124
Foto 3. Interior do “Camelódromo Provisório da Epaminondas” (saída para a Rua Lobo
d’Almada)...............................................................................................................................124
Foto 4. Entrada do “Camelódromo Provisório da Floriano Peixoto” (Av. Floriano
Peixoto)...................................................................................................................................125
Foto 5. Interior do “Camelódromo Provisório da Floriano Peixoto” (Av. Floriano
Peixoto)...................................................................................................................................125
Foto 6. Interior do “Camelódromo Provisório da Floriano Peixoto” (Av. Floriano
Peixoto)...................................................................................................................................125
Foto 7. Camelôs acompanham a retirada das bancas até os caminhões-baú, que depois
seguirão para os “camelódromos provisórios”.........................................................................132
Foto 8. Banca sendo retirada na manhã de domingo durante a transferência inaugural..........132
Foto 9. Calçada da Av. Eduardo Ribeiro semana antes da etapa inicial de transferência, em
frente da loja Marisa.................................................................................................................133
Foto 10. Mesma calçada, av. Eduardo Ribeiro, após a etapa de transferência........................133
Foto 11. Caminhão-baú parado na Av. Eduardo Ribeiro.......................................................134
Foto 12. Após o transporte dos objetos, o prefeito Artur Neto pessoalmente comandou a
performance de limpeza na Av. Eduardo Ribeiro, no domingo chuvoso...............................134
Foto 13. Noite de inauguração do Centro de Compras Popular Galeria Espirito Santo nas
esquinas das ruas Joaquim Sarmento e 24 de Maio................................................................185
Foto 14. Fachada do Centro Popular de Compras Galeria Espírito Santo nas esquinas das ruas
Joaquim Sarmento com 24 de Maio.......................................................................................185
Foto 15. No ângulo centro-esquerdo da foto aparecem as coberturas verdes das três barracas
montadas no hall de entrada do CPC, antes de serem retiradas..............................................191
LISTA DE FIGURAS

Figura 1- Mapa das vias públicas afetadas pela primeira performance em fevereiro de
2014 e local originário dos permissionários entrevistados no CPC Galeria Espírito
Santo................................................................................................................................127
Figura 2 - Sequência de performances em 1989-1990...................................................168
Figura 3- Mapa da Área Central de Manaus..................................................................173
Figura 4 - O mapa apresenta a distância entre o CPC Galeria Espírito Santo [P] e área
onde a maioria dos entrevistados se encontrava [círculo em vermelho]. E, o local do
“camelódromo provisório” da Epaminondas/Lobo d’Almada [1], seguida da indicação da
localização do segundo CPC Galeria dos Remédios [2].................................................178
Figura 5 - A seta em vermelho, no fim do mapa, indica a posição do terminal central de
ônibus em Manaus, de onde um intenso fluxo de transeuntes se encaminha para as
avenidas Eduardo Ribeiro e Sete de Setembro e demais ruas adjacentes do centro
histórico da cidade. Os círculos em vermelho são indicações da figura 4......................178
Figura 6 - O círculo em preto indica a área onde uma quantidade significativa de
“camelôs” permaneceu por mais tempo (até agosto 2016) e que era motivo de embaraço,
aborrecimento e dúvida dos entrevistados sobre a eficácia do processo de
transferência....................................................................................................................179
Figura 7 - Três cenários propostos pela ação do executivo municipal..........................188
LISTA DE QUADROS

Quadro 1 - Tipologia de pressão e controle sobre o trabalho não-clássico. ............................ 78


Quadro 2 - Atividades no CPC por entrevistado [31]. .......................................................... 221
Quadro 3 - Quadro Comparativo entre as Leis nº 1.780 e Lei nº 1.840................................233
Quadro 4 - Vocabulário de Motivos da Ação Governamental..............................................248
LISTA DE SIGLAS

Acava - Associação dos Camelôs e Vendedores Ambulantes


Afeam - Agência de Fomento do Estado do Amazonas
Avacin - Associação dos Vendedores Ambulantes do Comércio Informal do Estado do
Amazonas
Antaq - Agência Nacional de Transportes Aquaviários
CDL-Manaus - Câmara de Dirigentes Lojistas de Manaus
CEMS - Centre d’Études des Mouvements Sociaux
Cetam – Centro de Educação Tecnológica do Amazonas
CMM - Câmara Municipal de Manaus
CNRS - Centre National de la Recherche Scientifique
CPC - Centro Popular de Compras
CUT-AM - Central Única dos Trabalhadores - Amazonas
Decin - Departamento de Fiscalização do Comércio Informal
DOM - Diário Oficial do Município
DTA - Desenvolvimento, Trabalho e Ambiente
ESPI - Escola de Serviço Público Municipal e Inclusão Socioeducacional
ETE - Estação de Tratamento de Efluentes
FCDL-AM - Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Amazonas
Fetracom - Federação dos Trabalhadores no Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado
do Amazonas
Fumipeq - Fundo Municipal de Fomento a Micro e Pequena Empresa
Gecin - Gerência do Comércio Informal
Implurb - Instituto Municipal de Planejamento Urbano
Lomam - Lei Orgânica do Município de Manaus
Manaustrans - Instituto Municipal de Engenharia e Fiscalização do Trânsito
MEI - Microempreendedor Individual
NAC - Núcleos Alternativos de Comércio
PAC - Pronto Atendimento ao Cidadão
PIM - Polo Industrial de Manaus
PPGSA - Programa de Pós-Graduação em Sociologia e Antropologia
Promanaus - Programa de Reestruturação do Centro de Manaus
RDT - Regime Diferenciado de Trabalho
Sebrae-AM - Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequenas Empresas
Semab - Secretaria de Municipal da Agricultura e Abastecimento
Semc – Secretaria Municipal do Centro
Semch - Secretaria Municipal do Centro Histórico
Semef - Secretaria Municipal de Finanças
Seminf - Secretaria de Infraestrutura
Sempab - Secretaria de Mercados, Produção e Abastecimento
Semob - Secretaria Municipal de Obras
Semtef - Secretaria Municipal do Trabalho, Empreendedorismo, Abastecimento, Feiras e
Mercados
Semulsp - Secretária de Limpeza Pública
Sincovam - Sindicato do Comércio de Vendedores Ambulantes de Manaus
SubSemch - Subsecretaria Municipal do Centro Histórico
UFRJ - Universidade Federal do Rio de Janeiro
Urbam - Empresa Municipal de Urbanização
16

INTRODUÇÃO

A EXPERIÊNCIA DE MANAUS OU “O QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI?”

Nossas capacidades agênticas são continuamente reproduzidas e remodeladas no


curso das relações/interações nas quais estamos incorporados. Estritamente falando
não somos atores, mas inter-atores: atores-em-relação (actors-in-relation)
(CROSSLEY, 2013, p. 125, tradução própria).

Abordagens teóricas que tratam da noção de informalidade, a partir de uma explicação


funcional-estrutural, tendem a ressaltar o caráter desregulado e ilegal da economia e do
trabalho em contextos urbanos. Contudo, é na ação e na interação cotidiana que se demonstra
a face mais exposta e pragmática da noção, sujeita ao conflito, à disputa recorrente e à maior
visibilidade, aquela que ocorre no limite da ocupação por conta própria do trabalho e do
negócio em vias públicas.
Em vista disso, o objetivo desta pesquisa de doutorado consistiu em problematizar a
adaptação de “camelôs” no Centro Popular de Compras (CPC) quando da ação governamental
em intervenção urbana de transferência/deslocamento do trabalho e do negócio em vias
públicas, em Manaus, Amazonas, Brasil. A categoria analítica utilizada para definir o
processo foi a de “ação situada” conforme a sociologia francesa pragmatista de Louis Quéré
(1997), Albert Ogien (1999) e Michel de Fornel (1999), em perspectiva com Erving Goffman
(1964; 2010[1963]), Charles Wright Mills (1940) e John Dewey (1938), entendida como
dimensão qualitativa e relacional entre a experiência, a organização social e o ambiente1. O
desafio da pesquisa foi discutir os mecanismos de controle, resistências cotidianas e as
conexões entre elementos sociais aparentemente distintos e desconectados que se
apresentavam no cenário montado pelo poder público municipal.

1
Segue-se o estudo de Louis Quéré sobre o modelo analítico da “ação situada”, ao distingui-lo como
contraposição ao modelo de análise presente nas ciências sociais e cognitivas que reduz o ator, sua atividade,
deliberação e planejamento a uma situação desincorporada do seu ambiente e contexto. Neste sentido, quando se
propõe uma análise a partir do modelo de “ação situada” está se propondo analisar uma dada situação levando
em consideração que o ator não é mais o único locus da capacidade de agir, do controle da ação ou do processo
cognitivo. Pois, o tem como incorporado, que compartilha seus atributos com objetos, ferramentas, artefatos e
não humanos em geral. O ator-agente está situado no e faz parte de um ambiente, sua ação ocorre através da
concreta organização que estrutura uma interdependência entre o curso da ação e o ambiente no qual ela ocorre.
Na “ação situada” o agente tem a percepção dos elementos que envolvem o ambiente, e isto, envolve um grau de
habilidades adquiridas através da experiência que requer pouco ou nenhuma representação para implementá-las,
experiências incorporadas por rotinas e práticas. Entretanto, a “ação situada” não deve ser encarada como uma
sucessão de ajustes momentâneos àquilo que surge no aqui e agora (QUÉRÉ, 1998). No capítulo a seguir, de
modo mais detido, serão apresentados os elementos que compõem a análise, o processo e a dimensão da “ação
situada”.
17

De um lado, o executivo municipal cria um movimento de regulação e de gestão


empreendedora para o desenvolvimento da área central da cidade e de controle do espaço
urbano de Manaus. Por outro lado, diante das condições concretas e da força da
normatividade, os transferidos buscam se ajustar e responder à situação de escassez de
consumidores. Diante disso, toma-se a devida atenção tanto sobre a experiência socialmente
construída em via pública quanto para as diversas formas de negociação praticadas em face
das normas organizativas do lugar. Deste modo, este estudo pretende referir-se à ação situada,
mas prioritariamente à forma cotidiana de resistência, como contramovimento dos
permissionários/microempreendedores individuais, que ocorre durante o processo de
adaptação e organização do trabalho neste novo mercado, cujo instrumento principal se baseia
na experiência das pessoas para lidar e negociar com os diversos constrangimentos impostos
pela normatividade e por problemas práticos do cotidiano. Identificou-se também um tipo de
organização social da experiência com base na combinação entre a conduta pragmática em um
novo ambiente institucionalizado e a experiência socialmente construída dos indivíduos em
via pública. De igual modo, foi construído um vocabulário de motivos sobre a ação dos
agentes públicos e a peculiaridade do papel da organização coletiva como negociadora entre
os permissionários e o executivo municipal. Por fim, a “ação situada” foi utilizada como
configuração importante para a compreensão pragmática do trabalho e do negócio na via
pública e fora dela e, assim, possibilitar uma proposta de compreensão contraposta à
explicação convencional centrada no setor informal.
A decisão de transferir os trabalhos e os negócios realizados em via pública para novos
lugares como shoppings, galerias, camelódromos, centros de compra popular, geralmente,
adota três estratégias discursivas: a desordem na via pública, a limitação do direito ao trânsito
e uso do espaço público e a competição comercial desleal. Estas delineiam e impõem a
fronteira para a ação de transferência, implicam na legitimidade da permanência e acesso ao
espaço público e tentam a agir no controle das atividades econômicas e sociais desenvolvidas
em ruas, praças e calçadas.
Normalmente, é o executivo municipal que propõe e coordena esse processo,
utilizando o dispositivo jurídico do Programa de Parceria Público-Privada (PPP) para fazer
frente à intervenção urbanística, modificando e criando novos cenários e tencionando as
experiências sociais. Entretanto, na medida em que tenciona a ordem das práticas, da
copresença e da experiência ordinária sobre o ajuntamento de “camelôs” e “ambulantes”,
impõe uma situação de mudança na experiência vivida em via pública para o cenário
institucionalizado. Diretamente a ação governamental lhes propõe uma ordem modelar da
18

legalidade, uma expectativa de melhoria vinculada à regulação e ao seu próprio interesse no


controle do espaço urbano.
As pesquisas que analisam o processo de transferência ou reorganização do
ajuntamento de camelôs ou ambulantes da via pública para outros lugares (prédios
construídos, reformados, adaptados) ou a partir de sua regulação pela municipalidade quando
permanecem em via pública são recentes. Mesmo assim, na medida em que avançam e se
aprofundam sobre o fenômeno trazem para a discussão os interesses localizados, as fronteiras
internacionais das trocas mercantis, a ação governamental, a construção social de novos
mercados, a força modificadora da agência, as interações múltiplas a partir da articulação de
elementos relacionais presentes e interconectados no contexto dos centros urbanos.
Destacam-se nesta trajetória de pesquisas, no plano nacional e internacional, as várias
mudanças e o direcionamento dado, nas últimas décadas, para o fenômeno do trabalho e do
negócio na via pública das grandes cidades e os processos de
transição/transferência/deslocamento/regulação implicados, como bem demonstram os
estudos de Neves, Jayme, Zambelli (2006), Montessoro (2006), Itikawa (2006), Cross (2007),
García-Rincón (2007), Karides e Cross (2007), Varcin (2007), Carrieri (2008), Abud (2011),
Lima (2011), Kopper (2012), Potrich e Ruppenthal (2013), Rowe (2014), Freire da Silva
(2014), Martin (2014), Crossa (2015), dentre outros.
O objetivo geral da tese é dar continuidade a este conjunto de investigações e
contribuir para uma compreensão melhor e em perspectiva pragmática de como se articulam
os agentes, como a ação governamental envolve determinada performance, como a
instauração de novos mecanismos de controle social lidam com o trabalho e o negócio em via
pública e como são provocadas formas cotidianas de resistência para responder a este
controle. E, deste modo, especificamente, demonstrar como a mudança induzida pela série de
transferências ou regulações poderia resultar em ações não controladas/determinadas
subvertendo a proposta de organização e controle formal articulada por ações governamentais
e poderes hegemônicos. E, de outro modo, demonstrar qual seria o caráter do direcionamento
dado por tais ações e por modelos de políticas alinhados com a reorganização global da
distribuição e oferta de mercadoria e novas atividades econômicas e sua relação com dinâmica
da política local.
Como é demonstrado na análise de Gustavo Lins Ribeiro, sobre a “globalização por
baixo”, é preciso levar em consideração que quando se fala em determinada ocupação ou
prática ilegal, às margens do controle estatal, que não se deveria enquadrar por um viés
naturalista ou estigmatizado, porém como recurso possível de diferentes grupos sociais em
19

diferentes momentos de suas trajetórias. Além do mais, a noção de ilegalidade pode muito
bem ser interpretada como uma instância ou posição de um campo social típico do Estado
moderno.
Na verdade, a questão dos limites entre o legal e o ilegal, questão à primeira vista
pacífica, quando examinada mais de perto se revela mais complicada do que uma
disputa entre honestos e desonestos, entre o bem e o mal, e acerca-se muito mais do
problema histórico da distribuição desigual de poder em um mundo econômica,
política e culturalmente diferenciado. [...] Qualquer visão que absolutize a rigidez e
a eficiência desta linha, absolutiza, para fins ideológicos, a eficácia quase panóptica,
a honestidade, a independência e a neutralidade totais da atuação do Estado, fato que
não resiste a um escrutínio sociológico e histórico maior (RIBEIRO, 2010, p. 25)

Além de ampliar o quadro das investigações em torno da ação governamental sobre o


trabalho e negócio na via pública em espaços urbanos e os fenômenos sociais correlacionados,
esta pesquisa pretendeu analisar pelo modelo de “ação situada” a variável da organização
social da experiência dos agentes transferidos, em sua adaptação e modos de conduta diante
do cenário montado pelo poder público municipal. A intenção residiu em compreender o
processo relacional entre a intervenção governamental e a agência dos indivíduos (como as
formas de resistência ou o tipo de “similaridade de atitudes” entre eles), a partir de
mecanismos de adaptação, de táticas de reação e das diversas formas de interação em um
novo ambiente.
Optou-se pela abordagem do modelo analítico da sociologia francesa pragmatista2. O
caminho metodológico da investigação priorizou as pistas encontradas no trabalho de campo,
entre as observações do ambiente, questionário e as entrevistas, em conversa esporádica com
os agentes envolvidos e seguindo a trilha de indícios em praças e ruas do centro da cidade.
Focalizando os sentidos atribuídos aos problemas práticos, à adaptação ao novo ambiente e às

2
Quando se fala aqui sobre a sociologia francesa pragmatista trata-se, sobretudo, do conjunto de temas (como
quadro social da experiência, o público e seus problemas, arena pública, justificação etc.), perspectivas e
modelos analíticos para a compreensão do social. Suas linhas de investigações abordam a análise do social como
problema concreto que envolve sua dinâmica de conflitos, repertórios, mobilização coletiva e engajamento dos
atores participantes, entre outros. Podendo ser datada a partir da década de 80, como marca da crise dos grandes
paradigmas totalizantes, a sociologia francesa pragmatista toma como referência mais próxima a dimensão do
ator-agente e de sua experiência contextualizada. Por ter um quadro de autores e lógica de abordagem
diversificada, inclusive apresentando um arranjo entre o modelo pragmático norte-americano e francês, pode
apresentar abordagens divergentes para a teoria da ação, da situação e do foco pragmatista (como na crítica à
chamada sociologia pragmática de Boltanski, feita por Quéré e Terzi (2014)). Especificamente escolheu-se a
abordagem que tenta reformular a teoria da ação, dentro da perspectiva da lógica da situação, que articula de
forma relacional seres humanos, não humanos e suas consequências. Por fim, essa guinada pragmática pretende
superar o impasse do determinismo, do dualismo e do objetivismo através de um equilíbrio entre explicação e
compreensão. Na lógica da situação, esses estudos irão demonstrar que compreender a conduta do ator é
considerar fundamental a transformação interdependente e progressiva deste e de seu ambiente e, em particular,
a transformação do seu objeto de intervenção. Assim, outros modelos que tomam a “reflexividade” como um
elemento central da ação prática, porém rejeitam a ideia de que qualidades, fins ou valores podem ser
determinados sem experiência prática estão fora dos limites adotados pelo modelo analítico da sociologia
pragmatista francesa (CORRÊA, 2014; FREIRE, 2013; QUÉRÉ; TERZI, 2014; QUÉRÉ, 1998).
20

possíveis respostas dadas como solução. O contexto e a ação situada onde os indivíduos
estavam inseridos em processos relacionais foram os elementos analíticos e teóricos utilizados
aqui com a finalidade de compreender um objeto de certa instabilidade, complexo em sua
dinâmica social e de múltiplas faces, isto é, a micro-organização social densa e relacional do
trabalho e do negócio em “transferência/deslocamento” da via pública para outros lugares.
A amostra de estudos referida anteriormente define um mosaico de pesquisadores com
diversas abordagens e análises, no contexto das cidades brasileiras e de outros países,
oriundos de diferentes áreas das ciências humanas. Invariavelmente, os estudos mostram que
a ação de transferência/deslocamento mobilizada pelo executivo municipal é acionada por
meio de estratégias discursivas e práticas, compondo um panorama das políticas públicas de
reestruturação e reordenamento não somente do espaço físico da cidade, bem como do
direcionamento da ação econômica mais adequada para este espaço. São intervenções nos
limites da área central da cidade abrangendo a chamada política pública de “revitalização” e
“requalificação”, que marca e tenciona a ordem urbana através de mecanismos de gestão por
objetivo, descentralização política e de regulação que altera o ritmo de trabalho e o tipo de
negócio do lugar.
Em resumo, a ação governamental de transferência/deslocamento apresenta-se como
problemática a partir dos novos ajustes sobre a experiência singular do indivíduo ou do
próprio ajuntamento enquanto implementa, de modo top-down, o projeto modificador de
práticas e de aspectos característicos da ordem do trabalho e negócio em via pública. Por
outro lado, tende a mobilizar um vocabulário de motivos como estratégia discursiva
importante ligada à ordem da paisagem urbana e à proposta de adesão para o seu projeto. Por
fim, “camelôs” e “ambulantes”, e demais atores, que trabalham e negociam em via pública
devem se assumir como parte ativa e responsável da “solução” e do “sucesso” da
transferência, tanto no início do processo quanto durante a instalação no lugar, passando a
incorporar novas moralidades e responsabilidades objetivas.
Conduzido nestes termos, em geral, o processo de transferência/deslocamento
constitui uma dinâmica social específica e complexa. Ele envolve atores distintos, disputas,
interesses díspares e assume dimensões conflituosas em diversos graus. Exige articulação
política para a mudança na legislação local e, por vezes, resulta em estratégias e arranjos de
ações de conveniência para determinados atores, na tentativa de minimizar o conflito e
indisposição entre os agentes envolvidos, ou seja, minimizar a tensão política e cooptar
apoiadores. De modo geral, tal processo costuma ser naturalizado por sua reprodução regular
ao longo do tempo e em diferentes espaços. Ainda mais, apresenta um padrão discursivo em
21

defesa do engajamento para o bem comum da cidade e das práticas tidas como
modernizadoras.
A partir do trabalho de campo, aventa-se a hipótese de que um caráter de combinação
entre as noções de formalidade-informalidade persiste entre os indivíduos em ajuntamento e
ordena o trabalho e o negócio tanto em via pública como no novo mercado, o Comércio
Popular de Compras (CPC). Por princípio, deve ser considerado que o processo de
transferência/deslocamento tende a afetar a coexistência entre os atores-alvos. Isto pode
acontecer tanto na forma da experiência social do ajuntamento quanto no conteúdo da
organização do trabalho cotidiano, que combinados orientam os atores-alvos em sua
expectativa acerca dos resultados esperados e respostas dadas à situação. Tal combinação é
mais bem compreendida e interpretada quando se levam em conta tanto os conteúdos
interacionais e uma configuração relacional do processo quanto as formas cotidianas de
resistência inerente à organização social da experiência e ao tipo de armas políticas
disponíveis ao ajuntamento desses indivíduos. Por exemplo, como lidam com a normatividade
do ambiente, com a organização do trabalho entre si e com a participação nas organizações
coletivas3.
Defende-se aqui o argumento de que a partir das condições práticas das formas
ampliadas de ocupações além do mundo fabril, das práticas diversas de obtenção de renda
legítima e lícita, das formas diversas do uso do trabalho, das condições concretas com as quais
os segmentos populares se deparam ao tentarem inserção econômica e social no mundo do
trabalho é preciso avançar além do limite da noção de informalidade em seu entendimento
fechado, convencional e como contrapé da noção de formalidade. Especificamente, recusa-se
aqui a utilização da noção de informalidade do modo como esta é proposta pela explicação
convencional do chamado setor informal, pois este tipo de explicação não sustenta mais uma
força analítica e argumentativa concreta das transformações vigentes e não é suficiente
quando aplicado aos diversos processos relacionais na abordagem desse objeto, apresentando
por isso um limite compreensivo.
Deste modo, as indagações iniciais se configuraram pelas questões: como a ação
governamental considerou os mecanismos de arranjos e combinações entre os agentes
estratégicos e os diferentes níveis de poder durante a transferência? E, quais as possíveis

3
Algumas explicações podem ser dadas sobre o papel do Sincovam ou da Avacin, segundo as narrativas dos
permissionários. Numa escala que vai do sentido atribuído pelo indivíduo no qual não consegue perceber-se
representado legitimamente pela organização coletiva até chegar à forma estritamente individualizada de ação
em responder ao problema que lhe afeta, sem passar pelo envolvimento com a organização. Isto tende a reforçar
o nível de desencaixe do indivíduo, no sentido de Goffman (2010), considerando a situação de representação
coletiva por qualquer entidade seja sindicato ou associação.
22

mudanças na ordem da prática cotidiana dos indivíduos, que até então experimentavam o
ambiente da via pública em condições não reguladas, quando estes foram transferidos para
novos ambientes em condições normativas e regulados, inclusive outra categoria jurídica para
sua ocupação? Por fim, como os mecanismos qualificadores da experiência em comum e das
habilidades específicas individuais foram tomados e utilizados pelos agentes transferidos no
momento de gerir seu espaço e manipular os recursos escassos, ou mesmo aqueles
disponíveis, neste novo mercado?
Para responder estas questões, a pesquisa utiliza a categoria da “ação situada” e a
lógica das situações (QUÉRÉ, 1998; 1999; 2003; 2013; FORNEL; QUÉRÉ, 1999; DEWEY,
1938) como modelo analítico e interpretativo que segue a perspectiva pragmática de soluções
e ações possíveis que são incorporadas, realizadas e vinculadas às situações das atividades
ocupacionais e das trocas econômicas no novo ambiente. Entendendo que as situações
estruturam a ordem do lugar e envolvem o poder público municipal e seus agentes tanto
quanto os atores-alvos da transferência, os permissionários microempreendedores individuais.
Toma-se o ambiente, os seus objetos e o sentido atribuído pelo indivíduo ao contexto no qual
se encontra como elementos fundamentais para a análise da situação. Deste modo, busca-se
compreender a lógica da situação em seus elementos constitutivos (interação, sentido e
contexto) e identificar as formas de interação e o ordenamento das relações de poder.
Conjuntamente, pretendeu-se desenvolver a análise das razões práticas subjacentes ao
movimento do poder público e do contramovimento protagonizado pelos agentes transferidos
(nas ações cotidianas de resistência) e, por fim, dar conta dos processos relacionais implicados
nesta “situação”.
Os estudos de Fornel e Quéré (1999) definiram que a “situação” deve ser tratada de
modo objetivo, onde os agentes precisam estar em situações em que os fatos são constitutivos
com seus objetos e entram em relação uns com os outros. Os autores argumentam que, na
teoria da situação, as situações “suportam”, “determinam” os fatos, em função de um esquema
dado de individualização (que permite decompor uma situação em objetos, propriedades e
relações), como resultado tais fatos seriam intrínsecos à situação constituída.
Compreendem que situações vêm antes dos fatos, os segundos servem para classificar
os primeiros. Os fatos não fazem parte da realidade, pois procedem de uma pesquisa, de uma
inquirição sobre o ambiente realizada pelo indivíduo. Nessa premissa, está relacionada a
afirmação de que uma mesma situação pode, por consequência, ser classificada por diferentes
fatos. Desta forma, nega-se que a situação tenha seus contornos e conteúdos estáticos e
sedimentados, na medida em que um contexto muda e uma nova situação é inevitavelmente
23

introduzida, servindo de suporte para o novo fato representado. E, assim, introduz-se a


chamada “lógica/dinâmica da situação” que pode ser atualizada, reinterpretada e reordenada
(FORNEL; QUÉRÉ, 1999, p. 14).
Aqui, a lógica da situação destaca a capacidade cognitiva, perceptiva, de ação e
atribuição de sentido ao contexto, que se articula na forma de interação entre os agentes, que
incorporam o ambiente e, no curso da ação, relacionam e organizam suas experiências e
condutas. Por fim, os autores estabelecem que

a dinâmica das situações são os campos onde se organizam necessariamente a


experiência, de um lado sua estrutura temporal e dramática, por outro lado, seu
pertencimento à totalidade superior formada por um organismo e seu meio,
estruturando uma totalidade submissa às tensões, às incompatibilidades, aos
desequilíbrios, às transações (FORNEL; QUÉRÉ, 1999, p. 17, tradução própria).

A situação da transferência/deslocamento do trabalho e do negócio em vias públicas


para outros lugares apresentou uma dinâmica peculiar em Manaus. Ela foi caracterizada pelo
gerenciamento, execução e aplicação de recursos financeiros diretamente e unilateralmente do
poder público municipal durante as diferentes etapas do processo. De fato, a partir do Decreto
nº 3.008, de 23 de janeiro de 2015, que dispõe sobre o Regimento Interno da Galeria Espírito
Santo, o poder municipal torna-se o detentor legal de toda e qualquer tomada de decisão sobre
o lugar. Ou seja, pelos instrumentos legais, o controle sobre o espaço e, em decorrência, sobre
as ações daqueles que ali estão instalados (inicialmente, pelo Termo de Adesão) passa a estar
subordinado à gestão pública do município.
É importante considerar tal lógica da situação. Ao invés de utilizar um instrumento
como o Programa de Parceria Público-Privada (PPP), os instrumentos contratuais e
burocráticos que formalizam a relação entre a Prefeitura e os permissionários
microempreendedores individuais são de variados graus e de aplicações distintas. O
instrumento principal é o Termo de Adesão individual, ou seja, um termo de permissão de uso
de ocupação de imóvel de domínio público municipal, que é um contrato de permissão
qualificada4, assinado pelos agentes transferidos durante o momento de adesão ao projeto do
executivo municipal.

4
Estudos no campo do direito administrativo apontam que a questão não está pacificada sobre a interpretação e
aplicabilidade desse tipo de contrato ou termo, que normatiza a permissão de uso de um bem público. É possível
ver algumas dessas discussões em Vasconcelos Junior (2013) e Mattos (2006). Uma definição possível desse
tipo de contrato ou termo entre as partes é estabelecida em Meirelles (2002): “Permissão de uso é ato negocial
unilateral, discricionário e precário através do qual a Administração faculta ao particular a utilização individual
de determinado bem público. Como ato negocial, pode ser com ou sem condições, gratuito ou remunerado, por
tempo certo ou indeterminado, conforme estabelecido no termo próprio, mas sempre modificável e revogável
24

Outros instrumentos de apoio ao Termo de Adesão foram aplicados concomitantes,


como controle e incentivo ao projeto. Por exemplo, a exigência de inscrição no perfil jurídico-
econômico de microempreendedor individual e a participação em cursos de formação na
temática do empreendedorismo. Estes cursos foram executados com o apoio do Serviço
Brasileiro de Apoio às Micros e Pequenas Empresas (Sebrae) e, mais recentemente, pela
própria administração municipal indireta e fundacional, como a Escola de Serviço Público
Municipal e Inclusão Socioeducacional (ESPI).
Por outro lado, os atores em transferência/deslocamento também se mobilizaram neste
cenário, no início e durante o processo. Criando paralelamente relações mediadas por
mecanismos não-institucionais, de interação face a face, na forma de acordos e novos arranjos
ancorados, algumas vezes, em conteúdo de interesse estritamente pessoal. Neste contexto, os
agentes estratégicos e as interações geralmente se inscrevem entre: 1) o representante do
coletivo e seus “representados”; 2) os agentes públicos e o representante do coletivo (seja
sindicato, associação, cooperativa); 3) os próprios atores em transferência para o novo
mercado.
Ao longo do tempo, aqueles que aderiram inicialmente foram construindo ações táticas
de saída, subterfúgio e burlas, como formas cotidianas de resistência individual ou
compartilhadas em resposta às situações percebidas como problemas práticos ou
constrangimento normativo no cenário criado pela ordem governamental. O modo inicial
como ocorreu o engajamento de “camelôs” e “ambulantes” ao processo de transferência pode
indicar a força das expectativas iniciais e a promessa de viabilidade do projeto que apontava
melhorias para o ajuntamento nesse novo mercado. Contudo, houve uma queda no grau de
engajamento, reconhecimento e aceitação das regras de conduta e de organização do trabalho
no novo lugar, com o agravamento das necessidades mais prementes. Como resultado,
passou-se a imprimir um caráter negociável, desviante e não raro de flexibilidade das ações
dos indivíduos sobre as normas do CPC.
De forma geral, aqueles que aparentavam um engajamento mais firme no início do
projeto do executivo, movidos pelo convencimento ou pela aposta na expectativa positiva da
transferência, acabaram por subverter a intenção prevista do poder público para o lugar. Isto é,
a intenção de organizar um cenário previamente normatizado, estruturado em um “modelo de

unilateralmente pela Administração quando o interesse público o exigir, dado sua natureza precária e o poder
discricionário do permitente para consentir e retirar o uso especial do bem público” (MEIRELLES, 2002, p.
493). Entretanto, há uma concordância geral entre os estudiosos da questão que é a condição de uma autonomia
mais precária de ação inerente para uma das partes, o permissionário. Este contrato de permissão, em Manaus,
tem como duração um período de vinte anos com a possibilidade de prorrogação por igual período, podendo
mesmo ser transferido a um dos herdeiros diretos do permissionário.
25

legalidade” e na mudança de conduta dos indivíduos a partir da nova figura jurídico-legal,


esbarrou nas condições práticas da rotina do lugar e nas situações de conflito que resultavam
em “frouxidão” no cumprimento de regras internas. Pode-se dizer que isto acabava causando
uma situação semelhante ao trabalho e negócio em via pública, por combinações de diferentes
ordens que se ajustavam e remodelavam o ambiente.
Por fim, tomando a observação e as narrativas do campo empírico, a pesquisa
deparou-se com um contexto que precisava ser problematizado a partir do modelo da ação
governamental em face da intenção de mudar experiências vividas de trabalho e de negócio
em vias públicas. Em Manaus, o executivo municipal ao tentar replicar modelos idênticos de
intervenção se deparou com ações situadas dos permissionários, em formas cotidiana de
resistência, em situações de negociação das regras de conduta e de reorganização do trabalho
frente às demandas apresentadas no novo mercado.

A PESQUISA EM QUATRO MOMENTOS

O leitor encontrará esta pesquisa em quatro capítulos principais, além da introdução e


das considerações finais no término da exposição. O capítulo 1 introduz os termos gerais da
pesquisa, após a introdução, segue um enquadramento que diz respeito à sua construção, ao
processo de encontros que se deu no campo empírico, da busca de pistas iniciais da
problemática, da interação com os diversos agentes, com ambiente interno do CPC e em meio
às experiências múltiplas. Uma situação que aparentemente pode parecer trivial, fortuita e
naturalmente comum, porém não se apresenta explícita em seus conflitos e contradições e
nem nas relações de poder que constitui o seu movimento. Os fatos que foram observados
pelas circunstâncias do momento inicial da investigação, com seus pressupostos abstratos e
um tanto idealistas foram modificados significativamente pela chegada do pesquisador no
campo empírico, pelos desdobramentos produzidos por meio da inquirição do ambiente e pela
interação com os diversos agentes. É neste contexto do campo empírico que se observa e se
analisa as novas configurações de controle social sobre as atividades econômicas tradicionais
em via pública e sobre a dinâmica de uso do espaço urbano, que mantêm relação com o
fenômeno do trabalho e negócio em via pública. Portanto, nesta tese, a perspectiva de
abordagem utiliza a noção de “informalidade” com foco nos atores estratégicos, nas
interações e no processo relacional que os envolvem e, principalmente, no modo como
respondem à ação governamental. Assim, esta perspectiva não se vincula à abordagem
dualista, vista como setorial e cristalizada na oposição entre a noção “formal” e “informal”,
26

nem toma a referência de cunho neoliberal, no direcionamento para a concorrência perfeita e


com o mínimo de participação governamental na economia e nem de uma perspectiva
marxista funcionalista. A pesquisa toma como fundamental a dinâmica da construção social e
da pragmática que perpassam a ação do indivíduo, dos grupos e das instituições sob a forma
de performance, de organização da experiência social, dos modos de interação, de processo
relacional e como lógica de ação situada das combinações, por vezes em convergências
(acordo, aceitação, cooperação), outras vezes por tensões (disputa, confronto e resistência).
No capítulo 2 pretendeu-se dar conta de modo mais intenso e pormenorizado da
formação metodológica, do caminho escolhido e das pistas obtidas em momentos de aparente
desconexão e independência, mas que se mostraram posteriormente como ações, fatores e
relações sociais muito conectados e interdependentes ao longo do processo. Apresenta-se o
contexto urbano de Manaus, seu vínculo histórico de exploração e conexão entre o comércio
internacional e o mercado de trabalho local. De igual modo, a área do centro comercial como
parte da trajetória de transformações na forma de distribuição de mercadorias e
descentralização dos serviços e do uso histórico do solo para o trabalho e negócio em via
pública. Demonstra-se a relação entre a teoria da ação situada, seus propositores e a
sociologia francesa (uma constelação de autores e perspectivas nem sempre coincidentes,
segundo Diogo Corrêa (2014, p. 37)), associada ao Centre d’Études des Mouvements
Sociaux, na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), que tentam reformular a
teoria da ação social pela abordagem pragmática. Dentre os autores, Louis Quéré,cuja análise
se centra na organização social da experiência, a qual se torna uma variável fundamental na
problematização do campo de pesquisa em Manaus. Por fim, discute-se a difícil tarefa de se
tratar o campo de pesquisa e seus agentes estratégicos pela perspectiva segmentada do
chamado “setor informal” versus “setor formal”. Contudo, não é o objeto principal da
pesquisa discutir uma evolução e o debate em torno da noção de “informalidade”.
Na sequência, no capítulo 3, é feita a exposição do campo de pesquisa, narrando e
analisando a situação ocorrida na área do centro da cidade em 2014, que não só mobiliza e
ativa diferente performance de prática e de discurso, assim como pontua o início das etapas de
transferências e do processo que culminou na instalação de parte dos “camelôs” na Galeria
Espírito Santo. As entrevistas e as observações do campo de pesquisa são transcritas ao
mesmo tempo em que são utilizados os recursos analíticos da teoria da ação situada a fim de
dar conta da relação entre o ambiente e a organização social da experiência. Em certo
momento, reconstrói-se parte dos acontecimentos que marcaram a experiência do lugar em
1989, isto é, os projetos de intervenção na área central e o confronto em que se envolveram
27

“camelôs”, “ambulantes” e agentes públicos. Nesta sequência, argumenta-se acerca da


organização da experiência social do lugar em relação à conduta e à organização do trabalho
e, como por meio da experiência de trabalho em via pública os indivíduos tentam
combinações e negociam normas para adaptarem-se ao ambiente fechado, regulado e
diferente do CPC. Como desdobramento dessa conduta, interliga-se os trabalhos realizados
“de dentro” e “de fora” do lugar. Ao seguir as pistas das experiências narradas expõem-se as
evidências dos efeitos do processo interativo e da remodelagem do cenário proposto pelo
poder público. Através da negociação com as normas, da forma singular como reordenam e
incorporam o ambiente e da interação entre o indivíduo e seus pares próximos, constroem
formas cotidianas de resistência aqui denominadas de contramovimento.
O controle social sobre o trabalho e negócio na via pública chega mesmo a enfrentar
ações movidas no campo jurídico, quando alguns “camelôs”, não aceitam a ação
governamental e acionam a justiça buscando contornar a situação5, porém as medidas
institucionais são direcionadas para minimizar tais situações de confronto. Assim, no capítulo
4, procurou-se dar maior ênfase às evidências que apresentam a disposição dos agentes
públicos em mobilizar recursos financeiros e legais com a finalidade de conduzir e organizar
o processo de instalação e de normatividade interna do lugar. Apresenta-se e analisa-se a
institucionalidade do processo, seu vocabulário de motivos e interconexões entre as ações
instrumentais do poder executivo e legislativo (mudança no Fumipeq, por exemplo) e o papel
administrativo e mediador da Semch. É importante deixar esclarecido o uso das siglas Semc,
Semch e Subsemch, que frequentemente irão aparecer na exposição da pesquisa. Todas se
referem a uma única secretaria, com uma única função específica de atuação e coordenação
fundamental tanto sobre o processo de transferência/deslocamento de “camelôs” quanto sobre
a gestão do reordenamento da zona central. O que ocorreu, ao longo do processo, foi um
redirecionamento na ordem de atuação focando exclusivamente para as intervenções no
Centro Histórico e, posteriormente, uma alteração de ordem administrativa deixando de ser
uma secretaria autônoma para incorporar-se à Casa Civil do Executivo municipal como
Subsecretaria. No primeiro caso, deixa de ser Semc (Secretaria Municipal do Centro) e passa
a ser Semch (Secretaria Municipal do Centro Histórico); no segundo caso, passa a ser
Subsemch (Subsecretaria Municipal do Centro Histórico). Por isso, durante a leitura do texto

5
O que seria interessante investigar, mas se tratava de casos muito específicos e espalhados fora do campo
empírico. Necessitaria de uma atenção mais próxima e apropriada, por se tratar da dimensão da competência
moral, da justificação pública a partir de uma provocação da justiça e do envolvimento de valores em disputa.
Além de trazer a discussão de uma concepção do bem comum que mobilizaria as categorias da universal e do
particular, seguindo certa perspectiva da sociologia de Boltanski.
28

se verá ora a sigla Semc, que toma como referência a exposição inicial do projeto “Viva
Centro Galerias Populares” e o cadastramento dos “camelôs” em 2013; ora a sigla Semch que
traz como referência o processo de transferência efetiva e de adaptação de 2014; por fim, a
sigla Subsemch que mantém as referências anteriores e se apresenta, até o momento, como
parte da mudança na estrutura da administração direta do executivo municipal, posta em
prática a partir de 2016. Preferiu-se ao longo da exposição se referir principalmente à sigla
Semch e em menor referência às demais, de acordo com a necessidade a fim de evitar
confusão. Neste capítulo será detalhado o papel estratégico dessa secretaria municipal.
As narrativas dos agentes públicos demonstram a complexidade em lidar com os
pontos que pareciam desfocados no início da pesquisa ou vistos como em segundo plano,
embora se demonstrassem como elementos bastante coerentes internamente e interligados às
situações fora do contexto de Manaus. No capítulo também se discute sobre a noção de
empreendedorismo aplicada aos permissionários e retoma-se o quadro analítico e crítico de
Machado da Silva, Lautier e outros autores. Ainda, foi preciso lidar com o dispositivo de
controle e da normatividade do CPC, o Regimento Interno, que ordena tanto a conduta do
permissionário como a forma em que o trabalho deve ser executado. E, assim, ao relacionar
com o capítulo anterior pretendeu-se demonstrar a lógica da situação, a partir da visão dos
agentes estratégicos, da construção de um vocabulário de motivos tanto como das respostas
dos permissionários transferidos diante das condições concretas do ambiente. Portanto, em
face de uma determinada atividade ocupacional e econômica tomada como “problema” pelo
poder público e tratada pelo regime de regulação, incentivo à aprendizagem de novas
habilidades de gestão do negócio e, principalmente, pela estrita responsabilização do
particular.
Os quadros, mapas, tabelas e fotos inseridos no decurso da exposição, como partes
integrantes e essenciais do argumento da pesquisa, têm a intenção de produzir um efeito de
resumo e de aproximação do leitor com o campo de pesquisa. Além de demonstrar, por
imagem, a problemática do campo e os desafios encontrados para localizar, posicionar e
possibilitar uma leitura visual do contexto da execução do trabalho. Nesta exposição, fez-se
uso de algumas imagens de fontes secundárias, principalmente em relação ao ambiente
interno do CPC – Galeria Espírito Santo. As poucas tentativas nas quais se conseguiu capturar
imagens foram seguidas por questionamentos e certo olhar de desconfiança e desconforto
entre os próprios permissionários, apesar das explicações sobre o papel da investigação
sociológica em andamento. Aceitavam conversar, mas se recusavam a serem fotografados.
Como foram poucas fotos e consideradas como não autorizadas, resolveu-se, ao final,
29

descartá-las. Foi menos desconfortável capturar as imagens dos locais provisórios, pois em
pouco tempo deveriam ser desativadas. Nos anexos, mostram-se outras imagens e a tabela
descritiva dos entrevistados-respondentes.
30

1 EM MANAUS E OUTROS LUGARES

A dinâmica da distribuição e comércio de produtos e serviços em via pública vai se


manifestando historicamente como uma ocupação típica do ambiente urbano, de maior
visibilidade e, sobretudo, de mais conflito com a gestão municipal e grupos sociais urbanos
específicos, normalmente aqueles vinculados às novas dinâmicas urbanísticas e às atividades
econômicas. Por outro lado, o trabalho e o negócio de “camelôs” e “ambulantes” se conecta
ao fluxo de diversas ocupações e rotinas realizadas nos espaços públicos dos centros urbanos.
Quanto menor for este fluxo, menor será a concentração do ajuntamento de “camelôs” e
“ambulantes”. Contudo, o fluxo nem sempre corresponde à ação exógena. O ajuntamento
pode, inclusive, produzir uma ação no seu próprio movimento para a atração de fluxo de
consumidores e constituir uma oferta de mercadorias, um mercado próprio e específico. Além
do mais, o fluxo influi diretamente na valorização do lugar onde a unidade mercantil se
localiza, influenciando uma possível negociação (entrada na dinâmica do ajuntamento,
aluguel, venda) e a diversificação das atividades ao redor (alimentação, vestuário, semijoia,
eletrônicos).
Este tipo de mercado tem fronteiras construídas socialmente, do mesmo modo que a
direção do fluxo de consumidores. Este fluxo é definido por uma rede de agentes e
instituições em constante interação, mudança de rotas e, geralmente, extrapola as fronteiras
políticas dos estados nacionais a partir da distribuição global de mercadorias e da busca e
constituição de mercados atrativos. Por outro lado, em nível local pode resultar em uma
possível reação conflituosa de interesses entre agentes públicos e privados pelo uso de
determinado lugar. Em determinados lugares, como o centro da cidade, a instalação do
trabalho e do negócio em via pública é visto como inadequado e prejudicial para a imagem e o
patrimônio cultural da cidade, provocando um enfrentamento direto entre o ajuntamento e o
governo municipal. Diante disso, um tipo de cenário é formado, que se estende desde a
aplicação de um modelo de acomodação por meio de acordos não oficiais ou subornos de
agentes públicos até por processos estruturais de ajuste jurídico-legal do uso do solo, além da
utilização da força policial e confisco das mercadorias (FREIRE da SILVA, 2014, p. 70;
PÉREZ, 2011, p. 124; DEVLIN, 2010, p. 40; NEVES, 2009, p.176; PINHEIRO MACHADO,
2008, p.111). Ou, como é observado nos trabalhos de Fernando Rabossi6 (2004; 2015):

6
Sua pesquisa destaca o comércio e o circuito de distribuição na fronteira Brasil-Paraguai quanto à interseção
entre as diferentes disputas de poder político, grupos econômicos e distribuição do varejo: “O comércio de
Ciudad del Este e os circuitos que nele se interserem, articulam importantes grupos de poder, emergentes
31

Os circuitos sacoleiros e os seus mercados constituem universos que são muito mais
que viração ocasional. E a dificuldade que temos para pensá-los vem de uma questão
teórica derivada das categorias que utilizamos para pensar o trabalho, nas quais o
comércio sempre foi um problema. Entre o trabalho e o capital, sabemos claramente
de que lado está o empregado de comércio e o dono da loja. Mas onde colocamos
esse exército de sacoleiros? Esses feirantes e esses camelôs? (RABOSSI, 2015, p.6).

Em pesquisa anterior, tentou-se interpretar uma típica rotina das trocas econômicas
empreendida pelo ajuntamento de “camelôs” e “ambulantes” e demais atores articulados ao
circuito comercial de Manaus. Naquele momento, constatou-se uma estrutura ordenada em
rede que articulava diversas formas, pouco visível, de micro-ocupações (ver nota 15) que
emergiam conexas com a ocupação amplamente referenciada e visível do ajuntamento. Tal
ordem modelar estava configurada pelo intenso fluxo de consumidores na área, atingindo o
comércio regularizado e o não-regularizado, os agentes públicos de fiscalização, os familiares
e conhecidos dos “camelôs”, os estrangeiros e nativos, por meio da distribuição das
mercadorias em via pública (seja regulada/ilegal), nas experiências compartilhadas do
contexto da situação local e da construção de uma rede de interação mútua e diversificada de
agentes e da apropriação do ambiente (OLIVEIRA, 2009; OLIVEIRA; VALLE, 2012).
Uma ordem social complexa e vívida, intensa e difícil de recortar, abrindo portas às
diversas análises e interpretações. As ocupações em via pública apresentam um convite
irrecusável para a aplicação da imaginação sociológica, especialmente a partir da perspectiva
interacional dos agentes estratégicos, da forma em que as instituições e os interesses se
interconectam e da organização das táticas cotidianas de construção social econômica do
tempo e do espaço. As ocupações permitem também representar a sociedade mais ampliada
pela micro-ordem da hierarquia das ocupações, dos acordos políticos, da negociação dos
conflitos, dos encontros sociais, da manipulação de objetos e rótulos, da disputa pelo espaço
mais adequado de venda, da construção da moralidade, das relações de parentesco, da forma
rudimentar de arranjos econômicos, das experiências de violência e das intercaladas ações
governamentais.
Há um quadro de pesquisas que toma fundamentalmente como seu objeto empírico a
ocupação em via pública. Seja por via etnográfica ou outras metodologias, estes estudos
abordam a perspectiva do circuito comercial além das fronteiras nacionais, dos novos canais
de distribuição de mercadorias, das intervenções urbanas nas zonas centrais das cidades, da

segmentos comerciais e uma variedade enorme de medianos e pequenos comerciantes autônomos, empregados e
dependentes. Em vez de partir de diferenças que os coloquem em circuitos ou dimensões separadas, talvez
entendamos mais sobre esse comércio e sobre o funcionamento desses circuitos os considerando conjuntamente
com aqueles que cruzam em Miami e em São Paulo ou as “feiras paraguaias” com os shoppings sofisticados das
cidades brasileiras” (RABOSSI, 2004, p. 281).
32

discussão de gênero que entrecorta cada vez mais a discussão da informalidade, dos modos de
enquadrar normativamente as tradicionais ocupações urbanas de camadas populares ou do
papel da força de trabalho do imigrante refugiado (entre outras, CROSSA, 2015; POTRICH;
RUPPENTHAL, 2013; KOPPER, 2012; PÉREZ, 2011; CROSS; KARIDES, 2007; VARCIN,
2007; MONTESSORO, 2006; MAFRA, 2005).
Essa literatura que poderia ser chamada de estudos sobre o mercado de rua, ou estudos
sobre o trabalho não-clássico, ou algo aproximado, tem em comum um vínculo com noção
convencional de informalidade. O conjunto empírico das investigações envolve múltiplos
agentes e seus interesses determinados, desde a disputa de sentido legítimo ou/e ideológico
que é atribuído ao espaço urbano a partir dos diferentes grupos sociais que reivindicam o seu
direito de uso até as relações de distribuição de mercadorias em via pública a partir de
organizações criminosas. De modo geral, quanto ao tratamento teórico, ao se falar no trabalho
e no negócio em vias públicas está se caracterizando um limite setorial específico que muitas
vezes é representado por uma função desviante da organização social, não estruturado, oposto
do sistema formal-legal, por isso descolado do processo de regulação jurídica e de inclusão no
sistema de proteção social.
Porém, é importante notar que as perspectivas teóricas e conceituais que tratam de um
fenômeno social pela noção da informalidade são amplas, de diversas abordagens e observam
a partir de modelos teóricos e analíticos que privilegiam ora o ambiente econômico e os
efeitos da política de regulação sobre a formação do mercado, ora a partir do aspecto das
relações de trabalhos que podem modificar a organização de classe e o vínculo da ação
coletiva, das novas formas de ocupações e de acesso à renda como parte da sobrevivência do
indivíduo e do sentido atribuído à dimensão do trabalho em ambiente com baixas
oportunidades de emprego. Assim ao termo setor informal institucionalizado por organismos
internacionais, popularizado pela mídia e fundado numa explicação funcional-estrutural,
desdobra-se em outros termos para uma explicação mais precisa da noção ampla de
informalidade.
Deste modo, fazem parte do conjunto explicativo, distintas abordagens que
interconectam/confrontam/complementam os termos economia informal e trabalho informal.
Na perspectiva da economia informal, utilizada oficialmente por alguns organismos
internacionais como a Organização Internacional do Trabalho (2002), o que deve ser
considerada é a unidade de produção e seu grau de formalização ou/e regulação pública. Neste
caso, mesmo que a unidade produtiva não seja estruturada adequadamente é importante que
seja formalizada contribuindo na queda do índice de economia informal. Toma-se como
33

exemplo, o salão de beleza na garagem do domicílio formalizado como microempreendedor


individual. Como uma estratégia de desenvolvimento parte-se do fortalecimento da regulação
de micro ocupações e da ampliação da formalização pela base da pirâmide, ao mesmo tempo
em que é aplicada uma política de inclusão financeira direcionada à camada mais pobre apta
para os negócios. Ou seja, o incremento de um sistema (público ou privado) de micro-finança,
que provê empréstimo de um pequeno capital para o início do negócio formal, deveria
incrementar a redução da pobreza na sociedade e das taxas das atividades informais na
economia. Em geral, a intervenção burocrática estatal deveria ser mais adequada,
principalmente quanto à regulação dos micros negócios, e a taxação de tributos sobre as
empresas deveria ser menos onerosa para facilitar oportunidades de negócios e empregos,
apresentando melhor ambiente para o livre mercado (DE SOTO, 1987; TOKMAN, 2011).
Por outro lado, o termo trabalho informal pode ser considerado a partir das discussões
na década de 70 e 80, pelo sentido de “acesso” ou “tempo de espera” para o mercado de
trabalho urbano formalizado (ver os trabalhos de ESCOBAR LATAPI, 1990; CUNHA,
2006). Esta é a forma de trabalho reconhecida socialmente e mais generalizada, centrada no
setor industrial ou comercial, com regulação jurídico-legal e com amparo da carteira assinada
como direito principal de proteção social. Neste sentido, diz respeito à forma de integração
social da população economicamente ativa. O termo trabalho informal adquire uma nova
dimensão de análise, após os anos 90, quando passa a ser considerada no arcabouço teórico
toda a mudança decorrente da reestruturação produtiva que se junta à análise sobre o
excedente da mão-de-obra não ter encontrado bons empregos. Ou seja, de um lado o
indivíduo em um contexto de adversidade econômica usa a lógica da sobrevivência em
alguma ocupação não assalariada para obter certa renda, de outro lado, as empresas
capitalistas que reorganizam sua produção e distribuição de bens adotam medidas de corte de
mão-de-obra, para aqueles que permanecem o aumento de produtividade com oferta de
contratos de baixos salários, ao mesmo tempo em que buscam mão-de-obra subcontratada por
meio de terceirização de suas atividades. Teoricamente este cenário é visto como uma “nova
informalidade” que está vinculada principalmente às diferentes formas de relações de
trabalho, implicadas à nova dinâmica de ajustes das empresas capitalistas. A precarização dos
contratos de trabalho, a terceirização das atividades, a ampliação do setor de serviços, as
novas formas de ocupação por tele-trabalho, a queda na taxa de sindicalização, entre outras
mudanças na dinâmica do emprego e da produção, fizeram do termo trabalho informal uma
nova referência ao voltar-se para o contexto do mercado de trabalho formal e protegido com
conteúdos de uma “nova informalidade”. Como resultado da intensa flexibilização das
34

relações de trabalho e da desregulamentação no mercado de trabalho, o conceito convencional


de setor informal vem apresentando uma inflexão e esvaziamento quanto ao seu
pertencimento fundado no mercado desregulado, invisível, subterrâneo, e demais sentidos,
para incorporar a nova dinâmica apresentada pelo contexto de mudanças no mercado regulado
e em seus desdobramentos (FILGUEIRAS; DRUCK; AMARAL, 2004; LIMA; SOARES,
2002; DRUCK; OLIVEIRA, 2008).
O debate a respeito da noção de informalidade tem seu fluxo e repercussão em
organizações sem fins lucrativos internacionais como StreetNet International7, Inclusive
Cities8, WIEGO9, é revisada na esfera acadêmica por um quadro teórico diverso e modelos
explicativos do desenvolvimento econômico e, em boa medida, nos gabinetes da esfera
pública a noção é vista pela sua face mais exposta nas vias públicas, como algo a ser
combatido por instrumentos de regulação dos territórios do trabalho e negócio em vias
públicas ou/e pela regulação das ocupações.
Neste sentido, constituiu-se uma literatura de categorias analíticas e modelos
explicativos composta pelo limite do par “formal” de um lado e “informal” de outro,
principalmente em torno das relações políticas e econômicas dos países “em
desenvolvimento”, mas em décadas mais recentes vem avançando sua análise sobre os países
“desenvolvidos”. No primeiro caso, vinculando o par de termos ao tipo de capitalismo
aplicado aos países não completamente industrializados, aos possíveis caminhos para a
integração social das camadas pobres, ou à regulação e controle de certas ocupações que
ganham importância em uma economia em rede. Por muito tempo, o foco da literatura sobre o
“informal” recaia na maioria das vezes no viés vinculado às práticas esporádicas, segmentadas
e de “viração” de sustento diário das camadas sociais pobres desassociando da análise a
motivação do lucro, a busca de oportunidade fora do assalariamento, o desejo de autonomia
da ocupação, da dominação simbólica sobre o espaço público, entre outros.

7
A ONG StreetNet Internacional dos vendedores em via pública foi lançada em Durban, África do Sul, em
novembro de 2002. Seus membros são os sindicatos, cooperativas e associações que representem a organização
dos camelôs, vendedores de feiras e vendedores ambulantes pelo mundo, que tem o direito de fazer parte como
sócios da StreetNet Internacional. O ex-presidente do Sincovam, hoje vice, participou de algumas reuniões da
StreetNet realizadas no Brasil.
8
Lançado em 2008, o projeto Inclusive Cities é um dos parceiros da WIEGO e visa fortalecer as organizações
baseadas em trabalhadores pobres associados, atuando em áreas como organização, análise política e advocacia.
A fim de assegurar que os trabalhadores urbanos informais tenham os instrumentos necessários para se fazerem
ouvir dentro de processos de planejamento urbano.
9
Women in Informal Employment: Globalizing and Organizing – WIEGO. É uma rede global cuja finalidade
consiste em garantir meios de subsistência para os trabalhadores pobres, especialmente as mulheres, na
economia informal. Pretende dar às organizações associadas pelo mundo, de trabalhadores informais, voz,
visibilidade e validade. Além de viabilizar mudanças através do fortalecimento da capacidade de ampliação da
base de conhecimento e influência nas políticas locais, nacionais e internacionais.
35

Desse modo, o pêndulo das análises governamentais e acadêmicas sobre o par


“forma/informal” se movimentaria, ora analisando ausência e deficiência do Estado de Bem-
Estar na tentativa de integrar de forma ampla as camadas populares ao amparo das instituições
de seguridade social e ampliação dos direitos a partir do trabalho regular, legal e com efeitos
nos vínculos de sociabilidade; ora, analisando as formas de regulação estatal das atividades
econômicas enfatizando a lacuna real da lógica de mercado, o que impediria a melhoria dos
padrões de desenvolvimento social e econômico na América Latina10.
No aspecto da política pública do planejamento urbano local, o par de termos é
apropriado pelos tomadores de decisão nos gabinetes do executivo municipal, aplicando de
modo insistente a distinção dicotômica entre o “formal/informal”. Além de fortalecer o
sentido negativo do termo “informal” por meio da vinculação à desorganização espacial
urbana, à sujeira da via pública, do ilícito/ilegal e da sonegação fiscal. As pesquisas
demonstram que no plano local a política de ordenamento urbano tende a criar estratégias de
violência simbólica, física, de controle e gestão do território e das atividades econômica para
lidar com um significativo contingente trabalhando e negociando nas vias públicas das
cidades, fora da regulação estatal. Porém, na maioria das vezes sem relacioná-los aos
comerciantes já estabelecidos e regulados (ver sobre a violência e a gestão do território em
MAFRA, 2005).
Neste ponto, Ananya Roy (2005) discute como o “informal” urbano aparece no
planejamento urbano local e está vinculado a uma problemática de uso do espaço público (ou
de lugar específico como a zona central), frequentemente gerenciada desse modo pelos
agentes públicos de plantão. Para este tipo de operador do planejamento urbano seu objetivo é
motivado pela tentativa de restaurar determinada “ordem” na paisagem urbana. Ou seja, é

10
No artigo de Manuela da Cunha (2006) é articulado o debate histórico da dualidade formal versus informal e a
noção de “setor” aplicada ao debate nas instituições internacionais, como o Banco Mundial. A autora também
apresenta como, no meio acadêmico, as relações entre os diversos esquemas explicativos sobre teoria da
dependência, marginalidade e desenvolvimento no continente latino-americano formaram um campo de disputa
pela noção e sobre os modos de sua superação. A discussão fundamental em termos de crítica e análise sobre os
efeitos perversos do capitalismo brasileiro, seu efeito dual e de incompletude está em Francisco de Oliveira
(2003). Sua crítica ao que chamou de razão dualista, que desqualifica a imposição da abordagem binária,
debruçada sobre a existência de dois mundos cristalizados e irreconciliáveis (um arcaico e outro moderno) sem
que se leve em conta a perspectiva do tipo de capitalismo que se desenvolveu no interior da sociedade brasileira.
De igual modo, na discussão de Escobar Latapí (1990) é retomada a história sobre as variantes do termo
“informalidade”, analisando o papel do Estado na formação da economia política latino-americana, propondo
uma agenda de pesquisa para o avanço dessa questão dualística. Essas três discussões e análises são importantes
e indicativas, sem esgotarem o intenso e amplo debate sobre as condições de desenvolvimento social e
econômico na América Latina. Estendem-se ao longo da segunda metade do século XX, focalizando e tentando
compreender os fenômenos urbanos rotulados de informais. Tomam-se aqui estas leituras como indicações
pertinentes para quem deseja compreender e desdobrar por estas perspectivas o panorama histórico e social,
tanto no Brasil quanto no restante da América Latina, que envolve esse par de termos e evitar, assim, o viés da
dualidade ou a sua naturalização.
36

uma questão de oportunidade ímpar mobilizar o deslocamento das atividades não reguladas
em via pública para o interior dos mercados regulados e liberar a paisagem urbana para os fins
de controle do espaço (ROY, 2005, p. 148).
No plano global, quando discute a conexão entre a política de microfinança e a política
de desenvolvimento, a autora vê que tal mobilização e ideologia revelam-se como provocação
de um “capitalismo da pobreza”, isto é, o aspecto complexo de um desenvolvimento do
milênio com sua interconexão entre uma economia de desenvolvimento subjacente (com “d”
minúsculo) ao capitalismo global e uma ideologia de desenvolvimento sobreposta (com “D”
maiúsculo), que segue políticas culturais e pacotes de formulação de políticas usados para
organizar e legitimar práticas de caráter capitalista que enfatizam integração, inspiração e
expropriação. Uma política de desenvolvimento entrincheirada no tripé do discurso
acadêmico do pós-desenvolvimento, na promessa de liberdade associadas às formas de
inclusão individualizadas, empreendedoras e de um “populismo neoliberal” direcionada
principalmente para camadas pobres (ROY, 2010, p. 22).
Assim, a incorporação do caráter de “problema” urbano para este cenário passa a
mobilizar a agenda pública local em torno de uma solução política e econômica viável. Neste
sentido, a ação governamental deve ser realizada com o fim de desestimular a ocupação das
vias públicas para este perfil de comércio de varejo de mercadorias e serviços a fim de
incentivar outra proposta de ordem urbana. Como parte da ação, abre-se a possibilidade de um
direcionamento que mobiliza os atores-alvos da transferência/deslocamento à adesão de
projetos regulados pelo próprio governo local, como expressão do exercício do controle
social, aliado à proposta de uma nova dinâmica econômica que determina o uso dos espaços
urbanos para novos perfis de micronegócios e de empresários formalizados. Um sentido
ideológico altamente positivo tende a ser associado ao termo “formal” e “setor formal”, como
elemento qualificador de função integradora do desenvolvimento desejável da estrutura social
e econômica. Enfim, O limite para a ordem social legal/regular que é requerida, para a
“solução” do desenvolvimento e, principalmente, para a manutenção da conformidade da
norma jurídica como princípio universal.
Ao contrário, o termo “informal” concentra um forte caráter qualitativo no limite do
marginal e do indesejável. Sendo assim, convencionou-se que os termos demonstram-se
irreconciliáveis pelo forte caráter social e econômico como cada qual é compreendido, pela
capacidade de produzir identidades e estruturas próprias, com conteúdos específicos. De um
lado, o sentido da economia e do trabalho legalizado formalmente, com amparo social e
regulamentado, taxado oficialmente pelo governo e com relações de trabalho sob garantias
37

contratuais legais, fundada nos direitos trabalhistas e inserida na lógica de mercado; do outro
lado, seu antípoda. Em sentido estrito, convencionalmente o conteúdo da rotulada “economia
informal” ou/e “ocupação informal” tende a ser vinculado às camadas pobres urbanas, na
maioria das vezes como resposta ao desemprego de longa duração, como ação de
sobrevivência e de rotina cotidiana, ou mesmo quando envolve contratos com o mínimo de
direitos trabalhistas e garantias sociais, carregando fortemente o sentido da ilegalidade,
injustiça e imoralidade (NORONHA, 2003)11.
Os debates mais recentes apontam na direção do continuum entre os termos “formal” e
“informal” sob uma perspectiva não-setorial. Como no trabalho de Manoel Malaguti (2000)
que, ao abordar as relações de trabalho contemporâneas, ressalta a necessidade de uma
apreensão empírica e teórica de maior consistência sobre a chamada questão da
informalidade, isto é, a importância de um refinamento na distinção entre “informalidade” e
“setor informal”. Para o autor, a noção de informalidade é mais abrangente, enquanto a
distinção por “setor” mostra-se falha e impõe muitas dificuldades para a análise da pesquisa.
Nisto se destaca o argumento no qual o mercado formal (de assalariados clássicos) e o
mercado informal (de autônomos) coexistem, subsidiam-se, interpenetram-se e são
indissociáveis em suas relações. É exemplificado pelo fato de um funcionário público
(emprego formalizado) que durante seu expediente vende biscoitos, cosméticos, vestuário no
próprio setor de trabalho ou que, nos fins de semana, vende refeição na praça (ocupação
“informal”). Esta é uma perspectiva de análise que não toma a exclusividade do
enquadramento setorial ou do desprezo pela camada popular como variável aglutinadora de
mudança.
O autor contesta o “mito da pequena empresa” e o crescente discurso do
empreendedorismo como sendo, na prática, um modo de esvaziamento político movido pela
relação aproximada entre a proliferação das pequenas empresas e a implosão das conquistas
sociais pertinentes às relações de trabalho reguladas. Assim, os vínculos de subcontratação, da
ausência de contratos formais de trabalho e das transações de mercadorias ilegais (ilícitas ou
não), permitem perceber que, muitas vezes, o que se vê são relações de produção e de trocas
estruturando-se na forma de um continuum e não em uma forma bipolar ou setorial como em

11
A diversidade da noção de informal impõe um grau de complexidade que dificulta a própria formação de um
conceito aplicável a determinado fenômeno social, refere-se a um agregado confuso de situações, trabalho,
economia e direitos, segundo Eduardo Noronha (2003) que discute a relação entre padrões mínimos de
legalidade e as relações contratuais de trabalho (contratos eficientes economicamente, contratos legais
juridicamente e contratos justos do ideário popular). A discussão é pertinente e fundamental por introduzir os
diferentes significados – popular, legal e econômico – na diversidade de processos que geram as relações de
informalidade no Brasil.
38

um modelo “formal” versus “informal” (MALAGUTI, 2000, p. 86; ver também GUHA-
KHASNOBIS; KANBUR; OSTROM, 2006, p. 5; GHEZZI, 2010, p. 115).
Em recente estudo de caso, Roberto Véras (2013) discute a respeito de uma cadeia de
produção, comércio e serviços do polo de confecções do agreste de Pernambuco, onde
demonstra as relações de trabalho das “facções” (uma costureira ou um coletivo familiar e
domiciliar), de unidades de costura domiciliares enquanto unidades produtoras com
características de informalidade, subcontratadas de grandes firmas de tecido da região. Na
atividade produtiva, como elo da cadeia, nota-se quase nenhuma separação entre trabalho e
propriedade dos meios de produção (o proprietário trabalha diretamente na produção e é
auxiliado frequentemente por familiares e, em alguns casos, com trabalho assalariado). A
pesquisa ainda enfatiza o sentido cultural como fator importante para a expansão da produção
local, na medida em que essas unidades já detinham o conhecimento tácito sobre a produção
de vestuário.
Este demonstra que a dinâmica das atividades desenvolvidas tem primordialmente a
característica do tipo familiar, domiciliar e informal, segundo o autor. O desenvolvimento do
polo, em uma região tipicamente rural, proporcionou intensos intercâmbios materiais e
simbólicos numa troca que teve como efeito imediato a incorporação de um caráter mais
urbano industrial para a localidade. Neste contexto, ocorre um processo de institucionalização
a partir do desdobramento das atividades desenvolvidas na região, como sindicato, agências
de financiamento, representantes comerciais, associações, conflitos trabalhistas e ambientais,
alterando de certo modo as configurações anteriores (VÉRAS de OLIVEIRA, 2013, p. 269).
Para compreender esta relação como um continuum, de recíproca e imbricação entre
os chamados “setor formal” e “setor informal”, que, algumas vezes, torna-se ausente na
interpretação da noção de informalidade ou é esvaziada na sua trajetória temporal, é
necessário que se pese a capilaridade das práticas ocupacionais mais difusas e o alcance
múltiplo do sentido dado para as ocupações diárias fora do assalariamento. Estas são
observáveis tanto no escritório de uma grande firma quanto no carro-lanche em via pública;
ou, nas facções de vestuário em uma cidade do sertão pernambucano ou nos “costureiros
bolivianos” terceirizados em São Paulo. Convém considerar que o sentido assumido do
“trabalho informal” estruturado convencionalmente na sociedade brasileira não se enquadra
exatamente aqui ou ali especificamente, porém se organiza em diversos lugares, assume
lógicas diferentes e, por isso, se faz visível em situações simultâneas e conexas (no limite da
legalidade/ilegalidade, da flexibilidade/rigidez dos contratos de trabalho, nas relações de
39

poder legítima/ilegítima, dos elos entre produção e distribuição que envolve a longa cadeia
produtiva global, dentre outros). Como destaca Malaguti12,

[...] a sobrevivência do trabalhador parece depender da multiplicidade de suas


atividades, de sua atuação simultânea como “assalariado” e “independente”. Tudo
leva a crer, então, que procedimentos e atividades “informais” são indispensáveis à
obtenção do “Rendimento Mínimo Necessário” à sua sobrevivência. (MALAGUTI,
2000, p. 132).

Por outros termos, a discussão proposta por Adalberto Cardoso (2016) imprime maior
visibilidade política ao debate quando trata das várias formas de políticas públicas ao longo
das últimas décadas. Elas assumem como objetivo principal o combate a uma dada “condição
informal” que incide sobre a força de trabalho brasileira. Este afirma que,

As muitas políticas projetadas no Brasil nos últimos anos pareciam ter contribuído
para a redução da informalidade, em termos relativos e absolutos. No entanto, a
informalidade continua a ser a principal forma de alcançar os meios de vida de quase
40% da população. Mesmo que milhões tenham sido removidos desta condição,
ainda existem milhões de outros que não serão alcançados por qualquer política
específica, simplesmente porque toda a sua sociabilidade foi formada no âmbito da
informalidade. Habitação, acesso à eletricidade e outras infraestruturas urbanas,
relações sociais e relacionamento com o Estado - tudo é informal. Como são os
negócios daqueles que possuem um. (CARDOSO, 2016, p. 336).

