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DELIA CATULLO GOLDFARB

DO TEMPO DA MEMÓRIA AO
ESQUECIMENTO DA HISTÓRIA:
um estudo psicanalítico das demências

DOUTORADO EM PSICOLOGIA ESCOLAR E

DO DESENVOLVIMENTO HUMANO

JULHO DE 2004
IP-USP
DELIA CATULLO GOLDFARB

DO TEMPO DA MEMÓRIA AO
ESQUECIMENTO DA HISTÓRIA:
um estudo psicanalítico das demências

Trabalho apresentado à comissão de Pós-graduação


do Instituto de Psicologia como parte dos requisitos
para a obtenção do título de Doutor.
Área de concentração: Psicologia Escolar e do
Desenvolvimento Humano.

Orientadora: Profa. Dra. ANA MARIA LOFFREDO

JULHO DE 2004
IP-USP
Goldfarb, D. C.
Do tempo da memória ao esquecimento da história: um estudo
psicanalítico das demências./ Delia Catullo Goldfarb. – São Paulo:
s.n., 2004. – 224p.

Tese (doutorado) – Instituto de Psicologia da Universidade


de São Paulo. Departamento de Psicologia da Aprendizagem, do
Desenvolvimento e da Personalidade.

Orientadora: Ana Maria Loffredo.

1. Envelhecimento 2. Demência 3. Psicanálise 4. Desamparo


I. Título.
DO TEMPO DA MEMÓRIA AO
ESQUECIMENTO DA HISTÓRIA:
um estudo psicanalítico das demências

DELIA CATULLO GOLDFARB

BANCA EXAMINADORA

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Tese defendida e aprovada em ____/____/____


A minha mãe
AGRADECIMENTOS

À minha orientadora, Profa Ana Maria Loffredo, pelo acolhimento e interesse


demonstrado desde o começo desta pesquisa.

Aos professores da banca de qualificação: Miryam Debieux Rosa e Paulo Roberto


Ceccarelli, pelas sábias observações que em muito ajudaram a dar prosseguimento a
este trabalho.

Ao pessoal administrativo e técnico do Departamento de Pós-Graduação, do Programa


de Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano e da Biblioteca do Instituto de
Psicologia pela eficiência e disponibilidade.

A Eliana Borges P. Leite, pelo delicado trabalho de revisão.

Aos membros do Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento da PUC-SP, com


quem continuo aprendendo as difíceis vicissitudes da interdisciplinaridade.
Especialmente a sua coordenadora Profa Dra Suzana da Rocha Medeiros, pelo
pioneirismo.

Aos meus alunos pelos instigantes questionamentos.

Ao pessoal da Sociedade Beneficente Alemã e do HSPM, especialmente ao Dr Sergio


Paschoal pela inestimável colaboração.

Aos Colegas da Associação Nacional de Gerontologia, porque não se cansam de lutar.

A meus pacientes e seus familiares por me permitirem aprender com sua dor.

Especialmente... à Profa Dra Ruth G. da Costa Lopes pela permanente demonstração de


confiança.

A minha família.
RESUMO

O objetivo deste trabalho é abordar as demências do ponto de vista do


referencial psicanalítico. A articulação dos conceitos de tempo, história, memória,
projeto identificatório, desamparo e constituição histórica do eu fornece o suporte
teórico necessário para fundamentar uma hipótese psicogênica para os estados
demenciais, com a finalidade de ampliar a compreensão desta patologia, contribuindo
para uma interlocução fundamental no campo da interdisciplinaridade.
Destaca-se que, com a proximidade da morte e o encurtamento do horizonte de
futuro, aumenta para os idosos, a dificuldade de realizar o trabalho de luto,
especialmente o luto pela própria vida que está findando e que deve ser feito por
antecipação. Nesse contexto, a especificidade da demência, situação na qual o eu
historicamente constituído se dissolve, não estaria dada unicamente por um déficit
orgânico que afeta a memória como função neurológica, mas, também, por um
transtorno de identidade que tem efeito sobre a memória como função historizadora. O
fracasso no processo de elaboração da finitude, o desinvestimento dos vínculos e a
fragilidade ante as vicissitudes do processo de envelhecimento podem provocar estados
depressivos, dos quais é possível fugir por meio de um esquecimento radical e violento.
Finalmente, são apresentadas diferentes experiências terapêuticas que contribuem para o
debate sobre a questão da inclusão das demências no campo da psicopatologia
psicanalítica.

PALAVRAS CHAVES: envelhecimento, demência, psicanálise, desamparo,


desinvestimento, depressão.
ABSTRACT

The objective of this paper is to approach dementia from the psychoanalytical


point of view. Concepts articulation, such as time, history, memory, identificatory
project, helplessness and the historical self constitution, supply the necessary theoretical
and instrumental support to substantiate a psycogenic hypothesis for the demential
states, thus amplifying the pathology comprehension and contributing for the
fundamental interlocution in the interdisciplinarity field.
The difficulty of accomplishing the mourning work increases for the old before
death nearness and the future horizon shortening: his or her own’s life mourning, a life
that is almost finished (but not yet) - a work that must be done in advance. Dementia
specificity, a situation in which the historically constituted self dissolves, would not
only be given by an organic deficit that affects memory as a neurological function, but
also by an identity disturbance that produces effects over the historical memory
function. Failure in the process of “finishing” elaboration, the desinvestments, the
helplessness and the emptiness, may cause depressive states from which it is possible to
scape through a radical and violent forgetfulness. Finally, we shall make our way
through the different therapeutic experiences that have contributed for the creation of
the necessary conditions to include the question of dementia into the field of
psycoanalytical psycopathology.

KEY WORDS: aging, dementia, psychoanalysis, helplessness, desinvestment,


depression.
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO ................................................................................................................... 1
1. Apresentação ........................................................................................................ 2
2. O homem e o tempo ............................................................................................. 8
3. Para pensar a demência ...................................................................................... 10

CAPITULO I – MAL-ESTAR E ENVELHECIMENTO ......................................................... 16


1. Alteridade e subjetividade .................................................................................. 18
2. Desamparo e angústia ........................................................................................ 22
3. O não lugar do mal-estar .................................................................................... 32

CAPÍTULO II – DE-MENTIS .......................................................................................... 38


1. Antecedentes históricos ...................................................................................... 39
2. Demência: diagnóstico ou condenação? ............................................................ 44
3. Aspectos descritivos e diferencias ..................................................................... 48
4. A demência na psicanálise ................................................................................. 52

CAPÍTULO III – TEMPO, HISTÓRIA E MEMÓRIA .......................................................... 61


1. O tempo e a memória em Freud ......................................................................... 62
1.1. Aparelho de linguagem, aparelho de memória:
a pré-história da psicanálise ....................................................................... 62
1.2. O aparelho psíquico: nascem os conceitos ................................................ 77
1.3. O efeito de posterioridade .......................................................................... 88
2. História e repetição ............................................................................................ 91
3. A memória em Piera Aulagnier .......................................................................... 98
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO ............................................................. 102
1. O eu e seus ideais ............................................................................................. 103
2. Acompanhando o pensamento de Piera Aulagnier .......................................... 116
2.1. Antecipação ............................................................................................. 116
2.2. Investimento, futuro e temporalidade ...................................................... 121
2.3. Sujeito social e contrato narcísico ........................................................... 123
2.4. Identificação e projeto ............................................................................. 125
2.5. Construindo a história .............................................................................. 134
2.6. Atividade de pensar e realidade ............................................................... 139

CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS ................. 142


1. Desinvestimento, demência e pulsão de morte ................................................ 147
2. Depressão e demência ...................................................................................... 155
3. A angústia e a dissolução do eu ....................................................................... 161
4. Do eu-horror ao vazio do eu ............................................................................. 165
5. Tanatose, psicólise e ação modificadora .......................................................... 169
6. As memórias e os esquecimentos...................................................................... 177

CAPÍTULO VI – PERSPECTIVAS TERAPÊUTICAS ......................................................... 181


1. Apostas e desafios ............................................................................................ 182
2. Ensaios e erros .................................................................................................. 189
3. Vinhetas clínicas .............................................................................................. 195
4. Com a inocência dos iniciantes e a ignorância dos exploradores .................... 202

PALAVRAS FINAIS ........................................................................................................ 207

REFERÊNCIAS .............................................................................................................. 216


INTRODUÇÃO

“Um dia, há bastantes anos, lembrou-me reproduzir no


Engenho Novo a casa em que me criei na antiga Rua de
Matacavalos, dando-lhe o mesmo aspecto e economia
daquela outra, que desapareceu (...). O meu fim evidente
era atar as duas pontas da vida, e restaurar na velhice a
adolescência. Pois, senhor, não consegui recompor o que
foi nem o que fui. Em tudo, se o rosto é igual, a fisionomia
é diferente. Se só me faltassem os outros, vá; um homem
consola-se mais ou menos das pessoas que perde; mas falto
eu mesmo e esta lacuna é tudo”.

MACHADO DE ASSIS, “Dom Casmurro”


INTRODUÇÃO 2

1. APRESENTAÇÃO

E ste trabalho surgiu como resultado de mais de dez anos de experiência. Da


experiência clínica às diversas atividades em instituições, entidades e associações,
foi-se gestando o aprofundamento de um corpo teórico-prático e de uma formulação
teórica que, de diversas formas, envolvia pessoas em processo de envelhecimento.

Quando esse processo começou, a bibliografia específica era pouca e não


respondia questões fundamentais referentes à subjetividade do idoso; a poesia e o
romance, porém, ofereciam subsídios que estimulavam minha reflexão. Assim,
Drummond, Machado de Assis, João Guimarães Rosa, Cecília Meirelles, Vargas Llosa,
Borges e tantos outros constituíram instigantes motivos de reflexão e a eles volto mais
uma vez para ilustrar a genialidade da criação literária pois, como bem diz Freud: “nem
o poeta pode evitar ao psiquiatra, nem o psiquiatra ao poeta” (Freud, 1906, p. 37) mas, o
poeta:

Dirige sua atenção para o inconsciente de sua própria mente, auscultando suas possíveis
manifestações, e expressando-as através da arte, em vez de suprimi-las por uma crítica
consciente. Desse modo, experimenta a partir de si mesmo o que aprendemos de outros:
as leis a que as atividades do inconsciente devem obedecer. Mas ele não precisa expor
essas leis, nem se dar claramente conta delas; como resultado da tolerância de sua
inteligência, elas se incorporam à sua criação.(idem, p 76)
INTRODUÇÃO 3

Então, ajudada pelos poetas e pela teoria psicanalítica, fui em busca do chão
necessário para dar encaminhamento ao percurso que se iniciava.

No que se refere especificamente à literatura psicanalítica, cabe assinalar que


Sigmund Freud fez poucas referências ao trabalho psicanalítico com pessoas idosas.
Mas, pelo menos em três ocasiões, mostrou-se contrário à sua aplicabilidade em pessoas
de idade avançada. Em “A Sexualidade na Origem das Neuroses”, de 1898, ele diz:

Quando se trata de pessoas de muita idade, a duração do tratamento, correlativa à


quantidade de material acumulado, resultará excessiva, e talvez seu fim seja coincidente
com o começo de um período de vida em que já não se atribui grande importância à
saúde nervosa (Freud, 1898, T. I, p. 155).

Mais tarde, em “O Método Psicanalítico”, de 1904, escreve:

Em uma idade próxima aos 50 anos, criam-se condições desfavoráveis à psicanálise. A


acumulação de material psíquico dificulta o trabalho, o tempo necessário para a
recuperação torna-se longo demais e as possibilidades dos processos psíquicos acharem
novos caminhos começam a se paralisar (Freud, 1904, p. 396).

Ainda no mesmo ano, em conferência proferida no Colégio de Médicos de


Viena, intitulada “Sobre Psicoterapia”, acrescenta:

...as pessoas próximas aos 50 anos freqüentemente carecem da plasticidade dos


processos anímicos necessária para se empreender uma psicoterapia. Os velhos não são
educáveis (Freud, 1904, p. 400).

Para compreendermos melhor essas afirmações de Freud, devemos levar em


consideração que, no começo do século XX, antes da Primeira Grande Guerra, uma
pessoa com mais de 50 anos era considerada velha, mais por fatores culturais do que por
uma realidade biológica.

Já em 1919, Karl Abraham, um dos mais fieis discípulos de Freud, permitia-se


discordar do mestre. Em artigo intitulado “A aplicabilidade do tratamento psicanalítico
em pacientes de idade avançada”, afirma:
INTRODUÇÃO 4

Durante minha prática psicanalítica tratei de pessoas de quarenta e até de cinqüenta anos
de idade... Para minha surpresa, um número considerável deles reagiu favoravelmente
ao tratamento... O prognóstico é mais favorável se a neurose apareceu com toda sua
gravidade bem após a puberdade e se o paciente conseguiu desfrutar de alguns anos de
atividade sexual próxima à normal e de um período de atividade social útil. Os casos
desfavoráveis são aqueles em que ocorreu na infância uma neurose obsessiva. São, da
mesma forma, estes os casos em que a psicanálise fracassa também com pacientes mais
jovens (Abraham, 1919, p. 19).

O próprio Freud, que, ao longo de toda sua obra, não cansa de nos chamar a
atenção para a evolução de suas idéias, em 1937 menciona que muitos dos fatores que
poderiam impossibilitar uma análise, como resistência à mudança, rigidez psíquica ou
esgotamento da flexibilidade, encontram-se também em jovens. Ele escreve:

Mas nos pacientes aos quais agora me refiro, todos os processos mentais, as relações e
distribuições de forças, são imodificáveis, fixas e rígidas. Encontramos as mesmas
características em pessoas muito idosas; nestes casos, explicamos aqueles estados como
provocados pela força do hábito ou esgotamento da receptividade, uma espécie de
entropia psíquica. Mas aqui tratamos de pessoas que ainda são jovens (Freud, 1937, p. 563).

Assim ia avançando a pesquisa bibliográfica e o trabalho clínico. Nesse


momento, tornava-se cada vez mais claro que o envelhecimento populacional criava
uma demanda para as mais diversas áreas do conhecimento e que a psicanálise podia, e
devia, dar uma resposta.

Em 1991, começa meu trabalho na recém-formada Associação Brasileira de


Alzheimer e Demências Semelhantes, com a coordenação de grupos de apoio a
familiares de portadores de demência. Paralelamente, as visitas domiciliares a pacientes
afetados pela doença, a prática na clínica particular e o trabalho com familiares de
portadores, de forma individual ou em grupos familiares, ampliavam consideravelmente
a experiência e também as dúvidas.

Cabe destacar que, neste trabalho com familiares de portadores de demência, a


maioria das pessoas está na faixa dos 50 aos 80 anos (cônjuges e filhos do portador);
trata-se, portanto, de pessoas já idosas ou em processo de envelhecimento, para as quais
INTRODUÇÃO 5

as vicissitudes de serem cuidadores de um doente com alto grau de dependência


constituem mais um fator de perda e preocupação pelo seu próprio envelhecer.

No desenvolver desta atividade, um dado chama insistentemente minha atenção:


freqüentemente (em aproximadamente 50% do total dos casos), o processo demencial se
iniciava logo após um fato extremamente doloroso. Acontecimentos como a morte de
um ente querido, a perda de uma fortuna ou até de um objeto sem muito valor real,
porém altamente significativo para a pessoa, pareciam não ter sido elaborados; não
tinham submergido o sujeito na esperada depressão elaborativa que lhe permitisse o
trabalho de luto.

Paralelamente, continuava com o trabalho na clínica particular, onde os pacientes


não cessavam de mencionar preocupações referentes ao corpo e à temporalidade.

Na procura de interlocução para estas e outras questões, formou-se um grupo de


estudos integrado por psicanalistas interessados na discussão destes temas e teve início,
no Instituto Sedes Sapientiae, um curso sobre o tema da velhice, que se desenvolveu
durante sete anos. E, como sabemos, nada melhor que o ensino para organizar, articular
e robustecer qualquer organização teórica incipiente. Faltavam, entretanto, a legitimação
da pesquisa e a escrita. Assim começou meu Mestrado na PUC-SP, sob orientação do
Prof. Dr Renato Mezan, e a participação no Núcleo de Estudo e Pesquisa do
Envelhecimento, na mesma universidade, núcleo multidisciplinar que, mais tarde, deu
origem ao Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia.

Em 1997, a defesa da dissertação “Corpo, tempo e envelhecimento” deixou claro


meu desejo de continuar a pesquisa, aprofundando o estudo da questão do tempo e da
memória em sua articulação com a historicidade do sujeito psíquico e a demência.

O ponto de partida para o Mestrado foi, então, a escuta do discurso dos idosos
em diferentes situações (clínica, institucional, social), escuta do que insiste, daquilo que
se repete: “Quando me olho no espelho, digo: essa não sou eu, não me reconheço”,
“preciso me apressar, me resta pouco tempo para fazer tudo o que desejo”. Essas falas
insistentes marcaram os dois eixos fundamentais da pesquisa: as limitações corporais e
a consciência de finitude.

Em relação às questões do corpo, parto de uma referência do trabalho de Freud


intitulado “O eu e o isso”, em que reafirma a dimensão corpórea do Eu quando diz:
INTRODUÇÃO 6

Na gênese do Ego e em sua diferenciação do Id, parece ter atuado ainda outro fator
diferente da influência do sistema P (perceptivo). O próprio corpo, e especialmente a
superfície do mesmo, é um lugar de onde podem partir simultaneamente percepções
externas e internas”.

Ao que acrescenta: “O eu é um ser corpóreo, e não só um ser superficial; ele é


também a projeção de uma superfície (Freud, 1923, p. 15).
Não se trata de um corpo-organismo, objeto das ciências biológicas, e sim de um
corpo representado, corpo simbólico, fonte de prazer e objeto de investimentos. Corpo
instrumento de relação com o outro, como o descreve Françoise Dolto: “É graças à
nossa imagem do corpo, portada por − e entrecruzada com − nosso esquema corporal,
que podemos entrar em comunicação com o outro” (Dolto, 1986, p. 21).
Corpo que muda tão radicalmente ao longo dos anos que não reconhecemos na
foto de um bebê o velho de hoje, mas que deve sustentar uma identidade que se constrói
nesse tempo que passa. Quando uma pessoa em processo de envelhecimento se olha no
espelho e diz: “esse não sou eu”, o que diz é que essa imagem não corresponde a um
ideal − e não se trata aqui de um ideal estético, embora freqüentemente se confunda com
ele; trata-se de um ideal narcísico, sendo a imagem procurada no espelho a
correspondente a uma representação idealizada de si mesmo, ligada a uma fase da vida
em que a onipotência ainda era possível.
A essa representação soma-se a realidade do declínio físico: órgãos que não
funcionam como antes, forças que minguam, funcionalidade afetada. Assim, o corpo,
instrumento do prazer e sustento da autonomia, passa a ser objeto de preocupação e
investimentos geradores de dependência.
O processo de envelhecimento é, freqüentemente, um árduo trabalho de
reencontro com uma imagem passível de reconhecimento e investimento libidinal. É
claro que as razões da cultura não são alheias a essa dinâmica; mídia e mercado têm
efeito estruturante na construção das representações sociais nas quais esse processo se
engaja.
O sentimento de finitude foi analisado à luz da representação psicológica do
tempo e da questão temporal em relação às diferentes instâncias do aparelho psíquico,
ou seja, investigou-se a relação da temporalidade com a estruturação do sujeito
psíquico. Tempo psicológico que nada ou pouco tem a ver com o tempo cronológico.
INTRODUÇÃO 7

Tempo de construção de uma “história vivencial” que não corresponde à história


biográfica, que nega a realidade objetiva; história retroativa, que tem influência sobre o
passado, modificando-o nas lembranças.

Como ponto crucial para a compreensão das questões relativas ao envelhecimento,


propus uma mudança no entendimento do fenômeno da reminiscência, entendido
popularmente como uma manifestação de deterioração senil. A hipótese então
apresentada foi que, contrariando esse critério, a reminiscência seja tomada como uma
possibilidade elaborativa e uma afirmação identitária. Lembrando, falando e insistindo,
o sujeito vai construindo uma narrativa que será o sentido de sua existência e a
afirmação de sua presença, que lhe permitirá não cair no “sem sentido” da depressão ou
no “vazio” da demência.

A partir destas questões, referentes ao corpo e à temporalidade como fatores


constitutivos da subjetividade do idoso e sua articulação com a constituição do sujeito
psíquico, foram analisadas as diversas formas possíveis do envelhecimento, o que me
levou a uma diferenciação entre vias regressivas e elaborativas.

Denominei vias elaborativas as que permitem a instauração de uma nova posição


subjetiva, pela reordenação das instâncias psíquicas modificadas no processo do
envelhecimento e que dependem da possibilidade de sublimação (arte, religião, projetos
possíveis, serenidade); e regressivas as que levam a um enfraquecimento ou aniquilamento
do Eu sob diversas formas, algumas delas patológicas (isolamento, irritabilidade,
infantilização, depressão, demência).

Entre outros aspectos, a elaboração da pesquisa permitiu concluir que, embora


consideremos um certo desapego das coisas do mundo como necessário para a
elaboração da perda do objeto-vida (obviamente, elaboração por antecipação), esta pode
ser uma posição perigosa do ponto de vista ético, já que poderemos estar
implementando uma série de ações que considerem o velho como um sujeito sem
futuro, sem lugar, quase fora do mundo pela sua proximidade com a morte. Situação
que o coloca na categoria de objeto descartável, objeto desinvestido.

Pensar assim significaria considerar a libido um quantum de energia que se


esgotaria no tempo. Mas, se pensarmos que a libido é uma energia sempre renovável,
com possibilidades de continuar circulando, desde que o sujeito encontre objetivos
adequados para o investimento (isto é, que ofereçam um baixo grau de frustração),
INTRODUÇÃO 8

entenderemos que qualquer ser humano, independentemente de sua idade, poderá fazer
novos vínculos e investimentos. Considerei essa diferença fundamental.

Tratou-se, enfim, de analisar os destinos da identidade confrontada com as


mudanças corporais, os limites temporais e as exigências do meio.

2. O HOMEM E O TEMPO

O homem e a idéia de tempo se influenciam mutuamente e, sem dúvida, esse


movimento provoca efeitos na subjetividade. A experiência do tempo não é exterior à
subjetividade; a representação do tempo é gerada e compartilhada culturalmente.Cada
crise da humanidade, cada mudança do tempo histórico provoca e é provocada por uma
reordenação da relação do homem com o tempo. Os grandes descobrimentos, os
avanços tecnológicos, a navegação de além-mar ou a virtual da Internet mudaram a
medida do tempo subjetivo e todo o posicionamento humano ante os outros, o espaço e
a própria vida. Não só o tempo, mas também o espaço, não são os mesmos dos nossos
antepassados.
Há uma concepção clássica – aristotélica – do tempo, um tempo universal que
privilegia a idéia de movimento, do “antes” e do “depois”. Um tempo exterior ao qual
estaríamos submetidos e que pode ser medido. Nesta concepção, a experiência do tempo
está representada por figuras como a linha, o caminho, o rio que flui. (Galende, 1992)

Vivemos o tempo como sucessão, como movimento; apesar da ‘relatividade’


demonstrada neste século, na nossa vivência habita um tempo absoluto, medida de todas
as coisas, que nos numera as durações (Galende, 1992, p. 31).

O modo mais primitivo de pensar essa relação homem-tempo é por meio dos
ciclos da natureza: dia/noite, inverno/verão, chuva/estiagem, tempo de reprodução/tempo de
colheita; tempos marcados por rituais que preservam a repetição, idéia circular do
tempo, em que tudo se repete sempre da mesma forma; tempo mítico de repetição,
tempo de eterno retorno.
Mas, a essa idéia do tempo circular, opõe-se a concepção de tempo sucessivo em
que passado, presente e futuro encadeiam-se numa seqüência que se pretende lógica,
INTRODUÇÃO 9

histórica e que culmina com a morte, fim do tempo da vida. O pensamento religioso, na
crença de uma vida após a morte, restitui uma certa circularidade, uma possibilidade de
repetição na eternidade, marcada pela idéia de passagem de uma vida carnal e de
sofrimento a outra de espírito puro, eterna em sua imutabilidade.

A partir destas duas idéias de tempo, a de tempo circular baseado na repetição, e


a de tempo sucessivo, produtor de história, deduziremos que o homem só poderia
progredir transformando a natureza e a si próprio. O homem escreveria sua história,
enquanto a natureza estaria marcada por ciclos vitais repetitivos. Para sustentar essa
posição seria necessário dividir o próprio homem em natureza (repetição) e espírito
(história), instinto e alma. Porém, veremos ao longo deste trabalho como essa “natureza
humana” é constituída por pulsões, por exigências de trabalho psíquico, em que história
e repetição se opõem e se encontram.

Para a psicanálise, o presente não é conseqüência direta do passado; o presente é


construção. O passado não contém em si mesmo o sentido do presente, pois é a partir do
presente que se constrói um sentido para o passado. A psicanálise vem quebrar a idéia
do tempo linear ou circular. Subverte a trama do tempo, provoca outros tempos, tempo
de repetição, tempo de transferência, de posterioridade, de elaboração, enfim, tempos de
transformação e construção de subjetividade.

Embora Freud não tenha postulado um trabalho do tempo, como postulou um


trabalho do luto ou do sonho, por exemplo, não deixou de se referir repetidas vezes à
importância desse fator para a psicanálise. Desde os primórdios de sua teoria,
considerou o tratamento psicanalítico como algo que leva um certo tempo para se
realizar, como um processo que se realiza no tempo.

Em “Corpo, Tempo e Envelhecimento”, e seguindo uma idéia de Henri Bianchi


(1991), já me refiro a esse tema dizendo:

A experiência psicológica do tempo não é exterioridade, mas o produto de um labor


psíquico estruturante de identidade. Envelhecer, então, não será seguir um caminho já
traçado, mas construí-lo. Eis o trabalho do tempo: a construção de subjetividade
(Goldfarb, 1998, p. 73).
INTRODUÇÃO 10

3. PARA PENSAR A DEMÊNCIA

A vida é o tempo que acontece entre nascimento e morte. Nesse prazo, o sujeito
encontrará os limites para o seu desejo e realizará o encontro com seus objetos
possíveis.
A velhice é a fase vital final do desenvolvimento humano, fato existencial que
ultrapassa o biológico; apesar dos estigmas negativos que a caracterizam, a maioria das
pessoas quer chegar lá, pois o contrário significaria morrer jovem. Deparamo-nos,
assim, com um campo de contradições e paradoxos de difícil resolução.
O fato de ser a velhice o momento da existência humana mais próximo à morte,
ligado ao declínio físico e a questões culturais, cria campo fértil para uma representação
social negativa e propicia atitudes de marginalização e auto-exclusão.
Como todas as fases do desenvolvimento humano, a velhice também não tem
fronteiras rígidas, nem cronológicas, nem conceituais. Norberto Bobbio fala-nos destes
aspectos:

Nestes últimos anos, o limiar da velhice deslocou-se cerca de duas décadas. Aqueles
que escreveram obras sobre a velhice, a começar por Cícero, tinham por volta de
sessenta anos. Hoje um sexagenário está velho apenas no sentido burocrático, porque
chegou à idade em que geralmente tem direito a uma pensão. O octogenário, salvo
exceções, era considerado um velho decrépito, de quem não valia a pena se ocupar.
Hoje, ao contrário, a velhice, não burocrática, mas fisiológica, começa quando nos
aproximamos dos oitenta... (Bobbio, 1997, p. 17).

Quanto mais nos aprofundamos no tema, mais difícil se torna definir quando
começa a velhice e o que é “ser velho”. Neste sentido, devemos diferenciar os termos
velhice e envelhecimento. O termo envelhecimento alude a processo, a movimento
contínuo, a um constante e sempre inacabado processo de subjetivação; velhice, por sua
vez, refere-se a um estado, a uma certa permanência, a um tempo que não passa. Jack
Messy escreve: “Se o envelhecimento é o tempo da idade que avança, a velhice é o da
idade avançada, entenda-se, em direção à morte” (Messy, 1993, p. 33).
O tempo é aquilo que transcorre, permitindo a construção de conceitos,
construindo memória, criando histórias, produzindo subjetividades. O curso da vida, no
entanto, não é um curso de tempo regular perante o qual o sujeito é um mero espectador.
INTRODUÇÃO 11

A experiência psicológica do tempo não é mera exterioridade, mas produto de um


trabalho psíquico estruturante da identidade. Nesse sentido, envelhecer não será seguir
um caminho já traçado, e sim construir uma identidade, e esta idéia fundamental será
retomada, de diversas maneiras, ao longo deste trabalho.

Tempo, temporalidade, consciência de finitude, tempo subjetivo são conceitos


que marcam um caminho a ser trilhado para melhor compreendermos os fenômenos que
caracterizam o envelhecimento humano. Se temos uma história, é porque conseguimos
registrar na memória os acontecimentos significativos de nosso passado, descobrir
aquilo que permanece e o que muda, e, assim, confirmar nossa identidade. Para elucidar
melhor esta questão apelaremos a Piera Aulagnier, psicanalista que muito se dedicou a
esse tema em sua relação com a constituição do eu,.

A reflexão sobre as questões do tempo é freqüente nos grandes pensadores da


humanidade e Freud não escapou da preocupação com as vicissitudes da temporalidade
humana. Em carta a Marie Bonaparte, datada de 12/11/1938, escreve:

Seus comentários em relação ao tempo e ao espaço me pareceram melhores do que


poderiam ter sido os meus, embora, no que diz respeito ao tempo, ainda não lhe tenha
informado de todas as minhas idéias. Na verdade, nem a você nem a ninguém. Uma
certa repugnância por uma tendência subjetiva de deixar voar a imaginação, levaram-me
sempre a me conter (Freud, 1976, p. 198).

Ainda que não tenhamos encontrado, em toda a obra freudiana, um só artigo


dedicado exclusivamente a essa questão, o tema do tempo transita por ela, como
observamos, por exemplo, no conceito de repetição. Será especialmente por meio do
conceito de posterioridade, que liga a temporalidade à causalidade psíquica, que Freud
nos oferecerá os elementos necessários para pensar a questão da historicidade do
sujeito.

Na consciência, o sentimento de finitude é exclusivo do ser humano. Ele é o


único ser vivo que sabe que vai morrer e, como tal, organiza-se para isso. Acreditamos
que a temporalidade humana se constrói sobre uma linha temporal que, a partir do
presente, permite-nos avaliar o passado, retificá-lo e projetarmo-nos no futuro. Esse é o
movimento da historicidade humana, que cria subjetividade e preserva a identidade,
dando um sentido de permanência.
INTRODUÇÃO 12

Proponho-me a analisar o tempo de vida como um tempo cronológico que


podemos medir de acordo com as diferentes convenções, mas que vivenciamos fora de
qualquer acordo; tempo subjetivo, de construção do sujeito psíquico, que não podemos
medir, a não ser na sua mais pura intensidade. Tempo de construção da história
vivencial que resiste à medida do registro biográfico.
O tempo do envelhecimento caracteriza-se pela presença do sentimento de
finitude, que é vivenciado com diferentes qualidades e intensidades emocionais,
dependendo das características de cada sujeito e das diferentes experiências de
proximidade com a morte vivenciadas ao longo de seu desenvolvimento. Essa proximidade
com a morte marca uma experiência de luto, ou seja, de elaboração de perdas, processo
sempre necessário para que se instaurem outros objetos no lugar do perdido, para que
outros investimentos sejam possíveis e a libido continue a produzir vínculos... e vida.
Entretanto, existem casos em que essa elaboração parece não ser possível. E aqui
nos defrontamos com aquilo que, pela sua intensidade e modalidade de inscrição, não
pode ser retomado na posterioridade; aquilo que constitui um resto de impossível
elaboração, marcando limites e sendo o grande desafio de qualquer psicoterapia. O
inominável, que não se representa simbolicamente e só pode ser atuado no corpo.
Essa falta de elaboração pode ser então razão suficiente para levar um sujeito
pelo caminho sem retorno do esquecimento mais radical e violento? Quais seriam os
impedimentos para o sucesso de um processo elaborativo da perda? Em que consiste
essa perda que, por meio da interrupção da comunicação com os outros, afasta o eu e o
isola no esquecimento mais mortífero, pois constitui a morte da própria identidade?
Seria, talvez, campo de domínio da pulsão de morte? Estas são algumas das perguntas
que pretendo responder ao longo deste trabalho
Ao nos defrontarmos com a questão demencial, pensamos primeiramente numa
deterioração neuronal. Sem querer negar essa constatação do ponto de vista biológico,
não podemos deixar de nos questionar sobre alguns outros enfoques.
No meio médico, atribui-se apenas 15% das demências a causas psicológicas;
mas, uma vez que a etiologia dessas doenças ainda não foi totalmente esclarecida,
podemos pensar que essa porcentagem pode ser muito maior. Devemos considerar
também que os exames necroscópicos freqüentemente contrariam os diagnósticos
clínicos e não apresentam a deterioração neuronal esperada para a gravidade da
sintomatologia apresentada, ou seja, nem sempre existe correspondência entre as lesões
INTRODUÇÃO 13

orgânicas e as perturbações psíquicas. Nesse caso, como já mencionei, é legítimo pensar


que a especificidade da demência − em que o Eu se dissolve − não estaria dada
unicamente por um déficit orgânico que afeta a memória como função neurológica, e
sim por um conjunto de fatores no qual dever ser incluída a possibilidade de existência
de um transtorno de identidade que tenha efeito sobre a memória como função
historizadora.
Neste sentido, fica claro que nos encontramos ante dois campos epistemológicos
diferentes, com objetos diferenciados. As neurociências pretenderiam, a rigor, construir
uma leitura do psiquismo de base biológica. Assim, o funcionamento psíquico seria
redutível ao funcionamento cerebral, e sua linguagem seria a bioquímica. A química dos
neurotransmissores explicaria as particularidades do psiquismo e da subjetividade,
transformando a psicofarmacologia no referencial fundamental da terapêutica psiquiátrica.
Com isso a medicação psicofarmacológica seria a modalidade essencial de intervenção
psiquiátrica. (Birman, 2000)
Mas Jurandir Freire Costa (2000), sempre atento ao aspecto ético de suas
formulações, chama a atenção para o fato de a mudança do perfil clínico1 dos
analisandos e o estágio atual das teorias sobre a subjetividade terem criado a
necessidade de certas inflexões teóricas na psicanálise, de modo a incorporar os avanços
de outros campos do saber pois, por exemplo:

No campo da neurologia, desempenhos biológicos inusitados estão sendo estudados, e


tudo isso revela facetas da organização subjetiva, modos de satisfação pessoal com a
vida, idéias sobre o valor da vida e da morte impensáveis no tempo de Freud. Espero
que esta diversificação da vida nos estimule a entender melhor a infinidade e
diversidade de formas de vida subjetivas, e nos ajude a criar uma psicanálise cada dia
mais aberta à riqueza dos experimentos psíquicos, compatíveis com a reprodução da
vida cultural e biológica (Freire Costa, 2000, p. 105)

E, como bem diz Renato Mezan (1998), a questão entre psicanálise e


neurociências está “mal colocada” já que, a começar pelo sintoma: “para a psicanálise e
para a medicina, não significam a mesma coisa; e por este óbvio e poderoso motivo, a
________________
1
O autor se refere especialmente a casos de distúrbios da imagem do corpo, drogadição e depressões
distímicas onde encontramos “rebaixamento sistemático do valor afetivo de qualquer objeto do mundo,
inclusive a própria vida” (Freire Costa, 2000, p. 104)
INTRODUÇÃO 14

‘competição’ entre psicanálise e neurociências simplesmente não existe” (Mezan, 1998,


p. 302). O sintoma não pode ser confundido com a queixa, esta é uma percepção, tem
relação com o que a pessoa sabe de si mesma, é uma percepção a seu respeito, enquanto
o sintoma se apresenta como absurdo e surpreendente porque suas conexões com o
restante da vida psíquica foram cortadas pelos mecanismos de defesa. Por outro lado, os
objetos de estudos são diferentes.
Como psicanalistas interessados no fenômeno demencial, não estudaremos a
memória como função neurológica porém, não deixaremos de ficar atentos a tudo aquilo
que a pesquisa científica descobrir em relação a esta função tão essencial. Como
psicanalistas estudaremos a memória como produção histórica do sujeito psíquico,
resultante de seu funcionamento inconsciente, com o qual pretendo contribuir a um
aprofundamento dos estudos a este respeito.
Além da necessidade de responder às hipóteses aqui apresentadas, esta pesquisa
se justifica pelo fato de que, segundo as mais recentes estatísticas, no ano de 2015, 1
bilhão de pessoas terá mais de 60 anos, o que representa mais de 15% da população
total; 50% das pessoas com mais de 90 anos (mais de 150 milhões) sofrerão algum tipo
de doença demencial com diferentes graus de dependência.
Considerando o envelhecimento populacional e a constituição e dinâmica da
família moderna, numericamente reduzida em relação à do começo do século XX,
comprovamos que esta não terá mais condições de abrigar e cuidar de seus idosos
dependentes, constituindo este fato um problema de difícil solução para a Saúde Pública
e a Previdência Social. As doenças demenciais, tanto pelo grau de dependência que
provocam quanto pela sua prolongada evolução, são das mais dispendiosas de que se
tem conhecimento, exigindo, freqüentemente, longos anos de institucionalização. Faz-se
premente articular pesquisas e ações que visem a uma compreensão teórica e técnica de
suas vicissitudes, com o objetivo de divulgação, prevenção, cura e assistência. Nesse
sentido, esta pesquisa pretende abordar a possibilidade formular uma hipótese
psicogênica para as demências.
Com esse objetivo, no primeiro capítulo analisarei as vicissitudes do
envelhecimento na atualidade através da ótica de “O mal-estar na cultura” (Freud,
1929), dando especial ênfase ao conceito de desamparo que o autor trabalha ao longo de
toda sua obra. Isso implicará uma reflexão sobre a representação social negativa do
idoso como outro fator desencadeante do desinvestimento libidinal que a provoca,
INTRODUÇÃO 15

analisado no marco das novas formas de subjetivação e das patologias engendradas na


contemporaneidade. Logo depois, já no capítulo II, abordarei as demências sob vários
pontos de vista, especialmente aqueles que se referem aos aspetos descritivos e
históricos.
No capítulo III, articularei os conceitos de tempo, história e memória procurando
um entendimento da função da memória como construtora de história. Para isso, além
de um longo percurso pelos textos freudianos, revisitaremos diversos pensadores da
psicanálise, especialmente Piera Aulagnier. Já no quarto capítulo entraremos na questão
fundamental da constituição historizada do eu. Com esse motivo, nos adentraremos no
conceito de eu, tal como foi tratado por Freud, e mais especialmente, pela já mencionada
Piera Aulagnier.
Buscando uma melhor compreensão do fenômeno demencial que penso como
forma regressiva de defesa contra a depressão de final de vida, voltaremos a este tema
no capítulo V , que será dedicado a refletir sobre as possibilidades de criar as bases
necessárias para um entendimento deste fenômeno a partir do ponto de vista da
psicopatologia psicanalítica.
Para finalizar, no último capítulo trabalharei sobre as perspectivas terapêuticas
que até o momento se visualizam no – por enquanto – empobrecido campo
metodológico para o tratamento das demências. Este capítulo contém também três
vinhetas clínicas de pacientes atendidos em consultório particular e comentários sobre
os tratados em outras situações, como visitas informais a instituições asilares ou em
tratamento domiciliar.
CAPÍTULO I

MAL-ESTAR E ENVELHECIMENTO

Como saber? A princípio parece deserto,


como se nada ficasse, e um rio corresse
por tua casa, tudo absorvendo.
Lençóis amarelecem, gravatas puem,
a barba cresce, cai, os dentes caem,
os braços caem
caem partículas de comida de um garfo hesitante,
as coisas caem, caem, caem
e o chão está limpo e liso
Pessoas deitam-se e são transportadas, desaparecem,
e tudo é liso, salvo teu rosto
sobre a mesa curvado; e tudo imóvel.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


“Indicações” (fragmento)
CAPÍTULO I – MAL-ESTAR E ENVELHECIMENTO 17

E m 1990, o presidente Collor assume o poder executivo da Nação e confisca os


depósitos em poupança. Seis meses mais tarde, a procura dos grupos de apoio a
familiares de portadores da Associação Brasileira de Alzheimer cresce de forma
considerável. A cirurgia que não pode ser realizada, a viagem que não pode mais ser
sonhada, a casa que não mais será comprada. Raiva, vazio, desesperança, depressão.
Multiplicam-se os diagnósticos de demências.
Julho de 2002: sete meses depois de instaurado o “corralito” que confiscou os
depósitos bancários, dos “panelazos”, e da entrada da Argentina em seus mais
dramáticos níveis de miséria, recebo em São Paulo, dois telefonemas de pessoas
preocupadas com o diagnóstico de demência dado a seus familiares em Buenos Aires.
As duas experiências têm em comum o fato de acontecerem em um período de
recessão econômica e de eliminar drasticamente os projetos de curto prazo que
dependiam das economias da população. Para os mais jovens, embora represente um
grande sofrimento, pode ser um simples adiamento; enquanto que, para os mais velhos,
é a constatação de que seu tempo já acabou. É o fim de toda esperança.
Devemos reconhecer que a situação dos idosos tem mudado muito nos últimos
anos, mas ainda persiste uma imagem negativa, desinvestida e desvalorizada. Além do
que, pelo fato de serem sujeitos próximos do fim da vida, encontram-se numa situação
de fragilidade, tanto no que diz respeito à sua saúde, quanto no que se refere ao aspecto
social. Podemos notar como são afetados por perigos reais que vão desde o aumento da
violência urbana até a ameaça da perda dos direitos adquiridos pela aposentadoria.
Ameaças que, sem dúvida, provocam efeitos na subjetividade.
CAPÍTULO I – MAL-ESTAR E ENVELHECIMENTO 18

Além de terem de abandonar compulsioriamente seus lugares de reconhecimento


narcísico, os idosos, ainda que o queiram têm dificuldade de ocupar outros, pois o
modelo social muda de forma radical e violenta, em um momento da existência em que
não há mais tempo disponível para operar uma virada significativa no projeto de vida.
Não há promessa de futuro, não há mais motivos para lutar.Não há como produzir a
vida, só resta esperar a morte.
A subjetividade não é da ordem do originário – biológico, psíquico ou social,
não importa – é, sim, da ordem da produção, sendo que cada cultura e cada época
histórica oferece diferentes condições e padrões de produtividade subjetiva. E para que
exista produtividade, investimentos são fundamentais.
Vejamos a seguir, alguns conceitos que nos ajudem a pensar estas questões.

1. ALTERIDADE E SUBJETIVIDADE

Pode-se dizer que toda a teoria freudiana está baseada na questão da alteridade,
seu reconhecimento e suas conseqüências. Este tema está presente, com diversos
destaques, desde o começo de suas elaborações. Basta lembrar que no estudo “Para uma
concepção das afasias” (1891), Freud já afirmava que um aparelho de linguagem se
constitui em relação a outro aparelho de linguagem; mais tarde, em textos como
“Introdução ao narcisismo” (1914) e “O eu e o isso” (1923), por exemplo, dará ênfase
especial a este aspecto. Porém, será nos textos chamados sociais ou antropológicos que
ele irá adquirir uma relevante importância.
Em “Psicologia das massas e análise do eu”, de 1921, Freud nos ensina que a
história individual é uma história social; assim sendo, é impensável a constituição do
sujeito psíquico sem o outro, não podendo haver historização no isolamento. Freud escreve:

A oposição entre psicologia individual e psicologia social ou das massas, que a primeira
vista nos pareceria muito substancial, perde grande parte de sua significação quando
considerada mais profundamente. É verdade que a psicologia individual refere-se ao ser
humano singular e estuda os caminhos pelos quais procura atingir a satisfação de suas
moções pulsionais. Mas só raramente e sob o domínio de condições excepcionais lhe é
dado prescindir das relações do indivíduo com sues semelhantes. Na vida anímica do
humano, o outro aparece regularmente como modelo, como objeto, como auxiliar, como
CAPÍTULO I – MAL-ESTAR E ENVELHECIMENTO 19

inimigo; deste modo, a psicologia individual é, desde sua origem e ao mesmo tempo
psicologia social, num sentido amplo, porém plenamente justificado (Freud, 1921, p. 67).

A partir deste texto fica absolutamente claro que Freud coloca a questão da
socialização do ser humano no cerne da problemática da intersecção entre psicanálise e
cultura, formulando uma teoria psicanalítica da cultura. No núcleo de sua teoria, são
destacadas as formulações que dão conta dos mecanismos pelos quais o sujeito realiza
sua adaptação ao meio cultural, a maneira pela qual ganha um sentimento de pertença
podendo, ao mesmo tempo, diferenciar-se dos outros membros da mesma cultura. O
entendimento, enfim, sobre a função fundamental do “outro” para a satisfação das
pulsões e a vida em sociedade.
Em “Mal-estar na cultura” de 1929, vemos como, em todas as épocas da história
da humanidade, a cultura tem proposto estratégias para aliviar o sofrimento que,
paradoxalmente, ela mesma provoca através do impedimento da plena satisfação.
Assim, a felicidade seria inatingível como estado permanente. Em sua procura, diversas
vias substitutivas podem ser colocadas em ação, mas o conflito será sempre insolúvel
em si mesmo.
Por outro lado, as formas de sofrimento produzidas pela cultura mudam
permanentemente. Sabemos que não se procuram as mesmas satisfações e não se sofre
da mesma maneira, nem pelos mesmos motivos em todas as épocas históricas, nem em
todas as classes sociais. Mas também não podemos esquecer que a procura por essa
realização é o grande motor do desejo.
Nas últimas décadas, observamos uma crescente revalorização das elaborações
freudianas desta época. Vemos que tanto no que se refere ao sujeito, quanto ao que se
refere à cultura, tanto no âmbito das ciências sociais quanto no da psicanálise, há uma
tentativa de compreender as mudanças das relações sociais da pós-modernidade.1 A
perda de valores como a solidariedade, a impossibilidade de se colocar no lugar do
outro, a perda da esperança no tempo futuro ou a sobrevaloração do presente e o
crescente desamparo, provocam efeitos na subjetividade.
________________
1
A polêmica sobre a existência de uma pós-modernidade diferente da modernidade, ou como uma nova
fase ou novo projeto desta, não é objeto deste estudo; então, chamaremos pós-modernidade ao período
que se inicia entre as duas grandes guerras, se afiança nos anos 70 com o desmoronamento dos regimes
socialistas, caracterizando-se pela queda do paradigma científico e da noção de progresso como salvação
da humanidade e pela falta de um outro paradigma dominante como âncora da subjetividade humana
(Rojas y Sternbach, 1997).
CAPÍTULO I – MAL-ESTAR E ENVELHECIMENTO 20

Nesse caminho – e pensando no sofrimento dos anos recentes na América Latina


– Mario Fuks fala de situações traumáticas coletivas provocadas pelo terror econômico,
os surtos hiper-inflacionários, o terror de estado, o desemprego e a precarização do
trabalho. Estes determinantes, entre tantos outros, irão configurar um quadro de penúria
social de alto impacto subjetivo, no qual o eu, submetido a esta situação, ficaria num
estado de desproteção, que o impossibilitaria de abrir uma dimensão temporal onde a
satisfação fosse passível de ser pensada como ganho futuro.
Ante estas catástrofes, todo um sistema de valores baseado no esforço pessoal,
no trabalho como forma de se chegar a um futuro melhor, os projetos individuais e as
expectativas de transformações sociais baseadas no coletivo parecem desmoronar.

Assim, é freqüente que a limitação dessa rede simbólica intra e intersubjetiva requerida
para a elaboração das vivências de desvalimento e desamparo culmine num desfecho
medicalizante através de diagnósticos psicopatológicos de depressão, síndromes neuro-
vegetativas, etc. sem que o trabalho de luto em curso ou bloqueado possa ser
reconhecido (Fuks, 1994, p. 66).

Não haveria mais perdas reconhecíveis, pois tudo pode e deve ser substituído.
Assim, nostalgia e reencontro não teriam mais sentido, o que traria como conseqüência
a evaporação da memória. Afinal:

A ‘perda de um objeto inserido numa história’ (Lewcowikz), aqui entendido como uma
trama, tem na psicanálise um papel fundamental na constituição do sujeito [...]. A trama
se produz através de perdas, deslocamentos, substituições, trocas. [...] Perda e
incompletude abrem, assim, o caminho para a subjetividade, a alteridade, a
intersubjetividade e a temporalidade” (idem, p. 75).

O mesmo autor agrega que as assim chamadas patologias da contemporaneidade,


como anorexia, bulimia e drogadição, por exemplo, integrariam e expressariam em sua
sintomatologia os discursos sociais e as tramas de significações entrelaçadas ao redor
dos ideais que configuram o espírito de sua época.

Entendemos estas patologias como verdadeiros “analisadores” do modo de


produção da subjetividade, não por estes quadros serem novos ou desconhecidos em
outras épocas históricas, mas por serem novas as condições sociais que os determinam e
CAPÍTULO I – MAL-ESTAR E ENVELHECIMENTO 21

os recursos ideológicos que os organizam; de preferência, sempre entre os campos da


psiquiatria e da farmacologia. Podemos pensar em acrescentar as demências a esta
categoria, pois também ela forma parte dessa malha produtiva contemporânea. Mas
continuemos agora nosso percurso através das idéias que justificam esta proposição.2
Na “cultura do narcisismo” tal como formulada por Lasch há mais de 20 anos
(Lasch, 1981), o eu ocupa uma posição privilegiada e, embora o autocentramento do
sujeito não seja uma questão nova, nesta formulação adquire outra dimensão.
Estamos ante os resultados da passagem de um autocentramento baseado na
interioridade e na reflexão a um outro que depende, todo ele, do olhar padronizador que
apaga a valorização das diferenças subjetivas transformando o outro em apenas um
objeto usurpável para uso pessoal. Elimina-se a alteridade, a intersubjetividade, e
portanto, a solidariedade (Birman, 2002).
Neste novo narcisismo, o sujeito pode mostrar-se perfeitamente adaptado ao
social em geral e, ao mesmo tempo, sofrer com as exigências dos vínculos mais íntimos,
que exigem um certo grau de renúncia narcísica, enquanto grandiosas expectativas sobre
si mesmo coincidem com sentimentos de inferioridade e desadaptação. O sujeito
descentralizado de sua história e de seu destino perde o sentido histórico de sua
existência, isto é, o sentido de pertença ao conjunto das relações humanas que cobram
significação às singularidades da vida de cada indivíduo.
Vê-mo-nos na presença de um sujeito fora-de-si, não no modo da alienação
psicótica, mas como modo de ser dedicado exclusivamente ao aperfeiçoamento do
próprio eu em acordo com o padrão narcísico. Como se tudo acontecesse num cenário e
fosse para ser visto de longe, haveria uma estetização da existência que viria cancelar a
modalidade vincular dos contatos mais próximos (Debord, 1994). Birman propõe “fazer
uma costura entre as interpretações de Debord e Lasch, já que a exigência de
transformar os incertos percalços de uma vida em obra de arte evidencia o narcisismo
que o indivíduo deve cultivar na sociedade do espetáculo (Birman, 2002, p. 188).
O sujeito, assim organizado, transforma-se em objeto descartável. Perdida a
interioridade, ganha-se exterioridade, quer dizer, ganha-se uma máscara para o consumo
externo, mercado onde algumas regras são sagradas. Nesta sociedade do espetáculo, não
basta ser belo, deve-se ser também competitivo, autocentrado, agressivo, egoísta. Mas
fundamentalmente não se pode nem deprimir, nem sofrer.

