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A GNOSE

PRI
Cientistas em busca de uma reaproximação
entre ciência, filosofia e religião
RAYMOND RUYER

A GNOSE DE PRINCETON
Cientistas em busca de uma religião

Tradução
UL1ANE BARTHOD

EDITORA CULTRIX
São Paulo
L a Gnose de P rin ce to n

Copyright © Librairie Arthéme Fayard, 1974.


© Librairie Générale Française
pelo Prefácio, 1977.

EdiçAo __________Ano
i-2-a-4-n-e-T-a-a.io 8 9 - 90- 01- 92- 03- 94-05

Direitos de tradução para a iíngua portuguesa


adquiridos com exclusividade pela
EDITORA. CULTRIX LTDA.
Rua Dr. Mário Vicente, 374 —04-270 —São Paulo, SP —Pone: 63-31-41
que se reserva a propriedade literária desta tradução.
impresso nas ojiciruxs gráficos da Editora f*ensam&rz£o.
Baymond Ruyer nasceu nos Vosges. Seus pais sAo originários da Lorena e da
Alsácia. É antigo aluno da Ecote Normale Supéríeure. Possui o grau de doutor, é cor­
respondente do Instituto e professor na Universidade de Nancy. Fez a guerra de
1939-40 como tenente de reserva, e foi prisioneiro de guerra no Oflag XVII- A de 1940 a
1945. Tem como colaboradores ocasionais e anônimos seus dois filhos: Bemard, pro­
fessor na Universidade de Nanterre, e Domtoique, professor na Faculdade de Ciôncias
de Nancy.
Tem se dedicado sobretudo à filosofia científica, mais particularmente à filosofia
biológica e a tudo o que diz respeito às relações da consdônda e do corpo: embriolo­
gia, função do sistema nervoso. Interessou-se, também, pela cibernética e pela teoria
da informação.
Por outro lado, tem tratado de problemas sociais, econômicos e politicos, e
também de problemas religiosos, e foi nessas oportunidades que conheceu os Gnósti­
cos americanos e descobriu que as doutrinas destes partiam de pressupostos científi­
cos paralelos aos seus, e que chegavam a conclusões muito próximas, porém mais
precisas e de maior comprovaçfto.
1. Obras de crítica social:
L'Utopie et les Utopies, 1950- P.U.F.
Le Monde des Valeurs, 1947 - AUBIER
La Phüosophie de la Valeur, 1959 - ARMAND CO LIN
Etoge de la Société de Consommation, 1969 - CALMANN-LÉVY
Les Nuisances ¡déotogiques, 1972 - CALMANN-LÉVY
Les Nourritures psychiques, 1975 - CALMANN-LÉVY

2. Obras na mesma ünha que o pensamento gnóstico am ericano:


Néo-Finalisme, 1952 - P.U.F.
La Cybem étique e t / O rigine de i\Inform ation, 1954 e 1967(edição revisada e com p/e-
tada) - FLAMMARION
Paradoxes de la conscience e t lim ites de f ’a uto/natism e, 1960 - ALBÍN MICHEL
L 'anima!, I’homme, la (onction symbo/ique, 1964- GALL/MARD
Dieu des reUgions, Dieu de la Science, 1970 - FLAMMARION
Les Cent pm chains s iéd es. Le destín historique de l'hom m e seton la N ouvelle Gno­
se amóricaine, 1977 - FAYARD.
Sumário
9
Prefácio
16
Introduçfio

PRiAElRA PARTE
A dêncía neognôstíca
35
I.
II.
O mundo peto lado avesso e o mundo peto lado direito
Cosmología dos "aqur e cosmotogia dos “Eus"
40
54
III. A visftoito sl-mesmonâo requer olhos
'57
IV. As chaves dominials e os hótons
62
V. A consdénda cósmica
65
VI. A visão sem olhos e o Cego absoluto
68
VII. Um ruídode fundo originário nào pode criar a palavra
78
VIII. Os escotedore8 incorporados
82
IX. O organismo 6 um cérebro primário
84
X. A evoluçto biológica tsm um anverso
89
XI. Estamosrivos desde o prindpo do mundo
93
XII. O jogo dolempo Inveròdo
99
XIII. Os paridpávete e o Partlcipável universal
105
XIV. A lihguanatema" universal
111
XV. As InfoinçOes no espaço e as Informações no tempo
127
XVL A “desvKulaçfto" {unbundting) da mente no universo
132
XVII. A tBotojjweognósIlca
XVIIL O homeil um "giganta temporaT

SEGUNDA PARTE
A sabedoria e a fó neognóstcas
143
XIX. Oorgaitopsfiquioo
155
XX. A edtafb psicológica
169
XXI. As "mortpns" e os “Jogos" com o universo
191
XXII. As “mofípns de miséria"
XXIIL A morteiifrnortaldade 196
CondusAo
216
220
BijSograSa
Prefácio
(1 9 7 7 )
Nos últimos dois séculos tem s id o moda no Ocidente, nos meios “adiantados”,
falar de Deus como se fosse um mito.
Não se refuta um mito ou um co n to , mas a história é narrada “de outro modo":
“ Deus está morto” , “ Deus não atende m ais, desligou seu telefone” - ou ainda, citando
uma versão menos conhecida, de autoria do chevalier de Revel:1
“Deus morreu antes de ter acabado sua obra... Tinha os mais belos e vastos pro­
jetos do mundo e todos os meios à disposição. Já tinha em andamento vários desses
projetos, um pouco como se ergue andaimes para uma construção. Mas, em meio ao
seu trabalho, morreu... De modo que, atualmente, tudo está feito com vistas a um obje­
tivo que não existe mais. Nós, particularmente, sentimo-nos destinados a algo do qual
não temos a mínima idéia. Somos como relógios que não tivessem mostrador e cujo
mecanismo, dotado de inteligência, continuasse girando até o desgaste, sem saber por
que, e sempre dizendo a si próprio: uJá que estou girando, devo ter algum objetivo”.
A Gnose da AntigGidade, essa estranha religião helenístco-crístã dos primeiros
séculos de nossa era, afirmava quase a mesma coisa, porém num tom mais sério.
Deus, o verdadeiro Deus, o Deus bom, não morreu antes de ter acabado sua obra, mas
foi traído por maus contramestres, que tomaram-se os Arcontes do mundo e separaram
o Deus bom dos pobres homens, mal governados, inconscientes - até que os Envia­
dos do Bem, atravessando 08 Abismos separadores, revelem aos homens em abando­
no a Verdade salvadora e neles reacendam a centelha divina, através do verdadeiro
Conhecimento.
Para os G nósticos cristãos, Cristo era um desses Enviados. Para Marcion, o
Deus do Antigo Testamento não era o verdadeiro Deus bom, o verdadeiro Pai revelado
peto Cristo, mas um mau Demiurgo que traiu o verdadeiro Deus Pai, um malvado e im­
piedoso Legislador. Ao ensinar o “ Pai Nosso", Jesus queria com isso afastar os ho­
mens do Deus m au da Lei judaica, para que pudessem reencontrar o verdadeiro Deus.
Ou seja, tanto os G nósticos como Marcion “ contavam o mito de outra maneira".
“Contar o m ito de outra maneira” ainda é, apesar das aparências, o fundo da filo­
sofia moderna desde o século XVIII. A fé na evolução, no progresso, na Dialética equi-

1. DedaraçAo, essa, aprovada por Benjamín Constant que a transcreveu em sua carta, oacrita em
1790, a Madame de C harrièra.
vale a não mais dizer; "Deus criou”, ou “Deus morreu", ou ainda “Deus foi trafcto” , mas:
“ Deus ainda não existe totalmente; talvez, umdia venha a existir”, ou: “C onsolém onos,
n ó s, pobres v/Umas, pois um Deus se cria com os nossos prantos”. Condorcet, Hegel,

ainda da projeção de um mito, um mito projetado pelo homsm sobre o irtvsrso.


Poderá existir rstgtto sem mito? Provavelmente não, se traduzimos *sem m ito"
p o r "sem crença fòrmul&ver. Atô mesmo as trás reigites da China: o Taotano, o Con-
fuckxiism o e o Budismo - sem contar o Maofsmo que sfto, num certo sentido,
“ atôias", não são “a-m/bcas", pelo manos namedida em que são formuladas e não pre­
tendem, como o Zen-budismo, expressar-se através de alguns gestos ou de algumas
caretas.

O Céu, a Ordem do Céu, o Tao, asede de existir, a Iluminação, são mitos só­
brios, dificilmente “narráveis”. Mas permanecem mitos, projetados peto homem sobre o
universo, um universo mais adivinhado doque conhecido.
*
«É

A profunda originalidade da Gnose de Princeton é que ela renuncia a todo e qual-


qu®r projetado pelo homem sobre o universo. Ela quer receber fielmente do univer­
so a cia o sentido próprio, revelado pela leitura mais cientifica.
Segundo os Neognósticos americanos, entre eles, físicos, biólogos e oosmôio-
9°s^ocientism o herdado do século XIX é, hoje, desmentido peb “interpretação literal"
08 ciencia
A física, a astronomia, a biologia do século XIX, como ciências de objetos que se
etermiíam uns aos outros por uma cadela contínua, representavam apenas a pré-
da ciência. O método, sem dúvida, era correto, mas o verdadeiro mundo da
ciência ainda não fora revelado. A ciência propriamente dita só começa no século XX,
com a microffsica de Planck, a cosmología de Einstein, a embriologia e a etologia com­
parada, a teoria geral das continuidades semânticas substituindo a teoria da causalida­
de clássica.
^ Por uma circunstância infeliz, ou por toüce, as filosofias e as reügites, "escalda*
as por suas tentativas de anexação da ciência - ou melhor, da pré-história da ciência
~ reso*veram abster-se, justamente na hora em que a ciência, saindo de sua pfé-histó-
a, está entrando em sua fase de verdadeira ciência e passando a ter um conhecimen­
to real do mundo.
Alé o século XX, o cientista se parece com um Viajante celeste míope que, do al­
to de um disco voador e intrigado pela visáo confusa que tem das estradas e ruas ter­
restres, na América ou na Europa, descreveria o que chamaria de “fluido circulante"
sem distinguir os pedestres dos automóveis, ou descreveria as temporárias soüdifi-
caçóes desse fluido em "bloqueios” ou engarrafamentos como sendo devidos, no
verão, à ação aparente da temperatura ou, em determinados lugares, à ação de luzes
verdes ou vermelhas, e acabaria descobrindo leis, que consideraria fundamentais, a
respeito desse “fluido” e de suas “solidificações” .
Só a partir de 1900 é que o Viajante celeste vem pensando em estudar os pró­
prios indiv/tíuos, em distinguir os homens dos veículos, os engarrafamentos dos uen-
10
garrafadores", os efeitos das colisões dos efeitos das buzinadas ou dos sinais de farol
ou da sinalização. Está agora entendendo ou entrevendo as fabricações ou as organi­
zações operadas por indivíduos conscientes, entende suas fábricas e seus escritórios
de pesquisas. E, o que ele entende acima de tudo é que, até então, ele havia observado
apenas superficialmente os efeitos estatísticos, e não ações reais ou seres reais.
Sua maior descoberta é, então, que sua própria consciência viva, atuante, ansio­
sa, de Viajante cósmico, não é nenhum milagre excepcional e inexplicável, num mundo
onde só houvesse fluidos e bloqueios temporários, mas que o mundo em sua totalidade
é feito de indivíduos conscientes, de integradores, de trabalhadores ou de seres atuan­
tes, mais ou menos vastos e poderosos, mais ou menos hierarquizados, e que o mun­
do em si, em sua unidade, só pode ser visto como um Indivíduo, um Sujeito totalmente
abrangente, Sujeito do qual o espaço e o tempo constituem a aparência para todos os
demais seres, vassalos do grande Suserano.

*
**

A expressão ‘ Gnose científica" é, aparentemente, uma junção paradoxal de pa­


lavras. O Conhecimento (Gnosis) que proporciona o Caminho, a Verdade, a Vida, a
Salvação, não pode ser o mesmo que o conhecimento cientifico, paciente e metodica­
mente alcançado. Tudo parece opor-se entre o cientista experimentador, prudente,
avançando passo a passo, e o Gnóstico, que busca uma Revelação total e instantâ­
nea. E, afinal, não é isso precisamente o que acontece? Os verdadeiros cientistas não
são inimigos dos Gnósticos, e os Gnósticos dos cientistas? Não se desprezam eles
mutuamente, tratando-se reciprocamente de Beócios de laboratório e de Iluminados
sem instrução?
Quando alguns cientistas como Newton, Pascal ou Driesch passam de seus tra­
balhos científicos para a teologia ou para a Gnose, passam da verdade para a Verdade,
não estarão eles se destruindo como cientistas, e sem, por outro lado, contribuir muito
para a salvação da humanidade?
Mas os Neognóstlcos não concordam que essa incompatibilidade seja irremediá­
vel. Entre a ciência e a Gnose, é preciso apenas que se faça uma operação de con­
versão. A operação que consiste em passar da ciência mais rigorosamente ciência pa­
ra a Gnose, não ô uma operação arbitrária. É exigida pela própria ciência, é um revira-
mento segundo o modelo do reviramento que levou do átomo “material" ao quantum de
ação da nova física. Ao passarmos, assim, do que observamos como sendo uma coisa
para o “atuante” que ela realmente é, estamos na verdade admitindo que o “atuante”
vê-se a si mesmo através de si mesmo, como sujeito, pois um atuante não pode ser
uma coisa, e sim, um sujeito que faz o que faz, e que sabe o que faz. A ciência descre­
ve corretamente as coisas e o mundo, porém pelo avesso. Em seu anverso, cada ser -
ou melhor, cada atuante - se possui a si mesmo. E o mundo se possui, age e vê-se a
si próprio como sujeito supremo. Ele é o seu próprio possuidor, o seu próprio dono e
senhor.
A operação que se faz espontaneamente com um homem ou com um animal -
quando não se acredita na idéia absurda do animal-máquina e que consiste em ir
mais além de sua simples identificação, de seus gestos, ir até sua consciência que fala
à nossa consciência, ir ató sua alma parente da nossa, essa operação devemos fazê-
11
la com todas as individualidades do universo, com Iodas as suas formas atuantes,
quando elas não são efeitos superficiais de “engarrafamentos” mas, ao contrário,
quando dominam os “acidentes de trânsito”. Devemos fazô-ia com o Universo tomado
em aua totaMdada. oom um Universo que tem, de uma fama mais evidente ainda, uma
Alma parente de nossa alma.
O Tempo cósmico não é um simples funcionamento; é uma grande Ação, sensa­
ta, uma embriogdnese que forma, primeiro, os materiais de seus desenvolvimentos fu­
turos, onde os próprios acasos serfto canalizados e utizados, onde os seres, des­
prendeos do grande Ser, parecerão aprender, balbuciendo, a Linguagem que, na reali­
dade, eles sempre falaram desde a origem.
A nova Gnose científica americana não é uma nova religião. Não leva diretamen­
te a alguma discipina social institucionalizada, mas traz um componente, fundamental
em todas as reigiões. Em cada religião, antes dos Ritos, das Instituições, das Ideolo­
gias agregadas, há uma Visão do mundo, um Conhecimento, um Conhecimento ilumi­
nador e salvador, uma Iniciação ao Mistério finalmente apreendido, ao Sentido revelado
da existência.


••

A crise reNgiosa de nosso tempo é, antes de tudo e, principalmente, uma crise de


todos os mitos que contradizem o conhecimento cientifico. Os homens, saturados de
informações de toda espóde, ainda têm os mesmos anseios reHgiosos, mas não oon-
seguem mais acreditar nos Contos imaginários, cheios de devoção ou fantasia. A Gno­
se de Princeton oferece o único relato não refutável pela dónela, pois ele é a própria
ciência num “reviramento conforme”. O reverso de uma máscara não pode “refutar"
seu anverso.
As religiões estabelecidas tentam em vão substituir seus mitos desqualificados e
inverossímeis por ideologias políticas. Mas essas ideologias, também, são falsa ciên­
cia, máscaras não-conformes. De desapontamentos em desapontamentos, chegará a
tora em que será preciso voltar-se novamente para uma Gnose científica, onde a alma
Sunida ao corpo, onde o corpo une-se à alma. Uma Gnose científica tem o futuro para
si, pois ela ó o único “mito conforme".

Poderá este “mito conforme" corresponder aos anseios religiosos? Provavelmen-


3 náo a todos. A Gnose cientifica deve ser complementada por invenções orgânicas
e ritos, instituições e cultos determinados.
Mas, bem ou mal, ela terá de ser suficiente para o essencial da Fé. Pois, na ver-
ade, náo temos escolha entre religiões mftico-ideoiógicas, falsas e frágeis, e o paga-
smo modernizado que é a Gnose científica.
Aliás, é o mesmo paganismo em suas formas arcaicas que forma a verdadeira
ise permanente de todas as religiões históricas que se apresentam sob várias roupa-
ms coloridas. Os Deuses se vão, apesar dos esforços dos homens em quintessen-
á-Jos e espiritualizá-los. A Grande Mãe pagã, a Natureza ativa, a Alma do Mundo, a
>
grande Suserana do Cosmo, a grande Consciência do Espaço e do Tempo, está sem­
pre presente, incansável, criadora e reguladora das iniciativas de suas criaturas, temí­
vel e consoladora.
Consoladora, sim, pois se ela é a parte visível recolocada em seu anverso, ela
também ultrapassa o visível e o transfigura, sem desfigurá-lo.

Vários de meus amigos Gnósticos mostraram-se muito reservados com a opor­


tunidade de publicar na França um relato de suas teses, já que se abstiveram de expô-
las sistematicamente em seu próprio país. Devo confessar que eles não têm um alto
conceito da capacidade intelectual do público francês. Ficaram surpresos diante do in­
teresse inesperado que esse público manifestou por uma obra que, no entanto, eu ha­
via procurado manter mais fiel do que de fácil acesso.
Não pude deixar de enviar a dois ou três deles, entre os mais céticos, alguns dos
artigos dos comentaristas franceses, e eles se dignaram confessar sua surpresa diante
da alta qualidade de muitos desses comentários, e mesmo daqueles que chegaram a
representá-los, eles, os Neognósticos americanos, como astrônomos que redescobri­
ram Deus na ponta do grande telescópio do monte Palomar.
O que me escreveu um deles a respeito é bastante interessante:

... Nossa Gnose é de fato, antes de tudo, astronomía-cosmología, é evidente que não vamos
encontrar Deus em algum recanto do céu astronômico, assim como não é num canto do cérebro que se
encontra a alma de um homem. Como vocô disse justamente, o Pai celeste é tão pouoo encontrável no
Cosmo visfcel quanto oda bossa da paternidade no cérebro humano. No entanto, um lato notável d que
Newton, embora pertencesse ô pró-história da ciôncia, chegou a considerar o espaço astronómico gra-
vitadonal como sendo, na verdade, o sensorium de Deus, isto é, o espaço sensIVel de um sujeito cons­
ciente - ao mesmo tempo em que considerava o cérebro humano como o aspecto material do nosso es­
paço sensível, do nosso pequeno dominio consciente. Com isso, Newton mostrou ser um autântioo pre­
cursor da nossa Gnose. E está na hora de admitimos que ele era um grande teólogo, tanto quanto um
grande dentista.

Minha intenção era divertir meus amigos americanos ao transmitir-lhes também


os poucos artigos de adversários ferrenhos dos Estados tinidos, principalmente aquele
que os compara a “gatas miando sobre o teto do mundo, enquanto os bombardeiros do
Pentágono»” ,2 etc. Mas eles nfio se divertem mais com esse tipo de ataque. Um deles
escreveu-me:

Ouvimos com demasiada freqüência esse tipo de declaração por paite de jovens colegas para
que ainda achemos Isso divertido... toso pode acabar mal, não para nós, mas para a própria dônda, e
também para a América e para todo o Ocidente... Entretanto, renunciamos a todo espirito missionário.
Mas são os anti-americanos que eslão se tomando fanáticos e Imperialistas. E eles tôm, aqui, dentro
das universidades de nosso pafe, propagandistas atfvos e missionários entusiastas.
*
**

2. Pokbque-Hebdo, 19de maio de 1975.

13
Para entender essa reação, é preciso conhecer as duas direções que a Nova
Gnose tomou desde 1974. A primeira, que já tivemos aoportunidade de esboçar nesta
obra, visa uma sabedoria individua), um a sabedoria náo-mfoca e nóo-mísbca, con base
em “m ontagens” livres e cuidadosamente experimentadas. A segunda, mais inespera-

Esse destino, os Gnósticos acreditam poder anteapéHo com certeza, utilzando


para o tempo histórico seu método dos "antiparadoxos". Mas se, por um lado, eles
estfio otim istas quanto ao destino a m uito tongo prazo, em compensação mostram-se
preocupados com relação aos dois ou três séculos que estão à nossa frente. Daí sua
pouca disposição em achar dvertidos os inimigos, mesmo ridículos, da cultura ociden­
tal tradicional - inimigos esses que eles não confcndem com os adversários intelgen-
tes da d v iiza çâ o ocidental, uma civilização por eles próprios considerada perigosa­
mente mal controlada.

Uma última palavra, sobre um pormenor que surpreendeu e confundiu um bom


número de nossos primeiros leitores, e acerca do qual recebemos uma grande quanti­
dade de correspondência pessoal; trata-se da atitude negativa que adotamos diante
dos fenômenos paranormais: telepatia, percepção extra-sensorial, telecinesia, premo­
nição, etc. Os Gnósticos americanos estão muito divkJdos sobre essa questão. Nossa
atitude negativa ó, na verdade, sistemática. Mais exatamente, é uma atitude de pre­
caução sistemática. A visão gnóstica do Cosmo vivo e consciente, hierarquia de cons­
ciências ou de domínios significantes, “ sensificantes", intercomunicantes, parece, de
fato, levar à crença em comunicações “telepáticas" no sentido etimológico do termo, is­
to é, diferentes das que ocorrem por choques lado contra lado entre corpos materiais,
ou por combinações de ondas. A participação informativa que se impõe em biologia e
que todos os Gnósticos aceitam é, num certo sentido, um grande fenômeno paranormal
relativamente à velha biologia físico-química. Por que, então, essa nossa recusa, essa
precaução que tomamos?

O fato é que, como a experiência mostrou, o que ocorre com os fenômenos pa­
ranormais é o mesmo que ocorre com os milagres das religiões estabelecidas: em pou­
co tempo, os fiéis acabam enxergando apenas mlagres, exigindo apenas mlagres.
Com isso, deixam de ver o grande, o verdadeiro milagre de sua própria existência den­
tro de um Cosmo vivo. Interessar-se por fenômenos paranormais logo passa a signifi­
car interessar-se exclusivamente por eles. Os Gnósticos - salvo algumas exceções -
não querem que os pequenos milagres, as pequenas luzes, passem a ocultar a grande
luz, assim como as luzes elétricas ocultam a luz do dia.
Arthur Koestler salientou uma analogia muito instrutiva dos fenômenos paranor­
mais, em psicologia, com as experiências sobre a hereditariedade dos caracteres ad-

& Expusemos esta concepção dos Gnósticos americanos numa obra recentemente publicada pela
Fayard: Les Cent procbatns sièctes (Os Cem próximos séculos), com o seguinte subtitulo: O destino
histórico do homem segundo a Nova Gnoee americana
14
quiridos, em biologia.4 A s experiências exatas e cuidadosas de laboratório quase sem­
pre desmentem os que acreditam na hereditariedade dos caracteres adquiridos. Quanto
mais profundas as observações, menos se pode provar, por exemplo, que os descen­
dentes de ratos que fizeram a aprendizagem de um labirinto herdam uma ciência infusa
desse labinnto ou, até mesmo, economizam, por pouco que fosse, no tempo de
aprendizagem.
E, no entanto... Como entender a evolução se rejeitarmos por completo toda
noção de hereditariedade da experiência adquirida? Afinal, todas as espécies de pássa­
ros não constituem, no fundo, um indivíduo único que, desde o seu estado de réptil an­
cestral, foi progressivamente aprendendo a voar? É preciso que tenha havido uma
espécie de filtração-participação de algum tipo dos individuos para a espécie, dentro da
grande marcha da natureza - apesar do fracasso das experiências de laboratório em
captar essa filtração.
É provavelmente o mesmo caso que ocorre com os fenômenos ditos paranor­
mais. Não há dúvida de que existem comunicações de seres entre si, de seres oom a
grande Consciência, assim como existe uma comunicação de indivíduos com sua
espécie, muito além dos intercâmbios de sinais materiais. Mesmo assim, quando o Sr.
X, ou a Sra. Y declara que "Deus lhe falou", ou que “Deus o(a) curou", ou anda que
“por sua vontade, a colher foi entortada*’, os positivistas não têm geralmente nenhuma
dificuldade para encontrar explicações mais plausíveis e mais terra-a-terra.
Determo-nos sobre os fenômenos paranormais seria enfraquecer a nova Gnose,
em lugar de fortalecéis* A informação por participação é um grande fato na ordem da
vida. Todo indivíduo em formaçôo ou em processo de regeneração, todo indivíduo se­
xuado ou animado pelo instinto sexual, ué participado” pela espécie. É verdade que os
indivíduos devem, de alguma maneira, informar também a espécie, reciprocamente. É
verdade que outras participações suprabtológicas existem, mesmo se as tentativas de
verificação sempre parecem malograr.
Muitas vezes nos esquecemos que o sistema de Copé mico esbarrou, durante
quase três séculos, no veredito negativo das observações dos paralaxes estelares:
não se conseguia detectar nas estrelas o mais leve movimento aparente, movimento
esse que deveria ser produzido pelo “jogo de balanço” da Terra ao redor do Sol.5 E, no
entanto, a Terra se movia!

Raymond Ruyer

4. Cf. Le Chevaf dans Ia tocomotwe, CaJmarm-Lévy, 1 968, L 'Etretnte du crapaud, 1972, e Les Racb
nes du nasarú, 1 972, do mesmo editor.

5. Hoje em aia, é fid l ver o qua náo se conseguiu ver até 1838, ano em que Bessel viu mover-se
uma estreia da oonstsiaçáo do Cisne. Em 1954, “vw-se” o movimento de 10.250 estrelas, eeesenú­
mero aumenta em m as da 100 a cada ano. Foi preciso para isso que oe insfrumentos de obeervaçAo ti­
vessem o grau adequado de sutileza. Assim ocone, provavelmente, oom a atual observação da heredi -
tariedade da experiência adquirida.
15
Introdução

Nos Estados Unidos, a expressão “Gnose de Princeton” é bastante recente: da*


ta de 1969. Como acontece multas vezes, foram adversários o u espectadores irônicos
que acharam a palavra. Assim ocorreu na França, antigamente, em reiaç&o aos im­
pressionistas, o s cubistas, os (ativistas. A palavra agradou a os próprios interessados.
E, com intuito humorístico, aceitaram esse tftuto como iorma d e desafio em relação a
seus colegas “ positivistas”, que os chamavam tambóm de "co sm ó la tra s",1 de “paio-
maristas"2 ou, ainda, de teosofistas.
O movimento, na verdade, â mais antigo do que a palavra e possui várias origens
precursoras ou ressonâncias. Existe uma pré ou para-Gnoee q u e pode ser detectada
muito longe do seu centro. O movimento não se reduz a Princeton e aos seus dentis­
tas, embora seja essa a sua origem principal.
Os cientistas são, por definição, crianças que brincam. P orém , em nenhuma par­
te isso se verifica tanto como na América. Gamow nos relata, c o m uma ironia isenta de
malícia, uma visita que fez a Louis de Broglle; este, embora o m ais simples e despre­
tensioso dos seres, pareceu entretanto solenemente francés a esse “ garoto". Assim
como as crianças, também eles s&o sérios e mais espontaneamente teólogos do que
os adultos.
Para os cientistas anglo-saxões, Deus é um pai andôo, ao mesmo tempo ve­
nerável e com quem se pode fazer gracejos. Ele é ao mesmo tempo um Cúmplice e
uma espécie de Patrão de quem se conhecem muitos segredos, mas nõo todos os se­
gredos - daí o prestigio que continua mantendo. Pensar em term os de Universo signifi­
ca gracejar com Deus, brincar de ser Deus, brincar com Deus - ou com “o Velho",
como dizia Einstein.3
A partir das especulações cosmológicas de Einstein, o sentido da totalidade ou
da totaBzação cósmica foi introduzido na dôncia oficial. Em Princeton, havia também a

1. Expressão de H. Dngle.
2. Alusão so lamoso telescópio do Monte Palomar. O movimento “gnóstico" começou em Pasade­
ra, antes do que em Princeton. O livro - bastante atmpllsta - de G. S*romberg: A Alma do Universo, toi
eadnto em Pasadena em 1938.
3. É bom notar que Einstein provavelmente não teria seguido os (¿nósticos por muito tempo, apesar
desse defamo semi-humorístico. Sua correspondência com Bom não deixa nenhuma dúvida quanto a
isso.
16
presença, nos laboratórios, de físicos japoneses ou chineses e, através d& les, a presen­
ça do pensamento budista. Os recentes caçadores de partículas e, sobretudo, os teóri­
cos sutis criadores dos “quadros" que subtendem os sistemas de partículas, suas inte­
rações, intercâmbios e interinformações, fizeram homenagem ao Budism o da "Óctupla
Senda” , batizando uma partícula maciça com o nome de Buda.
Os asiáticos americanizados estavam assim unindo-se ao gosto inglês e ameri­
cano pela sabedoria oriental: a Ioga, o Taoísmo, o Zen. A "ciência" budista e a “ ciência”
bramamsta estavam se unindo à ciência cristã - só que no mais elevado nível mental,
longe do pantanal onde estão a chapinhar os últimos discípulos de Mme. Blavatzky.
Mais do que tudo, ô preciso se ter uma idéia do ambiente tão peculiar dessas
comunidades cientificas, realmente “tibetanas” , que se sentem como se estivessem
sentadas sobre o teto do mundo - de um mundo que elas dominam através da inte­
ligência, e não do poder; de um mundo que lhes parece um tanto repulsivo.
Na Europa, e sobretudo na França, quando a vertigem das alturas não se trans­
forma numa vertigem de presunção, isso se traduz principalmente em ideologias políti­
cas e na ambição de se refazer a sociedade. Isso também ocorre na América. E os
“positivistas” estão muito mais propensos a isso do que os Gnósticos. Os Gnósticos,
por sua vez, assumem uma posição apolítica, em oposição a esse clericalismo dos
cientistas.
Eles mantêm, com a sabedoria dos monges da Alta Idade Média, o oásis de seus
“mosteiros" ou de suas corporações quase religiosas. Mais uma vez na história, as re­
lações entre mestre e aprendiz ou entre mestre e discípulo engendraram uma comuni­
dade religiosa não eclesiástica e um Estado conventual, análogo ao do antigo Tibete ou
ao do monte Athos, separado do Estado político. Os “Gnósticos” consideram os “Ideó­
logos” da mesma forma que os monges - antigamente e ainda um pouco hoje - consi­
deravam os padres da Igreja: como clérigos seculares que se perderam no mundo.
Também se parecem com os sábios da época helenística, que testemunharam,
dentro de impérios de contornos indefinidos, a dissolução do velho mundo político das
cidades.
As universidades americanas têm acolhido muitos cientistas vítimas dos nazis­
tas. Acontece que, sobretudo de uns dez anos para cá, a cidade americana vem evo­
luindo do mesmo modo preocupante como a Alemanha depois de 1930, embora num
sentido completamente diverso. Os esquerdistas, por ignorância ou má fé, muitas ve­
zes acusam o governo americano de fascista ou nazista. Os Gnósticos mantêm-se na­
turalmente longe dessa tolice. Eles percebem que as nações, em vez de se confederar
numa sociedade supranacional com que sonhavam os cientistas no início do século, na
verdade se dissolvem em vários setores ideológicos, numa perigosa rivalidade. O bom
humor natural dos homens inteligentes mantêm os adeptos do Novo Movimento numa
singular mistura d e otimismo e pessimismo. Encolhem os ombros, ou antes, sorriem
diante das pretensões de seus colegas universitários - os do clã Galbraith, do clã Mar-
cuse ou ainda d o clã Chomsky - de querer constituir a nova classe dirigente, pós-
econômica, e co ntrolar a formação de uma nova ordem social. Eles se recusam a ser
os “controladores d a s mutações" e a pregar a revolução ou a reforma.
Nisso, tam pouco, eles são “clérigos" e, sim, “monges” .
Também querem se parecer com os sábios das escolas do fim da Antigüidade,
com os epicuristas e os estóicos.
17
De fato, de todos os pontos de vista, as escolas estóica ou epicurista s ã o ainda a
melhor referência para se apreender o verdadeiro sentido desse novo movimento. Es­
sas escotas da Antigüidade tinham também sua raiz na ciência da época, na física - a
do atomismo maleriaista ou do dinamismo vítatela. Proporcionavam normaa de vida
deduzidas da ciência e resultantes de uma meditação sobre as grandes leis d o univer­
so. Por isso, a apresentação que vamos tentar fazer da nova doutrina muito se asse­
melhará aos tratados teóricos eslóicos e ao De Natura Rerum, com quase o s mesmos
capítulos sobre os átomos, os simulacros da percepção, a evolução do cosm o, a agi­
tação dos homens, ou ainda a febddade do sâbio destituido de ambição e d e falso te­
mor religioso ou mágico. O conteúdo, é claro, é totalmente diferente e muitas vezes até
mesmo oposto. Mas o estado de espírito é o mesmo. Os Neognósticos, assim como
Lucrécio, parecem sempre estar se dirigindo a Memmius, a um Memmius eterno como
a fraqueza humana.
O título hoje aceito de Gnósticos (mas que poderá mudar no futuro) não deve en­
ganar-nos. A Gnose, como se sabe, nascida no Mediterrâneo oriental no sócuio I de
nossa era, trazia a salvação através do conhecimento, através da ciência. A G nose é o
conhecimento da realidade supra-sensfvel, "invisivelmente visível num eterno mistério".
O supra-sensível constitui, dentro do mundo sensível e além deste, a energia m otora de
toda forma de existência. A Gnose revela o que somos, o que nos tomamos, o lugar de
onde viemos e aquele onde calmos, e a meta para a qual caminhamos. Mas tratava-se
então da ciência de Deus; era uma teosofía, um Conhecimento de iluminação e sal­
vação, que não se referia nem ao mundo no sentido técnico da palavra, nem ao "eu” tal
como é visto pela Psicologia. A aquisição dessa ciência estabelecia de forma mágica
uma conexão misteriosa entre o Iniciado no conhecimento e a própria força desse co­
nhecimento. Assim como a luz, ela propiciava a vida - como a luz, mais do que como a
visão.
O iniciado aprendia uma história cósmica e teológica cujo tema era a Queda, não
a do homem pecador, como no Cristianismo, mas a de subdlvindades, más e infiéis, os
Arcontes rebeldes que haviam traído o bom Deus superior, cavando monstruosos
abismos de espaços e de tempo entre Deus e o mundo, mundo esse onde os homens
sofriam em completa “derretiçôo". Salvadores, então, transpunham o abismo e ajuda­
vam o homem, através da Gnose, a reacender a centelha de sua alma e a alcançar no­
vamente o Deus de Luz.
Os Novos Gnósticos assemelham-se aos antigos no falo de acreditarem no co­
nhecimento e na ciência, mais do que na ação ou no poder. Porém, é evidente que a fí­
sica e a biologia modernas constituem uma busca de caráter técnioo, e em nada se pa­
recem com o que se pode chamar de iluminação-revelação. O Logos sperm aticos
estóico e-gnóstico- cujo culto levou às estranhas e chocantes contorções rituais dos
barbebgnósticos e dos discípulos de Basikdes,4 ritos esses que fariam oom que as
obscenidades dos hippies mais sujos parecessem brincadeira - não se assemelha em
nada ao Logos participável, que os Novos Gnósticos se comprazem em buscar atrás
das descobertas da Física e da Biologia contemporâneas.

4. Eles tomavam “spermaticos” na mais crua acepção biológica da palavra, e agiam de acoido. Ba-
silides, um dos mais famosos Gnósticos, viveu em Alexandria por volta de 120-140 d.C.
CL H. Leèsegang, La Gnose, Ed. Payot, 1951, Cap. V, p. 132 (Nota de 1977).
18
Seja como for, o termo “Gnósticos" foi aceito, mostrando assim que eles buscam
o verdadeiro Conhecimento não subordinado à utilidade prática ou pelo menos à utilida­
de imediata, pois o objetivo final é mesmo a "existência realizada” .

Vindo de americanos, isso parece, de fato, um tanto surpreendente (se é que po­
demos ainda nos surpreender com qualquer atitude não americana na América). Nesse
sentido, o movimento aparenta-se, em seus princípios, às comunidades hippies, aos
secessionistas da sociedade industrial. Não obstante, os Neognósticos possuem uma
verdadeira aversão física pelos hippies barbudos e cabeludos, pelo cheiro que exalam,
pela sua promiscuidade, pela sua mística de drogados. Ao contrário dos intelectuais
franceses, sentem horror por todo tipo de louco, tanto na vida como na literatura.
Entretanto, admitem que existe esse parentesco, da mesma forma que a Igreja,
queira ou não, é obrigada a reconhecer seu parentesco com as seitas dissidentes, as­
sim como os grandes socráticos eram forçados a viver em boa harmonia com os pe­
quenos socráticos. Mas esse parentesco náo deixa de irritá-los. Quando se quer apro­
fundar o assunto com eles, a resposta que dão é que o movimento hippie na América é
apenas um início errado numa direção certa - uma cruzada de crianças, ou cruzada
dos pobres, antes da cruzada dos fidalgos. Cruzada dos loucos, antes da cruzada dos
sábios. Entretanto, a Nova Gnose tem seu lugar em certos grupos hippies, aqueles que
renunciam à droga e se dedicam à meditação. O panteísmo vem a ser o denominador
comum.
Os Novos Gnósticos são, sob muitos aspectos, ainda mais diferentes do ameri­
cano típico, tal como era visto em 1950, do que o são os hippies da Califórnia.
O movimento é aristocrático em todos os sentidos possíveis da palavra. Isso
constitui sua fraqueza aparente, mas, quem sabe, também sua força. Pois é provavel­
mente um preconceito acreditar que os movimentos religiosos, para serem fortes, de­
vem surgir das camadas populares. A história tende a provar justamente o contrário. O
Confucionismo teve uma origem aristocrática, e igualmente o Taoísmo. A religião de
Jeová também, e também o Bramanismo e o Zoroastrismo, bem como o Estoicismo e,
até mesmo, o Epicurismo. O Cristianismo só não se perdeu em seitas supersticiosas,
tanto na Palestina como nos bairros pobres de Roma, de Antioquia ou de Corinto, por­
que logo se tornou aristocrático. A Reforma e a Contra-Reforma também vieram de ci­
ma.
O Movimento é conscientemente aristocrático, na medida em que renuncia a todo
proselitismo, a toda publicidade. Não chega a ser secreto, porém é discreto. Os
Neognósticos consideram que a atração que todo mistério exerce ê vulgar. Eles renun­
ciam ao pitoresco, a tudo o que eles chamam de “pequeno simbolismo”. Condenam is­
so com um rigor que eu considero excessivo. Sua sabedoria é semelhante à dos isola­
dos de Port-Royal, unidos em comunidade por convicções apaixonadas, porém indivi­
duais, que os atraíam um para o outro. É preciso que cada um encontre por si próprio o
Caminho, a Verdade, convertendo-se por meio de um aprofundamento científico, e não
atravôs de alguma iniciação ritual.
Naturalmente, eles repudiam qualquer tipo de cerimonial. E isso representa em si
uma originalidade na América, onde são tão prezadas as sociedades pseudo-seeretas
e as maçonarias de todo tipo. pelos brasões que gratuitamente proporcionam. Eles até
repudiam qualquer cerimonial intelectual, pois cada um se auto-inicia, no seu próprio

19
momento, reinventando a Regra assim como no jogo de cartas inventado por um deles
(o jogo chamado “ Eléusis") onde é preciso descobrir a regra, e nao tentar aplicá-la
usando a astúcia. No “Elêusis", o banqueiro do jogo (cada um por sua vez se toma o
banqueiro do jogo) estabelece uma regra secreta (que ele escreve num papel a ser
á6erfcTnõ~fim do jogo para verifÍcação)7 determinando como as cartas dos jogadores
deverfio se enquadrar nessa regra. Ele coloca urna carta na mesa, e vai aceitando ou
recusando a carta apresentada pelos jogadores, e colocando-a & dreita da anterior
conforme esteja ou não de acordo com a regra. Aquele que mais ou menos descobre a
regra do jogo Kvra-se mais cedo de suas cartas. Há várias fases do jogo, e contagens
diversas dos pontos. Este jogo fez muito sucesso dentro das universidades e atraiu
tambóm pesquisadores de todo tipo, devido à analogia que ele apresenta com o método
habitual de pesquisa.
A Nova Gnose 6 como o Elóusis: cada um se inicia a si próprio. Cada um 6, al­
ternativamente ou ao mesmo tempo, jogador e banqueiro do jogo. Há uma espécie de
cooptação, livre e mútua - porém rígida, pois a regra fixada é sutfl. Os Gnósticos con­
sideram, além disso, que o seu sistema inèciâtico representa o próprio sistema da vida
real, onde cada ser deve descobrir por si mesmo e por sua própria iniciativa o que é
esperado dele por parte do desconhecido Banqueiro do Jogo.

Os Gnósticos interessaram-se - por um período de tempo muito curto - pela arte


HinferenciaT de John Cage, onde o ouvinte deve contribuir pelo menos tanto quanto o
autor. Mas logo deixaram de levá-lo a sério, bem como tudo o que se assemelha, de
longe ou de perto, ao Zen-budismo, o qual, muito pelo contrário, eles acabaram consi­
derando um dos flagelos do nosso tempo.
A nova Gnose é uma franco-maçonarla sem ritos nem cerimônias de entroni-
zação, um Estoicismo ou um Epicurismo sem receitas morais, onde ao contrário cada
um põe á prova, para si e para os demais, suas fórmulas de atitudes ou de comporta­
mentos, suas “montagens” experimentais, até que a Regra eficaz aos poucos vai sur­
gindo e se esboçando a partir das tentativas e dos erros cometidos de boa fé. Nisso,
também, o sistema apresenta, em relação ao dos Nppies, uma semelhança superficial
e uma diferença profunda. Pois, aqui, as iniciativas, as induções livres acabam sendo
julgadas - e em sua maior parte eliminadas - por uma seleção cuja essência é a mes­
ma que a da seleção natural, mas que é muito mais rápida, dentro de uma sociedade in­
teligente e flexível.
De outro ponto de vista, os Gnósticos não são e não pretendem ser aristocráti­
cos. Não querem ser, nem high brow nem egg head,6 e detestam os pedantes que se
escondem por trás de um vocabulário erudito para embair o púbico, que só falam em
democracia e em socialismo quando eles mesmos constituem um dá privilegiado de le­
trados enfatuados. Os Gnósticos se sentem como se fossem “donos de terras", des­
sas terrae cognitae e t incognitae do conhecimento, com uma reverência dirigida ao So­
berano desconhecido.
Aristocratas, eles poderiam também passar por "reacionários”. Essa palavra,
porém, não tem muito sentido na América. Não que eles não sintam nenhuma admt-

5. Expressões americanas que servem para designar os Intelectuais ou as pessoas que afetam gos­
tos “culturais" refinados.

20
ração por esses dois grandes demoliòores modernos que foram Marx e Freud, conside­
rados como “quebradores", redutores e desagregadores da filosofia e da sociedade.
Mas eles abominam seus seguidores, seus comentaristas e continuadores, em particu­
lar Wilhelm Reich e Herbert Marcuse. Na verdade, os Gnósticos olham mais adiante,
com o objetivo declarado de tentar acabar com o período de dissociação e redução que
já durou demais e só acumula estragos. Aliás, uma definição bastante adequada para
caractenzar a Nova Gnose é sua ambição “orgânica", em oposição ao esnobismo de­
sorganizador que corrói todas as sociedades civilizadas. Segundo eles, somente para
as mentes superficiais é que os “redutores” tornaram antiquado o pensamento orgânico
central e normal da humanidade, tal como é traduzido pelas crenças tradicionais, irra­
cionais ou transracionais, e por filosofias que visam aprolundar essas crenças sem
contudo dissolvê-las. Os “redutores” só têm uma visão muito local do homem, uma
visão muito antropocôntrica e cientificamente ultrapassada. Os Gnósticos, ao contrário,
possuem uma visão cosmocôntrica - para não dizer teocêntrica - conforme, segundo
afirmam, à ciência contemporânea e à sua cosmologia "fechada". Eles não querem
uma religião humanista, limitada à comunidade humana. O homem deve manter no
mundo o seu modesto lugar de Símio que, momentaneamente, se saiu bem.
Fazer girar a filosofia, a religião, em torno da organização social ou econômica
(ou melhor, de alguma modalidade acessória dessa organização), ou em torno da orga­
nização policial dos Estados, ou ainda em tomo do modo como se satisfaz a libido des­
se Símio ou da maneira como esse macaco sem pék) fala e comunica suas impressões
aos outros macacos congêneres, tudo isso parece, aos olhos dos Gnósticos, uma idéia
cômica, uma revolução mental anticopemicana. O macaco sem pêlo fica maravilhado
diante do momentâneo êxito biológico de sua espécie. A densidade do fervilhar humano
obnubila os indivíduos, assim como a densidade do formigueiro ou da colméia isola os
insetos individuais do mundo exterior, obcecando-os com a presença e o contato de
seus congêneres e com a mútua regurgitação do seu alimento.
Existe, observam eles, uma tendência natural de todas as populações densas a
se fecharem sobre si, por assim dizer, a se retraírem diante do universo, com umas
formas de interação intensas e ilusoriamente autônomas. Hoje, a massa biológica huma­
na praticamente só cuida de sua própria organização. Acha que pode dispensar qual­
quer finalidade exterior. Vive passando e repassando suas informações, seus docu­
mentos e textos, numa espécie de intestino coletivo em circuito fechado. Enquanto os
homens eram tão raros e espalhados quanto os ursos das cavernas ou os javalis, en­
quanto os caçadores ou os pastores caldeus, em meio a vastidões semidesérticas, fi­
cavam olhando as constelações e os “ sinais deslizantes do céu”, seu antropocentris-
mo só podia ser superficial e perdoável, mágico, semelhante à ilusão dos habitantes
das ilhas da Polinésia, que acreditam que os cargueiros dos brancos vêm do país de
seus mortos6 - ilusão alimentada e transfigurada pela visão sempre presente do hori­
zonte oceânico, do mar e do céu. É somente no fervilhar das grandes cidades, onde
cada um reabsorve indefinidamente as idéias dos outros, que os filósofos acabam se
convencendo de que "todo o universo gira em tomo da organização do Estado, ou do
sexo, ou da linguagem".

6. Ver o livro de Peter Lawrenoe: Le Mythe du Cargo, traduzido para o francés e publicado pela Fa-
yard em 1974, na coleçflo “ Arthropotogie critique", dirigida por Alam GheerbranL (Mota do Editor -
1977).

21
Quando eu objetava a um Gnóstico eminente7 que os filósofos, na Europa, são
tão anti-humanistas quanto antitefstas, e proclamam tanto “ a morte do homem" quando
“a morte de Deus", a resposta, Invariavelmente, era: "Ou seus pensadores n fio querem
dizer nada com isso e. nflo pensam nada, ou enfio estão no caminho daJSova Gnose»
Pois achamos, com efeito, que o homem nfio pode definir-se como uma espécie de Ví­
vente absoluto dentro de um universo vazio, vazio de qualquer sentido. Todas as suas
todas as suas culturas, de que vocôs, Franceses, sempre falam, lhe vêm do
universo. Se o homem participa desse universo, é somente do modo como o fazem to­
dos os seres. Se ô isso o que seus pensadores querem dizer, eles têm razão. Mas,
nesse caso, é preciso parar de dizer que “Deus está morto". Para entender as leis da
organização social, do amor ou da linguagem, se não queremos atribuí-las & obra arbi­
trária dos homens, temos que recorrer a uma Fonte, a uma Unidade, a uma Ordem uni­
versal. Não se pode ser ao mesmo tempo o Ptotomeu e o Copé mico da cultura.
E, recorrendo a uma de suas idéias prediletas, acrescentava: Quando, ao fazer
girar um recipiente cheio (fágua, ‘criamos’ uma força centrifuga, não estamos criando
absolutamente nada, apenas constatamos a presença de uma inércia, a qual, por sua
vez, não teria sentido nem poderia existir se não houvesse o conjunto de todos os ele­
mentos existentes no oosmo. Logo, podemos afirmar, a exemplo de Mach8, que é o
Universo que, ao girar em tomo do balde d*égua, atrai a água para as suas paredes. O
que não se aceita é que vocês falem de uma massa e de uma néráa separadas.

O conceito de Mach - cuia «osota, aliás, eles náo apreciam - é uma das raleréndu constantes
dos fstcos gnósticos. Ela está sempre presente sn suas mentes. Sabemoe que Flnirtoin nela se Inspirou
no InJck). Muitos Hfhxra gnósticos estâo reassumindo a teoria, ainda controvertida, de Eddinglon, se­
gundo a qual oe fenómenos atômicos e suas dimenaóesestâo emcocrelaçftoertretocom ocoemoco-
mo um lodo - ou cosmo uranótde, e nAo poderiam produzir-se num universo vazio. Sdama^FredHoyle
e oukos admitem que a intensidade das interações locais está sob a dependência das condiçfoa oóami -
cas gerais.

Náo sem uma atitude de prudente cortesia - pois ele sabia que eu era de origem
católica ele acrescentava: “O fato de a Igreja Católica ou, melhor dizendo, de alguns
padres esnobes fazerem coro com os humanistas extremistas e, sem ousar afirmar
abertamente que “Deus está morto", considerarem que o homem Jesus deve ser o úni­
co e verdadeiro Deus para os homens, prova a que ponto os eclesiásticos chegam a
ter a mente confusa ou pervertida pelos modismos. Pois é de se perguntar para que
pode servir uma igreja de pedra ou de madeira, a não ser para voltar o olhar dos ho­
mens em direção a outra coisa que não seja o formigueiro humano.
"Nosso Samuel Butler, acrescentava ele, gostava de ver as igrejas anglicanas do
final do século XIX como *bancos musicais' onde eram feitas pseudotransações em
moeda espiritual, com base em pseudocapitais ‘reembolsáveis a cada trinta mil anos.
Os rígidos capitalistas da Inglaterra vitoriana proclamavam como sendo os únicos ver­
dadeiros valores os dos bancos musicais, mas nem por isso teriam se arriscado a
ofender seus oficiais de justiça e seus banqueiros, pagando-lhes seus honorários e

7. Ele ó astrotfeico, e trabalha no Observatório do Monte Wilson.


8. Mach (Emst), (1838-1916), tísico e tiiósoto austríaco famoso por seus trabalhos sobre ótica e
acústica, e por ter criado, junto com Avenarius, o empiriocriticismo. (Nota de 1977).

22
suas prestações em moeda espiritual. Hoje em dia, vocês transformam as igrejas em
partidos pseudopopulares ou em clubes de jovens guitarristas. Vocês transformam os
bancos musicais em ‘sindicatos musicais’ - o que não é melhor. E, até mesmo, pode-
se preferir a música de órgão ao jazz ou à música popular de jovens vigários
demagogos.”
De minha parte, eu contrapunha a seus argumentos as audâcias da sua própria
Igreja, e de livros tais como Honest to God de John A. T. Robinson, bispo de Wollwich.
“O bispo Robinson não é um Neognóstico. Como Gnósticos, nós não somos
‘cristãos’. Se alguns entre nós continuam venerando Jesus - assim como outros vene­
ram a própria mãe, ou a esposa, ou algum mestre isso é assunto deles. Tudo pode
servir de ‘janela’ pessoal sobre a profundidade do universo ou sobre a Unitas. Se Ro­
binson se preocupa com o futuro da Igreja, essa é a sua função como bispo. O fato de
a Igreja se denominar cristã leva necessariamente seus adeptos a certas contorções
mentais a fim de dar a Jesus um lugar central dentro do cosmo.9 Pois, é evidente que,
sem o nome próprio de Jesus Cristo, a Igreja Cristã é ‘inominável e inexistente’. Mas,
de qualquer modo, essas contorções são vãs. Foi Jesus quem morreu, assim como
morreram bilhões de homens e bilhões de bilhões de seres nos milhões de galáxias
existentes. Não foi Deus. Detestamos essas ‘filtragens de insetos’ e esse modo de ‘en­
golir camelos’ [Gnat strainings and carne! swattowing], essa maneira de pretender enca­
rar uma questão de frente enquanto se faz tudo para evitá-la, essa dissimulação de
uma inefável insinceridade sob uma aparência de inefável candura. Nós deixamos Je­
sus aos hippies e ao show business. Ao adotá-lo, eles o tomaram ¡nfreqüentável."10

Os Gnóstioos têm, em relação às Igrejas, uma atitude estranhamente cínica, co­


mo também em relação aos Estados. Eles não deixam de freqüentá-las. Não deixam de
entrar e demorar-se ás vezes por um longo tempo nas igrejas de pedra, mas nunca
quando ocorrem cerimônias oficiais e comunitárias. Em várias oportunidades, censurei
alguns deles sobre isso: “ Vocês desprezam os esforços dos bispos e dos políticos que
se preocupam em manter habitáveis essas instituições, mas acabam se aproveitando
desses esforços, assim como Diógenes fazia com o átrio dos templos. A maioria de
vocês [eu me dirigia a universitários eminentes] recebe salários quase tão ‘antecipá-
veis’ sobre os produtores econômicos nos Estados Unidos como na França."
Pelo sorriso deles, entendi que eles estavam perfeitamente conscientes disso. E
é assim que se justificam: eles não ignoram a importância e os beneficios das insti­
tuições, ou, como eles costumam dizer, das arquiteturas sociais. Mas consideram o de­
talhe de sua construção, de sua evolução e de sua história, aigo superficial, indiferente,
resultado de mil causas incalculáveis, e não de uma dialética resumfvei em poucas fra­
ses. A metamorfose das instituições é tão inevitável quanto o surgimento de cadeias

9. O Jesus “agente cósmico" do nosso Teilhaid de Chardin d considerado um puro absurdo pelos
Novos Gnósticos. Eles apontam para o tato de que o S/mio que se ergueu sobre suas patas traseiras
desempenhou na evolução do espirito humano um papel muito maior do que Jesus.

10. Há algumas nuanças nas alludes dos GrxJeUcoe. Por exemplo: “Jesus! Eu te amo, apesar de
todos os teus defetos!" (Wilh a jí thy fautts I tove tiee stillf), ou então: “ Na época do Cristo, eu não teria
sido um de seus discípulos. Êu o teria condenado. Mas sem orgulho! Talvez eu tivesse sido tentado!" [a
ser seu discípulo].
23
vulcânicas ou a erosão, e muito menos previsível. Para eles, Deus está no cosmo, em
cada ser e na unidade dos seres, na história geral dos seres e em seus progressos
biológicos - mas nAo na história dos povos. A história dos povos não ó deificávei - ou
então, a existência de Deus nessa história é apenas superficial ou indireta. Nela, ele
colabora com o acaso, na moidageni da superfície do planeta por exemplo, no surgi­
mento das cordilleras, nas falhas geológicas e nos terremotos. Ê uma infeBeldade ter
de viver numa época de desmoronamentos sociais, de guerras e de revoluções, assim
como ó uma infelicidade ter-se uma casa numa região de falhas na crosta terrestre. Só
que não podemos mudar de época assim como nos mudamos de uma região para ou­
tra. Mas é igualmente inútil querer lutar contra as massas revolucionárias e contra as
ejeções do magma terrestre; é igualmente inútil combater a erosão demagógica e a
erosão geológica. Só podemos proteger nossa casa por um certo tempo, ou procurar
construMa obedecendo a técnicas anti-sísmicas.
Esta falta de uma doutrina social, ou melhor, política, parece-me ser, confesso,
uma grande lacuna da Nova Gnose. Porém, esta lacuna é perfeitamente consciente e
desejada. Para os Gnósticos, isso é, no fundo, uma questão de honestidade. Eles con­
sideram leviano e, até mesmo criminoso fazer experimentos na pele humana. Podemos
nos permitir fazer experiências e cometer erros em nossa própria vida. O que não te­
mos o direito de fazer é fingir que sabemos o que convém aos outros, quando os outros
sabem isso melhor do que nós.
Os Gnósticos mostram-se ao mesmo tempo fascinados e irritados diante dos
inúmeros debates sobre a “futurfstica" e as pesquisas sobre os “tuturíveis". Alguns de­
les contribuíram muito para esses estudos. Fizeram parte dos fundadores da World Fu­
ture Sodety (criada em Washington em 1967). Mas acabaram afastando-se desta, pre­
ferindo aderir ao projeto de um serviço de avalação da tecnologia (que iria sustar os
planos por demais ambiciosos).
“A crise religiosa nos Estados Unidos, reconhecem os Gnósticos, é, de longe,
muito mais grave do que a crise econômica de 1929. Mas não podemos fazer um New
Deal social. Aquilo que é possível para a sociedade econômica não o é para a socieda­
de em geraL Nós não temos a pretensão, como a seita budista de Nichiren Shoshu, de
iniciar a Terceira civilização". Toda doutrina social ou pol/tica é destinada a ser apenas
uma ideologia, ou seja, uma teoria falsa. Os responsáveis políticos, ou os que são in­
vestidos de algum poder momentâneo quando as formas tradeionais são destruídas,
passam de um expediente a outro. Fabricar instituições sociais é algo tão impossível
quanto fazer, em laboratório, um organismo vivo complexo. Mas, hoje em dia, pode-se
fabricar moléculas pré-orgânicas, reconstituir um vírus depois de té-k) decomposto, ou
suscitar moléculas pré-vitals elementares numa “sopa de MUer"-.11 Queremos, através
de nossa religião básica, fazer uma “sopa de MiHer” social, contando com a colabo­
ração do acaso e da consciência, para podermos ir aJém das "grandes moléculas”.
Haverá, nessa atitude, alguma desesperança secreta diante da situação pertur­
bada da América de hoje?

11. Alusão às misturas de hldrocarburetos e amoníaco a partir das quais Urey e Miller conseguiram,
em 1955, ácidos aminados. O termo “ sopa” é de J. B. S. Haldane que, a exemplo de Oparine, tentou
imaginar o amDiente quente e salgado onde a vida tena sido elaborada.

24
“ Nenhuma das grandes religiões tem dado qualquer receita política. Elas estão
acima disso. Não queremos perder nosso tempo refazendo ‘a República’ de Platão, na
certeza de que estaríamos, como Platão, atrasados em relação à história humana. Os
Estóicos, os Epicuristas, os Cristãos e os Antigos Gnósticos que procuravam uma sal­
vação individual, ao mesmo tempo estavam lançando, embora sem querer, as bases de
uma ordem social e política realmente nova."

Quando eu alegava que os grandes ideólogos do nosso tempo: Marx, Lenine e


Mao foram verdadeiros fundadores religiosos, e que as religiões vivas de hoje são ideo­
logias, eles sorriam: “Apenas enunciada, qualquer ideologia já se toma antiquada.
Vocês pensam que a Rússia é marxista ou leninista? Que Cuba é castrista? Só os ita­
lianos e os franceses acreditam ainda hoje em ideologias. A força orgânica, a vis medi-
catrix naturae, é mais impedida do que ajudada por essas estruturas de madeira que
pretendem assumir o papel de esqueleto. Os grandes proselitismos religiosos, com
efeito, têm sido mais ideológicos do que religiosos. Produziram catástrofes e assassi­
natos em massa. Deixemos que as religiões, aos poucos, voltem a ser religiosas, isto
é, que retomemos ao paganismo natural e universal. Não queremos cruzadas, nem
"rearmamento moral", nem proselitismo, nem conversões em massa."
Agora, um relato breve sobre as fases do Movimento. Este começou em Prince-
ton e, também, quase ao mesmo tempo, em Pasadena,12 por meio de brincadeiras te­
lefônicas, ou do que poderíamos chamar de “divertimentos” científicos e um pouco pe­
dantes - alguns dos quais acabaram se transformando em teorías profundas, como os
diagramas de Feynman.
Uma outra variante dessas “brincadeiras sérias” era a “ cifragem paradoxal”. Da­
remos apenas três exemplos:

I. O último suspiro de Cásar. Estaremos ainda respirando algumas das moléculas do ar que Julio
César expiou quando foi assassinado? A resposta, segundo um cálculo multo simples, ó: “Provavel­
mente sim, algumas dezenas a cada Inspiração.”
II. A xícara de chà: Enche-se uma xícara exatamente até a borda. A superficie do liquido não é
plana, mas segue a curvatura esférica da Tenra. Ao levantar a xícara a um meto de altura, a curvatura
diminui ligeiramente e, sem a tensão superficial, algumas moléculas deveriam, então, cair. Se pudés­
semos utilizar a energia total dessas moléculas segundo a fórmula de Einsteire E = mc2, o que po­
deríamos esquentar com ela? Uma gota de chá? Uma xícara de chá? Outra chaleira? A resposta é:
“Outra chaleira"

IN. Diminuir a velocidade da Terra: Ao subir ao alto do Empire State Buildng, um homem diminui
a velocidade da Tenra e aumenta a duração do dia (devido à oonservaçâo do movimento emético). De
quanto? De um segundo (ao todo) pare cada 1022 anos.

Dentro do mesmo estilo eram inventados jogos, geralmente topológicos, entre os


quais o mais conhecido e que oonquistou todas as universidades, é o jogo chamado
Hex ou “jogo de Princeton". Citemos também os “computadores a fósforos”.
Essas pequenas invenções sáo, por assim dizer, uma fonma de fugir das limi­
tações da rotina profissional, pois a profissão consiste em ter idéias originas. Por volta
de 1965, nossos (futuros) Gnósticos passaram a elaborar outros jogos, mais sérios e

12. Onde se encontram os asffônomos do Monte Palomar e os do Monte Wilson.


25
além dessa rotina profissional. Foi a fase dos “antiparadoxos", ou das práticas do tipo
"É difícil dizer o contrário" (com exercícios anexos para “ realizar plenamente o antipe-
radoxo"). Essa fase estâ provavelmente figada ao ambiente de contestação universal,
reigiosa, potfüca e social que, havia uns dez anos, predominava nos Estados Unidos
(que precediam a Europa nesse ponto). Só que essa Bgaçfio se deu » contn/lo. Esses
antiparadoxos eram às vezes chamados de Ibo/ proof paradoxn.™ Um antiporadoxo
escapa a qualquer contestação possível, mas nfio ao modo de "dois e dois sáo quatro”.
Ele nAo pode ser encaixado num sistema de axiomas matemáticos, o qual, por ser
convencional, é inatacável. Ele nfio depende de nenhum sistema de linguagem qual­
quer. Todo cientista- e, principalmente, todo físico - é um oonteetador profissional, um
implacável perseguidor de postulados, sempre pronto a quesfonar o que ele aceitou
junto com seus colegas. Descobrir um postulado invisível é, quase sempre, descobrir
ao mesmo tempo que ele pode ser - e deve ser - rejeitado. Se o postulado de Eucfdes
sobreviveu durante séculos, é porque vinha dsfarçado em axioma. A partir do dia em
que Gauss se perguntou se a geometria euclidiana nfio poderia ser verificada através
de medidas astronômicas, o postulado das paralelas já nfio tinha mais validade: o es­
paço esférico, ou em forma de "dupla trombeta”, nfio tem nada que o faça mais parado­
xal do que o espaço plano. Eu penso espontaneamente que, se eu der um soco na me­
sa, no mesmo instante algo determinévei estará ocorrendo em Sírius ou na nebulosa de
Andrómeda. Mas, perguntava Einstein, de que modo posso me certificar disso? Consi­
deremos, por outro lado, uma afirmação do tipo: “ Existe pensamento no universo já que
eu estou pensando.” Esta afirmação nfio é rejeitável como o é o postulado das parale­
las ou da simultaneidade à distância.
Os Gnósticos de Princeton logo entenderam, como físicos, que existem limites
antiparadoxais aos paradoxos aparentes produzidos pela caça aos postulados que eles
viam ser praticada ao redor deles, nos mais variados campos, e por amadores inexpe­
rientes que pretendiam ingenuamente realizar, no terreno da sociologia e da religião, o
que eles, os físicos, já faziam há muito tempo, mas para construir, nfio para destruir a
ciência física. Perceberam que esses caçadores amadores devastavam tudo, correndo
o risco de destruir tudo sem contrapartida.

Os Gnósticos procuraram, então, e encontraram, toda uma série de antiparado­


xos, e isso, sem, no começo, preocupar-se demais em deixar algumas teias de aranha
filosóficas, confiando os trabalhos de limpeza aos lógicos (que eles consideram as “fa­
xineiras" da ciência).
Com os fooi proof paradoxos já se estava entrando na Nova Gnose (que ainda
não tinha essa denominação). Os antiparadoxos não só são inacessíveis à "demistifi-
cação” - como se diz na França - , mas ainda não têm nada a temer da caça aos pos­
tulados invisíveis. Eles desempenham sempre um papel importante na Nova Gnose, e
servem de principios de cristalização para todas as doutrinas importantes. Graças aos
antiparadoxos, os princeton¡anos foram se tomando maduros, sérios e intelectualmente
ascetas, renunciando às teorias fantasiosas e pitorescas, assemelhando-se nisso aos
verdadeiros artistas, que renunciam às técnicas de efeito por levar a arte
a sério.

13. Alusáo aos aviões para amadores, preparados para que seja vnpossfvel uma brusca perda de
velocidade.

26
A “ cosmología básica”

Seguiu-se, entretanto, uma outra fase (p o r vo lta d e 1970), m arcada pela decisão
coletiva de se esboçar uma basic cosm ology - na v e rd a d e , nada m enos do que uma fi­
losofia ou uma teologia fundam ental.14 O term o “ co sm o lo g ía " faz alusão a esse novo
capitulo da física, iniciado por Einstein e de S itte r a n te s m esm o da descoberta, por
Hubble, da expansão do universo. Há todo um grupo de físico s, quase todos anglo-
saxões: Eddington, Lem aitre, E. A. Milne, G ôdel, W h itro w , von W eizsãcker, H. P. Ro-
bertson, Sciam a, Bondi, H oyle, calculando ou e sp e cu la n d o sobre o universo em sua to­
talidade, náo só espacial como tem poral. A co n te ce q u e , espe cu la r sobre o universo
com o um todo significa pensar, queiram os ou n a o , em te rm o s teológicos. A cosmotogia
não pode s e r como os demais capítulos da fís ic a . N áo se trata m ais de estudar fenô­
menos que se produzem num espaço e num tem po in d e fin id o s e neutralizados, homo­
geneizados, laicizados por essa "indefinidade” . T ra ta -se , agora, de “ pensar o espaço"
com o um todo, fechado como um andador para cria nça , e de “pensar o tem po" como
algo finito em direção ao passado, o qual partiu de um ponto singular, teve um começo
e, também, parece ter um fim, revelando ta lve z, assim com o o espaço, certas curvatu­
ras (se é que existem linhas "do tipo tem po" fech a da s) de um m odo ainda inconcebível,
m as do quai a cosm otogia de Gôdel já nos dá algum a idéia.
O infinito, ou melhor, o indefinido, é silencioso, eterno, mudo como o túmulo. Se o
espaço é finito, e provavelmente hiperesfórico, e se o tempo é, ou tem uma história, ir­
reversível ou fechada, isto ô um primeiro sinal para a ciência de que ela não pode ser
“positivista". O silêncio dos espaços infinitos náo é eterno, se ele começou com o Big
Bang (isto é, a explosão inicial, início da expansáo). Em todos os campos da física e da
astronomia, apresentam-se os problemas da gênese. Quer se concorde ou se recuse,
por motivos religiosos ou, o que vem a ser quase o mesmo, por motivos anti-religiosos,
em especular sobre a origem, o fato é que o universo se encontra, sem dúvida, em de­
sequilíbrio: as estrelas se desmaterializam; o hidrogênio transforma-se em hélio; a
matéria ainda está em excesso em relação à irradiação, mas derrete-se em irradiação,
assim como o açúcar numa xícara; o tempo passa ou avança. Nada mais se apresenta
estático, tudo está num vir-a-ser ou em processo de criação. Nâo se acredita mais na
permanência de substâncias. Os que ainda se escandalizam com a idéia de uma
criaçáo absoluta de matéria (segundo Hoyle) estâo admitindo a criação de espaço (vis­
to que o universo está em expansão). Os que querem compensar a criação de infor­
mação aqui, por um aumento pelo menos tfto grande de desordem alhures, admitem,
portanto, que existem domínios onde a informação possa nascer.
É verdade que existem cosmólogos que adotam uma atitude positivista, como H.
P. Robertson, e que rejeitam os resíduos de anglicanismo em E. A. Milne,15 de quake-

14. A limitação de créditos ocorrida, sobretudo em Pasadera, desde 1970, levou um certo número
de cientistas ao serrodesemprego. Nos Estados Unidos, a reação não ó, como acontece na França, a de
promover agitação sindical e política.
15. Milne (Edward Arthur) (1886-1950), asfrônomo e matemático inglôs, estudou em particular a
termodinámica das estrelas e a estruture da malária estelar. Também desenvolveu uma teoria original
sobre a expansão do Universo. (Nota de 1976.)
27
rismo em Eddington e de catolicismo em Lemaítre. Mas, mesmo para aqueles, entre os
Princetonianos, que vêem com desconfiança as idéias de E. A. Milne, é difícil exagerar
sua influência. O vocabulário religioso é um jogo, mas um jogo sério, para Hoyle e para
Gamow. E o era para Einstein, que já via no universo uma Inteligibilidade” misteriosa,
como se, por trás de tudo, houvesse um “Sabe-se” (na forma impessoal).
O termo baslc è mais diffdl de explicar. Nfio é tomado aqui no sentido que se usa
quando se fala de baslc engüsh ou mesmo do francês básico.16 Não se trata de estabe­
lecer uma espécie de cosmología (ou de filosofia religiosa) minimalista - embora o pro­
cesso dos antiparadoxos às vezes lembre algo parecido. Trata-se menos ainda de uma
"ciência religiosa” , ou de uma “ religião científica". O que os Gnósticos entendem por
este termo é o seguinte: uma cosmología totalizante para o espaço e o tempo deve tota­
lizar tanto os observadores como os observados, tanto os pontos de vista como os
pontos vistos, tanto os "ego" como os “aqui e agora” , tanto os Mego” como os alhures,
passados ou futuros, tanto os moventes ou os deformantes, como os movimentos ou
as deformações.

Isso foi o que Milne tentou fazer com a chamada teoria da relatividade cinemáti­
ca.17 Os Gnósticos conservam pelo menos a ¡déla de sua tentativa. Eles se recusam a
opor o espírito à matéria, o subjetivo ao objetivo, a consciência à coisa. Recusam-se a
acreditar nessa dualidade, nessa “bifurcação” da natureza, que tomaría totalmente in­
compreensível o “ Sabe-se" ou o “Pensa-se” no universo.

Psicossíntese

A fase basic cosmology levou à última fase, propriamente gnóstica, que poder-
se-ia caracterizar como urna tentativa de “ psicossíntese" (a palavra é pouco usada pe­
los Gnósticos), em contraste com a psicanálise, da qual os Gnósticos, ao mesmo tem­
po, se inspiram e da qual desconfiam. A doutrina tomou-se sabedoria e técnica de sa­
bedoria, à maneira de um novo estoicismo ou epicurismo, porém aberto e vinculado à
ciência viva em vez de relacionado com filosofias simplistas e pseudocientfficas. Esta
fase dura desde 1971, e talvez n&o seja a última. Ela ó ao mesmo tempo interessante e
decepcionante para os que tém um espirito científico rigoroso, pois a equipe compacta
e firme de físicos e astrónomos que fundou a Nova Gnose é hoje um tanto sufocada pe­
los novos recrutas, principalmente por biólogos e médicos, muitos deles notáveis e to­
dos inteirados das ciências físicas, mas carecendo do espirito que caracterizou os pri­
meiros fundadores.

16. Ou então, seria preciso que a “ base” tosse o conjunto dos "cnptotipos", das “categorias implíci­
tas", segundo B. L Whorf.
17. Ct. cap. II, pág. 43.
28
Uma última palavra, desta vez pessoal. Foi durante um “jantar Samuel Butler”,
em Londres, que conheci o movimento gnóstico americano.18 Pois este faz de Butler -
o que eu não sabia - um de seus grandes mestres. Esses jantares eram extremamente
saborosos, em todos os sentidos da palavra. Sabíamos - “nós”, isto é, os membros da
Sociedade Butler - que Butler, que náo havia sido tão feliz em suas especulações na
Bolsa de Valores como o fora com La Vie et 1'Habitude, sofrera muito por ter de se con­
tentar com refeições parcas. Seguindo sua teoria da imortalidade por procuração,
tentávamos fazô-lo aproveitar da boa comida por intermédio de seus admiradores.
Nessa ocasião, eu havia sugerido timidamente a idéia de que Samuel Butler fora
em sua época uma espécie de hippie antes do tempo, mas um hippie inteligente, o que
mudava tudo. Pois ele havia se dedicado à grande Obra, à Pedra Filosofal, de seu tem­
po e de todos os tempos: reconciliar Deus e Mammón. E o Manmon de Butler não fora
dos mais gordos.
Eu também acrescentara que desejava um movimento, uma doutrina, que fosse
para as extravagantes convulsões dos hippies o que o estoicismo ou o epicurismo ha­
viam sido para as contorções dos cínicos ou dos cirenaicos. Hoje, só temos “pequenos
socráticos”. Onde estarão os grandes?
Naquele momento, percebi que eu havia como que tocado uma mola secreta nos
Butterianos americanos, que, desde então, passaram a se interessar por mim. E, a par­
tir dali, os “amigos de Samuel Butler” se fundiram com o Movimento Gnóstico.
Os Gnósticos, cuja atitude, normalmente, é desprovida de qualquer pose, têm en­
tretanto uma pequena pose antipose . Eles afetam uma atitude de reverência para com
Mammón, o dinheiro, e pflra com os que sabem fazer dinheiro com inteligência (cha­
mam a isso “encarnar Deus"). Na verdade - e isso logo verifiquei - , eles são as pes­
soas mais desinteressadas, mais verdadeiramente ascetas que conheci. Sentem-se
sinceramente constrangidos quando recebem altos salários. Contudo, não toleram a hi­
pocrisia, quase tão difundida nos Estados Unidos quanto na França, que consiste em
desprezar o dinheiro com as palavras enquanto se leva uma vida de epicurista dissimu­
lado. Do mesmo modo, afirmam interessar-se pela gastronomia mas, na verdade, vi­
vem muito de sanduíches.