Cardoso (2016) irá argumentar, dentre outros pontos que, os vários instrumentos
legais, em sua maioria são oriundos da esfera federal do Ministério do Trabalho Emprego,
foram instituídos (marcando a intervenção do Estado no tratamento de um “problema”) como
reconhecimento da existência das múltiplas informalidades em curso no mercado de trabalho
brasileiro. Tal multiplicidade requer ações que também sejam múltiplas, o que provoca, neste
sentido, o agrupamento em três grandes linhas de políticas públicas no combate à
informalidade: a) políticas de supervisão e fiscalização da legislação e formalização de
contratos de trabalho; b) flexibilização da legislação trabalhista; c) políticas destinadas a
aumentar o número de postos de trabalho e de geração de renda, compreendendo uma
variedade de iniciativas, como o microcrédito à simplificação tributária, incentivos fiscais de
diferentes tipos e política de aumento real do salário mínimo.
Neste caso, abre-se uma possibilidade de compreender o papel destacado que
protagoniza entre essas políticas a chamada Lei do Microempreendedor Individual (MEI), o

12
Igualmente oportuna é a discussão de Simone Ghezzi (2010) que também argumenta a respeito da falácia
dicotômica existente entre os setores formal/informal numa região produtora da Itália. Mostra os
entrelaçamentos nos mais diferentes níveis que operam as firmas de trabalho em rede, das pequenas cidades até a
economia urbana das grandes cidades italianas, num relacionamento contínuo em redes e práticas informais.
40

motivo de ter sido a mais incentivada e focalizada pelas diferentes instituições públicas e seus
agentes, nos vários níveis da administração pública. Ela tem orientado fortemente a política de
oportunidade de renda na esfera dos governos municipais, como resposta à diminuição de
postos de trabalho ou/e incentivo à condição de desemprego de longa duração. Em suas
próprias palavras, quando fala dos efeitos da MEI, Cardoso demonstra que,

[...], as políticas têm um efeito triplo: (i) reduz a zero o custo de entrada na
formalidade; (ii) diminui consideravelmente o custo de permanência na formalidade
(0,9% ou menos do faturamento anual dos que estão dentro do limite de 60 mil
reais); (iii) oferece incentivos importantes aos trabalhadores que anteriormente não
estavam cobertos pela pensão pública ou sistema de saúde. (CARDOSO, 2016, p.
333).

Por fim, o autor afirma que o trabalho assalariado como um objetivo coletivo da
estrutura social moderna não foi alcançado por todas as pessoas em condições de realizá-lo,
por diversas questões sociais e históricas inerentes à sociedade latino-americana, envolve a
difícil conexão entre a escala de crescimento das oportunidades de oferta de emprego (lado
exógeno) e a aspiração pessoal e sentido dado ao trabalho assalariado pelas pessoas que o
procuram ou desistem deste (lado endógeno), para buscar outras formas de ocupações e
oportunidade de renda (CARDOSO, 2016).
O universo do trabalho, então, é recortado e evidenciado cada vez mais pela dimensão
global dos negócios, pela nova dinâmica na forma de administração gestionária do poder
público (gerenciando as questões sociais do público), do seu conteúdo estritamente legalista,
dos discursos que enfatizam a necessidade do crescimento econômico tomando por base os
mecanismos indutores de contratos mais flexíveis e de padrões mais individualizados das
relações de trabalho, das condições de pressão e precariedade nos locais de trabalho, dentre
outros. O emprego assalariado e o contrato de trabalho com carteira assinada são as formas
clássicas e tradicionalmente aceitas como obtenção de renda, ocupação e contrato legalizado,
no entanto, cada vez mais novas formas e contrárias a estas assumem o lugar e determinam
novos conteúdos no universo do trabalho. A consequência tem um efeito direto a partir do
robustecimento das relações mais dúbias e nebulosas entre o que é percebido como “informal”
e aquilo que é chamado de “formal” (mesmo no seu sentido de legalidade e legitimidade).
É neste pano de fundo que se deve levar em conta, também, a expansão de programas
e aplicativos tecnológicos tratados como referência de autonomia de trabalho e liberdade de
tempo, os quais reforçam cada vez mais o impacto das tecnologias de comunicação e
41

informação de modo mais penetrante e modificando a forma como o indivíduo pensa, atribui
sentido e pratica sua ocupação e interação social.
Em vista disso, cabe pontuar a expansão de outra forma de trabalho ambulante e
atividade econômica, reconhecida legalmente, que corrobora com o desmanche das relações
de assalariamento e vínculos empregatícios, isto é, a ocupação realizada pelas vendas diretas
das chamadas consultoras de porta em porta, ou em local que aparenta ser loja, embora não
seja. É o que discute, entre outros pontos, a pesquisa de Ludmila Abílio (2011) ao analisar o
trabalho realizado pelas revendedoras de produtos cosméticos e perfumaria, aquilo que esta
denomina de “make-up do trabalho”. Enfatizando a força de trabalho fundamental do
contingente feminino no circuito de distribuição e organização de revenda, no contexto das
novas formas de desregulação e da crescente perda de proteção trabalhista, mesmo que esteja
ligada a uma grande corporação empresarial. Como enfatiza em sua análise,

Empreendedorismo, desregulações do trabalho, precarização: elementos que são


centrais para a análise dessa atividade. A dimensão do exército de vendedoras leva-
nos ao que Harvey definiu como a organização através da dispersão (Harvey,
1992). Como vimos, a atividade sem pré-requisitos ou métodos, espraiada em
dimensões extraordinárias, está muito bem amarrada e controlada do lado de dentro
da fábrica. A revenda também desvela a potencialidade contemporânea de a
informalidade realizar-se literalmente pela perda de formas do trabalho (ABILIO,
2011, p. 66).

A autora argumenta que as novas configurações da exploração do trabalho fazem uma


inflexão sobre as regulações que depois do pós-guerra mediavam certa civilidade entre capital
e trabalho. Agora, as análises sociais precisam retomar e atualizar a problematização sob o
aspecto das antigas formas de exploração e das novas dimensões de acumulação do capital.
Esta demonstra, ainda, como que o resultado da nova dimensão de acumulação capitalista se
relaciona à própria dificuldade de definir as relações de produção e de distribuição, quando se
torna cada vez mais complexo reconhecer quem trabalha para quem e em quais condições. Por
exemplo, a pressão feita pela classe empresarial local e pela mundialização do capital para a
implantação das normas de terceirização nas relações de trabalho, coisificando o trabalhador e
estabelecendo essa indiscernibilidade e condições nebulosas para o assalariamento (ABILÍO,
2011, p. 66).13

13
Em outra discussão, a autora trata do estilhaçamento dos contratos de trabalho e dos vínculos de emprego que
ora são mediados por plataformas tecnológicas de serviços e de alcance global, provocando uma subsunção real
do trabalho, ao que ela aplica o termo “uberização” do trabalho. “A uberização, tal como será tratada aqui,
refere-se a um novo estágio da exploração do trabalho, que traz mudanças qualitativas ao estatuto do trabalhador,
à configuração das empresas, assim como às formas de controle, gerenciamento e expropriação do trabalho”. O
que de certo modo torna incerto, indefinido e nebuloso quem é quem neste universo do trabalho mediado por
aplicativos tecnológicos de serviços individualizados (ABÍLIO, 2017).
42

Os estudos internacionais demonstram como são direcionadas e como se cruzam as


relações políticas e interesses locais na organização de novos mercados e no
reposicionamento da distribuição e controle de microdistribuidores de mercadorias e a
prestação de serviços na via pública. Os três estudos a seguir, Varcin (2007), Pérez (2011) e
Martin (2014), apresentam, sob abordagens diferentes, a perspectiva representativa da
dimensão “glocal” do fenômeno.
A pesquisa de Recep Varcin (2007) referente à natureza do conflito entre o mercado
de comércio ambulante (tipo histórico de feira itinerante turca) e as autoridades públicas de
Ankara, na Turquia, confronta e critica o argumento que o trabalho informal em via pública se
estabelece por formas extremamente individualistas e competitivas. Ao contrário, demonstra
que no momento da implantação de determinadas ações públicas do governo local, com o
objetivo de suspender e controlar a permanência nas ruas, colocando em risco a manutenção
dessas ocupações, é possível que ocorra o estabelecimento de padrões de conflito e
cooperação de maior complexidade do que aqueles estudados em contextos de trabalhos
formais.
Nesta abordagem, o autor defende a tese de que o conflito se estabelece quando o
interesse político da municipalidade tenta incorporar sob seu controle as atividades informais.
Esta ação não somente sofre contestações como encontra formas de resistência entre os
micros e pequenos empreendedores dessas feiras, que discordam da rígida regulação imposta
pelos interesses dos agentes públicos de Ankara. Assim, a disputa se intensifica porque a
autoridade local cria e tenta manter uma política de governabilidade desejosa do controle e
ordenamento da atividade econômica na cidade (VARCIN, 2007, p. 109).
A pesquisa discorre sobre o fato do poder público ter interesse político em incorporar
os empreendimentos informais, inclusive o de microescala. Além da produção de receita aos
cofres públicos está o interesse do controle estatal sobre as formas de produção e de
distribuição dos bens e serviços urbanos. No entanto, há resistência ao processo de
incorporação devido aos custos de permanência na formalidade (em termos de impostos, taxas
e custos regulatórios) que superam os custos na informalidade. Somando-se a isto, o estudo
reconhece a exigência de mudança em práticas tradicionais de mercado campesino para novas
práticas de comércio em mercados urbanos, como relatado por Varcin, “Consistente com sua
política pública, a municipalidade intervém em vários aspectos do comércio local: checando
preços e configurações; controlando a distribuição de barracas; e, organizando e
reorganizando os mercados” (VARCIN, 2007, p. 122, tradução própria).
43

De acordo com Varcin, a administração pública local ao impor que as atividades em


via pública sejam transferidas, logicamente seus bens e serviços, para áreas cobertas
específicas ou em áreas designadas e com supervisão de fiscais, demonstra forte interesse em
obrigar os comerciantes a seguirem as leis e regulamentações governamentais. Deste modo, a
intervenção estatal vem tentando modificar certas tradições e características do espaço
urbano, passando a ser este o direcionamento e ação como elemento importante e recorrente
da vida urbana contemporânea (VARCIN, 2007, p. 113).
Em resumo, a crítica segue na direção daquilo que pode ficar encoberto pelo conflito,
isto é a legitimidade dessas políticas de controle e ordenamento, na medida em que podem
trazer maiores benefícios para uma classe em detrimento de outra. Os projetos de intervenção
e as práticas de regulação e planejamento do espaço urbano geridos pelo poder público
municipal interagem com os diversos atores envolvidos no conflito, legitimam o poder da
municipalidade e pressionam aqueles que vivem do trabalho, de suas ocupações “informais”
nas vias públicas (VARCIN, 2007, p. 120).
A proliferação de atividades geradoras de renda no limite da regulação estatal, como
uma das dimensões do trabalho e do negócio em vias públicas, produz e distribui mercadorias
e serviços para a população urbana há muito tempo, mesmo antes que se engendrasse um
termo oficial e suas condições burocráticas para o que se definiu e se estruturou como
atividade regulamentada e “formal”, e posteriormente sua noção antípoda. Deste modo, os
formuladores de políticas públicas reiteradamente costumam não levar em consideração, em
decisões centralizadas e de caráter autoritário, modos viáveis e possíveis de integração dessas
atividades ao conjunto econômico e social da própria cidade.
Entretanto, o resultado das ações mais recentes demonstra que, em parte, as diferentes
mobilizações, os enfrentamentos diretos e as performances de certo grau de solidariedade,
entre aqueles que vivem do trabalho e do negócio em vias públicas, possibilitou tanto um
tratamento ao tema na agenda política da municipalidade quanto certa inflexão na aplicação
da ação governamental. Isto significa considerar que as transformações no circuito global da
distribuição e produção de mercadorias nos últimos vinte anos, a proliferação de
representação coletiva como um sindicato e uma associação do ajuntamento de “camelôs” e
“ambulantes”, as reivindicações e sugestões reivindicadas por este ajuntamento e,
principalmente, as discussões e usos de novos formatos de convencimento e de cooptação que
minimizaram a ação governamental sob o mecanismo da repressão violenta decorrente do
44

poder de polícia14. Em recente artigo, Daniel Hirata problematiza e discute as formas dessa
transição, demonstrando o tratamento do comércio de rua como “problema”, a partir do “tipo
de regulação que permite a circulação e o consumo de bens vendidos na rua” como aquele
momento de transformação das formas de ação governamental e da conformação de novos
mercados para essa atividade (HIRATA, 2014, p. 97-98).
Contudo, o que aparece como uma transformação desse posicionamento da política
local a respeito do chamado “problema”, em todo caso, é uma proposta que surte efeito
apenas performático, pontual e de movimento superficial, sem encaminhamento para uma
ampliação de direitos e melhores oportunidades à todos que vivem da ocupação “informal”
em vias públicas. A aplicação de uma política pública nesse perfil, na maioria das vezes, tem
como resultado um limite de curto alcance, relacionada à áreas específicas e, principalmente,
por ser direcionada à grupos determinados pode ser chamada de uma “política pública
focalizada” (pormenorizada mais adiante).
A pesquisa de Miguel A. Olivo Pérez (2011), na capital do México, enfatiza as
contradições e os embates da ocupação ambulante, que este enquadra como “trabalho não-
clássico”, instalado no centro histórico da cidade e afetado por reformas e reordenamentos no
lugar. É preciso destacar primeiramente que o quadro teórico da sua investigação está
vinculado ao conceito de trabalho ampliado e de um sentido de identidade baseado na defesa
do seu trabalho (o trabalho e o negócio em vias públicas). A construção teórica do conceito de
“trabalho ampliado” envolve a noção de “trabalhadores não-clássicos”.
O conceito de “trabalho ampliado” é definido e discutido por De la Garza (2011) como
nova abordagem para os estudos da categoria Trabalho. Em síntese, deve ser entendido no
contexto ampliado e contemporâneo do cenário de controle do processo de produção de bens
e serviços que introduz a figura daquele que não é nem o trabalhador e nem o patrão, mas é o
cliente como aquele que influencia no processo de como se produz, distribui e consome bens
e serviços. Tal contexto, por sua vez, desdobra-se em trabalho desterritorializado, na
subversão do conceito de jornada de trabalho e espaço produtivo e, principalmente, na
produção de símbolos, aplicativos e comunicação, na imaterialidade do trabalho. Convergindo
para uma complexa rede de ocupações e atividades diversificadas como o trabalho não
assalariado, por conta-própria, em família, tele-trabalho, entre outros, em uma dinâmica que
introduz especificidades que dificultam a distinção mais clara das características do próprio
trabalho como algo universal. Por fim, o “trabalho ampliado” implica na mudança da

14
A mudança institucional que opera de tal modo por mecanismos de negociação e combinação entre atividades
formais e da informalidade também merece atenção na pesquisa de Freire da Silva (2014).
45

reprodução da mão-de-obra diferenciada da produção material fabril, ou seja, a interface entre


trabalho e não-trabalho e o aumento da importância dos trabalhos não-industriais como forma
de trabalho não-clássico, fundamentam inicialmente a categoria de Trabalho de modo mais
ampliado no período recente (De la GARZA, 2011, p.13-20, adiante darei destaque).
É com este pano de fundo que deve ser analisado o conflito característico sobre o
controle do espaço urbano e o enfrentamento violento entre o grupo de ambulantes e o poder
público municipal em Pérez (2011). Este põe em relevo a implantação das políticas de
reforma urbana e zoneamento turístico na área central e histórica da Cidade do México, como
o momento crucial do choque entre o interesse da municipalidade na mudança/realocação e o
interesse do grupo de ambulantes em persistir com suas atividades no local, vistos pelo prisma
de trabalhadores não-clássicos.
A execução do Programa de Reordenamento Urbano evidenciou disputas que se
manifestavam concretamente tanto no contexto da interação estrutural entre os diferentes
atores do ambiente quanto na rotina mais dinâmica da vida cotidiana deles, os ambulantes. A
expressiva utilização da força policial ao longo do ano atuou para minimizar as contestações
dos ambulantes, além de espalhar as atividades pelos limites da área do Programa (PÉREZ,
2011, p. 153). No entanto, a política neoliberal que direcionou o Programa, longe de
responder plenamente ao interesse dos agentes públicos demonstrou que, para alcançar o êxito
pretendido, deveria repensar sua estratégia de ação autoritária. Após meses de repressão,
muitos dos ambulantes se realocaram em perímetros próximos ou esporadicamente se
aventuravam em determinadas horas do dia, correndo riscos, tentando comercializar na área
que lhes era considerada imprópria. Alguns foram procurar por outras ocupações, outros
continuaram como ambulantes em diferentes áreas da cidade. Entretanto, a maioria persistia
em ocupar as ruas do Centro Histórico, burlando a vigilância o quanto podia. De outro modo,
o papel desempenhado pelas instituições coletivas foi determinante para incentivar a
esperança de retorno e contribuir com as dinâmicas de ações próprias durante a persistente
disputa pelo lugar (PÉREZ, 2011, p. 153).
O contexto da prolongada situação de desemprego, da péssima condição de trabalho
no subemprego e da queda acentuada na renda em comparação às receitas obtidas nas ruas do
centro histórico, contribuía para a expectativa do retorno que, segundo a pesquisa, deixava
entre os ambulantes “uma espécie de impasse de alerta pelo regresso enquanto se dedicavam a
outras atividades” (PÉREZ, 2011, p. 154, tradução própria). Em suma, a pesquisa de Pérez
aborda a ação governamental encarregada de retirar e ameaçar o grupo de ambulantes,
expulsando-os do ambiente alvo das reformas urbanas. Tornando possível demonstrar que, de
46

fato, as diversas ocupações representadas pelo trabalho e negócio exercido em via pública
podem ser analisadas a partir da identidade criada pelas características do próprio trabalho e
tomando como referência o lugar no qual este é executado. Cabe destacar que essa ordem da
ocupação em via pública tem diferentes níveis de autopercepção e hierarquias relacionais e de
comando. Por outro lado, é possível notar, a partir das contestações coletivas e
enfrentamentos, certo grau de solidariedade e a instituição de representação coletiva entre eles
(mesmo que de caráter clientelista). Pérez relaciona isto à disposição da vida cotidiana do
ambulante como sendo carregada de ações criativas, de bastante significado para a modelação
e a transformação de estruturas mais amplas, como resposta diante dos problemas que os
próprios ambulantes tendem a definir coletivamente como seus (PÉREZ, 2011, p. 132).
Outro estudo recente sobre o tema é a investigação de Nina Martin (2014) realizada
em 2013, que traz uma discussão que interliga pontos específicos das relações de trabalho, da
ação governamental e do uso do espaço urbano. Sua tese centra-se na questão: quem tem
direito de usar o espaço urbano, para qual propósito e sob quais condições? O estudo é
desenvolvido na cidade de Chicago (Illinois), nos Estados Unidos, colocando em contraste
grupos de ambulantes que vendem e preparam alimentos na rua e um grupo representado por
chefs empreendedores da alimentação gourmet em foodtrucks. A pesquisa focaliza a mudança
de percepção da imagem e da ação da política pública sobre a paisagem dos centros urbanos
contemporâneos, provocada pela privatização e regulação do uso do espaço público. Isto não
apenas cria uma política de contestação entre grupos sociais como também pode levar a uma
mudança mais acentuada a respeito do trabalho executado na cidade, no direito ao uso do
espaço público e na percepção de segregação dos espaços.
O argumento principal discute (seguindo a crítica de David Harvey, Mike Davis,
Michael Smith) que a ideologia neoliberal incrementa o discurso e a prática das políticas
urbanas ao redor do mundo, implementando a desregulação das relações de trabalho, a
privatização do serviço público e a “devolução” do espaço urbano a determinadas atividades
econômicas e de residentes. A intenção é fazer com que as cidades busquem cada vez mais
avançar no “empreendedorismo” cultural, prontas para receber investidores, jovens
empreendedores e inclusive novos residentes, provocando certas mudanças para a
gentrificação dos espaços urbanos (MARTIN, 2014, p. 1.868). Promovida pela ação tanto da
municipalidade quanto do poder nacional, tais políticas incluem estratégias de reordenação e
reconstrução do centro da cidade, de estádios esportivos, de avenidas para eventos e festivais
culturais, incorporando ao espaço urbano os novos modos de lazer, turismo, consumo e
diversidade; criando as condições para a chamada “cidade criativa”, uma cidade aberta para
47

os negócios criativos e inovadores (a pesquisadora apresenta no artigo a discussão e crítica


sobre a noção de “cidade criativa” e suas contradições).
Neste contexto, os foodtrucks se encaixam e se posicionam no campo definido pelas
novas práticas de lazer e consumo de jovens profissionais empreendedores. Em Chicago,
segundo Nina Martin, estes se distinguem, em grande parte, por serem brancos, nativos e
treinados em escolas de culinárias, por representarem a visão de “criatividade” e,
conjuntamente, terem sido recebidos com entusiasmo por muito dos vereadores da cidade, que
mudaram as regras de uso do espaço público para satisfazê-los (MARTIN, 2014, p. 1.868).
Em contraste, os imigrantes que vendem alimentação nas ruas (com carrinho de mão,
barracas, caixote, entre outros, e em Manaus a imigração de haitianos, peruanos e
venezuelanos que buscam na via pública o sustento diário) são vistos e responsabilizados em
face de um discurso racial e de variados estereótipos aplicados a eles, às suas práticas de
trabalho e aos seus consumidores. Sobre o grupo pesam acusações, por parte da mídia e
população, a respeito do risco à saúde pública, do incômodo para o trânsito de automóveis e
pedestres, do lixo e do ruído. Além disso, esta atividade comercial ligada aos imigrantes,
sobretudo mexicanos, é vista como representação de cidades de países em desenvolvimento
(entrando em confronto com a própria imagem da cidade criada pelo poder público), ao
mesmo tempo em que se torna responsável pelo crescimento da informalidade nas ruas de
Chicago (MARTIN, 2014, p. 1.875).
Deste modo, o cenário de conflitos e contestações vai se construindo a partir do
posicionamento em torno dos tipos de atividades econômicas mais apropriadas para uma
cidade concentrada em atrair novos investimentos; e coloca em lados opostos aquelas
atividades categorizadas como representativas de uma economia avançada versus as
atividades em via pública, consideradas a partir de sua vinculação com os países em
desenvolvimento (MARTIN, 2014). O mal-estar instalado pelas ações da municipalidade
tanto em relação à prática de hostilidade quanto por contínuas licenças restritivas ao uso do
espaço urbano, aprofunda e amplia a contradição entre os dois seguimentos de alimentação
em via pública. Para Nina Martin, “a regulação diferenciada entre os vendedores de rua revela
que a Prefeitura está trabalhando para construir uma cidade atrativa para os jovens
profissionais urbanos, enquanto simultaneamente marginaliza as possibilidades dos
imigrantes da classe-trabalhadora em incorporar a cidade aos seus desejos” (MARTIN, 2014,
p. 1.868).
Assim, os cenários descritos por estas três pesquisas acima, por distintas abordagens e
em diversos países, podem apresentar proporções comparativas de análises quando observada
48

a situação de Manaus (Amazonas – Brasil) a partir da ação de transferência/deslocamento


utilizada como estratégia da ação governamental para o espaço público urbano. Isto
demonstra a institucionalização de um projeto modelar de solução sobre o rotulado
“problema” visível do trabalho e do negócio em via pública, construindo uma dobra jurídico-
legal entre permissionário/“camelô” e permissionário/microempreendedor individual. A
estratégia atua como mecanismo indutor de promoção para outro cenário de via pública,
fundada na abertura para novas atividades econômicas (turismo, cultura, gastronomia,
construções) e diretamente relacionada à outra forma de uso da cidade, especificamente de
sua zona central. Controlando qual tipo de ocupação tem a permissão de aparecer e se
desenvolver na paisagem urbana.
De início, neste conjunto de estudos empíricos poder-se-ia encontrar alguma pista de
ações ou modelos de intervenções urbanas mais ou menos bem distribuídas nas cidades pelo
mundo. Um cenário composto por práticas tanto direcionadas pela gestão de ordenamento e
ajustes do espaço urbano quanto por práticas mobilizadas por resistências cotidianas dos
atores alvos nos lugares afetados. Tal situação diz respeito à imposição de limites para
determinada atividade econômica e ocupacional, tem um objetivo definido sobre a via
pública, tem seus atores estratégicos designados e se inscreve na experiência da mudança de
ambiente ou propostas de regulação por parte do poder público local.

1.1 A POLÍTICA PÚBLICA FOCALIZADA EM COMBINAÇÃO COM OUTRO SENTIDO


DE INFORMALIDADE

O problema construído no processo da pesquisa de campo diz respeito ao modo de


interação no qual os atores envolvidos articulam suas experiências em comum, manipulam
seus objetos e negociam com a normatividade organizacional do lugar, o Centro Popular de
Compras – CPC. Em síntese, sua agência modifica o cenário instituído pelo poder público
pelo motivo de estar diante de novas situações e necessidades. De diversos modos, o agente
atribui ao novo ambiente de trabalho e de negócio sentidos que escapam da determinação, do
que é específico da racionalidade da norma pública ou da legalidade na qual ele está inscrito.
O permissionário microempreendedor individual, instalado no CPC, está diante de um
desafio principal que é a construção de mecanismos para atrair um perfil novo de consumidor
(aquele que toma a decisão de se dirigir até o CPC, aquele que entende que o novo mercado
abriga um comércio/serviço tradicional). Ele precisa lidar com o novo ritmo da demanda e
oferta de mercadorias e serviços diferentemente do ambiente no qual se encontrava, ainda
49

mais com a escassez daquilo que dava todo o sentido à sua ocupação na via pública, precisará
atrair um fluxo de consumidores. Neste sentido, é possível construir três encadeamentos sob
os processos relacionais que dizem respeito à experiência da ordem social dos
permissionários, aos sentidos atribuídos à situação e ao novo mercado e, na forma de
resistência, os mecanismos de arranjos e de combinações construídos no próprio ambiente
como resposta aos problemas práticos. De fato, coloca-se uma questão pontual: quais e como
os mecanismos e performances acionadas pelos agentes possibilitam uma reconfiguração do
cenário institucionalizado, quando buscam uma solução para algo percebido como negativo
em um ambiente normatizado/formalizado?
De modo geral, a ação governamental se apresenta como a tendência de administração
por objetivo e, assim, inscreve a transferência/deslocamento do trabalho e do negócio em via
pública (especificamente com “camelôs” e “ambulantes”) como uma etapa entre outras, um
objetivo específico em direção ao mais geral. Esta se insere na estrutura mais abrangente de
determinado projeto com vistas à mudança na paisagem urbana. Tal ação tem seu caráter de
projeto político e sua dinâmica, alcance e implementação não ocorrem de modo linear, muito
menos através de uma evolução natural dos centros urbanos, nem na implementação inicial e
nem nos ajustes posteriores do projeto. Ao contrário, apresenta recuos, desvios e dinâmica de
contrastes tais como: quando o mesmo agente público com poder de decisão apresenta-se
como opção mais forte em algumas situações e interações entre os atores estratégicos, mas
pode apresentar-se como opção mais enfraquecida em outras situações, quando determinada
etapa precisa ser executada de modo descentralizado e a cargo de diferentes órgãos públicos
criados especificamente para este momento; ou quando no momento de uma etapa os agentes-
alvos encaminham contestações que fazem recuar ou adiar a aplicação do projeto
governamental; ou quando é preciso negociar com mecanismos de convencimento, cooptação
e favorecimento de parte de agentes estratégicos para pressionar os agentes-alvos do projeto
em definir rapidamente a aplicação da etapa, dentre outros.
Ao mesmo tempo em que focaliza e atua sobre o ajuntamento de “camelôs” e
“ambulantes”, não é sobre o universo desse ajuntamento que a ação governamental tem
interesse real de mudança. Isto é, a ação de transferência/deslocamento é direcionada e
particularizada somente para um restrito ajuntamento localizado em específico traçado
urbano, uma determinada via pública na qual o programa de intervenção urbana acontecerá. O
processo não diz respeito aos demais indivíduos do ajuntamento localizados em outras vias
públicas da cidade. Ou mesmo, aos outros elos envolvidos diretamente com o núcleo central
de uma rede de relações com o ajuntamento, o que foi denominado em pesquisa anterior como
50

“micro-ocupações”15, que experimentam o trabalho e o negócio no espaço público


estreitamente ligadas aos “camelôs” e “ambulantes”. Neste caso, está-se diante de uma
política pública não-universal, sem o compromisso de melhoria das condições de
sociabilidade mais igualitária.
Se a ação governamental mobiliza categorias particulares e interesses específicos para
direcionar o ajuntamento, é possível que haja uma tendência em acentuar ainda mais os
padrões individualizantes e de subjetivação do controle da organização da vida social no cerne
desse tipo de política em detrimento de um modelo de sociabilidade de alcance mais universal
e de percepção social mais coletiva.
Neste contexto foi possível evidenciar empiricamente como os agentes públicos
ressaltaram, ao organizarem e dirigirem a ação de transferência/deslocamento, um
vocabulário de motivos que mantinha estreita proximidade com a análise que Machado da
Silva (2003) chamou atenção, o par “empregabilidade/empreendedorismo”. Isto quer dizer à
dinâmica de transformações ocorridas no mundo do trabalho, principalmente em sua
dimensão prático/política, datadas em meados das décadas de 60 a 80 quando a noção de
informalidade tecia contornos de categoria cognitiva. Nas palavras do autor, após este período
esta passa progressivamente a se tornar um mero léxico acadêmico e trivial sem muito
resultado efetivo na sua capacidade analítica, obscurecendo o fato de que seu uso
indiscriminado não incorpora mais a substância analítica e força prática (MACHADO DA
SILVA, 2003, p.141). Ao ganhar uma dimensão universalista, unívoca e de domínio público,
a noção de informalidade vai perdendo sua especificidade e força, tornando-se inútil em
alguns casos. Este sustenta a hipótese que, no plano teórico, político e dos valores, “abre-se,

15
Chama-se aqui de “ocupações-periféricas”. Encontradas respectivamente no contexto da via pública em
Manaus, são rotinas de trabalho oferecidas e executadas diariamente e exclusivamente para o ajuntamento de
“camelôs” e “ambulantes” por indivíduos fora dessa figuração, mas que mantêm relações de trabalho regulares
com estes. Tais rotinas de trabalho são negociadas face a face, recebem pagamento diário ou semanal dos seus
tomadores de serviços, estabelecem um ritmo próprio de trabalho e constroem uma ordem de sociabilidade em
rede. De igual modo, são rotinas de trabalho interligadas ao núcleo central do ajuntamento, enquanto estruturas
de “ocupações-periféricas” interdependentes à ocupação de “camelô”, fundamentadas a partir de ofertas
regulares, práticas cotidianas, relação face a face, segundo o tipo de serviço oferecido, por exemplo, pelo
“carregador de banca” (invariavelmente homem, oferece sua força de trabalho e carrinho para levar a banca e
guardá-la em depósitos ou garagens próximas no fim do dia e retirá-la pela manhã, levando até seu ponto
original, sendo que garagens e depósitos pertencem a outro indivíduo); pela “merendeira” (geralmente mulher,
vende aos camelôs lanches pela manhã e tarde, armazena e carrega em caixa de isopor ou plástico, pode ser paga
na hora ou no dia seguinte); pelo “vigilante noturno” (invariavelmente homem, sua rotina é durante a noite e
madrugada, pode trabalhar em dupla ou individualmente, identifica com um sinal adesivo a banca pela qual é o
responsável, é pago semanalmente); pelo “fornecedor de água e café” (variavelmente mulher ou homem, oferece
ao camelô o serviço de deixar pela manhã, antes da abertura da banca ou logo que abrir, um garrafão com água,
ou saco com gelo, ou uma garrafa grande de café, é pago semanalmente); pelo “agiota” que realiza empréstimos,
entre outros (OLIVEIRA; VALLE, 2012, p. 151). Não está no horizonte desta investigação atual refazer a rede
de “ocupações-periféricas” da via pública e relacioná-la aos permissionários instalados no CPC, mesmo que seja
uma possibilidade interessante e futura.
51

assim, a porta para uma discussão mais ampla sobre as transformações na percepção social
subjacente ao tratamento acadêmico da relação entre a estrutura do mercado de trabalho e a
acumulação e, na direção oposta, do papel da produção sociológica na formação da percepção
social” (MACHADO DA SILVA, 2003, p. 142).
Esta condição cognitiva tem como eixo fundamental o convencimento
ideológico/prático de adaptação à nova estrutura do mercado de trabalho e dos negócios.
Portanto, o cenário composto pela crescente terceirização das atividades produtivas, de ataque
às leis trabalhistas e maior individualização e precariedade das relações de trabalho, o
mercado de trabalho passa a representar uma sociabilidade mais vulnerável. A consequência
de tal cenário mostra a necessidade de compreender o conjunto da vida social e as formas de
adesão aos novos modos de organizar o trabalho e o negócio em face das condições ainda
vigentes de uma sociedade salarial que não se expandiu para todos de maneira justa e
igualitária.
Exigir novas competências prático-ideológicas adaptadas à dimensão da organização
da produção mais recente (um modelo do tipo toyotista, na perspectiva do trabalho just-in-
time), por conseguinte, inclina-se a agir na dimensão da organização da distribuição de bens e
serviços, até chegar especificamente no trabalho e negócio em via pública. E, neste ponto,
elas dizem respeito à dinâmica da dimensão simbólico-ideológica, reforçando estratégias
discursivas e práticas do par “empregabilidade/empreendedorismo”, tentando o
convencimento e adesão do ajuntamento de “camelôs” e “ambulantes” para a nova dimensão
de seu trabalho e negócio através da aquisição de novas habilidades, comportamentos e
capacidades cognitivas. Portanto, tal transformação do sentido ideológico-prático do trabalho
tem a intenção de mostrar-se como solução possível à insegurança da demissão, ao
desemprego de longa duração e ao alcance de uma desejada condição de “autonomia” nas
relações de trabalho contemporâneo (MACHADO DA SILVA, 2003, p. 156). Como o autor
afirma, sobre as formas de sobrevivência de diferentes grupos de ex-assalariados, um
“exército de reserva” estagnado em expansão, com diferentes recursos disponíveis e
estratégias.

O primeiro deles corresponde aos ex-assalariados que se transformam em pequenos


empresários (ou trabalhadores por conta própria) ligados, na imensa maioria dos
casos, ao comércio varejista e aos serviços pessoais. Trata-se sem dúvida de uma
tendência em franca expansão, cuja visibilidade pode ser medida pelo interesse
demonstrado pelo poder público e pelos meios de comunicação – que, por sinal,
tendem a apresentá-la em termos róseos, infelizmente, apensas em parte
correspondentes à realidade. [...] É difícil imaginar que um ferramenteiro, por
52

exemplo, seja capaz de aplicar seus conhecimentos na condição de trabalhador por


conta própria ou de pequeno empresário (MACHADO DA SILVA, 2003, p. 170)

Na dimensão do projeto político, a análise de Lautier (2014 [2009]) observa que o


cenário recente propõe uma discussão sobre a estratégia de política pública de minimização da
“tensão” política em face da reivindicação de cidadania (universalização dos direitos sociais)
e dos diferentes modos de luta contra a pobreza. De acordo com o autor, isto é possível pela
criação da ordem social e moral fundada na distinção entre o “bom pobre” e o “mal pobre”,
ou seja, a institucionalização de uma política pública pela via do “apoderamento de
capacidades”, acusando uma moral do tipo de justiça produtiva para “pobres potencialmente
úteis” (LAUTIER, 2014, p. 467).
Bruno Lautier enquadra esse tipo de política pública como “focalizada” em atores-
alvos, uma luta contra a pobreza que se aplica a um público-alvo determinado, no entanto,
sem a participação destes e o compromisso com estes, daí seu caráter de particular e de top-
down, cujo objetivo é executar uma gestão dos “pobres úteis”, ou seja, aqueles
economicamente viáveis que precisam de um incentivo. No entanto, por ser localizada e
direcionada questiona-se a categoria de “público”, no momento em que o caráter da
despolitização da política pública emerge; e, divide a política de combate à pobreza entre a
ajuda a um tipo de pobre, os “úteis”, e a luta contra a pobreza.
Para que o governo gerencie os “pobres úteis”, neste tipo de enquadramento da
política pública, deve agir sobre as boas práticas de gerenciamento da escassez, inclusive a
escassez de emprego. Isto implica mobilizar recursos em diferentes níveis para torná-los aptos
moral e tecnicamente, apoderados, menos vulneráveis e incorporados com empregabilidade.
Isto é, essa espécie de “apoio” ao pobre pode vincular-se a certo modo formalista de combate
à pobreza. Será preciso gerenciar a tensão sempre presente entre reivindicação de acesso à
cidadania e despolitização da questão social, tornando-a suportável. Apoderar e capacitar
convergem para relações meio/fim, objetivamente tornar o “pobre útil” apto para executar
determinadas habilidades, comportamentos e tarefas, recebendo o ganho devido como
resultado do seu esforço e mérito no âmbito de uma “justiça produtiva”. Isto tende a um
significado de mudança na agenda pública ao enfraquecer a questão de combate à pobreza
para assumir o consenso da luta contra a vulnerabilidade do indivíduo pobre (LAUTIER,
2014, p. 463).

As políticas públicas não seriam “públicas” somente pelo lugar (institucional) a


partir do qual foram conduzidas; seriam, antes de tudo, uma modalidade – e uma
modalidade até mesmo essencial – da relação entre Estado e sociedade. Essas
53

políticas seriam propriamente “públicas”, não só porque dizem respeito aos meios de
ação do Estado sobre o espaço público, mas porque “publicizariam” seu objeto, já
que, ao retirá-lo da esfera privada, poderiam projetá-lo na esfera pública, fazendo-os
objetos legítimos de intervenção do Estado e tornando-os, assim, objetos “públicos”
(LAUTIER, 2014, p. 464).

Lautier ao analisar as políticas públicas na América Latina, ao longo dos anos 90,
argumenta que uma resposta de política pública para contornar tal problema de intervenção
sobre a ocupação dos espaços urbanos e apoderar camadas pobres viáveis foi encaminhada
pela via do microcrédito, o beneficio para os pobres como “um registro moral: é uma medida
paliativa de uma injustiça, de uma “exclusão” (bancária)” (LAUTIER, 2014, p. 466). E, isto
tem efeito direto sobre a demanda de regulação das práticas e ocupações (diretamente sobre o
trabalho e negócio em via pública) e do controle da camada social de baixa renda.
Neste sentido, torna-se importante tanto o processo de formalização de microunidades
de trabalho e negócio quanto a criação de mecanismos de acesso ao microcrédito. Daí, em
conjunto com a moralidade, entrar em ação um sistema de regras e disposições para a ordem
social, a regra racional e normativa do direito16. Como efeito, o aspecto de despolitização e de
recusa de mobilização por direitos de categorias universais cede lugar a categorias
particulares, focalizadas e formalistas (LAUTIER, 2014). De fato, as
transferências/deslocamentos do trabalho e do negócio em via pública para novos lugares,
coordenadas principalmente pelo poder local, montam cenários e suas estratégias discursivas,
buscam replicar práticas em diferentes cidades brasileiras, condicionando contextos urbanos
diferenciados pelo ambiente e recursos disponíveis. Por outro lado, em suas táticas de
adaptação à situação imposta, os agentes contextualizam o cenário da transferência,
desmontam e remontam o script de normatividade e redefinem seu trabalho e negócio a partir
da manipulação e gerenciamento de recursos chaves como o fluxo de pessoas, dos artefatos de

16
A Lei Complementar nº 128, de 19 de dezembro de 2008. Cria a figura do Microempreendedor Individual -
MEI e modifica partes da Lei Geral da Micro e Pequena Empresa, a Lei Complementar 123/2006 (grifo do
autor) (BRASIL, 2008); Lei nº 12.009, de 29 de julho de 2009. Regulamenta o exercício das atividades dos
profissionais em transporte de passageiros, mototaxista, em entrega mercadorias e em serviço comunitário de
rua (a pesquisa de Juscelino Luna e Roberto Véras (2011) sobre o trabalho precário dos mototaxistas na cidade
de Campina Grande, na Paraíba é esclarecedora a respeito das discussões referentes a esta Lei e a condição
prática da ocupação) e o “motoboy”, com o uso de motocicleta, altera a Lei 9.503, de 23 de setembro de 1997,
para dispor sobre regras de segurança dos serviços de transporte remunerado de mercadorias em motocicletas e
motonetas - moto-frete - estabelece regras gerais para regulação deste serviço e da outras providências. (grifo do
autor) (BRASIL, 2009b); Lei nº 11.898, de 8 de janeiro de 2009 (Projeto de Lei 2.105/07). Chamada de “Lei dos
Sacoleiros”. Cria o Regime de Tributação Unificada (RTU) para a importação de mercadorias do Paraguai por
via terrestre. Apenas simplifica a cobrança dos impostos e contribuições federais incidentes sobre a importação,
cobrados uma única vez das empresas que optarem pelo novo regime tributário. A proposta tenta trazer para a
legalidade os microempresários que vivem da importação de produtos do Paraguai e deve beneficiar apenas
empresas de pequeno porte que fazem parte do Simples Nacional (Supersimples). (BRASIL, 2009ª, grifos
nossos).
54

trabalho e das interações entre si mediadas pela visibilidade mútua e pelas informações de
contexto compartilhadas ou percebidas individualmente.
No desdobramento, as táticas17 que tramam os laços do trabalho e do negócio em vias
públicas correspondem a um movimento de disputa implícita e contradições entre lógicas
distintas de racionalidades e posicionamentos na arena política. De um lado, o executivo
municipal (e seus apoiadores) se posiciona e desempenha o papel principal da estratégia no
cálculo da ação e na tomada de decisão para impor uma relação de força como agente detentor
do uso do poder legítimo e decisório. Assim, estrategicamente a política pública, de
neutralidade nula, é alocada no interesse em determinar as relações econômicas e políticas
tanto como na firme intenção de controle e exercício da racionalização das vias públicas. Por
outro lado, a conduta e performances dos agentes-alvos, seja individualmente ou de modo
compartilhado, são apresentadas por outra racionalidade e posicionamento a partir de ações
desviantes e resistências cotidianas ou montando arranjos de trabalho e negócio no limite da
informalidade. Táticas que geram efeitos imprevisíveis ou imprecisos, que lidam com as
diversas situações de escassez e demandas reais, que criam formas de interação e modificação
do ambiente combinadas com as perspectivas da norma e regulação no cenário político-
econômico montado pelo poder municipal.
Portanto, se a ação governamental tem interesse em produzir cenários confiáveis, em
aplicar um projeto modelar que induza mudança ou em reproduzir estruturas de ordem e
sentido direcionadas aos agentes estratégicos alvos da ação, confronta-se com as táticas
individuais ou compartilhadas que articulam e reajustam em seu modo de subverter, de
encontrar brechas, criar escapatórias às condições impostas por mecanismos e contextos
normativos. É importante levar em conta, inclusive, a existência de práticas originadas em
motivações não-utilitaristas (componentes de ação e de tomada de decisão que envolvem
sentimentos ambíguos, crenças mágicas, imponderáveis da circunstância, impulsos,
frustrações em promessas, dentre outros). Como no paradoxo das empresas que atuam em
marketing de redes sobre o comportamento organizacional dos agentes sociais em estruturas
de distribuição de produtos, que se orientam por interesses simbólicos: prestígio, sentimentos,
noção de pertencimento, rede social, etc (PEDROSO NETO, 2010).
Não se pensa aqui num indivíduo que executa um script tal qual lhe é dado ou, ainda,
que é refém solitário e acuado de estratégias de dominação. Há um limite de manobra
vinculado à experiência. Como agente, o ator interage em diferentes graus de reflexividade,

17
Utiliza-se aqui uma noção com perspectiva dinâmica e relacional atrelada ao próprio caráter pragmático e à
dinâmica ecológica em via pública.
55

experimenta agir individualmente ou de modo compartilhado, avalia as possibilidades do


ambiente, com o qual interage, busca nas práticas significativas de sua experiência vivida,
ativa os sentidos de injustiça/raiva/sobrevivência/solidariedade/egoísmo. Nisso, contrapõe-se,
mesmo que nos bastidores, às imposições normativas e demais situações que se apresentam
no ambiente. Põe em movimento uma ação sub-reptícia, aplicando o ardil, reescreve o script.

1.2 O DESAFIO DA PESQUISA OU COMO AVANÇAR DO PROBLEMA PESSOAL


PARA A QUESTÃO SOCIAL E PÚBLICA

Pesquisar a economia popular, as formas de trabalho em via pública, o comércio e os


rendimentos não declarados ou subdeclarados, as novas ocupações difundidas e praticadas
amplamente, mas não reguladas, ou contrabando e descaminho, a trajetória ambígua de
produtos legais em determinado lugar e ilegais em outro, ou as redes de distribuição e trocas
de mercadorias chamadas de “piratas”, entre outros temas correlatos, compreende um dos
desafios mais instigantes da sociologia, seja pela categoria do trabalho ou da economia.
Acessar algum banco de dados a respeito das atividades de “camelôs” e “ambulantes”
na área central de Manaus e sobre aqueles que foram transferidos recentemente é um desafio
duplo. Primeiro, pela possibilidade de acessar tal banco de dados em poder das secretárias
municipais, com o mínimo de informações seguras, é partir do pressuposto que exista, seja
alimentado em certos períodos e passe por alguma atualização. Segundo, porque existindo
algo concreto e possível de ser acessado, e o pesquisador estando a par das restrições, resta
saber o grau de confiabilidade de tal banco de dados e como organizá-los para os fins
necessários à pesquisa. De outro modo, se o banco de dados é importante em determinada
perspectiva metodológica, aqui pode apresentar um sentido de conteúdo estático e
pontualmente mecânico. Portanto, tomou-se a decisão de construir os dados a partir do
próprio campo de investigação e dos seus desdobramentos, no campo empírico, com os
agentes envolvidos nas situações de seu ambiente de trabalho e negócio. Ou seja, esta
pesquisa não toma qualquer informação de banco de dados, considerando a abordagem
escolhida e o caminho metodológico praticado.
Em relação aos próprios sujeitos transferidos coube o desafio da aproximação e do
estabelecimento de confiança recíproca. Isto equivale ao limite de tempo estabelecido para
interagir com os permissionários no CPP, para criar um posicionamento de permanência e
“perambulação” no lugar, para conseguir permissão da secretária municipal e para estabelecer
o momento de saída (o limite de alcance dos dados). Neste sentido, como pesquisador em
56

campo decidiu-se pelo papel de observador como participante (assumindo mesmo a crítica
pelo papel em não criar laços mais longos e profundos), na qualidade de um observador que
não participa imerso em uma atividade de longo prazo com os sujeitos pesquisados
(CICOUREL, 1980, p. 91-93). Em todo caso, o desafio da confiança poderia ser medido pela
aceitação voluntária do permissionário em participar da proposta de pesquisa, depois de uma
conversa informal, da identificação e filiação institucional do pesquisador e do interesse pelo
contexto. Contudo, este pesquisador precisava se expor como interessado pelo contexto e
trajetória particular dos entrevistados, estar pronto para ouvir, ser interrogado a respeito da
opinião sobre o contexto e declarar-se desvinculado do poder público municipal. Ao longo do
tempo a minha própria presença era objeto de especulação e observação, sendo que o maior
desafio era me desvencilhar do rótulo de agente de fiscalização municipal.
Se não houve um envolvimento tão ativo e profundamente participante na rotina dos
permissionários ao longo da investigação, não significa dizer que não houve
acompanhamento, desafios, ou que estas rotinas deixaram de ser observadas e apreendidas ou
não foram suficientes para construir o trabalho de campo. Diante do ambiente, dos agentes e
do contexto de trabalho e negócio no CPC escolheu-se gastar mais horas do dia em conversas
informais e entrevistas, buscando entre as narrativas espontâneas ou dirigidas encontrar
algumas pistas que apontassem os elementos e as conexões possíveis do processo.
Assim, encontrou-se um caminho que sinalizava as regularidades das ações que
colocavam em cheque tanto a normatividade quanto a expectativa de melhoria pela
transferência. A “rua morta” era o termo utilizado entre os permissionários para indicar vias
públicas que não geravam lucro. Esta indicação era muito importante no momento de tomar a
decisão sobre a escolha da via pública mais propícia ao seu tipo de comércio e serviço e,
assim, se afastar das “ruas mortas”. No entanto, o termo era recorrente como identificador do
espaço geográfico onde se localizava o CPC.
Essas pistas foram observadas nas entrevistas e nas conversas diárias com e entre os
permissionários. E, isto pode ser considerado como uma verificação de confiança estabelecida
na relação entre aquele que ouve a narrativa, o pesquisador, e aquele que narra sua
experiência, o permissionário. Nesta situação, acabava exercendo o papel de estrangeiro à
moda de Simmel18.

18
Sem abrir um debate neste momento, chama-se atenção para o artigo intitulado O Estrangeiro, de Georg
Simmel, que trata de um tipo de forma sociológica de interação específica, das condições espaciais de interação,
distância e aproximação social e da objetividade. Tomada aqui sob o aspecto de um tipo de posicionamento e
sentido metodológico da relação entre pesquisador e permissionários do CPC, vista neste trabalho de campo. Nas
palavras de Georg Simmel: “Fixo dentro de um determinado raio espacial, onde a sua firmeza transfronteiriça
57

Os instrumentos para construção dos dados representaram um desafio metodológico.


Diante do número e variedade de unidades mercantis espalhadas pelo CPC, algumas abertas,
outras fechadas, com horários diferenciados de abertura, mudanças de ajustes de espaço e
tipos de serviços, com ajudantes distintos do permissionário responsável, foi preciso eleger
um fio condutor de análise sobre o contexto, um modelo analítico para a situação que se
apresentava. Por outro lado, a necessidade de compor os dados por instrumentos múltiplos,
como jornais impressos ou virtuais, conversas e trocas rápidas de informações pontuais, a
aplicação de questionário semi-estruturado em combinação com uma entrevista (sobre a
experiência de transferência), o caderno de campo com as observações anotadas diariamente,
com gravação permitida da narrativa e posterior transcrição do áudio, recebendo material
impresso de propaganda, cartões de visita, panfletos, revista da prefeitura, tudo cedido pelos
entrevistados e, principalmente, “andar e parar”, movimentando-me sempre em pontos e
horários diferenciados estrategicamente para ver uma situação específica, regular ou mesmo
inusitada (arrumação do box, cochilo da tarde, rodas de conversas entre permissionários,
dentre outros) ou para encontrar uma oportunidade de falar com alguém.
Buscavam-se pistas da regularidade do cotidiano no CPC, da ação e interação, da
forma como os atores se envolvem no processo, do conteúdo das conversas, do modo como o
processo se desenvolve e em qual direção avança. No movimento da pesquisa, encontrar a
lógica por trás do processo aparentemente evolutivo e regular e ideologicamente natural de
adaptação dos indivíduos no novo ambiente foi o desafio mais intenso a ser enfrentado, tanto
quanto de separar elementos díspares, misturados e implícitos que se apresentavam no sentido
mais comum e tentar conectá-los em uma compreensão do processo relacional.
Em um ajuntamento do tipo tratado na pesquisa torna-se perceptível que não há
relação direta e explícita de agência individual que possibilitasse um resultado de
performance de ação coletiva propriamente dita. O motivo que justificava a conduta de
determinados atores em optar pela adesão à transferência e à adaptação ao ambiente recaia na
expectativa futura de algo positivo e concreto que estava prestes a ocorrer, observando que a

poderia ser considerada análoga ao espaço, a sua posição neste é determinada largamente pelo fato de não
pertencer imediatamente a ele, e suas qualidades não podem originar-se e vir dele, nem nele adentrar-se.” [...] “O
estrangeiro é visto e sentido, então, de um lado, como alguém absolutamente móvel. Como um sujeito que surge
de vez em quando através de cada contato específico e, entretanto, singularmente, não se encontra vinculado
organicamente a nada e a ninguém, nomeadamente, em relação aos estabelecidos parentais, locais e
profissionais. De outro lado, a expressão para esta constelação de significados encontra-se na objetividade do
estrangeiro. Porque este não é determinado a partir de uma origem específica para os componentes singulares de
uso social, ou para as tendências unilaterais de um grupo. Vai além, faz frente a estes com uma atitude particular
objetiva, que significa não uma simples distância e indiferença, mas um fato especial da distância e da
proximidade. Fato especial dado pela relação ambígua entre insensibilidade e envolvimento”. (SIMMEL, 2005,
p. 265).
58

disposição para o confronto é um posicionamento a ser evitado. Por conseguinte, ao


organizarem modos de adaptação que particularmente reproduziam parte da normatividade
tentava-se vincular com a ordem da experiência anterior, numa combinação que resultava uma
nova ordem estrutural sem enfrentamento direto explícito, mas de modo implícito como
resistência cotidiana.
É neste sentido que a trajetória singular de cada indivíduo que ao longo do tempo
experimentou o negócio e o trabalho em via pública passa a vivenciar certa expectativa de
mudança promissora num futuro próximo. Neste ajuntamento de trajetórias singulares,
encontra-se aquele que nunca experimentou o vínculo empregatício, que em sua trajetória de
trabalho permaneceu entre a fronteira da regularização da atividade econômica, de um lado, e
do direito trabalhista, do outro. Ainda, há aquele que ora está em um posto de trabalho
empregado, ora está em ocupações avulsas até retomar o vínculo empregatício, não sendo raro
que desista de procurar emprego (diferentes motivos podem ser justificados, entre eles a faixa
etária), ou seja, ao longo do tempo pode migrar (espontaneamente ou ser forçado a tal) para
um lado ou para outro, sempre buscando formas de sobrevivência mais favorável. E, há uma
terceira figura que é aquele que diversificou o negócio em via pública no centro da cidade, na
mesma via pública alugou a sua banca para outro, conseguiu negociar a compra de um carro-
lanche nas proximidades e no lugar onde reside construiu uma pequena lanchonete, isto tudo
devido uma intensa rede familiar de apoio que propiciou uma combinação entre emprego
(público/privado, seu próprio ou do cônjuge) e atividade avulsa em via pública.
Envolvidos em tais dinâmicas particulares, sob os efeitos das mudanças em nível
macro ou localizadas na própria cidade, entre as alternativas e as promessas apresentadas pela
prefeitura, é que este ajuntamento apostará pronta e positivamente na transferência, mesmo
sob as dúvidas e discordâncias. Entretanto, nem todos aqueles consultados e alvos da ação
governamental estavam inclinados a aderir ao projeto do CPC, pois vislumbravam um futuro
não muito promissor, visto inclusive como negativo e desfavorável à atividade desenvolvida
na via pública. Nesse viés, não há uma coesão do ajuntamento ou uma adesão coletiva ao
projeto do poder público municipal, uma conduta que se intensifica após a transferência para
o novo mercado.
Deste modo, passou-se a delimitar o ponto inicial de caráter problemático no campo de
pesquisa tomando a análise de Wright Mills (1940). O que o seu argumento problematiza está
relacionado às ações que envolvem a conduta social, as ações orientadas e de fala com os
outros, da conduta de linguagem da ação situada, sendo que diferentes situações são
acompanhadas de diferentes vocabulários de motivos. Isto possibilitaria um padrão de ações e
59

motivos de estruturas mentais em situações consequenciais, que tais indivíduos enquadrariam


como a coordenação de suas diversas ações (WRIGHT MILLS, 1940, p. 905). Neste sentido,
discute quando uma ação situada pode padronizar por antecipação uma consequência
situacional da conduta a ser questionada, como intenção ou proposta consciente. Em sua
argumentação afirma que dentro de uma cena, de uma situação, mesmo no curso de uma
geração singular, toda uma vida do indivíduo ou a história de uma sociedade não pode ser
compreendida sem se entender que ambas possuem um contexto relacional capaz de
transformar problemas pessoais em questões públicas e políticas. “O homem pode começar
um ato por um motivo. [...] discerne as situações com vocabulários particulares, e isto é em
termos de algum vocabulário delimitado que ele antecipa consequências da conduta”, elucida
Wright Mills (1940, p. 905). Nestes termos, ressalta que não está em jogo apenas uma
dimensão psicológica que invocaria uma “vontade” ou “desejo” internos. Ao contrário, a
dimensão social como parte da conduta social e, por isso, do lado de fora do indivíduo,
estabelece a dimensão sociológica dos motivos. Em suas palavras “ambos os motivos e ações
muito frequentemente se originam não de dentro do indivíduo, mas da situação na qual os
indivíduos encontram-se eles mesmos” (WRIGHT MILLS, 1940, p. 1.906, tradução própria).
Sua crítica enfatiza e se dirige ao modelo do tipo utilitarista de conduta associada em
que os indivíduos são confrontados com os “atos alternativos” e desempenham um ou outro
ato com base nas consequências diferenciais as quais eles antecipam. Uma proposta deste
tipo, segundo o autor, não levaria em conta a forma de linguagem na qual a conduta social
aparece de modo mais frequente, acompanhada por representações e discernimento da
situação, a qual é rotulada por ele num vocabulário de motivos adequado (WRIGHT MILLS,
1940, p. 906). Essa conduta social de representação como antecipação da ação futura, de
discernimento da situação envolvida, de verbalização e nomeação de motivos e ações tende
frequentemente a influenciar a conduta de outros, daí um caminho para a perspectiva
relacional política.
Um vocabulário de motivos delimitou o cenário da transferência do ajuntamento de
“camelôs” e “ambulantes”, imputando-lhes uma conduta entre duas escolhas principais,
aceitar o acordo e cooperar com a determinação política de ordem pública ou rejeitá-lo e se
opor ao ordenamento estatal. A nomeação das ações e um vocabulário de motivos aparecem
carregados de incentivos e direciona-se à promoção da conduta visivelmente adequada,
correta e moralmente aceitável por termos chaves como “organização da cidade”, “melhoria
do centro histórico”, “microempreendedor”, “capacitação do negócio”, “empreendedorismo”,
“negócio formal”. De outro modo, agem como mecanismos de controle da conduta e
60

imputação de julgamento antecipado às ações dos indivíduos, o que na análise provoca uma
verbalização sintomática como base útil de “inferências para um típico vocabulário de
motivos de uma ação situada” (WRIGHT MILLS, 1940, p. 909; grifos do autor).
Por fim, no artigo On Politics, um dos textos da coletânea A Imaginação Sociológica
(WRIGHT MILLS, 2000), o autor destaca que a pesquisa social deve dar a devida
importância à consciência vivida do relacionamento entre a experiência individual e a
sociedade mais ampla. Sobretudo às forças históricas que aparentemente são impessoais e
remotas, mas movimentam mecanismos determinados de poder e podem ser ligadas aos vários
incidentes em curso na vida do indivíduo. Isto significa, em sua análise, que as pessoas podem
olhar para os próprios problemas pessoais como problemas/questões sociais. E, conectar suas
próprias experiências pessoais com os macros fenômenos sociais. Esta seria a direção
centrada na dimensão política e pública e no conhecimento da pesquisa social que demonstra
o motivo desses problemas terem causas sociológicas, habilitando o indivíduo a entender
como sua biografia está atrelada à estrutura e à história de dada sociedade. A problemática
vista por Mills está em que os indivíduos frequentemente se veem como resultado de sua
fraqueza pessoal, criadores dos próprios erros singulares e, portanto, buscam as causas dentro
de si mesmas, internalizando o “problema”, contudo é improvável que as situações
encontradas em sua vida sejam completamente únicas. Deste modo, não se permitem
compreender que, uma vez ou outra, os erros/situações/condutas percebidas como singulares,
devem ter sido provavelmente experienciadas por outros. Assim, pode ser mais bem definido
como um problema social do que decorrente de uma deficiência pessoal. Em decorrência, esta
investigação assume uma posição na pesquisa social como tarefa/promessa da ciência social
que se dirige à tradução de problemas pessoais como uma questão do público (WRIGHT
MILLS, 2000, p. 177).
61

2 “LÁ NA RUA, VOCÊ TEM UM PADRÃO. AQUI É DIFERENTE”

É principalmente o segundo aspecto, a inclusão em um ambiente, que interessa aos


protagonistas da “ação situada” (QUÉRÉ, 1998, p. 232, tradução própria).

2.1 SEGUINDO AS PISTAS E CONSTRUINDO O CAMINHO DO PROCESSO


RELACIONAL

O ambiente empírico desta pesquisa está relacionado ao contexto urbano de uma


metrópole com alta concentração demográfica e com um parque produtivo centrado no polo
eletroeletrônico19, voltado principalmente ao mercado internacional. O perfil de ocupação do
solo urbano da cidade tem a marca das ondas migratórias do interior para capital e da intensa
migração intrarregional. Seu mercado de trabalho urbano vem mantendo, em anos recentes,
uma alta taxa de desemprego. Entretanto, a cidade continua como a sexta capital brasileira
com a maior economia do país, segundo o relatório Produto Interno Bruto dos Municípios do
IBGE (2014). Este cenário urbano é da cidade de Manaus, capital de estado do Amazonas,
localizada no centro geográfico da Amazônia brasileira, na sub-região Rio Negro-Solimões.
Uma das maiores metrópoles do mundo na área equatorial, o principal centro financeiro da
Região Norte do Brasil e conhecida mundialmente pela riqueza de sua biodiversidade. De
acordo com os dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a cidade
contava com 2.020.301 habitantes em 2014, sendo o sétimo município mais populoso do
Brasil (IBGE, 2014).
No decorrer de sua formação urbana, Manaus sofreu o impacto de dois momentos de
boom de crescimento econômico e populacional. O primeiro ocorreu com a atividade
econômica da borracha, entre a última década do século XIX e a primeira década do século
XX, ligada à crescente expansão da indústria automobilística e derivados. O segundo, a partir
de 1967, com a implantação do projeto federal de desenvolvimento da região regional através
do modelo Zona Franca, que marca o processo de desterritorialização da produção nos países
industrializados. Embora esses dois contextos econômicos tenham aspectos distintos,
caracterizam-se por uma economia de forte orientação para o mercado externo, por um

19
“O Polo Industrial de Manaus (PIM) registrou faturamento de R$ 74,4 bilhões em 2016, o que equivale a uma
diminuição de 6,14% em relação ao valor obtido em 2015 (R$ 79,3 bilhões). [...] Com R$ 19,5 bilhões (US$ 5.7
bilhões) faturados no ano, o polo Eletroeletrônico foi o maior responsável pelo resultado global de faturamento
do PIM, respondendo por 26,15% do total. Em seguida apareceram os segmentos de Bens de Informática, com
participação de 18,81%; Químico, com 15,46%; e Duas Rodas, com 14,12%” (SUFRAMA, 2017).
62

intenso fluxo migratório para Manaus e por uma alta concentração de investimentos na capital
do Amazonas (DIAS, 1999; OLIVEIRA, 2003; VALLE, 2007).
O poder público promove no primeiro cenário de crescimento econômico a construção
de prédios imponentes em sua época (no século XIX), a implantação da rede elétrica e a
construção de uma pequena usina hidrelétrica, o serviço de transporte público de bondes, o
sistema de abastecimento de água e rede de esgoto, entre outras melhorias urbanísticas.
Enfim, as reformas criaram padrões que redefiniram o mapa da cidade e, também, aceleraram
a segregação espacial. Em virtude disso, modificou-se o traçado da sua área central por meio
de desapropriações, do aterramento de igarapés e a construção dos limites do traçado urbano
da cidade.
Tanto no contexto da economia gomífera quanto no contexto do projeto Zona Franca,
as intervenções urbanas (como a destruição da cidade flutuante na segunda metade da década
de 60) têm como característica fundamental modelar a área do centro e montar um cenário de
“cidade moderna”, com o aspecto do progresso e da paisagem “ordenada e limpa”. Recortadas
pela dinâmica de sua época, as intervenções tentaram esconder ou expulsar para longe, para a
periferia no limite da cidade, as camadas populares e pobres que não condiziam nem se
relacionavam com o cenário das transformações impostas; a não ser pela dimensão da força
de trabalho disponível e necessária em determinadas tarefas e circunstâncias. Para estes
deslocados/expulsos, os projetos modernizadores eram excludentes e não se encaixavam nas
demandas de integração desses grupos sociais. O processo de urbanização, em ambos os
momentos de crescimento econômico e em distintas formas de implementação, inclinava-se a
um vigoroso caráter elitista, demonstrando a disparidade na concentração de renda e
determinando formas não-reguladas de ocupações do solo urbano. (DIAS, 1999; VALLE,
2007; SOUZA, 2010).
As atividades empresariais da pequena indústria, do tipo familiar, de produção
tradicional e atrelada à demanda interna, aos poucos cederam seu lugar de destaque no plano
local para as indústrias transnacionais do projeto Zona Franca. A instalação do cluster
industrial de produção em grande escala, com incentivos fiscais e com objetivo de suprir uma
demanda externa, modifica sensivelmente a trajetória de desenvolvimento e expansão da
cidade. No período de 1970 a 1980, Manaus deteve um dos maiores índices de movimento
migratório, desencadeando um processo de crescimento demográfico acelerado. De fato, a
cidade tem apresentado, nas últimas décadas, uma alta taxa de concentração populacional e de
maior concentração demográfico no estado: sua participação relativa passou de 44,3% em
63

1980, atingiu quase a metade (48%) em 1991, alcançando 50% em 2000. Os dados apontam
pra a tendência dominante de migração de natureza intrarregional (IBGE, 2014).
Desde a implantação, com destaque para o Polo Industrial de Manaus (PIM), o projeto
Zona Franca de Manaus vem aumentando gradativamente a sua participação no PIB brasileiro
passando a responder por 1,4% da economia do país (IBGE, 2011). Por outro lado, no começo
o projeto tinha um pilar fixado na exclusividade, com destaque nacional, do comércio
importador da Zona Franca, o que fortalecia a expansão da atividade de turismo de compras
de produtos importados na cidade. Esta atividade terá sua localização principal, mas não
exclusiva, a partir das lojas importadoras da área central de Manaus. Fortalecendo a dinâmica
concentradora para a área do centro histórico pelo conjunto de atividades comerciais, serviços
turísticos, funcionalismo público federal, estadual e municipal, as atividades portuárias e as
associações, sindicatos e entidades ligados ao comércio, entre outros. Aproximadamente até o
começo da década de 90, o centro histórico apresentou-se como um ambiente pulsante para o
comércio local, tanto em relação à sua condição concentradora de diversas atividades e
serviços públicos quanto em relação à zona de importação de mercadorias, tendo os lojistas da
área central como importantes distribuidores dos importados e alguns “camelôs” como a
ligação entre a loja e a rua20.
Entretanto, no início da década de 90, a política econômica que intensifica o processo
de redução tarifária de importação e eliminação de certas barreiras tributárias em todo o
território nacional, no governo do presidente Fernando Collor, provoca um efeito negativo e
impactante sobre o atrativo de exclusividade dos produtos importados da Zona Franca de
Manaus. Em meio à crise daquele ano e nos anos seguintes, os diversos fatores sociais e
econômicos ao seu modo e tempo definiram o formato das mudanças e intervenções para a
zona central de Manaus. Por exemplo, o ajuste organizativo promovido pelo conjunto de
lojistas quanto à diversificação e mudança de suas atividades e expansão para longe da área
central ocorrem paripassu quando os grandes empreendimentos de shopping centers chegam
à cidade e se instalam em novas áreas mais distantes do centro. Simultaneamente, há uma
expansão de áreas comerciais e um crescimento de empreendimentos médios localizados nos
bairros periféricos. E, por fim, a desconcentração e o deslocamento de diversas atividades de
serviços públicos e privados para outras áreas da cidade. No entanto, dificilmente se poderá
afirmar algo como a existência de um esgotamento ou esvaziamento da área central. Apesar

20
A relação de proximidade entre o camelô/ambulante na rua e o lojista estabelecido no comércio regular trata-
se de um arranjo econômico que atravessa tempos e lugares como bem demonstra Mafra (2005) na sua
investigação sobre a rotina do comércio ambulante no centro do Rio de Janeiro.
64

de todo movimento de desconcentração provocado por atores hegemônicos ao longo do


tempo, o cenário da zona central constitui seu aspecto dinâmico essencialmente por base de
uma expansão da economia mais ligada às camadas populares e fixando-se de modo mais
intenso nas vias públicas principais.
De certo modo, isto vai definindo as relações com o lugar e sua dinamicidade
renovada. Seja pela intensificação da forma de comércio com mercadorias de fácil acesso e
baixo custo na via pública, ou pela intensa dinâmica de trabalho e trocas mercantis no porto
(de trabalhadores não regulados), que permaneceu no centro, recebendo e embarcando um
volume considerado de passageiros e mercadorias para as cidades do interior, ou mesmo, por
um quantitativo ainda importante de consumidores principalmente vindos dos bairros
adjacentes, entre outros. Neste sentido, a dinâmica da formação social do mercado, na área
central de Manaus, pode ser percebida como uma arena de interação social, seguindo a
concepção de mercado de Beckert (2007)21, onde o problema da coordenação basicamente
entre atores em ação econômica individual, ação governamental e de interesses externos se
confrontam. Como na atividade rotineira e múltipla de comércio e serviço, que efetivam
encontros sociais, de trabalho e de negócio em interfaces intensas e expansivas. A
problematização com a qual se depara esta pesquisa é que os agentes estratégicos (indivíduo,
governo e demais interessados no modelo de regulação) não tratam somente de organizar um
mercado de trocas mercantis caracterizado por competição, preço da mercadoria, riscos
assumidos, dentre outros. Porém, em uma “arena de interação social” se encontram sob o
confronto de interesses diversos e de relações de poder assimétricas e, principalmente, sob o
conflito da interiorização dos padrões normativos da conduta (o que asseguraria a ordem
requerida pela ação governamental).
Neste contexto urbano é importante retomar uma ação situada temporalmente entre
1989 e 1991, pois nestes anos a intervenção na área central se fez presente sob as várias
performances e agências e, principalmente, pelo fato que fundamenta parte da experiência
social do ajuntamento no lugar, uma memória coletiva do trabalho e negócio em via pública.
Esta situação temporal não deveria ser dissociada ou desconsiderada em seus aspectos
relacionais, implícitos, da transformação do modelo de desenvolvimento regional e dos seus
conflitos sociais decorrentes nesse período. Eles se apresentam empiricamente, por exemplo,
pelas pressões sociais que mobilizaram a expansão e ocupação do solo que resultou e

21
“Meu ponto de partida é que os mercados são arenas altamente pressuposicionais de interação social, na qual
os atores são confrontados com profundos problemas de coordenação. Embora a organização econômica baseada
na redistribuição e na reciprocidade também acarrete problemas de coordenação, esses problemas se tornam
muito mais exigentes nas economias de mercado” (BECKERT, 2007, p. 6).
65

consolidou a expansão da zona leste e norte da cidade, nas manifestações grevistas de vários
sindicatos de trabalhadores do setor público e do setor privado, na tentativa dos empresários
da zona franca comercial em propor o controle do comércio da área central em face da queda
nas vendas dos importados, na tentativa do poder público municipal em impor uma
organização da área central pelo combate ao trabalho e negócio na via pública combinado às
ações de restauração e incremento do centro comercial com amplo apoio dos lojistas, dentre
outros desdobramentos.
Neste caso, deve-se considerar que a ação situada em dado lugar tem uma história, tem
uma experiência de pano de fundo, que dá conta dos conflitos envolvidos, das ações de
controle e ajustamento, das marcas de pertencimento, do direcionamento de determinado
projeto político e econômico de intervenção urbana. Em face disso, toma-se como fio
condutor da pesquisa uma perspectiva relacional na qual não se trata a
transferência/deslocamento ocorrida na área central, em 2014, como algo isolado de agências
múltiplas e condições concretas, ou como algo pontual e naturalizado pelo crescimento
urbano.
A ação governamental quando propõe intervenções de transformação, mudança e
transferência, estas acabam por entrelaçar o ambiente da área central com as experiências
individuais e coletivas construídas no lugar por excelência do trabalho e do negócio da via
pública, afetando o conjunto das experiências singulares. Tem-se hipoteticamente, então, que
as intervenções estariam reordenando e confrontando a organização social da experiência, que
envolve o trabalho e o negócio em via pública, sob o pressuposto da concorrência e da
competição de mercado entre os “camelôs”.
De um lado, é possível observar que a ação proposta pelo poder público municipal
apresenta elementos relacionais entre o “antes” e o “agora”, ao mesmo tempo em que provoca
diferentes conflitos, “transações”, termos de adesão/conduta, recuos e possíveis ajustes no
decorrer do processo. Por outro lado, o modo pelo qual o processo é conduzido e impõe seu
movimento costuma dar pistas para outra perspectiva de captura do social. Sob essa premissa,
a ação governamental de gerenciar a transferência/deslocamento, de implementar um modelo
de mercado e de afastar determinado ajuntamento da paisagem urbana, considerou-se a
perspectiva do “social como problema”. Isto é, compreender que é preciso um enquadramento
e observação o mais próximo para destrinçar o emaranhado das relações que o social assume
(CORRÊA, 2014, p. 39).
Ao apresentar a sociologia pragmatista francesa, Diogo Corrêa destaca,
66

Mas o que isso quer dizer? Grosso modo, para esses autores o social deixa de ser o
elemento explicativo das coisas e torna-se aquilo que deve ser explicado a partir de
relações e movimentos problemáticos. [...] Como a sociologia pragmática francesa
advoga a importância das situações problemáticas e incertas como modalidade de
captação do social e, com isso, revela progressivamente o social como problema
(CORRÊA, 2014, p. 39).