________________
2
Voltaremos ao tema da psicopatologia no cap. V
CAPÍTULO I – MAL-ESTAR E ENVELHECIMENTO 22

Entendemos que o fundamental desta exterioridade é uma falta de consistência


interna, um continuado movimento de ter de ser para um mercado que parece não lidar
muito bem com as diferenças. Um ter de ser padronizado – como no melhor estilo
adolescente – para o consumo grupal, mas com normas e exigências que mudam
constantemente. O conceito de sujeito da modernidade, que se pretende estável e
invariável, está definitivamente questionado.
Nesta sociedade do espetáculo, onde tudo acontece como num cenário, prioriza-
se a noção de espaço, a dimensão da história singular se perde e as noções de história e
temporalidade são ocupadas pela idéia do lugar que se ocupa na cena. Espacializados os
vínculos humanos, degradada-se a temporalidade, a historicidade do sujeito não é mais
fundamento para sua existência e a memória em seus múltiplos aspetos se evapora, pois
nada oferece de fundamental para a construção subjetiva
Perdida a significação histórica, especialmente ancorada na questão da filiação,
perdem-se a vivência de si mesmo e o sentimento de continuidade temporal: instaura-se
o vazio. Vivência de vazio e desamparo são características do homem atual. Solidão,
isolamento, fastio e embotamento favorecem o desinvestimento do mundo e da realidade.
Por causa deste isolamento, haverá um desligamento dos vínculos intersubjetivos, via
régia da pulsão de morte.
Veremos então que as questões sobre a temporalidade, quando pensadas do
ponto de vista da psicanálise, abordam fundamentalmente dois aspectos: os vínculos
intersubjetivos e o processo de historização, que não podemos considerar sem analisar a
noção de desamparo.

2. DESAMPARO E ANGÚSTIA

O termo desamparo (Hilflosigkeit3) é utilizado por Freud ao longo de toda sua


obra embora não lhe tenha dedicado nenhum artigo em especial. Costa Pereira, (1999)
que pesquisou exaustivamente este tema, chama a atenção para o fato de esta noção ter
sido negligenciada e seu alcance metapsicológico restringido por uma interpretação que

________________
3
Foi procurado o verbete hilflosigkeit no Vocabulário de Psicanálise de Laplanche e Pontalis, no
Dicionário Comentado de Luis Hans, no Dicionário de Psicanálise de Chemama, no Enciclopédico de
Psicanálise de Kaufmann e no de Roudinesco e Plon. Só há registro no primeiro citado.
CAPÍTULO I – MAL-ESTAR E ENVELHECIMENTO 23

fez prevalecer o ponto de vista genético; o desamparo, surgiria ante uma tensão de
necessidade que o aparelho psíquico, por imaturidade neurológica, ainda não seria capaz
de dominar. Esta perspectiva supõe que o desamparo seria totalmente eliminável pelo
amadurecimento e não teria mais um papel essencial no funcionamento psíquico; mas
não foi essa a perspectiva freudiana que continuou a ver na Hilflosigkeit “ a condição
última de falta de garantias do funcionamento psíquico, que o homem tem de enfrentar
quando de livra de todas as ilusões protetoras que cria para si mesmo” (Costa Pereira, p 130) .
No Projeto de 1895 Freud escreve:

O enchimento dos neurônios nucleares em ψ terá como resultado uma propensão à


descarga, uma urgência que é liberada pela via motora. A experiência demonstra que,
aqui, a primeira via a ser seguida é a que conduz a alteração interna (expressão das
emoções, gritos inervação vascular). Mas, como já explicamos no início, nenhuma
descarga pode produzir um resultado apaziguador, visto que o estímulo endógeno
continua a ser recebido e se restabelece a tensão em ψ. Nesse caso, o estímulo só é
passível de ser abolido por meio de uma intervenção que suspenda provisoriamente a
descarga de Q no interior do corpo; e uma intervenção dessa ordem requer a alteração
no mundo externo (fornecimento de víveres, aproximação do objeto sexual), que, como
ação específica, só pode ser promovida de determinadas maneiras. (Freud, 1895, p 362)

E ainda completa:

O organismo humano é, a princípio, incapaz de promover essa ação específica. Ela se


efetua por ajuda alheia, quando a atenção de uma pessoa experiente é voltada para um
estado infantil por descarga através da via de alteração interna. Essa via de descarga
adquire, assim, a importantíssima função secundária da comunicação, e o desamparo
inicial dos seres humanos é a fonte primordial de todos os motivos morais (Freud,
1895, p. 362, grifos meus).

Vemos então que já em 1895, Freud afirmava claramente que o desamparo é


fundante do ser humano já que é fonte de “todos seus motivos morais” e, desse modo, o
marca para sempre. Como podemos observar desde o começo de suas formulações,
Freud coloca a questão do desamparo na origem do sujeito. A ênfase genética é clara,
porém o olhar para outros aspectos já está lá. E como bem o assinala Cristina Ocariz:
CAPÍTULO I – MAL-ESTAR E ENVELHECIMENTO 24

O fator determinante da angústia automática é uma situação traumática e esta é,


essencialmente uma vivência de desamparo do eu frente a uma acumulação de
excitação, seja de origem externa ou interna, com a qual não pode lidar. O excesso de
estímulos, é vivido pelo sujeito como algo avassalador que o leva a uma situação de
desamparo (Hilflosichkeit) . A situação de desamparo inicial vivida pelo bebê frente à
ausência do outro (Nebenmensch) do qual depende por causa de sua imaturidade
biológica, serve como modelo frente às situações perigosas que viverá na vida, às quais
reagirá de acordo com sua configuração psíquica do momento. (Ocariz, 2003, p 92)

Jean Laplanche em “Novos fundamentos para a psicanálise”, dá ênfase ao


aspecto genético que aborda o desamparo como um estado objetivo que deve ser
separado do aspecto afetivo. Este estado em que se encontra o bebê por causa de sua
imaturidade, seria uma situação de insocorro, desajuda indefensão. Em suma, um estado
em que um ser não pode ajudar-se a si mesmo, um estado em que, se deixado só, perecerá.
No mesmo texto, o autor situa o desamparo como fundamento do que chamou “a
situação originária” na qual, o recém nascido seria impotente para realizar a ação
específica adequada que poria fim ao estado de tensão interna provocado pela
necessidade e, assim, ficaria submetido à onipotência materna4. Estado de desamparo
fundamental e definitivo na constituição do psiquismo e na sua relação com os outros
dos quais dependerá para sua sobrevivência. Mas não haveria desamparo que se
referisse só ao campo da autoconservação, pois uma das formas privilegiadas da
expressão da sexualidade adulta está em franca relação com os cuidados do bebê.
Laplanche, então, ele distingue dois níveis de prematuração: um na esfera de
sobrevivência, adaptativo, e outro na esfera sexual, na qual baseia sua “teoria da
sedução generalizada” em que a criança se confronta (passivamente) com a sexualidade
adulta inconsciente.
Pois bem, em 1920, algo de transcendental acontece no cenário da psicanálise. A
formulação da pulsão de morte vem outorgar ao desamparo uma nova dimensão. O
desamparo é da ordem do originário e, como tal, seria impensável antes desta data. Uma
pulsão sem representação e sem inscrição no circuito da satisfação, uma pulsão sem
objeto, silenciosa, que coloca o ser humano, definitivamente e sem subterfúgios, na

________________
4
Este aspecto já tinha sido levantado por Freud em “ A Etiologia da Histeria” de 1896. Voltaremos ao
tema no capítulo IV quando estudaremos a construção do Eu e abordaremos as idéias de Piera Aulagnier.
CAPÍTULO I – MAL-ESTAR E ENVELHECIMENTO 25

posição de desamparo. Virada fundamental que provocará efeitos em toda a teoria.


(Birman 2000)
Neste caminho, Freud dá uma reviravolta na sua teoria da angústia que até então
era considerada como proveniente da libido recalcada. No marco da segunda teoria –
mais metapsicológica do que fenomenológica – tal como formulada em “Inibição,
sintoma e angústia” (1926), a verdadeira origem da angústia está no eu e é ela que cria a
repressão.5 Freud distingue, então, duas formas de angústia: angústia automática, na
qual há uma “situação traumática” provocada pelo excesso de excitação (tanto seja de
origem interno ou externo) e angústia sinal, como forma de reação do eu ante a ameaça
da situação de perigo, isto é, de se instaurar uma situação traumática.
Freud também supõe um deslocamento do poder primitivo originariamente
associado às figuras parentais, ao supereu posterior ao período de latência. Considera
que, para que se estruture uma neurose traumática, além da presença do perigo objetivo
é necessária a participação dos níveis mais profundos do aparelho psíquico, pois seria “a
conseqüência direta da angústia de supervivencia ou de morte” (Freud, 1926, p 122) e
explica a analogia entre angústia de castração e angústia de morte

Mas o inconsciente parece nada conter que pudesse dar qualquer conteúdo ao nosso
conceito da aniquilamento da vida. A castração pode ser retratada com base na
experiência diária das fezes que estão sendo separadas do corpo ou com base na perda
do seio da mãe no desmame. Mas nada que se assemelhe à morte jamais pode ter sido
experimentado; ou se tiver, como no desmaio, não deixou quaisquer vestígios
observáveis atrás de si. Estou inclinado, portanto, a aderir ao ponto de vista de que o
medo da morte deve ser considerado como análogo ao medo da castração e que a
situação à qual o ego está reagindo é de ser abandonado pelo superego protetor – os
poderes do destino — de modo que ele não dispõe mais de qualquer salvaguarda contra
todos os perigos que o cercam. (Freud, 1926, p.123, o grifo é meu)

________________
5
Optaremos pelo uso do termo “repressão” pois: “em português,‘recalque’, significa simplesmente o ato
de calcar de novo, de pisar aos pés, enquanto ‘repressão’, segundo a lição de Aurélio Buarque de
Holanda; tem um ágama de significações muito mais afim ao conteúdo de violência que, em nosso
entender, é a conotação essencial do conceito freudiano. Conseqüentemente, traduzimos Unterdruckung
por ‘supressão’, atentando para a etimologia do vocábulo. Os dois conceitos jamais se confundem sob a
pena de Freud: ‘repressão’ alude a exclusão para o inconsciente, enquanto ‘supressão’ indica o ato de
manter algo no pré-consciente” (Mezan, 1991, p. XVII). E “havendo argumentos a favor dos dois
termos, deve-se chegar a um acordo[...] se atualmente o mais difundido é repressão, e se não parece
haver fortes argumentos contra seu uso, ele talvez seja o mais indicado – como,afinal, queria o velho
Freud” ( Souza, 1999, p. 116)
CAPÍTULO I – MAL-ESTAR E ENVELHECIMENTO 26

Podemos observar que o desamparo, deixa de ser somente o produto da


imaturidade psicomotora do bebê para se constituir em uma possibilidade da vida
psíquica que, submetida a determinadas condições de excesso de estímulos, pode ser
vítima de uma situação traumática concreta. Ceccarelli escreve:

Vale lembrar que o desamparo original não deve ser compreendido apenas do ponto de
vista biológico. Para o bebê, o que a falta do Outro traz não é a morte biológica mas,
antes, a morte ontológica que tem sua expressão máxima em algumas formas de
psicose. A função essencial do Outro primordial encarnada inicialmente pela mãe é a de
introduzir a criança no mundo da metáfora onde os objetos secundários substituem os
primordiais: para manter-se o narcisismo secundário, o do eu, deve-se sacrificar o
narcisismo primário. O bebê humano que recusasse esta necessidade seria impensável
como humano, excluindo-se da cultura. (Ceccarelli, 2001, versão electrônica)

É em “O futuro de uma ilusão” e “O mal-estar na cultura” que a noção de


desamparo, já anunciada nos primeiros textos da produção freudiana, se instala,
definitivamente, no corpo teórico da psicanálise como fundante da subjetividade.

Em “O futuro de uma ilusão”, de 1928, Freud retoma o tema ligando o


desamparo infantil à religiosidade, à justiça e à figura de um pai protetor:

Como já sabemos, a impressão terrificante de desamparo na infância despertou a


necessidade de proteção – de proteção através do amor –, a qual foi proporcionada pelo
pai; o reconhecimento de que esse desamparo perdura através da vida tornou necessário
aferrar-se à existência de um pai, dessa vez, porém, um pai mais poderoso. Assim o
governo benevolente de uma Providência divina mitiga nosso temor dos perigos da
vida; o estabelecimento de uma ordem moral mundial assegura a realização das
exigências de justiça... (Freud, 1928, p. 30).

Quem não tiver a sorte de viver em um mundo justo nem a possibilidade da


ilusão religiosa deverá admitir para si mesmo toda a dolorosa dimensão do desamparo e
sua insignificância dentro da ordem do universo e, se não achar outros caminhos, estará
submetido às mesmas condições do desvalimento infantil.

Paulo Ceccarelli, (2001) a partir de uma apurada leitura dos textos de Freud,
analisa como a figura do pai é central para este autor:
CAPÍTULO I – MAL-ESTAR E ENVELHECIMENTO 27

Para Freud é da relação com o pai em carne e osso, que o sujeito forja o protótipo de
Deus e também o do demônio; é por ter tido um pai particularmente violento e cruel na
realidade que Dostoievski desenvolve um superego sádico. Ao pai, a tarefa de substituir
a mãe na proteção da criança pelo resto da infância contra os perigos de mundo externo,
como lemos em O Futuro de uma Ilusão. (Ceccarelli, 2001, versão electrônica)

E acrescenta:

Do onipotente pai herói – o grande homem da infância – profundamente admirado, por


vezes idolatrado, mas também temido – ficará a nostalgia do pai, sentimento que
coincide com a necessidade de proteção ligada ao desamparo humano. É também ele
que vai, via ameaça de castração, – o pai que castra mas que protege – marcar e
direcionar, por assim dizer, o desejo do filho. (idem)

Se houver um colapso das funções parentais será impossível evocar a nostalgia


da proteção do pai. Ceccarelli, (idem) utilizando o exemplo da drogadição observa que,
quando falha esta evocação, quando é impossível apelar ao pai, a droga pode produzir
um “arrimo de segurança”, como uma ilusão de retorno ao paraíso perdido, ao estado
oceânico rompido. “O apelo ao pai é um pedido de proteção contra a castração – logo,
contra a morte – num contexto onde a castração já se deu, ou seja, onde já houve função
paterna.” (idem)
Haveria pois um desamparo originário, fundante, que marca de forma indelével
a subjetividade humana e outro – que não seria mais que um reencontro – em que uma
ilusão de amparo seja possível através do apelo ao pai simbólico.
E Freud vai continuar trabalhando com esta noção até se constituir como figura
central em uma concepção trágica do homem, consciente de sua finitude e à mercê das
vicissitudes da vida. Será desta forma que o encontraremos em “O mal-estar na cultura”,
de 1929.
Neste texto, e seguindo a trilha inaugurada em “O futuro de uma ilusão”, Freud
retoma um conceito de seu amigo Romand Rolland, que define a verdadeira origem da
religiosidade na existência de um “sentimento oceânico”, “um sentimento como de algo
sem limites, sem barreiras” (Freud, 1929, p.65). Seria algo como uma sensação de
eternidade, produto da conservação do passado na vida anímica, que não necessariamente
resulta destruído: “sua conservação é mais a regra que uma rara exceção” (idem, p.72).
CAPÍTULO I – MAL-ESTAR E ENVELHECIMENTO 28

Neste sentido, o sentimento oceânico remontaria a fases muito primitivas da


formação do eu, embora Freud não considere esse sentimento como obrigatório, pois
um sentimento só pode ser fonte de energia quando expressa uma necessidade intensa.
Assim, a derivação do desamparo do bebê e o anseio pelo pai em necessidades
religiosas só seria sustentada na vida adulta, pelo permanente medo e simultânea
confiança no poder superior do destino e do divino.

Escreve Freud:

Não consigo pensar em nenhuma necessidade da infância tão intensa quanto a da


proteção de um pai. Dessa maneira, o papel desempenhado pelo sentimento oceânico,
que poderia buscar algo como a restauração do narcisismo ilimitado, é deslocado de um
lugar em primeiro plano. A origem da atitude religiosa pode ser remontada, em linhas
muito claras, até o sentimento de desamparo infantil. Pode haver algo mais por trás
disso, mas presentemente ainda está envolto em obscuridade (idem, p. 72).

Freud considera que o sentimento oceânico seja uma produção posterior, e


relaciona seu aparecimento à religião. A idéia de unidade com o universo e com Deus
parece a primeira tentativa de consolo religioso, uma maneira de rejeitar os perigos do
mundo que ameaçam o eu. Sendo um sentimento tão forte e perdurável, deve ter uma
motivação da mesma intensidade, e essa motivação é, para Freud, o desamparo e a
dependência que o humano sente em relação às outras pessoas.
A maior ameaça então será a fragilidade dos vínculos e a possível perda do amor
do outro que o deixará no maior desamparo e sem proteção ante uma série de perigos e
sofrimentos. Além desta ameaça, Freud coloca mais duas: o corpo, condenado à
decadência e à finitude, corpo que não pode renunciar à dor e à angústia como sinal de
alarme, e as forças da natureza impossíveis de dominar por inteiro. As três questionam a
onipotência do sujeito humano e manifestam sua fragilidade ante a vida.
Para enfrentar os sofrimentos da vida, Freud reconhece algumas outras
alternativas além da religião: distrações poderosas como, por exemplo, a ocupação com
um projeto científico, satisfações substitutivas como a arte e a sublimação em geral, o
uso de substâncias embriagadoras que nos tornem insensíveis, o gozo da beleza, o
investimento no amor e nos vínculos e o trabalho. Diversos meios, enfim, que a cultura
oferece para evitar os sofrimentos que provoca. Proteger-se do desamparo, subtrair-se
CAPÍTULO I – MAL-ESTAR E ENVELHECIMENTO 29

ao medo, regular os vínculos e a divisão dos bens é a função fundamental que Freud
atribui à sociedade. Mas os tempos mudam e estes fatores, embora sempre presentes,
adquirem conotações diversas nas diferentes épocas históricas. Miriam Debieux Rosa
retoma esta questão em relação à sociedade pós-moderna:

Logo, a cultura atende às funções de proteger e organizar as relações humanas quando


supre o sujeito de duas formas: pela convicção de ser único, especial, relacionada ao
narcisismo e a identificação e quando oferece a segurança da pertinência a um grupo
desenvolvido por ideais comuns. Como foi visto, o primeiro aspecto tem sido
exacerbado e este último aspecto tem sido pulverizado na cultura ‘pós-moderna’
(Debieux Rosa,1998, p. 88).

Vemos então como, na contemporaneidade, os vínculos de filiação são


profundamente questionados e, embora seja verdade que a figura do pai simbólico – tal
como era entendida nas sociedades tradicionais – entrou em colapso, é verdade também
que a função “protetora” da cultura não estaria fazendo seu papel. Se o pai não garante
mais nada em termos de proteção subjetiva é porque essa função paterna não tem mais
em que se apoiar. Todos os mecanismos reguladores se mostram falidos e o desamparo
passou a fazer parte da condição subjetiva própria ao ser humano.
A função paterna de suporte e transmissão da identidade para o filho é substituída
por outros saberes, hoje especialmente representados pela mídia. Isto não acontece sem
conseqüências; tanto a constituição do sujeito quanto o próprio processo civilizatório
são profundamente afetados pela desintegração (ou talvez, modificação) dos vínculos
sociais. O futuro não está mais garantido como o estava nas sociedades tradicionais.
Novas formas de expressão da sexualidade, novos conceitos de família, de
parentalidade, de adolescência ou de velhice, fazem sua aparição nos surpreendendo e
modificando nossas significações em relação a questões tão fundamentais como o amor
e a morte. Significações essas que formam parte de uma trama na qual estamos
incluídos como agentes e produtos. Trama que não podemos olhar senão como sujeitos.
Como sujeito incluído na trama social, o homem contemporâneo está longe de
viver uma vida sem ideais e estes, embora não sejam os mesmos ideais sublimes do
romantismo, dominam a existência e determinam os diferentes modos de produção
subjetiva.
CAPÍTULO I – MAL-ESTAR E ENVELHECIMENTO 30

Rojas e Sternbach (1997) nucleiam estes ideais em seis grupos: o primeiro é o


grupo dos ideais ligados ao consumo como pretensão de um desejo sempre satisfeito
plenamente; o segundo grupo é o dos ideais ligados ao aqui e agora, que têm tudo a ver
com a queda das utopias e a abolição da história; neste caso, a dimensão do futuro fica
submetida a um presente que promove um movimento de desinvestimento em um Ideal
do eu, sempre projetado no tempo futuro, em favor de um eu ideal que manda sê-lo todo
e já. Os ideais de leveza constituem o terceiro grupo, que, como oposição a alguns
ideais rigorosos da modernidade, evitam as profundezas em prol do culto da própria
imagem e da superfície, do que não pesa na existência, do que torne a vida mais “leve”.
Um quarto grupo de ideais liga-se ao mundo da imagem transmitida pela mídia,
ideais estes que são absorvidos passivamente por um público ávido de parâmetros
organizadores de seu cotidiano. O quinto grupo é o dos ideais ligados à juventude, os
quais, como produto dos anteriores, preconizam os padrões de estética e de
comportamento ligados a essa fase da vida; negam o caminho natural em direção à
velhice e à morte, que aparecem como tempo de concentração de tudo o que é decadente
e deficitário, provocando uma necessidade de parar o tempo. Seguindo esta lógica, a
juventude seria um estágio ideal a ser alcançado precocemente e indefinidamente
prolongado.
Por último, o sexto grupo, o dos ideais ligados ao pragmatismo, pelo qual são
valorizadas todas as ações práticas e eficientes – embora agressivas e competitivas –
que ajudem a atingir os anteriores, desestimando valores éticos tradicionais em vez de
criticá-los e superá-los. O sucesso a qualquer preço, como valor inquestionável, muda
definitivamente o modelo.
Vemos que estes ideais estão ligados ao fim das utopias como possibilidade de
projeção dos sonhos no tempo futuro, anulação do tempo para projetos a longo prazo,
presentificação da vida no aqui e agora e rejeição -para as bordas deste universo– de
tudo o que, como a velhice, pode negar estas constatações. Nestas modalidades, os
sujeitos presos à realidade exterior e pouco conectados à própria conflitiva psíquica
mostram um baixo nível de simbolização e manifestações psicopatológicas ligadas à
experiência corporal; os vemos impregnados pelo vazio e sem palavras para falar de
seus sentimentos.
Miriam Debieux Rosa (1998) assinala outros efeitos da pós-modernidade: a
influência dos meios de comunicação na construção da identidade, a realização pessoal
CAPÍTULO I – MAL-ESTAR E ENVELHECIMENTO 31

através do consumo, um sentimento de impotência tanto individual quanto coletivo, a


não somatória dos destinos individuais – já que a vida comunitária é fabricada e dirigida
pelos sistemas formadores de opinião – e o abandono dos fins sociais pela primazia da
produção de tecnologia, o que altera a continuidade histórica da produção e sua
confiabilidade.

Os efeitos envolvem, portanto, abalos na concepção da realidade e na identidade, nas


relações entre os indivíduos e dos indivíduos com a vida social, abalos que fazem
predominar sentimentos de impotência que têm, paradoxalmente, impulsionado grandes
grupos de pessoas na direção da religião. A impotência contrasta com a euforia da oferta
de inúmeras oportunidades de prazer e de conhecimento, com garantias implícitas de
oportunidade de uma vida sem limites e impossibilidades, reforçadas pelas promessas
de eternidade e onipotência advindas dos progressos tecnológicos, inclusive da
medicina (Debieux Rosa, 1998, p. 85).

No cerne da formulação sobre o desamparo, o que se coloca é a falta de


garantias da existência humana que nem a ciência consegue resolver. Haveria, pois, uma
fragilidade estrutural do sujeito que se encontraria à mercê da fragilidade da vida, das
ameaças da natureza e das difíceis vicissitudes do vínculo com os outros. Talvez
ninguém esteja mais consciente de sua finitude, à mercê das dificuldades com a
corporeidade, em situação de fragilidade ante as ameaças da natureza (e da cultura) do
que o sujeito que envelhece. E, também, ninguém é mais sem esperança; tudo o que foi
deixado “para depois” se presentifica de forma urgente e imperiosa, simplesmente
porque o depois não existe ou é muito breve. Ante o fim iminente não há apelo possível,
o socorro não chega, a morte se enfrenta sempre em solidão.

Por muito que o processo de castração tenha cumprido sua função, por melhor
que seja a possibilidade de sublimação, o desamparo do sujeito, como bem o diz
Birman:

Assume uma feição trágica, marcado que seria pela finitude e pelo imprevisível sem ter
qualquer garantia absoluta para se sustentar. É o vazio e o abismo que está
permanentemente sob seus pés, num vórtice tempestuoso que pode engoli-lo a qualquer
momento, pois a morte o espreita com sua fase tenebrosa e hedionda em todos os
instantes”. (Birman, 2001, p, 43)
CAPÍTULO I – MAL-ESTAR E ENVELHECIMENTO 32

3. O NÃO LUGAR DO MAL-ESTAR

Sem dúvida, o progresso da medicina e os avanços tecnológicos têm colaborado


amplamente para a mudança dos conceitos relacionados com as diferentes faixas etárias,
especialmente daqueles que se referem ao processo de envelhecimento. Estes conceitos,
nascem à luz do aumento da longevidade, da qualidade de vida e, portanto, do
crescimento do número de idosos.

Mas, além do progresso científico, a produção conceitual de qualquer área do


conhecimento é regulada por valores sociais e condições históricas que definem sua
evolução e sua operacionalidade. Neste sentido, podemos observar que o conceito de
velhice é bastante recente. O evolucionismo darwinista do século XIX e sua
conseqüente separação da vida humana em faixas etárias introduziu o conceito de
degeneração como fundamental para o saber biológico, o que levou ao entendimento da
velhice como o locus privilegiado de tudo o que referenciasse decrepitude e decadência.

Por outro lado, os valores de produção e consumo ligados ao modo de produção


capitalista também colocaram a velhice num lugar marginalizado, investido de valores
simbólicos negativos e em contraposição aos da juventude, que sintetizariam todos os
valores positivos, especialmente força, beleza, capacidade de trabalho, reprodução e
produção de bens. Assim, o velho deixou de ser um patrimônio, transformando-se em
um encargo social. Joel Birman aborda esta questão com as seguintes palavras:

Colocada na posição negativa de uma existência social que se fechou, a velhice não
poderia ter mesmo qualquer forma de reconhecimento simbólico, de relação com o
futuro, pois o velho estava desinvestido no seu presente. Portanto, apenas lhe restava a
rememoração do passado e o confronto brutal com a morte. Os efeitos subjetivos dessa
posição social negativa, para a velhice, são catastróficos (Birman, 1995, p. 199).

Quando um velho diz “no meu tempo”, está dizendo que não tem presente, que
só pode existir em relação ao passado, que o tempo atual não lhe pertence, e menos
ainda o futuro. O produto direto desta experiência é a desnarcisação, o desinvestimento
da cultura que leva o velho a se identificar com esse espaço vazio, a falta de chances
para a ressignificação do passado no presente, a impossibilidade de projeção no futuro.
CAPÍTULO I – MAL-ESTAR E ENVELHECIMENTO 33

Por outro lado, a cultura cria definições e promove uma linguagem que
categoriza os cidadãos segundo gênero ou faixas etárias, determinando desse modo as
relações sociais entre eles, tanto as de aliança, quanto as de conflito, de solidariedade ou
dominação. Raul Pacheco escreve:

Velhice não é um estado biológico: é uma palavra ou significante. Como tal, não
constitui uma condição biológica, do mesmo modo que as categorias de gênero. Ela
define o lugar do sujeito na cultura e sua posição nas relações de dominação. E também
nas demais relações sociais (Pacheco, 2002, p. 81).

O lugar do velho seria quase um não-lugar pois, embora a partir dos


investimentos das últimas décadas sejam reconhecidos como sujeitos, sendo incluídos
no panorama social contemporâneo (até porque seria impossível não incluir o grupo
etário que mais cresce), os velhos são empurrados para as bordas da estrutura social, são
reconhecidamente obrigados a uma subjetividade ancorada na passividade, a uma
pobreza de trocas simbólicas, e à renúncia ao papel de agentes sociais; são empurrados a
uma perda de todo poder, mesmo sobre si mesmos.

Este não-lugar do velho se manifesta em atitudes e políticas (freqüentemente


solapadas) de exclusão social. Paulo Endo escreve:

Isto tudo está a favor, é claro, de um processo de exclusão em que o próprio sujeito se
exclui a fim de evitar o conflito inevitável que a sua própria inclusão viria a gerar.
Assim, é bom lembrar, a inclusão impõe uma série imensa de conflitos que o velho terá
que enfrentar se quiser se habilitar ou se colocar como sujeito. Isso é agravado na
medida em que, subjetivamente, o velho tem que dar conta dessa opção de ter de ser
incluído, ou então ele abdica desse lugar. Necessariamente, esse lugar é de confronto,
porque é um lugar hostil, porque é um lugar onde ele não é só desabilitado, ele é
desabilitado e hostilizado. Então a reação dele teria que ser uma reação, no mínimo,
também agressiva, ele teria que entrar nessa arena. Daí, penso a necessidade de
instituições inclusivas, capazes de instrumentalizar os cidadãos para essa luta, e onde o
Estado ocupa um papel essencial (Endo, 2002, p. 61).

Portanto, ante a perda das funções produtivas e reprodutivas na contemporaneidade,


não há uma substituição por algo que seja investido simbolicamente pela cultura.
CAPÍTULO I – MAL-ESTAR E ENVELHECIMENTO 34

“Capacidades produtivas” é um conceito que depende da ideologia social dominante,


em que produção se refere só a produção de bens de consumo, a informação ou a
serviços de apoio; outros tipos de produções, como as culturais, artísticas, intelectuais,
de lazer ou de cuidados (de netos ou de doentes, por exemplo), não são investidas e nem
valorizadas quando realizadas por um idoso. Se na cultura contemporânea não há mais
lugar para o papel de transmissor da tradição e dos valores ancestrais, tampouco há
lugar para o velho que quer permanecer ativo. Ainda não se criou um lugar onde exista
uma real necessidade para essa atividade.

Sobre este particular, Paulo Endo diz que as representações centrípetas, quer
dizer, aquelas que vêm do ambiente em relação ao velho “têm uma intenção, no nosso
país, de desabilitar o velho como sujeito. Segundo estas categorias, o velho ou é um
empecilho, ou é um problema, ou é um favorecido, goza de favorecimento e não de
direitos” (Endo, 2002, p. 60).

Além de uma posição social negativa, há o sentimento de finitude. A


proximidade da morte que, nestas circunstâncias, não pode ser elaborada, é sentida
como um limite intransponível e fica no registro do destino iniludível da degeneração e
da decrepitude. Os efeitos negativos desta experiência na economia libidinal se fazem
evidentes nos discursos infantilizados, depressivos ou rígidos dos idosos.

A partir desta premissa, pode-se pensar em uma psicopatologia do


envelhecimento, fundada no não-lugar social da inatividade forçada, na impossibilidade
de uma temporalização do sujeito psíquico, no fracasso antecipado de qualquer projeto
de futuro e no confronto com a morte inevitável que sempre chega antes do esperado.

Birman (1995) fala de três formas paradigmáticas de ordenação psíquica do


idoso, que não se referem a quadros clínicos, mas a estilos psíquicos que marcam as
diferentes maneiras de enfrentamento desta situação.

A forma depressiva acontece quando, sem poder retificar seu passado e nem
projetar seu futuro, o sujeito se fecha a qualquer forma de presente possível e se articula
só em virtude das perdas; na forma paranóide, eclode o ressentimento contra todos
aqueles que supõe responsáveis pelo que lhe falta; por último, na mania, nega-se o
presente da proximidade com a morte, assumem-se como próprios os ideais da
juventude e nega-se a passagem do tempo, o que pode chegar a constituir verdadeiras
construções caricatas de velhos usando modas e atitudes de adolescentes.
CAPÍTULO I – MAL-ESTAR E ENVELHECIMENTO 35

A estas três formas propostas por Birman, propomos acrescentar uma forma
demencial, que, mais do que uma forma autônoma, seria um derivado da depressão.
Uma forma de articulação pela qual foge-se da depressão, recusa-se o passado através
do esquecimento de tudo o que for ligado à dor insuportável da perda. Nestes casos a
depressão seria tão insuportável e o vazio tão infinito que não aceitaria nenhum recurso
elaborativo.
Simone de Beauvoir, ao se indagar já em 1970 sobre as diversas patologias
neuropsiquiátricas observáveis na velhice, escrevia:

Pensa-se hoje que a maioria desses problemas poderia ser evitada se a condição social
dos velhos fosse menos catastrófica. E Bastide [Sociologie des maladies mentales]
escreve: Pode-se perguntar se a senilidade é uma conseqüência da senescência , se ela
não seria antes um produto artificial da sociedade que rejeita os velhos. Ele cita o Dr.
Repond: ‘Estamos mesmo autorizados a indagar se o velho conceito de demência senil,
pretenso resultado de perturbações cerebrais, não deve ser completamente revisto – e se
essas pseudodemências6 não são o resultado de fatores psico-sociológicos, agravados
rapidamente por colocações em instituições inadequadamente equipadas e dirigidas,
como também em hospitais psiquiátricos onde esses doentes ficam entregues a eles
mesmo, privados dos estímulos psicológicos necessários, frustrados em qualquer
interesse vital, e não tendo outra coisa a esperar senão um fim cuja rapidez todos
concordam em desejar. Chegamos mesmo a pretender que o quadro clínico das
demências é talvez um artefato, devido, na maior parte dos casos, à carência de
cuidados e esforços de prevenção e reabilitação’ (Beauvoir, 1990, p. 617).

A falta de habitabilidade do mundo, a falência do reconhecimento social, a


atomização da família provocam um sofrimento excessivo que subsume o eu numa
situação de desamparo, na medida em que remetem a uma situação infantil de recusa de
autonomia, deixando-o preso a uma situação da qual parece não haver saída senão
através de um retorno a uma situação de abandono e dependência.
Se a morte é inevitável e sua proximidade angustiante, o nível de sofrimento que
isso provoca é também responsabilidade social. Quando se privilegia a idéia de
juventude e se expulsa o tema da morte para um lugar cada vez mais marginal ou banal,
as pessoas mais idosas são empurradas a abandonar o que parece ser uma lucidez
________________
6
Voltaremos a nos referir às pseudodemências no capítulo II, ao falar do diagnóstico.
CAPÍTULO I – MAL-ESTAR E ENVELHECIMENTO 36

insuportável, são obrigados a reduzir ao mínimo, e até a anular drasticamente, todas as


ligações com um meio especialmente hostil, são compelidas a não querer saber mais de
um mundo do qual já não podem participar, no qual já não têm mais lugar. Uma
antecipação da morte para conservar a vida à qual é impossível renunciar totalmente.
Cabe aqui lembrar que a possibilidade de alguém cometer suicídio aumenta com a idade
e que as pessoas afetadas por um estado demencial avançado não se suicidam.
Achamos incorreto atribuir os processos demenciais unicamente a fatores
psicossociais – seria cometer o mesmo erro dos que acreditam na monocausalidade
neurológica – mas não por isso deve-se negar a importância fundamental que estes têm
na eclosão de uma demência, pois como bem diz Freud: “No cultivo da ciência há um
expediente que oferece uma solução muito rápida: escolhe-se uma parte da verdade que
é colocado no lugar do todo e, em prol dela, nega-se todo o resto que não é menos
verdadeiro” (Freud, 1916, p. 315). Freud utiliza esta frase, justamente na Conferência
22, onde define as séries complementares retomando o conceito de “equação etiológica”
já esboçada em carta a Fliess do 8 de fevereiro de 1893 (Manuscrito B) e desenvolvido
ulteriormente em “A Herança e a Etiologia das Neuroses” de 1896.
Esta expressão é utilizada para compreender esta multiplicidade de fatores
desencadeantes e superar a alternativa que obrigaria a escolher entre fatores exógenos
ou endógenos. Estes fatores, longe de se opor, são complementares, quer dizer,
aparecem de tal modo que enquanto um aumenta o outro diminui, variam de modo
inverso. Ou seja, só no extremo da série não se encontraria mais que um fator
provocador da neurose.
Na conferência 22, “Algumas perspectivas sobre o desenvolvimento e a regressão”,
Freud estabelece a fixação libidinal como fator interno e a frustração como externo:

O conflito é engendrado pela frustração; ela faz que a libido perca sua satisfação e se
veja obrigada a procurar outros objetos e caminhos. O conflito tem por condição que
estes outros caminhos e objetos provoquem uma contrariedade em uma parta da
personalidade, de modo que se produz um veto que, em princípio, impossibilita a nova
forma de satisfação. De aqui parte o caminho para a formação do sintoma pelo qual
depois nos internaremos. Mas, as aspirações libidinais rechaçadas, logram se impor com
alguns rodeios que as obriga a sortear o veto através de certas desfigurações. Os rodeios
são os caminhos da formação de sintomas. Os sintomas são a satisfação nova ou
substitutiva que se fez necessária pela frustração. (Freud, 1916-17, p 318)
CAPÍTULO I – MAL-ESTAR E ENVELHECIMENTO 37

Mas para que um conflito se transforme em patogênico e siga este caminho é


necessário que à frustração exterior que elimina uma possibilidade de satisfação, se
acrescente a frustração interior que aborta o caminho da substituição.
Já na conferência 23, Freud divide o fator endógeno da fixação em dois
componentes: a disposição constitucional, herdada das vivências deixadas pelos
antepassados e as vivências sexuais da infância.
Assim, a disposição constitucional, as vivências dos cinco primeiros anos de
vida e os acontecimentos atuais constituem os três pilares básicos para o entendimento
dos “caminhos da formação de sintomas” (Freud, 1916-17, p. 330).
A partir deste entendimento, não será difícil compreender que a angústia que a
proximidade da morte provoca é um fenômeno vivido de forma singular, por cada
sujeito em particular, e que a reação ante esta angústia dependerá da forma pela qual
cada um maneje a frustração ante a perspectiva de perda da própria vida, assim como o
que cada pessoa fizer com isso vai depender, e muito, das condições sociais de sua
existência.
De parte dessa multiplicidade de fatores tentaremos dar conta ao longo deste
trabalho, mas antes, para nos localizarmos historicamente, faremos uma introdução à
questão das demências.
CAPÍTULO II

DE-MENTIS

E depois das memórias vem o tempo


trazer novo sortimento de memórias,
até que, fatigado, te recuses
e não saibas se a vida é ou foi.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


“Versos à boca da noite” (fragmento)
CAPÍTULO II – DE-MENTIS 39

1. ANTECEDENTES HISTÓRICOS

O termo demência deriva do latim de-mentis − perder a mente − e, ao longo da


história da medicina, foi usado de diversas maneiras, sempre em relação à perda
da razão e da memória. É interessante notar que, na língua italiana, esta raiz latina dá
origem ao verbo dimenticare que justamente se traduz como esquecer.

Já na mitologia grega, encontramos o mito de Lethe, segundo o qual, no inferno


existem duas fontes próximas: Mnemosyne, a fonte da memória, e Lethe, a fonte do
esquecimento (Chevance 2003). É desta fonte que os mortos vão beber para esquecer da
vida terrestre ou seja, sua história de vida, quanto às almas que retornam ao mundo dos
vivos, Lethe tem também a capacidade de fazê-las esquecer do mundo subterrâneo dos
mortos. Em qualquer uma das duas funções, Lethe está promovendo o esquecimento
necessário para evitar o sofrimento excessivo.

Garcia-Roza (1995) estudando um poema de Parmênides, do século V antes de


Cristo, escreve que na Grécia arcaica:

A palavra, juntamente com as condições de sua enunciação, não valia apenas pelo seu
sentido manifesto, mas como signo a ser decifrado para que um outro sentido, oculto e
misterioso, pudesse emergir, num interminável de decifrações. Essa era a palavra do
aedo, poeta profeta da Grécia arcaica, palavra portadora de Aletheia, da verdade. (p. 7)
CAPÍTULO II – DE-MENTIS 40

Esta verdade é um desvelamento, não é a verdade entendida como a coincidência


entre o pensamento e a coisa, “mas o caminho pelo qual ser e pensar podem dar-se”
(idem p. 12) . Não é da ordem da evidência, mas de uma presença que se vela, que se
oculta. Aletheia, o desvelado, é um termo privativo indicativo desse jogo do mostrar-se
e do ocultar-se: a-letheia , sem Lethe, o desvelado e o velado.

Segundo outra versão do mesmo mito (GarciaRoza p. 27), a função da memória


era um dom divino conferido ao poeta por Mnemosyne e seu objetivo era possibilitar o
acesso ao outro mundo e o retorno ao mundo dos vivos. Nesta versão, é a mesma
Mnemosyne que provoca tanto a memória quanto o esquecimento (Lethe). A
rememoração que o poeta faz do passado tem como contrapartida o esquecimento do
presente. Acedendo ao tempo dos deuses, se afasta do tempo da humanidade marcado
pelo cansaço, a angústia, e as misérias humanas.

Mas Lethe, fonte do esquecimento, é filha de Eris -a discórdia– e irmã da morte


e do sonho, o que nos leva a pensar não ser casual que, freqüentemente, as famílias
assinalem como o começo do processo demencial um problema familiar, um
desentendimento, uma discórdia.

Já para Sólon (500 a.C.) e Platão (350 a.C.), a demência senil era motivo
suficiente para invalidar um testamento e, no século II de nossa era, Galeno a inclui pela
primeira vez entre as doenças mentais.

Há 300 anos, ainda se definia como demente todo sujeito que mostrasse algum
nível de perda da razão, qualquer tipo de loucura, produção delirante ou comportamento
insensato (Thomas, Pesce e Cassuto, 1990). No Aurélio, a demência é definida como
“deterioração progressiva e irreversível das funções intelectuais, resultantes de lesões
cerebrais” e, na sua acepção popular, o termo é usado como “loucura, doidice, parvoíce
e procedimento insensato”.

As primeiras descrições de estados demenciais próximas ao conhecimento com


que contamos na atualidade datam de 1787. Nesse ano, Cullen diferencia as formas de
demência inatas, acidentais e senis. Em 1816, Esquirol diferencia a demência da
deficiência mental congênita dizendo: “o demente é um rico que virou pobre, enquanto
o idiota foi sempre pobre” (idem, p. 5). Em 1838, fala mais especificamente da
demência senil.
CAPÍTULO II – DE-MENTIS 41

A partir de 1820, encontramos uma produção científica prolífica: Georget


descreve casos de confusão mental transitória, Bayle, de paralisia geral, Klippel e
Binswanger de degenerações cerebrais arterioescleróticas e Klippel e L’Hermitte são os
primeiros a separar as demências com lesões vasculares das demências senis puras.
Entre 1896 e 1915, Arnold Pick descreve seis casos de uma atrofia cerebral chamada
posteriormente de demência de Pick. Finalmente, em 1907, Alois Alzheimer, psiquiatra
e anatomopatólogo alemão, publica o caso de uma mulher de 51 anos, falecida após
cinco anos de evolução de um quadro de demência com alucinação, que lhe permitiu o
primeiro exame histológico, no qual identificou conglomerados neuronais, fibras
anômalas e placas senis. Essa degeneração neurofibrilar passou a ser tomada como a
característica patológica da doença que, desde então, leva seu nome e foi considerada
uma demência pré-senil por causa de seu aparecimento prematuro1.

Kraepelin, em 1910, inclui essa denominação em seu “Tratado de Psiquiatria”,


inicialmente publicado com o nome de “Compêndio” em 1883. A classificação das
formas de loucura que ele propunha variou de uma edição a outra, mas podemos
encontrar uma versão completa na edição italiana de 1999, publicada pela editora
Masson sob o nome de “Trattato Italiano de Psichiatria”2.

Nesta exaustiva classificação de cunho organicista, Kraepelin inclui as


demências senis no item Loucuras da Idade Involutiva, junto com as melancolias e o
delírio pré-senil de dano. Esta classificação é um resgate da psiquiatria clássica, que
aceitava as alterações comportamentais e psíquicas como meras manifestações de
desordens biológicas e desarranjos humorais e privilegiava a descrição sintomática
deixando de lado os critérios etiológicos que tinham dominado a primeira metade do
séc. XIX. A vantagem deste tipo de classificação é que, segundo ela, a doença mental
pode ter causas endógenas ou exógenas, mas, estas últimas só produzem uma patologia
quando atuam sobre uma predisposição orgânica.

Vemos então que, nesta época, já se acreditava que as demências senis eram, em
sua totalidade, produto do desgaste “natural” do cérebro e de problemas vasculares;
eram “coisas de idade” e, como tais, inevitáveis. Mas, na mesma época (1911),
________________
1
Mas, entre 1968 e 1970, Thomlinson, Blessed e Roth, analisando um grupo de cérebros de pacientes que
tinham se demenciado com mais de 65 anos, concluíram que a degeneração neurofibrilar era do mesmo
tipo da descrita por Alzheimer, o que tornou a divisão entre senil e pré-senil um tanto confusa.
2
Citado por Isaias Pessotti em “Os nomes da loucura” 1999.
CAPÍTULO II – DE-MENTIS 42

Emmanuel Régis (1855–1918),3 médico francês assíduo leitor de Freud, faz uma valiosa
diferenciação que até hoje conserva sua vigência:

As doenças psíquicas de involução ou decadência se caracterizam pela dissolução do


ser psíquico; não se trata, como na degeneração, de um vício de organização, de uma
debilidade congênita; é uma desorganização, uma debilidade adquirida das faculdades.
Atualmente, esta diferenciação dos estados de deformação, de opressão, de ruína
intelectual, é perfeitamente clara; não acontecia assim em outro tempos, até que, graças
a Esquirol, foi colocado, embora não completamente. A decadência psíquica está
representada clinicamente por uma forma morbosa: a demência. (Revista Vertex, nº 44,
p. 149; grifo meu)

Régis descreve também um quadro de pré-decadência cerebral caracterizado por


enfraquecimento da possibilidade de transformar as sensações em idéias, diminuição da
capacidade criativa, estreitamento do campo cerebral e preponderância da reminiscência
e do automatismo; sintomas aos quais se sucederiam os próprios da fase essencial de
demência. Régis denomina-a essencial e não inicial, dando a entender que a pré-
decadência cerebral não seria específica da demência e poderia evoluir para outro tipo
de quadro, por exemplo, para uma depressão profunda. Assim, o essencial ou específico
da demência seria a perda do funcionamento psíquico normal. Para descrever essa fase
de pré-decadência ou involução psíquica, Régis reproduz uma passagem de “Reveries
d’um promeneur solitaire”, de Jean Jaques Rousseau que, pouco antes de morrer em
1778 e depois de sofrer uma “congestão cerebral”, descreve genialmente seu estado:

Senti que tinha demorado tempo demais em executar este projeto. Minha imaginação,
menos viva, não se excitava já, como em outros tempos, pela contemplação do objeto
que a animava; embriagava-me menos com o delírio do sonho; havia mais de
reminiscência que de criação naquilo que produzia; um desfalecimento morno enervava
todas minhas faculdades; o espírito da vida ia se acabando lentamente, por graus.
Não posso, como de outras vezes, me arrojar com a cabeça baixa neste vasto oceano da
natureza, porque minhas faculdades, debilitadas, não encontram objetos bastante
determinados, bastantes fixos, bastante ao alcance de minhas mãos, para aderir-me

________________
3
Professor de psiquiatria em Bordeus desde 1905, foi o primeiro psiquiatra francês a aderir publicamente
à psicanálise. Ver: Sigmund Freud: “Contribución a la historia del movimiento psicoanalítico” (1914).
CAPÍTULO II – DE-MENTIS 43

fortemente, e não me sinto suficientemente vigoroso para nadar no caos de meus antigos
êxtases. Minhas idéias não são mais que sensações; a esfera de meu entendimento não
abrange mais que os objetos mais imediatos. Minha alma, morta a todos os grandes
movimentos, não pode se afetar mais que pelos objetos sensíveis; não tenho senão
sensações, e só por elas posso, aqui embaixo, alcançar a dor ou o prazer.
Reduzido a mim mesmo, me alimento, é verdade, de minha própria substância, que não
se esgota; me basto a mim mesmo, embora rumine no vazio, e minha imaginação pobre,
e minhas idéias apagadas não proporcionam alimento a meu coração. Minha alma,
ofuscada, obstruída pelos meus órgãos, enfraquece dia a dia e não tem mais vigor para
lançar-se, como antigamente, para além de seu velho invólucro (Revista Vertex nº 44, p.
150; grifo meu).

Rousseau tinha 66 anos e, sem dúvida, estava deprimido.


A fase essencial se caracteriza por falta de precisão e lucidez das idéias e do
juízo, lacunas de memória e fadiga. A amnésia afeta em primeiro lugar as lembranças
mais recentes e depois, progressivamente, as mais antigas, menos aderidas. Esquece-se
o nome das coisas e a linha discursiva, ficando-se entretido nos detalhes e se
esquecendo do resto da história que se queria contar.
Observa-se uma clara diminuição da associação de idéias, da atenção e da
vontade. Há uma retração sobre si próprio e um abalo significativo das atividades
intelectuais em geral. É também característica dessa fase uma emotividade exagerada
em relação a fatos sem importância, que convive com uma acentuada indiferença
perante episódios mais significativos. Simultaneamente, começa-se a perder as atitudes
mais educadas, os bons costumes, e se assiste ao congelamento da afetividade. Régis
nos lembra também que a atividade psíquica normal requer boa memória, representações
numerosas e rápida associação de idéias, características ausentes no começo da doença
demencial.
Em relação a esse aspecto, cabe notar que o autor coloca como ponto de partida
um “abandono da vida psíquica normal”, do qual seria conseqüência a falta de memória,
e não o inverso, como é tão comum encontrar na literatura específica. E acrescenta: “A
estes sintomas psíquicos unem-se, ordinariamente, signos somáticos” (idem, p. 150).
Seriam eles a fadiga, vertigens, ruídos nos ouvidos, cefaléias, transtornos do sono,
locomoção a passos curtos etc. Novamente, o autor coloca a sintomatologia psíquica
como fundamental. Haveria, assim, uma somatória de déficit em relação às funções
CAPÍTULO II – DE-MENTIS 44

psíquicas, que não seriam todas atacadas da mesma maneira e com igual intensidade.
Tratar-se-ia de um processo seletivo.
Em seguida, descreve o que chama de Período de Estado, no qual a amnésia se
estende aos fatos recentes e a todo o saber adquirido, não se respeitando mais que as
aquisições da primeira infância. Nessa fase também se apresentam certas incoerências: o
demenciado, apesar de ter esquecido tudo, é capaz de atividades como ler um jornal,
jogar cartas ou xadrez, momentos em que a memória das palavras parece conservada. E
Régis ainda agrega: “A diminuição intelectual pode ser mais aparente que real” (idem).
Finalmente, Régis descreve a fase terminal como a absoluta perda de toda
inteligência e a deterioração orgânica total com as seguintes palavras:

Desde o ponto de vista intelectual e moral, o demente encontra-se neste momento nas
mesmas condições que o idiota: não existe nada do que foi noutro tempo. Emagrece,
apresenta total incontinência esfinteriana, e reduzido a um estado mais ou menos
completo de decrepitude, acaba morrendo em conseqüência de transtornos tróficos ou
dos progressos da caquexia (idem).

