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ACADEMIA PORTUGUESA DA HISTORIA

PORTUGAL
U M D E S T I N O HISTÓRICO

IORGE BORGES DE MACEDO

LISBOA MCMXC
S E PA R ATA D A S l . a S J O R N A D A S A C A D E M I C A S
D E H I S T Ó R I A D A E $ PA N H A E D E P O R T U G A L
ACADEMIA PORTUGUF~A DA HISTÓRIA

PORTUGAL
DESTINO HISTÓRICO

pelo Académico de Número

IORGE BORGES DE MACEDO

(Dforta aa
lt:tlll'll, POIIllSUi$I |i I1151¿1|I

LISBOA MCMXC
A IOAOUIM VERISSIMO SERR~O,
a quem a colaboração cultural
luso~~la tanto deve.
PORTUGAL: UM DESTINO HISTORICO

Ac~l~~k~ de Número
JORGE BORGES DE MACEDO

1 ----- PALAVRAS PRÉ~

S condições em que nos encontramos_ reunião de historiadores


A espanhóis portu .gu~--neste lugar e neste momento--toro
nam-se uma oportunidade relevante para procedermos a uma me-
ditação, de algum modo, em comum, sobre o que sentimos dever
salientar quanto ao «destino histórico» dos dois estados peninsulares,
Portugal e Espanha. E já não o fazemos só entre nós, mas num cenário
mais amplo e decerto que mais seguro, para a garantia das conclusões.
Fazemo-lo com a certeza imediata da nossa rest~nsabilidade, na. Europa
e no Mundo. É certo que sempre acabou por ser assim. Mas tal certeza
não se manifestava com a mesma velocidade de notícia, comunicação
cultural e intercâmbio das medianas, nem nas actuais circunstâncias de
pouca sensibilidade imediata aos sacrifícios necess~os à criação nacio-
nal pr6pria e à sua perenidade. A esse respeito, o «tempo de espera~,
é maior.
Com efeito, as preocupaçóes com o desenvolvimento são, hoje, as
mais particularmente, exigentes e significativas. Não se podem iludir
em pirõtecnias de particularismos sem funçáo e menos ainda supor que
a sempre diversa problemática humana pode ser resolvida com violências
ecológicas ou em contratos puramente materiais, esquecendo os decisivos
e múltiplos factores espirituais.
Temos visto medidas para preservar o cabrito montês, mas nada
vimos ainda que nos defenda da publicidade, da falta de civismo ou da
lenta deterioração de valores que levam à subalternização do espírito
público! Se nos não precavermos e aceitarmos como as únicas possí-
veis generalidades poderosas, só tarde veremos que elas são estéreis
em si mesmas, como tais. Pagá-lo-emos em inércia e desinteresse, na
perda de criatividade, na deser~ica~ da uniformidade que espreita
as grandes hegemonias e na paragem do aproveitamento dos nossos
dotes naturais.
Não pode, pois, ser esquecido o longo trajecto histórico dos povos
da Península. Foi, por diferentes vezes, comum, mas, sempre, s~ paralelo.
Com isso todos nós temos beneficiado, como comunidade, sejamos poderes,
nações, estados ou sensibilidades. As independências não foram vantajosas
só para Pormgal. As identidades consmfidas desde remotas proveniências,
ao chegarem à insof'mmável confirmação política, desempenharam um papel
decisivo no equih'brio peninsular que, sendo natural, a todos beneficiou,
por diferentes ---decisivas--- ~ióes e modos. Até hoje.
Não há nações circunstanciais. Isso não quer dizer que tuna nação não
tenha sempre trem parte de tentativa determinada ou projectada. São
realizações humanas, com o sentido de que uma comunidade ou um
conjunto de comunidades, por múltiplas condições convergentes, podem
encontrar maneiras de explorar formas de desenvolvimento e co~ta. São
esses meios de conciliaçáo e reforço realizados por actos comuns que
lhes permiUram manter o significado que representam as Nações. Não 6
possível considerar este processo como um acaso pois ele se manifesta
em actos duráveis e persistentes que ultrapassam as consciências indivi-
duais e se concre~ em realizações históricas que compreendem pes,
soas, lugares, dec~ colectivas que conquistaram a continuidade com
que se exprimem.
O conceito de circunstância é incompatível com o de nação e ainda
se toma menos verosímil se o aplicarmos a uma nação---como é a
portuguesa--- que tem quase nove séculos de existência política. Se nove
séculos de independência política são circunstância, o que é então uma
permanência? Os sucessos e os insucessos vividos em comum provam que
uma nação adquiriu consciência crítica quanto às suas capacidades e
conseguiu formular uma interpretação assente nos sucessivos triunfos da
sua unidade realizada. E não será isso a sua história? E não poderá
definir----ou contribuir para definir--- um destino histórico?
Em grande medida, como disse, esse destino histórico português, visto
na área da Península e da Europa, estabelcecu-se dentro de consonâncias
que se não transferem para consequências comuns, ainda que não sejam
contraditórias. Exprime-se em formas de cultura que referem evidentes
provas de contacto fecundo de diferentes culturas peninsulares que se
percebem como afins e até confluentes. Não deixaram, por isso, de ser
específicas, de se assumi~m como tais e de visionarem expressamente as
suas próprias apliea~ às problemáticas gerais. Com isso, a sua diferente
presença política e cultural tomou-sc ainda mais efectiva, tanto no mundo
europeu como nas novas áreas de acesso que foram surgindo. Como disse,
a sua correlação geopolítica nunca teve consequências comuns, embora a
diversidade dos pontos de partida fossem, no conjunto, de grande eficácia,
face aos perigos que se lhes apresentaram. Por outro lado, deixaram de
ser a expressão de uma matriz que provém das grandes exigências da comu-
nidade---base europeia---ocidental ou peninsular, conforme se quiser.
Sem custo, nós, portugueses, nela nos sentimos inseridos. Mas a diversi-
dade ampliou-se tornando-se tuna condição de força.
Da parte do corpo político menos poderoso -- Portugal--- essa si-
tuação tem tido, aldm disso, para todos, um papel sintomático: serve de
advertência aos povos, às pequenas na cõcs a que não descurem o político
e nunca deixem de negociar a sua presença dominante dessa dimensão,
sem, obviamente, deixar de se ser tanto conciliatório, como firme e escla-
recido. Se tal se não tivesse verificado---sc a diferença política se não
tivesse mantido---decerto a expressão do universo humano peninsular
não se teria tomado tão rica e, subtil e não teria explorado tantas em-
polgantes vias de expressão.
Não sendo, --- nem podendo ser-- idênticas as situações imediatas
das áreas peninsulares, qualquer unidade teria de ser artificiosa e abusiva,
caso lhe fosse imposta uma expressão unitária, qualquer que ela fosse.
Seria desmobilizadora das mensagens culturais e sociais que se sabem
possíveis. Uma tal unidade---mesmo quando a força a impunha-- sem-
pre revelou menor eficácia administrativa, social, tanto como económica,
cultural, politiea e estratégica.
Afinal, os diversos destinos históricos dos povos da Península, são
uma advertência prática de que vale a pena a diferença, uma vez que nela
se encontram sempre caminhos que se manifestam em novas expressões de
cultura e criaçáo. E é assim porque mm~ não impede a convergência
quando as dec~ comuns se tornam n~as. Para várias vezes--na
longa hist6ria das divergênci~ e conformidades pe~, assim se
verificou! Teria tudo isso sido possível, dando unidade poHfica ao «des-
tino histórico» peninsular?
No caso do destino histórico de Portugal, há um outro elemento que
importa, desde logo, salientar, mesmo no período da pobreza industrial,
dos séculos XIX e XX, expreasão transitória da nossa «decadência» comum
que não pode ser transferida para outros domínios ou para outras épocas.
Com efeito, é sempre possível, ligar a Meseta Ibérica ao Mar do Norte
e ao Mediterrâneo, mas sempre tem sido muito mais complexo ligá-la ao
Mar Oceano.
Este foi, durante séculos, uma incógnita agressiva, agora provida de
outras formas específicas de pressão que, em qualquer momento, se podem
tomar decisivas. Mas não há qualquer vantagem em ignorá-las, transfe-
rindo.as para termos ou atitudes onde pareçam atenuar-se. Há sim, van-
tagens em conhec~las e «negociá-las», na sua ~ificidade.
O encontro e a convivência das comnnid~_~ peninsulares, dentro do
destino hist6rico que têm fido, con~ cul~ Imdenm ou estados, ensinam
melhor do que quaisquer outras garantias cinmnstan¢i'Aig, as rest~nsabi-
lidades que daí resultam, em dar aos ums «~» o que é deles, sem,
obviamente, discutir o que é de Deus e das otmas Pátrias, na comum
Humanidade em que se exprimem.

2---UMA SEOUI~NCIA DE FINALIDADES

Este tipo de encontro-debate, face aos novos caminhos e viabilidades


que a todos se nos oferecem, nas relações intemackmais, na cultura, na
literatura, nas ciências exactas, no direito e na denmgntfia etc., sempre tem
sido estimulante, para todos. Podemos mesmo dizer que, sem ele, as culturas
peninsulares não teriam tido a riqueza e intensidade, que apresentam.
E o debate continua a ser essencial, face a tantos outros desafios nmdernos,
desde os novos meios de com-ni~~, até ao estudo das convergências
culturais e da pmbl~tica humana da sobrevivência espiritual, face às
novas pressões da unifornddade e de multiplicação das hegemonias. A auto-
nomia política con~ a manter-se coam a melhor defesa para o desen-
volvimento integrado de uma nação que, além d©, como tal, ter conquistado
uma definição social e cultural constantemente acrescida (que passa a repre-
sentar) chega ao estabelecimento de um conjunto cuja eficácia sempre se
comprovou, no superior aproveitamento dos seus recursos próprios. Dispõe
de uma experiência cautelar que pode ser aplicada às modalidades que uma
nação constantemente vai adquirindo: Nação é uma unidade social e hu-
mana verificada pelo tempo e pela gravidade das dificuldades vencidas.
Esta qualificação atingiu o seu ponto mais alto pela organização de
autoridade política c, oesa, e da que estabeleceu, em muito variadas cir-
cunstâncias, na coordenação de muitas entidades de poder local ou outras
instituições administrativas ou de esp~ialidade. Acrescentar-se-~í o ponto
de que as formas eficazes de independência não s¢ podem separar da
movimentação social e da sua dinâmica. Nem se separaram do cálculo
e do estabelecimento de «órgãos» (elementares ou não) de decisão (que
podem tomar forma conciliatória, majoritária ou outras), face às ameaças
externas, às divergências internas ou aos conflitos que não podem deixar
de vir surgindo. E se abordarmos os domínios da conceptualização --- frio-
sofia, ciências, propostas de sistemas-- também aí encontramos funda-
mentos para pensarmos na vantagem da existência protegida de meca-
nismos institucionalizados de objecção e verificação, que explorem uma
vertente de análises. Necessário 6 que a possam (e saibam) integrar num
conjunto coerente e significativo, susceptível de um desenvolvimento, em
que a cultura pr6pria participe, como tal.
Em todos os campos do conhecimento, da vida colectiva, espiritual
ou até meramente lúdica, impossível se torna entender a hist6Ha de Por-
tugal, sem ter presente o que se passa no conjunto da Península IbéHca,
cujas diferentes matrizes, por distanciadas que pareçam as suas realizações,
mostram que a comunidade de origem 6 insuficiente para compreender
as manifestações que vierem a ser. A recíproca também é verdadeira.
A riqueza da manifestação diferenciada 6 tão indiscutível como a
global. Não está em causa a «qualidade» de cada uma dessas expres.
sões: carece de sentido «medir» cultura. No entanto, é indispensável
apreciar a sua expansão, audiência e capacidade de permuta.
Nos casos gerais, espanhol e português, há um subtil e constante
intercâmbio, nem sempre, desde logo, perceptível e acaso de pouca regu-
laridade. Nele se manifesta, afinal, essa comunidade ancestral, proveni¿ncia
primeira das propostas iniciais, que acabaram por confirmar a fun-
ção criadora da diversidade assumida. Evoluem a partir de uma unidade
prohmda de cuja conformidade proteica saíram tantas realizações de reno-
vado contraído. E assim que muras manifes~ de longa ancestralidade,
acabam por se revelar espantosamente próximas.
Pod~os lembrar, a esse respeito, o que a investigação científica
«encontrou», ao delinear, na Península Ibérica pff:-histórica, as áreas
de influência e de relação, assim como as zonas e os períodos de
conflito.
Na Península, a pro~dade e a diversidade começam por ser fen6-
menos de expio an tropol6gica e de interpretação cultural. Logo que
aparece a dimensão política (e este fenómeno, insiste-se, nem é ocamonal,
nem menor), ela vai inscrir-se em factores que já anteriormente se tinham,
mais ou menos, diferenciado. Constituem-se então, com outra exigência,
novas perspectivas de múltiplos efeitos e maior capacidade crítica, com
formas adequadas de unificação e acumulação de dados. Conduziram, ou
facilitaram todas elas o estabelecimento, na área portucalense, de uma
estrutura de autonomia, bastante diversificada. Ou, se o preferirmos, esta
última la aproveitar, com maior independência de poder, estruturas insti-
tucionais que já tinham revelado a sua efic(mia com as «dinastias de cau-
dilhos», na exp~ de Paulo Me=ea. Não foi, decerto, por acaso que
acabou por dar lugar a uma dinastia int¢maciomdm~te responsabilizada,
cujo ponto de partida foi o C, onde D. Henrique. Quer dizer, passou a ter
ainda maior eficácia com meios mais amplos e outro campo de acção. Por
isso, em termos de desuno hLqórico, a questão que se nos deve pÔr não é
a de afirmar a existência da «vontade dos barões», mas a de saber como
é a que a sua acção alcançou significado internacional, segurança, quanto
às áreas de que dispunham e capacidade de imta)sição, interna e externa,
para adquirir, em seguida, continuidade dinástica. O facto ob.riga a que
haja «quem» se encontre nessa situação potencial--não quer dizer que so
como pessoa---e, se reconheça e seja reconhecida como autÓnoma. Precisa
igualmente de en.~a~ «força» para comunicar uma tal consciência que
pooe ser pouüca L.Só uma naçao ---um conjunto de comunidades em
convergencm--o Ixxlia consegmr.
Assegurada uma expressão sucessivamente diferenciada, assim como
a sua continuidade, foi seguindo um trajecto de enriq~ento que levou

I Cf. Martim de A]mque~ue, A con»ci~ncia nacional l~tuguesa, ITlst6Ha das Ideias


Po]ä~, I, Lblxm, 1972, ap. IL
séculos a tomar diferentes formas substantivas, cada vez mais profundas ~.
A consciência da continuidade, assim como a sua garantia dinástica, para
Portugal, foi vencendo obstáculos, dando lugar a sucessivas opções que a
confirmavam: impossível, também aqui, vê-la como ocasional. Como acto
público, a documentação apresenta-a como n~a e como tal, mantida
e defendida. Aparece-nos na construção da parti~aridade jurídica, no
plano civil e penal, na «política» da língua, no reforço de um poder pr6-
prio e ordenou-se em sucessivas realizações, umas encadeadas, outras não.
O fenómeno aparece-nos, expressamente, à maneira do seu tempo, como
que t~orizado em loão de Barros, num encad~ento estabelecido em forma
iP metafórica e quase utópica s, a que tem sido dada muito pouca atenção.
Foi, em seguida, constantemente afirmada em obras portuguesas do Renas-
cimento. A fórmula mais empolgante e convincente que Camões lhe encon-
trou foi a da continuidade garantida pelo poder real, que desse modo, teria
uma responsabilidade especffica de Estado, sem prejuízo das que pertencem
à Nação.
A importância desta posição está em que envolve a aceitação do
conceito de decadência política da nação, sem afectar a própria essência
de nacionalidade, Foi essa a nova posição que Pedro Matiz trouxe para
a cultura histórica pormguesa dando lugar a uma história sequente, mas
«vária» ~ com «decadências» e «esplendores».
Deverá dizer-se que a dinâmica destas «sugestões» se desenvolveu
ainda noutros sentidos. Um deles foi o de atribuir uma realização provi-
deneialista à «Linhagem Lusitana», uma vez que esta se tinha assumido,
desde havia séeulos, como uma das vias em que a diferênciação da Penín-
sula se manifestou com sucesso político garantido. Uma tal linhagem~ era
eoncebida à maneira de Tiro Lívio, isto é, como a expressão da coerência
nacional que serviu de base às diferentes situaçôes sociais e dinásticas que
se manifestaram até 1580, como «monarquia lusi~» s.