Na intenção de capturar, decodificar e traduzir os mecanismos e efeitos da gestão da


ação governamental em sua tentativa de produzir menos violência física, prisão e retenção de
mercadorias, foi observado no campo de pesquisa uma dinâmica de inflexão em comparação
às décadas anteriores. Na situação atual, passa a assumir uma postura voltada para as
estratégias de gestão, focalizada em dialogar e convencer o ajuntamento, destacando o apoio
pelo financiamento público, produzindo contratos e legalidades, atuando diretamente nas
construções e reformas, entre outros. Ao seguir essas pistas, procurou-se evidenciar, separar e
atar os fios emaranhados, aos quais os próprios indivíduos eram tidos como parte fundamental
da “solução”, interligada às novas dimensões de uso e atividades econômicas do espaço
urbano. Entretanto, são as interações entre os próprios agentes transferidos que podem
redirecionar a “solução” modelar proposta pela ação governamental, construindo outras
possibilidades e reordenando o ambiente por meio de suas práticas organizativas próprias,
resistências cotidianas e em combinação às experiências acumuladas e compartilhadas. Ou
mesmo, recusando de modo definitivo o modelo proposto.

2.2 A TEORIA DA AÇÃO SITUADA NA PERSPECTIVA DA SOCIOLOGIA FRANCESA


PRAGMÁTICA

Em um primeiro momento pode-se pensar que a linguagem e o pensamento sejam


expressões representativas da organização social, seguindo uma análise durkheimiana,
entretanto a linguagem não é feita sob os limites de uma concepção representacionista e
instrumental. De acordo com Louis Quéré, é “comum-nicacional” (commu-nicationnel)
(QUÉRÉ, 1998, p. 72). Por princípio, tem-se no limite praxeológico a atenção para os usos e
efeitos da palavra, isto é, a linguagem em atos ocupa aqui um lugar central. Isto possibilita
uma questão fenômeno-metodológica que é como se percebem as ações e as situações, as
pessoas e as coisas, primeiramente no campo fenomenal. Por sua vez, Daniel Cefaï ao
apresentar as questões pontuadas pela sociologia pragmatista francesa e sua relação com a
discussão sobre a dimensão do público e da construção do problema público, entre outras,
propõe a seguinte indagação: “quais são as atividades que individualizamos em um evento
67

único e singular para vinculá-la a um contexto de descrição ou inscrevê-la no quadro da


experiência?” (CEFAÏ, 2013, p. 5).22
Demonstra-se, assim, de onde partir para um enquadramento pragmático e analítico da
ação situada, iniciando por um caminho fenomenológico seguindo até o contexto pragmático.
Em seu conteúdo específico, a ação situada deve selecionar um contexto de descrição,
especificar um problema mostrando a sua particularidade, reduzir o montante da contingência
ou normalizar, comparando e atribuindo características genéricas. Para o seu conteúdo geral a
ação situada “é a ação tal qual ela se organiza” (CEFAÏ, 2013, p. 3, grifo da tese). Nisto
reside um ponto fundamental apropriado por esta pesquisa que é a percepção dos elementos
em um ambiente estruturado, em dada ordem social. Sob a perspectiva de uma cognição
ecológica essa percepção captura do ambiente as inferências amplas e, de outro modo, busca
as “pistas” perceptíveis localizadas no ambiente, com as quais o agente articula sua interação,
as atividades possíveis e necessárias e a ação intencional ou espontânea, ou mesmo uma não-
ação (QUÉRÉ, 1998, p. 234).
Como categoria analítica específica, a ação situada como se trata aqui, envolve
agentes, ambiente, percepção e interação. Ela é relacional e admite uma apreensão da situação
geral e comum aos indivíduos, mas avança sobre a “apreensão das ações recíprocas
específicas e das relações sociais sob o ângulo de sua formação e do que eles formaram
através das operações que as pessoas fazem umas com as outras” (QUÉRÉ, 1988, p. 78).
Além disso, a ação situada deve “se inscrever em um campo prático” determinando “quem é
afetado” e “quem tem uma capacidade de resposta”. Neste processo é preciso atentar para a
“forma de atribuição de responsabilidades, de definições, de orientações de ação, de
proposições de regras a serem endossadas, de atores que incorporam e de sistemas de ação
que se atualizam” (QUÉRÉ, 1994, p. 25).
O que sugere que Louis Quéré compreende uma situação como problemática e
interacional. De um lado, a situação é definida sob um fundo de capacidades, de hábitos
(habitudes, nos termos empregado por Dewey (1998[1927]b, p. 299), de crenças, de
moralidades práticas, de conflituosidade, que se apresentam como marcas de interação,
marcas de pertencimento mobilizadas em uma situação de interação, de acordo com Daniel
Cefaï (2013). Por outro lado, a situação também se faz mediante as operações de investigação
e de experimentação23 que enfrenta, assim, a resistência das coisas, das normas, das

22
Pontuada em outros termos em Quéré (2012).
23
Essa lógica do senso comum é muito bem representada e aplicada na gíria: “vai que cola...”. Na prática essa
lógica de investigação e experimentação do senso comum pode ser descrita como: fazer algo, ou induzir,
68

disposições dos objetos, do ambiente cristalizado e estático, qualificando a dinâmica da


organização social da experiência e, por isso, da experiência pública daquilo que é tomado
como problema.
A emergência da tentativa de “solução” para o rotulado “problema público do trabalho
e do negócio em vias públicas” (o que poderia ser qualificado na prática mais como forma de
um tipo de ordem social do que propriamente um problema público) ou do processo de
intervenção urbana na zonal central de forma intensiva, de acordo com o autor, faz emergir
seu pano de fundo normativo, produzir os efeitos cognitivos e, sobretudo, moral e político que
permite ser apreendido pelos agentes da situação, porém de modo diferenciado em relação às
suas experiências e percepções (QUÉRÉ, 1998, p. 169). Nesta perspectiva, o autor adverte
que a estrutura da ordem social não é uma fatalidade ou um projeto sedimentado e estável,
muito menos dual (elabora sua crítica às abordagens dicotômicas como sujeito/estrutura e da
perspectiva cartesiana mente/corpo). Como afirma,

De fato, quando identificamos uma figura como um novo objeto, a descrição que se
apresenta vem incorporada de outros elementos semânticos e conceituais adequados,
a saber, os hábitos de comportamento, a capacidade de ação, as formas usuais de
reagir e as respostas eficazes (QUÉRÉ, 1994, p. 29, tradução própria).

No Centro Popular de Compras (CPC), as entrevistas a respeito do contexto no novo


ambiente, sugerem que as interações e condutas dos indivíduos deveriam passar, agora, pelo
crivo de novos mediadores hierárquicos e pragmáticos das condutas, isto é, pelas normas
internas e pelo contrato de permissão, de um lado, e por uma comissão gestora de fiscalização
das atividades, de outro. Fato que implicaria diretamente no modo de organizar a atividade
rotineira, no modo de apropriar-se do ambiente e, sobretudo, na forma de incorporar a
mudança semântica pela figura jurídica do microempreendedor individual. Como
consequência, para alguns entrevistados, se passava a fazer parte da identidade, vocabulário
de motivos, de reconhecimento e, inclusive, de novo status. Por outro lado, a dinâmica tem de
ser considerada com ressalvas, pois tais qualificadores não eram incorporados pronta ou

sabendo antecipadamente da negativa ou do erro implícito na ação, mas tentar assim mesmo, experimentar para
ver se dará certo, agora ou depois. Coincide com a tentativa de práticas rotineiras que testam até onde as regras
podem ser quebradas ou negociadas, sem ser percebido ou sem que se sofra algum prejuízo. Quando o
permissionário chega tarde após o horário oficial de abertura do CPC, pode ser um exemplo prático e bem
observado. De algum modo, o ato, a prática, a situação pode se tornar coletiva (já que é, em ato, uma interação)
ao se esperar ou presumir que outros também estejam fazendo o mesmo “vai que cola”. Isto também pode ser
observado na exposição das mercadorias em lugares inadequados, fora das normas internas. São
experimentações de práticas, tentativas que ensaiam e seguem uma lógica específica do senso comum com o fim,
neste exemplo, inclusive, de resolver problemas particulares sem querer dar conta de observar as regras gerais.
69

completamente por todos, algumas vezes eram negociados por outras situações e outros
qualificadores.
Por fim, a perspectiva chamada de “teoria da ação situada” por Quéré (1998),
contempla o limite do dinâmico e do complexo, dos mecanismos sociais e fenômenos não tão
explícitos ou até desconsiderados por perspectivas fortemente funcionalista, ou mesmo
puramente empirista-positivista, mas, e principalmente, do modelo explicativo da escolha-
racional utilitária. Apresentados a partir da situação e da ação, certos problemas sociais de
limites localizados, como os problemas públicos de deterioração dos equipamentos públicos
urbanos, do desemprego em expansão em dada região e as formas coletivas de prevenção à
violência em um campus ou rua, é possível expor e identificar os mecanismos, agentes,
eventos e ações que denunciam os sintomas de desagregação social do indivíduo e dos grupos,
do conflito e enfrentamento em face da incerteza das condições concretas vividas e, além
disso, sobre o enquadramento da situação e suas tendências.
O que esta abordagem apresenta possibilita contribuir fundamentalmente para a
análise do quadro da ação econômica governamental e da ação de resistência cotidiana que o
indivíduo compartilha com seus pares próximos, em interação. Como os transferidos ao CPC
lidam com as contingências e normatividade do lugar e, ao mesmo tempo, demonstram o
nuance de uma situação específica onde as mudanças parecem sugerir um avanço além da
análise conceitual da estrutura estática e dual-opositiva dada pela explicação do “setor
informal”.
Observar e analisar como a conduta ou a atividade econômica e ocupacional é
organizada, pode também significar investigar quando o quadro de referências do indivíduo
ou do grupo social passa por processos de mudança e podem não lidar com as mesmas
referências que antes se apresentavam. Por isso, será preciso reordenar o horizonte de suas
experiências e adaptação em situação nova ou um tanto mais diferente. Ou, dizendo de outro
modo, quando o indivíduo se pergunta “o que está acontecendo aqui?”24, é quando uma
situação é percebida como fora da ordem da experiência, podendo ser apreendida por
diferentes níveis de afetação pelos agentes envolvidos.
Capturar essa discrepância, compreender o que está ocorrendo e demonstrar a
localização das diferenças pode permitir o avanço no conjunto das relações estreitas entre a
análise política, econômica e social dos repertórios e da performance dos grupos, dos
conflitos e das questões sociais que aprecem como um processo de mudança e inflexão nas

24
Uma questão classificada ao mesmo tempo como crucial e inicialmente confusa para o ator em Goffman (1986
[1974], p. 8).
70

práticas. E, que também ecoa em questões que dizem respeito ao público, à identidade,
interações sociais e sociabilidade.
O agente em ação situada compartilha atitudes, percepções e estímulos que recebe do
ambiente, localizado ou mais amplo que, de certo modo, é compartilhado em combinação
com uma visibilidade mútua entre os pares próximos. O que também poderia ser o
compartilhamento de experiências vividas, pois esta pesquisa não pensa em um modelo
esvaziado ou isolado de indivíduo. As experiências socialmente construídas, consideradas
fundamentais, para vincular determinada ação social, não apenas em relação aos meios e fins,
assim como na ordem das consequências e da solução cognitiva e do sentido atribuído ao
contexto.
Neste ponto, é importante lembrar a distinção observada por Quéré (1998, p. 243) da
polissemia dos termos ambiente, contexto e situação. O termo situação chama atenção quando
é considerado como entidade temporal. Não tendo tal sentido quando correlacionado aos
termos contexto e ambiente, pois estes devem ser tomados como formas ou desdobramentos,
ou mesmo desenvolvimento de algo. Contudo, acrescenta o autor, é possível falar em
distinção por visibilidade quando o fenômeno de orientação no espaço é introduzido como
qualificador da situação. Um ambiente em si mesmo não tem eixo nem direção, pois é o
agente quem define, em diferentes maneiras, este cenário que dá origem ao “mundo como
ambientalmente experimentado”. Na medida em que aquilo que é desorientado não pode
organizar a sua experiência, visto que não seria capaz de estruturar a sua ação. Neste sentido,
é a orientação da experiência, recebida do ambiente, que se desloca para a situação, no
momento em que a situação vem sobre o registro da organização da experiência.
Por isso, do ponto de vista fenomenológico e pragmático, Quéré considera a lógica da
percepção do fenômeno que vem do ambiente para a situação ocorrendo uma produção de
configuração em um pano de fundo, o que implica dizer que esta figura teve como
composição básica os elementos selecionados pragmaticamente do ambiente (QUÉRÉ, 1998,
p. 244). De outro modo, dizer que um ambiente se estrutura sob formas iguais, é
desconsiderar as várias formas pelas quais é construído, isto é, por dois diferentes processos.
De um lado, os arranjos organizacionais do espaço, de outro, o componente da situação com
sua estrutura temporal. A organização do ambiente como o CPC pode ser analisada e
percebida no confronto desses dois processos.
Quanto à distinção entre contexto e situação, mesmo que pareça lógico dizer que a
situação tem o sentido de “um todo contextual”, o autor chama atenção para uma diferença
fundamental na qual em certos contextos não são realmente situações, pois falta o
71

componente qualificador, a estrutura temporal. Outra vez, a relação com a experiência aponta
o direcionamento e o critério de distinção, o que será indicado por Quéré como sendo o
contexto, “o todo ou o campo no qual se empresta de uma ação, um gesto, uma palavra, um
evento ou um objeto a sua inteligibilidade, significado ou individualidade” (QUÉRÉ, 1998, p.
244). Mas, o que significa “o todo”? Ele pode ser uma conversação (sequência verbal), um
enredo (a narrativa) ou mesmo um arranjo físico do ambiente (atividade prática) e uma
configuração histórica (individualização de um evento). O contexto também é o cenário de
elementos onde se produzem adequação e ação, por isso pode ser considerado em sua
dinâmica ao longo do curso da ação ou sequência de eventos. Contudo, mesmo sob mudanças
quando terminadas ou quando estão acontecendo, tal sucessão de contextos ainda não
determina “a configuração global na qual os elementos podem ser integrados no interior de
uma totalidade orientada” (QUÉRÉ, 1998, p. 244). Daí, o autor desdobrar a distinção entre
contexto e ambiente, que em suas palavras:

Poderíamos dizer que alguém toma do ambiente para o contexto por operações de
seleção, totalização e inserção (contextualiza), comandadas por um objetivo de
produção (desempenha uma atividade) ou de recepção (entende ou interpreta um
evento, situação, gesto, enunciado etc.) (QUÉRÉ, 1998, p. 245, tradução própria).

Por fim, a situação traz elementos de estrutura temporal, atinge a ordem da experiência
e orienta a ação, enquanto o ambiente ordena dada organização no espaço e na configuração
dos elementos que o sustenta e, finalmente, no contexto os fenômenos podem ser
identificados e constituem o cenário passível de uma atribuição de sentido e desenvolvimento
da ação atual e potencial. Portanto, a ação situada que se aplica nesta investigação não
consiste em um retrato do instantâneo, do acontecimento, do evento ou do momento de
caráter “aqui e agora”. Trata-se de uma situação temporal e espacial, por isso, dinâmica e
processual, como as trocas mercantis, a transferência e as performances internas-externas de
negociação e movimentos de incorporação.

2.3 DE ONDE SE OLHA O ENQUADRAMENTO INICIAL

O fenômeno social seja quais forem os limites de sua investigação teórica precisa de
um ponto de partida. Tratar a ação governamental dentro dos limites da intervenção na área
urbana referente ao trabalho e ao negócio em via pública não é algo recente, cujo
enquadramento encontra-se datado desde que se pensou o cenário urbano em sua dimensão
72

ocupacional e econômica25. Portanto, estabelecer os limites está longe de ser uma tarefa fácil,
contudo por proximidade e relevância na origem da discussão, o papel desempenhado pela
pesquisa de Keith Hart nesta temática, aparece como uma escolha viável e propositiva.
Quando Keith Hart (1973), em sua pesquisa na cidade de Accra, em Gana, discutiu
sobre como parte da força de trabalho urbano (com ou sem emprego) buscava o suplemento
da renda ou a obtenção de oportunidades em atividades por conta própria demonstrou que
estas eram combinadas com emprego assalariado, chamando de “empreendedores de pequena
escala” (1973, p. 67). O autor construiu um cenário analítico na tentativa de abordar algumas
classificações e características de tais “empreendedores”, que tinham dificuldade de obter
emprego nas condições postas pelas exigências e garantias no mercado de trabalho dos
centros urbanos. Tomando como indicativo a produtividade de baixa renda no conjunto das
várias ocupações e trocas mercantis, originou a classificação deles como “força de trabalho de
desempregados e subempregados”, “setor urbano tradicional” e, posteriormente, o chamado
“setor informal urbano”. Ainda, para objetivar mais precisamente o macro agrupamento
dessas atividades desenvolvidas por conta própria no meio urbano, Hart produziu uma divisão
analítica em dois graus distintos de subgrupos: a) oportunidade de renda informal – legítima;
b) oportunidade de renda informal – ilegítima (1973, p. 69). Entre as variações possíveis
encontradas no subgrupo (a) oportunidade de renda informal – legítima, está a chamada
variação por conta própria – como a distribuição em pequena escala (small-scale
distribuition) e, entre esta, a ocupação como vendedor ambulante/camelô de rua
(streethawkers, streetvendors).
Em resumo, a sequência analítica de Hart (1973) torna-se constituinte desta tese na
medida em que disponibiliza a localização dos atores-alvos da transferência, identifica-os
nesse amplo espectro de atividades em via pública. Estes que em Manaus se tornaram os alvos
mais expostos da ação governamental de transferência e ajustes, que recaiu sobre as
ocupações do circuito comercial de distribuição de bens e dos serviços prestados em via
pública. Seguimos, assim, a sequência de Hart: Oportunidade de renda urbana 

25
Por exemplo, a classificação das ocupações nas ruas de Londres por uma densa população pobre (segunda
metade do século XIX), em pleno processo de Revolução Industrial, escrita por Henry Mayhew. Pode-se dizer
que é uma obra antológica e curiosa. Na verdade, corresponde a um material organizado a partir de redação
jornalística, mesmo não tendo sido escrita na intenção de ser uma obra das ciências sociais, em tese, traz com
riqueza de detalhes a descrição de ocupações lícitas ou criminosas, como de camelôs, prostitutas, trabalho
infantil, batedores de carteiras, entre muitas outras. Infelizmente ainda pouco estudado como material de história
social ou no quadro de referência das identidades de ocupações urbanas ou do processo de crescimento
econômico versus desenvolvimento social, entre outros. MAYHEW, Henry. London Labour and London Poor.
In: DOUGLAS-FAIRHURST (ed.). London Labour and London Poor. A Cyclopaedia of the conditions and
earnings of those that will work, those that cannot work and those that will not work. New York: Oxford
University Press, 2010.
73

oportunidade de renda fora do emprego assalariado e formal/regulado (como atividade por


conta própria)  oportunidade de renda informal  legítima  distribuição em pequena
escala  camelôs.
Neste caso, por entender que há diversidade em gradações, em práticas de interação
com consumidores e objetos, em características singulares que se referem aos termos
“camelô” e ”ambulante”, além de permitir que a pesquisa analise quem são os atores
estratégicos envolvidos na ação de transferência da rua para o CPC, em Manaus, foi
necessário antes da pesquisa de campo construir e delimitar a figuração teórica característica
de quem seja o permissionário/camelô, em via pública, que foi o alvo estratégico da ação
governamental. Como características fundamentais este é detentor de autorização, cadastrado,
na permissão junto à prefeitura para permanecer e realizar sua ocupação no centro da cidade,
expondo mercadoria ou prestando serviço em uma banca padrão, em um ponto fixo, na via
pública, de modo individual, ou compartilhando a ocupação em determinado momento com
algum familiar ou conhecido. Contrapondo a este, está outra figura com atributos
característicos próprios da legalidade estatal que é o permissionário/microempreendedor
individual, que precisa ser destacado como elemento desejável, induzido para a mudança e
resultado esperado no processo de transferência para o CPC. Este está inscrito formalmente
no modelo de negócio do MEI (Lei Complementar nº128/2008), não costuma rotular a si
mesmo como camelô, precisa participar de uma série de aprendizagens para desenvolver seu
negócio neste enquadramento e tem um mínimo de impostos a considerar em sua despesa fixa
e seguridade social. Contudo, se ambos são diferenciados teoricamente, no campo empírico
estas distinções aparecem combinadas e em arranjos múltiplos, o que pode ser demonstrado
por uma figuração híbrida, principalmente quando se observa o período de adaptação pós-
transferência.
De certo modo, este conteúdo tem sua expressão nativa, pois os próprios indivíduos
diferenciam os termos a partir da distinção do ambiente onde se executa a atividade e de como
as atividades são praticadas ou como inscrevem suas posições na legalidade. Portanto, outra
figura é o “invasor”, que tem referência fora dessas combinações, que é o “ambulante”
ocasional, suas características são dadas pelo modo que expõe as mercadorias sobre o chão,
ou no próprio corpo, ou em grades e caixotes improvisados, que circula nas vias ou fica em pé
oferecendo algo ou em busca de transeuntes mais próximos e, principalmente, sem a
autorização de permissão para estar naquele lugar, Vale ressaltar que, na investigação
anterior, os camelôs que estavam na Praça da Matriz (OLIVEIRA, 2009) se
autodenominavam como “camelôs” ou “autônomos” (outra rotulação nativa para ocupação
74

por conta própria), enquanto apontavam para outra figura da gradação hierárquica no lugar, o
“ambulante”. A figura do “ambulante” faz referência direta à prática de se movimentar pela
via com os seus carrinhos improvisados, a diferença entre este e a figura do “invasor” deve ser
distinguida pela posse da autorização municipal para realizar sua ocupação naquela área.
Portanto, em Manaus é possível assinalar três rotulações nativas, três gradações de
configuração e de produção de hierarquia social baseado no modelo de circulação,
distribuição e tipo de mercadorias encontrada na via pública de Manaus. Considerou-se
teoricamente, com base nas conversas informais pelos corredores que, no topo dessa
configuração hierárquica, encontra-se, agora, o permissionário/microempreendedor
individual, instalado no box do CPC; abaixo o permissionário/“camelô” com a autorização
legal do município para comercializar com uma banca na via pública; em relação mais
horizontalizada e outros qualificadores está a figura do permissionário/“ambulante”, com
autorização legal do município, com uma espécie de carrinho adaptado, transitando na via
pública com uma autorização específica ou eventual para determinados lugares; finalmente,
uma no último grau hierárquico, aquele rotulado como “invasor”, sem autorização legal e que
expõe a mercadoria normalmente no caixote/grade/chão/corpo e se utiliza de outro tipo de
regra e relações para acessar ou se manter nas vias públicas.
Tais rotulações nativas partem de situações concretas, verbalizadas pelos próprios
agentes em atividade cotidiana, a partir de visibilidade mútua, do tipo de mercadoria vendida,
das interações com o consumidor e com o agente público e, principalmente, do modo de
praticar a ocupação no ambiente urbano. Com a transferência para o CPC e a obrigatoriedade
de pactuar com o Termo de Adesão, “uma contrapartida pelo uso do lugar” (nas palavras do
secretário municipal), os anteriormente permissionários/“camelôs” ao se inscreverem na
figura jurídica do MEI alçam à categoria de permissionários/microempreendedores
individuais. A validade expressa pela opinião pública, a atribuição de sentido positivo à
organização do trabalho “fora da rua” e o avanço na hierarquia tornaram-se as marcas do
reconhecimento e do pertencimento ao novo mercado, um sentimento expressado e repetido
entre alguns permissionários no CPC.
Em exposição mais recente, Hart (2004) defendeu um argumento considerando a
crítica mais objetiva sobre a separação setorial de atividades econômicas e ocupacionais nos
centros urbanos, ou seja, um setor formal e outro setor informal como entidades distintas e
separadas estruturalmente26.

26
“O formal e o informal aparecem como entidades separadas por causa do termo “setor”. Isto leva à impressão
que as duas formas estão localizadas em diferentes lugares, como agricultura e indústria. No entanto, tanto a
75

Ao longo da exposição, o autor propõe uma revisão da noção de economia/setor


informal, a partir do referencial originário associado à pobreza urbana nos países
“subdesenvolvidos” até a sua ampliação e institucionalização com status de característica
universal da economia. Além disso, enfatizou os princípios históricos do par
pessoal/impessoal de perspectiva weberiana sobre a propriedade e defendeu uma concepção
de economia que combinasse os pares informal/formal, buscando o desenvolvimento e a
sugestão de um cenário de parceria entre a burocracia e as pessoas na busca de mais
igualdade. Para Hart, o problema de fundo da noção de informalidade está na sua tensão
perante o direito de propriedade reclamado pelo mercado e a regulação da burocracia estatal27.
O autor salienta que,

a informalidade como conteúdo indispensável de formas abstratas parece deixar a


imaginação das pessoas mais a vontade e, assim, faz mais aceitável a legitimidade
da maioria das práticas informais; mas, é claro que geralmente o pensamento oficial
prefere o discurso formal da regulação. Quando o informal é ilegal, a resposta óbvia
é reprimir os invasores de regras; mas o perigo aqui é que tais movimentos serão
meramente cosméticos [...] (HART, 2014, p. 16, tradução própria).

Deste modo, demonstra que a institucionalização da noção de informalidade realizada


por órgãos internacionais como a Organização Internacional do Trabalho 28 (OIT) ou o Banco
Mundial propôs que a atividade por conta própria ou a renda “informal” passasse a reduzir a
diferença entre “aqueles com” e “aqueles sem” trabalho. E, assim, sustentou a ideia de que
para contribuir em uma distribuição de renda mais equilibrada bastava para isso fazer apenas
uma mínima regulação. Tal entendimento consolidou a prática em voga que é um “setor
informal” sendo promovido para realizar um serviço de “criação de empregos”, ou seja, dada
a institucionalização “setorial” poderia se remodelar ações de apoio às camadas pobres das
zonas urbanas com incentivo à atividade por conta própria – a partir da liberação do
microcrédito, do uso de prédios públicos ou da absorção de novas tecnologias.

burocracia como sua antítese contém o par dialético formal/informal dentro de si bem como entre elas mesmas”
(HART, 2004, p.1, tradução própria).
27
“[em outro trabalho] Argumentei que a capacidade de estabilizar a atividade econômica dentro de uma forma
burocrática torna os rendimentos mais voláteis e regulares para os trabalhadores e seus chefes. Essa estabilidade
seria garantida pelas leis do estado, que por sua vez passava longe da economia profunda de Gana. O “setor
formal” se constituía de atividades econômicas reguladas e o “setor informal” de todos aqueles que se
delimitavam além do âmbito da regulamentação, seja legal ou ilegal” (HART, 2004, p.7, tradução própria).
28
“As definições oficiais internacionais, por exemplo, codificadas pela OIT, estão se expandindo. A definição
oficial de “setor informal” foi adotada pela Conferência Internacional de Estatísticas do Trabalho de 1993 com
base sob a caracterização de uma empresa como informal. Em 2003, foram introduzidas as orientações para que
a definição fosse expandida e incluísse o “emprego informal” fora das empresas informais, como uma definição
mais adequada que a anterior” (GUHA-KHASNOBIS; KANBUR; OSTROM, 2006, p. 6, tradução própria).
76

Contudo, quando observada a partir de uma dinâmica recente e mais ampla das
mudanças estruturais, a categoria Trabalho implica em novos quadros de referencial
interpretativo para a ocupação, as relações de trabalho e o emprego assalariado. É o que
Enrique De La Garza traz como problematização para a perspectiva entre o trabalho clássico e
o não-clássico, partindo de que é importante na atual configuração do mundo do trabalho uma
compreensão que dê conta da dimensão ampliada na qual a relação laboral se apresenta. Isto
é, ao longo de décadas, o estudo de sociologia do trabalho colocou em destaque e estruturou
um forte quadro interpretativo sobre a relação trabalho e sociedade. Tomando como primazia
e valorização o trabalho assalariado e fabril em detrimento de outras formas de oportunidade
de renda e sociabilidade na relação laboral. Este quadro teórico acompanha a crise do
capitalismo e apresenta suas dimensões de renovação analítica ao tempo da expansão de
outras atividades econômicas como a de serviços, novas relações de trabalho, como a
terceirização e um elemento definidor com a entrada das ferramentas tecnológicas e de
informação. Neste sentido, o autor afirma,

Sem dúvida, a permanência, ou melhor, a extensão das atividades não assalariadas


no Terceiro Mundo, assim como a extensão dos trabalhos informais, precários,
inseguros, excluídos, não estandardizados, não decentes, flexíveis, não estruturados,
ou atípicos, tem levado a propor conceitos como os mencionados. De fato, não se
trata de sinônimos, estes remetem a duas dimensões principais: primeiro, a ausência
de proteções e segundo, aos efeitos sociais desarticuladores das relações sociais e da
identidade, além disso, da falta de regulação das unidades informais. Estes,sem
dúvida, são aspectos importantes mais que merecem uma nova reflexão sobre a
problematização do próprio conceito do que é o trabalho e, em particular, sobre a
relação e organização laboral (De LA GARZA, 2011, p. 51).

Os limites que requerem uma nova discussão ou passíveis de reflexão, segundo este,
passam pelas fontes de identidade e de ação coletiva e, poder-se-ia mesmo acrescentar, o
papel que vem desempenhando os agentes do governo local em várias frentes de ação
governamental. Por exemplo, ou na mobilização de recursos financeiros, empréstimos e
microcréditos, ou na ordem de novas figuras jurídicas e dos contratos com o governo, a fim de
resolver a fragmentação e integração social em países subdesenvolvidos e naqueles em
desenvolvimento. Seguindo um direcionamento que passa a centrar-se na fronteira limite do
ordenamento sobre o trabalho imaterial. Diante disso, o conceito ampliado de trabalho deve
considerar “toda a relação social de produção ou circulação de valores de uso que não se
restrinja ao trabalho assalariado” (De LA GARZA, 2011, p. 14). Como destaca na sua
discussão:
77

A produção imaterial é aquela na qual o produto não existe separado da própria


atividade de produzir e que de maneira ideal comprime as fases econômicas
tradicionais de produção, circulação e consumo em um só ato. Esta compressão do
processo econômico se relaciona diretamente com o ato mesmo da produção, do
produtor ao consumidor-cliente, complexificando [sic]as relações sociais de
produção ao realizar a intervenção de um terceiro sujeito de maneira imediata no
processo de produção junto ao trabalhador e seu patrão. São os casos dos serviços de
saúde, os educativos, [...], os de viagem, entre outros. Em uma parte da produção
imaterial o objeto material segue sendo importante, sem dúvida, porém no processo
completo há a implicação da participação direta do consumidor ao menos em uma
parte da produção do serviço (De LA GARZA, 2011, p.15).

O autor enfatiza a inflexão do caminho utilizado por décadas como objeto de estudo, o
tipo de trabalhador da grande indústria fabril, assalariado, que foi visto por uma série de
determinantes desde a instalação da maquinaria até a informatização e automação robótica no
local de trabalho. Mas, ao mesmo tempo, em que o processo fabril e seu trabalhador típico se
modificavam, surgiram novas ocupações como o trabalho em callcenter e o programador de
software, outros setores, outros trabalhadores em novas relações de trabalho, cada vez mais
em expansão. Nesse ínterim, De La Garza, introduz sua tese fundamental, o conceito
ampliado de trabalho que perpassa por duas distinções categóricas, o trabalho clássico e o
trabalho não-clássico. Em resumo, a primeira categoria, entendida como trabalho clássico
quer dar conta da relação laboral diádica entre patrões e empregados, isto sem que se pese um
envolvimento direto de outros atores no processo produtivo. Tendo por medida os países do
Norte desenvolvido, neste quadro está contida a maioria da população ocupada e são
considerados na teorização e investigação empírica como sendo a sequência determinante e
racional da evolução do trabalho e, em extensão, a outros setores – de serviços e agrícola.
A segunda categoria, chamada de trabalho não-clássico, pode ser atribuída ao quadro
de referencial formado incontestavelmente pelo quantitativo da força de trabalho nos países
em desenvolvimento, podendo ser analisada em relação à ampliação do tipo de trabalho
imaterial, como descrito. Destaca-se no trabalho não-clássico, a presença de clientes, usuários
e outros atores nas relações de trabalho29. Neste caso, os novos mercados podem partir da
dependência de demandantes, por isso a tendência em serem mais voláteis e de forte relação
com o trabalho não-clássico, o setor de serviços pode ser considerado um exemplo dessa
configuração. E, na dinâmica comercial, a própria forma de distribuição de certas mercadorias

29
O autor imprime na relação face a face, real ou virtual, o elemento importante capaz de conferir o ponto limite
da relação clássica (patrão-empregado). Neste sentido, as pesquisas teriam de expandir o conceito de relação de
trabalho, bem como o controle sobre o processo de trabalho. A gama de atores que interfere diretamente na
relação produtiva e distributiva concentra-se na figura, principalmente, do cliente-consumidor, como também na
organização de produtores, nos agentes públicos e na mídia, como agentes institucionais de interferência direta
sobre o controle do processo de trabalho e do consumo da mercadoria (De LA GARZA, 2011, p. 61).
78

e o componente imaterial do objeto material como parte importante da exigência do


consumidor, como no trabalho e no negócio em via pública e seus novos mercados.
A seguir, apresenta-se um quadro resumo dos três tipos modelares que configuram o
tratamento do trabalho ampliado tomando como referência o trabalho não-clássico em De La
Garza. O quadro pretende evidenciar a perspectiva das modalidades concretas de pressão e de
controle que enfrenta o trabalho não-clássico.

Quadro 1 – Tipologia de pressão e controle sobre o trabalho não-clássico.


Tipo Ator/Pressão Controle Lugar
“Neste controle podem jogar
as regras organizacionais
“A presença do cliente é muito “Realizado em espaço
esgrimadas pelo cliente ou
importante e gera sentimentos fixo e fechado, com
outras mais amplas da
ambivalentes: por um lado deve trabalho assalariado ou
legislação”
receber um bom serviço, mas, não, mas com
Tipo I
por outro, resulta ser um dos intervenção direta dos
“O controle do cliente começa
que pressionam e,às vezes, clientes (por exemplo,
como pressão simbólica para
acusam aos trabalhadores de nos supermercados enas
que o trabalho se realize no
negligência” redes de lanchonetes)”
espaço de tempo esperado e
com a qualidade requerida”
“Valem as regras mais gerais
do direito civil, comercial,
penal, do regulamento de
polícia e da saúde pública.
[...]Neste caso, o aspecto
“A multiplicidade de atores central dos conflitos e do “Se realizam em locais
envolvidos com o seu trabalho e controle sobre o trabalho é o ou lugares fixos ou
a eventualidade de muitas uso do espaço, seja este móveis, mas em espaços
intervenções, que aqueles que relativamente fixo ou se abertos a interações com
realizam esse tipo de trabalho deslocando pela cidade. [...] os diversos sujeitos no
Tipo II
necessitam estar em um estado Porém, o que torna muito território (a venda de
de alerta o tempo todo, ainda complexo o trabalho em bens ou serviços
que o seu referente principal de territórios abertos é a ambulantes; ocupações
negociação e conflito seja o emergência, não de taxistas ou carro-
governo” necessariamente sistemática, lotação)”
dos atores inscritos nestes
territórios que não implicam
na relação provedor-
trabalhador-cliente (fiscais,
agiotas, polícia)”
“Em espaços fixos e
fechados, privados,
“São as pressões que vêm da
“Atores adicionais: os filhos, empresariais ou por
família, das interfaces [do
esposos, ou familiares que contaprópria, espaços
trabalho virtual] e, às vezes,
coabitam o mesmo espaço de que se confundem com
das contradições entre os
trabalho, ou são vizinhos e que os da reprodução [do
Tipo III espaços de trabalho e os de
exigem atenção, tempo, afeto, trabalho] (trabalho em
alimentação, asseio, cuidado
ou outro tipo de trabalho, como domicílio,
com as crianças, descanso,
o doméstico, para as suas desenvolvedores de
diversão”
necessidades vitais” softwarescom interações
precisas com patrões,
provedores e clientes)”
Fonte: baseado em De La Garza (2011, p. 57).
79

Por fim, há outra problematização no aspecto da relação laboral do trabalho não-


clássico, especificamente na relação entre o patrão e o cliente, que toca diretamente na
identidade e ação coletiva dessa configuração. Isto é, enquanto o enfoque da regulação laboral
do trabalho assalariado diz respeito diretamente a uma observação ou reclamação do
cumprimento das normas tanto em relação ao contrato com o trabalhador ou com a empresa.
Ao contrário, em uma relação de trabalho por conta própria, considera-se ausente da relação,
às vezes, o patrão, outras vezes, o empregado. No caso do trabalho e negócio em via pública,
ou nos serviços contratados de uma pessoa física como pessoa jurídica, a situação é
semelhante a despeito de uma identidade coletiva e de autor referência, sendo uma posição
relacional que se desloca continuamente e tem o caráter de transição e incompletude. Em dada
situação é patrão de si mesmo, em outra situação atua como um tipo de “empregado”, mas
com relação entre empresa-empresa. No sentido ampliado do trabalho, afirma De La Garza,
“a relação laboral não seria senão a ou as relações sociais que no trabalho se estabelecem
entre os diversos atores que participam interessados ou circunstancialmente nele e que
influenciam no desempenho laboral” (2011, p. 62, grifo do autor).
A noção de informalidade enfatizada pela explicação setorial detém o caráter
“opositivo”, da perspectiva de ilegalidade econômica e laboral como barreira para os projetos
de desenvolvimento. Passa a incorporar um rotundo sentido negativo que irá fundamentar a
ideia de “problema” a ser resolvida pela ação governamental. Como consequência direta para
o conteúdo mais abstrato do modelo de “formalização” e para o fortalecimento do discurso da
necessidade de legalidade, imposta pela perspectiva mais burocrática.
A partir de uma abordagem institucionalista, Guha-Khasnobis, Kanbur e Ostrom
(2006) trazem indicações importantes sobre duas correntes que precisam ser observadas e
debatidas a respeito da informalidade. Ou seja, a política de governo tanto na forma de
intervir sobre a dicotomia do par informal/formal quanto do seu papel institucional na
elaboração do discurso sobre o processo formalizador das ocupações e da organização das
atividades informais. Os autores chamam a atenção para duas correntes particularmente
relevantes para submeter à perspectiva política do para formal/informal. A primeira refere-se
à noção de informal como fora do alcance de diferentes níveis e mecanismos da governança
oficial e a formal como aquela alcançável por tais mecanismos (GUHA-KHASNOBIS;
KANBUR; OSTROM, 2006, p. 6). Neste caso, o informal passa a ser definido como
“empresa informal” sendo aquela não-registrada e, por extensão, legalmente fora da rede de
taxação, opera livremente na ilegalidade com violação das regras e regulação do estado
formal (mesmo que não haja equivalência entre informalidade e ilegalidade).
80

Deste modo, o debate político se encaminha em direção à alegação de que a


informalidade/setor informal deve sua existência ao tipo de regulamentação “excessivamente
restritiva” que leva com que atividade econômica ocorra fora deste enquadramento formal ou
da rede de regulações (GUHA-KHASNOBIS; KANBUR; OSTROM, 2006, p. 7).
O elemento político agiria para equilibrar a balança de formalidades, abrindo espaços
e construindo tipos de regulação focalizada e propiciando maior alcance na aplicação da
estrutura oficial, ou poderia reforçar o desequilíbrio (direito legal de propriedade ou regulação
do trabalho), ou tomando outro direcionamento ao apostar na repressão à contravenção e em
atos de enfrentamento direto pelo poder de polícia.
A segunda corrente diz respeito ao discurso político, como fator relevante em torno do
qual se modelam as respostas das políticas públicas pertinentes à natureza da organização.
Neste caso, o informal é identificado pelo aspecto da “falta de estrutura” ou comumente
chamado de “setor não desorganizado”, por outro lado, o formal como algo “estruturado”,
organizado. Rotulado pelo discurso político que o associa à “desorganização”, o informal atrai
sobre si o poder de convencimento para a intervenção que, normalmente, beira em ações
desastrosas das políticas públicas.
Tal discurso que incorpora esse grau de convencimento poderia influenciar ações
governamentais de efeito estético, passageiro, de solução rápida e pontual, não trazendo
resultados de longo prazo ou melhorias reais. Esta dimensão, assim, está estreitamente ligada
ao esforço de enquadramento de indivíduos e atividades por parte de determinadas políticas
públicas, sempre em torno de dispositivos estruturadores do governo, que podem ser
causadores de efeitos nem tanto prováveis, esperados ou inversos (uma intensa obrigação de
formalidade pode gerar um processo de corrupção dos atores envolvidos, propinas, arregos,
distrações).
Por fim, os autores insistem que ambas as correntes necessitam de adequação em sua
aplicação política e de cuidado com as intervenções quando estas ocorrerem. Que a ideia de
um continuum na relação do par informal-formal opera em níveis mais altos quanto em níveis
mais baixos da estrutura social e que o alcance dos mecanismos oficiais de governança
precisam ser medido nos seus níveis de contexto específico. Neste caso, é preciso atentar para
o discurso político sobre a natureza e a extensão das intervenções do governo na atividade
econômica. Ratificando a tese de que o informal por não ser caótico ou desestruturado não
deve ser um convite para intervenções baseadas nestes determinantes (GUHA-KHASNOBIS;
KANBUR; OSTROM, 2006, p. 8-9).
81

Cabe lembrar que um dos primeiros e bastante conhecido por abordar a informalidade
em perspectiva de relação virtuosa entre o quadro jurídico e o quadro econômico como
resposta à pobreza foi o economista e político peruano Hernando de Soto (1989).
Apresentando em suas obras uma análise institucionalista, com preocupação em elaborar
propostas de combate ao subdesenvolvimento na América Latina, por medidas de
regularização fundiária para a promoção do desenvolvimento. Ao desdobrar a pesquisa toca
na economia informal urbana e na regularização do pequeno empreendedor como forma de
sair da ilegalidade, avançar economicamente e ter os benefícios da proteção da lei. Muitas de
suas ideias ainda encontram eco no discurso de políticas públicas para a defesa da
formalização e intervenção urbana. Contudo, ainda permanece a questão crucial, as formas de
intervenção para a formalização são as medidas mais viáveis para o desenvolvimento social
nos países em desenvolvimento? Como discorre Ray Bromley, a multiplicidade da
configuração informal tem seus aspectos incrustados na prática social de modo amplo,

Assim como a venda em rua varia muito em escala, tempo, localização e


remuneração, ela varia em termos de força de trabalho e tipos de bens e
serviços. A importância das mulheres, homens, meninas e meninos como
vendedores ambulantes varia consideravelmente de país para país. As mercadorias
podem ser concentradas em poucos limites, por exemplo lembranças turísticas,
jornais e doces em muitas cidades norte-americanas e europeias, ou espalhar-se por
toda a gama de alimentos cozidos, mantimentos e hardware até vestuário e
aparelhos elétricos. Serviço de engraxate, corte de cabelo, digitação de documentos,
reparo de sapatos, de roupas, bicicletas, motocicletas e carros, são todos os serviços
de rua comuns (BROMLEY, 2000, p. 3, tradução própria e grifo da tese).

No projeto inicial da pesquisa, a noção de informalidade foi considerada como valor


fundamental para se definir a figura do ator-alvo das transferências para o Centro Popular de
Compras (CPC), a organização coletiva (como interlocutor legítimo) e as relações de poder
entre a organização e a prefeitura. Entretanto, o termo setor informal, adotado amplamente,
conflitava com a experiência deste autor no campo empírico, produzindo um estranhamento
maior e certa inadequação do seu uso nos termos que se propôs observar, construir os dados e
enquadrar a pesquisa.
Deste modo, o termo apresentava-se como inadequado para a perspectiva proposta
pela análise da ação situada. Trazendo para a noção de informalidade uma perspectiva
funcional explicativa em seus usos e recursos como fundamento conceitual, em perspectiva
macroestrutural e determinante sobre a ação econômica do ator, com inclinação para um
sentido de modelo estático, definitivo e opositor. Contudo, em perspectiva interacional e sob o
aspecto de processo relacional, de fluxo e movimento, de relações práticas e concretas no
82

campo empírico da via pública, passa a ser muito desconfortável insistir em considerar algum
tipo de uso metodológico e analítico alicerçado somente no sentido funcional explicativo para
a noção. E, a própria noção derivada e vinculada a esse entendimento passa a perder sua força
analítica específica.
Para compreender o processo relacional, as interações subjacentes e seus mecanismos
de controle foi preciso situar e observar tanto a ação dos agentes transferidos como a ação do
agente indutor da mudança, o poder público municipal, foi preciso reposicionar o valor da
informalidade no contexto empírico do campo da pesquisa.
Primeiro, quando se considera a noção de informalidade a partir da explicação
convencional vinculada ao setor informal, como o entendimento de atividade econômica e
trabalho não registrado, ilegal e prejuízo ao desenvolvimento, avesso ao regime burocrático,
inferior ao regime regular do mercado de trabalho, desviante do controle e regulação pública,
entre outros. Portanto, o ajuntamento tomado como referência nesta pesquisa, alvo das
transferências e que ratificou um novo contrato público com o executivo municipal, é
reconhecido normativamente pelo poder público como aquele que já mantém uma relação de
permissionário, isto é, aquele que possui autorização de uso da via pública para fins da sua
atividade e negócio. Deste modo, no inicio do processo foi contabilizado um quantitativo
oficial de 2.082 (dois mil e oitenta e dois) permissionários cadastrados, de variadas atividades,
para o projeto de 2014. Estes foram considerados os camelôs permissionários, regularizados
junto ao município. Eram o quantitativo estratégico, principal e alvo da ação governamental
de transferências/deslocamentos, avalizado inclusive pelas instituições públicas como o IBGE
(PREFEITURA DE MANAUS, 2015).
Segundo, quando se considera a noção de informal como caracterizado por baixa
produtividade, baixo rendimento e desorganizado ou ilegal, não regulado e ilegítimo é preciso
relativizar neste ponto, pois se convencionalmente a afirmativa pode valer e ser aplicada para
todas as atividades ocupacionais e as unidades mercantis no seu amplo espectro, em via
pública dependerá das circunstâncias relativas aos fatores tempo e localização. Por outro lado,
quando se observa alguns empregos com carteira assinada (serviço de portaria), contratos de
terceirização de mão de obra não especializada (em serviços de limpeza geral), ou
flexibilidade em condições de trabalho insalubre ou de risco, não se considera somente a
legalidade, regulação e legitimidade, mas o fator da precariedade das relações de trabalho.
Deste modo, em condições que podem ser comprovadas empiricamente, as referências
de informalidade, aquilo que caracteriza a propriedade qualificadora do “setor informal” pode
muito bem aparecer em relações de formalidade, em relações de trabalho tanto no setor
83

público municipal como no setor privado. Quanto à circunstância da variável de localização e


de sazonalidade que afetam as condições do trabalho e negócio em via pública, estas atuam
como mecanismo relativizador em face da afirmativa da baixa produtividade e baixo
rendimento, relativizando o argumento estático e cristalizado do setor informal.
No centro de Manaus, em suas diversas vias públicas, não são todos os espaços
públicos apropriados para a venda de “camelôs” e, não se está falando aqui de
legalidade/regulação do ambiente, mas sim do fluxo, do movimento de transeuntes e
expectativa de consumidores, ainda mais, de “consumidores adequados” à determinada
mercadoria em oferta. O exemplo concreto, como parte da compreensão do mapa e contexto
do campo de pesquisa, está na Rua Marechal Deodoro (paralela à Avenida Eduardo Ribeiro e
Praça da Matriz) que, em toda a sua extensão, tem uma característica forte para lojas de tipos
de vestuário e moda em geral. Ao longo da rua e nas transversais mais próximas à Eduardo
Ribeiro é mais comum encontrar bancas de camelôs oferecendo mercadorias de vestuário e
moda variada de fornecedor local ou fornecedor de outro estado. Ou, ainda, de produção
própria ou o que é bastante comum, uma combinação entre os três tipos. Outro exemplo se
localiza na Rua Henrique Martins que é uma via de grandes lojas tradicionais de venda de
material escolar.
Antes e mesmo após a ação de transferência era bastante comum encontrar bancas de
“camelôs” ao longo da Rua Henrique Martins vendendo todos os tipos de mercadorias
escolares. No entanto, esse tipo de mercadoria ou mesmo um conjunto de bancas não era
encontrada por alguém que andasse na direção do Teatro Amazonas, pela Rua Almirante
Barroso, ou em sua rua transversal, a Rua 24 de maio, ou na Rua Tapajós próximo à Praça S.
Sebastião, ou na Rua Joaquim Sarmento, mesmo ao longo da Lobo d’Almada, ou na Rua
Ramos Ferreira, próximo ao Rio Negro Clube, ou ainda na Rua Luis Antony. Enfim, nas ruas
do centro histórico e, dentre estas, algumas próximas e paralelas à Rua Henrique Martins.

[No CPC] Você tá aqui, tá guardado, em segurança, tá livre de comer com poeira da
rua, a gente pegava chuva, era a maior dificuldade. Molhava tua mercadoria! Mas,
em compensação as vendas eram ótimas, você vendia mesmo! Vou te dar um
exemplo, a gente fazia R$ 2.000,00 no sábado. Aqui a gente faz R$ 20,00! E, às
vezes não vende nada, só pra tu ter uma ideia. [Q10]

Algumas ruas citadas estão a poucas quadras da Avenida Eduardo Ribeiro, ou mesmo
são paralelas a ela, ou próximas a outras praças como a Praça da Saudade. No entanto, o
quantitativo de bancas nessas vias era acentuadamente bem menor. Pois, ao se pensar num
mapa ou cartografia do fluxo de transeuntes, aquelas ruas não eram de fluxo, de movimento,
84

principalmente, se comparado às imediações da Praça da Matriz ou da Rua Marechal


Deodoro. Portanto, os diversos pontos de localização em relação ao fluxo de pessoas e
prováveis consumidores define qualitativamente a diferença entre as figuras que chamo de
“transeuntes-consumidores” e de “adequados-consumidores”. A figura do “transeunte-
consumidor” diz respeito ao consumidor de ocasião, de impulso ou esporádico; a figura do
“adequado-consumidor” diz respeito ao consumidor que escolhe o mercado, busca mercadoria
específica na rua ou está disposto em ação intencional. Isto faz com que tanto a circunstância
da temporalidade e a localização como as figurações de consumidor exercem o papel de
indicadores importantes para a valorização do ponto específico da ocupação em via pública.
Não é que não haja trabalho e negócio ao longo das vias públicas citadas, algumas rotuladas
pelos camelôs de “ruas mortas” (que significa sem movimento, sem fluxo, sem venda
específica, sem consumidor). No entanto, seria mais provável encontrar bancas de camelô
vendendo cigarros, freegels, água, nas “ruas mortas” do que vestuário e material escolar, por
exemplo.
Quando comparadas na variável localização, em relação à produtividade (neste caso,
saída rápida do estoque e reposição de mercadorias) e o rendimento da unidade mercantil, o
quadrante da Praça da Matriz tende a ser mais vantajoso para o trabalho e negócios, e em
consequência para as diversas ocupações conectadas a eles do que o quadrante próximo à
Praça da Polícia (Heliodoro Balbi) ou da Praça D. Pedro II, todas na área central de Manaus.
A tendência projetada para possíveis negociações (de fato, do ponto/localização) seria que as
bancas localizadas na Rua Marechal Deodoro custassem três vezes mais do que uma banca
localizada na Rua Barroso ou na Rua 24 de maio, por exemplo. Mesmo sendo ilegítima a
negociação e, neste caso, abstraindo-se os efeitos comparativos e críticos sobre os termos, a
localização pode se tornar uma espécie de commodity30 imobiliária negociável, desejável e
sujeita à variação da dinâmica do trabalho e do negócio em via pública, tendo como referência

30
O temo em inglês commodity, utilizado aqui, grosso modo significa “mercadoria” e é utilizado principalmente
por economistas que analisam contratos futuros, formação de preço e mercado internacional de determinados
produtos, como minerais, agrícolas e financeiros, por exemplo, no sistema capitalista (NASSIF, 2011). Sem
defini-lo criticamente, utilizo aqui o termo como uma proposta futura de análise das condições que fazem do
“fluxo de transeuntes” um elemento fundamental de negociação, de melhor escolha e de preço para uma banca
localizada em determinada via pública. As commodities podem ser mercadorias padronizadas, mas que ao
possuir determinado elemento diferencial na sua composição agrega um valor maior. Chamar determinada via
pública de “morta”, “rua morta”, diz muito sobre a formação do preço e da negociação. O fluxo de transeunte
mais constante naquela localização indicaria a potencial presença de “transeuntes-consumidores” e de maior
volume de venda, fazendo com que a sua localização atingisse critérios ótimos para uma boa negociação, de
compra e venda do “ponto”. Portanto, está se pensando aqui numa “commodity” construída socialmente e por
isso negociada não apenas pelo tipo de mercadoria vendida na banca, porém o quanto a intensidade do “fluxo” é
forte ou fraca nessa via pública. Apesar da precariedade do uso do termo aqui, tentarei desenvolvê-lo melhor e
mais criticamente em outro momento.
85

os efeitos provocados pelo fluxo espontâneo de “transeuntes-consumidores” ou pelo


direcionamento induzido de “adequados-consumidores”.
De outro modo, demonstra uma construção social da ocupação quando se imagina uma
configuração com inter-relações múltiplas. Outra vez, De La Garza considera a construção
social da ocupação no que diz respeito “à interação de atores que se movem em certas
estruturas e dão sentido à sua situação de vendedor ou comprador e que exercem
determinadas ações” (De LA GARZA, 2011, p. 55). Seguindo a configuração do tipo II,
descrito no quadro 1, tem-se os serviços e o comércio oferecidos nos diferentes espaços
públicos e abertos à circulação de público em geral, mas são oferecidos na maioria das vezes
em um ponto fixo (camelô, ambulante). Daí a questão possível de ser levantada: Com a
transferência para o CPC, qual qualificador poderia ser desincorporado desta configuração? E,
é exatamente neste ponto que a construção social da ocupação em via pública se demonstra
patente em sua qualidade e qualificadores múltiplos, ao mesmo tempo específicos. E,
portanto, será preciso reposicionar o papel do cliente/consumidor com outros elementos que
se estendem e se inter-relacionam nessa configuração. Como argumenta De la Garza,

A demanda do produto influi diretamente na construção desse tipo de ocupação, em


que o imediato depende dos clientes. Isto é, o condicionante direto destas ocupações
é o mercado de produto, naquilo que conta a inflação, o tipo de produto, o nível de
renda da população, etc. Mas, muitos outros agentes podem ajudar ou obstaculizar a
constituição da ocupação.Primeiro, as possíveis organizações coletivas não-sindicais
que podem permitir ou impedir a ocupação, além disso, tem os membros [...] de
outras ocupações competidoras. Em segundo lugar, existe a influência de atores não-
trabalhadores, mas que compartilham o território, como os agentes públicos
intransigentes ou condescendentes, os transeuntes e habitantes da zona [...]. Não se
duvida do papel dos provedores de insumos ou de produtos para a venda que podem
pressionar sobre aquilo que se oferece ao cliente e sobre o preço. [...] Neste sentido,
não se pode deixar de lado um conceito ampliado de configuração sociotécnica do
processo de trabalho que implique um cliente em sua dimensão única de importância
(De LA GARZA, 2011, p. 67).

Neste caso, não seria estranho levar em consideração a variável do tempo, cujo efeito
sazonal mantém a balança equilibrada e desperta a atenção maior para as anotações na
contabilidade31. Meses sazonais de comemoração, das festas de fim de ano e Natal, ou mesmo
no final do mês por conta dos pagamentos dos salários, devem/deveriam ser levados em conta
na organização das rotinas em via pública, principalmente quando se conta o número de
camelôs e registra-se a sua atividade no centro. O período do pagamento do salário mensal era
seguido por um intervalo de maior queda nas vendas das mercadorias, na banca. Por outro

31
O objeto nativo identificado como “caderninho” que materializa o livro-caixa, a movimentação corrente e
contas a pagar é o fluxo de caixa feito pela maioria dos que trabalham e negociam em via pública.
86

lado, os ganhos tendem a ser bem mais elevados nesses períodos de datas comemorativas do
que no período comum. A mecânica dessa balança econômica diz respeito à sazonalidade e ao
ritmo regular de acesso dos consumidores a esse mercado, ou seja, ao período de ganhos mais
altos, um aumento no fluxo de estoque devido aos consumidores adequados. Isto se refere
inclusive à mudança no tipo de mercadoria (tempo de aumentar a compra de material escolar,
tempo de diminuir) como consequência direta da sazonalidade que opera sobre quais
deveriam estar em maior quantidade e exposição na banca do que outras. Deste modo, baixo
rendimento e baixa produtividade não são características estáticas e determinantes de
informalidade para o trabalho e negócio em via pública, caso seja considerada a perspectiva
em relação ao contexto de localização e às consequências advindas da sazonalidade nas
vendas.
Portanto, no conjunto dos argumentos metodológicos e analíticos esta pesquisa não
considera dar um tratamento prioritário para a noção de informalidade ou tomar a temática
como discussão central. Considerando que o recorte escolhido da pesquisa está mais
interessado na ordem da experiência dos indivíduos e no processo relacional da ação
governamental. Contudo, não se deixou de lado seu papel como parte da configuração do
trabalho urbano em via pública com o qual a noção ainda se relaciona.

2.4 HÁ UM CAMPO EMPÍRICO AQUI? ENQUADRANDO O PROCESSO, OS ATORES


E AS PISTAS NO NOVO AMBIENTE

Construir o campo empírico no CPC não é uma demanda de tarefa simples. Dizer que
o Centro Popular de Compras Galeria Espírito Santo é apenas um prédio de médio porte, que
funciona como um novo lugar para os ex-camelôs do centro, que executam suas atividades em
conjunto com os serviços públicos ali oferecidos, pode ser uma pista falsa ou um atalho
enganoso para o caminho da pesquisa. Neste caso, deve-se considerar o atual debate sobre a
“nova informalidade”, que problematiza a nova dinâmica e o conteúdo das relações de
trabalho que encobrem formas de exploração e de precarização, que se ampliam cada vez
mais sobre grande parte dos trabalhadores. Considerando que se trata de um desafio complexo
e robusto diante da expansão de relações de emprego disfarçadas, da difícil distinção entre
trabalhador por conta própria independente, empregado e empregador numa relação ambígua
que se impõe diante das transformações do trabalho autônomo, heterogêneo e expressivo que
ao longo do tempo vem se alargando (KREIN; WEISHAUPT PRONI, 2010).
87

Neste sentido, o relatório produzido por Krein e Weishaupt Proni (2010) traz um
importante panorama acerca de pesquisadores, parâmetros de abordagem e mudanças
possíveis concernentes ao tema da informalidade. Os autores discutem, entre outras questões,
as três posições definidas no cenário das investigações acadêmicas e institucionais que
abordam a mudança do enquadramento de “setor informal” para o espectro conceitual mais
consistente de “economia informal”, além de mostrar o avanço de uma “nova informalidade”
a partir das situações de demandas de contratos flexíveis e o uso de “pseudoautonomia”,
“autoemprego” e “pequeno empresário” como conteúdo inerente às novas ocupações
(KREIN; WEISHAUPT PRONI, 2010, p. 22).
Aqui, a pesquisa toma uma decisão, que diz respeito à construção dos dados tanto
como da problemática, da hipótese e das premissas, que estas são estreitamente interligadas e
tem relação com o processo interacional do campo de pesquisa. Naquilo que se pode construir
a partir do que os atores-agentes expressam por suas práticas cotidianas e em suas
justificativas tentando dar conta de suas condutas. Tomando por princípio que no campo
empírico não se fica imperceptível, devido às condições concretas e espaciais de interação, daí
a tarefa ser desafiante e, simultaneamente, conflituosa e delicada na dinâmica de construção
do campo, dos dados e da interação com os agentes e destes com o pesquisador.
A intenção projetada inicialmente para esta pesquisa, sob o efeito de questões
exteriores e anteriores ao campo empírico, pretendia enfocar um agente em especial, o
Sindicato do Comércio de Vendedores Ambulantes de Manaus (Sincovam), que atuava como
organização representativa entre os permissionários na via pública e continuou no CPC, mas
sob uma configuração diferente. Além de outra representação chamada de Associação dos
Vendedores Ambulantes do Comércio Informal do Estado do Amazonas (Avacin). Isto
porque pretendia seguir um caminho que havia deixado na última pesquisa em 2009. A
respeito do desempenho, coesão e papel desse tipo de representação coletiva, reconhecida
entre os permissionários, localizada no centro à época e sob registro legal em Brasília, após
2005.32
Com isto bem resolvido, tomar-se-ia a organização coletiva como unidade empírica de
análise e a ligaria ao quadro teórico sobre a temática de identidade coletiva e a problemática
do chamado trabalho atípico, não-fordista e a específica ação coletiva. Ainda, havia a intenção
de comparar esta organização em Manaus, Amazonas, com outra representação coletiva de
ambulantes, que havia mantido contato, na cidade de Belém, Pará, e a outra na cidade do Rio

32
Possuindo carta sindical, segundo entrevista concedida a este pesquisador em 2009, o ex-presidente Raimundo
Sena, atual vice da organização sindical.
88

de Janeiro, no Rio de Janeiro. Assim, tudo parecia estar mais alinhado quando três fatos
ocorreram. Primeiro, em um momento de diálogo com um professor que conhecia o interesse
deste autor na temática do trabalho em via pública, dissuadiu este ao afastamento dessa
perspectiva quando levantou dúvida a respeito da consistência empírica e do avanço
significativo para a pesquisa caso se tomasse essa unidade de análise como foco principal do
estudo, como estava inclinado inicialmente a fazer.
Segundo, enquanto estudava no PPGSA na UFRJ, este autor começou a visitar,
observar e conversar durante algumas semanas, num mercado popular no Rio de Janeiro, com
o diretor representante da coletividade do lugar, pois julgou oportuno verificar algumas
situações localizadas. Durante um intervalo de três semanas em abril de 2014, falou com o
diretor, acompanhou uma reunião geral para mudança do regimento interno, conversou
esporadicamente com algumas pessoas que trabalhavam nos boxes e observou o movimento
interno e alguns conflitos. No entanto, o que mais chamou a atenção foi o papel exercido por
alguns atores políticos de intermediação, que prestavam “ajuda” na resolução de certos
problemas estruturais do prédio, que facilitavam o acesso a algumas concessionárias de
serviço público para aprovar mudanças, assinaladas como necessárias, para a continuidade e
permanência das atividades no lugar. De modo panorâmico e o mais exploratório possível,
observou que os intermediadores políticos (vereador, secretário, técnicos) mantinham uma
relação muito estreita com a representação da coletividade e isto era considerado importante
pelo diretor para a estabilidade das atividades no mercado popular33.
Isto pareceu um esboço de figuração relacional onde um “ator-mediador” com menor
força de mediação ligava-se a “atores-tomadores de decisão” para construir certas relações de
interesse. Como consequência possível dessa configuração, estes traziam força para que o
representante da coletividade alcançasse resultados positivos em suas demandas; e, os
“tomadores de decisão” aproximavam os interesses de moeda de troca política entre estes e a
coletividade do lugar. Por fim, em uma conversa e outra foi informado que o Mercado
Popular pertencia à prefeitura e o contrato com os ocupantes do prédio era do tipo precário,
pois nenhuma decisão ou ação poderia ser tomada sem que houvesse a chancela do poder
público municipal. Além do que, a própria representação coletiva havia mudado seu status de
associação de camelôs (utilizado antes de serem alocados no mercado popular) para a
associação de microempreendedores. Com o objetivo futuro, segundo o diretor, de tornar o

33
Por exemplo, no último andar era necessário fazer adaptações na estrutura do prédio, na rede de água e esgoto,
para que atividades de salões de beleza fossem instaladas adequadamente.
89

lugar em revendedores e distribuidores da produção de jeans do Nordeste, especificamente da


região de Toritama, Pernambuco.
Terceiro, ao começar a construção do campo em Manaus, este pesquisador deparou-se
com uma dificuldade significativa de marcar entrevista ou conseguir um tempo na agenda do
presidente do Sincovam, responsável pela mediação entre os permissionários e o executivo
municipal no CPC. Apesar de tê-lo encontrado algumas vezes pelos corredores, a interação
era mínima, com promessas de agendamento e ligação futura, nunca realizada34. Entretanto,
em contato com alguns participantes da diretoria do Sincovam, falavam a respeito da intenção
de mudar o status ou combinar as categorias camelôs e “microempreendedores individuais”
no mesmo conjunto de representação. Isto pareceu à primeira vista um tanto confuso e
deixaria a pesquisa refém de um objeto que estava em transição, em processo de mudança de
status, parâmetros e categorias de representação, que ainda buscava se definir entre uma coisa
e outra. Cogitando sobre essa mudança de atuação do Sincovam entre os permissionários,
parecia que a situação estava no campo da expectativa, da incerteza e, inclusive, da
desconfiança. Sem deixar de observar, contudo, que se tratava de um campo de múltiplas
possibilidades, teias e entrelaçamentos, mas, parecia duplicado e com resultados próximos se
tivesse permanecido somente focado nos permissionários do CPC, o que levou a se desistir e a
afastar-se desse objeto que era o Sincovam.

