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E, no final, Lula reescreveu a história de sua


própria prisão
Leonardo Sakamoto 07/04/2018 20:39

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E, no final, Lula conseguiu o que queria. Ao invés de obedecer ao roteiro proposto


pelo juiz federal Sérgio Moro e comparecer por conta própria à Polícia Federal, em
Curitiba, no final da tarde desta sexta (6), o ex-presidente fez com que fossem
busca-lo, no começo da noite deste sábado, no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC,
onde esperava rodeado por milhares de militantes e eleitores. Escoltado pela
Polícia Federal, dirigiu-se até a sede da instituição e de lá para o aeroporto de
Congonhas e a capital do Paraná.

Ele não conseguiu controlar os desdobramentos da Lava Jato, vendo sua escolhida
sofrer impeachment, seus aliados serem perseguidos e presos e as denúncias e
processos se avolumarem contra ele. Também não conseguiu impedir que ele
próprio se tornasse o preso mais famoso da operação e, segundo os críticos, razão
principal de sua existência, devido à escancarada seletividade partidária.

Contudo, se era incapaz de manter sua liberdade, a principal liderança


popular brasileira conseguiu reescrever a narrativa de sua própria prisão.

Ele queria que o registro que ficasse para a posteridade desse momento fosse o do
antigo líder de massas, protegido e carregado pelo povo, no sindicato que é seu
berço político e um dos símbolos da luta pela redemocratização do país. E não
imagens de um Lula derrotado, caminhando em direção ao seu carrasco para a
execução de sua pena. Situação em que ele não teria voz, mas seria alvo passivo
das avaliações e críticas de terceiros. E veio a conseguir.

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(https://conteudo.imguol.com.br/blogs/61/files/2018/04/lila.jpg)
Lula é carregado após discurso no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC neste sábado (7). Foto:
Francisco Proner Ramos

Desejava ter controle da história de sua prisão não apenas para garantir sua
popularidade e, portanto, influência nos processos decisórios do PT e nas eleições
de outubro, mas também orientar o sentido do discurso a ser adotado por seu
partido e por parte dos movimentos sociais da esquerda daqui em diante. Não é à
toa que manteve perto de si durante esses dias de trincheira montada no sindicato
tanto Guilherme Boulos, coordenador nacional do Movimento dos Trabalhadores
Sem Teto (MTST), quanto a deputada estadual Manuela D'Ávila (PC do B – RS),
pré-candidatos à Presidência da República. Ele precisa deles para o futuro, mas
eles precisam dele para o presente.

Lula desejava, acima de tudo, defender o seu legado. Gostando-se ou não dele, há


de se convir que é a liderança política mais importante que o país produziu na
segunda metade do século 20. Cioso de como a história contará sua trajetória e os
anos de seu governo, repete, incansavelmente, o papel que desempenhou no
processo de retirada de milhões do mapa da fome em seus discursos.

Quando estava para deixar o prédio do sindicato escoltado pela polícia, parte dos
manifestantes não o deixou sair. Por conta disso, vi e ouvi muitos comentários de
analistas indignados, afirmando que isso era forjado, ou seja, um bloqueio
organizado estrategicamente para não deixar ele se entregar. O que mostra que
uma parte da classe média antipetista ou mesmo da imprensa não consegue
entender o que uma parte do povão mais pobre pensa dele.

Havia quem não queria que ele fosse preso por ser ele o Lula, como toda
mitificação em torno dele. Mas para outras que impediam sua passagem, Lula não é
mais uma pessoa, mas uma ideia – como ele mesmo disse em seu último discurso,
após a missa, nesta manhã, em homenagem ao aniversário de sua falecida esposa
Marisa Letícia. E quem quer deixar uma ideia ser presa assim tão facilmente?

Antes que o governo do Estado de São Paulo mandasse a Tropa de Choque para o
sindicato a fim de ajudar a cumprir a ordem de prisão, Lula saiu a pé do prédio e
entrou no carro que o levaria embora.

Conseguiu o que queria. Para uma parte da sociedade, ele se entregou à polícia e
cumprirá pena em Curitiba, sendo o primeiro ex-presidente preso por crime comum.
Para outros, contudo, passa como um preso político, arrancado dos braços de um
povo que não queria deixar que partisse, mantendo-se como inspiração para a
militância em todo o país.

Qual a memória que a maioria das pessoas terá desse dia ainda é cedo para dizer.
Da mesma forma, é difícil imaginar o que a história pensará de Lula. Pois, se retirou
milhões da fome, decepcionou outros tantos devido aos seus acordos com setores
atrasados do país nome da governabilidade.

Além disso, a distribuição das narrativas é feita de desigual devido ao poder de


difusão dos meios disponíveis a cada lado. Mas, para ele, é uma vitória ter
conseguido impor sua narrativa para disputar o jogo.

Fina ironia. A Operação Lava Jato, tão boa de marketing, criou as condições para
aprofundar a mitificação de Lula na ânsia por garantir aquilo que já era certo.
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Em tempo: Cansei de denunciar a violência contra jornalistas que cobrem atos e


manifestações, da direita à esquerda, ao longo dos anos. De agressões a quem
cobre protesto contra a prisão do ex-presidente até tiros no ônibus que levava os
jornalistas na caravana de Lula no região Sul, seguimos um caminho perigoso
contra a liberdade de expressão e os profissionais de comunicação. Se nossa
categoria se visse como trabalhadora, já teria cruzado os braços diante da
percepção de que veremos (mais) colegas sendo mortos até as eleições em
outubro. Feliz 7 de abril, Dia do Jornalista.

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