,, ,, mi ii i |

2 Idem, lõídem, cap. I~


s Joáo de Barros, História do lmperador C/ar, mundo; 1." v¿q~o 1521, segundo 0~ texto
inicial, anotada por Rodrigues Lapa, Lisboa, 1960.
4 Pedro de Matiz, Sumário de Vária História, ~ 1597. A ideia prossegue em
Francisco Rodrigues Lobo.
s Frei Bernardo de Brito, Monarquia Lusitana, Parte I, ~aça, 15§7iS~da Parte,
L i s b o a , 1 6 0 9 . " ~ . «
Desde 1597 e nos anos seguintes, :a expressão pretendia salientar essa
unidade da sequência na divemdade das situa~, de onde tinha surgido
o ponto de partida, dentro da Península, do Portugal-Ocidente. Nesta
conceptua]ização de finais do século XVI, princípio do século XVII, pre-
tendia-se, pois, que, apesar de, na altura, a est~ificidade do poder polí-
tico português, estar incluída na mesma dinastia da monarquia csp~la,
a significativa experiência política ~, podia náo querer manter
esse trajccto histórico. Este dcfine-sc conw cotim nacional que persiste
e não pela circunst~cia política que, em dado momento, apresenta.
Esta opinião, depressa veio a relacionar-se, ao gosto dos tempos, com
«augúrios» sobrenaturais os mais surprccndentes, quanto ao regresso ao
«estado nacional» de realeza própria.
A perspectiva mais crítica que se llw seguiu, desenvolveu-se no
decurso do século XVIII. Sem deixar de ~-~r a ter um conteúdo com
suporte providencialista, neste caso, numa perspectiva efectivamente cató-
lica, apresentava, não obstante, tambím um bem diferenciado fundamento
concreto e sociol6gico. D. António Caetano de Smmt considera a sequência
histórica portuguesa como essen¢ialmeme temporal, comi continuidade
sentida numa genealogia real que conflui, primeiro, indirectamente, depois
de forma efectiva, na Casa de Bragança. E.qa tinha acabado assim, por
coincidir com o destino histórico de PmmgaL Uma tal situação identifi-
case com o estado português, o que, de algum modo, a punha ao par
dos Bourbons de França, arautos das «~ naturais» com que o
reino francês se der'mia. Assim conto ll~ dava tmm força nacional mais
forte de que os Bourbons de Espanha, cuja miss~ só se confirmou ao
p r o c u r a r r e c o n s t i ü fi r - - - o u p e l o m e n o s , ~ - - o p o d e r m a r í t i m o
medit~co e atlântico da Espanlm C-~n'li¢~
Cada dinastia tinha o seu destino ~. A sua função era defen-
dê-lo, isto é, realizá-lo. De algum nmdo. o ~o XIX adoptou teses de
natureza semelhante, emlmra o conteúdo político do poder não fosse o
mesmo e a linguagem política fosse mina, com exigências diversas quanto
à sua formulação. No domínio da ~, implicava a necessidade de
expHcitar a discriminação existealv quanto ao corpo nacional que cons-
tituia a sociedade portuguesa ~A: a opinião pública tinha-se tor-

História ~ da Caro ited Pwmfm~.


nado muito mais diversificada, os modos de a coordenar--ou funciona-
lizar--- tinha naturalmente de ser diverso do que era.
As formas de continuidade, os motores da dinamização e o modo
como a representaçio nacional se reforça e enfrenta a sua conflitualidade
específica evoluiram, lentamente, ao longo do século. Foram concebidas
com um conteúdo institucional e histórico mais complexo, menos implí-
cito e mais desafiado, envolvendo a consulta obrigatória do querer nacio-
nal. As «razões» da comunidade portuguesa que se tinha formado e man-
tido no extremo ocidental da Península (e o mesmo se verificou com as
outras), precisavam exibir e argumentar constantemente propostas de inter-
pretação que definissem um conteúdo operacional ajustado aos questioná-
rios relativos à nova situa~o da comunidade. Esses questionários, ao longo
do século, tinham-se transferido para um novo formulário político. Inicial-
mente, o seu teor passou, tão só, de providencial a causalista. Passou depois,
para o formulário jurídico e positivista que, durante algum tempo, dominou
a historiografia ocidental, sobretudo a de influência francesa. Herculano
apresenta, nesse sentido, uma teoria geral muito simples e acessível. Mas,
decerto que demasiado simples. Não admira, por isso, que o estudo apro-
íundado das estruturas políticas, administrativas, sociais, económicas e
culturais tenha chegado a conclusões que não confirmavam essas facilidades
interpretativas do panegirista de Mouzinho da Silveira. E fundamentalmente
foram muitos os estudos ---de Alberto Sampaio a Oama Barros e Leite
de Vasconcelos--que confirmavam a independência como um valor na-
cional e político muito superior «à vontade dos barões». Político, sim,
como já dizia Herculano, mas mais do que político. Confirmavam-no ainda
as pesquisas arqueológicas económicas e sociais sobre o mundo visigótico,
suevo e moçárabe, com vista a compreender as tinhas evolutivas da comu-
nidade que, nesses tempos, eventualmente se tinha definido no extremo
ocidente da Península. A sociedade constitucional exigia fundamentos mais
sólidos que só os políticos.

3--ACUSAÇÕES E DESTINO HISTÓRICO

Ao cabo de todo este debate sobre as formas de identificação hist6.


rica--ou tentativas de identificação-- aparece, sobretudo no último
quartel do século XIX, mas já expressa, cem anos antes, uma pergunta
com um novo conteúdo sociológico, agora numa formulação nãoprovi-
dencialista: «Para quê Pmlngal?».
A pergunta, ao lado do Immmo, não podia deixar de depender de
uma perspectiva, mas envolvi~ ¢unb~, uma grande medida causalista,
a n~idade da perceIN~ claro de uma finalidade. Por consequência,
obrigava ainda a que se ~ que essa f'malidade para Portugal estava
ao alcance da Nação. Ou será que esta pergunta não passava de uma
perversidade intelectual dos ddemmes dos grandes estados--que sempre
os houve em Portugal-- que sõ v6ma vantagens nos destinos imperiais
a que Portugal deveria e dever6 msociar-se?
E assim surge a questão sempre ~nl: para que servem as nações,
sobretudo as pequenas? Para que m~vem os ~dos sobretudo, os peque-
nos? Há nesta maneira de debater o Imablema hist6rico-político, o erro
da perspectiva quanto ao facto de sutxr que só grandes estados podem
empreender grandes realizações. N~o é ~. A d/v~dade das nações
garante a diversidade das L ........~ .
. . . . ~ ' m n ~ , ~ ~ © ¿ i 4 1 m ) u m c a m p o d e_
realizaçao nu fial imprescindível para a gsramia da capacidade criadora
ao homem. Nunca, nos testemunhos histórioas tradicionais qualquer nação
ou estado se justifica pela força e pela grandeza. Justifica-se pela duração.
Pode mostrá-la, pode representar-se desse nmdo, mas o essencial, para a
sua referência, é a menção do que fez, do que pretendeu e do que tem
«durado». Não obstante, a pergunta faz parte integrante do problema do
«destino histórico», para Portugal e para qualquer estado.
Estávamos, aí'mal, perante a particularização do debate sobre para
que servem as naçÕes e os estados e como se circunscrevem ou del/mitam
as suas funções. A resposta tinha da adoptar uma via de compreensão
ajustada às sucesslvas exigências da cultura média do século XIX. A sua
ordenação tinha de considerar formulações onde se impunham problemas
de antropologia política. A jusüficacão de um estado pelo poder exercido

a~e valor
eçavasuilclente para a
a t o.rn. ar-se, nofinafi.'dade
século XIX,da
umnação
valor portuguesa.
suspeito paraPassava
daí tirar
menaer-se que. era preciso definir a própria nação onde o povo.portu-
_tu gues se exprtmlsse co.mo uma forma do universo humano, provldo de
vmor para roem ao poiJüco. A pergunta na sua brutalidade, era esta para
que, mms «um» poder político independente?
O debate envolvia assim a din&~ca da sua criação e da sua exis-
tên.cia com o esclarecimento sobre as fases que essa evolução não podia
deLxar de ter fido. Como argumentação, deixava de bastar--embora
coutinuasse a ser essencial-- saber-se e sentir-se que a Nação existia
e queda existir.
A resposta a todos estes «para quê» não podia ser feita só com
a suficiência providencialista de Camões ou com o agnosticismo indife-
rente =--acaso necessário- de Herculano. Este tinha dado esse passo
decisivo que tinha tirado a História de Portugal, tanto da genealogia
como do providencialismo, entregando-o à história. Mas o «motor» que
propunha não deixava de ser aleatório e insuficiente, na sua decisão
voluntadsta, distante da economia, da cultura, da sociedade e da sua
capacidade de resposta. Era um ponto de partida. Nada mais. Colocava
o problema só numa perspectiva propriamente política: a eficácia da von-
tade dos grandes senhores do Condado Portucalense.
Contudo, como disse, a pergunta já se tinha enriquecido, com novos
conteúdos. E perguntava-se tambem: como administraram eles os tais
barões---essa possibilidade colectiva e a tomaram uma conjuntura favo-
rável? Tornava-se, assim, um problema histórico muito mais importante
conhecer as possibilidades colectivas da comunidade, o saber-se como
levou a efeito o aproveitam~nto dessas tais conjunturas favoráveis ou
como as transformou. Tornava-se essencial compreender melhor os «grandes
barões» que as tinha aproveitado, com eficácia, nas suas mentalidades,
recursos e criação de capacidade. A convergência do corpo nacional
tinha-se tomado indispensável alargar muito o que importava conhecer
desses «barõcs».
Deste modo, começava a determinar-se melhor um conceito de des-
tino histórico muito mais próximo do homem presente e a perceber-se
que esse destino em uma condição necessária para perceber o «para
qu~?» de uma independência. Dentro dele, vai desenvolver-se todo um
pensamento histórico e uma cxig~cia política e cultural. Surgem novos
«inventários» e novos «serviços» prcstados pela independência. Esta
última, de aquisição política mvc tambdm uma realização cultural, econó-
mica, social, ccumdnica, etc. Contudo, continuava sempre a expdmir-se
pela capacidade militar, essencial em todas as condições.
Dentro da mentalidade vivene~ta portuguesa do fim~ do século
passado e na primeira metade deste, o debate veio renovar-se, mais ou
menos, dentro destes parâmetros. Deverá dizer-se, sem receio, que a «de-
cadência» dos países hispAnieos era uma realidade, se quiséssemos ver
o seu atraso, face ao processo industrialista ocidental. Contudo, havia dois
pontos a considerar. Em primeiro lugar, era altamente discutível que assim
tivesse sido nas simaçõ¢s ~, c¢~n ~ ~i~ e outras formas
d e p o d e r, e m q u e a s ~ s e ~ m m m a v a m m t ü t o ~ i n t r a n s -
p o. ~ ~ ~ ~. TM ~~ ~ m~.~
mato de evenhmis deficiências de governo ou de mm~ pess¢nus
do que de deficiências esmmn~. Em segundo lugar, ~ se atreve,
hoje, a dizer que um atraso industrial é um ~ de cultura? 1~ certo,
porém, que desde o ~o XIX, essa «~» m m~hva de conse-
quências políticas. Não o plever ~ prova de ~! Os «possiveis»
deste ponto de vista, eram diversos e podiam ir--cmno foram-- até à
justificação dos pr6prios estados peninsulares. E assim foi dito e foi tentado!
Deste modo, a controv¿rsia sobre a origem das naçóes pe~mes
veio deslocar-se para o contemporâneo e para o debate sobre o que pode-
mos chamar as «razões» actuais das independências. O tema da deca-
dência, que nela se enfeixava numa formulação densa e acusat6ria pre-
tendeu ir ao encontro das circunstancias ideológicas contemporâneas e
tutelar todos os estados peninsulares no sentido da sua união. Todos
resistiram,l
A questão que dominava era a imposição exasperada --ainda que
~dosa.-- de uma irremediável decadência. E a nova pergunta toma-
va-.se quase um «~dgamento»: quem são os responsáveis?
A questão assim ~, ficava mais ao jeito do formulário político
do que de um debate científico.
A resposta, com facilidade se dirigia, seja no sentido da campanha
anil-clerical, anti-monfmtuica e anti-~fica, seja recíprocamente, anil-
-liberal e anti-democrática. Era a guerra civil pelas ideias. A «causa da
decadência dos povos peninsulal~» tonxm-se o problema central do tema
destino hist6rico e envolvia. E acrescentava-se a delimitação de responsá-
veis bem delimitados: ~ pode ter destino promissor quem continua
a ser governado por tais responsáveis? $6 «corrigindo»! Imediata-
mente se lhe acrescentou rena outra quest~ de reduzida tmidade de pontos
de vista, sobre se era pomivel confiar rena tal conecç~ e quem a faria.
Tornava-se, na verdade, asím, muito mais fácil ~dar finalidade polí-
fica e social ao debate da decadên~ reSlX~_.~bilhmnd_n classes sociais
e grup~ de pensamento, a ~ Igreja cat6fica ..ou enunciar outras
causas econ6mícas não menos acusat6Has: o «aUam» penimular, s6 era
solúvel com uma revolução «correctora» ideológica e ldialéctica. A averi-
guação de como enriqueceram naçóes mais pobres da~ Europa, pouco nos
preocupou. $6 fomos buseatr exemplos aos grandes estados! No que refere
a Portugal, se existia --- ou pareciam existir--- pontos de contacto nas
~ » h i s ~ d e e x a u t o r a ç ã o c o m o A n t e m d e O u e n t a l , q u i s d i z e r,
já as propostas~ de solução se apresentavam muito mais diferenciadas.
Certo era o que escol político-eleitoral, pouco se interessava em esclarecer
em profundidade as razões so,:iais, ocon6micas e culturais J do atraso, nas
suas modulações reais. Com notáveis excepções, preferiram aproveitar as
falsas evidências e jogar, digamos assim, com elas. A vida portuguesa não
concebeu nem preparou uma análise crítica da sociedade, no seu conjunto,
assim como ignorou os esclaw.cimentos que podia ir buscar às controvér-
sias variadas que se desenvolviam na Europa, na América ou mesmo no
Japão. Desinteressou-se do pe~ento político próprio; de estudar a sua
pr6pria situação, proferindo as posições doutrinárias aprendidas noutras
culturas mais em voga, levando a efeito deduções por generalidades, subal-
ternizando a dimensão e o alcmlce da sua ~ificidade social e até polt-
tica, que era indispensável considerar. O pensamento português gastou-se
na crítica, a partir de características, teorizações, ou em doutrinações
importadas que, ainda por cima, estavam muito aquém dos verdadeiros
debates europeus contempo~eos, la-se, em informação, pouco além da
Revue des deux Mondes e dos nomes «sensacionais». Nem a unidade da
dúvida, nem a paixão do acerto; a mera habilidade da consequência e
uma porta sempre aberta p.m-a a ambiguidade. Em todas as intervençõe.s,
a cultura portuguesa preferiu a fácil pol~«t ideológica e acusatóna,
dirigida, sempre ao objectivo de diagnosticar responsáveis. Não se hesi-
tava em designá-los: eram sempre os mesmos: os «outros»!.
Quanto mais facilmente se alijassem responsabilidades, melhor!
Houve, não obstante, neste contexto, um processo de análise da socie-
dade portuguesa. E com ela se acentnaram dois pontos. O primeiro vol-
tava.se para a discussão da origem de Portugal independente, de novo,
explicando, com acresclda compla~cia, pela accão do «omnde hom-,-»
cuja f'.mne e excepcional vontade própria tin~--ãgido ~ob're un~ãV~reà
da. sociedade portuguesa dada sobretudo como "
tivaporque prote~ca.
F .... - " . . . . . recep_
,o~__~mm que u~velra.. Martins apresentou a questão portuguesa, numa
mmra aramauca aa wda portu~ 7.

p.s OHveira Martins, História de Pm-~gd, l.S ediçáo do m'ightal do autor, Lisboa
1889; edi¢ão crítica .com uma in~o por Isabel de Faria e Albuquerque. Prefácio p~
Martim de Albuquerque. Lisboa, 1989. " ,.
O segundo ponto dirigia-se ao ddme ~ qual o caminho mais
eficaz que permitia preparar a sociedade ~=~t=g--~ de modo a enfrentar
os seus problemas: deveria levar-se a efeito rena crítica dura, impiedosa,
sem quaisquer atenuantes, a hábitos i~i~~'--~~---'= © lmmanos. Ou promover
estudos e preparar ambiente para se f,~~~ pm- que motivo a vida por-
tuguesa tinha estado sujeita, durante ~ de ~ ~o, ao descuido
das mudanças políticas. Que náo quiseram, oa náo souberam, estabelecer
uma política económica consistente e onde fossem cmedderadas as relações
entre agricultura e indústria, as condições dos transportes terrestres e
marítimos, de cabotagem e longo curso, ~ conto a criação de fundos
de investimento e defesa de mercados, ~ que um estado, mesmo
livre cambista, podia desempenhar? ~ dltima posição tinha, porém,
pouca popularidade. A excessiva hegemonia cio político puro,--expres-
são, decerto, pelo menos em certo grau, da importância do estado no
mercado de capitais--- não deu lugar nem ambiente para projectar, em
profundidade uma política económica e social, ajustada a uma sociedade
de baixa capitalização. E mesmo no campo político, não foram postos em
prática os instrumentos correctores que pudessem garantir a indispensável
eficácia e prestígio do regime constitucional. Ref'wa-se a falta de um su-
frágio eleitoral cuja escassa amplitude tornava o político dependente de
pequenos grupos. Citemos a limitada ponderação de um poder judicial
acessível e presfigiado e sobretudo o deficiente uso do poder moderador,
mal percebido, durante dezenas de anos, com um tipo de intervenção que
acabou por se confundir com a luta dos partidos, perdendo a sua inter-
venção o prestígio quanto mais necessário era que o tivesse. Evidentemente
que--melhor ou pior-- se formou mn escol para o dia-a-dia que man-
teve e assegurou um mínimo de eficácia nos serviços. Mas a única política
económica que se pode considerar elaborada foi a de Fontes Pereira de
Melo que quase só conseguiu acesso, no plano prático, no sistema in-
terno de transporte, em parte levado a efeito com capital estrangeiro,
em concorrência com o défice orçamental. Daí resultaram situações dra-
máticas, choques polític~ ~taculares, tes~nsab~~ agressivas,
quase sempre corrosivas da vontade nacional. A verdade é que os quadros
cresciam mais devagar que o desenvolvimento económico, este, por sua
vez, era mais lento que o crescimento demográfico e os capitais, acumula-
vam-se mais devagar que as exigências do défice. As disponibilidades
financeiras eram mal aproveitadas, por falta de «animação do mercado
português deteriorado pelos baixos salários e pela balança comercial
constantemente deficitária. Podemos, portanto, falar só em responsabili-
dades do escol político? Não haverá aqui uma sociedade com erradas
noções das suas responsabilidades? Uma grave imprevidênciada classe
média, que se transformou, nos pontos chaves da sua responsabilidade,
em mera insufrutuária de tuna estabilidade que nem quis gerir, nem
soube aproveitar?
No meio destas dificuldades de fundo, a convicção da necessidade
de um «grande homem» era alimentada de muras formas, numa estranha
simplificação dos problemas nacionais. Em primero lugar, pela história.
«Demonstrava-se» a existência do «grande homem», no passado, do mesmo
modo que se aludia exaltadamente, à sua «falta» no mundo :contempo-
râneo. Acrescentava-se que não raro esse «grande homem» era incom-
preendido! Os responsáveis eram «convidados» a declarar-se cabotinos e
incapazes. O ambiente assim criado para alimento da opinião pública
era a crítica fácil e engraçada. João da Ega, personagem fabricada por
Eça de Queiroz exibia assim esse criticismo ambíguo e paradoxal, a que
ele próprio não escapava. Poucas vezes se tem percebido que ele era
mais a imagem de um país culturalmente fútil e importador de «ideias»
do que de uma «pessoa». E vamos encontrá-la em diferentes variantes,
desde a «republicana» de João Chagas, à finaça de Paulo Os~rio. A crítica
desempenhava, pois, uma função de mera agitação, inútil como orientação.
Ramalho era pouco e chegou tarde. Agostinho de Campos, mais tarde
ainda. Inconsequente particularista, essa crítica, ainda que necessária,
sózinha, cansava as energias da nação mais do que as estimulava.
A própria dinastia que governava o País, desde o século XVII,
era brutalmente desfigurada ou caricaturada, referindo, com inaudita pre-
cipitação, uma mediocridade que, além de falsa, servia para criar no
contemporâneo a convicção perigosa de que o problema nacional estava
exclusivamente ligado às instituições monárquicas. Foi fácil, negas con-
dições por causa de um rei, aliás inferior, condenar um regime.
Das transformações tecnológicas conteml~râneas, aproveitáveis por
um país pobre, das condições da agricultura, das deficiências da classe
média e da sua mentalidade, da competência empresarial, nem uma pala-
vra que se percebesse serem questõe~ de fundo a discutir como temas
nacionais.
A partir de 1876, verificou-se o aumento intensivo das responsabi-
lidades coloniais portugu~ e um consequente envolvimento mais com-
plexo nas questões internacionais.
As dificuldades inevitáveis que uma política externa negociada en-
volve sempre, não podiam ser percebidas pek~ quadros políticos médios,
ensinados, por uma história euforizante ou dep~iva que os não deixava
perceber que Portugal sempre viveu enfrentando obstáculos que a sua
presença internacional inevitavelmente não podia deixar de envolver. Esta
formação euforizante e grandiloquente diminuia afinal a confiança pública
para enfrentar as inevitáveis oscilações dos debates internacionais, quando
eles adquiriam uma dimensão próxima das tensões pr6prias das lutas de
influência regional. Os quadros diplomáticos, no seu conjunto, estavam
mal preparados para as exigências que envolve a diplomacia de uma
pequena potência.
O «ulfimatum» de 11 de Janeiro de 1890 polarizou todo este ambiente
de descrença e desorientação colecfivas, tanto entre os responsáveis como
nos próprios cidadãos. Nesse conjunto de meditações, gritaria, censuras,
exaltações e procura de «culpados» pelo «insulto», mistura=se a evocação
dos grandes feitos antigos, com sonhos de grandeza que não tínhamos
e alguns políticos queriam que tivessemos. Imprevidência máxima, pois
Portugal tinha tudo, excepto a cedência pública e activa de que o desen-
volvimento devia ser uma prioridade nacional, superior à ridícula questão
do regime político ou da inacreditável ênfase no «perigo» clerical. Nestas
condições, a sensação de destino histórico não podia ser de felicidade ou
de esperança. Parecia mais importante encontrar os «culpados» de tudo!
Em consequência disse, para muitos, o destino hist6rico de Portugal, em
princípio do século XX, tornou-se a República.
Tomou entretanto, corpo uma antropologia nacional onde, entre outros
temas, coube, a já referida pergunta sobre se Portugal tinha destino
histórico. Pergunta que, afinal decorria da situação de decadência que
lhe tinha sido diagnosticada, num processo colectivo de angústia, ligada
à fraqueza de espírito crítico nacional, rimalizada na exploração do ri-
dículo secundário,- na exautoração pelas «grand~ razões», proporcional-
mente ao efeito que tinham através dos meios de comunicação, na fraca
solidariedade social possível e na incapacidade em vencer o atraso indus-
trial. Decadência efectiva? Decerto que sim n~ domínio, mas não havia
qualquer razão .para a ligar à confiança no futuro. No plano das priori-
dades e das dec~ a tomar, não se partia da certeza de uma decadência

