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Não ao Golpe e à Ofensiva Reacionária da

burguesia e do imperialismo na Venezuela!


Impulsionar uma saída dos trabalhadores, pela base!

VENEZUELA: REALIDADE POUCO CONHECIDA E NEGLIGENCIADA


Para compreender a situação da Venezuela, temos que entender o realinhamento econômico-
político-ideológico por que passa a América Latina, dentro da “Segunda Onda da Mundialização do
Capital”, associada às repercussões contínuas do agravamento da crise estrutural do capital desde 2008.1
O que sabemos sobre o processo venezuelano ainda está repleto de abstrações e generalizações que
impedem uma compreensão mais coerente e precisa sobre o processo, tanto pela distância geográfica
cultural, pelo bloqueio da mídia burguesa mas também pelo olhar muitas vezes parcial da própria
esquerda. São compreensões, terminologias e/ou narrativas que muitas vezes igualam lulismo e
kircherismo ao chavismo, e que pouco têm ajudado num entendimento mais preciso do processo
venezuelano. São generalizações muitas vezes distantes da realidade, ou voltadas unicamente para as altas
esferas políticas, expressando apenas os problemas do chavismo, deixando de reconhecer aspectos e
acúmulos importantes em termos de consciência e poder popular de base, aspectos muitas vezes
negligenciados pela esquerda socialista.
Vemos contribuições críticas que muitas vezes até apresentam aspectos importantes da realidade
venezuelana, mas como dissemos acima, estão contaminadas das nuances referidas.
Uma delimitação nítida também deve ser feita à mídia burguesa que defende a ordem capitalista, o
imperialismo, os cortes na educação e na saúde, o governo Temer e que se contrapõe, deturpa as lutas e
movimentos sociais que questionem ou confrontem qualquer aspecto dessa dominação. Não podemos nos
deixar levar pela mídia burguesa, ao contrário, desconfiar justamente dessa ferocidade com que é feita a
cobertura da situação na Venezula por parte dos grandes meios, tão coniventes com os governos
diretamente burgueses no Brasil e em outros países pelo mundo.

A AMÉRICA LATINA DIANTE DE UM NOVO REALINHAMENTO


POLÍTICO-ECONÔMICO-IDEOLÓGICO
Em primeiro lugar, pensamos ser importante reconhecer que estamos presenciando um
realinhamento político-econômico-ideológico reacionário na América Latina.
A região, sobretudo a sua porção sul, tinha adquirido algum protagonismo, ainda que sempre muito
limitado, a partir de uma combinação de fatores: por um lado, as rebeliões sociais da Argentina,
Venezuela, Bolívia, Equador, Paraguai, que acabaram levando a governos reformistas que, de alguma
maneira se distanciavam do imperialismo e passavam a adotar algumas políticas econômicas e sociais que
limitavam a sanha imperialista e das potências ocidentais. Como um dos exemplos, tivermos a falência da
ALCA (Acordo de Livre Comércio das Américas) que seria uma extensão do NAFTA (Acordo de Livre
Comércio com o México) à toda a América Latina em prol dos EUA.
Por outro o chamado “boom das commodities” (aumento dos preços das matérias-primas e
alimentos no mercado mundial), fez com que amplas faixas da população e até mesmo das burocracias de
estado e da classe média passassem a ver a possibilidade real de estabelecer um maior controle e
soberania sobre esses recursos, e assim utilizar parte de sua renda para realizar reformas e políticas sociais
mais ou menos amplas de modo a alavancar o crescimento econômico e combater a miséria que havia se
alastrado.

1
Para uma melhor apreensão e problematização de como entendemos a situação internacional ver nossa
nota: “Elementos da Crise Política atual
A Segunda Onda da Globalização/Mundialização do Capital”, em nossa página no facebook: Para Um novo
Começo – Centro Político Marxista.

