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Instituto Ludwig von Mises Brasil

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A esquerda progressista e a consagração da


culpa
por Murray N. Rothbard, domingo, 30 de novembro de 2014

No início do século XX, o movimento progressista -- à época, liderado pela esquerda


americana -- entrou em cena pregando o fascinante e sedutor evangelho da
Libertação da Culpa.  Os indivíduos -- proclamavam audaciosamente os progressistas
-- estavam reprimidos, inibidos e repletos de um massacrante sentimento de culpa
pelo simples fato de estarem constantemente cedendo aos seus desejos e impulsos
naturais.  A função autoproclamada dos progressistas era a de efetuar uma jubilosa
remoção de todo e qualquer sentimento de culpa, sentimento esse que havia sido
forçadamente incutido nas pessoas pela 'opressora moral religiosa', por padres e
pastores.

O hedonismo, a entrega irreprimível aos desejos e o m de toda e qualquer sensação


de culpa passaram a ser o comportamento preconizado.  Colocando em uma típica e
repugnante frase da Revolução Sexual da década de 1960, "Se algo se move, acaricie e
demonstre afeto".  O sexo, por m, seria "apenas um gole d'água", algo natural e
inofensivo.

No entanto, essa era da inocência e da ausência de culpa propugnada pelos


progressistas durou, pelo que me lembro, aproximadamente seis meses.  Logo depois,
as coisas se inverteram totalmente. 

Atualmente, toda a cultura progressista é caracterizada por um maciço sentimento de


culpa coletiva.  Aquele cidadão que não rezar pela cartilha politicamente correta e não
professar (nem que seja apenas da boca para fora) uma longa lista de culpabilidades
solenemente declaradas é automaticamente rotulado de 'reacionário' e será
naturalmente tido como um pária em sua vida pública. 

O sentimento de culpa é hoje onipresente, a tudo permeia e está difuso em todas as


culturas e classes sociais.  E o que é ainda mais irônico: tudo isso foi imposto a nós
pelos mesmos marotos que outrora prometiam uma fácil e irrestrita libertação de
toda e qualquer sensação de culpa. 

Um breve resumo dos sentimentos que um indivíduo tem a obrigação de ter:


sentimento de culpa pelo assaltante de rua, sentimento de culpa por séculos de
escravidão, sentimento de culpa pela opressão e estupro de mulheres, sentimento de
culpa pelo Holocausto, sentimento de culpa pela existência de aleijados, de cegos, de
anões e de de cientes mentais, sentimento de culpa por comer animais, sentimento
de culpa por estar gordo, sentimento de culpa por fumar, sentimento de culpa por não
reciclar o lixo, sentimento de culpa por se locomover de carro e gerar poluição,
sentimento de culpa por não usar bicicleta, sentimento de culpa por haver pessoas
negras com renda menor que a sua, sentimento de culpa por estar "violando a
santidade da Mãe Terra" e por aí vai.

Observe que esta culpa jamais é con nada a indivíduos especí cos -- por exemplo,
aqueles que realmente escravizaram ou assassinaram ou estupraram pessoas.  A
e cácia em se induzir culpabilidade nas pessoas advém justamente do fato de que a
culpa não é especí ca, mas sim coletiva, podendo ser expandida e ampliada por todo
o planeta e, aparentemente, ao longo de várias épocas, de modo incessante.

Antigamente, desprezávamos os nazistas por causa da sua doutrina de coletivização


da culpa (a qual eles impuseram a judeus e ciganos); hoje, abraçamos esse mesmo
conceito nazista como se ele fosse uma característica vital do nosso sistema ético. 
Con nar a culpa apenas a criminosos especí cos seria uma atitude que não geraria o
efeito desejado justamente porque não caberia na nossa vigente doutrina do
"vitimismo credenciado". 

Alguns grupos já adquiriram o status de "vítimas o ciais" -- são aqueles que têm
direito a tudo, principalmente ao bolso dos outros cidadãos, os quais, justamente por
não estarem no grupo o cial das vítimas, estão consequentemente no grupo dos
criminosos, e são os "vitimadores o ciais", normalmente homens brancos,
heterossexuais e bem-sucedidos.

Destes vitimadores exige-se que sintam culpa e remorso pelas vítimas, e


consequentemente -- uma vez que não faz sentido se sentir culpado sem pagar por
isso -- assumam vários deveres e concedam in ndáveis privilégios às "vítimas
credenciadas", seja sendo paci camente assaltado na rua, seja fornecendo vagas de
trabalho ou em universidades por meio de cotas, seja concedendo salários sem
nenhuma relação com a produtividade.

Simplesmente não há maneiras de um determinado indivíduo deixar de ser culpado. 


E foi isso que nossos libertadores progressistas nos impuseram. 

Para piorar, toda essa vitimologia fez com que até mesmo o sexo deixasse de ser visto
como algo livre de culpa: com a implacável diatribe feminista de que "o sexo explora
as mulheres", e a furiosa mania do "deve-se usar preservativos em nome do sexo
seguro", seria melhor simplesmente abolir todos esses modernismos e voltarmos para
a boa e velha culpa cristã em relação ao sexo.  Certamente seria algo mais simples e
pací co.

Grande parte da atual onda politicamente correta não passa de uma demente
tentativa de justi car e dar continuidade a um comportamento repugnante ao
mesmo tempo em que se tenta substituir o comportamento decente por uma
cornucópia de regras formais ditadas por progressistas.  O problema é que essas
regras formais são o inverso das boas maneiras, pois são usadas como porretes para
impor o desejo de alguns poucos sobre todos os outros -- e tudo em nome da
"sensibilidade". 
Mas uma hiper-sensibilidade é uma das maiores barreiras que podem ser impostas ao
discurso civilizado e às relações sociais, e servem apenas para fazer com que as
relações humanas voluntárias e francas sejam virtualmente impossíveis. 

Como em todos os outros aspectos da nossa pútrida cultura, a única maneira de


remediar a situação é oferecer resistência e partir para o ataque frontal e total contra
esses progressistas de esquerda indutores de culpa.  É nesse ataque que jaz a única
esperança de reassumirmos o controle de nossas vidas e retomarmos nossa cultura do
controle destes tiranos maliciosos.