p
b ~ l~~. e definida que era preciso e~'.rentar. O apocalipse desse
USIVeI$ e OlOCl:l~'a$.
Um processo semente, acaso mais dramlítico, se verificou em
Espanha, embora a problemática trabalhada e as forças sociais e políticas
envolvidas não fossem as mesmas, nem coincidissem os apelos e as con-
vicções mais correntes nos dois estados.
Naquele radico apocalítico, na verificação de um desajustamento
superficialmente averiguado, ou na constituição de partidos que propunham
soluções voltadas para o imediato confronto com as realidades da deca-
dência, não se pode dizer que não se tivesse verificado uma reanálise de
toda a problemática penin~ar, tanto espanhola como portuguesa. Hão
com os mesmos resultados, em termos ideológicos. Apesar de tudo, em
ambos os casos, o diagn6stico popular nunca foi tão severo como o que-
riam os intelecümis que tinham dirigido os libelos. Para eles, tudo estava
perdido. O povo, esse guardava mais conf'mnça nos seus pr6prios recursos.
Afinal, na verdade, fossem eles quais fossem, os erros s6 lhes pertenciam
em muito escasso grau! No meio deste desencontro de opiniões, começaram
a surgir as antropologias de exautoração e louvor do povo português que
se ligavam tanto a um romantismo fatigante, como a um tecnocratismo
agnóstico, tão esüípido como o primeiro ". ~ atitude subaltemizante foi
muito menor na cultura espanhola, onde a gmlbra de Ganivet limitava
as críticas fáceis.
A situação levou a que toda a vida peninsular, nas suas modalidades
de estado e nações se questionasse de diferentes modos: a preocupação
em «encontrar» um destino «histórico» tocava a todos. A solução essa
continuava variável.
Após tantas controvérsias desenvolvidas em tão longo período, pode-
remos ter de voltar a estabelecer--neste novo contexto---o que se
entende por destino histórico, neste tempo de crítica exacerbada que pa-
rece querer atingir os próprios fundamentos das nações? Destino histórico,
passou então a dirigir-se muito mais à consciência da situação em que nos
encontrávamos, como comunidade, acmsc~ntada da experiência que nos
foi dada pelas outras situações problemáticas, que em comum, enfrentámos
e resolvemos.
Mantemos a vontade de continuarmos a comunidade constituída, tendo
em conta, para esse efeito, a certeza actunulada de que podemos empre-

s Ct. Basilio Tck~ Do UIFa~mm ~ 31 ge ,l~, Perto, 1905.


ender a mesma caminhada aprofundada, diversfficada, e de algum modo,
preparada na experi6ncia. Não se revclou ela como uma vivência bem
sucedida---no plano social, político e cultural, assim como na cooperação
e nas relações internacionais?
Conceber um destino histórico acaba por conduzir a uma forma
de estabelecer um quadro da personalidad¢ nacional onde devem estar
presentes os modos cspccfficos de sensibilidade dos quais tem resultado
um enriquecimento do humano, naquele sentido que temos explorado e
que, sem a nossa actividade, nunca se teriam realizado. Particular ou
colectiva, arbitrária, circunstancial ou consequente, a consciência nacional,
indispensável ao destino histórico, prova-sc pela integração sint6tica das
atitudcs bem suadas que, em contextos sucessivos, sc verificaram, numa
teoria geral do sucesso. Deste modo, a comunidade pode dispor de meios
críticos interpretativos, susceplíveis de anafisar as vias possíveis para
enfrentar os comportamentos ineficazes, dentro daqueles parãmetros de
equih'brio de «sensibilidade ~ experiência ~ razão». Vêm caracterizar a
maneira pormguesa de ser. Tem, por eles, aprendido a recusar as sugestões
de quem tentou substitui-los como, por várias vezes, sucedeu ou tentou
que sucexiesse. A permanência da nação portuguesa tem, atrás de si, um
cemitério de ideologias que se lhe quiseram sobrepor. Estamos, nos nossos
dias, a assistir ao funeral de mais uma delas. E a pergunta que põe é esta:
estamos nós em condições de continuar a comtiüdr uma eficácia nacional?
Que conteúdo, efectivamente profundo, podemos nós facultar ao triunfa-
lismo tecnocrático e da imediaUdade eficiente que não seja retórico, folcl6-
rico ou circunstancial? Pode a cultura portuguesa integrar a tecnocracia
na sua força nacional? Dará a consciência do destino histórico força para
tuna teorização própria e não isotérica? Para responder a esta grave per-
gunta tem de se saber que destino histórico é, indissolúvel da experiência
adquirida pelos portugueses a que é preciso acrescentar a renovada capaci-
dade de um esforço realizador. A sua criatividade e esperança começa por
ser inseparável do caminho que a comunidade tem podido seguir, de acordo
com a consequência que foi adquirindo, relativamente às suas pr6prias
forças e que, pela história, aprendeu a medir. Mas envolve também---e
inevitavelmente-- a que for capaz de criar de novo. Sem responder
a esta condição, a experiência acumulada perde sentido. Sem criação
renovada não há desuno histórico.
Dir-se-á, antes de mais, que, além da nossa experiência histórica e
da esperança que, a partir dela, acerca de nós mesmo formulamos, face
aos obstáculos e insucessoL Para tanto continua a ser primacial o lugar
geográfico que ocup~. Com ele, podemos delimitar em relação a
outros povos e nações, vias de interesse comuns, formas de dissuasão
com que não concordanms e de converg~ que nos convenham, ou de
interpretação política, social e económica que criem uma regra não arbi-
trária de orientação, com a vantagem de a pe~ «executivamente».
Pertencem à de.f'mição do destino histórico, estes três conteúdos
--«experiência histónca», ~ e realizaçôes», «exploração das pos-
sibilidades do lugar». Fundem-se mmm ~tNão colectiva adequada ao
plano de acção e estabelecem trem dimens~ para garantir uma continui-
dade, estabelecer um desenvolto e defender uma identidade. Nada
disso pode exprimir-se: s6 em «poder ser». Tem de abranger numa dimen-
são maior: a de «ser».

4-- ABRIR CAMINHOS

A esse respeito, a história confirma que sempre nos temos mantido


como comunidade da Península Ibérica, constituída como área específica
embora nem sempre com poder próprio. Evoluiu não arbitrariamente; soube
ter em conta o jogo de forças que nela se def'miram, e passou !depois a
áreas mais vastas. As propostas pormguesas nasceram ou tomaram força
na Península, passaram para o Atlântico, o Mate Nostrum que a civilização
europeia, depois do Mediterrâneo, logrou constituir. Empreendimento que
se deve, sem dúvida, ~ acção dos dois Estados peninsulares. Contudo, o
processo seda incompreensível sem a experiência genoveza, sem as novas
perspectivas portuguesas, face ao Atlântico-Sul em direcção ao Oriente
asiático ou sem a definição das vias no sentido Aflãntico-Ocidental que
coube à Espanha patrocinar. Assim, saiu da Península a deslocação euro-
peia: para Ocidente e para o Oriente. Nos finais do século XV, para Oci-
dente, onde foram ao encontro, de novas comunidades desconhecidas. Pela
mesma altura, os portugueses tomaram conta das relações marítimas com
o Extremo Oriente, até essa altura, dependentes dos intermediários medi-
terrânicos. E sendo diferentes, em processo e sentido, estes novos dois movi-
mentos do mundo ocidental, partiram da Pentnsula Ibérica e asseguraram,
de modo irreversivel, a sua mundializaç~ consolidada: Portugal, mais ou
menos, voltado para a dimensão atlântica inerente ao seu equil~rio; a
Espa,ha, mais ou menos, ~ com a o0mb/mçío doe estatutos
continental, medi~ e a~ desse equil/br~, no ponto mais
difícil de o comeg,~, a ~ Oc/deatal. Os dois desúnos bistóricos
d e P o r m ~ e d e ~ ~ s e m s e o n f , = d h ~ a . o l w. a r a m
toda a Pen/nsula penmte um destino ~ a que ¡não fugiram. Sem
a sua acção, mal se pode ~ q-~_.udo, ou como, encontrada a
inevitável dimensão que, ainda hoje ~ o mundo ocidental na
área do Atlhtico. Assim como se não sabe como iria so encontro das
outras ár~ maddmas i xn- onde ~ chesa a out~ mnj.-,tos de civi-
lizações.
O processo de integração do A~ na Europl em t~s sentidos
--Sul, Leste, Oeste-- é ~ ~. Uma vez mdizado,
acabou por abranger a Terra inteh-a e criar um novo O¢idente. A Ingla-
terra que começou por não tomar posiçio no Atlãnti¢o Sul, avançou do
Norte para Nordeste-Sudeste. C.~ assim a vontade atl~tica da
Europa de que fomos os ~ ~.
No que se refere a Portusal- tal como obvismente, à Espanha--
acaso um tal processo se desenvolveu de costas voltadas ipara o c~ntinente?
Impossível faz¿-lo porque, sem a partkipaç~ deste último, a expansão
atlãntica não tinha sentido, nem suporte. Para que serviria a expansão
no Mar Oceano, sem as vir~Al;d_~, os consumos e as exigencias do
Medi~ e do Mar do Norte? Como sustentar a presença no Oriente
sem a garantia da produção europeia e a capacidade ;receptora e expor-
tadora dos seus mercadores?
É uma forma de apoio como outra qualquer, esse poder de. compra,
essas aptidões de escolha mnsmno das novas m~rias. E afinal
deste modo que a Europa existe s6 assim sabe manter-se: exige novi-
dade e q~~~liã~O~, inventa meios para as adquirir. Combina meios e re-
cursos para se poderem empreender viagens contactos que o mercado
consumidor europeu tem condições para manter e alargar. A Europa não
se importa de «precisar»: quer ter 8arautida a «escolha». O que nos
séculos XV e XVI, Portugal e a Espanha traziam dos novos territ0rios
a Europa pagava. Como tal escolhia. Era flagrante que este processo não
podia proese8uir s6 apoiado nos estados pe~,, como não prosse-
BUIU, s6 com árabes ou venezianm ou outros monopolistas. Na verdade, a
civilizaçí~ ocidental e os seus consmnidores, as «mercadorias» espirituais
---náo s6 as religimas- a formação cultural, o gosto da escolha e da
novidade, a procura de alternativa, a apreciação das!novas mercadorias
e encomendas não eram só peninsulares. Tudo sc integra numa cultura
muito especial que é a trama, ocidental voRada para o «poder ser», não
no mito que fixa os Cc, mpo~T«E~tm, mas no real e «observa» o que vê.
Há toda uma formaç, ío memal emolada de exigência e razão, de cons-
trução de um quotidiano, com sentido onde a própria mediocridade não é
contraditória com o bom senso e ~ o aproveitamento da racionalidade
mínima nunca desaparece das ~ col~as.
A civilização europeia ~ construído ou alcançado, em pontos
essenciais, uma capacidade de ~, recepç~ e surpresa, de inserção
do «novo» no adquirido. $6 ~ que a criafi~dade, a coragem e os
meios t6cnicos manejadm por genro, tmammmn acessível esse «novo» para
o poder receber e co~. Esta atitude tanto sv manifesta no pensa-
mento, como na arte, na acção, no pemmmento, nas armas, nos meios
de pagamento. É afinal uma das marcas do es#fito europeu. Não se tem
s u fi c i e n t e m e n t e s a l i e n t a d o , a ~ d e c i s i v a d a c o n fi a n ç a e u r o p e i a
na racionalidade, como bondade não cap/idmsa de IMus--como S. Fran-
cisco admiravelmente exprimiu e foi o lamm de partida da argumentação
de Teilhard de Chardin. Para este modo crist~ de pensar, Os mundos
podem ser novos e surpreendentes (e sáo-nm, na verdade), mas não podem
ser absurdos ou maus, em si mesmos. Podiam não conhecer Cristo, mas
não podiam ser incapazes de o conhecer. Assim os define Tomás Movas,
o opo.rtuno inventor da utopia..O universo da racionalidade representa a
essêncm da mentalidade europem.
Por um conjunto de factores, de que a:..__t._ de --~'-
,~,pum~ _ conmçoes para
s u s t e n t a r. P o r h m a l n , M . . - - . _ _ t , . . . . .
Essa _sugestão
. - - - - ~ - - avm,~
~ u uPortu,-+~
a n w - m a ---~'-
o n e n-t a 4 o s p a r a a b u s c a d o lântico.
-a---- - -+us,u, a ~ ~ rima certa altu
At "
. ra, se tornou sell-
sível, não era estranha ao mundo-----:---,-- ,.- ....
em Portugal, duas vias ,,-,-- ,,-.. ~" r~e~__ con .mxto.vao; defimr-se,
_ . _ , t"~u ~ ~~lO QC¿qlUO. Ullla ll~~~l-Ja ma~;¢--..«..o
~.~o ~v ~~~--tmo-~gon~, ,, p~~ de po~~ no*....~~-'7,,.,-,mr..u
"~~'~-u
Onental. Uma s¢mmda assen,.--. ......... ,
_, ,~v« ua vonmae e na verseveranea ~,~ -.:..
gu" munaos . _ .o--
proximos~ na á»o o.~A_.:__ ,__ .__ _-- -----T-- ,..u «,~-
, -~,u a.a.auut,-¿/ I ogo "
í~ll~~llín Oo Mediterrâneo. como
u m .-.,»,,,-.v
n h , ~ , , , , , u--.SLUU
n : - . . : . ~ _ ~a ~nca . . . - do Norte Me,, ..~_: .... . . -._
t.a l d a «n e- ---¢~ -, .. ,. uaJ-. a. .»- -j k, ~.l.u. :. ;.u. .~. l E I O c a i n-d o--..,,
r m a '~ hlm que,
~ E o na
. . . .tatua
..... ocmen-
,.