2.5 DA PRÁTICA INICIAL E SEGUINDO EM FRENTE: O CAMINHO TEÓRICO E


METODOLÓGICO

Não se pode negar o ponto decisivo que foram os momentos iniciais de orientação da
pesquisa com o Prof, Dr José Ricardo Ramalho e os encontros e diálogos com os colegas do
grupo de pesquisa Desenvolvimento, Trabalho e Ambiente (DTA), em 2013. Nesse período,
ainda não havia sido cogitado uma delimitação da temática após esses encontros, pois estava
refazendo o projeto de pesquisa. Em 2014, as leituras e as discussões direcionaram a atenção
para a ação governamental. Esta foi colocada em prática pelo conjunto de atores como o
executivo municipal, a câmara de vereadores, a secretaria municipal estratégica e, ainda, em

34
Como consequência, está patente nesse trabalho a lacuna a respeito da representação coletiva dos indivíduos
instalados no CPC. Não há na pesquisa uma narrativa do presidente do Sincovam, apenas as narrativas de fontes
secundárias, como as incorporadas na fala dos permissionários, ou pelos recortes das reportagens jornalísticas na
qual é mencionado. Essa lacuna não foi proposital nem por falta de interesse do pesquisador, mas, em todo caso,
acabou por modificar a unidade de análise empírica e o direcionamento do estudo, que se voltou para os
processos tanto da ação governamental como para o microprocesso de estratégias adaptativas e de incorporação
do ambiente na prática dos permissionários.
90

articulação com os atores representantes da coletividade (sindicato, associação, cooperativa


tiveram interesses conflitantes algumas vezes), que precisavam mobilizar a cooperação e a
adesão dos atores-alvos além dos recursos jurídicos e financeiros para a execução. Assim,
observou-se que o problema da ação governamental dizia respeito à problematização sobre a
mudança na micro-organização social do trabalho e negócio em via pública. Não somente
pelo instrumento da relação contratual entre os agentes, bem como nos desdobramentos como
a adequação de uma nova figura jurídica, na transferência para outro ambiente ou, não menos
importante, na aquisição de novas competências e experiências para a ocupação no novo
mercado.
A proposta de mudança teve origem no gabinete do executivo municipal tanto em sua
articulação política e financeira quanto no direcionamento dado para as atividades econômicas
na área central. Uma proposta vinda do estrato “de cima”, da ordem do poder político
estabelecido, da administração pública e de agentes exteriores ao ajuntamento. Nessa relação
assimétrica de poder, foi capaz de impor, articular e organizar o ritmo e os locais de
transferência, mesmo que houvesse uma margem de manobra para certas escolhas feitas pelos
atores-alvos ou em nome de seus representantes. Portanto, não foi o ajuntamento que esteve
em condições concretas de propor as mudanças, quando se leva em conta o grau de sua fraca
organização política, ou seja, o grau mais “frouxo” de associação entre os indivíduos e, ainda,
de sua participação em organização coletiva como associação ou sindicato existentes naquele
momento.
De fato, o foco principal das intervenções urbanísticas do projeto do executivo não era
o ajuntamento, mas este sofreu o efeito colateral das mudanças. Na medida em que a ação
governamental tinha um projeto amplo de “revitalização”, “reordenamento” e “renovação
estética” de áreas e equipamentos públicos da região central, consequentemente, o trabalho e
o negócio do ajuntamento deveriam ser afetados pela ação. Para alcançar um resultado bem
sucedido da “nova” paisagem urbana era necessário resolver o “problema” de parte dos
“camelôs” e “ambulantes” da área, mas principalmente, onde a intervenção urbanística dirigia
seu olhar mais focado.
O quadro no qual o processo de mudança se inscreve, então, poderia ser visto pela
perspectiva de análise de Sztompka (1998) sobre a mudança social, o que pode ser definido
como o problema chave da ação governamental. Ou seja, como a ação governamental poderia
difundir uma visão sugestiva do futuro em uma ordem normativa e induzir uma mudança de
sucesso com um mínimo de confronto com o ajuntamento do trabalho e do negócio em via
pública. Um tipo de mudança chamada pelo autor como mudança manifesta vinda “de cima”
91

(SZTOMPKA, 1998, p. 446). Não que fosse percebida imediatamente como algo negativo
pela maioria dos permissionários, pois percebiam pela movimentação do executivo que
alguma coisa seria realizada no período, de um modo ou outro.
A mudança induzida pelo empreendimento organizacional “desde cima” como projeto
do executivo municipal para a área central de Manaus precisou mobilizar uma série de
recursos, desde organizacional e financeiro até leis e compromissos com apoiadores e
representantes a fim de diminuir os obstáculos à implementação do projeto “Viva Centro
Galerias Populares”.
Todavia, nesta escala de mudança social, quantitativa e qualitativamente menor, de um
ajuntamento local e específico do circuito comercial e das conexões de distribuição de
mercadoria em via pública, o processo de mudança na forma de organizar a experiência social
pode assumir uma perspectiva relevante. E isto, diz algo em torno das relações políticas, das
relações de poder e da dinâmica na forma de ordenamento urbano e sua produção e
dominação. Como consequência, ponderou-se se isto poderia ser tratado pela abordagem da
agência do indivíduo, de como este organiza ou reorganiza sua experiência e suas ações
estratégicas diante do contexto de mudanças e, ainda mais, como sua reação diante das
normas e constrangimentos pode ser representada pelas situações de resistência.
A noção de ajuntamento apreendida e pontualmente utilizada ao longo da pesquisa tem
maior proximidade do sentido empregado por Goffman (2010[1963]) como a “implicação de
pertencimento a dada situação por modos de comportamento que parece ser comum [...] como
a regra que obriga os participantes a “se encaixarem” (GOFFMAN, 2010, p. 21). Esta noção
aplicada aos indivíduos que se ocupam do trabalho e negócio em via pública não acarretou,
necessariamente, modificação quando aplicada àqueles que haviam sido instalados no CPC.
Neste caso, tanto na rua como no CPC é o aspecto da interação e da situação que define a
condição do ajuntamento, na medida em que “deve permanecer no espírito da ou no ethos da
situação” (GOFFMAN, 2010, p. 21)35. O que se pretende com o termo ajuntamento, ao invés
da categoria de “grupo”, é demonstrar que as propriedades básicas indicativas do
ajuntamento, quando aplicadas em referência aos indivíduos em via pública ou quando
instalados no CPC, dizem respeito à sua presença física imediata entre si, em interação face a

35
De modo geral, a categoria grupo social quando empregada como referência a um agrupamento de indivíduos
denota um sistema de relações sociais de base associativa; muito forte na inclinação para a coletividade como
relação de identidade cultural, agregação, tradição, discurso coordenado e contínuo; com uma carga significativa
maior de homogeneidade e de aspecto orgânico do que o termo ajuntamento.
92

face36 (algumas vezes representada por seu objeto, como a banca/box). Ainda, em sua
perspectiva de convivência com relações mais “frouxas” e na manutenção de uma distância
social relativamente mais estreita apenas entre os pares mais próximos. Na categoria “grupo”
o elemento qualificador, ao contrário, se apresenta como uma coesão mais sedimentada entre
os indivíduos. Por fim, o ajuntamento tem um qualificador específico quanto ao aspecto da
conduta, baseado na mútua visibilidade pela qual o indivíduo se “encaixa”37 ou não, em dado
momento situacional.
Ao afirmar que o ajuntamento está ligado à situação38, Goffman (1964) estabelece a
situação como variável social de efeito sistemático sobre a análise da conduta ou a ordem da
organização social. De um lado, serviria para qualificar a forma de agrupamento observada
empiricamente e os modos específicos de interação situada no ambiente ou a posição
assumida e o distanciamento frente ao conjunto dos permissionários e entre os pares mais
próximos. Por outro lado, tal posicionamento do indivíduo demonstraria sua perspectiva
relacional em assumir com seus pares a ativação de condutas de resistência às regras
reguladoras do CPC e o encaminhamento das respostas práticas às condições problemáticas e
limitadoras do ambiente. Na medida em que os estudos que buscam fazer uma análise
correlacional ou indicativa assumem os determinantes sociais como: gênero, parentesco,
escolaridade, idade, país de origem, entre outros e, esses atributos sociais são tidos como
importantes e determinantes à constituição de novos indicadores ou novas correlações, algo é
relegado. Isto é, a situação seria negligenciada na análise da ação.
Esta pista, apontada por Goffmam, considera que a situação apresenta indícios
imprescindíveis e pode dizer muito a respeito do que fica encoberto pelos determinantes
sociais rígidos, ao se observar as formas gestuais associadas à fala, aos gestos corporais, aos
embaraços, às pausas nos assuntos desconfortáveis, o envolvimento com as práticas e as
respostas dadas às determinadas condições dos ambientes, tomam como referência o lugar,
entretanto não são vistas como relevantes e acabam ficando de fora de uma análise
correlacional. Assim, Goffman estabelece um item fundamental da ação situada, elegendo o

36
“Utilizarei o termo “ajuntamento” para me referir a qualquer conjunto de dois ou mais indivíduos cujos
membros incluem todos e apenas aqueles que estão na presença imediata uns dos outros num dado momento”
[...] (GOFFMAN, 2010, p. 28) “ajuntamento são situações que ocorrem no momento, de momento a
momento [...]” (GOFFMAN, 2010, p. 262, grifo da tese).
37
“A noção de “encaixe” para Goffman está relacionada ao sentido comum de que: “o que é apropriado em uma
situação certamente pode não o ser em outra” (GOFFMAN, 2010, p. 22).
38
“Ajuntamentos são situações que ocorrem no momento, de momento a momento, e por isso a prova da ligação
de um indivíduo precisa ser imediata e contínua” (GOFFMAN, 2010, p. 262).
93

lugar na condição variável importante para a análise da atividade situada39. O momento


situacional é deslocado para que o valor do lugar tenha relevância, não pode ser negligenciado
na estratégia metodológica e analítica, levando-se em conta que a observação do
comportamento em geral ou os recursos gestuais, modos de fala e olhares se entrelaçam ao
ambiente, em ocasiões formais ou informais. “Nota-se que não é um atributo da estrutura
social que estamos aqui considerando, tal como idade e sexo, mais do que isso os valores
localizados sobre estes atributos como eles são conhecidos na situação corrente e à mão”
(GOFFMAN, 1964, p. 341, tradução própria).
Neste ponto, para a construção da pesquisa, seguiu-se a indicação proposta por
Goffman sobre a análise da ação situada, na tentativa de compreender de onde fala e que
posição assume o entrevistado que, ao longo daqueles últimos seis meses, tentava se encaixar
na nova dinâmica e experiência do CPC. Assim, as dificuldades se apresentam e se conectam
a partir das diferentes narrativas e, como consequência, as posições tomadas sobre o que fazer
e como fazer em tais condições. Elas refletem simultaneamente a causa e o efeito do ambiente
a respeito do tipo de comportamento do permissionário/microemprendedor individual.
Emerge, de igual modo, seu aspecto relacional entre o gesto, a fala e as pausas40 produzidas
nas narrativas e o ambiente no qual própria narrativa vai se construindo, como na premissa de
Goffman: “[...] os gestos individuais em relação ao ambiente imediato, não somente pelo
corpo do indivíduo, devemos introduzir este ambiente de alguma maneira de modo
sistemático” (GOFFMAN, 1964, p.133, tradução própria).
Portanto, caberia problematizar o modo sistemático/não-sistemático como os
permissionários do CPC manipulam seu boxe, arrumam as mercadorias e mutuamente se
observam e observam o pesquisador neste ambiente, entram em conflito velado e demonstram
descumprir as normas do regimento interno abertamente como forma de resistência. Ou como
o ambiente está sendo reorganizado, pelo poder público, com as obras na estrutura física e
realocação de boxes, isto não se passa sem que seja atribuído algum sentido ao processo. Em
consequência, a percepção sobre o quanto o ambiente está passando por tantos ajustes, o
quanto isso será incorporado pelos permissionários e como a reorganização afetará
diretamente os consumidores adequados ao CPC. Entre escadas rolantes, elevadores,
reposição dos boxes no corredor, no fundo, na entrada, a instalação de novos serviços
públicos podem provocar diversas disputas, reações e cooperação pontual.

39
“[...] É preciso admitir que o aspecto meramente situado da atividade em uma ocasião pode muitas vezes ser
muito mais importante e substancial do que o aspecto situacional” (GOFFMAN, 2010, p. 262).
40
Para indicar a pausa na fala, ou um corte interrompendo a narrativa do entrevistado utiliza-se o gráfico de
colchete e o sinal de reticências [...].
94

No CPC, o microprocesso desencadeado pela ação dos permissionários instalados é


percebido como ato prático, consequência das interações e resposta dada às condições do
ambiente e, por vezes, vinculadas à experiência anterior em via pública. É a objetivação da
ação situada, da visibilidade mútua entre os pares, da “investigação” do contexto e da ordem
social da experiência que as formas cotidianas de resistência são ativadas, seja de modo
individual ou compartilhado e, portanto, que fundamenta este microprocesso. Desata o
mecanismo da intermedia/ação do jogo de equilíbrio entre um pé “do lado de dentro” das
normas, do contrato, do privado e um pé “do lado de fora” na prática de burla, da
variabilidade de condutas desviantes, da duplicidade do trabalho. A ação situada ao mesmo
tempo em que expressa o contramovimento é sua expressão, ou seja, estabelece a causa e o
efeito deste na intenção do agente quando da sua conduta prática diante dos pares próximos e
do ambiente instável.
É deste modo que a ação situada conduz a trajetória de pesquisa de Louis Quéré,
sociólogo francês, ligado ao Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) e ao
Instituto Marcel Mauss. Traz uma longa trajetória de estudo e pesquisa epistemológica
voltada preponderantemente para a teoria da ação, junto com alguns colaboradores como
Michel de Fornel, Albert Ogien, Daniel Cefaï. Faz parte do Centre d’Études des Mouvements
Sociaux (CEMS), um dos centros que articula a produção da sociologia pragmática na França,
como condutor de novas abordagens que emergem como alternativa, sobretudo à hegemonia
da sociologia bourdesiana. Com a preocupação em reformular a teoria da ação social a partir
do quadro analítico de orientação pragmática (CEFAÏ, 2013; CORRÊA, 2010).
As premissas teórico-metodológicas desta pesquisa têm a pretensão de filiar-se à
perspectiva de Quéré a respeito da ação situada e ambiente, interação e visibilidade mútua e,
principalmente, em torno da crítica a uma explicação universalista e de ordem estruturalista
da sociologia francesa. É ele quem introduz os trabalhos de Dewey na França e o
reconhecimento do potencial analítico e crítico da abordagem interacionista em especial em
Garfinkel e em Goffman. Suas últimas análises estão voltadas para os estudos de constituição
e resolução dos chamados problemas públicos (CORRÊA, 2010).
Ao resgatar a discussão interacionista e pragmatista de vertente norte-americana,
amplia o debate e critica o que chama de epistemologia “desencarnada” da ação. Neste artigo
fundamental, originalmente de 1997 com versão traduzida para o inglês em 1998, Quéré
retoma uma discussão pontuada por Goffman (1964) alongando a perspectiva sobre a ação
situada. O referido autor desenvolve a compreensão de que a situação continua sendo
negligenciada na interação e nas práticas da vida cotidiano (a exemplo do trabalho) por não
95

incorporar tempo e espaço como aspectos articulados na estrutura da ação situada. A ação
situada no ambiente concreto indica a organização do passo a passo da ação nas condições
concretas de sua efetivação, destacando que artefatos e objetos estão entre os atores situados
e integrados tanto no próprio ambiente quanto na experiência (QUÉRÉ, 1997, p. 172, grifo
nosso).
No caminho que propõe, e pelo qual este trabalho segue as pistas, Quéré passa a
questionar as categorias explicativas tradicionais como classes sociais, estruturas, movimentos
sociais em favor de uma maior proximidade entre o ator e sua experiência. O que se forma a
partir desse quadro é uma posição do trabalho do investigador social mais estrito com um tipo
de clarificação da trama de sentido tecida na própria ação. A sociedade e o vínculo social
passam a ser abordados sob o ponto de vista dos processos cognitivos, de categorias
semânticas ou dos métodos de coordenação que os constitui (QUÉRÉ, 1997, 1999; CORRÊA,
2010). Portanto, nos termos de Louis Quéré, o social não é mais o que faz ou produz a ação,
mas é o seu resultado, são essas situações com as quais a sociedade fora de sua dimensão
funcional ou totalizante se faz e se refaz, torna-se visível para os atores e para a análise da
sociologia, sendo que os atores-agentes sociais são considerados por sua competência criativa
(como em JOAS, 1996) ou inteligente na resolução de problemas (como em DEWEY, 1938).
A noção de ator está conectada ao quadro interacionista de Garfinkel, ao processo de
organização endógena, produzida pelo próprio agente, em sua maneira de organizar a vida
concretamente. Ator de uma sociologia que nem é determinista por sua totalidade, nem é
utilitarista em sua ação, mas é capaz de “clarificar” seu desenvolvimento sob a hermenêutica e
a pragmática (QUÉRÉ, 1987, p. 100).
A análise de Quéré classifica o conceito de accountability de Garfinkel como um
ponto útil para análise de sua concepção interpretativa de situação. O modo sobre o qual os
atores dispõem daquilo que encontram, das circunstâncias com as quais se deparam e sob as
condições de avaliabilidade da situação prática que intervém na organização de suas
atividades comuns. Portanto, a noção de avaliabilidade é mediadora da ação social (QUÉRÉ,
1987, p. 101). Neste caso, a objetividade do mundo social existe enquanto produto das
atividades práticas dos seus membros, ou seja, os fatos sociais são “performativamente
objetivos”, o modelo de ator social não se reduz ao homem em sociedade como desprovido de
julgamento, ou aplica-se à explicação de seu comportamento a partir das normas, regras, das
crenças ou qualquer outro determinante exterior. O argumento sociológico empregado é que a
accountability, dar conta de determinada conduta prática, é a mediadora entre a ação social e a
ordem social (QUÉRÉ, 1987, p. 102; 1988, p. 77).
96

Por outro lado, o autor realiza a análise das interações comunicativas da vida corrente
como uma perspectiva geral de análise dos fenômenos sociais, na medida em que tenta
escapar da dimensão reificadora do social, tomando por base a autoconstrução da realidade
social das ações recíprocas e das relações entre as pessoas e, mais precisamente dos processos
de produção da inteligibilidade, do sentido e da ordem como a mediação de sua organização
endógena (QUÉRÉ, 1988, p. 87). Isto se evidencia na preocupação sociológica que o autor
denomina, ao se aproximar de Goffman, como “os comportamentos menores” de nossa
sociedade. Seu interesse pelos contatos, encontros e as relações sociais, o mais
minuciosamente possível, é o recorte pelo qual as pessoas em sociedade gerenciam e ordenam
suas situações sociais.
A proposta de Queré (1998) considera a força crítica da microssociologia, fazendo um
movimento da ordem das estruturas para a ordem das situações. Examinando a experiência
social não como um puro psicologismo, como um “veículo subjetivo”, mas como atividade
situada e que diz respeito a produção da ordem moral. De tal modo que vida social e vida
pública se combinam neste caminho da pesquisa, pois falar de ocupação é falar que a
atividade é situada socialmente e, enquanto tal, é pública pela situação de copresença. O que
para ele pode ser interpretado como os agentes sociais agindo não em função de sua
interioridade (motivações, intenções cálculos etc.), mas considerando a situação na qual
estão fisicamente presentes, isto é, o fato de que são observados, que podem se perceber
mutuamente e estão conscientes dessa perceptibilidade no ambiente. Em percepção mútua, no
jogo face a face, é levada em conta a experiência anterior, além de considerar quem são e em
qual posição os outros agentes mutuamente percebidos se encontram. Por outro lado, ao dar
conta de uma ação em particular mobiliza-se o vocabulário de motivos, a semântica na qual os
termos utilizados são identificados, ao tipo de atividade ao qual está filiada e à situação em
particular a qual ele descreve, ou seja, ativa a linguagem da experiência (QUÉRÉ, 1993).
Por fim, Quéré (1998) vai retomar a discussão goffmaniana, posta em The still,
neglected situation? (de 1964), sobre o problema de negligenciar a situação na análise dos
fenômenos sociais. Isto diz respeito ao problema cognitivo do agente em tomar dada decisão,
em ter uma conduta apropriada ao ambiente, em dar conta de algum modo da ação em curso,
ou seja, que as condições da organização social (ou da ocupação) e sua coordenação nunca
são inteiramente predeterminadas e sempre precisarão de ajustes localmente, in situ (QUÉRÉ,
1998, p. 240). Sua crítica se direciona contra a perspectiva na qual o agente segue um plano
enquanto age e que este plano seja a base para a sua capacidade de controlar a sua atividade
ou a situação. Sob essa ótica, este é um típico pensamento que pressupõe a análise e
97

deliberação da teoria da escolha racional, inclinada a afirmar que o corpo é meramente um


órgão performático, sem capacidade cognitiva e relação com o ambiente.
Desse modo, restabelecer a estrutura temporal da situação revela-se um passo
importante para superar essa perspectiva da teoria da escolha racional. Para tanto se filia à
pragmática de Dewey, na qual a situação reflete um mundo ambientalmente experienciado.
Esta não tem apenas condição de qualidade, mas é qualificadora no modo de permear e
“matizar” todos os objetos e eventos que estão envolvidos na experiência, isto é, busca na raiz
dos valores e significados atribuídos aos fatos observados e regulados as escolhas feitas na
ação. A problemática prática pode se apresentar quando não puder ser tratada sob a base da
rotina, então, o agente precisará tomar de sua caixa de ferramentas experimentadas para tratar
com esta novidade e, ainda lhe é possível estar no campo da percepção mútua, que outros
agentes também possam confrontar o mesmo problema e compartilhar alguma sensação em
comum da maneira de compartilhar a ação (QUÉRÉ, 2003, p. 114).
A estrutura temporal da ação situada, como categoria teórico-metodológica demonstra
as relações entre o ambiente, os agentes estratégicos envolvidos, a forma de agir do executivo
municipal e a reação dos permissionários transferidos para o novo mercado, portanto, não se
refere ao agora de um instante, do “momento singular da prática”. Seria um erro reduzi-la ao
instante fugaz, ao ajuste pontual do momento presente do aqui e agora. Quéré afirma que a
estrutura é do enredo, do contingente e da iniciativa que conduz ao seu desenrolar e à
formação de uma configuração. O autor defende o aspecto temporal da situação como um
movimento contínuo em que determinadas condições conduzem ao fechamento ou abertura, a
partir de reencontros de diferentes eventos e coisas no próprio desenvolvimento da situação
(QUÉRÉ, 1997, p. 19).
A problematização da adaptação no CPC também se inscreve na forma de reação
observada no campo empírico entre os permissionários, que é a ação de resistência cotidiana
na forma de resposta pragmática diante das situações do ambiente. Aqui, a forma cotidiana de
resistência é apropriada e incorporada na análise sobre tudo a partir dos estudos de James
Scott (1976; 2002; 2011). Mesmo que a discussão de Scott se dê sobre o campo empírico de
populações rurais do sudoeste asiático, é a sua análise da perspectiva política das ações
situadas nessas populações como resposta prática à imposição das normas sobre a propriedade
rural, da política de planejamento agrícola, do serviço militar obrigatório, de programas
governamentais, etc, que interessa incorporar e pretende-se utilizar na análise das ações dos
agentes permissionários em ação situada no CPC e, especificamente, no contexto urbano.
Alguns pontos de convergência teórica e metodológica podem ser observados, de
98

modo mais geral, entre os camponeses e os camelôs em via pública, quando Scott (2002)
apresenta a problemática dessas populações que “aparecem nos registros da História não tanto
como atores históricos, mas como contribuidores mais ou menos anônimos para as estatísticas
sobre densidade populacional, impostos, migração da mão-de-obra” (SCOTT, 2002, p.11).
Tanto de um lado quanto de outro, ambos podem ser identificados como formações sociais
vistas a partir do anonimato, ou no caso específico do “camelô”, muitas vezes rotulado como
aquele que desenvolve uma economia invisível, desorganizada ou subterrânea. Num primeiro
momento é possível mesmo afirmar que a densidade de “camelôs” em uma determinada área
deve ser considerada, porém normalmente há uma dificuldade em identificá-los no cadastro
público responsável, ou mesmo quantificá-los adequadamente. Às vezes, vistos como força de
trabalho pronta para a exploração não apenas pelo setor industrial, mas por setores do
comércio de bens e serviços podendo ser canais de distribuição e de baixo custo de
investimento. De um lado, é fundamental analisar como no início do processo de transferência
o ajuntamento de “camelôs” passa a ser parte da “solução” para o projeto da ação
governamental. Contudo, no decorrer atuando como agente transformador cria formas
cotidianas de resistência ao tipo de modelo estatal, às situações de cobrança e fiscalização
interna e às normas aplicadas ao contexto do CPC. Para o autor, a diferença entre essa forma
de resistência e as formas históricas de trabalhadores fabris, que são performances mais
vinculadas, de modo geral, às greves gerais e aos protestos, está na forma de resistência
percebida em grupos menos articulados politicamente e com menor engajamento que diz
respeito a luta mais vital/cotidiana, que pode ser a única opção disponível para a
sobrevivência (SCOTT, p. 11-13). O quadro das formas cotidianas de resistência pode ser
descrito pelas ações mais comuns dos grupos relativamente sem poder, ou em relações
assimétricas de poder, como fazer “corpo mole”, dissimular, ter uma submissão falsa,
incêndios premeditados, uma ignorância fingida, usar a fofoca, a sabotagem, a negociação de
normas, entre outras estratégias dessa natureza. Tais formas de resistência, segundo Scott,

têm certas características em comum: requerem pouca ou nenhuma coordenação ou


planejamento; sempre representam uma forma de auto-ajuda individual; evitam,
geralmente, qualquer confrontação simbólica com a autoridade ou com as normas de
uma elite. Entender essas formas comuns de luta é entender o que muitos dos
camponeses fazem nos períodos entre as revoltas para melhor defender seus
interesses. (SCOTT, 2002, p. 12)
99

Portanto, as ações de resistência, mesmo que não coordenadas politicamente ou até


não intencionais, podem obstaculizar as políticas estatais, fazê-las desfavoráveis perante a
opinião pública e levar os projetos impopulares de governo à extinção. Deste modo, quando
foram observadas no CPC, como um contramovimento ao executivo municipal, mostraram-se
menos através de revoltas ou da pressão política legal e mais pelas intenções e ações práticas
inscritas nos próprios atos cotidianos e anônimos de burla ou de desvios realizados pelos
permissionários/microempreendedores diante do cenário montado no novo mercado. Além de
o anonimato se apresentar como mecanismo de certa segurança, não seria interessante aos
agentes do estado fazer tal publicidade dessas formas de resistência. Fazê-lo seria admitir que
sua política é impopular e, acima de tudo, expor a sua inflexibilidade, ausência de diálogo e a
imperfeição e necessidade de ajustes do “Projeto”. Por outro lado, para Scott, as classes
subalternas quando colocadas sob a pressão das classes dominantes, tem nesse tipo de
resistência sua expressão,

Não diretamente derrubar ou transformar o sistema de dominação, mas, sobretudo,


sobreviver – hoje, esta semana, esta estação – dentro dele. [...] Em suma, quando tais
atos são raros e isolados, eles são de pouco interesse, mas no momento em que eles
se tornam um padrão consistente, embora não coordenado, estamos lidando com
resistência. [...] É precisamente a fusão entre auto-interesse e resistência que se
mostra como uma força vital, animando a resistência (SCOTT, 2002, p. 27-30)

Ao observar o modo de adaptação dos permissionários/microempreendedores


individuais no novo mercado, em Manaus, o que chama a atenção não é uma simples
apropriação do ambiente que move o interesse e a ação dos indivíduos no decorrer do
processo. No entanto, o que se percebe pela análise das formas cotidianas de resistência, para
James Scott, é que tendem a expressar mais intensamente um direcionamento à satisfação das
necessidades prementes como segurança física, alimentação da família, manutenção da
atividade ocupacional e econômica e, claro, a obtenção de renda (SCOTT, 2011, p. 226).
O projeto modelar da ação governamental pretende uma ordem social planejada
criando um cenário necessariamente padronizado, subtraindo ou ignorando características
essenciais das relações e interações reais que fundamentam a ordem da experiência social,
principalmente, aquela vinculada às praticas e improvisações que não podem ser facilmente
incorporadas pelas normas e nem decodificadas por elas. De um lado, seguir as regras internas
do novo mercado meticulosamente como o horário de abertura, a arrumação do box, o rateio
dos custos e a restrição à ausência e, de outro, enfrentar o desafio da falta de clientes parece
colocar um paradoxo no processo de formalização, o CPC que representa a expectativa de
100

segurança proposta pelo projeto pode ter como efeito a insegurança na obtenção da renda e
nas estratégias de sobrevivência dos transferidos.

2.6 SOBRE INSTRUMENTOS E CATEGORIAS DE CAMPO

Um desafio que se enfrenta é tomar uma posição de estranhamento em meio a algo tão
conhecido, visível e incorporado na paisagem do centro de Manaus, com os quais este
pesquisador já havia estreitado alguma proximidade. Contudo, causava certo estranhamento
no início quando se deu conta, pela simples observação, do número de lojas gerenciadas por
chineses ou coreanos em Manaus. Como não havia visto antes, uma expansão difícil de negar,
mesmo sem os números oficiais. Praticamente em todas as ruas do centro e, não sendo
demais, nas próprias vias públicas. Lojas com mercadorias, layout específico, atendentes,
operadora de caixa, gerente, vendedor, enfim, as lojas na zona franca comercial com padrões
estéticos orientais (pouco falando o idioma português, dizendo os preços com certa
dificuldade, organização de exposição da mercadoria). Seria um elo da “economia China-
mundo”41? O que teria impulsionado para a cidade tal volume intenso de imigração e de
comércio (do tipo face a face, não apenas de mercadorias)? Seria um caso exemplar de
economia étnica, como “a ação de empreendedores oriundos de alguma minoria racial em
economias capitalistas maduras”, como indicado no livro sobre a mudança na cultura do povo
armênio na cidade de São Paulo (GRÜN, 1992) ou aos modos de uma experiência histórica da
imigração de comerciantes sírios e libaneses no Brasil (TRUZZI, 1997)? Não será possível
responder isto aqui, mas se pode inferir que o comércio internacional e as montadoras
chinesas e coreanas instaladas no parque industrial da Zona Franca exerçam um papel atrativo
importante para o fenômeno. Um camelô comentou sua hipótese: “as lojas chinesas lá em São
Paulo estavam saturadas e houve muita apreensão de mercadorias por lá, por isso vieram
tentar expandir aqui, né?” (A. S., 34 anos, Rua Henrique Martins, 2014, em conversa
informal).
Por outro lado, uma falta de familiaridade se impôs nesta pesquisa quando se tentou
dar conta do processo e dos lugares de transferência. Não soava nada familiar ver, ouvir e ler,
acompanhar as narrativas sobre toda a promessa de retirada, escolha do lugar, “parceria”,
acordos firmados (se não com todos, mas com a maioria42), bolsa de qualificação, cursos, num

41
Ver o artigo de CHENG, 2016.
42
Essa é uma lacuna, ausência, dúvida que ficou aberta, a qual não se teve acesso à fonte de registros e dados
confiáveis para responder – Do total de camelôs, do número oficial estimado pela prefeitura, qual o percentual
101

processo relacional entre instituições, fundo público, personificação do executivo municipal e


o ajuntamento de “camelôs”. Aparentemente a possibilidade real de transferência pela
primeira vez se apresentava como algo concreto e com efeitos distintos sobre a experiência
social do lugar (o centro), dos permissionários/“camelôs” e dos próprios consumidores desse
mercado em via pública.
O lugar das manifestações, dos enfrentamentos e da postura desafiadora entre os atores
envolvidos era um ponto chave a ser encontrado. No CPC, observando a ação situada, parecia
ecoar a ideia de “fazer familiar o estranho”, porém na investigação empírica foi preciso
duplicar os termos. Ao mesmo tempo em que atribuía múltiplos sentidos ao não-familiar
tentando fazê-lo o menos estranho possível, contudo produziu-se para este pesquisador um
sentido estranho, como a configuração de algo familiar no ambiente. De certa forma havia um
duplo estranhamento: de um lado, na direção quando se observava o movimento da ação
governamental, sobre a percepção de algo que anteriormente havia sido familiar ao lugar e aos
atores envolvidos. Por outro lado, na direção dos permissionários em adaptação, para os quais
o CPC era algo estranhamente novo, naquele ambiente onde pareciam ainda tatear, esperando
por definições futuras, tentando incorporá-lo em suas ações criativas, ou seja, na tentativa de
torná-lo familiar para a sua atividade situada e tomando como referência as experiências
anteriores.
Com estas condições situadas no campo empírico, tornou-se necessária a combinação
entre alguns instrumentos que possibilitassem uma construção exequível dos dados nesse
típico campo de pesquisa. Assumiu-se, portanto, um papel no campo um pouco mais próximo
ao que Cicourel afirma como solução entre um participante quase “nativo” e um observador
mais afastado dos detalhes, a solução da marginalidade. “Quer dizer, tornar-se bem consciente
dos papéis sendo representados e possibilitar-se ‘saídas do campo’ para revisões periódicas
sobre o que aconteceu e aonde vai a pesquisa” (CICOUREL, 1980, p. 93). De modo geral, a
pesquisa tomou esta direção quando este pesquisador permaneceu um tempo longo e contínuo
para observar, aplicar questionário e entrevistar no ambiente do CPC, dar conta das anotações
e detalhes observados e narrados. Retirando-se por um tempo para entrevistar os demais
agentes fora do lugar, posteriormente, voltando para permanecer um período curto e
esporádico no CPC, verificando alguma novidade durante os momentos de observação e
conversas informais, até a saída de campo em definitivo. Foram revisadas as primeiras
observações e feitas as relações possíveis do que se havia encontrado. As conexões com as

ou número absoluto que concordou e acompanhou o processo de transferência? Quantos de fato, foram
transferidos das ruas para o CPC?
102

observações novas foram construídas juntamente com as categorias, as unidades de análise


empírica e conceitual, analisando os dados e montando o quadro analítico da ação situada.
Essa metodologia foi adotada por parecer própria e oportuna, devido às condições
apresentadas no campo. Levou-se em consideração o papel desempenhado por este
pesquisador diante dos sujeitos que também o observavam. Diferente do campo empírico
anterior na praça pública, no CPC o intervalo de tempo em que o pesquisador começa a ser
percebido e observado é bastante curto. Às vezes no CPC, nesta observação de mão-dupla, o
pesquisador era visto como um jornalista (alguns entrevistados, mesmo quando contrariados
em suas expectativas, incentivavam a escrever um artigo falando a respeito das dificuldades
do lugar), ou como um agente da prefeitura (outros entrevistados achavam que estaria
realizando um trabalho de informação para essa instituição), ou mesmo, o pesquisador de
alguma empresa (fazendo trabalho de marketing e coletando opinião).
Por isso, era necessário manter uma distância suficiente para se observar e uma
proximidade suficiente para garantir o grau adequado de confiança, diálogo, empatia e
receptividade nas entrevistas, aplicação do questionário e conversas de sondagem. Sem,
contudo, confirmar expectativas ou trocas de favores. Ou ainda, tomar o cuidado para não
se envolver em uma opinião pessoal e/ou fazer promessas que mais tarde, não poderia
cumprir. Por exemplo, cair num tipo de comprometimento, como apresentar um artigo
jornalístico criticando o lugar ou apoiando determinada sugestão encaminhada ao secretário
municipal pelos permissionários. Um autêntico “jogo de cintura”, na prática.
O primeiro passo realizado para a entrada no campo foi solicitar o acesso e dar ciência
da pesquisa à Secretaria Municipal do Centro Histórico (Semch), na medida em que era a
responsável imediata pelo local. Posteriormente, foi encontrar uma forma de fazer o primeiro
contato com os permissionários, buscar um mediador no interior do CPC. Entretanto, não se
obteve sucesso efetivo nessa busca e, não tendo um mediador, foi preciso tomar a iniciativa de
aproximação, estabelecer o face a face entre pesquisador e sujeitos. Ao mesmo tempo, tentou-
se aplicar a técnica “bola de neve”, que havia se apresentado como boa estratégia
anteriormente. Porém, após três tentativas, mostrou-se infrutífera, não conseguindo fazer
avançar a participação, por razões que mereceriam uma ponderação, em outro momento.
Por consequência, para iniciar o diálogo face a face com os permissionários tentava-se
uma aproximação puxando alguma conversa sobre o lugar, seguida de uma apresentação
pessoal e do objetivo da pesquisa. Por fim, perguntava se o permissionário gostaria de
participar da entrevista (que ocorria tanto pelo caráter da escolha aleatória quanto da
103

oportunidade e empatia sobre a pesquisa) e, quando concordava, solicitava permissão para a


gravação do momento da entrevista.
Ao longo desse processo, procurou-se uma forma de facilitar a abertura da conversa,
resumir melhor e construir um discurso mais adequado ao momento, ao entendimento
comum. Cabe dizer que o acesso aos entrevistados foi pontuado por uma variedade de: “Não
quero”, “Não, deixa pra próxima”, “Não, vamos marcar pra amanhã”. Desse modo, começou-
se a pensar em algo que pudesse estabelecer confiança, a partir da combinação entre os termos
pesquisador, professor, interesse pessoal, pesquisa da universidade, que tanto servisse como
identificação como criar mais proximidade e interesse, quanto esclarecer o porquê de se estar
ali naquele momento. Conversar sobre amenidades ou retomar o trabalho que fiz
anteriormente era um tipo de estratégia para a aproximação inicial. E, quando era preciso,
aproveitava-se para desfazer qualquer relação com outro papel imaginado pelo entrevistado
que não estivesse alinhado com estes termos. É importante destacar, também, o quanto era
comum observar as mulheres nos boxes, trabalhando e negociando, eram companheiras,
filhas, amigas. Curiosamente, algumas destas mulheres, em menor número, estavam
diariamente no local, no entanto, quando perguntadas se eram as permissionárias responsáveis
dos boxes, respondiam negativamente e indicavam como responsável principal, o
companheiro.
Deixava claro, inclusive, a posição de estudante da UFRJ e, por fim, que haveria
segurança de sigilo. Um desses mecanismos de segurança de sigilo, que parecia deixá-los
mais confortáveis e mais receptivos, residia no fato de não escrever o nome ou o número do
seu box (acima da porta há uma placa de identificação com um número, um nome de fantasia
e atividade realizada). A identificação como participante da pesquisa consistia na
caracterização da sua atividade no CPC, ou seja, o que ele próprio indicava como sendo sua
atividade e rotina diária e, também, a sequência numérica do questionário com a data de
realização e o horário. Com as respostas dadas construiu-se uma síntese pessoal do
permissionário (ver tabela em anexo). Assim, ao se passar de box em box, escolhia-se
pessoalmente o entrevistado do dia, tomando sua afirmativa em participar, uma escolha
aleatória em todo caso. Porém, sempre correndo o risco de encontrar mais portas fechadas do
que abertas, literalmente falando, na medida em que nem todos os boxes permaneciam abertos
o dia inteiro ou mesmo estavam ocupados. E, daqueles que estavam abertos corria-se o risco
de receber uma negativa. Foi no máximo três, o número de entrevistas realizadas em um dia,
mas regularmente entrevistavam-se dois permissionários, porém algumas vezes o dia
transcorria com apenas algumas conversas informais. Por opção, preferiu-se mudar as rotinas
104

semanais de modo que havia uma semana na qual as observações eram feitas pela manhã e a
aplicação do questionário/entrevista pela tarde, trocando na outra semana. Assim, alguns
permissionários que não eram encontrados pela manhã podiam ser encontrados à tarde.
Sobre a observação, decidiu-se realizá-la em dois momentos fundamentais para a
construção dos dados: um primeiro momento de modo contínuo e o outro em tempos
intercalados. O período de permanência contínua de observação, aplicação de questionário e
realização de entrevistas no CPC ocorreu entre a primeira semana de fevereiro de 2015 e a
primeira semana de maio de 2015, foi o momento mais intenso para encontrar informantes e
respondentes possíveis. O período de encontros intercalados foi um momento para
observações pontuais e confirmações de práticas, encerrado definitivamente em julho de
2016. Porém, era distinto do período de permanência, pois ocorria de modo intercalado entre
algumas semanas dentro e outras fora do CPC, com conversas mais informais e verificações.
No momento intercalado, a finalidade era verificar algum elemento ou informação
nova e mais específica, ou mesmo, a confirmação de uma determinada informação inicial,
como, por exemplo, a reforma para a instalação do elevador e das escadas rolantes em agosto
de 2015, que havia provocado algumas divergências entre os permissionários (como a
instalação em determinado espaço poderia favorecer alguns em detrimento de outros). Ou
ainda, dois importantes momentos que ocorreram anteriormente ao período de permanência.
Como a observação da assembleia para discussão e aprovação do Regimento Interno do CPC
(na primeira semana de novembro em 2014) e a aplicação de um roteiro-teste do
questionário/entrevista para um permissionário microempreendedor individual (na primeira
semana de dezembro em 2014). A reunião sobre o Regimento Interno foi decisiva para a
escolha do lugar, tendo em vista ter sido a primeira norma regulamentadora da ordem, das
ações, da gestão interna, regulando a conduta do permissionário, chancelada pelo executivo
municipal para o funcionamento de um CPC em Manaus. E, o roteiro teste possibilitou a
correção e a melhoria das questões propostas pelo questionário e pela entrevista.
Em relação ao roteiro do questionário, estava organizado com um número menor de
perguntas fechadas, de sondagem com variáveis fixas como idade, lugar de origem,
escolaridade, lugar de residência, último vínculo empregatício, acesso ao financiamento ou
empréstimo, filiação à organização coletiva, mudança na rotina de compras. Contudo, o
questionário estava combinado com um momento de entrevista com um roteiro de perguntas
abertas que solicitava uma narrativa a respeito de temas como o processo de transferência, a
escolha do lugar, a percepção sobre o novo ambiente e a experiência anterior na via pública e
sobre a trajetória de trabalho.
105

No roteiro de entrevista, o permissionário era incentivado a falar abertamente e


pormenorizar o assunto. Neste momento, as pistas dadas pela narrativa, emergiam e
apresentavam-se como dados fundamentais de apreensão do vocabulário de motivos,
identidade de ocupação, percepções do contexto e ações futuras. Um exemplo de pista
marcante para definir as condutas de desvio da regulação, o limite pragmático da ocupação e
as resistências cotidianas era a regularidade com que, em certas entrevistas, mencionou-se a
prática corrente ou desejo futuro pela frase: “preciso ir ganhar dinheiro, lá fora”. Isto
destacava a inter-relação com as feiras ou outros pontos de permanência na rua, próximos ou
distantes, ainda fundamentais, mas sem que fosse necessário abdicar do box no CPC.
Para os agentes públicos, os secretários estratégicos do processo, houve somente uma
oportunidade de entrevista, com um roteiro de seis perguntas sobre as ações respectivas de
cada pasta, Semch e Fumipeq. Outro recurso para a construção dos dados foi a matéria
jornalística, como fonte de informação temporal, principalmente quando da impossibilidade
do pesquisador de verificar os eventos ocorridos pessoalmente (pois se encontrava no
PPGSA, no Rio de Janeiro) ou retomar uma situação temporal. Isto é, nessas fontes havia
material das entrevistas dadas à mídia jornalística ou propaganda institucional, da fala dos
agentes públicos que dirigiam a ação, que indicavam pistas sobre o vocabulário de motivos
correntes do poder público e dos seus agentes, entre as ações planejadas e as expressões de
expectativa acerca do processo em seu momento mais panorâmico e indefinido, além dos
acontecimentos pontuais do período de transferência.
Foi utilizado um recurso de informação oficial e burocrática a partir do Diário Oficial
do Município (DOM), por pesquisa eletrônica em sua página virtual. As informações a
respeito do conteúdo das publicações legais da decisão no âmbito do executivo, da criação de
secretárias, da publicação de normas e das chamadas públicas de concorrência. No contexto
geral possibilitou a montagem da interdependência, das interconexões para a identificação dos
elementos relacionais a respeito da construção do cenário político. Isto diz respeito tanto ao
movimento dos recursos financeiros e administrativos quanto à modificação e adequação da
lei municipal. Foram medidas necessárias de sustentação ao processo de transferência, para
induzir uma conduta de cooperação, adesão mais firme ao projeto municipal e,
principalmente, de encaminhar a execução das construções e reformas de prédios para colocar
a ação governamental em movimento e de pé, literalmente.
Por fim, cabe salientar que cada permissionário participante da pesquisa, que tem sua
narrativa apresentada nessa exposição, é identificado por convenção do pesquisador por meio
de um sinal gráfico, [Q], em negrito, seguido do número que indica sua ordem de
106

participação, por exemplo, o primeiro participante [Q1] e sucessivamente. A ordem de


participação não significa ordem de aparição no texto. Como documento em anexo, encontra-
se um quadro identificando de modo mais pormenorizado, guardado os termos do sigilo,
quem são estes participantes. Buscou-se focar pela narrativa do permissionário todas as
implicações, percepções e compreensão que estes pudessem expor e detalhar sobre a situação
durante o processo de transferência da via pública para o CPC e o processo de adaptação pelo
qual passavam no período da pesquisa.

2.7 AS OCUPAÇÕES NO CPC POR QUALIFICADORES INTERACIONAIS E


NORMATIVOS

A ação governamental de intervenção urbana, marcada pela ação de transferência e por


implementação modular de um novo mercado, é ação intencional, racional e performática
diante do público geral, com montagem de cenários, de aparato legal e normativo e da criação
de expectativas bem definidas. Entretanto, não pode controlar nem definir totalmente o
direcionamento da racionalidade e prática dos agentes, seus comportamentos desviantes, ou
mesmo os aspectos imponderáveis da situação com a qual se envolveu a ação governamental.
Provocando recuos, novas tensões, rupturas e desvios do objetivo predefinido e da expectativa
do projeto do executivo. Em suma, produzindo efeitos não previstos e até mesmo
indesejáveis43. Apenas como simples especulação e inferência sem causa comprobatória, a
pesquisa questiona se o efeito prático e a expectativa estão sendo acompanhados por
interesses verticalizados e externos em direção ao bem público e uma política de combate à
ocupação desigual do solo urbano e do apoio a um equilibrado desenvolvimento
socioeconômico local, ou se estão sendo acompanhados por interesses horizontalizados do
próprio circuito comercial e de distribuição de mercadorias e da dinâmica de especulação
imobiliária. Talvez, nãos seja mesmo uma disputa dual entre interesses verticalizados e
horizontalizados, ao contrário tenham relações de complementaridade, mas em condições
bastante assimétricas.
Contudo, a pesquisa está centrada em analisar um processo de transferência e
adaptação inicial de um ajuntamento que trabalhava e negociava disperso em via pública para
um lugar específico. Isto envolve uma situação complexa e problemática em seu aspecto

43
Aproximando da argumentação de Simmel sobre o efeito da ação recíproca: “mas, por outro lado, ela é o
resultado de uma operação, na medida em que ela procede a partir de um processo na forma de interações. A
ação recíproca que transforma sem cessar a forma na qual ela se produz, seja para suprimir tais relações, seja
para criar nova ou seja para revivificar outras” (SIMMEL apud QUÉRÉ, 1988, p. 80).
107

prático-ideológico. Localizada na cidade de Manaus, mas é empiricamente verificável em


outros centros urbanos seja no Brasil ou no exterior. A ação governamental que pretende em
seus efeitos produzir a ação regulatória e o controle social ultrafocado percebe neste trabalho
e negócio em via pública um problema que precisa de intervenção específica. Tal intervenção
direciona-se não apenas sobre o espaço físico, como a quadra, a rua, a praça, como também se
estende profundamente nas formas de circulação de mercadorias e sobre a dinâmica do fluxo
de pessoas, nos modos de controle da atividade econômica naquele espaço e, principalmente,
na ordem social da experiência ocupacional.
Se de um lado, atinge a prática diária da rotina de ocupações específicas que tem o
fluxo do volume de circulação de mercadoria e de consumo representado pelos vetores do
ajuntamento de “camelôs” e “ambulantes”. Por outro, ao desdobrar-se, alcança outras
ocupações interdependentes, conectadas às “ocupações periféricas” (ver nota 15). As
ocupações centrais do ajuntamento serão vistas pela intervenção governamental como alvos
prioritários e determinantes para o objetivo do processo de transferência, enquanto que as
ocupações periféricas terão quebradas suas conexões e laços estendidos como consequência
direta de tal intervenção.
Ora, as diversas pesquisas têm demonstrado que mesmo que o projeto de intervenção
não seja concluído plenamente, provoca sobre o cotidiano dos indivíduos e suas ocupações a
necessidade de criar uma nova dinâmica de interação e construir outros laços e meios de
organizar sua rotina ocupacional em outro lugar. No entanto, pouco se atém sobre a prática
concreta do ajuntamento em relação às formas cotidianas de resistência, de mobilização dos
indivíduos com fracas relações de poder, menos organizados e desarticulados politicamente,
em responder à ação governamental que desloca a ocupação do lugar original e implica em
nova experiência que, por vezes, pode não ser muito bem sucedida para os transferidos.
Deste modo, a ação de transferência da ocupação em vias públicas para novos lugares
(como o CPC) acarreta a anulação do seu qualificador principal que é o ambiente em via
pública. Porém, este qualificador não ficará esvaziado por muito tempo, será ocupado por
outras atividades econômicas mais adequadas à paisagem de “revitalização” ou será ocupada
por novos “invasores” ou pelo retorno de parte dos transferidos em novas condições de
“ilegalidade”.
A ação de transferência/deslocamento, como mudança manifesta vinda “de cima”
(SZTOMPKA, 1998), produz uma problemática de orientação e de reavaliação do indivíduo
(“o que/como fazer agora, aqui dentro, o que fazia antes, lá fora”), e do mesmo modo do fluxo
de consumidores, distribuição de mercadorias e estratégias de atração de um novo tipo de
108

consumidor, em diante. Além disso, estabelece os limites fronteiriços do jogo de negociação


(entre as regras de controle geral e as práticas concretas específicas), dos espaços percebidos
como abertos/fechados e como “lado de dentro/lado de fora”, do sentido embaralhado entre o
público e o privado.44
Portanto, esta pesquisa tem na ocupação45 do permissionário instalado no CPC a sua
unidade empírica fundamental para a qual a ação situada se processa, é observada e se
convergem as resistências. A ação governamental vincula a transferência e a organização no
novo espaço, ou seja, os lugares (como o CPC) foram construídos para abrigar aqueles que se
ocupavam em via pública, o contrato de permissão é assinado pelo indivíduo que aceita as
novas condições impostas para o exercício da sua atividade ocupacional, o regimento interno
tenta lhes regular a conduta e a organização da atividade ocupacional e econômica. Deste
modo, a ocupação define trajetórias, vocabulário de motivos, formas de interação, modos de
agir. De fato, quando se analisa sob a categoria da ação situada a conduta do indivíduo no
ambiente em interação com os pares próximos e em relação a sua experiência anterior, ou os
modos de negociação com o regimento interno está se observando a unidade de análise
empírica da ocupação.
O sentido mais comum atribuído ao ambiente pode ser compreendido pela frase “me
sinto seguro(a) aqui”, associada tanto ao significado da segurança pessoal quanto ao
significado da segurança para exercer a ocupação. Uma razão prática evidenciada pela lógica
do senso comum, motivada pelas experiências de condições reais de perigo, como descritas
nas narrativas a seguir, como furtos, roubos, serviço de vigilância, arrombamento da banca,
remoção do lugar, entre outras instabilidades e perigos para a ocupação decorrente do
ambiente em via pública. Lidar com a incerteza, a insegurança ou a insalubridade como parte
da rotina ocupacional pode evidenciar os efeitos da relação entre o ambiente e a ocupação em
via pública. Ou seja, pode demonstrar o aparato cognitivo posto em ação para mediar uma
situação problemática que envolve a tomada de decisão ou a própria resignação diante do fato
(como certa narrativa expõe ter tido a banca quebrada durante a noite, apesar do serviço de
vigilante na área ocorrer).

44
Mesmo que o contrato de permissão de uso do bem público seja precário, os permissionários sinalizam uma
percepção de diversos ganhos e garantias, como de segurança pessoal, de proteção dos objetos, das condições
melhores de trabalho e negócio, ainda, da possibilidade de transferir para um herdeiro.
45
A ocupação qualifica uma prática rotineira, uma identidade, uma trajetória, os modos de agência e interação e
a formação de um vocabulário de motivo. Na prática das ocupações vistas aqui, o indivíduo busca oportunidade
de renda fora do emprego assalariado, em atividade por conta própria para si mesmo ou para outra pessoa. No
caso desta pesquisa tem como qualificadora fundamental a localização em via pública ou nova localização a
partir da transferida empreendida por disputa/acordo com o poder público.
109

Portanto a ocupação em via pública mantem relações visíveis e reais de troca,


distribuição de mercadoria e prestação de serviços em ampla e complexa interdependência.
Visto por si mesmo, por seus pares ou por terceiros, em situação e denominação múltiplas
quanto ao limite de sua ocupação, às vezes como trabalhadores por conta própria, outras vezes
como “patrões de si”, há no interior do ajuntamento um sentido comum além da sobrevivência
que é o sentido de autonomia ocupacional. A ampliação da categoria trabalho, além do
emprego da fábrica, do emprego assalariado, das formas de contrato por tempo indeterminado
e com garantias trabalhistas, é em si um desafio significativo. Quando se atribui o sentido da
autonomia, a ocupação nas diversas formas de trocas mercantis de serviços e mercadorias a
partir do trabalho individualizado (à primeira vista) realizados em via pública torna a
discussão sobre o trabalho no espaço urbano um desafio de grande dimensão. Admitindo-se
que, sob uma configuração mais diversificada, mais complexa e profunda, falar sobre o
“trabalho de todo dia” é revolver alguns qualificadores sedimentados de coesão social e de
identidades.
O processo de transferência de responsabilidades que cada vez mais incide sobre o
indivíduo, ante a intensa flexibilização de direitos e contratos, ante as novas figuras jurídicas
no quadro normativo das ocupações, ante uma sensação de instabilidade tanto nas relações de
trabalho quanto na manutenção do próprio emprego, pode ter consequências sobre a
percepção do futuro como algo promissor. Como atesta José Ricardo Ramalho (2013), há
mudanças dramáticas e novas dimensões no universo do trabalho, que vai das formas de
dominação e exploração na base da precariedade insistente das condições de trabalho até o
aumento da margem de independência dos trabalhadores quanto ao modo de organização do
trabalho, atrelado ao desenvolvimento tecnológico e ao tipo de gestão mais participativa
(RAMALHO, 2013, p. 93). A dinâmica do universo do trabalho em movimento contínuo
apresenta um grau de complexidade e de fronteiras imprecisas para sua captura completa e
objetiva. Fracionar este universo parece ser a solução mais provável, embora se corra o risco
de um enquadramento estático e sedimentado, talvez como demonstrado pelos estudos do
trabalho industrial, do seu assalariado típico, da sua forma de organização e das relações de
trabalho que o caracterizam (RAMALHO; SANTANA, 2003). As transformações rápidas,
intensas e combinadas com outros elementos do universo social, segundo Ramalho,

[exigem] uma renovação da pesquisa empírica e uma atenção especial às novas


estratégias de controle das empresas e dos empregadores e às novas manifestações
de resistência por parte dos que vivem do trabalho. O substantivo corpo teórico
construído a partir de investigação sobre a estruturação dos espaços fabris e sobre o
estabelecimento de formas de controle do processo de trabalho tem encontrado
110

dificuldades para explicar, nos dias atuais, a variedade das novas formas de
dominação fabris e não fabris, a flexibilização como elemento central das relações
de trabalho e a subcontratação do tipo “precário”. Além dos argumentos que
conferem às “leis do mercado” o poder de regulação do emprego em oposição a leis
trabalhistas estabelecidas em outras épocas (RAMALHO, 2013, p. 90).

O quadro descrito é sintomático das condições de mudança ao longo do século


presente e apresenta definições em relação às consequências futuras e seus efeitos mais
imediatos. De todo modo, isto demonstra que não se deve negar que os
permissionários/microempreendedores individuais podem mesmo considerar sua posição no
CPC como uma distinção de status em referência à rua. Contudo, em relação aos
desdobramentos no futuro e as mudanças que avançam sobre o trabalho ampliado, como esse
status manterá sua posição significativa?
111

3 NEM BELLE ÉPOQUE, NEM ZONA FRANCA. É A OCUPAÇÃO EM VIA


PÚBLICA?

Em Oliveira (2009) e Oliveira e Valle (2012), apresentou-se uma perspectiva da forma


de organização social do trabalho e negócio de “camelôs” e “ambulantes” na cidade de
Manaus, Amazonas. Naquele período, observou-se uma estrutura em rede que mantinha
conexões e se expandiam para outras atividades menos centrais, mas correlatas ao lugar. Os
“nós” se entrelaçavam e, por vezes, se hierarquizavam a partir do “ponto” central da atividade
de “camelô”. Desse modo, pretendeu-se responder ao discurso convencional acerca da
desorganização do trabalho em vias públicas. Identificou-se, ao contrário, um tipo de ordem
social de caráter desviante da regulação estatal e com padrão de hierarquia verticalizada,
construída a partir de práticas de experiência vivida e da interação cotidiana que organizava o
trabalho e as relações do lugar, a Praça da Matriz no centro.
Durante a pesquisa de campo, em 2009, pôde-se ouvir dos “camelôs” e “ambulantes” a
respeito de projetos e estratégias da Prefeitura de Manaus, ao longo das duas últimas décadas,
para realizar intervenções de “ordenamento”, “embelezamento” ou “revitalização” da zona
central da cidade. E, paralelamente, as táticas de resistência e enfrentamento de “camelôs” e
“ambulantes” desafiando essas intervenções urbanas, implicando resultados frustrantes às
tentativas de realocação ou expulsão. As ações governamentais do executivo municipal não
cessavam em propor meios de “solução”46 ou incentivar as alternativas da iniciativa privada.
Por exemplo, a empresa mineira Piu Invest Empreendimentos e Incorporações S/A, quando
tentou construir um “shopping popular” na zona portuária, com a adesão de parte dos camelôs
e chancela da antiga Urbam, além de outro empreendimento na Praça Tenreiro Aranha, bem
próximo dali. No entanto, a iniciativa no Porto foi suspensa pelo Ministério Público Federal
no Amazonas47 após um processo movido pela Agência Nacional de Transportes Aquaviários
(Antaq), enquanto a proposta da Praça Tenreiro Aranha, no centro histórico, também não
logrou êxito.

46
O termo “solução” é utilizado especificamente como modo qualificador de práticas da ação governamental,
cujo objetivo intencional é a retirada de “camelôs” e “ambulantes” de determinado lugar, principalmente da área
central ao longo da década de 2000. Por exemplo, da tentativa de construção do Shopping Popular S. Vicente,
próximo à Praça D. Pedro II, Centro, no governo de Serafim Corrêa (PSB/2005-2008).
47
“O Ministério Público Federal no Amazonas reafirma impedimento de implantação de shopping popular no
Porto de Manaus” (MINISTÉRIO PÚBLICO FEDERAL, 2012).
112

Os incentivos a tais “soluções” que pretendam deter a expansão ou promover a


retirada de “camelôs” da via pública, por exemplo, vindas do CDL-Manaus48, ou de outros
grupos e entidades de classe, expressam uma estratégia discursiva49 de apropriação do espaço,
na direção do ordenamento urbano, no tipo de “embelezamento do centro histórico”, da
urgente “revitalização da área central degradada” e da conservação dos espaços públicos50,
apresentando uma forte intenção em pressionar as ações governamentais ao mesmo tempo em
que pretendem justificá-las. Esta dinâmica é utilizada para produzir um resultado desejado por
determinados agentes estratégicos e atua como um conjunto de formas de ação que pretendem
induzir, neste caso, alguma mudança e, por isso, também pode levar ao confronto ou às
formas de resistência por outros agentes envolvidos.
O ajuntamento de “camelô” e “ambulante” no centro da cidade, a partir desta
perspectiva de “soluções”, apresenta-se pelo olhar dos planejadores urbanos e das
intervenções do executivo municipal, como uma situação do tipo “problemática” que exige
solução prática, de ajuste pontual encaminhado por um projeto político-econômico focalizado.
Sobretudo, quando estes de forma objetiva comprometem negativamente a paisagem urbana,
classificado desse modo por não se encaixar no interesse de determinado perfil econômico
vinculado ao cenário que o poder público tem a pretensão de montar.
E, ainda mais, quando há o envolvimento da cidade como sede dos “grandes eventos”
musicais, culturais ou esportivos, impondo a partir disto outra normatividade sobre a
configuração e usos do espaço urbano. Em face disso, tais soluções práticas e ações
governamentais têm a intenção de manifestar ao público sua posição em relação ao projeto

48
A Câmara de Dirigentes Lojistas de Manaus, CDL-Manaus defende a revitalização do centro histórico de
Manaus com projetos que tragam a incorporação da melhor estética do seu entorno, objetivando o controle e
“organização legal” dos camelôs. Esta defesa tem relação direta com alguns problemas elencados pelos lojistas,
sobre cada vez mais seus clientes deixarem de frequentar o centro da cidade devido à falta de estacionamentos,
de segurança pública e, além disso, do comércio realizado por ambulantes que dificulta o tráfego de pedestres
nas ruas (OLIVEIRA, 2009). O presidente da Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas do Amazonas
(FCDL-AM), Ralph Assayag, entrevistado por um jornal local em 2009, declarou que “a Prefeitura precisa fazer
um estudo de viabilidade para avaliar qual é o melhor local para instalar os camelôs, assim como foi feito em
Belo Horizonte e em Brasília”. Uma opinião institucional que não apenas neste momento, mas mesmo nas
décadas anteriores, demonstra que a CDL mantinha plena convicção da necessidade de transferência de camelôs
e ambulantes da via pública do centro e, foi uma das instituições apoiadoras da ação governamental em 2014.
(MESQUITA, 2009, p. E4).
49
Nos termos indicados por Steinberg como os “contendores articulam coletivamente sua moralidade de
demandas e remédios e sua visão ideológica ampla da igualdade e do direito de posse social [...]” (ALONSO,
2012, p. 33). Ver a discussão completa sobre o conceito de “repertório” feito por Angela Alonso (ALONSO,
2012).
50
No momento, utiliza-se essa sequência de termos com significado o mais abrangente possível, sem o devido
tratamento crítico necessário.
113

moderno de “cidade criativa”51, além da pretensão de alcançar a fama de cidade segura e


atrativa para a captação de investimentos externos.

3.1 O PROCESSO EM VÁRIAS PERFORMANCES ENTRE O CENÁRIO E A PLATEIA

A forma de “responder” a esta “situação problemática” do trabalho e negócio em via


pública passa por enquadrá-los pelo gerenciamento de ações situadas e de política focalizada,
com a finalidade de manifestar outra ordem de interação social, de comportamento, de
engajamento e do direcionamento de suas atividades para os novos mercados. Porém, a
tentativa de remodelar práticas de trabalho e negócios enraizadas na experiência do lugar
público, agora transferidas para novos arranjos de mercado, apresenta condições e cenários
particularmente conflituosos e contraditórios, pois situados sob nova perspectiva cognitiva e
normativa que desconsidera as relações ambientadas e experimentadas anteriormente e, ainda
mais, desconsidera a possível intenção dos agentes e sua interação com o novo ambiente e
seus objetos. Em tais condições os agentes tendem a internalizar parcialmente ou modificar o
cenário da ação governamental conforme o processo de interação (entre si e com o ambiente)
e sob as novas condições de reorganização de suas práticas52.
A tentativa de “solução”, a transferência da via pública para o Centro de Compras
Popular (CPC), foi articulada entre performances de rotina de ação e estratégias de
convencimento, tomando por referência a premissa do interesse geral, ou seja, o apelo à
mobilização de todos para benefício e valorização da cidade que, neste caso específico, é o

51
O argumento que sustenta a noção de “cidade criativa” ancora-se em uma agenda neoliberal que incentiva
estratégias de desenvolvimento urbano ao promover a “cultura” criativa e as “artes” como rota de crescimento
econômico, entendendo a “criatividade” como característica chave de centros urbanos bem-sucedidos e de um
tipo de classe empreendedora, a chamada “classe criativa”. Este tipo de cidade, por sua vez, cria e organiza uma
“classe criativa” produtora de novos bens culturais. Os micro/pequenos empreendimentos de alimentação, moda
e startups tecnológicas seriam exemplos de alvos-chave da promoção de políticas de financiamento e crédito,
além de maior flexibilidade legal para incentivar tais empreendedores. Contudo, uma das críticas a este
argumento é que o modelo de política, na prática costuma provocar efeitos de gentrificação e acentuar a
segregação espacial (MARTIN, 2014, p. 1.870).
52
“[...] ela repousa sobre uma organização regular, de diferentes elementos, que se integra em um todo de coisas
que pertencem ao agente e às coisas situadas no ambiente, um todo onde elas operam em conjunto em uma
‘operação ativa’. Portanto, não é psiquê ou mental” (QUÉRÉ, 2013, p. 6, tradução própria). Nesta perspectiva a
prática é ação plural, como operações de atos relacionados às experiências anteriores, aprendizagem, sentido e
técnica comportamental de rotinas do saber-fazer e, muito próxima das atividades em via pública, nas quais os
indivíduos incorporam o ambiente na sua rotina prática e mental, interagindo e manipulando seus objetos
cotidianos de negócio e trabalho. A resposta para a pergunta por que se engajar no projeto local do executivo?
Não deveria ser analisada tão somente pela atitude unilateral de uma prática singular do indivíduo, soma-se a
isto, sua interação com ambiente saturado pelo adensamento da atividade, as experiências vividas e
compartilhadas pelo conjunto com formas de violência e apreensão de mercadoria, a criação de expectativa de
um status melhor inerente ao discurso político de mudança, a ausência de alternativas diferentes, entre outras,
formas de interação prática e corrente em ação situada.
114

centro histórico. A estratégia discursiva do poder público poderá tomar objetivamente a


cidade com a finalidade de justificar as ações de transferência criou uma densidade relacional
mais intensa entre tipos diferentes de forças e de agentes em atuação do que se tomasse por
objeto o trabalho e negócio em via pública como a consequência da situação socioeconômica
específica na cidade. A transferência, entre outras, acaba implicando na tentativa de remodelar
experiências da organização social em situações de interação praticadas em lugares
abertamente públicos, que passarão a ser reinterpretadas por ações situadas em lugares de
aspecto “privado”. Portanto, o que antes se fazia em via pública (rotinas, práticas, condutas)
não será mais permitido no cenário montado pela prefeitura.
Em Manaus, o executivo municipal além de idealizar a “parceria” com camelôs e
ambulantes para a construção do processo53 de transferência, precisou construir uma
combinação de interesses políticos juntamente com os vereadores e as organizações coletivas
– sindicato, associação, cooperativa – para a construção de novas regulamentações,
normatividade interna ou mesmo para adaptar medidas legais já anteriormente estabelecidas a
fim de criar um novo objeto público, o CPC. Em maio de 2009, Manaus foi sorteada como
uma cidade-sede para determinados jogos do mundial de futebol. Por este fato, o governo
municipal passa a mobilizar recursos financeiros e organizativos com a finalidade de montar
um cenário adaptado ao evento internacional e receber quatro jogos da primeira fase da Copa
do Mundo FIFA em 2014.
De um lado, a escolha por Manaus, em 2009, potencializou os processos de
planejamento, de intervenção e modificações na paisagem urbana da área central com
consequência direta sobre o ajuntamento de “camelô” e “ambulante”. Por outro lado, instalou
um parâmetro inicial de um processo que afetaria, de fato, a ação de transferência em 2014, o
qual é reconhecido e identificado pelos permissionários entrevistados no CPC, como fator
determinante para a ação governamental. Mesmo na gestão municipal anterior, de Amazonino
Mendes (PTB/2009-2012), algumas movimentações a esse respeito já haviam acontecido e se
apresentado como boa oportunidade de negócio aos empreendimentos privados. Esclarece-se
aqui que a escolha da cidade para um evento internacional desse porte por si só não representa
nesta pesquisa o peso determinante para as ações de transferência efetivadas em 2014. No
entanto, não se deve desconsiderar sua influência e importância no processo em relação ao

53
Uma reportagem toma a declaração do Prefeito Artur Neto (PSDB), quando este respondia a respeito da
construção do “Shopping T4”, o maior entre os três Centros de Compras Populares (CCP): “Hoje temos o Centro
com cara nova e tendo sua identidade histórica revigorada. Tudo isso graças à parceria que fizemos com os
camelôs e agora microempresários que entenderam o nosso projeto e, em pouco tempo, serão donos do maior
shopping popular da capital” (FALCÃO, 2016).
115

apelo simbólico e jurídico-contratual sobre os desdobramentos da ação governamental no


período.
No início de 2013, no primeiro ano da gestão municipal de Artur Virgílio Neto
(PSDB/2013-2016)54, com a aproximação do mundial de futebol aumenta a pressão em
relação aos permissionários do centro histórico. Sua força discursiva e justificadora, que
aparentava isenção das relações mercantis sobre o processo de transferência, era atrelada ao
discurso do princípio e valores do bem coletivo da cidade, da justiça social e da obrigação
legal e moral de cumprimento do contrato com a FIFA 201455.
Assim, o ajuntamento de “camelôs” e “ambulantes” foi colocado diante de um
impasse, ou aderia ao modelo de um novo mercado e à transferência proposta pela prefeitura,
ou ao rejeitar permaneceria em via pública e confrontaria o executivo, como já havia ocorrido
anteriormente. Isto é, de um lado, sob a perspectiva de medir força com um contrato
internacional, com o poder executivo municipal e com a opinião pública local; por outro lado,
a proposta do governo oferecia um projeto aparentemente viável, sem utilizar de violência
física ou das apreensões de mercadorias e que vislumbrava um futuro promissor para muitos.
Neste cenário de impasse, a mais recente intervenção urbanística estava se aproximando. Tal
ação promovia a mudança da ordem vigente nas vias públicas e apresentava os contornos da
expectativa e aposta no processo de transferência, induzido pelo executivo municipal.
No decorrer de 2013, a primeira prática concreta de intervenção nas ruas do centro
histórico foi quantificar o ajuntamento. Por meio de um recadastramento face a face, de banca
em banca, os agentes da prefeitura verificavam quem era quem, onde estava e se detinha a
permissão de uso da via pública. A performance de rotina de recadastramento era
acompanhada pela sugestão de empréstimo do fundo público ou pela sugestão de três
alternativas possíveis de inscrição para transferência em um dos Centros Popular de Compras
(CPC). As escolhas oferecidas eram: a) Se para um dos dois prédios em reforma: um
localizado próximo à área Portuária e o outro localizado nos limites da área central; b) Se para
um prédio a ser construído na zona leste, na periferia da cidade, nos limites dos bairros

54
Artur Virgílio Neto (PSDB), anteriormente, havia sido senador pelo Amazonas. Concorreu e ganhou as
eleições em 2012 para o executivo municipal propondo como compromisso de campanha, preparar Manaus para
a atração de novos investimentos em diferentes setores econômicos e, ainda, estruturar a cidade para os grandes
eventos. Sua eleição em 1989 foi a primeira experiência na frente do executivo municipal. Nesta primeira
experiência tomou a decisão, em diferentes momentos, de tentar pôr em prática o “ordenamento” do centro da
cidade.
55
Esta foi uma dentre as muitas exigências a cumprir das condições impostas pelo contrato com a FIFA. Quando
o poder público começa a projetar a retirada dos mais de dois mil camelôs (em tese) que ocupam o Centro
Histórico da cidade. Tendo em vista que os locais de atrações turísticas deveriam ter livre acesso de calçadas e
demais vias públicas e desobstrução da visão. Seção 3. Oportunidades das Cidades-Sedes. Ponto 32.
Embelezamento da Cidade-Sede (OBSERVATÓRIO, 2014).
116

Cidade de Deus e Jorge Teixeira, próximo ao terminal 4 de integração de ônibus (o Shopping


T4)56; e, c) Sair das vias públicas, ter acesso a empréstimo financiado com fundo público e
montar um negócio no lugar onde morasse, em seu bairro.
Ao final, o recadastramento chegou a um número oficial de 2.082 permissionários
regularmente credenciados que exerciam atividades no centro histórico (PREFEITURA DE
MANAUS, 2015). À primeira vista um número discutível em face de uma área central tomada
por bancas e carrinhos de “camelôs” e demais “ambulantes” em praticamente cem por cento
de suas vias públicas. E, com a grande densidade somente nas duas avenidas centrais e na
Praça da Matriz que já poderia se aproximar desse total. Contudo, se foi levado em conta
somente os cadastrados e acompanhados pelas organizações representativas e pelos agentes
públicos, o que fazer com os demais ou o que devem fazer os demais?57
Na semana de Carnaval de 2014 (nos dias 21, 22, 23 de fevereiro), a mudança de
barracas, bancas e carros-lanches tem início. A ação de transferência do primeiro grupo
acontece, mas com certa dúvida e temor do futuro como destacam dois entrevistados, quando
indagados sobre o que se temia na época.

56
O Centro Popular de Compras (CPC) chamado “Shopping T4” é o maior em tamanho e no valor da obra final
entre os três empreendimentos erguidos pela prefeitura (os outros dois foram apenas reformas e adaptações na
planta original). Possui uma área construída em torno de trinta e dois mil metros quadrados, o terreno foi
resultado de desapropriação (março/2014). As obras iniciaram no segundo semestre de 2014 e sua inauguração
parcial ocorreu em 30 de junho de 2016. Possui mais de 730 lojas e, abrigará praça de alimentação,
supermercado, um Pronto Atendimento ao Cidadão (PAC), miniauditório, salas de treinamento, agência
bancária, banheiros, elevador, escadas, estacionamento (300 vagas), pista de caminhada, Estação de Tratamento
de Efluentes (ETE) e uma subestação de 1.500 quilowatts de potência. Aqueles que ainda esperam nos
“camelódromos provisórios” serão transferidos para o “Shopping T4” juntamente com os demais que aguardam
fora dos provisórios. O “Shopping T4” como os demais CPCs pretende desempenhar o papel de “virar a página”,
o papel de transição entre a velha experiência em via pública e a nova experiência no CPC, até mesmo um papel
de mudança geracional. Através da fala da “microempreendedora” no dia da inauguração do Shopping T4 parece
demonstrar, em entrevista para uma reportagem: “Vinda uma nova safra de ex-camelôs e novos
microempresários, a jovem Cássia Dia Santana Soares, 22, também comemorou o novo espaço para a sua loja
Mademoiselle Moda Feminina. “Desde pequena eu trabalhava na Praça da Matriz, desde os 7 anos, ajudando
minha mãe e avó. Hoje tenho a minha banca e, diante da crise, um empreendimento desse porte, para a gente que
pegava sol e chuva na praça, isso é muito importante”. Presentes ao evento de inauguração parcial estavam um
representante do CDL-Manaus, Sr. Manuel Joaquim; o representante dos permissionários do “Shopping T4” e
presidente da associação Avacin, Sr. Givanildo Maia e o presidente do sindicato Sincovam, Sr. José Assis
Pereira. Os dois representantes do coletivo de camelôs e ambulantes são também membros do Conselho Gestor
da Galeria Espírito Santo. A construção do Shopping T4 teve foi orçada em mais de R$ 30 milhões, via
contratação de empresa por licitação, sendo os serviços executados pela Secretaria Municipal de Infraestrutura
(Seminf). Alem disso, R$ 6 milhões vieram do Fundo Municipal de Desenvolvimento Urbano (FMDU), que
compõe a estrutura do Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb). (LEAL, 2016; PREFEITO, 2016;
MANAUS, 2014a, p.1).
57
Por mais curioso que isso possa parecer, o número oficial tomado como base para a ação da prefeitura se
aproxima muito do número definido e mencionado durante as discussões de 1990, para a retirada de camelôs do
centro (ver os relatos jornalísticos quando trato da situação temporal).
117

Era perder, né? O ponto mesmo [na rua]. Ou, depois ficar o dito pelo não dito,
porque como não viemos direto pra cá e fomos pro provisório. E, você sabe que
esses projetos fracassam na metade e ficam por isso mesmo. Até mesmo depois,
cada um iria procurar seu rumo, o que seria complicado pra muita gente. [...] Eu só
num [aceitei]... Porque disseram que iam tirar todos e não tiraram e isso aí foi um
ponto negativo. E, também, que eles falaram que a gente ia sair da rua somente
quando tivesse pronto, mas, também não foi porque nós saímos antes de ta pronto as
galerias. Saímos da rua e fomos para os provisórios que era aqueles estacionamentos
ali [Rua Epaminondas]. Então, isso foi um ponto negativo porque se cada um de nós
tivéssemos saído direto, cada um pro seu local definitivo teria sido melhor. [Q24].

Foi a prefeitura mesmo. Foi tudo de surpresa pra nós. Foi porque pegaram a gente,
assim, muito [...] sem a gente esperar. A nossa primeira etapa foi toda assim... Agora
não, tão avisando antes, por exemplo, tão falando pra se preparar. Quem está na rua
até hoje, tá se preparando pra sair [...] Nós não. Fomos os primeiros a sair da rua,
fomos os que mais sentimos. [Q30].