Assim, foi essa circunstância que, mais tarde, me fez conhecer, bastante intima­
mente, os principais fundadores da Nova Gnose.
Não tenho certeza, entretanto, de ter conhecido o m estre- ou a mestra - do Mo­
vimento. Quando se referiam a esse personagem, era de modo tão vago que, tanto po-

18. Samuel Butier (1840-1902) tomou *8® um cláasJco da literatura Inglesa oom sua famosa utopia
Erewhon (1872) e seu romanos autobiográfico póstumo: The Way o f ali Flesh (1903). Mas Butler
também escreveu obras de tttosotla biológica, como LaV ieet 1’Habitude (1878), a única traduzida para
o francés. Butler potemizou oom Oarwin e foi considerado injustamente um amador. Suas principais
obras neste campo foram: Evoluüon Okt and New (1079), Unoonsdous Memory (1880) e Luck or
Cunning? (1886). A Sociedade Butler á qual nos referimos nesta obra é, na ventada, a segunda. Uma
primeira sociedade (“Os polares Erewhon") teve, em julho de 1914, sua última reunido, preskfda pela
sra. Bemaid Shaw. (Nota de 1977.)

29
deria se tratar d e uma Bona Dea mítica como de um personagem real (por exemplo, da
esposa ou da mãe adorada e venerada de um dos fundadores).
Esses Gnósticos tão inteligentes, e diante dos quais, apesar de sua extrem a oor-
tesla, eu me sentia muitas vezes como um garoto, principalmente quando um a pergunta
que eu fazia e que acreditava pudesse ser inteligente, despertava neles um sorriso mal
reprimido - esses Gnósticos, então, lamento ter de dízê-to, conservavam um gosto,
que pessoalmente eu achava excessivo, pela ficção científica - para a qual continua­
vam trazendo fascinantes contribuições. Sabemos que a ficção científica, nos Estados
Unidos, é muitas vezes a oportunidade para experiências mentais de grande alcance fi­
losófico. Alguns G nósticos chegam quase a pensar que trabalhos de ficção científica
poderiam ser mais úteis do que dissertações, testes ou, como na China dos Mandarins,
a composição de poemas, nos exames e concursos acadêmicos, ^ ilto e outros,
porém, lutam contra essa inclinação. Os estetas, argumentam eles, são levados a crer
que um filme ou uma peça de teatro constitui uma prova social ou politica. "Nós, os
dentíficos, não devemos incorrer no mesmo erro e acreditar que uma ficção de ficção
científica pode constituir uma prova.”
Alguém poderá querer me perguntar por que náo achei mais simples traduzir e,
assim, apresentar algumas de suas obras escritas. A resposta é fácil: essas obras náo
existem ainda, e provavelmente não irão existir antes de alguns anos. Não devemos
esquecer que, hoje, os Gnósticos declarados ainda náo passam de uns poucos milha­
res.
O Movimento, sem chegar a ser secreto, pretende ser discreto. Os temas gnós-
tioos são principalmente falados, discutidos e, no máximo, mimeografados. Os cientis­
tas, que constituem a maioria dos adeptos, têm como norma náo publicar senão o que
for estritamente cientifico. Eles têm uma grande preguiça quando se trata de publicar -
embora levem o assunto muito a sério - o que se refere a tudo o que eles chamam in­
distintamente de theotogy.


• *

Foi pelo menos nesse sentido que eu consegui, durante muito tempo, entender
sua discrição e seu gosto peb segredo, o qual, porém, continuou a intrigar-me, pois os
Gnósticos estão cada vez mais com ares de mistério. Pouco a pouco, percebi uma ou­
tra razão, mais importante.
O Movimento começou entre os físicos e os astrónomos, depois envolveu os
médicos e os biólogos, e depois os membros da alta administração. Porém, mais re­
centemente, tem atraído um grande número de eclesiásticos, sobretudo entre as altas
esferas da Igreja. Pelo que entendi, muitos bispos são gnósticos — como teriam sido
deístas na Inglaterra do século XVIII - e haveria até mesmo muitos bispos católicos
que peb menos simpatizam com o Movimento. Com isso, sua situação se torna delica­
da. Eclesiásticos podem se dizer ateus sem que isso represente um grande inconve­
niente ou seja motivo de escándate. Afinal, o Budismo, o Confucionismo são Igrejas
atéias. Os católicos franceses progressistas proclamam-se facilmente “antideístas" por
amor a Jesus Cristo e aos seres humanos. Mas uma Igreja que se denomina “ cristã”
dificilmente pode proclamar que não acredita mais no Cristo, que só acredita agora em
Deus. Isto poderia ser aceito apenas no sentido extremo de um misticismo exaltado, no
30
sentido em que Georges Fox interrompeu um pregador, dizendo: “Não i Escritura, mas
o Espírito Santo", no sentido de que Jesus é apenas a expressão de uma generatio ae­
terna, um mensageiro que deixa de interessar, quando se conhece o Autor da m ensa­
gem.
Mas os Neognósticos não são pessoas místicas e, é em nome doDeus do cos­
mo, do mundo, científica e socialmente respeitável, que eles deixam Jesus Cristo e
seus apóstolos para os hippies. Uma atitude, no fundo, honesta e louvável, mas difícil
de confessar coram poputo, considerando-se a etimologia da palavra cristianismo. Es­
sa necessidade de segredo acabou, então, estendendo-se a todos os adeptos.
Há um outro ponto, mais delicado e mais secreto, talvez até mesmo subcons­
ciente. Os Neognósticos de origem judaica (e são muitos) muitas vezes pensam como
se esperassem uma espécie de conversão, ou de reconversão do cristianismo para o
monoteísmo israelita original - enquanto muitos cristãos pouco esclarecidos, mesmo
quando simpatizam com os judeus, ainda consideram o judaísmo como um estágio reli­
gioso primitivo que o cristianismo teria ultrapassado.
Acontece que os Neognósticos cristãos, por sua vez, não estão muito longe do
ponto de vista dos Neognósticos judeus, e parecem quase desejar uma espécie de re­
conversão do cristianismo para o judaísmo.
Mas essas são coisas difíceis de confessar, até mesmo a si próprio - sobretudo
quando se é pastor ou bispo de uma Igreja cristã.

Contudo, não escondi deles minha intenção de apresentá-los ao público francês


e, sem chegar a entusiasmá-los, meu projeto não suscitou maiores objeções - a não
ser a condição que me impuseram de eu não citar nenhum nome de Gnóstico declara­
do, e esboçar a doutrina através de seus inspiradores e de pessoas que estão à mar­
gem do movimento. Receio que, talvez, tenham aceitado meu projeto principalmente
porque eles não levam o público francês muito a sério, e contam com seu poder de de­
satenção e com o esnobismo antiamericano de seus meios intelectuais.
Em duas ou três ocasiões, tomei a liberdade de informá-los de que, em obras que
eu escrevera - e que, naturalmente, nunca haviam Udo e das quais nem haviam ouvido
falar eu havia chegado às mesmas conclusões que as deles, só que um pouco me­
nos seguras. Mas mostravam-se surpresos pelo fato de eu considerar surpreendentes
esses encontros. Para dizer a verdade, minha surpresa parecia-lhes infantil, semelhan­
te à surpresa de uma criança ao descobrir maravilhada que, com papel e lápis, pode-se
chegar aos mesmos resultados que com uma máquina de calcular. Nossos leitores
acharão - assim esperamos e ao mesmo tempo tememos - que a G nose americana
vai muito além de nossas modestas tentativas.
ApresenteHhes o manuscrito desta obra, submetendo-o à sua aprovação. Com
exceção de algumas correções que me sugeriram sobre certos pontos onde eu havia
cometido alguns erros científicos, deram sua aprovação, censurando-me, porém, por
eu não ter dado uma ênfase maior à sua cosmología, e ter dedicado um espaço exces­
sivo à sua biologia, matéria em que me sentia mais competente.
31
PRIMEIRA PARTE
A Ciência Neognóstica
Capítulo I

O MUNDO PELO LADO AVESSO


E O MUNDO PELO LADO DIREITO

A tese fundamental da Nova Gnose é a de toda Gnose: O mundo é dominado pe­


lo Espírito, feito pelo Espirito, ou por Espíritos delegados. O Espírito encontra (ou, an­
tes, cria para si mesmo) uma resistência, uma oposição: a Matéria. O homem, através
da ciência, mas de uma ciência superior, transposta ou espiritualizada, pode chegar ao
Espirito - ou Mente cósmica e, se for sábio e ao mesmo tempo inteligente, nela encon­
trar a Salvação.
A Nova Gnose desenvolve essa tese com precisão e, sobretudo, consegue
torná-la respeitável e conforme à ciência mais positiva.
O que é o espírito? É uma consciência. O que é o Espirito? É a Consciência
cósmica.
O que é uma consciência? É todo domínio que se conhece a si mesmo, “vê" a si
mesmo em sua própria unidade e em seus detalhes subordinados, e que pode dizer vir­
tualmente “eu", pois ele está presente para si mesmo.
A Nova Gnose radicaliza a tese gnóstica. O Espirito não encontra na Matéria o
seu oposto; ele a constitui, é seu estofo (stuff), o único estofo. A Matéria, os corpos ma­
teriais, constituem apenas a sua aparência (para outro espirito), ou o seu subproduto,
por um efeito de multiplicidade desordenada.
O universo é feito exclusivamente de formas conscientes de si próprias e de inte­
rações dessas formas por informação mútua. Pois a consciência é a forma e a infor­
mação, porém do lado direito, não do lado avesso, como estrutura-objeto-numa-outra-
consciência.
Em seu conjunto e em sua unidade, o universo é consciente de si mesmo. Não é
feito de ‘‘coisas’’, de “corpos materiais”. Suas energias não são “físicas”. Suas infor­
mações não são cegas, ou são cegas tão-somente em sua viagem entre dois “ informa­
dos” . O conhecimento por observação (cientifica ou não) dos seres não produz uma
simples “filtragem”, com perda de informações objetivas - como um aparelho de tele­
visão em preto e branco que, ao receber um programa em cores, perderia as infor­
mações sobre a cor.
36
É m uito mais grave do que isso. Por detinição, um “observador” só pode obser­
var um "objeto” , quando, na reaiidade, existe ali uma consciência subjetiva. Não se po­
de, por definição, ver uma consciência. Pode-se apenas adivinhar uma consciência, ou
participar dela.
Se perguntarmos ao menino Pedro: "Onde está Pedro? Mostre-nos onde está
Pedro” , ele espontaneamente responde abrindo a boca o mais que pode para mostrar o
seu interior, para nos comunicar a cálida impressão que ele tem de um “dentro" inex­
prim ível Cada ser sente o seu interior, o seu lado direito" (que, para os outros seres, é
o seu “ lado avesso”). Mas ele s6 pode observar o exterior, a pele, o lado avesso dos
outros. E ele observa o seu próprio avesso, também, quando vê uma parte de seu cor­
po com um olhar suficientemente móvel, ou quando se olha num espelho.
O conhecimento científico vai além da “pele”; faz o universo abrir a boca escan­
caradamente, assim como um dentista faria com um cliente; mas nunca vê o seu inte­
rior, as suas vísceras, a não ser através do modelo do exterior que ele pode perceber.
Um corte microscópico ainda é umexterior, um avesso.
Sempre achamos que as coisas e os seres são como os vemos: uma só casca
ou uma só pele, externa ou falsamente interna, uma superfície que reflete a luz. De uma
pessoa de nosso conhecimento, sabemos que seu corpo tem um lado avesso, ou an­
tes, um lado direito que é sua própria vida, sua própria consciência, pois essa pessoa
nos fala sobre elas. Um cachorro também nos dá testemunho de seu anverso, ao pro­
testar quando pisam na sua pata. Uma árvore nunca protesta ao ser podada, nem tam­
pouco uma erva quando pisada, ou um cristal quando submetido a forte pressão. Por
isso são considerados como não tendo o “lado direito”, como sendo “só corpo”. Se o
olho de Midas, e não apenas a sua mão, tivesse podido transformar em ouro tudo o que
via, Midas teria dito: “Tudo é ouro."

O materialismo consiste em acreditar que "tudo ô objeto", “tudo é exterior”, “tudo


é coisa”. Ele se apóia cegamente no caráter "de superfície” da percepção visual e do
conhecimento científico, tomando como lado “direito” - ou certo - (right skte) o lado
avesso (wrong side) dos seres.
O que dâ ao materialismo essa característica de verossimilhança é o fato de que
a maioria dos seres percebidos e conhecidos são, de fato, seres falsos, corpos com­
postos, complexos artificiais ou fortuitos. Uma nuvem, um rio, uma casa ou uma máqui­
na, obviamente, não têm, como tais, nenhum lado “direito" consciente. Suas moléculas
componentes, porém, já que subsistem por si mesmas, conservam sua forma ou a re­
constituem eventualmente. Elas têm de possuir algum lado “direito", que faz delas uma
realidade independente da nossa visão ou de nossos cuidados.
O s enorm es am ontoados de matéria das estrelas e das nebulosas são cons­
ciência no estado de pó, um a neve de consciência por assim dizer, feita de bilhóes de
cristais de gelo que a tomam visível, enquanto que o gelo (a consciência) é transparen­
te.
A possessão erótica - na quaJ não há nada o que possuir, dizem os céticos -
não faz senão reproduzir por “m ím ica” a fusão das consciências, dos “ lados direitos".
E o faz com uma eficiência surpreendente. E a “ superficialidade" científica, nessa cir­
cunstância, torna-se um vício.
36
O animismo gnóstico

A Gnose toma a contrapelo o cientismo materialista. Todos o s seres são cons­


cientes, significantes - ou, mais exatamente, cheios de sentido informando e infor-
mando-se. Não somente o seu “corpo” (o seu avesso visível) não p a s sa de um aspec­
to superficial para um uvo y e u r exterior a eles, como também, na verdade, eles não tôm
corpo, não são corpo. São exclusivamente anverso. Se eles tôm um “ avesso", um cor­
po, este só existe em função do outro. Eles se vêem uns aos outros e , ao ver-se, trans­
formam-se mutuamente em coisas vistas.

O animismo universal é verdadeiro, no sentido mais forte da palavra. O que exis­


te, é tão-somente espíritos individualizados, almas ou consciências, que não animam
nenhum corpo, não estão alojadas em corpos. A existência corporal nada mais ô senão
uma ilusão, um subproduto do conhecimento perceptivo.
O aspecto pueril do animismo é acidental. Ele se deve ao fato de que, no univer­
so, há muitas aglomerações que não devem ser tomadas por seres. É pueril atribuir
uma alma, uma consciência ao Mississipi transbordante, ao deserto do Arizona, ao
Atlântico, às avalanchas, às nuvens ou aos furacões.
Mas não há nada de pueril em considerar como alma consciente um animal, um
vegetal, uma espécie viva, o conjunto das espécies, a Árvore da Vida e os vínculos in­
formativos que fazem a unidade desses seres, grandes ou pequenos. Com a única
condição de que não se trate de uma simples fileira de vínculos, todos conscientes,
mas produzindo em seu conjunto efeitos cegos em lugar de um comportamento unitário.
Uma fila de pedestres ou de automóveis obedece a leis praticamente físicas, em­
bora cada pedestre ou cada motorista esteja consciente daquele que o precede.
Existe “fila", equilíbrio em cadeia, acessoriamente, mesmo nos seres vivos indi­
vidualizados e conscientes, "animados” no sentido original da palavra. A circulação do
sangue, a circulação linfática, hormonal e até mesmo nervosa, operam, assim, por en-
cadeamento, com fenômenos de amplificação intempestiva, com avalanchas ou blo­
queios, assim como ocorre com o movimento de uma multidão indisciplinada. Mesmo
fora do domínio da fisiologia, a formulação do organismo se faz parcialmente segundo
esse sistema de fileiras, segmento após segmento. Normalmente, esses equilibrios ou
desequilíbrios secundários são controlados por um informador unitário, por uma cons­
ciência dominante. Mas eles dão à palavra “corpo” um segundo sentido, mais concreto
do que o de simples “reverso" de um "anverso". O corpo de um ser vivo não é apenas
a aparência de sua alma para quem o observa de fora; seu comportamento visível não
é apenas o seu ato mental especializado; é também tudo o que nele são subindividuali-
dades governadas - porém mal governadas - , “funcionamentos controlados” - porém
mal controlados.

O homem invisível

Nesse famoso romance de ficção científica, um dos primeiros do gênero, Wells


imagina que a ingestão de substâncias apropriadas poderia fazer com que todos os te­
cidos orgânicos se tomassem transparentes, assim com o a cómea transparente do
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olho, com um índice de retração suficientemente fraco para não produzir nenhum efeito
"de vidraça”. Seu homem invisível parece não ter mais corpo aos olhos do observador.
Ele não tem mais aquela pele impermeável refletindo as ondas luminosas que o dese­
nhariam. Ele 6 uma espócie de alma pura, que fala, se expressa e age seguindo in­
tenções sensatas. (Akás, uma alma "pura” no sentido nfio-moral da palavra pois, na
verdade, o protagonista de WeNs é um ladrão, tentado pela aparente facilidade do crime
para um homem invisível, assim como o Gygós da lenda).
Hâ uma dificuldade, entretanto: tudo o que é mecanismo subordnado, ou
subst&ncia mal integrada ou fora de integração, ou mineralizada, dificilmente poderia, fo­
ra da ficção científica, tomar-se transparente - mesmo se o organismo encontrasse o
meio de garantir a alimentação da cômea transparente. O homem invisível fuma diante
de uma testemunha, e a fumaça desenha sua garganta e seus brônquios. Logo, é difícil
imaginar como sua vesícula biliar, sua bexiga e seus intestinos poderiam não ser dese­
nhados também da mesma forma.
O exemplo, portanto, parece pouco adequado para nos convencer de que o cor­
po ó simplesmente o avesso da alma. “O homem invisível- 6 palpável; e, aNás, ele é
sempre visível na verdade, através de suas subindividualidades mal governadas.
Por outro lado, é fácil imaginar uma ficção mais complexa onde o homem tornár­
sela impalpável e tão transparente às interações quanto o ô a matéria comum para os
neutrinos. Se esse homem continuasse a falar - ou antes, a “significar” suas idéias por
me» de processos menos grosseiros do que fazer vibrar sua laringe ele realmente
se pareceria com uma alma desencamada, com um “espírito" - para os espíritas, se
não para os espiritualistas. Os que estão próximos a ele ouviriam, dentro de si, como
acontece com os alucinados, uma “ voz", que atribuiriam a um ser sobrenatural.
Os campos da física, que s&o suportes de interação ou de unidade dominial, que
podem também viajar numa forma “materiar’ e que possuem uma massa, não deixam
de ser, afinal, “espíritos” desse tipo.

A transposição gnóstica da ciência

A Nova Gnose, pelo menos na sua primeira fase, na qual se inspira em Edding-
ton e em Milne, aceitando seu panpsiquismo mas rejeitando seu idealismo (“O mundo
como subproduto do nosso modo de construí-lo” ), não passa de uma transposição, de
uma fiel inversão da ciência. O cosmo é uma tapeçaria que a ciência descreve fielmen­
te, só que pelo avesso. A Gnose consiste em conhecer, além ou através dos elemen­
tos observáveis da ciência, a própria vida dos seres. E ó nisso que ela é conhecimento
propriamente dito (Gnôsis) e não uma simples preparação de conhecimento, como a
ciência.
Somos todos “gnósticos”, e não apenas “cientistas conhecedores", quando ten­
tamos conhecer bem uma pessoa íntima, procurando ir além do conhecimento de sua
pressão arterial, de sua taxa de colesterol ou, até mesmo, dos resultados de seus tes­
tes psicológicos. Seria ridículo, numa atitude de purismo positivista, nos contentarmos
com a simples leitura de instrumentos médicos ou com um mero apanhado de suas
reações.
38
Somos todos gnósticos, de um modo mais geral, quando entendemos uma men­
sagem, quando lemos uma carta muitas vezes em suas entrelinhas, quando apreen­
demos um significado através dos sinais, uma expressão através das formas estéticas.
Não se trata, nesses casos, de um conhecimento que vai além do conhecimento, o
qual exigiria dons transcendentes ou milagrosos; trata-se do conhecimento propriamen­
te dito, que assim pode ser chamado quando não se limita a uma observação anterior e,
sobretudo, quando não considera os seres observados como espécies de puros ele­
mentos observáveis, ou seja, corpos sem alma existindo apenas na condição de corpo.
O conhecimento gnóstico não é mais imaginativo do que o conhecimento científi­
co pois, na verdade, é imaginação, também - mas enganosa acreditar que uma flor
seja apenas a “sua descrição botânica", uma “descrição” que tivesse existência pró­
pria, independente e fora do âmbito das páginas de um livro de botânica. Imaginar ou
pensar a alma dos seres, recolocar em pensamento as figuras da tapeçaria no lado di­
reito, é simplesmente estender a todo o universo o que fazemos espontaneamente com
as pessoas mais íntimas.
Essa transposição não se limita à primeira fase de uma simptes inversão animan­
te, de uma tradução literal de estofo material em estofo espiritual {mind stuff). Porém, a
reconhecida necessidade dessa transposição, a necessidade de se corrigir a aparên­
cia pela transparência, serve de fio condutor para resolver enigmas insolúveis para o
positivismo científico.
Os Gnósticos não se detêm nessas generalidades. Eles elaboraram a tese mais
tecnicamente, partindo das concepções de Milne e utilizando o processo dos antipara­
doxos. Tentaremos a seguir, dar alguma idéia dessas pesquisas.
Capítulo II

COSMOLOGIA DOS UAQUI” E


COSMOLOGIA DOS “EUS”

"Pensa-se no universo*'

Pode-se dizer. “ Pensa-se no universo” , na forma impessoal, exatamente no sen­


tido em que o boletim meteorológico diz: “Chove na costa atlántica” . Pensar “/f thinks" é
tomado no mais ampio sentido de “ aquilo que é experimentado do modo mais Imediato”.
Poderíamos dizer, também: MHá sofrimento ou prazer no universo" (“/( enjoys"), ou “es­
pera”, ou “tristeza".
Este antiparadoxo Ô, evidentemente, mais firme do que urna rocha: “Pensa-se no
universo" já que “Eu penso” . N&o poderíamos dizer: “Não existe pensamento em ne­
nhum lugar do universo” , sem estarmos em plena contradição com o contra-exemplo
que o “Eu" constitui.
Além disso, não se esclarece se “se pensa" muito, pouco, ou apenas aqui e não
em outro lugar. Dizer que “ chove na costa atlântica" não significa que chove em todo
lugar, ou que toda a meteorologia é chuva. Tampouco se esclarece se “está-se pen­
sando" (“It is thinkingn) há pouco tempo, há muito tempo ou desde sempre. E, menos
aínda, se trata de querer saber, por enquanto, de que forma o “ Pensa-se" começa ou
termina dentro da “meteorologia" universal.

Exercfcio /. - Durante urna note estrelada, passar a noite sobre a areia de uma praia, depois de
ter lido alguma coisa sobre as nebulosas espirais, os quasares, asestólas de ndutrons, etc. Tentar re­
presentar-se os braços da Galáxla, o seu centro (em direção a Sagitário). Procurar localizar, se se tem
bons olhos, a nebulosa de Andrómeda, nossa vizinha - o que ajuda a ver a Via Láctea como que de fo­
ra. Sobretudo, tentar ao mesmo tempo ver a si próprio num dos braçoe da Galáxia, e Imaginar-se em
movimento, arrastado pelo Sol a duzentos e cinqüenta quilómetros por segundo em torno do centro
galáctico. Pensar, enquanto Isso, nas teorias fbicas sobre a formação das estelas, sobre o “caldo pri­
mitivo*' da vida sobre a Tenra, sobre a formação dos ácidos aminados e das molóculas auto-reproduto-
ras.

Em seguida, procurar novamente tomar consdônda do “ Pensa-se no universo” , constituído pe­


las nossas próprias cogitações. O antiparadoxo nos revelará então sua pedra de toque. Há algo prova­
velmente errado nas teorias puramente ffelcas acerca do Universo. Recomeçar a operação (após um
longo momento em que se pensará em qualquer outra coisa). Mas não fazer Isso uma terceira vez na
mesma noite.

40
Exercício II. - Imaginar o Universo ainda próximo da explosão inicial, ou antes da lormaçáo das
estrelas, dos planetas e das moléculas complexas. Ou, então, imaginar a Terra ainda em seu estado ds
aglomerado de poeiras cósmicas e continuando a receber chuvas de meteoritos (o detalhe não importa),
e, então, dizer para si mesmo: "Haverá pensamento no Universo”.
Exercício III. - Imaginar a Tetra tendo voltado a ser inóspita e estéril, ou até mesmo o Universo
em “ degradação" (por conversão da matéria em irradiação, equalizaçâo térmica, esgotamento do com­
bustível nuclear, etc.), e, então, dizer a si mesmo: “ Houve pensamento no Universo."

“ Eu” só posso "pensar” “ aqui-e-agora”

Todo pensamento - ou, em outros termos, toda presença de si para si mesma -


é um “aqui-e-agora". “ Meu pensamento" e “aqui-e-agora" são convertíveis. Não se po­
de pensar alhures, ou outrora, ou amanhã. Pensa-se agora-e-aqui. Se existe pensa­
mento, existe um “aqui e agora”. E, de modo recíproco, se há um “ aqui e agora”, há
pensamento. Um sinal de que essa distinção entre ambos é artificial é que ela realmen­
te nunca pode ser feita nem “realizada” . Quando estou distraído, costumo dizer: “ Eu
não estava aqui.” Se estou sonhando, eu me vejo “ontem”, “no meu quarto de criança’’.
Se acordo de um desmaio, o “eu” não sabe onde está, nem sabe se o sofrimento pre­
sente é seu. Mas o “sofrimento presente" não desaparece como, na ficção científica, o
condutor de uma máquina de explorar o tempo que aborda o tempo onde “ele" não está.
Nem todo “pensamento diz sempre 'eu' Dizer “eu" supõe difíceis construções
psicológicas, sociais, lingüísticas. O “eu” provém, acessoriamente, da autopresença,
do âmbito presente aqui-e-agora. A “presença" faz o "eu” presente. Não é o “eu” que
faz a “presença".

Os seres (distintos de mim e fora do “ aqui” )

Sem mim, eles são pensamento em seu aqui-e-agora.


Eles “dizem”, assim como eu: “Eu-aqui-e-agora".
Todo ser “em outro lugar” (para mim, que o estou observando em seu avesso, is­
to é, recebendo as ondas luminosas que ele reflete), é um “aqui” em seu lado direito.
A idéia de um objeto puro, de uma coisa, de um corpo, é contraditória. Tudo o que
subsiste, tudo o que “dá um jeito de subsistir" sem que eu tenha de me preocupar com
isso, deve preocupar-se por si mesmo. E isso ô evidente com relação aos outros seres
humanos. Os índios da América se mantiveram muito bem durante muito tempo, sem
os europeus - e vice-versa. E também as espécies animais e vegetais da América. E
também, por uma simples razão de continuidade, os vírus, os micróbios, as moléculas,
os aminados ou não, os átomos e as partículas. Há certos seres de que devo cuidar,
como, por exemplo, meus filhos quando são pequenos, sendo que eles, por outro lado,
crescem por si mesmos. Meus objetos e aparelhos, também sou forçado a conservá-
los em bom estado ou consertá-los. Isto não quer dizer que, uma vez abandonados a si
mesmos, eles deixariam de existir ou de agir como um “eu-aqui-e-agora” . Só que aca­
bariam cometendo totíceâ (peto menos aos meus olhos). As crianças poderiam ferir-se.
Os aparelhos seguiriam as tendências dos conjuntos de moléculas que eles são, e pa-
rariam de funcionar ou explodiriam. O fogo da lareira, não sendo controlado, provocaria
um incêndio.

41
Contudo, as moléculas e os átomos sabem o que fazem melhor do que os físi­
cos. Pois, o que os físicos ainda não sabem sobre os átomos, quem mais poderia
sabô-k) a não ser os próprios átomos?
O “ corpo", o “ Ele", o “Aquilo", o “Vocô” , o “ Movimento” , o “Alhures”, são exem­
plos de lusõeç recíprocas entre consciôncias-eu, em repouso, “aqui”. Os seres nunca
passam de uma consciència-eu em repouso aqui, mas eies só se vêem uns aos outros
como um corpo, lá, um ele ou um você em movimento. Acredito vê-lo como corpo, si­
tuado ali, e em movimento, mas ele é Eu, consciência, aqui, imóvel, e ele me vê como
corpo, aqui (que, para ele, está “alhures"), em movimento, quando na verdade sei per­
feitamente que eu estou aqui, consciente, imóvel. As relações entre os pronomes, as­
sim como entre o Aqui e o Alhures, como entre os elementos móveis (e, podemos
acrescentar, como entre as direções) só podem ser reais para uma terceira consciên­
cia envolvente, para um domínio supra-ordenado, que pode continuar “dizendo" eu-
aqui-e-agora, imóvel, pois os movimentos que vê dos seres envoltos não a impedem de
estar aqui-imóvel, assim como a visão dos veículos em movimento que eu observo da
minha janela não me impede de estar aqui e imóvel.

Há uma relatividade consciência-corpo, como há uma relatividade imobilidade-


movimento. Segundo Minkowski-Einstein, todo movimento retilfneo uniforme, com velo­
cidade inferior a C (velocidade da luz), é sempre suscetível de ser trazido de volta para
uma posição de repouso (para o eixo t do tempo). Os demais sistemas é que se mo­
vem, não o meu. Uma forma de ilustração disso, não muito exata, mas mais ou menos
correta em suas grandes linhas, para se ter uma visão da situação, é desenhar sobre
uma borracha o esquema do espaço-tempo. A linha / representa uma velocidade nula e
um deslocamento unicamente no tempo. As velocidades não nulas inferiores a C são
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representadas pelas linhas t', traçadas entre t e C. Mas, toda vez que um observa­
dor l, que se considera imóvel, atribui uma velocidade a um observador II, algum demô­
nio escondido estica a borracha num sentido perpendicular a C, e faz coincidir o obser­
vador II com o eixo t, de modo que, agora, é o observador I que parece ter uma veloci­
dade não nula.
Dessa forma também, são sempre os outros que são “corpos"; eu não sou cor­
po. E o que chamo de meu corpo também é apenas uma construção secundária, feita
com a ajuda dos espelhos, e também dos meus domínios subordinados e tomados ob­
jetos. Eu sou “presença aqui-e-agora", domínio de consciência, e virtualmente "Eu".
Não obstante, cada ser tem tantos motivos quanto eu tenho para dizer “Eu”, reduzin­
do-me à condição de corpo observado. O esquema “eu-aqui” e “objeto-alhures”, que
podemos moldar sobre o de Minkowski, constitui na verdade a sua origem, è por ser­
mos um “eu", uma presença-eu, que cada um de nós pode considerar-se como estan­
do em repouso aqui, sendo os outros, para nós, corpo em movimento. Ao esticar a bor­
racha, o demônio escondido coloca o outro no lugar de “eu", e eu me torno, ou antes,
“eu" se toma outro para o outro que diz “eu".
Cada “eu" pode afirmar que sempre existiu (sobre a linha t), que se encontra no
lugar mesmo da criação do universo, do qual ele é o centro eterno, que ele é Espírito, e
que ele é o Espírito. E é por isso que ele pode, como físico, declarar seu sistema de re­
ferência imóvel no espaço. É verdade que ele não pode parar o tempo. Mas o caso é
que ele faz o tempo, enquanto participa de consciências subordinadas ou supra-orde-
nadas, e não pode deixar de continuar a fazê-lo enquanto viver.
O mundo espaço-temporal é feito do interior, a exemplo da concha do caracol
que, no entanto, vive nela. É constituído por todos os “eu” que nele atuam.

Os Gnósticos, como Milne, oonsideram a teoria da relatividade como uma teoria das interações
através de um intercâmbio de sinais entre “sujeitos”, e como base de uma cosmotogia monadotógica -
cosmología que, por sua vez, serve de base à tfsica.
O Universo espacial ô um sistema de aparências observadas de uma infinidade de pontos de
vista (por observadores-sujeitos). Milne dissocia (até certo ponto) o aqui e o agora, ao considerar que,
para cada observador, a passagem do tempo: agora... agora... agora... é um dado imediato, enquanto
que o espaço métrico é uma consfrução intelectual que possibilita uma comunicação sistematizada entre
observadores.
A passagem do tempo, segundo Milne, traz consigo para cada “ eu” uma ordem irreversível, e
até mesmo uma métrica (ou melhor, uma contagem) elementar. Agora... agora... agora... ordena-se em
Depois... depois... depois... Ao paaso que Aqui... aqui... aqui... não me possibilita saberse estou me
deslocando e com que velocidade eu me desloco no espaço. Pois não se deve oonfundir "o movimento"
da física com a locomoção voluntária, na qual tenho a impressão (sensbel) de mudar de "aqui” . Parece,
portanto, mais indicado começar pela medição do tempo. Um únioo "eu” já tem o seu próprio relógio,
art)Variamente graduado, mas ordenado natoralmente. Dois, e depois vários “eus” podem, então, defi­
nir um tempo, uniforme, cada um lendo sobre o relógio do outro, por sinais luminosos. O comprimento
só pode ser definido de acordo com a distância (medida pela ida e volta do sinal). Milne retoma a geo­
metria hiperbólica de Lorentz,1 mas sem o realismo einsteiniano do espaço.2 Ele considera ter feito uma

1. Lorentz (Hendrik, Antoon) (1653-1926), físico neerlandés, principal autor da teoria eletrônica da
matéria, e cujos trabalhos permitiram a Einstein elaborar sua teoria da relatividade. {Nota de 1977.)
2. Jacques MERLEAU-PONTY: Cosmología du XXe. siècie, p. 442. Esta obra trata do tema cosmo­
logía melhor do que tudo o que tol publicado na América.

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análise melhor da passayem dos tempos particulares para o tempo e o espaço públicos.
Os Gnósticos conservaram o princípio da tese de Milne, que sustenta, em oposição aos concei­
tos “ positivistas” , que o “observador” ó, de talo, essencialmente um “ego", e que a palavra “observa­
dor” nSo é uma simples abreviatura para designar um relógio registrador que, mecanicamente, perfu­
rasse um cartão quando da passagem de uma onda luminosa ou de uma partícula.
Os ffeicos alertam os comentaristas contra a idéia de que o “ observador” , munido de réguas, de
relógios e que numera os acontecimentos de que fala a teoria ffeica, seja um sujeito antropomdrflco. Pa­
ra o físico, eleéum aparelho passivo que registra elementos observáveis, com uma régua e um relògto
"perfurador" e que não tem a mínima necessidade de ser consciente. Não é um sujeito que pudesse
modificar seu objeto.
A advertência dos físicos 6 totalmente justificada. Mas só um equívoco grosseiro nos levaria a
concluir que: “ Logo, não há nada a ser procurado além da ffeica dos elementos observáveis e dos “ ob-
servadores-aparelhos” , e não cabe considerar o mundo dos “ Eus” ou dos “ aqui-e-agora" como domí­
nios conscientes.” O fato de que a descrição científica do avesso da tapeçaria seja coerente, e de que
náo se deve fazer intervir intempestivamente interações do lado direito sobre o lado avesso, não é moti­
vo pare desistir de olhar a tapeçaria pelo seu lado direito.

O romance por cartas

Um romancista, usando uma técnica fora de moda, descreve suas personagens


unicamente através das cartas que, supostamente, elas trocam entre si - como por
exemplo em La Nouvette Hétoíse. Ele o faz seguindo sua inspiração, criando suas per­
sonagens assim como suas relações e interações. Um biógrafo ou um historiador que
quisesse descrever a vida de personagens reais pode escrever-lhes pedindo infor­
mações, ou poderá descobrir cartas que enviaram no passado. Evidentemente, o uni­
verso assemelha-se a um universo de vidas conjugadas, e não ao universo fabricado
por um autor de romance por cartas ou reconstituído por um biógrafo.

Os três tipos de subsistência no tempo

Se considerarmos os seres reais - em oposição aos aglomerados, aos compos­


tos artificiais ou aos simples "efeitos” tais como um eclipse, um horizonte ou um arco-
íris, que dependem não só da posição do observador, mas do fato de existir obser­
vação há três tipos de conservação ao longo do tempo: a) a de um fragmento de
matéria (uma pedra, um átomo democrítico); b) a de um sistema energético, ou de de­
terminada ação (uma onda no mar, uma onda energética); c) e, finalmente, a de uma
forma significante, ou dotada de sentido e subsistindo pelo seu sentido (uma palavra
num idioma, um órgão num organismo, o próprio organismo).
A física passou do tipo "manutenção da matéria" para o tipo “manutenção da
energia” (ou da ação). Ou melhor, fundiu numa só essas duas "manutenções”: onda
luminosa e fóton, partícula e ondícula, matéria e energia ondulatóría, ou energia ondu-
latória que é matéria. A terceira espécie de "manutenção" temporal ê a mais misteriosa,
mas é, também, certamente a mais fundamental. Um ser vivo não é nem fragmento de
matéria nem energia ondulatóría; não se assemelha nem a um aparelho material nem a
uma onda ou a uma chama. Enquanto vive, ele muda de matéria e muda de forma de
acordo com suas ações “significantes” (ou dotadas de sentido). Esteja ele no estado
de germe, de embrião ou de adulto, ele impõe formas significantes às suas matérias ou
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às suas energias. Seus órgãos e seus comportamentos assemelham-se às palavras
de um idioma ou a frases típicas, dentro de uma estrutura ou de uma evolução lingüísti­
ca. Eles têm uma etimologia e uma vida semântica.
Seria evidentemente um absurdo considerar que uma palavra, em determinado
idioma, só se mantém graças à subsistência material da tinta num dicionário, ou graças
à subsistência energética das ondas aéreas através das quais a palavra é pronunciada
pelos milhões de seres falantes. Obviamente, a subsistência da palavra é de outra or­
dem. Ela depende do sentido que encerra em si e da vontade dos seres falantes de se
fazerem entender. A palavra não se desgasta como uma pedra ou como uma onda que
dissipa sua energia. E, quando acontece de ela se consumir "energeticamente” na or­
dem fonética, como a palavra “é” - em francês antigo, derivada do latim apis (abelha)
ela é logo substituída por uma palavra mais consistente (abelha, mosca do mel, etc.).
O mesmo ocorre com os órgãos. Pois, a vida das palavras ou, de modo geral, a
consistência estrutural e histórica de uma linguagem, é apenas uma manifestação da
consistência semântica (ou dotada de sentido) dos organismos e dos órgãos.
Meus olhos e minhas mãos têm uma consistência semântica bem distinta da sua
oonsistência material. Meus olhos e minhas mãos são “sólidos", material e energética­
mente falando, como máquinas fotográficas ou como pinças de manipulação iguais às
que existem hoje. Mas eles são também sólidos e consistentes como órgãos significan­
tes, primeiro para mim, depois para o anatomista que estuda a sua estrutura, a mesma
para todos os homens da mesma raça, e ainda para o evolucionista que estuda sua
origem simiesca. Após a minha morte, meus olhos e minhas mãos converter-se-ão em
pó, mas a mão e o olho humanos sobreviverão na minha linhagem e em todas as linha­
gens humanas.
As mãos e os olhos materiais não passaram, então, de “manifestações" indivi­
duais da mão e do olho humanos, em sua subsistência udo terceiro gênero". As conti­
nuidades semânticas nfio são interpretâveis através das continuidades materiais ou
energéticas. O contrário é que é verdadeiro.
Só há “existência" quando da conjunção de um elemento “semântico" com um
campo formado pelo aqui-e-agora, quando da ação de um significado que se materiali­
za, formando assim a unidade de um domínio espaço-temporal.

A roda de crianças

Crianças se dão a mão para formar uma "serpente” . A roda serpentina ondula,
rompe-se, volta a formar-se. Ela não é um ser, mas as crianças são seres, e sua “ idéia
de jogo" se expande sobre a roda que formam. Elas se queixam de ter se machucado
ao puxar com muita força. Se a roda de crianças não é um ser, o Mississipi ou o Rio
Amazonas o são menos ainda. Por isso, eles são cegos. Mas eles subsistem pela
subsistência, fundamentalmente semântica, das moléculas de água que “se dão
a mão".

A paisagem

Em si-mesma, uma paisagem é ainda menos um ser do que a roda de crianças.


Mas os vegetais, o solo, a água formam, por interações, unidades fugidias. Talvez seja
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um erro ver ali a presença de deuses, como acontece ñas mitologías ou nos contos
fantásticos, como acontecia com os gregos, que ali viam ninfas, ou com o heróide Al-
gernon Blackwood, que vía nos salgueiros agitados pelo vento deuses irritados e
ameaçadores. Mas o tato é que as árvores e as ervas são seres que existem, agem,
“ pensam” a sua forma e se comportam conforme as idéias que lhes vêem.

A Luae os cosmonautas

A Lua é um “astro morto", dizia-se antigamente. “Claro que nfio é” - é o que se


diz hoje pois existe ali uma atividade sísmica, magnética, etc. Mas é preciso, sobre­
tudo, que subsistam ativamente todas as suas moléculas constituintes. Senão, como
poderia ela “ aguardar" os cosmonautas? - como os cosmonautas poderiam encontrá-
la, pousar nela, estudô-la? Não se estuda o inexistente, o inconsistente, o insubsisten­
te. De um certo modo, a Lua é, como a Terra, parecida com uma roda de crianças: não
ê um ser vivo, mas suas moléculas “se dão a mão".

“ Os marcianos nos aguardam”

Que marcianos? As células bacterianas? Mais provavelmente, são as moléculas


que compõem o planeta que nos aguardam, que sabem perfeitamente o que fazem co­
mo moléculas. Se elas não estão nos aguardando, subsistindo, por que tentar ir para
Marte?

A Gnose e a doutrina budista do “ Eu”

Estou mergulhado na contemplação de uma paisagem montanhosa, aqui, da mi­


nha janela. Aquela árvore, que eu mal vejo na periferia do meu campo visual, nem por
isso está menos “aqui” do que essa outra árvore que vejo distintamente “no centro” .
Meu aqui visual é uma superfície, não um ponto. Minhas outras sensações também
estão aqui, no meu domínio. A porção de espaço que ocupo (ou que faço) é um domi­
nio-sujeto, uma superflcie-sujeito.
É claro que eu não tenho, ainda, de olhar meu campo visual como se ele fosse
uma superficie-objeto. Ele é presença absoluta aqui-e-agora, e da sua presença é que
emerge o meu “Eu”. “Eu estou olhando" é uma expressão cômoda, mas que inverte a
ordem real. A ordem real seria, antes: campo visual -> existência subjetiva -* cons­
ciência informada -» eu (exceto se “eu” estiver distraído) -*• impressão (falsa) de que
“eu estou dirigindo o meu olhar para...” .
Mecanicamente, “eu” (ou melhor, o meu organismo) efetuo certas manobras para
olhar. “ Eu” abro os meus olhos, “eu" dirijo adequadamente os meus globos oculares,
como quando quero fotografar algo. Mas essa mecânica não explica a visão. Ela não
explica que um domínio de espaço presente seja uma forma absoluta, cujos “detalhes”
não são peças colocadas uma ao lado da outra, ligadas por suas extremidades, mas
constituem todos eles um ‘'aqui", embora distintos. Não é o “eu" que liga esses deta­
lhes (esta e aquela árvore); é a unidade imediata das árvores que vejo e que existem
aqui como floresta que vejo, e que possibilita, depois, ao domínio dizer "eu".
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Podemos notar a semelhança entre essa tese e a doutrina budista sobre a não-
substancialidade do “ Eu". O domínio visual (e a consciência em geral) é meu domínio,
porque está aqui. Mas ele não está aqui, porque então seria visto por mim, pois eu seria
um aqui abstrato e “a priori".
Nesse sentido, “ Eu” não existe. É a presença absoluta de um domínio aqui e
agora que me faz existir. Sem domínio presente, “eu” nada sou. Eu “sou existido” pela
presença absoluta do campo de aqui-e-agora.
Uma imagem mental, uma forma absoluta, no campo visual, não é uma imagem
como objeto físico. Uma espiral ou uma suástica, pensada, não pode ser vista num es­
pelho ou por transparência, como se estivesse desenhada sobre uma folha delgada. Se
costumo imaginar uma espiral girando num sentido, ou costumo simplesmente olhar pa­
ra o meu relógio, não será tão fácil imaginar uma espiral girando em sentido contrário,
ou ler as horas no mostrador do meu relógio visto num espelho. No caso de uma ima­
gem mental, o sentido nunca é indiferente, nunca é indiferente ao fato de ela ser vista
ou não num espelho.

Em oposição, pode-se dizer então que a descoberta da não-conservaçáo da paridade, da não-


indiferença ao sentido e à “ operação espelho” para determinadas partículas, ó a primeira brecha feita
pela física experimental no mundo supostamente objetivo da cidncia; ó a primeira comprovação direta
de que pelo menos algumas partículas não são objetos que podem ser contornados ou olhados como se
estivessem desenhados sobre um papel transparente, mas são, antes, semelhantes a uma superflcie-
sujeito, a um campo visual subjetivo que não pode ser contornado para ser visto “ do outro lado”.

Os Gnósticos consideram que o “lado direito", subjetivo, do cérebro, isto é, o


campo de consciência, longe de ser uma anomalia no universo, é revelador do modo
fundamental das realidades. A consciência não pode ser composta ou explicada, em
seu caráter de presença absoluta.

Materialismo, estrutural Ismo, matilciallsmo

Imaginemos as peças de um quebra-cabeça espalhadas fora de ordem sobre


uma mesa, em um quarto inabitado. Essas peças irão permanecer fora de ordem inde­
finidamente. Uma criança chega e brinca, tentando colocá-las em ordem. Neste caso, o
“espírito" (a consciência visual, mais o conhecimento do jogo) ordena a “matéria" com
a sua intervenção. O fato é, ao mesmo tempo, esclarecedor e enganador. A realidade,
fundamentalmente, assemelha-se antes ao espírito (consciência visual mais as leis e
normas de formação) do que à matéria, primeiro desordenada, depois “ arrumada”. As
peças materiais de um quebra-cabeça não se ordenam por si mesmas (pois elas são
“macroscópicas" e, além disso, artificiais). Mas a “matéria" (na microffsica) ordena-se
por si-mesma, dentro de um espaço e de um tempo “matriciais”, isto é, análogos a um
esquema de teste psicológico, por compleição ou disposição conforme um sentido. Os
átomos constituem-se com o um quebra-cabeça que se constrói a si mesmo a partir das
partículas, e conforme leis de compatibilidade ou de exclusão (princípio de Pauli).3 As

a Pauli (WoHgang) (1900-1958), físico suíço de origem austríaca, criador, junto com Helsenberg, da
teoria quârrtlca doe campos; a ete se deve o famoso princípio de exclusão que leva seu nome, e do qual
derivam a Interpretação das valôndas e a impenetrabilidade da matéria (Nota de 1977.)

47
mofeeulas se constituem a partir dos átomos, as moléculas cristalizam, etc., como se
tossem ao mesmo tempo as peças do quebra-cabeça e as imagens dessas peças den­
tro do cam po visual da criança que as ordena.
A ordenação do quebra-cabeça pela criança, essa façanha cerebral, é, portanto,
apesar d e sua complexidade, o “modeto" de ordenação dos seres dentro do espaço-
tempo. É a inércia tola das peças do quebra-cabeça que engana, e que representa um
caso excepcional, requerendo a chegada excepcional de uma consciência distinta - a
criança— para ser recolocado dentro da norma de toda realidade. Normalmente, toda
matéria já é espírito, no sentido em que “vê” a si própria e ela mesma se organiza em
seu cam po de visão.
A Gnose, que é antimaterialista, não é exatamente estruturalista. Ela é, antes,
“m atriciaista". Uma matriz é um quadro de dados que podem ser completados ou dis­
postos conforme um sentido. As estruturas (no sentido dos lingüistas) são um caso
particular de matriz, com regras de formação em parte naturais, em parte convencio­
nais. Isla estrutura de uma frase, não hâ princípios de exclusão ou de diferenciação que
sejam tão rigorosos, tão “não-convencionais" quanto na organização de um conjunto de
átomos ou de um campo eletromagnético.

Todos os seres são Igualmente inteligentes

O caráter matricial de todo campo de consciência - superfície absoluta que “vê”


a si própria - implica que toda consciência é “inteligente” , ó capaz de completar inteli­
gentemente seus próprios dados. Desde que todo ser é “consciência”, logo, todo ser é
inteligente, e todos os seres - já que essa propriedade é essencial - são igualmente in­
teligentes. Eles só diferem entre si pelo conteúdo de aplicação, pelos dados do proble­
ma de formação que eles têm de resolver. Conteúdo e dados ligados à sua própria
história, ao “já formado”, ao “já encarnado”. Um ser primitivo é tão inteligente quanto um
ser civilizado; um ser atrasado, subdesenvolvido (cultural ou biologicamente) 6 tão inte­
ligente quanto um bem-dotado. Somente o conteúdo de aplicação da mente é que dife­
re. Um cão é tão inteligente quanto um homem; um infusório é tão inteligente quanto um
cão; uma molécula é tão inteligente quanto um infusório. O problema é que, na maioria
das vezes, entendemos (we toolishiy mean) por “inteligente” , não um ser que sabe de
suas próprias coisas, mas um ser supostamente capaz de entender as nossas, e cujos
assuntos nós mesmos seriamos capazes de entender.
Sabemos que é ilusório tentar utilizar, para avaliar a inteligência de crianças de
origens e culturas diferentes, testes elaborados por psicólogos que só tinham em vista
testar grupos em sua própria cultura. A cultura, os hábitos adquiridos interferem no fator
propriamente intelectual (muito difícil de se isolar e dosar). Testes imaginados por
psicólogos ingleses desfavorecem os latinos ou os eslavos, e vice-versa. Os psicólo­
gos estão tentando aperfeiçoar testes chamados de culture free. Mas isso é quase im­
possível.
Mais impossível ainda seria imaginar testes neutros entre as culturas biológicas
produzidas pela história e os hábitos das espécies. Um cão ficaria embaraçado diante
de um teste com papel e lápis; um infusório, mais ainda. Mas, também o homem ficaria
embaraçado se tivesse de seguir com inteligência uma pista olfativa, ou improvisar-se
um estômago, ou pés, à maneira de um infusório. Seria um tanto difícil conceber uma
48
comissão mista de peritos humanos, caninos e unicelulares, para aperfeiçoar testes de
inteligência culture free ou species íree.
A tese segundo a qual “todos os seres são igualmente inteligentes” nos permite
compreender que a vida - e, até mesmo, a “vida” das individualidades chamadas físi­
cas - manifesta em todos os níveis a mesma fantástica engenhosidade. Existe a mes­
ma engenhosidade na organização do formigueiro, da colméia, na mútua ordenação das
células que formam o coração ou o olho, na disposição das sinalizações nervosas ou
hormonais entre células ou entre indivíduos, no vôo do morcego ou no nado do golfinho,
nas técnicas químicas ou mecânicas da vida mais elementar, e nas técnicas humanas
correspondentes. A unidade de engenhosidade de todos esses desempenhos hete­
rogêneos, manifesta a unidade da consciência-inteligência. Arquimedes era tão inteli­
gente quanto Gauss, dentro do contexto da ciência do seu tempo. Do mesmo modo, um
infusório é tão inteligente quanto um cão de caça - dentro do seu contexto próprio.

As inteligências extra-humanas não são vagos psiquismos

É de se perguntar qual seria o processo tipográfico ou o rufar de tambores capaz


de salientar aqui, suficientemente, que a tese gnóstica sobre a universalidade da inte­
ligência deve ser tomada ao pó da letra, e que ela se opõe ao conceito radicalmente fal­
so, tão difundido entre os panpsiquistas, os pseudo-espiritualistas e os pseudognósti-
cos, de um psiquismo inferior, vago, debilitado, envanescente, à medida que nos afas­
tamos da inteligência humana e chegamos às formas inferiores de vida. Não há ne­
nhum motivo para considerar a consciência inteligente de um infusório, de um vegetal,
de uma macromolécula mais vaga, mais confusa do que a inteligência de um especia­
lista envolvido num problema técnico, ou de um escritor às voltas com as dificuldades
da obra que está escrevendo.
Antes, seria o contrário. O infusório ou a molécula trabalha com base nos dados
de suas próprias estruturas moleculares ou atômicas, com base nas partes presentes
de seu campo de autovisão. "Ele" (esse campo de autovisão em sua unidade) movi­
menta esses dados de modo inteligente, de acordo com certas regras ou necessidades
“bem definidas”. Ao passo que, muitas vezes, o técnico humano não tem diante dele
um problema bem colocado, e acaba atrapalhando-se e sendo induzido em erro devido
a esquemas cerebrais falhos. A consciência humana cerebral sobrepõe-se à consciên­
cia orgânica primária. Ela muitas vezes trabalha com “modelos” imperfeitos. Embora
seja precisa em sua qualidade de consciência, ela trabalha na imprecisão. Ao passo
que a consciência orgânica ou química, limitada em seu campo de aplicação, não é en­
ganada por modelos interpostos, por “bases” mal-construídas, e consegue resolver
seus problemas com uma precisão inacessível ao técnico humano.
O biólogo procura colocar-se em pensamento no lugar de uma proteína globular,
de uma molécula de D.N.A., da “dupla hélice” .4 O físico tenta formar uma imagem e

4. Segundo o famoso modelo de Crick e Watson, a molécula de DNA é composta de duas cadeias
de nucleótktes enrolando-se em hélice em volta de um eixo comum e paralelas uma à outra. (Lembra­
mos que ONA ¿ a abreviatura de ácido desoximbonucleico, constituinte do núcleo celular e dos cromos­
somos.)
CL A Dupla Hélice de James D. Watson (prflmlo Nobel de Medicina), traduzido do Inglôs, Laffont, 1968,
coleção “Science nouveile” .
49
calcular os n íve is energéticos de um átomo. Mas, evidentemente, não consegue isso
de modo perfeito. A molécula sabe claramente o que faz, muito mais do que ele pode
imaginar.
Dizia-se, brincando, que o físico era uma invenção do átomo que queria saber,
através do fís ic o , qual era a sua estrutura. Esta é uma idéia engraçada, e obviamente
errada O átomo sabe o que faz, e o sabia antes e muito melhor do que Niels Bohr,6 as­
sim como o coração de Harvey6 sabia o que fazia muito melhor do que o próprio Har-
vey poderia im aginar em sua consciência cerebral E, tanto Crick como Watson não te­
riam existido s e a "dupla hélice" não tivesse presidido a reprodução de seus genes
muito antes que eles chegassem a estabelecer o seu esquema.
0 vago ê “ vertical”, a precisão é “ horizontal". Além disso, a consciência cerebral
sobreposta à consciência orgânica, como um computador numa empresa, é tributária
de internações nfio só imperfeitas como deturpadas e, muitas vezes, trapaceadas. Ela
sofre impulsos disfarçados. Ao passo que o animal obedece a seus impulsos instinti­
vos, sem entender mas, também, sem deturpar nada, e o organismo sem cérebro é o
mais capacitado para tratar os problemas sem se distrair. O caráter “vago" (ou melhor,
temático) de uma consciência aparece, de modo mais geral, nas suas relações oom os
domínios de consciência subjacentes ou suprajacentes. Cada domínio de consciência,
dentro do seu respectivo nível, é lúcido. A "missão recebida” por ele é que pode ser,
ore precisa (quando o instinto traz sua própria técnica), ora apenas temática.
Encontramos um exemplo típico disso na sexualidade. Os impulsos da fibido são
"vagos" para a consciência cerebral. Mas a consciência orgânica, que preside à for­
mação dos gametas através de um rigoroso processo de fabricação, que instala, na
embriogênese e , depois, na puberdade, a complicada aparelhagem dos órgãos, ô tão
precisa e detalhada quanto uma empresa técnica onde tudo é calculado com lucidez. A
consciência cerebral, que sofre os surdos impulsos da ibido, volta a ser, em seu pró­
prio campo, em seu próprio nível, lúcida e precisa para executá-la. Um Don Juan arqui­
teta planos e artimanhas, ou desenvolve uma verdadeira estratégia (como o protagonis­
tadas Liaisons dangereuses).
Cada domínio, em seu respectivo nível, é capaz de atuar de modo preciso (tanto
no nível inferior como no superior), é a passagem “vertical” de um nível para outro
(neste caso, a dos genes para a embriogênese, e da embriogênese para o comporta­
mento) que ocorre através de um impulso ou missão. Essa passagem parece ser um
salto difícil, uma semi-ruptura de causalidade, compensada por sinais evocadores, es­
timuladores, por chamadas em direção a um potencial, por determinações orientadoras
sem determinismo, por participações ou possessões mnêmicas e por pressentimentos
ou chamadas.
Em cada nível, o domínio consciente trabalha inteligentemente sobre os dados
matriciais. De um nível para outro, os impulsos são, sem dúvida, significativos, expres-

5. Bohr (Nleb, Henrlk, David), nasddo em 1885 na Dinamarca; prflmlo Nobel de física nuclear
também dedtoou-se â mecânica ondulatoria e quântica. (Nota de 1977.)
6. Harvey (William) (1578-1657), módico inglés, descobriu a drculação sangüínea e fez também
pesquisas essenciais sobre a geração: ele foi o primeiro a estabelecer o axioma omne vivum ex ovo, e o
demonstrou afravés de experiências. (Nota de 1977.}
50
sivos e, se quisermos, até “falantes", mas, gramaticalmente, são vazios, como essas
frases cheias de pronomes e de palavras que podem servir para qualquer situação:
“Alguma coisa será feita por mim, logo nesse sentido...” .
O vago "vertical", entre domínios de consciência horizontalmente lúcidos é, para
os Gnósticos, característico de todo o universo. O universo é como um prédio de mui­
tos andares, onde somente os locatários do mesmo andar chegam a se conhecer bem,
sendo que mal se conhecem de um andar para outro. Com a diferença deque, no uni­
verso, a situação se complica: há locatários gigantes que furam os tetos, ocupam vá­
rios andares ao mesmo tempo e, em conseqüência, conhecem mal a si próprios e só
se comunicam com os outros no nível de cada andar. Um diálogo entre namorados tem
pouca consciência das técnicas dos gametas machos e fêmeas - e vice-versa. E tem
pouca consciência, também, do que deseja a espécie no andar superior. Um homem
adulto se comunica muito mal com a espécie humana, com a Árvore da Vida, com a
Consciência Cósmica, com Deus. Ele tende a considerar ilusórios os andares superio­
res, dos quais, no entanto, recebe missões - assim como recebe dos andares inferio­
res impulsos, que ele só conhece através das pesquisas científicas.

Os Gnósticos vêem nisso o equivalente dos “Abismos" dificilmente transponíveis


de que falava a antiga Gnose. É o Deus supremo, a Consciência cósmica sobretudo,
que conhecemos mal - talvez por uma precaução dessa mesma Consciência, compla­
cente e sem malícia, que, como autoridade discreta, não se mostra, para deixar-nos al­
guma margem de autonomia, sem perturbar-nos com seus problemas.
A inteligência humana, em termos de desempenho, é muito inferior à inteligência
orgânica primária, principalmente quando aplicada à organização social, porque é movi­
da pela paixão e, sobretudo, porque é mal-informada, iludida por modelos simplistas a
partir dos quais raciocina corretamente, sobre dados falsos.

Diante de um problema técnico limitado e preciso, o homem tem um desempenho


quase tão bom quanto o organismo. A conquista do ar, da Lua, vale quase tanto quanto
a conquista do ar pelos répteis que se tomaram pássaros. Os telescópios e radiote-
lescópios são quase tão engenhosos e eficientes quanto as antenas dos machos das
borboletas, capazes de detectar uma fêmea a quilômetros de distância, embora as “an­
tenas” de rádio sejam bastante toscas se comparadas com as antenas das borboletas.
As técnicas eletromagnéticas de reprodução, que transportam um concerto no espaço
e no tempo, são quase tão surpreendentes quanto as técnicas de reprodução dos or­
ganismos - embora elas sejam infinitamente mais rudimentares e totalmente incapazes
de “telegrafar" um ser vivo.

A melhor maneira de imaginar a consciência dos organismos e das moléculas é


representar-se a consciência tensa, encantada e paranóica de um inventor que tudo
esquece: mulher, filhos, situação social, para pensar tão-somente na sua invenção, e
que continua pensando exclusivamente nela, sempre, assim como Kepler com suas
trajetórias planetárias. Pode acontecer que, uma vez saído de seu encantamento, o in­
ventor, depois de seu êxito, pense em sua obra como que do lado de fora, sem muito
compreender como chegou até lá. É nessa hora, e somente então, que sua consciência
se toma vaga, como ao sair de um sonho. Mas, ela era precisa enquanto ele trabalha­
va, e pode acontecer de ele estragar sua obra ao voltar a pensar nela superficialmente.
51
As m áquinas “ inteligentes”

Ao identificar a consciência e a inteligência, os Gnósticos não estarão se expon-


do à objeção de que há máquinas “inteligentes” (machines that think) capazes de
reações adaptadas às informações recebidas, e capazes também de resolver proble­
mas “matriciais" (como os leaming m atrices7 de Steinbuch e Peske, que podem servir
de máquinas para explorar os possíveis, deduzir as analogias e inventar)? No entanto,
essas máquinas, não sendo “seres” auto-subsistentes, não são conscientes - exceto
para os autores de ficção científica. Uma máquina "inteligente” é sempre montada por
uma consciência, que primeiro improvisa ligações pertinentes, fazendo-se, numa se­
gunda fase, substituir por "percepções” e “ligações” mecânicas. Trata-se sempre de li­
gações substituídas, de feed-back mecânicos que tomam o lugar de feed-back semân­
ticos anteriores.

Todos os seres são tão “ inteligentes” quanto Deus

Não só todo ser é tão inteligente quanto outro, como também todo ser ô tão inteli­
gente, dentro de seu próprio contexto, quanto Deus (ou quanto à suprema Chave*
consciente). Os seres são tão inteligentes quando a Suprema Inteligência” como di­
ziam os deístas do século XVIII. Nisso, não há nada de particularmente paradoxal. To­
dos os seres são dotados de eternidade e de ubiqüidade em seu respectivo domínio.
Todos dispõem de um modo inteligente seu próprio domínio, restrito, assim como
o Dominus supremo dispõe o dele, que sustém o universo, ou se sobrepõe a ele. As
“maravilhas da criação", como se costuma dizer, são indistintamente atribuídas às vá­
rias criaturas que as realizam, ou ao criador, que reúne a todas sob a sua autoridade.
Esta comunidade de inteligência, e somente ela, nos permite “entender que se
possa entender" e que o universo seja inteligível - embora não o seja na sua totalidade,
visto que o nosso domínio é dirigido por domínios mais abrangentes, e que intervém,
então, o vago “vertical". Somos tão inteligentes quanto Deus no mesmo sentido em que
uma de nossas células é tão inteligente quanto nós.

Aiyuns Gnósticos mostram-se reservados em relação a esse último ponto - sem que seja dada,
no entanto, yranúe Importância a essas restrições, que lembram as objeçôes que Duns Soot fazia aos
teólogos da sua época. Não somos suficientemente inteligentes para definir a inteligência em geral. Po­
de haver, ao mesmo tempo, semelhança essencial e diferença entre a inteligôncia dos seres e a Inte­
ligência cósmica, como há entre o seu sere o dela
Aqui está um exemplo de uma diferença possível. Deus - ou a Unidade cósmica - se comunica
“verticalmente" com os outros níveis de conscidncia apenas do modo vago e temático que já definimos,

7. Esses apresentam-se como quadros com entrada dupla e funcionamento mecánico, e cujas colu­
nas correspondem aos critérios de estrutura dos objetos, e as linhas, aos significados conexos.
Pode-se criar ligações entre colunas e linhas “condicionando-se” a máquina. Ao apresentarmos à má­
quina determinada estrutura, ela pode deduzir seu significado, e inversamente. Pode-se também fazer
a máquina procurar compatibilidades ou incompatibilidades entre estruturas e significados, e encontrar
analogias inesperadas. Cf. Raymond Ruyer: La Cibemétique, Flammarion, 1967, p.226. (Nota de
1977.)
* Em rei. ao sinai gráfico ({) usado para abranger vários elementos de uma mesma categoría. (N. T.)
52
por impulsos ou por missões? Ou ele participa também mais diretamente d e todas as consciências do-
miniais e ae todas as memórias? Se aceitam os a primeira tese, temos, entáo, de aceitar também a
existência de um Deus semelhante ao da A ntjga Gnose: quase tuao da realidade escapa ao Seu con­
trole, apesar ce Ele servir de suporte para essa mesma realidade e definir suas grandes linhas, suas
constantes fundamentais, seus ‘‘tijolos’’ e norm as de construção (velocidade da luz, constante cósmica,
quantum de ação, número de átomos do universo), ínter-relacionados de u m modo inteligível, segundo
Eddington, nas antecipações que esse autor tez sobre uma ciência ainda futura. Desses materiais e
normas de construção, Ele aguarda os resultados - eufórico com a saúde d o universo, assim como nos
sentimos eufóricos com o bom funcionamento de nossos órgãos ou, ao contrário, sombno como um
reumático, ou “ inflamado pela ira’’ como o Deus da Bíblia quando estalam suas juntas.

A segunda tese é mais verossímil. A unidade cósmica participa mais diretamente


em todos os níveis, participa ali-mesmo onde ela não intervém, e “ vè" sem atuar. Essa
segunda tese, entretanto, enfrenta a grave objeção da “duplicação inútil” :8 Para que o
detalhe infinito nos vários modos de ser? Para que as histórias laboriosas dos seres,
se a Unidade cósmica as vê e prevê em seus mínimos detalhes? Para que essas ex­
periências “pedagógicas" dos seres, se o seu resultado é acompanhado de antemão
de modo a predeterminar retroativamente suas condições, além de seu desenvolvimen­
to temporal - como se alguma Consciência, atrás da nossa, visse o que vemos e visse
de antemão o que mais tarde iremos ver?
Mas os Gnósticos se recusam, de modo geral, a ficar presos neste velho atolei-
ro. Eles apenas observam que os cientistas mais positivistas são, freqüentemente, os
que adotam mais ingenuamente a segunda tese, colocando, por exemplo, nas proprie­
dades dos “tijolos” do universo tudo o que o universo se toma e todos os detalhes da
construção - o que, no fundo, equivale a atribuir tudo ao nível fundamental.

8. Expusemos isso em Dieu des rehgions, Dieu de Ia Science, Flammarion, Paris, 1970.

53
Capítulo III

A VISÀO DE SI MESMO NÀO REQUER OLHOS

O que é fascinante na Gnose é que ela nunca se perde gratuitamente no mito.


Pode parecer, às vezes, que eia se perde nele, mas na verdade ela sempre se mantém
próxima quer da ciência, quer da experiência mais imediata. Tudo é consciência'' pa­
rece algo mfbco. “Tudo é forma” já não o parece tanto. Contudo, essas duas teses se
eqüivalem. Toda forma que não for um composto artificial subsiste em seu “anverso” ,
sem ter necessidade, para isso, de ser olhada. Toda forma é ser para ela mesma; ela
“vê” a si própria e é, para ela mesma, forma-imagem. Quando surge um segundo ser,
com olhos e um cérebro, olhando o primeiro, uma duplicação da forma vista é produzida
no cérebro daquele que estâ olhando (por informação conforme). Esta forma II, que se
assemelha à forma I, é também para si mesma a sua própria imagem, que não necessi­
ta ser olhada mais uma vez. Felizmente, pois, qual o olho mágico poderia olhar a visão
já obtida?
A forma II, cerebral, é apenas superficialmente isomorfa em relação à forma I
olhada. Ela faz parte do organismo do “olhador", e pode manifestar-se diante de um ob­
servador cientifico do “olhador” .
Essa área ocupa alguns centímetros cúbicos de espaço. Para um neurologista,
esses poucos centímetros cúbicos são detalháveis como uma máquina nervosa onde
ele distingue os inúmeros detalhes, “aqui” e ainda “ali”, unidos por vínculos materiais
que lhe parecem iguais aos que um engenheiro-fisioiogista tentaria imitar para construir
uma máquina de ler as formas.
Mas, sabemos que o estudo das agnosias visuais1 tem revelado que o problema
foi mal colocado, e que o córtex visual, observado de fora como se fosse um objeto,
não permite entender a unidade da visão. O que o fisiologista que observa meu córtex
vê (durante uma operação com trepanação), não é o domínio-visão que vem a ser "eu”
- assim como a áiVore vista por mim não é a árvore vegetal, que sabe existir por si
mesma dentro de uma unidade, e que minha observação divide em ramos, folhas, etc.,
da mesma forma como a observação do fisiologista divide meu córtex visual em célu­
las, fibras, etc.

1. Incapacidade de reconhecer um objeto, de dizer, “ô tal ou tal coisa” , embora a visão sensorial
seja normal (Nota de 1977.)

54
Exercitar-se no sentido de apagar a impressão falsa de que “eu" estou diante do
meu campo visual. É meu corpo (com meus globos oculares) que está diante dos obje­
tos reais observados. Mas o campo visual, uma vez conseguido, não está mais diante
de mim. O que me confunde, é que ele contém a visão vaga e periférica das minhas
sobrancelhas, do meu nariz, dos meus braços e do meu peito. Daf a ilusão de que as
imagens visuais dos objetos estão diante do meu corpo como os próprios objetos vis­
tos, e que um olho espiritual ou mágico ainda deve olhar o que meus olhos orgânicos e
meu centro visual produziram, a saber, meu próprio campo visual como um estado de
meu campo orgânico em seu "anverso” .

A tese gnóstica e a pseudo “ percepção extra-sensorial”

Não há nada de paradoxal, neste sentido, em dizer que o olho não é essencial na
visão. Os Gnósticos não se referem, aqui, à “percepção extra-sensorial” de Rhine,2
que eles consideram, se não um mistificador, pelo menos um mau experimentador; re­
ferem-se ao fato de que aquilo que “ vê" é uma superfície cortical determinada, um teci­
do orgânico que não é mais “mágico" do que qualquer outro tecido orgânico, e que po­
deria ter sido derivado de algum outro esboço embrionário. Se pudéssemos conduzir,
com ordem, os fótons ou os estímulos correspondentes diretamente sobre o córtex vi­
sual, provavelmente haveria visão. Aquilo de que a visão não pode prescindir é de uma
área orgânica unitária que corresponda a um aqui-e-agora dominial. O olho é um mero
transportador fiel. Pode-se conceber, e tentou-se realizar, para os cegos, aparelhos
capazes de suscitar diretamente a visão cortical. Um homem assim equipado estaria,
de início, menos tentado em "ver" seu campo visual diante dele. Logo em seguida,
aliás, ele adotaria a atitude, falsa porém prática, que consiste em fazer como se as
imagens visuais estivessem diante dele, como se ele tivesse de olhar ainda - como
que fora dele - o efeito da visfio.

A atitude dos Gnósticos em relação a Rhine é muito característica (oonvém lembrar aqui que ho­
mens como A. Koestler ou Eccles que, sem serem Gnósticos, estão muito próximos deles, continuam a
levar Rhine a sério). A percepção extra-sensonal de Rhine é mágica. O indivíduo deve poder ver ex­
tra- sensorialmente que carta, tísicamente Inobservável, será puxada de um maço colocado sobre a me­
sa e contendo vinte e cinco cartas de cinco figuras (pelo menos com éxitos estatisticamente superiores à
pura sorte.
Para os Gnósticos, o campo visual não é explicável mecânica ou fisiológicamente (no sentido
comum da palavra). A área visual 6 um domínio absoluto de espaço-tempo. Mas não se deve confundir
"nào-mecântco" e “mágico". Pois, nesse caso, toda a física contemporânea seria mágica. Um campo
eletromagnético ou nuclear tampouco d explicável através de um modelo mecânico.
Para que haja visão, é preaso que as informações sejam levadas fisicamente, de um modo ou
de outro, atá o córtex. Mas o próprio córtex não é um aparelho mecánico, um ajuntamento parecido com

2. São conhecidas as famosas observações estatísticas feitas por Rhine e 9eus alunos, com caitas
contendo cinco figuras que as pessoas devem identificar sem vô-las. Segundo Rhine, os Indivíduos tes­
tados estariam cometendo menos erros estatisticamente do que um individuo “tentando adivinhar ao
acaso”. (Nota de 1977.)

55
o dos elementos de um computador. Pode-se supor que, para um microffeico, estese apresente como
um enorme sistema com ligações deslocalizadas, como um tecido cuja malha fosse urna molécula ou
um ajuntamento de moléculas oomligaçõesdeslocalizadas. O córtex, assím como todo o organismo, na
medida em que náo recorre a sistemas de ligações auxiliares, é, na escala macroscópica, umsistema
“mterotfeico” onde as zonas de intefaçftonãosâo indtvidualmenle atribuíveis. As redes de libras nervo­
sas, com suas ligações emcadela, constituemapenas umsistema auxiliar, urna técnica sobressalente.
C apítulo IV

AS CHAVES* DOMINIAIS E OS HÓLONS

O Deus dos Antigos Gnósticos é incompreensível, inexprimível, transcendente.


Mas a superestrutura imaterial do cosmo, intermediária entre o Deus bom e o nosso
mundo ruim, é feita pelos Eons - ou domínios sobre-humanos de consciências, consi­
derados como grandes subunidades, no tempo mais do que no espaço - que emanam
de Deus e que, nos mitos gnósticos, aparecem com freqüência aos pares.
O problema religioso consiste em conceber alguma conexão entre o Transcen­
dente e o mundo sensível. Os Antigos Gnósticos resolviam o problema fazendo descer
um desses Eons, muitas vezes o mais inferior deles, para o mundo sensível onde ele é
rompido e aprisionado.
Há, no homem, uma centelha de supra-sensível. Com isso, o homem possui um
representante no mundo transcendente. Sua libertação ocorre quando um dos Eons se
faz reconhecer nele e por ele, libertando assim a centelha divina.
A diferença entre a Antiga e a Nova Gnose é que esta última desmitifica os Eons,
e em seu lugar nos fala dos hótons,1 grandes subunidades, grandes domínios totalizan­
tes cuja característica já é encontrada na própria unidade orgânica e, especialmente, no
campo visual consciente.
Quando “eu" vejo seres em movimento, eu os vejo em movimento recíproco. Ve­
jo a deformação de seu intervalo - enquanto que cada um deles, segundo o princípio
relativista, pode achar que está em repouso, dentro de um “ aqui" absoluto, sendo o ou­
tro, para ele, um corpo em movimento. "Eu" sou, portanto, o seu “hólon" supra-ordena-
do. Eu me encontro em repouso, apesar dos movimentos e deformações dos objetos
vistos em meu campo visual. Eu sou a “ subjetividade", a “presença absoluta” de suas
relações.