ter, ~ nmdo, o isolamento extremo-


~ i "a u_u , em qualquer eventual confronto penin-
sular?
Que alargava, deste modo, a sua infl~ na entrada atlântica do
Mediterrãneo, é evidente. O que não há dúvida é que mmtos séculos
antes da unidade espanhola conseguida pelos Reis Católicos, toda a
Península Ibérica tinha interesses políticos, estratégicos, militares, cultu-
rais ou religiosos ligados ao Mediterrâneo. A conquista de Ceuta e a
política marroquina de D. Afonso V mantinham Portugal muito mais na
área estratégica específica à Penínmla do que em 1385-1385, quando
teve necessidade de recorrer à afiança inglesa na mesma intenção de se
defender contra Castela.
A primeira fase dos ~tos portugueses do séeulo XV está
essencialmente ligada à Península ~ea e ao Atlântico Sul e s~ comerei-
almente se inte~va pela Europa do Mar do Norte. Mas o signifieativo
é que a preocupação de Portul~ pelo mercado etn~~ ocidental logo
aumentou com o fim da guerra dos 100 anos e o mais livre acesso aos
mercados do Norte. O mesmo se verificou, em sentido contrário, com os
Reis Católicos que, pela mesma altura, passaram a «apm~-se» do Mar
Oceano, abrindo-se mesmo hostifidades na guerra com os Reis Católicos
que se encerraram com o tratado das Alcíçovas em 1479. Depois o inte-
resse pelo Atlântico tomott-se comum à Penínmla. Enquanto, na Europa
Ocidental a presença espanhola é pofiüca, a imrtuguesa é comercial e
estratégica, além de, evidencie, refigizsa. No AtlânUco, no entanto,
as vias preferidas pelos dois imde~res tmafinmlares são diferentes- a Espanha
dirige-se, com Colombo, para o O¢idente do Atlântico. Pormgal, com
Diogo Cão, Bartolomeu Dias e Vaseo da Gama diri~ para o Sul; e
daí para o Oceano Indico, a Leste do Atlântico.
A partir destes pontos essenciais, bem se per~bem as diferenças
e as proximidades entre o destino histórico de Portugal e o de Espanha,
sendo certo que a unidade política desta última foi alcançada no século
XV. Diferenças na execução, proximidade nos objectivos: Portugal alar-
gou rapidamente de Ceuta ao Mar Oceano, em direcç~ à Macieira, aos
Açores, à Costa de Africa, ao Golfo da Guiné, para prosseguir, como foi
atrás referido, enquanto a Espanha se dirigia para Oeste como o fez
depois, Portugal com o Brasil. A expansão atlântica europeia cujo início
realizador pertenceu a Portugal, foi seguido, pouco depois, pela Espanha:
as potências europeias peninsulares que dispu~ o domínio do Atlân-
tico próximo. Prosseguem depois com resultados diferentes.
E aqui se inicia um terceiro aspecto que, de novo, revela um des-
tino histórico, em paralelo, mas não em coincidência com a Espanha:
diferem nos espaços acessíveis à dimensão unitária c(mlo «cultura-civili-
zação», sem perder a diversidade que precisam para se determinarem em
autonomia de desenvolvimento. Essa característica ocupa uma posição
essencial e desenvolveu-se em cinco séculos de história portuguesa e espa-
nhola. E se exprimiu, dentro de uma evidente tensão unificadora, mais
religiosa que nacional, não deixou por isso, de apresentar as marcas
diferenciais de povos e de ~res políticos. Não deixou igualmente de
ser marcada por sucessos e insu~, exI~riências vãs e tentativas que
se revelarmn sem espírito observador e verdadeiramente expe~ental.
Tiveram falhas graves que forçaram a su~vas correcções. Todas elas
procuravam encontrar um modo de imposição, simultâneamente, bem suce-
dido na área política, religiosa, económica e social. Mas o conflito entre
essas diferentes exigências humanas é sempre profundo e não raro radical.
A consciência do sobrenatural ---que é uma ~lha--- nem sempre sabe
resistir, em bem, quando se confronta com exigências materiais imediatas,
recebidas sem a espirituafidade possível. De qualquer modo, Portugal e
Espanha tem, nos seus destinos históricos processos propnos de encontro
de cultura e civilização que constituem uma parte muito significativa de
tudo quanto a história da humanidade tem a dizer nesse conflito. E muito
de tudo isso é positivo. E se comp~os--apesar dos seus erros--os
processos seguidos por portugueses e espa~óis, com os que outros estados
adoptaram, em qualquer época ou região, decerto que encontramos nos
povos peninsulaw~ mais convergências de ci~ção bem sucedidas do
que as verificadas em p~ semelhantes, desde a sinização, à romani-
zação, à islamização, a oriente ou a ocidente.
Os portugueses começaram pela ocupação político-mifitar e presença
religiosa. Desde cedo verificaram as suas difi~dades, quando quiseram
levar a efeito a aproximação em áreas de confronto e ameaça, como suce-
deu em Marrocos. Os seus melhores resultados foram conseguidos nas ilhas
do Atlântico e no Brasil. No caso das ilhas Atlânticas, pôs-se mesmo à
prova um sistema de delegação de poderes consubstanciado nas capitanias
cuja experiência veio a ser da maior Utilidade, em situações bem diferen-
tes, no Oceano Indico e mesmo no Pacífico.
O primeiro insucesso verificado neste contacto de civilizações e do res-
ponsabilidades dos portugueses foi o que se passou com o ~go, iniciado
em boas condições no reinado de D. João II mas que se comprometeu
gravemente com o desenvolvimento da ~vatura, para o Brasil, sobretudo
a partir do reinado de D. João III. Na |ndia, onde os portugueses chegaram
já com a experiência de mais de meio século de contacto de civilizações,
foram confrontados com uma situaç~ semelhante à que já conheciam em
Marm¢~: povos diversos, de cul/mm bem -" --" "' rum respostas
próprias e habituadas aos desafias de omitas cslmms, iPor outro lado,
tinham ligaç~ mSmm com o mundo oci~ embora asa ligação fosse
de re~txmsabilids~ de in~ ~ A ~o portuguesa,
ao descobrir o:cmminlw a~ proa ~ ~ pe~ eliminar o inter-
. _
mediário islãmico e por forçar o ------=----- l.J
J
de uma verdadeira
expansão da conomia ~ ~ rum sovas solicitaçóes, a
aumentar a produção mineira, sgrí:o~ ~ A n~posta europeia
des¢nvolveu-se a partir doséculo XV e ~ em diversos domínios,
u m a v a n ç o t e c n o l 6 g i c o q u e a c a b o u p o r ~ à v. - w l u ç ã o i n d u s t r i a l .
A pressão dos novos mercados fez-se semi. tmSo ,~, Europa Central, da
Hungria à Flandres, como na Penflm~ ~ na Ing[s/erra, ou na França
ou mesmo no :velho Medi~. Esta ~ ~ ,no seu conjunto,
foi uma condição para a sob~ cmop¢ia. Na India, o efeito cons-
Ütufdo pela presença portuguesa envolveu toda Ima shie de contactos de
aliados e hierarquia dos «~ em que os ~ foram e~os
© a que não tem sido dada a dc~'ida ~ I~ alargado, a partir
d e fi n a i s d o s é c t d o X V I , a I m l s n d e s m , ~ ~ e i n ú m e r a s
civilizações inteiramente desconlm:idss de qm mmlum um melhor conhe-
cimento da realidade oriental e ~ ~ pelos aspectos políti-
cos-religiosos. Contudo, nem por isso, dmim~ de sc msmer uma indiscutível
influ¿~ncia recíproca de uma arre msmpãa o¢idm~ de que a arre indo-
-portuguesa é um exemplo bem s~uificJ~o. Com ma: sucesso relativo,
o q u e b e m p o d e d i z e r - B e é q u e . n a a l t m ' a f o r a m e s ~ q u e ~ 11 c o n -
s i d e r o u como perfeitamente possível a ~ entre a cultura ociden-
tal e as culturas orientms, empmn~ ramos ~ a sua incompatibi-
lidade.

ren.tes aos comrontados.pelos mpsnl~ na ~ Central e do Sul.


:~. em re
a~~'mmu'aOS g i & = _ c u~r amurro¿ou
c u l t u r a e r a Brasil
n o t á v e l d e completamente
organlzaç~[o
u v a , d~ms
a s s mque
m ¢ z : m m a h f .no o m m s d e foram..1~ ~ ......, . -
a,.,4.*;,, . . . . . . . . . _- . . _
s ~ ~ , r ~ a / I z a Ç o e s
:--.,~ ~ _~mum¢a..mw, amaa que de ma reduzida ~dade tecnol¿-
glca. r.m omrapm.üdm no Brasil havim um escasso nível de desenvolvi-
meato, das po~ ~, embora ~por uma mande
c a l ~ _ C l m m e d e a j u s t m n m l t o ~ s ~ d o m e / o . aN
u ã~o
a ~.i J
m ~. r. a
. .m. g" r a n-o e
- - - J - ~ -
~~ ~ ~~ q~'
L _ . .
mi° .L~~.' P~~ coS~bor~~o
.~~ aup~r u ~, para os seus ~ de sxolo~-~,, ~-,,,,/,-
Congo, cuja invasão pela escravatura eliminou, quase por completo, .a
obra missionária. Para instalar a indústria do açúcar e promover depom
a mineração, os portugueses foram buscar escravos negros à Africa tropical
e equatorial, criando assim uma sociedade cscravocrata ligada ao escravo
negro. Por outro lado, desenvolv~ uma larga mes¢la de mestiços, ao
lado de uma minoria de indígenas.
A sociedade que daí resultou 6 inteiramente específica pela mes¢la
de influências que lhe dão um indiscutível cunlw próprio. Na América,
que deveria chamar-se,hispânica e não latina, o traçado e a área dos
reinos, estados ou pressões orientou-se para locali~ções funcionais, bem
diferenciadas, onde o poHtico tinha muito a dizer, apesar da proximidade
religiosa e dos padrões comuns de absolutismo social. Mas se essa dife-
rença é indiscuffvel, também existem expressões de proximidade. No que
se refere a um ponto táo importante como a definiçâo da fronteira brasi-
leira, ela resultou de um acordo entre os dois países peninsulares (0
tratado de Madrid em 1750), pelo qual se estabeleceu a fronteira entre as
duas poss~ peninsulares.
E se foram diversos os lugares americanos de contacto entre os dois
mundos pe~ares, nunca deixou de existir a irreversível força propul-
sora das diferenças.
São acontecimentos desta gigantesca na~ que nos ensinam quanto
os conjuntos nacionais estáveis constituem prolmstas necem~as de inter-
pretação do mundo e da vida. O polltico essencial limita-se a fixá-las. E essa
interpretação vai desde as concepções de espaços ou formas da sua ocupa-
ção, às relações entre os homens, distribuição da riqueza, formas de
hierarquia social, criaçáo artística e literária, conceptuaHzação e formas
de argumento, percepç~ da riqueza, no seu conteúdo e f'~dade, moda-
lidades de consciência, percepç~ do sobrena~, da Providência, modo
de integração da representação no real e sua transformação, num critério
com sentido, imagem do humano, como intimidade e comunicação. As duas
concepções peninsulares~são próximas, são irmãs, mas não coincidem. Com
as preversões que, em muitos casos, derivam das pressões materiais ou da
soberba e do poder, tiveram defeitos e levantaram ~a. Mas tam~
criaram a beleza de que formn capm~ e que imrdum, diversificaram na
América do Sul propostas un/versais, ~,mr-I~ novas vivências que
se corporizaram em viabilidades ~ em comunidades, que, por
elas, afinal, se exprimiram. Acabaram tm~ por remar consclêncla dos
seus próprios erros. E a~ do destino ~, em termos de «cons-
trução» de sociedades novas podia prosseguir até às posições portuguesas
e espanholas em Ãfdca nos séculos XIX e XX, uma, na área mediterrânica
e outra, na Zona tropical e subtropical. Nenhuma delas pode separar-se
quer da evolução histórica dos dois países peninsulares quer do destino
europeu.
O nosso mundo ocidental, no conjunto, constituí uma das exp~s
originais e responsáveis do humano. Dispõe de amplas propostas e recursos
para se diversificar. Na sua essência, revela uma intensa curiosidade pelo
mundo exterior, ao lado de uma profunda convicção quanto à sua raciona-
lidade, uma certeza quanto à possibilidade da sua um~ormação com sen-
tido. A cultura ocidental vive a certeza de que pode acrescentar realidade
ao que lá existe. Em nenhmn universo cultural, como na Europa, essa
consciência chegou a uma tão aguda certeza, tanto na sua coerência in-
terna, como nas relações entre o «exterior» e a intimidade, criando para
a sua anáfise, processos próprios de pesquisa seja para a verificação das
suas possibilidades, seja dos equivv¢os a que pode dar lugar. A sua criati-
vidade unitária envolve uma constante procura de novos caminhos, e
novas verificações. A atitude está, sem dúvida, relacionada com um entu-
siástico gosto pelo risco de ~ sem perder de vista a necessidade de
tuna constante revisão, verificação ou corrigenda, na constante procura mais
das condi~ do «comento» científico do que da certeza da própria
verdade, sempre em aberto. Decerto que, na cultm~ ocidental, se respira
mais o debate, a preocupação em não substantivar demasiado o real ---de-
pendente, decerto, mas não absurdo-- a necessidade de rever conceitos,
mesmo quando eles pareçam evidentes. Há, nesta alün~, uma intrínseca
consciência do papel da objecção e da alternativa, do lado de um cons-
tante esforço, tanto para sistematizar como capacidade para rever e ~mesmo
substituir os sistemas propostos. As diferentes ~as analíticas ou
expressivas que dentro dela---como conjunto--- se formaram (e tão carac-
terísticas, que também se chamaram cule) são explorações diferentes
do universo muito especialmente padro~do, primeiro que tudo pela
racionafidade do real, como exigência metafísica. ~tudo, náo se deduz
daí uma só racionalidade, mas, sobretudo, a igualdade de todos os homens
em relação a ela. Para o conseguir, estabel~se virtualidades a explorar
que revêem ou renovam resultados antes alcançados. +
No cadinho complexo das culturas formadas, a partir de uma tal
raiz comum, +as interpretações que, na Península Ibérica, se desenvolve-
raro, constituem uma prova tanto da n~dade como da capacidade
criadora da diferenci~dade, com meios de verificação que podem ir até
à contestaçáo te6rica ou à criação de novas outrm a que assegurem
unidade e expressão. Decerto que não formulamos um juízo errado se
dissermos que o penmmento peninsular tem muito de inconfundivel, onde
um elemento comum bem caracterizado é a dúvida quanto à sufici¿Lncia da
racionalidade abstracta. ~ a afirmar que unto tal atitude dá ao
homem a possibHdade de acrescentar ao mundo que o rodeia ~ dimensão
criadora da afectividade, inventando perspectivas, concebendo desenvolvi-
mentes que começaram por semm meras rderêncim de excepção con-
quistam realidades pela descoberta de novas cocz¿-nd~ cu~os componentes
passam a combinar-se de uma forma inconfundível.
Constitui uma aquisição fundamental o facto dos homens ~ per-
cebido que da sua característica virtual proteica resulta tuna permanente
hip6tese de diversificação, assim como o encontro de novos modos de
expressão. A dimensão histórica realizada no mundo po~& é um desses
modos. Exprime-se, num equilíbrio de pemo~ m~io, afectividade, raciona-
1idade, consciência do passado e mm~~ m ~lnfiráveis l~dizações,
no campo da arte, da literatura, da ~ do mundo e do homem,
tanto o particular, como o colectivo. A sua ~ pela inventar recur-
sos e projectos constitui uma forma Imrti¢a~ de o fmm- que não coincide
com qualquer outra, nem substitui nenlmmL A ~ ~ e dos
modos peninsulares mostram-nos como da ~ original deriva-
ram novos aprofundamentos, antes não ~ A certeza criadora do
particular é uma mensagem insubstituív~
As novas atitudes não se podem ~mmmmr como inevitáveis ou de
consequência única. São muito mais o ~ de propostas para
desenvolvimentos possíveis, oscilando ¢alx¢ ¢mil dhm'sidade e procurar
convergSncias, numa dial¿ctica que endqu¢¢ m ~ de que tinham
partido, mas que nada tinham de evidm~, ao ~ onde, acessoria-
mente, surgiram.

5---UNIDADE E DIVERSIDADE

E esta atitude de cultura hunmmimm q~, ao ~ !~ vida social


e política faz nascer e desenvolver as nações, as p~i~, os e~ados. A sua
diversidade a sua permanência permi~-m ~ a riqueza da sua
coerência derivada de propostas específicas para ~ diferentes da
única racionaiidade iniciaimente imm/ve, L As ~ a que dão lugar,
vão manifestar-se tanto na obra de artB, como na problemática humana
q u e p r e t e n d e m d e s e n v o l v e r, c o m o n a ~ ~ d a m o n t a g e m d o
poder e da sua defesa, apoiandoee sempre num roto de pessoa hu-
mana, simultílueamente, exclusivo diverso.
Não 6 preciso debater aqui a imporfllmi que tem para este debate
a consciencia destas posições ~ sntropológicas. O que,
sobretudo, importa salientar é que ~ a necessidade política de
considerar a uniformidade dos grandes conjuntos ~ como situações
sempre provisórias, descontinuas, s6 dJalec/Jes~~te preparatórias da diver-
sidade criadora. Daí se passará para novos conjuntos, com novas propostas
gerais novas dissi~. A ~ das nsções revela-se como uma
condição qualificada para realizar criatividade. Por ela se torna acessível
o aproveitam¿ato das virtnalidades do homem, quer pelamaior segurança
para o levar a deito, quer pela ©xis~ de um tmiverso colectivo
humano, vivo e de ~ exigente, por muito ~tona que veja a sua
apar~cia noutras perspectivas de cultura. A nação ¿ um :apoio eficaz para
o desenvolvimento das propostas de diversidade, não só a partir de uma
percepçlo imediata de diferença, como dentro de uma ~ de unidade
verifi.ca.ção. A diversidade expressa num ~ social estável é o ponto
de partida para revelar virtualidades susceptfveis de msnifestarem capa.
cidade da cr'Jaçao humana.
A situação especial veriflcada no extremo ocidente da P¿alnsula,
captou virtuaiidades dessa natureza que, ~, com expressividade
.~T~.~te, em ~~~ d« ~~o~'a ~,~. A ~, p~m~ vantag?m
fm evitar as tentações hegemónicas, tão frequentes na Pmffnmda Ibérica.
A partir de uma ~ oportuna neste Ex/r¢mo Ocidente da Penlumda
Ib~ca, os conjuntos humanos que aí ~ ~ que l~..iam
proporcionar uma melhor defesa na ~ cristã. Assim se conmhdou
uma função comunitária, realizada, a partir de um expreuão de autono.
mia. Nesta mesma Penfnmda Ib~ca, sempre tem surgido, nas suas diftceis
distllncias ~'gionais, formas não coincidentes de parti~ eficaz de.
rivadas de um modelo primordi~ acaso l~pano-lpxlo para não falar na
P¿alnsula Romana. No período bírbsm do século V ao sbmlo VIII,