As bancas instaladas nas vias públicas da Praça da Matriz, Avenida Sete de Setembro,
Avenida Eduardo Ribeiro foram alvos dessa primeira performance, em fevereiro de 2014.
Nos meses seguintes, as bancas instaladas nas ruas Henrique Martins, Epaminondas e
Saldanha Marinho foram removidas também. As primeiras bancas foram transferidas e
alocadas em estacionamentos reformados e chamados de “camelódromo provisório”. Um
localizado na Rua Epaminondas/Lobo d’Almada e outro na Avenida Floriano Peixoto58. Os
“camelódromos provisórios” foram peças chaves para o processo de transferência, na medida
em que funcionaram/funcionam como uma espécie de “sala de espera” para a entrada nos
CPCs. Para o primeiro grupo de transferidos, a experiência no “provisório” revelou-se um
tanto traumática a ponto de rotularem o lugar de “curral”. O termo citado em algumas
conversas com os permissionários que lá estiveram, tenta expressar a situação de um
amontoado no “provisório” da Rua Epaminondas.

Com certeza! Porque eles fizeram a transferência por etapas. Tiraram da [av.]
Eduardo Ribeiro, eles tiraram “a espinha do peixe” [risos], aí depois tiraram as
entre ruas [av. Sete de Setembro, ruas Henrique Martins, 24 de Maio e Saldanha
Marinho]. Então, nesse momento que tiraram a Eduardo Ribeiro com a Sete de
Setembro e a Praça da Matriz, eles foram pros camelódromos provisórios, porque na
época [2014] você era obrigado a trabalhar no “camelódromo provisório”. Hoje não,
hoje, você opta em ficar no “camelódromo provisório” ou ficar em casa. [questiono
a opção "ficar em casa"] Eita, 8 de 10 ficam em casa, se você der uma olhada nos
camelódromos o mais cheio é aquele da [rua] Floriano [Peixoto] porque o pessoal
todinho vai pro T4 [“Shopping T4” na Zona Leste de Manaus], então ninguém saiu

58
Em outras ruas transversais e demais vias do centro histórico um pouco distante desse foco, a etapa de
transferência demorou mais. Os camelôs e ambulantes prosseguiram sua rotina de trabalho e negócio em via
pública (até o momento, agosto de 2016, permaneciam nas vias do centro à espera de liberação para ocuparem o
“Shopping T4”. De certo modo esta situação refletia no descontentamento, embaraço e negatividade para os
entrevistados do CPC Galeria Espírito Santo, para aqueles que haviam sido os primeiros a serem transferidos e
haviam estado no “camelódromo provisório”.
118

de lá. Mas se o Sr. ver os outros, tem dez bancas, praticamente vazio. Ficar em casa
é modo de dizer, assim [...], tu vai ficar trabalhando no camelódromo na tua banca
ou tu vai fazer outra coisa? Minhas irmãs, por exemplo, todas elas, minhas duas
irmãs, têm banca e elas estão empregadas esperando ir pro T4, que vai demorar
‘pacas’ [gíria que significa bastante].59 [insisto sobre as irmãs] [...] Elas nunca
quiseram se empregar, tinham a banca delas no início, mas depois [...] porque o
comércio tem aquele processo de altos e baixos, né? Nos altos, tava legal, mas
quando chegava [período] os baixos, elas não tinham jogo de cintura de
comerciante. Então, elas estavam cansadas daquela vida. Foi quando ocasionou isso
aqui” [Q8].

Após as narrativas, as fotos a seguir capturam o “camelódromo provisório”


mencionado nas entrevistas que após a abertura do “Shopping T4” provavelmente não terá
mais funcionalidade. O sentido dado às performances e a tentativa em dar motivo justificável
para o enfraquecimento da força de reação dos camelôs diante da ação governamental, além
da descrição das táticas, de “jogo de cintura”, de movimento pendular entre trabalho e
negócio em via pública e o emprego regular podem ser apreendidos pelos depoimentos que
seguem. A narrativa da entrevista [Q8] continua, agora demonstrando a negociação frequente
que ocorria com as bancas. Por outro lado a entrevista [Q10] expressa a compreensão do
entrevistado ao relatar sua percepção do processo de transferência, o sentido do “jogo” de
palavras, da “ilusão” e da retórica que envolvia o projeto em face das condições concretas do
novo mercado. Há uma sugestão de hierarquia, na aplicação dos termos o “pessoal de cima” e
o “pessoal de baixo”, indicando uma relação entre os agentes públicos e o representante da
coletividade tomando decisões em “separado” do ajuntamento.

Quando nós saímos da [rua] Henrique Martins [entre a av. Eduardo Ribeiro e Rua
Barroso, um trecho de aproximadamente 100m], eram 48 bancas na Henrique
Martins, 24 bancas de um lado e 24 do outro. Só que das 48, 30 estavam
alugadas, então nós perdemos força. Ou seja, aluguel de [R$]500,00, de
[R$]600,00, de [R$]800,00. Aí o Artur [prefeito] chega a uma pessoa dessa e diz –
“vou dar [R$]1.000,00”. Aí o cara diz – “me dá que eu assino logo”. Então, eu e
mais os 18, o restante, que tavam trabalhando não tivemos força pra dizer [...] pra
lutar. [pergunto sobre a prática de aluguel] Praticamente eles [funcionários da
prefeitura] não chegavam investigando para fazer o cadastro de transferência, eles [o
locador e o locatário da banca] sabiam o dia que ia ter a fiscalização e ficavam lá
esperando e o fiscal não chegava a detalhar nada, “o Sr. é dessa banca? e ele quem
é?”. Não tinha uma investigação detalhada, não queriam [ter] trabalho. [Q8] (grifo
nosso).

“[...] Olha, esse negócio de transferência, eu fiquei só acompanhando porque o box é


do meu marido. Daí quando tinha reunião ele ia e eu ficava no box cuidando
enquanto ele ia na reunião. Quando foi pra transferir eles sortearam o lugar lá no
auditório do D.Bosco [instituição educacional localizada no centro]. O pessoal do
Sindicato [Sincovam] que falava, tal dia vai ter reunião, tal dia tem que tá lá no local
119

tal pra sortear, o pessoal do Sindicato comunicava pra gente. Por exemplo, eles
falavam, vocês vão receber o box, mas vão ter que mobiliar. Eles só deram o box cru
mesmo, a gente que tinha que comprar as prateleiras e as coisas. [seu ponto de vista]
Porque o Artur enganou todo mundo, porque o prefeito enganou todo mundo, se fez
de cordeirinho, cordeirinho, te juro. Isso aí foi lá com o pessoal de cima e o outro
pessoal lá de cima, isso foi lá com o pessoal da prefeitura e o pessoal do sindicato,
tudo entre eles lá. Aí reuniram as pessoas e foram comunicando, “vamos tirar e
colocar em tal lugar, vai ter galeria e vocês vão pra lá, vão sair do meio da rua”. Ele
não saiu batendo em ninguém, como fez daquela vez batendo em camelô. Agora
não! Disse que todo mundo ia sair, ia pra outro lugar, ia vender bem, ia dar tudo
certo! [altera o tom de voz] Aí todo mundo se iludiu! Disse que deu certo não sei
aonde e ia dar certo aqui também! Eu ouvia o pessoal que participava da reunião
dizer isso, eu soube que ele falou isso. Lógico que ele falou isso!. Aquela conversa,
blá, blá, blá pra enganar todo mundo. Aí todo mundo entrou nessa. Olha, eu não
discordei não. Primeiro, porque pra gente é melhor. Olhando estruturalmente a gente
tá ótimo!” [Q10].

Chama a atenção quando a entrevista [Q8] atribui um sentido específico para a saída
praticamente pacífica e sem maiores contestações dos permissionários da via pública. Este se
dirige ao sentido próprio das formas de praticar o trabalho e negócio em via pública. O que,
neste acaso, passa pela perspectiva de que alguns permissionários veem sua atividade em via
pública não como uma atividade direcionada ao comércio ou à prestação de serviços
exclusivamente, mas como uma oportunidade de extração de renda na forma de aluguel do
ponto a terceiros não permissionários ou de negociação de venda da banca/ponto. Nota-se
nessa mesma entrevista percepção de uma duplicidade de agentes estratégicos
hierarquicamente posicionados (“o pessoal de cima e o outro pessoal de cima”), referindo-se
aos representantes da organização coletiva e aos agentes públicos e, ao mesmo tempo, às
reuniões fechadas para a tomada de decisão entre estes. Por outro lado, ao ressaltar o
comércio/negócio realizado “em segredo”, não desconsidera que em tese poderia representar
uma conduta desviante para o uso da permissão, que é pessoal e intransferível. Isto para o
entrevistado enfraqueceu a força de contestação e apresentou uma piora na negociação junto
ao executivo municipal.

Quem orientou foi a prefeitura. Através da prefeitura, devido à Copa, aproveitaram a


Copa, né? Os fiscais da prefeitura que falavam que nós ia sair. Teve um prazo [...]
porque isso aí já vinha desde quando Manaus ganhou a Copa. O maior temor era [...]
a questão deles, assim é [...] falar pra gente, assim, é [...] de eles falar pra gente que a
gente vinha pro shopping, pra galeria [...] assim, o maior temor era o seguinte, é de
estarem enganando a gente, entendeu? Pronto falei! [ela sorri]” [Q19].

Quando a Copa veio para Manaus, passou uma duas semanas e eles anunciaram que
a gente ia sair. Só que isso aí passou uns dois anos, quando ficou mais próximo da
Copa agente sabia que nós ia sair das ruas. Fomos pro provisório e depois viemos
pra cá. [...] Olha, na rua eu tava numa esquina bem localizada. Era na entrada
120

principal! [fala com ênfase]. Na rua não passava tamanha necessidade como aqui.
[sobre o temor] É, assim, dizer que a gente iria ganhar box e no final,né?Nada! [...]
Porque eles queriam limpar as ruas pra mostrar pros turistas que tava tudo bacana e
tal [...] e, o prefeito que não gosta de camelô, [risos] com certeza! [...] [a
transferência gerou conflito?] Olha, Sim. Porque quando nós saímos pra cá, da rua
pra cá, muitos camelôs das outras ruas não apoiaram a gente, entendeu, pra gente
permanecer na rua [...] porque a gente da Eduardo Ribeiro e da Sete de Setembro
fomos os primeiros a sair. É [...] no caso dos da Henrique Martins, não apoiaram
a gente porque eles achando que a gente saindo, ia melhorar pra eles. [...] Foi
assim [o conflito], a rua primeira a sair foi a Eduardo Ribeiro e Sete, ficou só a
Henrique Martins e as demais ruas, entendeu? Quer dizer, a [os permissionários da
rua] Henrique Martins ficou só, na rua vendendo, entendeu? [...] Por isso, eles não
apoiaram a gente! [ênfase na voz] porque eles acharam que não apoiando a
gente a não sair e querendo que a gente saísse, ficava bom pra eles! Ficar na
rua só [...] Mas, só que eles passaram um ano vendendo na rua e depois colocaram
eles aqui pra cima [no mezanino]. Só que da Henrique Martins a maioria vai fechar a
loja, já viu essa aí? [aponta para a porta fechada de um box]” [Q28].

Pela narrativa dos permissionários do CPC, as evidências indicavam para o fato de


como o processo foi interpretado e como a posição entre os diversos agentes era jogada,
confundida e ativada por uma interação tensa. Principalmente, na triangulação entre os
agentes estratégicos como os permissionários/“camelôs”, as organizações coletivas e os
agentes públicos do executivo municipal, na parte menos visível do cenário. O processo de
transferência tomado como fenômeno mais imediato da ação governamental foi percebido de
diversos modos pelos entrevistados, porém quando analisado pela perspectiva de um fluxo e
da mudança, característica inerente ao processo social, seus resultados serão mais
dramaticamente observados no processo de organização do trabalho diário no CPC, de
incorporação das normas internas de conduta, e, acima de tudo, como um projeto de ação
inconcluso e sentido como um rompimento com as experiências sociais construídas
anteriormente.

[o processo de transferência] Eu só discordei em relação ao nosso representante que


era o sindicato. Porque ele garantiu que a gente só saia da rua quando aqui tivesse
tudo concluído, mas a gente veio pra cá [CPC] sem nada construído do que foi dito.
O que eu discordei? Foi em relação a isso, nós viemos pra cá com a promessa de
tudo concluído, mas nada. Falei com o sindicato, que era o nosso representante. Mas
agora nos não temos mais representante agora aqui, porque não somos mais
camelôs, né? Agora, se exige pra eles fazer uma nova gestão, uma nova entidade.
Por enquanto tá provisório o Sincovam. [o sentido da via pública] A rua
representava financeiramente, não tem nem comparação. Agora, esse aqui representa
segurança e conforto tem nem comparação também. Na rua era sol e chuva direto,
ladrão também. [Havia conflito?] Cara, a maioria não queria vir, a maioria não
queira sair da rua. Não queria vir pra cá e continua assim, a maioria ta querendo
fazer um motim pra ir pegar, cada um ir pegar uma daquelas pedras e ir lá pra rua.
Porque não tem fiscalização, eles deixam pra lá e prejudica muito aqui dentro, o
pessoal que trabalha com celular principalmente, o centro tá lotado, quer dizer o
pessoal daqui sofre concorrência desleal. [Tipo de segurança] Agora, me sinto
121

seguro sim, em relação a roubo. Com certeza, aqui acabou. Na rua não, era terrível.
[...] Eu acho e eu concordo também com a revitalização do centro. Sinceramente,
tavahorrível, eu era camelô, mas era contra isso aí. Tava feio demais no centro da
cidade! [fala com veemência] [Q9].

Era a entidade do sindicato e associação. A prefeitura ficou com o papel de cadastrar


no Programa. [...] Não ocorreu antes por falta de interesse político em organizar a
categoria. Houve esse interesse desta vez. [...] A rua representava só mais a venda,
né? Porque aqui como te falei tá ruim a venda, lá na rua a venda era mais. Agora
aqui, é um processo [...] porque lá, foi quase a minha vida toda. Na rua eu
trabalhava há mais de 20 anos no ponto, é bem diferente daqui que a gente num tem
nem um ano aqui. A venda é a renda, só se tem renda se tiver venda [Q23].

Na medida em que poderia hipoteticamente ser mais vantajoso para o


permissionário/locador transferir sua prática para o CPC, seguindo o sentido atribuído pelo
entrevistado. E, se não estava interessado em ficar em via pública utilizando o lugar como
comércio ou serviço, ou seja, tinha outra forma de obter renda a partir da banca, evidenciada
pela prática de aluguel. Neste caso, supõe-se que não havia motivo concreto para que tal
“permissionário” fizesse alguma contestação ou se engajasse em algum tipo de conflito contra
a ação governamental. Como os aluguéis de bancas, as negociações e vendas de “ponto” e a
hipótese do envolvimento de funcionários públicos em concordância e participação com estas
práticas eram partes da rotina cotidiana e das experiências narradas pelos próprios
permissionários em entrevista, estas poderiam ser transferidas para o interior do CPC sem
muitas dificuldades ou mesmo constrangimentos.
Enquanto, a narrativa da entrevista [Q28] atesta para outro motivo justificável do
enfraquecimento da contestação à ação governamental, admitindo o sentido da tímida coesão
entre os próprios pares. Em sua lógica explicativa, os que ficaram e não esboçaram esforço
em contestar, viram uma oportunidade de alavancar as vendas quando da saída de quase
setecentas bancas das imediações (ver Figura1). Na medida em que se refere aos
permissionários da Rua Henrique Martins, transversal da Avenida Eduardo Ribeiro,
totalmente liberada das bancas. O quase “esvaziamento” das imediações, seguindo sua
pressuposição, poderia ter como consequência a melhoria do volume de vendas para as bancas
que permaneceram. Portanto, não apenas a fraca coesão do ajuntamento fez silenciar o ato de
confronto, como se infere de fundo, certo sentimento de egoísmo econômico a percorrer os
limites da transferência.
Outro destaque reside na afirmação sobre a Copa 2014 como o argumento justificador
da retirada e da intervenção urbana na área. Nas narrativas [Q19] e [Q28], o sentido atribuído
ao campeonato futebolístico tem relação direta com o momento da transferência, com a
organização da cidade e do próprio ajuntamento, além de considerar que o maior temor seria o
122

fato da ação não resultar em algo concreto e, portanto, na dimensão de mera promessa e do
não cumprimento. Por outro lado, a entrevista [Q8] refere-se à debilidade de fiscalização e
com menor interesse em aprofundar questionamentos ou informações, ou ainda, na melhoria
nas ferramentas para tal atividade, sem contar com as táticas de burla que parecem minar a
rigidez do sistema. Tal observação do entrevistado tem fundamento prático, na medida em
que se evidencia um tipo de fiscalização pós-transferência (quando esta já ocorreu), que não
tem ferramentas concretas para impedir o retorno ou a coibição de práticas ainda observáveis
e comuns de ocupação da via pública.
De outro modo, quando a entrevista [Q9] expressa uma ideia de “concorrência
desleal”, tomando como referência o restante de permissionários que permaneceram nas vias
públicas aguardando a saída definitiva, um quantitativo considerável entre 150 e 200
permissionários, comparando as situações diferenciadas entre os próprios pares
permissionários, uns do lado de dentro do CPC e outros que permanecem do lado fora. O
entrevistado atribui ao processo o sentido de não encerramento, levando em conta que saiu da
via pública e perdeu o volume de vendas, fato este que se liga ao incômodo gerado pela
situação de seus pares que ainda permanecerem lá fora. E, sobretudo na sua interpretação, por
continuarem atraindo consumidores que ainda referenciam a localização dos camelôs em via
pública, aqueles que estão no fluxo, aproveitando os consumidores de ocasião, os
“transeuntes-consumidores”.
Curiosamente, o sentido atribuído de negatividade e discordância diante da sua
situação e dos outros pares, toma a direção da ambiguidade quando se dá alguns passos para
trás e se sai do plano de close-up no CPC (e do entrevistado), ampliando a perspectiva para
ampliar cenários e atores, maiores e distintos. A mesma fala desse entrevistado, em relação a
quem está “do lado de fora”, não transferido, pode ser encontrada como um reflexo ambíguo,
no discurso dos lojistas da CDL em relação àqueles que estão na via pública sem pagar
“nada” de imposto. Rotulando, de igual modo, tal situação como “concorrência desleal”.
Deixando de lado a assimetria comparativa do lugar donde se fala, das circunstâncias sob as
quais se fala e de quem fala, isto que foi expresso como “o sentimento de concorrência
desleal” sobressai apesar dos contextos e qualificadores sociais diferenciados. O sentido
atribuído pelos lojistas do CDL Manaus e o sentido atribuído pelo entrevistado no CPC se
apresenta com uma carga inequívoca de negatividade, desequilíbrio de poder e
estigmatização60. O comportamento do outro, a condição contínua de uma ordem produtora de

60
Recorre-se à fala de trabalho anterior: “Um associado do CDL-Manaus afirma que “certa vez, uma cliente fiel
havia comprado quatro CDs no camelô e apenas um na loja, porque não havia achado o que queria no mercado
123

atos desleais, de diversas ações coordenadas que implica “prejuízo” pessoal como efeito
direto das ações e falas dos outros (WRIGHT MILLS, 1940).
Um cenário de convivência ambígua, de difícil definição, mas que somente o
detalhamento e interpretação das práticas concretas, interações cotidianas entre os pares, da
manipulação dos objetos e da interação com o ambiente podem construir a melhor
compreensão da ação situada no CPC. Pelo próprio sentido atribuído ao processo, na
expressão das entrevistadas [Q10] e [Q23], “Isso aí foi lá com o pessoal de cima e o outro
pessoal lá de cima, isso foi lá com o pessoal da prefeitura e o pessoal do sindicato, tudo entre
eles lá” e “Agora aqui, é um processo [...] porque lá, foi quase a minha vida toda [...] é bem
diferente daqui que a gente num tem nem um ano aqui”, respectivamente; E, do sentido das
rotulações jurídicas e da transferência em [Q9] – “Mas agora nós não temos mais
representante agora aqui, porque não somos mais camelôs, né?”. O que levaria à
pressuposição de que alguns permissionários tendem a encarar que, certa identidade, terá de
ser construída no ambiente, por outros caminhos e ações e assumindo diferentes papéis
estabelecidos pelas relações com o CPC.
O conflito representado pelas declarações não teve efeito prático nem força para conter
ou mudar a dinâmica da ação governamental. Entretanto, evidencia-se pelos vários
desdobramentos práticos e expressões de descontentamento entre os transferidos, como na
falta de uma representação coletiva mais propositiva, na ação parcial das transferências e no
seu caráter de incompletude, na fiscalização frágil sobre os insistentes “invasores” ocupantes
da via pública e nas cerimônias de adaptação ao novo ambiente.
A experiência do indivíduo no CPC aparentemente tenta organizar uma ordem social
de ruptura, diferente e descontínua da experiência socialmente construída em via pública.
Contudo, na prática cotidiana, há tendência de continuidade (como estar ainda num espaço
público), apresentam dimensões relacionais específicas (relações estreitas e pontuais com os
pares mais próximos) e tendem à relações conflituosas (com os representantes de coletividade,
com a adaptação ao ambiente e na forma de lidar com o baixo fluxo de consumidores). Isto é
expresso pelas narrativas envolvendo as comparações entre o antes (lá fora em via pública) e
o depois (instalados no CPC) e pelas ações práticas combinadas na intenção de resolver os
problemas que se apresentam no lugar. Isto é, reajustando e remodelando o ambiente e sua

ambulante”. “Além da deslealdade, esta concorrência coloca a saúde das empresas em extremo risco” (grifo
nosso). A fala do presidente (na gestão anterior de 2005) da CDL-Manaus, Sr. Ralph Assayag, expressa que o
posicionamento da instituição não é “combater” nem “expulsar” os camelôs e ambulantes da área central.
Entretanto, os representantes do setor de comércio formal exigem a reorganização do centro da cidade na
intenção de formar um mercado justo e digno para todos (grifo nosso). Segundo ele, o “centro comercial sem
camelô não é centro” (OLIVEIRA, 2009, p. 59).
124

institucionalidade normativa pela combinação entre a experimentação da pragmática cotidiana


e a experiência anterior em via pública.

Foto 1 – “Camelódromo Provisório da Epaminondas” entrada pela Rua Lobo d’Almada.

Fonte: Autoria própria – 1º jul. 2016.

Foto 2 – “Camelódromo Provisório da Epaminondas” entrada pela Avenida Epaminondas (vista do interior para
rua).

Fonte: Autoria própria – 1º jul. 2016.


125

Foto 3 – Interior do “Camelódromo Provisório da Epaminondas” (saída para a Rua Lobo d’Almada).

Fonte: Autoria própria – 1º jul. 2016.

Foto 4 – Entrada do “Camelódromo Provisório da Floriano Peixoto” (Avenida Floriano Peixoto).

Fonte: Autoria própria – 1º jul. 2016.

Foto 5 – Interior do “Camelódromo Provisório da Floriano Peixoto” (Avenida Floriano Peixoto).

Fonte: Autoria própria – 1º jul. 2016.


126

Foto 6 – Interior do “Camelódromo Provisório da Floriano Peixoto” (Avenida Floriano Peixoto).

Fonte: Autoria própria – 1º jul. 2016.

Ao longo do ano 2014 e nos seguintes, 2015 e 2016, as sucessivas etapas não lograram
êxito na ação de transferência de todos os permissionários. Resultando, assim, na permanência
prolongada de um número significativo de camelôs nas vias públicas até o final de julho de
2016 quando se encerrou esta observação de campo. Uma situação classificada pelos
entrevistados como vantajosa para aqueles que estendiam por mais tempo na via pública a sua
ocupação. De um lado, quem permanecera, acabava observando as condições pelas quais
passavam os primeiros transferidos nos CPC. Por outro lado, continuaram vendendo
livremente e se planejando para a próxima etapa e, além disso, não passaram pelos
provisórios, os quais já se encontravam lotados. Os permissionários/camelôs que
permaneceram por mais tempo nas ruas Marechal Deodoro, Guilherme Moreira, Marcílio
Dias, Dr. Moreira, Theodoreto Souto e Quintino Bocaíuva (ver Figura 6) tiveram tempo e
oportunidade privilegiados para avaliarem e decidirem como fazer quando a transferência
finalmente ocorresse para essa área.
No mapa a seguir são apresentadas as vias públicas afetadas pela etapa inaugural de
transferência, que foi realizada com um grupo entre 600 a 650 permissionários/camelôs e
ocorreu sob grande performance do executivo municipal. Adiada algumas vezes a pedido dos
próprios, por fim, a ação foi realizada no final de semana entre os dias 21 (sexta), 22 (sábado)
e 23 (domingo) de fevereiro de 2014. No domingo, embora tivesse chovido pela manhã, não
impediu o prosseguimento das ações, acompanhadas pelo próprio prefeito e demais
observadores.
127

Para esta performance de abertura, o trânsito ao redor foi interditado. No horário da


manhã os caminhões-baú estacionavam e aguardavam os permissionários, alguns servidores
municipais carregavam as bancas junto com o camelô até o veículo onde eram colocadas.
Quando narravam essa experiência, os entrevistados do CPC Galeria Espírito Santo por meio
de expressões faciais, pausas na fala e entonações na voz remetiam a um sentimento de
comoção, irritação e dos motivos da ação. Uma questão pontual que pairava entre as
narrativas era sobre o que seria daquele dia em diante, “o que fazer depois disso”. Por outro
lado, também era ressaltado o sentido afetivo ao lugar, isto é, da relação afetiva com a
rua/travessa/praça, com a experiência ocupacional vivida e com a trajetória de cada um no
trabalho e no negócio em vias públicas.

Figura 1 - Mapa das vias públicas afetadas pela primeira performance em fevereiro de 2014 e local originário
dos permissionários entrevistados no CPC Galeria Espírito Santo.

Fonte: Google Maps. Disponível em: <https://www.google.com.br/maps/@-3.1345022,-60.0238856,17z>,


modificado pelo autor.

Legenda Indicativa do Mapa

Linha/n.º Linha/Cor Logradouro

Praça da Matriz (contorno da Catedral N. S.


1 Linha Verde e Linha Amarela da Conceição)

2 Linha Amarela Avenida Eduardo Ribeiro

3 Linha Verde Avenida Sete de Setembro

4 Linha Verde Rua Henrique Martins

5 Linha Verde Rua 24 de Maio (parte)


128

O lugar, a via pública, onde o trabalho e o negócio se desenvolvem e se articulam,


ainda, mantém um caráter híbrido. De igual modo, representa as situações práticas de
apreensão cognitiva que implica em percepção e controle reflexivo da ação, em um
compartilhamento de mesmo contexto social e ambiental, in situ. Ou seja, a conduta que se
impõe através de uma coordenação de comportamentos que se relacionam sobre os processos
transacionais dos indivíduos entre si e destes com o ambiente e seus objetos, propõe uma
orientação da ação situada numa direção mais ecológica e pragmática do que fenomenológica
(FORNEL; QUÉRÉ, 1999).
Disto decorre que as comparações entre o ambiente e a conduta (o antes e depois), em
processos relacionais e experiências que se complexam, ainda mais pelo sentido afetivo na
construção de um pertencimento e incorporação do lugar, desvelam-se nas narrativas e se
tornam qualificadores dos efeitos da transferência e das ações de adaptação no CPC.

A rua é show de bola61 em relação aqui, na época eu via a rua como um meio de
trabalho, mas é tipo assim, como todo mundo aqui já comentou: “a gente era feliz e
não sabia” [ele sorri]. Ou seja, alguns reclamavam da rua, mas quando vieram pra cá
viram que a rua era bem melhor que aqui. Aqui, quer ver um exemplo,
matematicamente falando, lá na rua eu vendia trinta bolsas, aqui eu vendo duas ou
uma, quando vendo cinco é show de bola, campeão dos campeões de venda, por
semana. Hoje não vendi nada, ontem vendi uma [bolsa] e era esse horário [por volta
de 15:30h]. E não é só eu, não, ontem esse pessoal de baixo [primeiro piso] tavatudo
reunido revoltado porque não tinham vendido nada, fazia dois dias que não vendiam
nada. Eu fui na Secretaria [Semch] ontem resolver um negócio lá, porque quero sair
daqui, aí o cara de lá perguntou: “Por que o senhor quer sair de lá? Tá tão ruim
assim?” Respondi: meu patrão se fosse ruim não taria aqui conversando com o
senhor porque de ruim posso trabalhar pra chegar a bom. O ruim quer dizer que tem
pouco movimento. Eu não tô vendendo o que eu esperava vender. Ele [o secretário
Glauco Louzeiro] retrucou: “Mas tá tão ruim assim?” eu disse: “Tem nem descrição,
não passa ninguém, tá um deserto só” [Q8].

[Sobre as condições de sair do camelódromo provisório para o CPC] Porque teve


muita gente que veio pra cá, que não tinha nem dinheiro pra colocar esse MDF
[prateleiras para exposição das mercadorias], entendeu? Esse MDF, o engate, essas
coisas todinha [ele aponta as peças para a montagem de um box. Ninguém quase
tinha dinheiro, tinha gente que tava passando uma situação meio precária. Teve
gente que adoeceu depois que tavaaqui, psicologicamente, né? A pessoa ficou
abalada, eu conheço era um amigo. Olha só, a pessoa não é acostumada com um
negócio desse, assim de repente [Q14]

Da comparação entre a rua e o CPC expressa pela narrativa [Q8], o entrevistado toma
sua experiência focalizando de um lado os ganhos e do outro o conflito inerentes a estes
distintos ambientes, marcado pela consideração de qual condição específica poderia ser pior,

61
A expressão “show de bola” é uma gíria cujo significado equivale a algo muito bom.
129

ou os problemas próprios do ambiente público ou o problema específico das vendas em baixa


no CPC. De outro modo, a entrevista [Q14] não traça um quadro comparativo em seu
depoimento, no entanto, menciona as consequências negativas para quem saiu da rua e passou
uma temporada no “camelódromo provisório” (o que não ocorreu com o entrevistado anterior
que era da Rua Henrique Martins). O efeito com aspecto dramático de tal experiência no
“provisório” permeia muitas narrativas dos entrevistados, apontando uma condição
impactante e de sentido negativo para o trabalho e negócio neste lugar, a ponto de ter efeitos
prejudiciais para a saúde e para as finanças dos transferidos.

Era o sistema de adaptação, né? A adaptação do local é sempre muito difícil. Você
perde muito cliente, você vai ganhar outros. Apesar de eu ter muitos, glória a Deus,
que eu fiz quando tavalá [na via pública], mas muita gente perde o teu cartão e fica
sem saber onde você tá. Aí você vai adquirindo devagar, de novo. É um novo
percurso, um novo começo, adquirir clientes aqui e o que já tinha. Mas, é difícil a
adaptação, foi mais difícil ainda porque fomos pra dois lugares, [para o provisório
primeiro e depois definitivo para o CPC][Q18].

Era pra sair por causa da melhoria pra cidade. Por causa das pessoas que vinham de
fora, os turista. Pra cidade ficar mais bonita, porque a cidade era suja. E sempre
chamava a gente pela atenção do lixo. Até no dia que nós saímos da rua, o prefeito
pegou a vassoura e foi varrer. Aquilo nós achamos um absurdo! Porque naquilo ele
chamou nós de lixo! Você pegar a vassoura e sair varrendo? Então, você tá tratando
uma coisa que não presta! Você se sente um lixo! Um cidadão, que fala de
democracia e que conhece a lei, não era pra ter feito isso, né? Achei muito ruim pra
nós, humilhante! [Q30].

O discurso político articula ao argumento da transferência/deslocamento a ideia da


participação de todos para o bem comum da cidade. Isto implica diretamente no fato do
executivo municipal atribuir uma cota de responsabilidade pela realização e resultado bem
sucedido do processo aos próprios transferidos, mesmo que estes não tenham todas as
informações necessárias para a previsibilidade dos riscos. Ancorando suas ações nas
promessas de “parceria”, na melhoria das condições de negócios e trabalho e na expectativa
de um futuro promissor para o centro da cidade, que se desdobraria para os transferidos que
aderissem ao projeto. Os permissionários/“camelôs” viram-se incorporados na
responsabilidade da ação, apesar de não representarem o projeto principal. Mesmo assim,
alguns se assumem como parte importante da continuidade do processo de transferência e
mudança da paisagem, atribuindo-lhe um sentido positivo e legítimo que valia a pena aderir.
E, isto não se passou sem que fossem levadas em conta as experiências anteriores.
130

A melhoria, né? Tanto pros ocupantes das calçadas quanto pro lado histórico da
cidade. Eu concordo que tava uma bagunça que precisaria ter, o que aconteceu com
a mudança, da organização da categoria, nós tamo procurando também, como outras
categorias tão legalizadas, que a gente se legalização também. Eu concordo que a
maneira foi rápida pra tentar restaurar as ruas, o lado histórico da cidade e ter uma
visão melhor da nossa cidade, eu concordo que tenha sido resolvido de maneira mais
rápida [Q2].

Cara, na verdade, toda vez se tentou tirar o camelô, toda vida, né? O Artur por duas
vezes conseguiu. Na “porradaria” e agora essa na “categoria”, né? Cara, eu acho que
o camelô não tava preparado para sair da rua agora não, olha. Porque foi uma coisa
assim, em cima da hora aí. Sei lá, cara... Ainda não tava não! Cara, acho que a
melhoria da cidade que tava meio bagunçada foi fundamental pra isso [a
transferência] [Q27].

No caso, eu achei bom essa retirada porque as calçadas já tava poluída de camelôs.
Você já não poderia andar mais à vontade, ou seja, você já andava sobressaltada,
porque através das bancas os cinco dedos se escondiam. Eram os ladrãozinho que
ficavam detrás das bancas e a gente ia comprar e os ladrões tavam ali por perto, a
gente já ficava sobressaltada. E, tando aqui dentro, não! Aqui dentro já não aparece.
Tem um segurança numa porta, tem um segurança na outra. A Copa fez isso aí,
também, sabia? Sabe por quê? Porque se ela não chegasse até a nós aqui no Brasil,
ainda tavalá os camelôs. Aí o prefeito o que ele fez? Ele raciocinou e viu que a rua,
Manaus toda, tava poluída pelos camelôs. [...] E ele fez uma solução boa [Q29].

A dimensão concreta da mudança de ambiente também abarca expectativas de que o


novo lugar apresente a possibilidade de uma nova representação social sobre si, no modo
como consumidores e parte da sociedade passe a vê-los. A partir da perspectiva de certa
regulação da atividade, da normatividade contratual gerada pelo ambiente e por outra imagem
distinta como permissionário/microempreendedor individual e não mais pela perspectiva e
estigma do permissionário/“camelô”.
Há que se destacar que na trajetória de alguns destes permissionários, o trabalho por
conta própria é visto pelo sentido mais próximo de um trabalho autônomo, de
empreendimento próprio e oportunidade de diversidade dos negócios e ampliação da renda,
deixando de lado as vinculações com a viração, aquisição de renda imediata e trabalho restrito
à via pública. É possível encontrar no CPC, nas narrativas que apontam estes diferentes
sentidos, que a estigma social construída sob o signo do “camelô” ou “ambulante” seja algo
que certos permissionários queiram ver-se livre, não se vêem alinhados ao ajuntamento ou
não expressam autodenominação a esta identidade social.
As declarações transcritas a seguir foram tomadas dos permissionários/“camelôs” pela
imprensa, pelos noticiários dos programas televisivos e páginas de blogs pessoais que
cobriram a ação governamental daqueles três dias, em 2014. Expressam a dúvida, o cálculo
131

das perdas e o enfrentamento de uma nova experiência fora da via pública. Aqui, a
problemática da transferência se apresenta pelo aspecto do risco da localização da ausência de
referência e identidade ao novo mercado, isto é, “onde estão localizados agora os antigos
camelôs da área central e como os consumidores vão até eles?” (preocupação apontada por
um permissionário/microempreendedor, em conversa informal no CPC). Uma mudança não
apenas localizacional, mas que pode ser considerada a partir da rotina de trabalho e de
negócio, uma preocupação legítima da condição concreta e inerente do tipo de dinâmica
cotidiana em via pública.

“Vamos trabalhar em um local onde as vendas vão cair. É necessário que os novos
locais sejam divulgados na mídia pela prefeitura”, afirmou. [Timóteo Vasconcelos,
de 45 anos, trabalha como camelô há 20 anos, na Avenida Eduardo Ribeiro] (MAIS,
2014).

“Na época de volta às aulas, a minha demanda é muito alta”, conta. Ele faturava
cerca de R$ 5 mil por mês e pagava dois funcionários que o ajudavam a cuidar da
banca. “Ninguém vai atrás da gente nos novos locais. Vai prejudicar muita gente,
mas espero que o prefeito cumpra com a promessa” completa (nosso grifo). [Getúlio
Alves, de 43 anos, banca entre a Sete de Setembro e a Eduardo Ribeiro] (MAIS,
2014).

“Vamos começar do zero, pois as pessoas não estão acostumadas ainda às galerias.
Mas espero que haja um estímulo para que as compras sejam feitas. É uma mudança
necessária”, disse. [Delson Pereira, de 50 anos, que trabalha há 10 anos, Praça da
Matriz] (CAMELÔS, 2014).

Nas páginas seguintes, selecionaram-se algumas fotos de jornais impressos, blogs


pessoais e informativos virtuais que demonstravam as cenas dessa performance inaugural de
transferência, com seus atores, objetos, coordenação de ações e o contexto da ação
governamental in situ. Por vezes, uma ação comemorada com certa euforia e tomada por ares
de uma página virada na história da zona central, da cidade de Manaus. A ideologia de uma
cidade em ritmo de mudança, que alcançou um desenvolvimento e condições de negócios
internacionais, que começa a desenhar os traços iniciais para as novas atividades na economia
cultural, gastronômica e turística e que tem o centro da cidade como um núcleo importante
desse desenvolvimento. Os “camelôs” precisarão se encaixar de modo legal, organizacional e
localizacional naquilo que requer esta dinâmica de mudança da paisagem urbana na cidade,
em sua perspectiva política e econômica.
132

Foto 7 - Camelô acompanha a retirada das bancas até os caminhões-baú, que depois seguirão para os
“camelódromos provisórios”

Fonte: PREFEITURA RETIRA, 2014.


Foto: Guido Borges/Assessoria do vereador Bosco Saraiva (PSDB)

Foto 8 - Banca sendo retirada na manhã de domingo durante a transferência inaugural.

Fonte: MAIS, 2014


Foto: Rômulo de Sousa/G1
133

Foto 09 - Calçada da Avenida Eduardo Ribeiro semana antes da etapa inicial de transferência, em frente àLojas
Marisa.

Fonte: FEIRA, 2014.


Foto: Jamile Alves/G1

Foto10 - Mesma calçada, Avenida Eduardo Ribeiro, após a etapa de transferência.

Fonte: MAIS, 2014.


Foto: Rômulo de Sousa/G1.
134

Foto 11 - Caminhão-Baú parado na Avenida Eduardo Ribeiro.

Fonte: MAIS, 2014.


Foto: Rômulo de Sousa/G1

Foto 12 - Após o transporte dos objetos, o prefeito Artur Neto pessoalmente comandou a performance de
limpeza na Avenida Eduardo Ribeiro no domingo chuvoso.

Fonte: SEM CAMELÔS, 2014.


Foto: Secretaria Municipal de Comunicação
135

Para montar a ação performática original houve a articulação entre várias secretarias
municipais como a Secretária de Limpeza Pública (Semulsp), agentes do Instituto Municipal
de Engenharia e Fiscalização do Trânsito (Manaustrans), a Secretaria de Mercados, Produção
e Abastecimento (Sempab), a Secretaria de Infraestrutura (Seminf) e a recém-estruturada com
uma função específica e fundamental no processo de transferência, a Secretaria Municipal do
Centro (Semc) cujos servidores foram todos convocados (MANAUS, 2013c, p. 11). Os
servidores da Secretaria Municipal de Meio Ambiente no mesmo compasso realizaram poda e
manejo de árvores durante a performance. Logo após esse trabalho, a Praça da Matriz
começou a receber os tapumes de isolamento para o início das obras de requalificação
organizada e gerida pelo Instituto Municipal de Planejamento Urbano (Implurb), que ainda
perduram no mês de agosto de 2016. A avaliação das obras de reparo e requalificação das
calçadas da Avenida Eduardo Ribeiro seguiu durante aquela semana com os servidores da
Secretaria Municipal de Infraestrutura (logo na segunda-feira, dia 24 de fevereiro de 2014)62.
As reportagens que presenciaram a performance destacaram que, quando as primeiras
bancas foram retiradas, as equipes da Secretaria Municipal de Limpeza Pública (Semulsp)
deram início às ações de limpeza na Avenida Eduardo Ribeiro com a participação do prefeito
Arthur Neto (foto 12), ora jogando água, ora esfregando o chão. O gesto foi repetido por
secretários e vereadores seguindo a declaração do prefeito: “Temos que dar o exemplo. Se
quisermos uma cidade diferente, cada um tem que fazer a sua parte. E nós estamos fazendo a
nossa”63.
Na composição do cenário, um grupo de vereadores esteve presente durante a etapa
inaugural da transferência observando e avaliando a ação que não só ajudaram a pôr em curso,
bem como imprimiu sobre o trabalho e negócio em via pública uma mudança significativa
para camelôs e ambulantes64. Considerando a coordenação das ações entre legislativo e

62
Dois anos depois, observou-se em julho de 2016, 1º dia, no final da manhã, o prefeito e uma pequena comitiva
formada por políticos, secretários, servidores, representantes do coletivo de camelôs, partidários, uma plateia de
observadores ocasionais, trabalhadores das lojas, a inauguração do penúltimo trecho “revitalizado” da Avenida
Eduardo Ribeiro (a quadra entre a Rua Saldanha Marinho e Avenida Sete de Setembro). Na semana seguinte,
foram colocados os tapumes no último trecho da avenida, no segmento paralelo à Praça da Matriz, para dar
continuidade às reformas. Com o piso em pedras no lugar da cobertura de asfalto, trechos com exposição de
antigos trilhos do bonde, calçamento e meio-fio em pedras que relembram o início do século XX, bancos de
ferro presos ao calçamento, são agora parte do compõem um cenário que tenta reviver uma antiga “av. Eduardo
Ribeiro” à moda da Bélle Epoque amazônica. Mas, a figura do vendedor de pirulitos, do lambe-lambe, do
pipoqueiro não seriam formas e práticas de trabalho e negócio em via pública daquele cenário antigo?
63
(MAIS, 2014; RETIRADA, 2014; SEM, 2014).
64
“Entre os 41 vereadores, estiveram no Centro na manhã de domingo os parlamentares Sildomar Abtibol
(PROS) Júnior Ribeiro (PTN), Luís Neto (PSDC), Jornada (PDT), Joãozinho Miranda (PTN), Felipe Souza
(PTN), Wilker Barreto (PHS), Mitoso (PSD), Amauri Colares (PROS), Professor Samuel (PPS), Mário Frota
(PSDB), Marcelo Serafim (PSB), Carijó (PDT), Gilmar Nascimento (PDT), Reizo Castelo Branco (PTB),
Walfran Torres (PTC) e Alonso Oliveira (PTC) e Therezinha Ruiz (DEM)” (VEREADORES, 2014).
136

executivo municipal pode-se inferir que, posteriormente, o primeiro manteve o seu papel de
observador do cenário dos desdobramentos que ocorreram no futuro. Contudo, na origem do
processo desta performance de abertura, as declarações na tribuna da Câmara Municipal em
torno do tema mostraram o ótimo desempenho das alianças partidárias em favor das
demandas do executivo e o grau de esforço para acelerar a pauta de mudança, de ajustes legais
e de apoio na propositura de leis para dar legitimidade e efetividade ao processo.
A seguir, para demonstrar a coordenação entre os poderes em torno da ação
governamental de transferência, apresentam-se recortes do pronunciamento de alguns
vereadores no informativo da Câmara Municipal de Manaus (CMM) acerca dos fatos
ocorridos nos dias 21, 22 e 23 de fevereiro em 2014 e as performances que se desdobraram.
Neste sentido, pretende-se evidenciar como a ação governamental do executivo esteve em
estreita coordenação com o poder legislativo, como parte integrante e relacional da construção
do processo, sendo fundamental para compreender o desempenho e o cenário daqueles
eventos e de outros que se seguiriam. Ou seja, a relação amistosa e solidária entre as
diferentes esferas do poder se apresenta não apenas pela ação pontual, porém se desdobra
pelas estreitas ações coordenadas quanto aos valores expressos, às concepções políticas
defendidas e ao compartilhamento no modo de interpretar e de agir sobre os agentes
estratégicos alvos dessa ação situada. Construindo formas de interação que direcionaram os
efeitos da performance, dos interesses políticos e no caráter de legitimidade do processo.
Intencionalmente ganha força o apelo a respeito do valor cultural, simbólico e patrimonial do
lugar, o “centro histórico”, associado à questão da legitimidade do tombamento do patrimônio
histórico. Portanto, coordenando as relações de poder e fortalecendo o consenso entre os
agentes políticos considerados estratégicos na mediação entre aqueles que executaram o
processo de transferência e os que foram os atores alvos do processo.

A Câmara Municipal de Manaus exerceu um papel fundamental nesse processo que


na verdade é um marco histórico para a cidade de Manaus e por isso não
poderíamos deixar de acompanhar toda essa ação. Os vereadores tiveram uma
participação ímpar em todo esse projeto, pois foi graças ao Legislativo, o Fumipeq
foi aprovado, o programa de reassentamento, de qualificação. Estivemos atuantes do
começo ao fim e agora estamos escrevendo mais um importante fato para a história
da nossa cidade. A população esperou muito por esse dia e a partir de agora uma
nova história se inicia”, destacou o presidente da Câmara Municipal, vereador Bosco
Saraiva (PSDB) (VEREADORES, 2014, grifos nossos).

O vereador Luiz Alberto Carijó (PDT) destacou a ação exitosa do prefeito Arthur
Neto (PSDB), que contou com o testemunho dos vereadores, acompanhando a ação
no Centro. “As calçadas do Centro estão de volta, o Centro está de volta e o Centro
está livre de bancas de camelôs”, disse o vereador, ao destacar as manchetes dos
jornais desta segunda-feira (24), sobre um tema que é considerado por ele
137

“emblemático, marco e referência da recente história da cidade”. “Só me lembro


das calçadas livres, sem camelôs, na tenra infância, quando andávamos de maneira
livre no Centro. [...] Lembrando que ações exitosas nesse sentido também foram
adotadas em Belo Horizonte (MG) pelo PT. “A chuva de ontem [no domingo –
23.02.2014] não limpou só o Centro, mas a alma de todos nós, que passam a partir
de agora ser cidadãos de primeira categoria e não mais ser tratados como
delinquentes”, argumentou (TRANSFERÊNCIA, 2014, grifos nossos).

As declarações anteriores indicam que, entre outras, se não houve o caráter físico da
violência, do confronto armado ou da apreensão de bens como de fato havia ocorrido em
1989, então, tudo ocorreu bem e em concordância para todos. Além disso, o Presidente da
Câmara Municipal, afirma a participação ímpar do legislativo na reforma do fundo municipal
que financiou a implantação do processo de transferência e de “revitalização” da paisagem
urbana. A expressão o “centro está de volta” é marcada como emblemática e tem referência
com outros projetos semelhantes aplicados em outras cidades brasileiras. O que para o
vereador é uma coordenação natural e espontânea entre os poderes, em concordância com o
Projeto Viva Centro – Galerias Populares.

Marcelo Serafim (PSB), por sua vez, explicou que a Lei para Projeto de Lei do
Executivo que dispõe sobre o apoio financeiro concedido pelo Fundo Municipal de
Fomento à Micro e Pequena Empresa (Fumipeq), à implantação dos Centros de
Comércio Popular (CPC) havia sido aprovada na semana passada (19/02). “Hoje a
Prefeitura tem R$ 50 milhões no fundo para atender essa demanda”, garantiu”
(TRANSFERÊNCIA, 2014, grifos nossos).

O vereador Waldemir José (PT) disse estranhar a associação da imagem do camelô


com limpeza (lavagem do Centro). “Será que é essa ideia, de que os camelôs são
sujos, que geravam sujeira?” Questionou ele, ao afirmar que concorda com a política
para os ambulantes, mas a ideia de relacioná-los com a higienização da cidade de
Manaus, não concorda. Segundo ele, o povo não merece que os ambulantes sejam
tratados dessa forma (TRANSFERÊNCIA, 2014, grifo nosso).

Por outro lado, afirma-se e conserva-se a rotulação, do efeito simbólico da


desorganização e do vínculo a um comportamento desviante que deve ser combatido no limite
do centro histórico da cidade. Portanto, os vereadores em suas falas apresentam as intenções,
interpretações e valores que se associam e concordam com as demandas e urgência do
executivo. A sensação de alívio ou de dever cumprido é sentida pelos implementadores da
ação como uma espécie de “solução” ordenadora para o controle e a organização do
ajuntamento de “camelôs” e “ambulantes”. Diante do exposto, o processo é rotulado e tem a
intenção de ser a resposta definitiva para o trabalho e negócio em via pública e para a
construção da cidadania. Assim, apresenta-se a “solução” para dois problemas a um só tempo,
138

o de pavimentar a pista de um empreendedorismo como promessa de cidadania e autonomia


para os transferidos e, por outro lado, o de “reordenar” o centro histórico para novos negócios
e sociabilidades.

O prefeito de Manaus, Arthur Neto, se reuniu, nessa quarta-feira (12), com cerca de
500 camelôs. Durante o evento foi feita a apresentação do projeto, no auditório da
Prefeitura, na Compensa, zona Oeste. “Temos pressa neste processo porque estamos
falando da possibilidade de oferecer o Centro Histórico para os turistas que virão
assistir aos jogos da Copa. O que queremos é oferecer a solução para os camelôs e
para a cidade, que terá suas calçadas desocupadas e o Centro revigorado”, destacou
o prefeito (MAIS, 2014) [reunião aberta para performance, discursiva e visual.
Diferente das reuniões fechadas com os representantes coletivos].

De fato, é possível compreender que a ideia contida nas expressões como “marco
histórico”, “ganho geral” e “acontecimento emblemático” não exterioriza apenas a opinião
isolada do edil, bem como a intenção de ampliar e envolver o sentido da dimensão coletiva e
simbólica para as relações particulares e pontuais que a própria implementação da ação
governamental apresenta. Ao categorizar como “sujeira”, “desordem” e de atividade
socialmente “inferior” e “marginal” relacionada ao trabalho e ao negócio na via pública indica
a intenção de particularizar e pontuar os limites de ação do ajuntamento e o seu
comportamento desviante num lugar bem específico: “as vias públicas do centro”. De outro
modo, a ação governamental procura dissociar do próprio ajuntamento as condições concretas
nas quais organizam socialmente sua experiência com a cidade. Isto é, sua experiência com o
crescimento urbano sem formulação de política habitacional, com sua precária rede de
serviços públicos e com os baixos índices de desenvolvimento humano e a alta taxa de
concentração de renda (REGIÃO, 2015; PUFF, 2014).
A ação do legislativo revelou-se fundamental para reorientar o alcance e a aplicação
do Fumipeq, um fundo público direcionado ao apoio a pequenas empresas. Um mecanismo
financeiro primordial para fornecer legalidade, legitimidade e sustentação para os
investimentos na construção dos CPCs, pagamento de bolsa-formação, entrega de cesta
básica, desapropriações, enfim, na manutenção de praticamente todas as etapas de
transferência do trabalho e do negócio em via pública. Sua função, também, pode ser
relacionada como um instrumento de garantia de certo controle da tensão, que poderia ocorrer
quando a implementação das ações se efetivassem.
Por outro lado, a construção do processo de transferência manteve relações que
ultrapassaram os limites locais, por meio de objetos mediadores como o contrato entre
139

governo local e a organização internacional FIFA. Na forma de ação coercitiva, interagindo


sobre a arena político partidário, empresários e imprensa local, o contrato instrumentaliza os
tomadores de decisão, amplia a força de poder da ação governamental nas negociações com o
ajuntamento de “camelôs” e torna-se parte indissociável na composição do cenário do
processo de transferência, se não de modo face a face, mas pelo vínculo moral da
obrigatoriedade de cumprimento do contrato internacional.
Desse modo, a “parceria” entre o gabinete do executivo e a Câmara Legislativa
acelerou as mudanças legais e viu uma oportunidade de usar como pano de fundo o
cumprimento das cláusulas do contrato com o evento internacional da FIFA 2014 65. Um
instrumento legítimo de “negociação” entre o executivo municipal e o outro lado da
“parceria”. Esta foi convidada a aderir ao Projeto Viva Centro – Galerias Populares tanto em
apoio à cidade e ao centro histórico quanto à sua futura atuação de microempreendedor
individual. Aderir também pode ter o efeito de concordância do ajuntamento à decisão
moralmente correta para o futuro estético e econômico da cidade. O aspecto moral do contrato
entre a cidade-sede Manaus e a organização internacional FIFA 2014 pode implicar
indiretamente submeter à decisão de “camelôs” e “ambulantes” quanto a escolha entre o
coletivo de um lado e os ganhos individuais na via pública de outro.
Ato contínuo, transcrevem-se alguns trechos ipsis litteris da Ata de Reunião Ordinária
da CMM, documento dos pronunciamentos dos vereadores durante uma sessão plenária, cujo
tema principal ou parcial referia-se ao apoio à ação governamental do executivo, alguns
destes a semana anterior e outros um dia após a ação inaugural de transferência.

a) Reunião Ordinária na Câmara Municipal de Manaus no dia 17 de fevereiro de 2014:

O segundo orador, vereador Luís Mitoso (PSD), também enfatizou a importância


da realização de obras de restauração no Centro histórico de Manaus. Em seguida,
parabenizou os ambulantes por terem compreendido a necessidade de mudança
e terem saído das ruas e calçadas do Centro, o que os possibilitaria sair da
informalidade e serem instalados em galerias populares (CÂMARA, 2014a, grifos
nossos).

O terceiro orador, vereador Elias Emanuel (PSB), falou sobre o desejo dos
camelôs de saírem das ruas de Manaus por conta das inúmeras dificuldades para
realizar suas atividades comerciais, destacando as iniciativas da Prefeitura de
Manaus com aquele propósito, em especial para recuperar o Centro histórico. O

65
Chamadas informalmente de “zonas de exclusão” ou contratualmente de “áreas de restrição comercial”,
relaciona-se à ação de muitas prefeituras de cidades-sede do Brasil e em outras cidades-sede pelo mundo onde
tenha ocorrido Copa da FIFA, a transferir e reordenar o negócio e o trabalho de “camelôs” para outros lugares
mais restritos e controlados, com a intenção de proteger os negócios da organização internacional (DIP, 2012;
OUTRA COPA, 2011).
140

orador enumerou os serviços que seriam oferecidos nas galerias para onde os
camelôs seriam transferidos. Enfatizou, ainda, que a revitalização do Centro
contribuiria para a melhoria da qualidade de vida da população que residia em
Manaus (CÂMARA, 2014a, grifos nossos).

Nessa semana os vereadores expõem suas preocupações sobre a área central e a


importância de envolver os camelôs nessa forma de solução, naturalizando os resultados da
ação e desdobramentos como melhoria na qualidade de vida dos manauaras e especificamente
dos próprios “camelôs”. A ênfase discursiva pertinente ao centro da cidade revolve um
vocabulário de motivos relacionados ao ambiente e aos atores locais, transeuntes impedidos
de andar pelas calçadas, desorganização provocada pelos “camelôs” e “ambulantes” e a
necessária intervenção nos equipamentos urbanos como preparação para as atividades que
ocorreriam a partir daquele período. Por outro lado, os vereadores destacam a compreensão
por parte dos “camelôs” do momento oportuno de “mudança” e cooperação para a realização
da transferência, como um objetivo almejado pelo ajuntamento. Demonstrando assim o efeito
da coordenação entre as diversas ações que são imputadas ou declaradas como respostas a
questões que interrompem atos espontâneos ou condutas típicas, assim o vocabulário de
motivos atua e opera como mecanismo de controle societal (WRIGHT MILLS, 1940, p. 905-
908). Entretanto, os pronunciamentos não comportam garantias efetivas para os resultados
que são projetados no cenário futuro, não forma e não dá condições concretas para a
consequência situacional antecipada (WRIGHT MILLS, 1940).

b) Reunião Ordinária na Câmara Municipal de Manaus no dia 19 de fevereiro de 2014:

O primeiro orador, vereador Wilker Barreto (PHS), falou sobre as mudanças que
estavam sendo realizadas no Centro da cidade, visando à reorganização do local.
Salientou que algumas pessoas estavam distorcendo o sentido das ações realizadas
com aquele propósito e criticou a veiculação de matérias, em nível nacional,
mostrando apenas os pontos negativos da cidade de Manaus. Prosseguindo, falou
sobre os aspectos que atraíam os consumidores, exemplificando-os com o que
ocorria no comércio popular do Brás paulista. Falou, ainda, sobre as estratégias
utilizadas no comércio informal de Manaus que impediam a reorganização do setor,
salientando a existência de um esquema que possibilitava a um único indivíduo
ser proprietário de várias bancas de comércio popular, além de favorecer a
pirataria e o contrabando. O orador destacou os aspectos positivos que o projeto
de reorganização do Centro proporcionaria aos vendedores ambulantes e à
população da cidade de Manaus. Cobrou, ainda, a liberação dos recursos federais
para a recuperação do Centro histórico e falou sobre as ações da Prefeitura de
Manaus para promover tal recuperação (CÂMARA, 2014b, grifos nossos).

O sétimo orador, vereador Waldemir José (PT), defendeu a implantação de uma


política pública para tratar da questão dos camelôs e relatou a visita feita ao
141

Terminal 5, onde constatou a existência de cento e vinte ambulantes, sendo apenas


sessenta e três cadastrados, e que destes apenas um pequeno número seria
contemplado com as ações da Prefeitura de Manaus.O orador sugeriu que fosse feita
uma averiguação do número de ambulantes que realmente trabalhavam naquele
local. O orador relatou, ainda, que havia constatado no Terminal 3 o caso de três
vendedoras ambulantes que atuavam no referido local havia alguns anos e que
também não foram reconhecidas pela Prefeitura de Manaus como camelôs. Diante
do exposto, o orador solicitou aos demais vereadores uma posição mais altiva para
tratar daquela questão, salientando disse que não tinha intenção de protelar nenhuma
política, mas sim, de defender a garantia dos direitos humanos e de que a questão
dos camelôs fosse analisada sem açodamento. Disse, ainda, que nunca fora contrário
à criação de galerias para abrigar os camelôs que seriam retirados das ruas de
Manaus (CÂMARA, 2014b, grifos nossos).

Diante dos pronunciamentos e posições assumidamente favoráveis à proposta


governamental, a composição da Câmara de maioria governista, alguns ressaltam a
reprodução de uma “solução” modular em Manaus. Isto é, a aplicação de modelos exógenos
que propõem, sem evidência de êxito, a mudança e a reorganização dos centros urbanos das
capitais brasileiras pelo uso das chamadas “galerias populares” como modelo de política de
ordenamento do trabalho e negócio em via pública e de reorganização dos mercados e da
dinâmica de distribuição de bens e serviços utilizados preferencialmente por camadas
populares. Os pronunciamentos fazem ecoar o “comércio popular do Brás paulista” como algo
que atraísse naturalmente os consumidores. No entanto, as medidas de transferência e certos
benefícios, de igual modo parecem colocar um dilema presente na declaração do vereador do
Partido dos Trabalhadores. Isto é, ou se aplica uma política mais universal a todos os
“camelôs” e “ambulantes” pela cidade, ou se aplica para um ajuntamento restrito
vislumbrando certo resultado positivo para um número amplo de atores externos não ligados à
área e nem ao ajuntamento. Por outro lado, cabe também pensar se a mudança afetará de
modo mais favorável a um grupo restrito de interesses políticos e econômicos, a partir das
novas atividades implementadas e das ações futuras.

c) Reunião Ordinária na Câmara Municipal de Manaus no dia 24 de fevereiro de 2014:

O terceiro orador, vereador Mário Frota (PSDB), refletiu que nem mesmo a
chuva, que assolou anteriormente a cidade, afugentou as pessoas que acompanharam
o procedimento de retirada dos camelôs das calçadas do centro de Manaus,
numa atitude que agradou aos camelôs, lojistas, prefeitura, Câmara Municipal e
à população de modo geral. Concluindo, o orador lembrou que os prefeitos que
antecederam a Arthur Neto não conseguiram tirar os camelôs das ruas (CÂMARA,
2014c, grifos nossos).
142

O quinto orador, vereador Massami Miki (PSL), reportou-se à operação de


retirada dos camelôs das ruas, parabenizando o prefeito pela coragem de enfrentar
o problema, e sem violência, segundo suas palavras. Finalizando, avaliou a
finalidade do pagamento de bolsa-auxílio de mil reais a esses autônomos, o que, na
sua avaliação, deveria ser de mil e quinhentos reais (CÂMARA, 2014c, grifos
nossos).

O oitavo orador, vereador Waldemir José, falou sobre [...] o recebimento do


Ofício n. 24/2014, enviado pela Defensoria Pública do Estado do Amazonas,
solicitando o auditório da instituição para realizar uma audiência pública, com o
intuito de debater a situação dos camelôs alocados nos terminais de integração
e no Centro da cidade de Manaus. Finalizando, o orador informou que, em função
do supracitado pedido, havia apresentado o Requerimento n. 376/2014, solicitando a
realização da audiência pública na Comissão de Turismo, Indústria e Comércio da
Casa (CÂMARA, 2014d, grifos nossos).

Nessa semana, após as ações iniciais, os pronunciamentos na Câmara lembram que em


anos anteriores nenhum prefeito havia encarado a necessidade de fazer algo a fim de evitar
confrontos com o ajuntamento, mas que agora a forma da ação governamental agradou a
todos os agentes estratégicos envolvidos. Os vereadores ressaltaram o modo como a
performance foi executada, “sem violência” e com “coragem”, além do apoio da “bolsa-
auxílio”, demonstrou que o “problema” foi enfrentado de modo adequado, contudo somente
se referiam ao momento inicial e não ao desdobramento do processo. Para o conjunto do
legislativo o que caberia ao governo municipal já havia sido realizado, agora cabia, como
contrapartida, que os transferidos realizassem sua parte na aceitação do termo de adesão e na
inscrição da figura jurídica do MEI e fizessem avançar o projeto das “Galerias Populares”.
No campo empírico, as entrevistas expressaram a dinâmica do processo de
transferência da rua para o CPC apresentando uma força justificadora em relação à
“revitalização” do centro histórico e ao contrato com a Copa 2014, evidenciando que os
agentes transferidos não desconheciam o processo induzido pelo executivo municipal.
Atribui-se um sentido para a adesão ao Projeto “Viva Centro - Galerias Populares” a partir da
relação direta com melhoria da cidade e com a crença de melhoria tanto na própria imagem
quanto ao ambiente mais valorizado para trabalho e negócio. Indagou-se aos entrevistados: “O
que você considera fundamental para que ocorresse a transferência nesse momento? E qual a
justificativa que você mais ouvia para isso?”. Tratava-se da primeira pergunta que
desencadeou a construção da problemática no campo de pesquisa, como a seguir, as
entrevistas [Q21] e [Q25] demonstram. O que aparece nas narrativas são as variações do
modo como os agentes transferidos atribuem a si mesmos e atribuem aos seus pares, no
143

processo de transferência, determinados sentidos e vocabulário de motivos para demonstrar a


ação situada.

Porque [...] olha, ano passado precisaram do local por causa da Copa do Mundo, nós
estamos no ano de 2015. São três [...] tão construindo três minishoppings populares,
este Espírito Santo, o dos Remédios e o Shopping T4 que estão construindo. Então,
isso é fundamental pros outros colegas que estão saindo das calçadas agora, vão
desocupar agora dia 28, vão desocupar a [rua] Marques de Santa Cruz e vão ser
alocados nos provisórios até a entrega do Shopping T4. Então isso é fundamental,
porque o que está acontecendo? Estamos vindo pros definitivos e as calçadas estão
sendo realmente ocupadas por outros invasores. Nós tamos ficando aqui sem
renda por causa dos invasores [que] estão ocupando as calçadas. Foi uma promessa
feita pra nós, logo que nós saíssemos das calçadas a prefeitura colocaria fiscalização,
e não tá acontecendo [a] fiscalização. As pessoas tão deixando de vir pra Galeria por
causa disso, porque tão ocupando os espaços que nós deixamos [Q21].

Na época não tava por aqui. Mas, depois eu ouvi comentários que iam tirar os
camelôs da rua e iam fazer tipo um minishopping pra eles, que, de pouquinho em
pouquinho, eles iam sair e saiu mesmo. [...] Aconteceu ano passado, né? Ano
passado era época da Copa [mundial de futebol da FIFA 2014]. Com certeza foi pra
isso [...]” [Q25].

A ênfase sobre a interação, percepção e sentido atribuído ao que se passa ao redor


define a posição assumida pelo permissionário e, ainda, a construção social da ação. Na
narrativa [Q25], ele declara não ter estado presente nos momentos iniciais do processo, “ouvia
falar”, isto é, foi informado por outros “camelôs” da retirada gradativa da via pública, e
percebe como referência da ação os interesses mais exteriores que a produziram, a Copa de
2014. De igual modo, a percepção de uma situação conflituosa entre “camelôs” e “invasores”,
transparece na resposta do entrevistado [Q1] sobre as promessas e acordos estabelecidos, no
entanto, não cumpridos a contento pelo poder público municipal. A declaração traz um
sentido de fronteira entre as identidades assumidas ou rótulos atribuídos para quem está na via
pública, de um lado, o “camelô” e do outro “o invasor”. A percepção das posições
diferenciadas e dos acordos estabelecidos determina a interação entre os agentes, sua conduta
e sua posição na hierarquia social como um princípio do contrato e da identidade. De todo
modo, a narrativa lembra o acordo entre as partes, “uma promessa feita pra nós, logo que nós
saíssemos das calçadas a prefeitura colocaria fiscalização”. A falta de cumprimento desse
acordo provocaria, portanto, o rompimento mais conflituoso e a desconfiança no “Projeto”.

Foi o apoio que ele deu [prefeito Artur Neto], o projeto [dos CPCs], mostrando
assim algo concreto, entendeu? Quando fizeram a reunião mostraram a galeria, aí
deram o apoio, deram o benefício de R$ 1.000,00, acho que isso foi fundamental
para as pessoas aceitarem e sair. Todos os outros queriam fazer isso, mas não
144

sabiam como começar, não sabiam como fazer, não tinha local. Ele só deu inicio na
retirada quando já tinha o local das galerias. Quando já tava pago, já tava comprado.
Tudo isso eles mostraram nas reuniões que teve, eu acho isso, mas que o pessoal
confiaram mais nessa possibilidade. Que já tinha algo concreto. Porque antes as
pessoas só falavam que iam retirar, mas não mostravam nenhum projeto, não
mostravam nenhum local e ninguém aceitava. [como a justificativa...] Por causa da
Copa [FIFA 2014], porque as ruas, os patrimônios históricos teriam que estar
visíveis pelo fato dos turistas [Q24].

Rapaz, a justificativa foi que tavam precisando do local. Queriam adequar o local,
queriam limpar, deixar as ruas, as vias públicas, as calçadas à disposição dos
pedestres. Foi o que falaram. Mas, falaram que iam tirar todos, e aí só tiraram nós.
Quer dizer que as outras calçadas...[feição negativa] “Sem dúvida! Poxa, a maioria
não queria sair. E o que foi dito pelo prefeito [Artur Neto] não foi cumprido. Porque
ele falou que todos sairiam, mas ele tirou 30% e deixou 70%. Mas, ele foi na
televisão e disse que tirou todos. E, lá pro Brasil, lá pra fora, lá em São Paulo... ‘de
Olivença’66, ele aparece e o cara pensa que ele tirou tudo! Olha aí o que o cara fez e
tal! Mas é só uma capa, só aquele “migué” [disfarce, engano], sabe com é. Sem
dúvida, tem a referência [fala sobre camelôs que permanecem no centro à espera
das próximas etapas], é o centro, é a parte central, aqui não é a parte central
[referindo-se ao CPC – Galeria Espírito Santo] [Q26].

Assumir uma posição ou o reconhecimento de que algo está em desacordo e, ainda,


compreender o motivo da retirada indica que um vocabulário de motivos havia se formado.
Portanto, a consequência situacional antecipava o porquê isso e não aquilo outro da
justificativa verbalizada e que deveria ser aceita e compreendida coletivamente. As duas
entrevistas [Q24] e [Q26] complementam-se e indicam a perspectiva de que o projeto visível
e discutido concretamente pelos agentes estratégicos, em acordo, verbalizava e assegurava a
intenção concreta da retirada. Contudo, os agentes estratégicos em transferência percebiam
um referente exterior como o fato mais impactante para a transferência. Um vocabulário que
tomava a cidade como melhor preparada para a atividade turística tendia a cumprir um duplo
efeito no discurso e na conduta dos transferidos. De um lado, integrá-los ao projeto como
responsáveis do sucesso ou da derrocada, no caso de sua não execução. Tal responsabilização
de conduta a ser assumida ou posta em prática teria em vista a conduta de um terceiro ator
envolvido na discussão, o turista. Por outro lado, demonstra a relação de força e o domínio do
poder público sobre os transferidos, pelo direcionamento dado à ação na forma de condução e
execução do processo, mesmo que alguns reconheçam a localização escolhida, do CPC, como
distanciada da zona de maior fluxo do centro, as escolhas pareciam concentrar-se no aspecto
mais amplo e consensual da necessidade maior da transferência/deslocamento e não em sua
localização mais apropriada para os transferidos. De igual modo, emerge nas narrativas a

66
Expressão nativa que significa comparar a cidade São Paulo (SP) com a cidade de São Paulo de Olivença no
interior do Amazonas, de modo jocoso.
145

distinção entre as performances anterior e a atual do executivo, presentes na memória coletiva


e como marco referencial do lugar. Por exemplo, na entrevista [Q27] é destacada a situação
em que “camelôs” e “ambulantes” passaram pela performance identificada como
“porradaria”, enquanto que, desta vez a performance é vista como ação de “categoria”, outras
vezes de “lábia”, “conversa” ou “convencimento”. De outro modo, as narrativas permitem
compreender como a ação governamental é vista a partir de uma força justificadora que
associa a vontade política local com a demanda criada pelo agente econômico externo, o
evento da Copa de 2014. Assim percorre pelas diferentes narrativas, percepções e enquadra a
ação governamental como algo que ultrapassa o limite de um “problema” local e requer a
“solução” mais adequada, em via do inevitável confronto “de qualquer jeito”, como menciona
a continuação da entrevista [Q28] e a narrativa [Q29].

Cara, na verdade, toda vez se tentou tirar o camelô, toda vida, né? O Artur por duas
vezes conseguiu. Na “porradaria” e agora essa na categoria, né? Cara, eu acho que o
camelô não tava preparado para sair da rua agora não, olha. Porque foi uma coisa
assim, em cima da hora aí. Sei lá, cara... Ainda não tava não! Cara, acho que a
melhoria da cidade que tava meio bagunçada foi fundamental pra isso [a
transferência] [Q27].

Devido à Copa, né? Foi fundamental porque eles queriam limpar as ruas pra mostrar
pros turistas que tava tudo bacana e tal... E o prefeito que não gosta de camelô,
[risos] com certeza! [...] O que eles falavam pra gente era que se a gente não saísse,
ia ter que sair na marra, né! Ia ter que sair por bem ou por mal, entendeu? Pra te ver
como é [...] se não saísse numa boa ia ter que sair de qualquer jeito, mas ia ter que
sair da rua. Ia ser aquele quebra-pau! [Q28].