2. DEMÊNCIA: DIAGNÓSTICO4 OU CONDENAÇÃO?

A clínica psicanalítica com idosos (assim como a médica) é testemunha de dois


grandes motivos de consulta, tanto na área hospitalar quanto na particular: depressão e
problemas de memória. Sabemos que alguns desses quadros podem evoluir para uma
demência e, embora na consulta todos falem desse temor, a palavra demência raramente
é pronunciada. Também sabemos que não é necessário estar dentro de um consultório
para ouvir sobre esse medo. É só prestar atenção nos idosos, e mesmo em pessoas mais
jovens, para descobrirmos variados neologismos e até gestos que nos falam sobre essa

________________
4
Existem 2 formas elaboradas para diagnóstico da demência: o Manual de Diagnóstico e Estatísticas das
Doenças Mentais (DSM-III) que estabelece os seguintes critérios: prejuízo da memória para fatos recentes
e antigos, do pensamento abstrato, do julgamento, da função cortical superior (afasia, agnósia, apraxia),
mudança de personalidade. Interferência nas AVD (atividades da vida diária) que não devem ocorrer
exclusivamente durante o período de delírio, evidência de um fator orgânico específico e exclusão de uma
desordem mental não orgânica. O outro parâmetro diagnóstico é o do código Internacional de Doenças
(CID– 10) que coloca os seguintes critérios: prejuízo da memória e das atividades intelectuais que possam
ser objetivamente mensuráveis nas AVD e que estejam presentes durante pelo menos 6 meses, ausência
de alteração no nível da consciência, deterioração do controle emocional , comportamento social e
motivação. (Miranda Ventura e Campos Bottino, 1996)
CAPÍTULO II – DE-MENTIS 45

ameaça. Também é muito comum, nos dias de hoje, que os idosos manifestem seu medo
de ter um Alzheimer − termo que vem substituir outro já em franca decadência – a
esclerose – com o que definem qualquer forma possível de demência.
Do ponto de vista da medicina atual, o termo demência não se refere a uma, mas
a várias doenças de origem e evolução diferentes, porém de prognósticos semelhantes, a
maioria das vezes progressivas e irreversíveis. Nesse sentido, a demência pode ser
considerada mais como um conjunto de sintomas que acompanham várias doenças.
Teremos, então, quadros demenciais originados por diferentes doenças: Aids, AVC,
traumatismo craniano, Parkinson, processo expansivo (tumor), Doença de Pick,
Huntington ou Alzheimer.
Como vemos, é um quadro que, dependendo da origem, pode atingir o sujeito
em qualquer idade, embora, na maioria dos casos atribuídos a uma degenerescência
neuronal, se apresente em idades avançadas.
Cabe reafirmar que a demência não é considerada parte do envelhecimento dito
normal, e sim um quadro patológico grave, freqüente na velhice, mas que é contingente
e não necessário. Isso é importante salientar, pois, se uma pessoa de 35 ou 40 anos
mostrar um quadro confusional, esquecer demais das coisas e, por causa disso, mostrar-
se irritada ou deprimida, logo será tratada, uma vez que se reconhecerá nessa conduta
algo de anormal. Mas, se isso acontecer aos 70 ou 75 anos, muitos ainda dirão que são
coisas da idade.
A característica fundamental desses processos e doenças é o marcado déficit de
memória, que terá como conseqüência perturbações das aptidões cognitivas,
pensamento, fala e coordenação motora. Tais perturbações são suficientemente severas
para interferir na vida familiar, social e de trabalho da pessoa que delas padece.
Seu aparecimento pode ser gradual − nos casos de dano cerebral progressivo −
ou abrupto, se for o caso de uma interação medicamentosa, só para citar dois exemplos.
O tempo de evolução até a fase terminal varia segundo os diferentes tipos, sendo a
Doença de Alzheimer a de progressão mais lenta. Na atualidade já se conhecem casos
de mais de 20 anos de evolução.
Quanto à causalidade, são inúmeras as hipóteses que se manejam; o único
consenso é o que assinala sua idade-dependência. Isso quer dizer que, quanto mais
tempo vive, maior a probabilidade de o sujeito ser afetado por algum tipo de demência
(ou de câncer, ou de problemas vasculares ou de qualquer outra coisa). De qualquer
CAPÍTULO II – DE-MENTIS 46

maneira, e já que retomaremos esses temas mais tarde, no momento nos limitaremos a
dizer que, em relação às demências atribuídas a um dano cerebral progressivo
(especialmente do córtex cerebral), as etiologias ainda não foram esclarecidas, embora
profundamente estudadas. Pensa-se em causas variadas que vão desde fatores tóxicos
até causas genéticas, mas até o presente só há muitas hipóteses e nenhum tratamento
que vise à cura. A única novidade dos últimos anos consiste em novos medicamentos
que, em alguns casos, podem retardar a progressão do processo.

A divisão clássica se faz entre demências irreversíveis e reversíveis, contando-se


entre as primeiras o Alzheimer, Pick, demência por multi-infartos, doença de
Creutzfeld-Jacob. Entre as reversíveis encontram-se, principalmente, os quadros agudos
por interação medicamentosa, quadros de origem psicológica que eclodem depois de um
processo depressivo e as produzidas pela presença de tumores cerebrais passiveis de
remoção cirúrgica. Hoje é consenso, especialmente entre os geriatras, que uma
depressão severa ou não tratada pode conduzir a uma demência que, a partir de um certo
ponto, também será irreversível.

Na “Enciclopédia Médico-Cirúrgica”, Brion (1978) define as demências como


“uma deterioração global, progressiva e irreversível das funções intelectuais; por
definição, trata-se de um fenômeno crônico e incurável”. Embora na versão de 1988 da
mesma enciclopédia, tenha-se eliminado o termo “por definição”, o estigma de
irreversibilidade continuou presente.

Assim, o diagnóstico de demência transforma-se numa condenação à exclusão.


Em princípio, deveríamos pensar que nenhuma doença é incurável, menos ainda “por
definição”, já que o que a faz incurável é o fato de ainda não se ter descoberto a cura.
Por outro lado, os inúmeros pesquisadores que dedicam sua vida à pesquisa nesta área o
fazem a partir do ponto de vista de uma causalidade neurológica. E dado que esta é a
hipótese que comanda a direção da pesquisa, os resultados válidos serão apenas aqueles
que corroborem ou neguem as hipóteses iniciais, sem produzir uma ampliação do
campo de observação que leve à construção de outras hipóteses que excedam o campo
da neurologia.

Atualmente, as possibilidades de se fazer um diagnóstico apurado têm crescido


consideravelmente graças ao progresso dos diagnósticos por imagem. Isto permite que,
do ponto de vista médico, seja possível diferenciar uma demência verdadeira, de causas
CAPÍTULO II – DE-MENTIS 47

neurológicas, de uma pseudodemência5, de causas psicológicas por exemplo. Ora, não


deixa de ser instigante o fato de que ante a probabilidade de uma origem psicológica
algo seja qualificado como pseudo , com toda a carga de preconceito que isso acarreta
Freqüentemente os familiares se sentem enganados e manipulados pelo paciente
quando recebem este tipo de diagnóstico: “o médico diz que ele não tem nada, os
exames não demonstram nada, é pura manha de velho” eles dizem, porém, nestes casos,
esse “não ter nada” refere-se ao fato de não ter nada detectável – através da tecnologia
atual – no organismo, no corpo biológico. Mas a pessoa que se deprime e se demencia
tem muito, até um excesso, de sofrimento, de angústia, de perda.. Os melhores métodos
diagnósticos, não dão conta dos pensamentos, dos afetos, das emoções, dos conteúdos
das lembranças, dos lutos impossíveis e, fundamentalmente, da especial significação
dos esquecimentos. Só podem detectar perturbações morfológicas e funcionais no
substrato material destas funções psíquicas tão imateriais. Além do mais, a maioria dos
diagnósticos ainda são feitos por exclusão de outras patologias.
Sem dúvida, muito se tem avançado nos estudos sobre os estados demenciais,
mas as contradições continuam, pois nem sempre a imagem de um cérebro profundamente
lesionado corresponde a uma conduta geral e uma memória seriamente deficitária. Em
alguns casos, a imagem considerada normal não acompanha uma conduta profundamente
afetada, e o contrário também é possível. Com as necropsias, a situação é igual. Então, a
pergunta continua sendo a mesma: por quê?
Ainda no caso de uma demência específica como a doença de Alzheimer que
comprovadamente apresenta importante perda neuronal, degeneração neurofibrilar
(DNF) e placas senis, podemos nos perguntar se estas lesões são causas ou
conseqüência da doença. Este aspecto não foi ainda esclarecido pela ciência.
Yvon Lamour (1990), pesquisador dedicado ao estudo dos mecanismos
biológicos do envelhecimento, usa a metáfora do computador para exemplificar esta
questão e apoiar a idéia de uma pesquisa multidisciplinar. O hardware representa os
neurônios, as fibras nervosas, etc, enquanto o software representa os processos que
acontecem dentro da máquina. E, embora fique claro que o software não funcione sem o
________________
5
Chamamos a atenção para o fato deste parágrafo falar em “pseudodemências”. Esta classificação é
pouco clara. O critério mais comum é entender como tal aqueles processos demenciais não originados por
degeneração do tecido nervoso, sendo sua causalidade múltipla. Por exemplo: causas tóxicas, como
interação medicamentosa, depressão, traumatismos, etc. Consideram-se também como demências
curáveis, se tratadas antes do processo de cronificação. Voltaremos a este tema no cap. seguinte (Thomas
e Cassutto 1990).
CAPÍTULO II – DE-MENTIS 48

hardware, o mais profundo conhecimento deste não explica as características, as


propriedades nem os efeitos que a utilização de determinado software provoca. O
conhecimento do hardware seria, para este autor, o domínio da neurologia, e o do
software corresponderia à psicologia cognitiva e à psicanálise. E não se pode entender o
funcionamento de todo o sistema desconsiderando um dos elementos.
Assim, abrindo o campo de pesquisa, pode-se formular uma causalidade
multifatorial para as demências, um novo entendimento sobre a dinâmica de fatores
externos e internos, de maneira a constituir uma hipótese psicogénica – na qual o desejo
de esquecimento seja tão forte que possa provocar uma perda neuronal– que co-exista
com as hipóteses genéticas, tóxicas, e tantas outras que possam surgir, sem que
necessariamente, se excluam umas às outras.

3. ASPETOS DESCRITIVOS E DIFERENCIAIS

As pessoas demenciadas tem dificuldades para registrar os fenômenos atuais,


enquanto os fatos do passado surgem vivamente em sua memória. Este passado pode até
ressurgir na memória com uma força surpreendente e, embora seja este um fenômeno
freqüente no processo de envelhecimento, observa-se que essas recordações aparecem
mais claras e detalhadas do que antes de começarem os esquecimentos correspondentes
ao presente, além de se apresentarem muito mais freqüentemente que antes.
Uma paciente relatava assim sua experiência: “Sei que estou com problemas de
memória, me esqueço das coisas de todos os dias, se coloquei sal na comida, ou se
fechei o gás, essas coisas, mas o mais estranho é que sinto que tenho uma grande
memória, maior do que nunca, lembro tudo da minha vida, os detalhes de quando era
pequena, da casa onde morava, de meus pais, da comida de minha mãe, até do cheiro eu
lembro. Me lembro do cavalo de meu primo, das coisas que cultivávamos, dos vizinhos,
da escola, tudo tudo, o tempo inteiro”. Mas os esquecimentos do presente provocam
conflitos, impedem a operatividade no cotidiano, causam brigas, geram culpas.
Outra senhora dizia: “É terrível, não sei que acontece, eu sempre fui muito
eficiente, minha família nem precisava me pedir nada, eu já sabia o que cada um queria,
ia e fazia..... agora, até quando me pedem eu esqueço..... eles ficam bravos... eu sei que
eles sofrem por minha causa...... eu sei que devo me esforçar mais..... eu tento mas......”
e a família reforça: “Ela deveria prestar mais atenção, não se esforça”
CAPÍTULO II – DE-MENTIS 49

Após um certo tempo o passado será também esquecido como relato organizado
historicamente e passível de ser relatado, conservando-se só a memória de alguns fatos,
como ilhas de saberes, sem conexão aparente entre si.
Ao mesmo tempo, esquecem-se as palavras que permitiriam nomear os objetos,
ainda os mais conhecidos e necessários, e as perífrases6 tentam explicar as funções dos
objetos que se deseja designar. Aos poucos, as pessoas, das mais distantes às mais
próximas, deixam de ser reconhecidas, e a desorientação temporo-espacial se instala.
Começa então uma errância incontinente, como uma estéril procura do espaço e do
tempo perdidos. Chegados neste ponto, não haverá mais manifestação de um
pensamento coerente e todos os atos mais elementares da vida se tornam impossíveis,
comprometendo de forma mais o menos total a autonomia no caminho da deterioração
total do sujeito.
O corpo de um idoso demenciado (considerando fases avançadas da doença),
apesar de poder conservar uma boa saúde clínica, não parece estar atravessado por
nenhum registro simbólico: baba, defeca, urina, mexe com as fezes, se despe, se
masturba, tudo sem o menor constrangimento, sem a alegria que os bebês demonstram
em atividades semelhantes, sem nojo. Só ante a atitude repressora dos outros pode
manifestar um certo pudor ou uma culpa por ter feito algo de errado, mas que não
implica um aprendizado. Percebemos apenas o incômodo da sujeira e o prazer da higiene. É
um corpo recorte de zonas erógenas, pura fragmentação. Incapazes dos menores
cuidados com a própria higiene e com perda total do controle esfincteriano, os idosos
demenciados acabam falecendo, freqüentemente, por causa de uma infecção intercorrente.
A queixa sobre uma diminuição da memória não é exclusiva das pessoas idosas,
mas, sem dúvida, aumenta consideravelmente com a idade e adquire uma importância
fundamental pois, em alguns casos, pode revelar a presença de um processo demencial
em fase inicial.
Os pesquisadores coincidem em que uma das maiores dificuldades para o
diagnóstico consiste em diferenciar o que é uma queixa que corresponde a um Declínio
cognitivo leve relacionado com a idade (DSM IV, 2000), e o que pode ser considerado
como um começo de processo demencial. Mas eles também oferecem algumas pistas.
Vejamos.
________________
6
Só a título de exemplo citarei duas: “me dá esse negócio aí que serve para beber” para pedir um copo,
ou “pega para mim isso do cabelo” para pedir um pente.
CAPÍTULO II – DE-MENTIS 50

Alguns estudos (Derouesné 2003) mostram um incremento das queixas de


memória quando coexistem com uma apreciação negativa de saúde em geral. Queixas
que se acentuam após o aparecimento de dificuldades visuais, auditivas, de locomoção
ou de quadros que derivam em limitações alimentares por exemplo, como são a
hipertensão ou a diabetes. Da mesma maneira, aumentam também relacionadas com
fatores emocionais como lutos, ansiedade, perda de bem-estar geral, e perda de suportes
sociais.
As atitudes dos pacientes em relação a suas perturbações de memória são das
mais variadas, podem tanto reconhecê-las ou não, como aumentá-las ou subestimá-las.
Os mesmos estudos citados mostram que pacientes afetados por um processo
demencial, percebem menos suas dificuldades que – cabe destacar como dado de
importância – são geralmente assinaladas pela família. E, à medida que o déficit
aumenta, sua ignorância em relação ao mesmo se faz mais notória.
Na perda benigna, a dificuldade recai especialmente sobre os conteúdos de
difícil registro como nomes próprios ou datas. Acontecimentos passados também são
esquecidos, o conteúdo inacessível em um momento pode ressurgir espontaneamente
minutos mais tarde. A pessoa é consciente de suas dificuldades, pelas quais por vontade
própria, consulta um especialista, e, embora as mesmas afetam o comportamento
cotidiano, provocam preocupação e ansiedade, não sendo tão notória a depressão como
nos casos de demência.
O fato da existência de um declínio leve relacionado com a idade é contestado
por alguns pesquisadores (Derouesné 2003) que não encontram no fator idade uma
variável suficientemente forte. Para estes, o declínio da capacidade de memória é colocado
como um sintoma multifatorial . Trata-se de um quadro no qual se inscrevem fatores
orgânicos como o envelhecimento do cérebro e outros órgãos, problemas vasculares,
déficits endócrinos etc; fatores psicológicos ligados à idade como mudança de imagem
corporal, da sexualidade, da identidade e fatores sociais que provoquem solidão,
isolamento ou violência. Nesta perspectiva, alguns sujeitos simplesmente se adaptariam
a estas modificações e encontrariam estratégias de compensação e outros não.
Para outros pesquisadores como Dartigues (1997) o declínio leve da memória, só
é significativo para um diagnóstico de demência quando acompanhado por baixos
resultados nos testes específicos. Freqüentemente, pacientes que apresentam queixa
sobre perturbações de memória, obtêm muito bom resultado nos testes e escalas de
CAPÍTULO II – DE-MENTIS 51

avaliação, o que leva a descartar o diagnóstico de demência em favor de algum outro,


especialmente depressão.7 Se existe um denominador comum para esta multiplicidade
de fatores, pode ser encontrado em uma diminuição da auto-estima desencadeada pela
perda da confiança no poder da própria memória. Isto poderia provocar uma atitude
negativa que levasse a evitar tudo o que pudesse desencadear o trabalho da memória,
desde as coisas mais simples do cotidiano, até as reminiscências mais elaboradas.
Na experiência clínica é bastante difícil realizar com sucesso o diagnóstico
diferencial entre transtorno moderado da memória por causa da idade e início de quadro
demencial, até porque não existe um consenso sobre sua validez. Por outro lado, sempre
que existe uma queixa sobre transtornos de memória, esta deverá ser ouvida em seu
profundo sentido subjetivo. Não deverá ser ouvida como coisas de velho e sim em sua
profunda significação como discurso sobre o esquecimento.
Devemos acrescentar que, no geral, fora o sintoma de perda de memória, e a
conseqüente perda da razão, os pacientes têm boa saúde. Assim nos encontramos ante o
paradoxo que representa a existência de um ser humano com excelente saúde física, e
sem nenhuma inteligência para resolver até as mais pequenas coisas da vida cotidiana.
Perturbações da linguagem também são freqüentemente descritas como centrais
no diagnóstico de demência, mas sempre associadas às de memória (Irigaray, 1973). A
primeira e mais evidente das características enunciadas é a que se refere à pobreza do
discurso, em segundo lugar vem a incoerência dos enunciados e, por último, fenômenos
de preservação que entranham um estereótipo do discurso falado e escrito. Tudo isto,
com a perfeita preservação dos meios mecânicos necessários para a comunicação
verbal.
Há uma pesquisa muito interessante realizada por cientistas da Universidade de
Kentucky com um grupo de 678 freiras que relaciona a questão da linguagem com a
incidência da Doença de Alzheimer.8 Desde 1986, os pesquisadores fizeram testes
cognitivos e dissecaram os cérebros das religiosas que morriam, para descobrir fatores
de risco para a doença. Além de descobrirem que as portadoras tinham pouca

________________
7
Os testes mais usados na atualidade são: o CAMDEX (1986), organizado como uma entrevista
estruturada com o objetivo de diagnosticar e quantificar a demência, e o MEEM (1975) Mini Exame de
Estado Mental, que avalia outras funções além da memória. Existe também o ENEDAM, utilizado para
diagnóstico de demências em estado inicial, e várias escalas de avaliação clínica para confirmação do
diagnóstico. Miranda Ventura e Campos Bottino, 1996)
8
Um breve artigo que comentava os resultados, foi publicado no caderno Equilíbrio da Folha de São
Paulo em 24 de maio de 2001.
CAPÍTULO II – DE-MENTIS 52

concentração de ácido fólico no cérebro, concluíram também que o estilo de vida era
relevante. A pesquisa demonstrou que o alto nível educacional e vida intelectual ativa,
embora não evitem a doença, protegem o cérebro de seus efeitos devastadores. Porém, o
mais surpreendente foi a relação encontrada entre incidência de Alzheimer e tipo de
personalidade e as modalidades da linguagem.
Trata-se de uma ordem que exige que cada noviça, ao ingressar à vida religiosa,
(aproximadamente aos 22 anos) escreva uma autobiografia. Os casos estudados tinham
entre 79 e 96 anos ao morrerem.
Nesta pesquisa9 surgem alguns dados muito interessantes como o fato de todas
essas mulheres pesquisadas partilharem o mesmo tipo de vida e terem um nível
educacional semelhante. Os neurologistas avaliaram a capacidade lingüística tomando
como base dois critérios: a densidade das idéias e a complexidade gramatical. A
densidade das idéias é medida segundo o número de idéias expressas em grupos de dez
palavras e manifesta o grau de conhecimentos, o nível de estudos e o vocabulário,
enquanto a complexidade gramatical está ligada com a memória, a capacidade de
realizar tarefas rápidas e a escrita.
Os autores da pesquisa encontraram uma correlação entre a pobreza das aptidões
linguísticas aos 20 anos e os baixos resultados nos testes cognitivos 60 anos depois .
Cinco entre quatorze casos estudados tinham manifestado a doença de Alzheimer; em
todos eles, a densidade de idéias na autobiografia era muito baixa, já a baixa
complexidade gramatical, embora presente, era menor. Agora, o que mais nos chamou a
atenção é que, entre as 200 autobiografias analisadas, pôde ser constatado que as que
expressavam emoções como gratidão, alegria, amor e esperança foram menos atingidas
pelo Alzheimer que aquelas outras que expressavam tristeza, medo raiva ou vergonha.

4. A DEMÊNCIA NA PSICANÁLISE

Como já vimos, o uso do termo demência não é novo. Ele também foi
profusamente usado desde as origens da psicanálise. Freud começa utilizando os termos
cunhados por Kraepelim (1856-1926), que fala de “demência precoce” e “parafrenia”.

________________
9
Publicada em jornal médico dos EEUU em 1997 e citada por Chévance (1999).
CAPÍTULO II – DE-MENTIS 53

Essa doença, que atingia pessoas jovens, se caracterizava por transtornos do


pensamento, ensimesmamento, afetividade alterada e atividade delirante.
Bleuler, em 1911, começa a chamá-la de esquizofrenia, na tentativa de integrar o
pensamento freudiano ao saber psiquiátrico e abrindo a possibilidade de, mesmo que
respeitando sua origem orgânica, hereditária ou tóxica, se pudesse pensar a predisposição
da personalidade e a relação do sujeito com o mundo como determinantes da doença.
Inclui, assim, na mesma denominação todos os quadros com dissociação primária da
personalidade, inadaptação, idéias bizarras, e delírios sem depressão nem mania,
independentemente da idade do sujeito. Em “Dois exemplos de fantasias patogênicas”
(Freud, vol. XI, 1910), falando de um jovem paciente de 20 anos, chama a demência
precoce de “hebefrenia” e, em 1913 passará a chamá-la de “parafrenia” ou
“esquizofrenia”, como Bleuler propunha.
Nas últimas décadas, foram poucos os trabalhos psicanalíticos que se ocuparam
desta questão.10 Tudo o que tem a ver com o fenômeno das demências parece ter sido
devolvido ao âmbito da psiquiatria, da neurologia e, mais recentemente, também da
geriatria11, ou seja, foi relegado à área exclusivamente médica. Porém, se fizermos um
breve resgate da obra freudiana, logo veremos que as preocupações de Freud excediam
amplamente esse aspecto e abriam caminho para um ponto de vista muito mais
abrangente e complexo.
Qualquer que seja o termo utilizado por Freud, entretanto, não corresponde ao
que hoje se conhece como demência e que abordamos neste trabalho, mas vale
mencionar que seu estudo provocou interessantes discussões.
Elisabeth Roudinesco menciona que, durante todo o final do século XIX, foi
muito discutido se a demência precoce era uma doença que já existia – já que alguns de
seus sintomas poderiam ser incluídos nos da melancolia ou da histeria – ou se era um
novo quadro que “atingia jovens da sociedade burguesa, revoltados contra sua época ou
seu meio, mas incapazes de traduzir suas aspirações de outro modo que não por um
verdadeiro naufrágio da razão” (Roudinesco, 1997, p. 189).
Em 1911, no caso Schreber – de dementia paranoides, tal como aparece nó título
do artigo – Freud retoma a idéia já colocada em “Três ensaios sobre a teoria da
________________
10
Ver nas referencias as especificações editorias de: Maissondieu (2001) Lê Guès (1987) Chévance
(1999), todos autores franceses que vivem numa sociedade que envelheceu rapidamente nos últimos anos.
11
Cabe assinalar que atualmente, no campo médico, são ao geriatras que têm uma visão mais abrangente
e holística no que se refere à causalidade nas demências.
CAPÍTULO II – DE-MENTIS 54

sexualidade” segundo a qual cada estádio no desenvolvimento da sexualidade fornece


uma possibilidade de fixação, ou seja, de um “ponto disposicional”. Assim, as pessoas
que não se libertaram completamente do estádio do narcisismo:

... acham-se expostas ao perigo de que um incremento de libido excepcionalmente


intenso, não encontrando outro escoadouro, possa conduzir a uma sexualização de suas
investiduras sociais pulsionais e desfazer assim as sublimações que haviam alcançado
no curso de seu desenvolvimento. Este resultado pode ser produzido por qualquer coisa
que faça a libido fluir regressivamente (isto é, que cause uma ‘regressão’) (Freud, vol.
XII, 1911, p. 57).

Freud diz que, quer se trate de desapontamentos em relação a questões amorosas


ou na área das relações sociais, sempre há algo que represente uma frustração12. E
acrescenta:

Visto nossas análises demonstrarem que os paranóicos se esforçam por proteger-se


contra esse tipo de sexualização de suas investiduras sociais pulsionais, somos levados a
supor que o ponto fraco em seu desenvolvimento deve ser procurado em algum lugar
entre os estádios de auto-erotismo, narcisismo e homossexualismo, e que sua disposição
à enfermidade (que talvez seja suscetível de definição mais precisa) deve estar
localizada nessa região. Uma disposição semelhante teria de ser atribuída aos pacientes
que sofrem da demência precoce de Kraepelin ou de (como Bleuler a denominou)
esquizofrenia; e esperamos, posteriormente, encontrar pistas que nos permitam remontar
às diferenças entre os dois distúrbios (com referência tanto à forma que assumem
quanto ao curso que seguem) a diferenças correspondentes nas fixações disposicionais
dos pacientes (idem p. 58).

Vemos como Freud não se conformava com as definições da psiquiatria de sua


época e já apontava para uma visão totalmente diferente sobre a causalidade de certos
casos clínicos, sem se intimidar diante da organicidade suposta ou comprovada das

________________
12
O termo “frustração” (Versangung, denegação) refere-se aqui exclusivamente a obstáculos externos, tal
como o assinala Strachey na nota introdutória de “Tipos de desencadeamento das neuroses” (1912) Neste
artigo volta a usar o mesmo termo de forma mais ampla, referido também aos obstáculos internos.
(Strachey, p. 236)
CAPÍTULO II – DE-MENTIS 55

doenças que tratava. Reação a uma frustração, perda, fixação13 em uma fase mais
arcaica do desenvolvimento psíquico, fuga do eu por regressão, já comparecem aqui,
para nos assinalar um horizonte.
Em “O interesse pela psicanálise” de 1913, Freud escreve:

Em outra perturbação neurótica, a demência precoce (parafrenia ou esquizofrenia),


condição na realidade incurável, o paciente fica, nos casos mais graves, num estado
evidente de completa apatia. Com freqüência as únicas ações que lhe restam são certos
movimentos e gestos monotonamente repetidos e que têm o nome de ‘estereotipias’14.
Uma investigação analítica desse tipo de resíduos, feita por Jung, demonstrou constituírem
os remanescentes de ações miméticas perfeitamente significativas, as quais, em certa
época, expressaram os desejos dominantes do indivíduo (Freud, 1913, p. 177).

15
Por outro lado, Freud chama a atenção para o fato de “estas psiconeuroses”
serem geralmente enumeradas em uma certa ordem: Histeria, Neurose Obsessiva,
Paranóia, Demência Precoce, que corresponderia, embora não exatamente, à ordem das
idades em que aparecem. É também nesse texto que reúne paranóia e demência precoce
na categoria das parafrenias.

As características peculiares a ambos − megalomania, afastamento do mundo dos


objetos, dificuldade aumentada na transferência − obrigaram-nos a concluir que sua
fixação disposicional deve ser procurada num estádio de desenvolvimento libidinal
antes de a escolha objetal ter-se estabelecido − isto é, na fase do auto-erotismo e do
narcisismo. Assim, estas formas de moléstia, que fazem seu aparecimento tão

________________
13
O fato de a libido se ligar fortemente a pessoas ou imagos, de reproduzir determinado modo de
satisfação e permanecer organizada segundo a estrutura característica de uma das fases evolutivas. A
fixação pode ser manifesta e real ou constituir uma virtualidade prevalecente que abre ao sujeito o
caminho de uma regressão. [ ] Podemos considerá-la, fora de qualquer referência genética, dentro do
quadro da teria freudiana do inconsciente, como designando o modo de inscrição de certos conteúdos
representativos (experiências, imagos, fantasias) que persistem no inconsciente de forma inalterada e aos
quais a pulsão permanece ligada. (Laplanche, 1995)
14
Essas estereotipias são muito comuns também nas demências, tal como conhecidas atualmente. Um
paciente que foi um dia um pintor de paredes muito bem conceituado, agora se dedica hora após hora a
descascar as portas e paredes da instituição onde mora, e uma costureira procura, nas próprias roupas, um
fio qualquer que lhe permita descostura-las. Um verdadeiro trabalho de desconstrução do que se levou
uma vida construindo.
15
Termo usado por Freud para caracterizar, em oposição às neuroses atuais, as afecções psíquicas em que
os sintomas são expressão simbólica dos conflitos infantis, isto é, as neuroses de transferências e as
neuroses narcísicas (Laplanche e Pontalis, "Vocabulário de Psicanálise").
CAPÍTULO II – DE-MENTIS 56

tardiamente, remontam a inibições e fixações muito primitivas. Isto, por conseguinte,


nos levaria a supor que a disposição à histeria e à neurose obsessiva, as duas neuroses
de transferência propriamente ditas, que produzem seus sintomas bem cedo na vida,
reside em fases posteriores de desenvolvimento libidinal (Freud, 1913, p. 338).

Em 1914, acrescenta:

Um motivo premente para nos ocuparmos com a concepção de um narcisismo primário


e normal surgiu quando se fez a tentativa de incluir o que conhecemos da demência
precoce (Kraepelin) ou da esquizofrenia (Bleuler) na hipótese da teoria da libido. Esse
tipo de pacientes, que eu propus fossem denominados de parafrênicos, exibem duas
características fundamentais: megalomania e desvios de seu interesse do mundo externo
– de pessoas e coisas (Freud, 1914, p. 72).

Abraham, em 1908, já assinalava que, nas demências precoces, o investimento


libidinal de objetos era ausente.16 De tudo que estamos levantando, a única característica
ausente nos casos de demência hoje diagnosticados é a megalomania.

Dentre todos estes autores dos primórdios da psicanálise, merece uma atenção
especial Sandor Ferenczi, que foi quem mais interesse mostrou no entendimento das
demências e em sua possível leitura a partir da psicanálise.

No artigo de 1917, “Para compreender as psiconeuroses do envelhecimento” ele


explica que nestes casos, “as pessoas não tinham conseguido modificar a distribuição da
libido” ou “não tinham podido adaptar-se a essa nova distribuição dos interesses
libidinais” (Ferenczi, 1993, p. 145), e acrescenta:

Depois que o prof. Freud chamou minha atenção para esse ponto, sei (e não posso
deixar de confirmá-lo) que o homem tende, ao envelhecer a retirar as “emanações da
libido” dos objetos de seu amor e voltar para seu próprio ego o interesse libidinal, de
que provavelmente dispõe em menor quantidade. As pessoas idosas voltam a ser como
crianças narcísicas, perdem muitos de seus interesses familiares e sociais, uma grande
parte de sua capacidade de sublimação desaparece, sobretudo no que se refere à
vergonha e repugnância: tornam-se cínicas, ranzinzas e avarentas; em outras palavras,

________________
16
Ver Conferência XXVI, nas “Conferências de introdução à psicanálise”, vol. XVI, 1916-1917, p. 378.
CAPÍTULO II – DE-MENTIS 57

sua libido regride para as etapas pré-genitais do desenvolvimento e adota frequentemente a


forma ostensiva do erotismo anal e uretral, da homosexualidade, do voyerismo, do
exibicionismo e do onanismo. (idem, p 145)

O único problema deste breve texto, é o fato de o autor enunciar as


características do envelhecimento claramente patológico como se fosse isto o que
acontece habitualmente com pessoas idosas. Mas parece que ele mesmo percebe a
inexatidão de suas afirmações, quando logo depois acrescenta: “Curiosamente, nem
todos os neuróticos de ambos os sexos que atravessam esta idade crítica mostram esses
sinais psíquicos da velhice” (idem, p. 146). A seguir, tece alguns comentários sobre
estas transformações “operadas pela idade” e já no final fala da distribuição da libido
nos casos de demência senil comentando que “pondo de lado o caso de atrofia cerebral”

Parece totalmente plausível explicar a perda freqüente da capacidade de registrar novas


impressões sensoriais quando, por outro lado, há conservação de lembranças antigas,
não por alterações histopatológicas do cérebro mas como uma conseqüência do
empobrecimento em libido objetal disponível: as lembranças antigas devem sua
capacidade de reprodução à viva nuança afetiva que, vestígio da libido de objeto ainda
intacta, permanece ligada a elas, ao passo que o interesse atual pelo mundo externo já
não permite adquirir mais lembranças duradouras. (idem, p. 150)

A preocupação de Ferenczi com este tema é evidente pois, no capítulo seguinte:


“A psicanálise dos distúrbios mentais da paralisia geral” – texto também escrito por
volta de 1917 – vai abordar esta doença causada por uma lesão cerebral e cujos
sintomas psíquicos evoluem em quatro estágios: depressão inicial, excitação maníaca,
delírios paranóicos, e demência terminal e, especialmente, vai se ocupar de como se
opera relação entre doença física e estados psíquicos.

Sobre este particular, diz que a psicanálise só se interessou pelo tema depois da
publicação de “Introdução ao Narcisismo”, quando Freud chama a atenção para o fato
de haver uma relação libidinal especial com o próprio eu, durante os períodos de doença
física, quando a pessoa retira seu interesse libidinal dos objetos do mundo e os desloca
para si mesmo ou para o órgão doente. A doença faz com que ela regrida a um estágio
anterior, infantil, do desenvolvimento. Torna-se narcisista.
CAPÍTULO II – DE-MENTIS 58

Cita o caso dos traumatismos de guerra, que são menores quando existe uma
ferida física, pois a libido é utilizada de um modo patoneurótico17 , ou seja, “parte dela
se liga ao órgão lesado e, por conseguinte, não pode flutuar livremente e constituir um
fator de neurose” (idem, p. 152). Logo depois, chama a atenção do leitor para dois fatos:
o primeiro refere-se a que uma lesão ou doença de zonas erógenas pode provocar graves
doenças psicóticas como o caso das psicoses puerperais e o segundo, tal como o próprio
Freud já o indicara, e que algumas psicose narcísicas graves de origem psicogênica,
como seria o caso da melancolia, podem se curar repentinamente em conseqüência de
uma doença orgânica intercorrente que liga o excesso de libido.

Ferenczi apresenta, então, alguns sintomas de paralisia geral, como uma


patoneurose cerebral, quer dizer, como reação neurótica ao dano sofrido pelo cérebro
ou por seu funcionamento, “como tentativa de controlar a quantidade de libido
mobilizada pela lesão cerebral”. (idem, p. 150) Por um lado esclarece que o cérebro,
mais que qualquer outro órgão, é depositário de “um investimento e uma estima
particularmente importante por parte da libido narcisista” (idem, p. 153) já que é o
órgão central das funções do eu e do princípio de realidade.

Podemos agora supor que a afecção metaléutica18 do cérebro, quando ataca o órgão
central das funções do ego, não provoca apenas “deficiências” mas age, além disso, à
maneira de um traumatismo, perturbando o equilíbrio da economia da libido narcisista,
perturbação expressa pelos sintomas psíquicos da paralisia geral. (Idem, p. 153)

Assim, vai descrevendo os diferentes estágios e seus sintomas. No começo, o


sintoma psíquico evidente é uma espécie de astenia com freqüente perda da libido
genital e da potência, como sinal de retirada do interesse dos objetos sexuais, libido que
vai ressurgir em outro lugar servindo a interesses diferentes, por exemplo, em sensações
hipocondríacas. Esta retirada radical será compensada, também radicalmente, por um
período de euforia de investimento de objeto, especialmente erótico, que mitigue o
desprazer narcísico-hipocondriaco. Este período não dura muito pois, se agravam os
sintomas físicos e a deterioração mental. Encontramo-nos então, ante uma paralisia
melancólica que, fora os sinais físicos, em nada se diferencia da psicogênica. Seria um

________________
17
Patoneuroses: “Neuroses resultantes de uma doença orgânica ou de um ferimento” (Ferenczi, 1993, p. 294).
18
Refere-se a lues: sífilis.
CAPÍTULO II – DE-MENTIS 59

caso de melancolia não por identificação com um objeto externo perdido e sim como
um dano sofrido no próprio eu, “O melancólico vítima de paralisia geral, chora a perda
de seu Ideal do eu, outrora realizado” (idem, p. 156). Os comentários que o autor tece ao
longo do texto continuam sendo de absoluta relevância em relação ao tema que nos
ocupa neste trabalho e precisam ser retomados nos atuais estudos sobre a demência.
Vejamos, por exemplo, quando escreve:

A própria mutilação do corpo, a perda de um membro ou de um órgão dos sentidos, não


acarretam necessariamente uma neurose; enquanto a libido estiver satisfeita com o valor
de sua próprias realizações psíquicas, ela é capaz de superar toda e qualquer deficiência
física com filosofia, humor ou cinismo, inclusive com orgulho, desafio, arrogância ou
desprezo. Mas, ao que a libido pode prender-se, quando já se retirou há muito tempo
dos objetos, não sente mais prazer nas realizações de um organismo enfraquecido,
imprestável, e quando se vê, por fim, expulsa de seu derradeiro refúgio, o sentimento de
auto-estima e a consideração pelo ego mental? (idem, p 157) 19

Como neste quadro clínico o estágio demencial é o final, o doente vai assistindo
impotente e lúcido ao declínio de sua capacidade física, a um organismo enfraquecido e,
lentamente, à perda de suas capacidades intelectuais. Quando a doença cerebral acarreta
a destruição dos produtos essenciais do desenvolvimento psíquico e o desaparecimento
das capacidades mentais mais valorizadas, o eu só pode reagir melancolicamente, e
quando a dor torna-se insuportável, o narcisismo abre caminho regredindo para fases do
desenvolvimento mais primitivas, que outrora estiveram em conformidade com o eu.
Verdadeiro processo de seqüestro do eu atual que permite sumir com tudo que é
doloroso. Assim considerada: “do ponto de vista da psicanálise, a paralisia progressiva
é, na verdade, uma paralisia regressiva” (idem p. 160)

Começamos este capítulo com um comentário sobre a mitologia grega e o


terminamos com o estudo de Ferenczi sobre a Paralisia Geral Progressiva. Pudemos ver
que o interesse em relação aos fenômenos demenciais, em suas diferentes acepções,
ocupou a humanidade desde os tempos remotos e, seguindo este caminho, pretendemos

________________
19
É interessante salientar que a maioria dos pacientes diagnosticados como portadores de algum tipo de
demência possuem uma boa saúde clínica e, ao longo de suas vidas, tiveram poucas dificuldades neste
particular.
CAPÍTULO II – DE-MENTIS 60

acrescentar algumas reflexões que consideramos relevantes. Mas antes de continuar


com o estudo das demências – desta vez, em suas implicações psicopatológicas –
analisaremos outras teorizações que a psicanálise nos oferece para pensar esta questão, a
partir de conceitos que nos aproximam de um entendimento de seus determinantes
psíquicos e, ao mesmo tempo, nos permitem entendê-la como produção subjetiva
paradoxal, em que o sujeito historicamente constituído, para se salvar, se perde.
CAPÍTULO IV

HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO

“Mire veja: o mais importante e bonito, do


mundo, é isto: que as pessoas não estão
sempre iguais, ainda não foram terminadas –
mas que elas vão sempre mudando”.

GUIMARÃES ROSA – “Grande Sertão: Veredas”


CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 103

1. O EU E SEUS IDEAIS

N o discurso freudiano, o termo ich é utilizado de diferentes maneiras, incluído em


tramas teóricas diversas. Pode ser definido como pólo do conflito psíquico, como
sede dos mecanismos de defesa e almácego da angústia,1 como instância de uma
estrutura psíquica, ligado ao narcisismo, como eu ideal e ideal do eu, como eu prazer, eu
realidade, eu consciente e inconsciente.

Esta grande diversidade conceitual, tão fundamental para a teoria psicanalítica,


não deixa de provocar inconvenientes quanto à delimitação deste conceito. Como diz
Luis Roberto Monzani:

O ego, em Freud, tem um estatuto ambíguo desde seus primeiros textos. Ora ele parece
se identificar com o sistema percepção-consciência, ora ele parece ser mais extenso que
este último, levando seus domínios para além do consciente e do pré-consciente e
mergulhando no inconsciente (Monzani, 1998, p. 244).

Apesar das ambigüidades, o eu freudiano é definido como instância,


ou seja, possui um certo grau de organização e faz parte de um sistema junto

________________
1
É interessante notar que na tradução ao espanhol da Ed. Amorrortu usa-se “almácigo” no lugar de
“sede”, como o encontramos na Imago. Almácego, segundo o Aurélio, é sinônimo de Alfobre, que é
definido como viveiro de plantas. Isto é mais adequado do que “sede” para dar uma idéia de lugar de
nascimento e crescimento.
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 104

com outras instâncias também identificáveis pelas suas funções e que formam um
aparelho.2
Não é nossa intenção, neste momento, aprofundarmo-nos nos meandros deste
conceito tão ambíguo e ao mesmo tempo tão rico, que oferece tantos recursos e tantos
inconvenientes. De todas estas formulações, comentaremos brevemente aquelas que
interessam especificamente aos objetivos deste trabalho. Trataremos do eu especialmente
no que se refere a sua constituição, já que falar da constituição do eu é falar da constituição
do humano, é falar de um eu submetido, o tempo todo, ao trabalho das pulsões e às
exigências do mundo externo. Afinal de contas, como bem assinala Renato Mezan:

O fracasso do ego em sua missão pacificadora resulta na perturbação mental, quer


psicótica, quer neurótica, segundo a reação à frustração e segundo o aliado que escolher
para combatê-la. Freud jamais deixou de insistir em que a diferença entre o normal e o
patológico não é de natureza, mas de grau, e este é o sentido de suas repetidas
invocações do ‘ponto de vista econômico’. As modalidades patológicas são todas
redutíveis a um conflito entre o ego e as pulsões (Mezan, 1991, p. 336).

Já em “Estudos sobre a histeria”, o eu aparece como um conceito ambíguo. Por


um lado, Freud o assimila à consciência; por outro, fala da possibilidade de uma
resistência inconsciente. Pergunta-se sobre as forças que operam para contrariar o devir
consciente (a lembrança) das representações patogênicas e reconhece, nelas, a qualidade
de provocar uma dor psíquica suficientemente insuportável. Esta dor as condenaria ao
esquecimento. Vejamos:

De tudo isso emergiu, como que de forma automática, a idéia de defesa. Com efeito, em
geral os psicólogos têm admitido que a aceitação de uma nova representação (aceitação
no sentido de crer ou de reconhecer como real) depende da natureza e tendência das
representações já reunidas no eu, e inventaram nomes técnicos especiais para esse
processo de censura a que a nova representação deve submeter-se. O eu do paciente
teria sido abordado por uma representação que se mostrara incompatível, o que
________________
2
O termo Ich, tal como aparece em “Das Ich und das Es” (O Eu e o Isso), de 1923, é traduzido como eu ou
ego, segundo os diferentes autores que escrevem em língua portuguesa; como moi em francês e como yo em
espanhol. Adotaremos neste trabalho o termo ‘eu’ com fundamento nos esclarecimentos de Luis Carlos
Menezes sobre a revisão brasileira do ‘Vocabulário de Psicanálise”, onde admite as opções Eu, Isso e Super-
eu, devido a sua crescente utilização. (apud Souza, 1999, p. 94). Obviamente, conservaremos o termo “ego”
quando assim constar no original dos diversos autores citados.
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 105

provocara, por parte do eu, uma força de repulsão cuja finalidade seria defender-se da
representação incompatível. Essa defesa seria de fato bem-sucedida. A representação
em questão fora forçada para fora da consciência e da memória (Freud, 1893-95, p.
276, grifo meu).

No Projeto de 1895, o eu aparece sob a forma de uma organização neuronal cuja


função é essencialmente inibidora, constituindo-se como um sistema de defesas contra a
liberação do desprazer. Os resíduos das experiências de dor e satisfação se transformam
em afetos e estados de desejo que provocam um aumento de tensão em ψ. “Do estado
do desejo resulta uma atração positiva para o objeto desejado, ou mais precisamente,
por sua imagem mnêmica; a experiência da dor leva à repulsa, à aversão por manter
investida a imagem mnêmica hostil. Eis aqui a atração de desejo primária e a defesa
(represão) primária.” (Freud, 1895, p. 367) E Freud ainda agrega:

Com efeito, porém, com a hipótese da “atração de desejo” e da propensão à repressão, já


abordamos um estado de ψ que ainda não foi discutido. Pois esses dois processos
indicam que em ψ se formou uma organização cuja presença interfere nas passagens de
quantidade que, na primeira vez, ocorreram de determinada maneira (isto é,
acompanhadas de satisfação ou dor). Essa organização se chama eu. Pode ser facilmente
descrito se considerarmos que a recepção sistematicamente repetida de Q endógena em
certos neurônios (do núcleo) e o conseqüente efeito facilitador produzem um grupo de
neurônios que é constantemente investido. (Idem p. 368)

Através da inibição do processo primário, o eu impede que a marca mnêmica da


primeira vivência de satisfação invada alucinatoriamente a realidade ao surgir a
necessidade. Cabe a ele então, a função de fazer a diferenciação entre alucinação e
percepção. Mas o exame de realidade pertence ao sistema ω que envia sua avaliação da
realidade ao sistema ψ ao qual pertence o eu. Quando a mensagem recebida for
desagradável ou hostil, o eu evitará o desprazer utilizando-se de suas defesas para a
inibição da descarga total de energia. Vemos que, desde o Projeto, o eu fica, digamos,
nesse “meio de campo”, recebendo informações do exterior e comparando-as com os
traços mnêmicos. Este trabalho do eu é a base da atividade do pensar, que gera
conhecimento baseado num juízo de realidade.
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 106

Em 1911, Freud escreve “Formulações sobre os dois princípios do


funcionamento psíquico”, em que a oposição entre eu-prazer (Lust-Ich) e eu-realidade
(Real-Ich) corresponde à oposição entre princípio de prazer e princípio de realidade.
Não são propostas duas formas diferentes do eu, mas duas formas de funcionamento do
mesmo eu. Um eu-prazer que só pode desejar e um eu-realidade que deve evitar as
nefastas conseqüências disso.
O problema consiste no fracasso das tentativas de aplacar as exigências do
mundo, pois a descarga de energia ou a alucinação de satisfação promovidas pelo eu-
prazer só se mostram eficientes por um breve período. A ausência de satisfação gerará a
desilusão, o que trará como conseqüência o surgimento do princípio de realidade, do
registro das necessidades e do processo secundário. Como decorrência, surgirá o eu
realidade, fruto da desilusão. Porém, embora a realidade resulte desagradável, far-se-á
premente conhecê-la e controlá-la para evitar que sua irrupção desavisada ponha em
perigo os cuidados necessários com a vida.
Freud trata aqui de um processo de adaptação do aparelho psíquico. Através
deste processo, ao se aumentar a importância dos sentidos dirigidos ao mundo exterior
(e da consciência acoplada a eles), aumenta-se também a percepção de qualidades
sensoriais que até então não importavam, ocupado que estava o aparelho psíquico em
discernir prazer e desprazer. O princípio de realidade permite a exploração e a
catalogação do mundo exterior, a fim de que os dados fornecidos por esta atividade
fiquem guardados ou registrados. Estes dados serão adequadamente usados quando
“uma necessidade interior impostergável” (Freud, 1911, p. 225) se apresentar. Assim, a
descarga pode ser adiada até o juízo de realidade avaliar o estímulo. Atenção, memória
e pensamento são as novas funções que surgem do processo de adaptação e ao mesmo
tempo o possibilitam.3
Embora Freud tenha falado do eu desde seus primeiros escritos – como
acabamos de ver em relação ao Projeto e aos “Estudos sobre a histeria” – será só a
partir da virada de 1920 que este conceito ganhará seu estatuto fundamental para
metapsicologia psicanalítica. Do ponto de vista tópico, mantém-se como mediador entre
os imperativos do isso e as exigências do mundo externo, sustentando uma relação de
dependência com ambos. Do ponto de vista dinâmico, é o pólo do conflito neurótico e
________________
3
Como veremos no capítulo seguinte, são justamente essas as funções que aparecem diminuídas em
qualquer relatório psiquiátrico de um paciente demenciado ou deprimido.
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 107

sede dos mecanismos de defesa que se põem em funcionamento graças à percepção do


sinal de angústia. Do ponto de vista econômico, é considerado um reservatório de libido
a partir do qual esta é enviada aos objetos e onde conserva uma parte da libido que
destes reflui. Além disso, o eu encarrega-se também de regular as ligações do aparelho
psíquico, embora nas operações defensivas a energia pulsional seja contaminada pelo
processo primário e assuma um aspecto compulsivo e repetitivo.
Entre os escritos anteriores a 1923, é fundamental mencionar “Introdução ao
Narcisismo”, de 1914. Neste texto, Freud traça uma nova distinção entre libido do eu e
libido de objeto, introduz o ideal do eu que, conceitualmente, será a base para a
elaboração do supereu em “O eu e o Isso” e diz que o eu não vem dado, mas se
constitui:

É uma suposição necessária que não esteja presente no indivíduo, desde o começo, uma
unidade comparável ao eu; este deve ser desenvolvido. Bem, as pulsões auto-eróticas
são iniciais, primordiais, portanto, algo deve se agregar ao auto-erotismo, uma nova
ação psíquica, para que o narcisismo se constitua (Freud, 1914, p 74).