com sent/do. Trand~, nas novas condições para outras


propostas de ~ ajuetmneatm em áreas que se definiram na globa-
lidade da reemqut~.
Deve, omtudo, dizer-se que tal se tem verificado, desde a pré-história.
Na Pmtmula se d©f'meiuma arte realista nas Astítrias, tuna arte geomé-
trica no ~te, a cultura camp~orme a Ocidente. Sempre deram
mestras, de um ou outro nmdo, ao lado de uma observação acerada, quase
mmm espécie de percepção programada da realidade, tanto efectiva como
~el: a atitude da ictdmm ocidental. Como mero exemplo, diremos
que o Museu Arqueológico de Madrid apresenta-nos, de uma C1 "vdização
~c.a, estatuetas humanas em centenas de p¢~ções que só podiam reali-
zar-se a partir de uma conceptualização antecipada do real. Citemos,
ainda, no Extremo Ocidente peninsular grandes formas criadoras, inte-
gradas nas civilizações megalítica e castreja. E que estão no plano psíquico
já ao nosso alcance no intimisn~ português, na beleza do cântico camo-
niano na passagem do «poder ser» para o «ser» nas suas mais belas ex-
pressõe~ da criatividade humana.
Para abreviar razões, o que nos importa salientai-, como Tos~ Leite
de Vasc~ncelos o fez e eminentes arqueólogos portugueses e espanhóis o
confirmaram, é que a diferencialidade pen~ular atravessou o Império
Romano, não conseguiu manter muitas das suas particularidades, iaceitou
outras generalidades pragmáticas, constitui formas de defesa regional cujo
vigor, maior ou menor,'~ se confirmaram nas invasõe~ bárbaras, vindo a
tornar-se decisivas na reconquista cristã. Esta chegava a atribuir à diferen,
cialidade um conteúdo providencial. Atitude que, no sentimento popular,
tomava a forma de uma Providência imediata e protectora, contraposta à
indiferença do fatalismo.
Por qualquer lado que façamos a análise do processo da Reconquista,
o certo é que ele manifesta uma constante diversidade de figuras, estilos
de luta, formas de associação, aliança e rivalidade, um mundo de alianças
e confluência de interesses, riscos de divisão, indo aos limites do parti-
cularismo, dando lugar a diferentes propostas de sociedade e de consulta
colectiva.
O que na reconquista claramente se dei"me é a importância do
regional com sentido. Sem ceder na unidade global da mensagem cristã,
manifestada nessa luta constante durante mais de sete séculos, o que a
caract~ é que nunca desistiu da diferença eficaz nos modos, ainda
que quase sempre unitária no objectivo. Não c¢nnpreendemos hoje, a sua
aparente unidade? E compreenderiam ceies» a nossa aparente monoto-
nia? Terão sentido estas perguntas? Não parece. O homem é o ser his-
tórico e concreto. As grandes palavras mudam menos do que ele. A atitude
peninsular tem, no seu cem¢, a exigência de uma forte resistênciaregional
a uma civilização-cultural que não concordava com os modos de vida e
a concepção cristianizada do mundo; à força, se tinham entroncado no
universo ibérico, sem que isso queira dizer que, em tudo a repudiasse.
Certo foi contudo que a recusou como matriz unificadora. Não vamos
aprofundar motivos, razões ou pn~rcionalidades que s6 o nosso tempo
percebe. O que, sem dúvida, podemos dizer, é que a Reconquista se desen-
volveu num ritmo de estratégica regional. A sua evolução é i acompanhada
pelo aproveitamento das suas ~'bilidades nesse sentido e que se vão
revelando fortes e exequíve~, coam conjuntos militares eficaw.es, em dife-
rentes situações globais. Acabam por delimitar áreas funcionais, capazes
de defender uma homogeneidade social que ~ dá possibilidade de um
destino político.
Assim aconteceu em Portugal. Na verdade, a formação do reino de
Leão, levou à reconquista, ao longo da linha ocidental da costa atlântica
do Norte para Sul e que abrangia a Galiza e o condado Portucalense.
Esse domínio de costa representava rena garantia considerável para a
segurança em que o Norte da Península assim passava a viver, tomando
difícil quaisquer ataques sobre a rectaguarda da Hispânia cristã. E tal
como acontecia com todas as regiões da Penínmla, naqueles tempos, em
que se vivia numa espécie de «democracia militar», a segurança a6 podia
ser mantida, caso estivesse garantido o apoio das populaçõm locais. Daí
a valorização atribuída ao condado Portucalense, de que toda esta área, se
tinha tomado uma condição efectiva e permanente de defesa. Mas ver-
dadeiramente só o podia ser se lhe fossem con~dos os benefícios da
autonomia.
Não vamos considerar aqui as circu~cias e fases que marcaram
a consolidação institucional dessa mesma autonomia. Contudo, dec~0 se
terá reparado que a resistência dos reis de I~o ~ ind~dência do Con-
dado nem foi activa nem prolongada. A única explicação, para este facto
está, na certeza que decorria das dezenas de anos de lutas da população
da costa ocidental contra o6 maometanos e normandos: a autonomia re-
gional era a melhor arma da Reconquista.
Nas amplas oscilações quanto à ~ dos territórios entre o Douro
e o "rejo, nunca mais, depois da morte do conde D. Henrique, os territ6rios
do Norte Peninsular estiveram ameaçados de ataques vindos do sudoeste,
se exceptuarmos o surto almorávia que não logrou permanexer. Nem
Afonso VI, nem Afonso VII, de Leão, pareciam ter dúvida a respeito da
~ça conseguida com o condado Portucalense. A conferência de
Zamora, em 1143, não fazia mais do que confirmar uma autonomia que,
para além de uma finalidade nacional, dava a Portugal o primeiro destino
histórico, dentro da sua própria defesa: garantia a segurança da recta-
guarda peninsular cristã, contra qualquer ~ça vinda do Sul ou do
Norte de Africa. Segurança de~tiv~te assegurada, quando a fron-
teira portuguesa atingiu o Algarve.
A grande tarefa nacional destinou-~, pois a conseguir uma [ronteira
terrestre viável, consagrada, em 1297, com o tratado de Alcanizes. Nesta
data e neutros domínios já a língua portuguesa era unto reafidade prática
e artística, ao mesmo tempo que ~ o seu ~to como instru-
mento jurídico. Noutro aspecto, o ~te cultural finha-so ainda ex-
presso em realiz~ções ,mconfundíve~s," " tanto no estüo ~tico como nos
primórdios do gótico.
i .
Com a c o n "s t"i t-m ç a o d e u m p -o d-e r ~- c o ~ t e v r o v i d o d e
condições negocm~s," -
estabelec~a-se, -pois, com Portugal,
~ - no extremo oci-
dente da Península, um eficaz elemento de equ/h'brio, tanto pela proxmn-
dade do mar, como pela sua situaçao de rectaguarda de ~elai Apesar
das lutas internas, esse papel, ate f'mais do século XIV foi indiscutível.
Na crise de 1585-1585, a sua existência pofftica foi ameaçada pela tenta-
tiva de supressão da dinastia própria, como afiás já tinha sucedido com
o reino de Leão e fora da Península Ibérica, pela mesma altura, i no con-
dado da Flandres. O insucesso da tentativa fez perceber, de uma forma
bem clara, à realeza castelhana que os esforços de unificação política da
Península Ibérica, feitas a partir da Meseta Castelhana, em d/recçao à
costa ocidental tinham uma viabilidade muito reduzida. Tinha-se, do mes-
mo modo, percebido que não era possível empreender um processo de
unidade peninsular, s~ a partir de una reino que se tornava hegemónico.
Acrescentar-se-á um último ponto: desde o século XIV que, qualquer pro-
jecto concebido para Portugal, pre~isava de dispor de uma componente
atlântica suficientemente forte. E os castelhanos, a~ dos seus esforços
nesse sentido, não a consegu/ram obter. ~ efeito, com a crise de 1383-
-1585 Castela manejou um factor atlântico a que não tem sido dada a
devida importância. Podemos mesmo dizer que as guerras de D. Fernando
com Castela tinham fido uma co~~ sobremaneira grave de pesa-
díssimas consequências: a perda do Imder naval portugu~. E foi o dese-
quilfbrio resultante da conquista de uma preeAfia hegemonia naval casto-
lhana, em frente a Lisboa, que mais esperança deve ter dado a D. João I
de Castela, de poder retirar a Port,_-¿~d a sua dinas//&
C o m o fi m d a h e g e m o n i a ~ ~ n a s c o s t a ~ e s a , a v i a b i l i -
d a d e d a n o v a d i n a s t i a d e A v i z fi c o u g a r a n t i d a . A p a r t i r d o r e s u l t a d o
alcançado, nesta guerra, definida no am~ de equih~o peninsular,
mas já alargado a~ uma probl~ emopeia oddental, ~ vai i esclarecer.~e
um novo destino histórico de Portupl: a criaç~ de um conceito não só
peninsular, de defesa, mas t~mhém da ~ portugucsa como área estra-
tégica própria e o progressivo alarsamento do Atlântico acessível. A dife-
rencialidade já adquirida no plano político, toma uma exp~ econ6-
mica e social cada vez mais distinta, ao amne tar, através do mar a sua
função no equih'brio, assim ~, nas forças peninsu]ares.
Foi na manutenção desta nova via essencial de defesa ---o mar--
que Portugal passou a basear grande parte do seu poder diplomático e
militar. A sua situação na orla Atlântica, a partir da altura em que reno-
vou os seus meios navais, não podia deixar de nmsse~ nesse o..,,aA,,
.,n ., -- o - .1[" ~:1,~'~ ~ ~mmI, J.Ul,po