No caso, eu achei bom essa retirada porque as calçadas já tava poluída de camelôs.
Você já não poderia andar mais à vontade, ou seja, você já andava sobressaltada,
porque através das bancas os cinco dedos se escondiam. Eram os ladrãozinho que
ficavam detrás das bancas e a gente ia comprar e os ladrões tavam ali por perto, a
gente já ficava sobressaltada. E, tando aqui dentro, não! Aqui dentro já não aparece.
Tem um segurança numa porta, tem um segurança na outra. A Copa fez isso aí,
também, sabia? Sabe por quê? Porque se ela não chegasse até a nós aqui no Brasil,
ainda tava lá os camelôs. Aí o prefeito o que ele fez? Ele raciocinou e viu que a rua,
Manaus toda, tava poluída pelos camelôs.[...] E ele fez uma solução boa [Q29].

As narrativas apontam para um discurso de caráter moral que tende a ser construído a
fim de justificar a adesão e a minimizar o conflito político, como demonstrado em [Q2].
Sedimentar a preocupação com a cidade, o centro da cidade especificamente, em função da
consequência negativa a ser evitada e de um problema internacional a ser resolvido, tende a
evidenciar que embora houvesse o reconhecimento de que a ordem urbana estava colocada
sob a “questão do público”, mesmo com a memória coletiva do enfrentamento, no processo
146

atual deveria ser cuidadosamente minimizado ou contornado todo e qualquer confronto direto.
O mecanismo de apoio financeiro aparece na narrativa [Q7] como instrumento para “fisgar”
os “camelôs” mais desconfiados ou resistentes, o que também minimizaria um confronto com
o ajuntamento, na medida em que apareceria como a “boa vontade” do executivo em auxiliar
aqueles que aderissem ao projeto. Contudo, este instrumento também é percebido, pela
mesma narrativa, como desagregador da força coletiva de maior resistência e melhor
negociação para o ajuntamento.

É assim [...] Eu que sou mais antiga, os mais antigos, a gente pensava assim, o
centro tá cheio! Mas a culpa não fomos nós, mas sim dos governantes atrás que
colocaram muitas pessoas e ficou cheio o centro e através deles tava prejudicando a
gente também, entendeu? Daí a gente achava que era melhor sair porque ninguém
tava mais suportando a quantidade de camelôs que tinha na rua, já. Porque
antigamente quando a gente ia trabalhar o espaço de uma pra outra era uma aqui e
outra ali e todo mundo vendia bem. A gente já não vendia tanto assim como vendia
antigamente. A concorrência aumentou e a bagunça tava demais. Mas, nós não
pensava que aqui ia ser assim, porque aqui é bom, mas não pensava que ia ser assim,
da maneira que foi, né? Tão rápido! Mas, também, lá a causa de tudo foi a Copa
[FIFA 2014]. [...] Era pra sair por causa da melhoria pra cidade. Por causa das
pessoas que vinham de fora, os turista. Pra cidade ficar mais bonita, porque a cidade
era suja. E sempre chamava a gente pela atenção do lixo. Até no dia que nós saímos
da rua, o prefeito pegou a vassoura e foi varrer. Aquilo nós achamos um absurdo!
Porque naquilo ele chamou nós de lixo! Você pegar a vassoura e sair varrendo!
Então, você tá tratando uma coisa que não presta! Você se sente um lixo! Um
cidadão, que fala de democracia e que conhece a lei, não era pra ter feito isso, né?
Achei muito ruim pra nós, humilhante![Q2].

Fiquei sabendo porque o Rafael [primeiro Secretário Municipal do Centro na época


da transferência] foi na rua e falou, pessoalmente, pra mim e aí fiquei sabendo. Já
depois foi outras pessoas que iam, muitas pessoas passaram lá e iam [se]
informando, dizendo, e eram pessoas da prefeitura. Aí vinha também o Assis
[presidente do Sincovam] que, de vez em quando, ia explicando como ia ser, que ia
demorar. Considero que foi muito diálogo do Artur [prefeito de Manaus]. Muita
conversa dele pra convencer o pessoal. Pra convencer o pessoal da rua tem que
saber, ter muita sabedoria. [insisto querendo saber como foi] Diálogo, só na
conversa, e também, né...Você sabe que o pessoal são ganancioso por dinheiro, aí
ele ofereceu [uma] merreca, aí viu que era uma estratégia boa. Foi tanto que o
pessoal nem sentiram, quando sentiram, aí já era tarde demais [ele ri] [Q7].

Dar “o melhor exemplo”, praticar a ação correta e pensar no bem da coletividade,


certamente, não corresponde a uma tarefa fácil aquela a qual se tem de assumir um lado na
condição complexa de uma situação, embora pareça tratar-se de um lado e o outro, “camelôs”
versus prefeitura, porém são diversos lados incorporados, conexos e, por vezes, escamoteados
por trás das inúmeras cenas. Inclusive a presença de outros elementos e interesses externos
internacionais, como o contrato com a FIFA e a presença do turismo internacional.
147

De modo geral, as declarações dos entrevistados foram separadas em três conjuntos


hipotéticos que resumissem o sentido da transferência para os permissionários/“camelôs
envolvidos: a) para o Grupo A, a via pública estava saturada pela expansão do contingente de
camelôs, ambulantes e “invasores” em um lugar de dimensões restritas, seria interessante
apostar num novo ambiente rentável e excelente para o trabalho e negócio quanto a via
pública; b) para o Grupo B, a transferência/deslocamento era uma tentativa antiga,
vislumbrada, então, com condições e garantias concretas, por isso, tratava-se de uma aposta
razoável aceitar algo menos arriscado, evitar o confronto e fazer parte da “revitalização” da
cidade; c) para o Grupo C, ao tentar se livrar de uma rotulação de ocupação marginal colada
às condições de organizar o trabalho e o negócio em via pública, a transferência representaria
uma oportunidade de dar um passo para um novo status dos negócios e de identidade social,
na pessoa jurídica do microempreendedor individual.
Entretanto, os três conjuntos hipotéticos (considerados a partir da experiência, da
expectativa de mudança e da ação estratégica individual) precisariam interagir com as
previsões anunciadas, interesses e práticas de outros agentes envolvidos e em relação ao novo
ambiente e nos possíveis constrangimentos normativos do lugar. Ou seja, o cenário diz
respeito ao interesse e a prática dos agentes políticos, dos grandes lojistas e de determinada
classe social sobre o amplo projeto do executivo. E, inclusive, diz respeito aos efeitos
produzidos sobre os transferidos, o quanto este lugar escolhido concentraria ou dispersaria o
fluxo de consumidor espontâneo, o “transeunte/consumidor” (o “calcanhar de Aquiles” dessa
atividade de varejo quando deixa a via pública), ou mesmo o quanto o Regimento Interno da
organização do trabalho e da conduta pessoal seria capaz de mudar as rotinas e condutas
tradicionais, de modo definitivo. Portanto, num cenário mais otimista os interesses e as ações
em construção poderiam convergir diretamente na garantia de um resultado positivo e
melhoria das condições concretas dos transferidos; num cenário pessimista poderia frustrá-los
pela divergência acentuada em encontrar as conexões possíveis entre os conjuntos hipotéticos.
E, por fim, num cenário pragmático poderiam existir algumas conexões entre certas partes das
hipóteses, propiciando a abertura para estratégias para um resultado combinado de práticas do
trabalho e do negócio, partes realizadas do lado de fora, na via pública e partes realizadas do
lado de dentro, no CPC.
De outro modo, se for possível considerar que o contrato com a FIFA 2014 teve
expressiva influência na maneira de impor sua prerrogativa à dinâmica do ajuntamento local e
dos demais agentes, por produzir um pano de fundo mais tenso e pressionando o cenário de
transferência em Manaus. E, se for possível considerar ainda a interação e a associação entre
148

forças justificadoras da ação (em nível de município, estado e União) para implantar uma
rápida e pronta “resposta” modelar a partir de um projeto que tanto “ajustasse” o conjunto dos
agentes estratégicos alvos da ação quanto colocasse em movimento a “revitalização” do
centro histórico de Manaus. E, por fim, convém considerar que a reprodução modelar dessa
“solução” (da rua para o CPC) vem reforçar a função “estabilizadora” e de controle sobre os
que trabalhavam e negociavam em via pública.
Então, seria possível afirmar que esse conjunto hipotético importa um sentido prático e
intencional, na medida em que o novo arranjo de mercado e a nova forma de organizar o
trabalho fora das vias públicas em Manaus se expandem e constroem cenários nos quais
“camelô” não deve agir como “camelô”. Ao contrário, deve desenvolver um script de
“permissionário/microempreendedor individual” a partir da situação normativa e da inserção
no novo mercado. O que aparentemente daria uma resolução à situação “problemática” do uso
e ocupação da via pública por estes e, por outro lado, direcionaria a uma “nova experiência”
prática do indivíduo: manter-se por si mesmo em sua própria ocupação (autonomia),
contribuir para a construção de uma perspectiva de cidade e de economia (criativa) e construir
sua própria identidade e o próprio lugar nesse tipo de organização social (empreendedorismo).
Para isso, precisaria, principalmente, gerenciar melhor seus recursos materiais disponíveis,
suas habilidades adquiridas e sua busca por novas aprendizagens e recursos.
O sentido prático e a intenção de “camelôs” e “ambulantes” na zona central não está
descolado da experiência organizada socialmente, que toma como referência os eventos
ocorridos entre 1989 a 1991. A narrativa de alguns entrevistados retoma o último confronto
direto com o executivo municipal como resultado do processo de ordenamento da área
comercial do centro. Não somente os entrevistados como os próprios vereadores citados
recorreram à memória do evento, a qual se vincula à experiência social do lugar, da
coletividade e das relações político-econômicas. Assim, a exposição a seguir pretende
organizar a trajetória pontual desse processo e acontecimentos anteriores, argumentando que a
situação do atual do processo de transferência do ajuntamento da via pública para o CPC pode
apresentar elementos que marcam uma experiência do lugar, dos indivíduos e da forma de
intervenção do poder público. A ação situada temporalmente67, do mesmo modo, pode

67
Toma-se o termo “ação situada temporal” como noção analítica da temporalidade estruturante da ação e do
ambiente que produz os arranjos dos objetos e agentes em interação no curso da ação, abrangendo tanto a
dimensão temporal quanto a espacial, o que possibilita configurar e dar sentido à dimensão organizativa da
atividade prática dos agentes e suas consequências fundamentadas sequencial e temporalmente em uma ação
situada anterior. Portanto, esta noção tenta distanciar-se do viés que considere e interprete a ação situada como
colada ao momento do “aqui” e “agora” e ao instante do acontecimento. A ação situada tomada como momento
ou instante de acontecimento tornar-se-ia limitadora para a análise da dinâmica do processo que causa mudanças
149

demonstrar a mudança dos mecanismos de controle proveniente da ação governamental,


identificar o direcionamento dado para o processo e verificar como os agentes envolvidos
diretamente no processo, os comerciantes regulares, a representação coletiva, os agentes
públicos e os próprios “camelôs” se posicionaram e, posteriormente, consolidou a importância
do lugar para o seu negócio, trabalho e experiência.

3.2. A SITUAÇÃO TEMPORAL E A EXPERIÊNCIA SOCIAL DO LUGAR

Pretende-se circunscrever esta narrativa entre os anos de 1989 e 1990, por terem sido
recorrentes na memória dos entrevistados, sobretudo por aqueles que vivenciaram diretamente
o confronto no período aludido, ou mesmo que não tendo vivenciado fizeram questão de
mencioná-lo. Esta situação temporal é percebida como elemento relacional à situação
analisada da pesquisa corrente. Na proporção em que essa experiência do lugar se expressa
como justificativa para um tipo de engajamento mais tíbio, de adesão parcial ou de
desconfiança na ação governamental. Não deixando de ser notada, pelos entrevistados, a
forma de ação realizada pelo executivo municipal em 2014 e seus traços distintos do modelo
anterior. Em 1989 e 1990, os entrevistados e as matérias jornalísticas relatam que a ação
governamental se apresentou na forma de repressão e apreensão de mercadorias. E, em 2014,
constatou-se a ação do executivo sob um conjunto de estratégias discursivas pautadas na
oportunidade concreta de melhoria, acompanhadas por propostas de projetos urbanísticos que
localizariam melhor o ajuntamento e da regulação pela figura do microempreendedor
individual.
Esta situação temporal não significa dizer que o trabalho e o negócio em via púbica ao
longo do tempo não fosse uma realidade presente bem antes das décadas de 80 e 90, pois já
existia um mercado consumidor e um comércio efetivo e comum na zona central de Manaus,
o qual também era alvo das ações de realocação e expulsão. Por exemplo, no governo de
Manoel Ribeiro (PTB/1985-1988), houve repressão contra os “camelôs” e “ambulantes”.
Portanto, a ocupação do centro pelo mercado não regulado, por feiras populares na orla da
cidade e, quando se trata de moradias populares e ribeirinhas, sempre coexistiu, de certo

na ordem de como os agentes organizam sobre seu trabalho e negócio, respondem ante a recorrente ação
governamental e situam as mudanças ocorridas na estratégia dessa ação governamental. Nesta pesquisa foi
necessário retomar estratégias anteriores de retirada de camelôs e ambulantes tanto para desconstruir o aspecto
da “novidade” no direcionamento da ação governamental quanto para decodificar seus elementos diferenciadores
no processo corrente e, ainda mais, demonstrar ligações entre agentes e processos. Deste modo, ao se referir
neste trabalho à ação situada temporalmente se quer com isto “esticar” a dinâmica do processo às experiências
anteriores dos agentes envolvidos, do ambiente e da ação governamental, relacionando-a e conectando-a à ação
situada em curso (QUÉRÉ, 1998).
150

modo, com mercados instalados legalmente e regulados por projetos de crescimento


econômico (nas esferas federal, estadual e municipal).
Neste sentido, a aplicação de instrumentos legítimos de violência física e simbólica, da
repressão, expulsão e imposição da parte do Estado sem a negociação efetiva entre as partes
sempre estiveram presentes nesse lugar, o “centro histórico”. A marca dessas relações de
poder imprime certa definição na ordem da experiência tanto individual quanto da
organização social da cidade de Manaus, de modo mais direto sobre os diferentes setores
populares. Como exemplo, a retirada das famílias da “cidade flutuante”, a expulsão e conflito
na construção da Feira da Banana e a construção da via rodoviária do Porto até o Distrito
Industrial, o projeto Manaus Moderna. Contudo, formas de resistência tem sido uma resposta
nesses momentos de repressão.
Neste cenário, o centro histórico de Manaus e os projetos de “modernização” parecem
não se combinar. Além das marcas do romantismo e saudosismo das fachadas dos casarões e
armazéns do porto, das pontes metálicas e linhas de bondinho, a expansão das vias urbanas,
implantação dos grandes projetos e tentativa de políticas “modernizadoras” para a cidade tece
a trajetória de um processo de relação conflituosa, de enfrentamento e de resistências entre
camadas populares e a ação governamental, muitas vezes silenciado. Fazendo emergir em
tempos diferentes (seja na Belle Époque ou na Zona Franca) uma grandeza justificadora do
bem comum da cidade, apoiada pelos diversos discursos de legitimidade e de racionalidade
movida por determinados interesses e em nome de projetos políticos e econômicos
modernizadores (CASTRO DE LIMA, 2014; SILVA, 2011; SOUZA, 2010; PINHEIRO,
2003; SALAZAR, 1985).
De modo mais restrito, é em 1989 e 1990 que se efetivam as medidas mais repressoras
e o confronto direto entre o ajuntamento de “camelôs” e “ambulantes” e o executivo
municipal, na primeira gestão de Artur Neto (1989-1992). Foram situações de enfrentamento,
violência e reações de ambos os lados. Além das táticas empregadas por parte do ajuntamento
na tentativa de escapar de fiscais e da guarda municipal, persistindo de algum modo na via
pública. Em certos estratos sociais cresceu a apreensão do que foi rotulado como um
problema social e urbanístico da cidade que necessitava da máxima e urgente intervenção do
poder público municipal. Para possibilitar a reconstituição da situação temporal e remontar o
cenário, tomou-se como ponto de partida e respaldo as entrevistas fornecidas à imprensa e a
descrição genérica dos próprios jornalistas que cobriram aqueles eventos, com a finalidade de
obter a montagem do cenário, a identificação dos agentes e das ações realizadas e a sequência
das ações governamentais. Os textos jornalísticos foram retirados de dois jornais impressos, o
151

Jornal do Commercio e o jornal Amazonas em Tempo, que foram os mais consultados por
estarem em melhor conservação física e condições de manuseio para a pesquisa, foram
transcritos ipsis literis. Quando houve supressão de passagem, o sinal gráfico [...] foi
utilizado, é utilizado também quando da necessidade de explicação. A seguir, destaca-se o
noticiário correspondente ao tema e como foi tratado à época, apresenta-se um percurso
resumido e datado, intercalando os recortes seguem os comentários e a análise.

3.2.1 A Ação, o Cenário e a Situação Temporal

A sequência de recortes jornalísticos a seguir destaca o cenário que se construiu sobre


o lugar, a zona central da cidade de Manaus, especificamente, ruas, praças, avenidas, prédios
públicos, quadras, sobre as diversas atividades que eram desenvolvidas no período, além da
opinião das reportagens e descrição dos movimentos dos principais agentes estratégicos. O
cenário da Praça da Matriz, em 1989, é visto pela perspectiva de um grande centro comercial
dos mais variados produtos, principalmente comestíveis, segundo a reportagem. O que indica
que a venda e manipulação de diversas comidas como cachorro-quente, esfirra, bolo,
verduras, frutas, pastel, é a atividade ocupacional e econômica em destaque na área. A
narrativa afirma que os “ambulantes” vêm dos bairros mais distantes da cidade – como São
José I. Além de indicar a presença de crianças que trabalham no lugar engraxando sapatos,
vendendo batata frita e picolé. A intensidade na Praça se dá pelo encontro de transeuntes
e os diversos serviços tradicionais vigentes à época como fotógrafos, mensagens de som
com chamada de emprego, anúncio de compra, vendas e trocas diversas, anúncio de utilidade
pública documentos perdidos, doação de sangue, etc. (PEDROSO, 1989, p. 1). Outra
reportagem enfatiza a crescente diversificação no chamado “comércio ambulante”, onde se
podem encontrar mercadorias que vão desde bijuterias às frutas. Acrescentando que estes
preferem vender qualquer tipo de produto a trabalhar em qualquer setor. A narrativa destaca a
fala de um “camelô”que afirma que quando trabalhava na construção civil só recebia para
comprar “fiado” (palavra que significa a venda a prazo) na taberna. Apresenta dois elementos
do cotidiano da zona central que é o fluxo elevado de pessoas que se dirigem ao centro e a
reclamação dos populares sobre o congestionamento das calçadas devido ao numero crescente
de “camelôs”. Entretanto, relaciona este mercado com a venda de produtos a baixo custo e por
isso mais atrativo (O CENTRO, 1989, p.1). Em outro momento uma reportagem destaca a
ação do executivo municipal retirando vendedores de peixe, frutas e verduras e a notificação
para desocuparem totalmente as calçadas do entorno da Praça da Matriz. “São 24h para a
152

desocupação”, de acordo com a Secretaria de Municipal da Agricultura e Abastecimento –


Semab em conjunto com a Secretaria Municipal de Saúde, a Urbam e o Sindicato dos
Feirantes (PRAZO, 1989, p.1).
Não se deve desconsiderar que a construção social deste mercado na via pública do
centro tem forte relação com a origem ribeirinha desses camelôs, mesmo que essa afirmação
não possa ser universalizada, a migração do interior do estado para a capital foi intensa no
período. Mas, é exatamente essa mudança cultural e geográfica que incide diretamente no
quantitativo maior de produtos alimentícios agrícolas e básicos, não porque fossem
produtores, mas porque o acesso a estes produtos era mais de menor custo e mais fácil. Se
comparados aos dias atuais, o mercado da via pública do centro está mais direcionado às
mercadorias de eletroeletrônicos, importados e peças de vestuário de mercados nacionais. É
aqui que o ajustamento dos condicionantes culturais e econômicos pode ser percebido, quando
a diversificação de mercadorias da Zona Franca começa a avançar nas vias públicas de modo
mais intenso e os serviços e comércio de alimentação in natura começa a ser fiscalizado por
agentes da secretaria municipal de saúde. A conduta do “camelô”, o seu trabalho e negócio
começam a ser questionada, de um lado, pelas condições adequadas de salubridade, de outro
lado, pelas condições de sonegação fiscal e de taxação das mercadorias vendidas em via
pública. Já nesse período percebe-se, pelos diários consultados, que o controle social da
atividade ocupacional e econômica é requerido pelo poder público e por entidades de classe,
que a exigência e pressão por padrões normativos e organizacionais para o exercício da
atividade passam a ser observados e a expectativa de uma conduta adequada aos padrões
mínimos do cenário urbano, enfatiza que tal ação econômica de exceção precisa ter limite e
ser reduzida. Contudo, não é nesse período que a passagem para um projeto de
“formalização” e mudança na adequação das normas institucionais terá seu objetivo alcançado
e concluído.
Em sua dinâmica de ocupação e uso do centro da cidade, as unidades mercantis de
“camelôs” e “ambulantes”, na Praça da Matriz e adjacências em Manaus, inserem-se de forma
marcante na paisagem urbana. Um comércio que atua na venda de alimentos de variados tipos
seja este preparado na hora, semipronto ou in natura. No mesmo período em que o projeto
Zona Franca de Manaus encontra-se em plena expansão econômica, o percurso cotidiano dos
“camelôs” é dos bairros mais distantes para o centro da cidade. Ao contrário de hoje, que
praticamente cem por cento dos instalados no CPC moram nos bairros mais próximos do
centro. A comercialização de mercadorias típicas da cesta básica como sabão, creme dental,
papel higiênico, arroz era realizada por essas unidades de vendas improvisadas em mesas ou
153

caixotes, o que raramente acontece nos dias atuais na zona central quanto ao tipo de
mercadoria comercializada. O dito popular de que “camelô” vende a preço menor suas
mercadorias era um trunfo fundamental para manter uma atração de consumidores naquele
período. Os noticiosos descrevem um cenário sustentado não apenas pela taxa de desemprego
em uma população economicamente ativa em expansão, assim como pela oportunidade de
renda e sustento familiar melhor em comparação aos ganhos gerados pelo emprego formal.
Nesse período, as articulações entre as secretarias e os órgãos públicos municipais
articulavam formas de enfrentamento à expansão do trabalho e do negócio em via pública,
entre elas a Secretaria de Municipal da Agricultura e Abastecimento, a Secretaria Municipal
de Saúde e o órgão sempre presente nesse processo, a Urbam.

3.2.2 Sobre uma “Solução” Possível para o Trabalho e Negócio, fora da Via Pública e da
Zona Central

As narrativas jornalísticas a seguir capturam o cenário dos planos iniciais de


normatização da área e de retirada de “ambulantes”, de parte dos planos de intervenção do
executivo municipal nesse período e, ainda, a demonstração de um quadro de vocabulário
moral e de hierarquização para as ocupações no lugar. A ação governamental aparenta não
desistir de ordenar a cidade, a área do centro, e realizar o ajustamento das condutas e
atividades em via pública.

Artur Neto: “Estamos fazendo tudo que é possível. No caso dos vendedores ambulantes e
camelôs sem violência pancadaria, ou outro tratamento que não seja digno ao ser
humano, vamos disciplinar o setor”. Na rua Marechal Deodoro foi implantado a primeira
experiência do Projeto Faixa Verde para Pedestres, pela Urbam. Houve apoio da
Associação dos Vendedores Ambulantes (Flavio Augusto) e o Sindicato dos Feirantes
(Francisco Borges). O projeto tem como objetivo: proteger os usuários das vias públicas
centrais das inconveniências causadas pelas desordenadas vendas ambulantes, pela
poluição de resíduos sólidos, sonora e visual. [...] A primeira ideia é adaptar as praças
Tenreiro Aranha e Praça dos Remédios e rua Marquês de Santa Cruz de forma que
elas sejam preservadas para a colocação dos camelôs (ARTUR ANUNCIA, 1989, p.2,
grifos nossos).

O camelô “invasor” aquele que está se fixando agora nas ruas do centro comercial
começa a ser retirado amanhã de seus locais, com a deflagração da “operação camelô”
desenvolvida pela Prefeitura e mobiliza neste sentido a Empresa Municipal de Urbanização,
a Secretaria de Saúde, a Secretaria do Meio Ambiente, Secretaria de Abastecimento e a de
Limpeza Pública e a Guarda Municipal, tem a recomendação do prefeito Artur Neto de
evitar o uso de violência. A explosão de um botijão de gás utilizado por um vendedor de
batata frita antecipou o início da blitz. [...] O próprio Sindicato indicará os invasores, disse
Flavio Augusto, afirmando que os vendedores já estão avisados. “Só ficarão os associados e
os autorizados”, alertou. Informando que existem nessa situação 2.500 camelôs em média
quando se calcula que o centro comercial está tomado por 5.000 ambulantes. [...]O
154

Sindicato propôs à Prefeitura a transformação de vendedores ambulantes em


microcomerciantes e a criação da feira ambulante nos mais diversos bairros de
Manaus.[...] A operação vai envolver a Praça da Matriz, av. Eduardo Ribeiro e Sete de
Setembro, ruas Guilherme Moreira, Marcílio Dias, Dr. Moreira, Marquês de Santa
Cruz, Henrique Martins, Barroso e a Praça Tenreiro Aranha (PREFEITURA
DECLARA, 1989, p.1, grifos nossos).

Entre as diversas tentativas de institucionalizar a organização coletiva de “camelôs” e


“ambulantes” encontra-se o Núcleo de Vendedores Ambulantes e a Associação dos Camelôs e
Vendedores Ambulantes (Acava), esta perdurou por longo prazo e atuou praticamente em
todas as situações de mediação com a prefeitura no período. Algumas praças na zona central
foram cogitadas para se tornarem um lugar viável de instalação de camelódromo e
organização do ajuntamento, uma ideia normalmente encabeçada por uma das
representatividades do coletivo. A ideia de diferenciação e hierarquia já estava no vocabulário
de motivos para estabelecer uma diferença (não tanto clara) entre o “camelô”, visto como o
verdadeiro trabalhador incorporado ao comércio da cidade e, o seu oposto, o “invasor”,
rotulado de oportunista, aproveitador e aventureiro. Na virada do ano de 1989 teve início uma
série de medidas de ordenamento do centro da cidade e da proposta de combate ao trabalho e
negócio em via pública. Uma das primeiras medidas do executivo municipal de maior
impacto foi chamada de Operação Camelô e mobilizou uma campanha e atuação conjunta
entre Empresa Municipal de Urbanização (Urbam), a Secretaria Municipal de Saúde, a
Secretaria Municipal do Meio Ambiente, a Secretaria Municipal de Abastecimento e a de
Limpeza Pública e a Guarda Municipal. Evitar o uso de violência era uma das recomendações
do executivo. Os jornais destacam pela fala de um dos representantes do coletivo, um número
aproximado de 2.500 camelôs em média quando se calcula a presença no centro comercial da
cidade. Nesse período é sugerida a mudança na categorização dos vendedores ambulantes
para micro comerciante e a criação das feiras de “ambulantes” nos mais diversos bairros de
Manaus.

3.2.3 Em 1990, a Crise na Zona Franca Comercial e a Estratégia Combinada entre os


Lojistas e a Prefeitura de Manaus

Os recortes desta vez apresentam a cooperação entre os empresários lojistas e o


executivo municipal com o objetivo de tentar um projeto político e econômico contra a crise
que se avizinha para este seguimento da zona franca, especificamente aqueles que se
155

localizam na zona central. Por outro lado, se tornam mais intensas as tentativas de controle e a
imposição de “ordem” para as atividades em via pública.

A Prefeitura de Manaus e os empresários do setor lojista resolveram unir forças para


tentar resolver o problema do centro comercial de Manaus.[...] A criação dessa
Comissão foi anunciada ontem em uma reunião entre a Secretaria Municipal de
Obras (Semob), Empresa Municipal de Urbanização (Urbam), CDL-Manaus,
Associação dos Importadores, a Secretaria Municipal de Turismo, Sindicato dos
Vendedores Ambulantes, Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, Sindicato dos
Hoteleiros e Federação das Indústrias. Seria a continuação do Projeto Faixa Verde
que já existe hoje é o primeiro passo para outro projeto “Shopping a Céu
Aberto”, explicou o Secretário Julio Verne.[...] Os próprios empresários vão
decidir com a participação da Prefeitura em que local será empregado o
investimento para recuperar o centro. [...] A Secretaria advertiu que o fato dos
empresários entenderem a situação foi o maior mérito da Urbam e do CDL. “Se os
lojistas continuassem como estão hoje iriam continuar perdendo terreno, as vendas
iriam cair mais ainda quando fosse inaugurado o Shopping da Djalma Batista
[...]”. (LOJISTAS, 1990, p.1, grifos nossos).

Visando encontrar soluções para a ocupação racional do centro comercial da Zona


Franca, a Prefeitura inaugurou ontem uma nova política na administração
pública, a cogestão entre o governo e o empresariado para equacionar os
problemas e buscarem soluções urgentemente necessárias para dar a área
central da cidade uma conformação mais adequada ao surto de desenvolvimento
experimentado nos últimos anos. Para este objetivo ser alcançado o mais
rapidamente possível, o prefeito Artur Virgílio Neto instalou ontem o Conselho de
Gestão do Centro Comercial da Zona Franca de Manaus, criado pelo decreto
6.813/89 do executivo municipal. Ao abrir a solenidade o prefeito agradeceu a
sensibilidade dos representantes empresariais que através de suas entidades se
uniram para dar uma nova feição ao centro da cidade. O Conselho, conforme
explicou o próprio prefeito, é formado por representantes do conselho dos Diretores
Lojista, Associação dos Importadores da Zona Franca, Associação Comercial do
Amazonas, Associação dos Gerentes de Banco, Associação Brasileira dos Agentes
de Viagem, Empresa Municipal de Urbanização, Federação do Comércio do Estado,
Sindicato dos Vendedores Ambulantes. [...] O centro comercial ficou delimitado na
poligonal formada pelas av. Eduardo Ribeiro e av. Sete de Setembro, Praça
Heliodoro Balbi, pela rua Dr. Moreira e rua Theodoreto Souto, pela Praça Tenreiro
Aranha e a rua Marquês de Santa Cruz. (CONSELHO, 1990, p.2, grifos nossos).

Segundo a publicação de 5 de janeiro de 1990, no início a prioridade da retirada seria


o conjunto de vendedores de alimentos, seja em carro-lanche até chegar ao camelô da calçada.
A reportagem narra a destruição de dois carros-lanches, pois, nas palavras do chefe de
Assistência Militar da Prefeitura à época, o capitão Luismar Bonates, a resistência por parte
dos proprietários que não estavam dispostos a obedecer a ordem de retirada (apontados como
não-permissionários, segundo a narrativa) foi o principal motivador do conflito. Esse tipo de
fiscalização e aplicação de força era autorizado pela vigilância sanitária e fundamentado por
decretos que proibiam a venda de alimentos e sua comercialização no Centro de Manaus,
deixando apenas determinados vendedores tradicionais de comida regional como, por
156

exemplo, vendas de tacacá. Em outro momento, a entrevista concedida pelo novo Secretário
Municipal de Saúde, Evandro Melo, evidencia o alcance da ação governamental: “[...] a
intenção da Prefeitura inicialmente é retirar os vendedores de alimentos, partindo depois para
os boxes e os outros tipos de venda ambulante do centro da cidade” (CAMELÔS EM
TEMPO, 1990, p. 1; ARTUR DÁ PRAZO, 1990, p.1).
A instalação do chamado Projeto Faixa Verde tinha entre outros objetivos a proteção
do usuário das vias públicas contra “as inconveniências” causadas: a) pela desordenada venda
de ambulantes; b) pela produção de resíduos sólidos; c) pela poluição sonora. Tinha como
efeito impor determinada fronteira às atividades de “camelôs” e “ambulantes”, a partir da
prática de fiscalização e da aplicação de duas faixas laterais pintadas na calçada, na colocação
de placas de sinalização e orientação a respeito das proibições. Tais proibições, como a venda
ambulante de qualquer natureza, utilização de propaganda sonora, colocação de mostruários
de mercadorias na parte externa da loja, entre outras (PROJETO, 1989, p. 3; PREFEITURA
CRIA, 1989, p. 3; CDL, 1989, p. 2.). Neste caso, salienta-se, na notícia, como o ajuntamento
de “camelôs” e “ambulantes” era vinculado aos termos perigoso, negativo e barreira para os
transeuntes do centro, de acordo com o poder público e outros setores.
À medida que este projeto avança, outra proposta é levantada em questão e prometida
para setembro daquele ano, o Projeto Shopping a Céu Aberto, como ação articulada ao Projeto
Faixa Verde. O primeiro era direcionado para os empresários importadores da Zona Franca
que, em sua maioria, tinham lojas na área central. Nessa dinâmica, para impor um controle na
zona central e administrar uma situação específica dos importadores da Zona Franca, o
executivo adota uma estratégia não tão inusitada, do Estado monopolista, algo comum na
história econômica das sociedades capitalistas e ocidentais com a combinação entre a ação
governamental e o empreendimento privado. Em Manaus, significou a combinação de
interesses e forças entre o executivo municipal e um setor do empresariado local, ligados a
Zona Franca Comercial, especificamente localizado no centro da cidade.
Por conseguinte, no início de 1990, foi anunciada em uma reunião entre a Secretaria
Municipal de Obras (Semob), a Empresa Municipal de Urbanização (Urbam), a CDL-
Manaus, a Associação dos Importadores, a Secretaria Municipal de Turismo, o Sindicato dos
Vendedores Ambulantes, o Sindicato dos Trabalhadores do Comércio, o Sindicato dos
Hoteleiros e a Federação das Indústrias, a fim de propor a criação de uma comissão especial
para dar “corpo” e “execução” ao projeto público-privado. Por em movimento a sequência do
Projeto Faixa Verde em combinação com o projeto Shopping a Céu Aberto por meio da
instalação de uma Comissão de Cogestão. Tal iniciativa mantinha um caráter público-privado
157

e foi apresentada pelas classes envolvidas como uma nova política na administração pública,
representada pela cogestão entre o governo municipal e o empresariado local, na tentativa de
solucionar os diversos problemas encontrados na área do centro de Manaus. Foi instalado,
então, o “Conselho de Gestão do Centro Comercial da Zona Franca de Manaus” criado pelo
Decreto n.º 6.813/89 do executivo municipal.

3.2.4 A ação governamental, o confronto e a reação de “camelôs” e “ambulantes”

Na sequência de recortes o objetivo principal é apresentar a situação marcante na


construção da experiência do lugar e da memória coletiva dos que vivenciaram um tempo de
intenso confronto e conformação da zona central em espaço proibido para o trabalho e
negócio em via pública. A reportagem abaixo introduz o período de “clima” mais tenso e que
desenhava um possível confronto entre os “camelôs” e os agentes públicos municipais.

Os camelôs do Centro protestam contra a mudança de local do trabalho,


principalmente das ruas Quintino Bocaiúva e Theodoreto Souto. Segundo eles terão
prejuízo em suas vendas, pois nessas áreas conseguem fazer boas vendas enquanto
que em outras áreas não conseguem sequer sustentar suas famílias. De acordo com
D. Maria dos Anjos Alves, 5 filhos, mais de 15 anos como ambulante, diz que já
percorreu em [sic] várias vias do centro da cidade, vendendo peças de vestuário
adulto e infantil, mas nenhuma é tão boa de comércio como a rua Quintino
Bocaiúva, próxima a Lobrás e rua Theodoreto Souto, próxima dos Correios. “Já
experimentei de tudo no ramo de venda, mas nunca tive tanto lucro quanto
agora! Acho que o Prefeito deve deixar a gente aqui até ao menos no final do
ano e daí cada um dá o seu jeito”. [...] “Aqui tem perto de 4.000 pessoas que
conseguem o sustento de seus filhos. Como vamos fazer se nos transferirem
para outra áreas?” Os camelôs insistem que mesmo trabalhando no “bazar
pescoço” onde suas mercadorias são vendidas em tabuleiros amarrados no pescoço
nas áreas centrais de maior movimento, tem mais aceitação do que irem para áreas
de pouco movimento ou nos bairros (CAMELÔS NÃO, 1989, p.1, grifos nossos)

[...] Apesar da disposição de afastar os vendedores das ruas centrais, a prefeitura tem
recomendação expressa do prefeito Artur Neto, deverá evitar ao máximo o uso de
violência. Artur deseja que toda a operação se desenvolva sem violência alguma
contra os camelôs em quem o prefeito reconhece a necessidade de trabalhar, mas
sem causar problemas para as outras pessoas. “Vamos usar rigor nunca a
violência, no meu governo não se usa a polícia contra o povo”, diz o prefeito.
Nem só vendedores ambulantes serão alvos dessa operação da Prefeitura. Muitos
comerciantes que utilizam as calçadas para expor as mercadorias em tabuleiros e
vitrinas serão obrigados a recolher os objetos para o interior do salão de vendas. A
operação vai envolver a Praça da Matriz, av. Eduardo Ribeiro e Sete de
Setembro, ruas Guilherme Moreira, Marcílio Dias, Dr. Moreira, Marquês de
Santa Cruz, Henrique Martins, Barroso e a Praça Tenreiro Aranha
(PREFEITURA DECLARA, 1989, p.1, grifos nossos).
158

As discussões sobre o espaço que era ocupado pelos “camelôs” nas vias públicas se
tornara um tema recorrente nos meios de comunicação e a intervenção da prefeitura em
novembro e durante o período de festas no final do ano, devido ao aumento dos chamados
“invasores”, era proporcional ao aumento do fluxo de compras nas ruas do centro. O sentido
de oportunidade podia ser percebido pela relação de mão dupla para os que participavam
desse encontro comercial e social. É até mesmo importante, e não menos curioso, observar
que mesmo como passar das décadas os lugares, quadrantes e limites da intervenção
municipal são muito parecidos, com pouca diferença localizacional entre as duas ações
governamentais, do passado e a mais recente. Na medida em que tais lugares representam
uma experiência socialmente construída, um tipo de memória coletiva de camadas populares
em suas atividades econômicas e ocupação regular das vias públicas, bem determinadas e de
limites definidos. O temor com o prejuízo e a quebra da rotina transparece no testemunho do
entrevistado pela reportagem, caso a retirada acontecesse. Essas “commodities” de
localização eram rentáveis e representavam boas vendas, enquanto que em outras áreas não
conseguiriam sequer sustentar suas famílias, nas chamadas “ruas mortas” (conforme o termo
nativo).
Abaixo, apresenta-se um recorte mais longo de uma matéria jornalística, sem dúvida,
uma leitura mais exaustiva. No entanto, como recorte de uma situação temporal descreve o
cenário de violência, de enfrentamento direto entre agentes públicos e “camelôs”. Na intenção
de recolher as narrativas do momento, a reportagem passa a impressão ao leitor da situação de
conflito, dos posicionamentos assumidos e que marcaram a experiência do lugar e dos atores
em confronto. Neste sentido, se pretende apresentar um cenário, mesmo que instantâneo, do
regime de controle social do espaço urbano, do tratamento do governo sobre o chamado
problema do trabalho e do negócio em via pública e sua tentativa de solução e,
consequentemente, a reação de “camelôs” e “ambulantes” durante as semanas seguintes.

A reação violenta dos camelôs com algumas prisões e o vidro da janela do prédio da
Prefeitura quebrado. Este foi o resultado ontem pela manhã de uma blitz realizada no
centro da cidade pela equipe de fiscalização da Prefeitura, que de surpresa cumpriu o
ultimato de retirar definitivamente os camelôs de venda de lanches e frutas
espalhados pelas calçadas da Praça da Matriz, av. Eduardo Ribeiro e av. Sete de
Setembro. Armados de cassetetes cerca de 200 homens das equipes de fiscalização
e da Guarda Municipal recolheram num caminhão caçamba dezenas de carrinhos
de frutas, refrigerantes, cachorros-quentes e outros tipos de comidas caseiras. Das
mãos dos “rapas” só escaparam os vendedores de comidas típicas da região que tem
autorização da Prefeitura para praticarem livremente suas atividades. Ainda
inconformados com o policiamento ostensivo sobre o comércio de comida, os
vendedores promoveram um grande tumulto no centro da cidade enquanto eram
abordados pelos guardas. Não houve acordo e nem perdão. Ontem acabou o prazo
para a retirada espontânea dos carrinhos de lanche e frutas, mas como o
159

departamento de fiscalização verificou que não foi cumprida a ordem, articulou


uma blitz rigorosa e tiveram que retirar a [sic] força os camelôs das calçadas.
Para garantir o sucesso da operação a equipe de fiscais contou até com a colaboração
dos garis da Prefeitura que não se intimidaram diante da ameaça de quebra-quebra
no meio da rua. O Sindicato dos Vendedores Ambulantes de Manaus deu total
apoio à blitz da fiscalização pública e o presidente da entidade Flavio Augusto, em
meio a [sic] confusão, afirmou que há mais de uma ano tem advertido aos camelôs
quanto a proibição de venda de alimentos por decreto da Lei Orgânica do Município.
Segundo Flavio Augusto são cerca de 40 vendedores clandestinos que causam
problema à saúde pública e aos 2.000 associados do Sindicato, os quais tem
autorização para trabalharem em suas barracas de comida típicas e de outros tipos de
mercadorias. “Eu avisei que a blitz seria contínua e não estou surpreso com o ‘rapa’
de hoje”, disse o presidente do Sindicato. Com a sua manifestação de apoio aos
fiscais da Prefeitura, Flavio Augusto desagradou aos companheiros do Sindicato que
não perderam tempo e mesmo no tumulto entre camelôs e guardas fizeram duras
críticas ao comportamento do presidente do Sindicato. “Ele está indo de encontro
aos interesses dos associados, os camelôs estão sendo tratados com violência”,
reclamou Julio César, secretário do Sindicato, a quem os 2.000 associados pagam
mensalmente a importância de Cr$ 400,00 pelo cadastramento. Julio Cesar tentou
intervir junto ao sargento da Polícia Militar do posto policial da Praça da Matriz em
favor de um camelô preso por agredir a pedradas um dos policiais de serviço. O
sargento Santos não liberou o camelô e afirmou que a situação estava devidamente
controlada através de reforço policial (OPERAÇÃO, 1990, p.3, grifos nossos).

A reportagem narra que no mesmo dia ocorreu uma reação violenta que terminou na
praça D. Pedro II, em frente ao prédio onde funcionava a prefeitura. A ordem de limpeza do
centro da cidade dava o norte do discurso do executivo. Não apenas os ânimos se exaltavam,
com a presença do “rapa” (rotulação da guarda municipal), mas pelos empurrões ou
afastamento do lugar à força, igualmente em relação aos objetos de trabalho que iam sendo
recolhidos ao longo do caminho. Vários agentes de outros setores e esfera de atuação do setor
público eram chamados para apoiar a tomada de decisão do governo municipal. Alguns
“camelôs” acusavam os guardas de furto de mercadorias o que estimulou a reação do
ajuntamento contra a blitz, na tentativa de reaver carrinhos de comida e bancas. A narrativa
jornalística segue dizendo que, enquanto dezenas de camelôs e populares jogavam pedras e
frutas podres nos guarda, a Guarda Municipal revidava dando tiros para o alto. Por fim, o
prédio da Prefeitura acabou virando o alvo dos manifestantes, que atiraram pedras contra as
janelas e inconformados negaram-se a aceitar as explicações do prefeito Artur Neto. Os
termos utilizados como limpeza, ordem e sonegação se inscrevem como justificativas
legitimas para a “Operação”.

Se não estiver noutra ocasião de surpresa os fiscais arrastarão nos caminhões


caçamba todos os carrinhos de lanches e frutas que encontrem nas calçadas do
centro comercial de Manaus. “A Prefeitura não vai entrar em confronto com os
camelôs, mas está decidida a retirá-los do centro da cidade e manter a ordem a
qualquer preço”. [...] O prefeito disse que a decisão é retirar os camelôs do centro e
160

que para isso contará com a ajuda da Secretaria de Fazenda do Estado, já que a
venda ambulante implica em sonegação de impostos. “Estou sendo cobrado”,
revelou o prefeito. O prefeito disse ainda que serão estudadas alternativas para a
criação de locais específicos para os camelôs, mas assegurou que esses locais não
serão no centro da cidade. “Preciso limpar o centro e acabar com a sonegação.
Não dá mais para continuar assim” (OPERAÇÃO, 1990, p.3, grifos nossos).

Nas semanas que se seguiram, pouco a pouco um movimento de retorno acionava


táticas para burlar ou envolver a fiscalização municipal. A prefeitura também criou grupos de
fiscais diferenciados da guarda municipal a fim de barrar mais prontamente o retorno dos
“camelôs” e “ambulantes” que haviam sido retirados. Cada um tenta ao seu modo encontrar
uma brecha para continuar vendendo. Nesse período, todos estavam sob a onda de proibição e
forte aparato policial. Porém, a conduta não é tão solitária e individualizada, também é efeito
da interação entre os desviantes ao compartilharem maneiras de minimizar o risco, pela
relação com alguns lojistas que precisam da distribuição de seus produtos e ainda pelo ritmo
vacilante dos momentos de fiscalização. Chama atenção o vocabulário de motivos de
“camelôs”, que retornam de modo escamoteado, sobre os termos que chamam atenção para a
assimetria de forças (injustiça), da necessidade de sobrevivência diária (vender suas
mercadorias), das formas de resistência ao longo do tempo (comparação com as tentativas
anteriores), do fluxo intenso e sazonal no lugar (época natalina no centro).

Bastou a fiscalização relaxar um pouco para os ambulantes voltarem com força total
para as ruas do centro de Manaus. Desde sexta-feira última os camelôs foram se
instalando em diversos pontos do centro e ontem já haviam tomado todos os espaços
perdidos a cerca de duas semanas. Quando o capitão PM Bonates comandante da
operação de retirada dos camelôs iniciou uma verdadeira limpeza no centro,
todos os ambulantes sem exceção foram obrigados a deixar as calçadas do
centro comercial da cidade. Na ocasião da operação da retirada dos camelôs o
capitão Bonates contou com um efetivo de mais de 300 homens entre policiais
militares, tropa de choque da PM, guarda municipal e até uma tropa montada
da PM. [...] O ambulante Valdir de Souza, 26 anos, afirmou que “o prefeito deve ter
sentido que os camelôs estavam sendo injustiçados. Nós precisamos vender nossos
produtos agora na época do Natal, porque é agora que nós conseguimos juntar um
dinheirinho para passar menos dificuldade. Dando até pra fazer uma festinha”,
desabafa. Mesmo obrigados a sair das ruas pela Prefeitura, alguns ambulantes
disseram que achavam a medida de Artur necessária, mas afirmaram também que
não podiam abandonar as calçadas sem um lugar determinado para comercializar
seus produtos. Raimunda Alves da Silva, 42 anos, trabalha a mais de 5 anos como
camelô e disse que outros prefeitos haviam tentado retirar os vendedores das ruas
sem sucesso, mas o Artur Neto conseguiu expulsar todos os colegas.[...]”
(AMBULANTES, 1990, p. 6, grifos nossos).
161

Todos os recortes jornalísticos apresentados foram extraídos de jornais publicados em


Manaus, as reportagens foram garimpadas nestes de ano a ano e dia a dia, em páginas frágeis
para o manuseio. As matérias sobre o tema quando encontradas eram lidas e gravadas em
áudio integralmente, ouvidos e depois digitados e, finalmente, transferidos como recortes para
compor o texto da tese. Foram utilizados os jornais impressos entre os anos de 1989 e 1990,
ainda em circulação, com algumas informações de janeiro a março de 1991, fechando os
últimos desdobramentos do tema68.
Em resumo, a ação governamental, logo no primeiro ano (1989), começa a desenhar e
dar os primeiros passos para uma “solução” do adensamento de “camelôs” e “ambulantes” no
centro de Manaus. O prefeito chama sua gestão de Prefeitura Popular de Manaus e sustenta o
discurso da não violência em todos os encontros realizados com os “camelôs”, mas também
sustenta fortemente que será necessário retirá-los das vias públicas da zona central.
No cenário político-econômico mais ampliado da cidade, este foi um ano marcado por
greves gerais, paralisações dos trabalhadores do Distrito Industrial, passeatas e piquetes,
discussões e impasses entre a câmara e o executivo sobre o piso dos professores municipais,
greve dos professores municipais e estaduais, o aumento persistente da passagem de ônibus e
a greve dos motoristas e cobradores do transporte público, o litígio entre a prefeitura e a
Portobrás e a situação preocupante do aumento de menores em situação de rua. Um ano de
ocupações de terras que resultaram em alguns bairros na zona leste da cidade como o Zumbi e
o Tancredo Neves.
Em 1989, Artur Virgílio Neto assume o executivo municipal pela legenda do Partido
Socialista Brasileiro (PSB) em uma coligação com o Partido Comunista do Brasil (PCdoB).
Artur Virgílio Neto, nesse período, foi um dos fundadores do Partido da Social Democracia
Brasileira (PSDB). Posteriormente, a coligação que o elegeu foi rompida no primeiro ano de
sua gestão, deixa o PSB e durante o segundo semestre de 1989, o prefeito se filia
definitivamente ao PSDB e não faz campanha para o candidato Lula da Silva do PT. Enfim,
declara seu apoio e sobe no palanque em Manaus no comício do candidato Mario Covas do
PSDB. A sequência diária das reportagens mostra que a primeira estratégia de fato no governo
municipal, a respeito da “solução” para os camelôs, acontece com a proposta que o vereador
Mario Frota encaminha na Câmara, na primeira semana de junho. Isto é, a construção de um

68
Os jornais utilizados como fontes da situação temporal eram impressos e estavam organizados na biblioteca
pública central do estado. A maioria dos jornais deste período ainda não foi digitalizada e quase não se pode
manipulá-los adequadamente para uso de pesquisa. O acondicionamento para esse tipo de material pode não ser
o melhor possível. Por isso, as condições de desintegração de alguns estão em início (Jornal Amazonas em
Tempo e Jornal do Commercio), outro já está avançado a deterioração e sem condições de uso (Jornal A Crítica).
162

“camelódromo”, em uma pequena rua chamada Monteiro de Souza, localizada na área


pertencente à Portobras. O projeto abrigaria um quantitativo de quinhentos camelôs que
sairiam da Praça da Matriz e da Avenida Eduardo Ribeiro.
No primeiro momento os “camelôs” se posicionaram contra e juntamente com o
representante do coletivo afirmavam que a transferência representaria prejuízos significativos.
No entanto, a ação mais marcante neste cenário refere-se à decisão da administração do Porto
de Manaus em impetrar um mandato de segurança e uma liminar ao tomar ciência de que a
prefeitura iria pôr em prática o projeto do camelódromo nas imediações do lugar. Assim, a
administração toma uma posição contrária quanto a utilização do perímetro para outros fins
que não o portuário. A prefeitura e a administração do Porto entram em litígio e surgem vários
pontos embaraçosos para o executivo. O fato foi que a Secretária do Patrimônio Histórico e
Geográfico e Artístico Nacional entrou como parte interessada no processo, fortalecendo a
administração do Porto, e solicitou a obstrução do uso da área argumentando que o espaço e a
via em litígio encontravam-se em processo de tombamento69. O impasse se arrasta até
algumas semanas de setembro e, em virtude do processo, a transferência foi suspensa, porém
o executivo continua com a intenção de “reordenar” o centro.
Ao mesmo tempo em que acompanha o desenrolar do litígio, o executivo municipal
sugere outro projeto chamado de Faixa Verde. No final de julho de 1989 e todo mês de agosto
o projeto é implantado e os camelôs são retirados (os vendedores de artesanatos, sandálias,
camisas) da Praça da Polícia (Heliodoro Balbi) e da Rua Marechal Deodoro, que ganham
reforços na fiscalização. Outros prédios públicos como a Biblioteca Pública Central e o
Colégio Estadual D. Pedro II foram alvos da retirada de “camelôs” no redor. A Praça
Heliodoro Balbi e os prédios públicos, biblioteca e escola, têm distância próximas e
localizam-se no trajeto da Avenida Sete de Setembro.
Ao discutir sobre os projetos, o CDL-Manaus (representação da classe lojista)
classifica o ajuntamento de “camelôs” como um problema-chave para qualquer um dos
projetos aplicados (A BLITZ, 1989, p. 11). Ou seja, apoiar as ações governamentais tinha o
sentido de criar e proteger uma “zona nobre” para o comércio de Manaus de modo que os
interesses classistas assegurassem tanto a retirada dos camelôs quanto a implementação de um
tipo exclusivo e determinado de circuito de comércio e de consumidores na área central. Na
medida em que parte dos produtos ofertados pelos lojistas tanto equipamentos

69
Lojistas também foram alertados sobre a proibição em ocupar a via com seus manequins e balcão de venda na
frente do estabelecimento, o que é comum até hoje na rua Marechal Deodoro (ENTREVISTA, 1989, p. 1; O
IMPASSE, 1989, p. 3).
163

eletroeletrônicos produzidos no Distrito Industrial como os importados não eram acessíveis à


maioria daqueles que compravam no circuito de distribuição do ajuntamento. Não significa
dizer que alguns dos lojistas não investissem nesse circuito de distribuição a fim de escoar as
mercadorias de menor valor para certos estratos de consumidores como, por exemplo, alguns
brinquedos ou relógios e rádios de pilha.
A prefeitura implanta o Projeto Faixa Verde e tenta afastar camelôs e ambulantes do
caminho, a área de abrangência era os logradouros públicos da Praça da Matriz, Avenida
Eduardo Ribeiro, Avenida Sete de Setembro, ruas Guilherme Moreira, Marcílio Dias, Dr.
Moreira, Marquês de Santa Cruz, Barroso e Praça Tenreiro Aranha, parte semelhante ao
quadrante de 2014, mas um pouco ampliado. As primeiras blitze e retiradas estavam
focalizadas no grupo de ambulantes que comercializava produtos alimentícios ou produzia
refeições, como frituras e petiscos na via pública. A ação era coordenada pela Secretaria
Municipal de Saúde em combinação com a Urbam, a secretaria de urbanização da cidade de
Manaus. As chamadas blitze eram ações de fiscalização e, posteriormente, de apreensão dos
produtos e do material de produção, como carrinhos-lanche, chapas, grelhas (ENTREVISTA
COM, 1989, p. 1). Mesmo com as blitze direcionadas à produção e ao comércio de
alimentação no decorrer dos meses de novembro e dezembro de 1989, ainda não seriam
retirados todos os “camelôs” e “ambulantes”. Ficando a promessa e seu cumprimento para o
ano seguinte, quando as ações foram expandidas para todos os que trabalhavam e negociavam
em via pública.
Ao longo do primeiro semestre de 1990, aconteceram as fiscalizações localizadas, as
reuniões com a representação do coletivo, pequenos conflitos, mas certa “calmaria” nas ruas
após algumas ações terem sido adiadas. Finalmente, a aprovação da Lei Orgânica do
Município de Manaus (Lomam), fundamenta uma ação com maior objetividade e amplo
alcance dando força ao executivo e demais apoiadores da ação (RETIRADA DE, 1990, p. 3;
CARROS-LANCHE, 1990, p. 7).
Neste sentido, o ano de 1990 pode ser definido como um marco no processo de
regulação e ação governamental sobre o espaço urbano da cidade, especificamente sobre a
área central. A partir da LOMAM de 1990, que estabeleceu um conjunto de regulamentações
fixando novos conceitos e parâmetros para o direcionamento do crescimento urbano da
cidade. Portanto, os limites normativos que regem a ocupação do solo, as atividades
permitidas em via pública e, o mais importante nesse processo de ocupação do espaço
público, o tombamento do perímetro do centro antigo de Manaus, como conceito e limites
164

objetivos (artigo 342), para fins de proteção, acautelamento e programação especial


(VELLOSO, 2002, p.39-41; MANAUS, 2013a, p.9).
Em 1990, a LOMAM70 serviu como um instrumento legal fundamental no
ordenamento requerido para disciplinar a utilização das vias públicas centrais – a respeito do
uso do solo, da legitimação da ação governamental e do planejamento de retirada do trabalho
e negócio em via pública71. A chamada Operação Camelô agia dentro dos limites definidos,
como também no limite sugerido especificamente no Projeto Faixa Verde, fiscalizando,
estabelecendo prazos para a ação definitiva de retirada, apreendendo materiais de produção e
mercadorias, autuando lojas que abrigavam camelôs, cumprindo de forma contundente, nos
meses de novembro e dezembro. As estratégias de resistência contra a fiscalização, correndo
dela, ou escondendo os produtos dentro da mochila, ou disfarçando-se de consumidor na
multidão, cria o clima de disputa e de ocupação dos espaços.

Na expectativa de uma nova operação “retirada” mais forte, para evitar o


apedrejamento da Prefeitura, os vendedores ambulantes de alimentos vão ficar pelo
centro da cidade de olho no “rapa” e na freguesia, enquanto o presidente do
Sindicato de Camelôs, Flavio Augusto, volta a falar num “camelódromo” capaz de
abrigar os mais de 10.000 vendedores ambulantes que estão espalhados na área
comercial. Ao completar 8 dias da retirada dos vendedores ambulantes de alimentos
no centro da cidade, eles retornaram à suas atividades normais, embora admitam que
trabalhem intranquilos de olho no “rapa” e na freguesia. Segundo Hosana Carvalho,
vendedora de salgados e refrigerantes, ela vai continuar vendendo porque é dali que
tira o sustento de sua família. “O jeito é enfrentar os fiscais e salvar o que for
possível”, disse. [...] (CAMELÔS EM, 1990, p.1, grifos nossos).

[...] Especificamente no perímetro compreendido com a poligonal Boulevard Álvaro


Maia, rua Duque de Caxias, rua Luis Antony até a orla do Rio Negro, exceção feita
às vendas típicas de tacacá. [...] O Sindicato dos Camelôs e Vendedores
Ambulantes está apoiando a retirada dos vendedores de alimentos e guloseimas
do centro da cidade. “Tentamos em uma negociação liberar a venda desses
produtos, mas a Lei Orgânica não permite essa atividade no centro da cidade,
assim, como também o próprio estatuto do Sindicato”, destacou ontem o presidente
Flavio da Silva Augusto. [...] Com a crise econômica e a recessão a tendência é
aumentar ainda mais”, admite Flavio Augusto, afirmando que para os vendedores

70
Não se pretende discutir aqui acerca do processo de construção da LOMAM em 1990, ou suas reedições e
ampliações nos anos seguintes, mas seria interessante se estudar no futuro como esse processo produz uma arena
política e a experiência da formação do “problema público”. De todo modo, na utilização prática de objetivar a
instrumentalização do lugar, a Lomam “afirma a necessidade de dotar a cidade de Manaus de instrumentos que
garantam seu crescimento equilibrado, ao estabelecer que o Plano Diretor deva ser elaborado, mantido e
atualizado, com revisões a cada dez anos. É importante destacar, que a Lei Orgânica atribui ao Plano Diretor
Urbano (a temática “mobilidade urbana” foi central no Plano Diretor vigente), a mesma importância dos demais
instrumentos considerados básicos para o planejamento das atividades do Governo Municipal, como o Plano
Plurianual, a Lei de Diretrizes Orçamentárias e o Orçamento Anual” (VELLOSO, 2002).
71
Tombamento Municipal: pela Lei Orgânica do Município de Manaus – “Art. 342. Fica tombado, para fins de
proteção, acautelamento e programação especial, a partir da data da promulgação desta Lei, o Centro Antigo da
cidade, compreendido entre a Rua Leonardo Malcher e a orla fluvial, limitado esse espaço, à direita, pelo igarapé
de São Raimundo e, à esquerda, pelo igarapé de Educandos, tendo como referência a Ponte Benjamin Constant
(Loman)” (MANAUS, 2013a, p. 9).
165

ambulantes a sobrevivência está acima de tudo”. (CAMELÔS EM, 1990, p. 1, grifos


nossos).

A outra forma de determinar a ocupação do espaço público e direcionar camelôs e


ambulantes para fora dos limites da zona central passou não somente pelo ordenamento legal
ou pelas disputas de justificativas, bem como pela tentativa de uma organização de gestão
público-privada, chamada de Conselho de Administração do Centro. A tentativa de
combinação entre o interesse dos lojistas da Zona Franca Comercial e as ações
governamentais aparece como objeto principal da proposta de estreitamento de laços entre
CDL-Manaus e a Urbam (CDL, 1989, p. 2).72 Se não foi bem-sucedida na efetividade da
implementação de suas ações e na sua existência de longo prazo, a proposta foi capaz de
evidenciar um tipo de processo de maximização de solidariedade entre agentes, em tese, com
interesses distintos, para fazerem frente a algo que ambos se posicionavam favoráveis, o
ordenamento da zona central. Seu efeito de privilegiar uma atividade empresarial específica
pode ser visto como arbitrário. Simultaneamente desenhava um projeto para atrair certa
demanda de consumidores com maior poder de renda, desdobrando-se na configuração de um
tipo de espaço urbano considerado adequado pelo executivo municipal, ou seja, sem
“camelôs”.
Por outro lado, o disciplinamento da ocupação do espaço, do ponto de vista da
dinâmica de consumo mais popular, da camada com menor poder aquisitivo, teve como efeito
prático a manutenção de uma distância legal entre a zona comercial mais nobre/central e a
zona comercial mais plebeia/periférica, empurrando esta cada vez mais para as margens do
centro, com a intenção de pressionar camelôs e ambulantes a se retirarem desse perímetro. As
reuniões que marcam a formação do Conselho e aquelas que marcam a Operação Camelô são
em certo momento diametralmente opostas e excludentes. Uma afirmando com o executivo
municipal a “parceria” e objetivo comum, enquanto a outra combinava a forma e o prazo da
retirada, fundamentada na lei e nos decretos de uso do solo e nas fiscalizações rigorosas sobre
o trabalho e o negócio em via pública. Neste aspecto, o trecho da reportagem evidencia a
tendência do projeto.

72
A Urbam (pertencia ao quadro da administração indireta do executivo municipal) foi extinta pelo Decreto nº.
6.744, de 14 de abril de 2003, suas atribuições e competências são desenvolvidas atualmente pelo Implurb
vinculado à Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano. A extinta Urbam teve um papel determinante
nessa performance temporal, pelas fiscalizações das vias públicas, discussões e determinação do perímetro da
zona central e do centro antigo.
166

Aqui é uma parte diferente do Projeto. A Prefeitura não está propondo que os
lojistas arrecadem o dinheiro e nos entregue para decidir o que fazer, não. Os
próprios empresários vão decidir com a participação da Prefeitura em que
local será empregado o investimento para recuperar o centro. Durante o início
das obras, de acordo com o programa traçado pela Comissão, os camelôs vão ser
retirados do centro e após a conclusão dos trabalhos só retornarão os que estiverem
cadastrados, com isso ficará de fora somente quem não for camelô, garantiu Julio
Verne. A Secretaria advertiu que o fato dos empresários entenderem a situação foi o
maior mérito da Urbam e do CDL. “Se os lojistas continuassem como estão hoje
iriam continuar perdendo terreno, as vendas iriam cair mais ainda quando fosse
inaugurado o Shopping da Djalma Batista. Com certeza as lojas do centro
iriam ficar à míngua, pois no shopping os turistas e os consumidores em geral
terão conforto, tranquilidade, segurança e higiene. O que não acontece hoje no
centro. (LOJISTAS, 1990, p.1, grifos nossos).

Como visto, em novembro de 1990, houve o apedrejamento do prédio da prefeitura,


(embora hoje seja um centro cultural e museu, enquanto a administração pública municipal
mudou-se para outro bairro de Manaus), como também uma série de enfrentamentos ao longo
das semanas. A ordem de retirada promoveu um confronto marcante no centro da cidade entre
“camelôs”, familiares, agentes público e a guarda municipal. Entre janeiro e março de 1991,
as ações de fiscalização e apreensão eram comuns, mas em ritmo menor e evitando maiores
confrontos. As blitze regulares continuavam e contavam com o apoio dos empresários lojistas
às ações do executivo municipal (EMPRESÁRIOS, 1990, p. 9; INDEFINIDA, 1990, p. 2;
REFORMA, 1990, p. 7; CAMELÔS NÃO VOLTAM, 1991, p. 7). Mesmo aqueles “camelôs”
que possuíam a concessão de uso da via pública foram alvos da retirada, pois todas haviam
sido suspensas.
Por outro lado, a prática de trabalhar e de negociar em via pública desenvolve
estratégias de ação mais cautelosas no oferecimento das mercadorias, na exposição sobre a
lona no chão e de se misturar na multidão para resistir e fugir das apreensões, enquanto os
avisos, alertas e códigos cuidavam da aproximação do “rapa”73. Alguns códigos foram criados
entre aqueles que se arriscavam e se encontravam em distância segura, para indicar a chegada
do grupo de fiscais acompanhados da Guarda Municipal. Um desses códigos era a palavra
“chuva”. Isto fazia com que os transeuntes, não sabendo dessa forma de resistência, olhassem
para o céu e percebessem depois os “camelôs” correndo com a gritaria: “Chuva! Chuva!
Chuva!”
A partir de pequenas táticas e subterfúgios, paulatinamente, as vias da zona central
foram sendo retomadas e reorganizadas por “camelôs”, “ambulantes” e “invasores”

73
O “rapa” é a representação da fiscalização dos agentes das secretarias municipais envolvidas, como a de
vigilância sanitária, e propriamente a guarda municipal.
167

(TURISTA, 1990, p. 7; AMBULANTES, 1990, p. 6; PRODUTOS, 1991, p. 1;


CONTINUAM, 1991, p. 9). Eles não foram alocados em nenhum outro lugar durante os
meses finais de 1990 e as mercadorias apreendidas eram doadas para instituições de caridade.
Entretanto, havia a promessa da construção de Núcleos Alternativos de Comércio (NAC) para
abrigá-los nos bairros, porém estes não se concretizaram de fato. Deve-se considerar que,
após as ações de retirada de 1990, a “trégua” foi apenas aparente e controlada. Em 1993, na
gestão de dois anos de Amazonino Mendes (Partido Democrata Cristão - PDC), houve um
credenciamento para o retorno das atividades em via pública (RIBEIRO FILHO, 2004a), a
padronização de bancas de exposição, a obrigação de jalecos e crachás e a criação de um setor
específico de Gerência do Comércio Informal (Gecin), ligado à Sempab, responsável pelos
mercados e feiras da cidade. Nos anos seguintes, os projetos de ordenamento da zona central
sempre retomavam a questão de como “solucionar” o trabalho e negócio em via pública, por
exemplo, no projeto Centro Vivo em 2008 e na intenção de construir um camelódromo, ambos
na gestão do prefeito Serafim Corrêa (PSB/2005-2008); e, a proposta levantada pelo Implurb
e Sempab chamada de Choque de Ordem e a remodelagem do projeto Centro Vivo, na gestão
de Amazonino Mendes (PTB/2009-2012) (SILVA, 2011; OLIVEIRA, 2009).
A seguir, a figura 2 traz a síntese da sequência indicativa de performances da situação
temporal, dos macros planejamentos e das ações principais do executivo municipal ao longo
dos anos de 1989, 1990 e primeiro semestre de 1991. Esta sequência configura uma dinâmica
relacional, com conexões e convergência de interesses privados e projetos públicos que vão se
combinado ao longo do processo. Um processo recorrente que pode observado em governos
anteriores, que também reprimiram e forçaram a desocupação das vias públicas. O aparente
interesse em manter uma “paisagem limpa” pode ser associado à intenção de impor limites, de
construir fronteiras invisíveis que preservem e conectem concretamente essa parte da cidade à
memória de certa classe social e seu sentido de ordem. Deixar “limpa” a via pública não no
sentido de esvaziamento total, mas no sentido de um ordenamento de apropriação e
dominação na tentativa de produzir limites à determinada ocupação74, neste lugar específico.
Contudo, em sua consequência nem tanto esperada e sem efeito duradouro, tais
projetos enfrentaram reações diversas, ações de resistências, estratégias de sobrevivência,
como os comportamentos desafiadores, enfrentamento violento e contestações à imposição da

74
Ocupação em sentido duplo e correspondente. De um lado, no sentido de preencher ou encontrar-se em um
ambiente, um lugar; na prática, incorporar o ambiente por meio de situação de interação contínua entre
indivíduos, objetos e ambiente e indivíduos entre si. Por outro lado, no sentido de exercer atividade prática,
organizativa e experimentada, em uma “produção local da ordem”, mesmo por ajustes pontuais (QUÉRÉ, 1998;
2013).
168

normatividade. De fato, a partir das táticas de subterfúgio e do uso da experiência acumulada


na prática cotidiana de “camelôs” é importante encontrar desvios e brechas que possibilitem a
continuidade do trabalho e do negócio em via pública. A interrupção e o deslocamento podem
surtir efeitos apenas aparente.

Figura 2 – Sequência de performances em 1989-1990.

Projeto Faixa Verde

Projeto Shopping a Céu Aberto

Conselho de Administração do Centro

Operação Camelô

Retirada e Fiscalização

Fonte: autoria própria

Ao finalizar esta exposição da situação temporal, transcreve-se, em seguida, parte de


uma entrevista realizada no CPC, narrando uma experiência na qual o entrevistado foi
diretamente atingindo. Sua espontaneidade causou certa surpresa, pois entre as perguntas não
havia nenhuma referência a esta situação temporal. No entanto, ele e outros entrevistados se
reportavam ao assunto, mencionando o modo como a transferência para o CPC e a adesão ao
projeto foi direcionada de forma diferente da ação governamental anterior. Ao expor esta
narrativa procura-se ratificar o argumento sobre a relação entre a experiência individual, a
experiência de um ambiente em particular e a experiência social de um agrupamento como
experiências conectadas e retomadas para em um processo de experiências de ação, tomadas
de decisão e requalificação da própria conduta e planos no presente (QUÉRÉ, 1998, p. 231;
DEWEY, 1938, p. 65).
A escolha recaiu nessa narrativa em virtude da riqueza de detalhes que o entrevistado
foi capaz de lembrar e encadear, de um dia marcado pela quebra da sua rotina de trabalho e
confisco das mercadorias. Este pesquisador estava estreitando a aproximação com os
permissionários no CPC, numa sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015, pela manhã, tentando
agendar contatos futuros. Após passar por um corredor, encontrou dois permissionários,
169

sentados à frente de um box. Entabulou-se uma conversa onde se explicou sobre a pesquisa
em andamento, um deles aceitou participar naquele momento, enquanto o outro optou por
escutar. Em certo ponto do momento de entrevista referente à trajetória de negócio, o
entrevistado balançou a cabeça e narrou a seguinte situação:

[Ele sorri e balança a cabeça negativamente] Eu perdi foi tudo, meu amigo. Naquela
época, perdi foi tudo, tudo, tudo, não era pra mim tá nessa mais não. Era pra mim tá
bem, tá bacana aí, dormi rico e acordei pobre. É [...], rapaz, não tem essa! A pessoa
nem espera, era uma coisa que pega a pessoa despreparado, despreparado [sobre o
dia]. Você mora onde? Aí tua casa, vamo dizer, pegou fogo, queimou-se tudo e aí?
A gente se desespera, não tem como. Só um irresponsável, só um irresponsável, que
ele não valoriza suas coisas [silêncio] Tôte contando que eu tinha uma lojinha, lá na
[Praça] Tenreiro Aranha, bem de canto em frente da [loja] Tropical. Tem esse
negócio não, foi o seguinte, arrancaram tudo, tudo, assim, quebraram uma porta de
alumínio, assim, porta de rolar e tudo. Eu pagava a Urbam [Secretaria de
Planejamento Urbano da década de 90], legalmente, mas os caras tinha uma
violência muito doida [comando da guarda municipal]. Aí, foi dia 3 de dezembro de
1989, dia de segunda-feira, [lhe digo: o senhor recorda bem], Mas rapaz, claro! Eu
não tavano momento, porque trabalhava eu e um irmão meu. Aí ele gostava de
chegar cedo, morava aqui na [rua próxima ao ocorrido] Miranda Leão. Ele chegou
cedo, e aí ligou pra mim, ele me chama de maninho, eu morava na Matinha [bairro
adjacente], ele disse: – “Maninho, vem aqui que a Praça [Tenreiro Aranha] tá toda
cercada por uma corda!” Ficou cercada por uma corda, assim, dois metros da parede.
Uma corda de amarrar motor... Isso aí, laçando a Praça todinha, da corda pra frente
você não podia passar mais, nem pra tirar mais nada, nem documentos. Tinha mais
ou menos, uns dois mil policiais aí ao redor da Praça. Num passava pra tirar nada de
ninguém. Laçaram a Praça todinha com uma corda dessa grossura assim... [faz um
gesto pra demonstrar]. Isso, era só pra não entrar ninguém, eles iam demolir mesmo,
sem você saber [...], você não tava preparado. Tuas coisas tava tudo lá dentro. Se
você soubesse que ia passar por aquilo, tinha se preparado antes. Ninguém foi
avisado! [tom da voz elevada]. Eu trabalhei domingo até 12 horas na minha loja,
quando foi na segunda-feira, de manhã já não podia entrar mais. Sem você saber de
nada. De manhã, ninguém sabia de nada. Como você ia pegar sua mercadoria que
tava toda presa ali dentro. [...] Você não tava esperando, [...] ali dentro tava todo o
seu dinheiro. Todo mundo lá tentou falar, mas não teve negócio. Aí fomos e
arranjamos advogado, oito advogados pra trabalhar junto, só advogado bom. O que
eles iam ganhar pra desenrolar isso aí, dava pra comprar cinco carros zero. Quando
chegaram lá com o desembargador, o desembargador não recebeu. Tivemos que
negociar com o pessoal lá de dentro [não disse quem era o “pessoal lá de dentro”].
[...] Meu amigo, se você chegasse lá, o comandante [da operação] era o Capitão
Bonates, num sei se você se lembra disso, e só tinha coronéis lá. [...] Se você
chegasse lá, não podia falar nada, se falasse já ia preso. Perdeu, perdeu, não tinha
brecha lá, se você falasse alguma coisa metiam um spray de pimenta no meio da tua
cara. [Q5].