Este é o conceito que dá origem à famosa frase da conferência XXXI : “Wo Es war,
soll ich werden”: onde era o isso, que haja o eu. Ou, como traduzido para o espanhol, na
versão da Amorrortu: ”Donde Ello era, Yo debo devenir” (Freud, 1932, p.74).
Não encontramos em Freud nenhuma diferenciação clara entre eu ideal e ideal
do eu,4 mas as bases para futuras conceitualizações já são anunciadas:

Esse eu ideal é agora o alvo do amor de si mesmo, desfrutado na infância pelo eu real. O
narcisismo do indivíduo surge deslocado em direção a esse novo ideal, o qual, como o
eu infantil, se acha possuído de toda perfeição de valor. Como acontece sempre que a
libido está envolvida, mais uma vez aqui o homem se mostra incapaz de abrir mão de
uma satisfação de que outrora desfrutou. Ele não está disposto a renunciar à perfeição
narcisista de sua infância; e quando, ao crescer, se vê perturbado pelas admoestações de

________________
4
”Depois de Freud, certos autores retomaram o par formado por estes termos para designarem duas
formações intrapsíquicas diferentes. Numberg, em particular, faz do ego ideal uma formação geneticamente
anterior ao superego: O ego ainda inorganizado, que se sente unido ao id. Corresponde a uma condição ideal
(...) No decorrer de seu desenvolvimento, o sujeito deixaria para trás este ideal narcísico e aspiraria a
regressar a ele, o que acontece sobretudo, mas não exclusivamente, nas psicoses”(Laplanche e Pontalis:
“Vocabulário de psicanálise”, 1990, p. 139).
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 108

terceiros e pelo despertar de seu próprio julgamento crítico, de modo a não mais poder
reter aquela perfeição, procura recuperá-la sob a nova forma de um eu ideal. O que ele
projeta diante de si como sendo seu ideal é o substituto do narcisismo perdido de sua
infância, na qual ele era o seu próprio ideal (Freud, 1914, p. 91).

Esta nova formação partiria da influência crítica dos pais “agora agenciada pelas
vozes” (idem, p. 92) dos professores e todas as outras pessoas do meio social, e do meio
social ampliado representado pela opinião pública. Encontramos, aqui, um sinal claro
do que mais tarde, em 1923, irá se constituir como um conceito fundamental da
psicanálise: o supereu.
Neste mesmo texto, Freud ainda afirma que a supervalorização dos pais em
relação a seu bebê não é outra coisa senão a reprodução do próprio narcisismo parental
já abandonado. Observa-se, assim, uma compulsão a atribuir à criança todo tipo de
perfeições e a esquecer os defeitos. Ao mesmo tempo, tenta-se poupá-los das exigências
culturais e da submissão às leis da natureza que eles deveriam reconhecer. Assim, “Sua
majestade o bebê” (idem, p. 88), surge como figura central que deverá cumprir os
sonhos irrealizados dos pais.
Já na terceira parte de “Introdução ao Narcisismo”, Freud se pergunta sobre o
que aconteceu com o narcisismo infantil e o que aconteceu com a libido do eu. Claro
que não foi toda desviada aos investimentos objetais, então Freud responde: sucumbiu à
repressão. E acrescenta: “Temos dito que a repressão parte do eu; poderíamos precisar
ainda mais: do respeito do eu por si mesmo” (idem, p. 90).
Em seguida, ele se pergunta por que este mecanismo produz tão diferentes
efeitos nos diferentes indivíduos; por que as mesmas impressões, as mesmas moções
pulsionais, são por alguns reprimidas e por outros não: “Podemos dizer que há erigido
no interior de si um ideal, pelo qual mede seu eu atual, enquanto no outro falta essa
formação de ideal. A formação do ideal seria, de parte do eu, a condição da repressão”
(idem, p. 90). A repressão, então, é função do eu e tem como origem exigências éticas e
culturais.
Esta idéia é retomada em “O eu e o isso”, de 1923, quando Freud afirma que o
eu é a parte do isso alterada pela influência do mundo exterior, a parte que prudentemente
se adapta, (como sustentava em 1911) priorizando o princípio de realidade sobre o
princípio de prazer. Em “Esboço de Psicanálise” de 1938, retoma esta mesma questão,
concluindo uma explicação para a origem do eu:
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 109

Sob a influência do mundo externo que nos cerca, uma porção do isso sofreu um
desenvolvimento especial. Do que era originalmente uma camada cortical, equipada
com órgãos para receber estímulos e com disposições para agir como um escudo
protetor contra estímulos, surgiu uma organização especial que, desde então, atua como
intermediária entre o isso e o mundo externo. A esta região de nossa mente demos o
nome de eu (Freud, 1938, p.143).

O eu se constituirá então como um complexo de representações de si mesmo,


provenientes de estímulos internos e externos (e como tais, passíveis de mudanças
através do tempo) representações que constroem um sentimento de si do qual a imagem
corporal faz parte. Monzani também chama a atenção para o fato de o eu da época da
“Introdução ao Narcisismo” ser conceituado como pólo de fixação da libido, não mais
como um simples lugar de passagem para o investimento objetal, mas como um lugar
onde a libido pode permanecer, seu grande reservatório. E acrescenta:

Freud coloca o narcisismo como o primeiro pólo onde a libido, embora ainda centrada
no sujeito, já não está mais dispersa, mas sim organizada em função de uma imagem: a
imagem de si. Fruto de uma diferenciação progressiva a partir de um solo original, o
ego surge como uma unidade frente à diversidade do pulsional, que até então funcionou
de maneira anárquica e dispersa... (Monzani, 1998, p. 245).

Em 1923, Freud já falava do papel da dor na formação da representação


corporal, salientando sua importância na gênese do eu: o corpo, e especialmente sua
superfície, é um lugar de onde podem partir simultaneamente percepções provenientes
do interior e do exterior. Por outro lado, nos faz notar que a dor também tem um papel
importante neste caso, uma vez que traz notícias de partes do corpo, antes ignoradas,
que contribuem para a formação de uma representação do próprio corpo: “O eu é
essencialmente corpo, não é só superfície, ele é a projeção de uma superfície” (Freud,
1923, p. 27) e “O eu consciente é sobretudo um eu corpo” (idem, p. 29). O eu seria,
então, efeito de sensações corporais, projeção, no psiquismo, da superfície corporal.
Não mais a organização neuronal da qual falava no Projeto.
Não são, contudo, apenas as sensações, dores e imagens corporais que
constituem o Eu. Essa primeira unidade organizada de representações dispersas será
constituída e modificada também em virtude de valores sociais e imagens idealizadas, e
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 110

será a partir destas idealizações 5 que vão se constituir as instâncias idealizadas do eu:
eu ideal e ideal do eu.
Neste ponto, entramos no campo da identificação, que devemos encarar como
um dos mecanismos privilegiados na constituição do eu e em suas futuras modificações.
Um mecanismo tão fundamental que Freud chega a definir o eu como um “precipitado
de identificações abandonadas” (Freud, 1923, p. 31). Pode-se considerar que o conceito
de identificação abre as portas para as posteriores elaborações freudianas sobre a
cultura, pois oferece pistas fundamentais para pensar a influência do social na
constituição do eu, como o encontramos em “O Malestar na Cultura” (1930) .
Para Renato Mezan, a introdução da problemática da identificação faz com que o
conceito de eu passe por um profundo remanejamento a partir do qual podemos verificar
que há quatro elaborações teóricas: a primeira refere-se à função inibidora apresentado
no Projeto, na qual “sua emergência é exigida para controlar o investimento
alucinatório próprio do processo primário” (Mezan, 1991, p. 175). A segunda é sugerida
em “Formulações sobre os dois princípios do funcionamento psíquico”, de 1911, e nela
o eu seria suporte das pulsões de auto-conservação. A terceira se funda sobre o conceito
da narcisismo, tal como o encontramos em “Introdução ao Narcisismo” de 1914; sobre
este ponto, o autor diz que “o narcisismo primário consiste no investimento libidinal
primitivo do ego, do qual emanam, posteriormente, as porções de libido dirigidas aos
objetos exteriores” (idem, p. 178). A libido do ego designa aqui o fato da pulsão sexual
tomar por objeto o eu sem por isso abalar sua função de preservação. Fazendo
referência ao princípio de constância da energia libidinal proposto por Freud.

O ego aparece assim como um suporte constante de energia libidinal, que não se origina
nele, mas o toma como estação intermediária do percurso da libido, à maneira de um
depósito de água: o líquido não é gerado ali, mas é preciso manter uma reserva
constante para distribuí-la pelos canais de irrigação que conduzem aos objetos.Vemos
que além de elaborar o conceito de organização libidinal narcisista, o que Freud faz
neste texto, é sugerir uma verdadeira estase da libido, uma permanência dela no ego,
capaz de realizar fluxos e refluxos em relação ao mundo exterior” (Mezan, 1991, p. 178)

________________
5
Sobre este particular sugerimos a leitura de “Introdução à Metapsicologia Freudiana” vol 3 p. 56 e
“Freud e o Inconsciente” p. 204, de L. A García Roza.
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 111

Por último, encontramos a quarta hipótese em “Luto e Melancolia”, onde


convergem os temas de narcisismo e incorporação, colocando-nos ante a teoria do eu
que sustenta sua constituição através das identificações. Em ambos os estados
encontramos uma diminuição das funções do ego e, na melancolia especialmente, uma
identificação com a figura do morto que, como uma sombra, cai sobre o eu6. Estas
elaborações não se excluem entre si, mas se articulam e se completam nesta rede teórica
que é o conceito de eu.
Para terminar este breve percurso sobre os textos freudianos, desejo comentar
um artigo de 1938, que Freud deixou inconcluso. Trata-se de “A divisão do eu no
processo de defesa”. Nas poucas páginas deste texto, o autor faz uma análise sobre o
comportamento do eu infantil em debate com a ameaça de castração7, constituindo-se
uma “situação de pressão” na qual o confronto entre satisfazer a exigência pulsional ou
aderir ao princípio de realidade é difícil de suportar. Neste caso, a criança responde ao
conflito com duas reações opostas, porém eficazes. Por um lado, rejeita a realidade e
recusa a proibição e, por outro assume o medo desse perigo como sintoma patológico e
tenta se desfazer dele. Assim a pulsão conserva sua satisfação enquanto mostra um
respeito pela realidade. Mas o preço é alto e o eu, para se defender, se divide. Sua
unidade está permanentemente ameaçada. E Freud acrescenta:

Mas tudo tem de ser pago de uma maneira ou de outra, e esse sucesso é alcançado ao
preço de uma fenda no eu, a qual nunca se cura, mas aumenta à medida que o tempo
passa. As duas reações contrárias ao conflito persistem como ponto central de uma
divisão do eu. Todo esse processo nos parece tão estranho porque tomamos por certa a
natureza sintética dos processos do eu. Quanto a isso, porém, estamos claramente em
falta. A função sintética do eu, embora seja de importância tão extraordinária, está
sujeita a condições particulares e exposta a grande número de distúrbios. (Freud, 1938,
p 275, grifo meu)

Pouco mais de 10 anos depois de Freud ter escrito este artigo, Lacan volta à
questão da dualidade, da divisão, da fenda, apresentando o eu sob dois registros: o moi,

________________
6
Voltaremos nossa atenção sobre “Luto e Melancolia” no capítulo que segue.
7
Freud relata o caso de um menino que teve conhecimento dos genitais femininos por sedução de uma
menina mais velha, ao que se seguiu uma atividade onanista que ao ser surpreendida pela babá provocou
uma ameaça de castração. (Freud, 1938, p. 276.
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 112

efeito do imaginário, o je, simbólico, que se constitui em relação ao Outro.8 O moi


marca um momento da relação identificatória da criança com seu semelhante, através do
qual consegue montar uma gestalt de seu corpo, consegue transformar a fragmentação
em unidade. É um eu especular que corresponderia ao eu do narcisismo primário de Freud.
Enquanto o moi se constitui como uma ortopedia – eu imaginário sustentado por
uma imagem especular que lhe dá a ilusão de totalidade e completude – o je surge como
construção dentro da ordem simbólica da cultura, podendo admitir a castração e
construir sua própria identidade de acordo com os modelos estruturantes do Outro, de
acordo com as identificações secundárias.
No texto citado, Lacan escreve:

A assunção jubilatória de sua imagem especular pelo ser ainda mergulhado na


impotência motora e na dependência de nutrição que é o pequeno homem, nesse estádio
infans, parecer-nos-á portanto manifestar, numa situação exemplar, a matriz simbólica
onde o eu se precipita em forma primordial, antes que se objetive na dialética da
identificação ao outro e que a linguagem lhe restitua no universal, sua função de sujeito
(Lacan, 1949, p. 97).

No estádio do espelho, constitui-se o eu imaginário pelo reconhecimento da


própria imagem, processo no qual a presença do Outro, que corrobora esta identificação,
é fundamental. O je é capturado por esse moi, de maneira que o sujeito acredita ser
aquele moi que vê no espelho. O je é o eu que fala no registro do simbólico.
Esse Outro “não é uma instância, mas a ordem simbólica, constituída pela
linguagem e composta de elementos significantes formadores do inconsciente” (Garcia
Roza, 1993, p. 211). Ele se diferencia do outro (com “o” minúsculo), que é o
________________
8
“Este tipo de relação que caracteriza o imaginário, Lacan o chama de dual. O temo expressa a natureza
especular da relação que consiste numa oposição imediata entre a consciência e o outro. [...] Quando
dizemos que a fase dual que caracteriza o imaginário é anterior ao acesso ao simbólico por parte do
infans, isso não quer dizer que o simbólico esteja ausente. Apesar de a criança não ter ainda acesso a sua
própria fala, ela é falada pelo outros, ela já surge num lugar marcado simbolicamente. Ela mesma não
dispõe ainda de uma função simbólica própria, no entanto é desde seu nascimento e mesmo antes dele, é
‘simbolizada’ pelos outros. O imaginário não é, pois, autônomo em relação ao simbólico. Dos três
registros a que Lacan se refere – o imaginário, o real e o simbólico – este último é o que deve ser tomado
como determinante. [....] O real é o barrado, o impossível de ser definido, o que não é passível de
simbolização, mas que é só apreendido por intermédio do simbólico. É a pulsão freudiana. O simbólico,
por sua vez, é a Ordem, a Lei, o que distingue o homem do animal e funda o inconsciente, A Ordem
Simbólica é a ordem humana, é transindividual na medida que precede o sujeito e é a condição de sua
constituição como sujeito humano. É no interior do simbólico e por intermédio dele que o imaginário
pode constituir-se” (Garcia Rosa, 1993, pp. 213-214).
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 113

semelhante. Em “O estádio do espelho” Lacan trabalha a relação da criança com seu


semelhante, através da qual vai constituir uma imagem totalizadora de seu corpo. O que
a criança obtém é uma gestalt, que tem como função substituir a vivência do corpo
fragmentado. Trata-se de uma primeira demarcação do próprio eu por um processo de
identificação ao outro. “O que o infans tem devolvido pelo espelho, pela mãe ou pelo
outro, é uma gestalt cuja função primeira é ser estruturante do sujeito” (idem, p. 213).

Em “O eu e o isso” Freud já assinala com esta idéia do eu como produto de


identificações, quando escreve: “O eu é uma precipitação de investiduras de objetos
resignadas, contém a história dessas eleições de objeto” (Freud, 1923, p. 31).
Outro ponto que outorga grande valor ao texto “O eu e o isso” é o de nele
aparecer pela primeira vez o termo supereu (Über-ich), como uma instância que
representa a lei e proíbe sua transgressão. Para Freud, sua formação é correlativa ao
declínio do Complexo de Édipo, momento em que a criança finalmente aceita a
interdição do incesto e transforma sua rivalidade com os pais em identificação com o
supereu deles que encarnará a lei social transmitida de geração em geração. Se antes
desta fase os fatores de censura e interdição eram só externos, agora são internalizados.
O supereu se origina por identificação com a imagem parental.
Freud se pergunta como o supereu se manifesta especialmente como sentimento
de culpa ou crítica, fazendo do eu o alvo de sua severidade. Uma severidade que pode,
freqüentemente, chegar ao nível de uma intensa crueldade. Tomando como modelo a
melancolia, ele conclui que o supereu toma para si todo o sadismo disponível no sujeito
que, a partir daí, se volta sobre o eu: “O que agora governa o supereu é pura pulsão de
morte, que, freqüentemente, consegue empurrar o eu em direção à morte, quando não
consegue se defender de seu tirano através da mania” (Freud, 1923, p. 54).
Neste ponto de sua elaboração, Freud introduz a possibilidade de um supereu
exageradamente hostil pois, considerando a moralidade como limitação das pulsões, a
questão do grau ou intensidade joga aqui um papel fundamental. O eu se esforçaria em
ser moral ante um isso que desconhece qualquer moralidade e poderia ser hipermoral,
isto é, tirânico e cruel, obedecendo a um supereu que, dependendo das identificações,
pode ter ganho uma carga agressiva importante9.

________________
9
Não é objetivo deste trabalho nos aprofundar no conceito de supereu mas desejamos acrescentar aqui
uma formulação de J.D Nassio pela qual, assim como o supereu primordial seria o herdeiro do Complexo
de Édipo, o supereu tirânico seria o herdeiro de um trauma primitivo, de uma vociferação parental que
não pode ser capturada simbolicamente. (ver Nassio, 1991, p.134).
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 114

No começo deste capítulo falávamos da ambigüidade que o conceito do eu tem


na obra freudiana, mas não é só ele que, em sua riqueza, oferece tantas dificuldades para
quem decide abordar os conceitos fundamentais da psicanálise. Outro conceito, o de
sujeito10 é atualmente mencionado pela maioria dos psicanalistas a partir de diferentes
pontos de vista; a maioria dos autores citados neste trabalho o nomeiam, sem que
fiquem claras as diferenças entre eles. Mas, apesar destas diferenças, podemos afirmar
que a questão do sujeito já estava presente em Freud sem se confundir com o eu.
Para Assoum (1996) a base do “sujeito freudiano” está constituída pelo o “eu
físsil” (que se pode fender). O eu pode se fender em duas partes: sujeito e objeto. O eu
enquanto sujeito, exercendo esta função, pode tomar a si mesmo como objeto. Deste
ponto de vista, encontrarmos-ia-nos ante uma instância eu e uma função sujeito, um eu
que pode funcionar como sujeito (ou não)
Quando citamos o texto “A divisão do eu no processo de defesa”,11 justamente
fazíamos menção à função de síntese do eu que pode ser profundamente perturbada ante
determinadas circunstâncias, provocando essa fenda que só se agrava com o passar do
tempo. A clivagem do eu fica sendo esse compromisso entre a satisfação pulsional e o
respeito devido à realidade, então é a castração que ataca essa função de síntese que tão
trabalhosamente o eu consegue realizar. Escreve Assoun:

É justamente a prova do objeto da castração que desregula a sacrossanta função sintética


do Eu, de modo que é nessa ocasião que ela se revela eminentemente frágil – o que nos
obriga a fazer emergir a questão: logo, que deve ser o sujeito – com suas prerrogativas
funcionais – para tolerar tal cisão” (Assoun, 1996, p. 275)

Freud divide o eu em uma parte consciente e outra inconsciente. Entre um eu que


se acredita presente no discurso e um eu inconsciente de funcionamento surpreendente, e
independente da vontade do falante. Esta clivagem do eu é retomada por Lacan, que
coloca seu sujeito do inconsciente como sendo a própria divisão.... “O sujeito não é
senão essa própria divisão” (citado por Bruce Fink, 1998, p. 67). E Fink, analisando o
mesmo texto freudiano de 1938 acrescenta: “A variedade de expressões como ‘sujeito

________________
10
Este termo aparece repetidas vezes na tradução em português da Imago, mas não na espanhola da
Amorrortu. O que a primeira traduz como sujeito, a segunda o faz como “yo próprio”, “individuo”,
“persona” e outros.
11
Ver p. 111 deste capítulo.
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 115

fendido’, ‘sujeito dividido’ ou ‘sujeito barrado’, cunhadas por Lacan, [...] consiste
inteiramente no fato de que as duas ‘partes’ ou avatares de um ser falante não têm
nenhum traço em comum: elas estão separadas de forma radical” (Fink, 1998, p 67).

Fink fala de um “tornar-se” sujeito. Se há um estranho que fala por nós, que nos
faz dizer o que não queremos, alguma coisa que parece externa mas incomoda como
própria, tornar-se sujeito será tomar essa alteridade para si, implicar-se na estranheza,
excluir as causas do destino e se apropriar dessas vicissitudes. Isso implica fazer a
passagem de objeto a sujeito do próprio destino, causa da própria existência, no
processo de subjetivação. Então o sujeito será dinâmico, móvel, sempre mutante,
passível de diversos posicionamentos. O sujeito não será a cristalização de imagens
ideais e sim o surpreendente sobre si mesmo. Será apenas um lampejo que cria uma
metáfora, que substitui um não senso por um novo sentido, que produzirá uma ilusão de
persistência e continuidade (muito frágil, certamente). O sujeito se descobrira ali onde
não sabia que estava. O sujeito irrompe quando, ante uma surpresa sobre si mesmo,
pode assumir-se como protagonista. Onde uma vez reinou o discurso do Outro, o sujeito
é capaz de dizer “eu”. Não “aconteceu comigo “ ou “eles fizeram isto comigo” ou “o
destino tinha isso guardado para mim” mas, “eu fui”, “eu fiz”, “eu causei”. E ainda
comenta:

Mas embora ele seja um sujeito tão evanescente ou de vida efêmera quanto aquelas
interrupções conhecidas como lapsos de língua e atos falhos, esse sujeito especificamente
lacaniano não é tanto uma interrupção mas o ato de assumir isso, no sentido francês do
termo assomption, isto é, uma aceitação da responsabilidade por aquilo que interrompe,
assumir a responsabilidade (Fink, 1998, p. 69).

Podemos ver que, segundo as elaborações deste autor, tornar-se sujeito é ir além
do registro imaginário do eu. É ter um posicionamento em relação ao Outro, ou melhor,
uma postura em relação ao desejo do Outro, e aqui já estamos falando da ordem
simbólica. Tornar-se sujeito é assumir a divisão, o que cancela a unidade e acaba com a
onipotência; é ser cindido, barrado e, ao mesmo tempo, estar sempre tentando superar
esta situação, sabendo antecipadamente do fracasso inevitável. É condição do sujeito a
falta de estabilidade e permanência.
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 116

2. ACOMPANHANDO O PENSAMENTO DE PIERA AULAGNIER

Voltaremos agora a Piera Aulagnier para seguir o percurso de seu pensamento


sobre a constituição do eu, já que uma de suas maiores contribuições é o que
poderíamos compreender como uma ampliação do modelo freudiano de funcionamento
psíquico. Esta autora postula a existência de processos que procuram metabolizar12 o
encontro entre o espaço psíquico e o extra-psíquico, e estes processos se definem pela
especificidade do modelo relacional que imprimem aos elementos representados.

2.1. Antecipação

O bebê nascido em estado de carência total é – na melhor das hipóteses –


recebido por um meio familiar investido como a única realidade passível de ser
conhecida nesse momento. Assim, a família será o meio psíquico privilegiado no qual
as forças libidinais da criança vão se desenvolver e organizar em torno de dois
organizadores essenciais do espaço familiar: o discurso e o desejo do casal parental.
Nasce em um espaço falante no qual a mãe é porta-voz privilegiado, tanto no sentido
literal – já que é essa a voz que a criança ouve – como no sentido simbólico, pois o
discurso da mãe atua como um representante do meio social externo. Este meio
transmite para o infans os segredos de seu funcionamento, suas leis e exigências.
A voz materna tem uma função de “prótese” psíquica (Aulagnier, 1979, p. 108),
por ser o que permite uma comunicação portadora de significação entre o espaço interno
do infans e o externo a ele, o meio social. Sem esta função, ainda que todas as
necessidades vitais que garantem a sobrevivência biológica fossem satisfeitas, o pequeno
ser poderia não sobreviver, ou ficar profundamente afetado no seu desenvolvimento
psíquico: a presença do “outro” é essencial. A função de prótese só é possível porque a
mãe transmite ao bebê uma realidade já elaborada, já metaforizada, tornada representável e,
conseqüentemente, já adequada às exigências da repressão.
Mas, ainda antes do nascimento, há um discurso materno que concerne a esse
futuro bebê. Piera Aulagnier diz: “espécie de sombra falada e suposta pela mãe que fala,
________________
12
Metabolizar é o termo escolhido por Piera Aulagnier, pois “O trabalho solicitado ao aparelho psíquico
consistirá em metabolizar um elemento de informação que vem de um espaço que lhe é heterogêneo, em
um material homogêneo à sua estrutura, a fim de permitir à psique se representar o que ela quer encontrar
de sua própria vivência “(Aulagnier, 1979, p. 42).
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 117

ela se projeta sobre o corpo do infans – quando de seu nascimento – tomando o lugar
deste a quem se dirige o discurso do porta-voz” (Aulagnier, 1979, p. 109).

A mãe fala à sombra de seu próprio discurso, ou seja, o bebê é precedido,


antecipado, por um discurso materno a seu respeito, que constitui uma imagem
identificatória antecipadora de um corpo ainda ausente. Dizer que o eu antecipado é
“sombra falada” é dizer que esta instância está diretamente vinculada à linguagem, pois
se origina com os primeiros enunciados produzidos pelo discurso materno13.

A mãe fala a uma “sombra” de quem espera uma resposta; a resposta é imediata
porque foi pré-formulada, como uma espécie de “solilóquio a duas vozes executado pela
mãe” (Aulagnier, 1979, p. 110), que fala a uma sombra de seu próprio discurso. Neste
solilóquio, a mãe projeta sobre o infans aquilo que ela gostaria que ele se tornasse.
Idealização projetada de suas próprias idealizações edípicas reprimidas. Estes enunciados
testemunham o desejo materno ou, ao menos, a parte desse desejo que se pode
transformar em dizível e lícito, desejos que representam aquilo a que a mãe precisou
renunciar em virtude da repressão, aquilo que esqueceu alguma vez ter desejado.

Desta maneira se transmite um reprimido. A sombra falada induz, por


antecipação, o reprimido da criança, transmite uma instância repressora que, na verdade,
antecipa o que será reprimido. Trata-se de uma espécie de capital fixo, um ancouradoro
sobre o qual vai se organizar grande parte do espaço psíquico da criança: “O infans, fala
à mãe como se a repressão já tivesse ocorrido” (Aulagnier, 1979, p. 117).

Esta transmissão de sujeito a sujeito – eixo fundamental da problemática


identificatória – não acontece sem desvios ou acidentes de percurso, como se constata
através dos diferentes quadros psicopatológicos. Por outro lado, é necessário considerar
a influência que exerce o pai – ou sua substituição – como primeiro representante dos
outros, de uma ordem cultural constitutiva do discurso social, ao qual ele também se

________________
13
“Está vinculado à linguagem, mas não estruturado como tal”. Neste ponto, Piera Aulagnier marca uma de
suas diferenças com Lacan: “Para mim, o eu é uma instância que está diretamente vinculada à linguagem.
Não há lugar, na minha concepção metapsicológica, para o conceito freudiano de eu indiferenciado. O eu
antecipado é um eu historizado que inscreve a criança, desde o começo, em uma ordem temporal e
simbólica. Minha diferença com Lacan é que, para mim, o eu não está condenado ao desconhecimento, nem
é uma instância passiva. Embora suas primeiras identificações sejam fornecidas pelo discurso materno, o eu
é também uma instância identificante, e não um produto passivo do discurso do Outro” (Aulagnier apud
Hornstein, 1994, p. 369). Cabe notar que Piera Aulagnier tampouco fala de supereu, pois ela prefere usar a
denominação “ideal do eu”. Ela considera que a ação do supereu está nos ideais que “o eu se propõe com
todas suas exigências e excessos possíveis” (idem, p. 368).
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 118

submete. Trata-se de um papel fundamental da função paterna, que introduz o fator


cultural, suas normas e limitações.

O que a mãe deseja é ser todo o necessário à vida do infans, ser a única
provedora de amor e ser reconhecida como tal, sendo que ela é a única a ter um saber
sobre o corpo e as necessidades do infans. Uma forma de violência primária, que impõe
à psique do infans uma eleição, um pensamento ou uma ação motivados pelo desejo da
mãe, mas que é absolutamente necessária ao desenvolvimento do eu. O perigo reside em
que esta violência pode facilmente resultar excessiva, fato que só pode ser evitado se a
mãe tiver a capacidade de renunciar a ser a única fonte de satisfação para essa criança.
Desse modo, aceitando a diferença, produzindo alteridade, ela pode investir no pensar
do filho como produto independente dela, um pensar autônomo onde caibam até
segredos; ela tem de poder aceitar um não saber alguma coisa em relação ao filho. Sobre
este aspecto, Hornstein escreve:

A mãe pode investir o pensamento da criança se aceita a diferença, a alteridade dessa


criança em relação a ela própria. Se a mãe reconhece que pode não saber o que o filho
pensa, o pensamento da criança pode obter um plus de prazer. O prazer de pensar só é
possível se o pensamento pode outorgar a prova de não ser a simples repetição de outro
já pensado (Hornstein, 1994, p. 43).

O desejo da mãe de ser tudo para essa criança torna-se a demanda do infans; ele
espera da mãe justamente aquilo que ela deseja ser para ele, aquilo que ela quer que ele
demande. Entretanto, este estado ideal tem suas limitações, especialmente de ordem
temporal. Esta coincidência de demanda e desejo entre mãe e filho será legítima
somente durante o breve período de tempo em que ela é o único outro possível; fora
desse tempo, a coincidência será da ordem do excesso de poder e, conseqüentemente, da
ordem da violência desnecessária.

Em princípio, o que satisfaz à mãe e a única coisa que o bebê pode entregar
como símbolo de reconhecimento é o ótimo funcionamento de seu organismo. O bebê
cresce, a função paterna faz o seu trabalho e novas funções aparecem. Assim, a mãe
passará a exigir dele que seja capaz de pensar (dentro dos padrões por ela determinados
nisso que chamamos educação) pois só assim poderá confirmar que continua dando a
seu bebê todo o necessário para sua evolução.
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 119

No entanto, quanto mais a criança pensa, mais independente se torna, e mais


autonomia adquire; quanto mais se separa da mãe, mais olha para outros que não ela.
Segundo Aulagnier, podemos dizer que, cada vez menos, a criança escuta apenas sua
voz, mas passa a escutar o conjunto de vozes que, como discurso social, ou texto escrito
em forma de leis, oferece o referencial necessário para que ela se libere desse outro
primeiro referencial absoluto que a voz materna representava. Esta nova atividade, que
começa a ser percebida como uma extensão das atividades do corpo do infans, vai se
tornando mais complexa, de modo a operar a separação até o ponto de a mãe não poder
mais saber o que a criança pensa.

Se essa mãe – impossibilitada de aceitar a autonomia do pensamento do filho –


continuar a determinar seus pensamentos de forma violenta, se não puder renunciar a
esse lugar de privilégio de ser tudo para ele, se não puder renunciar a uma função que já
foi legítima, mas que agora é um excesso, e, se não puder renunciar para investir no
movimento futuro, em beneficio da manutenção da própria relação entre eles, isso
certamente não será sem conseqüências. É possível pensar que esta não aceitação do
pensamento independente do filho pode provocar, no adulto que essa criança se tornar,
uma infantilização, um estado de dependência que, mesmo sessenta ou setenta anos
mais tarde, ainda tente reparar o dano causado ao narcisismo materno pela tentativa de
autonomia.

No processo originário ocorre um encontro, também chamado de originário, que


“...em princípio, acontece no momento do nascimento, entretanto nos autorizamos a
deslocar este momento para situá-lo quando de uma primeira e inaugural experiência de
prazer: o encontro boca-seio” (Aulagnier, 1997, p. 41).

O produto típico deste processo é o que Aulagnier chama pictograma ou


representação pictográfica, entendendo como tal o trabalho do psiquismo para
representar a pulsão em seu encontro com a experiência. Um exemplo disso é o
encontro boca-seio, experiência que se representaria no psiquismo como uma forma
pictórica, uma representação única “bocaseio” e não duas: “boca e seio”. Uma
percepção precoce de um a mais de prazer, provocado pela vivência da satisfação que
acompanha a representação, não reduzida a saciar a necessidade. Trata-se de
representação pictográfica por ser anterior à representação cênica, fantasmática própria
do registro primário e à representação ideativa do processo secundário.
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 120

O tempo de vida “somato-psíquica”, que vai desde o nascimento até a


constituição do eu, é um tempo pleno de representações pictográficas e fantasias,
que depois poderão ser metabolizadas em representações ideativas ou não. Estas
representações, já metabolizadas, constituirão a memória e portanto, o passado. O
passado do eu é um não-eu; o passado que o eu deve construir é um passado em que ele
ainda não existia.

Em seu esforço de sobrevivência o eu encontra um “já-aí” cuja causalidade


ignora, mas cuja capacidade de produzir prazer ou sofrimento teve, certamente, seus
efeitos. Trata-se de um “já-aí” em que o outro é causa, e em que o eu não pode se
representar como auto-engendrado. Entendemos por auto-engendramento o postulado
de atribuição de causa no registro originário, no qual, por ainda não existir o eu-outro,
todo o vivenciado é atribuído ao próprio eu como representação interna do corpo. Só no
registro primário a causalidade poderá ser atribuída ao desejo onipotente do outro. Piera
Aulagnier acrescenta:

O eu não apenas se descobre como resultado de um desejo ou de um discurso


pronunciado por vozes que precederam as suas, mas se dá conta bem rápido de que
esses outros e esse discurso não podem, sem fazê-lo correr um risco mortal, considerar
sua vinda como um mero acidente, um acaso, um erro, que nada deve ao que eles
mesmos já viveram, desejaram, esperaram (Aulagnier, 1989, p. 216).

Assim, o eu fica capturado numa trama temporalizada, onde percebe que nunca
será idêntico ao que já foi. Essa memória de um passado incerto, porém, lhe dará a
certeza do presente e a promessa de um futuro possível. O “já-aí”, embora confuso, lhe
permitirá pensar-se como possuidor de uma história. A voz da mãe, que lhe conta uma
história dessa primeira fase da vida em que o eu ainda não era seu próprio historiador,
lhe outorga um passado coerente com seu presente, sem o qual só contaria com as
estranhas “memórias” de seu corpo.

Quando um sujeito começa seu relato autobiográfico e diz: “eu nasci em....”, está
falando de uma parte de sua vida que ele desconhece e sobre a qual não guarda
nenhuma memória. Esse dado e outros que se seguem no relato como: “filho de....” são
fundamentais na construção de sua história, já que constituem um conhecimento do qual
é impossível prescindir e que depende exclusivamente dos outros. Para que os outros
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 121

possam lhe oferecer essas faltas fundantes, ele deve ter sido acolhido neste mundo por
testemunhos sociais capazes de guardar para esse sujeito a memória do que ele foi
quando ainda não era um eu.
De qualquer maneira, e não importa qual seja a história contada, o eu
permanecerá tributário do outro que sabe sobre ele algo que ele mesmo está impedido
de saber, alguma coisa de fundamental sobre o tempo da origem. O eu se vê obrigado a
se pensar como sujeito histórico a partir de uma origem anterior a sua existência, sobre
o que nada sabe nem pode saber; o eu deve engendrar um antes dele mesmo para se
temporalizar e poder escrever sua história, que resultará necessariamente romanceada,
imersa num tempo sempre confuso e fugidio.

2.2. Investimento, futuro e temporalidade

Os pais são o primeiro sustentáculo para a criança, nascida em situação de


dependência total e demandante de tudo para sobreviver. A criança só poderá se afastar
deles, só poderá se tornar independente, se encontrar novos alicerces para sua identidade
na cultura. Assim como há um discurso parental que a antecede, há um discurso social
que investirá o lugar que ocupará nessa sociedade.
A relação entre a criança e os pais leva sempre a marca da cultura, tanto em
sentido amplo como no mais restrito, do grupo ao qual os pais pertencem. Os desejos
parentais para esse filho trazem a marca dos ideais grupais. Vemos, então, que o
investimento do casal parental sobre a criança é condição necessária, porém não
suficiente para a constituição do eu. O grupo social deverá reservar a esta criança um
lugar que o invista como seu legítimo destinatário, sendo que o sujeito deverá acreditar
que os fundamentos que enunciam as normas grupais e regem seu funcionamento são
legítimos.
A conseqüência direta deste investimento será que a verdade sobre seu passado
como membro desse grupo estará garantida e, portanto, alguma certeza sobre o futuro
será possível. De uma certa maneira, a cultura acalma as interrogações tão humanas
sobre a origem e o destino do homem e solidifica a identidade. O discurso social garante
a continuidade da cultura; como a criança vem ocupar um lugar predeterminado
socialmente, espera-se que assuma o discurso social e garanta a continuidade das
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 122

instituições. Com isso, ele também recebe algo em troca: se cumprir com esta missão
terá um lugar garantido na cultura.
Isto quer dizer que, quando a criança se afasta do casal parental (com toda sua
bagagem de identificações), deve encontrar no âmbito social referências identificatórias
mínimas que lhe permitam um movimento de projeção de futuro. Assim, tornar-se-á
porta-voz de seu grupo e transmitirá os valores herdados à sua descendência.
Os fundamentos destes enunciados culturais, que dependendo do tipo de cultura
poderão ser míticos ou científicos ou do senso comum, segundo a voz que anuncia a
origem e o modelo, dirão sempre sobre a origem do grupo, sua razão de ser e os ideais
que se justificam historicamente. Nesta retroatividade vemos já se esboçar um
movimento temporal.
Dizíamos que o porta-voz formula os anelos identificatórios que se referem ao
futuro; é a mãe que diz ao bebê como ele será, ela o antecipa. A criança ficara identificada
com o anseio do porta-voz, transformando-o em seu próprio. É necessário que alguém
lhe diga: “quando cresceres, tu serás um homem bom...”, para que ela possa dizer:
“quando crescer, eu serei um homem bom...”, é necessário esse investimento no futuro.
O porta-voz que antecipou o eu dessa criança, ainda antes do nascimento, deverá continuar
investindo nessa segunda antecipação. Desta vez, será uma antecipação da própria
possibilidade de existir no futuro. Não será, contudo, uma existência igual ao que era; o
investimento que possibilita a continuidade do eu será no sentido do crescimento.
É necessário que o eu se aproprie dos anelos identificatórios transmitidos pelo
porta-voz, não como modelo rígido imodificável, e sim como investimento do porvir.
Trata-se de um investimento num futuro que não represente o retorno do passado como
repetição do mesmo, que permita e proponha a modificação constante do eu pelo eu e
que outorgue a esperança da continuidade identitária e a certeza de que um certo grau de
liberdade de escolha é possível.
O movimento que se abre aqui é bem interessante, pois só a aceitação da
realidade marcará que o eu idealizado – proposto pelo porta-voz – deverá ser
abandonado em benefício de outros ideais e do que poderá ser construído para o bem-
estar (e sobrevivência) desse eu. A diferença entre o eu que se descobre incompleto e
descobre que nem tudo é possível e o eu que deseja vir-a-ser marca a entrada do sujeito
na temporalidade. O eu deverá ter um projeto para si mesmo que se localizará sempre
no futuro.
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 123

O grupo, falando da origem e dos ideais, direciona a escolha de um roteiro sobre


o qual vai se construir uma história individual. Será oferecido assim um certo nível de
certeza, uma confiança mínima que, além de permitir a continuidade da construção
social, permitirá a integridade psíquica dos sujeitos que a constituem. Se esta certeza
faltar, se os enunciados não oferecerem mais garantias de continuidade e sustentação,
serão abandonados e substituídos de maneira mais ou menos dolorosa, mas haverá
sempre um discurso fundador de cultura e um investimento do sujeito nos enunciados
desse discurso, sob pena de ficar marginalizado se assim não o fizer.

2.3. Sujeito social e contrato narcísico

O mais importante é deixar claro que os fundamentos implicam sempre um


modelo, um ideal social e uma origem coincidente que juntos abram a possibilidade de
uma verdade singular (histórica) se instaurar, freqüentemente de forma independente do
veredicto familiar. O sujeito ideal desse meio social também ideal adere aos fundamentos
para ser reconhecido, desse modo, como uma parte homogênea a um todo. Sobre o
sujeito ideal, escreve Aulagnier:

Esta designação deve ser separada do registro identificatório em sentido estrito [do
imaginário]: ela é co-extensiva a ele, segue uma via paralela, mas não pode ser a ela
identificada. Ela permite uma apreensão que vai demarcar a problemática identificatória,
fazendo com que esta última não seja totalmente aprisionada na armadilha da relação
imaginária (Aulagnier, 1979, p. 150).

Assim, uma parte do que o sujeito singular investir narcisicamente em seu


processo identificatório será transferida sobre o grupo que, assinalando com uma
promessa de futuro, o protege da destruição.
Isto é o que Piera Aulagnier chama contrato narcísico. Contrato justamente
porque há dois signatários: a criança e o grupo social que legitima sua existência. Pelo
lado da criança, ela será a única signatária desse compromisso, pois o abandono do
tempo da infância fará com que ela assuma sozinha as negociações com a realidade,
sem apelar para as figuras parentais. A partir deste momento, o eu falará em nome
próprio e, embora muitos sujeitos resistam a isto de forma mais ou menos apurada;
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 124

como conquistadores mais ou menos bem-sucedidos, todos irão enfrentar a realidade


que se lhes impõe, salvo nos casos em que uma psicose os poupe deste trabalho. O sujeito
social é o sujeito do contrato narcísico, o que se depreende do grupo, ou melhor, a idéia
de si mesmo que obtém do grupo que o reconhece como um elemento homogêneo.
O fim da infância será, então, o momento de uma redação conclusiva deste
contrato, momento em que se fixarão as cláusulas que não deverão mudar, para que todo
o resto seja modificável, para que o eu continue a se reconhecer naquilo que ele devém
ao longo de seu tempo de vida. Os pais, que foram os primeiros co-signatários desse
contrato, transmitirão ao filho o inalienável direito de continuar sozinho sua luta no
processo identificatório e na construção de sua história de vida.
A certeza sobre a origem e a confiança sobre a possibilidade de investimento
futuro abrem uma linha de historicidade. Sem este acesso à historicidade, o eu não
poderia ganhar autonomia e ficaria eternamente preso ao desejo parental. A demanda do
meio social, assim como as muitas ofertas de futuro, farão com que uma grande parte de
seus investimentos identificatórios sejam ali colocados.

O tempo futuro, no qual o sujeito sabe que não mais existirá, pode, desde então, ser por
ele representado como continuação de si próprio e de sua obra, graças à ilusão que o faz
crer que uma nova voz virá retribuir vida à mesmidade de seu próprio discurso,
escapando, assim, ao veredicto do tempo (Aulagnier, 1979 p. 151).

Aqui se apresenta uma questão interessante, já que o discurso do extra-familiar


pode confirmar ou não o discurso familiar, abrindo infinitas possibilidades combinatórias.
Estamos pensando a partir de exemplos de famílias que oferecem as condições
necessárias para a constituição de um eu autônomo, embora saibamos que nem sempre
isto acontece. Testemunho disso é a existência de milhares de crianças abandonadas.
Quando, no lugar de aceitação e inclusão, o meio social oferece rejeição e exclusão, e
um lugar de mera engrenagem no interior de uma máquina perversa, o contrato se torna
inaceitável e as possíveis identificações que tornariam o eu autônomo fracassam.
Mesmo nos casos em que os dois discursos sejam de acolhimento e
reconhecimento, sempre haverá barreiras sociais para o desejo que reforçarão o que na
relação do eu com o casal parental foi sentido como recusa de sua autonomia. Por outro
lado, a criança começa sua vida social projetando neste meio a mesma dinâmica que
guarda em relação ao meio familiar, potencializando, assim, posições de rejeição.
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 125

Para que o eu possa se constituir e sustentar, é necessário que este espaço extra-
familiar ofereça as condições mínimas de ser habitado14. O discurso social deve oferecer
certas referências identificatórias para que o eu possa conservar suas funções; sabe-se
também, no entanto, que estas referências devem ser constantemente investidas pelo eu.
A criança autônoma do meio familiar conserva o suporte identificatório já
recebido, mas deverá encontrar no discurso social um lugar garantido para isso que ela
é, ou seja, deverá encontrar referências básicas que lhe permitam projetar seus
investimentos num futuro no qual poderá realizar seu projeto identificatório.

2.4. Identificação e projeto

O eu pode se constituir e se sustentar num espaço que garanta o movimento


temporal, que garanta a idéia de continuidade, que legitime um projeto. Temporalidade
e historicidade são, portanto, inseparáveis. A constituição do eu é também a constituição
de um tempo histórico. Assim considerado, o “eu constituído” – aquele capaz de
assumir a experiência da castração – não é mais do que “o saber do eu pelo eu”
(Aulagnier, 1979, p.154).15 Este saber tem como finalidade um saber sobre o futuro do
eu e sobre o eu futuro e, por se tratar de um saber do “eu constituído”, será um saber
sobre uma imagem desejada, sobre um projeto a ser realizado. Assim, apesar de ser um
saber, deverá renunciar ao atributo da certeza, sendo sempre condenado a duvidar16.
No projeto identificatório o eu sabe o que quer ser, sabe o que espera tornar-se,
mas não pode ter a certeza incondicional de consegui-lo. Bem, se a certeza é sempre
ausente, a esperança não pode faltar-lhe nem como desejo do sujeito, nem como
imagem identificatória socialmente valorizada pelo grupo. Aulagnier escreve:

________________
14
Já abordamos este tema da habitabilidade ao falar de desamparo no cap. I.
15
“A castração pode ser definida como a descoberta, no registro identificatório, de que não ocupamos
jamais o lugar que acreditávamos nosso e que, inversamente, já estamos destinados a ocupar um lugar no
qual não poderíamos ainda encontrar-nos. A angústia surge no momento em que descobrimos o risco que
implica o saber que não estamos, para o olhar dos outros, no lugar que acreditávamos ocupar e que
poderemos não mais saber de que lugar nos falam, e em que lugar nos situa aquele que nos fala. Será
necessário, então, reconhecer que as referências que asseguram ao Eu seu saber identificatório podem
sempre esbarrar numa ausência, num luto, numa recusa, numa mentira que obrigam o sujeito ao doloroso
requestionamento de seus objetos, de suas referências, de sua ideologia. Eis porque a castração é uma
experiência na qual podemos entrar mas da qual, num certo sentido, não podemos sair: podemos nos
recusar a participar dela, podemos empreender uma desesperada marcha à ré, mas é uma ilusão acreditar
que dela podemos sair” (Aulagnier, 1979, p. 158).
16
Podemos ver como estas formulações são próximas às do sujeito lacaniano. Aliás, Piera Aulagnier,
apesar de privilegiar o conceito de Eu, não deixa de nomear o sujeito o tempo todo.
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 126

Para ser, o eu deve se apoiar neste desejo, mas este tempo futuro, uma vez alcançado,
deverá tornar-se fonte de um novo projeto, num movimento que só terminará com a
morte. Entre o eu e seu projeto deve persistir uma separação: o que o eu pensa ser deve
revelar um ‘a menos’, sempre presente, em relação ao que ele deseja tornar-se
(Aulagnier, 1979, p. 157).

O projeto identificatório é um saber sobre os enunciados que ao longo da vida o


sujeito vai utilizando para se definir e se apresentar ante os outros. É o que ele sabe e
sobre o que pode falar: “aquilo que na cena do consciente se manifesta como efeito dos
mecanismos inconscientes próprios da identificação; representa, a cada etapa, o
compromisso em ato” (Aulagnier, 1990, p. 214). O projeto não é mais do que a resposta
que o sujeito obtém cada vez que se pergunta “quem sou eu?”.

No tempo da identificação primária, um choro, um grito ou qualquer outra


manifestação do infans será interpretada pela mãe como sinal de uma necessidade ou de
um estado de prazer ou desconforto. Isto colocará a mãe em posição de ser demandada,
como objeto a quem esta demanda é dirigida; ela então se vê na obrigação de acudir a
este apelo. Para isto, ela lançará mão das interpretações oferecidas pela tramitação de
seu próprio desejo.

Quando a mãe diz “coitadinho, está chorando porque ficou sozinho” ou “está
com dor de barriga”, está interpretando de acordo com seu próprio modelo e criando um
modelo para o filho. Este filho, porque indiferenciado, demanda tudo, avidamente e sem
limitações, a uma mãe que quer dar-lhe tudo, satisfazê-lo em tudo. A mãe desse modo
lhe oferece o objeto seio, sabendo que é muito mais do que alimento, que, a partir desse
encontro inicial, se instituirá como primeiro objeto da demanda. Assim cria-se essa
dialética tão especial segundo a qual “a mãe deseja que o infans demande e o infans
demanda que a mãe deseje” (Aulagnier, 1990, p. 197). Há uma demanda de libido, de
desejo, que é precursora do eu.

Depois virá o tempo da identificação especular, consagrado por Lacan como o


estádio do espelho17. Trata-se do momento de encontro entre o olhar do bebê e sua
imagem no espelho, encontro confirmado pela presença da mãe que está ali, justamente,

________________
17
Já abordamos este tema no início deste capítulo. Aqui, os comentários se referem aos pontos de vista
que sobre o particular, são apresentados por Piera Aulagnier
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 127

para testemunhar sobre uma diferença e legitimar o júbilo; é o momento crucial de


instauração da diferença entre seu corpo visto no espelho e o corpo da mãe.
O júbilo e a onipotência, no entanto duram pouco. Confrontada com as limitações
da realidade, com o fato incontestável de não ser tudo para a mãe, com as provas do
desejo desta por outras coisas que não ela, confrontada com a proibição do incesto
quando esperava a realização do desejo, face a face enfim, com a ameaça de castração, a
criança deverá empreender um difícil movimento de renúncia à demanda própria às
modalidades anteriores de identificação. Do contrário, pode perder seu lugar como filho,
sua filiação a uma família e sua inclusão num grupo social. É este o momento que Piera
Aulagnier chama de “momento de compreender”. O que a criança deverá compreender
é que, para ter um futuro, deve renunciar à onipotência, ou seja, à posse de tudo –
especialmente da mãe – deve renunciar a ser tudo o tempo todo. Ela só poderá
compreender e renunciar, entretanto, a partir de uma promessa de ganhos futuros.
As certezas da fase pré-edípica desmoronam quando, confrontada com o
discurso paterno ou uma outra instância que o substitua, a criança percebe que o lugar
que ocupava em relação à mãe era enganoso, uma vez que nunca foi tudo para a mãe e
que era a única a acreditar que isto era possível. No registro identificatório, essa
descoberta é a castração18.
Deste doloroso processo de não mais se saber que lugar se ocupa no universo do
outro é que surge a angústia. Para o “eu constituído”, a castração é um processo
irreversível. Desterrado desse lugar de privilégio em relação ao desejo materno, só resta
a insistente tentativa de voltar lá, embora seja apenas por um instante.
As primeiras formulações atreladas à fase edípica e anteriores à castração (“me
casarei com mamãe ou vou possuir todos os objetos”) guardam ainda muito claro o
desejo de que o futuro traga o mesmo que hoje se deseja. O futuro não seria diferente do
passado, seria um retorno do mesmo. Mas isto nos diz que a condição do eu se projetar
no futuro depende da possibilidade do reencontro de um passado. O futuro deve trazer a
promessa desse reencontro.
Entretanto, ante a frustrada ilusão desse reencontro idêntico, o discurso social
deve oferecer a possibilidade de um tornar-se valorizado, deve outorgar um direito de
palavra e participação, este sim nada ilusório. Ou seja, é necessária uma grande

________________
18
Ver nota de rodapé na p. 125.
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 128

recompensa que diga sobre o prazer futuro para se renunciar ao prazer mais primário. É
necessário que o futuro seja promissor para se aceitar a mudança exigida e necessária.
Mudança que depende principalmente do fato de se saber que o futuro não será igual ao
passado, apesar de que se guardará sempre a crença na recuperação da identidade entre
o que a criança já desejou e aquilo que agora se resigna a procurar.

