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Formação de professores do Ensino Médio


Carta aos Professores

A Prof.ª Inês Assunção de Castro Teixeira, doutora em Educação pela UFMG, professora de
Graduação do curso de Pedagogia e Licenciaturas, apresenta os cadernos do Pacto Nacional pelo
Fortalecimento do Ensino Médio endereçando uma carta a todos os professores de Ensino Médio. Opta
por esta linguagem escrita por acreditar que as cartas podem ser um início de uma conversa,
inaugurando possibilidades para se pensar e reinventar nossas vidas cotidianas e experiências
de professores de Ensino Médio.
A Prof.ª relembra as manifestações sociais ocorridas no Brasil no ano passado, tendo os jovens
como protagonistas e se pergunta se aqueles jovens teriam sido seus alunos, teriam aprendido com
seus professores sobre os movimentos e lutas sociais e se questiona sobre o que
os professores deveriam fazer com esse jovens e se os questionamentos que ela elaborou também foram
pensados pelos outros professores e para aprofundar o diálogo, a autora faz três cortes em forma de
subtítulos, que serão apresentados a seguir:

“Mas vibra alguma alma com as minhas palavras?”

Ao trazer um poema de Fernando Pessoa, a autora justifica que os poetas afinam nossa
sensibilidade e percepção, o entendimento e a formulação, como também as formas como nos
expressamos.
“Ah, mas como eu desejaria de lançar ao menos
numa alma alguma coisa de veneno, de
desassossego e de inquietação.
[...] Mas vibra alguma alma com as minhas
Palavras? Ouve-as alguém que não sou eu?

Quando leu essas palavras, a autora pensou no que ela mesma sentia em suas aulas, nas quais
sempre receava de que seu aluno entrasse no tempo da aula, sem que a aula entrasse nele, sem
que a aula entrasse no tempo dele. E se indagava como tocar nos jovens envolvendo-os nas propostas
didático-pedagógicas, que sentidos ou significados eles lhes atribuíam. E perguntava-se se
os professores de ensino médio, antes tão poucos, hoje, após a expansão do mesmo, são inúmeros na
rede pública e privada, sentem esta inquietação e parafraseia o poema de Pessoa; perguntando aos
docentes:

“ouve, minhas palavras docentes, alguém que não só eu?


Toca, meus gestos de professor (a), alguém que não só a mim?
Aprende, o que posso ensinar, alguém mais do que eu?
Dito de outra forma: como construir a docência no cenário da sala de aula e da escola com
esses personagens, nas condições que temos?

Ainda imagens quebradas? Quais imagens?