Essa narrativa adquiriu um caráter de duplo alerta para o direcionamento da pesquisa.


Primeiro em tomar o devido cuidado sobre a dinâmica dos processos sociais a fim de
identificar os elementos qualificadores da ação em interconexão com a ação situada. O
cuidado de não recortar, isolar e determinar limites rígidos ou aplicar um viés do instantâneo e
do momento isolado à situação observada no CPC. Segundo, um posicionamento na pesquisa
170

que não considera que os processos anteriores podem evocar no agente suas experiências,
interpretações e atribuição de sentido às novas interações e ao ambiente ao qual está se
adaptando, pode levar ao risco de enviesar a ação situada, paralisando-a no “aqui e agora” e
esvaziando as suas relações mais extensas e experiências requalificadoras de ação, os
elementos em interconexão temporal e experiencial, que tendem a demonstrar as “atitudes
similares” tomadas por base do ambiente, da experiência e percepção.
Considerando que o entrevistado e outros permissionários já experimentaram diversas
ações governamentais e, isto não está circunscrito ao âmbito das coincidências, que estas são
situadas no ambiente específico do centro da cidade e, por fim, que a ação governamental
busca novos mecanismos de controle e de ordem moral. Portanto, certa desconfiança, um
baixo engajamento e uma ação de contestação em via pública, mesmo que timidamente
executada, seria possível explicar tomando por base uma retrospectiva da experiência do
lugar, da interdependência entre elementos políticos, culturais e econômicos e os efeitos sob
uma nova situação prática.
Diante do exposto, a compreensão das ações produzidas pelos agentes no campo de
investigação, não deve ser limitada pelo fundamento de análises que tomam o ator no seu
cálculo de racional isoladamente e desassociado de sua cadeia de sentidos atribuídos à dada
ação situada e conectadas com sua experiência anterior, aos sentidos de apreensão, medo ou
crenças. Ainda mais, sem levar em conta as mudanças institucionais, o direcionamento da
ação governamental e a percepção de um vocabulário de motivos indutor de nova conduta
moral. O processo de transferência analisado aqui pode ser diferenciado de outras formas
anteriores de ação governamental e de intervenção urbana pelo seu aspecto de gestão por
objetivo, isto é, um controle gestionário em sua forma de gerenciar, apoderar e determinar
novas competências às camadas populares, aos “pobres viáveis”. Tanto pelo seu caráter de
esvaziamento político por mecanismos de individualização quanto pela proposta “sedutora”
de uma nova ordem de apoderamento legal, pela valorização em assumir riscos pessoais como
consequência das novas responsabilidades e na aquisição de novas habilidades para
determinado ambiente de trabalho e negócio. Por outro lado, na perspectiva de um processo
macro tem a pretensão de atingir partes da estrutura urbana ao fazer da cidade um espaço de
negócios, de empreendimentos competitivos, de segurança e paisagem limpa. Portanto, uma
proposta de gerir a cidade por objetivos do crescimento econômico e do domínio do espaço
urbano por novas atividades econômicas. Mesmo que ainda na zona metropolitana de Manaus
não se apresente as condições de uma concorrência interurbana, por sua dinâmica
concentradora dos projetos e recursos públicos na capital e por estruturas de serviços urbanos
171

precários, há uma tendência pelo discurso modernizador enfatizando uma governança urbana
empreendedora.
Isto, de modo, geral, representa certa transição no âmbito do serviço público, um
redirecionamento, que pretende trazer resultados sobre o desenvolvimento econômico, isto é,
que diz respeito ao tipo de gestão pública que pretende evidenciar uma dinâmica
empreendedora ao invés da administrativa (administrar os recursos e projetos públicos)75
(HARVEY, 2005, p. 165). Uma forte contradição, mas vista como estratégica, entre o
discurso e a experiência diária da ordem da cidade. Além do mais, não se pode negar quando
comparada ao processo de mudança em escala macro e histórica que atravessa a dinâmica da
governança das cidades, países e fronteiras. De um lado, a relação direta entre a formação
histórica dos estados nacionais e a densa rede urbana das cidades capitalistas do Ocidente ou a
criação de defesa marítima para as fronteiras que atuavam para a manutenção do comércio
marítimo, “[...] os interesses, as coalizões e os processos políticos que bloquearam a
construção de grandes Estados territoriais na zona urbana central na Europa” (TILLY, 1986,
p. 303). Por outro lado, não é de todo estranho o papel desempenhado por atos violentos que
cercam a criação das instituições da economia de mercado. A violência que é parte legítima
da ação do Estado ou mesmo outras formas de violência que se associam a este para impor
determinado tipo de ordem, atividade econômica ou dinâmica em sua formação, um tipo de
empreendedorismo violento, segundo Volkov (2002, p. 27).
Nos centros urbanos onde é aplicado o mecanismo de violência física em conjunto
com o sequestro dos objetos do ajuntamento de “camelôs” e “ambulantes” combinam-se,
agora, com os atuais mecanismos institucionais de vigilância e convencimento, de criação de
arranjos entre o poder público e grupos privados e de responsabilização legal personalizada,
além de repertórios de ação que tendem a induzir mudanças pontuais e modelares. Tais
repertórios são maneiras pelas quais os agentes agem politicamente num dado momento
histórico levando-se em conta a articulação com as estruturas culturais, podendo-se apresentar
por ações coletivas e estar à disposição de pessoas comuns. O repertório como um conjunto

75
Não é a intenção da pesquisa colocar em evidência uma discussão das categorias utilizadas por David Harvey
(2002) em sua crítica aos estudos da urbanização e o papel que esta categoria assume na dinâmica social. No
entanto, cabe considerar o argumento que não se deve desvincular a formação de um vocabulário de motivos
com a pretensão de configurar o espaço urbano em torno da justificativa de uma gestão empreendedora, inclusive
aplicando-a na prática como resolução possível da questão da desigualdade social; sem levar em conta, quando
sua a aplicação é descolada dos efeitos e causas reais do processo que tem origem. Nas palavras de Harvey: “O
poder de organizar o espaço se origina em um conjunto complexo de forças mobilizado por diversos agentes
sociais. É um processo conflituoso ainda mais nos espaços ecológicos de densidade social muito diversificada.
Numa região metropolitana devemos considerar a formação da política de coalizão, a formação da aliança de
classes, como base para algum tipo de empreendedorismo urbano” (HARVEY, 2005, p. 171).
172

de formas de ação que pretendem, em geral, a mudança, também pode ser vinculado ao
conhecimento social sedimentado, como experiências, memórias, relações sociais. Daí, o
conjunto de performances que podem ser vistas a partir do repertório, inclusive discursivo, de
dado agrupamento ou período, dando abertura para a inovação, mudança, criatividade e
improviso, mas com a intenção de produzir determinado efeito (ALONSO, 2012).
Isto se inscreve num convite mais ideológico pela adesão ao bem da cidade, que ganha
destaque com a promessa de crescimento econômico por meio da adequação às novas formas
e tendências das atividades ocupacionais e econômicas no atual contexto urbano. Deste modo,
tem-se apostado no modelo organizativo e burocrático via gestão empreendedora da cidade e
do indivíduo, para utilizar o ambiente urbano de forma privatizada e, assim, incrementar
práticas que corroboram na construção de mecanismos alternativos de integração social ante a
ausência e ao enfraquecimento da proteção social mais ampliada, na expectativa paradoxal de
produzir algum resultado público e democrático (LAUTIER, 2014; 2001; MACHADO DA
SILVA, 2003; HARVEY, 2005). A seguir, o mapa da área central de Manaus (Figura 3) como
representação localizacional das definições dos limites legais que evidenciam as áreas e
divisões dos setores do centro histórico e da visão geral da área central da cidade. A sigla
UES que aparece na legenda, na cor amarela e na cor cinza, significa Unidade Especial
Setorial, do centro e do centro histórico respectivamente.
173

Figura 3 – Mapa da Área Central de Manaus

Fonte: MANAUS, 2013e, p.8.

O mapa da figura 3 ilustra o perímetro do Centro Histórico e da área mais ampla da


zonal central de Manaus, área delimitada pelo Tombamento Federal do IPHAN (MANAUS,
2013e; FARIAS, 2012), revisada nos planos diretores subsequentes e mantendo-se
atualmente. É sobre esta área do Centro Histórico que a disputa tem se construído ao longo de
décadas, seja pelo predomínio de determinadas atividades econômicas, pela moradia, pelo
trabalho avulso, seja pelas relações sociais de ordenamento e dominação do espaço. Embora
aparentemente tenha havido uma “trégua”, ou certa estagnação dos governos que sucederam a
primeira gestão de Artur Neto, nunca se deixou de projetar ações de transferência ou retirada
das ruas de camelôs e ambulantes. De fato, nenhum outro projeto foi implantado ou efetivado
na zona central até 2014.
O processo de construção social da zona central de Manaus salienta uma combinação
conflituosa entre as várias formas de ocupação do solo urbano, o tradicional personalismo da
174

política local e a promessa recorrente de uma era de modernização na cidade. Entretanto, as


camadas populares têm experimentado o trabalho e negócio nas vias públicas por longas
décadas mesmo após várias tentativas de retirada e transferência. Deste modo, continuam
trabalhando, negociando e vivenciando o centro histórico em um processo organizativo de
constante disputa e ambientalmente construído sob intensas contradições. A “desculpa” é
indicada como motivo principal que representaria a ação personalista da Prefeitura, como
indicado pela entrevista [Q7], na tentativa de compreender o processo de transferência.

Na transferência? [Não] Tinha temor nenhum porque eu sabia que ele [prefeito Artur
Neto] tava falando sério, na hora que olhei pra ele, eu sabia que tava querendo se
desculpar pelo que tinha feito atrás. Aí eu sei, que era um processo sério, que ele
não ia deixar ninguém na rua, porque ele queria se redimir pelo que tinha feito no
passado. Ele queria se desculpar e está se desculpando. Só que, tem muitos que não
estão gostando da mudança. [...]. Como te falei, “o homem” [prefeito Artur Neto] foi
tão “argumentoso” que todo mundo ficou [...] [faz um gesto com o dedo sobre a
boca, sinal de silêncio]. É porque ele queria se desculpar pelo que ele fez e queria
mudar. Foi uma justificativa boa que ele deu pra convencer o pessoal. [Q7].

A seguir, demonstrar-se-á e se analisará como no Centro Popular de Compras Galeria


Espírito Santo as rotinas de interação entre os indivíduos e destes com seus objetos e com o
ambiente amplo produzem um cenário de contínuos ajustes, contradições, combinações e
arranjos, apesar de sua estrutura de regulações e definições do trabalho e da conduta. Para
isso, serão de fundamental importância as narrativas dos permissionários e a própria
observação do ambiente e dos atos de interação deste pesquisador, com a finalidade de
analisar a ação situada e demonstrar a forma cotidiana de resistência à ação governamental de
transferência ao novo mercado. Tomando por base a experiência individual, os atos
interacionais e a prática organizativa do trabalho e negócio no novo ambiente.

3.3 O CENTRO POPULAR DE COMPRAS – GALERIA ESPÍRITO SANTO

O processo de transferência do trabalho e do negócio das ruas para os Centros de


Populares de Compras (CPCs) em Manaus teve como agente protagonista e condutor da ação
o poder executivo municipal,76exclusivamente sem nenhuma relação com o programa de

76
Na câmara de vereadores em Manaus, o Projeto de Lei (PL) nº. 055/2014, de autoria do vereador Carlos
Alberto de Castro (PRB), teve a pretensão de oficializar no calendário da cidade: o Dia Municipal da
Reorganização do Centro Histórico da Cidade de Manaus, instituído com referência ao dia 23 de fevereiro (data
alusiva à retirada dos camelôs do Centro). Disponível em: <http://portaldoamazonas.com/dia-municipal-da-
reorganizacao-do-centro-historico-e-incluido-no-calendario-de-
175

parcerias público-privadas. De fato, todo o processo foi conduzido por articulações políticas,
estratégias administrativas, recursos normativos e econômicos, além, da aplicação de vasto
vocabulário de motivos possibilitando a construção do cenário que resultou, em fevereiro de
2014, na efetiva realização da ação governamental. Tal dinâmica pretendia evitar a violência
física ou qualquer ato de enfrentamento direto, além de minimizar a pressão política e,
inclusive, atos de protesto por parte dos transferidos.
O Centro Popular de Compras Galeria Espírito Santo77 é o lugar da primeira
experiência da ação governamental municipal de transferência/deslocamento de “camelôs”
das vias públicas da zona central para um empreendimento público, em Manaus. A trajetória
majoritária dos permissionários/camelôs “em transferência” passa pela permanência em um
“camelódromo provisório”. No maior destes, na Rua Epaminondas, no centro, é que irá ficar o
primeiro grupo de transferidos, no período de 21 de fevereiro de 2014 até 1º de agosto de
2014, quando, enfim, o primeiro CPC Galeria Espírito Santo foi entregue para ocupação
definitiva.
É importante salientar que este CPC, assim como os demais, possui uma característica
singular, é um mercado de múltiplas trocas mercantis privadas com disponibilidade de serviço

manaus?utm_source=rss&utm_medium=rss&utm_campaign=dia-municipal-da-reorganizacao-do-centro-
historico-e-incluido-no-calendario-de-manaus>. Acesso em: 27 jul. 2015.
77
O CPC onde se realizou a pesquisa empírica tem sua implantação normatizada pela Lei n.º 1.755, de 13 de
agosto de 2013, que regulamenta a alocação de comerciantes e prestadores de serviços informais em Manaus e
os procedimentos para isso. Os permissionários quando fazem referência ao lugar variam entre os termos
“shopping” e “galeria”, os quais apresentam uma relação, também, com o termo expresso no contrato de adesão
assinado por eles junto à prefeitura. O Termo de Adesão é o contrato de permissão individual de uso de
ocupação de imóvel de domínio público municipal, que oficializa a relação entre os “microempreendedores
individuais” e a prefeitura. Trata-se de parte integrante do processo de inscrição no Projeto Viva Centro -
Galerias Populares que instaura o processo de transferência e as intervenções urbanas conjuntamente. Em
particular, o termo “galeria” está incorporado ao jargão dos processos que dizem respeito às diversas tentativas
privadas ou públicas, nos centros urbanos brasileiros, de montar lugares para a instalação do trabalho e negócio
em via pública, ou seja, agrupar (ex)camelôs/ambulantes em estruturas prediais. Este termo também vem
carregado de um significado sobre o modo de organizar e localizar o trabalho e negócio em um espaço
subdividido por pequenas unidades geminadas de serviço e comércio. Neste contexto, juntam-se ao termo
“galeria”, os termos “shopping popular”, “camelódromo”, “mercado popular”, a fim de expressar essa
configuração de arranjo de mercado “popular”. Na expressão nativa, o termo “galeria(s)”, na “memória coletiva”
local, principalmente na estação das chuvas, vem servindo como referência e designação à arquitetura
subterrânea de vazão das águas pluviais, no centro da cidade, estruturas erguidas no final do século XIX, no
apogeu da “economia da borracha". Por fim, sem o dever de analisar, havia um igarapé (em outras regiões
riacho, córrego) que recortava o que era a cidade (como outros tantos igarapés que ainda recortam Manaus), em
meados do século XIX, próximo à Igreja Matriz, conhecido pela população manauara de Igarapé do Espírito
Santo. Este Igarapé, em particular, detém um caráter simbólico forte, significativo para o imaginário e
construção da experiência social, tanto na trajetória ambiental da cidade, na sua apropriação e controle, quanto
no seu traçado urbano. Sua trajetória ambiental é resultado da modernização e “embelezamento” propostos pela
Belle Époque manauara. Entre os governos de Eduardo G. Ribeiro e Fileto P. Ferreira, a construção das galerias
pluviais tinha como objetivo canalizar igarapés, porém outros foram aterrados completamente. No caso do
Igarapé do Espírito Santo, parte foi aterrada e parte canalizada, e sobre o seu traçado ergueu-se a movimentada,
moderna e nomeada, posteriormente, av. Eduardo Ribeiro. Ainda hoje, as lojas próximas dessa área, da Praça da
Matriz, convivem com o movimento sazonal do Igarapé do Espírito Santo, com suas cheias e vazantes (SOUZA
VALLE; OLIVEIRA, 2003, p. 151; MELO; PINTO, 2003, p. 15; GALERIAS, 2013).
176

de atendimento ao público por secretarias do município (e estadual em outro CPC), em um


prédio administrado pela Prefeitura. Não corresponde a um mercado exclusivo de artesanato
da região, tampouco um mercado comercial nem um mercado de gêneros alimentícios
agropecuários. De certo modo, pode ser descrito como um mercado de serviço misto de
comércio de produtos e atendimento de serviços privados combinado com serviços oferecidos
pelo próprio setor público.
Sua estrutura tem capacidade para concentrar em torno de 308 box de padrão
individualizado e lanchonetes (que tem a extensão de dois boxes), sendo cada box com
medida padrão de 1,50x1,50x2,20. Há, no mezanino, um espaço reservado ao Pronto
Atendimento ao Cidadão municipal (o PAC/municipal; o PAC/estadual foi instalado em outro
CPC, próximo ao Mercado Municipal Adolpho Lisboa), além de uma loja lotérica, um espaço
de box para duas máquinas de atendimento bancário de 24horas e um quiosque credenciado
para serviço expresso bancário. Seguem outras reformas e modificações no layout do projeto
interno para a instalação futura de mais oferta de serviço público.
O CPC Galeria Espírito Santo localiza-se na zona central em um prédio revitalizado e
em constante adaptação para atender as especificidades desse tipo de mercado. Entre as
adaptações recentes estão os painéis elétricos que distribuem para os medidores individuais
nos boxes, a instalação de um elevador adaptado à pessoa cadeirante e duas escadas rolantes
(do piso térreo ao mezanino), modificações na estrutura feitas entre o semestre final de 2015 e
o primeiro semestre de 2016. Sua área total ocupa em torno de três mil metros quadrados.
O prédio tem a importância de representar o signo social-histórico e econômico de um
projeto arquitetônico que remete às construções do período marcado pela expansão e fase
áurea da economia gomífera no Amazonas. Pertenceu a uma das maiores firmas do período, a
J. G. Araújo e já serviu como usina de beneficiamento do látex e galpão de armazenagem.
Todavia, nas últimas décadas estava abandonado e funcionava precariamente como um
estacionamento (PROJETO DA, 2014).
Na sequência serão apresentados três mapas da área central de Manaus para localizar o
leitor em referência à distância, aos lugares de transferência provisória e definitiva, às vias
públicas ainda ocupadas e o amplo cenário onde o processo ocorreu. Sublinha-se a área
anteriormente ocupada pela maioria dos entrevistados, ao longo das avenidas Eduardo Ribeiro
e Sete de Setembro, na Praça da Matriz e na Rua Henrique Martins. Igualmente, destaca-se a
177

localização do novo mercado, o CPC Galeria Espírito Santo, em um perímetro mais periférico
da área central78.
Estas figuras foram modificadas com sinalizações e legendas para que o efeito de
aproximação e captura do espaço geográfico e localizacional dos pontos importantes da
cidade, especificamente da zona central, pudesse facilitar ao leitor não apenas o aspecto
espacial. Mas, que ratificasse o argumento sobre a relação desigual entre as áreas originárias,
com maior fluxo de transeuntes e a área de transferência do novo mercado, como são distintas
e distantes. Na figura 4, por exemplo, o traçado pontilhado, feito pelo programa de mapas
online, mostra oito minutos de caminhada entre a Praça da Matriz (local originário de alguns
permissionários) e o ponto com a letra [P], onde está localizada a Galeria Espírito Santo.
Por fim, considerou-se importante o enquadramento da dimensão geográfica
representado pelos mapas, com a pretensão de pontuar a área na qual o novo mercado está
localizado em relação ao espaço ocupado anteriormente pelos permissionários/“camelôs” em
via pública. A localização do trabalho e negócio no CPC representa um dos pontos cruciais de
disputa, geradora de conflito e de combinações. Esse ambiente gradativamente vai sendo
incorporado pelos permissionários/microempreendedores individuais, em um processo de
transação que o transforma e o reorganiza a partir de práticas cotidianas, das narrativas, de
outra identificação e de resistências individuais ou compartilhadas. Levando-se em conta que
as comparações das experiências entre os próprios entrevistados indicam as mais diversas
apreensões e atribuições de sentidos, esboçando inclusive aborrecimento, embaraço e
desconfiança na ação governamental.

78
Ribeiro Filho, em sua tese, analisando o conceito de área central, define que, em Manaus, há limites
simbólicos e históricos, econômicos e sociais para estabelecer distinções concretas entre os limites de uma área
de centro histórico e de uma área de centro periférico. Neste sentido, os camelôs e ambulantes antes localizados
nos limites do centro histórico foram transferidos para os limites da área de periferia do centro e, nestas
condições, com relações econômicas menos favoráveis que a anterior para o tipo de trabalho e negócio que
executam (RIBEIRO FILHO, 2004a).
178

Figura 4 – O mapa apresenta a distância entre o CPC Galeria Espírito Santo [P] e a área onde a maioria dos
entrevistados se encontrava [círculo em vermelho]. E, o local do “camelódromo provisório” da
Epaminondas/Lobo D’Almada [1], seguida da indicação da localização do segundo CPC Galeria dos Remédios
[2].

Fonte: Google Maps. Disponível em: <https://www.google.com.br/maps/@-3.1345022,-60.0238856,17z>,


modificado pelo autor.

Figura 5 – A seta em vermelho, no fim do mapa, indica a posição do terminal central de ônibus em Manaus,
donde um intenso fluxo de transeuntes se encaminha para as avenidas Eduardo Ribeiro e Sete de Setembro e
demais ruas adjacentes do centro histórico da cidade. Os círculos em vermelho são indicações da figura 4.

Fonte: Google Maps. Disponível em: <https://www.google.com.br/maps/@-3.1345022,-60.0238856,17z>, foto


de satélite modificada pelo autor.
179

Figura 6 – O círculo em preto indica a área onde uma quantidade significativa de camelôs permaneceu por mais
tempo (até agosto 2016) e representava motivo de embaraço, aborrecimento e dúvida dos entrevistados sobre a
eficácia do processo de transferência.

Fonte: Google Maps. Disponível em: <https://www.google.com.br/maps/@-3.1345022,-60.0238856,17z>,


modificado pelo autor.

O processo de transferência apresenta diversas etapas e articula-se com uma variedade


de recursos políticos e econômicos, igualmente, apresenta exigências legais e acordos tácitos
com o ajuntamento. Durante a realização das entrevistas foi possível perceber que, além
desses recursos e exigências, existiram outros modos de situações e eventos diferenciados na
transferência dos primeiros camelôs. Nos diversos canais de informação, os meios de
comunicação de massa inflavam a frase do momento: “a organização do centro histórico, pelo
bem comum da cidade”. Uma ideia sugestiva com possíveis mecanismos de constrangimento,
aprovação e apoio de certos grupos de interesse e o envolvimento dos próprios transferidos
como parte da mobilização do processo, como disse uma entrevistada: “[é] tempo de pensar
no coletivo e ajudar a cidade” (mulher, camelô, 54 anos). A princípio, este argumento se
generalizava como componente fundamental de um vocabulário de motivos que passa a ser
apropriado e reproduzido por alguns camelôs. De outra forma, como estratégia do executivo
municipal tanto o argumento era incorporado como força justificadora da transferência quanto
uma forma de dissuadir qualquer movimento de resistência e postergação do projeto,
funcionando como mecanismo de formação de opinião pública na tentativa de pressionar os
permissionários.
180

As opiniões expressas nos jornais sobre o assunto, quando do primeiro mês de


transferência, demonstram a mecânica das opiniões em apoio ao histórico embate entre o
poder público e os “camelôs” e “ambulantes" no centro da capital: “O Prefeito está dando
opções pra a gente [...] É um projeto muito bom [...] Então, nós temos que ceder um pouco
porque é uma questão de dignidade pra nós [...] temos que contribuir com Manaus” (L. R. C.,
44, vende bijuterias, moda, 8 anos em via pública). O discurso moral emerge na forma de
convocação objetiva para corrigir os “problemas” práticos e estéticos situados na área central,
ou seja, ela tem um endereço e destinatário certo. Para isso necessita da cooperação e da
“aliança de forças”, a “parceria” torna-se a ideia chave verbalizada pelos entrevistados: “nós
que amamos Manaus e queremos viver numa cidade bonita e organizada, temos que lembrar
que a nossa obrigação não é só com a cidade, mas também com nossos filhos [...] Meus filhos
terão um lugar digno para trabalhar [...]”, (C. R., 38, vende vestuário, 10 anos em via pública).
E, nas palavras do próprio prefeito, em entrevista ao jornal local:

“Estamos começando vida nova. Vida nova para a administração pública, que ganha
a chance de fazer um trabalho ímpar para a requalificação do Centro. Vida nova para
a população, que tem as ruas de volta, além de ganhar um novo centro de compras e,
principalmente, vida nova para esses mais de 300 trabalhadores que hoje ganham a
condição de microempreendedores e vão poder prosperar e manter um negócio de
família, que pode ser passado de pai pra filho”, resumiu o prefeito de Manaus, Artur
Virgílio Neto, que não consegue esconder sua emoção com este momento histórico”
(CAMELÔS DEIXAM, 2014).

3.4 ATÉ ONDE SE ESTENDE O PROCESSO?

O campo empírico da pesquisa é composto por uma população de aproximadamente


308 permissionários/microempreendedores individuais que ocupam o Centro Popular de
Compras Galeria Espírito Santo. Este quantitativo tem certa variação, pois reformas e
modificações internas ocorreram no interior no prédio mesmo após a entrada destes,
deslocando e retirando alguns boxes com a finalidade de ampliar a oferta de serviços públicos
no lugar. Além de que alguns boxes ainda não foram ocupados. Em tese, este quantitativo de
308 instalado na Galeria Espírito Santo faz parte do total de 2.082 permissionários/“camelôs”
regulares e oficialmente reconhecidos pelo executivo municipal nas vias do Centro Histórico.
A Prefeitura pretende transferir o restante para outros dois CPCs na cidade.
A aplicação de questionário semi-estruturado combinado com entrevista foi com o
total de vinte e nove (29) permissionários/microempreendedores individuais no CPC Galeria
Espírito Santo e dois (2) no CPC Galeria dos Remédios (duas exceções feitas para
181

verificação). Todo o período de observação e registro do campo empírico foi realizado


somente na Galeria Espírito Santo e, ocorreu no período de doze meses entre observação,
aplicação de questionário com entrevista e tentativas de aproximação com o Sincovam79.
O representante institucional legítimo e escolhido pela prefeitura (MANAUS, 2015c)
como o interlocutor do ajuntamento na Galeria Espírito Santo: o Sindicato do Comércio de
Vendedores Ambulantes de Manaus (Sincovam) durante o processo exerceu o papel como um
dos interlocutores junto ao executivo municipal. De outro modo, teve sua atuação questionada
por alguns dos próprios filiados, a respeito do desempenho e força no processo de
transferência quanto ao posicionamento e melhor negociação. O Presidente do Sincovam é
também membro do Conselho Gestor da Galeria Espírito Santo, que está vinculada à
Secretaria Municipal do Centro Histórico (Semch) (MANAUS, 2015a, p. 2; MANAUS,
2015b, p. 4).
A princípio, mas não exclusivamente, os primeiros transferidos para este novo lugar
foram os camelôs cadastrados pela prefeitura que se localizavam na Praça da Matriz e parte
daqueles que estavam nas avenidas Eduardo Ribeiro e Sete de Setembro e, posteriormente, os
da Rua Henrique Martins. Constatou-se pelo trabalho de campo que a maioria, no piso térreo,
era oriunda da Praça da Matriz e Avenida Eduardo Ribeiro, enquanto no piso mezanino,
estavam aqueles provenientes da Rua Henrique Martins. Os instalados no piso térreo foram os
primeiros transferidos e sua trajetória passa primeiramente pelo “camelódromo provisório”
para somente depois se instalarem definitivamente no CPC. No entanto, os que se localizavam

79
O Sincovam encontra-se numa encruzilhada de identidade de representação coletiva, tentando modificar seu
estatuto para se adequar ao novo cenário, segundo um diretor da instituição. Durante o processo de transferência,
o seu papel de mediador era o de interlocutor entre o ajuntamento de camelôs e ambulantes e a prefeitura. De
acordo com alguns dos entrevistados, quando o executivo municipal convocava uma reunião mais restrita para
antecipar algumas decisões do processo, era com o representante do coletivo que ele se dirigia primeiramente
(discussão que não seguirá adiante por não ter conseguido agendar uma entrevista ou conversar nos corredores
do CPC com o presidente do Sincovam). Após isso, esse mediador encaminhava uma fala para o seu coletivo
reunindo em algum lugar no centro. Posteriormente, o outro momento era a convocação pela prefeitura da
reunião aberta e ampliada com todos (dirigida pelo próprio prefeito Artur Neto e seus secretários diretamente
envolvidos, no salão da prefeitura ou outro prédio que comportasse o tamanho do público, para confirmar datas e
lugares provisórios, convencer a plateia no engajamento do Projeto Viva Centro, mostrar croquis e plantas dos
três CPCs para onde seriam transferidos, acertar detalhes dos “Termos de Adesão”, construindo expectativas e
oferecendo o Projeto Viva Centro como a “solução” mais viável e vantajosa de mudança. A performance dos
representantes do coletivo de “camelôs” durante essa reunião ampliada tinha lá sua importância nesse momento,
pois desempenhavam o papel da demonstração de engajamento e o papel de “vigilante” daquilo que seria melhor
para o coletivo, mesmo quando a plateia desconfiava do que ocorria nos bastidores nesse estreitamento com o
poder público. Agora, passada a etapa inicial da transferência, o Sincovam se instala na Galeria Espírito Santo e
tem de lidar com uma nova situação. Os transferidos ao assinarem o Termo de Adesão, foram chamados a
cadastrarem-se como “microempreendedores individuais”, deixando de lado a figura típica de camelô, pelo qual
deveriam ser representados pelo Sincovam. A nova situação levou o presidente, como confidenciou ao
pesquisador um dos diretores, a pensar em mudar o seu estatuto para agregar mais esse coletivo. Tal como o
Sincovam, talvez estejam nesse mesmo impasse outros representantes, como a Avacin e a Cooperativa de
camelôs e ambulantes que, no início, sentavam-se à mesa de negociações com o executivo municipal. Sendo que
esta última se viu enfraquecida durante o processo e retirou-se do cenário.
182

na rua Henrique Martins não fizeram essa trajetória, que segundo um entrevistado poderia ser
rotulada como a trajetória das “primeiras cobaias”.
Após o início do processo de transferência de 2014, os permissionários da Rua
Henrique Martins ainda ficaram por volta de seis meses na via pública até que a Galeria
Espírito Santo ficasse pronta e posteriormente foram transferidos, sem passar por um
“camelódromo provisório”80. Por continuarem nas ruas, não receberam a bolsa formação no
valor de R$ 1.000,00, nem a cesta básica (oferecida pela prefeitura a todos que deixavam as
vias públicas como compensação temporária até a instalação definitiva no CPC). Alguns
entrevistados, entretanto, comentaram a respeito da reivindicação feita ao prefeito para que
recebessem ao menos o valor de uma bolsa formação no período de instalação e adaptação no
novo lugar. Como relatou a entrevista [Q9].

Quem orientou a gente foi o pessoal da secretaria, o secretário, né? Só que nós da
Henrique Martins, nós não fomos para o provisório, nós já viemos direto pra cá.
Ninguém pegou aquele benefício de R$1.000,00 e a cesta básica. Isso, só os da
Henrique Martins [não receberam, pois ficaram na rua aguardando], porque tinha
poucas vagas no provisório. [Q9].

A transferência do trabalho e negócio em via pública para o CPC aconteceu em etapas,


por vezes rápida como a primeira, outras mais lentas como no caso dos últimos que ainda
esperam o processo acontecer (Figura 6). Os primeiros que fecharam suas bancas e as viram
carregadas pelo maquinário da Prefeitura foram aqueles que estavam na Praça da Matriz e
Avenida Eduardo Ribeiro. Em entrevista, quando perguntado sobre o que era o camelódromo
provisório, um permissionário proveniente da Praça da Matriz usou a expressão “cobaia”:
“Fomos as primeiras cobaias disso aí”, externou de modo aborrecido. Outro termo utilizado

80
O primeiro lugar como a alternativa mais imediata para a retirada de camelôs e ambulantes, das áreas mais
densas do trabalho e negócio em via pública, no Centro Histórico, foi rotulado pelo poder público municipal de
“camelódromo provisório”. Estes espaços ainda encontram-se abertos, até que seus ocupantes sejam transferidos
definitivamente para outros CPCs, Galeria dos Remédios e Shopping T4. Continuam “funcionando” três
“camelódromos provisórios” (agosto de 2016). Dois estão localizados na Rua Floriano Peixoto (um destes, após
um período desativado pela transferência dos ocupantes, cedeu lugar para a “Central de Artesanato “Tenreiro
Aranha”, após reivindicação de um agrupamento de artesões locais que estava anteriormente na Praça Tenreiro
Aranha, no Centro Histórico, que está sendo “revitalizada”), o terceiro está localizado entre a Rua Lobo
d’Almada e Avenida Epaminondas, tendo acesso por ambas as ruas. Todos os três lugares serviam como
estacionamento antes de virarem “camelódromos provisórios”. Os espaços, agora ocupados pelos
permissionários e suas bancas retiradas das ruas, estão visivelmente apertados, com relativa claridade e sem
condição para um pequeno fluxo de pessoas. Algumas vezes em que o pesquisador lá esteve, conversando com
os transferidos e observando, ou as bancas estavam fechadas, ou se aberta com poucas mercadorias expostas.
Carros-lanches ao fundo, cadeiras de plásticos ao lado da banca e um camelô que esperava. Esse agrupamento da
Floriano está aguardando a autorização definitiva para a ocupação dos boxes do CPC - Shopping T4, na zona
leste da cidade.
183

por alguns entrevistados era “curral”, que servia como metáfora para se referir à situação
experimentada como espaço apertado para o quantitativo de bancas no “camelódromo
provisório”.
Em virtude do tamanho dos “camelódromos provisórios” ficava patente que não
poderia caber, mesmo inadequadamente, todos os transferidos no processo de uma só vez,
além do fator localização que pesava para a atração de consumidores, segundo os
permissionários. Se considerar somente aqueles camelôs localizados ao redor da Praça da
Matriz, poderiam ser estimados entre 450 a 500 permissionários, de todos os tipos de serviços
e comércio de mercadorias, entre carros-lanche e bancas. Levando em conta somente a av.
Eduardo Ribeiro de um lado e outro da via, sem contar com as transversais, o número triplica.
Esta situação é exposta pelas entrevistas [Q18], [Q1] e [Q2] quando narraram parte de suas
experiências nesses lugares.

Rapaz, aquilo ali era um curral [“provisório”]. Era um em cima do outro


praticamente. Tinha gente que ia lá só pra ver como é que tavaas coisas e saia pra
ganhar algum [dinheiro] por aí. Às vezes, eu nem aparecia [...] passei baixo, não
fazia praticamente nada [serviço], foi uma tortura [Q18].

Esse foi o período mais difícil da nossa vida. Mas, tamos aí conseguindo superar.
[...] Muitos colegas nossos, uns entrou em depressão, outros até se enforcaram
[assusto-me e pergunto sobre isso]. Um amigo nosso que se enforcou, eu conhecia
ele, ele entrou em desespero, né? Tinha família [tempo de silêncio]. Ele entrou em
desespero porque o lugar que nós fomos...A gente passemos um período difícil ali
[“provisório”], porque a gente não vendia quase nada no lugar onde colocaram a
gente. Alguns colegas nosso vieram pra cá totalmente sem nada! [entonação forte],
acabaram com tudo naquele lugar, ficaram sem nada, nada. Acabou tudo porque
ninguém vendia nada lá, aí estragou a mercadoria [Q1].

Há um ano e pouco [...], o processo foi o seguinte: primeiro passamos lá pra


garagem ali, depois que veio pra cá [...] Não foi muito legal, não! Foi meio [...] sabe
que toda mudança é difícil, né? Foi em cima da hora! [que ficou sabendo da
transferência]. Era o sindicato que falava [que conduziu o processo de informação
sobre a transferência] [Q2.].

Cada narrativa expressa uma experiência situada, ocorrida no processo da ação


governamental. Mesmo que a condição de provisoriedade no lugar tenha um sentido de
intervalo de tempo, de espera, de passagem, até um próximo deslocamento para um espaço
definitivo, a experiência incorporada por eles carrega um peso de negatividade e de mudança
na rotina e na organização do trabalho.
A expectativa dos transferidos sobre o projeto do executivo municipal começa a tomar
consciência dos planos que não se cumprem a contento ou não se realizam como prometido.
184

A execução do plano é colocada em cheque, ainda mais quando em visibilidade mútua


percebe-se um problema prático e de conjunto do plano, uma parte ainda permanece na via
pública enquanto outros foram retirados e permaneceram no provisório por um longo período.

Eu só num [aceitei] [...] porque disseram que iam tirar todos e não tiraram e isso aí
foi um ponto negativo. E, também, que eles falaram que a gente ia sair da rua
somente quando tivesse pronto, mas, também não foi porque nós saímos antes de tá
pronto as galerias. Saímos da rua e fomos para os provisórios que era aqueles
estacionamentos. [...] Então, isso foi um ponto negativo porque se cada um de nós
tivéssemos saído direto, cada um pro seu local definitivo teria sido melhor. [Q24].

Discordamos porque a gente queria vir direto pra cá, não pro provisório! No
provisório, na realidade, tu não trabalhava, tu guardava a tua banca!Abria tua
banca lá e não vinha ninguém. Tu ia pra lá só mesmo de “migué” [gíria que
qualifica a ação de enganar]. É esse da Epaminondas! Que ainda tá aberto. Agora
támelhor porque eles viram [...] porque nós fomos os cobaias, entendeu? Os
primeiros a ir pra lá e eles botaram uma banca colada na outra. Não tinha como [...]
nem cliente entrava pra dentro. Agora, lá tem espaço, se tu for por lá, eu passo lá,
agora tem espaço! Bem diferente de nós, daquele tempo. A gente comentava as
coisas no meio [...] entre nós próprios, com os colegas camelô. [Q28].

As próximas fotos, 13 e 14, registram a noite de inauguração, a fachada do prédio


histórico e a via pública diante do prédio (apresentando um contraste imagético do “cheio” e
“vazio”). A segunda foto é uma composição de seis meses após a inauguração, curiosamente
no mês que fora iniciado o processo de entrevistas e de observação contínua. As estruturas
temporais se encontram e se contrastam; entrecruzam-se entre as experiências concretas e as
expectativas dos agentes transferidos e do poder público. As estruturas temporais e
econômicas tocam o cenário evocando os processos de mudança da própria cidade. O prédio
tipicamente característico do final do século XIX, do apogeu da economia da borracha, é
retomado e reformado no século XXI para atender às demandas de desenvolvimento da cidade
e às propostas de intervenção urbana na zona central. Deste modo, um novo fenômeno se
prende ao lugar, no processo que persiste e insiste em moldar certo equilíbrio entre o cenário
histórico e seus novos agentes permissionários. Assim, se faz ecoar sentido e pragmática de
estruturas desconexas que aparentam o moderno, a inovação, o “restaurado” de um lado, e por
outro lado, tenta modelar um microempreendedorismo individual com a objetivação de
“solucionar” parte do desemprego estrutural e a aflição moral da rotulada desorganização do
centro histórico.
185

Foto 13 - Noite de inauguração do Centro de Compras Popular Galeria Espírito Santo nas esquinas das ruas
Joaquim Sarmento e 24 de maio.

Fonte: PRIMEIRO, 2014.


Foto de Tácio de Melo/Semcom

Foto 14 - Fachada do Centro de Compras Popular Galeria Espírito Santo nas esquinas das ruas Joaquim
Sarmento e 24 de maio.

Fonte: GALERIA, 2015.


Foto: Karla Vieira/Semcom
186

O CPC localizado no cruzamento das ruas 24 de maio e Joaquim Sarmento, embora


nos limites cartográficos do Centro Histórico, mas não próximo do antigo ambiente (Figura
5), recebeu do executivo municipal o nome de Galeria Espírito Santo e foi aberto ao público
em 1º de agosto de 2014, por volta das 18horas. Um evento cuja cerimônia era direcionada
por discursos que apostavam em uma “nova vida” para os “velhos permissionários”. Na noite
de inauguração não somente estava presente a comitiva política municipal (secretários,
vereadores e filiados do PSDB), como também alguns representantes do empresariado local.
Segundo destacou em seu pronunciamento de inauguração, o Prefeito Artur Neto (PSDB):
“Tem muito shopping pelo Brasil, mas sempre tem um dono. Aqui (na Galeria) não. Todos
são donos dos seus próprios empreendimentos, das suas lojas e vão poder passar seu negócio
de pai para filho”. E, de outro modo, um dos empresários convidados, dono de uma rede de
lojas na capital e interior do Estado, expressou sua visão: “Sem dúvida é um momento
memorável. Aqui, neste prédio, funcionava o galpão do maior empresário do tempo áureo da
borracha, o J.G. Araújo. O espaço, que significou muito para a economia amazonense, retorna
nas mãos desses ex-camelôs, agora microempreendedores, que, assim como eu, podem se
transformar em grandes empresários do Amazonas” (PRIMEIRO, 2014). A ideologia dos
representantes do ajuntamento, o Sindicato ou a Associação de “camelôs” e “ambulantes”,
também expressava o sentimento de mudança e “futuro melhor” para os ex-“camelôs”, agora,
microempreendedores individuais. Um recorte concreto de um lugar carregado de signo,
sentido e significado, trocando de proprietário e de ocupantes, marcando o contraste entre o
declínio da época da borracha no começo do século XX e a reinvenção do Centro Histórico de
Manaus. De fato, uma área da cidade que nunca deixou de ser recortada em todo o seu
percurso social e histórico pelo trabalho e negócio em via pública.
Em todo caso, o processo de transferência ainda está em andamento, pois restam os
demais que não foram transferidos e continuam aguardando nas ruas ou nos lugares
provisórios. Pontuando a sequência de inaugurações, em 25 de outubro de 2014, praticamente
três meses depois da primeira inauguração, foi aberto ao público o segundo CPC ainda no
centro, próximo ao Mercado Municipal Adolfo Lisboa, chamado de Galeria dos Remédios e,
na última semana de junho de 2016 foi aberto parcialmente o CPC chamado Shopping T4, na
zona leste da cidade. O cadastramento de “camelôs” e “ambulantes” de toda área central foi
realizado pelos agentes públicos um ano antes da efetiva transferência. Durante esse momento
e nas reuniões abertas com o prefeito eram apresentadas três opções: Galeria Espírito Santo,
Galeria dos Remédios e Galeria do Shopping T4, quando o permissionário podia escolher o
187

lugar definitivo de sua transferência, após um possível período em algum “camelódromo


provisório” ou mesmo aguardando em casa81.
Na prática, um grupo significativo permaneceu nas vias públicas por mais de dois anos
aguardando a transferência ocorrer. De fato, após as eleições de 2016 para o poder executivo,
caso o prefeito Artur Neto, não consiga a reeleição, uma incógnita ficará aberta pelo processo
não concluído dessa política focalizada, se haverá continuidade e o modo como será feita.
Uma das primeiras ações exigidas nesta etapa inicial do processo, para entrar no CPC em
definitivo, era que o camelô transferido assinasse o Termo de Adesão (de permissão de uso
do bem público), ao chamado projeto Viva Centro - Galerias Populares, tornando-se, assim,
um permissionário regularizado do lugar. Além disso, há outra exigência de entrada que foi
relatada tanto pelos entrevistados como observadas nas notas de reportagem, que se refere à
obrigatoriedade de inscrição como figura jurídica de microempreendedor individual – MEI,
nos termos da Lei Complementar n.º 128/2008.
Além de serem duas medidas normativas de enquadramento desses “novos”
permissionários, aparentemente configurando um novo perfil, seria um mecanismo de limite e
de controle ao acesso e uso desse novo objeto público, o CPC. No entanto, entre os próprios
entrevistados ao menos três que trabalhavam e negociavam no ambiente ainda não estavam
inscritos como MEI. Os prazos foram estabelecidos para que os interessados fossem à Semc,82
levando cópia dos documentos pessoais e do registro de cadastro da banca, devidamente
autenticados em cartório. O momento de assinatura do Termo de Adesão também era o
momento de confirmação da escolha do local para a transferência. Ou, ainda, se preferisse
escolher mudar de atividade e obter algum financiamento através do Fumipeq,83 começando
um novo empreendimento no bairro onde residisse.
Aquele que escolhesse aderir e esperar no espaço provisório ou em casa receberia um
valor mensal de R$ 1.000,00 (mil reais), como bolsa para participar de cursos de formação em

81
Não se foi bem-sucedido em conseguir informação concreta de nenhum agente público ou dos representantes
quanto ao percentual de adesão do ajuntamento ao Projeto Viva Centro Galerias Popular, isto é, o percentual
referente ao número oficial de camelôs no centro da cidade. De fato, assinar o Termo de Adesão não significava
na prática permanecer trabalhando e negociando no CPC. Visto que alguns dos entrevistados estavam ou numa
relação de aluguel, ou numa relação de empréstimo temporário do box de outro permissionário. Além de que há
aqueles que não concordaram, desistiram ou buscaram outro caminho para continuarem na via pública ou foram
para outro bairro da cidade.
82
A Lei Delegada nº. 1, de 2013, criou esta secretaria com o objetivo principal de acompanhar o processo de
requalificação da área central da cidade e de organizar e acompanhar o processo de transferência. Posteriormente
foi reordenada na estrutura da administração municipal como Subsecretaria Municipal do Centro Histórico –
SubSemch (MANAUS, 2013c, p. 11).
83
O Fundo Municipal de Fomento à Micro e Pequena Empresa (Fumipeq) foi criado para prestar apoio
financeiro para a construção e estruturação dos Centros de Comércio Popular, além de financiar bolsas, cesta
básica e crédito para os transferidos que assinam o Termo de Adesão, no capítulo 4 será pormenorizado o
funcionamento do Fundo.
188

empreendedorismo e uma cesta básica, conforme mencionado. Para muitos entrevistados, o


valor não conseguiu custear as despesas cotidianas básicas, demonstrou concretamente a
queda de renda comparada aos ganhos mensais na via pública e a ausência de consumidores
nos camelódromos fez a situação se agravar. Encaminharam uma demanda de aumento no
valor do subsídio, junto aos vereadores e secretária, mas sem êxito. A bolsa formação era
suspensa no momento em que o permissionário se instalava no CPC.
Finalmente, aquele que se instalasse na Galeria Espírito Santo teria acesso a um
programa de crédito público. Os valores variavam de R$ 2.500 a R$ 15 mil na linha de capital
de giro e de R$ 2.500 a R$ 5.000 na linha de investimentos. Além desse programa, quando
fosse cadastrado na Semch, caso não quisesse ir para os CPCs, poderia optar por um
financiamento de R$10 mil por meio do Fumipeq, com carência de sete anos e meio para
começar a pagar e montar um negócio próprio no bairro onde mora, desde que não seja na via
pública. Três cenários foram construídos a partir dessa lógica de ação:

Figura 7 – Três cenários propostos pela ação do executivo municipal.

A) Sair da via pública camelódromo provisório  CPC definitivo


(com bolsa formação + cesta básica)

B) Sair da via pública “aguardar em casa”  CPC definitivo


(com bolsa formação + cesta básica)

C) Permanecer na via pública aguardando o CPC definitivo


(sem bolsa formação, sem cesta básica)

Fonte: Autoria própria.

Somente seis dos 31 permissionários participantes da pesquisa afirmaram ter contraído


empréstimo nessa categoria de linha de investimento. Entre outras, o empréstimo foi
destinado em maior parte para pagamento de dívidas pessoais e outra parte à compra de
mercadoria ou de prateleiras, painéis e balcão para organizar o box. Destes, três fizeram
empréstimos em linhas de crédito das agências de financiamento público como a Afeam ou o
Fumipeq e três fizeram em bancos ou financeiras privados.
Enquanto se observava a dinâmica do campo, não era difícil de ver os agentes das
financeiras privadas conversando com permissionários e oferecendo serviços de empréstimo
189

em longo prazo e com o mínimo de exigências. De outro modo, os entrevistados em geral,


quando perguntados sobre o tema de empréstimo, invariavelmente respondiam sobre os
valores da linha de investimento serem baixos e não cobrirem o total das despesas para
equipar completamente o box e, ponderavam, acerca do perigo de se contrair o empréstimo
nas condições atuais de baixo movimento de consumidores e vendas no CPC. Algumas
declarações a seguir, quando indagados a respeito de empréstimo ou financiamentos
adquiridos, referem-se às situações de necessidade, tomada de decisão e restrições de crédito,
demonstrando qualificadores diferenciais de perfil. Entre outras narrativas, chamaram atenção
as entrevistas [Q3] e [Q24], que expõem a percepção sobre como estar estabelecido no box
poderá trazer alguma garantia para financiamento futuro, ou ainda, o surgimento de dúvidas
sobre a real situação dos empréstimos públicos oferecidos, que em condições atuais de
adaptação no lugar, poderia ser um perigo para a viabilidade do negócio.

Trouxe tudo da rua esse material [a mercadoria] [...] financiamento, até o momento
não, porque como eu falei que tenho outra fonte de renda, eu não pude financiar
porque eu tenho uma empresa, uma “EPP” da construção civil, aí tenho CNPJ, aqui
é só pra micro, eles fazem empréstimo, mas é só pra micro, eles fazem de R$
6.000,00 reais. Meu marido é que trabalha na realidade. Só que a empresa é minha e
dele, ele presta serviço na área da construção civil, ele é mestre de obras. Aí o que a
gente faz? Quando tem um emprego, um trabalho, a gente faz empréstimo no banco
[privado] [...]. O município, ele fez o quê? Quando nos tirou da rua, nós ficamos
recendo uma quantia, uma cesta básica e mil reais, enquanto aprontava aqui.
Quando ficou pronto, nós ainda recebemos dois meses R$ 1.000, (mil reais) e uma
cesta básica. Agora, eu não tenho certeza, disseram que vão nos emprestar R$
5.000,00 (cinco mil reais), mas não sei. [Q3].

Bom, aqui, né... [é] que você é dono do seu estabelecimento. Porque na rua, na rua é
um lugar público, onde você tava ali de penetra, que, na verdade, não é um local
onde as pessoas deveriam estar. Então, era uma insegurança porque quando viesse,
assim, o Ministério Público e quisesse retirar, ele mandaria tirar já que a pessoa não
era dona de nada, né? E, aqui é mais seguro, [por] que o box é da pessoa mesmo,
entendeu? Pode fazer um financiamento que vai ter lá um documento que comprova
pra você. [Q24].

O primeiro grupo de transferidos não fazia ideia de como seriam nem o local
provisório nem mesmo o local definitivo, nem como se estabeleceria a organização do
trabalho e, mais importante, como seria o fluxo dos consumidores, a dinâmica das vendas. No
recente desdobramento do processo de transferência muitos já escolhiam não ir para os
“camelódromos provisórios” ou mesmo para a “Galeria”. Esse momento de decisão, daqueles
que aguardavam na via pública por sua transferência/deslocamento, em grande parte estava
vinculado à situação vivenciada por seus pares no CPC. O número final do processo de
190

transferência em torno do Projeto Viva Centro - Galerias Populares tinha como pretensão
abranger um pouco mais que 2.100 pessoas. No entanto, o questionamento sobre quais
atividades estariam nesses Centros Populares de Compras parece ser uma chave para se
problematizar a construção desses novos mercados e os constrangimentos que produzem à
atividade escolhida pelo indivíduo para se desenvolver em seu ambiente84. Sobretudo quando
se trata de atividade originária de via pública. Não se deve negar que na prática cotidiana há
uma hierarquia social e determinadas diferenças entre os trabalhos e negócios desenvolvidos
em via pública (verificar no capítulo anterior, no subtítulo 2.3), com um significativo grau de
heterogeneidade que, possivelmente, não se “encaixe” nesse tipo direcionado, de projeto
específico e único, de empreendimento púbico e que não seja capaz de alcançar a todos tão
facilmente.
A “solução” modelar de empreendimento público via Centros Populares de Compras
não é algo recente. O modelo é citado, reconhecido e, antes de ser implantado em Manaus, foi
visitado pelos agentes públicos e pelos representantes do ajuntamento, em outras cidades do
Brasil. Além disso, algo semelhante já era planejado desde a década de 90. Como visto, é
aplicado indistintamente, desconsiderando alguns traços de heterogeneidade e hierarquias
inerentes ao trabalho e negócio em via pública. Portanto, não são todas as atividades e
negócios, por um motivo ou outro, que poderão fazer parte dessa proposta modelar.

3.5 O MICROPROCESSO DE IN/CORPO(R)/AÇÃO E INTER/AÇÃO NO NOVO


MERCADO

O número de permissionários na Galeria Espírito Santo, 317 de acordo com o artigo 1


do Regimento Interno, passa por certa variação conforme surgem algumas ocorrências de
desistência ou reorganização no layout interno. Por exemplo, no hall do CPC foram
construídas três barracas cobertas no vão principal, em 2014,85 cabendo dois permissionários

84
Cabe ratificar o resumo da montagem do cenário: “[...] Só no primeiro dia, a adesão foi de 528 trabalhadores.
Os camelôs ficarão nos camelódromos até que sejam finalizadas as adequações nos dois espaços definitivos do
Centro (Galeria Espírito Santo e Galeria dos Remédios) e construído o Shopping T4. Enquanto isso, os
trabalhadores receberão bolsa de R$ 1 mil, condicionada à participação deles em cursos de qualificação
profissional. Os cursos escolhidos direcionarão estes trabalhadores a aperfeiçoarem técnicas de atendimento e
empreendedorismo. Houve ainda a opção de um financiamento de R$ 10 mil para a abertura de novo negócio
fora do logradouro público. O valor é proveniente do Fumipeq”. (SORTEIO, 2014).
85
Logo que se entrou no campo empírico para observação da rotina diária e realização da entrevista, achava
curioso aquele conjunto de barracas cobertas montado bem no hall de entrada, o que destoava do padrão dos
boxes construídos no CPC. Na medida em que foi a própria secretaria que autorizou a construção num espaço
que, dentre outras coisas, seria instalada a escada rolante. Em 2015, a Secretaria Municipal do Centro Histórico
decidiu retirar as barracas do hall e ofereceu boxes em outro corredor do CPC. Um permissionário discordou e
191

em cada. Em 2015, foram desmontadas e seus ocupantes receberam nova ordem de


transferência, para outro box no próprio CPC ou em outro prédio, fato recebido com certa
relutância. Como narrado por um entrevistado ao ser questionado sobre os trabalhos de
reorganização do espaço, que estava acontecendo ao lado no momento da pesquisa.

[...] Fizeram um sorteio [distribuição dos boxes]. Ninguém escolheu, não! [...] só decidimos
onde é que nós íamos ficar, né? Se era aqui no Shopping Espírito Santo, se era aqui no
centro [...]. Pegaram quais são esse total de pessoal, aí fizeram o sorteio pra ver quem vai
ficar em cada loja, foi assim que aconteceu. [...] tá vendo essas três barracas ali [aponta na
direção de três barracas com lona verde], aí cada um cedeu, só quem não cedeu foi aquele
cara ali, e tão tentando tirar ele daí. Fizeram um outro box ali embaixo da escada pra ele,
mas tá ainda na justiça pra tirar. Os outros cederam pra ir lá pro T4, aí esse daí quis ficar aí
mesmo, fizeram uma outra pra ele, mas ele não quer sair daí.Tá na justiça, o direito é dele,
deram pra ele, é dele e ele não quis sair, tá procurando o direito dele, né? [Q2].

Foto 15 - No ângulo centro esquerdo da foto aparecem as coberturas verdes das três barracas montadas no hall
de entrada do CPC, antes de serem retiradas.

Fonte: MANAUS GANHA, 2014


Foto de Tácio de Melo/Semcom

não aceitou a ordem de nova mudança entrou com recurso jurídico para se manter no mesmo lugar, segundo um
dos entrevistados num momento em que se mencionou a demolição daquelas barracas. Durante o período em que
este pesquisador esteve no CPC, apenas observou trabalhadores desmontando as barracas, mas nunca viu alguém
as ocupando ou vendendo algo ali. Soube depois que um deles aceitou ser alocado em outro box no corredor dos
fundos. Mas, não se conseguiu entrevistá-lo nem outros ou estreitar aproximação para compreender dos próprios
sobre o evento ocorrido. Alguns sempre estavam ausentes durante toda ocorrência e o encontrado depois não
quis falar nada. No segundo semestre de 2015, o hall estava liberado para a futura instalação de duas escadas
rolantes, ligando o piso ao mezanino, o que ocorreu no primeiro semestre de 2016.
192

A situação de outra transferência, envolvendo estes permissionários, é um tanto


curiosa e provocativa. O processo organizativo do ambiente interno é direcionado pelo poder
público, na medida em que o prédio é objeto e espaço do poder público. O regimento interno
foi sancionado pelo poder público e o layout é refeito toda vez que o executivo municipal
decide por isso, tal como no exemplo. Contudo, observa-se uma dinâmica na conduta do
próprio indivíduo que é achar brechas ou “frouxidão” nos limites da estrutura, ao transformar
sanções e constrangimentos normativos em uma negociação contínua. Ou seja, ao fazer
reparos e ajustes pontuais, a partir da verificação do comportamento alheio e da informação
experienciada no ambiente, constrói-se a possibilidade de agir por esta ou outra de maneira.
Inclusive, provocando o poder judiciário, outra esfera de poder e procurando se resguardar das
regulações que o cerceiam ou da percepção de práticas injustas. De fato, esta situação
ocorrida com os permissionários já instalados no interior do CPC pode ser considerada como
a terceira transferência. Contudo, restou claro aos permissionários como determinada decisão
no espaço “público” pode retroceder ou ser suspensa para fins que nem sempre estão de
acordo com suas vontades, como já haviam experimentado na via pública.
Inicialmente as unidades de serviços e de comércio estavam em torno de 317 boxes,
porém com a reorganização de um novo layout para a ampliação dos serviços públicos, em
2016, esse número foi reduzido. Além disso, certos serviços ocupam o espaço destinado a
dois ou três boxes, convém destacar que um box representa a menor unidade divisória de
trabalho e negócio no CPC, para os permissionários.
Para efetivar a distribuição dos boxes entre os permissionários, foi realizado um
sorteio, dias antes, que definiu o lugar de cada um deles no CPC, conforme a demanda. As
entrevistas relatam que, na semana de inauguração, o trabalho foi bastante intenso para
colocar prateleiras, expor da melhor forma as mercadorias e dar a arrumação final no seu box,
que agora encontrava-se com uma porta de rolamento. Embora a escolha deste lugar para o
CPC tenha sido questionada por alguns dos entrevistados diante de outros prédios que estão
fechados no centro da cidade. A narrativa da entrevista [Q1], em continuação, questiona a
localização do prédio em relação à distância do fluxo maior de consumidores, o que é repetido
pela entrevista [Q30].

Olha, realmente o nosso sindicato não teve, assim, uma conversa direta com nós.
Sempre acertavam entre eles, chegavam e se reuniam entre eles e nunca com nós.
Então, isso aí foi tipo um constrangimento com alguns dos nossos colegas da
categoria. Eles deviam ter chamado mais, escolhido um lugar, assim, mais próximo,
um lugar melhor para entrar num acordo com nós. [intervenção do pesquisador sobre
o local das reuniões] As reuniões aconteciam na prefeitura, eles se deslocavam pra
193

lá, nunca nós, escolhiam um entre eles e iam pra prefeitura. [...] Olha, o papel deles,
até que fizeram um papel bom, uma escolha boa, mas em outros termos poderiam ter
escolhido, ido atrás de um lugar mais próximo da parada de ônibus, próximo do
povão. Atrás de um local mais próximo para fazer o shopping. [Q1].

O temor mesmo era de não dar certo mesmo! De não dar certo pra nós! Mas a gente
sempre procurou que desse certo, mas não[...] Sabe, foi o tipo do local que a gente
escolhemos, que foi um local longe do centro. Que tinha que ter, ou que já fizesse,
um prédio perto de onde tem movimento, né? Fazer tipo uma galeria. Por ali tem
muitos, né? Se for falar assim [...] mas tem que tá perto das ruas. [Q30].

Dois dias antes da inauguração, as chaves foram entregues para que os permissionários
organizassem seus boxes. Entretanto, partes do prédio ainda estavam sendo “retocadas” e,
enquanto este pesquisador permaneceu no campo pôde observar as contínuas mudanças na
disposição do espaço interno do prédio. As empresas contratadas modificavam as formas
organizadas inicialmente e faziam novas adequações no ambiente, como abertura de entradas
laterais, elevador para pessoa cadeirante, painel central e distribuição de energia elétrica
individualizada, novos espaços de serviços, desfazendo e reposicionando alguns boxes. Por
outro lado, não é somente a ação governamental que “arrumava” e dava nova estética ao seu
objeto.
Em campo, observaram-se as práticas cotidianas dos permissionários em fazer o
reajuste do ambiente privativo dos boxes, a partir de seus interesses, necessidades e
experiências. Por meio das entrevistas e de conversas informais, soube-se que a disposição
interna do box precisava ser reorganizada de algum modo. Foram as práticas de ações
recíprocas, pequenos conflitos pessoais entre os permissionários, pequenos favores e vista
grossa, as burlas, não tão veladas, com a normatividade que produzirão um ambiente
incorporado pelas práticas cotidianas de adaptação e recursiva a experiências anteriores.
Um novo ambiente duplamente qualificado tanto pelas ações e normatividade do
poder público quanto pela rotina incorporadora dos permissionários. A experiência
socialmente construída pela prática cotidiana na via pública não é descartada, apesar de
vivenciarem novas regras em um novo ambiente, uma nova ordem de comportamento e
organização do trabalho. Como verificado, em vários momentos de interação entre os
permissionários, um tipo de cooperação e ajuda mútua ou mesmo forma de espelhamento de
conduta e a percepção mútua do ambiente em comum, anteriormente adotada, apresentam
determinada reprodução no CPC. Rotinas que tentam trazer sentido de pertencimento, de
produzir condições concretas de posse (mesmo que legalmente precária), ajustamento de
normas, realização de “cerimônias de adaptação” ou maneiras de proceder a diferenciação e
194

organização social no seu pequeno entorno. Representam microprocessos que produzem certa
ordem de interação que, de nenhum modo, encontra-se dissociada da experiência individual
ou de modos de interação já conhecidos, ou seja, a maneira de se construir uma nova
experiência nesse tipo de mercado e na organização do trabalho nos limites da estrutura
normativa/legal do CPC problematiza e pressupõe que essas ações situadas estabelecem
conexão e tipos de combinação entre a ordem “lá fora”/em via pública e a ordem “aqui
dentro”/no CPC.
Um fato prático e de demonstração de solidariedade pontual é o pedido ou a
disposição em cuidar do objeto de alguém enquanto este não se faz presente. Isto é uma ação
comum, compartilhada e inerente à ordem da interação e à experiência em via pública, do
processo de aprendizagem das relações interativas entre os pares mais próximos e que
fundamenta certa ação de reciprocidade, ajuda mútua e solidariedade86. A importância de
manter uma confiança prática, alguém que vai “reparar”87 seu objeto enquanto permanecer
ausente, pressupõe e constitui um problema empírico a respeito da forma subjetiva de regular
a continuidade do indivíduo nesse ambiente de trabalho e de negócio e na tentativa de manter
algum tipo de estreitamento de laço em condições comuns. Portanto, tem consequência direta
sobre a manutenção da situação de copresença representada pelo “objeto” do permissionário
ausente e, do mesmo modo, sobre a prática de minimizar conflitos e transtornos maiores entre
os pares próximos, seja pela falta de reciprocidade, seja pela reprodução de comportamentos
que exprimem condições de conduta semelhantes às condutas em via pública.
No CPC, durante a observação e nas entrevistas, era bastante comum e sem muito
constrangimento, alguém se aproximar do outro e solicitar: “pode dar uma olhadinha aqui pra
mim enquanto vou resolver um negócio ali, eu já, já volto. Não precisa vender nada”. A
verbalização do “pedido”, feito enquanto a pessoa já estava mesmo de saída ou apenas
lembrando algo já combinado anteriormente, apresenta a marca da linguagem, da prática e da
experiência da interação social de confiabilidade entre os pares mais próximos. A manutenção
da solidariedade possível, em um ambiente de paredes e portas que separam o trabalho e
negócio individualizados e em condições de concorrência e disputa por clientes, ainda é uma
prática concreta de percepção mútua entre os indivíduos e, também, resultado da percepção do
contexto não tão díspar a ponto de criar isolamentos e entrar em conflito com os pares nem a
ponto de produzir firmeza e densidade de coesão entre eles.

86
Uma participante expõe um pouco dessa solidariedade entre os pares próximos: “A gente divide as refeições
aqui, eu trago um pouco, ela ali traz um outro pouquinho e aí a gente se ajuda. Quase todo dia”. [Q11].
87
No sentido de cuidar, observar com atenção.
195

Além disso, a prática de ajuste, da organização do box do permissionário, na


adequação das mercadorias e na estética do objeto em face do comportamento e modos de
agir do outro, produz certa disputa e negociação do afrouxamento das normas que regulam o
funcionamento do ambiente. Pela observação em campo, pode-se notar a habilidade de
adaptar, de corrigir, de ajustar as condições que foram dadas para a organização do trabalho e
negócio no CPC. Por exemplo, as tentativas de melhorar as condições de temperatura do
ambiente, que se reproduzia por vários boxes, no “jeitinho” de instalar um ventilador no teto
do box, sem que esse objeto houvesse sido planejado para tal instalação elétrica, nem o box,
nem o ventilador. Era uma adaptação fora das normas reguladoras e em um pequeno espaço
que precisou ser manipulado e transformado para que cumprisse outra função, pois, o teto do
box também era utilizado e, entre outras coisas, servia como um minidepósito (alguns
permissionários fazem este tipo de uso, guardam pequenas mercadorias no forro do box).
A seguir, destaca-se a narrativa da entrevista [Q23] sobre a negociação das regras
internas e a prática cotidiana de adaptação. Evidenciam que a aplicação do Regimento Interno
modelando a estrutura de ordenamento das ações no CPC confronta-se diretamente com a
experiência anterior, das situações práticas e justificadas pela interação e experiência
socialmente compartilhada. Uma combinação complexa de interações dos indivíduos entre si
e destes com o amplo ambiente e seus objetos permitindo construir formas cotidianas de
resistência.

Notei discussões, mas não é nem discussão. Foi uma insatisfação! a palavra
correta. Uma insatisfação por causa de uma mudança! Foi uma mudança brusca pra
muitos. É que você tavaacostumado com um serviço e vem pra outro, trabalhando
com o mesmo, mas que é diferente pra gente que trabalhava na rua. É diferente
não só pela renda, mas por outras coisas. Por exemplo, aqui nos fizemo um curso de
reciclagem pelo Sebrae. É[...], por exemplo, eu fui fazer, porque gosto de fazer as
coisas que são benéfica, né? Mas, os colegas que fizeram, eles não absorveram pra si
a mudança que nós tivemos. Por exemplo, lá na rua, quando você tem um padrão,
[...] eu sempre trabalhei, eu fui uma pessoa responsável pelo meu horário. Eu
sempre cheguei cedo no meu trabalho, eu saía no máximo que eu podia explorar do
meu horário de trabalho. Rapaz, isso é complexo. Tem muitos quesitos que são
bom, mas não tão sendo cumprido. Este, por exemplo, o do horário. Pena, esse
do horário foi um levantamento que nós fizemos, mas não tem sido cumprido.
Entre outras coisas. [...] E aqui, o questionamento mais é esse, as pessoas não
querem! Pensam que tão lá na rua que chegavam 10 horas, 9 horas, 11 horas, 13
horas. E aqui tá acontecendo a mesma coisa, a pessoa dizia “eu trabalho por conta
própria, eu vou trabalhar se eu quiser”. Isso é uma ignorância, isso é tipo de
ignorância! Porque como é que eu trabalho por conta própria, o meu patrão sou eu,
minha renda quem faz sou eu, como é que eu vou ter esse luxo? Só se eu tiver uma
outra coisa. Mas, quando você não tem uma outra fonte de renda, vive daquilo
mesmo, tem que tá todo dia! O que tá havendo aqui é sobre isso. [Q23].
196

O fato de que nem todos foram para os CPCs, ao contrário, permanecem na via
pública trabalhando e negociando aparece como um dos problemas de maior conflito entre a
promessa de ordenamento da cidade e a transferência. Este impasse entre o plano de
transferência prometido e a prática da execução parcial provoca entre os permissionários do
CPC uma percepção de prejuízo econômico de um lado e de motivação para a retomada das
condições anteriores em via pública, de outro. A presença dos “camelôs” que aguardam nas
ruas é relacionada e notada na maioria das narrativas como um fortalecimento da tomada de
decisão dos consumidores em não frequentar o CPC. Por outro lado, na entrevista [Q6] é
possível observar uma amostra das narrativas que expõe a percepção própria das condições
mais gerais do mercado de trabalho em Manaus, tomando a experiência de sua própria
trajetória ocupacional e dos seus pares. Sabem qualificar os elementos que definem as portas
de entrada e saída do mercado de trabalho regular e das ocupações em via pública.