cfm v.eraaae que nao tinha outro: era a umca maneira de sair dos L~~.i,
~ m m ~ ~ ~ i ~ .
V. c h e g a m o s a o p o n t o d e h ~ ~ . I m i ~ e m P o ~ , ~ l ~ d ~
nesta situação estratégica, aquilo a que Imdem~ cha~. a i atlantização
da Europa, o processo ~lou-se, em fases suces~vas, ao longo do
s¿culo XV e XVI e foi ,,me ...~:_._-__ , . .. -
A^ ~- ...... ~ ._ ~ ?~~. - . pcmnsmar, oe Norte para Sul e
~~~y?cum para.o ~õente do Atläntico. Se a Europa não ficou ~.n,
-uuu c cru cOnOlÇÕes im~e~ 1~ ;~..----_ ~_ . , __ _ I "~~*"
O d o -~~a~o ,.~~~- ,, c. .~_z.a_n~e_o_, ,a e* v
- -e---o- ,- a- ~
- -, - a ~o ,s a~s d~a da ot l aMna[ ir z a
dco ~ N-o- r- t "e-
p e l o s portugueses e readizada em tr~ ---- - ~~~uo assumaaa
.c o.n q. u i.s t.a .o e. u.c u. t a e seu aproveito,)~~.
v ~ ....
¢x;)ml)l~n[a_r~: .~ 1 a a
, . . . " "
-. a ~ocna ao modo " o e r"" -
e a l i z a r a s ~ d e i d.a- -e" 'v-o-l ~t a" ~a 's
" - -
/lhas atlânticas, trazendo assim o mar oceano para o quotidiano euroI~.;
-- 3? a desc~l>erta da ~ .africana e o seu aproveitamento l económico,
em fun~o dos mercados ocidentais, tanto no Mar do Norte como do
Medit~eo.

telha~Y n~~,Jo~gosj_an~ .de,guerra entre D. João I e a realeza tas.


v --~uv~, uu parte aos Ix}rtuL~les~ ------'- ~ .
a ~ , e m t o d o e s s e t ~ ~ ~-
. . .6-~~o,
. , - . .~nmuYas ~nmvem
.,
flp m v e para
~ ,..
~~--- ,,,--~,~ ~ lmnu~ aiziam ~to b a~nçío'
que tinham a prestar às manobras de tmificaçáo política peninsular e à
consolidação do seu poder marítimo.
Na verdade, as funções de equi]ibzm estralígim que Portugal desem-
penhava na Pentnsula Ibérica s6 pela ma indep¢md¿n~~ com poder ma-
rítimo, podia ser efectiva. A comluiSta de Ceuta, vista do mar e não do
interior de Marrocos, tem ~ uma funçáo peninsnlar, no sentido de
criar no Norte de Africa rena posiçâo de f~ F.zta garantia de segurança
funcionava, afinal, tanto para Portngal muro Imm Castela, na medida
em que era uma lx~ição cristã no ~ ~ atlântico, fron-
t e i r o à P e n í n s u l a . +
Para considerar nesta expzessáo A_tl~. O destino hist6rico de
Portugal vamos, de novo, encontrá-lo, na ma ~~, a representar-se
numa área marítima em quatro ~ntid~ que a6 em Pormgal podiam con-
fluir: uma, no sentido do Norte em direcção & C«,!~m__ 1~. à Inglaterra e
à F l a n d r e s e d a í a o M a r B á l fi c o ; m d z a , e m ~ a o M a r O c e a n o ,
face à costa portuguesa; outra aimia, no zmido ~tal, para o Medi-
terrâneo pr6ximo, que então se finito ~ muito familiar aos portu-
gueses: por últin~, ~ o Sul, em dizecçio à cm~ de Africa, nmna
primeira fase, em banms, depois em caravelas, at~ chegar ao Cabo da
Boa Esperança e de ter inkiado a mnn~ga$io lmr latitude.
Depois da conquista de Ceu~ da desmberta das Ilhas Atlânticas,
das navegações ao kmgo da cesta afrkana e da ~I~ de uma feitoria
na Flandres, Portugal lmssava a dispor, nos pontes ~nd,~~~iç destas
quatro áreas marítimas, de tinhas de tráfego que vinlmm confluir à sua
costa, pontos-chave que o tonmvam uma potência marítima. Se a sua
influência continental era limitada e de algum nmdo, marginal, não era,
contudo, dispicienda, na Penhtmla ~ca. Com deito, re~a segurança
a Castela que não ~ considerar garamida a sua ~teim terrestre oci-
dental, que teria de dispor sempre de uma defesa ~ E se a ameaça
de invasão de Caste!a por Portugal era, em grande medida, de ew, asso
alcance prático, numa guerra entre os dois países, pesava mtdto num risco
de guerra de Castela com Aragio. Por ~ lado, Portugal era s6 atlân-
tico, Aragão, s6 medite~co evquan~ Castela estava presente nos dois
mares.. O .poder d~te último reino não podia, nestas condições, "deixar de
se dividir.
Não obstante, a inclinação ~ para o Atlântico tendia a au-
mentar e a suscitar novas formas de dirá, ch~nmn~__ novas Ireas
para a sua efectiva zona de influ/~ncia p!~~ Nio admira que,
altura, para manter a ma independência, Portugal se orientasse no sentido
do mar: a perspectiva matflima apresentava-se como um complemento
indispensável ao ~ ~. Mas havia um outro ponto que dava
força ao factor madti~: os pmlm as alfândegas eram a principal fonte
de receita do poder maL

6 m DESTINO HISTORICO E SEGURANÇA

A melhor forma do considerar a existência do destino hist6rico de


uma nação consiste em averiguar como organizou a sua segurança a
sua sobrevivência: por outras palavras, no piano prático, destino histórico
também se pode chamar vontade política. Como se manifesta ela em Por-
ruga1? Comete um erro grave quem .pensa. que P~.despromovia os
problemas da sua presença constai península, à medida quc sc acen-
tuava a expressão maritima da sua infl~ e riqueza. Polo contrário,
a «expansão» marítima, para se manter, precisa me~ as suas relações
com o continente e para garanãr a sobrcviv¿n~ia, na costa, pr¢cisava de
defender a sua retaguarda. A costa ocidental ~ era, cada vez
mais, o ponto de chegada à Europa por mar de ~ africanas ou atlAn-
ticas desconhecidas. A partir da segunda metade do século XV, os recursos
vindos por mar cresceram consideravelmente e o mesmo sucedeu com os
rendimentos alfandegários. Nada, porém, que se pud~ comp~.ar com a
riqueza movimentada no mais recente Mar do Norte e no Mediterrãneo.
Contudo a valorização económica do Mar ~ ~ a primeira expressão
significativa do papel que este passava a ter na vida portuguesa e dentro
em pouco, na Europa. Com a colonização das Ilhas, o tráfego do açúcar,
dos escravos do ouro, do marfim, da malagueta de outros produtos
exóticos, as disponibilidades comerciais portuguosas la'tingiram um nível
que nunca tinham tido. E o Oceano, aprov©itado pelo ixxler marítimo
disponível de Portugal, mulfiplicava os seus recm1~, não s6 ¢con6mico6
como políticos.
Chegamos assim b essencial dualidade confluente de Portugal, ao
lado da F.~pan~: na Península, e vindo por terra ~tí o fim da Europa,
«cume da cabeça da Europa toda»), na expressão camoniana. Era simul-

s C a m e ¢ s , O a ~ , c a p . 111 , ~ 2 0 . I
t~neamente com imo, o lmmm de ~ cem recama Emopa, indo do
Atlântico, cada vez m fim diwa~aad~ Nem petição econ6mico-
- g e o g r á fi c a , a s s i m c o m o ~ ~ p o r ~ , e m p m f u n d i d a d e ,
d e fi n e m - s e ~ m ~ até li pouco, não
tas nem ima8inadm. J
Não sc pode, ~ ~ aS mio rum vocação ou ,m~
destino. 1~ muito mais o esfmço m~mimlo n ~ de potenci~
dades e recursos, meim ~ Immmmm, ~ imtitudonais e
diplomáticas, de ~ ~ limOS ao mrvi~ de uma cres-
cente capacidade de ~ das « ",~~-- marítimas ~-
c a s q u e c o ~ m e . ~ . " , " ~ ~ ~ e n o v o s
mercados. Esse eafeaço aada, à meaFala qm iam evoluix~ as nov~
condições e possibilidades, ~ pdm mim ~ do oceano,
trazendo à Europa novas riquezas. Mas dael~iam lmm fazer nascer uma
nova zona estratégica, que se tivesse tomado, deme modo decisiva?
Não podemc« esquecer que, lm, a ter ai, ma utilidade, o conceito de
destino histórico ~ de eacmtntr n ~ de patente vantagem
nacional -- no modo como cada época o entemle. Isto ¿, precisava de ter
uma margem admiaflvel de valor para a ~ em que u encontrava
e de um acréscimo de atnoveitamm~ dos remetas mala~dos-- técnicos,
humanos e adminisuativos. Se vem ela, se ~ dar smtido b soluçio
ou ao esforço que a ~ nacimml ~ como adequada ao
problema da sobrevivência da Naçio como tal (iao 6, para a defesa dos
corpos de autotamfia e decisio nacimal que ¢maluimm), esse &miao
histórico adquire um proflmdo deito nmbüizadm'. Nunca é, por~m, um
problema de soluçáo definitiva, uma im:égnim pmma~ e vaga, uma
a fi r m a ç á o d e o b j e c t i v o g e r a l o u ~ á n k a . D m i m ~ c o e a v o l v e
sempre um problema colectivo, uma eslx=m~ e ma edorço para o
resolver. Afirma-se na personalidade na¢imml, indkada pelo tipo ideal de
comportamento, pela consei¿~mia da exem;io e do risco, pela sua eficácia,
e originalidade na respmm aos demfa~ ,.p~, tanto para m
nacionais, como nas omm,-;,~ _,,de~ de civillzaç~ em que está inserido.
O destino nacional po~ é, nesse aspecto, tombem e cum6nico e
não receia de o ser. Mas não.é por ai que ele começa, .oU melhor, se
exprime. Contudo, não pode ~ ~: por ~ ,.halo,.adq.uirir uma__n~_~~
dim nsão vública.
_ _ _ e ~ Com estas atlas àtmensoesnum ~vets---.a
novon.mu~
vartavel
. J,

volfliea nacmnal e a função estratégica disponfNel, ~ _


cle forças--- o destino ~ de Portugal não 6 rena paructpaçao, uma
oportunidade, uma colaboraçío, memz que tudo um acaso ou um mis-
tério. Não se improvisa, nem ~ uma e~igência súbita. Sempre tem sido
assumido como uma exp~ nío inmdiata, pr6pda, aut6noma e tra-
balhada---que se não pode--nem deve--- separar da presença até
intervenção de outras potências ou estados, de outros participantes, sejam
ou não aliados, ou de influências, sejam ou não coincidentes, perante as
quais --ou contra as quais-- se fmmula.
Esta expressão política e cultural do destino hist6rico ~portugu~s é
essencial; embora o não caracterize, ¢mno destino,--rena vez que este
último envolve também a acçáo-- serve para o poder idenÜficar, em
cada momento histórico: a continuidade de uma pre=mça pública obtida
pelo seu pr6prio esforço é a melhor--e acaso a únca--- forma de deter-
minar um destino.
Depois do seu papel no equih~o peninsul~, assente mnna área bem
definida, a partir do século XV, foi o aproveitamento das ~ibilidad~
e toda a ordem, postas pela abe~ do Atlântico oue ~arantir~m p_«~n
contin "" " ,,. ,. _, - o .... --
~ Lo_rmava asstm o senuao ae um pro]ec~ em curso.
Ne~ts.q r~,~;,,z,,~
nos definimos, depois do tu,e_ no "«=,--= J ......... - . . . . r~,~-w,,-
_ , , . . . . . ,~~l~ ua~ uavegaç¢~, ocorreu nnc
-~--:', marítinm,
secmos 7tv e XVI. ~ pm)ecto face is -- "
.
só se real/zou porque Portugal disptmha de mn escol---náo i b i"----
r e a t o ~muito a~"
d e-"~
l i d grande
s.
mas experiente--- e de uma organização, de ~ técnicos e de infor-
mações seguras, além de nummos de estado, em especial, comI~tencia
para manejar os con~ infra'nacionais, qtse, na Em, opa, lhe inte-
ressavam.
O que caracteriza todo este ~, desde a denota da polític~
p e ~ a r d e D . A f o n s o V, f o i e s s a v o n t a d e p o l í t i c a d e ~ t a r a s u a
substituição, passando a definir um espaço no Atlântico ~, para no
século XVI se ~ ao Indico e ao Bmm'l. E de novo se. confirma a
definição do destino hist6rico Imm o mundo nmd¢zno: é a continuidade
de uma política, acrescida dos recuram _a,í~:~i~a~-adm pelos seus reslxm-
sáveis que não podem estar isoladm da Naçáo a quem servem.
A questão nãopode &ixar de se pôr deste ~, para sairmm das
abstrações fatalistas ou dos finaHsnxB inclinados aos .-'_~~~.~.~..i~ fabri-
cados. Destino hist6fico s6 pode ser uma luta pelo futuro que não esquece
a experiência nacO. nas suas possibilidades e desfalecimentos.
Afinal, onde se cok~ o verdadeiro destino hist6rico de uma nação?
Ouer-me parecer que se deve dirigir à capacidade de manter uma decisão,
v~cer os obs~ que n: n,,, k'vmmm n:mhüm o ~ que os
se~s responsáveis legtinmm e ~ (que nmnlpm mümmn) vislmnbram
como pmsiveis, em Iremos de n:cmms e mndünpT~. DmmJno ~ pmz
um poder político da í~no:a odem, amo pode wmmr m carom=btiam
das «informes ~ do ~ oro 4= ~ intui"~~, aprova-
rdas em condições
Deve insistir-se que mim~asJo ~ Imm um destino
a vontade poHfica, lmqlm~ qme ezmliemm, em ligaçio ,com estas
provenções, aquilo que as ...-- dmmmdlo ~ mmrRinm», algo que
s e r i a a e x p r e s s ã o d e s s e m e n i n o d e J l i m o l l b s 6 e ~ o . 1 ~ q ~ ~ c o n fl m d i r .
O i n t e r e s s e d o s I m r t u s u m m ~ m a r, l m m r u m - , , ~ . , ~ w c o m -
preendido, tem de se enlemder como ~m ~ ~,
to.m perspectivas políficm, ec~md~imm e " E "
rimam tam .u~n. em amo gmL ~ ~ ~ aO
das oportumdades ~ sem Immm. ~ mima ~mmm, nem ter a
m e s m a fi n a l i d a d e n e m ~ ~ r u m .
U m i n t e r ~ , m a H fi m o ~ ~ _ _ q u e m i o s i i o I
factores tecnol6gicos.-:, omnzçm a mmnifesmp~e, desde selpmda metade
do século XIII wa pmvoc~, por pmte de D. ~ medidu de

t proposta ae criaç~) de uma frota de ~ Nmda, 1~~ no ~culo


X I V, n o s . m o s t r a q . u a l q u ~ d i m e m ~ i n ~ d e u m ~ ~ .
q u e n a s q u e r c ü r. e r q u e o i n ~ p e l o m a r ~ ~ ~ - - . ~ - - - - m
ritmo de aproveitsmento das ~.~kn¿4..¿... ~ ~--"-7__--'----": ."~
.. r " - ' ' ' ' " ~ " ~ ~ w, n m u m ~ u s q x [ m e w l m l m s l
do Mcdxterrãneo (nome~kmen~ das cid~les ~ em ~m~-i.n ,~-~,
. .a. n-e, _~ ,n~o,m.e. .~. .. , ~ e a t e d a N m d m ) . J-í - ar -o- -ú-l-t ,i mwo
n o v a, 'l, ,e, ,,,4~, ., ~~, , ~
quartel daquele século XV, os e~ontr~ navais ~ *
~ a n ~ ~
.e a castelhana
lmzo para a pnmeu'a. .üv .em peso na
O edon~o portugu&evolução damanta,
para guem~dmntoem ~como
do mar, no decurso da guerra com Castela e o ~ dedo -,-
na defesa da sua costa, não nmw a,.,i,..,,.. ~ ~-~~, .~~.~o,
~;©pçao oas vantagens estratégicas que do mar se ~ o¿tm-, face "aos
avanços t¿cnicos econ6micos que se conheciam. A luçio de fromeira
terrestre luso-castelhana, as condições da Emupa ~ © m nu:ursm
que Portugal ia conquistar, ai¿n-mar acabaram por taram. ~ ma-
rítima uma viabilidade de maior interesse. Por fim, mo ~ quartel do
s é c u l o X V, c o n f o r m e s e v i u , a s r e s p o ~ ~ , n a s d i f e -
rentes áreas marftlmas ao seu alcance, ~ o sem ~. Para
as mnfinnar, em necess~o que as forças navais, fossem de alta qualidade,
houvesse bom ~dadm ~, quadros, experi~cia adminis-
trativa, militar e "n~i'tucion~.. Portugal dispunha de todas essas condições
e foram elas que oen,m sentido à sua Im:sença no Oceano, que eventual-
mente condn~ram a essa o'¢w.ação». O motivo do triunfo portugu& ou.
por outras palavras, o seu destino histórico, está no uso que soube fazer
desses meios ao seu alcam:e, na sua capacidade de decisão política, como
seja a de def'mir uma hierarquia de p%,ioridades, perceber o sentido das rela-
ções int¢macionm:pcaíveis a evoluçio da sua urg~cia, da disciplina
colectiva à volta da realeza, para realizar o que fome tomado como neceseá-
rio: a vontade pol/tica de manter uma decisão. Assim entendido, dcstino bis-
tórico toma-ee uma dimensão viva, em constante renovação, pela prova das
capacidades de clareza das final|d_~d,-~ percebidas. Foi o que se exprimiu, no
meio das maiores difictddades, em D. ]cão II. Entre erros seus situações
novas, --coragem, sempre-- é isto que lhe define o seu destino hist6rico.
Vamos encontrar em D. Manuel a mesma consci¿ncia da,complemen-
raridade para a ompmeulo das s/~, e esforço poza a manutenção
do que foi decidido. O que dentmmra esmnnm mais perante instimiç0es
e serviços, recur~ linhas estratégicas do que decisões pessoais do rei,
que evidentemente também pe~vam. Aseim no início do seu reinado,
vemos ainda unto p¢flítica marroquina que até aí, se suptmha conciliável
com a presença no Oceano Indico: uma manuumçio de serviços portu-
gueses no Medi~ o mtabete~~-nto de laços mais regulares e
institucionalizados com o norte da Emolm, indispensável aos revestimentos
no Indico. Uma pol/üca, em muna.
Todo este equil/bfio prec/fio veio a alterar-sv com D. ]cio III, em
que se regressa áquilo a que podemos chamar o sistema da aflantização ou
europeiacão penimular de PormgaL Sc D. Ioao li e D. Mam~ sentiram,
ainda que com difezeme claxeza, que o destino histhfico de Portugal
passava a assentar no apmveitamento do que fossem capazes ~de fazer no
Aflânüco, sabiam também que o sistema de aliançae tinha de ,ser europeu.
Em contraparti&t, .o proiecto de D. Ioão III supunha poss/vel firmar o
tráfego intermntinental com o Indico, a partir de relações dentro do
quadro pe~: os exceum de uma prioridade adantica, insuficiente
em poliüca cumpem. Há, sem dúvida, ~ dq~ois de 1530, uma
perda de ~ do papel que as ~ ~ podiam exercer
na ~ do desequilibrio peninsul~, uma vez que a Espanha se tinha
tornado, a grande potência hegemónica da Europa.
A «mobilização» contra a ~ era ~l~_~_-i~_ pela França que,
face à gravidade do d~ de forças, não hesitou em se aliar com
os turcos, na sua ideia de. lmr ~ ~. impedir o domínio espanhol
do Mediterrâneo. No que se rdcze à ~ Sé, P¢¢tugal p¢rdia tempo e
influência, no seu esforço em gnmdc mvdida, ~, para o estabele-
c i m e n t o d o Tr i b u n a l d a I m ] u i s i ç ~ . A ~ l m r a a s u a i n s t a l a ç ã o e r a
requerida com uma~ que ~ ~, a falta de uma
presença qualifieada de estado (~ amam sv Im¢1 chamar), no
interior das suas l~n~, ~ do ~ um ~ hvrítico efectivo.
A hipótese que foi aven~ da st~..ind~l~ an Portngal: «m~ tuna
forma de luta contra a ~ © ~ e um exemplo excelente
daquilo que Lucien Febvrc clmtmm d~ 4~~~i~». ~ diz¢~, o
ressalta desta estimativa de mg6m:ia por lmrtv do mi 6 muito mais a ma-
n i f e s t a ç ã o d a i m p a c i ê n c i a d e u m ~ n n i ~ ~ ~ - , . ~ - ~ ~ ° r. , ~ . , ,
de contiança nas rela ço~ - ~ a ~ e a s . .-'l~~~.~~.~. . . . - , _ ~" ' b i l i --
dad~
portuguesas para aproveitar o mmn~b c~i~ "!i~_ da Emm~ do Norte e
,I
a « e r m e n t e e s t r u t u r a - - e m ~ © ~ _ _ d m ~ d o p o d e r,
~o ' B .li li~ ! v

eompreendcr-se-á, tmnbOn a falta de mnkE _.:--=-:.---í,.~-- © administ~tivos,


para além dos t&'nicos v na~---~ dic m~lhot qm]idadc--- oam que
a prioridade atlântica ¢stava a ser ã~~..,ãim~ lm¢ Imrtc das ~,
no reinado de D. loão I I I . O q u e . a t m ~ m v a ~ ~ d c l g n d c n ~ .
,: - "
Na fluidez das
c o n s o u a a - , a . Te n a s a d o ~ m a ~ d k : ~ q u e e n v o l v e s s e ,
ae torma estavel, o Mar do Not~ , ( X I S D O I ~,~~-m 1 0 omn
M ~o. exemnl_____,._o
i ~ . . . . . . .
d a H o l a n d a , d a G r á - B r ~ m fl m © d a ~ i : ~ 1 ~ M I ~ s i d o i n d i s -
pensável alargar o re~~taq~!, das ¢pmdr~ í: ~l~iz~ dmmnente
a nobreza, como ~ fez ¢mn D. Joio .II © dk: algar ~ cxxn D. Manuel.
t~ao aconteceu asmm. , Deitais ~ nm,ado, lm,p e difiaq, de D. loáo lli,
~~.t~açaoagravou« ~~ ~ ~ m ~
u. c. z _
a e .z . E s:e o C -a r-dre- a~l D
t m. m
is do d~ da ~ . ,- ~& .¡. m
..
v~uva.do r«, cnf~ a ~ ~ ~ ~~~.,m~, ~ de tudo,
n~go«a, ~om a.I~~. ~ ~. ~ «~ffi~,: ~
recuperar quanto ã ~-~k-~-:~.-=- d~ ~ ~k:~ qu~ eram a
capacidade polítiea ido pod~ e a ~-~~-'~. ~ e ~ do
corpo nacional, assim ctmm a ~~~~u.~ pm- par~ da ~ nunm
- - - - l _ t . . . . _--_

política de equil~do na E~ do ~. Ktlm~ a qu~ atr6a se chanmu


vontade política passou a ordmar.~ ~ Ao «---.í=.-, do que uma
acusatória e de.pouca investipç~, nas quer ~ cn~, qum~ ao r¢inado
de D. Sebastião, o seu governo tentou, nas proporções !de um já i muito
limitado ix>sflv©l, reconstruir os equilibrios regionais e a força do poder
político com que Portugal tinha enfremado, no séctflo XV+ e em parte XVI,
as tensões peninsular~: apoio em pontos estratégicos do norte de Africa
e relações cada vez mais amplas com a Europa do Norte e o Mediterrâneo.
Não houve tempo.
A abe~ do Mar Oceano, ao Sul até ao Indico para Ocidente
fê-lo cobrir-se de um conjunto de rotas que o tomou, desde logo, sob o
ponto de vista comercial, uma rede comercial, dotado de um complexo
conjunto de apoios. No entanto, no plano político e estratégico, a sua
transformação neste sentido foi, por diferentes razões, mais lenta e muito
m a i s d i f í c i l . + !
A irregulan'dade do domínio atlântico ficou patente, com o desastre
da Invencível Armada. Durante sémflos, a partilha indefinida do Atlântico
foi uma realidade. A navegação holandesa e inglesa --sem, de modo
algum, pôr de lado, a france~, sueca, portuguesa, e «barb~»- tive-
raro, nesse plano, mn papel, tamb6m significativo.
CircunstAncias, acaso preCeS, mas de complexa dis~minação,
desencadearam problemas in~ e externos que conduziram à perda
da independência política, em 1580, mai~ propriamente, ao estabeleci-
mento no trono pormgu~ da mesma dinastia que govemava a Espanha.
A «solução» encontrada pemfitiu, no plano ta3Ruguês, que, na emergência,
não fosse l~ado a efeito o desmantelamento dos diferentes domínios
portugueses existentes pelo mundo adiante.
Todo este período hmdamental da h/st6ria da Penínwda que deco~
ao longo dosséculos XV e XVI deu lugar ao que se pode chamar um
acontecimento decisivo e de demorada determinaçio: a integração do