* Ver p. 53. (N.T.)


1. Um hólon ó uma totalidade que participa, como parte, de umatotalidade mais ampla segundo uma
áivore hierarquizada. Um hólon é ao mesmo tempo integrador como totalidade, e meio-integrado como
parte de um hólon mais amplo; ele ó “ bitronte", como o deus romano Jano. Cf. Aithur Koestter, Le Cha­
val dans la Locomotivo, cap. III, Calmann-Lâvy, 1968. (Notado 1977.)

57
É evidente, que um campo visual consciente não é pontual. Meu própno corpo,
visto como objeto por um observador exterior, não pode ser localizado por meio de pon­
tos por esse observador, já que o meu corpo é o conjunto coordenado dos órgãos no
espaço e no tempo. Os Gnósticos rejeitam, assim, como já o fizera Whitehead2 - um
dos “antepassados” da Nova Gnose a tese ingônua da localização simples". Os
“aqui-e-agora” pontuais são apenas uma idealização matemática. Com eles, não seria
possível entender o universo. Um ser ou um acontecimento pontual náo poderia ser por
si mesmo. Nenhum “eu” poderia surgir dele. Ele não seria capaz de nenhuma interação
visto que, em toda interação, 6 preciso que a e b, interatuantes, existam por um mo­
mento numa unidade dominial.
Sabemos que a microffsica já verificou essa impossibilidade. Há limites para a
análise espacial e temporal Náo se pode localizar um elétron sobre sua órbita e nem
dentro do nêutron, antes que o nôutron se decomponha em próton, elétron e neutrino.
Não se consegue deinear, numa molécula de água, as zonas de interação entre o áto­
mo de oxigênio e os átomos de hidrogênio. O princípio de exclusão regula conjuntamen­
te os possíveis estados conjugados das partículas constituintes de um sistema, mesmo
quando essas se apresentam, diante de nós, à distância uma da outra.
As dificuldades atuais da flsica dos núcleos atômicos são absolutamente da
mesma ordem que as dificuldades da neurologia diante dos campos corticais. Os para­
doxos surgem assim que insistimos em localizar além de um determinado nível os ele­
mentos constituintes. O antiparadoxo da náo-localização simples não resolve todos os
problemas como por mágica, mas nos permite abordá-los sem ingenuidade. O fato de
que as partículas só podem ser criadas e aniquiladas por pares implica, obviamente,
que seus “aqui” estão conjugados. Toda lei de conservação é uma lei de simetria entre
o espaço e o tempo, e uma simetria é dominial por definição.
A biologia molecular encontra em toda parte o fato estranho do “reconhecimento”
à distância de uma molécula por outra: na transmissão nervosa, no nível celular e mo­
lecular; na transmissão hormonal, onde a célula reconhece a mensagem hormonal por
ela conter moléculas (A.M.P. cíclicas, as “segundas mensageiras” de E. W. Suther-
land) capazes de reconhecer à distância a forma da molécula hormonal; na trans­
missão genética, onde moléculas do citoplasma são capazes de reconhecer a forma-
mensagem das moléculas de R.NA, e estas, por sua vez, a forma das moléculas de
D.N.A. Esse fato estranho é um mistério insolúvel se nos obstinamos numa concepção
“pontualísticaN. Ao contrário, parecer-nos-â perfeitamente natural se admitirmos a idéia
de uma “auto-supervisão dominial”, sem olho supervisor. As duas moléculas (vizinhas
no espaço) “vêem” (sem olhos) suas próprias formas conjugadas; uma sabe da outra,
não através de um mensageiro n + 1, intermediário entre n mensageiros, mas porque
elas são uma forma dominial única.
A impossibilidade de definir no espaço uma direção absoluta, mas apenas uma
diferença de direção, a impossibilidade de definir a velocidade de um móvel, mas so­
mente a velocidade relativa de dois móveis ou uma aceleração, é igualmente um fato
dominial. E o domínio pode ser grande como o universo. Ao lado das interações nuclea-

2. Whitehead (Alfred, North) (1861-1947), ffsico, matemático e filósofo británico, um dos fundadores
da lógica matemática. {Nota de 1977.)

58
res (fortes ou fracas) de muito curto alcance, as interações eletromagnéticas, as inte­
rações de gravitação, as “ interações cósmicas" que fazem a inércia ou a curvatura do
espaço e a expansão no tempo das nebulosas espirais, essas interações têm o univer­
so total por domínio. A minha inércia (que me desequilibra e m e faz cair dentro de um
ônibus que freia de repente) vincula-me às massas ou à existência do conjunto do uni­
verso, assim como estou ligado ao campo gravitacional da Terra. Quando o ônibus Ireia
bruscamente, minha queda mostra que deixei de ser solidário com o veículo e com a
própria Terra, tornando-me solidário com todo o universo. Os cosmonautas mesmo es­
tando longe de qualquer massa de atração, nem por isso deixariam de ser .pressiona­
dos contra os seus assentos assim que fizessem funcionar a espaçonave, pois se en­
contram no universo.

Segundo o princípio de Mach, a torça cenWfuga ó dominial. Podemos entáo adm itir que ó o uni­
verso que gira em tomo do balde onde a água é pressionada contra as suas paredes e que, se o univer­
so que gira nôo expenmenta, por sua vez, nenhuma torça centrífuga, é porque náo está envolvido por
um supra-universo que gira em tomo dele.
A filosofia de Mach, seu ultrapositivismo inspirado em Berkeley, ô dos mais contestáveis, e sa­
bemos que Einstein, que o tinha como seu mestre, acabou se afastando de suas teorias. Pois Mach pre­
tende explicar a inércia, náo pela teoria do "canpo" e, sim, pela inftudncia causal dos corpos (no senti­
do restito), isto é, das massas materiais afastadas, enquanto que, para E in s te in , o campo é o essencial,
sendo a matéria — no sentido tradicional da palavra — apenas uma zona do campo.
Mach desconfiava da idéia de campo como sendo uma construção dos físicos sem perceber
que era o campo (ou o aqui domlnlal nfio-pontual) o verdadeiro “ material do felco” , e náo os “aqui”
quase pontuais da matéria, tomada no sentido
Contudo, o princípio de Mach, o caráter cósmico da inércia, independ ente d a filosofia de Mach,
aplicado ao campo e náo á matéria (e, até mesmo, ao campo vazio de m a té ria no sentido clássico) per­
manece sólido. De qualquer modo, inércia e yravitação gstfrp estreitamente aparentadas. Sciama con­
seguiu reconciliar Mach e Einstein pois, para ele, a gravitaçáo não passa de um caso de interação está­
tica das interações de inércia.3
Explicando isso de modo grosseiro - porém náo inexato - os campos de gravrtaçáo, os campos
eletromagnéticos podem ser considerados como “corpos observáveis” , no sentido amplo, tanto quanto
os corpos materiais sobre os quais se reflete a luz.
A diferença é que os campos sáo observáveis de forma mais indireta, através dos desvios que
produzem nas ondas ou nos corpos de testes. Mas esses desvios sáo um fenômeno físico - material se
quisermos - tanto quanto o ricocheteamento dos tótons sobre a matéria no sentido dãssico.
As críticas que Lenln fez á filosofia de Mach não deixam de ser pertinentes, com a ressalva de
que ele comprova o realismo achando que está comprovando o materialismo, e confunde o mau idea­
lismo de Berkeley-Mach com um panpdquismo A maneira de Leibniz que, longe de ser incompatível
com o “materialismo" - ou antes, com o realismo - da física, representa ao contrário a condição para a
sua existência: a “malária" só pode subsistir por si mesma, independentemente de qualquer “ conhece­
dor", se ela náo lor “coisa", puro objeto, mas pode possuir a si própria, em sua forma e comportamento
ativo.
Os campos, os sistemas de ligações e de interação dominiai ligados em chaves são seres tão
auténticos quanto os subdomínlos ligados em subchaves. Eles tôm uma massa, viqjam. Só que, neles,
concebemos mais facilmente que o aspecto "corpo" seja apenas o avesso do um campo de consciência
de ligaçfio, Inobservável como ligação unificadora e tematizante, e observável somente, como corpo,
através de seus efeitos físicos.

3. Dennis W. Soiama: The Physical Foundations of General Relatívity, Nova York, 1968.

59
Terminaremos este capítulo com o que os Gnósticos chamam de testes de “sen­
sibilidade cosmológica”.

I. - O foguete mais rápido do que os gases expelidos

Um foguete lançado a uma velocidade v pode, naturalmente, atingir e ultrapassar


essa velocidade de lançamento. (Ele atinge uma velocidade igual à velocidade de
massa atual
lançamento quando a relação de m assa-----------r - r - r j for igual a e, ou seja 2,718.)
massa iniciai
A partir do momento em que a velocidade ultrapassa v, um observador terrestre poderia
ver a matéria expelida correndo atrás do foguete, a uma velocidade inferior, mas no
mesmo sentido. O que parece estar em contradição com o princípio de igualdade entre
ação 0 reação.
O paradoxo pode ser resolvido de duas maneiras:
a) por um raciocinio relativista simples: podemos, a qualquer momento, conside­
rar que o foguete parte da velocidade 0; foguete e matéria expelida afastam-se um do
outro com velocidades diferentes - algo semelhante à bala e à espingarda recuando -
e em sentidos opostos;
b) mas, quando se tem “a sensibilidade cosmológica”, essa solução nos pare­
cerá superficial. Deve-se levar em conta toda a matéria que já foi expelida (o foguete
pode já estar funcionando há muito tempo), e não apenas a chama expelida que corre
atrás do foguete. O centro de gravidade do conjunto do sistema "foguete + matéria já
expelida” não muda. Existe unidade cosmológica não apenas dentro do espaço, mas
também no espaço-tempo. O movimento atual do foguete depende das partículas expe­
lidas, que podem estar a distâncias consideráveis e podem ter sido expelidas num pas­
sado muito distante, mas cujo movimento continua conjugando-se com o movimento
atual do foguete. É possível, assim, entender, com esse exemplo simples, a passagem
quase que obrigatória do físico ao cosmológico “totalitário" ou "unitário” .

II. - A nave espacial guiada pela “consciência" cósmica4

Essa “ consciência” é materializada por um segundo satélite, que flutua dentro do


primeiro e não sofre nenhuma aceleração em relação à nave espacial enquanto esta se
desloca livremente. Quando um movimento relativo entre a nave e o corpo flutuante in­
terno se produz, o erro de rumo é devido à própria nave espacial (por exemplo, quando
sua velocidade diminui por causa da poeira interestelar ou de uma atmosfera rarefeita
residual). A “consciência” norma aciona, então, pequenos foguetes compensadores. O
exercício-teste consiste em meditar sobre a “ciência” surpreendente do satélite interno,
que não toca nem percebe a nave espacial mas que, no entanto, segue perfeitamente o

4. Exemplo de Martin Schwarzschlld, citado por E. F. Taylor e J. A. Wheeler em: Space-Time Phy-
sics, Sáo Francisco, 1966.

60
percurso desta quando não há nenhuma freada ou perturbação acidental, e o corrige
quando há perturbação. O que, ou quem está pilotando essa “consciência” (e a nave
quando não há freada)? E que tipo de conexão existe entre elas, se a “consciência"
não precisa intervir? As leis de Newton? O princípio de Mach? A natureza local do es­
paço? De onde a massa recebe as ordens que regem seu deslocamento?

III. - O casal sobrevivente

Depois de uma catástrofe universal, de toda a espécie humana apenas sobrevi­


veram um homem na América e uma mulher na Europa. Seria possível pensar que toda
a realidade desses dois seres humanos está contida dentro da sua pele, que contém
suas vísceras funcionando e seu DNA? Eles formam uma unidade biológica apesar da
distância, uma unidade enraizada no mais distante passado biológico (e podem, teori­
camente, reconstituir a espécie humana), assim como o foguete e o gás expelido formam
uma unidade cosmológica. Eles manifestam a realidade de um “ hólon" que faz parte de
um “hólon” mais abrangente - a Vida a qual por sua vez está integrada a um "hólon”
cósmico ainda mais abrangente.
Capítulo V

A CONSCIÊNCIA CÓSMICA

Existiram Padres da Igreja Gnóstica, ou melhor, santos padroeiros bem anterio­


res aos fundadores recentes. Primeiro, houve Leibniz, que foi Rosa-cruz além de cierv
tista e filósofo, e também um político inteligente, ao mesmo tempo conservador social e
voltado para o futuro. No século XIX, Samuel Butler foi o que mais se destacou e, por
fim, no século XX, Whitehead, Eddington, Milne e J.B.S. Haldane.1 Samuel Butler é o
mais venerado entre todos. Todos "anunciam" a Consciência cósmica.
Na verdade, podemos encontrar na Gnose muitos rudimentos para uma nova
teologia.
Se um domínio “aqui-e-agora" não puder ser pontual, nada impede que ele possa
ser o contrário, isto é, universal, vasto como o universo. Acontece que o “eu” , como já
vimos, nada tem de substancial, nem mesmo de real. Ele simplesmente designa o fa­
to de que todo domínio é, para si mesmo, espaço-tempo-sujeito, superffcle-sujeito. O
domínio vasto como o universo, que se manifesta pela inércia de todos os corpos no
universo, mas também, de forma mais geral, pelas interações subjacentes às inte­
rações de curto alcance e que constituem a unidade dessas, deve entfio aparecer dian­
te de si próprio, da mesma forma que aparece diante de si próprio o meu campo visual,
limitado, para um observador, aos poucos centímetros cúbicos do meu córtex occipital,
de onde parece emergir a minha consciência e o ser que diz “eu". Em lugar dos pou­
cos centímetros cúbicos do meu cérebro occipital, é toda a hiperesfera do mundo, cujo
raio é calculado em milhões de anos-luz, que é o "aqui-e-agora", o “campo visual” da
Consciência cósmica.
Mas, se o Gnóstico principiante conseguiu fazer o “exercício budista",2 ele não
incorrerá no erro grosseiro de Jacob Bohme que, por não ter feito o dito exercício, ima­
gina a Unitas como um Olho que olha, e que se vê, e cria a Visão. Para esse velho
Gnóstico, o Absoluto divino quer se conhecer. Ele é, portanto, capaz de ver e de olhar.
Ele ê, conseqüentemente, um Espelho de um Olho, pois, diz Bõhme, o que vê é um olhc^

1. Eddington (1882-1944), astrónomo e ffsioo britânico, famoso por seus trabalhos sobre a tempe­
ratura e a constituição central das estrelas; dedicou-se também à cosmología e às teorias sobre a ex­
pansão do Universo. Haldane é o autor de pesquisas fundamentais em biologia. (Nota de 1977.)
2. CL supra, p. 55.

62
e não se pode conceber uma Visão sem estabelecer a existência de um Olho. E, visto
que não há nada fora do Absoluto, é preciso que este se desdobre em Olho e Espelho,
de modo que possa olhar a si mesmo: “ Ele é assim o seu próprio Espelho, no qual ele
se reflete e se olha, um Olho ou um Espelho côncavo; um Olho que é visto e que ao
mesmo tempo vê”.3 Os filósofos menos ingênuos dizem mais ou menos a mesma coi­
sa, em frases mais abstratas e menos divertidas. Seu "sujeito", com ou sem maiúscula,
continua sendo o Olho de Jacob Bõhme.
A Unitas cósmica é, em certo sentido, um Deus pessoal. Em outro sentido, entre­
tanto, ela não é um Deus pessoal. Ela é um Deus pessoal - que poderia dizer “ Eu” -
senão através da mesma ilusão (projetada sobre o universo) que me faz acreditar que
“eu" estou diante do meu campo visual. A analogia entre o meu domínio de consciência
(como superfície-sujeito) e o domínio universal é válida. Mas náo devemos, a partir daí,
nos equivocar sobre o modo de ser que é o meu domínio. Eu não sou um ser abstrato,
um puro indivíduo que olha seu próprio campo de consciência. Eu sou apenas a unida­
de do meu campo de consciência, o sujeito de uma superfície-sujeito. Do mesmo modo,
Deus ou a Unitas não ô um Ser, um indivíduo, que olharia o universo de fora. Ele é a
Unidade dominial, a Unidade-Eu dessa Superfície-sujeito total.
Tenho, quanto a mim, alguma justificativa pragmática para falar de mim como uni­
dade biológica, e sobretudo como unidade social. Mas não há evidentemente nenhuma
para falar de Deus, ou da Unidade do cosmo, como de um “Eu” quase biológico ou so­
cial. A menos que não recuemos diante do mito - como fazia, por divertimento, J.B.S.
Haldane, uma das mentes mais livres do nosso tempo, que fazia do nosso universo e
do seu pseudo “Eu" o membro de uma sociedade de deuses mais ampla. Aliás, J.B.S.
Haldane só falava em Diretor — ou Diretora4 - da Via Láctea, para evitar, dizia ele, de
falar de infinidades.

Samuel Butler também esboçou um mito desse tipo.5 Naturalmente, ele não se
referia, em 1879, ao espaço-tempo cósmico. Mas considerava o conjunto de todos os
seres vivos como um tipo de Grande Ser Vivo, cujos organismos de todas as espécies
formavam as células. A ele referia-se como a Árvore da Vida. Uma árvore é composta
de uma multidão de árvores subordinadas, sendo cada broto um indivíduo quase que
distinto sobre um vasto esqueleto, mais “mineral" do que orgânico. A verdadeira co­
nexão entre eles não é visível; ela consiste na participação de cada broto, de um
mesmo Espírito, isto é, de uma mesma Visão das coisas e de um mesmo tipo de com­
portamento. Contanto que essa Unidade se manifeste, a presença ou ausência de um
esqueleto “mineral”, unificando as partes constituintes por laços visíveis e mecânicos,
não tem muita importância. E existem árvores-quimeras produzidas por enxerto, cujos
ramos carregam frutos diferentes.

3. Ct. A. Koyré: La Philosophia de Jacob Bõhme, p. 331.


4. Pois, assim como os Gnósticos, ele nfio era “ violista".
5. Em: God lhe Known and God lhe Unknown. Esta obra está esgotada na Inglaterra. Os Gnósticos
americanos estão cuidando de sua reedição.
63
Imaginemos uma árvore com suas fibras lenhosas invisíveis. Brotos e folhas pa­
recem subsistir no ar sem suportes. Só a disposição arborescente das folhagens ó que
sugere a unidade de um principio de existência e de crescimento dos ramos invisíveis.
Imaginemos ainda que essa arborescônda seja tanto temporal quanto espacial, e que
brotos de ramos “fósseis” estejam em seu lugar, recobertos e prolongados pelos brotos
e ram os atuais. Teríamos alguma dúvida em chamar essa Árvore de Árvore, apesar de
seu esqueleto fibroso ser invisível?
Essa Árvore da Vida é o corpo, a carne de Deus conhecido, do único Deus que
nos seja dado conhecer, pois fazemos parte Dele. Ele nos aparece como Carne. Mas,
em si, ele ó Espírito, Consciência. Ele se vê e se sente como “nôs", brotos da Árvore,
nos vemos e nos sentimos.
Assim como J. B. S. Haldane depois dele, Butier conforma-se com as limitações
do seu Deus. O Deus dos teólogos, diz ele, está onipresente no espaço e no tempo. É
tido como onipotente e onisciente, eterno. O Deus cuja Árvore da Vida é o corpo apa­
rente só começou, para falar apenas da Terra, há alguns bilhões de anos. Ele não é
nem infinitamente poderoso, nem infinitamente sábio, nem infinitamente bom ou justo.
Ele se engana, é malsucedido em muitos de seus ramos, que acabam murchando. Ele
se contradiz muitas vezes. Ele devora a si próprio, e náo consegue conciliar todas as
suas forças e todas as suas qualidades.
Mas, como contrapartida dessas limitações, ele tem ‘‘credibilidade” e, até mesmo,
apesar de seus defeitos, ó amável e admirável, quando assume a forma das asas da
borboleta ou do pássaro, das pétalas das flores ou do rosto dos seres que amamos e
admiramos.

Há, evidentemente, algo de verdadeiro nesses mitos de um Deus limitado à


Galáxia, ou de um Deus limitado à Árvore da Vida - mas nessa teoria há também algo
tão insustentável que, na verdade, nem Butier nem Haldane nela se detêm. A Árvore da
Vida e a Galáxia fazem parte do universo, nele estão enraizadas. No universo, a origem
da vida não nos faz entender a origem da matéria; a origem do protoplasma não nos faz
entender a origem da água e do ar. Se o Diretor, ou a Diretora, da Via Láctea conta com
os “ caldos moleculares" dos planetas ou, talvez, como sugere Fred Hoyle, das nuvens
cósmicas para que a vida possa nascer, assim como esfregamos um fósforo contando
com que algumas moléculas de fósforo irão oxigenar-se, devemos então supor que
existe, além do Deus conhecido e limitado, um Deus desconhecido e mais amplo, que
tem como corpo, não determinada parte do mundo ou determinado tipo de existência,
mas todo o universo, todo o espaço-tempo e, mais além, um Deus ainda mais desco­
nhecido que faz ao mesmo tempo o Ninho (isto é, o mundo material) e o Pássaro (isto
é, o Deus-Vida).
C apítulo VI

A VISÃO SEM OLHOS E O CEGO ABSOLUTO

A Nova Gnose não é uma mitologia. Os Gnósticos, ao mesmo tempo, acolhem o


mito e o restringem com veemência. O usual na "explicação" mítica é transferir as
grandes experiências da existência e da vida, como um jogo de espelho, a um estado
Primordial no qual o que fazem os deuses não necessita de explicação. Para os "cienti-
ficistas”, o Primordial não é um tempo divino antes do tempo; é simplesmente um pri­
meiro Fenômeno, do mesmo tipo que os fenômenos atuais. O mito é laicizado, mas
permanece um mito. O atomismo antigo é, nesse sentido, um mito: os corpos são com­
postos de corpúsculos (ou pequenos corpos), os remoinhos de átomos são como os
remoinhos de areia. O atomismo moderno também permanece um mito quando ele
considera o Big Bang inicial como uma explosão nuclear em maior escala, ou como um
“ cozimento” acelerado dos átomos. Samuel Butler se compraz em dar mais “vigor” ain­
da, miticamente, a sua Árvore da Vida. Ele não só não tenta dissimular o “jogo de espe­
lho" como, antes, o reforça. O conjunto dos seres vivos forma um Grande Ser Vivo. A
Árvore e seus brotos são brotos de uma árvore maior. O homem e suas células são
a célula de um megantropo. Cada organismo aprende e se adapta. O Grande Organis­
mo aprende e se adapta. E Deus, diz Butler, já deve ter passado por um crescimento
análogo ao que Ele conheceu sobre a Terra como Árvore da Vida, em um número infini­
to de mundos e de universos, e é graças a isso que Ele pôde aprender sua função de
Deus, de modo que Ele adquiriu experiência, assim como cada embrião sabe como
transformar-se em adulto por ter adquirido essa experiência ao longo das milhares de
vezes em que repetiu e cumpriu praticamente a mesma tarefa. Jacob Bohme, também,
se compraz em aperfeiçoar a imagem do Absoluto divino primordial como um Olho que
se olha num espelho. Se somos visualmente conscientes porque temos olhos, o Pri­
mordial deve ser um Olho e uma visão. Imagem enganosa, como já dissemos, mas
conceito exato.
Os cientificistas rejeitam com palavras toda e qualquer mitologia. Eles tratam o
mito - o de Jacob Bõhme, o de Samuel Butler ou o de J. B. S. Haldane - com um des­
prezo de beócios para, no fim, adotar o que poderíamos chamar de mito do Cego abso­
luto. O universo, em sua unidade, não se vê, não conhece a si mesmo. Ele é uma ágo-
ra dos corpos, onde os corpos se encontram sem saber que se encontram, numa cida­
de que não foi construída por ninguém, dentro de uma noite onde os seres são feitos de
uma noite inconsciente, onde os fótons são intermediários inconscientes entre corpos
65
inconscientes, onde "informações" mecânicas funcionam às cegas, onde os emissores
e receptores das “mensagens” são tão inconscientes das mensagens quanto os cabos
telefônicos, onde os carteiros dos correios são iletrados e cegos, onde a própria orga­
nização dos Correios se fez entre seres que não sabem nem falar nem escrever e para
os quais as mensagens transmitidas e trocadas não tôm nenhum significado, onde os
“ aqui-e-agora" cegos conseguem, entretanto, conjugar-se, por milagre, num espaço-
tempo ordenado e unitário, igual a um mercado onde os preços fossem fixados entre
compradores e vendedores cegos e que não tôm necessidades.
O Cego absoluto é um mito absurdo. Ele é mito, já que consiste em repetir, em
espelho, alguns dos fenômenos efetivamente cegos da nossa experiência humana co­
mum. Uma torrente, uma avalancha, uma multidão de pessoas ou uma fila qualquer,
embora composta de videntes, é cega e destrói sem ver. Todos os fenômenos da física
clássica são cegos - isso, se considerarmos, por abstração, apenas os efeitos estatís­
ticos, sem analisarmos as interações elementares que fazem com que seus constituin­
tes “tomem a fila” informando-se sobre seus vizinhos, e sem analisarmos, tampouco, o
campo universal onde os efeitos estatísticos podem, ocasionalmente, tomar-se formas.
As moléculas de uma bolha de sabão tomam a fila “dando-se as mãos". Elas
formam às cegas uma esfera quase perfeita. A Terra ó esférica sem que haja necessi­
dade de compasso. Sua órbita é elíptica, sem alfinetes em seus focos, sem lápis, e
sem o fio que um Deus clarividente, provido de olhos e de mãos, pudesse ter estendido
no espaço-tempo. A Terra é cega; o espaço é cego em relação à multiplicidade das in­
terações eletromagnéticas e nucleares, assim como essas interações são cegas relati­
vamente às interações de gravitação ou de inércia.
Mas o espaço nfio pode ser o Cego absoluto. Sabemos que ele nfio o é se lem­
brarmos que o olho não é absolutamente essencial na existência de um campo, de um
domínio de visão, cuja unidade é imediata e cujos detalhes constituintes não são estra­
nhos uns aos outros, mas se encontram no mesmo “aqui” dominial. Entre a Terra e o
Sol, entre o Sol e as estrelas da Galáxia, entre as nebulosas espirais, nfio há nenhum
“eu” ou olho unificante. Mas há um campo de interações, e os gravitons’ não podem
ser carteiros cegos e inconscientes entre corpos cegos e inconscientes, assim como
os fótons, tampouco, podem ser carteiros cegos entre correspondentes cegos e in­
conscientes.
Mito por mito, pelo menos a Gnose escolheu aquele que náo é absurdo. A Gnose
poderia ser definida como filosofía da Luz consciente, em um universo semelhante à
área visual de um cérebro vivo, que tem um “Lado Direito”, uma verdadeira unidade,
e nfio a falsa unidade do cérebro de um cadáver, cujas moléculas voltam a formar parte
da multidão pulverulenta das moléculas terrestres.
Uma molécula de água ou de benzeno é capaz de se ordenar ou de voltar a se
ordenar por ser ela domínio de auto-supervisão - e os físicos constatam, a seu modo,
essa auto-supervisão nas zonas moleculares onde os elétrons de ligação combinam
seus sistemas ondulatórios. Assim, também, os domínios do córtex cerebral, em seu
Lado Direito, ordenam-se a si mesmos, pois se véem em sua própria unidade, como
campo visual, ou campo dos esquemas motores possíveis. Da mesma fomria, um pro-

1. Partícula hipotética que corresponde ãs interações gravfbcas. (Nota de 1977.)

66
tozoário ordena-se a si mesmo e improvisa uma boca, um estômago, pseudópodes,
porque ele “se vê” em sua própria unidade. Os neurônios de meu córtex são subdomf-
nios dentro da área cortical, e supradomímos das áreas moleculares.
O exemplo da criança brincando de colocar em ordem as peças de um quebra-
cabeça é tão complexo que pode chegar a enganar. Dir-se-ia o Espírito vindo ordenar a
Matéria. Mas a análise mostra que não há nem matéria nem espírito; há simplesmente
sobreposição de domínios que se entrelaçam uns aos outros em chaves mais ou me­
nos amplas ou em “hólons" mais ou menos vastos. Quanto mais amplo for o domínio
onde se ordenam os domínios subordinados, mais este terá um aspecto espiritual.
Quanto mais houver pó de microdomfnios insuficientemente coordenados, mais existirá
ali um aspecto material. Não é, portanto, surpreendente que o domínio entre os domí­
nios, isto é, o universo, o espaço-tempo em sua unidade cosmológica, nos apareça
como o Espírito por excelência, como Deus, especialmente quando ele parece estabe­
lecer uma Ordem dominial unitária ou faz uma Ação unitária. Mas, também, não é sur­
preendente que ele nos pareça Matéria inconsciente quando domina mal a multidão e o
pó dos domínios menos amplos que ele abarca.
Pois há tipos diversos de interação e unificação, e a extensão do domínio unitário
não é tudo. O espaço-tempo (da gravitação e da inércia, no conceito de Mach) não é o
Cego absoluto mas, aparentemente, não é tampouco uma espécie de córtex visual em
todas as suas propriedades, pois as percepções e movimentos que ali acontecem só
estão muito sumariamente conjugados. O Espírito cósmico “sabe” que tal planeta e tal
meteorito de grandes proporções estão se aproximando um do outro, mas nada faz pa­
ra evitar sua colisão. É como se ele fosse uma consciência muito distraída ou muito in­
diferente ao detalhe. Parece-se com um departamento de trânsito urbano que cuidasse
apenas do plano geral dos itinerários sem preocupar-se com os acidentes, deixando
aos motoristas a incumbência de cuidar dos mesmos.
Capitulo VII

UM RUÍDO DE FUNDO ORIGINÁRIO


NÃO PODE CRIAR A PALAVRA

Para os Gnósticos, o universo nfio ê, portanto, um universo de seres materiais


ou de forças cegas, e sim, um universo de formas, de informações conscientes e de in­
formantes conscientes e ativos, que decifram e lêem informações circulantes, mensa­
gens que, provisoriamente, se tomam inconscientes.
Aqui, também, a ciência objetivista descreve as coisas corretamente, mas pelo
avesso. Descreve o antiacaso a partir do acaso, a ordem a partir da desordem, as
mensagens a partir do ruido de fundo, os organismos a partir de uma poeira de fenôme­
nos químicos, as linguagens ou os sistemas de comunicação e interação a partir das
emissões e recepções de disparadores elementares.
Essa segunda inversão da ciência (explicar a ordem a partir da desordem) agra­
va a primeira (transpor o lado direito para o lado avesso).
Ao tentar decifrar pelo lado de fora, ao tentar descobrir o sentido pelos sinais ma­
terializados, a leitura pelo b-a-bá, a mensagem pelo que sai-do-ruído-de-fundo, a ciência
tende a retardar, indefinidamente, a leitura propriamente dita, a interpretação dos sinais.
Por querer reagir contra a tendência a uma interpretação precipitada, pelo fato de
uma intuição demasiado humana que, não apenas pressupõe em toda parte a existên­
cia de uma consciência e de uma linguagem, mas, também de uma linguagem quase
humana, e por querer evitar o antropomorfismo, a ciência acaba caindo no mecanico-
morfismo, e recusa-se a ver as conseqüências de seu próprio trabalho de decifração,
assim como um lingüista que não quisesse atribuir aos falantes estudados por ele,
qualquer consciência do significado.
O universo apresenta-se, assim, paradoxalmente, como uma espécie de Ruído
de fundo originário, sendo os seres e suas mensagens meras flutuações que, milagro­
samente, conseguissem subsistir por um momento antes de afogar-se novamente no
Rufdo.
É conhecido o jogo que consiste em pronunciar uma frase a meia voz no ouvido
de um parceiro, o qual deve repeti-la a outro, e assim por diante. Isso produz efeitos
surpreendentes, assim como acontece com traduções sucessivas em idiomas diferen­
tes: “O espírito é pronto e a carne é fraca” poderá transformar-se em: “O vinho era
68
bom, mas a came era estragada” ; ou então (pela passagem do francés para o inglés,
depois para o chinês, e novamente para o francês): “Longe dos olhos, longe do co­
ração" poderá acabar ficando assim: “O invisível é uma loucura” .
A ciência “cientificista” consiste em admitir que o universo começa com flu­
tuações perpetuadas por erros de tradução desse tipo, já que, pelo acúmulo de erros,
ele consegue pronunciar palavras inteligíveis.
Relativamente à mensagem que transmite, uma linha telefônica é ainda mais inin­
teligente do que toda uma cadeia de tradutores ignorantes. Mas os cientificistas, teme­
rariamente, pretendem fazer nascer a palavra inteligível desse chiado telefônico.
Hoje em dia, os filósofos do “ Deus está morto” às vezes se expressam assim:
“Deus desligou seu telefone: Ele não fala mais.” Esse não é nenhum retorno moderno a
um dos mitos do Deus gnosticista: Deus separado do mundo por abismos intransponí­
veis feitos de trevas e silêncio. Para os cientificistas, nunca houve um Deus telefonista
ou instalador de telefones. É o "chiado” originário do espaço-tempo, é o ruído de fundo
do universo que deu origem a uma voz, a um idioma, a seres falantes e a seres ouvin­
tes.
Quando se “ realizou” o princípio de Carnot,1os cientistas não puderam deixar de
fazer teologia. Já que todas as energias se degradam, já que as temperaturas, os níveis
tendem a igualar-se, já que os pesos descem e não tornam a subir por si mesmos (in­
cluindo os pesos do pêndulo de um relógio), é preciso então que Alguém dê corda no
início do Tempo, desse Tempo que possui uma seta. A conservação da energia possi­
bilita um mundo eterno; a degradação da energia requer, no princípio do universo, uma
reserva de ordem ou de não-desordem. A expansão do universo, a desconcentração
das nebulosas, a transformação de matéria em radiações, provavelmente apontam para
um mesmo fato, que leva à mesma conclusão, com os mesmos corolários "teológicos”:
houve, então, no início do universo, uma reserva de energia bem ordenada, um reser­
vatório de água.

Com o princípio de Shannon2 acerca da degradação da informação e das men­


sagens, a situação é ao mesmo tempo idêntica e diferente. Idêntica, com a tentação
ainda mais forte de se colocar no princípio do universo uma reserva, uma caixa d’água
de informação - mas, dessa vez, não sob a forma da explosão de um “núcleo" que
contivesse toda a energia do universo, mas sob a forma de um Deus antropomorfo In­
ventor de relógios, e não apenas encarregado de udar-lhes corda".
Mas a situação é também muito diferente. Se ninguém, entre os teóricos da in­
formação, retomou a velha teologia de Paley,3 não é apenas porque a teologia saiu de
moda; ó porque o estudo dos fatos, que mostra uma degradação real da energía e nun­
ca um processo inverso global ascendente, aponta, entretanto, para um balanço positi­
vo da informação dentro da ordem da vida. A vida é local” dentro do cosmo, mas a vi­
da existe. A informação aK se degrada, mas também se revela, e isso, de um modo fa­
miliar, aparentemente sem mistério. Os homens compõem suas mensagens, realizam
obras, inventam máquinas. Todos podem tentar fazô-lo. As espécies vivas surgiram há
muito tempo, mas muito tempo depois da explosão inicial. Elas se transformam diante
dos nossos olhos, e provavelmente não existia, dentro do átomo ou 'do Ylem primiti­
vos,4 e nem na Terra primitiva, o germe oculto contendo de antemão as formas dos se­
res vivos.
Pode-se “compensar” o processo local ascendente, de ordem energética, por um
processo “descendente” mais importante em outra parte: para eu poder reerguer o pe­
so do péndulo do relógio, é preciso que eu tenha comido o suficiente, isto é, que eu te­
nha descontado de uma reserva cósmica de ordem energética. Mas não faz muito sen­
tido - apesar dos esforços de ffsicos como L Brillouin - compensar o aparecimento de
uma formação coerente aqui por um decréscimo energético alhures. Minhas invenções
de homem consciente não são gratuitas do ponto de vista energético. Mas, não é o que
eu comi esta manhã, e nem o gasto de luz elétrica de minha lâmpada que podem expli­
car as frases que estou anotando no meu papel.
Além disso, não tenho a impressão de estar descontando minhas invenções de
uma espécie de reserva primordial. Essa impressão pode ser falsa. Os Gnósticos
acreditam que ela é falsa - mas suficientemente forte para eu me julgar dispensado de
recorrer à teologia.
Para os geneticistas, é a mesma lei que faz com que as moléculas do universo
físico se misturem, sua energia se degrade, e certas moléculas, ao contrário, se repro-
duzam por decalque, não só multiplicando suas formas, mas aumentando sua comple­
xidade com formas auxiliares que facilitam essa reprodução decalcada, sendo assim
conservadas e multiplicadas por seleção automática. É a mesma lei que faz o automa­
tismo da degradação, e (no caso das moléculas capazes de auto-reprodução), o auto­
matismo do surgimento de informação.
Assim como não podemos impedir que a água corra, que as montanhas se nive­
lem ou que as estrelas convertam sua matéria em radiação, não podemos impedir que
uma espécie, que o acaso genético tomou mutante e mais apta a reproduzir-se, se es­
palhe e suplante a espécie primitiva.

3. Teologia, essa, muito bem resumida por VoltaJre:


"L ’ünivers m'embarasse et ¡e ne pois songer
Que cette hortoge existe, et n 'ait pas d'horioger.
[“O universo me contunde e eu não posso conceber
Que este relógio exista, e não tenha relojoeiro,>] (Nota de 1977.)
4. Teimo inventado por Gamow ifl, Criação do Universo, trad. francesa, Dunod, París), a partir da
paiavra grega uié (matéria). O Ylem ó o termo que ele dá à malária primitiva do universo, nos cinco pri­
meiros minutos da expansão, antes que se formassem os núcleos atómicos. (Nota de 1977.)

70
O viticultor luta contra a erosão de seu terreno e contra a proliferação dos
pulgões, os quais vão se tornando imunes aos inseticidas quando seus cromossomos
e DNA “inventam" (sem querer) formas mutantes resistentes. Dessas duas calamida­
des, uma - a erosão - é uma degradação de forma; e a outra, um aparecimento intem­
perante de formas, mas ambas são automáticas.

O acaso não vem antes do antiacaso

Para a Nova Gnose, essa maneira de ver é superficial, e essa teoria tão contra­
ditória que acaba tornando-se um dos melhores argumentos a favor da Nova Gnose.
No princípio, dizem os Gnósticos, não há nenhum Grande Informante universal,
pelo menos nenhum Grande Informante cujo cérebro cósmico ou cujo pensamento pu­
desse conter de antemão todas as formas que apareceram, desde os chifres do rinoce­
ronte até a plumagem do pavão, todas as mensagens escritas, todas as palavras pro­
nunciadas até hoje.
Mas, pensem apenas no seguinte: Num sistema estelar feito quase exclusiva­
mente de hidrogênio e de hélio, e quente demais para que moléculas complexas pudes­
sem subsistir ou para que o carbono pudesse queimar “molecularmente”, não nos sur­
preende o fato de surgirem, assim que as circunstâncias se tornam favoráveis, essas
moléculas complexas que nos paracem, então, virtualmente presentes antes mesmo de
existirem, numa espécie de quadro das “possíveis ligações” e dos “possíveis corpos
resultantes dessas ligações". Aos nossos olhos, isso não é mais surpreendente do que
o aparecimento do gelo quando a água se esfria. Na Terra e, provavelmente, em muitos
outros planetas galácticos e extragalácticos, existem hoje milhões de compostos quí­
micos e, também, milhões de espécies vivas cuja estrutura, segundo os geneticistas, é
uma espécie de formação molecular ou de cristal aperiódico.5 Essas espécies não se
organizam em quadros tão regulares e tão bem preenchidos quanto o quadro de Men-
deleíev6 ou o quadro dos carburetos saturados. Acontece que as espécies orgânicas,
segundo a genética molecular, se formam a partir das espécies químicas. Sendo esse
processo aparentemente automático, logo a "informação” dessas espécies orgânicas
estava então virtualmente contida nas partículas da estrela e, a seguir, nas moléculas
do planeta e nos seus tipos de ligações, assim como podemos elaborar todas as mon­
tagens possíveis a partir de um jogo de construção, ou assim como todas as possíveis
jogadas de xadrez podem virtualmente ser calculadas por um computador, ao qual fos­
se dado o tempo necessário - um tempo astronômico, apesar da rapidez da máquina -
para calculá-las.

5. Um cristal normalmente d periódico, isto é, do tipo: abc abc. Schiodinger pressentira que a repro­
dução dos organismos devia basear-se na reprodução de moléculas ordenadas de um modo não-repe-
titivo, como as letras de uma mensagem. (Nota de 1977.)
6. Classificação periódica dos elementos químicos, estabelecida em 1879 pelo químico russo Men-
deleTev (1834-1907). MendeleTev tivera a idéia de deixar neste quadro alguns compartimentos vazios
que deviam corresponder a certos oorpos desconhecidos cujas propriedades químicas poderiam ser
previstas. As descobertas do gálio, do escândio e do germânio logo vieram confirmar essa hipótese.
(Nota de 1977.)

71
Segundo a genética molecular, é um fato esperado ver os organismos se forma­
rem a partir de um “caldo primordial", num planeta que levou consigo os elementos
químicos desse “ caldo” - assim como é um falo esperado o aparecimento dos com­
postos ferro sos e dos sicaAos, ou o ascender de um fósforo por fricção.
O acaso desempenha algum papel no detalhe histórico do surgimento das formas
vivas, como no detalhe da formação das moléculas complexas ou no detalhe do acen­
der de um fósforo. Mas trata-se de um papel inteiramente subordinado.

As criações conscientes de Informação

Passemos agora da origem cósmica da informação para a experiência atual de


criação de informação, seja biológica (por mutação ou por erro de reprodução molecu­
lar), ou psicológica (pela invenção de máquinas, de obras de arte, de mensagens). Es­
ses dois tipos de aparecimento de formas não tôm entre si nenhuma relação concebí­
vel. Enquanto o filoxera luta contra os inseticidas do viticultor através de mutações for­
tuitas e inconscientes, o viticultor luta contra o filoxera certamente de uma outra manei­
ra, por meio de esforços conscientes. Um homem ou um animal esforçando-se náo é
um meio onde possam ocorrer mutações. Ao redigirmos uma carta, mesmo banal, não
estamos funcionando como uma máquina segundo ligações preestablecidas dentro da
estrutura do organismo, ou segundo falhas de funcionamento. Quando compomos uma
carta “originar, isto não ocorre de acordo com mutações cerebrais químicas da mesma
espécie que as mutações genéticas. Em nosso “aqui-e-agora” dominial, “subjetivo",
que abarcamos totalmente, tentamos fazer surgir compatibilidades ou incompatibilida­
des, segundo determinados temas e possibilidades. "Preenchemos determinados bran­
cos” de um quadro já apresentado ou imaginado. Compomos, em psicogênese, não
somente a partir dos resultados adquiridos de uma morfogônese orgânica e prévia, mas
também em continuação a essa morfogénese. Recolocando as coisas nos eixos, po­
demos dizer que é de fato e antes a morfogénese - que é toda a morfogénese que pre­
cisa ser interpretada como psicogênese. Se a evolução biológica pode ser "internaliza­
da”, é porque ela nunca foi “externa”.

Não se pode falar ou escrever pelo avesso, partindo-se do acaso

Uma outra maneira, entretanto, de evitar a contradição é estabelecer um paralelo


entre a teoria da invenção psicológica e a teoria das mutações fortuitas. Já se tentou
isso. A teoria mecânica da invenção representa o caso típico de uma "colocação das
coisas pelo avesso” por uma ciência por demais engenhosa. Ela consiste em sustentar
que toda invenção é devida, quando não a mutações genéticas ou somáticas, pelo me­
nos a acasos, e que esses acasos podem ser captados, não por uma consciência do­
minial, e sim pelas próprias ligações estruturais — no sentido mecânico da palavra, não
no sentido semântico.

O acaso, de fato, desempenha um papel importante, mesmo na invenção cons­


ciente de formas e de informação. As anedotas sobre o seu papel na invenção científica
ou estética enchem os tratados. Todo criador colabora com o acaso e, hoje, utiliza má-
72
quinas aleatórias, misturadores de sons e combinadores de linhas. Em certas épocas,
esta parte do acaso é reduzida ao máximo possível. Em outras épocas, o artista faz
questão de ser apenas uma espécie de introdutor discreto ou de apresentador terminal
do acaso.

As ligações markovlanas

Em vez de compormos uma mensagem inteligível numa máquina de escrever,


deixando de propósito, eventualmente, para que soe mais natural, um certo “jogo” no
uso das palavras, podemos partir do puro acaso - deixando, por exemplo, um autômato
bater inicialmente ao acaso sobre o teclado da máquina para depois ir reduzindo e
canalizando o acaso, com a introdução na máquina de ligações markovianas, onde as
seqüências das letras ou das palavras sejam conformes às probabilidades dentro do
idioma utilizado.

Uma cadeia de Markov é uma seqüência semifortuita: os elementos são escolhidos ao acaso,
oomo no jogo de cara ou coroa, mas com uma probabilidade definida de fransiçâo de um elemento para
outro. Se estabelecermos, por exemplo, que, depois de cara, coroa terá duas chances de aparecerem
cada três, e não uma em cada duas, e que, depois de coroa, cara terá uma chance em cada três, tere­
mos então uma cadeia de Markov elementar. A ligação markoviana pode ser feita de modo a se achar
dependente, não apenas do sorteio anterior, mas dos dois ou trôs sorteios anteriores. Independente­
mente do significado, a sucessão das letras numa mensagem inteligível e num dado idioma pode ser
considerada oonfonne a uma cadeia de Markov. Em francés, a legra q é sempre seguida poru; em in­
glês, t é seguido por h em mais de cinqüenta por cento dos casos. Em francés, depois de um /, a proba­
bilidade de se ter um u é bastante reduzida (existem apenas algumas palavras: sciure, reliure, diume); o
h é precedido por c em quase a metade dos casos; o s é de preferência, seguido por t quando há um e
antes do s, sendo que Isso nunca acontece quando há uma consoante antes do s.
O autômato escritor, diante de uma máquina não “seqüenciada" de princípio markoviano, come­
ça a produzir primeiro: w l - l d q v h r n m j x h i d ? - z e .
Em seguida, se o teclado foi montado de modo a levar em conta as ligações prováveis, em
francês, com a letra anterior, pode-se obter alguma coisa desse tipo:
agüe po paurer le sous Igelique.
Depois, levando-se em conta as seqüências prováveis com as três letras anteriores [em
francês], teremos algo como:
les net Pourra ten danges leurs organiements, et ent fait
Ou, em Inglês:
in no ist lat why eracüct froure birs grocid ponde name of demonstraturos ofthe Reptagin is.
Esse “ Reptagin” ô quase digno do Jabberwocky de Lewis Carroll,7 observa G. A. Miller, que
fomeoeu o exemplo que apresentamos.
Entretanto, segundo os Gnósticos, ô pouco provável que o dinossauro tenha nascido de umjogo
de azar desse tipo, apesar da semelhança formal que existe entre uma montagem markoviana numa
máquina de escrever e o comportamento das moléculas pré-vitais replicativas capazes de reconhecer-
se entre si pelo processo de encadeamento, e de formar complexos náo-covale rites.
Podemos, por último, introduzir na máquina de escrever ligações de ordem superior segundo as
seqüências prováveis das palavras e seguido certas regras de sintaxe. Podemos também programar

7. Cf. H. Parisot, Lewis Carroll, París, Seghers.


73
certas coerências quase temáticas através de seleções seqüenciadas de “registros”. Podemos assim
obter textos gramaticalmente corretos que apresentem, quando náo um sentido geral, pelo menos uma
aparência de sentido e de informação coerente.8 Poemas fabricados segundo esse sistema não são
m uito mais estanhos do qué tantos outros.9 Discursos fabricados com ummisturador de expressões em
voga não parecerão mais vazios do que muitos discursos potfMcos mediocres. Certos literatos sofistica­
dos masdentiffcamentB ingênuos consideram queoflnodofino, em Ittarafajra, ó produzir textos que náo
tenham outo propôsIo senão o de serem textos, textos-objetos (“ estruturalisino em ação” , conforme di­
zem), textos onde a palavra cria a linguagem que a toma dedfrável como palavra, sobre pseudo-temas
tais oomo os que poderiam ser fabricados pelo cérebro de um esquizofrênico ou por uma máquina de
compor textos. O surrealismo produziu pseudo-sentidos e às vezes uma expressividade náo isenta de
um certo poder de atração, partindo do acaso ou do semi-acaso martovtano, e suas produções náo sáo
piores do que oertas obras inteligíveis cujo significado não interessa a mais ninguém vinte anos depois
de su a produção (jaois, de qualquer maneira, a cultura humana de que tanto se orgulham os homens
náo é multa coisa dentro da vastidão do universo).

Assim sendo - e é este o ponto importante - partindo do acaso, o autômato in­


consciente parece, graças às ligações markovianas, reaproximar-se assintoticamente
do significado.
“No princípio era o Verbo", diz São João - e a Gnose.
Não, respondem os antignósticos: “ No princípio era a letra (ou melhor, as letras)
de onde nasceu o Verbo.”
“No princípio era a Vida, a Vontade.”

Não, respondem os biólogos antignósticos: "No princípio eram as Moléculas au-


to-reprodutoras, de onde surgiu a Vontade de viver.”
“No princípio era a Ordem, ou o Grande Ordenador, ou o Antiacaso, ou a Cons­
ciência, ou a Subjetividade cósmica”, dizem os Gnósticos.
Não, respondem os cientificistas: “ No princípio era o Cego absoluto, a Desinfor­
mação, de onde surgiu a Informação inteligível depois de ter-se formado, por puro de­
terminismo, um grande Computador material."

O passe de mágica antignóstico

Qual o segredo do passe de mágica antignóstico? Consiste no fato de os an-


tignósticos pretenderem que o acaso se canaliza por si mesmo sem canalizador; que
ele capta a si próprio sem captador, escolhe sem escolhedor, seleciona sem seletor, ou
que os captadores, canais, escolhedores e seletores se formam às cegas, captando e
selecionando às cegas.
Ora, um domínio de subjetividade, de consciência, é o único captador possível,
quer ele atue diretamente ou por ligações impostas e interpostas. Voltemos à situação
do Autômato escritor.

0. Exemplo: ”We are going Io see him is not corred to chuckle budly and depart from home... [Va­
mos vé-lo náo 6 correto rir por entre os dentes oomo criança e sair de casa...]
9. Exemplo: Bulletin de versement tout mon sang et l'intelligence grats je ne veux ríen fichez-moi la
paix ni crier ni me taire ni chimique vulgarité de 1‘absolu..
["Ficha de depósito todo meu sangue e a inteligência grátis não quero nada deixem-me em paz nem
gritar nem caiar nem química vulgaridade do absoluto.."] (Tristan Tzara).

74
Primeiro caso: O autômato bate ao acaso sobre um teclado, sem nenhuma co­
nexão markoviana. Mas, atrás dele está um homem querendo compor uma mensagem
inteligível, cuja idéia ele já tem, visto que ele a formulou em seu cérebro. A mensagem
pode, por exemplo, ser a seguinte: “No princípio, era a subjetividade cósmica." Ou seja,
uns cinqüenta sinais e espaços em branco. Se o homem aguardar, sem interferir, que o
autômato consiga compor essa mensagem de uma só vez, ele terá de aguardar mais
de mil bilhões de séculos (ou seja, muito mais do que a presumível duração do cosm o).
Mas, se ele escolher uma após outra as letras certas, eliminando (mental ou fisicam en­
te) as erradas, poderá ir quase tão rápido como se ele fosse bater diretamente sua
mensagem. Há oitenta e quatro sinais. Podemos supor que o autômato dá uma batida
no acaso a cada segundo e pode, portanto, bater em média uma letra certa em dois mi­
nutos. A mensagem poderá então ser elaborada em menos de duas horas.
Nesse caso, a existência e o papel do Escolhedor tomam-se evidentes. Muito
superficialmente, o Autômato é que é ativo (ele toma a iniciativa da batida), e o Esco­
lhedor é que é passivo - ou negativamente ativo (ele aguarda as letras certas e limita­
se a eliminar as erradas). De um ponto de vista menos superficial, é óbvio que tudo o
que existe de mais positivo e de positivamente ativo nesta história é devido ao Esco­
lhedor.
Segundo caso: O Escolhedor pode, também, tentar eliminar a si mesmo progres­
sivamente, tornar-se cada vez menos indispensável, aplicando ao Autônomo escritor
limitações e conexões markovianas tiradas de estatísticas entre as seqüências das le­
tras e palavras no idioma utilizado. Ele se afasta e aguarda. O Autômato fará, então,
num tempo muito breve, uma frase que terá, em inglês ou em francês, a aparência de
uma frase, para um leitor muito distraído. Mas será tão difícil como no primeiro caso ele
conseguir fazer a frase inteligível que o Escolhedor tinha em mente. E, além do mais, se
o Escolhedor voltar e tentar escolher entre as produções do Autômato, ao qual foram
aplicadas limitações markovianas, ele não poderá ser tão rápido em suas escolhas
como o seria com o Autômato batendo ao acaso letras desconexas. Ele será impedido
ou arrastado, sem querer, pelas montagens auxiliares.
Porém, em ambos os casos, a tarefa acaba sempre sendo concluída, não pelo
acaso sozinho - o qual não poderia fazer nada - , mas pela consciência que escolhe,
que elimina ou conserva. A única diferença é que, no segundo caso, a consciência es­
colhe conexões de acordo com sua experiência prévia do inglês ou do francês, e acaba
fazendo as vezes das mesmas, limitando-se em suas possíveis escolhas atuais. A
consciência poderá achar vantajoso acrescentar ou diminuir o número de conexões
canalizadoras, conforme a natureza da sua tarefa. Se ela se contenta com um resulta­
do aproximativo, as conexões são vantajosas. Mas se ela deseja realizações precisas
de alguma idéia prévia, nesse caso, ela precisaria de um máximo de desconexão.
Como se sabe, imprimia-se muito antes de Gutenberg. Sua invenção foi a de
dessolidarizar os sinais. O tipógrafo vai muito mais rápido pegando as letras em seus
respectivos compartimentos do que procurando palavras ou seqüências já prontas.
Mas, ainda é preciso uma consciência captadora, seja o acaso puro ou canalizado de
antemão por uma consciência que escolheu montagens markovianas, em vez de esco­
lher tiragens totalmente aleatórias. A consciência poderá estar momentaneamente au­
sente se ela montou captadores automáticos que a substituem: armadilhas, composito­
res automáticos, captadores de flutuações, canalizações, etc., que podem funcionar
75
serr e la . Mas ela teve de estar presente para escolher o tipo de funcionamento e o “jo­
go" aleatório no funcionamento em si.

O paralelismo entre o aparecimento da informação e o aparecimento “ locar de antl-entopia10 é


mullo esclarecedor. O exemplo de se colocar um recipiente contendo água morna sobre o fogão apaga­
do 6esperar que a água congele no fundo do recipiente enquanto ferve na superficie- e Isso sem po­
der escolher, como a mlcrooonsciéncia do demônio de Maxwell,11 as moléculas apropriadas - 6 tão
inúll quanto esperar que o Autômato escritor elabore uma frase ínteligfveL Colocar água morna num
aparaiho d e reMgeraçAoe esperar que ela congele ó, ao contrário, perfeitamente normal -assim como
â normal esperar enoonfrar, no verão, cubos de gelo dentada bebida que nos é servida e, no inverno,
uma onda de calor vindo do aquecedor de um apartamento situado num imóvel bem construido. As má­
quinas e suas montagens interpostas, exfraem para nós calorias "antí-Camot” ou “frases energéticas
ínleUgtois” , cujos detalhes sintáticos, nessa circunstância, pouco nos importam. O que é humanamente
improvável (e causa escândalo) ó um aquecedor frio e um líquido momo dentro do refrigerador.
M as seria uma brincadeira concluir. “Já que basta uma máquina montada adequadamente para
tomar provável o Improvável, podemos entâo explicar mecanicamente o aparecimento da ordem
energética, bem como o surgimento de foimas orgânicas e de informações inteligueis. A consctônda
que escolhe, humana, infra-humana ou supra-humana, pode então ser eliminada do cosmo."
Num universo democrfUco de átomos desconexos e uniformemente "momo”, não há nenhuma
possibilidade de se formar gelo. Mas ó também remota a possibilidade de se formar alguma máquina
tigoiffica capaz, mais tarde, de tomar provável e natural a formação do gelo.

Os Autômatos marfcovianos no cosmo

A s máquinas, montadas por uma consciência, com um jogo nas ligações de


acordo com certas conexões markovianas, mais se parecem com máquinas de inven­
tar do que com máquinas de calcular com precisão. Náo deixam de ser, entretanto,
“substitutas", fazendo as vezes da consciência, e só tôm sentido através da cons­
ciência.
O músico apaixonado por música aleatória pode fazer um computador compor
uma música pseudo-bachiana. Pode também inventar uma sintaxe musical de acordo
com o seu gosto e aguardar o resultado. A música não tem o significado preciso de
uma frase utilitária, mas apenas o significado impreciso que ó a expressividade. Seu
jargfio markoviano e a miscelânea de temas que apresenta poderão, então, ser indis-
cernfveis para o ouvinte de uma música inventada diretamente segundo temas "senti­
mentais” . Simplesmente, ela deixa de ser interessante. Mas, de qualquer modo, é indis­
pensável que haja uma consciência, tanto para captar ou visar alguma expressividade,
como para visar ou captar algum significado.
Os Autômatos markovianos, numa primeira aproximação, dão a chave do que
chamamos de natureza, em relação ao Grande Informante - ou à Consciência primor­
dial. Deus não parece assemelhar-se a um megantropo vigiando um universo mecânico
e aleatório, como o homem situado atrás do Autômato que bate letra por letra, vigia ca­
da letra certa. Ele não parece ser nenhuma Providência integral que utilize ao mesmo

10. Ver nota 1,p. 166.


11. Esto demônio supostamente deve selecionar as moléculas de uma mistura, manobrando uma
comporta sem massa, de modo a desmisturá-las e a diminuir a entropia. (Nota de 1977.)

76
tempo, para sua criação, leis universais, montagens gerais, por um lado e, por outro,
acasos ínfimos, históricos e individuais. Por que razão Deus iria trapacear, montando
aparentes jogos de azar para depois alterar esse azar, fazendo por exemplo os cro­
mossomos x y escolherem, na base de cara ou coroa, menino ou menina, e depois al­
terando esse resultado para fazer nascer um menino desejado numa familia de que ele
fosse cuidar em particular? Os fatos levam, antes, a acreditar que a Consciência pri­
mordial utiliza o método markoviano de invenção, sem recuperações falsificadas, dei­
xando a natureza falar seu próprio jargão, pelo menos dentro de amplos setores.
Isso é particularmente marcante nas formas vegetais. Um pinheiro, uma bétula,
um plátano e um salgueiro formam uma cadeia de Markov completa. Conforme a espé­
cie, cada ramo cresce segundo uma probabilidade definida de subir ou de descer, de bi­
furcar ou de crescer, única e retilínea. Cada espécie tem seu próprio jeito, seu próprio
estilo, dirigido pelas montagens materialmente inscritas em seus genes ou fixadas em
sua memória. As mutações genéticas eventuais não modificam diretamente sua forma,
mas modificam as montagens que levam à forma, e as próprias mutações são marko-
vianas, no sentido que elas são ao mesmo tempo livres (ou probabilísticas), canaliza­
das, e não simples mutações indefinidas.
Os animais são menos markovianos, exceto em seus órgãos ornamentais. Estão
mais estritamente sujeitos ao sentido (utilitário) de seus órgãos vitais. É o conjunto dos
seres vivos que tem um jeito markoviano - daí a comparação natural com a Árvore da
Vida, ou com o caráter “piramidalMde cada espécie.

O mesmo ocorre com as produções e obras dos seres vivos, principalmente com
os idiomas. O inglôs não foi criado a partir de um pseudo-inglês fabricado por máquinas
aleatórias, e sim, criou a si próprio através de semi-automatismos conscientes (a pala­
vra importante, aqui, é “conscientes"). Se podemos fazer um pseudo-inglês em cadeia
de Markov, é porque o inglês, como todos os idiomas, é parcialmente markoviano, ao
mesmo tempo em que 6 estruturado unitariamente numa consciência improvisadora.
Os hábitos fonéticos e semânticos predominantes nos seres falantes, suas montagens
psíquicas e biológicas, suas escolhas habituais conferem a cada idioma uma carac­
terística que pode ser reconhecida de longe, como a silhueta de um pinheiro ou de uma
bétula. Um desenhista consegue imaginar facilmente um salgueiro ou uma bétula, fa­
zendo atuar livremente - mas conforme suas “montagens” habituais - o tipo salgueiro
ou o tipo bétula. Um computador faria o mesmo, e poderia fabricar também ornatos do
tipo maia ou asteca - com a condição de que um engenheiro tenha analisado as
seqüências prováveis desses ornatos, e tenha programado o computador de acordo
com essas seqüências. Poderia também fabricar histórias, contos épicos, seqüências
dramáticas ou mitológicas, arquiteturas barrocas ou românticas, e até mesmo vegetais
fantásticos - enfim, toda uma natureza e toda uma cultura pelo seu lado avesso, vazia
de significado e sem vida, parecida com a natureza viva e consciente, da qual teria em­
prestado, tomando-os mecânicos, seus processos.

77
Capítulo VIII

OS ESCOLHEDORES INCORPORADOS

Vamos repor a natureza na sua posição correta. O Escolhedor, humano ou so­


bre-humano, situado atrãs do Autômato escritor e que escolhe as letras certas ou as
montagens markovianas certas, de modo que o Autômato escreva alguma mensagem
ou algum poema significativo, ô, portanto, capaz, por sua vez, de escrever diretamente
essa mensagem ou esse poema. E mais: o organismo do Escolhedor vivo formou-se,
por sua vez, no universo do espaço e do tempo, sem que houvesse ainda, atrás dele,
aparentemente, nenhum Escolhedor megantropo, distinto dele, riscando suas "letras er­
radas”. Ê preciso, entâo, que haja em seu organismo visível algum Escolhedor incorpo­
rado invisível, fazendo sua escolha entre os resultados dos jogos de azar, mais ou me­
nos canalizados, do organismo observâveL Com efeito, a dualidade Airtômato-Escolhe-
dor existe em todo organismo vivo, mas sob uma forma mais sutil do que a imagem do
Autômato datilógrafo e do homem situado atrás dele, ou do que o mito análogo de um
deus esculpindo a argila orgânica.

O cérebro como conversor espaço -» transespadal

Sabemos que as informações mudam facilmente de suporte. As palavras faladas


são veiculadas pelas ondas aéreas; depois, pelas correntes elétricas moduladas do fio
telefônico; depois, reconvertidas em ondas aéreas e, em seguida, em correntes nervo­
sas dentro dos nervos acústicos. Ao chegarem na área auditiva do cérebro, as pala­
vras são ouvidas e entendidas. As palavras escritas sâo lidas quando passam do papel
para a área visual.
Enquanto os suportes materiais - ar, papel, cera, fio elétrico - deterioram a in­
formação, o suporte cerebral, embora às vezes também possa deteriorar a informação
quando ê incompetente e perde o significado, em geral é capaz não apenas de conser­
var esse significado mas, se necessário, de restaurá-lo. Ele é antiacaso, ele é anti-ruí­
do. Apresentemos esta seqüência de letras para serem lidas:
EPI - NHIPO - TANOPAL
Sem nenhum terceiro olho occipital, pelo simples efeito de “superfície absoluta”
da área visual em seu “lado direito", o conjunto dessas letras já possui certa expressi­
78
vidade. Basta então sugerir a palavra “árvores” , e lê-se quase imediatamente: ip ê , pi­
nho, plátano.
Podemos até perceber isso espontaneamente, sem a ajuda do “ ponto” — como
se toda consciência dispusesse de um ponto íntimo, que lhe desse os significados.
A leitura é relativamente indiferente à combinação fortuita das informações. E la é
restauradora e criadora, contanto, apenas, que as informações presentes sugiram seu
sentido geral: o sentido sugerido restaura e regenera seus suportes mutilados ou m istu­
rados. A desordem objetiva dos elementos de informação, quando trazida para a área
visual ou auditiva, transforma-se virtualmente em ordem, antes mesmo que a desordem
seja efetivamente reparada. Se estou procurando pregos misturados com parafusos, ou
percevejos verdes misturados com percevejos cor-de-rosa, eles se apresentam com
toda a evidência: a desordem objetiva (entropia) torna-se ordem virtual dentro do meu
campo visual, antes mesmo que eu tenha feito um só movimento visando escolher, ar­
rumar e diminuir, fisicamente, a desordem contra o princípio de degradação automática
da energia.
Diante do nosso exemplo, podemos ainda chicanear, apelando para a ação de
uma memória estocada em algum canto do cérebro. Podemos alegar que um computa-
dor-leitor, com memória, também poderia reconstituir o texto embaralhado, procurando
nessa memória palavras estocadas corretas, se ele fosse programado para não levar
em conta a ordem das letras constituintes. Porém, ao conceber a idéia do seu quadro,
Mendeleíev não tinha na memória a lista dos elementos químicos que presumia enqua­
drarem-se nos espaços em branco do quadro. Um teste psicológico, contendo figuras
arbitrárias num quadro matricial, onde se deve preencher os espaços vazios, não pode
ser um teste bem-sucedido com a única ajuda da memória. Seria preciso, então, acres­
centar ao computador com memória uma máquina de induzir e de extrapolar. Essas
máquinas existem (matrizes de Steinbuch). Mas, novamente, o sentido, ali, é "executa­
do” , e não assume a característica de tema.

Os quadros conscientes auto-restauradores dão a chave de toda a criação de in­


formação. Essa não se produz à maneira de uma mancha de óleo, por preenchimento
em cadeia dos vazios (ou então, esse efeito secundário de mancha de óleo é devido à
superfície grande demais do quadro, como num jogo de palavras cruzadas, gigante ou
não, onde é preciso começar por algum canto). Aquele que estivesse operando à ma­
neira de uma mancha de óleo para preencher a matriz do teste psicológico estaria sujei­
to a enganar-se, como também a cometer erros de ortografia. (Antigamente, os profes­
sores de primário, na França, mandavam repetir sem parar: “Jes diante de um verbo
não altera a conjugação do verbo” ; eles queriam evitar, na consciência da criança, o
efeito de “mancha de óleo").
A criação de informação se faz através de uma relação estabelecida, não entre
um “aqui” no espaço e um outro “aqui” vizinho, mas entre o conjunto do domínio espa­
cial com um ualém do espaço”, que é a “ região do significado, ou da expressividade, ou
ainda do tema ideativo ou relacionai.

No teste clássico que consiste em “ achar o intruso”, por exempla ipê, pinho, plátano, trigo, co­
mo no teste que consiste em “ preencher um espaço em branco", ó indispensável: a) perceber, alavés
dos elementos de hífonreçAo apresentados, qual o tema, a Idéia, a relação generativa; b) a partir do
tBma, descer novamente para as Informações fornecidas a fim de completá-las, ou retificá-las.

79
D ú v id a s podem ocorrer com freqüência, ás vezes impossíveis de resolver.
S e m p re será possível, teoricamente, atribuir um tema diferente daquele que nos parece ser o
tema n a tu ra l É arriscado corrigir um texto que oontóm erros (embora a hesáaçáo multas vezes náo seja
permitida.) quando não há contexto suficiente com superabundânda de Indícios (redundâncias). O equí­
voco das correções justamente expMca os muHoe erros de reprodução, os quais, ao se acumularem, ta-
zem as le n ta s evoluçâes das espécies vivas e das diferentes cukures. Por “reprodução”, é preciso en­
tender u m a reprodução consciente, e não um simples decalque materiaL
O b tootoo matriciais mullas vezes sáo equípeos. Como também os testes de “achar o inkuso” .

■ □ O □ □
T o d a s as figures acima são “ inüusas", até mesmo o pequeno quadrado oco de traços cheios, o
único a apresentar-se sempre como a maioria: pequeno, oco, quadrado, de traços cheios.

9 O
N A o, o intruso náo é a menina, é o triângulo, a única figura masculina.
E a q u i temos um teste-matiz equívoco:

a b ab

c d cd

ac bd ?

acbd ou abcd ?

De qualquer modo, 6 inútil imaginar que tudo pode ser explicado por meio do úni­
co plano do espaço, e que podemos dispensar a dualidade espaço-transespaço. O cé­
rebro vivo é “ suporte mágico”, em contraste com os suportes materiais: papel, ar, fio
elétrico, pois ele estâ em relação, em estado de tensão bipolar, com a região do tran-
sespacial; ele 6 uma superfície absoluta unitária (sem nenhum ponto de supervisão ex­
terior), ao mesmo tempo em que é uma superfície “material” onde os elementos de in­
formação podem projetar-se como se fosse sobre uma tela.
Esta dualidade superfície m aterial = superffcie-em-ressonância-com -a-região-
dos-tem as-significativos, desempenha o mesmo papel que a dualidade Autômato escri­
tor teclando ao acaso e homem atrás dele escolhendo as boas letras.
Se o homem é um poeta original e escreve diretamente sua mensagem poética,
ele se desdobra. Seu cérebro, como máquina nervosa com memórias semimateriais e
de funcionamento sem ¡-automático, fornece-lhe materiais num fluxo verbal semi-orde-
nado. Mas, como superfície absoluta relacionada com a região dos temas e das idéias,
ele faz uma escolha entre esses materiais (procurando, se assim o exigir a moda, dei­
80
xar bastante desordem e, até mesmo, aumentá-la, para dar a im pressão da vida - mais
expressiva do que insipidamente significante).

O cérebro vivo é "suporte mágico” das informações m aterializadas que ele rece­
be porque realiza, sob uma forma mais sutil, a dualidade “ consciência escolhedora e
autômato teclando ao acaso” . Ele é superfície, ou domínio, ou tela material no espaço
mas, pela sua unidade dominial absoluta, está em ressonância com a “ região" transes-
pacial dos temas significativos. Um homem, seja ele poeta ou não, está sempre em diá­
logo consigo mesmo. Ele se faz perguntas: “O que isto significa? Com o isso pode ser
feito?” Ele se informa ativamente. Ele se faz perguntas e o faz sobre todas as coisas.
Ele “se pergunta se...". E esse diálogo é um vaivém contínuo entre o espaço e o sobre-
espaço, entre o significado e a ordem ou a desordem material.
O cérebro vivo é um conversor de dupla direção: dos temas em figuras e das fi­
guras em temas. Assim como um dínamo converte o movimento em corrente e a cor­
rente em movimento, o cérebro converte a informação tematizada em informação estru­
turada, e inversamente.
O tema das palavras pronunciadas ou ouvidas, que opõe-se às palavras realiza­
das (transformáveis por máquina em corrente modulada), ó uma forma "potencial" de
informação materializada. Representa, relativamente à informação que interessa a um
engenheiro das Comunicações, uma quase-informação, invisível, que ele não pode ob­
servar. Mas, é evidente que não se trata de uma não-informação, ou de uma desinfor­
mação ou degradação de informação já que, segundo o princípio de Shannon, a desin­
formação por rufdo-de-fundo não se converte por si só em informação, ao passo que a
informação-sob-fomna-temática-ou-potencial acaba reconvertendo-se (através do cére­
bro e do organismo) em informação estruturada, ou reconstituindo a estrutura, mesmo
que esta se encontre um tanto deteriorada.
Na ordem da vida em geral (e não mais apenas da vida cerebral consciente), é
impossível alguém confundir uma informação potencial, temática, com uma desinfor­
mação. Um ovo de galinha ou uma galinha embrionária não pode ser confundida com
uma galinha-que-se-tornou-cadáver-de-galinha, por decomposição. O ovo reconstitui
uma galinha viva, com a ajuda do memento genético. A galinha morta não ressuscita
mais.
A informação, no sentido habitual da palavra, é dupla, ao mesmo tempo espacial
e transespacial, e a análise do engenheiro ou do químico biólogo é que é o artifício. O
significado não é nenhum fantasma invadindo a estrutura espacial; é um constituinte
ativo essencial. Falar em conversor “mágico" ou “feérico", como os Gnósticos gostam
de dizer, fazendo alusão ao jogo de xadrez de Lewis Carroll (que inventara regras e
peças novas), é, da parte deles, uma simples brincadeira provocadora. Pois, na verda­
de, é toda informação, e toda forma auto-subsistente - portanto, toda a natureza quan­
do não a vemos pelo seu avesso como o faz o douto engenheiro- que é “mágica” ou
“feérica” . A informação mecânica é apenas uma informação mutilada, uma perna
mecânica que seria confundida com um ser que anda.

81
Capítulo IX

O ORGANISMO É UM CÉREBRO PRIMÁRIO

É um tema absurdo, observam os Gnósticos, mas já havíamos desenvolvido


pessoalmente este tema antes dos Gnósticos,1 considerando o cérebro, e o sistema
nervoso em geral, como um órgão de fabricar consciência, fazendo com que um orga­
nismo, onde supostamente não houvesse consciência, se tomasse consciente graças
a esse ôrg&o. Em seu anverso, todo organismo assim como toda forma individualizada
é domínio de consciência. O cérebro é um órgão que recolhe os elementos materiais de
informação vindos do mundo exterior e, ao recebê-los sobre um tecido vivo, os faz par­
ticipar da “subjetividade" do domínio orgânico. Ele faz assim surgir, dentro da cons­
ciência que o organismo tem de si mesmo e através da qual ele “vê" sua própria forma,
uma consciência perceptiva que o faz ver a forma de objetos externos. Ele ê o suporte
mágico das informações recebidas, porque oferece a essas informações materiais a
"subjetividade dominial" inerente a todo organismo.
Os organismos sem cérebro nem sistema nervoso manifestam com evidência
que têm consciência da sua própria forma, tendo comportamentos formativos e ativa­
mente adaptados, e não simples funcionamentos. Em seu desenvolvimento, eles regu­
lam os incidentes quando esses não são muito graves. Preparam o futuro através de
esboços. Reservam-se certas chamadas mnêmicas oportunas através de todo um sis­
tema de evocadores químicos que, aos olhos do cientista objetivista, apresentam-se
como “disparadores materiais", mas que, dentro do embrião verdadeiro, “ no anverso”,
devem atuar como um cheiro consciente, evocando alguma ação instintiva.
A embriologia é uma criação ou recriação tematizada, apoiada em seus detalhes
por mecanismos auxiliares que a reativam por encadeamento. É semelhante ao preen­
chimento de espaços em branco num jogo de palavras cruzadas complexo que tivesse
um tema dominante com subtemas ordenados entre si por uregiões". Uma embriogêne­
se olerece, em pequena escala, um exemplo de domínios em chaves, semi-autõnomos,
onde cada um recebe uma missão de um domínio supra-ordenado, a executa com inte­
ligência, distribuindo por sua vez missões mais especializadas.