Quando, em pleno processo de se tornar autônoma, a criança formula a frase:


“quando crescer, eu vou ser....”, nos encontramos ante uma primeira proposta de projeto
identificatório, que se formula pela conjugação de um tempo futuro. Piera Aulagnier
chama a atenção para o fato da criança, nesta passagem, mudar o uso do verbo ter para o
ser, evidenciando o abandono da avidez desmesurada em prol de um projeto para o eu
ameaçado pela castração. O que o eu espera tornar-se vem substituir os objetos que
antes esperava possuir; o desejo de responder ao desejo materno, de ser o objeto de seu
desejo, a coincidência entre o Outro e a mãe, deverão ser abandonados.

A voz materna não poderá mais evitar as dúvidas e fechar o campo das
incertezas. Como já foi dito, à pergunta “quem sou eu?” o eu responderá em nome
próprio, forçada solidão que garante que o destino não dependerá exclusivamente do
desejo de um outro único eu. Outras vozes serão ouvidas e outras idéias de si próprio
serão constituídas, como uma duplicação da demanda que constitui o sujeito clivado, o
ser sujeito. Se entre o eu e seu projeto deve sempre existir uma separação, se entre o
“sou” de hoje e o “me tornarei” de amanhã deve sempre existir uma distância, se o eu
presente é sempre um “a menos” que o eu futuro, há que poder lidar com essa frustração
do re-encontro impossível; há que poder assumir a castração no registro identificatório,
aceitar que a tentativa de encontro entre o eu e seu ideal – o que representaria o fim do
processo identificatório – está fadada ao fracasso, e apesar disso continuar tentando.
Piera Aulagnier diz:

O eu assina, portanto, um compromisso com o tempo: ele renuncia a fazer do futuro este
lugar no qual o passado poderá retornar, aceita esta constatação, mas preserva a
esperança de que, um dia, este futuro lhe devolverá a possessão de um passado, tal qual
ele sonhou (Aulagnier, 1979, p. 157).

Trata-se, portanto, de uma esperança narcisista, que implica aceitar o fato de que
não basta desejar para ter, e jamais se poderá possuir tudo; apesar disso, o desejo de
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 129

concordância total entre o eu e o ideal continuará, em função de que assumirá que


deverá viver entre a esperança narcísica e o princípio de realidade, entre esperar e viver.
Vemos então que, para que o eu se constitua, certas condições básicas – e não
poucas – são necessárias. Talvez pudéssemos resumi-las dizendo que o eu, como
enunciante singular, o discurso social e a realidade, devem ter alguns pontos de
coincidência que lhes permitam uma montagem, que resulte no que estamos habituados
a chamar de modelo.
O modelo pode variar dependendo do paradigma predominante em cada
sociedade, de modo que poderemos achar que um modelo diferente do compartilhado
por cada um de nós é inferior, pré-lógico, atrasado. Mas também os modelos não podem
ser tão individuais que fiquem totalmente fora das normas que regem sua cultura
(Aulagnier, 1990, p. 240). Qualquer que seja o modelo, deve sempre legitimar a
singularidade. Sendo verdade que o modelo é proposto pelo discurso social, é verdadeiro
também que se trata de um produto histórico dos tantos e diferentes sujeitos que
habitaram essa cultura.
Bem, quando dissemos modelo, além de nos referirmos a um ideal, falamos
também de algo que se oferece como padrão utilizável para verificar a própria realidade
que o engendra e que oferecerá pontos de certeza. “A busca deste ponto e sua
necessidade nos são comprovados através do pavor pelo qual o sujeito pode ser tomado
frente a qualquer questionamento radical de sua verificação” (idem).
Sobre esse modelo de realidade proposto pelo discurso social é que vai se
constituir o modelo identificatório. O modelo de realidade difere de uma cultura para
outra, o mesmo ocorrendo com as referências identificatórias do eu. Piera Aulagnier
acrescenta:

O desmoronamento do modelo identificatório ou do modelo da realidade, implica,


inevitavelmente o desmoronamento do conjunto dos dois. Eis porque é impossível
interrogar o modelo da estrutura psíquica, tal como forjado pela teoria de Freud, sem
colocar a questão de seus efeitos sobre a realidade cultural (Aulagnier, 1990, p. 240).

Assim, quando o modelo identificatório cai, o modelo da realidade


necessariamente vai junto, e perdem-se os padrões de verificação. Se o futuro for
desinvestido – como observamos em certos momentos de crise na vida política da
humanidade – a certeza da origem também se verá fragilizada. Isto sem dúvida
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 130

produzirá efeitos na subjetividade e novas formas de organização que poderíamos


definir como patológicas, pois são as modalidades de funcionamento do eu que
justificam e dão sentido ao conceito de psicopatologia, independentemente das diversas
definições que tenhamos ou ainda venham a ser elaboradas sobre esta instância.
Terminada a infância, a criança deverá estar apta a modificar sua relação de dependência
com o pensamento dos pais. Aulagnier diz que é neste momento

que se instala a “potencialidade” (neurótica, psicótica ou polimorfa) que decidirá sobre


as formas de resposta e de defesa (neurótica, psicótica, perversa, somática) de que
poderá dispor o eu confrontado com um conflito que pode surgir em diferentes pontos
de seu percurso. O conceito de potencialidade engloba os ‘possíveis’do funcionamento
do eu e de suas posições identificatórias, uma vez terminada a infância (Aulagnier,
1989, p. 228).

A potencialidade é portanto entendida não como destino e sim como


possibilidade. Assim, seria impossível prever o futuro do eu, a não ser por aproximação.
Pode-se sim, verificar presença ou ausência de condições que possibilitem um
funcionamento harmônico do eu. Estaríamos, então, ante um amplo leque de possíveis
respostas; amplo, porém limitado. Cabe ao eu fazer um trabalho através do qual pode
procurar respostas mais ou menos adequadas aos estímulos que provocam mudanças em
seu meio psíquico. Ante à falta de certas condições internas ou externas, porém, não
poderá inventar novas defesas que não estejam já previstas em seu leque de
potencialidades.
Podemos observar como, desde a sombra falada até o projeto identificatório, há
um movimento no qual o eu se constitui com duas instâncias: a identificada, provida
pelo discurso materno e a identificante, que não é produto passivo do discurso do outro.
Por algum tempo, o eu deixa ao outro a função de investir no seu futuro, uma
“segunda antecipação” que funciona como alicerce para que, noutro momento, o eu
tome para si estes desejos para não se transformar num “repetidor” do desejo do outro
(Aulagnier, 1998, p. 29). O eu investe19 os enunciados identificatórios do porta-voz,
graças ao que pode se apropriar deles e ser seu próprio enunciante. Identificante é o

________________
19
A justificativa para o uso de catexia e seus derivados foi feita na última página do capítulo III.
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 131

trabalho de investimento do eu, e identificado é o enunciado do porta-voz, com o qual o


identificante se identifica.
A garantia de continuidade do eu depende de que o identificante se assegure o
identificado atual e o porvir desse identificado. Assim, o futuro apresenta-se como uma
verdade passível de ser construída sobre um modelo que se deseja que seja sempre
perfeito (ou quase), e do qual o identificante é sempre protagonista.
Estes identificados são móveis e, ao se juntar ao identificante, não sem conflito,
provocarão modificações. Como o identificante se pretende fixo, a imagem que lhe
outorga o identificado (o olhar do outro) vem coincidir ou não com ele, provocando
então seu prazer ou sofrimento. Ele apreenderá, porém, que nenhum olhar é único e
totalizador, que não existe um espelho único no qual se reconhecer, e que desta múltipla
oferta de imagens, o eu terá que escolher as mais adequadas para prosseguir com o
processo identificatório. Assim, poderá comprovar que as imagens mais adequadas
serão aquelas que encaixem melhor no eu identificante. Deve existir, então, esse eu
inamovível, fixo, ao qual alguma coisa possa ser acrescentada.
Comprovamos então, que é necessário que a unidade “identificado-identificante”
conserve certos pontos de certeza para que a identificação simbólica seja sempre
possível, para que o eu, ilusoriamente, se reconheça como “indivíduo”, isto é, dotado de
uma continuidade própria e reconhecível no seu processo de historização. Neste processo, o
que é deverá guardar uma relação de causalidade com o que foi e com o que será.
Só assim, o futuro poderá se apresentar como uma verdade passível de
construção; só se o eu se reconhece nos enunciados sociais que falam dele é que poderá
catexizá-los, o que é o mesmo que dizer que só catexizará aqueles enunciados
identificatórios nos quais se reconhece.
Podemos dizer que essas mensagens que o eu recebe sobre sua própria existência
devem possuir o atributo da certeza. Isto não significa que não possam ser questionados.
Muito pelo contrário, constantemente o são, basta ver o que acontece na adolescência. A
dúvida e o questionamento dos enunciados servem não só para confirmá-los, mas
também para promover as mudanças sempre aneladas em prol de uma existência mais
satisfatória e de maior coincidência (Aulagnier, 1998, p 30-31).
Sabemos, enfim, até pelo senso comum, que duvidar do próprio pensamento é o
ponto de partida necessário para um outro pensamento que contenha mais atributos de
certeza do que o anterior. Mas acidentes de percurso acontecem, e ninguém é livre de
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 132

lutos, desilusões e fracassos, e estes momentos de verdadeira crise (como o


envelhecimento, por exemplo) só serão suportáveis se existirem pontos fixos de
ancoragem simbólica ao resguardo das vicissitudes da existência, certos pontos que não
percam catexia, aconteça o que acontecer, pois deles depende a sobrevivência do eu.
Quando, ante um luto, se diz: “ele é forte, vai superar” é desse eu solidamente investido
e bem balizado que se está falando.
Piera Aulagnier utiliza a metáfora do quebra-cabeça (Aulagnier, 1989) para
explicitar os mecanismos desta construção identitária ligada às diferentes
“potencialidades”20 do eu-identificante que constituiriam as peças básicas a partir das
quais o resto do quebra-cabeça poderia ser montado com um mínimo de certezas.
Assim, será necessário que as peças originais e as agregadas mais tarde se ajustem,
ainda que nas diferentes tentativas sempre esteja presente o risco de desencaixe, a
potencialidade de uma fissura.
Quando a fissura se apresenta no núcleo originário, encontramos a potencialidade
psicótica correspondente ao conflito entre os componentes do próprio eu; no caso de
serem as peças do segundo agrupamento que não se encaixam com as do primeiro,
estamos na presença da potencialidade neurótica, marcada pelo conflito de ideais, pela
frustração causada pela falta de amor e de objetos dignos de investimento.
Mas haverá uma terceira possibilidade, que é quando aparentemente tudo se
encaixa perfeitamente, ainda que o resultado final não coincida com o modelo que se
esperava reproduzir. Este é o caso da potencialidade polimorfa, na qual Piera Aulagnier
inclui a perversão, as somatizações e as relações aditivas, que analisa como relações
passionais ou alienantes. É na potencialidade polimorfa que o conflito identificatório é
composto: por um lado, é um conflito entre suas dimensões identificante e identificada
(psicose) e, por outro, é um conflito entre o eu e seus ideais (neuroses). Esta
potencialidade polimorfa estaria presente nos casos de certas formas de somatizações,
nas relações passionais ou alienantes, nas toxicomanias e nas perversões. O que
encontramos de comum a todas estas alternativas é o conflito do sujeito com a realidade,
seja do próprio corpo, dos outros ou do campo social. Esta realidade, assim, torna-se
responsável pelo sofrimento a que o sujeito é submetido.

________________
20
Piera Aulagnier elaborou o conceito “potencialidade” para substituir o de “estrutura” depois de seu
rompimento com Lacan em 1969.
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 133

Considero fundamental ressaltar que Piera Aulagnier define todo o processo


identificatório em termos temporais: o primeiro tempo é aquele que vai do nascimento
até a constituição do eu e o segundo vai a partir deste ponto até o estabelecimento da
potencialidade.
Sobre o primeiro tempo, só se pode ter conhecimento através dos relatos dos
outros (geralmente os pais). São eles que falam desse tempo em que ainda não há um eu
historiador, mas que produz os primeiros identificados, já antecipados no discurso
materno e projetados sobre o bebê; aí justamente o tempo inexiste para o infans.
O segundo tempo, que se inicia com a constituição do eu, e portanto marca o
começo da história (ou melhor, da função do eu como seu próprio historiador) e culmina
com a implantação das potencialidades, é marcado pelos encontros com os objetos que
serão as novas peças do quebra-cabeça de sua história. Pois bem, o mais interessante
desta elaboração é que, nestes encontros, o eu não permanece imóvel e passivo, e sim
num contínuo “trabalho de auto-modificação” (Aulagnier, 1989, p. 229-30).
Sem essa possibilidade de o eu se auto-modificar ante o olhar ou a voz do outro,
o processo identificatorio cessaria por completo. Pensado assim, o processo identificatório
só é possível no campo do relacional (do encontro). Neste campo, as propostas
modificadoras do outro só poderão ser aceitas com a condição de respeitarem o não-
modificável. Este ponto é um momento de virada, uma encruzilhada na qual, ante os
encontros possíveis e necessários, o eu deverá modificar sua relação de dependência
com o pensamento do casal parental.
Falamos de um momento em que se estabelece uma ligação entra as posições
identificatórias conseguidas neste vínculo primário e as futuras, que virão modificar o
posicionamento do sujeito ante esta relação. Ligação que marca um presente e a
possibilidade de um futuro diferente, modificável, surpreendente até. E Piera Aulagnier
esclarece:

Quando, por sua vez, o eu da criança atinge este ponto, deverá concluir definitivamente
este trabalho realizado até então com a colaboração do eu dos pais: preservar uma
separação entre os emblemas imaginários e as referências simbólicas, entre os suportes
de uma esperança narcísica à qual o sujeito não renuncia nunca, e referências que lhe
designam e lhe garantem sua posição na ordem simbólica, mas lhe proíbem de ocupar
outra (Aulagnier,1989, p. 237).
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 134

A constituição do eu do primeiro tempo e as possibilidades de futuro que se


abrem no segundo vão depender, então, dos encontros com os outros e com a realidade.
Encontros sempre conflitivos, pois guardam em seu horizonte a ameaça – sempre
presente entre dois desejantes – de que sejam desvalorizados os atributos que
justamente os tornariam desejáveis. Ante esta situação, o eu irá estruturando diferentes
qualidades de defesas, que constituirão uma espécie de capital defensivo ao qual poderá
recorrer cada vez que o conflito for reeditado.
Enfim, podemos dizer que o que caracteriza o processo identificatório é o
movimento permanente, isto é, o fato de nunca estar acabado (como diz Guimarães
Rosa, através da fala de Riobaldo na epígrafe que abre este capítulo). Mas, para isto ser
possível, é necessário que haja uma certa ancoragem, um ponto a partir do qual tudo
adquira um sentido e onde passado, presente e futuro se encadeiem.
Essa ancoragem simbólica está formada por um conjunto complexo de
identificações, realizadas com os enunciados “proferidos pelos outros significativos”
(Aulagnier in: Hornstein, 1994, p. 74). Para o sujeito construir uma resposta para a
pergunta básica “por que estou aqui?”, deve poder se responder sobre a origem e o fim,
de onde vem e para onde vai. Este é o sentido que tem para a psique a figura do desejo,
que, como já dizia Freud em “O Poeta e o Fantasiar”, atua como o fio que mantém
unidas as contas de um colar, encadeando passado, presente e futuro.

2.5. Construindo a história

Este nosso percurso pelos conceitos de Piera Aulagnier nos mostra que a história
é uma malha formada pelos fios da memória e do desejo que tecem a temporalidade do
sujeito, na qual se desenvolve seu pensamento.
Para o projeto identificatório se conservar vigente, é necessário que se exerça
uma considerável dose de repressão, pois o eu, em sua totalidade, compreende todas as
representações e enunciados nos quais ele alguma vez se reconheceu. Muitos deles
permanecerão através do tempo como objetos de investimento atual ou como simples
recordação de um momento da existência altamente investido, enquanto outros serão
rejeitados.
As lembranças dessas posições passadas não são mais do que a história do eu, o
saber do ‘eu pelo eu’, a partir do qual projetará o futuro. Mas isto só será possível
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 135

porque uma parte é esquecida, justamente aquela que não coincide com o projeto.
Assim, a própria história será coerente e adequada. Vemos então que o eu é uma história
formada pelos enunciados que constituíram o projeto identificatório, pelos enunciados
presentes que coincidem com o projeto e pelos outros que, justamente por não
coincidirem, são vítimas da ação repressora.

O Eu é constituído por uma estória21 representada pelo conjunto dos enunciados


identificatórios cuja lembrança ele conserva, pelos enunciados que manifestam, no
presente, sua relação com o projeto identificatório e, enfim, pelo conjunto dos enunciados
em relação aos quais ele exerce sua ação repressora, para que eles permaneçam
excluídos de seu campo, de sua memória, de seu saber. Permanece inconsciente para o
Eu e é isto que, essencialmente, representa o Eu inconsciente: a ação repressora por ele
exercida e que conduz à repressão de uma parte de sua estória” (Aulagnier, 1979,
p. 160).

A ação repressora exercida por uma parte do eu (a inconsciente) reprime os


enunciados que não se adequam à história, os enunciados inconvenientes ao relato, que
se reconstrói de forma permanente. Podemos dizer que há toda uma parte da história do
eu que é reprimida, constituindo o eu inconsciente e que representa a condição
necessária para que o eu consciente possa se constituir como um saber.
Vemos então que este saber fundante do projeto identificatório, além de permitir
o acesso ao futuro, tem como resultado a construção de um passado compatível e
adequado ao projeto, que será por definição, temporal. Assim, constituição do eu, tempo
e história, são categorias inseparáveis ligadas à temporalidade. Lembremos que, embora
as primeiras identificações sejam providas pela mãe, o que o torna identificado por
ela, o eu não é uma simples marionete na sua mão; ele é também uma instância
identificante.
A realidade histórica é o conjunto dessas experiências que marcam a infância.
Experiências de ordem afetiva, somática e psíquica, que produzem efeitos e
especialmente uma organização de seus recursos psíquicos. Experiências que segundo
sua qualidade serão estruturantes ou desestruturantes de sua aparelhagem básica.

________________
21
Conserva-se o termo ‘estória’ em lugar de história, tal como consta na tradução de Maria Clara
Pellegrino.
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 136

Experiências que serão reprimidas e reconstruídas sempre que a realidade venha a


solicitar a utilização desses recursos. E Piera Aulagnier conclui:

Se pudemos afirmar que um dos efeitos da experiência da castração se manifesta através


da assunção, pelo sujeito, de um saber sobre sua própria morte, devemos também
acrescentar que esta assunção tem como antecedente necessário a apropriação de um
projeto identificatório que é, inevitavelmente, um projeto temporal. Projeto no qual
continua a existir o sonho de um amanhã sempre postergado, que permitiria, finalmente,
que o desejo encontrasse o objeto de sua busca e que o Eu pudesse anular o ‘a menos’
que o separa do ideal por ele sonhado (Aulagnier, 1979, p. 161).

Quando dissemos que a psicanálise se importa com a verdade histórico-vivencial


e com a realidade psíquica, não estamos colocando uma oposição entre realidade
objetiva e representação fantasmática. Trata-se de encontrar as relações entre as
experiências significativas da vida de um sujeito, balizadas pelas circunstâncias da
realidade, e as circunstâncias fantasmáticas que a acompanharam. Entre ambas,
encontraremos uma interpretação do eu que, como historiador, quererá elucidar a
causalidade de sua existência (Aulagnier apud Hornstein, 1994, p. 25 e 1979, p. 59).
Então, todo estímulo, toda excitação, terá acesso ao registro do eu se for capaz
de promover idéias, cujo encadeamento dará lugar a um “fluxo pensante” que atua como
uma tradução simultânea dos estímulos em representações do eu consciente. Estas idéias
podem permanecer em forma latente, sendo necessário o ato de pensar para fazê-las
conscientes e criar um novo fluxo ideativo.
O que não for passível de representação não terá existência para o eu, mas isso
não significa que se veja livre de seus efeitos. O eu pensa, critica, se questiona, duvida,
conclui. A atividade de pensar é “condição de existência do eu”. Dissemos novo fluxo
ideativo pois este trabalho de pensar, de metabolizar, não é a simples reprodução ou
resgate do reprimido; neste trabalho de representar, há sempre a construção do novo.
Esta função de inteleção, entretanto, só é possível porque se apresenta à psique como
uma nova zona erógena, isto é, como fonte de prazer; esta é uma condição necessária
para a permanência do investimento na atividade de pensamento.
Com o declínio do Complexo de Édipo, o eu deverá poder aceitar a diferença
entre o que ele é (ou como ele pensa que é) e o que gostaria de ser. Deverá aceitar a
idéia de que não ocupa o lugar que gostaria e deverá lutar para ocupar esse outro lugar
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 137

tão anelado – que saberá não poder ser igual, jamais. Mas, neste processo, o eu não está
só, pois novas referências virão modelá-lo, situando-o numa realidade possível e
também oferecendo miragens.
É fundamentalmente neste momento, porém, que se abre um primeiro acesso ao
futuro, pois é nele que deverá projetar o reencontro com um estado e um ser passados. O
eu deverá fazer pensável para si mesmo o seu próprio devir, deverá ter um futuro, e esta
é uma condição essencial para o seu funcionamento. O trabalho de historização é a base
do processo de identificação, que transforma um tempo do que já foi em discurso,
tempo do qual se pode falar; o discurso substitui o tempo perdido.
Usando uma metáfora bélica, Piera Aulagnier diz que o eu trava
permanentemente um combate “nunca definitivamente ganho, nem definitivamente
perdido” (Aulagnier, 1989, p. 207) para defender as posições que tanto custou a
adquirir. Posições estas que orientam o auto-investimento no seu próprio espaço
identificatório; este, embora arduamente conquistado, não está isento de ser invadido
por um inimigo externo ou interno.
O eu pode se precaver deste duplo perigo conservando títulos de propriedade
que o legitimem nesse espaço. Mas acontece que o eu perde, ao longo do tempo, todos
os documentos com os quais poderia provar que realizou sobre esse espaço um verdadeiro
trabalho de tomada de posse, convertendo-o num espaço habitável, que desalojou os
fantasmas arcaicos que o habitavam antes dele e que não cessavam de acossá-lo.
Desses documentos que lhe permitiriam mostrar ante a “lei” que não é um
usurpador, ele só conserva alguns fragmentos, alguns contratos desbotados, que falam
de pedaços de sua história, de fatos isolados que não consegue articular com o resto,
lembranças parciais de algumas batalhas e poucas conquistas. Escreve Piera Aulagnier:
“A tarefa do eu será transformar esses documentos fragmentados numa construção
histórica que dará ao autor e aos seus interlocutores a sensação de uma continuidade
temporal” (Aulagnier, 1989, p. 208), podendo assim ligar o passado ao presente, o que é
ao que foi e projetar no futuro um tornar-se. Aí, deve poder conciliar o que sempre foi, o
fixo, o ilusoriamente imodificável, com os desejos do que quer ainda vir-a-ser.
Este discurso é essencialmente seletivo, pois reconstrói o passado em função das
necessidades identificatórias do presente, tendo como objetivo fundamental substituir
um conflito. Conflito este, que será em primeira instância aquele que opôs identificado a
identificante, depois, o eu e seus ideais e, finalmente, o eu e os objetos por ele
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 138

investidos, dos quais nem sempre recebe as respostas esperadas. Mas, será através da
relação com esses objetos que o eu construirá sua própria história. Nesse sentido, é claro
que não podem faltar ao eu objetos de identificação, objetos aos quais demandar a
posição de desejante, sem a qual a construção se detém e o eu se aniquila.

Então o eu, que é uma instância não totalmente autônoma, porém tampouco
totalmente dependente, precisa do outro para se constituir e para se sustentar. O eu é
uma história construída na relação com os outros, como bem define Freud em “O eu e o
isso”. Neste texto, Freud considera que o eu é um precipitado dos investimentos de
objetos abandonados, contendo a história dessas relações de objeto. E Piera Aulagnier
acrescenta: “O Eu é um produto das sucessivas experiências de impotência em que foi
modelado pelo outro” (Aulagnier apud Hornstein 1994, p. 73).
Neste sentido, as idéias que constrói a seu respeito terão sempre uma dupla
referência: por um lado, o saber que já possui sobre si, ou seja, seu próprio
reconhecimento; por outro lado, terá o reconhecimento que deverá encontrar no olhar
dos outros. Progressivamente, o eu abandonará a escuta exclusiva de uma única voz que
o defina, para ouvir o conjunto de vozes, o discurso do conjunto.
Na identificação do narcisismo secundário, vão se incorporando ao eu traços dos
objetos investidos, o que permite abandoná-los como tais. Assim a perda pode ser
compensada, pois o investimento no eu substitui a eleição libidinal. O objeto é
neutralizado ao ser substituído, convertendo-se o próprio eu em objeto de desejo. O eu
passa a ser o objeto, ou ao menos um traço dele.
Ter o objeto (registro objetal), não sê-lo (registro narcísico), aceitá-lo como
diferente, como um outro, significa aceitar sua variabilidade, sua vulnerabilidade e até
sua ausência. Significa aceitar o sofrimento da não coincidência com o ideal e o
sofrimento da frustração; diante disso, o eu poderá empobrecer suas relações objetais
com um sobre-investimento narcísico que suprime, por incorporação, a distância que o
separa dos objetos.
Há, sem dúvida, algo de muito paradoxal na maneira pela qual o processo
identificatório institui a existência do eu, pois, sem as identificações primordiais com os
enunciados maternos, ele não existiria. Para existir, todavia, tem que poder se separar
desses enunciados. Deve haver um eu separado do eu da mãe, tem de haver uma
possibilidade de não identificação, e esta possibilidade será dada pela presença de uma
determinação simbólica no psiquismo dos pais que o reconheça como outro (Aulagnier
apud Hornstein, 1994, p. 76).
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 139

Só assim o eu poderá se reconhecer como separado, diferente do outro. Mas


neste processo ganhará uma instabilidade e precariedade que não conhecia, em que os
objetos poderão faltar ou poderá ser abandonado por eles. Para poder enfrentar esta batalha,
que lhe exigirá um permanente processo de auto-modificação, deverá sentir que conta com
um porto seguro, uma parte de si que, “haja o que houver”, permanecerá sempre a mesma,
imodificável, uma guardiã de sua identidade. Só com este “compromisso identificatório”
poderá entregar uma parte de si para a mudança (e o crescimento). Piera escreve:

Mas também podemos afirmar que o Eu é este compromisso identificatório, através do


qual nos reconhecemos como elemento de um conjunto e como ser singular, como
efeito de uma história que nos precedeu e como autores de outro que conta nossa vida,
como mortos futuros e como vivos capazes de não levar muito em consideração o que
eles mesmos sabem acerca deste fim (Aulagnier, 1984, p. 225).

Auto-modificação (Aulagnier, 1990, p. 241) não é escolha, mas necessidade de


sobrevivência do eu; à qual se chegará através do princípio de realidade. Só como
produto das sucessivas frustrações, experimentadas ante a não satisfação imediata de
suas necessidades ou ante o fracasso da alucinação para satisfazê-las, o eu abandona o
modo primário de satisfação e enfrenta a realidade do mundo exterior. Esta lhe exigirá
uma dupla modificação: em sua própria percepção e nessa exterioridade que será
representada, incluindo, a partir desse momento, os motivos de seu desprazer.

Esta possibilidade do psiquismo de privilegiar o processo secundário se dará


apoiada nos fenômenos do pensamento consciente que conhecemos como memória,
atenção e ação modificadora da realidade. Estes permitirão a corroboração da percepção
graças à rememoração de experiências passadas.

2.6. Atividade de pensar e realidade

A realidade deverá sempre estar de acordo com o modelo que se tem dela, o que
permite o afastamento do que pode se apresentar como perigoso ou ameaçador para o
eu. A realidade assim concebida representa um saber que permite a construção do saber
sobre o eu. Isto quer dizer que este eu que sabe sobre si, que tem um conhecimento
perfeitamente estruturado da realidade exterior, tem também um saber sobre sua própria
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 140

realidade psíquica, e é sobre estes dois fatores – mundo físico e mundo psíquico – que a
ação modificadora há de se realizar.
Trata-se no entanto de um saber que versará, muito especialmente, sobre aqueles
assuntos que o colocarão numa situação de salvaguarda de suas funções, relativas ao
próprio corpo, a suas necessidades e às experiências que, em contato com o mundo,
mostraram-lhe situações de perigo. O princípio de realidade, então, está formado por
fragmentos do saber que se tornam vitais para a sobrevivência e o bem-estar do eu.
Em princípio, a realidade é aquilo que se nos apresenta como uma verdade
evidente: “para o sujeito, a realidade coincide com a totalidade dos fenômenos cuja
existência constitui uma evidência” (Aulagnier apud Hornstein, 1994, p. 118). Verdade
e realidade são dois conceitos intimamente ligados ao cultural e aos referenciais
dominantes. Assim, cada cultura criará seus próprios parâmetros de realidade, que darão
conta da produção de um pensamento explicativo sobre as causas dessa realidade.
Por outro lado, existe uma “causalidade demonstrada” mais ou menos comum a
todos os membros de uma cultura, não questionável, sobre a qual os indivíduos tecerão
suas fantasias e farão suas interpretações pessoais. Ela constitui uma “causalidade
interpretada”, esta singular, referida a sua própria maneira de participar da realidade e
passível de ser questionada pelos outros. O parâmetro explicativo da realidade pouco
importa, o que nos interessa agora é que ambos os tipos de explicações co-existem em
todos os sujeitos, e por isso é tão difícil chegar a um acordo sobre algo aparentemente
tão evidente quanto a realidade (Aulagnier, 1990, p. 233).
De qualquer ponto de vista, devemos concordar em que a explicação causal é
uma necessidade psíquica e a ausência de explicação para o sofrimento pode causar
profundos danos à integridade psíquica. Conhecer a causalidade do que aflige o homem
é um de seus grandes anseios; conhecer a origem possibilita se dirigir a um destino
também conhecido – as explicações religiosas que o digam.
O eu possui uma exigência de significação e, assim, tudo que vive e forma parte
de seu universo passará por alguma prova de realidade e será atribuído a uma
causalidade inteligível. Só pertence à realidade aquilo que se ajusta a um saber, que será
o saber dominante em cada cultura, seja ele mítico, científico ou do senso comum, o que
constitui uma evidência. É desta forma que o eu poderá produzir representações ou
enunciados, poderá pensar e questionar a realidade, pois, apesar das constatações da
realidade, o eu está condenado a duvidar: a atividade de pensar é condição de existência.
CAPÍTULO IV – HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO 141

Como acabamos de ver, a atividade de pensar está em articulação com o eu e a


realidade. Piera Aulagnier, em “A violência da Interpretação”, começa um tópico
chamado “A atividade de pensar” dizendo:

A partir de um momento dado que marca a passagem do estado de infans ao de criança,


a psique vai adquirir os primeiros rudimentos de linguagem e uma nova ‘função’: daí
resultará a constituição de um terceiro lugar psíquico, no qual todo o existente deverá
adquirir o status de ‘pensável’, necessário para que ele adquira o atributo de dizível.
Este pensamento-dizível pode ser definido como ‘inteligível’: assim se estabelece uma
‘função de intelecção, cujo produto será o “fluxo ideativo” que acompanhará o conjunto
da atividade, da mais elementar à mais elaborada, da qual o eu pode ser o agente. Toda
fonte de excitação, toda informação, só pode ter acesso ao registro do eu se ela pode dar
lugar à representação de uma idéia. Toda atividade do eu vai se traduzir num fluxo
pensante explícito ou implícito. Uma verdadeira tradução simultânea em idéia de toda
vivência consciente do eu. Esta tradução representa um fundo latente, silencioso, mas
que o eu pode tornar presente por um ato de reflexão sobre sua própria atividade. O
dizível é, portanto, a qualidade própria das produções do Eu (Aulagnier, 1979, p. 59).

Agora, esta “função de intelecção” apresenta-se à psique como uma nova “zona-
função”, zona erógena investível que será fonte de prazer. Assim, o prazer do pensável
deverá anteceder a atividade de pensar, própria do processo secundário.
É necessária uma certa reciprocidade entre o sujeito e a realidade. Esta deve
colaborar para que o corpo e as atividades psíquicas sejam preservadas, para que o eu
queira investir na vida e não renuncie a um ou às outras, para que queira pensar. O eu
deve extrair um prazer mínimo necessário para que a vida seja possível, para preencher
suas necessidades psíquicas e suas exigências vitais. Uma condição mínima necessária
para que o eu invista na preservação de seu corpo e no funcionamento de seu psiquismo.
Este prazer é necessário para viver, porém não é suficiente para que o eu escolha
continuar vivendo. Para escolher continuar investindo na vida como possibilidade, é
necessário um “plus” de prazer, um prazer este sim, suficiente para suportar os
sofrimentos que a realidade venha lhe impor. O prazer suficiente reside na possibilidade
de escolher e ser escolhido fora do campo do estritamente necessário, aquilo que faz
com que a vida, além de ser possível, valha a pena.
CAPÍTULO V

INTRODUÇÃO A UMA
PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS

“Um sopro de esquecimento


como uma dança
que muda o dia em noite
para que eu não pense....
ele está lá
no meu coração
onde meu espírito se recolhe para cuidar da
[ felicidade dos dias que se foram
*
e afogar o terror de todo que esqueço”

________________
*
Este poema foi escrito por uma senhora que aos 49 anos recebe um diagnóstico de Alzheimer em fase
inicial. Dez anos antes, devido a uma grande infelicidade gerada pela permanente “discórdia” com seu
marido e submergida em um estado depressivo, começa a escrever um diário onde foram encontrados
estes versos. Citado por André Chévance , 2003, p 82.
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 143

J ean Maisondieu, na nova edição de “Le crépuscule de la raison” 1 (2001), retoma sua
antiga preocupação com a questão das demências e as identifica com um “naufrágio
senil” que, como todo naufrágio pode ter inúmeras causas. Dentre estas causas, talvez, a
mais relevante seja para este autor, a “tempestade existencial” a que a velhice está
submetida em decorrência do confronto com a morte, agravado pelas condições da
existência nos dias de hoje. A tempestade existencial deixaria o sujeito à deriva, sem
porto seguro, sem parâmetros para pensar, e sem vontade de fazê-lo. “O demenciado se
protege de pensar porque isso o faz sofrer demais, mas a boa vontade daqueles que
desejam ajuda-lo contraria esse projeto, o que o leva a reafirmar, cada vez mais, a
determinação de não mais pensar” (Maisodieu, 2001, p. 18) . Como condenados à
morte, aqueles que não suportam a idéia de ter de perder a vida podem preferir perder a
cabeça. Assim como alguns idosos, aterrados pela imagem da velhice que o espelho lhes
devolve, podem evitar o reconhecimento, outros podem destruir a própria razão em um
bem sucedido esforço de escapar de uma lucidez insuportável.
Indo ainda mais longe, Maisondieu declara que a demência não existe, que não
passa de um mito, mas que as pessoas demenciadas são cada vez mais numerosas e
reafirma que a doença é que deve ser colocada entre parênteses, não os doentes.
Entre estes demenciados há, sem dúvida, muitos portadores de lesões orgânicas
que provocam diversos efeitos sobre seu funcionamento psíquico, e muitos outros que,

________________
1
A primeira edição é do ano 1988 . Da bibliografia pesquisada sobre uma articulação entre demência é
psicanálise, esta obra é a mais antiga que encontramos depois da de Régis pertencente aos primórdios do
sáculo XX e que já foi citada no cap. II.
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 144

como já adiantamos em capítulos anteriores, não apresentam nenhuma modificação


neuronal cujo cérebro permanece intacto e livre de alterações neurológicas. Para Maisondieu,
esta evidência impediria erigir a demência como uma entidade patológica e como tal,
poderia até ser colocada entre parênteses. Porém, ele insiste, não se pode fazer o mesmo
com os sujeitos afetados por isto que, do ponto de vista médico, nem seria “uma”
doença e sim um conjunto de manifestações de causalidade diversa e indeterminada.
Esta obra nos conduz a questionar o mito da incurabilidade, que teria como
função limitar a área em relação à qual é possível pensar sobre este fenômeno,
obstruindo o livre curso das idéias e interditando a possibilidade da dúvida. Esta posição
de provocação procura então desmistificar um determinado discurso sobre a questão
demencial, abrir o campo de estudo a este respeito e, especialmente, suspender o
diagnóstico para bloquear o prognóstico fatal. Como já dissemos no cap. II, não se trata
de negar o fato de que sujeitos em processo de envelhecimento podem sofrer alterações
de suas faculdades intelectuais de diferentes níveis de gravidade e por causas diversas.
Insistimos que deve-se, ao menos, ampliar o ponto de vista que centraliza a pesquisa no
estudo do cérebro, incluindo fatores subjetivos e sociais
Na clínica observamos que, enquanto alguns pacientes entram em um estado
demencial após terem sofrido uma perda que é realmente da ordem do irreparável,
outros chegam lá sem que, aparentemente, nada de muito significativo tenha acontecido,
nada que represente – ao menos aos olhos dos outros – uma perda de elaboração
impossível. Mas há o tempo e a vida que findam, o que, por si só constitui uma perda
irreparável que é antecipada pela consciência da finitude própria do ser humano e exige
um luto por antecipação.
Fica claro que é só abrir-se à compreensão da multicausalidade para reconhecer
o papel da angústia de morte na gênese do síndrome demencial e na obstinação coletiva
em não poder imaginar outra causa fora das alterações cerebrais, pois é mais fácil lidar
com um cérebro doente que com um ser humano que sofre a finitude da vida. Se não
conseguimos abordar o sofrimento, só resta a doença e, como estamos vendo ao longo
deste trabalho, a questão do sofrimento é fundamental para a compreensão das
vicissitudes da demência. Nosso objetivo, então, neste capítulo, será o de abordar as
demências pelo viés da psicopatologia psicanalítica, superando o impasse insolúvel que
representa qualquer ponto de vista fragmentário. Para nos ajudar neste trajeto,
recorreremos a algumas conceitualizações da Psicopatologia Fundamental.
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 145

Segundo Berlinck (1997), este termo é empregado pela primeira vez pelo
psicanalista Pierre Fédida2, para definir uma área de pesquisa sobre o sofrimento
psíquico diferente da Psicopatologia Geral que é também campo da psiquiatria. Trata-se
pois, ao meu ver, de uma abordagem específica para a psicanálise que dialoga não só
com a psicopatologia geral, mas também com outras áreas do conhecimento como é a
das ciências sociais. Diz Berlinck:

A posição da Psicopatologia Fundamental é assim denominada para se distinguir de


outra posição que é a da Psicopatologia Geral. Enquanto esta rica posição é um discurso
a respeito das doenças, das formas corporais-discursivas que assumem o pathos, a
Psicopatologia Fundamental está interessada em suscitar uma experiência que seja
compartilhada pelo sujeito. (Berlinck, 1988, p. 130)3

Vemos então que a psicopatologia fundamental se proporia uma redefinição do


campo psicopatológico, através de uma ampla reflexão crítica sobre os modelos e
paradigmas que definem os objetos de pesquisa e as práticas clínicas. Isso exige um
diálogo com outras áreas “com outras leituras presentes na polis psicopatológica”
(Ceccarelli, 2003, p 18)

A psicopatologia fundamental é um projeto de natureza intercientífica onde a


comparação epistemológica dos modelos teóricos-clínicos e de seus funcionamentos
propiciaria a ampliação do limite e da operacionalidade de cada um destes modelos e
conseqüentemente a transformação destes últimos. Tal projeto levaria à construção de
um espaço teórico-clínico, com fundamentos próprios, que permitiria a coexistência, o
diálogo e o intercâmbio, dos diferentes modelos conceituais – neurociências,
imunologia, farmacologia, oncologia e tantos outros que lidam com o pathos
(Ceccarelli, 2003, p. 19)

O mesmo autor, acrescenta ainda que não se trataria de uma


interdisciplinaridade, já que o que a neurologia tem a dizer sobre Alzheimer o Parkinson
não entra em contato e comunicação com o que um psicanalista pode dizer. Tratar-se-ia
antes, de uma transdiciplinaridade que reúne os conhecimentos particulares de cada
disciplina e as singularidades de cada modelo sob uma concepção ética comum,
________________
2
Da Université Paris 7 – Denis Diderot.
3
Aconselhamos a leitura completa deste artigo para melhor compreender o conceito de “posições” assim
como outros provenientes da cultura grega.
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 146

formando uma ampla rede de significações capaz de produzir um campo discursivo e


interações concretas.
Inspirado na cultura grega, o termo psicopatologia reúne conceitos provenientes
de três palavras dessa origem: psique, que derivou-se em psique e psiquismo; pathos,
que resultou em paixão, sofrimento excesso; e logos, da qual se derivaram lógica,
discurso narrativa. Assim, a psicopatologia seria um discurso sobre a paixão que se
manifesta no psiquismo, um discurso sobre o sofrimento psíquico. A Psicopatologia
Fundamental não estaria interessada na descrição e classificação da doença mental, mas
naquilo que sobre seu sofrimento, sua paixão e seu excesso expressa o doente;
expressão de uma subjetividade que é capaz de através do relato, da narrativa, da
expressão, transformar esse sofrimento em experiência que serva para si mesmo e para
os outros. E ainda...

... a clínica psicoterapêutica, na ótica da Psicopatologia Fundamental, deve estar sempre


orientada no sentido de encontrar as condições metodológicas que permitam, tanto ao
paciente como ao psicoterapeuta, encontrar palavras que tenham a mais específica
correspondência com o pathos que é tratado nesta clínica, pois o que se experimenta,
nesta mesma clínica, é que o relato o mais preciso possível sobre o pathos produz uma
transformação que faz desaparecer o sintoma e que altera a estrutura mesma do
psiquismo e até mesmo do cérebro daqueles que estão envolvidos nesta prática. (Revista
Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, editorial s/asinatura, 1998)

Ou seja, o que a Psicopatologia Fundamental propõe e nos interessa


especialmente, e o fato do efeito terapêutico de uma experiência realizável a partir do
pathos, ou seja, da paixão, do sofrimento, do excesso. É nesta perspectiva que
Ceccarelli volta a afirmar que “as manifestações da sexualidade, tanto as ‘normais’
quanto aquelas que fogem às normas, devem ser compreendidas não como problemas
mas como soluções” (Ceccarelli, 2003, p. 21) Segundo este autor, se transportamos este
raciocínio à psicopatologia fundamental podemos pensar que o caminho identificatório
de cada sujeito é uma solução4, uma formação de compromisso frente às múltiplas
variáveis desse caminho que a pessoa deve enfrentar ao longo da vida.

________________
4
“A palavra solução deve ser entendida no sentido matemático do termo: uma equação que comporta
diferentes variantes frente às quais, tal como em um sistema vetorial de forças, uma resultante, uma
solução será encontrada” (Ceccarelli, 2003, p 21)
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 147

Veremos que são múltiplas e inesgotáveis as abordagens possíveis para nos


aproximar de um estudo da etiologia e mecanismos das demências que permitem sua
inclusão no universo da psicopatologia geral, mas que, sob nenhum ponto de vista, deve
ser abandonada a tentativa de aproximação ao sofrimento que, fundamentalmente, está
no cerne de sua causalidade. Se pudermos deixar em suspensão o furor classificatório da
psicopatologia geral que fecha o caminho ao pensamento, poderemos nos aproximar do
sujeito, de seu pathos, de seu sofrimento, de seu excesso.
Veremos à continuação algumas situações que podem ajudar a alargar nossa
compreensão sobre as demências.

1. DESINVESTIMENTO, DEMÊNCIA E PULSÃO DE MORTE

Uma das cenas mais freqüentes na clínica com idosos e com sujeitos em
processo de envelhecimento é a de pessoas que, embora saudáveis, manifestam seu
medo de vir a sofrer algum tipo de deterioração senil, um acidente vascular cerebral que
os deixe em situação de dependência, ou qualquer doença degenerativa que os prive do
pleno domínio de suas faculdades mentais. Medo da morte psíquica, que como morte do
simbólico, desfalecimento do ser, pode se adiantar á morte biológica. Nunca na minha
experiência clínica, achei alguém que preferisse sofrer uma doença longa e limitante do
bom funcionamento mental à morte rápida e sem sofrimentos para ele próprio e sua
família.
Em 1937, em carta a Arnold Zweig após a morte de Lou Andréas-Salomé, o
próprio Freud manifestava seu temor à decadência com as seguintes palavras:

Não gostaria de durar mais, pois tudo a meu redor está se tornando mais sombrio, mais
ameaçador, e a consciência de minha própria situação de desamparo mais aguda... O
medo de que o processo de envelhecimento acarrete a perda de partes importantes da
personalidade ainda intacta é um fator para que meu desejo de vê-lo torne-se mais
urgente (Freud in Schur, p. 597).

A presença do tema da morte é uma constante na vida do idoso; em nenhuma


outra fase da vida o sujeito se vê tão próximo da ruptura definitiva dos vínculos, e
nenhuma outra fase da vida corre maior risco de ser atingida pela pulsão de morte com
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 148

sua força de desligamento e destrutividade que, claro está, adquirirá diferentes formas e
se fusionará de diferentes maneiras com a pulsão de vida, dependendo de cada sujeito
singular. As saídas, então, serão variadas, a religiosidade, a realização de projetos de
vida possíveis a curto prazo, o investimento em projetos para as futuras gerações, a
serenidade ou, a mania e a regressão. Ou seja, formas elaborativas ou regressivas de
dirimir esse inevitável confronto.5 A vida é o conjunto das forças que se opõem à morte,
a vida inscreve-se no tempo e se confronta de forma inelutável com seu fim.
Mas a morte não é um problema externo ao ser humano, algo que acontece como
um acidente. A partir dos anos vinte, Freud vai considerar a morte como a consumação
de determinadas forças internas próprias à vida, não como um fim que se pode desejar
ou do qual se deseja fugir, mas a realização de uma pulsão que produz o retorno ao
inanimado, ao silêncio. A vida surge e se desenvolve sobre este fundo, as forças da
pulsão de morte são inerentes à vida mesma. Todos os fenômenos vitais “derivam da
ação conjugada e antagônica” das pulsões de vida e pulsões de morte como Freud
explicava á Einstein em carta de setembro de 1932.
A pulsão de morte faz sua controvertida entrada no corpo conceitual da teoria
freudiana em “Além do princípio do prazer”, de 1920, apenas dezenove anos antes da
morte de Freud. Com esse conceito, mudo e escondido, a psicanálise, que até então se
pretendia formando parte do universo da ciência clássica, entra definitivamente no
campo da especulação.6
Freud já vinha trabalhando havia muito tempo a questão da agressividade, do
sadismo, do masoquismo e da repetição, mas continuava a se perguntar sobre sua
origem e mecanismos, já que não encontrava solução para o fato de, no mesmo campo
pulsional, existirem tendências de união e separação, de amor e de morte. Em 1920,
resolve a questão com o postulado da pulsão de morte que, em contraposição a Eros,
incluirá todas as tendências destrutivas do ser humano.
Mais do que isso, a pulsão de morte será o âmago de toda pulsão. Pulsão muda,
despercebida enquanto fusionada com a pulsão de vida, mas que faz sua aparição
dramática quando se desfusiona, como no caso da melancolia, em que o super-eu surge
como seu campo de cultura privilegiado.

________________
5
Ver “Corpo, tempo e envelhecimento”, Catullo Goldfarb, 1998.
6
Ver parte IV de “Além do princípio do prazer” de 1920 e Green , 1993, p. 20.
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 149

Essa ameaça de desfusão pulsional é percebida, não sem angústia ou


preocupação, pelo sujeito que envelhece. Freud, em sua velhice, escrevia a Lou
Andréas-Salomé:

Quanto a mim, já não a desejo ardentemente [a saúde]. Noto como se forma


gradativamente sobre mim uma camada de indiferença, e observo esse fato sem que me
sugira qualquer queixa. É uma coisa natural começar a ser inorgânico, e acredito que é a
isto que se chama “a indiferença da velhice”. Sem dúvida guarda relação com a
interdependência das pulsões da qual falei. A mudança talvez não seja muito notada
exteriormente. Tudo continua a me interessar e a qualidade não tem mudado muito,
mas falta a ressonância (Carta de 10/5/1925, grifo meu).

E realmente, para um observador desavisado, “exteriormente”, a vida dos idosos


parece não mudar muito: “Ele está super bem” se diz de um velho que se mantém ativo
e saudável; não se quer pensar nos efeitos que a consciência de finitude podem estar
produzindo ‘internamente’, e menos ainda, falar com eles a esse respeito. Vejamos o
que diz François Mauriac nas “Novas memórias interiores” escritas entre seus setenta e
três e oitenta anos:

Como nos preparar para a morte se não podemos deter nela nosso pensamento? Sei hoje
o que ignorava na época de minha licenciatura em letras: esta preparação se confunde
com o desapego. Preparar-se para a morte, é desatar nós mesmos, um de cada vez, os
laços que nos mantém, romper quantas amarras consigamos de modo que, quando o
vento se levante, de repente, nos arrastará sem que resistamos. Desapego que se realiza
dentro de nós mesmos e não se manifesta para fora. Nossa vida externa não fica afetada
(Mauriac, 1965, p. 328)

Sem dúvida, é possível atingir a velhice “serenamente”7 e isto só se consegue


quando é possível manter um equilíbrio entre pulsão de vida e pulsão de morte. O
próprio Freud reconhecia que apesar da “falta de ressonância”, a vida conserva uma
certa beleza que “provém de seu caráter essencialmente fugidio” (Carta a Marie
Bonaparte de 22/10/1925). Referindo-se à serenidade, Walt Whitman diz: “quando a
vida declina e todas as paixões turbulentas se acalmam, chegam então os dias mais
________________
7
Ver Peruchón M. e Renault ª 1995.
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 150

ricos, mais calmos, os mais felizes de todos” (“Ramalhetes de outono”, citado por
Simone de Beauvoir em “A velhice").

Em 1937, quando já contava 83 anos, Freud insiste neste tema fundamental da


fusão e desfusão pulsional, quando escreve ‘Análise terminável e interminável”, onde
podemos ler:

Vendo a totalidade do quadro compostos pelos fenômenos do masoquismo imanente de


tantas pessoas, a reação terapêutica negativa e a consciência de culpa dos neuróticos,
estes não poderiam por si mesmos sustentar a crença de que o acontecer anímico é
governado exclusivamente pelo afã de prazer. Estes fenômenos apontam de maneira
inequívoca à presença na vida anímica de um poder que, pelas suas metas, chamamos
pulsão de agressão ou de destruição8, e derivamos da pulsão de morte originária, própria
da matéria animada. Não conta aqui uma oposição entre teoria otimista e pessimista da
vida; só a ação eficaz, conjugada e contrária das duas pulsões primordiais, Eros e pulsão
de morte, explica a variedade dos fenômenos vitais, nunca só uma delas. (Freud, 1937,
p. 244).