1
“Fazendo um abuso da geopolítica pode-se associar o processo bolivariano a outros governos
latino-americanos que em algumas decisões, tomaram distância do poder imperial dos Estados Unidos.
Pelo mesmo procedimento é associado ao BRICS e outros alinhamentos internacionais que têm algumas
contradições com as potências ocidentais.” (CIESA, 2016)
“O próprio governo bolivariano por questões comerciais e políticas fomentou estes alinhamentos e
tem trabalhado para promover acordos como UNASUR e CELAC.” (Ibidem)
A UNASUR e o CELAC, assim como o fortalecimento do Mercosul embora limitados a cogestão
do capital, tornaram-se em um limitador às empresas dos EUA e da Europa e conferiram algum
protagonismo e melhores condições de barganha junto aos interesses capitalistas majoritários.
O Mercosul, ainda que limitado, “(...) é um profundo entrave à este tipo de política justamente
porque garante aos países do bloco melhores condições de negociação, seja em acordos pontuais, seja
nas rodadas de negociação multilaterais no âmbito da OMC.” (BOCCA, 2016)
Com o desenvolvimento da crise a partir de 2008, mas principalmente a partir de 2012, com a queda
dos preços das commodities, surge a necessidade para o capital e ao mesmo tempo a possibilidade
política (pelos desgastes dos próprios governos reformistas) de que o imperialismo, em aliança com as
burguesias locais, passem à ofensiva, para retirar pelas eleições ou por golpes (institucionais ou militares)
governos caracterizados por alguns níveis de estatização e ações regulatórias, assim como políticas
sociais possibilitadas por estes organismos.
“Este novo momento, que tem como pano de fundo a polarização política e o crescimento de
movimentos conservadores organizados, visa não apenas retomar a hegemonia política interna, mas
reavivar uma política externa subserviente e alinhada com os interesses das potências capitalistas.”
(Ibidem)
Conforme apontamos em nossa nota, “(...) estamos ingressando num período de relações
comerciais mais perversa, de grande favorecimento aos capitais transnacionais pactuado com as
grandes burguesias nacionais.”
Isto está levando a uma redefinição da Divisão Internacional do Trabalho, a um estágio que remonta
primeira metade do século XX, ou ainda de acordo com alguns autores, ao século XIX.
“A nova modalidade de intervenções, criadora de um novo momento histórico comum à América
Latina, funda-se na necessidade de reestruturação do capitalismo global no pós-crise de 2008”.
(GODOY, 2016)
“A inserção internacional econômica da região sempre foi organizada a partir da
superexploração do trabalho.” (Ibidem)
“A transferência internacional histórica de renda em forma de recursos naturais de baixo custo
define a participação latino-americana na divisão internacional do trabalho. Nesta conta estão o pré-sal,
o aquífero Guarani, a floresta amazônica e todos os minérios da região.” (Ibidem)
As grandes reservas de petróleo, a infraestrutura de escoamento, o refino, a distribuição do petróleo
e seus derivados, são disputados, assim como o mercado do petróleo mundial encontram-se vinculados à
influência político-militar, sobretudo dos Estados Unidos.
Combinado a isto vivenciamos: a flexibilização e a retirada dos direitos sociais; o desmantelamento
dos serviços e políticas públicas; o fim ou a flexibilização de regras regulatórias de funcionamento das
economias nacionais e de extração das riquezas naturais.
Trata-se “(...) de um processo de reversão neocolonial que está nos levando ao século XIX.”
(SAMPAIO JR, 2017)

O CARÁTER POPULAR, AS CONTRADIÇÕES E OS AVANÇOS


POLÍTICOS DO BOLIVARIANISMO DE CHÁVEZ
Diferentemente do Brasil, onde as gestões do PT não permitiram avanços políticos organizativos de
base, o processo bolivariano conseguiu avanços políticos e organizativos de base importantes que
precisamos conhecer, entender e defender contra os retrocessos no horizonte, não para nos acomodarmos
a eles, mas sempre procurando ajudar com que avancem inclusive em sua autonomia frente ao governo.
2
Na ânsia de nos construirmos com alternativa política a qualquer custo não demos muita
importância a Venezuela, nos restringindo apenas revelar os problemas. Ora, apesar de serem parte de um
mesmo ciclo, tem realidades próprias muito diferentes. O processo na Venezuela tem particularidades
políticas, ideológicas e de poder de base muito diferentes do Brasil ou da Argentina por exemplo. 2
“O processo bolivariano tem sido associado pela direita e pela esquerda aos governos
neodesenvolvimentistas do Brasil e da Argentina, experiências políticas as quais só compartilha sua
contemporaneidade e alianças geopolíticas.” (Guillermo Ciesa in O Equívoco Venezuelano)
Novamente nos referimos a Ciesa (2016), para entender o caráter popular do processo bolivariano,
suas contradições e avanços:
“Em termos sociais a revolução bolivariana é a revolução das donas territoriais, “chefas” do lar
que sustentam seus filhos trabalhando no que se pode e dos vendedores ambulantes que há gerações vêm
associando o trabalho a comprar barato para vender um pouco mais caro aos seus próprios
companheiros de infortúnio.” (Ibidem)
Em razão do “(...) desinvestimento e fuga de capitais por parte da burguesia”, milhares de
empresas foram assumidas pelo Estado e “(...) postas em funcionamento pelo próprio estado com
controle operário ou cooperativizadas, e nas mãos dos trabalhadores(...).” (Ibidem)
Ao nosso ver, trata-se de um importante avanço.
A burguesia venezuelana passou boicotar o processo bolivariano utilizando “(...) seus
desinvestimentos produtivos e seu controle da distribuição e comercialização do produtos básicos,
tomando iniciativas para levar o mercado ao caos e provocar (...)” (ibidem) locautes sucessivos.
Acrescente-se a isto, uma classe trabalhadora marcada pelo predomínio da “venda ambulante e o
trabalho ocasional”, portanto, com escassez de técnicos qualificados e pouco acúmulo de organização
popular e pouca tradição de luta de classes anteriormente ao chavismo.
Além disso, houve a introdução de debates importantes junto a sociedade sobre o feminismo, a
unidade dos povos latino-americanos, ecossocialismo, soberania alimentar, e inclusive a discussão sobre
um embora nebuloso “Socialismo do Século 21” e do lema “Comuna ou Nada”. Esses aspectos foram
importantes naquele momento como forma de contraponto à hegemonia da ideologia do capital e mesmo
da ideologia reformista representada na chamada 3º via, nos países da Europa, no Brasil ou com Bachelet
no Chile.
Chávez também foi responsável pela rearticulação da OPEP, ocasionando, com isso, a elevação do
valor do barril do petróleo para mais de US$ 100, lhe rendendo recursos para financiar seus projetos,
dentre eles às Missões. Somemos a isso a estatização da PDVISA.
A partir disto, o lado ruim que não podemos deixar de citar, foi a crescente dependência do
rentismo do petróleo que também tornou-se campo fértil para a ascensão de setores burocráticos do
chavismo e para o surgimento da chamada boliburguesia (burguesia associada a negócios com o estado e
o governo).
Na medida em que o preço do barril começou a despencar, assim como, diminui o consumo deste
em escala global, a partir, principalmente, de 2008, os países dependentes da renda do petróleo, tem suas
economias impactadas. Com a Venezuela não foi diferente. Ao mesmo tempo o imperialismo e a
burguesia que opera na América Latina traça uma política de retornar à carga e buscar o desgaste
permanente visando o golpe para derrubar o projeto chavista e assim conseguir a derrubada de todos os
aspectos de contraposição imperialista, dos entraves para a apropriação pelo capital de todas as riquezas
naturais - em particular o petróleo – e o fim de qualquer política social destinada aos pobres.