1. Raymond Ruyer. Paradoxos de Ia conscience e limites de 1'automatisme. Albin Michel, Paris.


82
A área embnonária que, a partir do esboço nervoso, forma o sistema nervoso eo
cérebro, é um desses domínios subordinados. Aparece no embrião primitivo, n a néuru-
la, como em todas as demais regiões, sem nenhuma animação especial. Sua missão,
ou determinação, consiste em colocar-se como receptor das informações exteriores e
como quadro vivo para os esquemas de comportamento do organismo. Ao passo que
as outras áreas têm por missão apenas estruturar-se, segundo a memória orgânica, uti­
lizando informações internas auxiliares e a mnemotecnia do sistema genético, de modo
a transformarem-se - com algum fundo subsistente de comportamento autônomo - em
instrumentos a serviço dos esquemas de comportamento elaborados no “computador’’
cerebral. O cérebro, montado como um computador, não é mais consciente do que
qualquer computador material. Ele é consciente, como todo o resto do organismo, na
sua qualidade de tecido vivo - como superfície matricial. Simplesmente, o cérebro é
uma área da “superfície orgânica” destinada ao tratamento das informações externas.
O cérebro não faz surgir por milagre a consciência, a inteligência, o comporta­
mento orientado, dentro de um universo inepto e cego, e num organismo táo inepto e
tão cego quanto esse universo. Ele faz com que a organização instintiva e inteligente
que já opera no organismo, transborde para o mundo exterior. Quando inventa, através
de técnica externa, só o faz seguindo o mesmo processo de invenção orgânica pelo
qual ele mesmo primeiro se formou, e de acordo com a mesma lógica matricial.
Assim, não é de se estranhar se as máquinas externas tão freqüentemente se
parecem com as máquinas internas, e se já existem bombas, retortas, filtros, pilhas elé­
tricas, aparelhos de navegação ou reguladores com feed-back em organismos sem cé­
rebro, ou tora do cérebro. Não é de se estranhar se a história social das técnicas se
parece com a história das espécies e de seus órgãos, ou se determinado órgão se pa­
rece com alguma ferramenta.

Uma consciência, ao fazer sua escolha segundo determinado tema, não pode es­
tar totalmente ausente do organismo em formação, para só aparecer depois da consti­
tuição - supostamente sem nenhuma temática consciente - do cérebro. Seria como
admitir que um rio seco é capaz de transbordar e inundar as planícies vizinhas, fertili­
zando-as. A consciência cerebral criadora não pode nascer num organismo que, por
sua vez, fosse derivado de algum funcionamento mecânico cego e que elaborasse,
sem o saber e de modo não-intekgente, algum órgão capaz de inventar.
Capítulo X

A EVOLUÇÃO BIOLÓGICA TEM UM ANVERSO

O Seietor, segundo a tese da seleção automática, não é um espirito, urna mente


ou consciência; ele 6 simplesmente a natureza, ou a necessidade natural.1 Mas a natu­
reza (ou a necessidade) pode ser entendkJa de duas maneiras:
1. Cada espécie encontra na natureza, como uma espécie de molde cóncavo, um
lugar onde consegue subsistir. A natureza elmina toda forma que esteja fora do seu lu­
gar possível, e favorece toda forma bem encaixada dentro do molde “ecológico". Cada
ser pode ser explicado por todos os demais. A natureza 6 uma espécie de quebra-ca-
beça compacto onde cada peça se encaixa, onde os espaços em branco provisórios
acabam preenchendo-se automaticamente, por pressão lateral e não por alguma feliz
descoberta, onde as informações resultam de uma espécie de recorte da superfície
preenchida, num espaço onde cada forma é desenhada pelos contornos das formas vi­
zinhas.
2. Não nos deteremos nessa interpretação que ó apenas um subterfúgio lógico e
é contrária aos fatos. Na realidade, os seres vivos têm iniciativas de comportamento.
Eles têm preferências para determinado alimento ou determinado abrigo. Tais preferên­
cias implicam novos modos de comportamento, que modificam o meio utilizável ao
mesmo tempo em que dependem - mas com muito “jogo"- das modificações do meio.
A natureza só ô seletiva de modo secundário. A direção da escolha depende das inicia­
tivas da espécie, a qual improvisa, com dificuldades no início, algum comportamento
inabitual, e depois se adapta, graças a certos padrões de acomodação mais fisiológicos
que anatômicos (brânquias desenvolvendo-se numa água pobre em oxigênio, músculos
atrofiando-se na ausência de gravidade) e, depois, graças a certas mutações de sus-

1. Os Gnósticos matemáticos encontraram, na teoria seledonista, certos erros incontestáveis em re­


lação, náo ao cálculo das probabilidades, mas às condições ortodoxas da sua aplicaçáo. Segundo eles,
os cálculos da probabilidade das mutações favoráveis estáo errados. Sobre este ponto, nos limitaremos
a remeter o leitor ao nosso artigo: “ Les postulats du sélectionnisme" (fíevue Philosophique, 1967).

84
tentação e consolidação que fixam esses padrões de acomodação nos mecanismos
genéticos (como as calosidades que aparecem nas partes da pele onde a avestruz se
acocora, onde o javali africano “se ajoelha" para escavar; ou como a curvatura da re­
gião cervical da foca, facilitando o nado de cabeça erguida).
As iniciativas de comportamento sempre desempenharam um papel fundamental
na evolução. Os peixes dipneustas rastejaram sobre a terra firme, levando assim ao
aparecimento dos anfíbios. Certos insetívoros primeiro pularam, depois planaram e por
fim voaram. Certos mamíferos terrestres começaram a alimentar-se de peixes e a mer­
gulhar. Inúmeras espécies preferiram parasitar outras espécies. Pré-homens acostu­
maram-se à marcha bípede, utilizaram sua laringe para emitir sinais vocais. As mu­
tações surgiram a partir daí. E, não foi o meio, como molde côncavo, que desempenhou
a função de "programa” , regulador e captador das mutações fortuitas; foi - admitem os
genetícistas - o novo comportamento escolhido.
Mas, assim, voltamos à situação normal da Consciência que escolhe os acasos,
da Consciência que controla automatismos subordinados. É fácil entender que as ex­
plicações pela seleção natural sejam tantas vezes calcadas sobre as explicações pela
divina Providência, e não exijam muito mais esforço dos biólogos para a interpretação
das finalidades de fato constatadas. É fácil entender que se possa substituir, em todas
as frases, "a Providência” por “a Seleção" (ou inversamente). O esquema dos dois ti­
pos de explicação é o mesmo: uma Consciência dominial e tematizante, que inventa di­
retamente, ou que controla e utiliza acasos e mecanismos subordinados. Em ambos os
casos, há sempre uma Consciência que antecipa e escolhe, tenha ela ou não de espe­
rar pacientemente mutações consolidantes.

A teoria da Seleção natural só pode substituir o conceito de uma consciência di­


vina, não apenas primordial, mas única, escolhendo a forma de todos os organismos,
pela idéia de que cada espécie viva, em sua consciência psicobiológica, escolhe ela
mesma seu comportamento dentro dos limites das formas já adquiridas e, conseqüen­
temente, orienta a loteria genética. Passamos assim de uma Consciência única - cujo
âmbito é vasto como o mundo, e que estaria regendo não apenas as estruturas gerais
do espaço-tempo, não apenas a habitabilidade e a adaptabilidade gerais, mas também
as estruturas adaptadas dos domínios subordinados - para uma multidão de consciên­
cias, em chave, onde cada uma recebe e também modifica sua própria missão.
O erro está em achar que a seleção natural dispensa qualquer intervenção da
consciência.
A seleção ô, sem dúvida, muito eficaz. A eliminação é peremptória, mais perem­
ptória do que a rasura de uma palavra - a qual ainda pode ser reconsiderada pelo ho­
mem que vigia o Autômato. Mas ela só vale para construir, sob o âmbito de um tema
consciente. A neogenética descobriu em resumo que, ao contrário do lamarckismo
ingênuo,2 um tema consciente orgânico não tem o poder de modificar a forma milagro-

2. Lamarckismo: Teoria proposta por Lamarck (1744-1819), criador do transformismo, para explicar
a evolução; baseava-se em duas regras, que não resistiram à experiência: a regra do uso e do nSo-uso
(a necessidade cna o órgão, etc.), e a regra da hereditariedade dos caracteres adquiridos. (Nota de
1977.)

85
s ámente, mas deve aguardar, como o Escolhedor atrás do Autômato, os felizes acasos
d«sse Autômato interno que é o sistema genético, em vez de “escrever” diretamente no
e spaço.

O Seletor ativo pode ser uma consdéncia distinta da consdénda do organismo envolvido. Exis-
tsm , ocmo sabemos, seleções desse tipo na natureza, antes do aparedmento do criador humano. As
lo re s s s u a s lormas muitas vezes curiosas equase>signiflcanleslflm sido selecionadas pelos insetos e
p o r seu campo visual ou olfativa Os ornamentos sexuais tém sido selecionados pelo campo visual dos
radMduos do sexo oposto.
O temaUsmo seletivo encontra-se, entretanto, na makxia das vezes, no próprio organismo, onde
• le pode atuar em vários níveis: no nfvel de um comportamento geral escolhido pelo organismo adulto
(escoiha do alimento, do terreno ou da técnica de caça, da postura habitual, do modo de locomoção);
n o nfvel do organismo jovem ou larval: no nfvel da embriogónese e dos prooessoe de formação.
Este último nível é, provavelmente, o mais importante. Con efeito3 existem pelo menos dois tipos
d istintos de fd aptwgfo anatómica, que podemos denominar tipo A e Upo B. O tipo B corresponde às
adaptações que podem ser precedidas por usos comportamentais: modo de articulação dos ossos lon­
gos, disposição contarme as pressflos e tensões das trabéculas ósseas, espessamentos locais da epi­
dem ia, etc. Mas o Upo A é multo mais Importante (por exemplo: as bolsas de arque tomammais leves
o s ossos dos pássaros, a transparência das células que formam a córnea, a modificação das células
epidérmicas que as faz secretar o suor, etc.). Essas adaptações tipo A, ó Impossível concebó- las como
a continuação de um comportamento geral Inicialmente improvisado. Não é de tanto olhar afravés de
urna epiderme opaca ou ligeiramente translúcida que essaepiderme pode tomar-se mais transparente.
Nlada tez su por que qualquer tentativa de vôo tenha tido por efeito Introduzir as bolsas de ar nos ossos.
Aparentem ente, a explicação pelas mutações ao acaso, conservadas por seleção cega, parece
prevalecer. Porém, os fatos da embriogénese apontam com toda a evidência para temas formativos do­
minando o jogo dos instrumentos químicos; apontam para "comportamentos de formação” , paralelos
aos oomportamentos adultos, porém mais fundamental^ mais próximos da oonsaénda orgánica matri­
cia l, estruturando seu domínio de modo inteligente, como uma “ palavra cruzada" que preenchesse os
seus próprios espaços. A futura oómea toma-se transparente quando em contato com a bolsa ótica em-
orionária (a futura retina), através de aigum estímulo, chamada ou evocação emanada dessa bolsa para
que a córnea se tome transparente. Essa chamada é uma mensagem química, assim oomo a mensa­
gem telefônica 6 eléWca. Mas trata-se de uma verdadeira mensagem, portadora de significado para um
informado que entende. Sabe-se que urna oómea transparente pode ser induzida na epiderme comum
se urna bolsa ótica (a pré-rettna) for colocada em contato com a epiderme, seja pelo experimentador ou
p or algum acidente no desenvolvimento, em fase precoce. A epiderme é "competente" - como dizem os
embriologistas, usando urna metáfora que na verdade não o é - para receber e entender as mensagens
do tecido pré-retínlano. Sem essa competénda, o vefculo químico da mensagem nada é - assim como
as palavras da mensagem telefónica nada são para um surdo ou para um homem que sofre de surdez
verbal.
Esses interajustas através de mensagens - que colocam os olhos bem diante das órbitas - estáo
por sua vez relacionados com o fundo do domínio de consdénda primário orgánico, asskn como cada
canto da palavra cruzada temática está relacionada com o fundo do conjunto. Se assim náo fosse, essa
competénda da córnea de tomar-se transparente, assim como náo poderia justificar-se, na vida do
adulto, pelo simples esforço de olhar, náo poderla tampouco ser explicada pelos únicos aperfeiçoamen­
tos e interajustes secundários. O tematismo do desenvolvimento orgánico, a exemplo do comportamen­
to consciente nas adaptações do tipo B, é distribuido durante o desenvolvimento de modo que cada es­
boço, urna vez determinado (no sentido embriológico da palavra, isto é, “ uma vez orientado para...” ), é
semelhante a urna matriz dentro da matriz geral, que vai se completando segundo seu próprio significa­
do numa independência provisória ou definitiva, corrigida por mensagem química de ajuste. Assim co-

3. Elta distinçáo foi salientada por P. B. Medawar em: “Problems of Adaptabon” {New Biotogy,
1951,11).

86
mo um projeto idealizado em comum, e depois distribuído a cada um dos agentes da execução, deve
ser aperfeiçoado através de inúmeros telefonemas. Fatos análogos aparecem também nas induções
recíprocas.4
Atribuir tudo ao simples acaso de mutações quaisquer, no caso das adaptações do tipo A, é ain­
da mais inverossímil do que fazê-lo em relação às adaptações do tipo B pois, neste último caso, ainda é
possível aleyar a escolha, pelo animal, de um comportamento geral que pudesse canalizar as mu­
tações. Se o organismo em formação não “visse" a si mesmo, na sua consciência primária, ele não po­
deria fabricar para si mesmo olhos a fim de adaptar essa autovisão à visão (sensorial e cerebral) do
mundo exterior.

As informações materiais das nucleoproteínas genéticas desempenham um papel


mnemotécnico na formação, assim como as modulações materiais dàs proteínas cere­
brais desempenham um determinado papel, subordinado, na memória psicológica. Con­
tudo, os fatos não mostram que essas microinformações, estruturadas no espaço, tor­
nam-se as formas anatômicas gerais, pelo simples funcionamento.
Mas o fato de as nucleoproteínas terem a capacidade de "comprar” no “monte"
(no sentido usado no jogo de dominó) de ácidos aminados vizinhos e serem capazes
de reconhecê-los, combina, então, como já vimos, com toda a parte essencial da tese
gnóstica. Pois o “comprador” encontra o que ele procura. Ele não funciona às cegas,
ele age.
As mutações verificadas em laboratório são quase sempre superficiais e pertur­
badoras relativamente à forma geral dos órgãos. São muitas vezes mortais e destruido­
ras. Elas suscitam, dentro da organização, encadeamentos markovianos que se eman­
cipam. Essas fabricações geradas por acasos internos levam, com freqüência, o tema-
tismo orgânico, assim como o cavalo leva aquele que o monta, lá onde ele não tencio-
nava ir, e isso, quando elas não o "atiram para fora da sela". A invenção biológica, co­
mo a invenção estética, científica ou como a exploração geográfica, é uma mistura de
sorte e de habilidade, de esperteza e de acaso feliz, de navegação por instrumentos e
de descobertas inesperadas por navegantes desviados de sua rota. Sem habilidade, o
acaso nada pode fazer. Sem um informador consciente, as máquinas de informação
nada são.
Os captadores e escolhedores externos só podem vir depois dos captadores e
escolhedores internos.
Não são os horticultores e nem mesmo os insetos que poderiam ter criado flores,
por seleção, a partir do “ ruído” das mutações fortuitas das espócies vegetais, se já não
tivessem existido captadores conscientes primários, temas florais supra-ordenados
nas espécies vegetais. Os órgãos ornamentais, os órgãos de defesa ou de camufla­
gem dos animais provavelmente foram aperfeiçoados pela seleção dos parceiros ou
dos predadores, mas depois ou junto com a ação constitutiva primária do organismo
que se ornamenta ou se defende, e que acha vantajoso o que o acaso pode lhe ofere­
cer.
A insuficiência das mutações químicas cegas nas moléculas genéticas eviden­
cia-se ainda mais nesse terceiro tipo de adaptação, próxima das do tipo B, que po-

4. Sobre as quais Etienne Wott justamente insistiu: os membros òo embrião de galinha desenvol­
vem-se sob a influência indutora recíproca do mesobiasto do broto do membro e do epiblasto que o re­
veste. (Nota de 1977.)

87
de ríanos denominar adaptações do tipo C, e que constituem todas as técnicas exter­
nas, ferram entas e máquinas mediante as quais a evolução biológica se prolonga em
evolução cultural. Os instintos animais já utilizam toda urna técnica externa: o uso de
materiais p a ra a construção dos ninhos, para delimitar o território, ou ainda o caso de
um pintassilgo-verde das flhas Havaí, que usa espinhos de cacto em lugar do próprio
bico para caçar insetos (ao passo que seus congéneres das espécies vizinhas já pos­
suem um b ic o comprido anatomicamente adaptado). No homem, o cérebro é uma área
orgânica q u e permanece indefinidamente no estado de esboço embrionário, de modo a
poder reproduzir, sem envolver-se organicamente, órgãos externos, ferramentas e má­
quinas, ao passo que os demais esboços embrionários acabam diferenciando-se, irre-
versr/elm ente, no próprio lugar onde se encontram, em órgãos internos. O fato de o es­
boço ca rd ía co tomar-se coração, ou de o esboço nervoso tomar-se cérebro não. repre­
senta um fenômeno diferente daquele mediante o qual o cérebro adulto se torna, por
sua vez, u m a espécie de esboço para a realização, em técnica extema, de bombas in-
dustrais ou de máquinas de calcular- de acordo com o estado já existente dessa téc­
nica na cultura humana, assim como a embriogenia dos órgãos e dos aparelhos orgâni­
cos se produz de acordo com o estado da técnica interna, de acordo com a fase da
“cultura” orgânica.
Não fa z nenhum sentido tentar procurar alguma relação direta entre determinada
mutação desse molde para enzimas - que o g e n e -, entre alguma nova forma molecu­
lar e algum comportamento instintivo adaptado a um circuito externo. Que alguma mu­
tação genética tenha alongado o bico de uma espécie de pintassilgo, é um fato con­
cebível. M as isso não significa que ela tenha provocado em seu cérebro a idéia de
usar, em lugar do bico, um espinho (cujo uso teria antes, por efeito, interromper as mu­
tações anatômicas tomadas inúteis, assim como a técnica humana dispensa o homem
de mutações anatômicas e, em primeiro lugar, de acomodamentos fisiológicos).
É falar e náo dizer nada, tentar associar a uma série de mutações um comporta­
mento instintivo complexo, de construção ou de comunicação, no qual o animal deve
reconhecer determinadas situações, ser alertado por sinais-estímulos que voltam a
despertar sua atividade no momento certo. Qual o gene resultado de mutação, qual a
forma molecular génica poderia explicar o fato de uma térmite se pôr a construir um pi­
lar quando cada pequeno torrão de terra atingiu certa densidade crítica? Ou o fato de
uma abelha usar uma dança agitada para indicar às suas congéneres a direção de al­
guma provisão de alimento em relação à posição do Sol, levando em conta também a
hora? E, se o mutacionismo é uma pseudo-explicação para o instinto, somos levados a
pensar que ele também poderia ser insuficiente para explicar as formas anatômicas: o
ferrão da abelha e não apenas a sua Mlinguagemn; o bico dos pintassilgos e não apenas
o uso de um espinho de cacto à guisa de bico.
Segundo a tese dos Gnósticos, se a evolução biológica pode ser “interiorizada” -
nas iniciativas instintivas, nas técnicas voluntárias, na cultura humana - , é porque ela
sempre foi “interior" - nas iniciativas dos instintos formativos, na técnica orgânica, na
Uculturan orgânica sob a forma de uma consciência primária.
Os Gnósticos se recusam a acreditar que o universo seja um Cego absoluto, ou
uma bengala de cego dirigindo um cego, primeiro inconsciente e que não vai para lugar
algum, até transfonmá-lo milagrosamente numa Consciência que se pusesse a querer ir
para algum lugar.
88
Capítulo XI

ESTAMOS VIVOS DESDE O PRINCÍPIO DO MUNDO 1

Dizer "Eu já estou morto” é pura loucura. Dizer ‘‘Eu ainda não morri” é enunciar
um antiparadoxo. A asserção se verifica por si mesma.
Mas os Gnósticos vão mais longe- mais uma vez seguindo a filigrana da ciência
mais positiva. Eles propõem a seguinte fórmula: “ ‘Eu’ ainda nunca morri, desde o
princípio do mundo”. Basta tomar o "eu” num sentido amplo, como sinônimo de “indivi-
dualidade-sujeito”. As duas células germinais de onde o “eu” se originou se fundiram
sem aniquilar-se, sendo cada uma resultado de uma bifurcação celular que, tampouco,
representou qualquer aniquilamento. A individualidade biológica de onde emergiu o meu
“eu” remonta sem interrupção, de geração em geração, às células vivas mais primiti­
vas, e essas, por sua vez, às moléculas pré-vitais, às individualidades “físicas” que
subsistem no tempo pela continuidade semântica de sua atuação. Nenhuma consciên­
cia que diz “eu”, nenhum neurônio cujas ligações manifestam essa consciência no es­
paço, nenhuma célula de um ser vivo atual jamais morreu - nem mesmo aquela célula
epidérmica que se resseca e acaba destacando-se de minha pele. Nenhum ser vivo
atual jamais morreu. Todos remontam, como eu, ao princípio do mundo.
A probabilidade a p riori de uma tal sobrevivência por parte de uma célula viva
atual é incrivelmente baixa (muito mais baixa do que ganhar mil vezes em seguida na
loteria). Quantas das sementes formadas por aquela bétula, ou dos ovos formados por
aquele arenque, ou dos espermatozóides formados por aquele homem conseguirão de­
senvolver-se até a fase adulta? E, qual seria a proporção dos sobreviventes-entre-os-
sobreviventes-anteriores, se levarmos em conta uma longa seqüência de gerações?
Por outro lado, porém, a continuidade vital-consciente, longe de ser precária e
frágil, é ao contrário essencialmente sólida, e deve essa solidez a todas as suas “mon­
tagens” orgânicas ou mecânicas. Todos os mecanismos, todos os instrumentos fa­
lham, param de funcionar; os mecanismos auxiliares antifalhas também param, por sua
vez, de funcionar. Somente vulgarizadores sem conhecimento ou cientificistas dogmá­

1. Que noe seja permitido lembrar aos leitores franceses que, também sobre este ponto, já havíamos
sustentado teses análogas às dos Gnósticos americanos.
tico s conseguem acreditar que máquinas cibernéticas sejam capazes de automanu-
tenção, de auto-restauração e de auto-aperfeiçoamento, sem a supervisão humana. Só
a consciôncia-vida é absolutamente antifalha - e o demonstra, de fato, ao durar indefi­
nidamente.
O que induz em erro é que a quase-totalidade dos seres vivos atuais, e de suas
células ou elementos constituintes vivos, está fadada a morrer dentro de alguns anos
ou de alguns minutos. Como o dizia um físico de Prínceton, um espermatozóide tem na
verdade pouquíssimas possibilidades de se tomar presidente dos Estados Unidos-
com o também tem pouquíssimas chances de se tomar um ser humano adulto, embora,
sem chegar a ser um homunculus, como os “espermatistas" acreditavam no século
X V III,2 ele possa virtualmente dizer “eu”.

Os cemitérios estão lotados. Como canta Omar Khayyam em meio às suas li-
bações, caminhamos sobre os cadáveres de antigos seres vivos. Milhões de espécies
desapareceram, e nem sequer temos seus esqueletos - ou suas conchas. Sim, porém
há milhões de espécies e bilhões de animais e homens que ainda subsistem. E é isso
que é preciso ver e entender, antes de entender - muito facilmente - a morte de antigos
seres vivos ainda mais numerosos, levados à morte pela precariedade de suas máqui­
nas subordinadas.
E a vida consciente que dá sua resistência às máquinas, e é a fragilidade das
máquinas, e não a da vida, que provoca a precariedade - totalmente secundária - da
vida. Ao lado dos cemitérios humanos, temos os cemitérios de automóveis. Fora dos
cemitérios, outros homens vivem e outras máquinas rodam. Mas é evidente que, se
elas rodam, é porque homens vivos as construíram, “pensando-as”, e cuidam de sua
manutenção. Muitos homens são vítimas de acidentes de automóvel: os cemitérios de
automóveis são a causa de uma parte dos cemitérios dos homens. Mas não é porque
os homens são frágeis que os automóveis são frágeis. Ao contrário, é pelo fato de os
homens serem muito menos frágeis e, até mesmo, serem antiacaso, antifalha, antimor­
te, que ainda existem automóveis.
E totalmente absurdo inverter as coisas e associar a subsistência dos homens e
dos organismos à subsistência mecânica, em alguma parte de seus corpos, de suas
máquinas internas: moléculas em estado de conservação, ou NDA. Bilhões de mãos ou
de olhos humanos transformam-se em pó nos cemitérios. Mas a môo, como tipo de
órgão vivo, subsiste e vem evoluindo desde os primatas, nossos ancestrais, e a partir
dos órgãos, de tipo diferente, dos quais deriva semánticamente - ao passo que as
obras que essa mesma mão produziu só subsistem, em seus ‘'descendentes" mecâni­
cos, se continuarem a ser “pensadas" por seres vivos. É absurdo associar a sub­
sistência da mão viva como “tipo" à subsistência da minha mão atual em sua qualidade
de tenaz muscular sólida. E é igualmente absurdo associar essa subsistência típica à
subsistência mecânica ou química de algumas moléculas nos cromossomos. Isto equi­
vale a explicar o automobiiista pelo automóvel, por uma espécie de “automóvelinterno”
que o transportaria, sem nenhuma falha no motor, através do tempo, durante milhões de
anos, independentemente de sua vontade e sem ele saber disso.

2. Os espermatistas acreditavam que o espermatozóide do macho continha todas as partes essen­


ciais do embrião e ató mesmo do homem adulto. Segundo alguns “ espermatistas*’, cada espermatozói­
de era uma espécie de homunculus. (Nota de 1977.)

90
As continuidades “ infladas” no tempo

Já sabemos que, para a Gnose, nenhuma continuidade (ou “genidentidade”) é


material ou energética: ela é essencialmente semântica, feita de significado. Mas os se­
res vivos, as linhagens vivas, salvo algum acidente mecânico interno ou externo, não
se limitam a nunca morrer, apesar da desordem e do “ ruído-de-fundo” do universo. Mui­
tas continuidades - a maioria - limitam-se a subsistir no tempo. É o caso dos átomos e
das moléculas que, por isso, sáo considerados não-vivos. Todavia, existem outras que
mudam, evoluem, parecem inflar-se a partir de seu próprio passado - ou de alguma
fonte desconhecida. As espécies biológicas possuem, evidentemente, algo mais do que
as espécies químicas. Sua subsistência, sempre mais “informada", mais “ciente” , não
é, apesar do que possam afirmar Schrõdinger e os geneticistas, a subsistência sem
progresso das moléculas de um cristal, que nada aprendem além do que já sabem fa­
zer desde que foram constituidas, que não se informam mais, que refazem sem parar o
que sempre fizeram e só conhecem aquilo, não tendo inteligência, ou antes, sendo limi­
tadas, não como "coisas” (já que há "coisas” no universo), mas como domínios de
ação repetidos ao infinito e simétricos no tempo. Elas são o que são porque elas fazem
o que fazem; elas não fazem o que fazem porque elas são o que são. Mas sempre fa­
zem a mesma coisa.
Um ser vivo propriamente dito, peto contrário, faz o que faz levando em conta o
que ele já fez. O seu ” aqui-e-agora” é inflado pelos seus “aqui-e-agora” passados. Se
pegarmos o caso extremo, um homem vivo não ô apenas o seu próprio passado indivi­
dual; ele é também o passado da sua espécie, da sua linhagem individualizada especí­
fica. Ele é primata, mamífero, vertebrado. O embrião humano ainda sabe tudo o que
souberam fazer os embriões de seus ancestrais, humanos e pré-humanos. Ele ainda
se lembra do tempo em que ele encontrava, para seu desenvolvimento, uma reserva
nutritiva dentro do ovo, e acaba fixando, em conseqüência, um esboço de circulação vi-
telina, como se ainda existisse uma “gema de ovo”, antes de estabelecer a circulação
placentária de seus ancestrais mamíferos e antes de preparar a circulação pulmonar de
sua futura vida de adulto.
As linhagens de continuidade temporais dos indivíduos não correm indefinida­
mente paralelas umas às outras. Não são tubos fechados, soldados e justapostos, co­
mo os tubos de um órgão de igreja. Elas se entrelaçam, se separam e voltam a se fun­
dir dentro das divisões ou fusões de desenvolvimento ou de reprodução. Existe todo ti­
po de transição possível entre as divisões celulares de desenvolvimento (individual) e
as divisões de reprodução (que resultam em dois indivíduos, distintos no espaço). Cir­
cunstâncias ínfimas chegam a decidir se determinada divisão celular contribuirá para a
diversidade dos tecidos e dos órgãos do mesmo individuo, ou se irá resultar em seres
gêmeos. Inversamente, duas células inicialmente separadas no espaço, podem unir-se,
transformando-se novamente num único ser. Todo ser vivo é, portanto, “gêmeo idênti­
co” de seus pais. Ele é o mesmo ser que o ser de cada um de seus pais, num outro
momento do tempo, assim como dois irmãos gêmeos idênticos são o mesmo ser em
dois lugares do espaço. A única diferença (entre gêmeos idênticos no tempo e gêmeos
idênticos no espaço) é que o “gêmeo idêntico” no tempo “tem tempo” para acrescentar
(algo infinitesimal) ao tesouro mnêmico que ele divide com o membro do par que é o
seu parente. Sem falar, é claro, no fato de que, na reprodução sexual, ele dispõe de
uma mnemotecnia genética que combina ao acaso "sinais” mnêmicos tirados dos dois
pais, s e n d o ele, portanto, antes um gêmeo fraterno do que um gêmeo idêntico. Mas os
casos d e partenogênese, de reprodução por cissiparidade, mostram que a complicação
sexual n ã o tem, aqui, nada de essencial.
E s s a “ informação mnêmica" seria então uma metáfora? Um produto da imagi­
nação, ind ign o do rigor científico? De forma alguma. Ao contrário, é o conjunto de ima­
gens su p e rficia is que induz em erro e que faz com que o observador acredite que a vi­
da é um funcionamento atual, e a morte, uma parada de funcionamento.
U m homem morre - digamos, num acidente de trânsito, externo ou interno. Seus
órgftos m aciços param imediatamente de funcionar e, logo depois, suas células e teci­
dos tam bém . Mas o seu corpo parece subsistir (com ou sem os cuidados dos embal­
samado re s tão ocupados nos Estados Unidos como o eram no antigo Egito). Porém, lo­
go "ele” ficará reduzido a pó, o que nos leva a pensar que ele deveria - sem a inércia
puramente mecânica de seus constituintes materiais - transformar-se em pó no próprio
instante de sua morte. A subsistência momentânea do corpo é que é uma imagem en­
ganadora, que deve ser retificada por uma contra-imaginação.
Acelerem os o tempo. Teremos então uma imagem e, em conseqüência, uma
idéia m uito mais correta e precisa da morte. Aquele homem vivia, falava, agia, sobre si
mesmo e sobre os que o cercavam, sobre os seres vizinhos, e sobre as propriedades
e máquinas de que cuidava. Ele morre. Instantaneamente (no tempo acelerado), seu
corpo e suas máquinas ficam desinformados e reduzidos a pó. Assim, por exemplo,
uma limalha de ferro, disposta segundo as linhas de força de um campo magnético,
uma vez desaparecido esse campo, logo se reduz a simples pó em desordem (ou com
uma ordem aparente agora apenas residual e precária). A comparação é somente
aproximativa, pois o campo magnético, que liga e informa, não tem memória - pelo me­
nos nenhuma memória acumulável. Na morte do homem ou do seu organismo, não é
apenas a informação atual que se desvanece de repente, é todo o-seu-passado-que-
contribui-para-a-informação. “Ele” perde seu passado com a sua consciência. Aquilo
que se form ara em toda a sua linhagem durante milhões de séculos, o que passara no
espaço e no tempo através de uma lenta informação criadora, e que “ ele” conservara
sem ruptura, tudo aquilo desvanece, desaparece, fora do espaço. Se o procuramos, é
por hábito. O que permanece, é apenas pó e alguns quilos de carbono, de vapor de
água, de moléculas de ferro, de sal, que atuam tão-somente de acordo com seus hábi­
tos químicos simplistas.
Nenhuma simetria entre o nascimento e a morte - ou é pura imaginação acreditar
que haja alguma. Nós ainda nunca morremos; a morte é um acontecimento sem prece­
dentes. Sem precedentes e sem reversibilidade.

92
C apítulo XII

O JOGO DO TEMPO INVERTIDO

Imaginemos o tempo, não apenas acelerado mas invertido. No sentido normal, os


seres vivos crescem e se desenvolvem progressivamente - e lentamente, mesmo com
uma forte aceleração imaginária. Mas eles se reduzem a pó instantaneamente. A acele­
ração, do mesmo modo como faz parecerem mais vivos e mais conscientes o cresci­
mento dos vegetais e seus movimentos, os gestos tafeantes de suas gavinhas ou de
suas raízes, faz com que apareçam mais claramente os tematismos, as consciências,
os significados primários que modelam (por mutações e acasos interpostos que são uti­
lizados) os órgãos vivos, assim como uma aceleração moderada faria com que a escri­
ta, elaborada por meio de um autômato que teclasse ao acaso letras que um homem
escolheria em vez de formá-las diretamente, parecesse tão rápida e tão puramente
consciente quanto uma escrita direta.
A vida e a morte, a organização e a desorganização continuariam, entretanto, as­
simétricas, como os dentes de uma serra. A organização ó progressiva e compreensí­
vel (quando não, explicável). A desorganização e a morte são instantâneas e destruido­
ras de significado. Em um filme acelerado, mas rodando no sentido normal, as for­
mações e criações orgânicas pareceriam, sem dúvida, mais semelhantes a criações
humanas de obras de arte ou a invenções técnicas de máquinas. Não há nada de es­
tranho nisso, já que o cérebro humano é justamente um instrumento de aceleração das
invenções orgânicas. Mas elas não pareceriam ser nem mais milagrosas nem mais
mágicas nem mais incompreensíveis do que as invenções e criações humanas.
Contudo, num filme ao mesmo tempo acelerado e projetado no sentido contrário,
não há dúvida que estaríamos, então, em plena magia e em pleno absurdo ao mesmo
tempo. Saindo do pó, sem o menor sentido, surgiria um homem vivo, doente ou ferido,
porém vivo, e que nunca deixaria de estar vivo. Que uma glande se transforme em car-
93
valho é um fato inexplicado (apesar do que os geneticistas possam afirmar), mas não é
um íato absurdo, incompreensível. Mas, que um monte de cinzas, por algum processo
às avessas, se transforme instantaneamente num carvalho adulto, isso pareceria mila­
groso e absurdo.
Além do mais, os seres “saberiam”, sem ter sido informados por fótons ou por
fônons. Se filmarmos um animal avançando e desviando-se dos obstáculos, ao proje­
tarmos o filme no sentido contrário, veremos que o animal, andando para trás, desvia­
se por premonição dos obstáculos que ele não viu. Tendo ultrapassado esses obstácu­
los em sua andança para trás, ele continua sem vê-los, na realidade, pois são seus
olhos que projetam fótons sobre os objetos (como na concepção pré-cientíTica da
visão).
Esses exercícios de imaginação náo são jogos arbitrários. Eles encobrem uma
análise científica rigorosa. A causalidade autêntica, em oposição a essa pseudocausa-
lidade que seria um funcionamento segundo o determinismo, é sempre uma informação
ativa, que ocorre no espaço, que se insere no espaço e modifica temáticamente os
domínios estruturados atuais.
Consideremos uma mesa de bilhar: duas bolas imóveis e a bola do jogador atin­
gindo a primeira, e depois a segunda bola, comunicando-lhes sua quantidade de movi­
mento. Em seguida, as três bolas param de rolar (pelo efeito dos atritos). Filmemos tudo
isso, projetando a seguir o filme ao contrário. Para a mecânica, todos os movimentos
ao contrário são perfeitamente ortodoxos. As leis de conservação (da quantidade de
movimento e da energia cinética) são respeitadas. O determinismo clássico também é
respeitado. Se a bola A atinge a bola B, pode-se considerar igualmente que é a bola B
que atinge a bola A, e o filme invertido parece tão natural quanto o filme normal.
Entretanto, o conjunto do filme invertido parece uma seqüência de milagres. As
bolas se põem em movimento por convergência milagrosa de pequenos movimentos de
bilhões de moléculas do feltro. Seus movimentos terminam, por milagre, no único mo­
vimento de uma bola que vem atingir o taco segurado pelo jogador cujos músculos se
contraem, capitalizando por milagre a energia, e enviam um influxo ao cérebro, o qual
esquece ou “ anticoncebe” a idéia que ele tinha da tacada a ser dada ao ver a dispo­
sição das bolas - o influxo cerebral indot ele também, no sentido contrário, isto é, da área
motora para a área visual. Um esquecimento total sucede a uma premonição milagrosa.

Na fase dos movimentos mecânicos, não existiria milagre na inversão se hou­


vesse ligações elásticas (no sentido geral) unindo as bolas: não ficamos surpresos ao
ver o balancim de um pêndulo subir de novo, ou um ramo flexível endireitar-se. Se hou­
vesse ligações elásticas cerebrais do mesmo tipo, o jogador, como o pêndulo, passaria
da idéia da tacada a ser dada para a sua execução, voltando depois a subir, da exe­
cução para a idéia, e assim indefinidamente. O sentido normal do tempo é a consciên­
cia visual da disposição das bolas, que transforma as bolas, isoladas materialmente
sobre a mesa, em imagens-de-bolas-num-domfnio-unitário, evocando (na região cere­
bral motora) um esquema da tacada a ser dada segundo as regras.
A consciência é, de fato, a formação de ligações “elásticas", mas num sentido to­
talmente novo, dominial, e sem “encadeamento". A consciência possibilita a inserção,
no funcionamento físico, de um tema-de-tacada-com-algum-sentido. Executada a taca­
da, as "ligações elásticas" cerebrais são rompidas, as bolas voltam a ser objetos mó-
94
veis sujeitos às leis da mecânica, e só resta ao jogador esperar, sem poder influir m a­
gicamente com seu pensamento, sobre as direções dos movimentos (embora se m p re
procure fazê-lo instintivamente).
Mas, no momento em que a tacada é concebida, é preciso então que algo ve n h a
inserir-se na mecânica cerebral: os neurônios e as moléculas dos neurônios ainda não
poderiam ser como bolas sobre a mesa de bilhar. É preciso que alguma coisa as u n ifi­
que para que a percepção das circunstâncias e, depois, a organização da ação, seja m
possíveis. Esse algo é o tema evocado, transverso ao espaço, e que confere ao d o m í­
nio cerebral, no seu “anverso" de consciência, um comportamento flexível e sensato.
É essa inserção que faz o tempo progredir num sentido irreversível e torna im ­
possível a "operação T” (inversão do tempo dos físicos) no mundo real. Os determ i-
nismos reversíveis, as reversibilidades mecânicas, as oscilações elásticas não p a s ­
sam de fatos-limite devidos a elasticidades por encadeamento, a interações não-dom i-
niais (ou, pelo menos, num pó de microdomínios). Não podemos nos obstinar acre d i­
tando que tudo deva ser explicado através de um determinismo observável ou não, já
que existe um sentido do tempo, ou acreditando que o indeterminismo é apenas negati­
vo, ou não passa de um simples jogo deixado nos funcionamentos estruturais atuais.
Se assim fosse, um filme projetado no sentido contrário não deveria parecer absurdo ou
mais milagroso do que um filme projetado normalmente. É preciso que ocorra alguma
inserção transversa ao espaço - digamos, alguma idéia de manobra já que existe
um progresso irreversível do tempo. A causalidade é ativa. A vida consciente informa
constantemente, modificando-o e orientando-o, o funcionamento dos mecanismos mi-
crodominiais que ela domina.
Num filme projetado ao contrário, os fragmentos de um prato quebrado voltam a
colar-se por si mesmos, sem causa. No ato de uma consciência que se informa e in­
venta, os fragmentos de uma totalidade intelectual possível se combinam como que por
si mesmos, sob a ação de algum sentido ou de algum tema entrevisto. Arthur Koestler
comparou a sfntese newtoniana, depois de Kepler e Gaileu, a uma “ explosão pelo
avesso". Duas coisas pareceriam tão pouco naturais uma como a outra: uma que, no
conceito de Newton, a síntese se redissocia, e a outra que, na realidade física, os frag­
mentos de um prato quebrado voltam a colar-se por si mesmos.

As inversões espaciais e a Inversão temporal

Sabemos que a inversão num espelho (por exemplo, a inversão de um mostrador


de relógio que faz com que o movimento dos ponteiros pareça invertido em relação ao
tempo normal) equivale até certo ponto a uma inversão do tempo (em um filme invertido
- espécie de "espelho temporal” - os ponteiros do relógio também funcionam ao con­
trário). Mas a analogia é apenas parcial: um filme invertido náo inverte a direita e a es­
querda, e um espelho não faz aparecer as duas horas depois das três horas.
Assim, também, a inversão de carga (operação C, que inverte as cargas positi­
vas e negativas, e produziria antímatéria) assemelha-se, até certo ponto, à inversão do
tempo.

95
aniquilaçào de pares

VJ/ ^
\ / 9 \

1
e -\ e+ / ^ e -\

criação de pares

tempo

Nos diagramas de Feynman, a emissão de uma antipartícula equivale à chegada


de uma partícula. O elétron positivo, ou posltron, é considerado um elétron comum ne­
gativo, mas que remonta o curso do tempo.1
Mas a inversão do tempo (operação T) resiste às tentativas de redução à sime­
tria perfeita. Um universo que fosse submetido à operação C, ou à operação P (in­
versão de carga ou inversão em espelho espacial), não seria absurdo, em princípio. Ao
passo que o universo, depois da operação T, é absurdo, pois não é mais “causar. Ele
é um teatro de milagres permanentes.2
E, mais ainda, parece que as resistências, parciais, da realidade diante das ope­
rações P ou C, são devidas às suas resistências fundamentais à operação T. Assim, a
inversão de carga do elétron no diagrama, interpretada como uma regressão no tempo,
embora nada tenha de absurdo em si (contanto que se considere isoladamente a parte
da trajetória na qual o elétron é positivo), chega a ser absurda se considerarmos o con­
junto das trajetórias dos três elétrons (um dos quais é positivo) como uma única trajetó­
ria de um único elétron, fazendo um ziguezague no espaço-tempo (seta pontilhada).
Pois, nesse caso, deve-se presumir que o elétron positivo, em vez de encontrar por
acaso um elétron comum - o que produz a aniquiiação - , é apenas uma parte da vida
de um elétron único, que utiliza fótons energéticos no momento certo, para dar uma vi-

1. ignora-se em que consiste a carga de uma partícula. Mas, ela pode ser positiva ou negativa, por­
tanto análoga ao que podem ser “um objeto e sua imagem" em um espelho, ou “ um movimento e sua
imagem" em um filme projetado ao contrário. Os diagramas de Feynman esquematizam as transfor­
mações das partículas em colisão e podem ser lidos nos dois sentidos. (Nota de 1977.)
2. Cf. R. Gouiran: Particules et accélérateurs, Hachette, 1967, p. 130: “ O verdadeiro fenômeno in­
vertido, no tempo, da explosão de um nêutron que gira ao contrário seria aquele onde veríamos precipi­
tar-se, um contra o outro, um próton, um elétron e um antinêutron, para criar um nêutron que girasse no
bom sentido."

96
rada no espaço-tempo, como se previsse que um físico fosse fazer uma experiência de
materialização ou de desmaterialização. O que seria um feito ainda mais improvável do
que o da fumaça acorrendo de todos os cantos do horizonte para entrar no buraco da
chaminé, ou o animal desviando-se de obstáculos que ele próprio náo percebe.
O mesmo pode ser dito da operação P (inversão por espelho espacial). Meu
quarto, visto num espelho, nada tem de absurdo. Mas se eu quiser fazer um desenho
seguindo a imagem do espelho, terei certa dificuldade devido aos meus hábitos psíqui­
cos, isto é, devido às minhas melodias mnêmicas temporais. O que permite supor que,
na microfísica, a não-conservação da paridade (ou a conservação da imparidade) está
ligada, ela também, a uma espécie de hábito quase-psfquico das partículas envolvidas
(nas interações fracas com neutrino3). Por isso, um físico gnóstico propôs chamar o
neutrino de “mnêmico” .

A “ elasticidade” semântica

Existe uma certa reversibilidade entre o tema organizador consciente e a estrutu­


ra no espaço dominial, entre a informação (no sentido de tomar conhecimento) e a in­
formação (no sentido ativo de organização). Há passagem nos dois sentidos. Ver uma
disposição estrutural evoca o tema significante, e pensar o tema leva a uma disposição
correspondente. O ato de perceber leva ao ato de reorganizar, e a reorganização modi­
fica o “percebido”. Um pensamento ativo, que produziu por exemplo um texto claro e
inteligível para ele, pode morrer, deixando esse texto, suscetível de permanecer incom­
preensível por um longo tempo, como um cadáver reduzido a pó. Aparece, então, um
outro pensamento que ressuscita esse texto, por tê-lo meditado e entendido, ou por tê-
lo percebido segundo o seu próprio sentido. Esse texto, mais exatamente, ressuscita
num outro pensamento.
Toda obra cultural passa normalmente por essas alternâncias de morte e de res­
surreição. Uma biblioteca sem leitores é um columbárío de cadáveres. Todas as obras
humanas estão mortas, à noite, na cidade adormecida, e ressuscitam na manhã se­
guinte. Culturas mortas são reanimadas pelos historiadores ou arqueólogos. É bastante
raro que essa reversibilidade seja perfeita. Assim como ocorre com uma tradução, toda
tradição perdida e depois retomada trai o seu original, mas às vezes, também o enri­
quece ao inserir outros significados nas obras transmitidas.
No entanto, essa reversibilidade não pode de forma alguma ser explicada pela
reversibilidade mecânica de um funcionamento. O texto material não pode auto-ressus-
citar-se. Do mesmo modo, o movimento das bolas não pode (como no filme invertido)
preceder e refazer a idéia e a intervenção organizadora do jogador de bilhar. A reversi-
bilidade semântica só funciona dentro da continuidade das consciências. Se a espécie
humana se extinguisse, as bibliotecas estariam definitivamente mortas.
Acabamos voltando, então, ao caso das individualidades duradouras, e que po­
dem ser aperfeiçoadas no tempo, pois são capazes, não só de informar ativamente o

3. O neutrino 6 uma partícula emitida simultaneamente com o elétron durante a radioatividade beta.
(Nota de 1977.)

97
e s p a ç o , nelas mesmo e ao seu redor, mas ainda porque conservam e recolhem seu
p ró p rio passado, ao mesmo tempo em que inserem temas transespadais no espaço,
num a memória inventiva ou numa invenção auxiliada por memória.
Capítulo XIII

OS PARTICIPÁVEIS E O PARTICIPÁVEL UNIVERSAL

Talvez esteja aquí a chave de toda a filosofía dos Gnósticos. Para toda individua­
lidade dominial, consciente e subsistindo no tempo, existem dois modos de ser infor­
mado: por observação e por participação; observando os outros no espaço, graças aos
fótons, ou aos fónons, ou a outras partículas ou ondas que esses emitem ou reemitem,
e participando de temas transespaciais ou do seu próprio passado - o qual, lembra­
mos, já que nenhum ser vivo jamais morreu, estende-se para muito além do nascimento
individual, remontando até o princípio da vida e do universo.
Ficamos informados sobre os outros observando-os, ou antes, observando seus
comportamentos manifestados, suas obras, olhando-os ou ouvindo-os, já que a telepa­
tia ou a intuição simpática - presumindo-se que ela exista - não está cientificamente
comprovada. Informamo-nos sobre nós mesmos, não “consultando” a nossa própria
memória, ou observando a nossa memória, como se esse fosse algum registro ou livro
de imagens - como costuma-se dizer, às vezes, por metáfora - mas participando dos
nossos outros “eu” mnêmicos evocados pelo “eu" atual ou que se apoderam do “eu”
atual por sua própria iniciativa.
Náo se fala a própria língua materna consultando alguma gramática ou dicionário
interior, assim como um computador faria, fazendo passar certos circuitos, de acordo
com seus programas, por suas memórias magnéticas. Ao falar, "eu" sou “participado”
pelo francês ou pelo inglés que me informa, que faz de mim um "eu" misto, “possuído” ,
ao mesmo tempo ídeo-motor, e mnémico ou inventivo segundo temas geradores. Minha
língua materna me toma nas trajetórias que lhe são próprias, me inspira como um “ pon­
to" íntimo, me assimila, depois de ter sido assimilada subconscientemente na minha
infância. A aprendizagem tardia de uma língua estrangeira (que começa com infor­
mações objetivas) quase sempre acaba transformando-se, quando bem-sucedida, nu­
ma quase-participação (que provavelmente se aproveita da prévia assimilação de uma
língua materna, já que as “crianças selvagens”, passada a época de assim ilação
lingüística, nunca mais aprendem a falar).
O instinto é manifestamente muito semelhante a uma língua materna, para o ani­
mal. A única diferença é que o animal é participante de... (ou é participado por...) um ou­
tro “eu” que guia, que não é um outro “eu” individual mas, sim, um “outro” supra-indivi-
dual, uma memória específica cujo poder informante não é percebido pelo animal, e que

99
náo é nenhum objeto para a sua consciência e, sim, um sujeito ativo dentro dele. Esse
"sujeito instintivo”, essa participação instintiva prolonga naturalmente a participação de
desenvolvimento. Os instintos de comportamento prolongam os instintos formativos, is­
to ó, o ato de participar nos outros “ eu" mnêmicos, responsáveis pela embriogênese.
O anim al em desenvolvimento não é como uma peça fabricada, moldada numa
máquina automática de acordo com um gabarito preexistente no espaço. No princípio,
uma simples célula, depois um esboço ou domínio de esboços, ele se desenvolve e se
diferencia, assim como a consciência do adulto possuído pela “aura” de uma lembran­
ça, se diferencia e passa do esboço mnêmico para a realização estruturada da
lembrança.
O organismo é “um desenvolver-se", assim como a consciência cerebral é “for­
madora d e imagens", “memoriante” , “ falante” , na forma ativa, e não é nenhum recipien­
te de imagens quase-materiais ou de “padrões’' já prontos de comportamento. Sua ati­
vidade não é livre, já que, normalmente, a embriogênese repete a espécie. Não é livre,
mas náo é tampouco um-fundonamento-segundo-um-determinismo. A “determinação”
de que falam os embriologistas, quando querem dizer que um esboço está destinado a
uma certa diferenciação, não é “determinista” , apesar da etimologia da palavra. Mas
tampouco ó “livre". Estâ além dessa oposição convencional. A atividade formadora é
uma atividade possuída, participada. O esboço embrionário, primeiro sem orientação, e
depois determinado pela chegada de um indutor que desempenha o papel de evocador
mnêmico, é captado por um tema informante, por um “outro eu" biológico.
É um postulado náo verificado admitir uma única fonte de informação: um objeto
observado e conhecido. Podemos nos informar também “pela outra extremidade” , par­
ticipando de um “segundo sujeito” , já informado- assim como, além da alimentação
normal para um organismo, existe a alimentação por sonda ou por injeção intravenosa.
Enquanto o conhecimento comum é informação trazida por um objeto, a participação é
informação trazida por um sujeito. Trata-se de uma telepatia interna. Além disso, en­
quanto a observação se faz no espaço, do aqui para o aqui, a informação por partici­
pação ocorre do transespacial para o espaço. Pois o “outro eu", mnêmico, biológico,
lingüístico, situa-se fora do espaço.
É sobre esse ponto que a Nova Gnose mais se afasta da ciência clássica. A
ciência positiva clássica não pode, é claro, desconhecer um fato tão importante como a
participação. Só que ela o disfarça, reduzindo-o ao simples funcionamento de uma es­
trutura atual, de uma memória inscrita nas proteínas orgânicas ou cerebrais. Ela faz do
homem que se lembra, do animal que segue seu instinto, do organismo que se desen­
volve, uma estrutura atual, que funciona no atual e faz passar simplesmente os circui­
tos de efecção pelo desvio da “leitura” de algum estoque mnêmico semelhante ao de
uma fita magnética. Ou então, no caso do desenvolvimento embrionário, ela considera
o desenvolvimento como uma espécie de transcrição, em tradução ao pé da letra, das
informações inscritas nos genes. Ou seja, considera auxiliares mnemotécnicos como o
essencial da memória.

As contradições da memória-vestíglo

A participação mnêmica é sem dúvida não-milagrosa, no sentido de que é cha­


mada e suscitada por constelações atuais, por evocadores, por sinais-estfmulos e por
100
oportunidades. Mas a teoria da memória-vestígio, do passado conservado simplesmen­
te como vestígio atual, não deixa de ser literalmente absurda. Não faz sentido achar
que os acontecimentos percebidos e os atos executados se inscrevem no espaço, e
que o tempo passado é uma inscrição atual sobre o papel ou o mármore. Se essa ins­
crição modifica apenas o funcionamento atual do seu suporte, em que m edida existe
memória ou “agenda"? Um disco colocado na vitrola não “se lembra” . A quase-subs-
tancialização constituinte de uma identidade temporal que diz virtualmente “eu" é algo
completamente diverso.
A velha teoria da memória-vestígio é uma herança da ciência clássica. Trata-se
de uma teoria caduca e inconciliável com a física contemporânea. Os átomos do papel,
do mármore, das proteínas cerebrais, dos DNA gênicos, são por sua vez ações estru-
turantes e não substâncias materiais que seriam dotadas de uma estrutura e que fun­
cionariam de acordo com essa estrutura.
A teoria da memória-vestígio é caduca tanto quanto a teoria do átomo que faria o
que faz por ele ser o que é, ou a teoria do éter suporte das ondas. Na medida em que o
átomo é o que é por fazer o que faz, não podemos mais recorrer a inscrições sobre
substrato material, a inscrições sobre o espaço - visto como um papel, um mármore ou
uma cera primordial - para explicar uma individualidade temporal. A passagem do tem­
po, o “processo”, é primário, e o tempo que participa dele mesmo, nas linhagens bioló­
gicas e em todas as individualidades verdadeiras, apesar de ser um fato misterioso, pe­
lo menos não pode ser explicado recorrendo-se a inscrições sobre o espaço. E essa
participação que explica a quase-substancialização. Esta, por sua vez, não pode ser
explicada pela presença de substâncias materiais dispostas desse ou daquele jeito.
Não devemos inverter as questões.

Participação e telepatia

“ Participar de...” nâo é “ confundir-se com...” . “ Participar de seu passado" não é


“voltar ao seu passado". Um retorno puro (ao seu próprio passado) não poderia conhe­
cer-se como tal: seria uma desordem no tempo.
Assim também uma telepatia propriamente dita - se a telepatia existisse - não
poderia conhecer-se como tal, e seria uma desordem no espaço: o meu “aqui” confun-
dir-se-ia com o "aqui" do outro, e não saberia que ele é o “aqui" de um outro.

Na medida em que todo “aqui" é dominial e não-pontual, não há dúvida de que


existe, de fato, uma espécie de alteridade interior (que permite principalmente as bifur­
cações, os desdobramentos e as fusões das partículas, das células vivas, dos esbo­
ços embrionários, e que também permite que um domínio controle subdomínios subor­
dinados); mas não há telepatia, já que o outro interior, o outro dominado, não está á
distância. Como adulto, eu observo os outros, conheço-os, não participo do seu “eu".
Provavelmente houve uma época, durante a minha existência individual, em que eu te­
ria podido ou desdobrar-me especialmente - eu teria sido, então, membro de um “par” ,
e teria um irmão gêmeo idêntico ou refundir-me com o “eun de um outro, no estado de
célula primeiro separada e depois refundida. Mas agora é tarde demais. 0 outro encon­
tra-se à distância, e a telepatia entre seres adultos é inverificável, e provavelmente uma
lenda.

101
Uma participação pura como a do tempo participando dele mesmo, do tempo pre­
sente participando do tempo passado, não poderia tampouco conhecer-se como tal.
Essa participação pura se reaMza, entretanto, de modo aproximativo, no sonho - essa
memória desordenada, ou memória demasiado triunfante - no qual o “eu” atual ó cap-
lado pelos "eu* mnômicos e náo sabe que é captado, e também no instinto, onde o ser
ó
vivo náo sabe que ele se lembra. Na verdade, uma participação nunca pura a não ser
de modo aproximado. Ela nunca é um puro retomo. O presente sempre prevalece sufi­
cientemente para enriquecer-se do passado, sem confundir-se completamente com o
passado: a desordem do sonho ou do instinto é sempre recuperada pela ordem.

Observáveis e participéveis
A ciência pretende conhecer apenas elementos “observáveis”, objetos que emi­
tem ou refletem ondas diversas, ou que produzem efeitos que, por sua vez, podem ser
observados. Ela ignora os elementos “participáveis” , ou pretende reduzi-los a não se­
rem, na realidade, mais que elementos observáveis. Daí as teorias como a da memória
estruturada nas proteínas cerebrais, ou a do desenvolvimento embrionário como fun­
cionamento das informações genéticas. A ciência desconhece os participáveis porque
eles não estão no espaço. Por isso, está condenada a nunca entender as epigêneses
temáticas, as morfogêneses no sentido próprio da palavra, as inyençóes de formas, ou
a nunca entender as continuidades individualizadas, os seres capazes de participar do
seu próprio passado e de dizer virtualmente “eu". Tal desconhecimento é grave, e limita
o alcance do conhecimento científico. Pois são os participáveis, em si mesmos intêm­
poras ou destemporalizados (na memória), que fazem do tempo algo mais do que um
tinción amento de estruturas espaciais, e dão um sentido (tomado, ao mesmo têmpo,
como direção - úme's arrow - e como significado - meamny - ) ao tempo.
Os participáveis são de três ou, talvez, de quatro espécies. Primeiro, os parti-
cpâveis da memória individual. Depois, os participáveis da memória biológica (instintos
específicos de formação ou de comportamento). Desses, devemos distinguir os parti­
cipáveis culturais, que se assemelham a uma memória biológica, tais como os idiomas.
Finalmente, é natural considerarmos como participáveis os tipos e essências supra-in-
dividuais e supra-espec(ficos. Esses participáveis não mnémicos são intemporais e a-
espaciais, num sentido mais forte do que o intemporal mnémico, que conserva alguma
afinidade eletiva para certos “aqui-e-agora" - os participáveis da memória psicológica
sendo, inclusive, reservados para um único indivíduo, seguindo-o em toda parte em
suas viagens espaciais. Além disso, não trazem para o participado informações total­
mente constituintes que ele só tivesse de atualizar, da mesma forma que um animal
atualiza o instinto específico, mas trazem apenas regras, normas que tomam a ação
possível ou impossível, válida ou náo, precária ou não.
Esses participáveis supra-individuais e supra-especlficos, é natural que os con­
sideremos, por analogia, como pertencendo ao Domínio dos domínios, à “Consciência
universal" da qual todos os seres participam, ou ainda - para levarmos a analogia até a
uma metáfora semimítica - ao Passado universal, que é também o Futuro universal, a
um “ Eu" ou a um “Si” universais dos quais toda a atualidade do universo é o “aqui" e
“agora".
102
Os partlclpáveis e a filosofia religiosa

Enquanto que a ciência, até hoje (exceto nos últimos desenvolvimentos da física
das partículas e da cosmología) nunca admitiu a informação por participação, a filosofía
e, sobretudo, a teología, erudita ou popular, a aceitaram há muito tempo. Porém, infeliz­
mente, sob urna forma mítica e em certos campos onde a participação, por mais real
que seja, é difícil de captar, ou então contestável por estar nos limites da sua esfera. E,
ao mesmo tempo, filosofía e teologia tôm desconhecido a participação justamente nos
campos onde ela ó certa e fácil de ser detectada, ou seja, na psicologia da memória e
do sonho, na biologia do desenvolvimento e na estrutura dos idiomas.
A participação já foi um tema filosófico banal. Basta lembrarmos o “ineísmo” , a
“visão em Deus", as teorías do Logos, do "Eu" transcendental, do Espirito absoluto,
etc. Ela tem sido, tambóm, um tema religioso por excelência: a inspiração profética (ou
inversamente, a possessão demoníaca), a graça, as vozes e os sonhos premonitórios
ou de mandamento.
Em todas as religióes esclarecidas, Oeus é, antes, um Participável do que um
Observável. Logo, é um Incognossível no sentido comum. Todas as experiências reli­
giosas tradicionais são, em certo sentido, experiências psicológicas, transpostas miti­
camente. O “outro eu" mnêmico, ou instintivo, ô ali interpretado como sendo Deus, ou o
Diabo, ou ainda o Demônio inspirador.
Mas podemos também - e nisso consiste toda a Nova G nose- considerar que a
experiência psicológica, biológica e lingüística da participação é, de fato, uma espécie
de revelação natural, de valor religioso. Assim como a teoria da seleção natural — do In­
formador que escolhe atrás do Autômato — opõe-se apenas aparentemente à tese pro-
videncialista, assim também as "reduções" psicológicas da experiência religiosa, de
Hobbes a Feuerbach e a Freud, nfio são tão opostas quanto parece à fé do crente que
vê toda experiência psicológica onde intervém participáveis como uma experiência do
divino, uma experiência onde ele participa de Grandes Seres, ou do Grande Ser, de
grandes domínios, ou do Domínio supremo que nos é supra-ordenado.

Os Gnósticos invertem a fórmula de Hobbes. Este declarava: “Quando alguém


diz que Deus lhe falou em sonho, é como se dissesse que ele sonhou que Deus lhe fa­
lava."
Sim, respondem os Gnósticos. Mas a fórmula tem dois gumes. Basta que o so­
nho manifeste algum instinto, ou uma memória biológica - a libido, por exemplo, pode
alimentar sonhos eróticos num jovem inocente -, ou expresse arquétipos semiculturais,
sem ¡biológicos - o que não é provado, mas não é im provável-, poderemos, então, di­
zer: “Ele acredita ter sonhado com o amor, com uma Grande Mõe, com um velho sábio,
mas está enganado: é o Gênio da espôcie, é o seu Daimõn, é Deus que lhe falou em
sonho."
O mito, para os seres primitivos, é uma espécie de participação, apesar de sua
origem cultural, e não algo de estritamente instintivo. O ser primitivo identifica-se com
os deuses ancestrais quando necessita de seus conselhos. Neles ele se transporta.
Seus deuses o possuem, e ele possui os seus deuses. Ele se ilude? Mas como afirmar
isso se o conselho dos deuses for bom? Se o que fala dentro dele é a “língua cultural",
mais sábia do que ele?

103
A Gnose consiste em querer fazer com que os participáveis e a participação se­
jam introduzidos, tanto na ciência como na filosofia religiosa, pelo portão principal, e não
pelo p o rtã o anexo de uma psicologia suspeita, ligeiramente cientifica e vagamente ocul­
tista, p e lo portão principal da mcroflsica, da biologia do desenvolvimento, da psicologia
compreensiva, da lingüística não-pavioviana, a de B. L Whorf ou de N. Chomsky. Ela
consiste em mostrar que a cióncia tem revelado a participação, mas vendo-a somente
pelo s e u lado avesso.
Capítulo XIV

A “ LÍNGUA MATERNA” UNIVERSAL

Os seres agem e, até mesmo, percebem (já que a percepç&o, como a ação, é
sempre temática e impregnada de significado) somente através de sua participação
num supra-universo - tesouro inobservável, mas participável à maneira de uma língua
materna. Não um tesouro constituído e, sim, constituinte, e também, em parte, consti-
tuível pelas ações individuais dos “falantes". Os lingüistas estabelecem uma distinção
entre o idioma e a palavra, entre a estrutura do idioma e os costumes atualizantes. O
estruturalismo tem usado muito essa distinção, bem como, de modo geral, as análises
dos lingüistas, em todos os campos, e não sem certos abusos. Os Gnósticos vão ain­
da mais longe, já que eles generalizam a distinção “paiavra-idioma,,l chegando a aplicá-
la à cosmología. Mas fazem questão de salientar que a “língua cósmica" não é realmen­
te uma língua, pois o universo “sensifica" sem “significar". Ele não se utiliza originaria­
mente de sinais; ele manifesta sentidos. Existem gramáticas, dicionários, códigos para
os significados. Esses não existem, originariamente, para as manifestações de sentido.
A comparação com uma língua materna refere-se mais ainda a “materna" do que a
"língua".
Consideremos um organismo vivo complexo, não observado de fora, mas em
seu próprio “si-mesmo“ . Ele vive e mantém a sua forma no tempo. Seu comportamento
é dotado de sentido, ou temático, segundo intenções implícitas. Sua forma, elaborada
em sua fase embrionária e que ele mantém e repara, é ela mesma “dotada de sentido”.
Seus órgãos são “dotados de sentido" (o rim é um “filtro", o olho, um “vigia de fótons",
etc.). Ele vive em sua própria duraç&o, assim como um homem fala, forma frases, com
iniciativas, mas segundo um sistema específico, segundo uma língua “biológica” , in­
temporal, estruturada (no sentido lingüístico da palavra) num supra-espaço, ou num su-
pra-espaço-tempo, n&o-observável mas participável. Seus atos e comportamentos se­
guem ao mesmo tempo as normas dessa língua biológica e as circunstâncias atuais
sobre as quais ele procura informar-se mediante observação, percepção de sinais ou
de mensagens emanados dos outros seres. Através dessa participação, seu “eu” (vir­
tual) é também um ueleH, ou antes, um “outro eu", executando frases-tipo da "língua
biológica”.
Mais uma vez, não devemos levar longe demais a comparação lingüística. Uma
língua onde os “falantes” não “significam” não é língua. O ser vivo encama, atualiza
105
significados ou temas válidos. Ele fala-a-sua-vida, muito mais fundamentalmente do que
ele significa, comunica, envia mensagens - o que certos seres vivos também conse­
guem fazer, mas ocasionalmente. Ele fala-a-sua-vida com muito mais freqüência do
que fala da sua vida a outros seres vivos. Ele ouve sua própria melodia, sua própria pa­
lavra; e le “sensifica" enfim, e só raramente significa. Ele é como o seu próprio cripto­
grama ou, ainda, ele é como uma encarnação dessas línguas ameríndias onde os
“constituintes’’ estão reunidos como num composto químico, com “funções” no sentido
químico, combinando mutuamente, e onde podemos expressar temas do tipo “ação da
mão sobre um objeto que se dobra e resiste” , ou certos efeitos plásticos, unindo por
exemplo: “espécie de caibro" com “forma de haltere”. O ser vivo só excepcionalmente
informa os outros seres vivos através de mensagens conscientes. O que ele faz, an­
tes, ¿ dar “informações de presença", sem dirigir-se a ninguém em particular, que ser­
vem de alimento psíquico aos “informados", que sustentam e consertam seu organismo
psíquico (o que a linguagem humana também faz, mas numa função acessória.1)
Um morcego não voa como um pássaro ou como uma mosca. Sua “língua bioló­
gica' materna é muito diferente. No entanto, todos esses animais voam de um modo
funcionalmente eficaz, assim como seres falantes conseguem expressar os mesmos
temas significadores, em seus respectivos idiomas, através de processos lingüísticos
bem diversos - e que chegam a modificar ligeiramente os temas, por influência “remon­
tante". O “vôo" nfio é uma mensagem. 0 “típico” e a “adaptação funcional" em biologia
só vagamente correspondem ao “típico” e ao “funcional” dos lingüistas. As comuni­
cações entre seres vivos - entre órgãos, entre indivíduos da mesma espécie, entre in­
divíduos de espécies diferentes - consistem, na maioria das vezes, não em mensa­
gens ou sinais e, sim, em sinais qufrnicos ou óticos com freqüência involuntários: as­
sim, o tipo de vôo pode servir de sinal para o predador ou para o caçador.

Esses sinais, contudo, podem ser considerados quase-lingüísticos na medida em


que eles são disparadores mnêmicos, e não mecânicos, e recorrem a capacidades
mnêmicas por parte dos receptores, e não a determinadas molas pré-montadas no es­
paço, ou a “fechaduras estruturais” , no sentido geométrico, nas moléculas de DNA ou
nas estruturas cerebrais.
Todos os seres individualizados, em oposição às multidões ou aos conglomera­
dos, são, neste sentido, seres “falantes", como o são também os organismos comple­
xos. As chamadas individuafidades físicas também “falam” , existem segundo um sis­
tema, existem ativamente segundo uma estrutura quase-lingüística, estruturam-se no
espaço de acordo com essa estrutura semântica - e não de acordo com o funciona­
mento de alguma estrutura espacial anterior.
O Tesouro das línguas biológicas, e da língua cósmica, implica um primeiro lance
normativante muito acima dos poderes dos indivíduos, pois os próprios indivíduos são
constituídos pelo Tesouro primordial. Esse Tesouro é igual a um idioma que se criasse
sozinho, não apenas as palavras e os tipos ortodoxos de frases, mas também os falan­
tes. 0 que representa uma diferença profunda com as línguas humanas, constituídas
instintivamente mas, também, dentro de um quase-contrato, pelos homens.

1. Cf. Raymond Ruyer, Les N ourritures psyehiques, Paris, Ed. CaJmanrt-Lôvy, 1974, Coi. "Liberté
de l'e s p ftr dirigida por R. A rori. (Nota do e d ito r, 1977.)

106
O universo “sensificante” primordial não deixa de ser, entretanto, a condição de
vida dos seres excepcionais que, no universo, “ significam". A própria existência das
línguas humanas constitui, sozinha, a prova de que o universo não é um universo mate­
rial, leito de átomos ou de combinações espaciais de átomos que, por milagre, se pu­
sessem a talar- para não dizer nada.
Não haveria talantes, no sentido próprio da palavra, se não houvesse “ falantes"
no sentido mais geral, isto é, seres que encarnam e expressam significados. E não ha­
veria “falantes”, nesse sentido geral, se não existisse uma língua materna universal.

Como o expressou multo bem B. L Whort, que teria sido um Gnóstico nâo tosse sua morte pre­
matura, um mundo numeral - de hiperespaço de dimensão superior - aguarda ser descoberto por todas
as ciências sob o seu aspecto primordial: o dos domínios, das chaves estruturantes... Esse mundo
apresenta uma indiscutível afinidade com o complexo sistema da Ifngua, e engloba as matemáticas e a
música. Ele já foi pressentido na idéia dos "aspectae preensfveis” , de Whitehead, e no continuum da tí­
sica relativista... Existe, na linguagem ou na sublinguagem mental, a premonição de um mundo desco­
nhecido mais vasto no qual o aspecto físico representa apenas a superficie ou a e no qual, entre­
tanto, nós estamos e ao qual pertencemos. Esse mundo tem um caráter serial ou hierárquico, com uma
sucessão de planos ou de níveis, manifestando-se cada um deles através de estruturas que contôm ou­
tras estruturas, em “moflvos" (no sentido decorativo da palavra) contidos uns dentro dos outros: “ A pa­
lavra é o que o homem tez de melhor. Mas, sem dúvida, Deus tenha entendido que o ato nível no qual
se situa um fenômeno tão organizado como esse foi de uma certa torma extorquido do universo".2
Lee Whort a quem nfio desagradava um pouco de provocação e que a lingüistica transformara
em teósofo, chega até mesmo a evocar, ao lado de Whitehead e da Ifeica relativista, o Tertium Organum
de Ouspensky. Ele também admirava muito Fabre d'Olivet® e sua Ifngus hebraica restaurada, bem co­
mo suas análises do hebraico em filosotemas pslcollrtgúfsbcos - pelo menos sua tradução do Gênese
na “ língua dos reis", ou na "língua dos deuses”:
1. Pnmeiramente-em-princfpk), ele-cnou-EIohim, ELE-os-deuses, o Ser dos-seres, a ipseida-
de-dos-céus e a ipseidade-da-terra.
2. E-a-terra existia força-contngente-de-ser numa-torça-de-ser e-a-escuridão (torça com-
pressiva e endurecedora) estava-sobre-a-supe rífete do-abiamo (torça universal e con tin gen te de ser);
e-o-sopro d'ELE-os-deuses era generativamente movediço sobre-a-supertfcie-das-águas (passivida­
de universal).
Obviamente, trata-se aqui de um hebraico “ bramanlzado”. Mas, se tentamx», como lingüista
científico, traduzir realmente de acordo com os esquemas classificadores da língua traduzida, de aoordo
com o segundo-plano mental aos falantes, uma língua multo diferente do Indo-europeu, com freqüência
chegaremos a eleitos do mesmo tipo. Assim, o Apache, por exemplo, para construir uma frase que, tra­
duzida para a nossa língua (e numa tradução inflei) seria "é uma tonto que cone", o faz deste modo:
*Como água, a brancura se move para-baixo". Ou, em dialeto nootka: “ Ele convida peaso** para um
banquete” á expresso por uma só palavra: “ Ferver” , seguida de cinco sufixos, o que nos dá algo como:
“ Ferver, cujo resultado é comido pelos homens que ele tol convidar." Uma tradução fiel ficaria parecida
oom uma tradução de Fabre d’O ltvet
A admirável organização das formas características de cada Idioma não provém do círculo estrei­
to da consaénda pessoal, a qual tem tão pouca consciência dessa quanto dos ralos cósmicos.

2. Benjamín Lee Whort Language, Thought and fíeattty. Traduzldo em Irancês sob o titulo: Linguis-
tique etanthropoiogie, Denoêi-Gonthéer, Paris, 1969 (ver principalmente p. 185 e sega.).
3. Faore d'Olivet (1766-1825), lamoso Muminlsta francés do século XVIU, também conheddo como
um precursor dos fédbres, com seu compêndio de poesias languedodanas: Le Troubadour, poésies
occilaniques du XHIe siède (1803). (/Vota de 1977.)