Mais ou menos. Discordei porque, na verdade, na reunião era uma coisa e depois na
hora de agir foi outra. É porque nós estamos aqui na mão da Secretaria [Semch], né?
Então, nós não podemos fazer nada cem por cento, [...] que o box pode ser repassado
pra família isso procede, tá em lei, mas a pessoa não pode se segurar nisso, porque o
que nós estamos vendo dos nossos mandatários que uma hora é uma coisa e depois
é outra coisa, ninguém pode ficar seguro, entendeu? A vida do camelô na rua não
vai voltar, porque isso vai indo, vai indo e vai virar lei; o camelô na rua, nos espaços
do centro da cidade, em nenhuma capital brasileira vai ter, isso vai ser lei. Mas essa
lei vigorando e o povo passando fome. Vai ficar sem opção, já está sem opção.
Ganha pouco, praticamente analfabeto, menos favorecido, aos 45 anos já não tem
mais emprego, as portas das fábricas se fecham, e aí? O que ele vai fazer? Vai
trabalhar alternativo, mas não tem mais como trabalhar alternativo. Vai lá pra
periferia, ele tálá na periferia passando fome, ele vai fazer o que na periferia? [Q6].

Ao adaptar-se à nova situação, como observadas em campo, o


permissionário/microempreendedor precisa incorporar as regras e as condições práticas da sua
atividade no novo ambiente. Isto quer dizer que as modificações na unidade mercantil (box) e
nos modos de expor seus produtos são resultados de incorporação do ambiente e da forma de
interação que permitem experimentar uma autonomia, mesmo que signifique quebrar ou
reajustar as regras do Regimento Interno. E, isto não se dá sem certa disputa na vizinhança,
sem avaliação e julgamento entre os próprios pares e com a gestão do lugar, o problema sobre
quem faz o quê e de que modo é feito. A prática cotidiana e forma de agir entre os pares, a
insatisfação com a representação coletiva e uma solidariedade pontual e certa reciprocidade
manifestam-se como traço persistente de relacionamentos e de condutas anteriores.
Compartilhar a refeição ou fazê-la de modo solidário, como algumas narrativas atestam,
197

sempre entre pares próximos, cada um trazendo um pouco, não somente demonstra o
momento tenso da transferência e da adaptação como é qualificadora dos pequenos laços e
das ações de solidariedade impostos pela condição ainda instável do CPC.
A conduta mais “frouxa” em relação às normas internas e a burla das regras que todos
deveriam cumprir contribuem para a ação de duas condutas em disputa, sinalizando outra
forma cotidiana de resistir e tentar responder pragmaticamente aos desafios do lugar, como
aponta a entrevista [Q12]. Primeiro, com a conduta de negociação conveniente e pontual tanto
em relação às regras como em relação à fiscalização dos agentes. Segundo, a percepção de
alguns é que essa conduta reiterada desorganiza o conjunto de atividades e a identidade do
lugar, principalmente no que diz respeito aos horários, padronizações e permanência no lugar.
Em contrapartida pode estreitar e fortalecer os laços de proximidade entre os pares, devido às
situações no ambiente em comum.

Ah, discordei sim de muita coisa. Como te falei, vim pra cá, tudo empoeirado, aí o
pessoal trabalhando [...], a gente passando pelo meio, correndo até o risco de se ferir.
Então, tem coisas que até hoje eu não aceitei. E, na desorganização que tá até hoje
também. Tá tudo bonitinho? Tá, mas é loja sendo vendida, é loja alugada e o
contrato que não pode nada [permite fazer]. Porque eu sou assim, se pode, pode; se
não pode, não se faz. Não é que eu seja perfeita, mas eu não gosto disso. Uma vez
aí, fizemos uma reunião e passamos horas [enquanto ela ia respondendo minha
indagação levantava-se para dar uma “espiada” num box, aberto, que vende roupas,
mais à frente, de outra permissionária que havia saído para resolver algo na rua. Em
uma dessas vezes,ela atende um cliente e negocia. Não pode vender uma loja, não
pode passar nem pro esposo, só se for pros filhos [...], pois agora vou providenciar
um filho pra mim, então. E agora aí tá podendo vender tudo, já. Num sei nem quem
é o responsável se é a prefeitura ou o sindicato, tá tudo errado. [...] Mas num tem
ninguém pra botar regra. Olha esse monte de mercadoria nas fachadas, não pode,
não dá nem pra ver o nome da loja [não é permitido no CPC afixar nada na fachada
do box além da placa com a identificação]. Teve um tempo [em] que eu coloquei
aqui [aponta para fachada] de propósito, de propósito bastante mercadoria,
vieram em cima de mim, foram falar pro secretário [da Semch]. Eu queria que o
secretário viesse aqui falar comigo, mas não veio. Aí, veio o Assis [presidente do
sindicato] falar comigo, eu tirei. Mas, aí voltei a colocar, mas aí não cobri a
fachada, coloquei do lado esquerdo e do lado direito aqui, mas dá pra ver o nome [da
fachada do box]. Da primeira vez, eu queria realmente viessem aqui comigo, pra
falar. [...] Porque ninguém tava fazendo nada [tom de apelo na voz]. Aí, eu disse, eu
só posso ajudar, se tiver no meu alcance, eu ajudo. [Q12].

Por sua vez, os impasses entre o “lado de dentro” e o “lado de fora” criaram um
ambiente de contraste, incerteza e conflito iminente. Uma linha tênue entre ficar ou sair de
vez, ou na melhor das situações, negociar com os problemas e as limitações impostas. Nas
próximas narrativas, tais impasses e problemas concretos são resolvidos por mecanismos de
tomada de decisão e ações variadas. À proporção que o permissionário se vê confrontado
198

como problema do declínio das vendas e a baixa expectativa de consumidores em curto prazo,
decide buscar um tipo de solução particularizada (em termos, pois tem de contar com uma
cadeia de situações e de relações pessoais com outros agentes). Isto implica, por outro lado,
que a solução pensada é movida pelo sentido do imprescindível e do premente, muitas vezes
no limite do emocional, inclinada mais a uma conduta que não mede as consequências
futuras. Em tais condições seria possível: a) posicionar-se pela quebra ou negociação das
regras internas, a fim de pôr em prática sua solução particular do “lado de fora”; b)
permanecer do “lado de dentro”, observando os procedimentos normativos e esperar uma
mobilização da coletividade que encaminhe determinada resolução de maior abrangência.
A ação situada que entrecruza os permissionários, geralmente, acarreta microprocessos
no interior do CPC, os quais, por sua vez, são ativados pela rotina de manipulação dos objetos
nas unidades mercantis, pela negociação com a normatividade que institucionaliza e ordena o
lugar e pela busca de solução imediata aos problemas percebidos em interação com o
ambiente. Portanto, torna-se nítido que as condutas e as rotinas cotidianas são estruturadas
tomando como referência a organização social da experiência em via pública. E, a rotina do
trabalho duplicado, para a maioria, está construída em torno das noções do “lado de dentro” e
do “lado de fora” do CPC, que passou a ser uma prática recorrente na ação situada dos
permissionários. Como salienta a próxima narrativa [Q11].

Vou te falar uma coisa que acontece aqui. Eu te falei que quando chega no dia de
domingo, eu tô trabalhando numa feira, que fica nessa rua aqui [aponta em direção à
av. Eduardo Ribeiro onde acontece todo domingo uma feira de variedades]. Olha
como é a administração daqui [...]. Trabalho lá na feira, obrigatoriamente porque não
tenho opção, então o que aconteceu, fui falar com o administrador daqui, o Assis
[Presidente do Sincovam, parte gestora do CPC], falei: “trabalho ali na feira, o que
você poderia fazer pra gente vir pegar nossa mercadoria aqui?” No primeiro dia ele
disse: “tá bom, vocês levam, tiram no sábado e no domingo quando terminar aí, vem
e colocar de volta, vê quem é o pessoal, coloca o nome das pessoas e tal”. [...] Olha
só a situação, eu não tô reclamando porque tenho carro, eu pego minha mercadoria e
sacola tudinho e coloco no carro. Olha só o trabalho, pego meu carro, 19horas,
20horas, da noite trago o carro, carrego a sacola e boto tudo dentro. E quando é no
domingo que saio da Feira, boto tudo de novo dentro do carro e só venho pra cá, na
segunda-feira. Ainda corro o risco de pegar uma multa bem aqui, porque tenho que
estacionar aqui perto na segunda pra devolver as coisas, porque domingo não
deixaram mais abrir. Agora que custa, ficam dois guardas que trabalham aqui no
domingo? E quem não tem carro como fica? Como a minha colega, ela pega o táxi
daqui pra casa dela com as mercadorias, e quando é domingo de manhã ela pega
outro táxi pra trazer as mercadorias domingo de manhã, ela mora lá no S. Jorge
[bairro próximo ao centro]. Segunda, ela pega outro táxi pra vir pra cá e o lucro foi
embora todinho. O que você acha? Tu acha que uma administração dessa é boa?
[grita um palavrão] Custava avisar um guarda [a guarda municipal que cuida da
segurança e vigilância do CPC] com uma lista de nomes e falava um horário, tal
hora, por exemplo, 14horas tem que vir botar a mercadoria. Pega, abre a porta, a
gente joga aqui dentro e vai embora, já tava mais morta do que viva. Na segunda-
199

feira a gente chega e arrumava tudo! Ninguém resolve nada! Só querem dificultar
nossa vida! [ela se exaspera]. [Q11].

Deste modo, a “in-corporação” do ambiente (na intenção de apreendê-lo para si), ou


em seu movimento duplo, a ação de dar corpo ao ambiente, por ferramentas e objetos que dão
ao lugar certa personalidade humana, quando da permanência nele ou da negociação com as
normas, reveste-se de múltiplos e interconectados motivos e justificativas. Ao contrário de ser
uma ação racionalizada isoladamente ou como tomada de decisão de caráter utilitarista, da
busca eficiente de resultados nos limites do modelo do ator racional, o CPC como ambiente
imerso numa cadeia de relações e percepções não deve ser caracterizado por uma
representação de ilha vazia ou nula de significados. Diante das normas, da fiscalização, da
mútua visibilidade, dos gestores do lugar, dos pares próximos, é preciso dar conta e
cognitivamente examinar as possibilidades bem definidas da ação situada. E, isto se apresenta
na prática, quando da percepção e da agência do ator, sob as conexões de sua rede de relações,
das informações que precisam ser acessadas e vinculadas ao problema e aos recursos
disponíveis e, fundamental, certa retrospectiva de sua experiência acumulada (FORNEL;
QUÉRÉ, 1999; OGIEN,1999).
Um processo contínuo de interação, pois, está entre os agentes capazes de certa
reciprocidade, mesmo por formas distintas de ajustar seu pequeno mundo de trabalho e
negócio, por utilizar certo vocabulário de motivos em comum, em aplicar a experiência
compartilhada e de recorrer à percepção mútua do ambiente onde se encontram e que, em tais
condições, podem indicar a prática de uma atividade situada socialmente. Neste enfoque, é
por meio de mecanismo interacional não apenas entre os próprios agentes humanos, como
também a percepção mútua da situação em face do ambiente do qual são parte juntamente
com seus objetos, problemas, soluções etc. Assume-se, assim, a análise de Louis Quéré sobre
a complexidade da ação situada para o agente: “[...] incorporado, ele compartilha estes
atributos com os objetos, artefatos, ferramentas e não humanos em geral. Situados dentro e
como parte de um ambiente [...]” (QUÉRÉ, 1998, p. 225).

3.6 COMO DEFINIR O LIMITE DA MUDANÇA?

Se a ausência de um fluxo de consumidores regulares e a minimização da “compra por


impulso” tem afetado, de forma negativa, a percepção do novo mercado “entre paredes”,
atinge comumente a maioria dos permissionários e é vista como fator primordial da posição
200

de resistência e desconfiança na ação governamental, criando um problema prático e pontual


lembrado por, aproximadamente, cem por cento dos entrevistados. Alguns consideram como
principal ponto negativo a falta de instalação de equipamentos que contribuiriam como
atrativo de conforto ao ambiente e evitar o seu esvaziamento, como a necessária utilização de
condicionadores de ar. Atualmente, além de um sistema de exaustores eólicos, em cada
corredor foi instalado ao menos dois ventiladores grandes de teto, ligados a partir da abertura
matinal do prédio.
Por outro lado, com a observação e a entrevista no campo empírico, verificou-se que a
tentativa do poder público em construir ferramentas que promoveriam o redirecionamento e a
atração de um novo perfil de consumidor, como forma de responder ao problema do pouco
movimento das vendas no local, acabou não apresentando um resultado esperado e duradouro.
As placas e sinalizações próximas, os anúncios em outdoors espalhados pela cidade,
chamando a atenção para o CPC, principalmente em datas comemorativas, pequenas
atividades festivas dentro e fora prédio (como comemorações juninas) e os anúncios
publicitários na televisão e rádio foram ações governamentais que acabaram, em sua maioria,
não se concretizando em resultados de atração de consumidor e de resolução do problema de
modo eficaz. No entanto, serviu muito mais para expor e destacar a própria ação
governamental de 2014 e de como aparenta o resultado da organização da cidade e do
controle sob o trabalho e negócio em via pública. Como expressa a narrativa [Q5], sobre
como desenvolve um duplo trabalho.

Olha, é a maioria que sai daqui pra vender lá fora mesmo! É daqui que vão
sobreviver lá fora. Pra comprar seu pão de cada dia e pra manter isso aqui aberto
[CPC], se eles não fizessem isso tavam tudo morto aqui. Vão de manhã naquele
momento, vendem e,umas 16horas, vêm embora. Porque se não, não estaria nem a
metade aberta aqui em baixo. São os daqui mesmo, poucos que são invasores! E
domingo também, porque eu também vou dia de domingo, tentar vender umas
mercadorias lá pra feira do São José [na periferia]. Mas a gente gasta muito, a gente
vende bem só que o custo é maior. Eu pago um frete particular, às vezes tem o carro
de um parente, também tem que pagar o da gasolina. Lá você paga. Eu não tenho
banca lá, eu tenho que alugar pra mim trabalhar lá, tem que pagar o aluguel e a água
pra limpar lá. E você tem que vender pra cobrir essas despesas aí. A gente tem que
levar pra casa [parte das mercadorias do box], no sábado [deduz-se que o final de
semana é que aguenta a semana] e aí traz o que sobra. [Q5].

Alguns entrevistados enfatizaram a ideia, sugerida às organizações representativas e à


secretaria da prefeitura, de que uma mudança na circulação e na parada de certas linhas de
ônibus mais próximas ao CPC poderia favorecer o direcionamento do fluxo de consumidores.
201

Como esclareceu um entrevistado: “é preciso fazer com que as pessoas sejam obrigadas a
passar por aqui, já que elas não vêm espontaneamente”, sua ideia é reproduzida na declaração
de outros permissionários. Ao organizar o trabalho do “lado de dentro” e do “lado de fora”,
parte dos permissionários, por sua vez, utiliza ferramentas de curto alcance comunicativo. Por
exemplo, a distribuição de anúncio impresso em panfletos, alguns ajudantes “puxadores” de
clientes da rua para o CPC (principalmente venda de semijoias), chamada com megafone e o
pagamento para um carro de som circular pelas quadras ao redor anunciando alguns serviços e
produtos do lugar. Essas ações mais pontuais e individuais pensadas para fora do ambiente, de
igual modo, são combinadas com a prática extensiva de saída para as feiras próximas, ou fora
dos limites do centro, como resposta mais imediatas à falta de clientes e de vendas.
Este tipo de combinação envolve arranjos práticos, nem um pouco simples, visto ser
articulada pelos próprios permissionários, com sua forma particular de organização do
trabalho “dentro” e “fora” do CPC, ocasionando interesses conflitantes com agentes públicos
e com a regulação interna do novo ambiente. Além de exigir diferentes formas de
manipulação de seus objetos e contatos externos, como algumas narrativas evidenciaram.
Combinações e arranjos que a um só tempo apresentam, de um lado, uma razão prática de
buscar lá fora, na via pública, seja nas feiras semanais ou na própria rua em situação de
disfarce e de risco, uma renda principal ou complementar ao trabalho e negócio no CPC. Por
outro lado, representam um grau de expectativa do conjunto de
permissionários/microempreendedores em manter-se dentro do prédio, não apenas estocando
com segurança suas mercadorias, mas construindo um sentido desejável do conforto, da
tranquilidade de proteção pessoal, da sensação de posse “privada” (apesar da precariedade do
contrato) e a impressão de um novo nível de status social. Ainda mais, tornou-se perceptível a
intenção de um autoconvencimento, compartilhado entre muitos, da probabilidade de
melhoria nas vendas e da situação em geral no ambiente após a “crise econômica”; ou mesmo,
da possível futura “negociação” do box (como ocorria na via pública).
Uma combinação complexa de qualificadores de atividades socialmente situadas
conforme a ação, a interação, a experiência e o contexto. Uma combinação que foi constatada
no campo empírico durante o processo de pesquisa como qualificadores teóricos que figuram
como “perda/ganho”, “dentro/fora”, “ajuntamento/pares próximos”, “movimento de ação
governamental/contramovimento de resistência”. Seguindo um traço da perspectiva deweyana
para apreender o caráter lógico de tal ordem construída na ação situada: “Como tenho dito,
uma situação qualitativa e qualificadora está presente como pano de fundo e controle de toda
a experiência” (DEWEY, 1938, p. 70).
202

Conforme afirma Louis Quéré (1998, p. 225), a recusa em ter/estar em uma situação é
equivalente a não querer ter nenhuma experiência. Deste modo, a ação situada no CPC tende a
aproximar a experiência dos próprios permissionários, situada temporalmente, às ações e
sentidos que estes incorporam por meio das atividades socialmente construídas e em interação
com o novo ambiente. As experiências anteriores (do trabalho e negócio em via pública)
podem ser percebidas concretamente, mesmo em um novo ambiente, na construção de prática
e de sentido atribuídos pelos permissionários à situação no lugar. Em consequência, os
processos de interação tornam-se mecanismos complexos de como os agentes tentam
responder às situações percebidas como negativas neste ambiente em comum. Negando ou
negociando o script montado pelo executivo municipal e seus mediadores, ou por não
encontrarem meios concretos para atuarem no cenário montado, ou por construírem
mecanismos de ajustes in situ para desenvolver suas atividades e manipulação dos objetos, ou
ainda, por visualizarem-se mutuamente e perceberem que seus pares próximos não produzem
a ordem do script, apesar de aparentarem fazê-lo (GOFFMAN, 1964; QUÉRÉ,1998).
Ao tentar reescrever um roteiro predeterminado que lhe é apresentado em dado
ambiente, cada permissionário, ao seu modo, constrói um conjunto de mecanismos sociais
que qualificam a pragmática da ação situada. Esta tende a estruturar determinada ordem
objetiva, na forma de organizar seus objetos, seu negócio e trabalho, ao mesmo tempo em que
busca responder às formas de controle e imposições do script do poder público. Portanto, o
agente toma o script das regras do regimento interno, da ordem do ambiente e da fiscalização,
reescreve-o em certos termos, redefine os objetos e negocia seu papel neste cenário.
Organizar o trabalho é dar um sentido prático em sua execução, dando conta dos
objetos, ferramentas e do ambiente que envolve qualitativamente o processo dessa ação: “[...]
No sentido de que realizar uma tarefa (sozinho ou em colaboração com outros) ocorre através
da organização concreta do curso da ação situada, isto é, pela produção local de uma ordem
observável, inteligível e descritiva” (QUÉRÉ, 1998)88.
A noção pragmática/etnometodológica de “produção da ordem local” é aplicada e
compreendida por esta investigação tanto como a possibilidade de observar, analisar e
construir a crítica e o cenário do CPC quanto apreender as consequências que dada ordem de
organização do trabalho representa para o conjunto de permissionários em sua nova

88
“In ethnomethodology, the expression ‘local production of order’ covers a wide area, because it deals with
ordering a sequence of activity, conforming to demands of meaning, coherence, relevance, and intelligibility, as
well as the interdependent structuring of a course of action and the environment in which it occurs, or again, the
arrangement of objects and tools in a work space in such a way as to produce configurations that can be used to
support the sequential and temporal organization of an activity” (QUÉRÉ, 1998, p. 226).
203

experiência de conduta. Assumindo como variável observável nesta ordem de organização, o


modo como os permissionários, ao “dar corpo” ao ambiente, processam a organização do seu
trabalho tanto em relação à interação com o ambiente, seus pares e seus objetos particulares,
quanto em relação à imposição, limitações e formas de constrangimento a sua agência. Por
exemplo, durante a observação das práticas de organização do trabalho no CPC, era comum
encontrar pela manhã, mesmo após as 10horas (horário oficial de abertura é às 9horas), uma
parte significativa dos boxes com as portas fechadas – em todo o período de observação e
entrevistas jamais se encontrou cem por cento dos boxes abertos. Ainda, durante a última
semana em que este pesquisador permaneceu no lugar, chegou a se deparar com pessoas
arrumando mercadorias em um box completamente vazio, como se estivessem chegado
naquele momento, o que poderia significar que nem todos os boxes foram preenchidos, ou
que alguns foram abandonados e assumidos por outro permissionário, ou ainda, que alguns
boxes estavam sendo alugados.
Ao encontrar os boxes ainda fechados, observava-se a rotina de abertura, arrumação e
o entorno do ambiente, os permissionários em momentos de distração ou à espera de clientes
ficavam sentados nos seus bancos ou cadeiras plásticas, ou cadeiras de balanço, seja no lado
de dentro ou no corredor.Muitas vezes limpando os produtos expostos nos balcões e
prateleiras ou conversando com seus pares sobre assuntos diversos. Era com esses que o
pesquisador tentava uma aproximação a fim de realizar a entrevista. As portas fechadas, de
uma parte dos boxes, somavam-se às negativas, fazendo com que se tentasse repetidas vezes,
em determinados dias e nada conseguisse. Em outros momentos, apenas um agendamento
prometido que algumas vezes não se cumpriam. A observação neste ambiente fechado e
quantitativamente determinado apresentou os seus contratempos e implicação nos rearranjos
das estratégias de investigação. Neste contexto do CPC, a diversidade das atividades de
comércio e serviço, as reformas internas, as condições de temperatura do ambiente, obrigou o
pesquisador, por diversas vezes, a ter de negociar a permanência e a continuidade em
determinados espaços de tempo para uma melhor observação de campo.
Se pela manhã, os permissionários arrumavam os balcões e as prateleiras, retirando
das caixas alguma mercadoria nova para pôr em exposição, como camisas, bolsas femininas,
bolsas escolares, brinquedos, cadernos, peças íntimas, roupas de academia, capas de celular,
dos relógios às garrafas térmicas nos expositores das lanchonetes, além das antenas de
televisão, das bijuterias, entre outras, organizadas tanto no interior do box quanto na parte
externa da loja, repleta de ganchos pendurados com mercadorias, descritas mais adiante.
Contudo, a arrumação matinal, com o tempo, ficou mais definida e tinha relação menor e não
204

exclusivamente com as mercadorias novas, porém muito mais com as mesmas mercadorias
que eram retiradas dos boxes e levadas para as feiras e outros espaços na via pública, no
sábado e domingo, e depois retornavam para o CPC. Alguns encontros com os participantes
da pesquisa foram realizados durante a arrumação do boxe, quando o permissionário colocava
em ordem a sua exposição, dispensando um pouco de atenção para mim e outra atenção para
sua tarefa e, de vez em quando, o esperado atendimento ao cliente. Pelo fim da tarde, em
geral, passava-se o tempo de forma mais reservada dentro do box, poucas conversas nos
corredores, resolução de problemas particulares e fechamento do box bem mais cedo do que o
previsto pelo regimento interno. Entre o final da manhã e aproximando-se o fim da tarde era
mais provável encontrar permissionários dispostos a concederem entrevistas, conversarem
mais abertamente e permitirem a gravação.89
Quando se considerou que poderia demonstrar que, nesse ambiente “entre paredes”, o
trabalho e o negócio dos permissionários teriam assumido o tipo característico, ao menos em
parte, de grupo com laços mais firmes, de um grau de relações mais estreitas, e maior
cooperação para o desenvolvimento do lugar. Então, este pesquisador se propôs a verificar tal
hipótese a partir das práticas de compra de mercadorias dos entrevistados, a respeito de: a)
onde comprava; b) se havia mudado o modo de comprar devido à transferência; c) se
comprava em grupo ou individualmente. As respostas apresentaram indicações de como a
organização dos permissionários neste CPC se constitui, afeta terceiros e em que ordem de
relações está estruturada o envolvimento na situação comum.
Em geral, a noção de ajuntamento90 ainda se faz presente como própria do tipo de
configuração organizacional das atividades no lugar, que apresentam um caráter estritamente
individual e não referente à noção de grupo ou de identificação coletiva. Resultando em
práticas de envolvimento mútuo mais frágil e em baixo grau de engajamento para esta
situação de prática de compras. Cabe considerar que, embora haja uma proximidade entre os
permissionários na ordem da experiência em ambiente comum, tanto em via pública quanto

89
A certa altura da rotina em campo, não precisava mais fazer uma longa apresentação pessoal, como no início.
Minha presença já era percebida e observada no ambiente e já mencionavam “a pesquisa” antecipadamente
quando eu começava minha fala introdutória de aproximação, mesmo que outro sentido fosse dado para minha
ação e intenção da minha prática – trabalho universitário, agente público de fiscalização, entre outros, ou na
indagação “você é de que jornal?/É uma reportagem?”.
90
Ratifica-se que a noção de ajuntamento utilizada neste contexto é considerada como o modo em que os
indivíduos demonstram-se conscientes da copresença, percebendo-se em atos de visibilidade mútua, mantendo
mesmo relações aproximadas e em comum, de grande possibilidade comunicativa, porém com baixo grau de
engajamento coletivo ou grupal e com demonstrações de afrouxamento da cooperação na maioria das práticas.
Possibilitando, assim, um corpo à vida social, mas como um mero agregado de pessoas presentes. Parte-se de
uma tentativa de síntese das definições sobre estrutura de envolvimento, propriedades situacionais e situações de
encontros discutidas no trabalho de Goffman (2010) e aplicada para a análise desta ordem de interações.
205

no CPC, a presença de limites definidores e qualificadores dos objetos, que “pertencem a


mim” e à “minha rotina”, são perceptíveis e prováveis mesmo entre aqueles com atividades
comerciais semelhantes, como aqueles que vendem aparelho celular ou produtos de
informática ou vestuário.
Em vista disso, propôs-se construir uma visão geral capaz de apreender a partir da
organização das compras dos permissionários no CPC na tentativa de demonstrar algum grau
de mudança na configuração da organização das atividades e condutas, se estariam mais
direcionadas para uma prática mais coletiva e na formação de grupos, com interesse de
compras de mercadorias em comum e ajuda mútua. Na análise abaixo isto foi verificado
tomando como referência as perguntas sobre compras de mercadorias para o box, presentes no
questionário aplicado aos trinta e um (31) participantes desta pesquisa.
O qualificador da individualidade na organização da atividade de compra de
mercadoria é um fato marcante e atesta o tipo de configuração organizacional das relações no
ambiente, praticamente noventa e sete por cento (97%) dos participantes realiza sempre
compras na forma individual (a pergunta – como costuma realizar sua compra de mercadoria,
se 1, em grupo ou se 2, individualmente, com alternativas: sempre, às vezes, nunca). Se na via
pública esse caráter já marcava a prática, não apresentou alteração após a transferência apesar
do ambiente diverso do anterior. Um baixo grau de confiança entre os indivíduos do
ajuntamento, um ambiente mais propício para a concorrência individualista e de interesse
egoísta ou, ainda, uma configuração entre indivíduos e ambiente que acentuaria a formação de
laços sociais mais fracos para a coletividade poderiam estar por trás desta negativa em
compartilhar a ação de compras no CPC, mesmo com mercadorias semelhantes.
Realizar a ação de compra seria, além de outros, um ato intencional que demandaria
ação reflexiva e um nível de escolha específico de como fazer, quando e qual a expectativa
disso. A possibilidade de escolher como comprar mercadorias nem é ilimitada nem ampliada
ou praticada por todos do mesmo modo, pois diversos constrangimentos, limitações legais e
inclusive barreira física ou restrições financeiras podem determinar obstáculos concretos à
agência dos permissionários. Logo, aqui, não se toma a intenção de realizar a ação de compra
como sendo transcendental ou puro ato mental, mas como ato pragmático de predisposição
para realizar determinada ação, levando-se em conta um processo relacional entre o estado
mental, a atividade concreta do indivíduo e o contexto ambiental que lhe é inerente.
Neste caso, quando o participante da pesquisa responde que realiza as compras de
mercadorias “de modo individual”, permite fazer algumas afirmações sobre a prática. De um
lado, há a possibilidade de inferência e de interpretação possíveis quanto ao mínimo traço de
206

solidariedade nos negócios ter sido impactado pelos limites e direcionamento de como o
processo de transferência se estabeleceu. Marcado diretamente pelas formas burocráticas por
meio do Termo de Adesão, como contrato unilateral entre a prefeitura com cada
permissionário individualmente e, tendendo a isolar cada “microempreendedor individual” no
seu box, responsabilizando-se por sua própria tomada de decisão e ações realizadas. Por outro
lado, pode-se inferir que a própria organização social da experiência que configura a
pragmática do ajuntamento, é construída com certa inclinação para uma cooperação menor em
relação à prática de compras das mercadorias vendidas em via pública. Além do mais, deve se
considerar a condição socioeconômica diferenciada entre os
permissionários/microempreendedores individuais, como descrito anteriormente, na qual
alguns deles “chegaram sem nada” no CPC vindos do “camelódromo provisório”91. De acordo
com a participante da entrevista [Q25]:

Nós passamos uma vida muito ruim nos seis meses lá no provisório. Você sabe, que
a gente não podia nem se mexer, nem como vender! A pessoa que está acostumada a
vender todos os dias, quando [vai] para aquilo é um deserto muito grande. E, ainda
tamo passando aqui, entendeu? Olha ali, tudo bonito, você vê, tem tudo, uma loja
dessa... Mas ninguém tá vendendo! Você vê uma loja dessas, mas cadê as pessoas
pra comprar?[Q.25].

E, por fim, a condição particular que cada permissionário possui para desempenhar,
racionalizar e determinar formas de manipulação do ambiente e dos seus objetos
possibilitando uma menor condição para a formação de laços mais firmes de solidariedade,
inclusive na prática de compras. O entrevistado participante que afirmou comprar em grupo
informou que fazia isso com pessoas que não eram do CPC e que compravam fora de Manaus
expressando sua reação com: “classe desunida é essa!”. A mercadoria que comercializava era
do tipo acessório de informática. Outro dado relacionado à prática de compras dos
permissionários evidencia que dezessete (17) dos respondentes, aproximadamente cinquenta e
cinco por cento (55%) mudaram sua forma de comprar (a pergunta – após a instalação no
CPC sua forma de comprar teve alguma mudança, com a alternativa se 1, sim ou se 2, não,
com o desdobramento, qual foi mudança). Neste grupo segue a indicação de mudança como
causada pela menor regularidade e quantidade na compra, por venderem bem menos agora
que estão no CPC (o que pode reforçar a individualidade e distinções no período de compras).
“Tá ruim de vendas, não temos lucro aqui pra vender”, afirmou o participante [Q10]. Outro
91
“Tem muitos que não tão nem vindo pra cá porque não tem como pagar condução ou comida. Não tem
mesmo! Num tem quem ajude, às vezes, pede tanto que ninguém quer mais ajudar, entendeu?” [Q1].
207

participante informou que foi o tipo de mercadoria vendida que mudou. Explicou: “Porque, na
verdade, a gente trabalhava com outras coisas, vendendo outro tipo de produto, por exemplo,
com meias, cuecas, variedades. Antigamente o dono daqui falou pra mim: ‘como a gente tem
mais segurança, agora a gente vai trabalhar com ouro’, que já era o planejamento, já. O
negócio do ouro começou aqui [no CPC]” [Q4]. Os respondentes que afirmaram que nada
mudou na prática de compras foram quatorze (14) representando quarenta e cinco por cento
do total. Embora tenham afirmado que a prática de compras não tenha sofrido mudanças, de
igual modo, alegaram a queda das vendas e, por conseguinte, menor ida ao fornecedor. Na
continuação da entrevista [Q28] e na narrativa da entrevista [Q14], os participantes
mencionam as mudanças na rotina para uma possível piora das condições.

Se mudou algo na rotina de compra? Rapaz, a alteração foi que a gente comprava
mercadoria, às vezes, quase todo o dia. Aí, agora, a gente compra por aí duas vezes
por mês, depende muito. Mudou muito as vendas. Diminuiu a ida ao fornecedor. Até
o fornecedor sentiu, também, a nossa mudança da rua. Todo mundo sentiu. Tem
lojista aqui, se você fizer uma pesquisa... Tem lojista que quer que a gente volte pra
rua! Volte porque na Eduardo Ribeiro... Eu vejo muitos rapaz que trabalha nessas
sapatarias aí [...], que falam, “Pô, depois que vocês saíram da rua, caiu muito as
vendas aqui, num é mais como vendia antes”. Mudou muito! [Q28].

[Modificação de rotina] Sofreu alteração, sim. Porque as compras que eu fazia antes
era bem maior, hoje em dia são menores, bem menos. Agora vou só uma vez por
semana, quando muito. Teve semanas aí que eu nem fui, nem um dia! De vez
em quando eu mudo minha rotina aqui, porque as terças-feiras eu tô na [feira da]
Aparecida [bairro nos limites da área central]. [Q14].

A terceira questão foi onde compra sua mercadoria, com as alternativas se 1, no


mesmo lugar que antes ou se 2, em outro lugar. Do total de participantes, foi escolhida a
alternativa “no mesmo lugar que antes” por vinte e quatro (24) respondentes, ou seja, setenta e
oito por cento (78%) do total. Se de um lado, compram no mesmo lugar, por outro lado, em
geral isso não significa que compram na mesma quantidade ou no mesmo ritmo anterior, ou
na mesma condição de crédito. Como mencionaram alguns respondentes, anteriormente em
via pública algumas compras no fornecedor eram garantidas por notas promissórias de uma
semana para os “camelôs” mais antigos, uma confiança também baseada no fluxo rápido de
estoque. Este dado pode também ser interpretado a partir da prática de quem já comprava fora
de Manaus, um percentual pequeno, porém ainda menor nesse contexto. Por fim, a alternativa
“em outro lugar” foi a escolha de sete (7) dos respondentes, representando vinte e três por
cento (22%) do total. Neste caso, afirmaram que depois da transferência passaram a comprar
208

em outro fornecedor. Em parte, motivados inicialmente pela mudança imposta às novas


condições de crédito e, fundamentalmente, pela busca de melhor oferta de preço e variedade
das mercadorias em novos fornecedores.
Ainda sobre as escolhas por outro fornecedor e por mercado fora de Manaus são,
sobretudo, de permissionários que comercializam mercadorias como telefone celular, diversos
produtos de informática, vestuário de peça íntima e vestuário de marcas “pirateadas”. O
mercado da cidade de São Paulo como escolha para a maioria dos respondentes que mudaram
e, para uma respondente o mercado na cidade de Fortaleza, onde adquire vestuário de peças
íntimas.
Outra pergunta foi se as compras eram feitas em Manaus, com as alternativas se 1,
para “totalmente”, se 2 para “a maior parte”, se 3 para “nunca”. Os dados levantados
apontaram sobre o total de participantes em números absolutos que vinte e um (21) compram
suas mercadorias “totalmente” em Manaus; sete (7) compram suas mercadorias “a maior
parte” em Manaus; três (3) responderam “nunca” compram em Manaus. Em conseqüência,
para tais respondentes, podendo extrapolar para os demais
permissionários/microempreendedores individuais, a maioria continua comprando suas
mercadorias em Manaus. No entanto, não se pode afirmar que o dado “totalmente”, escolhido
por um número maior de respondentes, seja reflexo da melhora nas vendas no novo mercado.
Na medida em que as narrativas demonstram que o volume de compras está bastante
reduzido, pois o giro no estoque de mercadoria foi afetado pelas baixas vendas no box, além
de ter encontrado maiores restrições de negociação de crédito e de prazos para o pagamento
das mercadorias. A explicação dada pelos respondentes acerca da mudança na forma de
comprar sugere que o mercado local pode ter sido afetado de algum modo com as condições
concretas que permissionários enfrentam no novo mercado, no contexto da transferência e da
adaptação. Apesar de a maioria afirmar que continua comprando “totalmente” em Manaus,
contudo tais compras acontecem em menor volume de mercadorias e em maior espaço de
tempo92.
Os dados possibilitam interpretar que a alternativa “às vezes” escolhida pelos
respondentes, pende de modo mais favorável para a alternativa “totalmente”, acrescentando
que a uma maior parte das compras está direcionada para o mercado local. Entretanto, vista

92
Não se está levando em conta, neste trabalho, a análise dos dados macroeconômicos sobre a chamada “crise
econômica brasileira” e a taxa de desemprego na cidade, o que causaria outras explicações que poderiam fugir
do objetivo desta pesquisa. No entanto, demandaria outro trabalho de investigação, análise e a possibilidade de
fazer convergências, comparações e interpretações entre a triangulação de fenômenos distintos como a
localização do CPC, a estagnação nas vendas e a taxa de desemprego na cidade no mesmo período.
209

por outro prisma, a informação pode ser interpretada como o modo de ação reflexiva
indicando que alguns permissionários tentam manter ou buscar em outro mercado fora de
Manaus uma quantidade “menor” de suas mercadorias, como parte importante da dinâmica
complementar de compras. Por outro lado, não se pode afirmar com segurança se essa
dinâmica foi posta em prática ao longo do tempo, nos anos recentes ou se estaria relacionada à
busca de alternativas para o novo contexto encontrado no CPC. De fato, a prática de comprar
parte da mercadoria fora do mercado local pode demonstrar que a distribuição de algumas
delas em Manaus sofre com a escassez e os preços elevados para esse perfil de comércio que
recentemente saiu da via pública sem um mercado consumidor definido e, provavelmente,
sem um tipo de localização favorável em relação à anterior.
As narrativas no CPC combinadas com as reportagens locais possibilitam inferir que o
“comércio de camelô” em sua organização da experiência social utilizava de táticas e
oportunidades para comprar fora de Manaus, em viagens ao mercado paulistano nos anos
recentes. Buscando diversos fatores que proporcionassem alguma melhoria de lucro quando
do retorno às vias públicas de Manaus (um desses fatores era a variação do dólar para aqueles
que pretendiam adquirir certos produtos importados) (MESQUITA, 2009, p. E4). No entanto,
isso se restringia a determinado tipo de mercadorias, a certas atividades e a uma condição
prévia de investimento para arcar com os custos. As narrativas abaixo falam sobre como o
mercado de São Paulo tem uma importante ligação como o mercado local. As duas narrativas
demonstram a seguir a ligação do mercado manauara com o mercado paulistano, uma foi
retirada da entrevista de um jornal em 2009 (ainda com o ajuntamento em via pública) e a
outra é de um participante desta pesquisa no CCP. Em perspectiva, comprar no mercado fora
de Manaus pode implicar em uma ação com o caráter de parceria entre os indivíduos do
ajuntamento, que atuam neste circuito comercial para abastecer suas bancas.

“Os preços dos produtos de São Paulo são 50% menores do que os de Manaus. De lá
eu trago celulares, câmeras digitais e roupas. Compro coisas que não têm aqui e
vendo todo dia. Se comprasse em Manaus não venderia a mesma quantidade. Vendo
os produtos com preço de atacado e apesar de ganhar menos, vendo muito mais do
que com o preço de varejo. É vantajoso comprar lá. Pago o frete do transporte aéreo
e o ICMS da nota de 13% (em São Paulo)”, de Celso Albuquerque, 33 anos, 7 anos
no entorno da Praça da Matriz, sua permanência na capital paulista é de no máximo
5 dias, só em dezembro de 2008 ele viajou três vezes para abastecer o estoque”
(MESQUITA, 2009, p. E4).

Compro mercadoria em São Paulo. Vamos em grupo, mas a compra é individual.


A gente vai em grupo, mas cada um compra o seu. A gente tenta economizar o hotel
e o táxi, dividir o peso do frete e do hotel. A gente não recebe [nota fiscal] de lá
porque eles também trabalham sem nota. O produto deles é tudo sem nota. Mas aí a
gente vai numa outra empresa e compra uma nota, paga lá os 10% deles e manda
210

pela transportadora. Não teve mudança na forma de comprar depois da transferência.


Comecei comprando aqui, mas depois fui pra São Paulo comprar tudo lá. Mas,
quando eu comprava aqui, eles também faziam isso, revendiam aqui de lá. [Q31]

O que marcava, ou marca ainda, a prática de compra dos permissionários em via


pública, principalmente, é o fato da rápida venda da mercadoria (seja pelo período sazonal,
pelo fluxo intenso de transeuntes, pela localização privilegiada), portanto, o rápido giro no
estoque e o curto prazo de retorno do investimento. Um respondente declara que quando
estava na Rua Henrique Marins, de “hora em hora” tinha de repor as mercadorias na banca,
pois não demorava muito para vender e precisar de bolsas novas no lugar e, fazia esta
reposição do estoque nos importadores atacadistas em Manaus mesmo. Além disso, convém
frisar que entre todos os participantes da pesquisa, quando perguntados sobre o serviço de
venda com base em produção própria, o percentual é abaixo de cinco por cento do total,
apresentando um resultado praticamente inexpressivo nesta questão. A maioria afirmou
comprar ou de atacadista local ou encomendar produção de terceiros ou comprar em mercado
fora da cidade. Durante o período de observação em campo, pôde-se encontrar somente três
boxes que vendiam algo de produção própria no CPC, uma pequena lanchonete que fazia
bolos por encomenda, um artesão de colar e pulseiras e um box onde a permissionária
produzia e vendia panos para limpeza bordados e pintados à mão. Mesmo assim, era
perceptível que essas produções próprias não tinham exclusividade no box, dividiam espaço
no balcão com outras mercadorias compradas de terceiros, em uma quantidade maior ou igual.
Por fim, a alternativa “nunca” compra no mercado de Manaus, apresenta ser uma
escolha de poucos respondentes, menos de onze por cento. Mesmo quando se agrega à
alternativa a compra de um percentual menor de mercadorias para aqueles que compram fora
da cidade de Manaus. Além disso, a maioria destes que mudou sua prática de compra ou que
combina uma dinâmica de compras com parte menor da mercadoria fora de Manaus,
somando-se àqueles que nunca compram na cidade, tem no mercado paulistano sua escolha de
compras, realizada de forma individual. Assim, embora seja possível encontrar algum box
vendendo produção própria, diante do número de permissionários/microempreendedores
individuais não representa a situação real da maioria, visto que comprar de terceiros ainda é
uma característica marcante no CPC. A seguir a entrevista [Q11] traz uma amostra sobre
mudança de rotina, lucro nas vendas e organização das compras. E, desta vez a partir do
mercado em Fortaleza, no Ceará.
211

Totalmente comprada de terceiros [...], tem uma senhora que costura pra mim, eu
compro material pra ela costurar pra mim lá na casa dela, negocio com ela a mão de
obra. Uma parte pequena, mas a maioria eu compro de terceiros, sim. E, também de
uma mulher que vende aqui pra mim. [alteração de fornecedor] Quando a gente
comprava muito de um único fornecedor, ele vinha com a gente, a gente ganhava
desconto, ganhava um prazo maior pra pagar, ia pagando devagar. Hoje, em dia a
gente nem encontra mais nem o revendedor aqui oferecendo, o fornecedor sumiu
porque ninguém quer mais vender, não querem vender a prazo, porque sabe que não
tem mais condições de pagar. Vou te dar um exemplo, ainda comprei em Fortaleza,
em dezembro, mas tô cortando custo [ela sorri]. O que acontece [...] eu tinha três
fornecedores, um de Fortaleza, e dois daqui de Manaus. Em dezembro eu comprava
R$ 30.000,00 de modelador [tipo de peça de vestuário]. Só de modelador eu
comprava de Fortaleza, R$ 15.000,00, esse ano comprei só R$ 2.500,00 e, ainda
tenho modelador aqui [aponta para as mercadorias]. Isso só modelador!. Eu vendia
10 modelador por dia! Pra tu ter uma ideia, quando tavana rua.[...] Eu trabalho com
esse fornecedor de Fortaleza há muitos anos, então eu ligo pra ela e peço pra ela
despachar pra mim. Agora, sabe quando eu comprei isso aqui? Em dezembro, ainda
tá tudo aqui até hoje. Isso aqui nem pra alugar presta [referindo-se ao box], como
é que o cara vai pagar? [Q11].

Dos 31 entrevistados, apenas cinco comercializavam exclusivamente vestuários. No


geral, este tipo de mercadoria também pode estar acompanhado de outras mercadorias
diferentes, como perfumaria ou chapéus. Os boxes de vestuário são os que mais preenchem o
espaço frontal, mas não exclusivos nem são predominantes dentre os boxes do CPC, até o
momento da pesquisa. De fato, pode-se falar sobre boxes em número menor referindo-se
àqueles que prestam serviços (só há um box de sapateiro e dois boxes de salão de beleza, um
box de reparo de máquina fotográfica digital, um box de reparo e costura de roupas).
Em os boxes predominantes são os que apresentam um mix de mercadorias e serviços,
organizando-se em torno da demanda de diferentes clientes, mesmo que não haja proximidade
entre as mercadorias expostas. Onde se vende bolsas femininas também é possível encontrar
cintos, chapéus e perfumarias; a permissionária entrevistada, além de comercializar pijamas e
camisolas, vende crédito de celular; o box que presta serviço de fotografia (documentos,
festas, confraternizações) também vende e faz reparo em máquina fotográfica; o próprio box
do sapateiro enquanto presta serviço de reparos, vende chinelos e cintos em couros. Esse mix
de oferta de mercadorias e atividades, na prática, representa um meio de ampliar os ganhos
pela diversidade, oferecendo uma combinação entre o tipo de atividade principal e a
complementar.
No entanto, há uma boa dose de relatividade na prática de organização dos trabalhos e
negócios, tanto na atividade de prestação de serviços quanto na atividade de comercialização.
Como no caso daqueles permissionários que vendem aparelhos de celular e, simultaneamente,
prestam serviço de reparos e outros. Ou, é possível encontrar, mas em quantitativo bem
212

restrito de boxes, os permissionários que comercializam um único tipo de mercadorias, box


especializado, como, por exemplo, de produtos naturais e homeopáticos, de capas de celular
ou moda praia.
Na organização estética dos boxes no CPC, é bem comum o permissionário que
comercializa vestuários utilizar todo o limite do exterior do box para organizar as peças, que
ficam penduradas em ganchos umas próximas às outras cobrindo, assim, seu espaço frontal (o
que, em tese, quebra de uma das regras do regimento interno); fato não exclusivo do
vestuário, visto que outras mercadorias como bolsas, mochilas e brinquedos também seguem
esta forma de organização. Muitas vezes já se aproximando e sobrepondo as mercadorias de
outro box que também seguem esse padrão. Esta atitude prática tenta facilitar tanto a
visualização das mercadorias oferecidas, se de malha, vestido, peça íntima, infantil, de banho,
tipos de brinquedos ou bolsas, em diferentes tamanhos, formas e cores; quanto facilitar a
manipulação do objeto pelos possíveis clientes; além de servir para chamar a atenção, apontar,
tocar ou explicar algo para quem procura aquele tipo de mercadoria. Expor, atrair a atenção e
impor uma visualização marcante como forma de organizar o trabalho e negócio continua
sendo uma das estratégias mais empregadas pelos permissionários tanto quando estavam em
via pública quanto dentro do CPC.
Os boxes localizados nas esquinas da quadra têm duas aberturas, uma para frente e
outra lateral, enquanto aqueles instalados nos corredores apenas uma única porta principal.
Dessa forma, a condição de maior visibilidade já estabelece um ganho a mais para estes “da
esquina” em relação ao seu par mais próximo do corredor. Os boxes “da esquina” apresentam
diversas ocupações instaladas, entre as quais salão de beleza, lanchonete, reparo e venda de
celular, vestuário, venda de capas de celular, variedades e miudezas, brinquedos e, mesmo,
algumas portas fechadas. Embora o acesso ao mezanino possa ser feito tanto por escadarias de
ferro como por escada rolante, ambas no hall de entrada do prédio e em escada tipo caracol
em dois cantos extremos pela entrada dos fundos e pela frente, apresenta uma ausência
significativa de clientes. Neste piso, estão os serviços públicos do PAC, serviços de quiosque
bancário, lotérica e praça de alimentação, há diversos boxes, onde a maioria é de
comercialização e a minoria de serviços, como reprografia, chaveiros e reparo de relógios. No
entanto, muitos boxes passam a maior parte do tempo com as portas fechadas, mas não quer
dizer que não tenham permissionários. O prédio também conta com um elevador de acesso
para pessoas com necessidades especiais. Durante o primeiro semestre de 2015, no momento
da realização dessas entrevistas, alguns permissionários comentavam sobre as instalações das
escadas rolantes e do elevador de acesso especial.
213

É importante destacar dentro dessas características de organização do trabalho e do


negócio no novo mercado, juntamente com o aspecto da forma de compras e da oferta de mix
de mercadorias e serviços, os casos comuns de jornada duplamente combinada, que vem a ser
uma jornada relativa ao horário na “Galeria” e outra relativa ao horário fora do lugar
(ocupação com efeito de renda, não doméstica). As próximas entrevistas [Q10] e [Q16]
apresentam o modo que alguns permissionários se ajustam diante do contexto do CPC,
mudando suas rotinas, construindo uma jornada de trabalho “do lado de dentro” e “do lado de
fora”.

[fora daqui] Vendo também na Feira do S. José, final de semana. Porque na semana
passada [...] sabe quanto vendi na semana inteira? R$ 65,00, vendi só isso. Levo
tudo pra vender na Feira do S. José [zona leste de Manaus] e sabe quanto eu vendi lá
na Feira em menos de quatro horas? Vendi R$ 500,00. Eu levo toda essa
mercadoria. Pego boto na sacola e levo tudo pra lá e compensa a semana daqui. Na
verdade o box lá é da minha colega e ela passou pra mim por enquanto, porque
ela não tá usando. Ali pra mim é um escape. Ela não quis mais porque tá fazendo
faculdade de gastronomia, ela não quer mais saber desse negócio de venda. Ela
disse: “Vai trabalhando aí”. Então é essa mesma que levo pra lá [o vestuário de
peças íntimas]. As meninas vendem aqui pra mim, minhas fornecedoras, às vezes
pago à vista, às vezes em três dias, uma semana [...], as calcinhas ou sutiãs que eu
compro. Não recebo nota fiscal porque as moças que me vendem, que eu compro
aqui, elas mesmas que fabricam e não dão nota. [...] Houve alteração nas minhas
compras porque parei mais de comprar, eu comprava tudo num atacadista, agora
não, eu compro de duas que são minhas fornecedoras. Compro tudo aqui em
Manaus. [Q10].

[Outra ocupação além do CPC] Eu tenho, sim, porque pra me poder sobreviver
agora, como eu tô vivendo, né? Eu tô levando algumas roupas, algumas mercadorias
daqui, e vendo lá pela vizinhança pras pessoas pagar a prazo, parcelado. Assim, pra
me manter. Às vezes, vou pegando uns calote dos que não pagam. E, a gente vai
abrindo aqui também [CPC], não sei até quando. Eu compro as mercadorias de
terceiros. Nas lojas que vende por atacado aqui no centro mesmo. Às vezes, os
fornecedor num quer nem vender pra nós, pra pagar depois. Porque ninguém tem
mais dinheiro. Lá na rua faziam questão de deixar, lá na banca. Aqui não, você
tem que dar um jeito de pegar [...]. Tem que ter dinheiro pra comprar agora, né?
[...].Eu já tive uma época que tive desanimada, uns dias aí, muito desanimada
mesmo, querendo até sair daqui. Principalmente, quando chega mais perto os dias de
pagar as contas, aí a gente fica aperreada. Aí a gente volta pras calçadas, tiro as
coisas daqui e levo pra lá, perto da Praça Adalberto Valle, fico até as 13 horas, 14
horas. Pra ver se ganho pra pagar as contas, pra honrar nossos compromissos. [Q16].

Tal agência constrói uma jornada duplamente combinada que, de um lado, conecta a
proposta do novo mercado, o CPC com o mercado tradicional e comumente conhecido, a via
pública. Por outro lado, apresenta-se como forma cotidiana de resistência à imposição de
normas e controle da conduta, além de ser uma disposição para responder de forma
pragmática às condições concretas de escassez do fluxo de consumidores, ativando
214

determinadas estratégias de sobrevivência anteriormente experimentadas. A combinação


simultânea de duas situações de trabalho, no prédio público e na via pública, além do arranjo
entre estar como permissionário/microempreendedor individual negociando em um mercado
mais regulado e controlado e estar como permissionário/camelô aplicando uma estratégia de
aluguel ou cessão de um espaço na via pública, feiras e ou eventos não regulados pelo
governo demonstra que o tratamento da ação situada no CPC traz maior complexidade ao
fenômeno da ação governamental de transferência, do processo de formalização e da
construção social do mercado.
Ao observar alguns detalhes do CPC, chama atenção o seu ambiente interno que não é
silencioso, nem tão barulhento quanto poderia ser um mercado de bens e serviços,
provavelmente seja reflexo da ausência de clientes e da pouca aglomeração nos corredores,
percebem-se, portanto, sons mais pontuais, específicos. Para um visitante, pode chamar mais
atenção o barulho dos grandes ventiladores ou dos instrumentos de trabalho dos funcionários
que fazem reformas, ou mesmo as conversas entre grupos de permissionários pelos
corredores. O som mais impactante para quem entra pela primeira vez vem dos grandes
ventiladores, girando a toda potência, tentando sem muito sucesso aliviar a temperatura
elevada no ambiente, outro detalhe que chama atenção. Além disso, há permissionários que
vendem certos produtos de sonorização, como som automotivo ou de equipamento
eletroeletrônico, que “testam” por alguns minutos a fim de demonstrar o potencial do objeto
ao possível comprador. E, algumas vezes, até por tempo prolongado, quando o utiliza como
distração pessoal.
Quando inquiridos sobre pontos positivos e negativos do trabalho e negócio no CPC, a
maioria apresentou como fator negativo principal a ausência de consumidores e, por extensão,
o declínio das vendas. Entretanto, nota-se em alguns participantes a indicação do aspecto
negativo como mais associado à ordem do próprio ambiente e não ao consumidor. Assim,
menos relacionados à intenção do consumidor em comprar no CPC envolvendo os aspectos
peculiares de sua tomada de decisão e mais vinculados às condições favoráveis ou não dos
ambientes interno e externo. A solução para acabar com o fator negativo, segundo os
entrevistados, estaria nos ajustes das distorções que o processo de transferência vem
apresentando até aqui e não se descartou, inclusive, a intensificação da propaganda e da
informação sobre o lugar traria resultado mais imediato. Como apontado pelas entrevistas
[Q3], [Q7] e [Q8].
215

Negativo [...], o único ponto negativo que vejo aqui é que é muito calor. É muito
calor aqui. Deveria ter uma central de ar pra refrigerar melhor, até mesmo os clientes
reclamam da quentura, agora é porque o tempo não tá tão quente, mas quando
chegar mesmo o verão, aqui fica muito quente. Esse é o ponto negativo, deveria ter
uma central de ar pra dar gosto pros clientes. Porque a gente mesmo usa nosso
ventiladorzinho aí e convive, né? Mas os clientes reclamam muito, que é muito
quente e abafado. [Q3].

O ponto negativo é que não tem ar-condicionado aqui, é uma coisa negativa. Todo
shopping tem ar-condicionado, tudo que é Galeria tem ar-condicionado. Eu acho que
isso é negativo, entra aqui é quente, se fosse verão tu tava todo suado aí. [...] Porque
aqui é um shopping falta só arrumação. [Q7].

Negativo é porque os “invasores” estão aí fora. Tem que tirar os invasores pro
cliente procurar a Galeria. Enquanto tiver os invasores, ele não vem atrás da Galeria,
porque tem lá e eles vão pra lá [...] [Q8].

Ao assinalarem que a falta de cliente e as vendas quase nulas podem estar relacionadas
a outros fatores, não necessariamente à intenção do consumidor, acabam por interpretar o
processo de transferência e sua forma de execução como uma prática inconclusa, parcial e de
desempenho abaixo da expectativa. Os equipamentos de escada rolante e elevador foram
instalados somente no final do primeiro semestre de 2016 e, ainda, aproximando-se o final do
segundo semestre resta um quantitativo significativo de permissionários/“camelôs” nas ruas
“esperando” a transferência/deslocamento e, ainda outros retornando às vias públicas. O fator
da localização geográfica, percebida como mais afastada dos limites desejáveis do
“Centrão”93. Agrega-se a este problema a permanência dos pares na via pública e a sensação
de que o processo não ainda não foi concluído. Segundo os participantes estes problemas
chaves deveriam ser solucionados caso se deseje a melhoria do projeto “Viva Centro Galerias
Populares” e um resultado bem sucedido para a ação de transferência. A continuação da
entrevista [Q31] apresenta uma amostra dessa percepção negativa centrada na localização do
novo mercado.

Muitas pessoas não conhecem, e outra, aqui fica um pouco distante lá do “centrão”
ali debaixo. Então, as pessoas basicamente procuram a central e a Marechal
Deodoro. Então, fica difícil, fica distante tu vim da Marechal pra cá. As pessoas que
vem pra cá são as pessoas que vem lá da parada de ônibus e descem lá pra Eduardo
Ribeiro, daí as pessoas não sobem porque não tem nada pra cá pra cima
praticamente! Então, só quem vem são esse pessoal que desce a [rua] 24 [de maio],
as pessoas que estacionam, porque tem muita garagem por aqui. São as pessoas que
vem. Muitas pessoas chegam aqui através de perguntar: “ei, onde que é o shopping
dos camelôs?” Chamam de shopping dos camelôs, a pessoa vem andando e acaba

93
Significa a localização do CPC em relação ao chamado “centrão”, o termo nativo que representa um limite
geográfico que neste contexto se vincula ao fluxo intenso de transeuntes.
216

chegando aqui. Creio que nem é a divulgação que falta. Divulgação tem, tem carro
aí direto [propaganda volante]. A localização, né? [...] No caso, eles poderiam
pegar, fazer um modo de, deixa eu ver [...] Aqui, essa rua aí é a estação do ônibus, a
parada dos ônibus ali. Como essa rua aqui é estreita, eles poderiam fazer só um lado
de estacionamento, porque aqui é os dois lados de estacionamento, fazia só de um
lado, pras pessoas chegarem até aqui, fazer um ponto principal. Eles poderiam ali na
frente, dali do Colégio Militar descer só os alternativos [ônibus do transporte
público tipo micro-ônibus], descerem por aqui e fazer uma parada aqui na frente, aí
seria um ponto! Aí as pessoas, não é por precisão das pessoas virem, mas porque é
obrigatório, tá entendendo? Seria mais divulgado, as pessoas saberiam mais,
aumentaria as vendas, o fluxo. [Q31].

Por outro lado, os pontos positivos destacados pela maioria de entrevistados reforçam
o aspecto contraposto ao ambiente em via pública. Em suma, a pergunta relacionada aos
pontos positivos do lugar sempre remetiam à experiência da via pública. O termo “segurança”
como resposta em praticamente cem por cento dos participantes da pesquisa se torna a mais
indicativa percepção sobre o lugar. Neste caso, vem atrelada aos seus múltiplos sentidos como
segurança pessoal, de organização, de proteção contra as intempéries e de proteção para as
mercadorias que ficam trancadas no box. Além de segurança, outros dois termos ganham
destaque, como limpeza e tranqüilidade, permeando as narrativas. Tornando-se um lugar
excelente se houvesse um fluxo contínuo de consumidores, segundo o depoimento de alguns
permissionários. Em geral, a percepção de “segurança” aprece como intenção fundamental no
que diz respeito ao desejo de permanecer no prédio e produzir uma expectativa de melhoria
nos negócios.
O quadro 2 a seguir pretende esboçar o quadro geral das atividades com as quais os
entrevistados estão envolvidos. Os tipos de atividades não devem ser desconsiderados em
suas formas sobrepostas ou pelas práticas concretas de manipulação do objeto, existindo certo
grau de dificuldade para determinar o aspecto de uma classificação única do tipo de atividade
realizada no box ou isolá-la de aspectos importantes da experiência pessoal e das
consequências de interação com o ambiente. As combinações e os arranjos das atividades
desenvolvidos no box continuam seguindo o traço da multiplicidade tanto na organização da
experiência em via pública e podem refletir a trajetória pessoal do permissionário.
Foram separadas em duas atividades básicas: comércio e serviços, e tomaram-se os
tipos de atividades levando em conta as características dos arranjos e ordenando-as como
principais e secundárias. Como tipo principal de atividade considerou-se o objeto com o qual
o permissionário revelou se ocupar por mais tempo durante o período de permanência no
lugar e observou-se como este o organizava de modo mais visível. Este artifício empírico da
pesquisa de campo em considerar a exposição dos objetos manipulados, como parte da
217

identificação e descrição do tipo de atividade, foi primordial para destrinçar os arranjos e


objetos que não poderiam ser apreendidos como únicos e restritos a tal atividade e tipo; nem à
primeira vista, nem à segunda vista. Ratifica-se que ao chamar de “tipo secundário” para a
atividade, o termo não tem o sentido negativo tampouco é tomado na prática de uma
atividade/tipo de atividade/objeto como sendo menos importante ou de valor desprezível para
o box, apenas que sua exposição ou tempo de ocupação tem certas condições de variabilidade.
De fato, a apreensão do sentido expresso pela fala e dado o significado do termo
“tudo”: “Eu trabalho com tudo isso!”, impõe certo constrangimento ao pesquisador no
momento de classificar o tipo de atividade desenvolvida. A dificuldade de classificação das
atividades e tipos apresentou-se, ainda mais, quando se deparou com a placa frontal com os
rótulos “variedades” ou “miudezas”, conforme alguns boxes foram identificados. Desse
modo, a atividade/tipo de atividade/objeto que o permissionário não demanda muito tempo
em ocupação ou tem menor visibilidade que outro objeto/atividade é o arranjo de tipo
secundário. Como exemplo, na atividade classificada como prestação de serviço de reparo,
compreende-se como aquela na qual o permissionário investe mais tempo em sua ocupação e
recursos do que na atividade de comercialização dos relógios no expositor do box. Outro
exemplo, entre tantos objetos expostos na atividade comercial do box, o permissionário tem
uma quantidade maior, de exposição frontal de cadernos, durante um período específico do
ano, do que de brinquedos que ficam mais na parte lateral e interna do box. Neste caso, a
comercialização é a atividade principal e, o tipo de atividade principal seria a comercialização
dos cadernos, em certo período, sendo que os brinquedos se tornam parte de arranjo do tipo
secundário e complementar, por isso, não menos importante.
De um lado, as diferentes atividades instaladas no CPC são tentativas de reproduzir
certo nível de organização em condomínio lojista, de agrupamento comercial de lojas
acompanhando o modelo de mercado moderno dos grandes centros urbanos, os chamados
shoppings centers e malls do final do século XX. Isto é, as diferentes atividades
“microempreendedoras individuais” estão dispostas em ordem modelar funcional de modo
ajustada às práticas de ex-camelôs/ambulantes, porém nesta investigação sob o gerenciamento
e regime de contrato pertinente à estrutura da administração pública. Por outro lado, na prática
cotidiana, representa a ordem da experiência social expressa pela típica condição de trabalho e
negócio estabelecido em via pública nos centros urbanos. Visto ao longo da história humana e
em diferentes sociedades modernas, o simples comércio em via pública feito por produtores
ou distribuidores e seus consumidores. Ainda hoje conserva a marca dos serviços e trocas
mercantis de produto material final com forte interação face a face e, neste sentido, com o
218

arranjo típico entre as diferentes atividades de comércio e serviços em um mesmo lugar. O


que pôde ser visto, em um mesmo corredor do CPC, como proximidades interpostas dos
serviços de salão de beleza ao lado de um box de vestuário e de frente a outro box de
comercialização de óculos esportivos.
Contudo, a ordem das vias públicas vai sendo reproduzida neste cenário montado pelo
executivo municipal, mesmo que esta não tenha sido a sua intenção real. Como na via pública,
no CPC, percebe-se que os arranjos que dispuseram atividades distintas misturadas na mesma
quadra ou corredor foram resultado da dinâmica do sorteio feita pela prefeitura, ou mesmo,
das trocas e negociações aleatórias levadas a cabo entre os próprios permissionários após o
período de acomodação. A interação face a face presente na relação de troca comercial entre o
permissionário vendedor e seu consumidor direto, na forma de negociação imediata dos
valores e produtos, nos modos de convencimento à compra do cliente, no tratamento por
relações mais familiares, perceptíveis quando se observa o permissionário no corredor
conversando com um cliente ou entre seus pares na frente de outro box. Ou seja, estas ações
de dar “corpo” e sentido ao ambiente são continuidades que persistem e evidenciam sua
experiência anterior em via pública, mesmo após os permissionários participarem de cursos
formais de capacitação e aperfeiçoamento para lidar com o “mundo dos negócios”, mediados
por instituições de serviço público como Sebrae-AM, ESPI e Cetam, instituições citadas como
locais de formação dos permissionários/microempreendedores individuais.
Foi possível observar o cotidiano das cenas e práticas compartilhadas na organização
da experiência social, nos modos de interação e nas formas de incorporação no ambiente, no
modo de ordenar e dar movimento ao lugar. Inclusive, por meio de condutas, olhares e
conversas que criam um ritmo específico do engajamento mais flexível, na forma de lidar com
as situações diárias, do posicionamento diante do contexto comum e na organização fundada
na visibilidade mútua das situações de trabalho e negócio entre os pares próximos, por meio
de práticas individuais e/ou compartilhadas94. Como exemplos observados: deixar o filho na

94
Tomando a abordagem do interacionismo simbólico em Garfinkel, compartilhada e sugerida por Quéré (1998,
p. 227), na ideia de que gestos e operações no ambiente de trabalho, baseados na visibilidade mutua da situação
ambiental, permite ao ator dispensar verbalizações e explicações. Durante a observação do campo empírico,
presenciou-se a atitude de um casal recém-chegado arrumando o seu box, colocando prateleiras e mercadorias,
limpando, fazendo anotações, conversando e observando os demais. Apesar deste pesquisador ter trocado alguns
pontos de vista sobre o lugar, quando se tentou estreitar a aproximação, não quiseram participar da entrevista. No
entanto, por vezes, durante a observação, trocava algumas palavras breves. Embora não fossem oriundos do
centro, não se conseguiu saber o lugar de origem. Com o tempo, percebeu-se que, no começo, a organização dos
objetos estava restrita ao interior do box. Eles se localizavam no mezanino, no corredor de fundo e
comercializam vestuários diversos. Semanas depois, algumas mercadorias do interior do box estavam expostas
dependuradas na parte frontal. Com o passar das semanas, progressivamente, a exposição na parte externa do box
ia sendo ampliada tornando-se semelhante à organização dos demais pares próximos. Quando houve a
219

escola e vir para o CPC, receber o filho no box após a saída da escola permanecendo com ele
durante parte do dia, fazer testes dos equipamentos para o cliente e continuar ouvindo o
“som” para sua própria recreação, receber amigos e parentes e sentados em banquinhos na
frente do boxpara colocar a conversa em dia, cochilar na sua cadeira de balanço dentro do box
em determinada hora do dia (como após o almoço), deixar um menor de idade “tomando de
conta” (filho, parente) enquanto vai “ali rapidinho” para resolver algo, ou mesmo, enquanto
trabalha no reparo de um objeto (como um relógio), no interior do seu box, ao mesmo tempo
que troca amenidades com seus pares próximos que ficam encostados no balcão, cuidar de um
box “próximo” porque o permissionário vizinho precisou se ausentar, ceder o lugar para outro
indivíduo conhecido enquanto viaja por um tempo prolongado, receber o serviço de manicure
no próprio boxe enquanto espera por clientes, compartilhar ideias, conversar, reunir-se para
discorrer sobre as condições no ambiente que devem ser melhoradas.
Até aqui a pesquisa tentou evidenciar, por meio dos dados de observação e das
entrevistas, o modo como os permissionários organizam o trabalho e os negócios no local,
como combinam o “lado de fora” com o “lado de dentro” para manterem-se no CPC ao
mesmo tempo em que constroem estratégias de sobrevivência fora dele. A forma como os
arranjos das atividades paralelamente ao tentar atender a uma ordem diversa da via pública
também a reproduzem e constroem memórias cotidianas de resistência, que remodelam o
cenário proposto pela ação governamental. Tais ações e interações produzem microprocessos
que provocam mudança na estrutura, não através de revoltas ou da pressão política legal, da
contestação e do enfrentamento direto. Nas palavras de James Scott (2002, p. 30), as formas
cotidianas de resistência, de camadas populares com poder político fraco e sem coordenação
central em suas ações, são ferramentas que “o objetivo, afinal, [...] não é diretamente derrubar
ou transformar o sistema de dominação, mas, sobretudo, sobreviver – hoje, esta semana, esta
estação – dentro dele”. Quando estes permissionários expuseram suas rotinas, suas atividades,
percepções, atribuições de sentido ao ambiente, suas críticas e ponderações, seu modo de
organizar a ordem diária, também expunham as formas de resistência individual e diária. Um
cotidiano das experiências acumuladas e dos atos criativos na forma de enfrentamento às
situações concretas e às particularidades inerentes do novo mercado.
O processo de transferência, como mecanismo de controle social e ordenamento do
espaço e como cenário montado pelo poder público, não deve ser descolado da compreensão

oportunidade de mencionar o modo como organizavam as mercadorias, responderam prontamente: “Rapaz, me


disseram que não podia botar aqui fora, mas tá todo mundo fazendo isso, olha aí. E, aqui é mais escondido, tem
que colocar pro cliente vê melhor, vou fazendo aqui...”.
220

de quem são os agentes estratégicos e alvos da ação governamental ou como a conduta desses
indivíduos tem efeito colateral não esperado sobre a dinâmica do processo. Lembrando que as
distintas trajetórias de ocupações podem influenciar condutas socialmente construídas,
atitudes subjetivas e o direcionamento para um comportamento de tipo “conflito cooperativo”.
Portanto, o modo como acontece a subjetivação das regras de comportamento e das normas de
uso do novo ambiente resulta em condutas entre os pares sob a forma de pequena cooperação
pontual com o ambiente e em relação aos pares próximos, mas intercalado por conflito (burla
e ajuste) ao sistema de constrangimento e em relação à conduta de outros pares mais distantes.
Isto alcançaria uma melhor compreensão do microprocesso das formas cotidianas de
resistência, o contramovimento não organizado, espontâneo, mas que pode colocar em risco a
própria organização estrutural do lugar pretendida pelo poder público, como tentativa de
ordem e controle da área central.
Sob o argumento de que os centros urbanos devem se preparar para os grandes eventos
internacionais e que a gestão governamental deve criar condições indutoras para o circuito de
bens econômico-culturais local são desdobradas as novas formas de dominação, fomentada
pela crença do planejamento científico da organização social, com modelos de controle da
burocracia urbana em conjunto com a promessa modernizadora da vida social. Os chamados
“centros de compras populares”, geralmente, se inscrevem no limite dessa configuração
principalmente quando originados das intervenções urbanas como política focalizada de
“solução” para o trabalho e o negócio em via pública. De um lado, a oferta de recursos
mínimos e de melhor gestão destes por parte do individuo, onde a formalização, a capacitação
e a criatividade seriam recursos