TEMOS QUE TOMAR POSIÇÃO EM RELAÇÃO À VENEZUELA!


Vimos acima os inúmeros desafios venezuelanos e o longo caminho que devemos perseguir
inclusive com críticas ao Chavismo para construirmos e implantarmos às medidas transicionais rumo ao
Socialismo. Mas, é necessário reconhecer os avanços políticos ocorridos no processo venezuelano,
2
Para um histórico sobre a história da Venezuela com um olhar mais voltado os movimentos e o processo de
organização e experiências de base possibilitados pelo processo bolivariano ver “Uma Rebelião Popular sitiada e
agredida pela direita e pelo imperialismo”. Disponível na página do facebook do Para Um Novo Começo – Centro
Político Marxista
3
justamente para não nos cairmos em posições abstencionistas – quando ocorre um processo golpista pró-
empresarial e pró-imperialista e muito menos cair em posições de contraposição ao governo Maduro
como centro da política, menosprezando o difícil contexto nacional e internacional (ofensiva do
imperialismo e isolamento quase que completo da Venezuela na América Latina, dificuldade da classe
trabalhadora em avançar nas lutas nos demais países)
Por isso, nos posicionamos e apresentamos algumas propostas de eixos programáticos:
- Não ao Golpe e à Ofensiva reacionária da Direita e do Imperialismo Estadunidense na Venezuela
e na América Latina! Unidade de ação nas ruas e nas lutas para derrotar a ofensiva reacionária!
- Avançar pela base na discussão dos rumos, na auto-organização, na retomada das terras e das
fábricas e sua gestão coletiva. Expropriação das empresas e grupos que sabotam a produção e a
distribuição dos bens de consumo dos trabalhadores e do povo pobre.
- Realizar e apoiar todos os esforços para que as Comunas municipais se fortaleçam e ampliem seu
poder, com autonomia frente ao governo, para tomar decisões e transformar a sociedade;
- Lutar e pressionar a Constituinte pela esquerda para que reconheçam as ocupações de terras as
fábricas recuperadas e outras medidas de interesse do povo Venezuelano.
- Avançar num rumo socialista é a única garantia de que o processo bolivariano não se perca.
- Construir instrumentos e organizações políticas independentes do governo

Agosto de 2017

“Para Um Novo Começo” – Centro Político Marxista

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

Bocca, Pedro P., 2016 – “O impeachment e o realinhamento neoliberal na América Latina” –


Disponível em: https://www.cartacapital.com.br/blogs/blog-do-grri/o-impeachment-e-o-realinhamento-
neoliberal-na-america-latina
Godoy, Sérgio, 2016 – “O fim da República e o lugar da América Latina no mundo” – Disponível
em: https://www.cartacapital.com.br/blogs/blog-do-grri/o-fim-da-republica-e-o-lugar-da-america-latina-
no-mundo
Sampaio Jr, Plinio de Arruda, 2017 – Entrevista disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/159-
entrevistas/568941-a-relacao-promiscua-entre-capital-e-estado-e-a-metastase-da-crise-politica-no-
judiciario-entrevista-especial-com-plinio-de-arruda-sampaio-jr
Jubran, Bruno Mariotto, 2016 – “As disputas globais pelo petróleo e seus efeitos no Brasil” –
Disponível em: http://panoramainternacional.fee.tche.br/article/as-disputas-globais-pelo-petroleo-e-
seus-efeitos-no-brasil/
Costa, Antonio Luiz M. C., 2015 – “Uma Bofetada no Chavismo” – Disponível em:
https://www.cartacapital.com.br/revista/880/uma-bofetada-no-chavismo
Ciesa, Guilhermo, 2016 – “O Equívoco Venezuelano”