107
T udo acontece como se a mente individual que escolhe as palavras, mas que esqueceu os mo­
d e lo s aos quais elu se reterem, estivesse sob o domínio de uma mente superior, muito mais intelectual,
para a qual os oonceilos de casa, de cama, de panela tossemmais ou menos estranhos, mas que con-
aeguisse manipuksistemase matemáticas axn urna fadUdadeenum nfvel tal que nenhum matemático
de noasas eecola*jarnabalcançou.4

Todos os sares interagem, estão ligados por interações em chave que os fazem
e x is tir e entrar no sistema universal (gravitaçâo, interdependência da inércia e do con­
ju n to das massas, interdependência dos subsistemas: ligações eletromagnéticas, li­
g a ç õ e s fortes ou fracas, ligações orgânicas). Todos os seres individualizados e domi-
niai8 “ sensificam". Muitos “assinalam” e agem conforme sinais. Alguns dentre eles
“ s ig n ific a m " e percebem sinais. Alguns dentre eles (os homens e os humanóides) falam
e enten d em uma linguagem.
Tudo é “ significante” na embriogénese, e os sinais químicos agem, não como
c a u s a s mecânicas, mas como orientadores do significado. A situação dos esboços
em brionários, de sua fase de diferenciação, só pode ser traduzida por frases abstratas.
Tudo acontece como se um esboço dissesse, ou dissesse a si mesmo: "Eu cefalizo"
ou "caudifico", “ Eu ventralizo”, ou “Estou fazendo uma parte dorsal", "Sou um esboço
de p a ta direita, ou esquerda, de pata anterior, ou posterior", “Ajeito-me em forma de
bolsa, de ranhura, de tubo", "Voume desdobrar”, “ vou fusionar".
Imaginemos que um cientista positivista quisesse ridicularizar e caricaturar essa
interpretação, sugerindo uma tradução do mesmo tipo para um aparelho mecânico, por
exem plo, para o funcionamento das rodas e engrenagens de uma bicicleta. “Tudo acon­
tece — traduziria ele, ironicamente - como se a roda dissesse a si mesma: ‘Eu sou ro­
da; logo, giro em tomo do meu eixo...’ ‘Eu sou engrenagem, ou roda dentada, logo, eu
e n g re n o .'" Ele apenas estaria salientando, sem querer, a diferença entre um funciona­
m ento e um comportamento inteligível. Sua tradução nada acrescenta; é apenas um di­
vertim ento verbal As rodas dentadas engrenam empurrando-se por processo de enca-
deamento. As rodas giram, sem que nada nelas sinta a necessidade de dizer "Estou
rodando” . Mas, para os comportamentos do embrião e de seus esboços, as palavras e
as frases abstratas são o modo descritivo obrigatório dos fatos. Como expressar em
linguagem puramente mecânica, ou química, que um esboço ocular tomar-se-á um
olho? E de que modo o esboço pode se diferenciar se, por ser ele um puro ajuntamento
de moléculas, nada sabe do sentido do que está fazendo? Um ovo de rã fecundado -
na chamada fase do “crescente anzento" - tem uma parte dorsal, cefálica, direita, an­
tes mesmo de qualquer outra diferença observável dessas partes, “evocadas" a partir
do ponto fortuito de rompimento do espermatozóide. E mais, se perturbarmos suas dife­
renciações precoces, o ovo terá a capacidade de se ajustar. Ele reconstituirá sua “fra­
se formativa" completando-ade outro modo. Ele 6 igual ao inventor humano das rodas
e das engrenagens, que pode falar, e cuja ação inventiva pode “ser falada". Não é igual
à engrenagem em funcionamento, cujos movimentos não podem “ser falados", já que
resultam de uma estrutura já existente no espaço.
Estará o átomo mais próximo do embrião ou da roda dentada? Isto não teria sido
motivo de controvérsia antes de 1900. A resposta teria sido então: “da roda dentada".

4. Oo. d t, p. 201.

108
Mas sabemos hoje que o átomo náo funciona segundo uma estrutura já existente no
espaço. Ele “se faz" no espaço-tempo, o que, apesar de todas as diferenças, o torna
mais próximo do embrião do que da roda dentada.

A Língua-Mãe é con stitu in te

O Tesouro primordial quase-lingüístico do universo lornece aos falantes e aos


quase-falantes a própria substância de todas as palavras expressas ou trocadas entre
eles. Todos os seres procuram “falar bem” sua própria vida ou sua existência segundo
o Sistema-Norma. Os seres vivos propriamente ditos assinalam e vigiam os sinais
tão-somente para viverem bem. Os homens, no fundo, só falam para expressar juízos
de valor: “Eu faço bem, e você faz mal. Aja de outro modo. Eu teria de agir de outro
modo. Deus está conosco, não com vocês." Nesse sentido, toda linguagem humana
propriamente dita é uma espécie de metalíngua, auxiliar da língua fundamental da vida.
A palavra humana é uma espécie de debate gramatical apaixonado, e muitas vezes ul­
trajante sobre certos “pontos de gramática”, sobre a arte de falar bem a vida.
Deus - ou a Grande Mãe nesse sentido, não "diz" nada. Porém, ele dá a todos
os seres a possibilidade de falar. Os Gnósticos retificam sobre esse ponto sua primeira
tese. Deus não é “inteligente” à maneira de todos os seres. Todos os seres não são
tão inteligentes quanto Deus. Deus é aquele que permite que os seres subordinados (e
os hólons) sejam inteligentes em seus comportamentos ou em suas palavras. O uni­
verso, em sua unidade fundamental, é uma língua para ser falada, não um texto para
ser lido, que emanasse de algum Falante ou Autor, e do qual fosse preciso entender e
decifrar exatamente a mensagem assim transmitida.

Desse modo, a leitura desconfiada do universo, que o denunciaria como absurdo


ou mistificante, a exemplo da leitura desconfiada de um texto humano que dele faz, não
o esforço supostamente sincero de uma consciência para significar algum sentido, mas
uma “produção" sintomática, a ser analisada, interpretada, segundo o inconsciente psi­
cológico ou social do seu autor - uma tal “ leitura" é impossível para o universo como
um todo, já que este não é um texto e, sim, uma possibilidade geral de constituir textos
ao infinito.
Deus (ou a Unitas) certamente não é nenhum “doente", nenhum "neurótico", ou a
vítima iludida de alguma ideologia, visto que ele nem mesmo é propriamente um “eu"
que fala ou escreve.
A Antiga Gnose, porém, acreditava nisso, e representava Deus, quando não co­
mo um Embusteiro, pelo menos como tendo sido iludido por maus ministros. E o mes­
mo ocorre hoje com os que, ingenuamente, se revoltam contra a natureza das coisas,
achando que podem fugir, numa liberdade absoluta, a todas as normas, a todas as
gramáticas, e não apenas às normas convencionadas da sociedade humana, enfim,
que se recusam a “colaborar” com Deus, no mesmo estilo em que os membros da re­
sistência se recusavam a colaborar com o inimigo nacional.
Mas os Gnósticos inteligentes dão-se perfeitamente conta do ridículo de uma ati­
tude como essa. Não se trai nada ao colaborar com Deus. Pode eventualmente haver
traição ao se colaborar com falsos deuses, com ídolos, com ideologias deificadas, ou
ainda, com um “hólon” maior do que o homem, mas abaixo da Unitas.
109
Em A Nuvem Negra de Fred Hoyle, um grupo de cientistas, em comunicação di­
reta com esse Grande Ser (a Nuvem inteligente que invadira o sistema solar), põe-se a
favor dessa Inteligência superior e avisa a Nuvem sobre um ataque insensato que os
govemos dos Estados pretendem lançar contra ela. Um pouco como aconteceu com
dentistas atomistas ocidentais que acharam por bem, em nome da humanidade ou da
verdade marxista, comunicar aos russos os segredos atômicos americanos, pelo que
foram, obviamente, acusados de traição.
Os Gnósticos modernos entendem que a consciência é liberdade, mas uma li­
berdade segundo a natureza; eles entendem que a historia humana ainda é uma história
natural, nem mais nem menos livre e inteligível do que a história das espécies químicas
e biológicas, apesar da disposição diferente das hierarquias das consciências e do
“ materiaT da inteligência. Eles entendem que Deus não é um Patrão, ou algum Falante
digno de suspeita mas, sim, uma Língua materna ou primordial, aquém de todas as lín­
guas, e que ele não é nenhum ser mítico, porque ele é, precisamente, o fundamento de
todos os m ythoi.
Deus - ou a Grande Mãe - é o Participâvel universal. Ele não ó Falante; ele é
Língua universal, subjacente a todas as línguas. Uma língua verdadeiramente universal,
verdadeiramente maternal, uma Língua “viva” (que dá a vida), uma Língua que se faz
falar, não por imitação, mas por invenção participante.
Enquanto as línguas humanas só estão conscientes na consciência dos falantes,
a Língua-Mãe, Deus, é consciente de si mesma. E, nesse sentido, a Consciência divina
ou a Inteligência divina é diferente da consciência e da inteligência dos seres.

O Universo é todo cultura - e não natureza

Poderíamos ainda expressar a mesma idéia dizendo que o universo é cultura,


não natureza; que ele é hábito ativo, e não um ser todo constituído. Costuma-se, com
freqüência, opor a cultura social, extrabiológica, que passa de uma geração à outra
numa espécie de hereditariedade social, à hereditariedade cromossômica das gerações
vivas. Mas, se observarmos mais atentamente, a própria hereditariedade biológica as-
semelha-se à cultura; ela é uma cultura biológica. Ela se serve das estruturas biológi­
cas constituídas como "carregadores" efêmeros. Ela só os molda de uma forma mais
radical do que a cultura social o faz com seus carregadores individuais. Contudo, a cul­
tura humana, no sentido amplo, é a cultura tanto do homem biológico como do social.
Antes de tudo, são todas as memórias biológicas das linhagens que terminam no ho­
mem, tanto quanto as memórias recentes, socialmente constituídas, que lhe dão suas
linguagens, seus costumes, suas crenças. Os embriões humanos, mediante sua parti­
cipação na memória biológica, aprendem a desenvolver-se, assim como as crianças
humanas, por meio de sua participação na memória cultural social, aprendem a falar e a
comportar-se socialmente.
Mais ainda: por baixo dessa cultura biológica, é preciso imaginar uma cultura ain­
da mais fundamental, que ensina - também por participação - a todas as individualida­
des, mesmo às chamadas físicas, as regras do comportamento.

110
Capítulo XV

AS INFORMAÇÕES NO ESPAÇO
E AS INFORMAÇÕES NO TEMPO

O espaço é um reservatório prodigioso de formas, coordenadas ou não em domi­


nios, e de Informações, isto ó, de “formas que viajam”, que passam sem deixar nenhum
vestígio. O tempo “universal”, considerado (erroneamente, aliás) como quarta di­
mensão, e, ele também, como recipiente de informações, é ainda mais prodigioso, visto
que “contém" todas as informações espaciais presentes, mas também as passadas e
as futuras. Todos os flocos de neve de uma tempestade de neve encontram-se, a cada
instante, num lugar bem definido do espaço (se deixamos de levar em conta a indeter-
minação microfísica). Eles passam sem deixar vestfgios. As tempestades de neve de
anos anteriores e dos tempos geológicos não deixaram vestfgios, nem no espaço, nem
no tempo, se ninguém as viu. Ou sont les neiges d’antanT Entretanto, as moléculas de
água continuam existindo - assim como as moléculas de ar do último suspiro de César.
Elas se conservaram a si mesmas no tempo.
Até mesmo as tempestades de neve, como acontecimentos meteorológicos,
existem ainda, grosso modo, na lembrança das testemunhas vivas. O tempo dos domí­
nios individualizados é, em cada campo, menos rico em informações do que o espaço,
mas conserva melhor suas informações.
Um homem que passeia por uma floresta registra a cada instante, a cada olhar,
em suas retinas, um conjunto de formas muito complicado, onde cada ramo, cada folha
visível é localizado. Ao mudar de lugar, ele continua por algum tempo vendo as mes­
mas árvores, as mesmas folhas, sob um ângulo ligeiramente diferente. Todo mundo,
espontaneamente, adota a teoria falsa e irrefletida segundo a qual lançamos o olhar so­
bre objetos que seguimos com os olhos, como um raio apalpador que saísse do olho e
fosse em direção ao objeto.

* “Onde estfio as neves de oufrom?” (do poema de Françote Villorc Bailado des Dames du Temps
Jadis). (N.T.)

111
O olho-rede

Esse homem quç passeia pela floresta, se estiver caminhando devagar, terá a
impressão de estar vendo as mesmas árvores, e quase os mesmos desenhos minu­
ciosos de seus ramos e folhas. No entanto, segundo a teoria científica das condições
físicas da sensação visual, a cada deslocamento, por menor que seja, são outras on­
das luminosas, outros fótons que penetram em seu olho; não são as mesmas formas
vistas sob um ângulo diferente. Podemos substituir o olho do homem que caminha por
uma câmara escura móvel. Em cada “ponto", se for de dia, há no espaço fótons sufi­
cientes para fornecerem uma imagem complexa e precisa. O olho não está colocado na
extremidade de uma espécie de “vara de luz", tateando até o objeto. Ele é, antes, uma
espécie de rede, que encontra em toda parte, exceto na escuridão completa ou atrás de
um écran, desenhos informativos emanados dos objetos iuminados, e que ele só tem
de recolher. Em cada pònto do espaço, pode-se fotografar uma paisagem terrestre ou,
à noite, estrelas aos milhões. O desenho complexo dos circos lunares deve “existir”
como conjunto de fótons, em todos os pontos em volta da Lua, já que uma nave espa­
cial, habitada ou não, pode fotografá-los em todo lugar. A nebulosa de Andrómeda, visí­
vel a olho nu para quem tem vista boa, “existe” numa esfera cujo raio é de um milhão e
meio de anos-luz, e em cada milímetro cúbico dessa esfera. O espaço é um oceano de
informações onde podemos pescar, praticamente em toda parte, milhões de elementos
de informação.
O rádio e a televisão tôm mostrado de forma sensível para todos essa riqueza do
espaço, já que, em qualquer ponto do planeta, pode-se captar concertos e espetáculos.

Mas é preciso não esquecer que o olho é um captador exatamente do mesmo ti­
po que um receptor de rádio ou televisão. Passeamos com os nossos oihos pelo espa­
ço assim como passeamos com o nosso ràdio-transistor. A única diferença é que a
multiplicidade dos emissores ou reemissores luminosos - cada detalhe de cada um dos
corpos que nos cercam é um emissor distinto - faz com que a recepção luminosa con­
vide a consciência a desenhar espontaneamente o mapa geográfico dos emissores, ao
passo que o ouvinte que passeia com o seu rádio-transistor ouve a música que sai do
seu rádio seletor de freqüências sem se preocupar, normalmente, com a localização da
emissora ou com o mapa geográfico das emissoras que podem ser captadas. Um rá­
dio-transistor que não fosse seletivo no sentido comum da palavra, mas que fosse ca­
paz de selecionar a direção das ondas e que captasse, não o concerto de uma emisso­
ra, mas todos os fragmentos de concerto de todas as emissoras, “desenhando” assim
a localização dessas, seria um verdadeiro olho para a “paisagem” das emissoras de
rádio. É exatamente dessa forma que existe uma “ rádio-astronomia”, por radiotelesco­
pios - que captam ondas mais longas do que as ondas visíveis, capazes de localizar
com exatidão as fontes emissoras e de desenhar um mapa do céu que se possa so­
brepor ao mapa ótico da astronomia comum. Um radiotelescópio constitui, assim, a
prova de que é legítimo comparar o olho da pessoa que passeia com o seu rádio-tran-
sistor.
No teatro, a imagem de uma atriz pode ser captada em toda parte ao redor dela.
O desenho do seu sorriso, de seus olhos, dos cachos de seus cabelos, está em toda
parte, como um sistema de ondas ou de fótons, onde o olho de um espectador possa
captá-lo.
112
Numa exposição de pintura, os visitantes que passeiam olhando para os q u a ­
dros, passeando a “rede” de seus olhos a alguns metros de distância das cornijas,
captam imagens luminosas que se encontram, portanto, em toda parte do salão, já q u e
eles as vêem de todo lugar quando outros visitantes não impedem a visão. A atriz s ó
está viva no palco; suas múltiplas imagens não vivem (ou revivem tão-somente n a
consciência de cada espectador). No salão de exposição, porém, as imagens captá-
veis não existem menos do que na tela dos quadros. Elas existem até mesmo m uito
mais, já que a pintura é, antes, uma arte visual do que uma manipulação de pigmentos,
e já que o pintor "pensou" de antemão as imagens visuais do espectador.
Imaginemos, finalmente, que o salão de exposição comporta espelhos paralelos.
A riqueza do espaço em termos de informações físicas torna-se então vertiginosa: de
todas as partes, posso ver a multidão das formas e gestos indefinidamente repetidos.
Logo, é em toda parte que essas formas existem- existem fisicamente.

O espaço como holograma

Nas fotografias denominadas “ hologramas", registra-se sobre a chapa as inter­


ferências entre a onda emitida diretamente por um laser e a mesma onda difundida pelo
objeto (após desvio graças a um espelho semitransparente). Na fotografia assim obtida,
cada fragmento é capaz de restituir o todo.
Suponhamos que as imagens complexas de que estávamos falando (uma flores­
ta, um palco de teatro, um salão de exposição), sejam recebidas através de uma vidra­
ça. A um dado momento, fótons e ondas luminosas se encontram, então, no vidro da
vidraça, como se ali estivessem congelados - e nada nos impede de supor que todos
os fótons que ainda se encontram atrás da vidraça foram aniquilados. Acontece que eu
posso fixar meu olho sobre qualquer ponto dessa vidraça e conseguirei ver o espetácu­
lo. Cada fragmento, cada esférula da vidraça, de diâmetro igual ao diâmetro da minha
pupila é, portanto, hologramática. Cada milímetro cúbico da vidraça, portanto, contém
informações sobre todo o espetáculo. Além disso, ao olhar o mesmo fragmento da vi­
draça sob ângulos de visão diferentes, poderei ver mais distintamente essa ou aquela
parte do espetáculo.
Os hologramas por raio laser parecem milagrosos. Mas o que fazem, na verdade,
é apenas materializar, tornar sensível uma propriedade absolutamente comum a todos
os meios transparentes - e ao próprio espaço. O espaço é um reservatório prodigioso,
não apenas de matéria ou de energia como, também, de informações. Os fótons que
incidem sobre as folhas dos vegetais verdes participam da fotossíntese, contribuindo
assim para a “ informação" - no sentido etimológico - do vegetal, do ser dominial tem­
poralizado que sabe se utilizar dessa informação para sua própria construção. Os fó­
tons que incidem sobre os olhos dos animais também informam a estes, no sentido
comum da palavra, assim que são utilizados como moduladores do campo cerebral, já
consciente de si mesmo como parte do domínio orgânico em sua continuidade
temporal.
113
Só nos informamos dentro de uma continuidade temporal

As informações que viajam no espaço, ou no espaço-tempo1 dos físicos, nao-


temporalizadas numa linha de participação individual, são apenas materiais de infor­
mação e não informações autenticas. Se o que capta as informações espaciais fosse
apenas, ainda, uma estrutura espacial, se a pupila e a retina do olho fossem tfio-somen­
te as partes de uma câmara escura ffeica e atual, a ordem dessas informações eqüiva­
leria a uma tremenda desordem. Para nos convencermos disso, basta pensarmos no
seguinte: uma pessoa “conhecida nossa” , como se costuma dizer, apresenta-se vi­
sualmente a nós de mil maneiras. Nós a olhamos de perto, de longe, de frente, de perfil,
dirigimos nosso olhar para os seus olhos, seus cabelos, suas mãos, suas roupas. Cap­
tamos os fótons que essa pessoa reflete da forma mais livre e variada possível. E, no
entanto, sempre a reconhecemos como sendo a mesma pessoa. Se a nossa retina, ou
nossa área visual - fosse apenas uma chapa fotográfica, a sobreposição das imagens
instantâneas criaria uma perfeita desordem.
A observação pura só se torna informação auténtica por ela ser, também, partici­
pação num sentido transespacial. Uma memória totalmente física ou mecânica seria o
princípio mesmo da desordem (por acumulação), e não poderia de modo algum pôr or­
dem no espaço, visto que vestígios acrescentar-se-iam a outros vestígios, como acon­
tece numa chapa fotográfica utilizada por engano várias vezes. A ordem só pode ser in­
troduzida nas nossas observações, no afluxo incessante dos ‘'observáveis” , através
de uma participação - verdadeiramente mnômica no sentido próprio - na nossa indivi­
dualidade temporalizada, que nos possibilita pensar e seguir a individualidade dos seres
observados.
Quando minha atenção é dirigida para uma porção do campo sensorial que adqui­
re, assim, um valor de presença, isso se deve a um caso leve de participação-fascí-
nação no qual o “eu" atual, observador, é captado por um “outro eu" mnêmico que o
separa do presente. Pois, apesar da etimologia, um presente puro não poderia nos dar
a sensação de “presença” de um ser: “Vocô está aí, é você mesmo!".
Assim o homem e até mesmo o animal “platoniza” espontaneamente, isto é, re­
conhece as coisas e os seres como sendo “eles mesmos”. Característico é o uso dos
demonstrativos e, sobretudo, a passagem, freqüente nas línguas indo-européias, do
demonstrativo para o artigo, que é um “destemporalizador”, ou melhor, um “despresen-
tificador". ///e nomo torna-se “o homem” , o homem em si, o homem como conceito. Do
mesmo modo, esse homem-indivíduo só é reconhecido como ele próprio mediante um
misto de observação e de participação. A continuidade temporal tem como condição,
aparentemente paradoxal, uma participação num elemento intemporal. É preciso que eu
seja “destemporalizado", por participação no significado ou nos meus “outros eus”
mnêmicos, para que minha existência seja individual e para que eu possa perceber os
outros como seres existentes duradouros.

1. Mais exatamente, as informações luminosas se situam “ entre" o espaço e o tempo, no máximo


marcadas pela “velocidade" da luz, ente o “cone” do tempo e o espaço. Elas não “avançam” no tem­
po, não “ envelhecem” ; seus “agora" não se sucedem.

114
Na linguagem dos físicos relativistas, cada corpo ou corpúsculo descreve no es-
paço-tempo uma “linha de universo” . A física, clássica e relativista, não faz distinção
entre a linha de universo de uma caixa de fósforos e a de um ser vivo, de uma marione­
te mecânica e de urna bailarina. No entanto, a dança da bailarina só é uma verdadeira
dança por ela estar ao mesmo tempo no presente (ela segue o ritmo da dança) e no in­
temporal do tema da dança, do qual a bailarina continua participando (o que Ihe permite
participar dos movimentos observados de seus parceiros).

A dança entre dois espelhos2

Uma bailarina está dançando entre dois grandes espelhos paralelos. Ela é, em
princípio, refletida ao infinito. Em cada ponto do espaço situado entre os dois espelhos,
um espectador poderá captar dezenas de imagens da bailarina. O olho-rede tem bas­
tante o que pescar e do que alimentar-se. Ele pode tanto observar as bailarinas em
imagens como a bailarina em carne e osso.
Quando um objeto se mexe num espelho, você diria que algo o empurrou Se um
senhor de cartola avança entre os espelhos, você irá perceber vinte ou trinta cartolas.
Se alguém chegar e fizer cair a cartola com uma varinha, as vinte ou trinta cartolas
cairão ao mesmo tempo. Não hesitamos em afirmar que é necessária alguma força pa­
ra fazer cair a "verdadeira” cartola. Mas, e as vinte ou trinta cartolas restantes? Terão
elas caído sozinhas, por assim dizer? Ou se limitaram a fazer como as outras?3
Existirá uma diferença absoluta entre a queda da cartola real e a queda das car­
tolas nas imagens dos espelhos? Não, pois os efeitos qué a verdadeira cartola exerce
não são elementos mais “forçadores” do que os movimentos conjugados de suas ima­
gens nos espelhos. Ao girarmos o comutador elétrico num quarto escuro, modificamos
a aparência de todos os objetos que nele se encontram, e, no entanto, o centro causai
- a lâmpada acesa - age como informador, e não como “forçador”. Se os efeitos pro­
duzidos pelo centro são movimentos, esses movimentos não devem ser interpretados
do mesmo modo que os movimentos de uma bola atingida por outra que lhe transmite o
seu próprio movimento. Eles se parecem, antes, com os movimentos de fuga de uma
multidão no meio da qual se soltasse um tigre am eaçador.4 Visto de cima e de longe, o
tigre parece exercer uma força de repulsão. Na realidade, as pessoas fogem por elas
mesmas, porque viram o tigre ou ouviram o seu rugido. Elas correriam com a mesma
rapidez se pudessem perceber essas ondas sem que o tigre estivesse ali.

As “ influências causais" se fazem por informação

E, assim como o tigre não repele, o Sol tampouco atrai. O Sol é, simplesmente, o
centro de uma família de movimentos. Seus rugidos são os "gravitons” que informam

2. Os Gnfcticos se inspiram, aqui, no que eles denominam o paradoxo pré-gnóstico de B. Russell,


exposto smAnalysis olMatter e em ABC of Relativity (este último traduzido em francés sob o tlhio: ABC
de Ia relativtté, col. 10/18, Paris).
3. B. Russell: ABC delarelativitô, p. 181.
4 .0 exemplo â de B. Russell, op. a i, p. 165.
115
da sua presença o espaço e os demais corpos do espaço, induzindo-os a se aproxi­
m ar.
E mais: para a física contemporânea, ainda acontece o mesmo com o movimento
da bola atingida por outra bola. Os átomos da bola A não entram em contato direto com
os átomos da bola B. O choque mecânico é, na verdade, uma interação eletromagnéti­
ca à distância, com "mensageiros” (os fótons).

De uma forma mais geral, todacausalidade se reduz a uma interação com “mensageiro": o mé-
son nas interações nucleares fortes, o neutrino e a partícula W nas interações tracas, o graviton nas in­
terações de gravitação. Os ffsicos "materializam" os “mensageiros”, imaginando-os como se fossem
partículas que veiculam a interação e oscilam entre as partículas ligadas (assim, por exemplo, o fóton Y
entre elétron e próton em interação, oméson entre próton e nôutron), ou então imaginam o “mensagei­
ro'* como se fosse uma nuvem que veste o nêutron durante uma parte do seu lempo”. Mas os ffsicos
não podem deixar-se iludir por essas imagens, pois as oscilações parecem ocorrer num tempo (10-23
segundos) e a nuvem parece ocupar um espaço (10~13 centimetros) no limiar da Incerteza quântica.
Mas, enquanto os “mensageiros" são virtuais como corpúsculos ou nuvens, as interações, por sua vez,
sAo reais, e podemos multo bem afastar essas Imagens e pensar que estamos, assim, não na in­
formação “que viaja" (por mensagens e mensageiros), mas sim na informação "realizada”, "encama­
da”, análoga â de umcampovisual consciente onde os detalhes não mais se encontram ô distância uns
dos outros, ou que ela ó análoga &informação-parücipaçâo de um oomportamento com memória tema-
Mzada e forma melódca, igual á dança da bailarina.

As melodias orgânicas ouvem a si mesmas

Para as informações realizadas, “substancializadas" nos indivíduos dominiais,


que participam do seu próprio tempo, que tôm uma memória, e cujo domínio é informa­
do, não apenas pelas mensagens vindas de outro lugar como também pelos sentidos e
os temas transespaço-temporais, os “ rosários" ou “famílias" de acontecimentos estão
unidos por ligações temáticas ou semânticas. Em si, em seu “ anverso", as informações
assim “ substancializadas" são necessariamente conscientes.
As informações, uma vez emitidas, podem muito bem viajar esvaziadas de seu
sentido (como uma conversa telefónica transformada provisoriamente em correntes
elétricas na linha). Mas elas não podem estar em toda parte e sempre esvaziadas de
seu sentido. Chega um momento em que precisam tomar ou retomar algum sentido
dentro de individualidades, duradouras, participando dos sentidos intemporais.
Tanto é verdade que B. Russel, apesar de seus preconceitos “positivistas”, foi
levado espontaneamente ao conceito de melodia orgânica. É preciso imaginar a partícu­
la, não como um fragmento de matéria desprovido do dom da ubiqüidade, mas como
uma série de acontecimentos que constitui a história completa da partícula. A partícula
deve ser vista como sendo a sua própria história, e não como uma entidade que tivesse
uma história. Um acontecimento, um ponto no espaço-tempo, não pode nem deslocar-
se nem durar. Ele possui uma existência breve, e desaparece para sempre. Mas é um
fato que a partícula dura, persiste. Sua vida pode ser muito breve, mas também pode
ser muito longa - a partícula, e também os átomos, assim como os organismos. Os
acontecimentos constituintes são coordenados: "É preciso vê-los como ‘rosários' de
116
acontecimentos, com ligações orgânicas, bastante semelhantes à sucessão das notas
numa linha melódica”.5

Isto nada mais é do que a tese gnóstica. Se uma família de acontecimentos 6


uma família “melódica”, seu “anverso” é uma forma melódica que ouve e vê a si mes­
ma. Entre uma partitura escrita e a música executada, há correspondência de estrutura.
Um surdo de nascimento, mas que sempre tivesse convivido com músicos, acabaria
entendendo que as partituras musicais são o símbolo de alguma coisa, cuja essência
íntima é radicalmente diferente mas cuja estrutura é a mesma. Ele poderia fazer a ma­
temática da música, já que a matemática da música ouvida é a mesma que a música da
partitura escrita. “ É desse modo que conhecemos a natureza: sabemos ler suas parti­
turas, mas não ouvimos sua música.”
Os Gnósticos se limitam a acrescentar: “ Nós mesmos, como seres reais cons­
cientes, ouvimos nossa própria música - peto menos a parte que cantamos dentro da
polifonia viva da qual somos uma frase. Temos, então, de imaginar as partituras ob­
serváveis dos outros seres como o lado avesso de cantos verdadeiros. A imensa va­
riedade das partituras observadas não pode ser o silêncio eterno de sua própria escrita.
Embora não participemos diretamente do canto interior dos outros no espaço, pelo me­
nos participamos, no tempo, do nosso próprio canto que faz a nossa continuidade. A
memória, orgânica e psicológica, permite não apenas as continuidades melódicas, co­
mo também os da capo, as repetições, as variações sobre um tema. Ela faz de nós al­
go mais do que uma série desconexa de acontecimentos que seriam tão atômicos no
espaço-tempo quanto os átomos materiais de Demócrito no espaço. Proust se emocio­
na ao ouvir novamente a pequena frase melódica da sonata de Vinteuil, pois, dessa
forma, está participando do seu próprio passado, de seus ‘outros eus’; e, além disso,
essa participação com ele mesmo possibilita-lhe uma quase-telepatia - imperfeita -
com o ‘eu de um outro', o 'eu' do artista."

Luz física e luz gnóstica

Os “cadáveres de informação” , assim como os tçxtos de um livro ou os sulcos


de um disco, ressuscitam na consciência de um leitor ou de um ouvinte. Seu retorno à
vida faz presumir- e não explica - a existência de consciências individualizadas. Eles
não poderiam, de forma alguma, ressuscitar a si mesmos. O leitor ou o ouvinte herdou
sua continuidade consciente, não das informações materiais que recebe, mas de sua
relação ininterrupta, durante milhões de séculos, com um transespacia! mnêmico e
semântico que o informou (a ele e a seus ancestrais diretos) por participação. Uma vez
rompidos a relação e o contato, o ouvinte ou o leitor morre irremediavelmente e não
ressuscita a si mesmo mais do que um livro que ninguém mais lesse, ou uma máquina
que nenhum ser vivo voltasse a usar.
Expressando isso metaforicamente, a luz gnóstica, a consciência dos significa­
dos é algo que não tem nada que ver com agregação de fótons, com a luz física. A luz
gnóstica é uma iluminação por participação no significado. Os fótons só trazem a luz

5. Op. Gft, p. 170.

117
para um ser iluminado ou iluminável por sua participação no significado e na sua própria
m em ória do significado. Os fótons não são luminosos por si mesmos. O espaço, quan­
do n ã o é “ pescado” por olhos vivos, é tão tenebroso quanto o centro da térra, mesmo
sendo tão repleto de informações em cada um de seus cantos quanto uma fotografia-
hologram a. O espaço torna-ee “luminoso”, informante, no sentido real, somente para
um s e r verdadeiramente temporalizado e “possuidor de um sentido”.

Topologia e semantismo
Alguns físicos murto próximos da Gnose, em particular L L Whyte, G .N . Lewis e David Bohm,
tôm desenvolvido o seguinte raaocíruo: Considerando que, nos diagramas relativistas, o intervalo que
separa dois acontecimentos ligados por um raio luminoso é Igual a zero, podemos, então, considerar
que esses dois acontecimentos estão em contato mútuo e podem reagir fisicamente um sobre o outro
por transterônaa direta de energia. Assim, quando observamos a nebulosa de Andrómeda, distante,
métricamente, de um milhão e meio de anos-luz, estamos em cordato direto - topologicamente - com
seus átomos emissores. Nós, terrestres, somos “tocados" pelos andromedianos.
Os sistemas de referônda no espaço-tempo tomecem-nos uma simples projeção de todo o pro­
cesso, expressando corretamente determinadas relações e deformando outras. Uma teoria topológica
do espaço-tempo que cuidasse das incidências e contatos, e não dos Intervalos métricos, permitiria,
partlndo-se dos processos reais nos quais cada acontecimento está diretamente ligado a outros, cons­
truir acessoriámente o espaço-tempo métrico. Toda ação, todo contato ó essencialmente um contato di­
reto na velocidade da luz. As ações com velocidade menor provdm de contatos de segunda ou de ter­
ceira ordem, e derivam dos contatos primários (na velocidade da luz). Sua trajetória é formada por uma
sórie de ziguezague (Zitterbewegungen) ou espirais.
Nesse sentido, a velocidade da luz ó a única “velocidade” . Todas as velocidades inferiores deri­
vam das “ reflexões” da ação sobre indivíduos Intermediários.

David Bohm utiliza, aqui, o termo “reflexão" num sentido Muco, naturalmente. Masé preciso le­
var em conta que a interpretação topo lógica está, por sua vez, subordinada a uma interpretação semân­
tica mais profunda; por isso, o termo “reflexão” deve ser tomado aqui num sentido quase psicológico.
Cada átomo, num cristal onde se propaga um raio luminoso a uma velocidade aparentemente inferior à
velocidade da luz, leva por assim dizer um certo tempo, real, para “entender o que está acontecendo
oom ele", por referônda com o transespadal do qual ele partid pa. Daf o atraso. Os segundos ou os
centimetros que medem essa veloddade são apenas abstrações subordinadas. O tempo e o espaço
são feitos exclusivamente dessas “ reflexões” dos seres informados, que "entendem o que está aconte­
cendo com eles” .
Retomando o exemplo citado acima, a Imagem luminosa do tigre solto no meio da multidão corre
na velocidade da luz. Poróm, o pánico só se propaga a uma velocidade bem menor, pois os espectado­
res não “ficam dentes” do perigo instantaneamente. O tempo de “ficar dente" não ó o tempo ma-
croscóplco-môtrico da ffsica relativista, e nem o tempo topológico de Bohm. É um tempo mais primor­
dial, simultaneamente ffeico e hlperffeico; é uma ação na qual o t (o tempo simbólico), que se combina
com a energia ou com o c (comprimento igualmente simbólico), que se combina com mv, a quantidade
de movimento, não é nem um tempo nem um comprimento no sentido comum, jâ que, na realidade, ele
significa uma partidpação elementar no transespaço-temporal. No entanto, esse tempo-mais-primor-
dial-que-nâo-ó-um-tempo faz o tempo comum, assim como o comprimento-que-náo-é-um-compri-
mento faz o espaço comum. Assim como, provavelmente, a carga positiva ou negativa, o spin, o núme­
ro bariônioo, a própria massa, podem ser considerados relacionados com - ou como “ projeções de” -
as realidades mais fundamentais do hiperespaço ou do iso-espaço (o espaço isotópico), do iso-spin, da
hipercarga, ou “estranheza”.6

6. Haldane (numa conferônda de 1963) incitava 06 biólogos a não ficarem para trás em relação aos
físicos, e a considerarem que os “ acavalamentos quânticos” temporais e espaciais permitem que se fa­
le, em certos casos, de um “estado vivo" de sistemas com interações deslocalizadas distantes, como se
tala de estado gasoso ou de estado líquido, de acordo com o alcance das interações.

118
Utilizemos provisoriamente, como David Bofim,7 a m etáfora (incorreta) dos vestfgios mnêmicos.
O espaço-tempo da lísica clássica, ou relativista, taz supor um conjunto contínuo de momentos coexis-
tentes. Mas tudo o que pode haver, na verdade, é o instante distinto. Quando um instante é, seu passa­
do é sempre passado, e dele só permanece umvestígio. Seu futuro está sempre por vir, mas ele é ape­
nas uma projeção ainda, ou uma hipótese. Um outro momento vem a seguir, no qual o momento ante­
rior está contido sob a torma de vestígio. E ele contém igualmente uma projeção dos momentos que
virão depois. Existem, além disso, vestfgios indiretos (assim como lembramos que, ontem, lembrávamos
de anteontem). Em outras palavras, cada momento temseu passado e seu futuro.
Essa concepção é uma espécie de transcrição para físicos da monadologia leibniziana. A ordem
dos acontecimentos no tempo e no espaço está oontida dentro de cada momento, no sentido de que ela
faz parte da estrutura de cada aoontecimenlo dentro do processo total. Cada momento é ‘'interiormente
posterior" a todos os que nele deixaram um vestigio. O mesmo acontece com relação ao espaço, pois a
estrutura espacial de cada vestiglo reflete a estrutura espacial correspondente dos acontecimentos qus
deixaram vestigios. A estrutura Interna de cada acontecimento encerra implicitamente sua posição no
espaço e no tempo. Ela oontóm, enfim - para usar a linguagem psicológica de Leibniz - memória e
apetiçáo (para fazer o tempo passado e futuro), e percepção (para fazer o espaço).
O interesse que esta concepção representa para o físico é que ela permite \t alóm dos conceitos
clássicos (e relativistas) sobre eepaço e tempo, e além da teoria dos campos. Trata-se, então, para o fí­
sico, de encontrar um modo de expressar matematicamente o conjunto das relações de vestígios, e de
vestígios de vestígios, que definem cada momento em função do seu passado e do seu meio. Acredita-
se ser isso possível por melo de ‘'matrizes” , no sentido matemático da palavra, que tenham a proprie­
dade de serem os termos de uma determinada seqüônda, cada uma delas podendo ser conseguida a
partir da anterior mediante uma operação matricial característica Do mesmo modo, o espaço pode ser
considerado oomo um oonjunto descontínuo de estruturas (simplexos), de ajuntamentos lado a lado (no
caso do vazio), ou com buracos (quando há matéria), segundo relações de congruência ou de
homología.

Os Gnósticos desejam boa sorte aos físicos em sua busca dos grupos matemá­
ticos (grupos de Lie, ou outros) graças aos quais poderão expressar com exatidão es­
ses conjuntos de vestfgios de vestígios. Porém, não acreditam num sucesso total. E is­
so porque os físicos “topologistas” ainda permanecem presos à metáfora da memória-
vestígio, ao postulado segundo o qual o aqui-e-agora elementar deve ser pequeno e,
até mesmo, quase-pontual, os fenômenos macroscópicos sendo componíveis e com­
postos desses elementos. Ocorre que esse postulado leva a certas contradições, já no
nível da teoria física. Se o acontecimento presente comporta vestígios estruturados, ele
é dominial, e não pontual. Por mais que o seu aqui-e-agora seja presente, sem outro
passado ou futuro a não ser interno, e sem outro “alhures” senão o que consta aqui, ele
é, portanto, antes um "complexo" do que um “simplexo”. Assim sendo, por que postular
que, em sua “biografia” ou em sua “forma”, ele sempre deva ser, no sentido geral, mi­
croscópico? Por que constituir o espaço-tempo comum com novos “átomos” que conti­
nuam moldados, mesmo que de longe, sobre o velho modelo dos átomos materiais,
apesar de serem considerados átomos espaço-temporais de ações coordenávetô?

Principalmente no campo da biologia, tudo parece indicar, apesar dos preconcei­


tos vigentes, que um organismo é tão “ monádico”, tão unidominial, apesar dos inúme­
ros subdomínios em mecanismos subordinados, quanto os “ simplexos” da nova mi-

7. Cf. David Bohm, artigo publicado em The Sáentist Speculatos, obra coletiva dirigida por I. J. G o*
od. Traduzido emtincôs sob o título: üuand les savants laissent //ore cours à leur imaginatíon, Dunod,
1967 (p. 169).

119
crofísicí. Mas, obviamente, é extremamente duvidoso que se consiga expressar os es­
tados sjcessivos do embrião por meio de matrizes (matemáticas) operáveis e de gru­
pos “de congruência ou de homología". A sucessão de seus estados lembra muito mais
uma sucessão de "soluções de matriz" (desta vez, no sentido psicológico) ou de “pala­
vras cruzadas’ temáticas, soluções essas nas quais o embrião, em sua unidade, é au­
xiliado por indícios espaciais (comparáveis a vestígios, se quisermos), mas sobretudo
pelas rremórías transespaciais das quais ele participa, memórias transespaciais e,
também, transtemporais, onde o futuro, tanto quanto o passado, alimenta o presente
dominial sem ser propriamente lim vestígio ou uma projeção.
Se o universo, hipoteticamente falando, fosse constituído de um único embrião
em desenvolvimento, nem o tempo real, nem o espaço real, nem o espaço-tempo as-
semelha-se-iam aos diagramas de Minkowski. Na verdade, é pelo fato de existir uma
grande quantidade de desenvolvimentos (geralmente, muito mais “microscópicos" do
que um desenvolvimento orgánico) que o espaço e o tempo adquirem o aspecto ho­
mogéneo e superficialmente ordenado (no sentido usado na física clássica). É por isso
que o conjunto dos acontecimentos tem uma direção geral que vai, paradoxalmente, no
sentido inverso do tempo de um desenvolvimento individual, e que a degradação das
formas, por suas interferências fortuitas e superficiais, parece predominar em relação
ao seu aperfeiçoamento. É por isso que o acaso parece prevalecer em relação à infor­
mação ativa.
Mas os físicos, quando querem cavar mais profundamente por baixo desse as­
pecto e aparência de homogeneidade e ordem por entropia máxima, cometem, obvia­
mente, um engano em querer trabalhar ainda e tão-somente com base em aconteci­
mentos ou “biografias" atômicas. Seu método pode ser momentaneamente compensa­
dor na medida em que permite maior exatidão, mas não é difícil perceber por que esse
mótodo, tal qual, não leva a resultado algum. O embrião encadeia, por si mesmo, suas
próprias matrizes (psicobtológicas) de invenção-reprodução. Ele não obedece a ne­
nhuma fórmula matemática de transformação.

As chaves dominial*

O espaço-tempo global, clássico e relativista, é feito de domínios ativos, em cha­


ves, e não de pontos-acontecimentos atômicos ou monádicos.
Podemos captar a passagem de um domínio para dois ou para vários subdomí-
nios em todos os fenômenos de criação e de aniquilamento de pares, e no fato de que
as materializações ou as desmaterializações da energia sempre ocorrem sobre' um
fundo de leis de conservação, englobando as micro-individualidades.
As chaves dominiais se manifestam sobretudo na biologia.
Uma célula que se divide em duas, duas células que se unem e se fundem, dois
esboços que se fundem ou um esboço que se desdobra, são fatos, também, e prova­
velmente aparentados com as criações de pares da física, a despeito das compli­
cações que podem ser acrescentadas e dos mecanismos auxiliares de realização. Os
desdobramentos dos genes que a biologia molecular considera, hoje, como um decal­
que de informações totalmente materializadas, devem, antes, ser relacionados com os
desdobramentos de esboços embrionários que, por sua vez, não podem manifestamen-
120
te explicar-se pelo processo de decalque e são tão primários, dentro do “campo dom i-
niar, quanto as criações de pares da microfísica.
Quando um homem adulto imprime dois movimentos conjugados e simétricos aos
seus dois braços (sem precisar vigiar particularmente o que o braço direito e o esquer­
do estão executando), sua área motora cerebral é semelhante na sua essência ao que
representa um diagrama de microfísica para uma criação de pares. Assim, também, o
surgimento de uma simetria bilateral num ovo fecundado - simetria bilateral que tem, à s
vezes, como resultado uma gemelidade, na qual os dois gêmeos "idênticos" apresen­
tam às vezes, características em espelho (como duas das irmãs Dionne, cujos cabelos
se encaracolavam em sentidos contrários, ou como certos “pares”, raros, de gêmeos
idênticos onde um deles tem o coração no lado direito).
O que faz parecerem gratuitos tais paralelos é o fato de que, na criação de pares
biológicos, a participação nas memórias transespaciais pode, depois, acabar diferen­
ciando essas subindividualidades formadas inicialmente de modo simétrico. Dois esbo­
ços pares poderão permanecer simétricos, mas poderão também diferenciar-se pro­
gressivamente, se o potencial mnômico for “distribuído". Suas “biografias", a princípio
analógicamente semelhantes, passam então a divergir, e essa divergência diferencia-
dora confirma, depois de ocorrido, que o desdobramento simétrico não era um simples
decalque.

As individualidades como espelhos espaciais do transespacial

Cada domínio ô como um espelho que pode separar-se em duas partes, primeiro
semelhantes, não apenas em sua materialidade de espelhos como também na identida­
de do que eles refletem. Depois, à menor diferença de orientação, cada uma dessas
metades passa a refletir outra coisa, uma outra parte do mundo refletido. As memórias
(transespaciais) de uma espécie, seus instintos formativos e de comportamento, são
assim “ refletidos” , numa distribuição diferenciada, no que diz respeito aos esboços, a
princípio semelhantes, de órgãos diferentes, aos segmentos do eixo orgânico, a ambos
os sexos, e às formas especializadas das espécies polimorfas.
Esta comparação tem a vantagem de fazer entender o caráter relativo do deter­
minismo mnèmico. Um deslocamento mínimo do espelho ê necessário para que ele re­
flita outra coisa. Mas esse minúsculo deslocamento não explica as diferenças do que é
“refletido”. Assim, algumas moléculas de uma substância elaborada a partir do cromos­
somo X ou V orientam o embrião para o sexo masculino ou feminino. Mas seria absurdo
achar que se pode explicar a imensa complexidade do “saber ser macho” ou do “saber
ser fêmea” pela natureza da substância química.
A comparação é imperfeita na medida em que transforma em informação por
meio de elemento observável (o reflexo das coisas no espelho vivo) o que, na verdade,
é mais do que um reflexo; é informação por elemento participâvel. Ela substitui por um
esquema puramente espacial um acontecimento dominial, que fabrica estruturas espa­
ciais a partir de temas transespaciais e que fabrica tempo-processo a partir do in­
temporal.
121
S o m o s iludidos pela riqueza do espaço

A fantástica riqueza do espaço em termos de informações estruturadas disponí­


v e is , nas quais os seres perceptivos apenas têm de pescar, desperdiçando quase tu­
do, contribui para que se acredite que as informações mnômicas, as ubiografias,’, as
continuidades semânticas dos seres vivos e sua reprodução possam ser explicadas
por essa riqueza espacial.

Na história das idéias cientfficas, há sem dúvida uma relação Interessante entre as teorias da óti­
ca e as teorias biológicas da reprodução por encaixe dos germes. Nos séculos XVII e XVIII, causava as­
sombro a ótica da câmara escura e do olho, onde os raios luminosos eram capazes de concentrar-se o
suficiente para passarem por um minúsculo orifício, dispersando-se em seguida, o suficiente para de­
senhar todos os detaJhes de uma paisagem. De uma toma mais geraJ, o microscópio deu a idéia de
uma informação infinitamente subi do espaço, onde os aparentes desenvolvimentos no tempo podiam
ser contidos. Assim, Adão continha, pelo encaixe dos germes, toda a humanidade futura. O problema
da “ passagem estreita” para tantas informações náo mais pareceu um problema. G. Bonnet extraiu dis­
so toda uma filosofia. Teorias muito menos simplistas, no século XIX, são tributárias do mesmo “encora­
jamento” . O corpo envia representantes de suas estruturas nos elementos germinais que tornam a dis­
persar-se num novo corpo, assim como a imagem de um vasto espetáculo passa pelo orificio da pupila.

Hoje em dia, não se recorre mais a essas comparações óticas, mas continua-se
confiando na riqueza do espaço para entender a informação no tempo. Uma fita de gra­
vador não contém todas as informações de uma sinfonia? Basta desenrolar e “ler” a fita
pelo processo mecânico do encadeamento. O cérebro tem espaço mais do que o ne­
cessário para conter toda a memória psicológica de um indivíduo. Os genes e os DNA
representam informação espacial suficiente para que o desenvolvimento temporal não
seja um mistério. Não é por nenhum processo de mágica que, de todas as partes, a
quilômetros de distância, podemos ver uma paisagem; o fato é que essa paisagem
existe realmente em cada pequeno volume do espaço. Não é nenhuma mágica o fato
de podermos ouvir uma sinfonia desenrolando a fita magnética: em cada ponto, sua es­
trutura molecular conserva o vestígio da passagem das ondas sonoras. Do mesmo
modo, o aspecto aparentemente mágico da formação embrionária e dos comportamen­
tos instintivos explicar-se-ia pela leitura (mecânica) das informações espaciais contidas
nos genes.

Por mais que o estudo direto dos fatos da memória ou da formação embriogênica
manifestamente temática revele de forma imediata a impossibilidade dessa redução ao
espaço, essa redução contínua a se beneficiar de um prestígio científico totalmente ime­
recido. Quando os embriologistas consideram que, no embrião jovem, qualquer parte
pode ser equivalente, em informação potencial, ao todo; quando Lashley considera que
a memória cerebral de uma aprendizagem não é locaiizável; quando os lingüistas mos­
tram a impossibilidade de se entender a composição da palavra a partir de reflexos
condicionados, as mentes científicas continuam achando que devem manter a idéia de
base de que, ainda assim e em última instância, o espaço é rico o suficiente para expli­
car tudo. O intencional, o sintático, o estrutural - no sentido não-mecânico - , a organi­
zação interna da enunciação, como do desenvolvimento ou do comportamento, por
mais que se admita tudo isso, mantém-se a esperança de poder reduzir tudo, por fim, a
estruturas mecânicas e espaciais. Até mesmo N. Chomsky considera-se na obrigação,
para livrar-se da “ horrível" acusação de utilizar uma terminologia “mentalista”, de decla­
122
rar, num parágrafo final:8 “ Podemos estar certos de que haverá uma explicação física
para os fenômenos em questão" - acrescentando apenas: “ Mas o conceito de expli­
cação física provavelmente acabará sendo ampliado, exatamente como foi ampliado
para receber a força gravífica e eletromagnética.”

O preconceito acerca do elemental e da causalidade ascendente

Segundo a tese gnóstica, essa ampliação será tal que o próprio termo "física"
acabará enganando, exceto se remontarmos ao sentido etimológico da física como
ciência da physis, da natureza, onde os seres crescem e vivem no tempo. Então, afas­
tado qualquer preconceito cientificista, vemos que os temas do comportamento, partici­
pados, dominam o infinito dos detalhes e não derivam deles, que a causalidade temáti­
ca é descendente de chave em chave, e que só ó rem ontante, desde os detalhes su­
bordinados até o tema, nos casos de aperfeiçoamentos cuja soma, integrada ao tema,
é sem dúvida muito importante — ela desenha o universo visível mas que só têm
sentido relativamente ao tema primitivo.
Mesmo na percepção e na “pesca dos observáveis” quando, por hipótese, o
domínio consciente se oferece passivamente à modulação pelos detalhes informantes,
se oferece aos acasos da pesca, um ser vivo, ainda assim, só toma no espaço o que
ele procura, de acordo com seus temas de percepção e segundo suas “gnosias” instin­
tivas. O mundo percebido por uma espécie animal já vem inscrito de antemão em seu
potencial quase tão rigorosamente quanto seus instintos formativos. Em outras pala­
vras ainda, tanto na percepção como na ação, o "distai” sempre prevalece sobre o
“proximal", o sentido geral prevalece sobre os detalhes. Se, no decurso da evolução da
espécie, a causalidade teve de ser “ascendente" para que a espécie pudesse aprender
o seu “ mundo" (Umwelt), provavelmente o encontrou, se não buscando-o diretamente,
pelo menos buscando um mundo onde pudesse viver e ampliando aos poucos seu
domínio.
Todo ser vivo - na verdade, todo ser real - é um artista, ao mesmo tempo inspi­
rado e sempre alerta para utilizar o acaso. Se a arte “ aleatória”, se a música ou a pintu­
ra informal, à base de combinações aleatórias, é possível, é precisamente porque o ar­
tista espera poder tocar, apontando ao acaso, um significado ou alguma expressividade
transespacial. Ele "brinca com o espaço”, mas para sair dele, assim como se tenta ao
acaso várias chaves para abrir uma fechadura.
Para o comportamento ativo dos seres dotados de um sistema nervoso, isso é
ainda mais evidente. Os detalhes nervosos (neurológicos) da realização de algum ato
são de uma complexidade que parece indefinida.
Eccles conseguiu mostrar, em 1964, por quais mecanismos químicos os nervos
se excitam e se inibem um a outro, pela passagem de lòns através de uma superfície
interna polarizada, provocando sua despolarização. Já que os efeitos de nervo para
nervo, e de nervo para músculo são similares, uma versão generalizada da hipótese de
Eccles pode servir de modelo para todas as formas de excitamento e de inibição.9

8. Le Langage et ia Pensáe, Payot, p. 139.


9. Ct. Donald Lonymore: Le Coeur, Hachette, 1970.

123
Quando em repouso, a placa terminal (na junção nervo-músculo) ou a sinapse
(na junção nervo-nervo) tem os póros de sua parede receptora obstruídos. Ao desen­
cadear-se a ação, a placa ou a sinapse libera uma substância mediadora armazenada
num lugar próximo ao póro, e combina-se com a molécula obstruidora de tal modo que
essa molécula rodopia para cima, abrindo o póro. íons passam, então, por essa abertu­
ra e provocam a despolarização excitadora. Numa junção inibidora, passam lòns dife­
rentes (os póros efetuam essa seleção pela carga elétrica de suas paredes) e, em se­
guida, enzimas próximas do sitio no receptor destroem a substância mediadora, e os
póros voltam a fechar-se (tudo isso, num ou dois mifi-segundos). Os produtos que blo­
queiam um sitio no receptor num excitamento não tôm nenhum efeito sobre uma junção
inibidora. Além disso, existe especificidade desses produtos de um nível para outro e,
mesmo, de um gânglio nervoso para outro gânglio vizinho, do cordão medular- assim
como existe, num grande edificio de escritórios, uma chave diferente para cada porta.10
Se esses complexos mecanismos se desenvolvem ao acaso, só se pode con­
seguir um nível estatístico do tônus nervoso - o que não vem a ser uma ação mais do
que um ruido de fundo vem a ser uma mensagem, ou uma pulverização homogênea de
pequenos pingos de pintura viria a ser um quadro. Para qualquer comportamento dota­
do de sentido, por menor que seja (por exemplo, enunciar uma frase ou fazer um sinal),
são necessários milhares de nervos descarregando-se num conjunto organizado, e mi­
lhares de fibras musculares reagindo de maneira coordenada pelo processo de chave
de um esquema, elaborado na área motora cortical pela ação da consciência motora
habitual ou inventiva.
Eccles teve o raro mérito de estudar com minúcia detalhes como esses, sem
perder de vista a necessidade que havia de um mestre do jogo, de um senhor do domí­
nio, supra-ordenado, e sem a tola pretensão de querer explicar o comportamento pelos
determinismos acumulados, pelo avesso (embora, para desempenhar esse papel de
Msenhor do dominio”, tenha cometido o erro de apelar para um “espírito mágico” , inspi­
rado pelas experiências duvidosas de Rhine, e exercendo campos espaço-temporais
de influências sobre os milhões de elementos nervosos levados até um nível crítico de
excitabilidade).11
é muito mais simples rejeitar o postulado injustificável segundo o qual os domí­
nios individualizados só podem ser “pequenos", e segundo o qual os domínios maiores
são apenas 'conglomerados de pequenos domínios que estaríam fazendo toda a reai-
dade do grande domínio. Em que a noção de um domínio cerebral de comportamento
unitário seria menos cientifica do que a noção de uma unidade celular, ou de uma uni­
dade molecular? Uma flor composta possui tanta unidade quanto uma rosácea ou uma
papilionácea, e sabemos que os mesmos temas morfogenéticos operam, tanto na for­
ma composta como na forma simples. Por mais que ensinemos às crianças que uma
margarida não é “uma” flor, não podemos impedi-las de dizerem que elas têm na mão
“uma" flor. O que não está totalmente errado pois, entre uma inflorescência muito con­
densada e uma flor não existe um limite preciso. Favarger demonstrou que, em muitas

10. Ibid., p. 104.


11. J. C. Eocles: The Neuro-Physfologicaj Basis of Mind, Oxford, 1953, p. 204.

124
flores que parecem simples, devemos ver inflorescèncias condensadas e simplifica­
das.12
Os lingüistas há muito tempo sabem que os esquem as lingüísticos não podem
ser compostos com microelementos, e sim, submetem-se a "modelos” temáticos. E
eles suspeitam da existência, por baixo desses modelos, de tem as instintivos e genera­
tivos mais profundos.
O cérebro, no embrião, forma-se em seu conjunto. Quando adulto, ele funciona,
em parte, segundo diferenciações adquiridas e irreversíveis, porém conserva, da uni­
dade dominial de sua formação em área “totipotente"13 para a neurulação, a possibili­
dade de comportar-se, no sentido próprio da palavra, e de agir segundo temas signifi­
cantes. O cérebro adulto ó, no organismo, uma área que, num certo sentido, permane­
ceu embrionária, isto é, um esboço diferenciável (capaz de diferenciar-se) neste ou na­
quele sentido, de acordo com as informações e chamadas mnômicas que recebe.

Nos vegetais, tambóm existem zonas que, no organismo adulto, permanecem embrionárias. No
animal, o coração encontra-se até certo ponto numa situação análoga à do cérebro, porém inversa. Seu
comportamento rítmico é autônomo e independente dos estímulos nervosos. O feixe de His, uma das
tontes desse ritmo autônomo, é, na verdade, um músculo embrionário que conserva a capacidade em­
brionária de contrações rítmicas espontâneas. Sobrepostas a esse comportamento embrionário, estão
as regulações que funcionam por inibição e excitação para- e orto-simpáticas. Em resumo, no coração,
um funcionamento fica sobreposto a um comportamento. No cérebro adulto, o comportamento (análogo
ao comportamento inventivo mnémico do esboço oerebral) fica, pelo contrário, sobreposto aos funcio­
namentos nervosos de efecçáo. É como se, no coração, o centro de His, bem como os nós auriculoven-
tricular e sinuso-auricular usassem como elector o sistema orto-e para-simpático. Na verdade, as dife­
renças se atenuam. Pois, em todo o organismo vivo, náo existe nunca um funcionamento puro, a partir
de estruturas diferenciadas no espaço, mas um funcionamento sempre supra-lmposto ou subimposto ao
funcionamento-comportamento que constitui ou reconstitui as estruturas. Um organismo que náo con­
serva mais nada de um esboço, autoconstltulnte por participação mnémlca, é um'organismo morto.

Holismo e reduclonismo

“ Seria possível conceber que um engenheiro marciano, querendo interpretar o


funcionamento de uma calculadora terrestre, conseguiria chegar a um resultado qual­
quer se se recusasse, por princípio, a dissecar os componentes eletrônicos de base
que efetuam as operações que se espera do aparelho?”
Pois bem. É ainda mais duvidoso que ele consiga entender o computador, o seu
uso, e não apenas o seu funcionamento, se ele se limitar a estudar seus componentes
eletrônicos sem ter a mínima idéia do tipo de operação que se exige da máquina. Os
embriologistas só conseguiram fazer sua ciência progredir utilizando conceitos “ holfsti-
cos”, isto é, “dominiais": os conceitos de esboço, de indução global, de potencialidade
total ou parcial, de determinação orientadora, de diferenciação, de epigônese, de regu­

12. C l C. Favarger: Flote et Végátaion des Alpes, l p. 256.


13b Uma área embrionária d totipotente quando consegue fornecer qualquer uma das partes do
oonjunto que ela está destinada a se tornar: a metade de umovo, depois da primeira dMsáo, ainda po­
de dar um organismo inteiro. Uma das metades permaneceu um todo virtual; permaneceu totipotente.
(Nota de 1977.)

125
lação dominam as interações moleculares. Se tivessem procurado analisar direta e ex­
clusivamente as interações moleculares (às quais eles chegam em alguns casos), a
embriologia científica não existiria. O exemplo de Eccles mostra que a tentativa de
compreender o comportamento global de um domínio, no caso, do sistema nervoso, não
ó em nada incompatível com a minúcia no estudo das interações nervosas ele­
mentares.
Capítulo XVI

A ‘D ESVIN C U LAÇ ÃO " (UNBUNDLING) D A MENTE NO UNIVERSO

O usuário de um computador não precisa saber como, na realidade, funcionam


os componentes eletrônicos de base. Ele está muito mais preocupado em ter bons mo­
delos de utilização ou, como se diz, de software. O computador é um aparelho material
que serve para compor um número indefinido de “modelos analógicos" dos funciona­
mentos, cujo rendimento se pretende estudar, num pré-experimento sem perigo, num
experimento quase-mental. O software é o conjunto dos esquemas de modelos a se­
rem compostos.
Um fabricante de jogos de construção para crianças nunca deixa de acrescentar
vários modelos de construções possíveis que o seu hardware permite. O software na­
da mais é do que um conjunto desses modelos de montagens possíveis.
Apesar de muitas tentativas, tem sido impossível encontrar palavras francesas
para traduzir esses termos de língua inglesa. Hardware (a aparelhagem material) cos­
tuma ás vezes ser traduzido por “lataria"- que não ô um termo muito feliz quando que­
remos aplicar esse conceito, como vamos fazê-lo, à biologia. Para o software, “recei-
tuário de montagens" parece ser a expressão mais exata possível, pelo menos a mais
curta.

O cérebro como hardware para a mente, transformada em software autônomo

Todos os seres que não são simples aglomerados sem unidade verdadeira são,
em seu “anverso” , subjetivos, em plena posse de si mesmos. Eles se utilizam de si
próprios como um engenheiro montador se utiliza de um computador material. Como
unidade individual, eles são engenheiros montadores de seu próprio domínio, que eles
utilizam como teclado ou instrumento. Todos os seres são ao mesmo tempo engenhei­
ros e máquinas, datilógrafos e teclados, pianistas e pianos.
O cérebro — ou antes o seu “anverso": o campo de consciência - representa
apenas um caso particular desse estatuto universal dos seres. Ele é primitivamente ao
mesmo tempo engenheiro em seu anverso e máquina em seu reverso observável de
tora. Ele é teclado e pianista. Porém, a riqueza do software cerebral - isto é, do recei-
tuário de montagens diversas - no homem, para quem as memórias culturais vêm

127
acrescentar-se às memórias biológicas, é tal que o que é indissociável ou pouco disso-
ciâvel nos outros seres dissocia-se no seu caso. A mente parece ser uma espécie de
engenheiro puro, de homem-mente no homem-corpo, dotado de milhões de receitas de
montagens e utilizando-se do corpo como de uma aparelhagem material disponível.
O “ eu" parece servir-se do cérebro para perceber. Nós náo recebemos - ou não
recebemos apenas - inúmeras informações de modo totalmente passivo; também pro­
curamos as informações importantes dentro da confusão de ondas e fótons. Nós não
sofremos - ou não sofremos apenas - condicionamentos: nós nos condicionamos vo­
luntariamente, nós “ nos montamos" conforme as necessidades da ação projetada.
Um ponto mais paradoxal é que não nos deixamos invadir pela nossa própria
memória, a qual, no entanto, por fazer nossa biografia individualizada, nos opõe ao es­
paço; mas procuramos também lembranças úteis, lançando para isso correntes explo­
radoras, assim como quem utiliza uma calculadora pode colocar em seu “ programa”
explorarem determinado momento as memórias magnéticas.
Ou seja, a “mente" parece ser um utilizador transcendente do “corpo” e, em par­
ticular, do cérebro, servindo-se deste como de um instrumento, como de uma ‘ lataria
nervosa", ou como um pianista se utiliza de um piano. A Gnose pré-cientflica inventou
mitologias pitorescas e complicadas sobre esse tema: o Espírito, totalmente indepen­
dente da Matéria, sobrevindo de um outro mundo e, às vezes, inimigo da matéria que
ele não consegue mais dominar.
Com efeito, o Espírito tomou-se - quase - um ser autônomo, pela enorme varie­
dade das montagens possíveis, em contraste com a disposição padronizada - em toda
a espéde humana, e até mesmo em todas as espécies de animais superiores - do sis­
tema nervoso central. A firma I.B.M., desde junho de 1969, vende separadamente, e fa­
tura em separado, seu hardware e seu software. Esse método comercial foi batizado de
unbundíng (desvinculação ou desenfardamento). A natureza igualmente acabou fazen­
do uma “desvinculação” da mente, mas isso de forma progressiva, primeiro nos seres
vivos com memória “independente” , isto é, não vinculada ao desenvolvimento e, de­
pois, em maior escala, no homem, que tem uma memória cultural sobreposta à memória
biológica.
O que denominamos “cultura" é, na verdade, uma enorme coleção de “monta­
gens", de “jogos” possíveis sobre o mesmo cérebro. Assim, por exemplo, a música de
piano é todo um mundo à parte em relação ao mesmo piano instrumento material, como
a variedade dos usos possíveis de um computador é um mundo à parte em relação ao
aparelho padrão. Os papéis sociais, as linguagens diversas, os ritos, os comporta­
mentos culturais, indefinidamente variados, se desenvolvem, se inventam, se compli­
cam e se diversificam em arquiteturas psíquicas variadas, que se utilizam do mesmo
instrumento cerebral, cujas variedades biológicas, raciais e até mesmo específicas
quase não importam mais do que importa a marca de um piano, comparada com as di­
ferenças da música ou do executante, com a diferença entre Chopin e Gerschwin.
A história da música, da arte e da ciência, a história das idéias políticas e religio­
sas, e das instituições em geral, é totalmente independente da história biológica do cé­
rebro. Haendel é Haendel como músico ocidental do século XVIII muito mais do que
como homo sapiens nordicus. Durante sua vida terrestre, a “música do século XVIII" o
visitava, autônoma e sobre-humana como um anjo, e tocava no seu cérebro como ele
mesmo, depois, tocou no seu cravo. Após sua morte, sua música continua mais viva

128
do que nunca na mente de milhões de ouvintes. Podemos realmente (alar, como os e s ­
piritualistas mais entusiastas, ou como os devotos mais imbuídos de fraseologia devo­
ta, ou como os Gnósticos antigos, em “ restos mortais” de Haendel.
O desenvolvimento do software (cultura, composição musical, etc.) é praticamen­
te independente do progresso do hardware (o cérebro dos músicos).
Nesse sentido, todo homem, é um “ele", ou uma espécie de consciência impes­
soal, dentro da constelação ou estrutura cultural, tanto quanto um “eu” com iniciativas
próprias.
Entretanto, essa disjunção Espírito-Matória na utilização do cérebro pela mente
não de ve iludir quando se trata do aspecto geral e da natureza da vida no cosmo. Essa
disjunção revela, sem dúvida, uma disjunção universal entre a forma como idéia temáti­
ca e a forma como estrutura no espaço. Mas, ao revelá-la, acaba ampliando-a de tal
forma que pode chegar a iludir, dando origem às mitologias e às divagações da antiga
Gnose sobre o Pneuma e o Espírito, imaginados como sendo totalmente independentes
da Matéria na qual se atolam. Normalmente, a disjunção, ou bifurcação, permanece no
estado nascente. Nos fenômenos microfísicos, a disjunção já aparece, como vimos.
Ela se manifesta em particular pela dificuldade que se tem de processar a operação T
(a inversão do sentido do tempo) do mesmo modo que a operação P (a simetria no es­
pelho), ou seja, uma inversão puramente geométrica. Contudo, ela acaba sendo imedia­
tamente diluída em fenômenos coletivos estudados pela física comum.

A disjunção Espfrito-Matérta na embriogênese

Nos fenômenos biológicos, a disjunção se afirma. A consciência, a mente, não


sáo apenas o anverso do corpo; a mente utiliza-se do corpo como de um instrumento -
mas de uma forma ainda suficientemente discreta para que pareça possível, em último
caso, manter o ponto de vista do cientismo estreito e considerar a autonomia da mente
uma ilusão. A embriologia, entretanto, não deixa muito lugar para dúvida: o próprio em­
brião já se parece com um cérebro (assim como o cérebro se assemelha a uma área
que permaneceu embrionária), por suas surpreendentes propriedades potenciais, por
sua relativa indiferença em ser orientado para essa ou para aquela diferenciação, pela
facilidade com que o experimentador pode mudar o destino de suas partes mediante
“evocadores” químicos absolutamente banais. Sabemos que o experimentador pode
fazer surgir um esboço nervoso fora do seu lugar normal, sobre a parte ventral e não
sobre o ectoderma dorsal, e que qualquer parte do ectoderma dorsal pode, conforme o
evocador recebido, gerar uma parte qualquer do sistema nervoso, ou a retina, ou ainda
o simpático, o esqueleto visceral do crânio, a hipófise.etc. E como se a área embrioná­
ria material fosse apenas uma espécie de hardware, mas um hardware muito flexível -
apesar da etimologia da palavra - e qualquer montagem biomnêmica pudesse funcionar
ali, do mesmo modo com que o cérebro adulto pode servir de suporte para qualquer
montagem psicomnêmica.

As “ remonta gens” de causalidade

Em nenhum domínio, porém, a autonomia do Espírito se torna absoluta. A mente


nunca se torna um fantasma, ou um deus, que andasse livremente pelo espaço. Em to-
129
da parte ocorrem "remontagens" de causalidade, da matéria até o espírito. As infor­
mações constituídas reagem sobre a informação temática que, no entanto, foi a que de
inicio as improvisou. As receitas culturais da humanidade, que possibilitam, hoje, ao
homem montar toda espéde de idéias em seu cérebro, são tributárias de uma longa
capitaízaçõo dessas idéias e das ferramentas ou instrumentos Inventados no passado
(muitas vezes com a ajuda de fefizes acasos). Os músicos e os pianistas usam o pia­
no, quiseram um instrumento de tedado, conseguiram improvisá-lo e depois aperfei-
çoá-b (ou buscaram esses aperfeiçoamentos). Nesse sentido, só existem pianistas
porque existem pianos, assim como só existem compositores ou vendedores de soft­
ware para os computadores porque existem computadores materiais à disposição. As
"culturas biológicas” que, hoje, permitem que o embrião de uma espécie consiga mon­
tar, com uma iberdade espacial quase total, qualquer órgão especifico, ou que permi­
tem que praticamente qualquer parte de um vegetal consiga reconstituir o conjunto do
mesmo, são igualmente tributárias de todas as aquisições (muitas vezes fortuitas) ante­
riores, sejam ou não essas aquisições do tipo mutações integradas no potencial es­
pecífico.
A psicologia patológica, como a teratología biológica, evidencia de modo muito
claro as ‘ remontagens de causaldade" do tipo: "A execução de um pianista depende
do bom estado do piano.” Pode até ocorrer que a mente solcite essas remontagens de
causalidade. Os músicos up to date tocam num piano “preparado”, isto é, meto destruí­
do. Escritores "preparam” seu cérebro por meio do álcool ou de drogas variadas.

O espirito predomina
Pensando bem, porém, ainda estaremos menos longe da verdade se adotarmos
as teses mais extremas e mais míticas do gnosticismo do Espírito-que-se-toma-maté-
ria-e-depois-a-dorrÉia, do que se assumirmos a tese cientificista extrema, da Matéria-
que-fabrica-o-Espíríto. O Espirito é modificado pelos seus instrumentos, pianos ou má­
quinas. No entanto, é ele que os concebe primeiro, e que os realza. Só existem pianos
porque existem pianistas. Só existem músicos humanos porque existe uma música
universal.
Não há nenhuma contradição em considerar a Matéria como Espírito “ pulveriza­
do”, dominável ou dominado, utilizável como material por um compositor de maior com­
petência: um músico pode tanto se utilizar de coristas como de instrumentos; ao passo
que há contradição, ou apelo para o pensamento mágico, quando se pretende fazer sair
o Espírito do material que ele emprega. O Espírito se serve da Matéria (ou do Espírito
mais ou menos “ pulverizado”) da mesma forma como um ser falante se serve das pa­
lavras e dos sons que constituem as palavras para se expressar.
Não é absurdo dizer que o pássaro-indivfcluo voa porque ele tem asas que se
põem a funcionar, ou dizer que o pintriho dá bicadas que rompem sua casca porque ele
tem um bico (fabricado com a ajuda da química de seus DNA). Não é absurdo dizer que
o seu conhecimento instintivo do vôo e da bicada (seu software) chega a ser quase in-
distingüível do funcionamento de suas máquinas, das quais é um mero utilizador, se­
gundo um método de uso já montado no seu cérebro. O indivíduo encontra-se quase
que isento de genialidade - se bem que todos os indivíduos em fase de desen volvimerv

130
to, todas as crianças tenham genialidade até um certo ponto - porque os modelos de
comportamento já estão todos montados nele segundo uma memória específica.
Mas é impossível dizer da espécie o que pode ser dito, até certo ponto, do indiví­
duo. Se os pássaros voam, se os répteis e os mamíferos andam, é porque seus ances­
trais “quiseram" voar ou andar- e as mutações, lentamente, tornaram seus organis­
mos mais aptos a efetuar essas montagens, a princípio, improvisadas de modo precá­
rio.
As “espécies" (species) são “especialistas" (species is nothing, if it is not
speciaístic). Elas foram se modificando - acrobáticamente - ao modificarem o rumo
de seus interesses: “A forma organizada é a expressão de uma opinião organizada." A
adoção da postura vertical pelos peixes-chatos, a marcha bípede do homem, são acro­
bacias primitivas consolidadas. A marcha bípede do homem talvez tenha sido, no hício,
considerada defeituosa ou afetada. Talvez fosse a imitação1 de alguma deformidade,
imitação esta destinada a agradar algum chefe semi-símio, que perdera seus braços e
não podia mais andar de quatro.
O universo inteiro é, assim, um teclado que ao mesmo tempo funciona para e é
improvisado pelo seu montador. É uma acrobacia consolidada do Espírito.
Não vemos em que pode ser mais, ou menos mítico, considerar que o Espírito in­
tervém, seja sob a forma da vontade de voar, ou de andar, em determinados períodos
da evolução de certas espécies, ou sob a forma de invenções técnicas pek) cérebro
humano adulto, seja de uma maneira mais fundamental, como Inspirador universal de
todos os utilizadores do espaço e do tempo.
Sabemos que os vendedores de "montagens" (de software) são de duas espé­
cies: os vendedores de “montagens sob medida” , e para um uso bem definido; ou os
vendedores — segundo o sistema denominado d e "package" - de esquemas de monta­
gens genéricas, destinados a resolver problemas de um certo tipo enfrentados por em­
presas diferentes, mas cujas atividades são suficientemente análogas para que seus
problemas tenham soluções análogas.
Assim como o unbundling da I.B.M. pode ser comparado ao unbundling da mente,
o sistema de package é perfeitamente comparável ao processo da vida, biológica e in-
frabiológica, que sobrepõe ou subimpõe às memórias e inteligências individuais memó­
rias e inteligências especificas, e, a essas últimas, inteligências e memórias mais fun­
damentais ainda, e que constituem todo o sistema do espaço-tempo. O grande Vende­
dor de software realiza a “venda" segundo o sistema de package.