Mais adiante, conclui que o conflito pulsional é algo singular, novo, que tem
mais a ver com um fragmento de pulsão agressiva livre que com a quantidade de libido
disponível. Dado por demais interessante quando se pensa nas patologias do
envelhecimento que são freqüentemente adjudicadas à diminuição de libido. Vemos,
então, que esta diminuição não é necessariamente “coisa de velhos” e nem deverá
provocar as diversas patologias da velhice, que poderá ser vivida serenamente, sem
conflito, ainda que o quantum de libido não seja o mesmo da juventude ou sua dinâmica
seja diferente. Estamos pois, ante uma nova luz para pensar estas questões a partir do
desfusão pulsional .

Logo depois, e sempre visando ao entendimento da fusão pulsional, Freud traz a


lembrança de Empédocles, o grande médico-filósofo grego para quem existiam dois
princípios que regiam a vida tanto do mundo quanto da alma: amor e discórdia. O
primeiro teria como aspiração aglomerar em uma unidade as partículas fundamentais

________________
8
Pulsão de agressão ou destruição designa a pulsão de morte quando voltada ao exterior tendo como meta
a destruição do objeto. (Ver Laplanche, 1995)
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 151

dos quatro elementos (terra, água, fogo e ar) enquanto a discórdia9 tenderia à separação.
Assim, o movimento da vida seria marcado por momentos de predominância de um ou
outro princípio e juntos dominariam o mundo e a alma. Como já salientávamos,
situações de discórdia, de brigas, de conflitos familiares, lutas pelo poder ou pela
sobrevivência são comuns no começo de um quadro demencial,
Como podemos observar, o conceito de desfusão pulsional é de grande ajuda
quando pensamos a demência do ponto de vista da psicanálise, poi, a primeira idéia que
nos ocorre é que ela representaria o triunfo da pulsão de morte, ou melhor, da defusão
pulsional.
Se pensarmos na dinâmica de nosso mundo industrializado e consumista, não
nos será difícil compreender os efeitos da aposentadoria – só para tomar um exemplo –
que retira o sujeito do sistema produtivo e o joga na exclusão (e freqüentemente, na
pobreza) impulsionando-o ao desinvestimento e provocando uma espécie de desapropriação
subjetiva dos papéis sociais e uma ruptura da aliança narcisista com o mundo dos
objetos. No idoso, o desinvestimento se alia a uma forte perda da auto-estima e a libido
liberada, agora flutuante, deixa o campo livre à pulsão de morte a qual instala o desejo
da morte que pode até se concretizar no suicídio.
André Green (1988), refere-se à função objetivante, de investimento, da pulsão
de vida e função desobjetivante, de desligamento, de desinvestimento da pulsão de
morte. A pulsão de vida admite em si mesma as duas funções: fusão e desfusão, quer
dizer: pode absorver um aspecto de pulsão de morte, digamos, adaptada a seus
objetivos. A pulsão de morte, ao contrário, é só desinvestimento e desfusão que ataca
todos os objetos investidos, até o próprio eu na medida em que é objeto de investimento.
Quando Green fala do trabalho do negativo, refere-se a essa luta na qual, sob a
égide da pulsão de vida, se faz imprescindível um trabalho sobre aspectos negativos da
pulsão de morte para controlar a desfusão.10 Trabalho do negativo que pode adquirir
múltiplas feições, até as estruturantes do delírio, mas que sempre implica a
possibilidade de uma negação (da morte ou da velhice) que proteja o eu numa tarefa
elaborativa.

________________
9
O Aurélio define discórdia sob dois aspetos: desarmonia, desentendimento, desinteligência, desavença e
briga, luta.
10
Marion Peruchón (1995) trabalha sobre um tríptico de desfusão pulsional maior, no qual, além das
demência, inclui a melancolia e o suicídio.
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 152

Para Green, o sujeito se encontra descentrado pelo movimento do desejo que o


faz procurar o objeto de satisfação e viver a experiência de sentir que seu centro não
está mais nele mesmo, que está num objeto separado dele e ao qual precisa se reunir
para recuperar seu centro e sua unidade. Quando acontece a primeira experiência de
falta, o desejo será realizado de forma alucinatória, posteriormente outras soluções
deverão ser encontradas, como é o caso da identificação, na qual o eu se funde com o
objeto suprimindo sua alteridade.
Mas a partir do momento em que o eu se distingue do não-eu e admite sua
existência separada, sofrerá uma permanente desilusão, saberá da impossibilidade do
reencontro, da inútil procura de um objeto substituto que repare as feridas da renúncia
do objeto originário e será vítima da constante renovação do fracasso. O sofrimento
surge como um desgarramento entre o eu e seu objeto, como conseqüência de uma
rejeição, um abandono ou uma ausência sem esperança de retorno, o que confronta o eu
com sua própria morte. Ante o fracasso, só o investimento em objetos idealizados, como
os oferecidos pela religião, permitirá a desvalorização dos prazeres e necessidades
simplesmente humanos e evitará a discórdia, possibilitando uma saída serena – ego-
sintónica11 – ao sofrimento do eu, em caso contrário

.....o efeito combinado da distância espacial impreenchível e da dissincronia temporal


interminável, fazem da experiência do descentramento a marca do ressentimento, do
ódio, do desespero. Por isto, o retraimento para a unidade, ou a confusão do Eu com um
objeto, não estão mais ao alcance. É então a busca ativa, não da unidade, mas do nada;
isto é, de uma redução das tensões ao nível zero, que é a aproximação da morte
psíquica. (Green, 1988, p. 25)

Deste modo, o centro, como objetivo de plenitude, torna-se centro vazio ou seja,
estaríamos ante uma ausência de centro. O apaciguamento de todo desejo torna a vida
equivalente à morte.
Podemos observar que o perigo reside em que o desinvestimento, em vez de
evoluir para a serenidade através da sublimação, o faça em direção a um desinvestimento
mortífero que em nada seja elaborativo. Então, estaremos ante uma depressão por
________________
11
Para Green “a ego-sintonia do Eu deve ser procurada nos investimentos do Eu por suas próprias
pulsões: é o narcisismo positivo: efeito de neutralização do objeto” (1988, p.25) e chama narcisismo
negativo “as relações entre narcisismo e pulsão de morte” (idem. p 14).
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 153

desinvestimento, que, em sua forma moderada e na maioria dos casos, pode permanecer
como tal durante longos períodos ou evoluir para patologias mais graves, que
comprometem a harmonia da vida psíquica.

Vale a pena insistir neste ponto: nesse jogo pulsional, adquirem fundamental
importância as possibilidades vinculares. Sabemos que um isolamento relacional por
exemplo, pode acelerar o desmoronamento dos objetos internos, enquanto a
conservação dos vínculos pode frear a depressão. Conservar os belos motivos para que a
vida valha a pena é questão de sobrevivência para o eu, pois, se o demenciado perde a
razão, é a razão de viver que perde.

Sempre que o sofrimento colocar em perigo seus investimentos privilegiados, o


eu procurará outra causa que seja capaz de suportar tal investimento. Obviamente
estamos falando de uma causa que esteja ligada a seu desejo. O eu só pode investir no
objeto que seja causa de seu desejo e que, justamente por isso, será também causa de
seu sofrimento, já que, quanto mais um objeto é necessário para o prazer, mais sua
ausência provocará o sofrimento. Fugir do sofrimento jamais será fácil, pois significará
abrir mão de um objeto causa de prazer, mas a única forma de suportá-lo será esperar
esse tempo futuro em que a felicidade perdida promete ser reencontrada, ilusão que se
conhece sob o nome de esperança. Para continuar investindo, deverá haver sempre uma
boa causa, pensável, lógica, com sentido para sua existência.

Sabemos que a pulsão de vida aponta sempre para a atração e conservação dos
objetos fontes de prazer e a constância dos investimentos por meio da fusão e da
ligação. Sabemos que procura formas organizativas cada vez mais complexas e que é
fundamentalmente gregária. O objeto, enquanto variável, estará em permanente
mutação, mas o que se manterá constante será o investimento. Enquanto isso, podemos
dizer que a pulsão de morte trabalha no sentido contrário: desligamento, desunião e
segregação serão seus métodos, mas a finalidade principal a encontraremos no
desinvestimento.

Desinvestimento que, ao contrário do que achamos na pulsão de vida, não se


realiza em favor de outro objeto que, embora de forma ilusória, garanta o prazer, mas
ante qualquer possibilidade de encontro com qualquer objeto. Se há, na pulsão de morte,
algum investimento, este se realizará, sem dúvida, sobre o processo de desinvestimento.
O que aqui encontramos é a expulsão de qualquer objeto que possa ser fonte de prazer.
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 154

A pulsão de morte ameaça todos os objetos. Abole toda e qualquer experiência


de ligação que possa contribuir para a sustentação da atividade psíquica. Podemos dizer
que a meta final é cortar radicalmente a possibilidade de encontro com qualquer objeto
cuja ausência pudesse se constituir em causa do desejo. Assim, transformando o objeto
em insubstituível, não haverá mais procura, mais espera, mais desejo. Um não mais
reconhecer-se como desejante, pois o desejar traz junto a possibilidade de não conseguir
e remete à primeira experiência de desprazer que inaugura o estado de dependência
psíquica do objeto. Desejo de não desejo. “Não mais querer, não mais estimar e não
mais criar! Ai, que esse grande cansaço fique sempre longe de mim!” dizia Nietzsche
em “Assim falava Zaratustra”. E Gide se lamentava:

Conheci uma palavra que descreve o estado do qual padeço há alguns meses, uma
palavra muito bela: anorexia ..... Significa ausência de apetite. Acho exagerado dizer
que eu sofro de anorexia; o pior é que quase não sofro dela, porém minha inapetência
física e intelectual aumentou tanto que já não sei que outra coisa me mantém ainda vivo
não sendo o hábito de viver (Gide, apud Péruchon p. 31)

O desinvestimento procura apagar todo e qualquer traço do objeto, não deixar


nenhum sinal de que algum investimento foi realizado, nada que permita reencontrá-lo
Um vazio, um oco, um nada (de representações).

Para Piera Aulagnier todo investimento não é outra coisa que o triunfo sobre um
desinvestimento sempre em marcha e ela se refere às suas conseqüências com a
seguintes palavras: “Compreende-se então o risco que representa qualquer experiência
que pudesse culminar nesta forma de desinvestimento, único assassinato definitivamente
bem sucedido” (Aulagnier, 1990, p. 288). Assassinato do eu, claro está. O objetivo da
vida psíquica é manter ou criar interpretações sobre o vivido, de maneira que os
investimento sobre esse vivido continuem possíveis. Então, para que aconteça um
desinvestimento, é necessária uma grande dose de sofrimento; porém, felizmente, a
pulsão de vida não renuncia facilmente às posições ganhas.

A mesma autora resume as funções do eu a três verbos: investir, pensar e sofrer.


As duas primeiras são a condição de sua constituição e permanência e a terceira
representa o preço que deverá pagar para consegui-lo. Um sujeito pode resignar-se a
muitas perdas sempre que achar outros objetos de investimento, mas, se o sofrimento
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 155

for excessivo, pode acontecer que se desinvista o próprio investimento. Pode haver um
preço que não se quer pagar. Investir e pensar são justamente as funções que se acham
alteradas nas patologias.

O sofrimento é próprio do sujeito que investe pois, como investidor, está sujeito
à perda, à desilusão, ao fracasso. É um perigo constante; porém, é também uma
necessidade, pois só o sofrimento confronta o sujeito com a diferença entre ele e os
outros, entre a realidade e a fantasia, assim, a realidade nasce do sofrimento. Com a
primeira experiência de insatisfação do alimento que não chega, o sofrimento inaugura
o processo de conhecimento do mundo real.

Que a dura realidade é causa de sofrimento ninguém o ignora. Piera Aulagnier


diz que são quatro os aspectos das provas de realidade impostas ao psiquismo (1990, p.
294): a realidade de um corpo vulnerável, a ameaça da morte sempre presente, a
autonomia do desejo do outro que pode provocar a privação do objeto amado e a
realidade social que cobra o alto preço da exclusão àqueles que não aceitam suas
normas. Passar por essas provas da realidade pode ser altamente proveitoso para o
psiquismo, que assim se forja mais condizente com um princípio de realidade necessário
para sua própria saúde, além de sentir que paga um tributo à vida. Haveria, então, um
sofrimento necessário. O eu confrontado com a dor cria uma dimensão temporal, pois
abre uma expectativa de futuro no qual o reencontro com o prazer seja possível. Inventa
a esperança.

Mas qualquer sofrimento excessivo será a via de acesso privilegiada para a


pulsão de morte. Quando digo excessivo, refiro-me ao tipo de sofrimento não
metabolizável, aquele sobre o qual não é possível fazer nenhuma elaboração, que não
permite nenhum aprendizado, que não se transforma em experiência, mas o contrário:
deixa na vida psíquica um buraco, um vazio. Vazio em que não há luto possível. Vazio
como domínio da pulsão de morte.

2. DEPRESSÃO E DEMÊNCIA

Freud escreve “Luto e melancolia” para diferenciar o que seria um processo


normal ante uma perda de seu correspondente patológico. A melancolia tem, para
Freud, “múltiplas formas clínicas cuja síntese em uma unidade não parece certificada”
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 156

(Freud, 1914, p. 241). O luto se nos apresenta como uma reação normal à perda de um
ente querido ou de uma abstração que o substitua, como a pátria ou um ideal, por
exemplo. Considera-se normal e se acompanha sem perturbá-lo.
Os dois compartilham o mesmo sentimento doloroso, a perda de interesse pelo
mundo exterior, a inibição de toda produtividade e investimento, e a incapacidade de
amar; mas, no caso da melancolia, observamos, além destas características, a presença
de sentimentos de culpa, autocensura e expectativa de punição.
No luto, à constatação da realidade que marca que o objeto amado não mais
existe segue-se um verdadeiro trabalho de elaboração, pelo qual o sujeito deverá
aceitar essa constatação, lento trabalho de desligamento dos investimentos um a um, até
o eu ficar novamente em condições de se redirecionar a outro objeto e fazer novos
investimentos. Mas este processo, por ser difícil e trabalhoso, não será feito de
imediato; levará um tempo, em que a resistência à aceitação da realidade pode provocar
tentativas de retenção do objeto perdido, até o extremo de uma “psicose alucinatória de
desejo” (Freud, 1915, p. 228), como veremos mais adiante.
No luto não há nada de inconsciente; sabe-se o que se perdeu com o objeto que
não está mais. O mundo se empobrece. Quem está de luto precisa de tempo para
transformar a dor da perda em lembranças que passem a formar parte de sua história. O
luto é, antes de mais nada, uma relação com o tempo e, como já adiantava Freud em
Totem e Tabu (1913), o luto tem uma missão psíquica definida, que consiste em
estabelecer uma separação entre, de um lado, os mortos, e de outro as lembranças e as
esperanças dos sobreviventes. E Pierre Fédida concorda quando diz: “Freud tinha razão
ao enfatizar o ganho narcísico que, uma vez rompido o vínculo com o objeto aniquilado,
a realidade acaba por conceder ao enlutado a reconhecida vantagem de se permanecer
vivo” (Fédida, 1999, p 52) E ainda: “O luto, antes de ser concebido como um trabalho,
protege o enlutado contra sua própria destruição” (idem, p. 23).
Na melancolia, o que aparece pobre e sem brilho é o próprio eu, que está
totalmente inibido e rebaixado. Há, nesse processo patológico, algo de inconsciente;
conhece-se o objeto perdido, mas não se sabe o que foi perdido com ele. A este fator de
desconhecimento referem-se as críticas exageradas – porém lógicas – que o
melancólico, sem demonstrar a menor vergonha por isso, se faz em relação ao objeto
perdido. Fica claro que a autocensura e o desejo de punição não correspondem à
realidade do vínculo, nem à singularidade do eu que os profere. É esse justamente seu
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 157

aspecto mais misterioso, aquilo que nos leva a pensar sobre o que foi realmente perdido,
que nos convida a pensar que não constitui um processo normal.
Freud diz que “as queixas [sobre si mesmos] são realmente querelas”... ”tudo
isso é possível porque as reações de sua conduta derivam-se da revolta, que depois, por
um certo processo, foram transportadas à contrição melancólica” (Freud, 1914, p. 246).
Ou seja, o que dizem de si mesmos, o estão dizendo realmente do objeto em falta. Esse
“certo processo” do qual Freud fala não é outro que a identificação, pela qual “a
sombra do objeto caiu sobre o eu” (idem). A investidura de objeto foi cancelada mas,
em vez de se dirigir a outro objeto como acontece no trabalho de luto, dirige-se sobre o
próprio eu que passa a ser julgado sob as mesmas premissas pelas quais se julgava o
objeto perdido. Pierre Fédida fala do “canibal melancólico” com as seguintes palavras:

O canibalismo seria, então, a expressão mítica de um luto melancólico – espécie de


assassinato – de um objeto, sob o encanto do qual o eu foi colocado e do qual ele não
consegue resolver-se a se separar, como mostra a angústia de mantê-lo presente a partir
de sua ausência. Pois a devoração de que fala essa angústia não poderia preencher seu
sentido se a ausência, por si só, desse conta da perda (como acontece no luto dito
“normal”) O canibalismo encontra na angústia, a violência de um desamparo que
permite ao eu sobreviver com a aparência do objeto perdido, ou seja, com suas
qualidades, que o fantasma transforma em realidade primeira pelo efeito de sua
ausência. (Fédida, 1999, p. 67)

Freud não avança muito no sentido do modo de resolução do processo


melancólico. Mas, fica claro que, na melancolia, há um objeto que ocupa um lugar
determinante em sua dinâmica.
Para Fédida, a depressão pode ser comparada e até mesmo assimilada a um
trabalho de luto e ser concebida como uma organização psíquica primária, protetora de
um luto e defensiva contra um luto. Ele escreve:

Gostaria de enfatizar que aquilo que chamamos depressão define-se por uma posição
econômica que diz respeito a uma organização narcísica do vazio [] que se assemelha a
uma “simulação” da morte para se proteger da morte. [] A depressão não seria a
experiência vital da morte impossível? (idem, p. 39)
E acrescenta:
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 158

Como já disse: depressão é uma morte impossível. Falar do luto na depressão é


justamente evocá-lo [] como aquilo através do qual saímos dela!. (idem, p 48)

Fédida (1999) articula a depressão ao vazio e diz que, embora este deva ser
considerado sob o viés do isolamento e da privação sensorial como medida da
conservação de si, pode constituir “o ponto de apoio maior da cura. Portanto, o vazio
não é a morte” (idem, p. 71) já que também representa a condição necessária anterior ao
desejo de recolher. Mas também explicita seus inconvenientes.

O luto, como trabalho, é um projeto que faz crescer o espaço da memória com as
lembranças que desafiam o esquecimento. No vazio, quem está vazio é o eu, no vazio
não há projeto, portanto não há esperança. Depressão sem culpa nem objeto que se
caracteriza por “um estado de conservação sem espera, de equilíbrio inerte anulador das
tensões, de suspensão psíquica pela evacuação de qualquer conteúdo de pensamento e
representação” (Fédida, 1999, p. 96).

Nos últimos anos, também Joel Birman vem analisando novas formas de
subjetivações na contemporaneidade, novas formas de funcionamento psíquico que, de
alguma maneira, representam um desafio para a psicanálise. Novas formas de processos
depressivos que não têm antecedentes na psiquiatria, nem foram os descritos por Freud
no texto que acabamos de comentar. Quadros que se aproximam do que a clínica vem
descrevendo há décadas como estados-limites e se relacionam com uma nova forma de
depressão onde o fundamental não seria a experiência da perda e sim o vazio.

...caracterizada pelo vazio e não pela experiência de perda, isto é, não existe a
melancolia. Confrontamo-nos assim, com uma plêiade de experiências – depressão
caracterizada pelo vazio, patologias psicossomáticas, sofrimentos de estados limites,
além dos drogados e anoréxicos – nos quais o que se encontra subjacente são
determinadas formas de impasse de subjetivação, e o que salta aos olhos num primeiro
momento, é que são forma de manifestações psíquicas coladas à experiência corporal”
(Birman, 2001, p. 154).

Roland Chemama, em entrevista divulgada pela Internet por ocasião do


lançamento de “Elementos lacanianos para uma psicanálise do cotidiano”, diz:
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 159

Mais do que uma patologia de sintomas no sentido clássico, como histeria ou neurose
obsessiva, estamos diante da patologia da depressão como uma impossibilidade de agir,
de desejar. A depressão é uma patologia bem conhecida, não é só uma tristeza. É uma
coisa que isola o sujeito, que o impede de contatos sociais. O que dá a identidade ao
sujeito é o desejo. Assim, quando ele não deseja, perde sua identidade. Há o que os
psicanalistas chamam de despersonalização: o sujeito não se reconhece. O que ele é, o
que faz aqui ou lá, ele não sabe. Há pessoas que pegam um transporte, viajam a uma
cidade qualquer e depois não sabem o que fazem lá. (Chemama, 2003)

Seguindo o pensamento de Birman, vemos que essas patologias mostram uma


forma de desinvestimento narcísico no corpo; os sintomas são sempre no plano
corporal. E a depressão por vazio é sua maior manifestação sintomática. Caracterizam-
se também pela passagem ao ato que indica um baixo nível de simbolização, uma
impossibilidade de colocar as excitações pulsionais no circuito simbólico.

Não haveria aqui uma cena, como seriam as cenas histéricas; há uma passagem
ao ato, em que o sujeito está submetido ao desejo do outro, responde à sua demanda de
maneira total e indiscriminada, não pode se erigir mesmo como sujeito. O sujeito se
oferece ao outro “de corpo e alma” para ser protegido do desamparo. “Nesta experiência
masoquista fundamental, o que está sempre presente é uma experiência de submissão ao
outro em busca de proteção do desamparo” (Birman 2001, p. 155). Um apelo à proteção
de um pai simbólico que não mais acode ao chamado.

Pontalis (1997) diz que o tempo da depressão é um tempo que não passa, um
tempo parado. No vazio, nada acontece, espaço atemporal sem espera, em suspensão,
como protótipo de espaço psíquico arcaico, que seria assimilável a experiências
originárias como a do nascimento, por exemplo. Momento de um eu vazio, de antes de
começar a se preencher com representações, que, utilizando um referencial kleiniano,
poderia ser assimilado a uma posição do sujeito anterior a uma posição depressiva em
que criativamente, um objeto, embora faltante, pode ser constituído.

O vazio seria uma amnésia da perda, o que torna o luto impossível. Seria
necessário o reconhecimento de uma perda para haver um luto, seria necessário um luto
para superar o vazio. Seria necessário aceitá-lo para elaborá-lo. Mas aceitar o luto é
evocar a perda, e toda perda remete à morte. No vazio não encontraríamos nem o objeto
do luto, nem a culpa da melancolia. O sujeito não alimenta qualquer queixa, nem se
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 160

auto-deprecia, fica em suspensão. O objeto não se erige em substituível. No vazio, o


objeto não se conserva.
Podemos ver que a depressão por vazio não é mais que uma forma de reação à
perda que pode não caracterizar este tipo de depressão, mas que a contém. Acaso o
vazio não é a perda de tudo, a perda da esperança? No vazio, a perda é defensivamente
apagada, o que não quer dizer que não tenha existido. Na depressão por vazio não
encontramos os lamentos do amor perdido, nem ódio, nem culpa. O deprimido se reduz
a seu mínimo vital, defende-se dos sentimentos que lhe possam provocar um excesso de
sofrimento, que lhe outorguem qualquer causalidade ao mesmo. Vazio de representação,
até de si mesmo, que o aproxima da morte psíquica.
Falar em depressão por vazio define formas contemporâneas de reação à perda,
em que não se faz o trabalho de luto, mas onde também não há identificação com o
objeto como na melancolia. Para Birman, trata-se de novas formas de depressão
pautadas por uma temporalidade que exige a rápida substituição do objeto, a restauração
narcísica imediata. Temporalidade sem tempo nem valor positivo para um luto sofrido e
demorado. As belas histéricas sofredoras de antanho não têm mais vez; na sociedade do
espetáculo12 devem, rapidamente, “partir para outra”.
Mas para onde partir quando o horizonte de futuro se estreita e os caminhos
faltam? Substituir os objetos perdidos pelo que e em que tempo? Como elaborar os lutos
quando parece não valer mais a pena fazer esse trabalho? O que fazer quando a finitude
se presentifica? Esta forma especial da temporalidade do idoso faz que o presente
adquira outra dimensão. A necessidade de bem-estar aqui e agora sofre um
recrudescimento pois não há mais tempo para aguardar a satisfação futura.

Freud, em “A transitoriedade”, escreve:

sabemos que o luto, por doloroso que seja, expira de forma espontânea. Quando acaba
de renunciar a todo o perdido, devorou-se também a si mesmo e então nossa libido se vê
livre novamente para, se ainda formos jovens, e capazes de vida, substituir os objetos
perdidos por outros novos que sejam, se possível, ainda mais apreciáveis (Freud, vol.
XIV, p. 311, o grifo é meu).

________________
12
Ver elaborações de Debord no cap. I.
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 161

Através deste comentário de Freud, podemos ver que a limitação temporal da


vida se constitui num empecilho para o trabalho elaborativo do luto. “Se ainda formos
jovens” é o limite para a substituição. Assim, o maior trabalho na velhice será o de um
luto antecipado, luto por um objeto ainda não perdido – a própria vida – porém
condenado. Luto que pode ser impossível.
O ser humano, diferente do animal, sabe que vai morrer, sabe que é finito e tenta
desesperadamente negar essa idéia, embora não faça mais que confirmá-la nas
intermináveis tentativas de planejamento de sua vida. E, apesar dessa certeza estar
sempre presente quando a vida se vê ameaçada, é só no tempo do envelhecimento que
ela adquire a conotação do iniludível. A forma especial em que isso será vivido
dependerá das características de cada sujeito e das diferentes experiências de proximidade
com a morte por ele vivenciadas ao longo de sua vida. Proximidade esta que, como
sabemos, depende da experiência no árduo trabalho de elaboração de perdas, luto
necessário para a substituição de objetos e a continuação dos investimentos que
possibilitem a vida.
Eis por que afirmamos que a demência pode ser produzida por uma ausência de
trabalho de luto. Por isso pode-se pensar que como diz Messy (1993) a depressão “se
cura pela demência”, embora, mais que de cura, devamos falar de fuga, forma radical de
escape da dor moral insuportável, que preserva a vida biológica mas leva a um
verdadeiro suicídio psíquico. Assim, a depressão se constituiria em causa de demência,
pois seria uma forma (regressiva) de sair dela pelo caminho da evitação do sofrimento
que a depressão não deixa de produzir. Seria uma “solução”13 para a depressão, no
sentido que foi colocado no começo deste capítulo.

3. A ANGÚSTIA E A DISSOLUÇÃO DO EU

Víamos no capítulo anterior que o eu só pode garantir sua continuidade


tornando-se outro, modificando-se, sendo sempre diferente do que já foi e, ao mesmo
tempo, sendo sempre o mesmo. Ou seja, deve aceitar estar sempre em movimento.
Movimento que é essencialmente temporal.

________________
13
Ver nota de rodapé da p. 146.
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 162

É função do eu pensar a própria temporalidade e, para fazê-lo, deve investir um


tempo-espaço futuro que se transforma em um objeto pleno das qualidades que lhe são
mais assustadoras: sua imprevisibilidade e a falta total de garantia de, nesse futuro, continuar
sendo um existente. Piera Aulagnier refere-se a este tema com as seguinte palavras:

Esta instância [o eu] deve poder responder cada vez que se coloca a questão de quem é
o eu; questão que não será jamais reduzida ao silêncio, que acompanhará o homem
durante toda sua vida, e que não poderá se defrontar, salvo em momentos fugazes – com
a ausência de reposta sem que o eu se dissolva na angústia (Aulagnier, 1979, p. 156).

Na demência, é da dissolução do eu que se trata, e a questão da angústia é


indissociável do tema das ameaças ao eu.

Em 1915, no texto intitulado “De guerra e de morte”, Freud afirma que no


inconsciente não há representação da morte e, justamente por ser da ordem do
irrepresentável, é também um não metaforizável. A própria morte é, em sentido estrito,
impossível de elaborar, e em “O Eu e o Isso”, de 1923, Freud se refere a este tema com
a conhecida frase: “toda angústia é na verdade, angústia ante a morte”, dizendo que
“dificilmente possua um sentido e de qualquer forma, é difícil de justificar” (Freud,
1923, p. 58). Mas logo a justifica quando acrescenta:

Parece-me, pelo contrário, perfeitamente correto distinguir a angústia da morte do temor


de um objeto (ansiedade realística) e da angústia libidinal neurótica. Apresenta-se um
problema difícil para a psicanálise, pois a morte é um conceito abstrato com conteúdo
negativo para o qual nenhum correlato inconsciente pode ser encontrado. Pareceria que
o mecanismo da angústia da morte só pode ser o fato de o eu abandonar em grande parte
sua catexia libidinal narcísica, isto é, de ele se abandonar, tal como abandona algum
objeto externo nos outros casos em que sente angústia. Creio que o medo da morte é
algo que ocorre entre o eu e o supereu. (idem, p. 58).

Já anunciamos o tema da angústia de morte ao falarmos de desamparo, no


primeiro capítulo deste trabalho quando, analisando alguns aspectos de “Inibição, Sintoma e
Angústia” (1926), chamávamos a atenção para o fato de a angústia de morte ser
concebida por Freud como análoga à angústia de castração, passagem realizada através
da perda de confiança nos poderes protetores do supereu infantil. E Freud diz mais:
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 163

Mas o inconsciente parece nada conter que pudesse dar qualquer conteúdo ao nosso
conceito da aniquilamento da vida. A castração pode ser retratada com base na
experiência diária das fezes que estão sendo separadas do corpo ou com base na perda
do seio da mãe no desmame. Mas nada que se assemelhe à morte jamais pode ter sido
experimentado; ou se tiver, como no desmaio, não deixou quaisquer vestígios
observáveis atrás de si. (Freud, 1926, p. 123)

Quando se refere às neuroses traumáticas Freud diz: “Parece evidente que a


neurose traumática, tão freqüentemente seqüela de um perigo mortal, há de ser
concebida como conseqüência direta da angústia de sobrevivencia ou de morte” (idem,
p. 122). E agrega algo muito interessante sobre as condições econômicas da situação:

Devemos considerar o fato de que por causa das vivencias que levam às neuroses
traumáticas é quebrada a proteção contra estímulos exteriores, assim, ingressam no
aparelho psíquico, volumes hipertróficos de excitação, de maneira que nos vemos ante
uma segunda possibilidade: que a angústia não se limite a ser um sinal-afeto, mas que
seja também produzida como algo novo a partir das condições econômicas da situação.
Mediante este último esclarecimento, a saber, que o eu se poria sobreaviso da castração
através de perdas de objeto repetidas com regularidade, obtemos uma nova concepção
da angústia. Se até agora a considerávamos um sinal-afeto do perigo, agora vemos que
tanto se trata do perigo da castração como de reação frente a uma perda, uma separação.
(idem, p. 123)

Acompanhando estas idéias, podemos nos permitir pensar em relação à


particular economia do processo de envelhecimento e suas repetidas perdas, já que,
chegado a certo ponto, o período entre lutos se encurta demasiadamente, provocando
um excesso de excitação não metabolizável que ao modo das neuroses traumáticas,
provocariam essa sensação de não haver saída, não haver tempo para elaborar.

O afeto de angústia frente à perda não deve ser confundida com a dor do luto. O
mesmo Freud encontrou sérios inconvenientes para separa-los e, mais uma vez apóia-se
no exemplo da angústia produzida pelo trauma do nascimento:

A primeira experiência de angústia pela qual passa um indivíduo (no caso de seres
humanos, seja como for) é o nascimento, e, objetivamente falando, o nascimento é uma
separação da mãe. Poderia ser comparado a uma castração da mãe (equiparando a
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 164

criança a um pênis). Ora, seria muito satisfatório se a angústia, como símbolo de uma
separação, devesse ser repetida em toda ocasião subseqüente na qual uma separação
ocorresse. Mas infelizmente estamos impedidos de fazer uso dessa correlação pelo fato
de que o nascimento não é experimentado subjetivamente como uma separação da mãe,
visto que o feto, sendo uma criatura completamente narcísica, está totalmente alheio à
sua existência como um objeto. Outro argumento adverso é que sabemos quais são as
reações afetivas a uma separação: são a dor e o luto, e não a angústia. Incidentalmente,
pode-se recordar que ao examinarmos a questão do luto também deixamos de descobrir
por que deve ser uma coisa tão dolorosa. (Freud, 1926, p. 159)

Mas ele se refere aqui a uma dor que não é a do luto o qual é proposto como uma
outra reação ante a perda, pois: “O luto se gera sob a influencia do exame de realidade
que exige categoricamente a separação do objeto que já não existe mais” (idem, p.160)

Por outro lado, Freud faz questão de ligar inequivocamente a angústia com a
expectativa, ou seja, sempre se trata de “angústia ante algo”, contém sempre o caráter de
indeterminação e ausência de objeto. Do contrário, estaríamos ante um sentimento
muito mais claro e preciso como é o medo. Parece-me oportuno lembrar aqui a frase de
Dorian Gray : “Não tenho medo da morte, o que me aterroriza é sua proximidade”
(Wilde 1989) Essa proximidade ameaçadora é a expectativa, essa é a verdadeira
situação de perigo na qual se origina o sinal de angústia. “Por isso antecipo o trauma,
quero me comportar como se já estivesse aí”, diz Freud (Freud, 1926 p. 155) .

Dizíamos que envelhecimento estamos ante um luto antecipado, luto por um


objeto ainda não perdido, porém condenado pelo exame de realidade: a própria vida. E
como todo processo de luto exige um trabalho elaborativo que nem sempre é possível,
então, o eu é invadido pela angústia de morte.

Na melancolia, o eu se sentiria odiado pelo super-eu, que não cumpriria mais a


função protetora de guardião da vida e abandonaria o eu a seu próprio destino. Assim, o
eu desprotegido se deixaria aniquilar. Novamente em “Inibição, sintoma e angústia”,
Freud adjudica ao eu a produção de angústia como resposta aos perigos que o ameaçam
e, sem dúvida, o maior perigo que ameaça o eu é o de aniquilação.
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 165

4. DO EU-HORROR AO VAZIO DO EU

Desejo começar este ponto comentando dois magníficos contos de consagrados


autores brasileiros, Machado de Assis (1839-1908) e João Guimarães Rosa (1908 –
1967) que justamente levam o mesmo título: “O espelho”, sendo que o de Machado tem
um subtítulo mais do que instigante: “Esboço de uma nova teoria da alma humana”.
No “espelho” de Machado de Assis, Jacobina, homem de aproximadamente 50
anos, defende ante seus amigos a idéia de que o ser humano possui duas almas, uma
interna e outra externa, “Uma que olha de dentro para fora e outra que olha de fora para
dentro” (Machado de Assis, p. 40). Essa alma externa pode ser muitas coisas: “um
espírito, um fluído, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos,
por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa
(idem). E, para ilustrar sua teses, relata um fato que lhe acontecera aos 25 anos, quando
fora nomeado alferes. O jovem alferes, com seu uniforme reluzente, transforma-se no
orgulho da família de origem simples ao ponto tal que até as pessoas mais próximas
deixam de chamá-lo pelo seu nome, e meio a desgosto, deve assumir sua nova
identidade em todos os momentos de sua vida e passa a ser “exclusivamente alferes”. A
tia Marcolina a quem visita a seu pedido no “sítio escuro e triste” (idem, p. 42) onde
morava, encantada com o sucesso do sobrinho, manda colocar no quarto a melhor peça
da casa, um espelho belíssimo e grande herdado de uma das fidalgas da corte de D.João
VI , peça que lhe permitia se ver de corpo inteiro.14 Ninguém mais o chamava de
Joãozinho, “era alferes para cá, alferes para lá, alferes a toda hora” (idem) até que “O
alferes eliminou o homem. Durante alguns dias as duas naturezas equilibraram-se; mas
não tardou que a primeira cedesse à outra; ficou-me uma parte mínima de humanidade”
(idem, p. 43).
Por uma série de situações, o alferes acaba ficando totalmente só no sítio da tia
Marcolina, fato que lhe provoca um estado psíquico caracterizado por astenia, apatia,
tristeza e profundo sentimento de solidão, “era como um defunto andando”. Não era
medo: “Ora, fora bom se eu pudesse ter medo. Viveria! (idem, p. 46) diz o protagonista,
e acrescenta que desde que ficara sozinho na casa não tinha se olhado no espelho “por

________________
14
Acho interessante que em francês, a palavra Psyché – que na sua origem grega significa “alma”– define
também estes espelhos verticais, tal como o testemunha o dicionário Le Robert: Grande glacê móbile
montée sur um châisis à pivots.
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 166

receio de achar-me um e dois ao mesmo tempo” (idem, p. 47). Mas em certo momento
decide se olhar e o que enxerga o espanta: uma figura “vaga, esfumada, difusa, sombra
de sombra...[...] de decomposição de contornos ” (idem, p. 48) Então sim sentiu medo ...
medo de enlouquecer, pensou em fugir.

Desesperado, angustiado, sentindo-se enlouquecer, decide vestir a farda de


alferes e, assim paramentado, o espelho o reconhece, os contornos ficam nítidos, os
gestos determinados, esse era ele ... “Não era mais um autômato, era um ente animado”
(idem, p. 49). A partir desse dia, vestia-se de alferes durante algumas horas e ficava
frente ao espelho em diversas atitudes. Essa recuperação lhe permite superar os dias de
solidão e especialmente a perda da identidade em que esse isolamento o tinha
submergido; o outro no espelho lhe permite reencontrar sua alma de alferes, o
reorganiza até os outros (família e escravos) voltarem. Aliás, espelho, imagem e alma,
são neste conto indissociáveis.

Já o texto de Guimarães Rosa é uma reflexão sobre a natureza dos espelhos, aos
quais questiona sua fidelidade pois: “há os bons e os maus, os que favorecem e os que
detraem; e os que são apenas honestos” como o próprio olhar, já que: “.. o tempo é o
mágico de todas as traições...e os próprios olhos, de cada um de nós, padecem viciação
de origem, defeitos com que cresceram e aos que se afizeram, mais e mais” (Guimarães
Rosa, p. 120). Declara havê-los temido desde criança pois: “neles, às vezes, em lugar de
nossa imagem, assombra-nos alguma outra medonha visão” (idem, p. 121) E ainda
acrescenta:

Quem se olha no espelho, o faz partindo de um preconceito afetivo, de um mais o


menos falaz pressuposto: ninguém se acha na verdade feio: quando muito, em certos
momentos, desgostamo-nos por provisoriamente discrepantes de um ideal estético já
aceito. Sou claro? O que se busca então, é verificar, acertar, trabalhar um modelo
subjetivo, preexistente; enfim, ampliar o ilusório, mediante sucessivas capas de ilusão.
(Idem, p 123)

Mas a genialidade de Guimarães Rosa não pára por aí. Depois de descrever
outras atribulações em face ao espelho, consegue expressar o desespero da des-
identificação, o aturdimento do desencontro consigo mesmo, o vazio do não
reconhecimento:
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 167

O tempo, em longo trecho é sempre tranqüilo. E pode ser, não menos, que encoberta
curiosidade me picasse. Um dia...Desculpe-me, não viso a efeitos de ficcionista,
inflectindo de propósito, em agudo as situações. Simplesmente lhe digo que me olhei
num espelho e não me vi. Não vi nada. Só o campo liso, às vácuas, aberto como o sol,
água limpíssima, à dispersão da luz, tapadamente tudo. Eu não tinha formas, rosto?
Apalpei-me, em muito. Mas, o invisto. O ficto. O sem evidência física. Eu era – o
transparente contemplador?......tirei-me. Aturdi-me, a ponto de me deixar cair numa
poltrona. (Idem, p. 126)

Descreve maravilhosamente como é se olhar no espelho ao fim de um período de


grandes sofrimentos, como é encontrar uma pequena luz cintilante de vida e agrega:

São coisas que não se devem entrever, pelo menos, além de um tanto. São outras coisas,
conforme pude distinguir, muito mais tarde –por último, num espelho. [...] Sim, vi, a mi
mesmo, de novo, meu rosto, um rosto; não este, que o senhor razoavelmente me atribui.
Mas o ainda-nem-rosto – quase delineado apenas– mal emergindo, qual uma flor
pelágica, de nascimento abissal..... E era não mais que: rostinho de menino, de menos-
que-menino, só. Só. (Idem, p. 127)

Apesar do tempo transcorrido entre a escrita dos dois contos; apesar da diferença
de estilos, eles nos oferecem um material de inigualável valor ao ilustrar, desde a
literatura, um grande tema da psicanálise como é o conceito de identificação do qual já
falamos no capítulo IV ao examinar a constituição do Eu. Então mencionávamos o
estádio do espelho de Lacan e as diferentes abordagens do mesmo tema feitas por uma
autora como Piera Aulagnier. Voltaremos agora a este tema, pois a ausência de
reconhecimento da própria imagem no espelho é um fenômeno muito freqüente nas
demências .

Em minha dissertação de mestrado já assinalava esse fato de os idosos passarem


por uma fase de não reconhecimento no espelho. Na experiência do espelho se confirma
a identidade como imagem e o pequeno ser diz “sou eu”. Temos assim o ponto
culminante da constituição do eu: a criança se ilude com a unidade percebida que o faz
sair momentaneamente da fragmentação e conhece, por um instante, o júbilo onipotente
da perfeição. O espelho, como o positivo de uma fotografia, anuncia-lhe o Ideal.
Desde então chamo “espelho negativo” à fase em que um sujeito em processo de
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 168

envelhecimento olha-se no espelho e diz “esse não sou eu”, momento em que
confirmam-se as perdas do declínio físico e antecipam-se a velhice e a morte.
No mesmo trabalho, ainda comentava um conceito proposto por Jack Messy o
“Eu-horror” com as seguintes palavras:

A antecipação do envelhecimento encontra seu reflexo no espelho sob a forma de um eu


de feiúra que é rejeitado (Esse não sou eu) e que pode se manifestar desde uma simples
estranheza até um verdadeiro horror. Ou seja, instala-se uma tensão entre o Eu Ideal e o
Eu, que deve ser regulada pelo Ideal do Eu, que como instância representante do social
e seus discursos, pode não estar outorgando ao sujeito que envelhece um lugar de
sujeito desejado. Junto com a queda do Eu Ideal, desabarão outras imagens narcísicas de
onipotência, perfeição e sabedoria que darão lugar aos atributos de um “eu de feiúra e
horror” com sua carga de castração, desmembramento e aniquilação. A tensão agressiva
voltada contra si próprio, e em sua função reguladora adequada, pode precipitar o
sujeito nas patologias da velhice, que irão desde a simples depressão até a demência,
dependendo da singularidade de cada estrutura. (Catullo Goldfarb, 1998, p. 56)

Esta surpresa de descobrir o próprio envelhecimento, assim, de repente, como se


os ponteiros de um relógio que tivesse parado de funcionar começassem a correr de
forma enlouquecida, pode criar uma dolorosa abertura para um caminho marcado pelo
declínio e um porvir barrado pela morte. Aqui também, como no estágio do espelho de
Lacan, o espelho representa o olhar dos outros: há as experiências do cotidiano que nas
palavras, gestos e atitudes dos outros, anunciam e determinam a mudança, há o olhar de
desejo ou de repulsa.

Na demência existe uma total falta de reconhecimento da própria imagem no


espelho, tal ponto que, é comum encontrar um demenciado conversando com o reflexo
de sua própria imagem exatamente como se fosse outra pessoa, como uma recusa da
realidade ante o que poderia ser uma visão traumatizante. Opera-se um verdadeiro
desaparecimento de si mesmo no lugar do duplo da imagem especular, da imagem de si
como outro, e nesse universo dos outros todos desaparecem. Não se reconhece mais a si
próprio, nem a ao filho mais amado, nem ao companheiro de tantos anos, nem ao amigo
da vida toda. Os lugares dos outros ou não mais existem ou passam a ser
intercambiáveis, podendo ser ocupados por qualquer pessoa como a enfermeira, o
médico, a mucama.
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 169

O demenciado deixa a ordem simbólica, pode-se dizer que está “desculturizado”,


o que paradoxalmente nos aparece como pouco natural quando, realmente, quase se
transforma em pura natureza. Perde sua imagem no espaço do espelho, mas perde-se
também no tempo pois não pode olhar para o porvir. Desgarrado da realidade do
entorno, refugia-se nas lembranças que atualiza no tempo. Em numerosos exemplos a
direção regressiva se faz evidente: uma paciente institucionalizada e cujo marido – que
a visitava diariamente – acabara de morrer, chorava enquanto se queixava que o pai –
que tinha morrido havia 40 anos – não vinha buscá-la. Mesmo a perda do controle
esfinteriano e outras condutas infantilizadas poderiam ser consideradas como um
esforço de retorno aos tempos do berço, longe do túmulo.

O demenciado seqüestrou sua própria imagem e cortou os laços com o entorno,


fechou-se em um mundo particular que está fora do tempo da cultura. Recua frente ao
porvir, ignora o presente e se ignora a si mesmo, só se permitindo – e por algum tempo
– uma existência no passado. “É a presença de uma ausência “ dizia a filha de uma
mulher demenciada.

As lembranças do passado são como uma maquiagem que tenta esconder o que o
presente insiste em mostrar, uma camuflagem da perda. Esquecer o presente e viver o
passado como pura repetição, até que este recurso também se mostre ineficaz. Depois o
esquecimento total. O sujeito desaparece começando pelo plano mais superficial e indo
ao mais profundo. Primeiro esquece o nome de objetos banais, depois o nome dos
filhos; primeiro esquece que dia é hoje, até que esquece o dia de seu nascimento.
Começam por não querer nem se olhar no espelho e acabam por ignorar a própria
existência. “Eles nem sabem que estão vivos”, como diz sabiamente um enfermeiro que
presta serviços em uma instituição geriátrica.

5. TANATOSE, PSICÓLISE E AÇÃO MODIFICADORA

Jean Maisondieu (2001) propõe recuperar o termo mal-estar para designar


quadros de organização psíquica patológicos que não se correspondam a uma doença
reconhecida e que estejam diretamente ligados a uma situação de sofrimento em relação
direta com o contexto no qual se desenvolve a dita doença. Neste contexto propõe
também a utilização do termo Tanatose como o conjunto de condutas psicopatológicas
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 170

ligadas à angústia de morte e caracterizadas pela aparição de uma deterioração mental.