Seguindo em seus questionamentos a prof.ª afirma que as nossas relações com os alunos, é
onde a docência pulsa e terreno no qual ela se constitui, neste sentido estão presentes dois elementos
fundamentais: de um lado, como chegar aos alunos, tal como o poeta se perguntava sobre os seus
leitores; de outro, esse como chegar até eles, como “conquista-los” para nossas propostas, aulas,
projetos. Como toda relação social estas relações estão implicadas em significações e sentidos, em
motivações e interesses.
A autora se apropria da ideia de imagens quebradas do professor Miguel Arroyo que pontua
que as visões, percepções, representações e sentimentos sobre as crianças e jovens das escolas públicas
são como imagens quebradas e não como realmente são. Neste sentido, os professores acabam
agindo a partir de visões, sentimentos baseados em estereótipos, rótulos ou imagens negativas, que os
inferiorizam com adjetivos desqualificadores. Essas imagens e representações que vão se revelando
são as que são absorvidas e reproduzidas, pois elas são e sempre constituíram as bases de uma
sociedade injusta e desigual, autoritária e elitista, como o caso brasileiro, que ainda mantém a casa
grande e a senzala.
É inegável que tais preconceitos, generalizações, rotulações, descriminações ainda
permanecem entre nós, transitando da mídia, da família, dos tribunais, do parlamento e de todo tipo de
espaço social para as escolas, são verdadeiros atos de violência simbólicas.
Nos encontros e desencontros entre os professores e seus jovens alunos nos territórios da sala
de aula e da escola, não raro vivências conflituosas, tensões emocionais e inquietações as mais
diversas, tem destituído a docência de seu fundamento: a reciprocidade e interdependência entre os
jovens discentes e os adultos, docentes.
Vemos hoje, entre os professores do Ensino Médio e outros segmentos do
magistério, a docência sendo posta em questão, colocada à aprova, algo como se sofrêssemos uma
erosão. Nos dias de hoje, como novos alunos, novos tecnologias, novas formas de sociedade, com o
desgaste da autoridade e da civilidade, em tempos de corrosão do caráter, diante de novos e velhos
problemas estruturais e conjunturais como a desigualdade, e injustiça social, entre outras o que
caracteriza a condição docente do EM quando se trabalha com jovens? Como assegurar aos jovens
alunos do EM experiências que os tornem sujeitos pensantes e sensíveis, solidários e democráticos,
humanos, dignos?
Podemos dizer que alguns sentidos a profissão de professor, o ato educativo-pedagógico
escolar está posto em jogo no mundo contemporâneo. O EM e a docência que nele se realizam na
forma como os construímos até aqui estão desgastados. A docência está posta em suspeita, está sob
intempéries ao mesmo tempo em que o ofício de professor é ainda muito necessário, senão
imprescindível nos dias de hoje. Aqui e até estamos sob a égide do espetáculo, sob a mais larga
mercantilização das relações sociais, do mundo, da natureza. Neste contexto, o trabalho dos
professores torna-se fundamental, nestes tempos nos quais tantos e tantos jovens são deixados num
contexto social preocupante.
A autora neste momento, acredita que os professores do EM, mesmo diante deste cenário
desafiador, continuam acreditando nos estudantes, tentando construir com eles um projeto de formação
humana e cidadã, todos os dias assumem seu ofício de mestre, um compromisso que diz respeito a
primeira responsabilidade da docência. E mais contundente, permanente e apaixonada aposta na
esperança que se renova em cada vida que amanhece diante de nós, em cada jovem encontrado no
cotidiano da docência.

Matéria de Ensino Médio

A prof.ª Inês termina sua carta com outro poema, agora de Manuel Barros, parafraseando
novamente e convidando os professores de Ensino Médio a construírem seu próprio poema:
Matéria de poesia
Manuel Barros

"Todas as coisas cujos valores podem ser


disputados no cuspe à distância servem
para poesia. O homem que possui um
pente e uma árvore serve para poesia.
[...] As coisas que não levam a nada têm
Grande importância.
[...] Cada coisa ordinária é um elemento
De estima. Cada coisa sem préstimo
tem seu lugar na poesia ou na geral.
[...] Tudo aquilo que a nossa civilização
Rejeita, pisa e mija em cima, serve para
a poesia."

Nas palavras da Prof.ª Inês:

"O que faz parte das juventudes, das culturas


e experiências juvenis --- anseios,
angústias, necessidades, manifestações,
expressões, namoro, sexualidade, grupos,
amizades, protagonismos, indagações,
diferenças --- são fortuna do Ensino Médio;
questionamentos, projetos, sonhos,
frustrações, interesses juvenis compartilhados
entre professores e estudantes, e até
os problemas mais difíceis, servem para
o Ensino Médio; Observar indagar, compreender
os jovens nas ruas, nas cidades,
nas casas, onde seja; buscar sentidos e
sentimento; criar e recriar conhecimentos
que falem da vida e a contenham faz
bem ao Ensino Médio;
reinventar a docência, coletiva e
individualmente, recriar modos de ser,
se sentir, de pensar, de construir os tempos
e espaços, os rituais e as lidas do dia
--- na sala de aula e na escola --- é matéria
de professores do Ensino Médio;
fazer e pensar; experimentar; olhar e
rever; indagar; inventar e reinventar as
ideias, as coisas, as possibilidades; escutar
(mais do que ouvir falar) dá vida e
vigor aos professores do Ensino Médio;
Realizar e acontecer junto, fraternalmente
---- professores e estudantes; juventude
E escola --- dá alegria e formosura. Têm
Toda importância para o Ensino Médio.