1. ...conforme sugeriu um Gnóstico humorista.


131
Capítulo XVII

A TEOLOGIA NEOGNÓST1CA

O Espirito, como tema, ou idéia, ou consciência, ou projeto, é formador, é envol­


vente, antecipando as estruturas de seus suportes materiais. A Gnose é essencialmen­
te antimaterialista. Urna reaüdade material, física, não pode preceder a consciência. A
consciência ô, ao mesmo tempo, o “anverso" e o invólucro constituinte da realidade
material.
Antimaterialista, a Gnose é “deísta”. Os Gnósticos não gostam muito de usar a
palavra “ Deus” . Mas os “sinônimos preferíveis” muitas vezes são incómodos para o
que se pretende expor. De modo que não pretendemos, aqui, ser puristas.
Deus é o “Anverso" supremo que faz a unidade do universo e o impede de ser
“ pulverulento” . Ele ó o “ Distai” supremo,1 do qual todos os seres subordinados são os
m ebs “proximais". Ele é a Causalidade descendente, que se aproveita de todas as
causalidades ascendentes, integrando-as. Ele ó para o universo o que o instinto forma-
tivo específico é para o embrião, visível no espaço e diferenciado no tempo. Ele é, por
oposição ao espaço das estruturas materiais e dos funcionamentos cinemáticos, o
tempo criador e dinámico. Mas ele envolve todo o espaço-tempo.
Existe uma discordância entre, por um lado, a prioridade normal da idéia sobre a
sua realização e, por outro, o aspecto geral da evolução cósmica, onde tudo sempre
parece iniciar pelos átomos (ou equivalentes) e os microacasos de onde parecem sur­
gir a consciência, a idéia, a mente. Superficialmente - e para uma ciência, aliás, hoje ul­
trapassada - o universo, em sua história, parece ir da matéria para a consciência ou,
mais precisamente, de um estado democrftico, de um teclado de letras desconectadas
com o acaso como único datilógrafo, para um estado markoviano (com conexões que
começam a canalizar o acaso: moléculas subvitais auto-reprodutoras, vírus, pré-vege-
tais, vegetais) e somente então para o surgimento de seres conscientes, os animais e
os homens, dotados de um comportamento inteligível, de um software quase-autônomo.

1. Distai = Norma, objetivo distante. Um cego sente o objeto na ponta de sua bengala (distai), e nfio
em sua mão (proximal). (Nota de 1977.)

132
O sentido parece (historicamente) surgir do quase-sentido (markoviano), o qual,
por sua vez, parece nascer do “ não-sentido”. A história do universo (para uma ciência
superficial) parece contradizer a prioridade, racionalmente indispensável, do sentido.
Do mesmo modo que a observação científica converte automaticamente os seres
em “objetos” e os vê pelo avesso, a história científica do cosmo inverte a prioridade ló­
gica do sentido, do antiacaso sobre o acaso, e coloca na origem o reino do acaso.
Essas duas inversões são, entretanto, muito diferentes. Não se pode dizer que a
história do cosmo seja urna simples "ilusão do observador". Não nos enganamos acre­
ditando que a Terra onde vivemos e pensamos já foi inicialmente “informe e nua”, ou
"deserta e vazia”, antes de produzir a grama “ ...e árvores que produzem frutos confor­
me sua espécie, e grandes quantidades de animais” (tradução Dhorrr^ou, segundo a
curiosa tradução de Fabre d’Olivet, que os Gnósticos americanos vieram a conhecer
através de B. L. Whorf, "... antes que as Águas emitam em abundância os principios
vermiformes e voláteis de urna Alma de vida, movente sobre a terra, e esvoaçando na
expansão etérea dos céus”.
Essa inversão “ histórica” , essa visão “em espelho” do surgimento histórico do
significado e do antiacaso, que parece impor-se à ciência, requer imperativamente, co­
mo corretivo, uma Consciência ou um Sentido que seja primordial, independente do
tempo e da história cósmica, por trás dos “teclados” aparentemente desconectados do
espaço-tempo, teclados, esses, destinados desde a origem à Língua e à Escrita cós­
micas.
Aliás, devemos acrescentar que a cosmología científica contemporânea, inde­
pendentemente de qualquer teologia ou teosofía, está começando a corrigir a inversão
histórica das cosmogonías cientificistas. No princípio não havia os átomos, mas muito
provavelmente o Átomo inicial, no qual, e não sem motivo, não havia leis estatísticas ou
leis coletivas, visto que não havia coletividade alguma e, portanto, nenhum reino primiti­
vo do acaso.
Deus é o Espírito recolocado no seu verdadeiro lugar, fundamental e primário,
apesar das aparências “emergentistas" que enganam as cosmogonías superficiais. O
Espírito transforma-se em teclado material antes de tocar, sobre ele mesmo transfor­
mado em teclado, suas próprias melodias.

Deus é o Pensamento do qual o mundo constituído é o cérebro. Um cérebro


indócil mas que, por sua própria indocilidade, é inventivo e arrasta o Pensamento en­
volvente em milhares de aventuras não previstas, ao mesmo tempo lógicas e fantasio­
sas como um sonho - um sonho que, no fim das contas, sempre acaba sendo recupe­
rado e utilizado pela lógica.
Deus é o Antiacaso, ou antes - pois esta expressão parece fazer supor que o
acaso é primário quando, na verdade, é obviamente secundário — Deus é o fundador e
o utilizador do acaso, que ele quis e criou, inicialmente dividindo-se ou “explodindo", e
constituindo um universo de miríadas de seres semi-alheios uns aos outros, mas sem­
pre vinculados também à sua Unidade subjacente (ou suprajacente).

2. Traduçâo da Biblia na edição da Pléiade (GaRimard). (Nota de 1977.)


133
D eus é a origem não-mecânica de todas as máquinas, análoga desta vez ao ovo
totipotente que, ao dividir-se em múltiplas células, está dando a si próprio um material.
Um m aterial que constitui órgãos ou ferramentas orgânicas que funcionam como auxi­
liares de seu comportamento orientado, e fadados aos acidentes de funcionamento e à
morte, m as aos quais eie sempre irá sobreviver, pois sua totipotôncia está sempre re­
servada, seja por processos biológicos de reprodução germinal, seja por outros pro­
cessos desconhecidos.

D eus é a Natureza-que-se-cria num duplo sentido:


a) Como Envolvente fundamental, ele constitui a condição geral de um universo
de existentes, onde a vida e as interadaptações são possíveis - pelas propriedades ge­
rais do espaço-tempo, pelos tipos de ligações e de interações, de informação percepti­
va ou de participação mnômica, e, sobretudo, pela possibilidade dada aos seres indivi­
duais de extraírem dele essôncias e valores intemporais e supra-individuais, para de­
pois convertê-los em “suas” idéias ou em "seus” valores.
b) Por outro lado, ele é o Atual, e o Atualizador, de cada ser aqui-e-agora, pelo
menos na medida em que.esse ser não se limita a funcionar, mas se comporta segundo
um sentido participado e improvisa novos “métodos de utilização” do seu próprio domí­
nio.
Como atualidade de Iodos os atuais, Deus não é mais apenas linguagem em
suas estruturas aistórícas, mas 6 também palavras, e frases pronunciadas aqui-e-
agora; ou ainda, Deus é semelhante ao engatamento de um fecho éclair, onde domí­
nios, subordinados uns aos outros de acordo com sua envergadura, se fecham me­
diante mecanismos subordinados.
Consideremos a menor das ações de um organismo complexo. Ele anseia por
sobreviver - por sobreviver segundo um ideal de vida que percebe de modo confuso, e
que se traduz por um trabalho que tem algum objetivo. Esse trabalho não é instantâneo
no seu desenvolvimento, porém, a cada instante, ele se fecha, num ato preciso ou pre­
sente, utilizando (e degradando) uma energia disponível, para poder construir conforme
o objetivo do trabalho em curso. Quando me apresso para determinado objetivo, de car­
ro, de bicicleta ou a pé, os funcionamentos de minhas máquinas auxiliares, no presente,
como a carburação de um motor a explosão ou a pressão dos meus pés sobre os pe­
dais, estão subordinados às montagens nervosas que traduzem minha ação proposita­
da e organizada em seu conjunto. Falo, e os músculos da minha língua funcionam; es­
crevo, e a minha caneta deposita tinta sobre o papel. Ao meu redor, no mesmo instante,
todos os seres se ativam do mesmo modo e fecham as duas bordas de seu fecho
éclair pessoal, engatam entre si os elementos materiais cuja ação requer o engatamen­
to - assim como um tear engata os fios da urdidura e o fio da lançadeira, ou uma má­
quina de escrever gruda a letra sobre o papel. As árvores do jardim estão, a cada ins­
tante, a utilizar a luz, através da clorofila de suas folhas, para ‘lechar” e concluir as fo-
tossínteses em curso que completam sua edificação orgânica. Os pássaros estão tra­
balhando na elaboração do seu ninho, que entra no ciclo do seu instinto de nidificação,
que entra no ciclo mais amplo da sua reprodução.
O tempo, com suas atualizações e criações que fazem os instantes por acres­
centarem-se umas às outras porque os próprios instantes as acrescentam umas às ou­
tras, é a criação em curso. Por trás de cada atualização e de cada atualizador indivi­
134
dualizado, existe uma atualização e um atualizador de maior envergadura. Por trás de
cada lampejo de consciência que envolve cada atualização em seu aspecto mecánico,
existe uma consciência mais ampla, instintiva, biológica, até chegar a uma supracons-
ciência cósmica que não é mais consciência perceptiva ou consciência ativa, visto que
ela não precisa mais informar-se dos detalhes da sua ação para fechá-la, instante após
instante, ou frase após frase, e já não é mais consciência-palavra e, sim, consciência-
linguagem, fonte de toda percepção compreendida e de toda palavra ou ação dotada de
sentido.

Toda ação acaba, por fim, ‘‘linearizando-se” em fecho éclair subordinado depois
de ter descido, de chaves em chaves, até os mecanismos terminais, até as várias
“máquinas de costura" do tempo.
Os dois limites da ação são, por um lado, o Intemporal, que envolve tudo, a Lín-
gua-Mãe, o Espírito e, por outro, o tempo linearizado, palavras pronunciadas, máquinas
funcionando instante após instante. É absurdo partir do “instante após instante" para
entender o tema e o significado de uma determinada ação, ou pretender entender o ins­
tinto pelos reflexos, a escrita pelas letras, o organismo pelas moléculas, assim como é
absurdo partir das máquinas para entender o significado e a invenção técnica das má­
quinas, da carburação para entender o motor, do motor para entender o sentido dos
deslocamentos com a ajuda do motor, dos desgastes energéticos de funcionamento
para entender o uso da energia para a ação. É absurdo partir das palavras pronuncia­
das para entender a formação mental da frase, e das frases para entender o pensa­
mento. Na falta de telepatia, somos forçados, como ouvinte e interlocutor, a partir das
palavras de um outro para entender o seu pensamento, mas não o pensamento em ge­
ral, e o modo como ele se traduz em palavras nos "conversores cerebrais”.
Tentar entender o universo eterno através do universo instantâneo podia ainda
fazer algum sentido dentro de concepções tão infantis quanto as dos atomistas da an­
tigüidade que acreditavam em “pedaços de matéria” subsistindo no vácuo: esses áto­
mos estão presentes “agora” , e estiveram e sempre estarão “presentes" no universo,
pois eles sáo coisas eternas - eternas no sentido de “sempre presentes”.
Mas, então, é de se perguntar, para que existe um presente? E, o que os átomos
fazem dentro dele, já que, nele, nada fazem de particular?
O mesmo acontece com relação a concepções “infantilmente científicas” (por
assim dizer) de um universo onde há conservação de energia ou, de forma mais geral,
leis de conservação e de simetria. Se a energia se conserva eternamente, para que
existe um presente? Para que as transformações reversíveis? Leis de conservação
são indispensáveis ao cientista para ele desemaranhar as complexidades da experiên­
cia, assim como a audição das palavras pronunciadas e o conhecimento do código da
língua são indispensáveis para entender um interlocutor; mas não podem fazer enten­
der, do ponto de vista filosófico e geral, o universo eterno além do presente e das con­
servações e transformações energéticas, etemo no sentido de: “que garante a passa­
gem do tempo”, “que garante o atual pela atualização”.
A concepção gnóstica do universo - a única verdadeiramente científica — com
“genidentidades" semánticas, e náo materiais ou energéticas, com informações-partici-
pações - é de qualquer modo incompatível com a pretensão de se compreender, uni­
camente através do presente e da simples presença do som das palavras, o sentido de
135
uma frase. Além disso, ela faz entender o porquê do atual, assim como a frase faz en­
tender o uso das palavras. Ela faz entender o papel do presente: trabalho por enca-
deamento, “ costura" que realza o modelo de um costureiro, o qual está além do “enca-
deamento” .
É absolutamente incontestável a experiência segundo a qual "se eu ainda nunca
morri” , "eu" (como individuo distinto da minha linhagem) n&o me flz nascer, e nfio con­
cebi a mim mesmo. "Eu” só falo e ajo com base num "outro eu” mais fundamental.
Acontece com um indivíduo o que acontece com uma lembrança evocada. Ele é a pró­
pria evocação, a evocação suscitando o evocador que ela contém, como uma espécie
de vetor próprio dirigido sobre ela mesma. A atualização de uma idéia toma-se: "Tenho
uma idéia” , e, a seguir: “Eu tenho uma idéia”. O tema atualizado assim como a lem­
brança evocada é uma "consciência ativa”, depois, uma "consciência de atividade", e
depois, “ a consciência de ser um ‘eu’ ativo”. O atualizador particular nada tem de subs­
tancial (pelo menos no sentido material ou energético); ele não é um ser que, depois,
agina. A ação se produz (como sentido representado) e, na medida em que ela não é
um puro funcionamento, faz existir um "eu” como novo ser, ao mesmo tempo livre e
expressando a liberdade criadora de um "outro eu” mais fundamental, e, por fim, de um
"outro eu” universal, ou de Deus, para usarmos a terminologia tradicional. Assim como,
ao pronunciar uma longa frase, ãs vezes esquecemos a oração principal e tomamos
autOnoma uma idéia incidente que deveria ter sido subordinada, a Unidade do universo,
o Logos, pronuncia frases tão longas que as subordinadas tomam-se independentes e
pronunciam-se por si mesmas, entretanto, sempre separadas por vírgulas, e nunca por
pontos.

136
Capítulo XVIII

O HOMEM É UM “ GIGANTE TEMPORAL”

Observou-se que, dentro da escala quantitativa do espaço e do tempo, entre as


partículas, medidas por unidades da ordem do “férmio" e que duram menos de um na-
no-segundo,1 e o universo hiperesférico, cuja duração é de algumas dezenas de bi­
lhões de anos e cujo raio tem alguns bilhões de anos-luz, o homem situa-se numa es­
cala bastante “média”, tanto pelo seu volume como pela sua duração (embora um ele­
fante, cuja vida fosse breve como a de um efêmero, represente ainda melhor a média, e
o homem, menor do que a média dos seres na ordem do espaço, se encontre ligeira­
mente favorecido quanto à duração de sua vida individual, na ordem do tempo).
Todavia, se considerarmos o homem, não mais na sua vida individual mas dentro
da linhagem ininterrupta que remonta, visto que nenhuma das células atualmente vivas
ainda morreu, até o princípio da vida e das moléculas auto-reprodutoras, ou seja, vários
bilhões de anos, o homem como ser vivo não é tão minúsculo no tempo, mesmo em re­
lação às idades geológicas e cosmológicas.
Se o roseau pensant" ò superior, com o seu pensamento, às forças e seres que o
esmagam pelas suas dimensões espaciais, é porque ele ó, na verdade, um gigante
temporal que “pensa”, que acumula seus pensamentos e, sobretudo, que organiza, in­
forma ativamente e conserva as informações na sua memória biológica há bilhões de
anos. O homem é um micróbio, ou um "pobre” espacial, mas é um bilionário do tempo.
Nesse sentido, a superioridade do roseau pensant nada tem de paradoxal. Pelo
contrário, é natural que um ser tão velho, tão informado e experimentado seja superior
às forças do mundo físico, que, aiãs, também "pensam” e também participam de infor­
mações, mas não souberam informar-se através de acumulações mnêmicas, amon­
toando seu passado.
Quanto aos animais e aos seres vivos atuais, eles são tão velhos quanto o ho­
mem. Mas não tiveram a oportunidade de uma experiência tão variada. Maus alunos, ti­
veram, em níveis diversos, de repetir de ano.

1- Nano-segundo = 10~®segundo.

0 honem. (ref. a"Uhomme est un roseau pensant", Pascal). {N.T.).


137
Todos os domínios individualizados fazem ativamente o espaço e o tempo. Os
microdomínios formam os micronós de uma tapeçaria, que não são mais fundamentais
nem mais reais do que os outros. Os domínios de maior envergadura inserem na tape­
çaria as idéias e os temas mais complexos dos quais eles participam.

Podemos imaginar, sobre o "aqui-e-agora" abstrato do esquema de Minkowski,


uma cabeça (ou um cérebro) humano (que ô, como vimos, o reverso e o instrumento do
domínio do eu consciente). Podemos usar a cabeça humana como amostra de domínio
de individualidade para entender o modo geral com que se urde o espaço-tempo. A ca­
beça humana é um centro para "onde converge a informação e de onde irradia a ação”
(esquema A). Nossa cabeça (ou nosso cérebro, isto é, nosso campo de consciência
como elemento observável do lado de fora) fica na junção dos dois cones de luz, o do
passado e o do futuro, fora dos quais existe o “alhures absoluto”, os “outros” simultâ­
neos, com os quais não podemos nos comunicar. O córtex anterior é, grosso modo,
organizador de ação, e o córtex posterior, receptor de informações.
Além disso, nossa cabeça-consciência está em participação com um transespa-
ço-temporal, com memórias psicológicas e biológicas através das quais ela se subordi­
na a domínios mais amplos que o seu, e com “possíveis” mediante os quais ela se su­
bordina à unidade cósmica (o próprio esquema A está envolvido dentro do esquema B).

Temas paitidpâveto
(Futuro ‘lomado a p e to ")
*
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l
1
Memórias participáveis
(Passado mnêmlco)

138
Sobre esse ponto, é provável que os povos primitivos, ou antes, as línguas primi­
tivas saibam mais, às vezes, do que a nossa ciência.

A Nova Gnose e a metafísica Hopi


A ciência contemporânea - exceto a nova áéncia das partículas - e também o caráter das lín­
guas indo-europóias, temporalizadoras de modo multo abstrato, tendem a ver somente o esquema tem­
poral "plano": passado, presente, futuro.
Entretanto, o aspecto de atualização ou o tipo de participação do atual na fonte transespacial
mnômica ou cósmica é igualmente importante.
Existem culturas e línguas muito diferentes das nossas, e que parecem mais aptas a apreender
esse lado essencial doe seres e do tempo. Lee Whort tentou extrair a “metafísica Hopi” (inerente à lín­
gua desse povo). Os Hopis não distinguem um espaço e um tempo segundo uma divisão ternárla Para
eles, os dois grandes princípios sAo: o Manifestado (o objetivo) e o Manifestante (o subjefvo). O Mani­
festado inclui tudo o que for acessível aos sentidos, o fisicamente observável, sem distinção ente pre­
sente e passado (quando o passado deixou vestígios no presente), e excluindo o que denominamos
“futiro". O Manifestante (o subjetivo) inclui esse futuro, mas não apenas isso; ele inclui o mental ou,
antes, o “ coração", o "peito” , consciente, animador, vivo, o coração do homem e também o dos ani­
mais, das plantas, das ooisas, do cosmo (o que os Gnósticos chamam de “o mundo em seu anverso").
O futuro náo é calculável ou calculado; ele é desejado, a guardado, preparado mental ou cor­
dialmente, dinamizado em direção A manifestação. A maior parte do nosso presente pertence ao domí­
nio objetivo. Assim sendo, ele não se distingue do passado. A “gestação ativa” é interior (o anverso); o
“realizado” é exterior (é o avesso).
O espaço (o avesso) está ligado, entretanto, à dimensão transespacial, ao “ coração” das coisas.
Existe um eixo vertical interior, que corresponde a cada ponto do mundo objetivo e semelhante à has­
te-mãe de uma planta, de uma importância primordial, e que é a fonte do futuro. Mas, para o Hopi, não
há futuro temporal, não há séries naturais, em Dgaçâo com as distâncias. Assim sendo, para o Hopi não
se trata de saber se as coisas que se encontram num vilarejo distante existem no mesmo instante do
presente que as que estão situadas no vilarejo onde ele se encontra.2
Quando o extenslvo-objetivo se dHui na imensidão, o “subjetivo’', que se encontra por trás do
palco, oonfunde-se com o objetivo: é a noite doe tempos, dos tempos e dos lugares de que falam os mi­
tos, dos quais sé temos um conhecimento mental. Chega-se a esse conhecimento, mais pelo eixo verti­
cal interior do que pelos processos objetivos da visão.
Os verbos Hopi não possuem “ tempos" como os nossos, e sim , "formas de validade", que ex­
primem os aspectos e as tendências das manifestações alualizantss (sem metáfora espacial). Enquanto
que o nosso lempo objetivado aparece na nossa imaginação e nos nossos esquemas mentais im plícitos
como uma fita ou uma talxa, divididas em espaços em branco de Igual dimensão - fazendo supor que
alguma "inscrição" virá registrar-se em cada um deles na língua Hopi o verbo não marca nenhuma
diferença ente o passado, o presente, o futuro do acontecimento em si, mas sempre deve Indicar o tipo
de validade que aquele que fala pretende expressar, e se ele fala conforme o que vé ou conforme o que
pensa, conforme un campo objetivo ou conforme uma espera, conforme a haste vertical Interior, por
“ envolvimento fntmo" e “ participação” , por um "tomar a peito” do presente ou do futuro que se mani­
festa, ou.por mera observação do manifestado.
Essa distinção Hopi é, sem dúvida, no mínimo, tflo pertinente quanto as nossas. Segundo Lee
Whort, na língua ctdchewa (aparentada oom ozUu), existem dois "tampos” para indicar o passado: um
para 06 acontecimentos passados que continuam a ter uma influência sobre o presente, e o outro para
os que nôo Mm nenhum prolongamento atual. Um filósofo ou teósofo chlchewa usaria o 1 tempo para
falar da invduçâo passada, individualizada, que fez com que o mundo se encontrasse em seu estado
atual, mas servir-se-la do II tampo para falar das "neves de outora” ou dos sistem as planetários que
não existem mais. Essa distinção, temos de admiti-lo, também é multo pertinente.

2. B. L Whort Language, Thoughtand Reality, "Mediations'Vp. 13 ss.

139
Para se r franco, achamos que existe um pouco de esnobismo por parte dos Gnósticos em dar
tamanhaônfase à “metafísica” Hopi. Eles poderiam ter evocado muitas outras filosofias não-ocidentais,
como por exem plo, as teorias filosóficas e psicológicas da índia que, muito mais do que os Hopis ou os
ZuKjs, há m u ito tBmpo já entendeu a situação do homem entre o seu passado e o presente, a oposição
mente eoorpo (sob a forma da opoeiçâo entre “corpo sutil” e “corpo grosseiro"), o papel da consciên­
cia, receptora das percepções atuais como que condicionadas pela massa dos rastos inconscientes
acumulados e organizados em todas as vidas anteriores, e instrumento de ação que dita as condutas
através de um a escolha metódica de suas várias etapas (oque, como vamos ver, corresponde perfeita­
menteaoque os Gnósticos chamam de “montagens”).
Contudo, existe nos Estados Unidos tamanha quantidade de publicações de toda espócie e de
valor muito irregular sobre o pensamento indiano, que podemos entender a reserva dos Gnósticos.

Nosso cérebro recebe informações (pattems de fótons), e o nosso eu as com­


preende, convertendo-as em significados, graças à sua participação no transespadal.
Mas ele não é apenas um observador informado, um receptor de informações. Ele é
também um organizador e um informador ativo. Somos capazes, não apenas de ver
uma ordem já objetivamente constituida, mas somos capazes, também, ao ver alguma
desordem ou alguma ordem imperfeita, de ordená-la segundo um tema - em outros
termos, de “ fazer” o futuro.
Essas duas operações correspondem, grosso modo, ao córtex cerebral pós-
rolândco, que recebe informações, e ao córtex pré-rolândico, que organiza esquemas
de ação. Nosso cérebro posterior é voltado para o presente, para o recebimento de in-
formaçóes-observações já constituídas (que chegam através do “cone de luz” do pas­
sado). Nosso cérebro anterior é voltado para o futuro, e para a invenção de esquemas
de comportamento adaptados. E o conjunto do nosso cérebro participa das memórias e
essências transespaciais, tanto para perceber como para inventar. O cérebro médio,
sobretudo o hipotálamo, participa mais especialmente das memórias e esquemas de
comportamentos instintivos e afetivos, das percepções de expressividades, mais do
que das leituras de significado; do futuro “tomado a peito”, mais do que de suas prepa­
rações racionais, cujo detalhe está a cargo do córtex - O córtex apesar do seu volume
e da sua origem biologicamente “moderna’’, está mais freqüentemente a serviço do cé­
rebro Hinstintivo” do que regente do instinto.
Nós nos “montamos” para organizar e para agir. Essas “montagens” são psico-
cerebrais e aplicam-se ao "teclado" das redes nervosas. Ao mesmo tempo em que or­
ganizam a parte do mundo acessível, essas montagens são também uma organização
arquitetônica do nosso próprio domínio psicorgânico. Temos um corpo orgânico e te­
mos também um corpo psíquico (o “corpo sutil” dos psicólogos indianos), uma arquite­
tura mental, feita de todas as montagens (instintivas, culturais, pessoais), que nós (e
todos os ancestrais da nossa linhagem) organizamos com a ajuda das informações-
participações.
Durante a fase embrionária, protegida do mundo exterior, “nós” estamos essen­
cialmente ocupados em “montar-nos” organicamente. Na fase adulta, nós nos monta­
mos mais em função das informações recebidas de fora. Mas não há qualquer diferen­
ça essencial e, uma vez adultos, continuamos nossa formação embrionária, a qual já
era um tanto inventiva e circunstancial. Em todas as fases, executamos, com certa
margem de autonomia, missões “participadas”.

140
'S Y .V .V iN O A

K Sabedoria e a
'Çé ^eogn ósticas
Capítulo XIX

O ORGANISMO PSÍQUICO

Essa imagem da Cabeça humana, aqui-e-agora, como conversor de duplo senti­


do entre o espaço e o transespacial, serve aos Gnósticos para passar da Gnósis
à Praxis - ou antes, visto que a palavra Praxis está, hoje, desvirtuada por demasiadas
ideologias politicas - à Sophia, &Sabedoria.
Para uma tesiemunha exterior e superficial, para um Intelectual europeu - e con­
fesso ter sido eu mesmo essa testemunha superficial -, náo há nada de mais inespera­
do, de menos lógico, do que a sabedoria dos Neognósticos relativamente aos seus
conceitos especulativos. Se o universo é um universo de informação, então podemos
pensar, vamos nos Informar, nos Instruir, náo sejamos cegos num universo onde não
reina o Cego ou a Cegueira cósmica. O conhedmento, a dónde, será a salvação. Irá
fazer-nos participar mais conscientemente dos grandes dominios conscientes que sub-
tendem nossa débil individualidade, fazendo-nos por flm participar da Unitas, de Deus
ou da Grande Deusa.
° ra* a sabedoria neognóstica rejeita veementemente tais conclusões que consi­
dera pueris. Os Gnósticos acreditam na dénda, mas náo na dôncia ensinada, na ins­
trução, nas luzes que se espalham para. guiar o homem, e, sobretudo, para guiar os
homens. Neste ponto, eles náo fazem jus ao titulo que lhes foi dado, e que eles aceita­
ram, pois, a exemplo dos Padres da Igreja, inimigos dos Gnósticos do seu tempo, eles
acreditam antes na fé do que na Gnôsis. Isso quase chega a ser uma espécie de obs­
curantismo, bastante Inesperado em pessoas das quais esperar-se-ía, antes, um certo
“luminismo".

Obscurantismo
Esse obscurantismo é bastante estranho, mas, pensando bem, 6 menos estra­
nho do que perece. Ocorre um fenômeno Inverso e simétrico com os ultrepositívistas,
oomo o são, por exemplo, os neogenettdstBS. Esses acreditam que o universo é um
Cego absoluto, que a própria vida 6 uma crlstalzaçáo cega. Acontece que é com mais
entusiasmo ainda que eles adotam como ideal a conquista da verdade dentffica; eles
querem orientar para a dénda o esaendal das atividades humanas. Do mesmo modo,
ainda, os deterministas acreditam na liberdade (poHtica), sendo os predestinadonistas

143
os mais entusiásticos e preocupados na tentativa de salvação pela fé. Ao passo que,
inversamente, os espiritualistas, os que acreditam na liberdade filosófica e teológica,
costumam se r, no campo social e político, conservadores e autoritários.
Os Gnósticos curiosamente obedecem a essa lei de inversão. Sendo o universo
forma, informação» saber, o papel do homem é, antes, tomar-se um ser suficientemente
opaco e espesso para ser obscuro, e náo transparente, e para não perder-se numa luz
anónima.
Os Gnósticos execram os rios de impressos e imagens que submergem os civi­
lizados. Deploram a inflação do ensino, principalmente do ensino literário e artístico (sa­
be-se que existem professores para romancistas ou para dramaturgos nas universida­
des americanas).
Na própria ciência, pela superabundância de informações, estamos de volta ao
tempo em que, por falta de informação e de comunicação, os cientistas, se estavam
geograficamente dispersos, não podiam ter lido as mesmas coisas, ter feito as mesmas
leituras de base.
As intoxicações cerebrais pela instrução são, para eles, bem mais graves do que
as intoxicações pelos subprodutos da indústria; os atravancamentos de informações,
bem mais graves do que os atravancamentos de máquinas e utensílios; as indigestões
de siglas, bem mais graves do que as intoxicações alimentares. O flagelo do material
impresso, dizem eles, seria ainda pior não fosse ele compensado por essa invenção ar­
tesanal que é... o cesto de papel.

Mas eles também falam de modo mais sério. No organismo, existem órgãos de
proteção contra as informações intempestivas ou excessivas: pálpebras, filtros nervo­
sos da zona reticulada, sono, etc. O espaço é “hotogramático" mas, pelo menos, nele
as informações (ou o material dessas informações) passam sem deixar vestfgios. Ao
passo que o espaço social está, hoje, saturado de informações que deixam vestfgios
perigosos. E, contra esses, faltam as instituições que pudessem exercer a função das
pálpebras ou das zonas reticuladas cerebrais. Como as serpentes que, não tendo pál­
pebras, dormem de olhos abertos, os homens só conseguem salvar-se através do so­
no e do entorpecimento. Só podem escolher entre a indigestão e o embrutecimento.
Em qualquer sociedade semi-instintiva e tradicional, existem órgãos de censura
extremamente enérgicos e filtros de informação. Os informadores intempestivos, os he-
reges, os ideólogos acabam sendo implacavelmente eliminados. É a esse preço que as
sociedades duram indefinidamente; e a maioria das sociedades acaba extinguindo-se
por não ter podido proteger-se contra as intoxicações informacbnais.

Outras perecem, aparentemente, peto motivo oposto, por terem tampado os olhos
e os ouvidos em demasia, e por falta de adaptação a um mundo em transformação. Em
qualquer caso, porém, para poderem durar, as sociedades devem filtrar as infor­
mações, estabelecer censuras, cortinas de ferro. Devem pegar um tanto, e largar outro
tanto entre todas as informações que as invadem, e assimilar o que resolvem aceitar.
Seria, pois, muito pueril desconhecer essa lei biológico-social e considerar como
um ideal a abertura sem discriminação, o não-protecbnismo mental. O liberalismo é
uma palavra que soa bem e encobre, ou a fraqueza mental e a incapacidade de julga-
144
2°) A expressão religiosa náo vale mais do que a expressão do esquizofrénico, e
ó preciso abandonar toda essa figuração, tanto coletiva como individual.
3*) Finalmente, podemos também dizer "É preciso rejeitar todos os tabus sociais
e, depois, estudar com veneração os complexos dos cérebros perturbados, pois ó ne­
le s que reencontramos os verdadeiros principios de um novo humanismo, além do hu­
manismo úogentíeman ou do homem honesto."
Somente a primeira conclusão é razoável.

Simbolismo e fetichismo
O símbolo, o rito simbólico, como base e material para a construção da alma, so­
fre da impossibilidade em que estamos, hoje, de transpor o símbolo em “magia podero­
sa ", pela qual aquilo que se pretende significar é considerado aigo presente e atuante,
como nos “ sacramentos" de uma religião primitiva. Quando o batismo, os santos óleos
e a comunhão deixam de ser considerados como agentes mágicos, acabam conver-
tendo-se em cerimônias vazias. Eles podiam ter um conteúdo válido, social, quando
náo científico e "verdadeiro”. Mas, uma vez destruída a magia fixativa, o símbolo tor­
na-se oco. Instintivamente, os interessados procuram preencher esse vazio com ideo­
logias, mais falsas ainda do que o conteúdo primitivo, porém mais quentes e mais ple­
nas, e que apelem para determinadas paixões, tais como o ressentimento, a vontade de
poder, a vontade de aristocratismo.
Na falta de crenças mágicas inculcadas desde a infância, os ritos das “ordens”
filosóficas, maçônicas ou gnósticas, arcaicas, nos quais os adultos iniciam sem con­
vicção outros adultos, são vazios de significado e frios.6
Os Novos Gnósticos quiseram a todo custo evitar esse tipo de cerimônia. Eles
consideram que ó uma forma de fragilizar a alma e não de solidificá-la, querer recons-
truf-la com esse papier-mâchô. Eles acham que é defender mal as sacralizações ou os
tabus indispensáveis, fetichizá-Jos deste modo. Para resistir aos desmistificadores pro­
fissionais, não convém dar motivo para qualquer suspeita de mascarada.
Não obstante, para construir a arquitetura psíquica, são necessários materiais
psíquicos, crenças, e não meros saberes. O problema parece insolúvel. Os Novos
Gnósticos, entretanto, nunca provaram tanto a originalidade e a força do seu movimen­
to como ao proporem a solução por meio das “montagens” . Assim, evitam ao mesmo
tempo as ideologias e os símbolos-fetiches.

Para o conhecimento, a Gnôsis propriamente cttta, eles adotam como quadro de referência os
quadros científicos. Pare a ação e a sabedoria, o que eles adotam não são montagens referenciais, mas
montagens-açOes do Upo “esportista” (isto 6, análogas às montagens-atitudes de um esportista que
corre os cem metos ou os trda mil metros), que tôm a vantagem de não serem “ nem verdadeiras nem
falsas". Para sua atitude religiosa, adotam a fé “de Jò". isto é, excepcionalmente, uma montagem “ re­
ferenciar, porém virtual ou aberta â maneira de uma montagem-ação - que se situa aiém dos referen-

6. Os vínculos ente Gnósticos e tranco-maçons, embora dfbeis de serem definidos, visto que as
diversas correntBS da maçonaria nos Estados Unidos sAo ostreramente ramificadas, existem sem dúvi­
da, com empréstimos recíprocos. Mas os Gnósticos são hoelis ao simbolismo.

162
o ais que podem ser verdadeiros ou falsos, e que forçam uma dedsáo de ordem científica sobre a “ba­
lança” entre os termos II e III.

As montagens como “espirito que se encam a”


Toda montagem, mesmo quando sugerida pela situação, é urna iniciativa do ser
vivo. Por isso, mesmo numa situação inalterada, o organismo tanto pode deslocar sua
atividade como mantê-la, mudar de objeto de aplicação ou mudar de método, ou ainda
mudar as perguntas formuladas. As montagens, dispostas em chaves, conciliam a
permanência e os deslocamentos, o objetivo distante e os objetivos imediatos, o senti­
do geral e os sentidos subordinados.
Em sua qualidade de guia da ação em curso, as montagens podem ser conside­
radas como reguladores improvisados - reguladores não-mecânicos, dos quais urna
idéia (transespacial) é o órgão de controle. Em nenhuma circunstância pode uma mon­
tagem ser puramente mecánica ou anatómica. Urna montagem-idéia precede e envolve
a montagem materializada. Trata-se de um tema significante, gerador de atos ou de lei­
turas em número indefinido.
Essa regulação não-mecânica envolve as regulações ou feed-back montados fi­
siológicamente no organismo. Os feeó-back auxiliares de efecção podem às vezes difi­
cultar a montagem significante que os envolve, principalmente se eles se antecipam às
exigências psicológicas (como na emoção, no medo, etc.). Mas, normalmente, o signifi­
cante domina o quase-mecânico. Tendo as montagens como base o significado, po­
demos entender que elas se apresentam em chaves e se sucedem, de um objetivo se­
cundário a outro, como as partes de uma frase pensada no seu conjunto.
Ou seja, as montagens constituem o software das “máquinas" orgânicas. Elas
são o espírito, a mente que se encarna, que se converte em planos diretores, utilizando
o já encarnado e prosseguindo a encarnação, organizando e construindo. Elas são
conformes, na psicologia especial dos animais com cérebro desenvolvido, ao estilo
fundamentai de todos os seres individualizados. Representam a passagem do temático
para o semimecânico, que realiza o temático no espaço. Representam a invenção, so­
bre tema dotado de sentido, de uma regulação significante, que domina o funcionamen­
to dos feed-back fisiológicos.
As montagens não se limitam a utilizar mecanismos funcionais, a utilizá-los sem
deixar mais vestígios do que a utilização de um computador deixaria sobre a sua “lata-
ria”, que permanece intacta para novo uso. Elas realmente corrigem os mecanismos,
introduzindo neles ligações que modificam de forma duradoura (e, às vezes, irreversí­
vel) os funcionamentos-comportamentos. Fenómeno, este, que não tem seu equivalen­
te na ordem mecânica pura e que explica a criação progressiva da forma pela mente,
do “corpo grosseiro” pelo “corpo sutil".

Os estudos male posttvoe sobre os organismos unicelulares evidenciam fatoe que mudóse as­
semelham ft passagem de um puro tema Improvisado do comportamento pare uma materiaJfeaçflo
anatômica, cujo funcionamento regulado chega, com aumentada eficácia, ao mesmo resultado que o
comportamento Improvisado.
Se compararmos, por exemplo, a ameba a outros protazoários que parecem mais evoluídos (In­
fusónos ciliados), passamos de uma simples polaridade no oomportamenlo, que Improvisa uma espdde
de "cabeça" provisória e lábil, para uma polaridade de cetaüzaçfio m ais regularmente alternante e, por

163
fim, para uma polaridade permanente e para uma espóde de quase-cabeça anatômica. A cabeça, os
pós e o tubo digestivo são, assim, montagens ativas antes de serem esfruturas anatômicas. Por isso, no
homem, a m fio-ârgáo é como o hardware da “ mSo" oorticaJ que knprovlsa suas utilizações - mão que
oe se divertem desenhando-a sobra o homúnculo da área motore - e o olho-árgfio 6 o har­

dware da área vteual oorBcaL Todo aer vtvo possui uma faculdade de auto-mgutaçâo que se manifes­
ta nas reações metabóNcas, antee de qualquer edificação de um sistema nervosa O que permite supor
que esea edificação é guiada por bed-tiock temáNooa e stgnNcantse.

Encontramo-nos aqui, aparentemente, nos antípodas da ortodoxia científica vi­


gente. Mas, trata-se, antes, como em toda a teoria gnóstica, de urna simples recoto-
caçôo no lado direito, ou de urna visfio pelo lado dreíto daquilo que a ddncia ortodoxa
vô corretamente, mas pelo avesso - começando pelo "próxima!", o mecánico ou o quí­
mico, e remontando até o "distar (que ela espera poder explicar através do “proximaT).

As montagens • a “sabedoria"
As montagens resolvem melhor o problema prático do "comportamento” do que o
recurso aos símbolos, aos ritos simbólicos e aos tabus. Ritos e tabus Ôbase de símbo­
los são eficazes para reforçar as montagens, numa sociedade tradteional e protegida.
Todavia, no momento em que podem ser considerados falsos, eles colocam em perigo
as próprias montagens. É possível conceber um rito puro, sem crença teórica, um rito-
açáo. Mas, então, das duas uma: se ele pretende, por magia, atuar sobre o mundo,
acaba malogrando, e cedo ou tarde é abandonado; se ele age apenas sobre a psicolo­
gia do executante, toda a sua substAnda está na montagem que o subtende. Dentro do
ambiente decapante da civilização contemporânea, é melhor ater-se ao "núcleo” não
contestável.
Sendo um órgão improvisado, uma montagem não é em si mais verdadeira ou
mais falsa do que um órgão constituído. Serve para a conservação e para o aperfei­
çoamento vital, ou então não serve; é tudo o que se pode dizer a seu respeito. Uma
montagem não impNca crenças especulativas ("acreditar que»."), sempre criticáveis e
“falsificáveis”, e sim, apenas crenças ativas, tão pouco refutáveis quanto a Mbido ou o
instinto de conservação. Uma montagem pertence ao âmbito da açfio, não do conheci­
mento. Ela é uma idéia encamada. Visa uma idéia - mas, aqui, a palavra "visar” é im­
própria: uma idéia não é um elemento observável - arrtes, participa dela. Ora, uma par­
ticipação, na medida em que representa uma resolução, voluntária ou não, nem é ver­
dadeira nem falsa. Um artista agnóstico em relação ao universo pode acreditar na arte
pela arte (ou seja, adotar a atitude de.-). Um cientista positivista pode refugiar-se na
ciônda pela ciência. Ele não é mais refutável do que um entusiasta colecionador
de selos.
Um Gnóstico não é mais refutável do que um agnóstico, quando resolve adotar
alguma atitude, alguma crença-fé. E, além disso, ele é mais coerente. Ele sabe que es­
sa adoção voluntária de uma atitude é o caminho típico de todos os seres. Ele seria cri-
ticável e refutável se pretendesse deduzir suas atitudes práticas da teoria gnóstica, se
dissesse, por exemplo; "O mundo é feito de formas ou de informações dotadas de sen­
tido”; logo, “esforcemo-nos por pensar corretamente”, ou “dediquemo-nos a difundir as
luzes”, etc. Mas ele não diz nada disso. Ele admite a Gnose teórica sem, por isso, fa­
zer do seu conteúdo teórico o princípio da sua conduta.

164
O Gnóstico apenas tem a satisfação de saber que, ao adotar voluntariamente
qualquer atitude (até mesmo e, inclusive, a atitude obscurantista), está fazendo o que
fazem todos os seres do mundo. Os seres vivos têm utilizado os processos mais va­
riados para locomover-se ou defender-se: dão picadas, coices, mordidas, envenenam,
se escondem, assustam o inimigo ou fogem. Eles não precisam, antes de iniciar seu ti­
po de defesa, teorizar previamente sobre a anatomia e a fisiología gerais dos seres vi­
vos. Inventaram suas armas, suas patas ou suas asas sem nenhuma dedução lógica
das leis e das formas gerais da vida das quais participam na realidade.
Para edificar o homem, os iniciadores de comportamentos, os inventores - mui­
tos deles anônimos e desconhecidos- de novas montagens, os profetas e fundadores
- que acreditavam ter descoberto uma verdade mas que traziam, antes, um novo órgão
vital - têm sido mais eficazes do que os “teoréticos” .
O fato de uma montagem não ser nem verdadeira, nem falsa, não significa que
não deva ser nem boa, nem ruim, no sentido amoral da palavra. Ela pode ser eficaz ou
ineficaz, útil ou perigosa. Certas armas orgânicas, certas invenções de órgãos, certas
escolhas de comportamento, têm se revelado mais eficazes do que outras. Uma in-
venção-criação de órgãos, embora não possa ser julgada teoricamente, acaba, no en­
tanto, sendo julgada, em última instância, pela seleção natural, por essa face negativa
do cosmo que antigamente era chamada, no sentido positivo, de Destino, Tao, Fatum,
Providência.
Pode ocorrer que determinadas condutas e atitudes “virtuosas" só consigam le­
var os virtuosos ao desastre. Pode acontecer também que outros sejam maus, sem se
alterarem com isso - pelo contrário, como o caso do vegetariano de Butier, que se
censurava muito por comer carne às escondidas, mas que se dava muito bem com is­
so, embora sua consciência o reprovasse. Nesse caso, aliás, é de se desconfiar que
eles não são tão maus como se acredita, e como acreditam ser.
A palavra “montagem” , em francês, tem infelizmente um sentido às vezes pejora­
tivo que os termos correspondentes em inglês não têm. Uma “montagem” é também
uma mentira, uma trapaça, uma emissão de ações sem garantia, um rombo financeiro.
Aliás, a palavra “ invenção" tem também com freqüência esse sentido pejorativo. Mas
as montagens-mentiras nunca são montagens puras: são conseqüência de erros es­
peculativos semivoiuntários; são obra de uma função fabuladora, ao passo q u e não há
nenhuma fabulação no aconselhar uma atitude tal como: “Suporte e absten ha-te", ou
então: “Pratique a não-ação”.

História das idéias e história das montagens


Muitos sábios, ou fundadores de religiões, deixaram de ter idéias especulativas.
Muitos deles chegaram mesmo a rejeitar explicitamente as idéias ou os m ito s — como
Buda, Confúdo, Lao-Tzu, que se recusaram a “fabular”.
Poder-se-ia reescrever a história das religiões e das filosofias, tam bém , desse
ponto de vista: considerando-as, não como pesquisas e descobertas de verdades - o
que elas julgam ser - e sim, como invenções de montagens, com muitos “m olhos" es­
peculativos ou mitológicos.
165
Nos animais, os comportamentos criadores de órgãos (que orientam as mu­
tações consoladoras) são improvisados por necessidade, sem discurso interior (e
ó fácil entender por quê). Os peixes dpneustas náo tiveram que inventar nenhum müo
para arrastar-se sobre a térra firme, ou o arqueopterix para pairar e voar. Para os ho­
mens, em compensação, ó Icito supor que a marcha bípede e as emissões vocais fo­
ram ritualizadas ou envolvidas por mitos de reforço. O núdeo sóido de imensas espe­
culações nfio passa, na maioria das vezes, de uma montagem: uma atitude, orgânica e
mental, de oração, de prostemação, de adoração, de entrega, de resignação ou de re­
volta, de contestação, de reivindicação igualitária, de fruição despreocupada, de apetite
para o trabalho, de não-ação, de “controle da respiração" ou de controle do movimento,
de sorriso cético, indulgente ou desiludido, ou de fé que aceita o martírio.
As filosofias e as religiões chinesas, indianas, sôo no fundo uma coleção de mon­
tagens. O mesmo ocorre com as filosofias e as religiões ocidentais, na medida em que
não se inspiram na ciência. O neoplatonismo, o estoicismo, o epicurismo, o ceticismo, o
materialismo, antigo ou moderno, são montagens e atitudes. E tudo isso, envolto em
enormes quadros de fumaça especulativos - que só divertem, aliâs, uma pequena mi­
noria. Ninguém, exceto os especialistas, se interessa muito pelos considerandos do es­
toicismo, tomados da física de Herádto, ou pelos da moral epicurista ou do atomismo
democrftico. Todavia, como atitudes, o estoicismo e o epicurismo continuam muito vi­
vos. Assim também a atitude de "luta de classes”, de “ódio contra a exploração”, do
marxismo, “mantém-se" por si só, ao passo que a teoria pseudodentffica da mais-vafia
tem sido refutada há muito tempo e a dialética hegeliana só interessa aos universitários.

Potência e Impotência das montagens

As montagens são extremamente poderosas, tanto pera o bem como para o mal,
quando não são mais sentimentalmente neutras, quando náo são mais montagens
“técnicas” de orientação, de percepções e de ações subordinadas, e quando corres­
pondem a crenças ”quentes”.
Mesmo "neutra”, ou puramente “técnica”, sem gravidade, uma montagem já é
muito poderosa. Manter o pé durante horas sobre o acelerador do carro que se está di­
rigindo numa ionga viagem parece algo até agradável para muita gente. Manter o pé do
mesmo modo, ficando na garagem e por ordem de alguém, seria um suplício. Um ma­
caco cosmonauta morre de terror ou de tédio ali onde o homem sobrevive porque com­
preende e, sobretudo, porque está mentalmente preparado. Um trabalho imposto, em
geral requer menos esforço do que um esporte violento, mas é muito mais cansativo. A
vida num campo de prisioneiros é muito mais penosa do que uma vida monacal
consentida.
Os efeitos divergem cada vez mais, ou para a neurose, ou para uma edificação
psicológica. E, se valores pessoais estiverem em jogo, os efeitos cumulativos incons­
cientes podem levar a torturas insuportáveis. Daí as causas ridículas de divórcio: ”Meu
marido ronca!”. Ao passo que uma mulher que ama o marido diz, emocionada: uO coi­
tadinho dorme tão bem!”. Desprezar aquilo que se é forçado a respeitar exteriormente,
ter consciência da inutilidade ou da nocividade do que nos forçam a fazer, ter a sen­
sação de ser explorado por um patrão em vez de trabalhar para a edificação de um
166
mundo novo, ser incompreendido, ser castigado injustamente, tudo ¡sso pode criar um
despeito que chega a dominar o resto da vida - mesmo indo contra o interesse pessoal
- e que sobrevive às crises provocadoras.
As montagens, como atitudes espirituais à base de valorização entusiástica, co­
mo escolha fundamental, como fé numa causa, num ideal coletivo ou sobre-humano,
obviamente não são todo-poderosas. As maiores invenções dos Fundadores se per­
dem no esquecimento, na indiferença, nos deslocamentos, nas perdas ou nas in­
versões de significado. Os estoicistas podem muito bem não ser mais estóicos. Os bu­
distas se esquecem de que devem extirpar a sede de existir, os cristãos se esquecem
de que devem amar o próximo, os místicos se perdem na política, os revolucionários se
transformam em reformadores complacentes.
As evoluções e revoluções das montagens, nas culturas, ao mesmo tempo em
que se assemelham às montagens de órgãos da evolução biológica, contrastam com
essas quanto à duração e à profundidade. Sem falar das “atitudes em voga", efêmeras
sobre o efêmero, e até mesmo das atitudes mais profundas, da “personalidade básica",
das tradições étnicas e nacionais, que passam e se sucedem sem deixar rastros apa­
rentes. Elas moldam fortemente o psiquismo dos indivíduos, moldam a vida individual,
mas não parecem corroer a espécie nem modificar, como se diz, o genotipo. Não existe
hereditariedade-de-caracteres-adquiridos-por-montagens. Em relação à espécie bioló­
gica Homo, as culturas, as crenças filosóficas e religiosas, não deixam maior im­
pressão, aparentemente, sobre a pele humana do que deixaria qualquer cálculo particu­
lar sobre uma máquina de calcular, ou qualquer texto sobre uma máquina de escrever.
Não devemos levar o contraste demasiado longe, como Chomsky o mostrou pa­
ra a linguagem. As etnias históricas e seculares são realmente um primeiro passo para
o estado que produziu as raças milenares e pré-históricas. Numa escala de milhões de
anos, a natureza biológica não passa de um hábito.
A diferença, na escala da história humana, não deixa contudo de ser enorme, e
isso representa ao mesmo tempo um mal e um bem. Se mutações biológicas tivessem
“consolidado” o comportamento dos povos caçadores ou colhedores, esses povos ja­
mais poderiam ter se tomado povos agricultores e, depois, industrializados. Se mu­
tações tivessem consolidado o estágio do animismo ou da magia, o homem jamais po­
deria ter inventado as grandes reigiões como o cristianismo ou o islamismo, ou ter
criado a ciência. Provavelmente os ressurgimentos da magia se devem um pouco às
inércias biológicas - a ponto de os biólogos sugerirem que o cérebro humano manifesta
“fenômenos de rejeição" em relação à atitude cientifica. Mas eles são devidos princi­
palmente a inércias culturais.

Costuma-se lamentar que os civilizados ainda não passem de bárbaros mal saí­
dos do seu estado selvagem. Contudo, isso é também uma boa coisa - pelo menos pa­
ra os que gostariam de decivilizar ou reorientar a civifização.

Desse ponto de vista, compreende-se melhor as abstenções dos Gnósticos, sua


neutralidade diante das instituições politicas e até mesmo sociais. Essas instituições
representam para eles algo superficial naquilo que já é (biologicamente) superficial.
Age-se menos superficialmente ao recomendar novas montagens psíquicas, as quais
pelo menos modificam a arquitetura psíquica individual, já que não modificam, ou modi­
ficam pouco, a espécie humana.

167
Nisso, os Gnósticos retomam a matéria de todos os grandes Fundadores, que
menosprezaram a ¡déia de criar programas políticos ou ideológicos e pregaram novas
atitudes mentais. A diferença é que os Gnósticos não pregam, não querem fundar ne­
nhuma nova religião, e só agem sobre si próprios.
Há um lado experimentalista na Nova Gnose, figado à profissão geralmente
cientffica dos primeiros Neognósticos. Diante da existência, eles são como os jogado­
res do Elôusis cuja regra consiste em adivinhar a regra do jogo. Mas, como eles são ao
mesmo tempo honestos, acham fora de questão experimentar atitudes sobre os demais
- à diferença dos ideólogos que, com uma monstruosa leviandade, quando julgam ter
uma idéia, propagam-na e procuram impor essa idéia. Essa honestidade reforça sua
vontade de abstenção política e os leva a buscar montagens e atitudes “perante o uni­
verso”, antes do que “ perante os homens". Toma-se às vezes difícil separar comple­
tamente as duas atitudes, mas seria criminoso, em sua opinião, "brincar com os de­
mais”, à maneira dos neuróticos de Eric Beme.
Capítulo XXI

AS “ MONTAGENS” E OS ‘ JOGOS” COM O UNIVERSO

O livro de Eric Berne: GamesPeople P lay,' foi traduzido em francês2 sob o título:
Des Jeux et des hommes. Seria melhor algo como: “Táticas psicológicas”, ou “As
Comédias que as pessoas representam", pois, na verdade, não se trata, de forma al­
guma, de jogos alegres. Esses jogos, ao contrário, são desprovidos de qualquer humor.
Eric Berne inspirou muito os Gnósticos. Berne é um médico psicólogo, inventor da
“análise transacional” em psicoterapia.

Os relacionamentos sociais baseiam-se na ânsia de reconhecimento pelo "Outro” e na ânsia de


estruturação do tempo por “ programação" - técnica, em se tratando de um trabalho; rttualística, em se
tratando de alguma atividade social e familiar. Já podemos ver aí a analogia com as "montagens” dos
Gnósticos.
A transação social elementar, quando está além de um simples passatempo e aquém de uma in­
timidade sem manobras, ó um “jogo" do qual cada um procura tirar tantas vantagens psicológicas
quanto possfvel. Cada ego, diante do álter, pode brincar de ser um Pai ou Mãe, um Adulto ou uma
Criança, e esse jogo, na transação, depara-se com o jogo do Outro, que pode ser complementar ou, ao
contrário, cruzado (o que acaba produzindo faíscas).
“ Onde estão minhas abotoaduras?” pergunta, como adulto, o marido para a mulher. A mulher
pode responder como criança: “ Vocé está sempre me censurando a propósito de tudo!" - como se o
marido fosse um pai e não um adulto. Mas ela também pode responder. "Por que vooô não cuida de
suas próprias coisas? Vocô não é mais uma criança!’’ - como se ela fosse uma mãe, e o marido,
uma criança.
Os jogos são transações desonestas, com motivações ocultas, e que representam ciladas para o
Outro. São operações psicológicas fraudulentas. Se alguém pedir abertamente que o tranqüilizem, e
consegue isso, trata-se aí de uma operação simples. Se alguém pede para ser tranqüilizado e, após ter
conseguido isso, muda a situação de tai modo que essa acabe ficando em detrimento do “tranqüiliza­
dor” , tratar-se-á, então, de um “jogo”.
O jogador desonesto não está totalmente consciente do seu jogo. Ele não está realmente brin­
cando. Se a mulher, a propósito das abotoaduras, brinca de representar e caçoa do marido, neste caso,
não se traia mais de um "jogo", no sentido dado por Eric Beme.

1. Grove Press, Nova York, 1964 (IU: “ Os Jogos que as Pessoas Jogam”).
2. Stock, Paris, 1966.

169
Vejamos alguns exemplos, segundo E. Beme.
O jogo uSem Vocé”. Uma mulher se convence de que o marido a impede de realizar algo de
que, na realidade, ela tem fobia: “ Nôo ó que eu tenha medo; ô que eie me Impede. Sem ete, eu viaja­
ría, teria uma vida sodaT, etc. Na realidade, o marido está poupando a mulher de sofrer medos neuróti­
cos, dando-lhe uma confortável posição de mártir.
O Jogo do “ Alcoólaira” d jogado em d rico: o Alcoólatra, o Perseguidor, o Salvador, o “ Bobo da
histeria" (a mãe que dá o dinheiro ou o dono do bar que vende a cródto) e o Abastecedor (o barman). O
que o Alcoólafra procura, nfio ó tanto o prazer de beber ou de drogar-se, e sim, de tornar-se um "ho­
mem que deve aer salvo", um náufrago, que atrai a atenção da fam ília, das organizaçóes filantrópicas
ou religiosas, um “ prato cheio" pare a censura ou para a generosidade piegas.
No "SchlemieT (termo ifdche), o Individuo A oomete uma gato, ou qualquer ato vil ou grosseiro
para com B - nSo por prazer destrutivo, mas pare conseguir o perdão de B, numa “cena de perdáo".
Em "A Perna Mecânica” , o sujeito representa o papel de enfermo, real ou Imaginário: “O que
vocôs podem esperar de um homem que fez a guerra da Coróia ou do Vletoá? De um homem que vive
numa sociedade captalsta? De um homem cujos pais se ¿bordaram? De una pobre viúva? De um
professor a cuja disposição o Estado se recusa a colocar um grande computador?"
Em "O Cavalheiro e sua Dama” , o Indivíduo A, geralmente um homem sem intenções reais de
conquista, aproveita cada oportunidade para extasiar-se com as qualidades de B (uma princesa distan­
te). Eie pode, assim, manifestar diante dela sua criatividade, originalidade, virtuosismo na aite dos elo­
gios. B responde oom urru "Vocé é form idável". O objeto é a “acfrrtraçáo mútoa".

Os “jogos" gnósticos com o universo9

Esses jogos neuróticos e caricaturais mostram, entretanto, o poder psicológico


das montagens. A sabedoria gnóstica se inspira neles, ao considerar as atitudes, que
são o núcleo das filosofias morais ou religiosas, como “jogos com o universo”. Perante
o universo, o homem também "joga". Ele adota uma atitude da qual espera obter algum
lucro psicológico. O homem estabelece uma "transação” com o princípio da existência.
Ele tem a mesma ânsia de reconhecimento pelo Outro.
Teoricamente, poder-se-ia pensar que os jogos com o universo não podem ser
"de mâ fé", como os jogos com os homens. O universo é impassível. Seja ele conside­
rado Espírito ou Matéria, como algo cheio de Significado ou como uma Máquina absur­
da, como Deus vivo ou como um Mineral morto e cego, trata-se - por contraste, peb
menos, com um pai ou mâe, com uma criança, com um igual - de um Juiz impassível,
ou, antes, de um Muro.
Os jogos diante desse Muro poderiam lembrar, aparentemente, aqueles jogos
que uma menina solitária inventa quando brinca com a sua bola, e adotando ou criando
suas próprias regras e figuras: "Sem rir - Sem mostrar os dentes - Roda - Grande
Roda - Gira", etc., sem poder acusar o Muro de trapacear - embora ela mesma seja
tentada a trapacear com as suas próprias regras.

3. Cosmic Games.

170
Na verdade, somos muitas vezes um jogador de má fé com o universo, e trapa­
ceiro também. Com ele, assumimos o papel de criança e até mesmo de pai ou mãe.
Mesmo que a religião nem sempre seja uma neurose, como Freud sustenta, a verdade
é que muitas neuroses, quando projetadas na esfera religiosa, tendem antes a agra­
var-se do que curar-se. Fazer sozinho as perguntas e as respostas diante de um Muro
e de um Mudo, é uma atitude essencialmente neurótica. Assim como continuar, como
uma criança alucinada, um diálogo durante toda a vida adulta com Isvara, com Ali, com
"Jesus" ou com a “ Virgem Maria” , ou, como o neurótico do famoso filme Harvey e o
Coelho, com o grande coelho de pelúcia de sua própria infância.

Podemos jogar com o universo o jogo do “Alcoólatra”, ou o jogo do “ Náufrago a


ser salvo", do homem que, caído em sua lata de lixo, espera por Godot e se julga com
certos direitos sobre ele; o jogo do “Grande Pecador”, que se considera um grande
santo (virtual); o jogo do “Schlemier, no qual o indivíduo se rebola na sujeira para fa­
zer-se perdoar; o jogo do “Sem Você” ou o da “Perna Mecânica” , no qual se acusa
a má sorte.

Podemos esperar desses jogos trapaceados certos benefícios psicológicos


momentâneos, na falta de benefícios mais espirituais (que só recompensam as boas
“montagens” e os jogos de boa fé). Há “jogadores" que, mesmo sendo sinceros, são
sempre tentados a exigir benefícios psicológicos e até mesmo benefícios materiais,
além dos benefícios internos, de querer ser feliz neste mundo e no outro, de ser sábio,
de ser rico, ou, como os taoístas, de ter o elixir de longa vida e voar sem asas.

A maioria dos jogos ou das “montagens” de má fé com o universo acabam pa­


gando, assim como a neurose, os benefícios internos momentâneos com graves incon­
venientes, pessoais ou sociais, a médio prazo. “Tome seu sonho por realidade”, ou “E-
xijamos o impossível” , ou ainda “O paraíso agora!” dão ainda menos rendimento com
os deuses do que com os homens.

O indivíduo pode ser “extra-punitivo” (isto é, acusar o Outro em vez de acusar a


si próprio) com o mundo em geral, com o Cosmo, com a família ou com a sociedade.
Ele pode jogar a imagem do santo na frigideira, como o agricultor calabrôs desiludido,
ou ainda, como Luís XIV depois de uma derrota, acusar Deus: “Depois de tudo o que fiz
por Ele!", e com o mesmo alívio imediato mas com menos vantagens reais, pois as
normas naturais estão alheias à culpabilidade que se pretende projetar sobre elas.

Na realidade, é difícil separar de maneira absoluta os jogos com os homens dos


jogos com o universo. Por detrás dos jogos com os homens, na maioria das vezes, há
uma atitude para com o universo que seria vantajoso destacar claramente pois, uma
vez consciente, ela tornaria mais sadia a atitude perante os homens. A ambigüidade da
palavra “mundo” é característica. Trata-se do mundo dos homens, mas também do
mundo em geral. Mas, se podemos fugir do mundo dos homens, não podemos fugir do
mundo, do cosmo e de suas leis. Pode-se esperar toda espécie de benefícios ao “refu­
giar-se na doença”: amor do próximo, importância, poder de dominar pela piedade que
inspiramos, e até mesmo, rendas e pensões. Quando se é doente de verdade, pode-se
também tratar Deus como se Ele fosse um pai, fazendo-lhe súplicas, agradando-o com
o devotamento ou com sacrifícios compensadores. Todavia, sua impassibilidade logo

171
leva o paciente a tomar atitudes mais realistas e mais verdadeiramente benéficas, tais
como a coragem de buscar “o bom uso da doença”.

Os “sentimentos transcendentes”
Arthur KoestJer, que tem, como já saientamos, um estreito parentesco com os
nossos Gnósticos, propôs que se estabelecesse, com relação aos sentimentos ou às
“emoções” , uma distinção entre as emoções que os psicólogos e neurologistas vivem
estudando - a raiva, o temor, a tensão sexual, etc. - que tendem a suscitar uma ativi­
dade motora aberta, agressiva ou defensiva, de ayto-afirmação (SA), e as que não
suscitam nenhuma atividade aberta - a simpatia, a admiração artística, a adoração, o
amor nâo-sexual mas produzem uma espécie de bem-estar.4 KoestJer chama a es­
tas últimas de emoções transcendentes (S.Tr.). São, por assim dizer, as bastardas da
psicologia moderna, consideradas como uma categoria suspeita de pseudo-emoções
que não merecem a atenção dos laboratórios. E, ó verdade que elas muitas vezes são
hipócritas sob o ponto de vista social. Mas, quando são sinceras e feitas com base em
“montagens” de boa fó com o universo, elas acaJmam o nosso corpo e a nossa alma.
São “comoventes” sem nos fazer “mover em direção a— ". Seu denominador comum 6
um sentimento de participação, de identificação, de pertencer a um Todo que pode ser
a Natureza, ou a Alma do mundo, que se expande para além dos limites do individual. O
reflexo fisiológico característico, associado a essa categoria de emoções, consiste em
chorar, numa espécie de relaxamento, de apaziguamento catártico de todo o organismo
- mas aqui a catarse não é negativa; ela abre o ego para os Grandes Seres que o en­
volvem. O riso, em contraste com as lágrimas, expressa a percepção do cômico, mas
vem geralmente acompanhado de uma excitação agressiva, que aumenta o tónus e
proporciona apenas um relaxamento superficial para um Eu que se afirma e se defende
contra o Outro.

A Intimidade além dot Jogos


Essas “emoções transcendentes” estão além dos jogos, e mesmo além das
montagens dirigidas para o universo. Elas surgem quando menos esperamos, quando
nos encontramos submergidos pela enormidade do destino, vencidos e arrastados pela
corrente à qual acabamos nos entregando, fascinados pelo “encolher de ombros da
eternidade**.
Na categoria dos comportamentos com o universo - ou Unitas— , elas pertencem
ao que Beme, no âmbito das transações sociais, chama de entrega à intimidade, sem
manobras nem buscas estratégicas de benefícios, a forma mais perfeita dos modos de
vida humana: "Para certos seres afortunados, existe algo que transcende todas as
classificações do comportamento, que domina qualquer programação de conduta e que
dá mais satisfação do que os jogos: trata-se da intimidade”.6

4. Arthur Kowttec InsigMand Outlook, Macmüian, Nova York, 1949.

5. Eric Beme,op. ÒL, p. 200.

172
As satisfações de uma intimidade com o Outro, livre de qualquer jogo, são tão
grandes que, até mesmo pessoas de personalidade frágil, depois de experimentá-las, e
quando tiveram a sorte de encontrar um parceiro adequado, podem, com toda a segu­
rança, com toda a alegria, desistir dos seus jogos.
A “intimidade" é a sinceridade espontânea, a libertação da criança que a pessoa
tem dentro de si, mas num sentido sadio, sem intenção fraudulenta, da criança ingênua,
carinhosa, cuja sinceridade mobiliza sentimentos positivos, nela própria e no outro.

A intimidade com o universo

O acesso à bem-aventurada intimidade com o universo é ao mesmo tempo mais


fácil e mais dif ídl do que a intimidade com os homens. Mais fácil, na medida em que o
universo é neutro e leal: a criança espontânea não pode transformá-lo num pai corrom­
pido. Ao passo que pode existir uma intimidade unilateral entre os homens, falsa, e fa­
zendo parte de alguma manobra. Por exemplo, quando um sedutor profissional, capaz
de seduzir sua “ vítima" sem que esta, por sua vez, consiga seduzHo, incita o Outro a
se abrir, a se expressar livremente, enquanto ele toma o cuidado de só fingir que está
fazendo o mesmo.
Nada disso pode existir na intimidade com o universo. Os Dom Juan, ou as
crianças mimadas ou falsamente inocentes, não podem seduzi-lo. Proust, por exemplo,
em “intimidade” com a mãe enquanto “manobra" com o pai, não pode entretanto ser to­
talmente sincero com ela, já que oculta seus próprios vícios e lhe extorque beijos de
paz. Mas, em sua obra, ele se mostra verdadeiramente “íntimo" com o universo, com
suas grandes leis, com o tempo, que é ao mesmo tempo seu passado mais íntimo e a
revelação universal do verdadeiro sentido da existência. São Francisco de Assis tem
menos desgostos com seu “irmão S or ou com seu "irmão o Fogo", mesmo quando es­
se “ irmão" o tortura, do que com seus limitados companheiros humanos.
Mas o acesso à intimidade com o universo é também mais difícil, fora os momen­
tos exaltantes, mas muitas vezes terríveis, que libertam em nós mesmos os sentimen­
tos “oceânicos” e as lágrimas. Como conseguir manter por muito tempo um sentimento
de intimidade com um cosmo mudo que exige a nossa vida, mas também a nossa mor­
te, que tantas vezes tem a aparência de um Todo, distinto de nós, que parece aprovar
nossa conduta e favorecè-la através do êxito, mas que implacavelmente sanciona o
menor desvio em relação à linha do Tao eterno, mesmo quando esse desvio não ocorre
por culpa nossa, mas, sim, por culpa da espécie biológica à qual pertencemos, ou por
culpa da evolução social, sobre a qual não temos praticamente nenhum controle?
O fato de as religiões, de as Igrejas serem efêmeras 6 algo que se admite facil­
mente, visto que sempre podemos censurá-las por serem apenas montagens imperfei­
tas, com segundas intenções de manobra. Contudo, além dos limites da religião, ê a
própria Gnose, ou o Espírito tal como o homem o entende, que o Espírito cósmico pare­
ce desprezar, já que ele destina para o mesmo pó final, tanto as obras perfeitas como
as obras mal-acabadas, tanto os êxitos espirituais como os êxitos materiais. Quando a
Terra não for mais habitável, onde estará a diferença entre um grande santo, um grande
artista, e um artista ou um santo medíocres ou falsos? Lugar-comum desde o “Canto do
Harpista" egípcio.

173
Como ter essa intimidade com um cosmo destinado por fim à desinformação, à
volta ao estado de pó, do tipo “superfície lunar"? Perspectiva curiosa para um universo
gnóstico do Espírito, esse desaparecimento final do Espírito, que deixa, no espaço e no
tempo, como único vestígio, a “lataria” das máquinas e dos organismos que ele mesmo
montou, e inclusive uma lataria destruída, despedaçada. Perspectiva final que, aliás,
muito se parece com a perspectiva inicial, na qual as partículas, os átomos, as energias
e os materiais parecem preexistir aos princípios de organização dos quais surgiram os
seres vivos, os homens, o mundo espiritual, e na qual as obras e os seres futuros só
existiam no estado de “luminescências esparsas de hidrogênio".
O que se pode dizer é que todas as experiências- para nós que estamos entre
esse começo e esse fim - manifestam a existência e o predomínio da consciência so­
bre os materiais que ela organiza. O fato de esse predomínio ser precário, difícil, sujeito
aos atrativos ou às falhas de sua matéria, em nada altera o fato de que o Espírito, isto
é, a consciência e o significado, nela se manifesta. A idéia que temos - com a ajuda da
ciência- do começo e do fim do cosmo, é suficiente para esfriar nossas boas in­
tenções de intimidade com o universo. Mas não pode fazer vacilar a fé gnóstica no
Sentido, além do pó e dos cadáveres, além das nebulosas amorfas ou das estrelas
“degeneradas” .

Suponhamos que um homem, favorecido pelos deuses ou pela sorte, tivesse co­
nhecido a feliz intimidade com um outro ser, com a mãe ou a mulher querida. Quando
esse outro ser morre, ele se vê num mundo que, para ele, perdeu a alma, numa terra
que lhe parece tão vazia, tão fria como se ele tivesse sido transportado para os gelos
do planeta Netuno. E, no entanto, o universo foi capaz de lhe dar esse momento de in­
timidade com um Outro que, como ele, surgiu do mundo. A intimidade humanei, displi­
centemente destruida pela marcha inflexível do universo, foi-lhe dada, no entanto, pelo
próprio universo; ela saiu da intimidade subjacente da Unitas. Para aquele que continua
a ver sobre a face do céu o rosto de quem amou, são as “luminescõndas esparsas de
hidrogênio”, ou os gelos de Netuno, que parecem superfidais. Quando esse Rosto, so-
breimpresso sobre a face aparente do universo - e revelando assim, sem contestação
possível, um Fundamental vivo e dotado de sentido sob uma aparente desolação mine­
ral - , quando esse Rosto o acompanha sempre, o Sábio não tem, assim, nada em co­
mum com o neurótico que sempre vem acompanhado do grande coelho de pelúda de
sua infância.

Amostras de “ montagens em relação ao universo”

Entre a má fé dos “jogos” análogos aos jogos com os homens, e que visam ma­
nobras, e a intimidade difícil- conseguida sem ter de recorrer a um misticismo que os
Gnósticos rechaçam, que apagaria o mundo, que o aniquilaria como uma ilusão entre
Deus e nós, e faria do sentimento “oceânico", não um limite raramente alcançado, mas
um estado permanente, destruidor de toda forma, mais seguramente do que o pior nii-
lis m o -, resta então o recurso de procurar o meio termo das montagens e das atitudes
corretas.

