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SAÚDE

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M E N TA L

A psicanálise frente
aos “males sociais”
Nas últimas décadas, os veículos
de comunicação de massa As mães más, de
Giovanni Segantini.
identificaram e, de certa forma, O tema do sofrimento
promoveram algumas doenças refletido na arte
como verdadeiras epidemias:
síndrome do pânico, transtorno de isto se aprende com os tendências atuais da transição
estresse pós-traumático, anorexia, semelhantes”, afirma Bezerra. demográfica e epidemiológica, a
bulimia e, mais recentemente, a “O caso típico é o da histeria”, diz carga da depressão subirá a 5,7%
depressão. Pela complexidade do o psicanalista. “Hoje já da carga total de doenças. Para a
fenômeno, muitos pesquisadores percebemos um deslocamento psicanalista Maria Rita Kehl, hoje
se têm debruçado sobre o tema. desse quadro. As depressões vivemos sob o imperativo da
Para o psicanalista Benilton distímicas, os transtornos do felicidade e do prazer. As pessoas
Bezerra, professor do Instituto de pânicos, as adições e fenômenos que estão atravessando fases de
Medicina da UERJ, "sofrer é compulsivos e os transtornos desânimo ou tristeza
universal no humano, mas a alimentares tomaram o lugar dos absolutamente normais, por
maneira de sofrer varia em cada quadros histéricos da época de contingências da vida, sentem-se
contexto histórico". Freud”, diz Bezerra. Essas doenças logo muito sozinhas, muito erradas,
A subjetividade humana tem expressam a passagem para um e são tratadas como depressivas.
aspectos que são universais, que novo cenário, uma nova formação “E ficam deprimidas mesmo, em
aparecem na experiência de social, na qual o sofrimento é mais função disso!”, afirma Kehl.
indivíduos pertencentes a vivido como falha de desempenho A psicanalista também aponta o
qualquer cultura. Segundo ou performance do que como consumo como um dos fatores de
Bezerra, o fato de que somos em conflito interior ou existencial. “As aumento da depressão: “o valor
grande parte governados por patologias são, num certo sentido, das pessoas tem sido medido,
impulsos e inibições que não o espelho da cultura de uma cada vez mais, pelo que elas
dominamos - cuja força e sentido época”, conclui o psicanalista. podem consumir. E mesmo os que
ultrapassa em muito a consciência conseguem consumir e ostentar,
- é um princípio que encontramos SINTOMA SOCIAL Dados da não ficam livres de sentir a
não só na experiência de gregos Organização Mundial de Saúde profunda idiotice desse ideal”.
da época de Sócrates, em apontam a depressão como forma Além da depressão, Kehl observa
tibetanos medievais e nos de sofrimento mental que cresce com preocupação o crescimento
românticos modernos. "Mas de forma epidêmica, sobretudo da drogadição entre os jovens:
nenhum humano já nasce sujeito. nos países industrializados. Até “não me refiro ao ‘uso de drogas’,
É preciso tornar-se um sujeito, e 2020, se persistirem as mas às formas agudas de

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dependência de algum tipo de droga


legal ou ilegal”. Kehl acredita que
talvez a drogadição faça parte do
mesmo quadro da depressão, pois
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abusivo de drogas, pelo mau
desempenho profissional que é
representado pela "vadiagem" de
tantos jovens, pela destruição da
do Brasil

segundo Coura, aparece


coletivamente no elogio da solidão
pessoal, ou “privacidade”:
“isolamento no alto dos
os viciados em drogas, lisérgicas saúde ilimitada e da boa aparência apartamentos, dos escritórios, na
ou medicinais - o que inclui a trazida pela AIDS etc. Coura frente dos computadores, sob os
dependência dos psicofármacos - explica que este fenômeno é o walkie-man, sob o permanente
estão tentando com frequência mecanismo de anulação retroativa. medo de contágios por doenças,
preencher um vazio, uma falta de Outro sintoma também presente bem como no receio exacerbado
sentido na vida insuportável. na neurose obsessiva individual é de contatos com pessoas em geral”.
Para o psiquiatra Rubens Coura, o mecanismo do isolamento que, Alexandra Tavares
sob o termo depressão, a mídia e
as populações vêm expressando
outras tantas patologias psíquicas
que não guardam relação direta
A MEDICALIZAÇÃO DO SOFRIMENTO
com a própria depressão. O fato Diversos pesquisadores da mente humana alertam para o poder da indústria
de antidepressivos serem, em farmacêutica que, com campanhas de marketing, transmitem a idéia de que
geral, utilizados em diversas seus medicamentos são capazes de resolver todos os problemas do paciente.
situações clínicas reforça a atual É como se dissessem: “Você perdeu um ente querido e está triste? Não perca
tendência de se falsear o tempo, tome um antidepressivo”. Para Maria Rita Kehl, essa facilidade em
diagnóstico. Coura diz que a
medicar qualquer mal estar psíquico “tem o efeito de esvaziar a subjetividade”.
patologia psíquica dominante é, na
Bezerra ressalta que não é só o sofrimento que é alvo de uma medicalização
verdade, a neurose obsessiva,
crescente hoje. A infância, o prazer sexual, o lazer, o prazer com a comida, a
“que se manifesta pela própria
preocupação obstinada com uma educação infantil, entre outros aspectos da existência, estão hoje “sob o olhar
suposta depressão e com tudo o atento dos especialistas’. Ele explica que, com a utopia da saúde perfeita e a
mais que também possa obstar a exigência de felicidade que nos envolve, sofrer parece um sinal de ineficácia
conquista da qualidade total, da existencial, ou disfunção fisicoquímica, que devem ser o mais rapidamente
boa performance profissional e possível sanadas. Acredita que há causas sociais e culturais para isso, mas é
social, da boa aparência, da
determinante o papel da indústria farmacêutica, que se empenha com muita
juventude e da saúde ilimitadas”.
competência em alargar a base de seus consumidores de “antidepressivos e
Para ele, essas preocupações
tranquilizantes, medicamentos dos mais vendidos em todo o mundo”.
traem desejos inconscientes muito
intensos do oposto dessas Para Bezerra, a medicação é indicada “quando é capaz de ajudar o sujeito a
virtudes todas e que são retomar as rédeas de sua existência”. Possui uma função de grande
expressos, em termos coletivos, importância, de corrigir estados ou funcionamentos físicos: “mas não tratamos
pela violência urbana que é o de cérebros, tratamos de sujeitos. É claro que se damos uma susbstância
contrário da boa conduta social, química atingimos o seu cérebro. Porém, se usamos palavras, também!”, conclui.
pela falta de saúde que é o uso

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