Atlântico na Europa. Foi este o Rsul~ &finitivo da acção dos dois
podcres hispânicos, por vias e prvcessm dilates, na converg~cia dos
resultados e na diversidade dos sam/fk-i~.
Acümado nos sentidos norte-sul e ~leste a stm ¢ampreemlo aponta
para uma ~ de processos, finalidade_ ] p l ' ¢ O ¢ ~ ~ : i ~ S que só podiam
verificar-se e "xtsfindo divenddade na dixvcção política. Nele se inseriram
depois, a Ingla~, a França, a Holandn. Não pode deixar de se consi-
derar sin~ que o abrandamento da p~ do factor europeu no
equiltbrio pen]nsul~ pmvmxm perturbações e desníveb que s~ a presença
da Europa no equiltbrio ~ tinha, até então, evitado. O envolvi-
mento, como um todo, da pe~la, no conjunto global do equilíbrio
enrugam, tcntado durante a guerra dos cem anos, tornou-se um dado sem-
p~ a ter em conta a partir deste definitiva atlantização da Europa:
era indispensável ao equiWDrio europeu.
A D,mv~gaç.ão atlântica tinhn encontrado rotas sem intermediários,
os seus navios directamente a todas as partes do mundo. A leste
© no M¢ditcrrân¢o sempre a Europa enconV'ou r-~çõ~ e obstâculos de
muito mais difícil transposição. Importa salientar aqui uma outra preven-
çio de grande sil¢zificado imediato. Certo era que, embora as l grandes
aquisiçõ¢s comerciais e stivess¢m sempre r¢lacionadas com o comércio
mmítimo, o confronto hegemónico das grandes potências europeias con-
timmva a decidir-se no continente europeu: o Oceano Atlãntico apoiava
ou resistia a hegemonias. Não bastava, contudo, para as estabelecer ou
garantir.

7--OS DESTINOS EM EVOLUÇÃO

A transformação da vida portuguesa no sentido de encontrar no


Oceano Atlântico uma nova plataforma que se ac~tasse à sua capa-
cidade política e económica não deixa de nos voltar a advertir sobre o que
importa salientar sempre: o papel sintomático e criador que, tem a vontade
política na definição de um destino histórico. Com efeito, ao chegar à
India e perante a imensidade dos problemas que à Sua presença se levan-
taram naquele espaço longínquo, e para além da sua responsabilidade naval
© militar, os responsáveis portugueses compreenderam que tais problemM
só eram solúveis se aí «funcionassem» duas condições bem conhecidas dos
~gueses. A primeira era a existência na /ndia de mn espaçoi político
de soberania própria, um «novo reino», como lhe chamou ~.
Afonso de Albuquerque conseguiu que fosse Goa a regi~ escolhida. Esse
«Novo Reino» passou a ser, na Asia a primeira área política ocidental,
além Mediterrâneo, depois do Império Romano. A segunda condição era
que os portuguses fossem «úteis» no Indico, prestando aí «serviços»,
como já tinham prestado no Mediterrâneo. E assim sucedeu.
Podiam os portugue,u~ ter levado por diante mzinlms essa! tarda?
De modo algum. O essencial que deve reter-se foi que a ~
no Oriente criou uma situaç~ que imp& à Eumlm, uma condição
lhe«usável: deu sentido às capacidades de ~to que a ~ta-
lidade ou civilização ocidentais podiam ~. E a ~ foi com-
plexa mas eficaz. Ao conto do que muit~ vezes se diz, essa
ocidental foi levada a efeito muito nmis pelo mmemo dos recursos agrí-
colas e mineir0s, industriais, religiosos, políticos, do que
--~~l~_'|l]i~l/i~[U~[I[~ e

pelo aumento das habilitações milimmes e _,:'n~ embora, tais factores


tivessem também existido. Contudo, as _-:--~-~,~--~:-~ diplomáticas e navais
só podiam resultar, dentro deste ~ da ¢g[mcidade geral de uma
civilização, ligada a uma imparavel d;«--~~'--~ onmdm'a. O processo econó-
mico, cultural, político e espiritual, ~ ~ nnlitar que a presença
portuguesa começou a desencadear na Im~ ~ia tmnado essa presença
europeia a maior ca~fe da sua ~ se e~e radical aumento da
capacidade económica que assegunm os e~~-_~--:-;:_-= económicos necessá-
rios ao eqUil~rio interno das sociedades ~ não tivesse permitido
que a força de trabalho europeu ~tasse ~tân~ente, o cresci-
m e n t o d e m o g r á fi c o , o a l a r g a m d o ~ e a c o m p l e x i d a d e d a s
habilitaçÕes tecnológicas. ~ capacidade garantiu-lhe a sobrevivência.
A sociedade europeia sulmmm, sem grandes perturbações, a «revolução
dos preços».
Também aqui não comdem os destinos históricos de Portugal, da
Espanha, e dos «outros» ~. Portugal reuniu ou aproximou mundos,
conheceu civilizações, abriu caminhos. Mas a criaç~ de novas áreas econ6-
micas e sociais do seu domínio, se foi feita ao lado da Espanha, nunca se
definiu em resultados semelhantes. A América do Sul e a Aro~fica Central
têm uma marca peninsular mais funda e decisiva do que a resultante
da passagem de Portugal pelo Oriente. Aí trouxe presença e estabeleceu
influências mas não criou novas civilizações. Por sua vez, até ao século
XVIII, só no Brasil traçaram os portugueses um c.aminlm " pmpno" " de ajus-
tamento a áreas difíceis, chamando a si povos de ~r habilitacão
polft.ica e com. outras coer~cias intelectuais, f~do-lhes outros recur-
sos mterpretativos, de maior projecção. Os espanhóis procederam de outro
modo e o mesmo sucedeu com ingleses, holandeses e ~, na América
do Norte.
_ A integração do Atlântico na Europa, com :a abertura ou a interven-
~o de novos ~ e a a¢~str~.- das ~as políticas,~eli-
g]oeas, cul~,.~ c(m~ eco~cas e socia~~ não teve, em caso
n~~um, ~en~ia~
pela proveram uniformes,
i diferentes nemque
resultados foi taref, [~ ou deixar
não podiam isentade
detransfor-
erros.
mar essa integraq~ do Atlântico na Europa, num ~ i com profundas
m~ de glória e amargura. Ficava, a oriente do meridiano escolhido
no Tratado de Tordes~ (1494), a zona de influência portu~~uesa, onde
se .encontraram grandes e pode~ civilizações asiáficats, do~ de
comlstente estruturas !de poder, ricas e bem delin~. Aí passaram a
estar acessíveis ao conhecimento europeu, a India, o Sião, a China e o
Japâo e tantas mais, com os seus mercados, sugestões, bloqueios e pro-
postas de desenvolvimento. Face a estes novos mundos, havia fo~-
mente que comparar e até, não raro que esco~!
A novidade da còmunicação directa, imediata e média entre~ «massas
humanas» de civilização diferente, assim entregue à iniciativa do mundo
europeu, constituiu para este, um desafio arriscado. Se, na nossa
pectiva, eram evidentes os pontos de tx~cid~ humana de todos
esses povos, nem sempre foram eles assim acol~dos ou considerados.
Não raro, as tónicas das divergências levaram a chacinas e à impunidade
da escravatura. Mas também foi da pr6pria Europa que saiu a condenação
desses mesmos erros derivados, afinal, de um diferente e perigoso~~ conceito
de eficácia. A inferioridade administrativa e de tecnologia militar e naval
dos novos mundos tinha tornado irreve~vel a presença eumtmia e tinha
facilitado trocas compensadoras que náó punham em~ a hegenmnia
ocidental. Mas também, recipro¢amente, nas culturas orientais não ficou,
então em risco a qualidade das civilizaçóes jâ constituídas e que ~tavam
em comunidades milenares. Tudo isso, ~ excepções, conhecidas, ficou
quase intacto: os portugueses passaram e o que estava, quase sempre,
perman~. Será esse outro aspecto do destino histórico imrmgu~: chegar,
anunciar mas não dominar? $6 na América do Sul é que os portugueses
constituiram, com viva originalidade, uma realidade nova, o ~Brasil e
no Oceano Atlântico, um verdadeiro Mate Nostrum, como atrás i foi dito,
da civilização ocidental.
A partir de fins do século XVI, a presença europeiã no mundo gene-
ralizou-se. A 0riente e a ocidente passaram a estar presentes outras men-
talidades da matriz europeia, outros destinos, outras missões, outras fina-
lidades. Certo é que as áreas de civilização pr6pria e vigilante quanto ao
que ohega, se conservaram quase na mesma e as resistências já conhecidas,
mantiveram a sua eficácia. A Inglaterra, Holanda, França e depois outras
potências l~e~at'am-~ criaram m comércio de alta rentabilidade, assimi-
laram técnicas e até fmmas mentais, mas a presença, de valores europeus
nunca deixou de ser ~, para além da verificação das novas efi-
cácias tecnol6gicas. Contudo, deule o inicio, Portugal e a .Espanha, em
todas estas novas relaçõ~ ~taram uma dimensão decis,va, pelo seu
papel multiplicador, no mn'lm~ da vida pessoal e colectiva. A amlxl
coube comunicar, com paix~, a im~ ~ ,~~e,e dadsiva da sua.
v/slo do mundo do homem, ~ s~ a: sua ~ do «outro», a
interpretação do sobrenatural, como atitude ~ «estabiliza» a realidade
em valores cr/stãm e lhe retira Irmeiemlida~. Para a civilização oristã o
social errado que sempre existiu é semita: s6 uma ~~ação, sempre provi-
s ó fi a , n u n c a é u m a ~ , n e m u m a m m m m , , i
Pertenceu ao destino ~ de xmbm os nmnd~, ibéricos apresen-
taram a sua visão religiosa --os «São Paulo~ do Novo[ Mundo--j o que
s~ podiam fazer, se co~ trxnMerir os «fundamentos» do seu
universo religioso para as novas realidades Immanas os,valores que elas
tinham passado a conhecer.
A «obrigação evangéHca» de n pmeeder levou m melhores a estu.
dar o que há de comum entre m fremem para se poderem evan8el/zar.
De sucesso em sucesso -- reci~--- no choque permanente entre.
o «dever ser» o «ser» que, tanta vez, dmme~tia o primeiro, mmegui.
raro, apesar de tudo, transmitir o ~ da atitude c~lstá, na sua con-
cepçAo da igualdade primordial de todos os hmmm~ ei do prlnc/pio de
que a vida mio pode deixar de ter mas ~m/ificaçio e uma rmpmmbili-
zação, assim como um princípio do amor superior ao ~/0. Algo come-
guiram, para al¿m das diversidades e das lnmdi¢i&udas a que o ocasional
das necessidades materiais ou do ¿ãto polflico, tntas vezes os conduziu.
A pregação da unidade da natureza humana é dif&n'L Sabe bem ser rico;
sabe bem ser poderom. Mas é imo o emendai lmra o destino humano?
Como convencer vencedores desta difetm~ simaçio, dmm mesma cer-
teza da igualdade essencial, no ~ do Immano? E como falar do
provis6rio, quase sempre, irrelevante das realizaç{ks ;sociais? Pratica-
ram.se, sem dúvida, para esse deito a :esse respeito .mui~ en~,,'exor-
bi~ncias e atéicrimes. C¢~ ¿, ~ num processo de tio longa duração
e profundidade que resultados positivos ajo" muito ulmrkn~ a, esses
p o n t o s n e g r o s . E s t a a t i t u d e ~ f a z p m ~ d o d e s t i n o h i s t ó fi c o d o s
portugueses espenh61s que in~ a vivmmn.
O desafio que a integmç~ do Atltntico tmuze à Emepa a resposta
q u e l h e f o i d a d a , ~ i n d i s m l ú v e l d a a t i t u d e d a ~ p e n i m u l a r.
E se rapidamente, se d/f~ em: dvxlidades e confrontm, nem por
leso diepenou o eeeeneial da mmma¿,em ~ Alín~dis~, a matriz
peninsular tmn,ee nn, ela~ imulmituível. Mas o importante, paro n6s, é
que esta simaçlo, veio, por sua vez, ~ em ~ como destino
hist6t4co, pois a nmlização da atitude brmileira teve .uma influencia ira-
Imrtmlte na nova dim~ que tomou o ~'hiso~co porm~¿s.
Delmis da consciência da importância da vontade política, temos de acres-
vvntar a vontade de realização parti~ Foi ~ que ela se mani-
festou com o Brasil, depressa entregue a outros ~veis só nacionais
que a alargaram, como mensagem e exp~. Os destinos hist6ricos valem
quando se sujeitam e suportam a reconstruç~ que deles faz cada contem-
porâneo, ajustado sobre uma tradição em que se confirmam e que desen-
volvem. Portugal e a Espanha, na Europa e na América do Sul,~ a~ de
uma confluência de valores, desde sempre se dissorciaram, na orla marí-
tima, dos continentes europeu e sul-americano, tomando .tamb6m pela sua
grande nova extensão, as responsabilidades do continentalismo. Mais signl-
ficativo se torna, o identico papel que em ambos os casos assume a priori-
dade do político, a preocupação da unidade, o sentido do ajustamento às
circunstâncias e uma forma de ver o mundo em que o racional mnma se
desliga da afectividade. E cada mn passou a seguir o seu caminlm.
seu caminho.

8---A CRISE DO DESTINO

No entanto, desde finais do século XVIII, precisamente quando as


realidades Brasil e América espanhola j4 tinham adquirido caracten~ dife-
renciais ~ comprovados, ao tentsrem e desenvolverem novas vias de inter-
pretação, acelera-se, na Europa, uma clivagem econ6~ca e social que virá
reflectir-se, em todos os domínios da s(~edade e do estado e que incidiu
de uma forma profunda sobre toda a Peníns~tla Ibérica. I
Nesta referência a uma alteração de cultura e civilização que tomou
a aparência de uma ruptura----e nal~ pontos o foi--ocupa uma posi-
ção especial -- pode dizer-se, decisiva---a chamada revol~o!ind~.
iniciada, em meados~ do século XVIII.
É bem certo que ela constitui, muito mais, a aceleração de um pro-
cesso que se tinha iniciado muito antes. As novas condições vão fazer
definir de outro modo as relações de força, e a hierarquia entre os estados.
E no interior destes últimos, as estruturas sociais tendem a delimitar-se
segundo outros critérios, i
No que se refere à revolução industrial, apesar da insistência com
que este facto é referido, o crescimento da classe ~a nem d o aspecto
mais importante, nem o mais dinknaico ou mais Ix~,ular. Importante (uma
vez que tem influência considm-ím~ na dü~/~ de capacidade eeon6mica
e política entre estados © regiões) ~ a dãvasificaç~ da velocidade que a
falta ou presença da indústria ~ no desenvolvimento económieo.
Em consequência disso, passam a ter um ~~ espeeial as regiões
ou estados que melhor levarmn a deito intmduçSo das novas formas
de produção industrial e na:citam as suas ~Magcns. Deste facto resul-
taram profundas e irremed~veis ~ © ~ outros equih'brios
regionais.
Os primeiros resultados do imiustdalismo permitiram, desde logo,
verificar a sua imediata pmjecç~ no campo do poder político e militar.
Na verdade, no decurso do s6mflo XIX, com as diferentes velocidades, na
industrialização, a hierarquia das potências europeias alterou-se. Ora. nesse
processo, os estados da Península passaram para a categoria das regiões de
baixa e lenta industrializaçao, com os efeitos políticos e militares negativos
que daí derivam e as incid~ sociais e culturais profmalas, ainda que,
não raro injustifieadas, a que deram lugar.
Não devemos esquecer que as assimetrias industriais do século XIX
foram, no plano pe~ar, lma:edidas de um prolongado período de guerra
e invasões. Tanto Portugal como a Espanha estiveram, por diferentes
motivos, sujeitas ao mesmo invasor, num violento desgasto social e político.
E embora com carac~cas especfficas a cada regiáo, a simaçao de deso-
rientação econ6mica e política r¢velou-s¢ comum a tvda a Península. O que
se tomava por escol, em cada um do dois estados que a constituiam, estava
inelinado a aperceber-s¢ mais dos aspectos políticos © de mentalidade, em-
bora estes fossem, não uma causa, mas sobretudo sintmnas. Claro está que
era impossível esperar qualquer so~, caso se IXmSame ¢nfrmatar só os
sintomas. Foi contudo o que se jul¿mu. E se ~ cinto hmmr Jdifermates modos
de pensar, só poderiam ter algum valor, caso ~~ um conhedmento
sério da sociedade para sc lhe Ixxim adeqtmr o mtudo das soluçõ¢s apro-
pHadas ao «atraso», nos seus dif~t~ sentidos. F~ qamlqu¢r caso, era
indispensável enfrentar a gravimima situaç~ peninsular, anaea~da da
dependência política, quando os sistemas de governo eram ~ em
causa, a organização de estado contesta¿a, d¢seurada a política económica.
Enquanto se definia a h¢gem¢mia industrial da Grã-Bretanha. AFinal as
soluções políticas: era um lugar eommn da propaganda "dizer-sc que a estas
se seguiria a prosperidade económica. Não era, evid¢memente, verdade
mas era indesmentível o descuido, a imprevidência e o egoísmo com que os
governantes peninsulares usaram o poder do estado, na interpretação dos
interesses nacionais, não raro chegando a pôr em perigo o equJ~'brio social
e político de que deviam considerar-se responsáveis.
A evolução da situação política em Portugal, uma vez expulsos os
franceses e com o congresso de Viena, começou mal. A amargura da au-
sência do rei e da tutela inglesa, depois de uma resistência activa contra
os invasores tinham tornado a desorientação, tanto social e política, como
económica, mais sensível no domínio industrial em que o distanciamento
em relação à Inglaterra era crescente. Mas depressa os portugueses perc~
que era indispensável uma política económica para i enfrentar a
concorrência inglesa e uma solução política que impuses~ o regresso do
rei. O liberalismo facilitava este último objectivo e estava de acordo com
as condições políticas gerais da Europa, embora já o mesmo se não pudesse
dizer, quanto à política económica.
Foi com todas estas ambiguidades incertezas que se iniciou a vida
portuguesa no século XIX. E foi enquanto ele dex, orreu que o problema
do destino histórico de Portungal veio a col~-se num novo e muito
mais intenso .dramatismo. A questão, acabou por ter uma incontestável
projecção pubhca. Os argumentos ma,s correntes para o seu esclarecm~ento
começaram por ser de natureza histórica. O culto do passado histórico
português tinha uma força nacional extraordinária. Contudo a mais im-
portante personalidade cultural da primeira metade do século XIX portu-
gues --Almelda Garrett--- acrescentou uma dimensão que só mmto mais
tarde veio a perceber-se no seu pleno significado: o papel de i Portugal no
equ~'brio europeu ~o. Tudo decorria no meio de intensos debates e das
habituais responsabilizações que não raro, degeneraram em~ duras lutas
sociais, prolongadas guerras civis, violentas polémicas, onde se misturavam
razões e argumentos da mais diversa natureza. As novas estruturas do
poder em reconstrução tinham grande dificuldade em implantar-se, sendo
certo que o desenvolvimento agrícola, comercial e industrial, de modo
algum acompanhava os encargos económicos de um estado liberal burocr,~.
fico. A perplexidade de Portugal e da Espanha perante a situação, era a
mesma, embora fossem muito diversos tanto a experiência como os recur-
sos de cada um deles. Eram também diferentes as doutrinas do Governo ou
de sobrevivência assim como o tempo histórico, em que surgiam e a atitude

to Almcida Garrctt, Portugd na balançada Europa. Paris, 1830.


pública a que davam lugar. Ass~ como não coincidiam i as posi~ que
no contexto internacional pretendiam ocupar. Certo era porém, que i deba-
fiam possibilidades de desenvolvimeato, para cuja realízação era indispen-
sável definir as prioridades. Effimnimwam-se soluç6es onde o mais~ impor-
tante parecia ser, tão só, a _defini -e~o «funcional» dos «res~nsáveis» pela
«decadência» ou os «portadores da esperança» do desenvol~ento. Havia
a esse respeito, alguma coincid~, sobretudo, ideol6gica que evoluia num
ritmo semelhante: republicanos, socialistas e anti-cleri~ apontavam os
responsáveis à exautoração pública. As «~ de correcç~o» estavam
obviamente do seu lado. Estas posiçóes envolviam conceitos de sociedade
que implieavam alterações revolucionlrias su~ indispensáveis para
ultrapassar esse tal atraso. Mas realmente seria esse o caminho? Seriam
aqueles os responsáveis?
No meio de tantas dúvidas e certezas surgiu, inevitavelmente, em
Portugal, toda uma crise da m3s~ própria personalidade colectiva, de
crítica ao passado pr6ximo, às suas mais conhecidas motivações de vida.
E a pergunta voltava então dramática e incisiva: que destino para Por-
tugal? Oue Csl~ranças? ~ ~? Quais as mdanças possíveis
no país que muros e com o lmSmlo que tentos?
Do debate saíram diferentes reslmstas diferentes argumentos e formas
de propor soluçóes ou de «almutar~ salvadores. ~iam? C~tudo. os
problemas não eram idênticos em ~ as áreas penim~~ares e$pectficas:
d i f c r i a m p e l o a t r a s o e c o n 6 m i c o , ~ d e a u t o n o m i a , p o r i n e fi c á c i a
política e militar, ~dades de quadros e equipamentos e até falta
de competência para poderem comandar o próprio desenvolvimento. C0n-
frontados com o que se Imssava na Europa, as divers~ conclusões penin-
sulares transfommvam-e, com facilidade, em ~ às pr6pfias culturas
peninsulares, tanto no Imrticular como no ¢vejunto.
Na sociedade portuguesas, a quest~ da 4rposm'bilidade de desenvol-
vimento» ia-se tomando um tema básico da consciência nacional. A neces-
sidade de ajustamento às novas condições econ6micas, sociais e políticas,
punha-se ao povo, na generalidade, mas dramatizava-se nas i camadas médias