Sei que os Gnósticos, em determinada ópoca, tiveram o projeto de uma espécie de Repertório,
semelhante a um tratado sobre a colheita dos cogumelos. Um repertório nâo-aentffico, porém prático,

174
oom as indicações de: “comestível” , “delicioso”, "indigesto”, "perigoso", “mortal” i É uma pena que te­
nham desistido desse projeto. Mas nada nos impede de retomá-lo, na forma de um esboço. Ele é muito
característico da sabedoria, toda prática, dos Gnósticos, baseada na experiência psicológica e histórica.
Esse Repertório náo poderia ser científico. O que interessa ao colhedor de oogumelos, náo é a
sistemática dos gêneros e das espécies (pois na mesma espécie podem coabitar os deliciosos e os ve­
nenosos, como as amanitas falóides e as amanitas comestíveis); o que interessa ao colhedor é uma boa
identificação. Também não poderia ser científico por esta outra razão: a de que “montagens” muito an­
tigas, como as atitudes estóicas, epicuristas, budistas, ainda são vivas e utilizáveis em relação às mon­
tagens inventadas em época mais recente e ainda para serem inventadas.
Que nos seja perdoada a falta de ordem da nossa enumeração. Mas é precisamente essa de­
sordem que dará a idéia mais justa da sabedoria gnóstica, empírica e seletiva dentro de um comporta­
mento tateante. Se o homem ocidental ainda estivesse numa cultura tradicionalista, que foi se adaptan­
do durante uma longa história tranqüila, as montagens seriam “ordenadas" em todos os sentidos da pa­
lavra. Não haveria problemas teóricos ou práticos. Mas o fato é que já passamos dessa fase, e é por is­
so que o Gnóstico deve agir como Edison, experimentando centenas de materiais que possam servir de
acumuladores de eletricidade, e não como Newton ou mesmo Ptolomeu, pondo em ordem a astrono­
mia de posição de seus prodecessores.

As montagens tradicionais e a paleontologia social

É um fato patente que, tudo o que é conforme uma longa tradição é “boa mon­
tagem" quase que por definição, e que toda montagem tradicional deve ser considerada
digna de atenção. Tudo o que se apresenta bem equilibrado provém, por definição, do
“estado de repouso” das coisas e dos comportamentos: a família, os costumes, os
processos artesanais, os trabalhos e as festas habituais.
As montagens tradicionais constituem, hoje, uma espécie de paleontologia social.
Mas ainda merecem ser estudadas e analisadas quanto ao seu processo geral, pois
eram “orgânicas” , conformes de antemão ao que pede a sabedoria gnóstica. Apoia­
vam-se sobre uma forte estruturação do mundo, do tempo e do espaço, sobre “leituras”
à base de artificios, porém muito eficazes para estruturar, por indução, a psique. Des­
sas, deve-se reter algo a contrario. Constitui um perigo para o equilíbrio mental tudo o
que é desorganizante, desestruturante: os estudos teóricos universitários interminá­
veis; as viagens industrializadas, tão nefastas quanto eram benéficas as romarias tra­
dicionais; o ócio, as férias prolongadas, enquanto que as férias escassas e regulares,
ao contrário, ajudam à estruturação do tempo; as festas muito seguidas e permanentes
(ideal tolo de certos culturalistas), ao passo que as festas raras e regulares são benéfi­
cas como peregrinações temporais.
Sabemos que foi a “montagem", luterana, da santificação do trabalho que fez a
grandeza da Alemanha, assim como a santificação calvinista do ôxito comercial e in­
dustrial foi responsável pelo sucesso do capitalismo liberal, e assim como o aprimora­
mento religioso na busca da habilidade técnica por conformidade ao Tao, fez a grande­
za da China clássica, quando combinava - ao mesmo tempo em que se opunha a eles
- com o respeito confuciano dos ritos e a minuciosa estruturação do tempo bem como
do espaço.

A ceitar a função social

Visto que muitas tarefas e funções dentro da economia contemporânea, sociali­


zada ou não, são irremediavelmente enfadonhas, é melhor encará-las de vez como

175
uma maçada necessária à qual devemos sujeitar-nos com boa vontade para podermos
ser livres por outro lado.
Subindo mais um grau, chegamos à alta sabedoria do estóico, que concorda em
representar qualquer papel, porque pode livremente brincar de representá-lo tão bem
quanto possfveL
Entretanto, pode existir também um antagonismo entre as "montagens” e os
papéis sociais. Concordar em representar qualquer papel significa desprezar esse pa­
pel. E esse desprezo pode chegar ao desprezo anarquista - “E se eu me recusasse a
ser um ator, não importa se bom ou ruim?” “ E se eu saísse de todo esse sistema fun­
cional social para poder entrar na liberdade absoluta?".
É sempre sutil a distinção entre uma atitude “religiosa" e uma atitude anarquista.
Toda “montagem com o universo", qualquer que seja, comporta necessariamente um
certo despreendimento social que ó preciso controlar.

As montagens-revoltas

Sejam agressivas, contestatárias, reivindicadoras, revoltadas ou negativas, to­


das elas são ruins, mas muito piores se forem dirigidas contra o universo e a vida do
que se o fossem contra os homens e a sociedade. A revolta contra a sociedade costu­
ma ser infantil, encobrindo algum pseudomoralismo, uma inveja dissimulada, falta de in­
teligência ou inconsciência paranóica, ou à base de ambições, aliás, muito positivas.

“ Pondo as ganas de fora”

Às vezes pode ser necessário “pôr as garras de fora” para defender-se, ou ter
algum escudo, se deixou de predominar a boa vontade ou o utilitarismo inteligente na
sociedade, e se esta se tornou uma selva. Mas, numa sociedade assim degenerada, o
melhor é o desprezo irônico, sem amargura, e o retiro. Com, miticamente, o desejo de
ser invisível e, na prática, a vontade de reduzir ao mínimo os contatos com os homens,
sem ferir seu amor-próprio, que tem as garras de uma fera. A luta de Zoroastro em fa­
vor do Bem, contra o Mal, só ô louvável quando o Bem já é ou ainda é majoritário. Caso
contrário, não passa de uma ilusão, de uma cruzada desesperada e desesperadora,
onde. a pessoa desgasta inutilmente sua mente e sua vida.
Os Gnósticos, rompendo com uma longa tradição americana, fazem questão de
manter-se “despoütizados” ou, antes, udesproselitizadosN, e não lutam por nenhuma
causa humana.
As revoltas satânicas ou byronianas contra Deus, contra o destino ou contra o
universo, são totalmente pueris. O “jogo da derrelição" dos antigos Gnósticos, retoma­
do pelos existencialistas, o jogo do “Maldito” , de “Caim", do pacto com o Demônio, são
dignos de Bedlam (ou de Charenton).*

* Hospícios de alienados, respectivamente na Inglaterra e na França. (N. T. )

176
É preciso que Deus me ouça

O "É preciso que Deus me ouça" de Jó, de Prometeu, é uma montagem um pou­
co diferente. Assemelha-se, antes, ao “jogo” de Eric Berne,6 no qual o cliente de uma
agência exige o direito de suscitar reclamações, não para ter seu desejo satisfeito, mas
para poder ser ouvido pelas autoridades responsáveis. Nesse caso, as autoridades
não devem procurar levar em conta as reclamações; também não devem acusar o
queixoso de ser exigente demais. Devem limitar-se a ouvi-lo pacientemente, mostrando
sinais de interesse. O queixoso não pede mais do que isso. O que ele quer é reivindi­
car, não necessariamente conseguir (o que muitas vezes poderia embaraçá-lo).
É o caso dos jovens dentro da sociedade, que não sabem o que querem, exceto
que querem “dizer umas verdades” aos adultos.
Essa montagem pode ser válida se, ao formular sua queixa a Deus, o queixoso
se torna depois consciente de sua atitude pueril, chegando, assim, a exemplo de Jó, a
uma consciência mais profunda - e verdadeiramente gnóstica - do universo.

“O eterno retomo”

O mito-montagem do Eterno Retorno de Nietzsçhe aproxima-se bastante do an­


terior, porém é diferente. Tem ele o caráter de um desafio, mas de um desafio mais para
consigo mesmo do que para com Deus: “ Deus está morto. Permaneço sozinho no uni­
verso como consciência lúcida. Poderei desempenhar o papel de Deus, substituir Deus
- isto é, suportar a eternidade sob a forma do eterno Retomo de uma existência - que
domina o tempo, que se tomou cíclica? Sim, se eu aceitar e suportar o eterno retorno
da minha existência.”

As montagens-bravatas

Muitas atitudes de revolta contra Deus (ou o universo) são como bravatas do “la­
drão que deseja ser preso”, como no jogo infantil da Polícia e do Ladrão. O ladrão-que-
quer-ser-preso, à diferença do calculista, deixa pistas, umanchasn, insultos, “ advertên­
cias” . Do mesmo modo, na política, há dois tipos de revolucionários e de inimigos da
sociedade. Ao lado dos calculistas há os falastrões que se expõem, se mascaram,
“sujam”, desafiam, insultam.
Perante o universo, os epicuristas egoístas - que não devem ser confundidos
com os utilitaristas benéficos — são como ladrões calculistas, quando dissimulam seu
egoísmo. Ao passo que os ateus fanfarrões desejam ser presos — para, naturalmente,
serem salvos no fim, e preferidos até mesmo aos devotos. Existirão, estes, no tempo
do “ Deus está morto7 Sem dúvida, e eles aguardam uma espécie de prêmio Nobel
cósmico, uma prisão-panteão ou um martírio-apoteose.

6. Eric Berne: op. d t, p. 148.


A espera do milagre

Muito próxima da montagem anterior, apesar das aparências, está a espera do


milagre. Byron, Põe, Melville, Baudeiaire e Rimbaud viveram essa montagem, ao mes­
mo tempo sob a forma de bravata e de espera do mlagre. Mas a espera do milagre,
num sentido mais exato, requer uma fé, seja ela ingênua ou juveni.
Kierkegaard foi o que mais caracterizou essa “espera do milagre”. Nfio obstante
todas as suas finuras filosóficas, ele levava a sério a história de Abraão e de Isaac. Eie
esperava que Deus, por milagre, lhe devolvesse Regina, a noiva que perdera, julgando
que esse milagre lhe era devido. Muitos jovens hippies e jovens esquerdistas, tanto na
Europa como na América, vivem na espera do milagre político e cultural, e do Novo
Homem. O curto-circuito da vadiagem generalizada e da droga só tem sentido na medi­
da em que há uma espera do milagre, da Parúsia social e cósmica.
Esta “montagem" estava socialmente muito difundida nos tempos antigos, e en­
contra-se, hoje, difundida entre os primitivos, como entre os primeiros cristãos, os cru­
zados pobres, os fanáticos do Apocalipse no fim da Idade Média.

O “Mendigo de Deus"
Já nos referimos ao paralelo existente entre o jogo do Náufrago, caído na sua li­
xeira, e o jogo do Alcoólatra. O jogo do Náufrago, do Mendigo de Deus, tem a vantagem
de transformar o universo num pai, severo porém indulgente, que se compadece e in­
tervém. Uma associação anthalcoóüca ou antidroga cósmica há de acolher o infeliz, em
quem ela entrevó um santo. O Mendigo de Deus se dirige a um público mal-definido,
meio social, meio cósmico: “Considerem e observem... se há no mundo um pecador,
que só quer ser o maior dos santos”. Ele se apresenta como o refugo, o detrito, mas
também como o “desviador", o contrary one do cosmo, o qual, ele presume, deve estar
muito interessado no seu caso.

“Vocé nfio Iria à minha procura se nfio estivesse certo


de que nfio Iria me encontrar"

As religiões estabelecidas geralmente instalam postos de reabastecimento e de


“reenchimento” espiritual. Mas fica claramente definido que o cliente nfio deseja ne­
nhum resultado definitivo. O mecânico religioso dá conselhos, mas não espera que es­
tes sejam seguidos. Não espera de forma alguma que o cliente faça qualquer esforço
no sentido de poder, mais tarde, dispensar o posto de abastecimento. Na confissão
católica, fica subentendido que o fiel voltará indefinidamente para confessar-se. Se ele
não volta mais, não se conclui que ele deixou de pecar, mas que abandonou a prática
religiosa.
Aqui, mais uma vez, essa montagem de “ reenchimento ¡denfinido” assemelha-se
a um “jogo” com homens ou com instituições.7 A assistente social, contratada por uma
agência para ajudar os indigentes a acharem algum trabalho, não deve ser eficiente

7. Ct. Eric Berne, op. d l, p. 160.

178
demais. O desempregado, por seu lado, procura trabalho mas, a exemplo do herói do
Colosso de Maroussi, de Henry Miller, sem nenhuma intenção de encontrar algum: “ Por
mais desesperado que eu achava que estivesse, eu nem me dera ao trabalho de per­
correr as colunas de ofertas de emprego."
Essa atitude é muito freqüente perante o universo. Os agnósticos são, com
freqüência, desempregados religiosos que fingem estar procurando, e acabam tranqüi­
lizando-se com a idéia de que não há solução. Essa atitude se expressa pela revalori­
zação do mistério do Incognoscível, não como uma reserva positiva a ser conquistada
mediante o invento de engenhos psicológicos, e sim, como um oceano para o qual,
graças a Deus, não temos nem barco nem vela. Os velhos sábios são consultados
apenas pró-forma. O consulente deixa a entender que eles não são mais sábios do que
ele, e que ele não tem que “procurar emprego” - metafísico ou religioso.

Os humanistas difíceis

Os humanistas difíceis adotam freqüentemente uma atitude semelhante. Os Dió-


genes procuram um homem, com a garantia de que não irão encontrá-lo. Quando, em
certas culturas bem-sucedidas, surgem belos tipos de humanidade, como o belo e bom
Grego, o Cavaleiro sem medo e sem mancha, o homem honrado, o gentleman - os
Diógenes, em vez de maravilhar-se, procuram vaiá-lo, insultá-lo e tratá-lo de hipócrita,
de fariseu. Marx coloca no mesmo nível o belo e bom Grego e o empresário capitalista,
considerando ambos como parasitas. Todo homem honrado ô um “porco" - um pig.
As nações que parecem conseguir um início de conciliação entre o homem e
Deus, entre a prosperidade material e a saúde espiritual, são as mais insultadas. Os
povos e as pessoas felizes são apresentados como seres obcecados pelo suicidio, ou
então, a satisfação simples é vista de antemão como uma satisfação simplória. Se
você está feliz, é porque você é um tolo conformista.

Goefie, ainda jovem, inicia seu Fausto ou seu Wilhelm Meister, e decide de antemão que o jogo
consistirá em não ter nenhum ôxito. Quando Fausto acredita estar a ponto de ter ôxlto, fica entendido
que está a malograr. Sabemos que Goethe, mais tarde, mudou de atitude e acredhou nas “ boas monta­
gens’', positivas, no saint-simonismo, no trabalho produtivo, sem magia ou sem teatro, na aristocracia
por cooptação. A Société de Ia Tour, com o curioso personagem Makário que experimenta pela sua
sensibilidade o estado do cosmo, dirige oom sabedoria e secretamente a educação dos neófitos bem-
intencionados, que pretendem respeitar tudo o que é respeitável, tanto no homem como em tudo que
está acima do homem.

O Suspeitador universal

Esta é a pior de todas as montagens, e trata-se de uma invenção recente. Ela


destrói de antemão, como disfarce de uma falsa consciência, tudo o que é atitude posi­
tiva. Ele zomba de qualquer esforço “construtivo”, já que o Reader's Digest, em épocas
passadas, louvou de forma abusiva tudo o que era construtivo.
Essa antimontagem que, no entanto, não deixa de ser uma montagem, consiste
em instalar, de antemão, na armação da arquitetura psíquica, uma máquina infernal,
uma arma redutora e destruidora.
179
O desejo de não ser enganado (pelos outros) não é em si uma atitude condená­
vel - e falta muito para isso. Ét até mesmo, uma atitude da mais rigorosa prudência,
ainda que os instintos de defesa contenham algo de perigosamente mecânico em seu
funcionamento. Porém aqui há uma vontade, ou mania, sugerida pelos mistificadores da
contramistificação, de nunca ser enganado por si próprio, pelos movimentos positivos
espontâneos da própria consciência - que devemos encarar sistematicamente como
simples resquícios de velhas sugestões infantis e de uma credulidade residual para
com os pais, o meio social, a primeira educação religiosa ou patriótica. O infeliz assim
munido da arma destruidora interior, da máquina infernal psicológica, está perdido:
qualquer conselho positivo, qualquer tentativa de educação é imediatamente neutraliza­
da como “tentativa de logro”. Se ele tem um sincero desejo de empreender algo, de
pôr-se a trabalhar, ou de desistir de algum prazer que no fundo não o atrai realmente,
ele ouve a voz interior do Suspeitador universal que o retém: "Você está sendo enga­
nado!”, e que acaba condenando-o à vida de preguiçoso entediado ou do revoltado
amargo. A politização suspeitadora da vida psicológica é tão mortal quanto a politização
universal da vida social.
Livre do pai familar como Super-Eu, tomou-se escravo do demagogo Desmistifi-
cador, que o contamina como um vírus e acaba substituindo seus próprios genes, he­
reditários e tradicionais, que até então organizavam seu organismo psíquico.
Quando não levam a uma vadiagem generalizada, o que os Suspeitadores muitas
vezes fazem é preparar, mediante seu trabalho destrutivo, o triunfo dos ideólogos sim­
plistas. A passagem da desconfiança universal para a credulidade ingênua, do repúdio
de todas as idéias para o envolvimento irrefletido em alguma ideologia, é quase automá­
tica, pois uma é o avesso da outra. Por irvstinto de conservação, o “desconfiado” con­
taminado se agarra ao dogma simplista trazido pelo vírus contaminador. Ele não acredi­
ta em mais nada a não ser no psicanalista em voga, no marxista, no marcusista, no
filósofo presunçoso e semilouco, que vive obcecado contra o “modo de vida america­
no”, no etnólogo neurótico, ele mesmo doente, alheio ou que se tomou alheio à sua pró­
pria cultura, e odiando a saúde dos outros, no artista malsucedido, mas que, habilmen­
te, consegue convencer que qualquer obra perfeita, bem-sucedida ou agradável deve
imediatamente ser desprezada e ridicularizada. O esnobismo da desconfiança acaba
se transformando por si só em esnobismo crédulo.
A desconfiança política e social pode facilmente passar para a desconfiança “u-
niversal", isto é, para a desmistificação do universo e da existência. Toda atitude reli­
giosa positiva pode ser apresentada como uma simples “projeção” de alguma atitude
social. Todo aristocratismo filosófico pode ser suspeito de ser o disfarce interessado de
uma aristocracia social, de ser uma “montagem” política (desta vez no sentido de tra­
paça) disfarçada em montagem gnóstica.
Não vemos em que, algum aristocrata da saúde, ou da mente, ou do êxito social,
teria menos condições do que um vadio, ou do que um ser subdesenvolvido, ou do que
um doente, para ter uma atitude religiosa válida.
As distorções de perspectivas são, em princípio, inevitáveis em qualquer si­
tuação, elevada ou inferior. Historicamente, as atitudes religiosas são, com efeito, de­
pendentes das atitudes sociais. Cada classe social, cada profissão, cada especialidade
dá um colorido específico à sua visão do cosmo. Náo é apenas o homem em geral que
faz Deus à sua imagem; cada função social também o faz. É este precisamente o caso
180
do clã dos suspeitadores. Ele pretende erguer-se acima do homem comum que
aceita a vida. E é essa presunção social que rege a presunção intelectual, e a
ensoberbece.
Os suspeitadores desconhecem porém o fato de que a história humana também
se fez pela dependência contrária. Os que adotam voluntariamente uma atitude positiva
perante o cosmo acabam formando, mais tarde, urna aristocracia humana e social. O
bramanismo, o confucionismo, o zoroastrismo, o estoicismo formaram, fizeram, literal­
mente, uma aristocracia humana e, depois, social - assim como, a um grau abaixo, as
ideologias políticas fazem as novas “elites" políticas que se apoderam do poder - no
momento em que ídeologias-veneno intoxicam as antigas elites demissionárias.
Nietzsche teve a mesma ambição religiosa positiva. Ele não é o Destruidor ou o
Suspeitador universal em que alguns pretendem transformá-lo, contrariando as afir­
mações mais claras do próprio Nietzsche. Suas desconfianças e suspeitas são mais
freqüentemente dirigidas contra os negadores do que contra os criadores. Ele apenas
procedeu de modo inadequado, do alto do seu poleiro alpestre. Não se pode mais, hoje
em dia, falar aos homens como um profeta, como um pregador que traz um novo evan­
gelho, do alto de uma montanha em meio às nuvens de uma tempestade.
O movimento gnóstico é precisamente urna tentativa com vistas a formar, por
cooptação silenciosa e discreta, urna aristocracia filosófica e, secundariamente, social.

Os libertadores dos instintos

Os que tornam suspeita toda e qualquer montagem positiva, toda e qualquer


norma tradicional, não podem deixar de serem levados a uma contrapartida positiva.
Eles a encontram, ou na liberdade pura da existência que só é declarada auténtica se
for nua e vazia, ou na libertação dos instintos, na “descolonização psíquica" de todos
os “alienados”: alienados propriamente ditos, que eles fazem sair de seus hospitais
psiquiátricos; trabalhadores, crianças e mulheres, que eles fazem sair do “deformató-
río" familiar.
Rejeitar essas tolices é a primeira tarefa dos Gnósticos. É desnecessário voltar­
mos a isso. Os Gnósticos relembram ao mesmo tempo que os instintos biológicos (a
auto-afirmação, a libido, etc.) não são forças amorfas, mas, ao contrário, são significan­
tes e organizadores, se canalizam a si próprios e se limitam, passam por si mesmos do
esboço temático para a forma estruturada, tanto no organismo psíquico como noorga­
nismo biológico. "Libertar os instintos” pode, portanto, ter um sentido positivo, se enten­
dermos com isso que não se deve contrariar as passagens espontâneas do esboço
para a forma, ou as compensações naturais que limitam determinado instinto mediante
algum instinto antagônico. A simpatia espontânea compensa o instinto de defesa. 0 pu­
dor espontâneo (pré-social) é tão instintivo quanto a libido, visto que se manifesta em
todas as culturas. O instinto de ordem, de veneração, de ritualismo ou, como diz V. Pa­
reto no seu jargão, a “ persistência dos agregados” , é também um instinto poderoso e
universal. São os instintos que animam, com sua “gramática formativa", as discjpfnas
tradicionais. Mas os libertadores de instintos não sabem, aparentemente, o que é um
instinto, como tampouco os existencialistas sabem o que é a existência, ou seja, aen­
carnação laboriosa, numa linha temporal individualizada e contínua, de sentidos
"participados” .

181
Os veneradores dos loucos

Até certo ponto, os loucos nos ensinam uma certa sabedoria: eles são um exem­
plo, visto sob uma lente de aumento, dos processos universais da vida para operar
montagens à base de tabus, de ritos, de crenças e de atitudes simbólicas. Exatamente
como o estudo das monstruosidades orgânicas, dos desdobramentos anormais, das
más harmonizações de esboços embrionários é um guia de informações preciosas pa­
ra os embriologistas.
Todavia, seria ridículo considerar um monstro de duas cabeças ou um microcéfa-
to como sendo tão normal quanto um ser normal, sob o pretexto de que o conceito de
normalidade não é científico (segundo os preconceitos positivistas). Mais ridículo ainda
seria achar que os monstros tôm revelado maior criatividade do que os seres normais,
e tomá-los como guias para uma nova direção da evolução. A evolução biológica é feita
por montagens ou comportamentos novos e heróicos nos seres normais (consolidados
eventualmente por mutações). Ela não é, como se afirmou, uma “teratología fecunda” .
O mesmo ocorre com a evolução das culturas. É verdade que a veneração dos
loucos é freqüente nas culturas primitivas. Nelas, a loucura é vista como uma manifes­
tação divina, uma teofania. Nas culturas adiantadas, em todos os campos onde a razão
e o cálculo nada podem fazer, como no caso da decisão de soberania legítima, das
grandes escolhas políticas, da guerra ou da paz, dos jogos caprichosos da história-
evento, os homens se sentem tentados a se entregar ao acaso deificado, ao acaso da
hereditariedade ou da descoberta do novo Dalai-Lama, ao acaso dos presságios, às
entranhas das vitimas - ou aos loucos e profetas para sair do impasse e da inde­
cisão, em virtude do princípio racional de que, uma forma qualquer é melhor do que ne­
nhuma forma. O que não deixa de apresentar certos riscos podendo levar a resultados
catastróficos"

Mas a história-cultura não tem nenhuma razão para ser considerada da mesma
forma. Existem acasos na invenção, logo, uma certa esquisitice na aparência da novi­
dade. O que é lamentável é superestimar sistematicamente todo artista, por exemplo,
que manifesta alguma anomalia crua, não superada, e recusar ver qualquer genialidade
em tudo o que é sadio. As boas épocas da cultura sempre mostraram o triunfo dos se­
res normais sobre os excêntricos, sobre os beberrões, os poetas de bares ou os fuma­
dores de ópio. As decadências começam quando os sábios imitam os loucos e procu­
ram passar por loucos.

Na França, é conhecida a linha de Ftimbaud a Lautrôamont, Jarry, Charles Cros,


Antonin Artaud. A América, em sua época saudável, tinha razão em não facilitar a vida
a Edgar Póe. A América (universitária) de hoje parece querer seguir a linha francesa,
com a diferença de que os artistas deliram e gesticulam numa espécie de hospício de
alienados, separado, por enquanto, por paredes invisíveis da massa que ainda se
mantém saudável. Mas o que eles querem é fugir do hospício para dominar o mundo.
Além disso, eles conservam da mentalidade americana um certo senso prático que, por
um lado, os toma mais perigosos por serem mais eficazes, mas que, por outro lado,
abranda um pouco a sua loucura.
Os Gnósticos detestam os adoradores dos produtos brutos do inconsciente, os
surrealistas, os intoxicados físicos ou psíquicos de toda espécie. A crença nos loucos,

182
como a crença nos demônios, é uma forma de politeísmo. A Nova Gnose é profunda­
mente monoteísta.

Usar a boa técnica

Com o “ anseio pela técnica”, ficamos mais próximos da região das boas monta­
gens, tanto para com o universo como para com os homens. O anseio por urna boa
técnica tem isso de útil: ela foge ao duplo inconveniente da extrapunitividade (“ É culpa
do outro... da sociedade... do mundo... do destino”) e da autopunitividade (“É minha cul­
pa... Eu sou um fracassado” , etc.). No diálogo quase permanente que o ego mantém
com ele próprio, o mais "eu” dos dois egos do diálogo desempenha o papel de urna
espécie de Deus, testemunha humorístico. O "eu” testemunha diz para si mesmo, ou
diz para o “eu" ingênuo que ele observa: “ Você não usou a maneira certa, mas tem
condições no futuro de usar o jeito cedo".
Na história biológica, todos os progressos importantes foram resultado de monta­
gens de boa técnica. Deus sive Natura é visivelmente amante da técnica mais do que
de moralidade ou de justiça.
Ele não tem piedade alguma pelos maus técnicos. As normas dominam em todos
os campos, ao contrário das crenças ingênuas dos idealistas da liberdade, da fé, da
criatividade arbitrária. E essas normas são técnicas, e não morais. Do ponto de vista
econômico, social, demográfico, político, todos os êxitos são técnicos. Só que o uso
das boas técnicas nem sempre é devido a um anseio consciente prévio pela técnica, e
sim, ao contrário, a crenças mitológicas que não visam de forma alguma qualquer êxito
técnico.
Uma vantagem psicológica imediata desse anseio consciente por uma boa técni­
ca - como montagem - é que ela é uma atitude adulta, e não de “ criança” ou de “pai".
Aquele que deseja ajudar a si próprio, que diz para si mesmo: “ Serei o meu próprio
conselheiro” , que nos acontecimentos incertos, pratica o “Vamos esperar para ver” ,
que confia em si próprio porque ele quer trabalhar - e não representar - , aprende a
respeitar o universo ao mesmo tempo em que tem respeito por si próprio, sem por isso
levar-se a sério - ou apenas na medida em que trabalha com seriedade. Ele deixa de
ser a criança, com seus vários salvadores, religiosos ou ideológicos. E, também, deixa
de ser o pai ou o guia para os outros. Ele se coloca frente a frente com um Deus adulto,
com o qual nem sempre tem uma intimidade mística, mas cujos métodos ele procura
seguir, e com o qual procura manter-se em sintonia: “ Seguir o Caminho, o Tao. Viver
‘em harmonia’ ”, etc.
O erro do Oriente - ou, antes, dos “orientalizantes" - sempre tem sido o de pro­
curar uma intimidade pura - e em curto-circuito - com o universo. A intimidade (no sen­
tido de Eric Berne) vale muito, pois vai além dos jogos de má-fé e, até mesmo, das
montagens - e das técnicas. Mas ela só consegue envolver essas montagens, essas
técnicas e as formas constituídas, ou então transfigurá-las, assim como a graça nasce
de uma arte perfeitamente dominada. A intimidade pura continua tão insustentável entre
o “Eu” e o universo como o seria entre dois jovens e tolos amantes que pretendessem
“viver seu amor” sem nenhuma técnica familiar ou social, sem atividade profissional,
numa viagem de núpcias perpétua.
Obviamente, muitas variedades de “montagens técnicas” têm valor duvidoso.
183
O “ tecnólogo pedante”

É o equivalente filosófico ou religioso do tecnocrata que imperou particularmente


nos Estados Unidos nos anos 50, e que ingenuamente pensava: “ Finalmente, salmos
da pré-história. Tecnicamente, podemos fazer tudo. Podemos escolher tudo: poder,
“grande sociedade” , seguro universal, cultura, erradicação total da doença, da velhice,
educação universal, conquista do espaço, controle da evolução biológica.” As terríveis
crises morais dos anos 6 0 - que favoreceram o nascimento do Novo Gnosticismo - fi­
zeram parecer tão ridiculas essas pretensões que é melhor evitar ir longe demais na
reação e conservar o sentido do valor da boa técnica.

O fariseu

Há muito o que dizer a favor do fariseu, se entendermos por fariseu o homem que
mantém uma certa postura social e religiosa, que se apega ft fachada e ao decoro, que
manifesta a confiança que ele tem em si mesmo e no seu próprio sistema de vida ape­
sar dos tempos difíceis, que não se deixa perturbar, afastando os suspeitadores, e
desprezando-os, e que tem o sentimento de constituir urna aristocracia humana tanto
quanto social. Ele se empenha nisso. A exemplo dos pioneiros americanos dos séculos
XVII e XVIII, ele ó o seu próprio exército, a sua polícia, o seu corpo militar de engenha­
ria técnica. Cré em Deus e no seu direito. Toda aristocracia toi assim constituida por
um equilíbrio entre trabalho, sacrifícios e privilégios legítimos, conquistados à viva força.
O farisaísmo apresenta algo de positivo frente &s análises intemperantes que de­
compõem todos os postulados de conduta, destronam todas as virtudes, reduzindo-as
à pura sorte, e inocentam todos os crimes ao explicá-los pelas circunstâncias psicoló­
gicas ou sociais. “ Eu não quero saber disso” é, muitas vezes, uma interrupção ne­
cessária da decomposição.
O abuso só começa quando surge o ritualismo, a presunção, o esgotamento do
esforço interior por trás da fachada, com os “Vejam como eu venci na vida", “Vejam a
minha boa saúde, os meus êxitos, a prosperidade da minha familia”. O fariseu, então,
em seu diálogo consigo mesmo, atribui a seu mérito técnico o que, na verdade, é devi­
do à sorte, à sua situação de prebendado social ou de ser biologicamente favorecido.
Ele só agradece a Deus para melhor admirar a si próprio.
Hoje em dia, aliás, o farisaísmo dos revolucionários-que-admiram-a-si-próprios é
muito mais difundido do que o farisaísmo dos conservadores.

A técnica perfeita e as “ vias régias”


“ Vou mostrar-lhes do que eu sou capaz”, na sociedade humana, equivale muitas
vezes a: “Terei a minha revanche". O humilde empregado, ao dominar a técnica do.fu­
tebol com perfeição, torna-se mais famoso e mais prestigiado do que o seu patrão. Na
realidade, ele procura sobretudo se auto-estimar “diante do universo". Dominar uma
técnica tem um valor religioso. É uma vingança sobre a nulidade maldosa. Os Orfeus
humanos, os bons tocadores de lira, não domesticam as feras: domesticam a si pró­
prios. As boas técnicas sociais, a ciência confuciana dos costumes e ritos sociais e,
184
sobretudo, o respeito das normas de êxito social são ainda mais louváveis por serem
mais difíceis do que o domínio das técnicas esportivas ou artísticas.
A atitude que consiste em dizer: “ Estou acima da técnica” , “ Estou na Via régia”
é, a maioria das vezes, puro auto-engano. Desanimado diante da escalada da monta­
nha que representa uma longa aprendizagem, o jovem estudante, ou o jovem artista,
põe um termo a isso alegando que está acima das técnicas. Quando não busca a ge­
nialidade e a revelação instantânea na droga, acaba usando a artimanha da “ revolução
radical cultural’1, retomando tudo da raiz e desprezando todas as regras. Ele, então,
passa a considerar-se em pé de igualdade com os mais hábeis.
As “montagens taoístas” oscilam entre o sonho de uma “técnica perfeita”, que
possibilitasse milagres artesanais na profissão, na arte ou no comportamento dos ho­
mens, e o sonho de uma “técnica sem técnica", que remontasse até a própria raiz do
Tao, até a norma das normas que dispensa as normas.
O Zen-budismo desmonta todas as montagens, desprezando os meios simbóli­
cos comuns de fixar os sentidos animadores dos comportamentos humanos, e ex­
pressando sua própria perfeição com gestos absurdos que pretendem ir além do
significado.
Ele é, assim, o antípoda de toda Gnose. Mas também pode, em última análise,
passar por um complemento de toda Gnose, visto que - e os Gnósticos o reconhecem
- a consciência humana nunca pode realmente participar da Consciência cósmica a
não ser de maneira imperfeita, e deve, portanto, simbolizar também essa imperfeição. O
gesto absurdo readquire um significado, quando é modesto - e não “ perfeccionista”.

O taoísta modesto

Os prodígios de virtuosidade técnica possuem facilmente um aspecto demoníaco.


Os Gnósticos valorizam, antes, a montagem à qual deram o nome de “o taoísta modes­
to”: “ Procuro atingir uma técnica razoável” , “Eu me limitarei a chegar perto dos melho­
res resultados, e isto já será alguma coisa, pois, afinal, sou apenas um homem.”
O “estóico modesto” diz: “ Procurarei me manter calmo, na medida do possível” .
O “epicurista modesto” : “Cultivarei a arte difícil de saber o que me dá um real prazer.”
O "místico modesto” : “Atma não é totalmente Brama; 'eu' não sou ‘Deus’, m as eu 'parti­
cipo' modestamente.” Um dos Gnósticos americanos chegou mesmo a e scre ve r a es­
se respeito alguns “Conselhos de imperfeição”.

Viver aquém das suas possibilidades

Num certo sentido, por ela ser um início de criação orgânica, toda montagem
consiste em viver além das próprias possibilidades. Trata-se de uma antecipação ou­
sada, baseada em possibilidades ainda imperfeitas; trata-se de um em préstim o náo re­
embolsável, de uma petição de princípio. Toda a evolução biológica se fez d e s ta manei­
ra: o arqueopterix não tinha meios de voar bem, os pré-homens cam inhavam e comuni­
cavam com dificuldade. A mente sempre tem governado uma matéria rebelde e insufi­
ciente. Ela sempre tem estado à beira do déficit.
185
Os Gnósticos constatam que, na civilização contemporânea, tem havido um ex­
cesso momentâneo e artificial de meios técnicos, que atrapalha e, sobretudo, que ar­
rasta. Mas não estamos destinados a usar tudo. No mundo físico, como observou um
físico gnóstico, reina o principio “da tirania absoluta” : ‘Tudo o que é permitido ó obri­
gatório” . (Se um certo "salto quântico’ é permitido, podemos estar certos de que ele irá
ocorrer). Os homens também tendem a “ realzar tudo o que é permitido”. É possível
voar mais rápido do que o som? Então, vamos fabricar aviões supersônicos, etc.
Porém, ao contrário dos demais seres do mundo físico, os homens também conseguem
livrar-se - os ascetas provaram isso - do “principo da tirania absoluta”, através de
“montagens de abstenção”.
Assim como seria absurdo “quebrar” a técnica, como o querem os extremistas
da contracivilização, é uma atitude sensata viver um pouco aquém das suas possibili­
dades.
Em virtude desse princípio, muitos Gnósticos desistem, não do conforto mas do
luxo inútil - não apenas de objetos materiais como tambôm de informações pouco as­
similáveis. Eles desistem das residências de verão, dos cruzeiros marítimos, da tele­
visão, do cinema, restringem a compra de livros, de revistas, de discos, de equipamen­
tos esportivos. Eles se recusam até mesmo a interessar-se pela etnografía, e chegam
às vezes a ter uma certa aversão pelo material impresso, praticando o “culto do cesto
de papéis” e repudiando a cultura-de-gente-culta. E, obviamente, boicotam tudo o que é
filme, peça, obra pornográfica, sádica ou demagógica.
É preciso, no entanto, acrescentar que há outros Gnósticos que não aprovam to­
das essas restrições e contestam o fato de que poderia haver realmente supera-
bundância dos meios técnicos e até mesmo das produções industriais. Eles admitem
que os homens, afinal, sabem o que querem melhor do que os high brows ou os head
eggs que pretendem impor aos outros seu próprio gosto.

Experiências sem catástrofe

A moda das transgressões, dos antivalores, da rejeição de todas as regras bati­


zadas tabus, tem isto de legitimo: o verdadeiro âmbito de uma lei natural só pode ser
sentido e apreendido por meio de pequenos princípios de transgressão. Um regulador
só pode funcionar “percebendo” pequenos princípios de irregularidade. Um equilibrista,
ou até mesmo um homem caminhando, se aproxima ao máximo da possível queda, e
chega a utilizar pequenos inícios de queda como pequenos empréstimos de energia.
Mas uma transgressão técnica só é aceitável se fizer parte de algum esforço
orgânico. A boa transgressão é uma antecipação de equilibrista, que pode ser recupe­
rada. A transgressão universal por princípio, em todos os campos, sem medida, radical,
irreversível, é pura estupidez. Não se avalia de forma inteligente a lei da gravidade jo­
gando-se do sexto andar de um edifício.
Os Gnósticos são muitas vezes tão “ radicais” (no sentido inglês da palavra)
quanto os hippies em suas especulações. Mas não são loucos. Não se jogam pelas ja­
nelas, nem se esborracham na calçada.

186
O Sócrates dos Novos Gnósticos: Samuel Butier

Desde a fusão dos "Amigos de Samuel Butier" com o Movimento, muitos Gnósti­
cos vêm considerando Samuel Butier como o seu Sócrates. Todos manifestam por ele
a maior admiração e todos encontram motivos particulares para admirá-k). Os físicos
descobrem que ele é um dos muito raros antecipadores da mecánica ondulatória, e
mesmo da mecânica “matricial" (em Unconscious Memory). Os biólogos aprovam suas
criticas sobre a seleção darwiniana mecânica, bem como seu mnemismo (Life and Ha-
bit, Evolution Oíd and New). Os sociólogos estimam que a sua versão do materialismo
ou, antes, da tecnologia histórica, supera a de Marx (em Erewhon), e que ele soube
prever como seria a atual crise das Igrejas estabelecidas.

Os sete pecados capitais

Contudo, obviamente, é sobretudo o Butier moralista que é visto como o novo


Sócrates - e mesmo como o novo Moisés. Os Gnósticos adotaram a nova lista butle-
riana dos sete pecados capitais - ou dos “pecados mortais” (deadly sms):

A falta de dinheiro, a saúde deficiente, o mau temperamento, a castidade, o pedantismo (kno-


wing thatyou know things), os vínculos familiares (family lies), a fé numa ideologia

S. Butier mencionara como sétimo pecado a crença na religião cristã. Mas se


referia com isso ao dogmatismo do cristianismo. Segundo os Gnósticos, hoje, as ideo­
logías políticas é que se tornaram dogmáticas e fanáticas. Samuel Butier foi o primeiro
verdadeiro Gnóstico. Ele foi um hippie inteligente, um radical conservador, um "desvia­
dor", contra a família vitoriana, a religião estabelecida, a cultura e a ciência oficiais.
Mas, ao mesmo tempo, conservou o maior respeito para com a verdadeira religião, a
verdadeira cultura, a verdadeira ciência. Continuou sendo um cultuador da Norma, en­
camada pelo Gootí Breedfng.
Os Gnósticos americanos com freqüência lembram entre si “ a segunda parte do
preceito de Butier” :

Um homem digno deste nome: 1e, deve ter um ideal elevado: 2*. deve deixar terminantemente
esse ideal de lado ao primeiro sinal do senso comum.

Transformar o círculo vicioso em "circuito dos eleitos”

Mas o que vem a ser o senso comum, assim erigido paradoxalmente como juiz
supremo por cientistas e sábios? Butier se diverte personificando-o na deusa Ydgrun -
disfarce transparente de “ Madame Grundy” , a respeitabilidade encarnada:

A despeito de todo o barulho que os Erewhonianos lazem em tomo dos seus (dolose dos padres
que eles mantém, nunca consegui me convencer de que a religião que professam conesponde, neles, a
um sentimento muito profundo. Mas eles tinham outra religião, a da deusa Ydgrun, que os dirigía em to­
das as suas ações. Na realidade, ela era o seu guia supremo e a bússola de suas vidas... Os que mais
alto clamavam que Idgrun não era suficientemente elevada para eles mal haviam se elevado ató a altura
de Ydgrun. Aoonteda-me com freqüência encontrar urna certa classe de homens que eu costumava
chamar comigo mesmo de ‘Os altos ydgrunistas’, e que me pareciam ter alcançado toda a perfeição de

187
que a natureza humana é capaz. Eram gentíeman em toda a força do termo. E o que mais se poderia d i­
zer quando se diz isso?

Ao adotar como critório supremo a aprovação de Ydgrun e, como ideal, o


gentíeman, o homem honrado, o círculo vicioso toma-se evidente. Qual é o ideal mais
elevado? É aquele que, silenciosamente, é julgado como tal pelos melhores homens, os
mais amáveis, os mais sensatos. Quais são esses homens? Os que seguem a lei, não
escrita, que define o homem honrado, o gentíeman, o homem dotado de urna boa
natureza.8
O círculo dos eleitos eleva-se sem suporte para o éter, como a carruagem dos
deuses.
O ideal do homem honrado, do gentíeman, está hoje ultrapassado? Sem dúvida.
Mas, a favor de que, senão de um outro ideal de mesma espécie? Para que tipo de coi­
sa podemos apelar contra ele, senão para um outro ideal humano do mesmo género,
menos limitado?
O critério só é social na aparência. Cada sociedade, como cada individuo, encar­
na ao seu modo, com toda sorte de imperfeições históricas, o que vai completamente
além da história humana, e que, longe de ser um mero produto desta, acaba orientan­
do-a. Ninguém está rigorosamente sobre o eixo, fino como um cabelo, do que podemos
chamar de a Vontade divina, o Tao, a Norma, para além do tempo. O Good Breeding 6
uma expressão felizmente equívoca, entre o “vital" e o "social” , e que ultrapassa um e
outro na medida em que possui um valor religioso. O que julga até mesmo os deuses
só pode ser o próprio Deus. Deus é o próprio princípio do julgamento, que, no homem,
julga os deuses.
Mas a consciência que julga dificilmente funciona no nada. Somos incapazes de
definir o ideal humano a não ser com base em amostras encamadas que podemos
comparar entre si. E é por isso que o julgamento, sem que o seu princípio seja social
por natureza, é tanto mais seguro quanto mais amplamente social for, assim como a
memória, fenômeno individual, é muito mais garantida quando é um esforço coletivo,
após ter sido um esforço biológico de todos os indivíduos de uma espécie ou de uma
longa linhagem de seres vivos.
O julgamento instintivo que nos dá o critério das "boas montagens” é uma espé­
cie de “memória do porvir” .
A organogênese espiritual, vista de dentro, implica a participação numa cons­
ciência que se expande além de nós, assim como a memória implica a participação do
nosso “eu” nos nossos “eus” passados, e no “eu" da espécie. O paradoxo, a aparente
contradição de uma “memória do porvir” justifica, de fato, o recurso a um vocabulário
religioso para expressá-la. O recurso ao “senso comum” por parte dos Gnósticos ame­
ricanos, longe de ser um fracasso da doutrina, representa para esta, pelo contrário,
um triunfo muito sutil.
Pois, enquanto a infelicidade dos tempos torna por demais minoritários o culto de
Ydgrun e o respeito pela verdadeira respeitabilidade, a sabedoria consiste em dar mo­

8. Tal como, por exemplo, o Tom Jones de Fieldlng.

188
mentaneamente as costas às tolices triunfantes e em reconstituir uma pequena socie­
dade do senso comum, contando com a seleção natural, eliminadora das tolices.
Vejamos uma comparação que será mais elucidativa para o leitor francês, pois
refere-se à moda. Por um longo tempo, a moda feminina parisiense deu o tom ao mundo
civilizado ocidental - não a moda muitas vezes feia e excêntrica lançada pelos costu­
reiros, mas a moda filtrada pelo bom gosto, médio e espontâneo, das parisienses de to­
das as classes. Hoje, esse bom gosto médio “explodiu". As “desviadoras” são quase
majoritárias, vestindo farrapos exóticos e pseudo-etnográficos. Quase não há mais na
moda uma “linha central". As mulheres sensatas não resta outra opção senão tornar-se
“desviadoras dos desvios" e voltar, como momentânea minoria, à linha central do “sen­
so comum do vestir” .

Viver sem coroa

Os Gnósticos não querem lutar contra os demônios (cósmicos ou sociais) e se


mantêm afastados deles. Eles não querem nem a coroa do mártir, nem a coroa da vitó­
ria. Estão dispostos a fazer muitos sacrifícios de vida exterior em prol da uvida verda­
deira” , como todos os primitivos o ensinam, e todos eles são ascetas por convicção
profunda. Mas não acreditam poder conquistar com isso nem méritos nem poder.

Os verdadeiros feministas

Optar pelo orgânico em detrimento do ideológico, pelas micro-edificações orgâni­


cas em detrimento dos grandes sistemas de idéias, significa optar pelas mulheres con­
tra os homens. Ou antes, optar peto “feminino", na humanidade, contra o “masculino",
pela vontade profunda e inconsciente das mulheres contra as manifestações voluntá­
rias e superficiais dos homens; contra o “ virilismo".
O “feminismo” costuma designar, antes, o seu contrário: o “ virilismo”. As mulhe­
res acham que devem conquistar os direitos, escritos e não-escritos, dos homens, ado­
tar seus costumes e hábitos, seu gosto pelo cinismo, pela grosseria, seus anseios por
uma vida aventureira e por uma mentalidade desordeira. Por pseudofeminismo - na
realidade, por "virilismo” -, as mulheres começaram a fumar, quando o verdadeiro fe­
minismo deveria ter levado os homens a parar de fumar. Mais de acordo com a etimo­
logia, o “feminismo" dos Gnósticos consiste, para os homens, em adotar o ponto de
vista feminino sobre a vida - ou, pelo menos, em não desvalorizar ou subestimar o pon­
to de vista feminino, e em colocar a mulher num nível no mínimo tão alto quanto o do
homem diante do universo. Por isso, os Gnósticos fazem questão de falar da Grande
Deusa, ou da Grande Mãe, da mesma forma pela qual falam de Deus.
Os Gnósticos, como já vimos, não acreditam de forma alguma que o “espírito fe­
minino” seja o resultado de uma simples montagem social. Esse espírito, segundo eles,
baseia-se em “temas gerativos" muito mais profundos, numa espécie de competência
biológica ou “lingüística" para tipos de atitudes e de comportamentos que têm pelo me­
nos um valor igual ao dos tipos “viris” correspondentes: suavidade, aversão pela obs­
cenidade, pela violência na guerra ou na revolução, aversão pela ideologia abstrata, pe­
la aventura, pela façanha gratuita, apego à tradição, à religião tradicional, à hierarquia
189
social e ao caráter quase-religioso e até mesmo eclesiástico cio Estado; gosto também
pela boa educação, a cortesia, o refinamento, a vida em tomo de um centro orgânico,
submetida a esse centro, e não em linha reta, lógica ou aventureira.
Uma das raras Idéias potfttcas que eu os ouvi expressar era a de que as mulhe­
res deviam dirigi’ as Igrejas e depois fazer das Igrejas parassodedades, paragovernos,
de modo que constituíssem, no fim, um poder espiritual, numa luta quase aberta contra
as vulgaridades masculinas, ideológicas ou outras. Os Gnósticos deploram o pseudo-
feminismo dessas mulheres exaltadas que rivalizam, em seu extremismo grosseiro,
com os homens.

O Valorizador do mundo

“Louvar a beleza do mundo” - é uma atitude que parece pueril. Equivale muitas
vezes a se fazer de criança diante do mundo, a jogar flores sob os pés dos deuses que
nelas pisam sem vô-las. Um jogo divertido, quando é superficial. Às vezes reconfor­
tante, quando vivido profundamente. Pois, com efeito, a natureza é mais bela do que a
Dama idealizada pelo seu Cavalheiro. Um jogo também mais positivo que a atitude
schopenhaueriana, pois a contemplação estética Nberta da prisão da vontade.
Do hino de Akhenaton ao disco solar, ao Cántico dei Sole de São Francisco, os
poetas religiosos tém enaltecido a beleza do mundo, e as ideologias naturistas ou teís­
tas auxiliares não fazem muita diferença entre o Rei e o Santo:

Tu te ergues belo do horizonte do céu, Aton, Sol vivo, que vives desde a origem... Encheste to­
das as nações oom a tua beleza... Estás no semblante dos homens e tuas vindas nos sAo desconheci­
das... Através de ti, o pintinho que está no ovo tala na casca... Tu lhe dás no ovo o poder de rompê-lo.
Ele sai do ovo para gritar o quanto pode e, quando sai, caminha sobre suas próprias patas.

Ou então, do santo italiano:

Sede louvado, oh Deus, particularmente pelo Altíssimo Sol que, por sua espléndida beleza, re­
presenta a Vossa Imagem... Sede louvado pela Branca Lua, pelas estrelas enantes.8

Mas talvez seja mais digno de um adulto louvar ao mesmo tempo a beleza do
mundo e sua impiedosa ferocidade, e, como William Blake, louvar tanto o tigre como o
cordeiro. O louvador transforma-se, então, em valorizador.
O valorizador é o inverso do desmistificador. Mas ele ó o verdadeiro desmistifi­
cador dos valores artificiais em prol dos valores naturais, mesmo no seu aspecto ater­
rador. A fé gnóstica admite, como a fé de Jó, certos limites à Gnôsis teórica:

O rugido dos leões, o uivo dos lobos, a fúria da tempestade... são porções de eternidade gran­
des demais para o olhar do homem.10
Capítulo XXII

AS “MONTAGENS DE MISÉRIA”

As montagens que constituem o essencial das religiões são geralmente monta­


gens de “esperança na desesperança": “ Eu sofro, mas existe um Salvador” , "Sofro,
mas o Milênio está próximo” , ‘ Sofro, mas essa é a vontade de Deus; por isso, resig-
nemo-nos, que seja feita a vontade de Deus"; “Sofro, mas ofereço o meu sofrimento a
Deus como um sacrifício que será recompensado", ou ainda: uTomo a iniciativa de um
sacrifício, e Deus outorgar-me-á a graça de um outro sofrimento que estava prestes a
me enviar”.

O quietismo

É evidente que um Gnóstico não pode, assim, brincar de criança com o universo
- e todas essas montagens são próprias de uma criança. A atitude do quietismo tem
algo de mais profundo: entrega afetiva, e não união intelectual com Deus, renúncia ao
julgamento, puro amor, sem Gnose e sem prática, mística sentimental. Há ainda um la­
do infantil no quietismo, mas os Gnósticos conseguem, entretanto, aproveitar algo des­
se lado, precavendo-se contra a atitude de serenidade olímpica do homem que preten­
de brincar de velho sábio; ou contra a arrogância do pedante tecnólogo, ou contra a ati­
tude impassível e desdenhosa do índio “atado ao poste de tortura" e encarando o seu
adversário; ou contra a presunção do crente convencido de que faz parte do povo de
Deus e do exército celeste, ou contra a presunção do peregrino heróico à Ia Bunyan,
em busca da sua salvação, desprezando a Cidade da Perdição.1
O quietismo é positivo quando é uma busca de intimidade com o universo e
quando se toma uma montagem do tipo: "Valorizar o presente e deixar para Deus ou
para os deuses - isto é, para os grandes domínios intermediários - a preocupação com
o futuro e com o universal”. O universo e o universal são tanto mais vivos no presente

1. A Viagem do Peregrino (1678) de John Bunyan (1628-1686), obra alegórica que narra a viagem
de Chrisüan (o cristão) da Cidade da Perdição atô a Cidade Celesta, bi na Inglaterra do século XVII
quase tão lida quanto a Bíblia (100.000 exemplares foram vendidos em dez anos). (Nota de 1977.)

191
na medida em que representam menos preocupação, física ou metafísica e constituem
um pano-de-fundo transfigurador, e não um objeto de cálculo. Meu “aqui-e-agora” só se
pode fundir harmoniosamente no Eterno na medida em que náo fica totalmente absorto
em cálculos a longo prazo, e consegue desfrutar o presente. Depois da minha morte,
as árvores ainda estarão aí, mas eu não estarei mais aí para vê-las, ou para ver, pelo
seu “avesso", a “Árvore da Vida": “ Essa é a razão que me permite olhá-las agora, com
a maior intensidade possível." O sino-americano Lin Yu Tang, inspirado por outros sá­
bios chineses e pelos grandes anônimos de todos os tempos, Gnósticos sem Gnose,
soube expressar muito bem essa atitude em seu Importance of Living.

O humor e o “sentimento oceánico”

A sensação do cômico surge quando vemos dois “ registros de significados” ou


duas ordens de valores de tipo diferente, não apenas contrastados mas projetados de
forma desajeitada um sobre o outro, um adotando a linguagem do outro e parecendo,
assim, distorcido como uma imagem refletida num espelho deformado. (Como, por
exemplo, o assassinato de César narrado por Mark Twain num estilo de crônica poli­
cial, ou um incêndio descrito por um repórter da coluna social.)
O trágico é o confito entre duas ordens de valores e suas normas, conflito que
não é devido à inabilidade humana, mas à própria natureza das coisas. A antinomia,
essencial, condena o homem ao erro, ao crime perante determinado valor, mas em
obediência a outro valor: matar por razões de Estado ou por dever patriótico, matar os
animais para sobreviver, matar por piedade, destruir a beleza natural para o bem co­
mum, preferir o infanticidio ao “infanticidio diferido", a eutanásia ao sofrimento sem es­
perança, impor uma punição cruel para evitar o contágio, escolher entre a desordem e a
injustiça, etc.
Esses conflitos, menores ou maiores, são uma prova decisiva de que o universo
é de fato “ semântico", e náo mecánico e material. Mas projetam uma sombra sobre
a Unitas divina e justificam as antigas teogonias escalonadas, onde as primeiras ge­
rações de deuses, absurdos e estupidamente cruéis, sáo substituídas por novos deu­
ses, ou por deuses salvadores, mais inteligentes e mais humanos. Eles também justifi­
cam as velhas Gnoses do Deus bom e dos maus demiurgos, seus ministros infiéis.
Existem “montagens resolutivas” diante dos conflitos e contrastes menores. O
humor, no sentido próprio, consiste em perceber em nós mesmos ou nos outros, os er­
ros cômicos, em confessá-los de bom grado, e em perdoá-los, em nós mesmos e nos
outros, restabelecendo assim a intimidade prazenteira.
Mas o humor perante o cosmo é áspero, quando vai além de um simples jogo que
investe contra as formas infantis das figurações religiosas. Quando Mark Twain escre­
ve: “Mergulhado em seus pensamentos, o Criador estava sentado no seu trono...” , o
que fazemos é sorrir. Mas os conflitos maiores e trágicos não podem ser tratados da
mesma maneira. O humor negro, diante da doença, da morte, do cosmo que nos esma­
ga, da ausência de Deus, da presença do absurdo, muitas vezes não passa do desejo
de aparecer de algum poseur.
Os “ ridiculos” de Deus não podem ser resolvidos mediante uma atitude humorís­
tica, que só vale para os ridículos do homem. Ainda é possível zombar de leve do Pa-
192
rafso cristão - pois foi inventado pelos cristãos, e não por Deus desse estranho lu­
gar de deleites de onde são excluídos os prazeres do amor - e ao qual, no entanto, os
humanos dão tanta importância , e onde os eleitos cantam hinos e rezam in aeternum
ao passo que, sobre a Terra, tais atividades os entediam, embora a elas se dediquem
menos de uma hora por semana.
Contudo, além do Deus da ingênua fé cristã, existe Deus - sive Unitas - que,
de uma forma ou de outra, inventou tanto o amor como a morte, harmoniosamente co­
ordenados, é verdade, para o grande domínio da espécie, visto que um implica neces­
sariamente a outra, mas em conflito trágico para o pequeno domínio da consciência e
da vida individual, e também da vida social, onde o amor enfrenta proibições inevitáveis,
exigidas, não arbitrariamente, pela ordem social.
Como humorista, Mark Twain pode escrever que Noé deu meia*volta com sua arca
quando percebeu que haviam esquecido uma mosca, a qual acabou sendo encontrada
e acolhida na arca com hinos de ações de graças. Mas ele range os dentes quando
acrescenta: “Aconteceu que essa mosca, salva pela providência, era o principal agente
de disseminação da febre tifóide; ela teria faltado nesse exército diligente e devastador,
concebido pelo Criador, que ataca a criança logo que nasce: crupe, sarampo, caxumba
- e que persegue o homem até o túmulo.”
Desta vez, não se pode acusar a estupidez humana e perdoá-la desdenhosa­
mente. Se o homem pode parecer ridículo chamando o chefe e o general dos exércitos
de micróbios de “ Nosso Pai celeste”, por outro lado, Deus ou a Unitas criadora, ao
mesmo tempo Deus e Demônio, sublimo e apavorante, não pode ser considerada cô­
mica, ou suscetível de ser tratada com humor, mas como algo trágico, e que pode ser
tratado tão-somente - quando a atitude técnica é impossível - por esse equivalente
gnóstico do humor que é a “resignação de Jó" ou o “sentimento oceânico".
A intetectualização sem graça que a Antiga Gnose fazia ao conceber um Deus
bom, enganado por seus contramestres mal controlados, só pode ser vista pela Nova
Gnose, já que esta procura evitar o humor áspero e a irritação neurótica, como uma li­
mitação da inteligência humana. As Figuras do mundo, significantes ou expressivas,
têm como pano de fundo uma Figura unitária, sempre expressiva, mas não mais signifi­
cante. Ela admite, portanto, uma “última palavra” , não semântica. Como na imagem de
Somerset Maugham, a vida e a existência se assemelham a um tapete persa cheio de
figuras, mas que, na sua unidade, pertence à arte não figurativa. O significado não aca­
ba se perdendo no absurdo - simples contrapartida negativa da expectativa humana de
um sentido acessível ao homem mas num “Além -do-significado".

As montagens no sofrim ento, ou “ Do bom uso da morfina psíquica”

A Nova Gnose é ocidental no sentido de que as “montagens" preconizadas por


ela são ósseas ou cartilaginosas, e não gelatinosas. As boas montagens não são
agressivas à maneira dos espinhos, mas são, de fato, um esqueleto interno. Ao passo
que os Orientais - ou talvez, sobretudo os “orientalizantes" - preferem a fusão à dis­
criminação ou ao “distanciamento”, e recusam não só a tensão nervosa, mas também
a tensão mental, que inclui a consciência do “eu” , à espreita, percebendo ou atuando.
193
Há casos, entretanto, em que a “gelatina” tem algo de bom, bem como a perda da
consciência de um “eu” distinto e organizador do tempo. Numa situação de forte ansie­
dade ou de grande sofrimento, espontaneamente, antes do reflexo do desmaio ou da
sincope, o “eu" se perde na “superfície absoluta", se esquece de que ó dele mesmo
que se trata, como Livingstone no momento em que o leão lhe esmagava o braço, ou
como um condenado que, diante do muro de fuzilamento, assiste à cena sem reagir,
não sabendo mais “quem” está envolvido.
Assim desarmado, o homem, como o animal, “se faz de morto" - e Rivers de­
monstrou que existe um “fazer-se de morto” espontâneo antes que este estado seja, no
animal, utilizado secundariamente como um processo ou uma técnica de sobrevivência.
O que lhe permite, então, enfrentar o aspecto monstruoso dos répteis e das feras car­
niceiras, bem como o sofrimento e a morte, pois não luta mais contra eles. Ele se as­
semelha a um homem drogado ou lobotomizado que continua a sofrer, mas numa
espécie de indiferença ao sofrimento, o quaJ, por não envolver mais o “eu” , perdeu seu
efeito estimulador.
Os orientalizantes vivem repetindo, com certa monotonia, que existe uma identi­
dade interior, de modo que sofrimento e alegria, ser e nôo-ser, vida e morte nada mais
são, e que a morte passa a ser vista apenas como um "retomo à inferioridade oculta da
qual nascemos."2
Essas montagens antimontagens fazem os Gnósticos encolherem os ombros e
se sentirem ainda mais irritados peto fato de que eles mesmos dizem quase a mesma
coisa, mas sob uma forma que consideram precisa, positiva e cientifica e, sobretudo,
respeitando a boa técnica, o usavoir-vivre’\ em vez de rejeitar toda técnica e toda for­
ma.
O erro “orientalizante" toma-se manifesto quando, a fim de se alcançar mais rá­
pido a “fusão”, recorre-se às drogas que embotam o “eu" organizador, sem diminuir a
acuidade da consciência, e quando se pretende perder-se na própria identidade com a
natureza, como numa união sexual.
O exemplo da união sexual estâ sempre presente de forma visível na mente dos
orientalizantes. Eles gostariam que a natureza se entregasse a eles, não através da
claridade fria do conhecimento, mas por meio de um contato surdo e na cálida inferiori­
dade das profundezas do seu corpo. Como se a sexualidade deixasse de ser uma
obra-prima de sutilidades "técnicas” , em sobreposições vertiginosas, da microffsica à
biologia molecular, à fisiología nervosa e hormonal, como também à arquitetura psíquica
e cultural. O que, evidentemente, não significa que a consciência-eu, pulando para o
outro extremo, deva preocupar-se com tais técnicas, que pertencem aqueles domínios
da consciência totalmente fora do Ueu". A função do "eu” é, sobretudo, a de continuar e
prolongar a busca da boa técnica em seus próprios campos de competência.
Entretanto, mais uma vez, uma atitude considerada deplorável na vida comum
pode vir a ser recomendável em circunstâncias excepcionais. Mesmo certos médicos,
contrários à eutanásia instituida, não vàcilam muito em administrar fortes doses de mor­
fina aos agonizantes.

Z Alan, W. Watts: Am our et connaissance, Gonthier, p. 49.


O bom uso do masoquismo, ou: “ Viver sem couraça"

Este é um outro ponto - com modificações - que os Gnósticos tomaram dos


orientalizantes. Quando o sofrimento é inevitável, uma boa atitude é entregar-se a ele,
aceitá-lo, dar-se a liberdade de gemer quando os gemidos aliviam, sem procurar resistir
como um estóico, com uma vontade já anulada de antemão, pelo menos a vontade indi­
vidual ou social, e não aquela vontade, mais profunda dentro de nós, de aceitar a vida
subjacente, exposta por natureza tanto à dor como à alegria, visto que ela é sensível.
Um sádico, como observa A. W. Watts, quer antes de tudo “romper a couraça”
de sua vítima,3 forçá-la a confessar que a sua vontade orgulhosa está ligada ao corpo
e, como o corpo, é vulnerável. Deus, sive Natura, não é sádico. Mas podemos fazer de
conta que Ele o é, e aceitar de antemão o lado cruel de Shiva, desistindo da couraça da
consciência individualizada. Ao passo que as figurações religiosas superficiais de um
Deus rigoroso, punidor e que tortura por cálculo, que faz os nossos cabelos caírem um
por um de nossa cabeça, para forçar-nos a admitir que “somos pecadores" e que ele é
“o maior” , essas figurações levam, cedo ou tarde, á revolta.

Transformar a Disneylándla científica em reino de Deus

O reino de Deus vive no mais profundo das almas, na submissão alegre às leis
inevitáveis e, para os científicos, no divertimento das invenções de todo tipo. Este é,
numa visão futura, o “programa de sonho" dos Gnósticos de Princeton. Mas eles estáo
cientes da dificuldade prévia de transformar primeiro o mundo comum numa Disneyián-
dia princetoniana, antes de transformar por sua vez a Disneylândia em reino de Deus.
Assim sendo, preferem a realidade ao sonho.

“ Vá, e coma o seu pão com alegria...”

Quando identificamos nossa vida com uma ideologia qualquer, não é de surpre­
ender que a vida sempre acabe parecendo inútil e vazia. Quando se vive o dia de hoje
sem a preocupação do amanhã, de uma refeição à outra, de cansaço em descanso, do
dia para a noite, o que poderia haver de vazio nessa rede de encadeamentos ondeos
fios aprazíveis se entrelaçam em maior número com os desagradáveis? Mas é preciso
combinar esse otimismo “de textura" com uma falta absoluta de ambição ou de vaida­
de. Os Gnósticos adotaram, combinando-a com as fórmulas butlerianas, a fórmula da
felicidade segundo Edgar Poe: o amor de uma mulher, a ausência de ambição, a vida
ao ar livre (ou “uma vida tão natural quanto possível"), e a busca de uma nova beleza
(os Gnósticos preferem: “a busca da verdade científica” ).

“E o vento levou”

Não podemos afirmar que nossa vida não tem sentido. Mas ela certamente não
tem nenhuma importância. Não devemos confundir sentido com importância. Poder di­
zer: HE o vento levou” , sem amargura e, até mesmo, com um otimismo cósmico e um
sentimento “oceânico” , é um passo decisivo em direção à sabedoria.

3 . Alan W. Watts, op. cit, p. 94 .


195
Capítulo XXIII

A MORTE E A IMORTALIDADE

A morte é uma pedra de toque para a Nova Gnose - conno também para todas as
doutrinas fibsóficas ou religiosas porém mais aínda para a Gnose, pois ela parece
ao mesmo tempo confirmar e infirmar a doutrina.
Ela infirma a doutrina. Já com a perspectiva - científicamente provável - da mor­
te do cosmo por equalização térmica, esgotamento das “bombas H" estelares, trans­
formação da matéria em radiações, desmateriaizaçflo em irradiações das estrelas, de-
generescôndas diversas da matéria nas estrelas anfis brancas ou nas estrelas de nêu­
trons, ou nos residuos de supernovas ou nos quasares. Seja como for, a morte certa
da Terra e do sistema solar, fadados a espalhar em vão no espaço o pó dos nossos
cadáveres, essa morte cósmica, perfeitamente natural para uma concepção materialis­
ta do universo, é inadmissível para uma filosofia que acredita na prioridade do Espirito
sobre a Matéria, do software sobre o hardware, do significado e do fim sobre os meios,
e que acredita nas “gerúdentidades" e continuidades semánticas, mais do que ñas
substâncias materiais indefinidamente subsistentes alóm de suas degenerescéncias
eventuais, ou na conservação da energía alóm das suas degradações.
Já, para a ciência - uma ciência, na verdade, muito extrapolada e conjetural - , a
matéria e a energia surgem (no Big Bang inicial ou através da criação contínua de hi­
drogênio no espaço em expansão) antes da vida e da consciência, no sentido comum
dessas palavras. Para a ciência, matéria e energia são também destinadas a prolongar
sua existência como matéria e energia degeneradas muito além da fase- comparati­
vamente curta - da vida e da consciência 'informadas*.
Ao menos localmente. Embora o conceito de um tempo cósmico não seja mais
uma noção clara e simples, desde a relatividade generalizada e os seus prolongamen­
tos cosmológicos, embora não se possa mais falar de um presente simultâneo para o
conjunto do cosmo ou da vida - neste momento - de seres conscientes nas nebulosas
em recessão, embora nem mesmo se saiba mais, como o sugerem K. Gõdel e G. L.
Omer, se, na ausência do tempo cósmico unitário, não há linhas-do-tipo-tempo fecha­
das, com a conseqüência de que poderíamos teoricamente voltar para o passado sem,
entretanto, percorrer o tempo ao contrário, tudo isso não impede que, localmente, po­
demos em toda parte definir um sentido do tempo, uma passagem da morte para a vida
196
(por nascimento e ingresso de informações), e da vida para a morte (por destruição ou
degradação).
A morte individual dos seres vivos e dos homens parece desmentir violentamente
a Gnose. A vida de um homem, tanto orgánica como psíquica, é de fato, conforme à te­
se gnóstica, uma "continuidade de significado", e não de energias ou dei materiais. Ma­
terias e energias limitam-se a passar nas formas significantes dos órgãos, garantindo
sua solidez tísica, subordinada à sua solidez semântica. A morte, porém, parece des­
mentir tudo isso. Uma “pane" de funcionamento, um acidente na resistencia física (par­
ticularmente a quebra de um encanamento ou urna ruptura de aneurisma), náo só pro­
voca o desmoronamento do corpo como também apaga a consciência, a mente, como
se a continuidade semântica fosse tributária da continuidade material, ao contrário do
que reza a doutrina.
Numa execução orquestral, uma corda de violino que quebra não destrói a parti­
tura musical, nem sobretudo a música “pensada-. Numa máquina de informação, uma
pane nos circuitos elétricos não atinge o software - pelo menos o software “despaco-
tado” e que se apresenta como uma “partitura" para o engenheiro. Num organismo vi­
vo onde entretanto, o software, como vimos, predomina - na qualidade de constituinte
n a embriogênese, dominante no comportamento, e reparador quando a pane ou o aci­

dente é benigno qualquer pane grave o aniquila, fazendo assim com que pareça, por
fim e tudo analisado, uma resultante precária daquilo que ele parecia, entretanto, consti­
tuir e dominar durante a vida.
O mais extraordinário, porém, neste paradoxo, é que a morte confirma também a
tese gnóstica. Uma prova, poder-se-ia dizer, de que as informações, as ligações de
sentido, os temas, mnêmicos ou originais, que progressivamente foram diferenciando
os esboços orgânicos e transfigurando os funcionamentos em comportamentos, eram
de fato constituintes e dominantes, é que, uma vez desaparecendo tais informações, só
permanecem do ex-ser vivo alguns quilos de ágia, carbono e cálcio, um pó ou uma nu­
vem de moléculas, indistinguíveis dentro da massadas outras moléculas.1
Segundo os mitos prim itivos, a alma seevola, sai pela boca do moribundo com o
último sopro. Sobram os restos corporais, que
n§o desaparecem instantaneamente.
Esses mitos não dão a devida im p o rtâ n cia à W , e são iludidos por uma aparência.
Se as estruturas corporais não subsistissem por algum tempo, por efeito de uma sim ­
ples coerência física totalmente secundária, o cesaparecimento ou a salda da “alm a"
ou
teria por efeito instantâneo um desaparecimento uma volta do corpo ao pó. Tería­
mos, então, uma visão mais correta da lurçâodaalma. Poderíamos assim “ver”, por
assim dizer, a "forma” deixando o espaço; elaseria“vista” negativamente, pelo desmo­
ronamento instantâneo que a sua salda provocaria no espaço. Desse modo, a alm a
não poderia ser tão facilmente concebida comounsimples sopro amorfo, saindo de um
corpo estruturado por si mesmo e conservando aa estrutura ainda por um longo perío­
do de tempo. Ela não poderia ser imaginada cono umsimples calor vital. Seria vista -
de modo mais verídico - como a própria toma®corpo, como o conjunto das Igações
constituintes que fazem do corpo um corpo organizado, diferente de um simples amon-

1. Ct. supra, p. 93.


197
toado de moléculas unidas por encadeamento mediante ligações físicas banais. Sua
realidade tornar-se-ia evidente para todos pelo prõprio fato do seu desaparecimento. O
pó material que ela deixaria cair instantaneamente ao sumir, a evocaria de modo mais
irresistível do que as roupas abandonadas numa praia evocam o corpo nu do nadador.
Tomar-se-ia consciência do prestigio que iludíaos olhos. O cadáver, aparentemente in-
tato, conduzira os olhares para uma direção errada. Parecia-se com esses manequins
que substituem o ator numa queda perigosa durante uma filmagem. Uma vez desiludi­
dos, os olhares buscariam em outra direção. Espontaneamente, acreditariam numa par­
tida, num desaparecimento, e não num aniquilamento.

Morte e “ estrada mnêmlcaH

Contudo, seria uma partida por uma estrada doravante interrompida. Mais maravi­
lhoso ainda do que a máquina de explorar o tempo, que vai do presente ao passado ou
ao futuro, o organismo v iv o - e particularmente a cabeça humana - “vai” do tempo ao
intemporal, e do intemporal ao tempo. O místico 6 considerado, tradicionalmente, como
remontando em direção ao Uno, ao Eterno, para além de toda técnica. O músico, quan­
do não é um simples “fabricador” , mas “recebe" um tema inspirado, sente, para alóm
do tema, algo “indizível" que ele expressa, fazendo com que nós, também, seus ouvin­
tes, possamos entrevé-io.
A morte, ao destruir a máquina orgânica, parece de fato destruir qualquer possibi­
lidade, tanto de compreender como de expressar. Uma máquina reversível, uma vez
destruída, seu trabalho pára, tanto num sentido como no outro. Foi preciso a técnica ce­
rebral para que o místico pudesse considerar-se além de qualquer técnica.
Um místico, após a sua morte, não se assemelha, aparentemente, a um místico
em estado de transe. O desmoronamento brutal de todas as suas máquinas orgânicas
pode dar a impressão de que ele simplesmente deixou, um pouco mais rápido do que
de costume, nosso baixo mundo a fim de alcançar o mundo da Contemplação e do
Uno. Mas ele também dá a impressão de que uma estrada acaba de ser irremediavel­
mente interditada por alguma catástrofe. Parece-nos difícil acreditar que uma catástrofe
possa ser o aspecto que toma, aos nossos olhos, uma crise de inspiração um pouco
brusca.
O lugar misterioso de onde descia a inspiração do místico ou do músico certa­
mente ainda subsiste. Mas, de que modo o místico ou o músico, se é que algo dele ain­
da existe, saberia reencontrá-lo, quando todos os seus instrumentos, que o fazem mo­
ver-se ao longo da dimensão hipergeométrica, guando todos os seus órgãos viraram
cinza? O caminho não tem mão única, mas para percorr&-lo em qualquer sentido, é
preciso estar vivo.