Se a angústia de morte for negada, se não puder ser elaborada, se a cultura a esconder, a
tanatose poderá ser uma demonstração de sua vigência, de modo que se concretizaria,
no cérebro de alguns, a angústia de todos. Assim, o demenciado renunciaria à luta
contra a morte, saberia melhor que ninguém que ela é sempre vitoriosa e a ela entregaria
sua alma, antes que seu corpo.
Agora podemos pensar as possíveis reações do eu com esse estado de sofrimento
provocado pela ameaça. A primeira saída poderá ser um mecanismo de regressão que o
proteja em formas mais primitivas de funcionamento; em cada nível de regressão, se
não se reinstalar o equilíbrio e a unidade perdidas, a angústia – justamente como sinal
de alerta – poderá reaparecer, exigindo maior investimento e levando a uma regressão
mais profunda se o fracasso se repetir... assim será até uma dissolução do eu, quase que
uma desaparição no isso. Enfim: ação da pulsão de morte sobre o eu.
Ter a esperança da coincidência com a imagem ideal é o que garante a
continuidade do investimento, apesar de a realidade marcar sua impossibilidade. A dor
da coincidência perdida, a dor de já não ser a encarnação do desejo materno, só pode ser
metabolizada se, de certa maneira, se guarda a esperança do reencontro. Movimento
temporal em que o objetivo projetado no tempo futuro, uma vez atingido, servirá
especialmente para demonstrar sua ineficácia como portador de um ideal permanente,
mas que se tornará origem de um outro projeto. Movimento temporal que só terminará
com a morte, como diz Piera Aulagnier... ou com a demência, como eu acrescentaria.
No demenciado, o passado não está incluído no projeto futuro, simplesmente porque
não há futuro.
A única possibilidade de enfrentar essa angústia de não mais poder responder à
pergunta fundamental sobre o ser – pois não se pode responder quem é o eu se faltar um
projeto de futuro – é conservar alguns pontos de ancoragem, certos referenciais fixos
aos quais se possa aferrar quando surgir um conflito identificatório que questione os
referenciais do modelo.
Quando um novo modelo não leva em consideração as necessidades básicas de
sobrevivência psíquica, adaptar-se a ele pode ser difícil demais, pode significar uma
renúncia excessiva. Fundamentalmente, perde-se um saber, que é o saber sobre a
realidade, o saber que constitui o princípio de realidade. Assim, é impossível achar um
mínimo de coincidência entre mundo físico e mundo psíquico que passam a sentir-se
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 171

como pertencentes a esferas diferentes. Ante essa situação ameaçadora, não será
estranho que alguns sujeitos empreendam um movimento de fuga desses referenciais
sentidos como alheios e injustos, especialmente quando esse saber deixa de constituir
uma salvaguarda de sua própria integridade.
A possibilidade de abandonar um modo primário de funcionamento e privilegiar
o secundário só será possível se apoiando nos fenômenos do pensamento consciente: a
memória, a atenção e a ação modificadora da realidade (tanto externa quanto do eu).
Para se sustentar, o eu deve, em seu presente, poder reconsiderar o seu passado e se
projetar numa ação modificadora para o futuro, em que os erros possam ser reparados e
os acertos repetidos; deve poder pensar seu futuro mas, fundamentalmente, deve poder
realizar uma ação verificadora da realidade, que precisa coincidir com suas lembranças.
Deve poder confiar em sua memória e na validade de seu saber.
Comprovamos, então, que algumas condições são necessárias para o sucesso da
ação modificadora. Piera Aulganier analisou quatro condições básicas que não poderiam
faltar para atingir este objetivo: “1) O bom funcionamento de certos sistemas
fisiológicos 2) Um meio ambiente conforme às exigências do corpo 3) O consenso do
grupo 4) O consenso de sua própria psique..." (Aulagnier, 1990, p. 243).
Vale notar que, no envelhecimento, acontece freqüentemente de falharem os três
primeiros de forma simultânea, do que é fácil deduzir que o quarto resulte abalado,
provocando conseqüências patológicas de difícil resolução como a demência. O eu do
demenciado não pode mais se automodificar, por isso retorna ao primeiro tempo de
dependência, no qual o outro decide sobre sua história.
No capítulo anterior, ao falarmos de projeto identificatório, dizíamos que a
identidade e o projeto são enlaçados à memória. Tanto é assim que podemos observar
como a perda de memória, independente da intensidade e do motivo que a cause,
provoca a perda de consideráveis fragmentos da identidade. Víamos também que a
memória está ligada a um modo de repetição15 que insistentemente procura o reencontro
com o prazer, e a demência representa um estado em que esta repetição produtora de
memória e história – própria do narcisismo secundário – é anulada.
Cabe pois pensar que essa anulação pode ser causa e não conseqüência em
alguns estados demenciais. Nessas circunstâncias, estaríamos na presença de um

________________
15
Ver cap. III.
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 172

movimento de retorno a um narcisismo primário absoluto que põe fim a qualquer


processo de mudança e historização.
O eu exige estabilidade, não pode deixar de existir para passar a ser outro eu,
deverá ser sempre o mesmo e modificável. Desde seu aparecimento na cena psíquica,
deverá obrigatoriamente pensar seu corpo, sua realidade psíquica e a realidade exterior.
Isso quer dizer que deverá ter representações disso tudo que se constituirá em seu
campo do investível. Se alguma dessas representações faltar, não poderá se reconhecer
como esse eu permanente e se produzirá um sério colapso identificatório, como o
testemunham os efeitos que provocam, na subjetividade, as graves crises políticas e
econômicas, as guerras e as catástrofes.
Mas todos os investimentos aos quais o eu está condenado para garantir sua
sobrevivência são, em primeira instância, uma busca de prazer. Porém, ele deverá levar
em consideração as limitações do próprio corpo, o desejo dos outros que, inevitavelmente,
se oporá ao dele, e a realidade do mundo, que nem sempre vai coincidir com as
representações dela construídas. Sem esquecer a maior prova de realidade, que é a
ameaça da morte, presença iniludível enquanto a vida exista. Isso, sem dúvida, será
fonte de sofrimento e originará um movimento de fuga do investimento para outros
objetos. Mas o eu não poderá deixar de investir naqueles objetos vitais e, portanto,
insubstituíveis. Não pode deixar de investir naquilo que lhe é absolutamente necessário.
Está condenado a isso. Insiste-se no sofrimento para não desinvestir o objeto.
Uma dessas experiências de dissolução do eu constituído é mais comum do que
gostaríamos de pensar. A velhice, em sua forma atual, é uma situação mais que propícia
ao desinvestimento; há pouco a ser resgatado, reconstruído ou resignificado quando a
vida está acabando em um meio social hostil. Sem o mínimo necessário para a
sobrevivência, mas também sem o suficiente para que a vida valha a pena, não haverá
como sustentar um mínimo de contrato narcísico que garanta a continuidade do eu que
acaba por abandonar a luta.
Pode-se dizer que, na pessoa demenciada em estágio final da doença, não se
evidencia a atuação de nenhum mecanismo de defesa do eu, pois, na sua tentativa de
fuga do sofrimento – em que vários mecanismos foram usados sem sucesso – o eu
constituído foi dissolvido. Não há mais mecanismo de defesa do eu porque não há eu. O
desinvestimento realizado pela pulsão de morte apaga, dissolve para sempre a
representação de objeto que é substituído pelo nada absoluto, esse nada que cancela até
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 173

o próprio ato do apagamento. Assim, não haverá afetos, especialmente de culpa ou


nostalgia que testemunhem que alguma vez algum objeto foi investido.
Rosemberg nos diz que, nesses casos, a pulsão de morte empurra o sujeito a
“restabelecer um estado anterior, um passado idêntico ao que já foi, pela destruição de
tudo o que surgiu posteriormente” (Rosemberg, 1989, p. 222). Ao nosso ver, esse
fenômeno explicaria o fato de se esquecer em primeiro lugar as recordações mais
recentes, conservando-se as mais antigas. O passado volta como mera repetição do
mesmo, sem ligação com a atualidade, ao contrário do que acontece na reminiscência16
que tem uma função integradora e de ligação entre passado e presente, que aumenta o
bem-estar pelo contato que promove com as boas lembranças do passado. Em um
congresso acontecido em 1988, Piera Aulagnier, sempre atenta a estas questões disse:
“O passado como tempo da culpa, da nostalgia, do luto e da felicidade perdida é
sobreinvestido pelo deprimido e esse mesmo sobreinvestimento o priva de um quantum
de energia libidinal que poderia investir no futuro, como todo futuro, portador de
mudanças.” (Aulagnier, 1988, p 10)
O desinvestimento da pulsão de morte não se fará apenas sobre os objetos
investidos, mas também sobre os suportes que permitem o investimento. Assim, o eu
deixará de pensar, não poderá criar um conhecimento sobre suas experiências, fazer
ligações entre elas; serão todas excessivas. Não podendo representar, não poderá
nomear seus afetos. Graças à possibilidade de nomeação da experiência é que a
memória existe.
Na demência, os planos do presente e do futuro se separam, favorecidos por uma
regressão, provocando uma esterotipia, sem incorporação de novos elementos, sem
história ressignificada, até o sujeito se perder definitivamente. No presente, restabelece-
se o passado idêntico ao que foi. É como se o sujeito vivesse num tempo em suspensão,
em um nível onde pudesse parar a vida, no qual seria melhor conservar esse pouco
quase nada a perdê-lo todo. Às vezes, flashes de lucidez, como vestígios de um eu que
resiste a desaparecer. . Últimos fios da pulsão de vida a tecerem estratégias falidas.
Le Gouès (1987, p. 76-82) sustenta que o aparelho psíquico do demente sofre
uma desconstrução, um desmantelamento psíquico e progressivo que ele chama de
“psicólise”. Nesta situação, o paciente entra em um estado de “desertificação mental”

________________
16
Já nos referimos ao tema da reminiscência no cap III.
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 174

que se realizará por etapas que afetam, nessa ordem, identidade de pensamento e
identidade de percepção: em um primeiro momento encontramos uma perda da
representação de palavra (sabe que objeto deseja, mas não lembra a palavra que o
nomeia) e, posteriormente, a perda da representação de objeto (não sabe reconhecer um
objeto nem sua função).
Deste ponto de vista, podem-se entender as perturbações da memória como
perturbações do pensamento, conseqüências de um trabalho representacional que não
acontece como deveria. A partir deste momento, a presença do outro que ajude a
construir uma cadeia de associações é fundamental.17
No decurso deste processo, os afetos que ainda se mantêm por algum tempo vão
mudando lentamente, vão se reduzindo às mais simples manifestações de prazer ou
disprazer, vão perdendo referenciais, confundindo os objetos e a deterioração dos
vínculos e de toda atividade simbólica impossibilita qualquer exercício de autonomia. A
capacidade de abstração desaparece e se dissolvem as diferenças espaço-temporais.
Tudo isso acompanhado por um abrandamento do supereu provocado por uma
regressão do eu, por uma cada vez menor capacidade de realizar associações,
julgamentos, por uma incapacidade de analisar a realidade, de colocar o prazer a serviço
da censura. O eu fica diminuído, mais observador que participante, mais atravessado
pelas pulsões do que capaz de orientá-las.
Podemos pensar também numa recusa (renegação – verleugnung)18 como um
lado aparentemente psicótico das demências. A recusa, pela qual se nega a perda do
objeto e o luto conseqüente, oferece a possibilidade de substituição por uma alucinação.
Trata-se de fenômeno muito freqüente nas demências, pelo qual ainda se filtra um
aspecto construtivo da pulsão de vida, embora não achemos, nesses casos, a força, a
convicção e a criatividade que guardam as alucinações nas psicoses, pelo que Brenno
Rosemberg o chama de “ilusão alucinatória”. É como se sonhassem acordados; vêem e

________________
17
Uma residente que encontro não momento em que entro na instituição para uma visita informal, me
segura pelo braço e repete, um tanto desesperada as seguintes palavras: “mulher......cama......rua....., só
mais tarde, falando com o enfermeiro pude perceber o acontecido: queria me contar que sua grande amiga
tinha falecido enquanto dormia e seu corpo tinha sido retirado em uma ambulância, o que me permitiu
voltar a ter com ela e reconstruir minimamente o acontecido; falar “o possível” sobre esse episódio, a
acalmou e lhe permitiu um grau incerto de elaboração do luto.
18
Mecanismo de defesa que Freud identifica nas perversões e na psicose. Consiste na recusa do sujeito
em reconhecer a realidade de uma percepção traumatizante, essencialmente a de ausência de pênis na
mulher. Não se trata, como nos neuróticos, de um conflito entre eu e isso, e sim de uma clivagem do eu
que incide na realidade exterior: recusa de uma percepção. (Laplanche e Pontalis 1995)
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 175

vivem situações que um neurótico reserva para as horas em que pode abandonar o
exame de realidade. Sem essa exigência, o aparelho psíquico permanece em um estado
primitivo no qual o desejo se faz alucinatório. Como o bebê que, ante a frustração da
falta de alimento, alucina o seio, o demenciado recorre a essa defesa precoce que lhe
garante a satisfação, alucina um objeto bom, apaciguador: “minha mãe veio me buscar”,
“fui com meu pai andar de carro novo”, “meu marido veio me visitar”; procurando, na
maioria das vezes, reviver os mortos.

Baseado no conceito de amentia do Dr. Theodor Meynert (1833-1892), Freud


trabalhou esse sintoma da satisfação alucinatória de desejo em relação à paranóia, à
psicose e aos sonhos. No Manuscrito K (Freud 1896, p. 26), falando das psiconeuroses
de defesa, diz que a “amentia alucinatória aguda” seria o quadro patológico
correspondente ao luto; na Carta 55 (Freud, 1897, p. 280), refere-se à “amentia ou
psicoses confusional”; e em 1915, ainda acrescenta:

A formação da fantasia de desejo e seu caminho regressivo até a alucinação são as peças
mais importantes do trabalho do sonho, mas não lhe pertencem com exclusividade.
Encontram-se também em dois estados patológicos: na confusão alucinatória aguda, a
amentia (de Meynert) e na fase alucinatória da esquizofrenia. O delírio alucinatório da
amentia é uma fantasia de desejo claramente reconhecível que se ordena freqüentemente,
como um perfeito sonho diurno. De modo geral poder-se-ia falar de uma ‘psicose
alucinatória de desejo’ em relação ao sonho e a amentia por igual (Freud, 1915, p. 228).

Mais tarde, perguntando-se sobre o objetivo do trabalho do luto, observa que, às


vezes, o eu se nega a aceitar que o objeto amado não mais existe e, por conseqüência, se
nega à correspondente retirada de libido:

O homem não abandona de bom grado uma posição libidinal nem mesmo quando o
substituto já assoma. Essa resistência pode atingir tal intensidade que produz um
estranhamento da realidade e uma retenção do objeto pela via de uma ‘psicose
alucinatória de desejo (Freud, 1917, p. 242).

Nas alucinações e delírios das demências, há, claramente, uma perda da


realidade; mas, como o próprio Freud assinala em “A perda da realidade na neurose e na
psicose” (1924), isto não é suficiente para determinar a existência de uma psicose. É
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 176

importante também ver como essa perda é substituída, qual é a consistência da


construção posterior e seu grau de sucesso. A perda de realidade é comum a ambas
perturbações. Freud deixa claro que, entre a simples fantasia e o delírio bem estruturado,
podem existir inúmeras variedades de estranhamento da realidade, como a “ilusão
alucinatória” que Rosemberg (2001) reconhece nas demências. Por outro lado, os
estados confusionais, tão comuns nas demências, são lógicos se pensarmos em um
aparelho psíquico em processo de desintegração, independentemente de existirem
causas orgânicas para isso.
O demenciado volta ao padrão simbólico da infância e continua regredindo até
não ser mais , até o real se desamarrar do tecido simbólico, até perder tudo aquilo que a
intervenção do simbólico fez construir. O demenciado esquece a realidade, os vínculos,
a história, a lei. É em gestos mínimos e repetidos até o cansaço (dos cuidadores) que
percebemos um fio de união com a história do sujeito: a costureira que agora se dedica a
descosturar tudo o que encontra em sua frente ou o pintor que descasca incansavelmente
a tinta de portas e paredes19. E mais: estudando os temas predominantes nos estados
confusionais e o conteúdo delirante, podemos observar que dependem de uma ordem
simbólica, de uma experiência, de uma história do sujeito. Uma história que parece se
repetir em gestos dos quais o sujeito que alguma vez os protagonizou agora está
ausente.
A demência, então, não é uma psicose. Seguindo Lacan, diríamos que, na
psicose, há um significante fundamental forcluído, rejeitado para fora do universo
simbólico do sujeito. Significante que não é integrado no inconsciente como no caso da
repressão; então, só pode retornar no real. O psicótico não se constitui como sujeito, não
é barrado pelo nome-do-pai. O demenciado constitui sua possibilidade de ser sujeito
(mais ou menos neurótico, é claro) e depois a abandona. Por outro lado, há uma
constatação clínica: nas demências, podemos observar como o empobrecimento
progressivo das funções intelectuais e dos afetos se contrapõe à riqueza de construções
que encontramos na psicose.20

________________
19
Casos observados em instituições asilares.
20
Não negamos a possibilidade da existência das duas patologias simultâneas, a possibilidade de um
psicótico vir sofrer um quadro demencial de origem neurológica, só asseveramos que até o presente não
tivemos a oportunidade de conhecer um quadro com essas características nem pesquisas sobre esse
particular.
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 177

6. AS MEMÓRIAS E OS ESQUECIMENTOS

A complexidade de abordagem da questão da memória, deve-se entre outros, ao


fato de estar constituída por várias funções: aquisição, estocagem, retenção e restituição,
exigindo cada uma delas, a colocação em marcha de inúmeros mecanismos e, se alguma
destas funções sofrer qualquer tipo de alteração, podemos dizer que nos encontramos
ante uma perturbação da memória. Mas, além de fazer uma classificação pelas várias
funções, podemos fazê-lo seguindo também outros critérios, por exemplo, de acordo
com os mecanismos usados ou com seus objetivos, o que nos levará necessariamente a
definir esse grande fenômeno de forma plural, como memórias, sempre em pares e por
oposição. Há classificações muito interessantes, especialmente pelo seu valor descritivo
(Chévance, 1999). Temos por exemplo:

1. Memória a curto e longo prazo: Como o nome o indica, são conceito ligados
com a questão do tempo. A curto prazo é a utilizada para registrar um dado por um
período curto apenas necessário para sua utilização, por exemplo, quando registramos
um número de telefone para uso imediato. Memória a longo prazo define os mecanismos
necessários que se põem em marcha para guardar um registro por muito tempo; neste
caso o mecanismo de retenção é mais complexo.
2. Memória cognitiva e memória dos automatismos: a primeira é a que precisa
de aprendizado, ou seja, põe em marcha mecanismos de atenção e concentração, como
aprender a dirigir um carro, por exemplo. A segunda acontece involuntariamente,
sem nenhum esforço de atenção e sua utilização segue o mesmo padrão de não
intencionalidade, estão incluídos aqui todos os movimentos corporais aprendidos na
infância.
3. Memórias semântica e episódica: A memória semântica corresponde ao
aprendizado de conhecimentos comuns e compartilhados como, por exemplo, a regras
gramaticais da língua materna. A episódica, como o nome o indica, é a capacidade de
lembrar episódios e fatos vividos em diferentes fases da vida.
4. Memórias explícitas e implícitas: A explícita, totalmente consciente, é a
utilizada no marco do aprendizado, quando se sabe que um conteúdo deve ser
memorizado (aprender um poema ou uma fórmula química, por exemplo) A implícita é
a que se opera quando o processo de aprendizado não é consciente e não há esforço de
retenção, embora ela exista.
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 178

Nos diversos quadros demenciais, a primeira memória que apresenta


modificações é a de curto prazo: se esquece onde se deixou um objeto, se esquece de
tirar a panela do fogo ou se esquecem os números de telefone, isto sem que exista
estresse ou alguma outra razão que justifique e constituindo-se em sinais que adquirem
um valor especial quando se repetem frequentemente. Depois será a vez da memória
episódica, a cognitiva e a explícita. Mas o maior problema do uso destas classificações é
que, geralmente, o observador não as relaciona com questões subjetivas.

Ao tratar dos textos “Psicopatologia da vida cotidiana” (1901) “Sobre os


mecanismos psíquicos do esquecimento”, (1898) vimos o processo pelo qual um nome
próprio que não oferece complexidade pode ser esquecido em virtude de um
deslocamento de significado que mantém um nexo com o original e obedece a leis
associativas. Vimos ainda que nestes casos, nos quais o esquecimento persiste e se cria
um substituto, devemos lembrar também que o mecanismo repressivo atua favorecendo
o esquecimento, com o objetivo de evitar o desprazer que algumas lembranças podem
provocar.21

Na demência se esquecem nomes de pessoas e coisas, mas não é comum a


substituição por outro. O mas freqüentemente observado é a tentativa de definição
através da descrição do objeto, por exemplo: “me dá esse negócio que serve para beber
água”, sem que se encontre, no esquecimento da palavra “copo” nenhum significado
especial. Mas em outros casos, a opção de pensar pelo viés da evitação do desprazer é
totalmente válida. Como no caso de dona Maria que esquecia o nome do odiado
namorado da neta, igual ao do marido, de quem não guardava boas lembranças.

Dona Eloísa lembrava perfeitamente o nome do ex-marido – que desde jovem


teve importante desempenho no méio político – e o lugar onde mora atualmente com a
“outra”. A perturbação da memória estava circunscrita ao momento do casamento (data,
igreja,festa etc) dados que podiam fazer uma ligação direta com o “o momento mais
feliz da vida” lugar narcísico de reconhecimento social que lhe fora negado.22

Outro caso interessante sobre o funcionamento da memória é o de dona


Pierina23, de 95 anos. Nascida na Argentina, morou sempre em seu país e teve uma vida

________________
21
Ver capítulo III.
22
Ver casos estes casos no item: Vinhetas Clínicas.
23
Caso relatado por familiares.
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 179

muito ativa e participante até que aos 90 anos, vem ao Brasil para morar com o filho, já
portadora de um diagnóstico de demência de tipo Alzheimer, comprovada por
diagnósticos por imagem. Instalada em sua nova moradia, e com todos os cuidados
necessários, (medicação controlada por especialista, acompanhante e manutenção dos
vínculos afetivos fundamentais) a doença segue o curso esperado. Aos poucos, ela deixa
de reconhecer as pessoas mais próximas, as confunde com outros personagens de sua
história, desconhece o lugar onde se encontra e precisa assistência para as mais simples
atividades. Por razões familiares, decide-se que volte à Argentina para ficar sob os
cuidados de sua outra filha. Nesse momento, mais especificamente na hora de ir ao
aeroporto, dona Pierina é invadida por uma lucidez inesperada. Reconhece às pessoas
que a acompanham, sabe que está voltando para sua terra, lembra de nomes, reconhece
lugares. Como se o sujeito que tinha se perdido reaparecesse repentinamente, para
perder-se novamente pouco tempo depois.

Se as perturbações da memória dependessem exclusivamente de danos


neurológicos permanentes, casos como este não seriam possíveis. Se o neurológico
definisse todo o funcionamento da memória, o surgimento destas lembranças tão
complexas seria inacreditável. Mas por alguns poucos instantes Dona Pierina se lembra,
por um momento recupera a função historizadora da memória, produz idéias, encontra
sentidos e abandona a posição de ignorância em relação a si própria e se alegra pelo
reencontro.

Desde as sociedades ágrafas, a questão da memória sempre esteve ligada à


história e foi tida como um patrimônio dos velhos na medida em que representava um
saber sobre o passado. Este posicionamento positivo foi abandonado em tempos mais
recentes, em favor de uma versão negativa que liga o processo de envelhecimento só às
perdas.

Em certas ocasiões, as lembranças – por efeito da repetição – perdem sua função


construtora de história e por tanto sua essência. São lembranças que não lembram nada,
que não se associam a nada. Uma senhora de setenta e cinco anos, recentemente
institucionalizada, recebe-me muito jovialmente num quarto ensolarado e alegre onde se
dedicava à arrumação de seu armário. Me pergunta se conheço a Márcia e, ante minha
negativa, mostra-me sua foto, os móveis que ela lhe comprou , ... as roupas, ..... e se
mostra muito agradecida a essa sobrinha que a cuida tão bem. Tudo dito num discurso
CAPÍTULO V – INTRODUÇÃO A UMA PSICOPATOLOGIA DAS DEMÊNCIAS 180

muito coerente, lógico, sem furos, até que, depois de longos minutos, a interrompo para
perguntar desde quando está na instituição. Então me responde que faz pouco tempo e
que foi a sobrinha Márcia que a trouxe e agrega, “Você conhece a Márcia?” a partir do
que, e sem se importar com minha resposta, recomeça exatamente o mesmo discurso,
sem trocar uma palavra, sem modificar uma vírgula. Este processo se repete várias
vezes sem que eu consiga encontrar uma pergunta ou qualquer tipo de intervenção que o
modifique, até que exausta, me retiro.
CAPÍTULO VI

PERSPECTIVAS TERAPÊUTICAS

José Arcádio Buendía decidiu então construir a


máquina da memória, que uma vez tinha desejado para
se lembrar dos maravilhosos inventos dos ciganos. A
geringonça se fundamentava na possibilidade de repassar,
todas as manhãs, e do princípio ao fim, a totalidade dos
conhecimentos adquiridos na vida. Imaginava-a como
um dicionário giratório que um indivíduo, situado no
eixo, pudesse controlar com uma manivela, de modo
que em poucas horas passassem diante de seus olhos as
noções mais necessárias para viver. Tinha conseguido
escrever já cerca de quatorze mil fichas........*

GABRIEL GARCIA MÁRQUEZ – “Cem anos de solidão”

________________
*
Este parágrafo é apenas uma parte da descrição da doença do esquecimento em Macondo. Uma versão
mais completa será reproduzida nas últimas páginas das Palavras Finais.
CAPÍTULO VI – PERSPECTIVAS TERAPÊUTICAS 182

1. APOSTAS E DESAFIOS

O trabalho com os pacientes afetados por demência, seja de origem neurológica ou


não, exige um atendimento em equipe interdisciplinar que inclua a família e o
entorno social do paciente. No mundo todo, diversas técnicas são aplicadas especialmente a
partir do ponto de vista da psicologia comportamental ou da neuropsicologia. As
mesmas visam, em geral, a recuperação ou conservação da memória. Algumas levam
em consideração os aspetos subjetivos destes mecanismos, mas ainda não temos
propostas metodológicas abrangentes que incluam a totalidade destes fatores.
A maioria das tentativas terapêuticas conhecidas no campo das demências estão
relacionadas com um trabalho a partir da questão da memória exclusivamente como
função neurológica. Diferentes tipos de exercícios e treinamentos cognitivos foram
tentados neste sentido. Mas propostas isoladas ou parciais devem ser superadas em
favor de uma ampla compreensão do fenômeno demencial, pois o estilo interdisciplinar
ou transdisciplinar1 de pesquisa é, sobretudo, uma questão ética, já que se,
aprioristicamente, aceitamos um diagnóstico fechado de progressão e irreversibilidade,
estamos condenando o paciente à exclusão, como vimos no segundo capítulo deste
trabalho.
De todo o modo, qualquer técnica ou abordagem que possamos tentar será
sempre um desafio e uma aposta. Desafio contra a crença generalizada de que não há

________________
1
Como defende Ceccarelli no cap V.
CAPÍTULO VI – PERSPECTIVAS TERAPÊUTICAS 183

nada a ser feito ante um diagnóstico de demência e aposta em que, apesar da


deterioração evidente, existe ao menos durante um longo tempo algum tipo de vida
psíquica sobre a qual é possível trabalhar no sentido da preservação e restauração do
funcionamento psíquico.

Em relação às terapêuticas possíveis, nos encontramo-nos ante um novo campo


clínico que se constitui como um verdadeiro “deserto metodológico” (Maisondieu,
2001), uma vastidão se abre a nossa frente e não podemos dizer que estamos no começo
do caminho, pois nem temos ainda caminho para percorrer, só o desejo de uma trilha
que deve ser desbravada. Mas, como avançar em um caminho que antes de começado já
nos prova ser extenuante? Como pensar em trabalhar com pacientes em fases mais
avançadas da doença, quando o menor diálogo é praticamente impossível? Como
suportar a frustração diante do silencio, das repetições, do vazio? Como lidar com o
nosso sentimento de inutilidade?

Freud, em “Análise terminável e interminável”, de 1937 nos oferece uma luz


para começar a pensar nestas questões quando fala da “viscosidade da libido”. Ele diz
que há pacientes que parecem não querer desinvestir certos objetos para investir outros.
Compara o trabalho do analista ao do artista plástico que trabalha sobre pedra dura e
não sobre argila mole, esclarecendo que, também neste labor, os efeitos do trabalho fácil
são menos duradouros que daquele outro em que as resistências são maiores. Logo
depois acrescenta que há um outro grupo de pessoas em que o funcionamento psíquico
se caracteriza pelo esgotamento da plasticidade e da capacidade para as mudanças, uma
“inércia psíquica” da que já tinha falado nas “Conferencias Introdutórias sobre
Psicanálise” (1915-17) e em “O homem dos Lobos” (1916-17), quando, referindo-se à
revolta contra a religião, disse:

Uma vez adotada uma posição libidinal, procurava preservá-la, pela angústia que sua
perda poderia lhe causar e pela desconfiança de que uma nova posição não
representasse um substituto apropriado. Isto já foi definido nos “Três Ensaios”como
fixação e é o que Jung chamou, com razão, de inércia psíquica, ao que adjudicou todos
os fracassos neuróticos. Sabemos que a mobilidade dos investimentos se reduz
significativamente com a idade, o que limita as indicações de tratamento psicanalítico.
Mas há pessoas que conservam esta plasticidade psíquica além dos limites de idade
habituais. (Freud, 1916-17, p. 105)
CAPÍTULO VI – PERSPECTIVAS TERAPÊUTICAS 184

Vemos que desde 1917, embora Freud associasse rigidez mental com idade
avançada, não fazia deste fator um determinante tão absoluto quanto em produções
anteriores em que claramente negava a pessoas de mais de cinqüenta anos a
possibilidade de análises.2 Mas o tempo passa e as conceitualizações de Freud mudam,
até que, vinte anos mais tarde, ele nos brinda com um convite para nos adentrarmos no
estudo do processo de envelhecimento quando se refere a estes “caracteres temporais”
que podem provocar modificações na vida psíquica ao dizer:

Mas nos casos que agora consideramos, todos os decursos, vínculos e distribuições de
força provaram ser imutáveis, fixos, petrificados. Nos casos de pessoas de idade muito
avançada, achamos uma explicação por causa da força dos costumes, pelo esgotamento
da capacidade receptiva – uma espécie de entropia psíquica – mas aqui trata-se de
indivíduos ainda jovens. Nosso preparo teórico parece insuficiente para entender
corretamente os tipos que correspondem a esta descrição; talvez intervenham uns
caracteres temporais, variações dentro da vida psíquica de um ritmo do desenvolvimento
que ainda não foi apreciado. [...] Estes fenômenos apontam de maneira inequívoca à
presença na vida anímica de um poder que, pelas suas metas, chamamos pulsão de
agressão e derivamos da pulsão de morte originária, própria da matéria animada. (Freud,
1937, p. 244)

Não deixa de ser interessante que estes comentários sobre as dificuldades de


trabalho com estruturas rígidas e libidos viscosas venham, neste texto, associados ao
trabalho com idosos. Mas o que nos interessa destacar neste momento, são as
pontuações do autor sobre o papel do analista e sua eficácia terapêutica.
Em relação a este particular, cita uma conferência proferida por Ferenczi em
1927 no Congresso Psicanalítico de Innsbruck, oportunidade na qual disse que
considerava da maior importância que o analista apreendesse com seus próprios
fracassos e agrega que: “Não só a complexidade do eu do paciente; também a
peculiaridade do analista demanda seu lugar entre os fatores que influenciam as
perspectivas da cura analítica e a dificultam do mesmo modo que as resistências”.
(Freud, 1937, p. 249) . Por outro lado, diz que se exige do analista um certo grau de
“normalidade” e afastamento dos próprios problemas e que não devemos esquecer que
________________
2
Sobre este particular, aconselha -se a leitura de “A sexualidade na teria das neuroses” de 1898, “O
método psicanalítico” e “Sobre Psicoterapia” de 1904.
CAPÍTULO VI – PERSPECTIVAS TERAPÊUTICAS 185

“....o vínculo analítico se funda no amor pela verdade, ou seja, no reconhecimento da


realidade objetiva e exclui toda ilusão e todo engano” (idem) condições que fazem da
psicanálise, junto com o educar e o governar, uma das profissões impossíveis.

Tomamos este artigo para ser comentado neste capítulo sobre as terapêuticas
possíveis com pacientes demenciados, porque nele Freud marca claramente uma
posição ética – no que concerne especialmente à posição do analista – e um limite
metodológico. Tanto assim que conclui o sétimo tópico com as seguintes palavras: “A
psicanálise deve criar as condições psicológicas mais favoráveis para as funções do eu;
com isso se daria por tramitada sua tarefa” (Idem, p. 251)

No caso das demências, o progressivo desmoronamento do eu provoca uma


situação de perda das funções inibidoras, deixando o sujeito à mercê de um narcisismo
primarizado e mortífero. Assim, o trabalho terapêutico poderá se dirigir a restaurar
(embora não seja mais que como prótese3 ) as funções do eu, colocando no caminho
desse sujeito, os sinais da realidade que possam ajuda-lo a reconstruir suas lembranças.
Podemos dizer que deve-se “neurotizar” o paciente, recriar o conflito, para que consiga
trabalhar o luto interrompido.

O próprio Freud, em “Os novos caminhos da terapia psicanalítica” (1919), fala


das mudanças técnicas exigidas pelo tratamento das fobias e insiste em que, com a
evolução organizativa e técnica, a psicanálise poderá chegar a ser praticada em
instituições, de forma gratuita, acrescentando: “Quando isso acontecer, deveremos
enfrentar a tarefa de adequar nossa técnica às novas situações” (Freud, 1919, p. 163).
Deduzimos então que o analista pode aceitar desafios e ir, cuidadosamente, além de
suas próprias fronteiras quando um novo campo clínico se abre.

A ressignificação do passado é o caminho para romper com fixações e vícios nos


relacionamentos, acabar com condutas repetitivas e aceitar o imprevisto, o não
planejado. Trata-se, enfim, da desconstrução de uma rigidez que transformou o eu em
um todo imutável que não pode mais aceitar a frustração. Uma rigidez que acaba com
qualquer possibilidade de movimento. Um verdadeiro trabalho de reinterpretação deve
ser realizado para que novos caminhos possam ser construídos, embora temporalmente
sejam caminhos muito curtos e não seja possível percorrê-los em toda sua extensão.
________________
3
Este conceito de Piera Aulagnier, foi comentado no cap. IV.
CAPÍTULO VI – PERSPECTIVAS TERAPÊUTICAS 186

Mas só na construção do caminho se achará o horizonte. Como dona Eloísa4 que, ciente
dos poucos anos de vida que lhe restam, decide voltar para sua casa, junto a tudo que
motiva suas recordações.

No caso de pacientes em processo demencial, raramente há demanda de análise;


o pedido é de alguém que ajude a procurar o perdido, encontrar as palavras que lhe
permitam lembrar a perda que tão profundamente atacou seu narcisismo, achar a
lembrança do que precisou ser esquecido e que acabou provocando a avalanche da
memória. Missão difícil sem dúvida.

Mas há um caminho possível e prazeroso que se realiza através do exercício da


reminiscência, que se ocupa de organizar o laço entre sujeito e objeto. Como a fantasia,
também permite substituir os objetos reais pelos imaginários da lembrança, ou os
mistura uns com outros. Reminiscência que, como forma de fantasia característica do
processo de envelhecimento, é posta ao serviço da pulsão de vida, o qual como
sabemos, procura construir unidades cada vez maiores e mais complexas. Pulsão
conservadora que quer incluir o anterior no posterior, o passado no presente,
conjugando-o em construções cada vez mais vastas, até chegar a transformá-lo. Reatar
laços com o passado, com objetos de amor perdidos (embora não seja mas que nas
lembranças), transmitir essas recordações à alguém que ofereça uma escuta interessada,
pode ser uma atividade objetivante5 quando o presente se mostra empobrecido ou vazio.

Embora a memória do sujeito em fase inicial de processo demencial seja fugidia,


há uma tendência à conservação da atividade reminiscente, especialmente quando
estimulada. Sempre que houver uma ruptura com o tempo futuro que parece não mais
existir, então a projeção se fará em relação ao passado, pois a inscrição no futuro se
encontra impossibilitada se falta a esperança .

Sobre este particular, Messy se pergunta:

Que acontece com um idoso que se sente sem futuro, sem esperança, para quem o
tempo parou em um dia de luto? Porque investir no atual se não é mais fonte de
satisfação, mas de angústia? O que há na memória como reserva de prazer à qual
possamos recorrer de tempos em tempos?. (Messy, 2002, p 119)

________________
4
Ver as “Vinhetas Clínicas” neste capítulo.
5
Ver cap. V.
CAPÍTULO VI – PERSPECTIVAS TERAPÊUTICAS 187

Péruchon e Renault denominam “anti-cortes” os efeitos do exercício da


reminiscência: anti-corte presente e passado; anti-corte psique e soma que Eros reúne;
anti-corte sujeito-objeto graças ao ato criador por excelência; anti-corte entre vida e
morte. No idoso, o importante é trabalhar com as sensações do passado: músicas,
cheiros, sabores, pois, assim como os esquecimentos se produzem como uma avalanche,
as recordações também. Podemos observar que a atenção só é sustentada em atividades
como o canto e a dança que podem trazer para o presente sensações de prazer já vividas
e nas quais o corpo adquire um papel de protagonista, ou em atividades manuais quando
relacionadas com gestos familiares, o que confirma que a memória não pode se reduzir
a um mecanismo neuronal mas que é também um modo de relação com o mundo
exterior e os objetos investidos. Para dona Maria6, por exemplo, as lembranças
culinárias são o disparador necessário para a reconstrução de cenas infantis completas e
dos sentimentos que as acompanharam.

Em “O poeta e a fantasia”, de 1908, Freud fala das mudanças que a atividade de


fantasear sofre ao longo do tempo. Explica como passamos do jogo da infância à
fantasia da vida adulta em um movimento temporal incessante o qual nos obriga a não
considerar rígidos ou imutáveis os produtos do fantasiar, pois estes “...se adequam às
diferentes impressões vitais, se alteram ante a variação das condições de vida, recebem
de cada nova impressão eficaz, uma ‘marca temporal’”. (Freud, 1908 p. 130) e, como já
o assinalávamos no cap III esta relação entre tempo e fantasia é fundamental para
entender o trabalho psíquico especialmente quando abordado em relação ao processo de
historização.

E Freud ainda escreve:

Pode-se dizer que uma fantasia flutua entre três tempos: os três fatores temporais de
nossa atividade representativa. O labor anímico se enlaça a uma impressão atual, a uma
ocasião do presente, capaz de despertar algum dos grandes desejos do sujeito; apreende
regressivamente, desde este ponto a recordação de um sucesso pretérito, quase sempre
infantil, no qual ficou satisfeito esse desejo, e cria uma situação referida ao futuro que
se apresenta como satisfação desse desejo, o sonho diurno ou a fantasia, que levará
então, em si mesma, as marcas de sua procedência, da ocasião e da recordação. Assim,

________________
6
Ver “Vinhetas Clínicas” neste capítulo.
CAPÍTULO VI – PERSPECTIVAS TERAPÊUTICAS 188

então, o pretérito, o presente e o futuro aparecem como encadeados pela linha do desejo
que passa através deles (Freud, idem).

Entendemos a reminiscência elaborativa como uma forma especial da fantasia


que se desenvolve na velhice e que, longe de representar um fator patológico, é mais
uma reafirmação da própria história que devemos considerar como uma salvaguarda do
declínio mental. A reminiscência nos fala da cena que origina a lembrança e revive a
emoção da ilusória satisfação do desejo. As circunstâncias do presente, trazem uma
lembrança relacionada com o desejo que permite construir a idéia de continuidade do
ser, trabalho incansável do eu que não cessa de escrever sua própria história.
Produto de sangue misto, processo primário e secundário, consciente e
inconsciente, realidade e o imaginário se atam nisto que não deixa de ser um relato
mítico, como aliás o são todas as recordações. O eu só se preserva na medida que se
reconheça a si mesmo como um existente sustentado por uma história permanente. É a
reminiscência que insiste nessa história, preserva a identidade, oferece aquelas balizas
das quais fala Piera Aulagnier7, permite a atualização das lembranças.
Sabemos desde Freud que as crianças elaboram no jogo o excesso de
estimulação; no velho não é diferente, pois a falta de estimulo no presente, o encurtamento
do horizonte da vida e o aumento das dificuldades do cotidiano, especialmente quando
existem problemas de saúde e/ou financeiros, são um sofrimento excessivo que produz
um aumento da necessidade de bem-estar. Quando esse bem-estar não pode ser
construído, quando as identificações caem, a reminiscência segura a identidade. No
momento da vida em que se está passando ao “não mais ser”, as recordações do “já fui”
garantem a preservação da memória
Mas, para que um colar seja construído com pérolas soltas, é necessário que
exista o fio que as una; para que a reminiscência seja elaborativa é necessário que as
circunstancias atuais restabeleçam uma comunicação com o passado e despertem a
esperança no futuro. Para que a reminiscência seja elaborativa e não se transforme em
mera repetição, deve levar a alguma ação modificadora da realidade atual, e para isso,
alguém que escute de forma adequada, interessada e ajude na elaboração, é
fundamental. O trabalho de reminiscência consiste, enfim, em ligar emoção atual e
passada e unir o que foi ao que é, dando unidade à existência...
________________
7
Ver cap. III.
CAPÍTULO VI – PERSPECTIVAS TERAPÊUTICAS 189

Norberto Bobbio, falecido em 9-1-04, e em quem nos inspiramos para dar um


nome a este trabalho, relaciona a construção da identidade com temporalidade e
memória quando escreve:

O passado revive na memória. O grande patrimônio do velho está no mundo


maravilhosos da memória, fonte inesgotável de reflexões sobre nós mesmos, sobre o
universo que vivemos, sobre as pessoas e acontecimento que, ao longo do caminho,
atraíram nossa atenção. [...] Este imenso tesouro submerso jaz à espera de ser trazido de
volta à superfície durante uma conversa ou leitura; ou quando nós mesmos vamos à sua
procura nas horas de insônia; outras vezes surge de repente por uma associação
involuntária, por um movimento espontâneo e secreto da mente. Se o mundo do futuro
se abre para a imaginação, mas não nos pertence mais, o mundo do passado é aquele no
qual, recorrendo a nossas lembranças, podemos buscar refúgio dentro de nos mesmos,
debruçar-nos sobre nós mesmos e nele construir nossa identidade [...] O tempo da
memória é um caminho inverso ao tempo real: quanto mais vivas as lembranças que
vêm à tona de nossas recordações, mais remoto o tempo em que os fatos ocorreram
(Bobbio, 1997, p. 55, o grifo é meu).

2. ENSAIOS E ERROS

É evidente que nas demências existe um trabalho psíquico, tanto que a


linguagem, embora muito empobrecida, continua presente e, em muitos casos, até na
fase final. Expressões faciais, corporais, gestos, também dizem muito a respeito e sobre
isto tudo devemos trabalhar. Mas as formas de trabalho se modificam radicalmente
segundo se trate de pacientes em fase inicial ou em alguma das incontáveis etapas da
fase intermediária em que o aparelho psíquico vai se desestruturando lentamente8. Do
ponto de vista dos mecanismos psíquicos, as fases não tem uma divisão clara, e seu
funcionamento – como é lógico – vai depender muito da história prévia, dos modos de
reação particulares e das características singulares de casa sujeito.
Em todos os casos, o tratamento integral deve ser dirigido a todos os envolvidos
na situação (portador, família, cuidadores) . O diagnóstico é a tal ponto condenatório,

________________
8
Constatamos que um dos critérios mais usados para a classificação por fases refere-se ao grau de
independência ou autonomia conservado. (Ver cap. II )
CAPÍTULO VI – PERSPECTIVAS TERAPÊUTICAS 190

que na conduta mais generalizada consiste em colocar o paciente sob cuidados


exclusivos de um neurologista, enquanto a família – no melhor dos casos – vai ao
psicólogo ou aos grupos de apoio para elaborar a catástrofe que a eclosão da doença
demencial provoca. Ainda são poucas as experiências em trabalhos de reabilitação com
pacientes demenciados como se no momento do diagnóstico a pessoa perdesse sua
capacidade de pensar.
A primeira fase da doença, quando o sujeito começa a sofrer as primeiras perdas
de sua operatividade psíquica e a família começa a percebê-las, pode trazer como
conseqüência a reatualização de sentimentos de raiva, rivalidade e ódios, colaborando
para a instalação de um clima de irritabilidade e hostilidade que tomam conta dos
vínculos, e a negação instala-se como mecanismo predominante. Por outro lado, como
já dizíamos em um trabalho anterior, não podemos esquecer que:

O desconhecimento colabora para a construção dos mais terríveis preconceitos, e a


demência, como as doenças mentais carrega o mesmo destino de doença marginalizada,
vergonhosa, destinada a ser ocultada como verdadeiro estigma familiar, quando não,
tratada com a indiferença ou resignação com que se trata o inevitável. Pior ainda quando
se atribui ao doente a designação de “velho esclerosado”, como se a perda de memória
fosse uma questão inerente a idade avançada. Esta atitude provoca uma paralisia
perigosa tanto nos meios científicos mal informados, quanto nas famílias e nos próprios
pacientes que acham uma certa “normalidade” nas primeiras perdas das funções
cognitivas. (Gelherter e Goldfarb, 1996)

Nesta fase é comum a demora em solicitar ajuda profissional, a negação atua em


todos os níveis dos vínculos familiares, e quando a situação insustentável provoca um
movimento de pedido de auxílio, a procura é de algo que explique o porquê dessas
mudanças, porque essa pessoa “já não é mais a mesma”. Há uma insistência dos
familiares em recuperar a “pessoa de antes”. E como o diagnóstico é em geral
condenatório, a família entra em uma situação de desespero, frustração e culpa em meio
à qual se organiza um certo entrosamento familiar na busca de uma solução.
Se fosse possível realizar o diagnóstico de forma multidisciplinar, precocemente,
ante os primeiros sinais de deterioração cognitiva, angústia ou mudanças de comportamento
e – como propúnhamos – deixar em suspensão seu aspecto condenatório, seria esse um
excelente momento para começar com uma intervenção terapêutica, mas são raros os
casos em que a família consulta e pede ajuda durante a fase inicial da doença.
CAPÍTULO VI – PERSPECTIVAS TERAPÊUTICAS 191

Os maiores obstáculos ao se tentar agir terapeuticamente são – além das próprias


resistências dos profissionais envolvidos – as resistências familiares e do pessoal
técnico que cuida diretamente o doente. Devemos entender que, até chegar ao
diagnóstico condenatório, a família em primeiro lugar nega a gravidade da situação, a
seguir sofre com a incerteza e depois com a sentença de irreversibilidade Finalmente,
deve-se organizar para cuidar do familiar doente, para o qual – sem dúvida – precisa de
apóio. Mas este é um momento perigoso, já que profissionais e familiares podem fazer
uma aliança em torno do diagnóstico de irreversibilidade, negando ao sujeito doente as
possibilidades de lutar pela sua recuperação e opinar sobre seu futuro, afundando-o cada
vez mais em uma situação de dependência.
A família e os cuidadores se mostram interessados e ávidos de conhecimentos e
informação, não querem ter dúvidas, o diagnóstico, embora trágico, acalma. O apóio é
necessário, mas não deve ser dirigido ao convencimento em relação ao prognóstico
condenatório, e sim ao entendimento da individualidade do paciente que permita tirá-lo
de uma categoria excludente; às possibilidades do uso de diversos recursos terapêuticos;
à salvaguarda das capacidades que ainda restam intactas e à restauração das perdidas. Se
conseguirmos mudar o olhar sobre as demências, talvez mude a sorte dos demenciados.
É nesta fase inicial que alguns pacientes trazidos pelos familiares ou encaminhados
por outros profissionais podem chegar ao consultório de um psicanalista, ou em um
ambulatório de geriatria ou de clínica geral. E, nestes casos, é só se afastando dos
preconceitos que um diagnóstico (ou suspeita) de demência provocam que será possível
trabalhar a falta de memória como resistência, trabalhar sobre os lapsos, os sonhos, a
palavra que se esquece. E será se despindo de amarras técnicas que se poderão
introduzir novas formas de aproximação com pacientes nos quais a possibilidade
discursiva esteja mais afetada, como no caso de Dona Eugenia9, a quem peço para trazer
fotografias ligadas a sua vida. Isto nos permitiu uma interessante reconstrução histórica
e se mostrou uma excelente ponte para a construção de lembranças, adaptação ao
mundo atual e à vida social.
Na repetição desta experiência, algumas vezes tivemos sucesso e outras não....
pela simples razão de que algumas pessoas não têm o menor interesse em fotografia,
não as guardam e não lhes representam nada.... Outras trilhas devem ser abertas.

________________
9
Ver vinhetas Clínicas neste capítulo.
CAPÍTULO VI – PERSPECTIVAS TERAPÊUTICAS 192

O que a experiência médica considera como fase intermediária das doenças


demenciais (especialmente de tipo Alzheimer) é a mais longa de todas, podendo chegar
a durar vários anos. Inclui estados diversos, que vão desde alteração do sono e apetite
até a desorientação temporo-espacial, passando por dificuldades da fala e da escrita,
apatia, inafetividade, dificuldades de locomoção e deterioração da memória anterógrada,
que vão se agravando na medida que o tempo passa, confirmando a cronificação e a
irreversibilidade e aumentando a dependência.

Nesta fase o contato se faz mais difícil e frustrante, o paciente permanece mais
isolado e contrário a qualquer tipo de interação, especialmente quando esse traço
formava parte de sua estrutura prévia. Frases são ditas sem que saibamos a quem são
dirigidas. Quando há um discurso, está estruturado na repetição. As respostas a nossas
perguntas são curtas, frias, e isto só muda com um contato intenso, diário e prolongado.
Então olham, sorriem e falam, mas não há muita possibilidade de mudar o rumo da
“conversa”.

O papel do terapeuta será o de trabalhar sobre as capacidades que restam,


fazendo que adquiram um valor superior ao que tinham, reduzindo assim a frustração. É
necessário, então, reduzir o sofrimento pondo o prazer possível a funcionar, trabalhar
sempre sobre os recursos ainda presentes e não sobre os déficits.

Os olhares também podem se dirigir a um vazio além do terapeuta. Acontece


freqüentemente que, ao tentar uma aproximação, o analista se sinta como um verdadeiro
inexistente, é como querer se olhar em um espelho que não devolve a imagem. Assim
como eles não se reconhecem no espelho, nos também não somos vistos, não há um
outro possível. No capítulo anterior, dizíamos que o demenciado se ignora a si mesmo.
Parece que na transferência, consegue colocar-nos no mesmo lugar, nos ignora e nos
demonstra calmamente que nossa presença lhe é indiferente. Só na insistência da
cotidaneidade poderemos estabelecer um laço mínimo.

Uma das possibilidades será a de virar o espelho: em vez de o terapeuta se


identificar com o vazio e sentir a força paralisante da frustração, trabalhar sobre a
possibilidade de ser um espelho para o paciente. Esta idéia me ocorreu num dia em que
cheguei para visitar uma paciente estando profundamente triste. Ela, que sempre me
recebia sentada em sua poltrona, indiferente, desafetiva e apática, começou a chorar
silenciosamente. Quando lhe pergunto sobre o motivo de tanta tristeza nada diz .....
CAPÍTULO VI – PERSPECTIVAS TERAPÊUTICAS 193

Nesse momento me aproximo mais dela, tomo suas mãos entre as minhas e lhe digo que
estou triste porque uma pessoa que eu amava muito morreu. Então ela pára de chorar,
embora com dificuldade fica em pé – pela primeira vez em meses a vejo altiva, como
nas fotos de sua juventude – e sai ao jardim onde mexe em algumas plantas. Eu começo
a brincar com seu gato e ela me diz: “cuidado...cuidado”. Cuidado dela?, de mim?, que
a cuide mais, que me cuide melhor? Saí de sua casa me fazendo perguntas. Considerei
essa sessão um enorme sucesso.

O mesmo caso me fez pensar no uso de objetos intermediários, pois nas sessões
seguintes que aconteciam duas vezes por semana, deixei o gato entrar na sala e pude
observar como estabelecia com ele uma comunicação afetiva que eu poderia aproveitar.
Porém, por decisão familiar o tratamento foi interrompido logo depois.

Não é rara a solicitação de atendimento domiciliar integral (Home Care) Repito:


não é rara a solicitação .... o difícil é a continuidade do trabalho pelo alto custo do
mesmo. Raros são os casos de famílias que contam com a bagagem de conhecimentos, a
força anímica e os meios financeiros que lhes permita um atendimento individualizado
do paciente, tanto no lar quanto na instituição.

O ideal é a implementação deste tipo de tratamento interdisciplinar em hospitais


dia. Esta é uma solução cada vez são mais frequente no mundo todo, já que, além dos
serviços especializados em enfermagem, fisioterapia e terapia ocupacional, estes
estabelecimentos podem oferecer psicoterapias grupais e individuais, além de todos os
benefícios de uma vida social10 conservando o convívio familiar fundamental para o
bem-estar do paciente. Considero este aspecto da maior relevância na discussão de uma
estratégia para o tratamento das demências dentro da saúde pública, especialmente no
que se refere ao alto grau de benefícios que promove e ao baixo custo relativo.

Em estágios mais avançados – e dependendo da capacitação e boa vontade das


instituições onde geralmente estes doentes são asilados – a ênfase é colocada nos
próprios pacientes, mas apontando fundamentalmente à melhora da qualidade de vida e
não à restauração da funcionalidade psíquica. Podemos observar que são propostas
atividades de jardinagem, movimento, artesanato e muitas outras que, embora muito

________________
10
Alguns desses hospitais dia se assemelham “clubes” com serviços de cabelereiro, manicure, sessões de
cinema, esportes etc.
CAPÍTULO VI – PERSPECTIVAS TERAPÊUTICAS 194

bem conduzidas, no geral não levam em consideração a história individual do sujeito


demenciado11.
No atendimento domiciliar participam vários profissionais, como enfermeiros,
terapeutas ocupacionais, fisioterapeutas, médicos, acompanhantes terapêuticos e
psicanalistas. O objetivo destes últimos, além do específico com os pacientes, que visará
à manutenção da atividade simbólica, será o de trabalhar as tensões e conflitos
familiares que eclodem ou se geram ante a situação de ter que cuidar do familiar doente,
como também trabalhar os conflitos entre a equipe de assistência e desta com a família,
além das dificuldades subjetivas de cada profissional no atendimento daquele paciente
em especial. Em relação ao paciente será possível ajudar na manifestação de
sentimentos que não encontram palavras para se exprimir e restaurar algumas funções
do eu que ajudem a manter a autonomia possível.
A título de exemplo, podemos mencionar o caso de uma senhora de 84 anos que
era cuidada sob um padrão extremamente infantilizado, até o ponto de receber uma
chupeta na hora de dormir ou quando se mostrava agitada e de ser alimentada com
semi-sólidos, na boca, como um bebê. A cuidadora era uma filha solteira, de 64 anos,
sem outra ocupação, e que tinha assumido esse papel para si desde muito jovem, ainda
antes que a mão adoecesse e com quem tinha um vínculo conflitivo, o que se
manifestava em atitudes agressivas, disfarçadas de cuidados extremos.
Cabe acrescentar que esta filha se negava a deixar participar dessa tarefa
qualquer outro membro da família, ante os quais se colocava como vítima da terrível
situação. A saída desta cuidadora, em meio a uma enorme briga familiar, e a entrada de
uma equipe multidisciplinar de atendimento, permitiu a esta senhora recuperar algumas
funções. Ainda que sem lembrar as palavras, conseguia escolher o que desejava comer,
o que passou a fazer sem ajuda; não só começou a andar mais pela casa, como chegou a
ensaiar alguns passos de valsa com a fisioterapeuta, mostrou-se mais colaboradora na
hora da higiene pessoal e, no geral, adquiriu uma expressão mais serena.
Nesta fase do processo de demenciação, muitos pacientes são institucionalizados
e outros escolhem essa alternativa por própria vontade. Em uma única ocasião tive

________________
11
Lembro de ter supervisionado um caso atendido por uma T.O., de um paciente institucionalizado que se
negava raivosamente a fazer as atividades de artesanato. Era um intelectual, ex-professor universitário
que não só se acalmou, mas também demonstrou felicidade quando foi solicitado a ajudar na arrumação
da biblioteca. Tirando a poeira dos livros e arrumando-os de acordo ao tamanho, encontrou o nexo
histórico perdido que o ligou novamente com o prazer.
CAPÍTULO VI – PERSPECTIVAS TERAPÊUTICAS 195

oportunidade de trabalhar com um senhor de 75 anos com um diagnóstico de Alzheimer


confirmado por ressonância magnética. Brilhante advogado aposentado, ainda tinha
contato com colegas e ex-alunos. Ajudado por um desses velhos colegas, procurou-me
secretamente para que o ajudasse a falar com a família sobre suas últimas vontades, já
que -ele sabia – em pouco tempo mais não seria capaz de expressá-las ou de tê-las. A
família, no afã de poupá-lo do sofrimento, negava-se a falar do futuro e da progressão
da doença. Muito bem informado sobre a doença diagnosticada, não queria “perder
tempo” com conversas prolongadas, pois era consciente do pouco tempo de plena
lucidez que lhe restava e da irreversibilidade do processo. Assim, programamos três
entrevistas individuais que se estenderam a seis e se começou depois o trabalho com a
família.