e nos co~ mais "mtervenientes: os que, de uma forma ou de outra,
viriam a ser res~nsavem. Seriam eles, af'mal quem teria de enfrentar os
sucesu~ ou insucessos do desenvolvimento. Contudo, preferiram começar
por insistir em interpretá-lo como um atraso de mentalidade onde nada
havia de co~, embora exisfis~ uma esperança de cãPacidade dentro
da civilização curopcia... . , ::.
Desde ce~o, de uma forma ou outra, foram muitos os intelectuais
que começaram a põr em cau.~ a própria cul~ portuguesa. O que,
emre n6s, mais argutamente se apercebeu desse conflito entre atraso
desenvolvimento e teve consciência da bruteza teórica e do elementarismo
dos novos políticos, com o seu desp~ destmidor pelas tradições nacio-
mis válidas e indispensáveis para a reconstituição a,~ualizada da cultura
~esa, foi ainda Almeida Garrett, o único génio do romantismo por-
tuguês e que viveu intensamente este complexo problema. Não Conseguiu,
disso, dar amplitude ao movimento romântico, salientando o que
poderia chamar a sua modernidade tradicionalista que era a sua raiz pro-
funda. Na verdade, não teve grandes ajudas, pelo que a sua personalidade
únpar não se integrou num processo crítico muito continuado. Alexandre
Herculano, com as suas visões políticas excessivas e precipitadaS, deu uma
base escassa e pouco dinamica ao d~volvimento econó~co, desinteres-
sado como estava pela indústria e pelo comércio, bases da situação econ6.
mica europeia. Os seus relatos sobre a paisagem industrial inglesa são pau-
~os de observação e diagn6stico. Castilho, no seu ruralismo lisboeta,
esmerava-se em melifluosidades epidérmicas e em declarações sobre a feli.
cidade pela agricultura, próprias de quem vai a banhos para a Bairrada.
o que já nem os países de agricultura pr6spera era admissível.
Os quadros mêdios românticos eram jornalistas ou bacharéis. A socie-
dade retratada ou movimentada era artificial.
No conjunto romântico que se lhe seguiu, s6 Camilo Castelo Branco
se apercebeu quanto era arriscada e mal percebida a contraposição entre
auam e desenvolvimento. Contudo, quanto teve voz na vida cultural lx~-
tuguesa, já os lugares comuns que bloqueavam a análise sociológica em
ltemdano, Teófilo Braga, Oliveira Martins e Antero de Quental estavam
4,~~~iRdos enraizados. Na verdade, só estes dois últimos acabaram por
me aperceber do primarismo dos pressupostos analíticos de que tinham
! I !

F~ nestas condiç~s que se organizou todo o p .rocesso de res~nsa.


t..~ pelo
queatraso
davamdo lugar
Pms. aOque
objectivo
fossem era muito mats
absolvidos os referir categorias
políticos mats em

~da
sua ¡parte dessas «cuiDas» aue ninm,,~ ,,,,,.,~o +~,. 1: oo.~-
isolá-las no todo nacional? (3 verdadeiro õbi-~ctivo'~"'~=
~ ¿~..~."-.~
~ t a u u u -=~~-
IJarw
. j

~_ detmte era exautorar o clero, as ehtes locais, as estmturas do estado.


mcm~as.conm~, os acusadores prownham, sobretudo, do exército,
da zl~t,wp,~_a, dos políticos quando se viam longe do poder. Mas será
possível promover o ~volvim¢nto, desprestigiando a iesponsabifidade
governativa? Criticando-a s~ com essa intenção? No entanto, em muitos
casos, as provas que estes novos corpos polítict~ e guias de opinião de-
ram foram em muitos casos brilhantes. Certo era que, tanto, no primeiro
liberalismo como na legislaç~ da guerra civil, como no segundo libera-
lismo, as novas leis, as novas formas de governo, administração e consulta
não suscitaram uma pmsp~dade geral. O desenvolvimento foi substituído
por um crescimento descontím_m das cidades de Lisboa e do Porto para
onde corriam as. rendas regionais, nunca tendo desaparecido o considerável
atraso da província portuguesa.
O Setembrismo, tritmfante, em 1836, foi o primeiro movimento libe-
ral a pôr de uma forma bem clara o problema essencial T do desenvolvi-
mento. Mas o processo que desencadeou não conseguiu acelerá-lo de modo
a dar-lhe coerência e regularidade. Depois do Setembrismo, Costa Cabral
que dominou a política portugue~, entre 1838 e 1851, teve uma consciência
muito clara de quanto o desenvolvimento era uma questão decisiva, tanto
no plano material como cultural e político, como at~ humano. Contudo ním
se deu conta de que tinha nascido, cmno força nova, uma opinião pública
com meios de expressão seguros e que ia muito além das cidades e do que
«diziam» os jornais. Assim, não foi por acaso, que a resistência ao governo
de Costa Cabral surgiu, sobretudo, nos campes e no Porto. Contudo. a
grande vantagem, ainda que mal assimilada foi o ter dado, nesses cinco
anos --1846-1951--- a grande liça, memno no filmmlismo real, de que
se não pode governar contra essa mesma op'mião pública. Apesar de tudo
ela exmte.!
A partir de 1852, com a Regeneração, Fontes Pereira de Melo toma
o desenvolvimento ¢xnno a prioridade absoluta. Estabelece, para ele. duas
condições p~ essenciais: a estabilidade política liberal e mua rede
acessível de transportes.
Praticou, por6m, o erro de supor que esses pressu~ eram sufi-
cientemente para l desenvolver as potenciaHdades kr, ais e criar as novas e
n~as estruturas de produção industrial. Na sua visão de organizador
nato, julgou que os «fundos de maneio» eram tão fáceis de obter. «rum
gerir emprés~ bancArios. Tal não aconteceu. Os capitais privados que
cxistiam não tinham nem audácia, nem capacidade para resistir à tentacão
dos emprés~ ao estado. Este acabou por se endividar perigosamente pelo
que a estrutura administrativa --- central e regional--- não encontraram
recursos finance~ para p~er à renovação dos meioe~ de produção
e o mercado cresceu pouco e mal. O aparelho de estado ia sobrevivendo,
sem ter sido capaz de conceber uma política econ6mica geral.~~
A expurgação do cancro esclavagista nas colónias, até 1876i a monta-
gem de um mínimo de melhoramentos materiais, de deficiente continuidade,
absorveu as disponibilidades internas e externas do país. E apes~ dos esfor-
ços de Fontes Pereira de Melo, não se pensou uma estratégia de desenvolvi-
mento que envolvesse a todos como participantes activos. Em compensação,
o partido político reunido à volta, do duque de Loul6 esteve quase.sempre
no poder entre 18561e 1866 e dlversas vezes depois desta datai wveu no
dia a dia das emergências. Nunca se considerou indispensável a coorde-
n a ç ã o d e u m a po l í r i c a e c o n "o m
i c_a_ooe r.A
. . l. n-z----
,,p
_ procurasse garantir mercados
e quadros que levantassem a confiança, e os recursos da iniciativa privada.
Entre 1856-1870--anos cruciíus--o desespero nacmnal atingiu
expressões de ruptura, perdeu confiança nas suas capacidades. Foi então
que começou a pôr-se ao escol a pergunta dramática sobre se Portugal
. o~o ~
tinha justmcaçao. Para que serviu Portugal? Para que servia la Pátria?
Como dar-lhe ou reencontrar-lhe destino? Valeria a pena?
A verdade é que o povo português ---o Z~ Povinho?-- não tinha
estas dúvidas de metafísica política. Mas também é certo que vigiava mal
e criticava mal os seus políticos e os seus conselheiros. Quase não havia,
nessa altura, na cultura portuguesa, nem pensamento poHtico, nem debates
informados sobre os grandes problemas contemporâneos. As panaceias do
positivismo encarregavam-se das Husões de cultura.
Em 1890, com aquilo a que se quis chamar a crise do «ultimatum», ao
lado de uma crise geral, quanto aos critérios de intervenção, a¢entuou-se
a desorientação no limitado e pouco eficaz escol político português. Con-
tinuava a não existir a percepção da necessidade do uma análise crítica
e amiga, mas em profundidade, dominados como todos estavam pelo furor
de encontrar «respOnsáveis». O quase~ desconhecimento da teorização
necessária para pensar uma política económica geral não se tinha alterado.
E, de novo, dentro de uma situação paradoxal inquieta e desorientada, na
íxe~ da cultura adquirida, a grande vitalidade esperança yolta-se para
o «regresso às origens». Vo|ta-se à posição essencial de Almeida Garrett:
a admiração pela vivência cultural do povo portugu~ e a sua admirável
potencialidade criadora. E a pergunta formulada para definir qual o destino
~ r i c o d e P o r t u g a l v e i o a t r a n s [ o r m a r - s e n u m a e x e g e s e ~ u s t i fi c a t i v a d o
Im~ português, na comparação entre aquilo que ele [azia e o que deixaram
ou poderia fazer. Vendo bem, já se desenhava uma confiança de que o
desenvolvimento estava ao alcam~ do País real, o ¢vetdadeim», o que vivia
para além das ideologias, protegidas fora da sua imSpda estrutura colectiva.
E a resposta sobre qual a razáo por que não tinha ~do esse corpo
nacional que tão eficaz tinha sitio no Imssado, constituiu uma poderosa
arma, para a propaganda republi~, ainda que «inventada» por Oliveira
Martins: o obstâculo era a dinastia de Bragança! E se aos Braganças
acrescenta rmos a Igreja Cat6lica e os seus «mentores» mais apurados
---os jesmtas-- temos a concepç~ doutrinária que explicava o falhanço
português. Por isso se dizia que o «desenvolvimento» ~va da im-
plantação da República!
Todo esse debate, envolvido em esperanças e incriminações em inter-
pretações antm~lógicas, ideol6gicas ,e projectos constitui um elemento
fundamental para a compreens~ da cultura portuguesa do final do século
e é ---continua a ser-- um elemento decisivo para a avaliaç~ da acção
política do seu escol. Náo era muito positivo: o vazio teórico da sua cul-
tura nesse domínio era uma realidade, a casuística eleitoral i---mesmo me-
lhorada--- outra realidade. Pro!iferavam os hálmis, os eloquentes. Os que
estavam ligados à esperança de serem governo, dentro do sistema--os
monárquicos constitucionalistas--- iam, neste ambiente, perdendo popula-
ridade. Muitos, por6m, tentaram recuperá-la, atacando a realeza, na pessoa
concreta do rei, com a mesma energia com que o faziam os «extremistas»
republicanos.
O grave era que tinha deixado de haver uma política monárquica
de desenvolvimento que podia ter sido aproveitado no sentido do presffgio
do regime, como já tinha acontecido em política externa: a monarquia
seguida a única :política externa possível. 4
Não parecia que houvesse muita sensibilidade em tal p rojecto e cada
ano que pas~va,.a possibilidade de presença do Estado no desenvolvi-
mento industrial m sendo cada vez menor, unto vez que ,m~a potfti~
económica envolve anos de execução e verificação. Ora a es~rança dessa
IXxssibilidade avaliada em anos, ia diminuindo cada vez mais. A política
concebida por I¢~'_o Franco foi desmantelada ~ o~os que, por Uma
razão ou por outra, lhe foram levantados pelos seus adversários monár-
quicos: o desenvolvimento não os uniu.
Nessas condições, os republicanos tomaram conta dessa esperança
irreprimível. Foi ¡deste modo que se tornaram os ~dores do destino
hist6rioo do século XIX que era o de orientar a; «actualização» do País.
Que queda isso, na realidade, dizer? Significava promover o progresso
cultural, a prosperidade económica, a cidadania poHtica. Foi com estas
armas formidáveis que, no princípio do século XX, se formou o destino
histórico de Portugal que os republicanos assumiram a obrigação de
o re~. i !
i
Assim sem receio de exagero, podemos dizer que, na sensibilidade
portuguesa do princípio do século XX, o tema «Portugal, que destino
histórico?» ia ao encontro do problema sobre se Portugal era, ou não,
capaz de levar a efeito um projecto de desenvolvimento que lhe desse uma
equiparação de presença nacional idónea, na cultura e na ~da pública
internacionais como tinha sido no pasado e que o seu «atraso~ tinha feito
perder. O país aceitou a República Democrática porque a supôs capaz de
levar a efeito as medidas fundamentais nesse sentido. E pela mesma razâo
aceitou a Ditadura Militar de 1926 e deu depois o seu longo apoio ao
Estado Novo.
O 25 de Abril de 1974 teve, por detrás das suas motivações mais
difundidas, uma ideologia de desenvolvimento. A viabilidade em o conse-
guir pelo caminho que julgava «moderno» era, desde havia muito, sabida
como inexistente, logro completo que s6 podia interessar a quadros poli-
ticos em absoluto, ignorantes do que durante mais de cinquenta anos,
se tinha passado com propostas daquela natureza em todos os casos,
desde a URSS a Cuba.
De todo este debate intenso e dominador que envolveu os séculos XIX
e XX resultou, por¿m um enriquecimento espiriüml notável. Para nõs,
desenvolvimento deixou de ser só actualizacão, só c¢mnerac~n ~ ,-~~~~
A ' ~ ~ ~ - - ~ 3 - ~ ~ - ~ - - v v ' q r, t p ' , n s , , n s , v¡me

~ . Exlgla uma cultura de dignidade comum. Ao longo de todo este


, I
o ~
tra~cto de sucessos e dificuldades, a consciência nacional da nossa dife-
mença tornou-se uma característica da nossa pr6pria consciência pública
queremos continuar a escolher o nosso «desenvolvimento» e a man-
bem qualificado, face às outras não menos respeitáveis culturas e
lmmas de riqueza.
Essa convicção do nosso particular é uma dimensão inestimável na
~ção que podemos dar a uma capacidade europeia. =Na sua cola-
Imraç~ contra a uniformidade, o que nos é pedido é que mantenhamos
a mossa diferença e saibamos tornar-nos conscientes dela. 1~ indispensável
qlme nos tomemos certos que, hoje, a verdadeira inutiIidade cultural é a
snm'immidsdz. A verdadeira derrota é não sabermos mant~ as diferenças
~ o ~
.
i
Encostado gvograficanam~ à Espanha, dentro desta mesma preocupa-
ção de destino hist6rico, os ~ para o delimitar, ou o conteúdo das
meditações dos seus hong~ de cultura não coincidiram. Assim como não
coincidiram nos seus ~ e nas suas lutas. Mas nesta diferente interpre-
tação da problemã.tica do «desço», a diversidade assim exp.ressa não
afectou- nem podia afectar-- as prof~ pmxnn;dades ,t,+ ,,,~.tt;=~~o.
para além das diferentes coerências de vida- ou cul~ que se tem
vivido nas comunidades ~. Não raro, entre elas ~ surgido
acusações, project~ e amb~ contraditórias, naturais em povos que sem-
pre têm vivido destinos paralelos. Fale facto assegurou e esclareceu, sem
qualquer dúvida, a consciência da diferença própria, expressa na percepção
do que para t¢gl~ nós, portugueses e espanh6is tem sido. cada um a
seu modo- a independência política, na exploração dos caminhos da
+

realizaçáo colectiva, e¢,m6mica, s¢mial, culumd ou mesmo esvirimal.


Essa condição ~ sempre, como exigência caut¢lar imubstituív¢l,
para garantir um destino livre, qualquer que seia a necessidade impres-
cindlvel das relações bilat~, que ninguém pode ignorar.
Dominado pela vontade da diferença esta é mais fácil de defender
quando a polltica ajuda. Tem de estar presente em módulos constituídos
e de dispor de instituições que a defendam. Para todos os países, inde-
pendência é essencial porque preserva um espaço experimental que a his-
tória tem garantido como eficaz. Noutras áreas da vida colectiva,+ apoia-se
na dimensão religiosa, artística, literária, na presença regional do poder,
na sua capacidade arbi~, na criação vigiada da ¢strutura sistemática do
estado, aceitando até a revisão das formas da sua coerência interna: as
Nações são co~ complexos da globa!!da_de exigente e variável din~
mo; antiguidade é a exprem~ da sua capacidade desafiada que não raro
se opõe às eficácias do voto imediato, mesmo que este seja necessário
para verifica¢ão de uma evolução possível.
No s6culo XX, já quase todas as nações ou estados passaram por esta
revisão. A partir dela é que o seu destino hist6rico manteve ressonância
e o significado de responsabilizar a realização de novos +objectivos, de
acordo com a sensibilidade e os recursce nacionais. O destino histórico
desenha-se como o desenvolvimento das regularidades internas da sua
cultura e convivência, encontradas pelas sucessivas reslxmtas eficazes às
sucessivas novas condições. Não é experiência a dispensar ou a ignorar.
A sua confirmação só pode ser contemporânea e expressa num plano
exequível da actualidade. Sem isso, não há destino histórico. Foi esse
ponto que a vida pormguesa entendeu, primordialmente, defender
razão primeira para a manutenção intransigente da diferença acumulada.
Hoje, cabe-nos administrar, com pen'cia, os dados geopolíticos, globais, na
conotação particular que nos diz respeito, sem prejuízo da aceitação comum
dos valores humanos que também nos compete representar, no nosso modo
que não desmente a matriz.
A missão histórica para as elites nacionais tem de ser o encontro de
uma expressão sensível e própria na oportunidade europeia, numa Imrs-
pectiva que nos compete descobrir e impor, para além de a tomar clara
e patente, como sempre tem sido. Compete-lhe, igualmente, aprender o
modo médio e comum da percepção do mundo em que todos vivemos
para conveniente consciência do nosso. Temos, primeiro que tudo que
nos revelar eficazes, conscientes do que podemos e não dependentes e
subalternos. Temosde nos realizar no sentido da nossa express~ que a
história demonstra existir. Ninguém o fará nem poderia fazer por
nós. Compete-nos ~velar capacidade, da presença à viabilidade que con-
tinua a existir. A única? A melhor? Temos consciência do que seremos
capazes e provamo-lo na modéstia com que aprendemos o que do «outro»
nos interessa.
Destino comum a t~as as nações? Sem dúvida. $6 que o resultado
é nosso e não pode ser o mesmo das outras: não é parfilhável, nem subs-
tituível. Que resultou dessa exploração autónoma de uma mensagem em
comunidade de valores? Pois a cultura portuguesa não é diferente das
outras interpretaçõcs hispamcas. Pois o Brasil não é diferente das outras
A
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pátrias americanas? Pois a estrutura deixada pelos portugueses em Africa


não é diferente do que foi deixado por outros europeus? E podem fazer-se
idênticas perguntas no plano das particularizações culturais: no barroco,
no romance, no lirismo, na dimensão predilecta da obra de arre, no pen-
samento político, nas relaçÕes sociais, na perspectiva económica. Houve
campos da cultura que não atingimos? Decerto! Mas quem os atingiu
todos? Qual foi a cultura que não pagou um ónus para ser especffica?
Os ideais são universais, as realizaçÕes não o podem ser. $6 existem como
aacionais ou especfficas.
O nosso destino histórico, hoje, é definidamente, o de enfrentar o
atraso em que o industrialismo colocou a nossa cultura que existe e a
avsm vida comunitária que tem uma feição própria mas que não pode
ter falhas de desenvolvimento. Temos de o assimilar e prosseguir. Mas,
Imnt isso, não precisamos destruir nem uma nem outra, nem estabelecer
depend¿ncias que nos comprometam. Nós sa~mos que os valores se
perdem, quando z esbate a dignidade com que sao definidos e se plas-
tifica o contexto em que são vividos ou com que se defendem. Torna-se
in~ável restaurá-los para cada contexto. Saber continuar. Assim como
sabemos como se ganha em entusiasmo de colaboração, capacidade de
endereço público, apoio, verificação finalidade vivida, quando vemos
percebida a nossa diferença assumida. Não se trata de uma formulaçáo
teimosamente particularista, ou de uma atitude construida a partir de
acasos, aliás, imposslveis de perceber como tais. ]~ uma condição de feli-
cidade e realização oole.~tiva, a compreensão comum das diferenças de
valores que competem ao mundo ocidental ddender, perante as expressóes
que lhe são dados pelas outras comunidades bem sucedidas. Portugal é
uma delas.
Os destin~ peninsularea, assim como os zuropmm, inserem~ nesse
condicionamento de equWbrio. Assim Pormgal, como destino hist6rico,
realiza-~, lado a lado com o de Espanha, na Europa e l no mundo para
al~m dos módulos que, em cada idade, thn apresenta&. Na igualdade dos
valores na diversidade da sua percepção, o nosso destino histórico é
alcançar a parida& do desenvolvimento para a intensificação da nossa
diferença acumulada e natural. Sempre a exploração do risco da ,nossa
diversidade, nO «à vontade» da nossa independ¿ncia. E! manifesta.ee na
paridade sempre onquistada no seu ~, como poder político.
F. m a p u b ~ f o i o m p m ~ p o r
Freilas Brito, Ida., acabou de sc
imprimir aos I$ de ]unho de 1991,
ma Rua do ~ n." 12a20
1200

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