Nas seis reuniões familiares, pode manifestar seu desejo de ser institucionalizado
num lugar que ele mesmo escolhesse e, apesar da resistência dos filhos que eram
favoráveis a mantê-lo no lar, conseguiu que aceitassem ajudá-lo nessa escolha. Pôde
decidir sobre o tipo de tratamento que desejava receber e até pela eutanásia passiva para
encurtar o sofrimento inútil se uma fase terminal se apresentasse sofrida demais.

3. VINHETAS CLÍNICAS

Apresentarei a continuação três vinhetas clínicas que ilustram a possibilidade de


trabalho clínico em situações nas quais a queixa apresentada (pelos outros) foi de déficit
de memória em estágio inicial. Em todos os casos, fiz um esforço para deixar em
suspenso as suspeitas diagnósticas em favor de uma abordagem do sujeito e suas
angústias.

Dona Maria, senhora de 72 anos, consulta-me por indicação do médico, que descreve a
paciente como “depressiva” e suspeita de um caso de Alzheimer em fase inicial.
Na primeira entrevista, diz que não queria vir pois sabe que psicanalista “mexe no
passado” e ela não quer. “O passado é para ser esquecido”. Na vida dela tudo é “normal”,
mas o médico insistiu que me consultasse pois está com perda de memória: “Na verdade,
esqueço de bobagens do dia-a-dia, o passado que queria esquecer ainda lembro”. Viúva,
mora sozinha com uma empregada, tem filhos e netos com quem se dá bem.
CAPÍTULO VI – PERSPECTIVAS TERAPÊUTICAS 196

Nascida no interior de Minas, freqüentou a escola primária e chegou a estudar


piano. Nunca namorou, pois era muito vigiada pelos irmãos mais velhos, e acabou
casando aos 17 anos, com um senhor de 30 que ela apenas conhecia e era amigo do
irmão mais velho. “Naquela época, lá naquele fim de mundo era assim, tinha que
aceitar, nem pensava em outra possibilidade... no começo não gostava, mas depois me
acostumei, vieram os filhos... mudamos para São Paulo... tinha minha casa... Mas aí, a
firma que ele trabalhava fechou e ele começou a beber... Sempre tinha sido frio comigo
mas aí ficou violento, a gente passou a se odiar. Bom... a verdade é que amor mesmo
nunca teve, mas tinha os filhos... depois nem isso, você sabe, os filhos a gente tem por
pouco tempo mesmo”.
Dona Maria continua com o relato das mazelas de seu casamento infeliz, até que
diz: “quando ele morreu do coração, fazia tempo que a gente nem se falava, eu pensei
que ia me sentir aliviada, não falei para as crianças, mas no fundo, bem no fundo, acho
que estava até um pouquinho feliz.... feliz não, aliviada....mas não sei por que tudo
piorou para mim, eu que nunca tive nada, fiquei doente várias vezes, até fui parar no
hospital, uma vez até me perdi na rua”.
A essa altura pensei que, para alguém que não queria falar do passado, até que
tinha oferecido muita informação. Na sessão seguinte, Dona Maria faltou, e veio na
terceira dizendo que se esquecera da anterior, fato ao qual não atribuiu particular
importância.
Continuamos o trabalho sem que ela fale muito de outras coisas além de sua
infelicidade conjugal. Não lembrava detalhes da infância e adolescência. Diz que tinha
muitos amigos, mas não lembra o nome de nenhum; lembra o nome da escola que
freqüentou por seis anos, porém esqueceu o das professoras. A adolescência parece ter
sido um grande vazio passado dentro de casa sobre um bordado interminável. Lembra
do casamento com uma festa linda, mas não dos convidados: “a família, claro”, diz,
deduzindo que deveriam estar presentes. Não há lembranças específicas sobre a mãe ou
o pai, só diz que eram muitos bons, mas “em minha casa não havia muito disso de
conversa com os filhos”. Parece que, apesar da infelicidade do casamento, foi a única
coisa importante que lhe aconteceu, ou, ao menos, a única à qual ficou ligada.
Depois de vários meses monótonos, traz uma novidade (algo finalmente a
atingiu): uma neta de 22 anos saiu de casa e foi viver com o namorado, negro, artista, de
quem a família não gosta. Então tem um ataque de raiva, chora, se agita, fala
CAPÍTULO VI – PERSPECTIVAS TERAPÊUTICAS 197

invejosamente das netas que fazem o que querem, que não há mais “modos”, “eles são
bons meninos, mas a vida está muito diferente agora”, e diz: “Pôxa vida, se eu tivesse
tido coragem, mas a esta idade não vale mais a pena lutar, eu perdi minha vida e isso
não se recupera”.
Durante os meses que se seguem, o tema da neta e “o negro” (como era
nomeado pela família) comparece em todas as sessões. Repetidas vezes perguntei pelo
nome do rapaz e a resposta era sempre a mesma: “Não me lembro, me foge da cabeça”.
Até que, um belo dia, começa a chamar o “negro” pelo seu nome. E era o mesmo nome
do marido!! Podemos trabalhar isto e, assim, começa um relacionamento com o jovem
casal que, graças a sua intervenção, se aproxima da família.
A partir deste momento parece que se abre o baú das recordações de onde
começa a tirar objetos valiosos que estavam esquecidos. Um dia me traz uns bolinhos
que não fazia havia 30 anos e que voltou a fazer agora para a neta que a convidara a
jantar na sua casa. A partir das recordações culinárias, grandes cenas sobre sua infância
foram relembradas (ou construídas) com detalhes e revivência dos sentimentos
correspondentes. Agora voltou a cozinhar – por puro prazer – quitutes para a família, e
todos adoram.
Nosso trabalho dura no total oito meses, e termina porque não sabe o que está
fazendo aqui e não quer gastar mais dinheiro com papos muito bonitos mas que não
levam a nada. “A vida é como ela é, e ela já vem pronta”, me diz antes de partir.
Quando escrevo este trabalho, já se passaram dois anos desde o “fim” do
tratamento. Às vezes a encontro na rua, já que moramos no mesmo bairro; telefona-me
no Natal e no último disse estar muito feliz, a neta estava grávida e lhe pediu ajuda para
cuidar do bebê. Apesar da falta de memória não ter sido tema de nossos encontros,
pego-me perguntando sobre esse aspecto, então ela me dá uma excelente notícia: “igual,
nem melhor nem pior, tudo igual”.
O médico continua suspeitando de um Alzheimer em fase inicial que, por
enquanto, parece estar evoluindo muito lentamente. Ele está atento e observando. Se
aparecer um novo estado depressivo lhe será indicada a volta à psicoterapia e, se for
necessário, será medicada. Por enquanto está muito ocupada e feliz com o bisneto.

Dona Eloísa, de 84 anos, é “trazida” a meu consultório pela filha, preocupada com a
crescente falta de memória apresentada por sua mãe. Foi diagnosticada como portadora
CAPÍTULO VI – PERSPECTIVAS TERAPÊUTICAS 198

de uma demência de tipo Alzhiemer e sofre de diabete e hipertensão controladas,


embora de vez em quando leve “alguns sustos”. Intelectualizada e de boas maneiras, é
uma mulher elegante e culta que adora falar de arte, literatura, teatro e se apresenta às
entrevistas muito simpática e colaboradora.
Na primeira entrevista relata especialmente fatos da infância, com muitos
detalhes e reações afetivas apropriadas. Quando demandada, demonstra lembrar fatos
mais recentes, e seus pequenos esquecimentos podem ser considerados dentro do
esperado para sua idade. Já no final de nosso tempo, percebo que ela fala muito de duas
de suas três filhas, mas não da terceira, como se esta não existisse, e que alguns temas
são apenas tocados, como se não quisesse falar sobre eles. Na segunda entrevista,
decido perguntar sobre esses temas, e é então que a memória começa a faltar.
O casamento, começado mais de 50 anos atrás, havia acabado fazia dez anos de
forma inesperada para ela, com a comunicação do marido de que ia morar com outra
mulher com quem tinha um relacionamento sério havia mais de 15 anos. Isso lhe foi
dito numa situação social em que ela não podia ter nenhuma reação mais emocional. A
partir desse momento, aos 74 anos, viu-se sozinha.
Diz não poder falar muito com as filhas, porque estas amam muito o pai, mas
fundamentalmente porque suspeita que já soubessem do caso extraconjugal do marido
(ela jamais referiu-se a ele como “ex”) e não lhe disseram nada. Esta senhora pode
relatar com detalhes, repetidas vezes – como um sonho traumático – a cena do
rompimento, mas consegue esquecer o dia e ano em que se casou, o nome da igreja, o
nome do navio em que viajaram em lua de mel, e tantos outros detalhes que ela confessa
que antigamente fazia questão de lembrar com orgulho: “Que coisa, esquecer assim do
que foi o momento mais feliz da vida de alguém.......Não quero nem lembrar dessas
coisas, seria bem mais fácil viver sem essas lembranças”.
Depois da separação, sentiu-se muito solitária, não tanto pela ausência do
marido, mas porque a nova situação conjugal a obrigou a abandonar muitas amizades,
pois eram relacionamentos todos mantidos em função do trabalho dele. Em meio a estas
reflexões, percebe que tinha vivido em um mundo muito superficial, cheio de aparências
e hipocrisias. Também, ninguém mais perguntava pelo marido e as filhas haviam tirado
dela as fotos que testemunhavam essa época, para não vê-la sofrer.
O rendimento de sua memória parece ser melhor durante as entrevistas que no
cotidiano. Lembra de coisas que – segundo a filha que faz o pedido de tratamento – não
CAPÍTULO VI – PERSPECTIVAS TERAPÊUTICAS 199

lembrava em casa. Atribuo este fato ao estímulo que representa alguém que está ali
justamente para ouvir o que os outros não podem: o sofrimento que fez parte de sua
história. Ouvir com o objetivo de reconstruir alguma coisa a partir desse ponto onde
algo falta. Não há, em todo esse tempo, nenhum trabalho interpretativo, nenhuma
mudança de rumo nas significações, nenhuma reavaliação por mim provocada. Só um
trabalho de balizamento... e claro está, de escuta.
Mas e aquela filha da qual quase não fala? Passados três meses de tratamento e
na certeza de que eu não mantenho contatos secretos com a filha que a trouxe,
finalmente me conta que ela sempre suspeitou que aquela filha “inominada” não fosse
filha de seu marido, e sim de um amante – amigo do marido – com quem teve um breve
caso, coisa que segundo ela mesma disse: “tinha preferido esquecer, não morrer com
essa culpa, e só agora estou contando para você, mas este assunto morre aqui”. “Nem
foi uma grande paixão” . “Naquele mundo, tudo era hipocrisia” “Daquilo lá, não resta
nada...... só os filhos”
Depois de mais três meses de trabalho, a paciente decide voltar a morar “até
morrer” na mesma cidade onde morou durante a maior parte de seu casamento, onde
mora outra de suas filhas, e onde até hoje tem amigos (agora lembra que tem alguns).
Volta para a mesma casa onde viveu durante seus anos mais felizes e onde não
conseguiu se sentir bem desde a separação: “Volto para minha casa, porque essa é
“minha” casa, estão meus quadros, minhas fotografias, meus objetos de arte que fui
comprando pelo mundo afora, vou enfrentar os fantasmas, sem medo das
recordações”.... disse-me ao partir.

Dona Eugenia, 75 anos, vem por indicação de seu geriatra, amigo da família e que a
conhece há bastante tempo.
É tratada há mais de dois anos “por nada sério”. Uma pequena hipertensão e uma
leve glicemia controladas com medicação e alimentação apropriada. Não sabe por que
está aqui, já que não tem problemas psicológicos e “jamais teve”. O geriatra me informa
que a paciente começou a sofrer déficits de memória e atenção sem nada que a
justifique clinicamente, só parece estar um pouco triste, também sem motivo aparente.
Não há sinais de depressão profunda mas, aos poucos, está começando a se limitar, não
quer sair de casa, abandona a vida social, não se arruma como antes, está menos
faladeira; ele teme que esteja começando um processo de “alzheimerização”.
CAPÍTULO VI – PERSPECTIVAS TERAPÊUTICAS 200

A paciente relata uma vida boa, plena, satisfatória e bastante ativa. Nunca
trabalhou, mas sempre fez muitas coisas e teve uma intensa vida social. Ultimamente,
não sente vontade de sair de casa. Teve uma infância feliz e tranqüila, sem sufocos
econômicos, “claro que não havia para as crianças tudo o que há agora”, não sabe se os
pais se amavam, mas amavam os filhos (seis no total, três já falecidos, “de velhos”).
Foram criados sem luxos, mas tiveram uma boa educação “como só havia naquela
época”. Casou-se jovem, com o homem que amava. Ficou viúva há mais de dez anos,
não lembra exatamente quantos, mas muitos. Sofreu muito, mas superou, os filhos
ajudaram. “São dois homens, bons meninos, carinhosos, se deram bem na vida, nunca
deram problemas”.
“O geriatra falou umas coisas para eu vir aqui, mas já esqueci, eu estou bem. Os
meninos se preocupam muito comigo, estão o tempo todo controlando o que faço, se
preciso de alguma coisa, se tomo os remédios... Minhas noras também são boas. Eles
têm filhos, tenho dois netos, um de cada um. Uma menina e um menino. Idade? Não sei
bem, mas já são adolescentes. O menino é um pouco bravo, um taurino bravo” . Mas
quando pergunto em que dia ele nasceu, ela diz não lembrar. Lembra o nome de todos e
os lugares onde trabalham, porém, não recorda que cargo eles ocupam nem onde
moram. Para visitá-los, pega um táxi, mostra o endereço anotado num papel e assim
chega lá. Mora sozinha com a mesma empregada – que atua também como
acompanhante – há anos. Não sabe quantos.
Percebo que, cada vez que não se lembra de alguma coisa, também não faz os
cálculos nem as associações lógicas para chegar ao dado necessário, como se não lhe
interessasse saber. Noto também que, aos poucos, vai me falando de sua falta de
memória, mas quando pergunto novamente sobre o motivo de estar lá, de novo diz que
o geriatra a mandou, mas não sabe por quê. Quando o geriatra me telefonou para fazer o
encaminhamento, disse claramente que a paciente sabia o motivo do mesmo.
Quando marcamos nosso segundo encontro, ela me pede para anotar a data, o
horário e meu nome num papel e, feito isto, o prende numa agenda lotada de pequenos
bilhetes semelhantes.
Nas entrevistas seguintes faço algumas perguntas sobre seu passado. Conta
muitos episódios, e digo episódios pois não chegam a se constituir em histórias. São
como flashes, como se estivesse vendo fotos de épocas e pessoas diferentes. Não há um
nexo temporal entre eles, embora ela lembre detalhes sobre cada episódio; são como
CAPÍTULO VI – PERSPECTIVAS TERAPÊUTICAS 201

ilhas de lembranças. Quando percebe as confusões, ela se angustia e passa para outra
coisa. Confunde-se e me confunde com as cenas desconexas. Então, peço-lhe para trazer
fotos, e sem saber porque, não especifico a época nem se ela deve aparecer nas mesmas.
Nos primeiros dias, traz fotos de épocas recentes, da família, aniversários dos
netos, mas ela nunca está presente. Ela se ignora, não aparece, parece não existir.
Comento: – “Parece que a senhora não participou desta festa”, “Não, eu estava sim, até
fiz o bolo”. Aos poucos, começa a trazer fotos onde ela aparece, primeiro meio
escondida, depois em lugares de destaque.
Continua esquecida de alguns dados, mas começa a fazer associações entre as
diferentes situações, do tipo “nesta foto aqui sou a única sentada porque tinha acabado
de operar por um problema no pé”, e acrescenta: “Veja só, tinha esquecido disso, foi
uma bobagem na unha, mas tinha esquecido”. Depois disso, diz que voltou no geriatra e se
lembrou que ele tinha dito que ela estava “um tiquinho mal da memória, coisas da idade”.
Relata alguns sonhos nos quais se encontra, pequena, em lugares escuros,
desamparada ou subindo escadas sem nada em torno. Angustia-se e se nega a se
concentrar nisso. “Para mim, isso tudo não significa nada”, ela diz. Quando comento
que os sonhos parecem lhe provocar um pouco de angústia, responde: “eu não tenho
mais medo de nada ...... Uma velha como eu já não pode ter medo de nada, nem de
morrer”. Então se fala bastante da morte especialmente da morte dos pais, do marido, da
dela e confessa que muitas vezes não pode dormir pensando nisso.
Aos poucos vai trazendo fotos cada vez mais antigas, e o trabalho continua na
mesma linha. Vemos as fotos e ela vai reconstruindo a história. As lembranças vão
surgindo cada vez mais coesas. Os fatos vão se alinhavando em uma seqüência lógica.
Nesse tempo, uma das noras me telefona para saber minha opinião sobre ajudá-
la a fazer um álbum de fotografias. Tinha conseguido mobilizar a família que começava
a se organizar em torno de suas lembranças.
Depois de três meses (duas vezes por semana) neste trabalho, as fotos acabam.
Pessoalmente, sinto medo do que possa acontecer, mas ela continua falando de sua vida
e começa a manifestar preocupação com o presente. “O duro – diz – é não poder falar
com ninguém sobre isso, eu sinto que minha vida vai acabando, por que, Deus, se foi
tão boa, por que tem de acabar? Só deveriam acabar as vidas sofridas, mas a minha foi
boa, eu deveria viver mais 30, 40 anos. Não posso falar isso com as crianças, eles ficam
mal, não querem nem ouvir falar nisso. A vida não deveria acabar, ou ao menos a gente
CAPÍTULO VI – PERSPECTIVAS TERAPÊUTICAS 202

não deveria se dar conta de que acaba, não me conformo”. Há então, um luto a elaborar,
e nisso continuamos por mais algum tempo. Depois de cinco meses, ela diz que foi
convidada por um dos filhos para uma viagem à Europa com a família. Ela aceita com a
condição de poder passar por uma pequena cidade da Itália onde nasceram seus pais. E
parte.
Quando retorna, quase dois meses depois, volta às sessões por insistência dos
filhos. Conta-me que naquela cidadezinha viu o registro do nascimento e do casamento
dos pais. A história continua a se escrever. Claro, traz também as fotos muito bem
organizadas graças à ajuda da nora.
Depois de quase dois anos de trabalho, começa um curso de computação junto
com o neto: “por essa coisa da Internet, eu já sou meio dura para aprender coisas novas,
mas ele e o professor me dão uma forcinha”. Conta que eles entram num site de turismo
da Itália e ela fica clicando olhando as fotos. Na mesma época, vai formar parte de um
círculo de senhoras italianas que realizam obras beneficentes em uma igreja e até
organizam uma exposição .....de fotos !
Agora tem uma agenda bem organizada, onde anota tudo: compromissos, listas
de compras, datas de aniversários, até as prováveis datas de partos das filhas ou noras de
suas amigas, para não esquecer de perguntar pelo novo bebê. “A memória continua um
pouco fraca, mas eu estou mais organizada”, ela diz. Despede-se e não sei mais dela há
dois anos. O geriatra diz que a deterioração continua mas, muito lentamente, por enquanto a
diferença é quase imperceptível. Ela se mantém organizada e a família ajuda.

4. COM A INOCÊNCIA DOS INICIANTES E A IGNORÂNCIA DOS EXPLORADORES 12

Neste ponto, desejo apresentar algumas experiências recolhidas da literatura


específica sobre o tema ou relatadas por colegas. Todas elas têm em comum o fato de
serem tentativas de intervenções realizadas por psicanalistas ou que contaram com a
participação de psicólogos na equipe multidisciplinar. Entre outras, escolhi pela
sua originalidade a vídeo-confrontação descrita por Maisondieu; o trabalho com
musicoterapia de Ogay; outro realizado pelo psicanalista Jack Messy em dupla com uma

________________
12
Frase extraída do texto de Jaques Messy: “A Pessoa Idosa não existe” , 1993, p. 51.
CAPÍTULO VI – PERSPECTIVAS TERAPÊUTICAS 203

fisioterapeuta; as viagens de férias realizadas pelo mesmo Messy junto a pacientes


demenciados e por ele mesmo relatadas e a experiência da terapia do riso de Tauzia.
O objetivo desta breve apresentação é o de demonstrar que, ainda nas situações
mais desalentadoras, sempre é possível a construção de um caminho passível de ser
percorrido junto aos pacientes. De situações aparentemente absurdas, podem surgir
soluções que imprimam movimento, dinamismo e plasticidade ao que foi condenado à
rigidez e silêncio. Mas é necessário teimar e insistir. Vejamos:
A vídeo-confrontação descrita por Maisondieu (2001) consiste na projeção sobre
a tela da televisão de uma ação atual e o paciente pode se ver simultaneamente, como ator e
espectador enquanto efetua alguma tarefa. As sessões são breves, em pequenos grupos,
uma ou duas vezes por semana. O coordenador lhes pede que falem sobre o que vêm na
TV. É comum acontecer que nas primeiras sessões os pacientes permaneçam aparentemente
indiferentes ao aparelho, em ocasiões são estimulados a fazer pequenos gestos com as
mãos, o que ajuda o reconhecimento da imagem como algo que tem a ver com eles.
Acontece freqüentemente que depois de algum tempo se reconhecem como
sendo alguém da família (por exemplo, a mãe) e, em alguns casos, chegam a se
reconhecer a si próprios. Mas também, denunciam a limitação do projeto terapêutico: a
senhora G de sessenta e oito anos, demenciada há alguns anos, fala quase nada e se
comunica freqüentemente através de assobios.13 Logo na primeira sessão do vídeo-
confrontação diz: “É minha mãe, sem dúvida.. não.... não vejo quem é essa senhora” ,
na sessão seguinte, para de assobiar por um momento e frente da TV diz: “Uma noite se
acaba..... e não há mais nada”, depois agride verbalmente o terapeuta dizendo: “Há
alguém aqui que não é legal” e confrontada de novo com a tela da TV acrescenta:
“vocês são grandes, vocês podem fazer muita coisa, eu..... eu fico e casa” e depois tem
um monólogo entremeado de assobios: “alguma coisa acontece.... alguma coisa
acontece..... havia pessoas que eu amava e que me amavam..... agora tudo acabou.... não
quero mais falar.” Então começa a assobiar insistentemente e mostrando a TV grita com
surpreendente lucidez e teimosia: “Não vai ser essa máquina que nos fará renascer”
Cabe agregar que embora os bons resultados tenham se mostrado temporários,
abriram as portas para outro olhar sobre o funcionamento do psiquismo da pessoa
demenciada e suas possibilidades. Deve-se destacar que estes pacientes não se reconheciam

________________
13
Caso relatado por Chévance na sua tese de doutorado. (1999)
CAPÍTULO VI – PERSPECTIVAS TERAPÊUTICAS 204

no espelho havia já muito tempo mas se reconheceram no vídeo, o que permitiu


restabelecer a comunicação. Não temos notícias sobre a continuidade desta experiência,
porém, este relato por si só já constitui um convite à reprodução desta técnica
Um trabalho interessante especialmente para ser realizado em forma grupal e
institucional é feito junto a musicoterapeutas. Ogay (1996), que estudou casos de
demência tipo Alzheimer, defende a idéia de trabalhar com músicas cuidadosamente
selecionadas em função de uma identidade sonora do sujeito com o objetivo de
restabelecer a comunicação interrompida. A evocação através da música permitiria a
lembrança de sucessos passados já esquecidos o que levaria à restauração da auto-
estima pela re-apropriação desse passado reatualizado no presente através das sensações
revividas, em um excelente uso do exercício da reminiscência.
Messy (1993) relata 30 sessões de um caso diagnosticado como Alzheimer em
fase inicial e tratado em um Centro Dia em encontros semanais de uma hora. O
trabalho, realizado em dupla com uma fisioterapeuta, consistia em uma sessão de
relaxamento pouco diretiva, seguida de uma sessão de pintura feita numa folha de papel
colada na parede e de uma verbalização livre. A paciente de 68 anos, que ao ser
perguntada pelo seu nome diz: “me chamam Lili”, vai falando durante as sessões de
relaxamento, vai falando enquanto pinta...... fala de seu corpo, se identifica com a
fisioterapeuta, faz transferência, desenha duplas de objetos enquanto diz: “eu estou
fora”, até que começa a se incluir nos desenhos. Um dos pontos mais interessante deste
relato é que Lili trazia como sintoma (ou como estigma) a desorientação espacial na rua
e o descontrole dos esfíncteres, sendo que jamais se perdia quando ia para o Centro Dia
e estando lá, fazia uso do banheiro normalmente. Mas, a mudança de fisioterapeuta faz
que entre um uma fase depressiva e se acentue a deterioração.
Ao cabo de alguns meses em que se trabalha na elaboração dessa perda, a filha
que até então tomava conta dela, ao ver o próprio casamento ameaçado a interna em
uma casa de repouso. Nessa situação, seu estado é descrito como de total deterioração,
não reconhecendo ninguém e permanecendo apática. Passados alguns meses, a primeira
fisioterapeuta (de sobrenome Fechot) a visita e, no momento em que Lili percebe sua
presença diz: “Enfim você está aí.....eu sabia que você havia de vir.....você demorou em
vir....” e ao se despedir lança um sonoro: “Adeus senhora Fechot” (Messy, 1993, p. 78)
Lili morre dois meses depois, então o diagnóstico inicial de Alzheimer já tinha mudado
para Doença de Pick, mas a autópsia demonstrou a existência de uma lesão localizada.
CAPÍTULO VI – PERSPECTIVAS TERAPÊUTICAS 205

O mesmo autor (2002), faz um interessante relato de viagens de férias ao


exterior com residentes de casas de repouso. Entre os viajantes há pessoas com diversos
tipos de quadros de desorientação temporo-espacial e demenciados. Contrariamente ao
esperado, a primeira constatação revela que não há nenhum agravamento da angústia
por causa da viagem em avião nem na chegada ao hotel, sendo que os mesmos
pacientes, na instituição, se angustiam ante uma simples mudança de cama. Dentre os
cuidados tomados na hora de organizar a viagem, a escolha do período do ano foi
especialmente considerada. A programação foi feita para baixa temporada turística,
assim, os espaços dos hotéis ocupados aproximadamente na metade de sua capacidade,
ficaram mais disponíveis para esta clientela tão especial.
Uma das primeiras mudanças que a equipe percebe é uma incorporação ao
discurso de referências sobre o novo lugar, em que é levado em consideração o atual e o
passado, porém não o futuro. Só para dar um exemplo: eram feitas referências a viagens
anteriores com a família, mas não ao que aconteceria depois dessa viagem. Também foi
observada uma diminuição da dependência e um aumento das possibilidades vinculares
e da confiança nos cuidadores.
Por outro lado, o hotel era vivido como espaço de liberdade até pelos cuidadores
que ficavam a um meio caminho entre o trabalho e o lazer. No novo espaço todos se
vinculavam seguindo um modelo relacional mais de hotelaria que hospitalar, movimento
que prima pela idéia de acompanhamento e não pela de interdição. Quando esta modalidade
se prolonga no retorno à instituição, faz que os efeitos benéficos não sejam transitórios.
As viagens provocam uma nova relação com o mundo exterior além dos limites
da instituição. Os viajantes são corretamente cuidados, sem aumentar sua dependência.
Na instituição tudo é regulamentado e organizado no tempo e no espaço, as jornadas são
regradas seguindo a iniciativa e conveniência dos cuidadores, tudo segue um ritual
imutável no qual o sujeito rapidamente se dissolve e converte-se apenas em objeto de
cuidados. A entrada em uma casa de repouso14 corta toda possibilidade de se projetar no
futuro, movimento que sabemos ser o verdadeiro motor da memória. Infantilizados,
maternalizados ou, no pior dos casos, mal-tratados, os residentes de uma casa de
repouso não terão outra opção que se deixar deslizar em um processo regressivo ou se
colocar em posições francamente psicóticas.

________________
14
O mesmo sábio enfermeiro de uma instituição asilar, de quem já falei em outro capítulo, disse-me em
certa ocasião: “Dizem que o cemitério é última morada, mas lá todo mundo está morto, a verdadeira
última morada é esta”.
CAPÍTULO VI – PERSPECTIVAS TERAPÊUTICAS 206

Os cuidadores são freqüentemente desprovidos dos recursos para entender a


especial organização psíquica daqueles que devem cuidar. Um maior investimento na
formação destes profissionais e uma regulamentação de suas atividades devem ser de
prioridade absoluta nos futuros projetos da saúde pública pois, ante a desinformação,
infantilização, repressão e neurolépticos acabam tomando o lugar de cuidados mais
apropriados.
Devemos ousar em nossa aproximação à questão das demências que é ainda
muito rudimentar, presa como está em conceitos organicistas que não dão lugar para
pensar nas possibilidades de uma psicogênese. Estas viagens destes “viajantes sem
bússola” (Messy, 2002) , nos convidam-nos a ultrapassar os limites das fronteiras
institucionais e nossos próprios comportamentos estereotipados para reencontrar a
essência e a singularidade de aqueles que cuidamos.
Natália Tauzia (2002) é uma jovem psicóloga clínica que trabalha no Centro
Hospitalar Camille Claudel em Angoulême (França), no setor de Geriatria. Quando
começou esse trabalho não tinha nenhuma experiência na área mas, corajosamente e
contrariando todas as expectativas de fracasso manifestadas por seus chefes e colegas,
decidiu montar um grupo de senhoras demenciadas, sem saber ainda como o conduziria
nem quais eram seus objetivos. Escolheu oito pacientes das mais afetadas pela
deterioração e três em fase apenas inicial de demência que pudessem servir como apoio
e “motores” do grupo, todas com mais de 85 anos. Só uma era mais jovem, tinha 74
anos, e outra, mais velha que a maioria, já contava 96.
Ao cabo de duas sessões caóticas e desorganizadas, ela mesma, presa de
angústia começa a rir e gesticular. Nesse momento descobre a mobilização e
organização do grupo frente à novidade. A partir de então, começou a usar o recurso do
cômico e do riso como técnica para a interação grupal.
A cada sessão, a terapeuta propunha um tema de discussão relacionado com o
feminino, inevitavelmente isto trazia a tona a questão sexual, a excitação, algumas
lembranças, o riso, algumas piadas. O mais notável é que, nesta experiência – e eu tive a
oportunidade de assistir ao vídeo de uma das sessões – não é possível diferenciar as
pacientes muito deterioradas, daquelas que apenas estão na fase inicial do processo. Ao
cabo de um ano de trabalho, a melhoria das participantes do grupo era evidente em
todos os aspectos, tantos nos cognitivos quanto no afetivo e no social.
PALAVRAS FINAIS

Mas vêm o tempo e a idéia de passado


visitar-te na curva de um jardim.
Vem a recordação e te penetra
dentro de um cinema, subitamente.
E as memórias escorrem do pescoço,
do paletó, da guerra, do arco íris;
enroscam-se no sono e te perseguem,
à busca da pupila que as reflita.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE


“Versos à boca da noite” (fragmento)
PALAVRAS FINAIS 208

E agora chegamos ao momento de concluir, momento de fazer uma avaliação sobre


esta produção, seu percurso, suas intenções, suas conseqüências. Com este
objetivo farei, à continuação, uma breve síntese das principais propostas formuladas , já
que as diversas hipótese ficaram distribuídas ao longo dos capítulos.

Já desde as primeiras páginas, retomo uma idéia que trago desde o mestrado e
que baliza um posicionamento ético em relação a esta questão: A velhice não é
percorrer um caminho já traçado e sim construí-lo, inacabável processo de subjetivação
do ser velho, construção histórica singular e cultural comandado pelo trabalho do
tempo, que seguirá vias elaborativas como o exercício da reminiscência, o compromisso
com projetos, a serenidade, a religiosidade, etc., ou regressivas como a depressão ou a
demência. Então, a libido não seria um quantum esgotável mas o resultado de um
investimento sempre possível. Desse modo, não existiriam “coisas de velhos” rígidas e
uniformizadas, não existiria a velhice como categoria e sim velhos singulares em
permanente processo de construção de suas subjetividades. Assim, retomo e sublinho o
que terá sido um fio condutor desta pesquisa: o entendimento do processo demencial
como forma regressiva de defesa contra a depressão de final de vida, o que acaba nos
levando a uma reflexão sobre o papel social do velho e seus efeitos na subjetividade.

Através da articulação com o conceito de desamparo, o sentimento de finitude e


das idéias elaboradas por Freud em textos como “O mal estar na cultura”, proponho
incluir as demências nas patologias próprias da pós-modernidade. Quando a situação
provocada pela posição social carregada de negatividades e somada ao encurtamento do
PALAVRAS FINAIS 209

horizonte de futuro não pode ser elaborada, inscreve-se no registro da decadência


inevitável e não no do declínio passível de ser compensado com recursos diversos.
Decrepitude instalada a partir da impossibilidade de temporalização do sujeito psíquico
e do fracasso antecipado de qualquer projeto de futuro.

Como já disse, Freud não dedicou à questão do tempo nenhum trabalho em


especial, mas jamais deixou de considerá-lo um eixo fundamental de suas elaborações,
como o constatam o conceito de repetição e de posterioridade, que liga a temporalidade
à causalidade psíquica, articulação absolutamente necessária para pensar a historicidade
do sujeito. Historicidade que, por outro lado é impossível de ser pensada sem o
sentimento de finitude.

A temporalidade humana, ou seja, o movimento de sua historicidade, se constrói


sobre uma linha temporal que, a partir do presente, nos permite avaliar o passado,
retificá-lo e nos projetarmos no futuro. Esse é o movimento que cria subjetividade
dando um sentido de permanência que preserva a identidade. Assim, entendemos o
tempo de vida como aquele que se mede cronologicamente, através de diversos acordos
culturais, mas é vivenciado fora de qualquer convenção. Tempo de construção de
subjetividade que não podemos medir, a não ser na sua mais pura intensidade. Tempo
de construção da história vivencial que resiste à medida do registro biográfico.

O tempo do envelhecimento, então, vai se caracterizar pelo sentimento de


finitude, a ser vivenciado com diferentes qualidades e intensidades emocionais, que
dependerão de cada sujeito singular e do modo particular com que tenha vivido as
diferentes experiências de proximidade com a morte ao longo de seu desenvolvimento.
Essa proximidade com a morte marcará experiências de elaboração de perdas, uma
forma de se fazer o trabalho de luto, processo sempre necessário para que se instaurem
outros objetos no lugar do perdido, para que outros investimentos sejam possíveis. Mas
há os casos em que essa elaboração não é possível e isto pode ser razão suficiente para
provocar o mais radical e violento dos esquecimentos, o da própria identidade, e assim,
muitos sujeitos preferem perder a cabeça a perder a vida.

Designo o lugar dos velhos como um não-lugar, pois, apesar de incluídos no


panorama social atual, eles não são estimulados a falar como sujeitos, sendo
reconhecidos apenas quando falam como velhos, como pertencentes a uma categoria
definida previamente e que os define – vale dizer – de forma negativa.
PALAVRAS FINAIS 210

A partir das três formas paradigmáticas de ordenação psíquica do idoso


sugeridas por Birman (1995) (depressiva, maníaca e paranóide), acrescento a demência
como derivado da forma depressiva. Forma de articulação que permite a fuga da
depressão e o esquecimento de tudo o que se liga com a dor insuportável da perda.
Faço também uma primeira aproximação à necessidade do trabalho
interdisciplinar ao falar da obrigatoriedade de abordar esta patologia a partir de tudo o
que possa ser incluído em um ponto de vista bio-psico-social.
Entrando no tema específico das demências, após ter apresentado alguns dados
históricos em relação ao uso dessa denominação, passo a considerar aspectos descritivos
tradicionais e a surpreendente e quase esquecida obra de Emmanuelle Régis, de
começos do século XX, na qual o autor já apresenta um posicionamento clínico
diferenciado ao afirmar a possibilidade de se trabalhar no começo do processo
demencial neurotizando o paciente, ajudando-o a restaurar as funções do eu, refazendo
o caminho do desejo, elaborando o luto que ficou interrompido.
Seguindo este caminho, dou especial ênfase ao tema do diagnóstico
condenatório e coloco aquilo que considero um tema fundamental do ponto de vista da
psicopatologia, a saber: a possibilidade de considerar a demência como produção
subjetiva paradoxal, na qual o sujeito historicamente constituído se desconstrói como
última tentativa de evitação da dor provocada pelo tempo que finda. O demenciado
volta ao padrão simbólico da infância e continua regredindo até se perder, até se
desamarrar do tecido simbólico, até perder tudo aquilo que a intervenção do simbólico
fez construir. A pessoa afetada pela demência se furta à realidade, esquece os vínculos,
a história, a lei.
Na tentativa de dar conta de questões tão polêmicas recorri a conceitos
psicanalíticos que pudessem me fornecer os recursos teóricos necessários para os
entendimentos propostos. Assim, percorri especialmente as obras de Sigmund Freud e
Piera Aulagnier para abordar os conceitos de tempo, história, memória e a constituição
do eu, por considerá-los básicos no entendimento dos processos demenciais.
Esses conceitos constituem os recortes teóricos que foi possível fazer nesta etapa
de minha pesquisa sobre uma abordagem psicanalítica das demências. Recortes que
surgiram a partir do trabalho clínico no qual não cessava de me perguntar: Onde está o
sujeito? Onde está a história? Por que o paciente com demência avançada não diz mais
‘eu’? Por que um esquecimento tão radical? Porque essa destruição dos vínculos e pior
PALAVRAS FINAIS 211

ainda, do próprio ser? Caminhos que ainda antes de serem trilhados já se abriam a
tantos outros nem imaginados no começo deste trabalho.

O passo inicial foi percorrer a obra freudiana desde “Estúdios sobre a histeria” e
o “Projeto para uma psicologia científica”, em busca das elaborações de Freud sobre a
memória. Assim, desde o começo ficou claro que ela aparece como seletiva, dependente
de algum outro fator ou sistema, eliminada pelas experiências dolorosas que provocam
o esquecimento, organizada em estratificações sucessivas que exigem uma retranscrição
de tempos em tempos e registrada em diferentes variedades de signos.

Enfim, ressignificações feitas com efeito de posterioridade tão bem analisados


no caso de Emma. Freud então, a partir da análise das lembranças anteriores
(regressivas) ou posteriores (progressivas), reafirma o tema da temporalidade em
relação com a questão da memória e destes com a história vivencial, trama do vivido
que se presentifica, trabalho que tira o sujeito da pura atualidade, permitindo o
investimento pelo desejo e a esperança. Investimento do passado que retifica o presente
e se projeta em direção ao futuro criando a esperança. Inscrevemos o desejo em um
tempo futuro pois é o motor da esperança, mas ele é também o responsável pela
transcrição do passado. Assim, podemos compreender a história como a relação do
sujeito com o tempo, ordenada pelo desejo que constrói as lembranças e os anseios.

O fracasso do processo de historização provoca a liberação de um narcisismo


primário mortífero. A pulsão de morte é um limite imposto à função historizante da
pulsão de vida. A escolha deste caminho, deste recorte sobre tempo, história e memória,
acabou determinando a utilização dos textos de Piera Aulagnier que nos brindam com
uma contribuição inestimável ao estudo destes temas.

Especificamente no que se refere ao eu e sua constituição abordei textos


freudianos como “Introdução ao Narcisismo” (1914) e “O eu e o isso” (1923) que
sempre nos oferecem os alicerces básicos necessários para a compreensão deste conceito
fundamental. Depois de uma breve passagem pelas conceitualizações lacanianas sobre o eu
e o sujeito, são analisadas as contribuições da autora já citada. Assim, conceitos como
antecipação, sujeito social, contrato narcísico e projeto identificatório vêm nos socorrer
nos esclarecimentos sobre o eu constituído na linha da historicidade quando
corroboramos a idéia de que o futuro deverá representar a possibilidade do reencontro
de um passado, trazer a promessa desse reencontro.
PALAVRAS FINAIS 212

Acredito que a contribuição fundamental deste trabalho foi a de resgatar as


demências do campo exclusivo das neurociências, para abordá-las também do ponto de
vista da psicopatologia psicanalítica. Com essa intenção comentei a obra de
Maisondieu, um dos poucos autores que abordam esta questão desde o campo da
psicanálise, e recorri às propostas da Psicopatologia Fundamental: do pathos, com toda
sua carga de paixão sofrimento e excesso.

Seguindo esta trilha, chego aos conceitos de desinvestimento e defusão pulsional,


pois eles se articulam com a pulsão de morte e a morte do sujeito psíquico que pode
anteceder à morte biológica. Reitera-se a idéia de que o processo de envelhecimento exige
um luto por antecipação, luto pela perda da própria vida, processo que, por não ser
possível, deixa o eu invadido pela angústia de morte. A depressão por vazio, a dissolução
do eu e conceitos como tanatose, psicólise e desconstrução psíquica de Le Gouès e ação
modificadora de Piera Aulagnier vieram em nosso auxílio para melhor compreender a
dinâmica destes processos. De acordo com esta linha de raciocínio chegamos a uma das
afirmações centrais que nos permite pensar uma hipótese psicogênica para as demências: o
fracasso do trabalho de luto como um de seus grandes motivadores.

Em relação à metodologia, foi possível fundamentar a proposta de deixar entre


parêntese os mais rígidos padrões técnicos da clínica psicanalítica, para revalorizar a
criatividade e a experiência acumulada ao longo dos anos pelos poucos psicanalistas
tiveram a coragem suficiente de abordar o trabalho com pacientes em processo de
demenciação. A comunicação de diferentes possibilidades de atuação em situações
diversas (consultório, instituições geriátricas e atendimento domiciliar); o trabalho
com grupos de familiares de portadores e, fundamentalmente, o destaque para a
interdisciplinaridade, constituíram o cerne este trabalho no que se refere a suas perspectivas
terapêuticas. Neste ponto, as contribuições de Ferenczi foram essenciais.

Finalmente, com respeito e admiração, faço uma síntese de algumas experiências


de colegas que teimosamente insistem em trabalhar sobre aquilo que a maioria condena.
E, falando em teimosia, percebo agora como, ao longo deste trabalho, tentei
transmitir a contínua sensação de fracasso e o desânimo que se sente ao trabalhar com
pessoas cujos aparelhos psíquicos estão em processo de desconstrução, com sujeitos
psíquicos que querem fugir do mundo simbólico, que parecem não querer aceitar o
auxilio, que [mal] abrem portinholas mínimas (e escondidas) para o outro entrar em seu
PALAVRAS FINAIS 213

empobrecido mundo. Mas vejo também a insistência em acreditar que a psicanálise tem
aí um outro “continente negro”1 a desbravar, sabendo que nunca será conquistado.

Vimos até aqui as possibilidades de se fazer uma leitura psicanalítica das


demências, articulamos apenas alguns dos grandes conceitos da psicanálise, mas insisto,
eles nos permitiram pensar a inclusão das demências na psicopatologia psicanalítica.
Como psicanalistas e trabalhadores da saúde mental, podemos e devemos abordar este
tema e aceitar o desafio de trabalhar a produção psíquica que, embora empobrecida e
altamente questionada, encontramos nestes patologias. Mas não é só isso....
À medida que me aproximava da conclusão do trabalho, cada vez mais percebia
quantos pontos importantes tinham ficado sem ser trabalhados, quantos recortes
deveriam ter sido ser realizados, com que vastidão este tema nos desafia Porém, percebi
também quantas portas se abriram.
Considero que, a partir deste ponto, muitas outras linhas de pesquisa e [novas]
produções poderão nascer. Só para citar algumas que me interessam especialmente,
parece-me de grande importância estudar profundamente o papel do narcisismo nas
demências; o destino e dinâmica das instâncias psíquicas nestes tipos de processos; a
relação depressão-demência; a diferenciação entre demência e psicose; o papel da
sublimação; os mecanismos de defesa, a transferência, questões às quais espero poder
me dedicar futuramente .
Por outro lado, considero também altamente relevante que futuras pesquisas
possam se concentrar na análise do contexto familiar e sua dinâmica ante a presença da
doença demencial, bem como do papel dos cuidadores, sejam estes familiares ou
profissionais e das vicissitudes dos processos demenciais nos casos de pacientes
institucionalizados. Um estudo aprofundado destes temas poderia produzir efeitos
práticos em curto prazo, no que se refere aos cuidados específicos dados aos pacientes,
o que resultaria de grande valia para ações dirigidas à saúde pública. Acredito ter dado
um passo importante e fundamental na abertura de novos caminhos, mas dada a
magnitude e as conseqüências devastadoras desta doença, continuamos apenas no início.
Finalmente, voltando à criação literária que me acompanhou ao longo deste
percurso, desejo agora transcrever um fragmento que me comove particularmente e
serve aqui para guardar o intervalo entre o limite deste texto, seu necessário
encerramento, e o que dele já transborda, convidando a novos começos.

________________
1
Frase utilizada por Freud em “A questão da análise leiga” de 1926, em referencia ao psiquismo feminino.
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“...... a índia explicou que o mais temível da doença da insônia não era a
impossibilidade de dormir, pois o corpo não sentia cansaço nenhum, mas sim sua
inexorável evolução para uma manifestação mais crítica: o esquecimento. Queria dizer
que quando o doente se acostumava a seu estado de vigília, começavam a apagar-se de
sua memória as lembranças da infância, em seguida o nome e a noção das coisas, e por
último a identidade das pessoas e a consciência do próprio ser, até se afundar numa
espécie de idiotice sem passado. José Arcadio Buendía, morto de rir, considerou que se
tratava de mais uma das tantas enfermidades inventadas pela superstição dos indígenas.
[]“Nesse estado de alucinada lucidez, não só viam as imagens de seus próprios sonhos,
mas também, uns viam as imagens sonhadas pelos outros. []

“Foi Aureliano que concebeu a fórmula que havia de defendê-los, durante vários
meses, das evasões da memória. Descubriu-a por acaso. Insone experimentado, por ter
sido um dos primeiros, tinha apreendido com perfeição a arte da ourivesaria. Um dia
estava procurando a pequena bigorna que utilizava para laminar os metais, e não se
lembrou de seu nome. Seu pai lhe disse: ‘tás’. Aureliano escreveu o nome num papel
que pegou com cola na base da bigorninha: ‘tás’. Assim ficou certo de não esquecê-lo
no futuro. Não lhe ocorreu que fosse aquela a primeira manifestação do esquecimento,
porque o objeto tinha um nome difícil de lembrar. Mas poucos dias depois, descobriu
que tinha dificuldade de se lembrar de quase todas as coisas do laboratório. Então,
marco-as com o nome respectivo, de modo que bastava ler a inscrição para identificá-
las. Quando seu pai lhe comunicou o seu pavor por ter-se esquecido até dos fatos mais
impressionantes de sua infância, Aureliano lhe explicou o seu método, e José Arcadio
Buendía, o pôs em prática para toda a casa e mais tarde o impôs a todo o povoado.
Com um pincel cheio de tinta, marcou cada coisa com seu nome: mesa, cadeira,
relógio, porta, parede, cama, panela. Foi ao curral e marcou os animais e as plantas:
vaca, cabrito, porco, galinha, aipim, taioba, bananeira. Pouco a pouco, estudando as
infinitas possibilidades do esquecimento, percebeu que podia chegar um dia em que se
reconhecessem as coisas pelas inscrições, mas não se recordasse a sua utilidade. Então
foi mais explícito. O letreiro que pendurou no cachaço da vaca era uma forma
exemplar pela qual os habitantes de Macondo estavam dispostos a lutar contra o
esquecimento: ‘Esta é a vaca, tem-se que ordenhá-la todas as manhãs para que
produza o leite e o leite é preciso ferver para mistura-lo com o café e fazer café com
leite’. Assim, continuaram vivendo uma realidade escorregadia, momentaneamente
capturada pelas palavras, mas que fugiriam sem remédio quando esquecessem os
valores da letra escrita.
PALAVRAS FINAIS 215

Na entrada do caminho do pântano, puseram um cartaz que dizia ‘Macondo’ e outro


maior na rua central que dizia ‘Deus existe’. Em todas as casas haviam escrito
lembretes para memorizar objetos e sentimentos. Mas o sistema exigia tanta vigilância
e tanta fortaleza moral, que muitos sucumbiram ao feitiço de uma realidade
imaginária, inventada por eles mesmos, que acabava por ser menos prática, porém
mais reconfortante. Pilar Ternera foi quem mais contribuiu para popularizar essa
mistificação, quando concebeu o artifício de ler o passado nas cartas como antes tinha
lido o futuro. [] derrotado por aquelas práticas de consolação, José Arcádio Buendía
decidiu então construir a máquina da memória, que uma vez tinha desejado para se
lembrar dos maravilhosos inventos dos ciganos. A geringonça se fundamentava na
possibilidade de repassar, todas as manhãs, e do princípio ao fim, a totalidade dos
conhecimentos adquiridos na vida. Imaginava-a como um dicionário giratório que um
indivíduo, situado no eixo, pudesse controlar com uma manivela, de modo que em
poucas horas passassem diante de seus olhos as noções mais necessárias para viver.
Tinha conseguido escrever já cerca de quatorze mil fichas, quando apareceu pelo
caminho do pântano um ancião mal-ajambrado ....[] Era um homem decrépito. Embora
sua voz estivesse também oscilante pela incerteza e suas mãos parecessem duvidar da
existência das coisas, era evidente que vinha do mundo onde os homens ainda podem
dormir e recordar. José Arcádio Buendía [] cumprimentou-o com amplas
demonstrações de afeto [] Mas o visitante percebeu a falsidade. Sentiu-se esquecido,
não com o esquecimento remediável do coração, mas com outro esquecimento mais
cruel e irrevogável que ele conhecia muito bem, porque era o esquecimento da morte.
Então entendeu. Abriu a mala entupida de objetos indecifráveis e dentre deles tirou
uma maleta com muitos frascos. Deu para beber a José Arcádio Buendía uma sustância
de cor suave e a luz se fez na sua memória... (p. 45 a 49)
GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ – “Cem anos de solidão”
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