O caminho mnêmlco e a morte do Indivíduo

O indivíduo, semelhante a um peso suspenso a uma corda elástica, pode subir


ou descer enquanto vive, pode aproximar-se ou afastar-se do ponto onde a corda está
fixada. Mas o princípio da vida não lhe pertence pessoalmente mais do que a memória
orgânica da espécie à qual ele pertence. Rompida a corda, o indivíduo não é aparente­
198
mente mais nada. A espécie sobrevive a ele, e o princípio da vida sobrevive à espécie,
visto que milhões de espécies estão extintas, bem como bilhões de indivíduos, e no en­
tanto a vida continua.
É justamente por esta razão que, na morte do indivíduo, não sabemos exatamen­
te o que é destruído e o que subsiste. Se destruirmos todas as propriedades de um
homem rico, ou toda a ferramenta extema de um homem válido, sabemos perfeitamente
que ele poderá reconstituí-las. Se ferirmos um organismo, sabemos que ele poderá re­
generar em alguns casos os órgãos destruídos ou sobreviver, adaptando-se sem aque­
les órgãos. Mas se destruirmos completamente um organismo, como poderemos saber
o que acontece com o conjunto da consciência e da memória orgânica, ou com aquele
agente desconhecido que está além da consciência momentânea e da fase momentâ­
nea do trabalho que ela está realizando? O conjunto do caminho mnêmico não pode ser
aniquilado pelo fato de desmoronar a construção material, a ponte, que corresponde a
uma simples etapa desse caminho. Mas, então, “quem” viaja além da ponte desmoro­
nada? Ou, voltando ao exemplo da corda, o que exatamente subsiste além do ponto
de ruptura?

O homem na caixa de Elnstein

Sabemos que Einstein ilustrou e talvez descobriu o princípio da relatividade gene­


ralizada através de uma experiência mental. Ele imaginou um homem que toma cons­
ciência do que o rodeia no momento em que se encontra numa espécie de caixa de
elevador. Ele se encontra de pé, com uma sensação de peso dos seus pés sobre o
soalho do elevador. Em torno dele, não há nada senão o vazio. Erguendo a cabeça, ele
descobre (o teto do elevador ô transparente) que a caixa do elevador está suspensa
por uma corda comprida, tão comprida que ele não consegue ver sua extremidade.
Então se pergunta: “ Será que a caixa está num campo de gravitação, e a corda, atada
em algum ponto fixo invisível, me impede de cair? Ou será que não há nenhum campo
de gravitação, e um Ser desconhecido está puxando minha caixa com um movimento
uniformemente acelerado, de modo que, por inércia, acabo pesando sobre o soalho?”
Ao escapar-lhe das m ãos, seu canivete cai, mas o homem percebe que essa experiên­
cia não pode responder às suas perguntas, já que as duas hipóteses igualmente permi­
tem prever esse resultado. Ele conclui, então, que essas duas hipóteses, por serem ri­
gorosamente indiscemíveis quanto aos efeitos que elas permitem prever, vêm a dar na
mesma. E assim descobre a relatividade generalizada.
Do mesmo modo, não temos nenhum meio de saber o que há nesse além ao qual
estamos visivelmente suspensos, mas para o qual nâo podemos subir de volta. Não
sabemos se a morte, o rompimento da corda, deixa alguma coisa da alma além do pon­
to de ruptura, e permite a esta reunir-se ao misterioso puxador da corda.
O que é certo, é que a nossa presença atual no espaço e no tempo não pode vir
a ser toda a nossa realidade, e toda a realidade. Algo nos prende, ou Alguém está nos
puxando. Os movimentos e os anseios da vida são umaprova disso. O instinto - o ins­
tinto formativo ou o instinto puro - , o apelo dos valórese dos ideais são uma prova dis­
so. Quer sejamos puxados ou suspensos, existe um vínculo que nos une a um além .
199
O homem só

Imaginemos o homem de Einstein sozinho no universo e conseguindo sobreviver


mediante alguma técnica apropriada. Poderá ele ser auto-suficiente? Será o homem so­
litário semelhante, metafisicamente falando, ao Zaratustra de Nietzsche depois de sua
autodeificaçSo? Formular a pergunta equivale a responder a ela. O homem solitário não
é Deus; ele está “suspenso”. Suspenso, até mesmo, nao por um único vínculo, mas
por dois - sem falar do vínculo real que segura a sua caixa.
Por um lado, ele foi jogado para a existência sem que ele o quisesse, e a sua
própria forma vem do além. Seu “eu” apareceu, trazido por uma linha mnômica que de
certo modo era sua, mas cujo vínculo inicial ele nunca conheceu.
Por outro lado, suas próprias intenções estão além do seu entendimento. Ele náo
é muito mais dono do seu futuro do que do seu passado. Ele não pode impedir seu pró­
prio envelhecimento e sua morte.
Se o homem fosse Deus, é a solidão absoluta que deveria revelar-lhe isso. Mas
essa solidão lhe ensina que ele não é mais do que um pobre aspecto do Ser, que surge
no espaço sem entender o que lhe está acontecendo. Igual a uma marionete, ele não
sabe de onde vem o fio que o está movendo. Tudo o que sabe é que ele não é, por si
só, D eus- e que existe portanto um Outro.

O Outro

Mas, como poderá o homem só, conceber o Outro ao qual ele está ligado? Cha­
mando-o de "Você" e perguntando-lhe por que ele o suspendeu deste lado dos céus?
Ou dirigindo-se a ele como se fosse um HEun superior esquecido, uma Alma transcen­
dente transformada em Alma do mundo? Isto seria, então, como imaginar, do outro lado,
um segundo homem semelhante a ele, tão monstruoso e abandonado quanto ele pró­
prio, embora tivesse o poder de segurar por uma corda sua pobre duplicata.
Não se pode, com efeito, deixar de admitir que deveria haver alguma forma hu­
mana, ou o tema de uma forma humana também no além, já que esse tema penetrou no
espaço durante o desenvolvimento. Mas, além desse além relativo, ê preciso que haja
ainda mais um, que seja mais “outro” . Se o universo fosse reduzido a uma serpente ou
a uma mosca em lugar de ser reduzido a um homem, dever-se-ia então admitir a
existência de um Deus-serpente ou de um Deus-mosca? Um Deus antropomórfico é
tão absurdo quanto um homem deificado. Saímos de um absurdo para cair em outro.
A única solução, se é que ela poderia ser considerada como tal, é admitir um
Deus-campo, incompreensível e incomensurável. Nesse Deus, toda vida se encontra
submersa, como num campo de gravitação. Mas trata-se de um campo de gravitação
hiperfísico, no qual experimentamos, não sensações de peso, mas de atrações “ideati-
vas"2 Ele rege o nosso comportamento, deixando-nos a liberdade de execução e de
adaptação. Ele nos guia e domina, não por uma corda ou por um fio de marionete, mas
fazendo-nos “participar".

2. Traduzimos desta forma o que os Gnósticos chamam de Semantic gravity.

200
Já que não podemos tomar ao pé da letra a imagem da corda, não podemos con­
ceber a morte individual como um rompimento da corda. Nossos vínculos com Deus,
dominador de todos os domínios, princípio da unidade de todos os campos, são muito
mais estreitos. Deus é, em nós, o proprio campo orgânico, a alma do corpo. E é Deus
mesmo que, à nossa morte, abandonando o corpo material, deste só deixa subsistir
o pó.

Morte individual, morte do cosmo, morte de Deus

A morte do cosmo - claramente entrevista hoje - pode ir muito além da simples


morte térmica imaginada no século XIX, na qual planetas mortos continuam gravitando
em tomo de estrelas esfriadas, num espaço cheio de ‘ cadáveres conformes" de siste­
mas solares, num espaço repleto de matérias uniformemente frias - ou antes, mornas
- sem diferenças ou desequilíbrios térmicos “animadores". Existem, provavelmente,
estrelas mais “mortas” , isto é, mais amorfas, nas quais os tipos de ligações informan­
tes da matéria comum desapareceram, assim como existem outros “objetos” cósmicos
nos quais esses tipos de ligações informantes ainda não surgiram.
Numa obra de ficção científica, é possível conceber a morte do universo num
sentido mais radical do que a morte térmica, e mais parecido com o que a morte de um
organismo realmente é. Basta imaginar o desaparecimento de todas as formas de li­
gação, o desvanecer da gravitação, do eletromagnetismo, das ligações “fracas", das li­
gações nucleares, das ligações M (se de fato existem). O cosmo, então, não apenas
transformar-se-ia em estrelas “apagadas" ou em “ planetas mortos". Tomar-se-ia o na­
da, visto que as ligações não se acrescentam à matéria: são elas que fazem a matéria,
e que fazem o espaço e o tempo.
Ao perder a alma, o ser vivo nada mais é que cinzas. Ao perder a “alma” forma­
dora e unificadora, o cosmo não é mais nada.
Este é apenas um jogo da imaginação, no sentido de que, embora haja de fato,
localmente no universo, certas regiões relativamente amorfas e talvez, como sugeriram
Eddington e Oppenheimer, ex-estrelas ou ex-objetos demasiado densos para produzi­
rem qualquer irradiação, e “saídos” do espaço-tempo comum, formando assim uma
espécie de "gota” destacada da “membrana de borracha" do espaço-tempo, dificilmen­
te poderíamos conceber um desaparecimento universal das ligações físicas fundamen­
tais, ao passo que testemunhamos a cada dia o desaparecimento das ligações orgâni­
cas. Esse jogo, porém, tem a vantagem de nos dar o único sentido preciso concebível
para a imaginação - ou para o pesadelo, que remonta a Jean-Paul Richter - da "morte
de Deus".
Se chamarmos Deus de Alma unificadora do universo material, e se essa Alma
pudesse aniquilar-se, como, aparentemente, aniquila-se a alma dos organismos indivi­
duais, então a morte de Deus ou, se preferirmos, a separação do cosmo e de Deus, só
poderia significar o aniquilamento do cosmo.

Na verdade, como já sabemos, na retórica contemporánea, a morte de Deus nfio significa nada
aJóm da morte dos mitos religiosos como sentidos animadores da arquitetura psíquica do homem e da
arquitetura ideológica das sociedades humanas. Os que lançam essa “ demitfflcagfio” compreendem
muito bem que o desvanecer dos mitos nAo transforma a arquitetura psíquica ou a organização social

201
MOmB • ■ nonUM M O in iM IIIM ia n a

A alma individual, isto 6, o conjunto das Rgações informantes que seguram as ar­
quiteturas orgânicas e psíquicas, é feita principalmente de inform ações-partidpações,
de informações modificadas por acúmulo de memórias biológicas ou sociais. A morte
individual não é a morte, nem da cultura que “pousara" sobre esse portador entre mui­
tos outros, nem da espécie que continua. As ligações físicas s&o, ou parecem ser (ex­
ceto na ficção científica) não destacáveis da "matéria", pois a matôria-energia comum,
que parece não ter memória, conseqüentemente parece ser eterna. E as ligações físi­
cas que fazem a matéria, conseqüentemente, parecem tão eternas quanto a matéria em
si.
Ao contrário, ligações orgàrüco-psfquicas, mnômificáveis por participação, são
destacáveis do seu suporte material e formam um sistema, um complexo ou uma estru­
tura semântica, não eterna ou imortal, porém mais durável do que os portadores indivi­
duais. O músico morre, mas a música e sua evolução quase autônoma continuam du­
rante séculos. A andorinha morre, mas a espécie continua e mantém seus representan­
tes no espaço e no céu dos campos e das cidades. As espécies morrem, ou se trans­
formam, mas a Arvore da Vida, enquanto o planeta for habitável, sobrevive à queda de
suas folhas e de seus ramos.
Muitos homens estão dispostos a contentar-se com essa imortalidade intermediá­
ria . Quando uma célula resseca e se desprende de nossa epiderme, essa célula que,
com o todas as células do nosso organismo, jamais havia morrido, visto que provinha
e m linha contínua de uma outra célula viva, por definição - nós não costumamos nos
compadecer dela. Achamos que foi uma honra para ela fazer parte do nosso ser “ supe­
rio r” . Assim também, quando tivermos de morrer, teremos de admitir que foi uma gran­
d e honra para nós conseguirmos fazer parte, tanto de uma cultura social mais preciosa
d o que a nossa ínfima contribuição, como também de uma espécie Homo em relação à
q u a l nossa morte individual não passa de uma escamação insignificante.
Podemos até mesmo pensar que só morreremos de modo muito relativo, voltan­
d o , antes, a fundir-nos no conjunto do qual participávamos. A cultura, social ou biológi­
c a , era tudo o que havia de mais precioso em nós - sendo nossa individualidade sepa­
r a d a um mero celofane envolvente que se rasga e recoloca seu conteúdo na massa, ou
n o “ complexo semântico” do qual tirava todo o seu valor. Vivfamos por participação im­
p e rfe ita . Sobreviveremos de modo impessoal numa fusão mais perfeita, numa reidentifi-
c a ç & o com o “ participado” intermediário do qual bifurcamos.
Em suas obras de ficção, como também em obras mais sérias,3 Hoyle foi o prin­
c ip a l defensor da "imortalidade intermediária". Segundo ele, náo podemos nem deve­
m o s decentemente desejar uma sobrevivência pessoal ou, antes, individual. Qual o in­

3. Frod Hoyle: The Black Ctoud e The Nature of lhe Universe (Ct. J. Merieau-Ponty, op. c it, p.
2 4 -« -2 4 9 ).
202
teresse em agarrar-se a um invólucro de celofane, quando temos certeza de que o con­
teúdo não está perdido?
A sociedade industrial desperdiça as embalagens. A natureza também. E esta
usa processos melhores do que os nossos para evitar as embalagens não-biodegradá-
veis. Seria ridículo queixamno-nos. Um artista sincero prefere sua obra à sua vida. Uma
jovem mãe atirar-se-ia no fogo para salvar a vida dos seus filhos. Muitos animais pos­
suem esse tipo de heroísmo instintivo. Eles se sacrificam facilmente em prol da sobre­
vivência da espécie às vezes no próprio instante da reprodução.
Contudo, há algo que soa errado nessa concepção. A participação dos indiví­
duos, tanto da espécie como da cultura, é por demais íntima e ativa para ser represen­
tada como uma simples embalagem em copo de plástico, como uma apropriação pas­
sageira e reversível de uma memória coletiva. O indivíduo também inventa e, ao inven­
tar, ele visa, para além do momento cultural ou biológico, valores não-intermediários e
que ele espontaneamente considera universais e supremos. A própria arte parece si­
tuar-se para além do “momento cultural” . Um escritor, ao mesmo tempo em que venera
a sua língua materna, deseja ser traduzido, e ele gostaria que sua obra tivesse um valor
universal. As religiões não querem ser uma simples forma religiosa entre outras; cada
uma procura estar mais no âmago do mistério da existência.
A natureza desperdiça mais os indivíduos do que desperdiça as espécies. Mas
também desperdiça as espécies. Se o desperdício possui em alguma parte alguma
contrapartida de “ capitalização” - ou de passagem para o eterno essa contrapartida
deve, portanto, valer tanto para os grandes “complexos” como para os individuos, e
tanto para os individuos como para os domínios intermediários. Não hâ nenhum motivo
para se querer salvar uns pelos outros. O velho conceito da volta para Deus - do re­
tomo universal - pode ser um mito mas, em termos de verossimilhança, vale tanto
quanto o mito das ¡mortalidades ou das sobrevivências “intermediárias” por retomo, ou
transferência para os Grandes Domínios.

Dissim etria da pré-vida e do apóe-vida

Voltemos à morte individual. É um lugar-comum o que dizem os positivistas: 'Po­


demos representar-nos o após-vida tomando como modelo o que há antes dela: o nada,
a ausência absoluta de consciência.” Mas, de acordo com os dados científicos mais
seguros, trata-se de uma falsa simetria. Nós ainda nunca morremos, ó o que os Gnós­
ticos não param de repetir. Nenhuma de nossas células vivas jamais conheceu nada
senão a vida, desde há m ilhões de anos, visto que provêm, por divisão ou fusão, deou-
tras células vivas, as quais, por sua vez, derivam de moléculas previtais. Tudo o que
podemos dizer é que “ nós" (nossa consciência cerebral), não temos mais lembrança
da nossa existência celular - embora essa existência celular, antes do nosso nasci­
mento propriamente dito, seja tão certa e evidente quanto a existência do muido
exterior.
A morte é, portanto, para nós, uma novidade absoluta, sem precedentes e sem
nenhuma analogia possível. “ Nós" nunca tivemos senão uma existência separada -
separada da U nitas. Não tem os nenhuma experiência de uma existência não separada.
203
A mesma dissimetria é manifesta, como vimos, no aspecto e no modo da infor-
mação-partjcipação. Todo crescimento, toda informação orgânica é lenta, progressiva.
A morte, ao contrário, 6 uma desinformação instantânea. O s desabrochamentos perió­
dicos das individualidades sobre a linha contínua das cólulas germinais e as mortes pe­
riódicas dos “brotos" apresentam-se como dentes de serra - isto é: a informação se
faz em progressão suave; a desinformação, em queda abrupta. Um filme que mostras­
se esse processo de dentes de serra ao contrário seria antinatural, pois nele veríamos
as cinzas e os ossos voltando a ser, instantaneamente, um ser adulto vivo que iria se
desinformando lentamente até o estado embrionário e celular.
Essa dissimetría, diga-se de passagem, toma totalmente inverossímeis as doutri­
nas sobre metempsicose ou reencamação, tão difundidas na Ásia. Se algo sobrevive à
morte de um homem ou de um animal, esse algo não poderá reiniciar uma outra
existência individual, já que todas as existências individuais são fios contínuos e, por
não terem nenhum início propriamente dito, não podem oferecer, a um fio que acaba de
ser interrompido com a morte, nenhum reinicio.
Todo recém-nascido — ou novo s e r- ó, na verdade, e num certo sentido, um re­
começo, na medida em que participa de novo da memória especifica. Mas ele não é
uma continuação, ele não sucede a nenhum broto individual que acabasse de morrer.
Ele apenas continua a célula germinal que ele nunca deixou de ser.
No âmbito da cultura, as coisas acontecem de modo um pouco diferente. Uma
(muito relativa) metempsicose é possível. Um artista pode querer ligar-âe, náo ao esta­
do atual da cultura, mas a algum prodecessor que ele admira (que pode ter morrido há
muito tempo ou que acaba de morrer). Assim fazendo, ele retoma um fio individual rom­
pido, reatando-o ao seu próprio. Porém, é evidente que é ele que escolhe o prodeces­
sor, o antepassado que ele está reencarnando; não é o antepassado que se apodera
dele (embora isso possa ser dito de forma metafórica).

As transferências mnêmlcas por participação


A metempsicose, ou a reencamação,e' inverossímil, e até mesmo sem sentido.
Porém, as transferências de memória - por participação e não por informação externa
e por leitura da memória especifica do indivíduo, essas transferências são um fato.
O s Gnósticos rejeitam a teoria genética que pretende explicar, mediante uma leitura
d os D.N.A., os comportamentos instintivos do indivíduo. Uma forma molecular num ge­
n e não pode corresponder, em sua estrutura espacial, a uma ação complexa e flexível,
ta l como a dança frenética das abelhas ou uma migração a longa distância de um peixe
o u de um pássaro. UTna forma molecular pode atuar como um auxiliar mnemotécnico.
M a s um auxiliar mnemotécnico não deve ser confundido com a memória temática que
e le “dispara". Algumas moléculas odoríferas que emanam de uma fêmea podem de­
sencadear, porém não explicam a complicada perseguição sexual do macho. As estru­
tu ra s dos cromossomos X ou Y, e os pré-hormônios cuja fabricação induzem, podem
desencadear mas não podem explicar o mundo imenso das formas orgânicas e dos
com portam entos psicológicos do sexo masculino ou do sexo feminino, para o qual eles
a p e n a s orientam, mediante um efeito de switch (interruptor), a memória específica. É
o b rig a tó rio invocar aqui uma informação mnêmica por participação, não por leitura. To-
204
da a embriogênese do indivíduo, tanto orgânica como psíquica, é uma participação, dis­
parada e orientada por indutor químico, da memória específica.

A participação inversa - na qual a memória específica participa da memória individual, em outros


termos, a hereditariedade dos caracteres adquiridos - ó muito mais duvidosa. Ela chega inclusive a ser
definitivamente refutada pela experiência, não obstante os inúmeros casos úe fixação genética dos ca­
racteres que surgem, primeiro, como ajustes não hereditários e que, em última análise, podem ser in­
terpretados como mutações consolidantes surgidas depois.
Porém, é difícil adotar uma atitude dogmática sobre esse assunto, principalmente desde Lashley,
Chomsky, Lee Whorf, e refutar terminantemente uma retroaçáo, seja ela qual for, das aquisições indivi­
duais sobre o capital mnêmico da espécie - uma retroaçáo que náo passa necessariamente pelas mu­
tações químicas dos genes -, e sem a qual a evolução biológica é, contraditoriamente, uma máquina
cibernética sem feed-back.
Se admitirmos essa participação inversa, podemos então dizer que o indivíduo não morre por in­
teiro. Sua morte não só deixa intacta a memória específica da qual ele participava, como sua vida
também enriquece essa memória.
A memória biológica parecer-se-ia, então, com a memória cultural. Nós “ participamos" da nos­
sa língua materna. Ela se apodera de nós e nos "anima". E, por outro lado, como seres falantes, nós a
modificamos infinitésimamente. A morte dos seres talantes não destrói a língua falada e, por outro lado,
os falantes deixam nela o vestígio infinitesimal da sua existência.

Também as línguas, como as espécies vivas, morrem quando seus talantes se tornam raros e
acabam extinguindo-se; este foi o caso do "polábio" e do "cómico", no século XVIII.4 Mas, na maioria
das vezes, as línguas que morrem deixam algo no idioma que as absorve. E, naturalmente, tanto para
as línguas como para as espécies biológicas, ao lado dos ramos estárels, certos ramos se transformam
indefinidamente. A morte, como a imortalidade, é relativa.

Imortalidade cósmica e retomo a Deus


Vemos que, para os Gnósticos, o enigma da morte e da imortalidade parece estar
estreitamente ligado à sua tese sobre a informação e a memória-participação. Ele está
ligado mais especificamente à tese que se adota sobre o sentido dessa participação.
Se apenas o indivíduo participa da informação e da memória específica, e não o
contrário, se a espécie - a informação específica - ignora o indivíduo que ela anim a por
algum tempo, então a morte do indivíduo é absoluta. Se o individuo tem parte na infor­
mação específica, se o retorno não está cortado, sua morte ó relativa.
Essa imortalidade relativa é, contudo, bastante austera, tão austera quanto a
imortalidade por contribuição nas formas culturais.
Os Newton e os Einstein são raros, como também os Sócrates e os Confúcio. A
contribuição de um homem para a sua cultura na maioria das vezes só se m anifesta
sob a forma de erros de gramática, que pouco a pouco vão se incorporando na prática.
Trata-se de algo duplamente irrisório, como também Infimo e muitas vezes decadente,
antes que progressista. A contribuição individual para a espécie biológica é ainda mais
ínfima. Não existem mutantes milagrosos, e os inventores dos novos comportamentos,

4 .0 polábio d uma língua eslava do Norte. O cómico, Ifogua céltica daCornualha, está extinto desde
o século XVIII; chegou-se a conhecer a pessoa - uma andfl - que, por um cuito periodo de tem po, foi a
única a falar o cómico. (Nota de 1977.)
205
muito produtivos na evolução, como os peixes rastejadores e os símios bípedes, perde­
ram-se na multidão e são ainda mais esquecidos do que os gênios na história das cul­
turas humanas. AJém disso, trata-se, afinal, apenas de uma imortalidade intermediária,
no sentido de Hoyle, ou de uma imortalidade dos hótons no sentido de Arthur Koestler -
sendo os hólons, ou os Grandes Seres cósmicos, eles próprios mortais.
Haverá transferência para a Unitas cósmica das memórias das espécies vivas
que desaparecem? Se raciocinamos por analogia com a morte individual, isto parece
bastante improvável. Sendo a hereditariedade dos caracteres adquiridos - isto é, a
transferência da memória individual para a memória específica - já tão contestável e
precária, uma espécie de hereditariedade dos caracteres cósmicos por transferência
para a Unitas da memória das espécies (e eventualmente de outros Grandes Seres,
supra-individuais e supra-especfflcos) é ainda mais difícil de se imaginar.
Mas não é totalmente inconcebível. Com efeito, não se pode dizer que o universo
não possui memória. Do mesmo modo como não só é cabível como obrigatória a hipó­
tese de que "Existe pensamento no universo", visto que pelo menos alguns seres -
dos quais nós mesmos - são pensantes, também é obrigatória a hipótese de que “ E-
xiste memória no universo". Disso nfto se pode concluir que "Existe uma memória do
universo” ou que "O universo, em sua unidade, é 'memorante' ”. Mas isso pelo menos
toma a proposta não absurda, digna de estudo e concebível.
Os tipos de ligações que a física conhece parecem n&o possuir memória. O es-
paço-tempo, na sua unidade, n&o parece estar participando do seu passado, como o
faz uma individualidade viva; nfio parece conservar nenhum vestígio das curvaturas,
deformações, distorções ou passagens diversas que o informam a um dado momento.
O software do mundo físico, o que o anima, nfio parece ter a possibilidade de tomar-se
autônomo, à maneira do software biológico capaz de pular de um suporte individual pa­
ra outro, ou à maneira de um soñware mental, capaz de resistir às degradações fisioló­
gicas moderadas do cérebro et até mesmo, de passar de uma geração para outra, co­
mo o espírito de uma cultura.
O que devemos admitir, no entanto, é que as individualidades com capacidade de
memória não podem surgir no universo por emergência milagrosa, e devem ter suas
raízes nas propriedades pré-mnêmicas dos seres e das ligações físicas aparentemente
sem memória, assim como a vida tem suas raízes nas propriedades pré-vitais das
moléculas. A não conservação da paridade para certas partículas pode nos dar alguma
idéia disso, ou a não invariãncia, em relação ft inversão do tempo, das interações
“fracas".
A irreversibilidade do tempo, o fato de que o tempo passa, indica por si só uma
espécie de memória do mundo físico, ou pelo menos alguma forma de sobrevôo do
tempo que o faz escapar da pulverulência dos "instantes" como também da pulvemlên-
cia dos “aqui". O espaço-tempo cósmico possui uma história, visto que o universo se
encontra em expansão - o que implica alguma forma de memória.

Existe um tempo cósmico irreversível, mais fundamentalmente do que pelo único ele tio da lei dos
grandes números da mecânica estatística e das misturas i Ia CamoL A irreversibilidade estatística nfio ô
suficiente, par si só, para justificar o sentido do tempo. O tempo nfio pára, mesmo quando a mistura al­
cançou o estado estacéonáno. Ao principio de entropia crescente, é preciso acrescentar um princípio de
interdição que impede a leitura ao contrário, em retrodiçâo e nfio em prediçfio, de alguma fórmula,
mesmo de um fenômeno nâo-estatístico, como uma eméssfio de irradiações. A remateriailzaçfio da Irra-
206
diaçáo é um fato muito mais raro do que a desmaterializaçáo em irradiação. A famosa fórmula E = MC2
deveria ser indicada com a seta MC2 -» E. Pois ela significa muito mais a possibilidade de se tirar ener­
gia da desintegração da matóha do que de se extrair matória a partir da reintegração de energia irra­
diante. Há uma evolução global não compensada A expansão assemelha-se à degradação estatfstca,
mas é mais fundamental.6
Quanto às teorias cosmológicas baseadas na periodicidade (alternância de expansão e de con­
tração): a) ou essa periodicidade ó perfeita, dentro de um universo fechado e oscilante, segundo a hipó­
tese de Pachner - que não se deve confundir oom a teoria cosmológica de Gódel, onde não existe
orientação única do tempo e onde as linhas do tempo se reúnem por si mesmas, independentemente da
expansão ou da contração. A hipótese de Pachner consiste em admitir que os períodos são indiscri­
mináveis, e que o tempo é finito, confundindo-se o inído do ciclo do tempo com o fim, confundindo-se o
antes com o depois. Um filme invertido do universo seria indiscriminável de um filme normal; estaria
simplesmente invertendo a expansão e a contração, as ondas adiantadas e as ondas retardadas, assim
como o filme invertido das ondas, produzidas sobre a superfície circular de uma bacia cheia de água por
uma excitação central com expansão para as bordas e, a seguir, retomo das ondas em direção ao cen­
tro, redispersão, e re-retomo, seria indiscriminável de um filme normal; b) ou então a periodicidade ó
imperfeita, o que faz com que os períodos sejam discemíveis e se produzam, então, sobre a base de um
tempo irreversível onde ó possível numerá-los, em período 1,2,3 etc.

O ponto importante não é, aqui, a irreversibilidade ou a periodicidade absoluta. No


fundo, todas as teorias admitem a irreversibilidade, ou o caráter “flechado” do tempo:
tanto as teorias da periodicidade (exceto a de Pachner) como as teorias da curvatura
espiral das linhas do tempo (que só podemos seguir em um único sentido), ou ainda a
teoria do steady state (se as nebulosas aparecem num universo em expansão, elas
desapareceriam num filme que fosse projetado ao contrário, mostrando o universo em
contração, e onde o tempo iria a contratempo).®
O ponto importante é o seguinte: seria o sentido do tempo criado apenas pelos
fenômenos de mistura, de aumento de desordem? Ou será ele a manifestação de al­
guma realidade informante, mais fundamental, na qual o aumento da desordem seria
apenas uma conseqüência?
Para os Gnósticos, este ponto é fundamental. Admitir, como eles, a segunda tese
significa aceitar o Espírito e a Memória cósmica. Admitir a primeira tese (ou seja, a irre­
versibilidade como puro fato de mistura e de maior probabilidade) significa, ao contrário,
postular um universo sem consciôncia nem memória, já que, neste caso, ele se asse­
melha a um jogo de sorte onde as probabilidades, como sabemos, só podem ser calcu­
ladas cientificamente se admitirmos que a roleta ou o dado náo tôm “ nem consciência
nem memória".
A existência de extensas zonas onde a irreversibilidade é desse tipo, e onde do­
minam as leis estatísticas e as misturas prováveis, ó um fato aceito por todos. Toda a
física clássica se baseia no estudo dessas zonas. O que a Gnose sustenta, com ami-
croffsica e todas as ciências que estudam os individuos e náo as multidões, 6 que a
passagem do tempo nas linhas de continuidade individual é mais fundamental do que as
misturas secundárias de individuaidades.
A passagem do tempo implica, portanto, que o universo, em sua individualidade,
náo se limita a funcionar, que ele se informa por participação, como qualquer individua­

5. Cf. J. Merleau-Ponty, op. c it, p. 302 ss.


6. loid., p. 451.
207
lidade autêntica, e que há algo que sempre vem acrescentar-se, transformando o fun­
cionamento das realidades já presentes em comportamento ativo ou inventivo, com a
conservação mnêmica do já adquirido - apesar das inúmeras misturas e desestrutu-
rações aparentemente predominantes mas, na realidade, secundárias.
Evidentemente, a memória elementar inerente ao lam po universal que passa",
ao co srn c process, não ó a memória propriamente dita, separável do processo como
nas individualidades psicobiológicas. Nada aponta para uma memória destacável desse
tipo no cosmo. Se o cosmo "vive" e não se Umita a funcionar, não parece entretanto
capaz de utilizar suas próprias experiências como o faz um animal. Ele não troca de
“montagens” como uma máquina nas mãos de um engenheiro, ou como um animal ou
um homem que se auto-utikza de acordo com suas necessidades ou anseios, e é ele
mesmo o seu próprio engenheiro. O cosmo não perde sèu tempo aprendendo um outro
idioma, ou convertendo-se a uma outra fé ou deixando-se arrebatar por uma nova
ideologia.
Também não morre por completo; a todo instante ele morre localmente, por de­
gradação termodinámica, por dissipaç&o em irradiação, por expansão não compensa­
da, ao mesmo tempo em que vive, por informação-participação. Ele provavelmente já
nasceu e certamente deve ter momentos, locais, de crises renovadoras. Mas não sa­
bemos como ele poderia “morrer" por inteiro, nem como ele poderia ser imortal, ou seja,
fazer um transporte qualquer para um X - para Deus ~, de um Espírito ou de uma
Memória cósmica enriquecida com a sua experiência. Uma Memóna cósmica autôno­
ma, destacada do resto, ó inconcebível.

Morte e Deus transversal


Recorre-se, evidentemente, a um artifício ao considerar o cosmo, em sua unida­
de, com base no modelo dos grandes sistemas intermediários que ele mesmo contém e
domina. Esse artifício aparece ainda mais claramente quando se especula sobre a mor­
te do cosmo e quando se especula sobre o seu nascimento. Se admitimos que Deus,
considerado como o Anverso ou o Espírito universal, reúne a memória total de um
cosmo que parou de “passar" no espaço-tempo, como conceber o que Ele irá fazer
oom essa memória? Utilizar essa “ experiência" para lançar os fundamentos de um ou­
tro universo mais bem ordenado? Essa idéia ou essa fantasia ô refutada por ser consi­
derada um mito pueril. Mas, será m enos pueril imaginar um cosmo que voltou para um
estado de pulverulência absoluta, sem comportamento nem funcionamento, e sem ne­
nhum elemento que o envolva? Im aginar o cosmo como um ser total que voltou para o
nada? Imaginar que tudo o que fo i não foi? Esta segunda concepção acrescenta algu­
ma contradição interna à pueriüdade.
É impossível, hoje, refugiar-se na tese do tempo-como-aparênda, a qual deixaria
empatados os que debatem o assunto. O tempo passa; este é um fato que a ciência
não inventa, nem a mente humana. Ele passa em nós e fora de nós; e passa no cosmo
como passa nas espécies e nos indivíduos. Os físicos e cosmólogos esquematizam e
interpretam este fato de muitas m aneiras; eles sem dúvida deformam a realidade e, so­
bretudo, a mutilam ou a reduzem, m as não a inventam. Pode-se “brincar'’ (intelectual­
mente) com as linhas do tempo, c o m o Reichenbach ou Gódel, mas não com a passa­
gem do tempo.
208
A realidade dessa passagem, cuja irreversibilidade não é um simples efeito es­
tatístico mas, sim, o efeito e o sinal de uma participação informante, impõe a idéia de um
Transversal (não-geométrico) a todos os domínios, grandes ou pequenos, de um
Transversal como Origem das novas formas, além do funcionamento das formas adqui­
ridas, Origem dos Possíveis, das Normas, dos Vabres que regulam as atualizações,
Origem que sobrevive a todas as mortes e à própria morte do cosmo.

Os seres como desenhos sobre um mata-borrão


Os domínios que se englobam uns aos outros se comunicam entre si por partici­
pação mnêmica, mas precariamente, por uma espécie de filtragem, de ressudação, ao
passo que a participação no Transversal é manifesta em toda parte onde há mais de
um funcionamento reversível, ou mais de uma irreversibilidade mecânica por mistura,
em toda parte onde existe comportamento orientado e passagem primária do tempo.
Usando-se uma comparação, o espaço-tempo é parecido com um mata-borrão
sobre o qual o artista desenha traços e manchas que acabam fundindo-se uns nos ou­
tros e completam, assim, por si mesmos, o desenho com seus borrões intercomunican­
tes. O “Desenhista” é ao mesmo tempo ativo e passivo; ele vô suas maneias fundi­
rem-se, informarem-se vagamente uma da outra, envolverem-se uma na outra, mas é
ele quem dirige e conhece o jogo em todos os seus pormenores ao mesmo tempo. O
Desenhista (Deus) faz com que todas as manchas (as formas espaciais) eslejam “en­
volvidas” pela sua ubiqüidade, e todos os borrões das manchas sobre o mata-borrão (a
passagem do tempo) sejam envolvidos pela sua eternidade.

O reverso, o anverso e o anverso do anverso


Aqui, a Nova Gnose dá um passo além na tese exposta até agora, a qual, assim,
A
passa a representar apenas um ponto de partida. tese gnóstica, como já vimos, con­
siste primeiro em considerar o mundo objetivo da ciência como o reverso de um anver­
so, consciente e subjetivo, feito de domínios que possuem a si próprios em suas for­
mas e comportamentos. Mas, evidentemente, e sabemos isso até demais, "ser cons­
ciente de si próprio” ainda tem algo de superficial. Como seres conscientes, compreen­
demos as nossas ações conscientes, dirigimos em certa medida a nossa vida, mas
não sabemos nem de onde viemos nem para onde vamos. A psicanálise nos esclare­
ce, em princípio, sobre nossas motivações instintivas subconscientes, mas nada revela
sobre metafísica. A biologia, o conhecimento da evolução, da embriologia, transposta
para a filosofia dos Grandes Seres que são as espécies, esclarece-nos um pouco
mais, assim como a história da cultura ou a compreensão de suas fases. Mas tudo isso
A
ainda permanece sobre um fundo de inconsciência e de mistério. presença da espé­
cie humana, da Árvore da Vida no mundo, mesmo como presença para elas mesmas,
permanece tão envolta em mistério quanto a minha própria presença conscienta.
Minha visão consciente me ensina muito e me possibilita muito. Ela m e guia nos
labirintos e me dá a possibilidade de não proceder tolamente por tentativas e erros ce­
gos, mas não me dá a chave, nem das coisas vistas por mim, nem de mim mesmo co­
mo observador, a chave da sua existência ou da minha existência, surgida d a noite. Ela
é uma gnose, mas não é a Gnose.
209
UA natureza é uma névoa sobre o olho”, diz Lichtenberg (autor que os Gnósticos
gostam de citar). Transpor a natureza na sua aparência material para uma natureza vi­
va e consciente; transpor as formas espaciais para formas-temas, auto-informantes;
transpor os .comportamentos para ações, isso tudo representa um primeiro passo, im­
portante mas nfto decisivo. A natureza “roturante" permanece tfio misteriosa quanto a
natureza “ naturada". Ela ainda ó uma "névoa sobre o otio".
A visão ainda é uma "névoa sobre o olho". E a sabedoria popular sente isso per­
feitamente ao atribuir a clarividência espiritual aos cegos. A consciência é o “anverso"
deste "reverso” , que é o corpo observável e visível. Mas é preciso que haja um “anver­
so” desse anverso, visto que a consciência nfio resolve todos os enigmas.
Este novo passo dos Gnósticos banaliza num certo sentido a sua filosofia. Os
budistas, os taoístas, os místicos de todos os tempos, que nfio costumam deter-se, e
com razão, nessa primeira fase de transposição para uma “consciência” do universo
cientifico, já reconheceram a superficialidade da consciência. O “ Sem-nome“ está além
dos “Dez mil seres", e também além das visões e das idéias qus esses “Dez mil se­
res" pudessem ter. Seria, então, a Nova Gnose, no fundo, apenas uma nova maneira
de reencontrar esse lugar - comum profundo?
Não, pois a passagem pela ciência e, mais tarde, pela transposição dos “obje­
tos", tais como a ciência os vê, para "anversos" conscientes, permite à Gnose colocar
a consciência em seu lugar certo, intermediário. Na ausência da etapa “científica” e,
mais tarde, da etapa "científica convertida", os sábios ou os Antigos Gnósticos só po­
diam visar o além das consciências de um modo vago e impreciso.
Para a Nova Gnose, embora a consciência ainda seja superficial, ela é entretanto
indicadora do seu além. Ela não é superficial de modo absoluto. Ela náo é uma espécie
de espaço físico convertido tal qual em campo de consciência. Ela tem propriedades
hipergeométricas e hiperfísicas que aparecem indiretamente na ciência, principalmente
quando esta tenta aplicar à força no campo visual, por exemplo, certas noções extraí­
das do campo físico ou da anatomia da área visual: ele nfio tem beiras, ele é presença
absoluta, é matricial, auto-regenerador, está ligado ao transespacial dos temas e do
significado etc.7
A consciência é percepção do mundo e dos seres, mas é também presença do
ser, com liberdade de ação. O "Eu” é Deus, no seu próprio âmbito limitado. O espaço
visto efimina o espaço e liga suas partes externas umas às outras. O tempo vivido e
consciente elimina a sucessão pura dos instantes. Somos dotados de uma micro-
ubiqükdade e de uma micro-etemidade, por “divinizaçáo locar, a partir da qual é possí­
vel alcançar a idéia da divinização total do mundo.
Além disso, existem vários níveis nos domínios da consciência: a coerência ime­
diata do meu campo vjsual apóia-se na coerência orgánica (à base de consciência
orgânica) do meu córtex individual vivo, o qual por sua vez apóia-se na coerência
biológica (à base de consciência e de memória específica) da espécie humana que, por
sua-vez, pressupõe coerências biológicas mais amplas, como as dos primatas, as dos
mamíferos, as dos vertebrados, ainda manifestas na embriogênese.

7. Ct R. Ruyer Paradoxos de Ia conscience et limites de l’aukxnatisme. Albín Michel, 1966.

210
Embora não se deva tomar totalmente ao pé da letra esses nivelamentos, e por
mais que todos eles participem de um Transversal do qual não nos dão muito bem a
chave por simples analogia, a consideração e o estudo de que são objetos proíbem, en­
tretanto, de se falar grosso modo, como o fazem os místicos, da Natureza como Maya,
como um véu a ser rasgado para se alcançar o Absoluto.
Alan W. Watts8 define Deus, à maneira oriental, como “o interior profundo das
coisas". Tendo falado assim, nos diz ele, diante dos seus filhos, ele os vê cortarem um
bago de uva e, a seguir, cortarem novamente a metade, para ainda encontrarem ape­
nas um “exterior do interior” . Mas Deus, explica-lhes Watts, não é o “interior exterior";
ele é o “interior interior” , inacessível. A Gnose tem, da mesma forma, perfeita consciên­
cia da superficialidade, não só dos interiores geométricos como também das consciên­
cias em vários níveis. Ela também admite que estamos alienados da nossa própria infe­
rioridade, e que não iremos encontrar Deus abrindo-nos a nós mesmos mais do que se
fôssemos abrir um bago de uva. Somos como uma mancha de tinta sobre o mata-
borrão que, suspeitando que está numa obra de arte, procurasse encontrar a consciên­
cia do artista, seja em seu próprio centro, seja em seus contatos com as outras man­
chas.

A morte individual das consciências


Essa exterioridade residual e não eliminável em toda consciência viva, justifica a
morte, que apaga essa exterioridade residual da interioridade, mas apaga, também, o
indivíduo. Ao “escândalo da morte” que apaga a consciência, acrescenta-se o escân­
dalo mais específico da morte do sábio, que apaga uma consciência considerada tão
consciente, inteligente e profunda que a morte parece, então, estar destruindo não ape­
nas um ser individual mas também o próprio sentido da vida e do mundo. Esse escân­
dalo é tal que nos recusamos a aceitá-lo e acabamos por divinizar o gênio, o santo,
o sábio. Esse santo, esse sábio parece tão transparente que, por não interceptar nada,
mereceria não ser apagado. À distância, porém, a impressão é diferente. Percebemos
nele limitações e opacidades - que ele próprio suspeitara durante a sua vida se, de fa­
to, era inteligente e sábio. À distância, Sócrates nos parece ter sido quase tão ingênuo
quanto An/tos. Todo homem sente o quanto foi “ inconsciente" apenas dez anos atrás,
como se voltasse de um sonho. Se for sábio, acabará concluindo que ele, portanto,
ainda é inconsciente e “merece" então morrer, sem lamentações vãs e sem aspirar a
uma imortalidade individual, à maneira egípcia, por embalsamento e mumificação da sua
consciência. Uma consciência verdadeiramente interiorizada não mereceria a morte;
mas justamente ela por si mesma deixaria de viver no estado separado e opaco, per­
dendo-se de antemão em Deus.

“Montagens diante da morte”


A morte, para o ser primitivo, é um ato, um rito sagrado executado em nome do
morto, pelos sobreviventes (e, às vezes, pelo moribundo). A morte-como-ato-sagrado é

8. Alan W. Watls: Nature, Man and Woman. Tradução francesa de P. H. Gonthier 90b o titulo:
Amour et Connaissance.

211
um conceito muito mais profundo do que a crença na sobrevivência, ou mesmo que a
crença na imortalidade individual. A morte é um ato ritual por ser considerada uma pas­
sagem para uma outra forma de vida. E a representação dessa “outra forma”, desse
“ além", precede e rege a representação da forma de vida do indivíduo no além. A so­
brevivência pura e simples não é a imortalidade, que é reservada aos deuses. As reli­
giões que pregam a salvação consistem justamente em prometer que a sobrevivência
será, além disso, uma participação dos iniciados na imortalidade dMna. Se os “deuses
imortais” desaparecem, sendo substituidos pelo Deus eterno, a imortalidade da alma
vem a ser, então, um retomo para o Deus eterno. A imortalidade individual passa,
então, a parecer tão mítica quanto a sobrevivência individual, mas a morte, com isso,
não deixa de ser - muito pelo contrário - um ato sagrado, uma passagem religiosa.
Além dos mitos da sobrevivência e da imortalidade individual, existe o “mito ver­
dadeiro” do EspAito divino. Para os Neognósticos, todos os seres individualizados e
temporalizados não passam de “ Idéias" divinas, a quem é concedida provisoriamente
uma certa autonomia. As consciências individualizadas apresentam-se, assim, como
uma espécie de inconsciente divino, de “sonho de Brama” , como espécies de “outros
eus de Brama aos quais Brama se deixa levar, ao mesmo tempo em que deles par­
ticipa “transversalmente".
Quando Brama acorda, o sonho, em sua autonomia, se desvanece. A memória
interior do sonho deixa de estar fechada sobre si mesma, perde seu "invólucro de celo­
fane , é transferida para o Despertado. O sonhador humano também consegue se lem­
brar de seu sonho: o “outro eu", o "eu mnêmico" passa, então, a fundir-se no “eu" atual,
central. Podemos tanto dizer que o sonhador desperta (e aniquila o seu sonho ou, an­
tes, a autonomia do seu sonho), como dizer que o sonho desperta, se aniquila a si pró­
prio na sua autonomia, para se fundir na “consciência-eu" única, e ainda ver a si pró­
prio, mas do ponto de vista do ser que despertou e que recorda o seu sonho, e náo
mais do ponto de vista do sonho que vive por si mesmo e se vê dentro da sua própria
esfera fechada.
Assim, neste sentido, morrer não significa retomar para o nada, e sim, voltar a
ser o Deus único. Os indivíduos vivos são os "outros eus", fascinados, de Deus. A
morte abre essas fascinações fechadas.
Alguns entre os nossos Gnósticos, que não desejam romper sua afinidade com a
maçonaria mística, adotam as expressões maçõnicas para a morte: passagem para o
Oriente etemo, Iniciação suprema, etc.
Essa é a doutrina fundamental. Mas, para os “fracos", os Gnósticos propõem
uma série de exercícios auxiliares9 contra a ansiedade do desaparecimento da indivi­
dualidade.

I. A milionésima borboleta: Enormes bandos de borboletas podem, numa mi­


gração, tomar uma direção errada e perder-se no oceano. A milionésima borboleta que
assim pereceu (ou a 27.3019 ...) tinha tantos pretextos quanto nós para agarrar-se à
sua individualidade.

9. Para os quais os Gnósticos muito nos honraram servindo-se de nossa obra: Paradoxes de Ia
Conscience et Limites de /'Automatismo, Albín Michel, 1966.

212
II. O irmão não nascido: Mesmo pertencendo a uma família numerosa, de nove fi­
lhos, poderíamos ter tido um décimo irmão. No entanto, não nos viria à mente compa-
decermo-nos desse décimo irmão não nascido por ele não estar vivo hoje. No entanto,
ele teve uma vida pré-natal tanto quanto nós, sob a forma germinal.

III. Voltar a ser o recém-nascido que fomos: Você recebe a promessa de que, no
instante mesmo da sua morte, voltará a ser instantaneamente - por uma curva espiral
do tipo Gõdel ou, antes, do tipo Reichenbach, em sua linha de tempo10- o recém-nas-
cido que você foi. O que isso viria acrescentar para você, já que suas experiências
serão, por hipótese, exatamente as mesmas, constituindo ou não uma segunda vida
(numericamente falando) ou uma enésima vida? E em que "sobreviver” seria muito dife­
rente de "recomeçar a sua vida” ?

IV. O aniquilamento momentâneo: Se lhe propusessem o aniquilamento absoluto


durante cinco horas, com a certeza de reviver e retomar o to da sua vida, a experiência
não teria nada de espantoso. As pessoas se submetem sem medo à anestesia geral. E
nada impede de considerar a anestesia como um aniquilamento (da individualidade-ce-
lofane), e imaginar que haveria outro celofane a envolvê-lo quando despertar da anes­
tesia. Nesta perspectiva, o aniquilamento da primeira individualidade é tão absoluto
quanto a morte. O que vem depois da anestesia não lhe diz respeito.
A única diferença entre o despertar de uma anestesia e a "reencamação" asiáti­
ca é que a segunda individualidade readquire a mesma memória. Mas isso nada tem
que ver com a primeira individualidade. E “quem” pode saber que se trata da mesma
memória? Pelo menos, a primeira individualidade é que não pode sabê-lo, já que ela foi
aniquilada.
Se, por um lado, a reencamação asiática é falsa pela razão que já indicamos11
(um recém-nascido continua uma linha de existência celular germinal; togo, ele não po­
de retomar a linha de existência de outro adulto), por outro lado, ela é verdadeira do
ponto de vista transversal, divino, no sentido de que a consciência náo desaparece do
universo: ela reaparece em cada recém-nascido, como se fosse a continuação de uma
outra consciência. Um filho parecido com o pai é como se, nele, o pai estivesse desper­
tando de uma anestesia.

V. “Não se pode perder” a vida: É daro que ninguém perde a vida, por definição,
já que não há mais perdedor. Chorar os mortos é absurdo - absurdo, aliás, reconheci­
do pelo senso comum. Não obstante, o senso comum vacila quando alguma vida pro­
missora é cortada prematuramente: “ É uma pena." Mas, obviamente, é uma pena para
os outros, não para o ex-ser vivo. Vemos a vida do desaparecido como se fosse com­
posta pela parte real e pela parte virtual, aniquilada. Mas para ele a vida não é aniquíla­

10. Segundo Reichenbach, nfio seria oonfrário à lógica que um ser fizesse uma curva espiral no
tempo de modo a reencontrar o tempo comum, assim oomo se reenconta um caminho, depois de ter
andado em círculo pelos arredores do mesmo. Gõdel acredita que poderíamos voltar ao início geral do
tempo. (Nota de 1977.)
11. Cf. supra, p. 204.

213
da. Se ele se viu morrer, ele de fato sofreu, mas como ser vivo. A morte, como se diz,
übertou-o - o que, em última análise, não se pode dizer, pois o “eu” não existe mais,
tanto no acusativo como no nominativo embora, como na Morte de Ivan imtch, de
Tolstoi, seu último pensamento de moribundo possa ter sido, por antecipação, o de um
atfvio, de uma toertaçâo, depote de tantos pensamentos de agonia.
O fundo da questão ó que o “mal" não 6 o negativo, mas o “complexo", o des­
perdicio, por colisão e hlbrídação, a "morte-em-vida", a doença, o luto dos sobreviven-
tes, a lembrança-parUcipação que esbarra dolorosamente com a idéia de que o partici­
pado não existe mais.

VI. A morte e a corrida de Aquiles e da tartanjga: Existe uma analogia entre a cor­
rida de Aquiles, que não chega a alcançar a tartaruga, pois nunca consegue alcançar o
ponto onde ela estava e ainda tem sempre de atingir o novo ponto onde eta está, que se
toma então o ponto onde ela esteva - e a corrida de um ser vivo que vai para a morte.
Em cada idade, ele tem uma esperança de vida, calculável por estatística, que diminui
mas nunca chega a ser nula. Ele sempre tem a mesma possfcidade, uma possibilidade
calculável, de ultrapassar essa esperança de vida e poder brincar de cara ou coroa pa­
ra ver se consegue superar a próxima fatia de vida, sempre menor do que a preceden­
te. Quando perde, não recupera nem ultrapassa nada. Pois não há mais corrida.

Vil. ■Ele precisava m orrer... Mas, como uma criança que não consegue adorme­
cer e fica agitada e chora, ele não conseguia encontrar seu último sono."
A morte, depois de uma doença bastante grave ou de uma vida exaustiva, é uma
necessidade natural. Mas seria preciso deixá-la no estado “natural” , sem todos aqueles
artifícios que lhe são acrescentados, sem as cerimônias médicas, sociais, religiosas,
fiscais. O animal que morre naturalmente, de cansaço ou velhice, na natureza solitária,
não deve sofrer muito.
Na divertida comédia filmada O Pai da Noiva - uma sátira dos ritos sociais do
casamento nos Estados Unidos, cada vez mais complicados— , a moça, na véspera do
grande dia, mostra-se preocupada e nervosa. O pal acha que ela está inquieta diante
da iniciação ao amor físico: “ Não se trata disso, pai, pois é uma coisa natural. E, por
que iria eu ficar apavorada com o que é natural? O que me preocupa é a perspectiva de
tantas cerimônias sociais.”
A morte, natural como o amor, não deveria ser mais apavorante do que isso.

VIU. Pequim e o ano 2000: A morte é uma limitação no tempo: eu não verei o ano
2000, e nenhum ser atualmente vivo viverá o ano 3000. Por que, então, sofrer por essa
ümítação no tempo quando, por outro lado, não costumo sofrer com a minha limitação
no espaço? Eu riunca verei Pequim, e ninguém sobre a Terra jamais verá os habitantes
da nebulosa de Andrómeda.
Por que essa dissimetria sentimental entre os dois componentes do espaço-tem­
po? Provevelmente, porque todo ser vivo é, de fato, velho como o mundo, ao passo que
nunca foi vasto como o mundo. Por isso, o Hmite final do seu tempo parece-lhe mais
cruel do que o limite do seu espaço.

IX. "Eu" não posso perder a consciência: Um domínio subjetivo, um “espaço-su-


jeito” não é um objeto perdível, pois o “eu" é apenas um nome dado à unidade dominial.
214
seja ela atual, ou inchada pela sua participação nos "outros eus”, mnêmicos (os quais,
por sua vez, são apenas a unidade dos domínios subjetivos mnêmicos participados).
Minha consciência não pode ser desvinculada de mim. Não posso perder a minha
consciência. É o que os epicuristas costumavam expressar, sob uma forma negativa e
imperfeita: “ Eu sou, a morte não é; ela é, eu não sou” .

X. A vida consciente não tem “extremidades”: A vida consciente não tem mais
extremidades do que o campo visual consciente. Nossa retina material tem extremida­
des, mas a visão, não. O “eu” da consciência não pode ver as extremidades da sua
visão pois, como unidade da visão, não pode colocar-se simultaneamente sobre a
visão e a não-visão, e ver assim a fronteira. Podemos ver a extremidade doente da
nossa retina que se desprende, assim como um moribundo se vê morrendo. Mas não
podemos mais ver a extremidade da retina uma vez que a parte doente é destruida pela
coagulação cirúrgica. Uma consciência não consegue, no tempo, ver-se iniciar ou
ver-se acabar.

XI. A morte não é individual ou nominativa: Os túmulos, que trazem os nomes


dos defuntos, suscitam a idéia de que “os” mortos permanecem individualizados. É
evidente, contudo, que a desindividualização é absoluta. A morte não tem de ser “ima­
ginada” ou “pensada” . Imaginar os mortos como “dormentes individuais" no reino da
morte representa uma ilusão dentro da ilusão.
O que é notável é que a concepção imaginária de uma imortalidade individual di­
fere muito pouco da idéia dos mortos individuais "dormindo”, mas conservando os seus
“nomes” . Uma se resume na outra. Os “dormentes” são simplesmente imaginados, na
crença da imortalidade individual, como tendo um pesadelo sem fim. Os sonhos de Pa­
raíso, é sabido, degeneram facilmente em imagens de pesadelo.
Os Gnósticos, evidentemente, dão pouca importância a esses exercícios, nega­
tivos, isto é, destinados a neutralizar imaginações absurdas. Sua verdadeira tese é o
retorno para Deus, o aniquilamento das individualidades em Deus, com a conservação
(ou, antes, a “destemporalização") do seu conteúdo de valor.
Conclusão
As teses gnósticas sôo cientificamente muito sóidas, visto que se limitam a con­
verter as aquisições mais seguras da dénda, sem contradizê-las, exceto em alguns
pontos controvertidos entre os próprios dentistas. Elas só contradizem o ingênuo
dogmatismo dentificista - que sempre tem sido bem menos predominante entre os
dentistas angk>saxÕes do que entre os dentistas franceses ou os dentistas dos paí­
ses comunistas.
A Nova Gnose reduz o mito ao mWmo indispensável. ReduzHo mais ainda seria
ilusório, e mesmo contraditório. Pds o universo é tal-que-a-ciénda-nete-ó-poss/vel, e a
possibilidade da dénda rito pode evidentemente ser deduzkJa,explicada ou compreen-
dkJa cientificamente. Pois a dénda já é gnose na sua intençfio, isto é, uma iluminação
conscientemente procurada. Ela nfio é nenhuma espéde de cristalização que aparece
em determinados cérebros, como o saltre num muro.
Que o universo é “gnóstico", no sentido etimológico, isto é, urna consdénda que
busca a luz, ô uma evidência. As teses gnósticas só fazem torná-ia explícita. Existe no
universo um esforço em aigum lugar, aqui mesmo, neste momento, ou na consciência
do nosso leitor, para explicar e entender o universo. Isso é um fato. Estarla essa cons­
dénda emergindo apenas sobre o planeta Terra? Nfio poderia deixar de enraizar-se
mais profundamente, ou de envolver o Todo e tê-lo sempre envolvido. A disputa entre o
teísta e o ateu, como fd dito um dia, resume-se no seguinte: “Devemos chamar Deus
de Deus, ou dar-lhe outro nome?". A disputa entre o Gnóstico e o agnóstico ó essa:
“ Devemos chamar de “gnóstico” o universo, na sua quaMdade de universo-se-conhe-
cendo, ou dar-ihe outro nome?” .
Em todo caso, há algo de bastante limitado na tese, que se julga racional - mas é
apenas racionalista - segundo a qual o homem é o único e o primeiro aparecimento do
Espirito.
Fred Hoyle denuncia essa falta de imaginação na ficção científica comum. Esta
pretende tratar de formas de vida e de consciência imaginárias. Contudó, o que encon­
tramos num livro de ficçôo científica? "Seres humanos. E é só." O cérebro de urna cria­
tura de ficç&o científica é essencialmente humano- mesmo que o autor o tenha intro­
duzido no crânio de algum lagarto gigante ou de um humanóide qualquer, apresentado
às vezes como um autômato que pensa: “Se essas noções um tanto gastas se limitas­
sem à ficção científica, o mal não seria tão grande. Mas assim que tentamos pensar se­
riamente numa forma de inteligência exterior à Terra, as nossas idéias acabam ficando
iguaJmente limitadas, e imaginamos humanóides em outros planetas."
216
Os velhos mitos dos deuses, dos demônios, dos anjos, dos arcontes ce*
lestes, no fundo são mais originais, embora estejam sujeitos às mesmas limitações.
Contudo, em suas tentativas de "teologia-ficção”, Aristóteles (antes do motor automó­
vel), Santo Tomás, com sua teoria dos anjos, Dante e sua descrição do Paraíso, fize­
ram um esforço louvável, que recentemente foi retomado por Stapledon, J.B.S. Halda­
ne, G. Stromberg, E. Whittaker e o próprio Hoyle, para fugir do conceito banal do
humanóide.
Temos de admitir que é difícil imaginar diálogos com Grandes Seres realmente
sobre-humanos, com o Gênio da espécie, com o Diretor (ou Diretora) da Via Láctea, ou
com o espaço-tempo. Em A Nuvem Negra, Hoyle tentou imaginar um Ser vivo cons­
ciente cuja massa total é da mesma ordem que a massa do planeta Júpiter, à base de
moléculas interestelares. Este Ser vai em busca de estrelas que lhe possam servir de
alimento energético. Graças à sua unidade dominial, ele consegue ter um comporta­
mento sensato e até mesmo mais inteligente do que os comportamentos humanos. Es­
sa fantasia (inspirada nos Marcianos de Stapledon) não carece de pertinência filosófica.
Hoyle postula corretamente a identidade da vida e da consciência, a identidade da
consciência e de um campo dominial de comportamento unitário.
Stapledon costumava imaginar Grandes Seres ainda mais estranhos do que os
seus marcianos ou do que A Nuvem Negra de Hoyle, sobretudo em Star Maker. Éca­
racterístico o fato de ele visivelmente ter se inspirado, nesses exercícios de alto nível
em ficção científica, na zoologia comparada. É de um tratado de zoologia que ele visi­
velmente extraiu modelos de organismos sobre-humanos, semicoloniais, de formas e
comportamentos supreendentes. Uma boa ilustração da tese gnóstica segundo a qual
“todos os seres, em todos os níveis, são igualmente inteligentes, conforme o material
que eles têm de tratar”. Na União Soviética, é somente sob o manto da ficção científica
que os conceitos neognósticos conseguem difundir-se hoje. Assim, em Solans, o filme
de ficção científica (ou de ficção teológica) de Andréi Tarkovsky, um planeta inteiro
possui uma consciência-oceano, comparável à de um cérebro humano, que transmite a
astronautas terrestres um magnetismo capaz de materializar suas lembranças e levá-
los a desejar a felicidade eterna.
A literatura fantástica, ao contrário da ficção científica, consegue evocar razoa­
velmente bem potências maléficas sobre-humanas (com Algernon Blackwood e sobre­
tudo com Lovecraft).
Quanto às Potências e às Consciências sobre-humanas benéficas, as almas re­
ligiosas têm conseguido evocá-las melhor do que os cientistas òu os autores de ficção
científica, pelo menos aparentemente. Imaginar os diálogos com um Deus tradicional
não é difícil - mas é porque esse Deus é o mais antropomórfico entre os sobrehuma­
nos. Mas, como falar com o verdadeiro Deus, com o Tao, com Brama, com o Uno? Só
podemos obedecê-lo, obedecendo à nossa própria consciência ou, antes, ao posso
próprio instinto orgânico.
A Nova Gnose tem procurado restringir os mitos até o limite indispensávele, ao
mesmo tempo, renová-los. Mas isso dentro da mais extrema sobriedade. Ela nadatem
em comum com as fantasias pseudocientíficas ou “ iniciáticas‘,.
Essa sobriedade é, inclusive, tal que qualquer critica que se pudesse fazerà No­
va Gnose seria, antes, pelo fato de ela não se diferenciar muito do puro cientificismo, e
de abafar, tanto quanto este, toda ressonância religiosa.
217
A “monadologia científica” de Milne tem urna certa ressonância religiosa. Mas não
há mais nada de religioso, aparentemente, na teoría depurada e matemática que Whi-
trow extraiu dela, ou na teoría que Sdama tírou das observações de Mach - ou de Ber-
keley - sobre a inérda dos corpos, que só pode ter algum sentido em relação ao con­
junto dos demais corpos, revelando assim a unidade cósmica.
Não há nada de religioso na teoría em si da memória autónoma, e na teoría da
participação em temas transespadais, ou no conceito da “ alma’’ como arquitetura e
montagem.
Deixemos de lado, portanto, a palavra “religioso", cujo sentido não tem um alcan­
ce muito maior do que a palavra "barroco" ou a palavra “ romántico’', e simplesmente
alude a urna “cor” cultural.
Parece, contudo, que a Nova Gnose, ao transpor o universo visto pela dénda,
ao cotocá-lo do lado direito, o transfigura. É o mesmo universo e, no entanto, é outro.
Não é mais aquela máquina absurda de movimento perpétuo, ou aquela máquina térmi­
ca que se estría, ou essa imensa coleção de “bombas H” estelares que üuminam nu­
vens de poeira ou aquecem pequenos amontoados de poeiras aglomeradas, sobre os
quais as moléculas eventualmente se cristalizam em formas geométricas ou em formas
orgánicas auto-reprodutivas, que a seleção natural conserva e diversifica antes que ou­
tra explosão, ou outro acidente cósmico qualquer, venha aniquilar esses insignificantes
subprodutos.
O universo da Gnose não difere em nenhum detalhe do universo da dénda. Mas
existe entre os dois universos a mesma diferença que existiría entre um ser vivo e
amado e um robó que o imitasse com perfeição, mas do qual saberíamos que não
sente nada.
‘7 know that m y Redeemer tiveth”,* canta-se no M essias de Haendel. Poder dizer:
“ Sei que estou vivo dentro de um universo vivo. Sei que sou consciente na Unidade
eterna da Consdéncia divina” , não deixa de ser táo exaltante quanto a fé em algum
Messias, em algum Salvador semipolftico - mesmo que não se possa acrescentar
“And though worms destroy this body, yet in my flesh shaH I see God”.1
Existe um mistério para toda filosofia gnóstica que não quer ignorar a dénda. O
Espirito domina sobre a Matéria. O significado prevalece sobre os meios técnicos e a
consciência sobre os seus “órgãos” . E, náo obstante, o mundo parece ter sido de fato,
na origem, essa estranha máquina à qual nos referíamos, ou aquela superbomba H. Ele
parece ter se convertido no universo gnóstico quando, para sè-lo hoje, ele deveria tê-k)
sido sempre.
Para a Nova Gnose, esse mistério é urna chave. A transposição gnóstica mostra
primeiro que o universo, aparentemente, enquanto objeto explosivo no seu “avesso” é,
no seu “lado direito” , um sujeito em auto-explosão. Ela mostra que os objetos aparen­
temente materiais que ele contém, e que foram produzidos pela explosão, continham o

* “ Sei que meu Redentor vive” . (/V. T. ).


1. Cf. as reflexões de F. Hoyle em The Nature otthe Universe, p. 116.
[ME, embora os vermes destruam este meu corpo, ainda assim em minha carne verei Deus". (W. T.).]
218
suficiente para tornarem-se não apenas “subjetividades” dissociadas, como também
consciências com capacidade de autonomia.
A transposição torna-se transfiguração quando a Nova Gnose acrescenta que
esse surgimento, aparentemente retardado do Espírito no Espaço e no Tempo, é a
prova, não de que a matéria é primária e essencial, mas, pelo contrário, de que existe
um Além do Espaço e do Tempo, um “ Eu" ou um "Si" absoluto, para o qual não há nem
“alhures" nem “antes-depois".
Assim, longe de ser um novo humanismo, a Nova Gnose apresenta-se mais co­
mo um novo teocentrismo.
Para um europeu, pode parecer bastante estranho esse renascimento de um
teocentrismo no país da técnica futurista e nessa Disneylândia de ciência avançada
que são Princeton ou Pasadena.
Basta lembrar, porém, a impressão de estranheza maior ainda diante das primei­
ras fotos dos hippies universitários cabeludos e barbudos nos campus das Universida­
des de Berkeley ou de Columbia, por seu enorme contraste com os cosmonautas de
barba feita e tão “tipicamente americanos". Nossos Gnósticos são, de uma forma dis­
creta, um pouco o que são, na sua forma doida, os hippies ou tantas seitas religiosas
extravagantes. A mentalidade bíblica puritana ainda continua muito em evidência nos
Estados Unidos. O teocentrismo modesto, orgânico, não-ideológico da Nova Gnose
não deixa de ser, ainda, uma expressão sem dúvida muito original mas, no fundo, con­
forme, da velha mentalidade bíblica.
Esse teocentrismo favorece o isolacionismo moral e o caráter apolítico do Movi­
mento. Favorece a moderação nos objetivos próximos e a confiança no trabalho orgâ­
nico. Ao isolar-se, ao colocar-se diante de si mesmo e diante do cosmo, o homem pode
esperar encontrar, procurando bem, as boas técnicas de vida. Quanto às boas técni­
cas da vida social e política, a história tem mostrado que só podemos encontrá-las se
deixarmos que as forças orgânicas trabalhem por um longo tempo com a nossa mo­
desta colaboração, sem pretendermos ser superiores à Consciência suprema cujos ob­
jetivos distantes sâo impenetráveis.
Devemos ver, nessa atitude, uma timidez lamentável por parte de cientistas exi­
gentes e desconfiados em relação às ciências - ou às pseudociências - humanas? Ou
tratar-se-á de sabedoria — uma sabedoria que contrasta felizmente com a leviandade de
tantos intelectuais que assumem, hoje, tantas responsabilidades alarmantes?
É possível, também, que, sobre esse ponto, nossas informações a respeito de
um movimento cercado por mistério não tenham sido completas, e que haja, dentro de
determinados grupos mais secretos - como as subseitas dos Pitagóricos, os princeto-
nianos da Antigüidade - certas preocupações políticas. Alguns indícios nos levam a
supor isso.
O que é certo, contudo, é que não se trata de forma alguma de política ambiciosa
ou arrogante. Pois todos os Gnósticos concordam com isto: as boas técnicas, navida
social e política, só podem ser encontradas mediante um trabalho “ celular", que admite
e que busca a indispensável e longa colaboração das forças orgânicas, sujeitas por
sua vez à Consciência do cosmo.
Contarme já assinalamos, náo existo nenhuma obra que exponha a doutnna em seu conjunto.
Maso leüor poderáenoontrar lodas as rafees e todos os elementos da Nova Gnose nesta bibliografia
sumária, onde escolhemos as obras mais facilmente acessíveis ao leitor francés.

fís ic a e c o s m o lo g ía

Náo faremos, aqui, nenhuma referência a esses pré-gnóstkx» que foram Eddington, Whitehead
eJeans, mas citemos:
E. A. M lne: Modern Coetrology and the Chnsban Idea ofG od (Oxford, 1952).

já entramos na Nova Gnose oom:


G u s ta v S tro m b e rq , asfrónomo no Observatorio do Monto Wilson e, m ais tarde, professa no
Instituto Camegie de Washington: L'Ame de runivers (Ftammarion, 1051).
V. F. WEissKOPF, ffeico do Masaachussetb's Instituto of Technology, colaborador no projeto Ma­
nhattan em 1943, diretor geral no C.E.R.N. de 1961 a 1986: Nature, Matíère, Vte (Hachetto, 1967).
E. T. W h itta k e r , «bíco em Prtnceton e em Edhnburgo: Space and Spirit (Nelson, Nova York,
1946); Le Commencement et la fin du monde (Albln Mtehel, 1953).
C. F. Von W e iz s a c k e r, o conhecido ffeico alemflo: Le Monde w par Ia physique (Flammarion,
1956).
G. J. W H ítro w , professor de física e de cosmología em Londres e Nova York: The Structure and
Evoluton ofthe Universe (Harper’a, Nova York, 1959); The Natural Phitosofy o f Time (Nelson, 1961).
0. W. S&ama, professor em Princelon: The Unttyofthe Universe (Faber, 1959); The Physical
Foundations of General Relativity (Nova York, 1969). Titulo em francés: Les Bases physiques de Ia rela-
tivité générale (Dunod, 1971). Esta obra, muito originai, aborda Einsteln falando de Berkeley e de Mach,
e discute o problema da “ indução de inércia."
D a v c Bohm , h o je p ro fe s s o r d e fís ic a te ó ric a no B iikbe ck C olle ge: Essaide formularon topotogi-
que de Ia théorie quantique. P u b lic a d o em :
L J. Gooo: The Sdentíst Speculates (1962).
A obra coletiva de L j. Goodfoi publicada na França por Dunod em 1967sobotftufo: Ouandles
savants donnent libre cours i leur imaginaüon. I. J. Good reuniu o pensamento de muitos princetonia-
nos. David Bohm tem insistido recentemente sobre a noçâo de “ holodclo dinâmico" em outra obra cole­
tiva: ResponsabUité btologique, publicada na França por Heimann, Paris, em 1974.
F re o H o y le . O famoso astúnomo inglês, que tornou-se professor de astrofísica no Califórnia
Institute of Technology, está multo próximo das Idéias neognósticas mais essenciais: La Nature de IVnt-
vers (P.U.F., 1952); Aux frontlêrse de l'astronomle (Correa, 1956): L'Astronome (Laftont, 1963); Hom-
mes et galaxias (Dunod, 1969). Seus rormnces de flcçflo dentfRca também sflo muito Importantes: Le
Nuage noir (Dunod, 1962), e Leieroclobre, I sera trop tard (Dunod, 1968).
V. A F «soff: Vie, intelligence et galaxias (Dunod, 1970).
R. P. Feynmann, o famoso físico do California Institute of Technology, prêmio Nobel de 1965: La
Nature des Icxs physiques (Robert Laffont, 1970).
Depois de ter desprezado a cosmotogia, os cientistas soviéticos estão se dedicando a ela com
entusiasmo. As especulações de caráter neognóstico estão surgindo em massa na União Soviética, não
muito bem vistas por parte das autoridades e oom freqüência dissimuladas em obras de ficção cientifica.
E. Par n ov : Au carretourdes infinis (Ed. Mir, Moscou, 1972). Este livro de Pamov, extremamente
interessante, é um verdadeiro tratado de cosmología neognóstica.
1. C h k o v s k i : Univers, vie et raison (Ed. de Ia Paix, Moscou-Paris). Este autor tende a ser an-
tignóstico em relação aos problemas biológicos.

220
Entre os autores franceses:
Jacques Meruead-Ponty, professor na faculdade de Nanteire: Cosmoiogie du XX6 siécle
(Gallmard, 1965), e (oom Bruno Morando): Les Trois Etapas de la Cosmoiogie (Laftont, 1971). Já assi­
nalamos o grande Interesse desta obra, que não tem nenhum equivalente, mesmo na América.
o. costa de Beauregaro, direta de pesquisa no C.N.R.S.; suas idéias são muito próximas da
Nova Gnose: La Notion de temps (Hermann, 1963); Le Second Principe de la Science du temps (Le
Seuil, 1963).

BIOLOGIA E PSICOLOGIA

Além das obras de J. C. Eccles, já antigas mas que continuam clássicas, sobretudo The Neu-
ro-Physiological Basis oí Mind (Oxford, 1953), e dos livros de ficção ctentltica (mais do que suas obras
sobre a genética e a origem da vida) do famoso biólogo J. B. S. Haldane: Possible Worids] Callinicus',
My Fnend Mr. Leakey (George Alien, Londres), podemos mencionar aquí:
J. Marquano: Life, its Nature, Origins and Distributioris. Publicado na França por Dunod em
1972, sob o tftulo: Qu'est-co que la vie?
W. M. Elsasser: Atom and Organism (Prlnceton Untversity Press, 1966). Este professor, conhe­
cido em Princeton, físico de origem, pubttoou multas outras obras sobre o assunto.
W. S. Beck: The Riddle ofLUe, Essays in Adventuros otthe Mind (Nova York, 1960).
E. P. WK3NER, professor no California Institute: Remarques sur les relations de l'esprit etducor-
ps, publicado por L J. Gooti na obra coletiva The Sdentist Speculatos. Traduzido em francés por Du­
nod, París, 1967.
A rthiw K oestier: ins,ght and Outlook (Mac MHIan, Nova York, 1949). Todos os livros desle fa­
moso romancista estflo mullo próximos das doutrinas neognósticas. A KoeaUer também colaborou na
obra coletiva de I. J. Good.
B. L W horf: Language, Thought and Reality. Traduzido em francés sobo tftulo: Linguistique et
anthropologie (Denoól, 1969). B. L Whorf morreu prematuramente, mas fot, antes do tempo, urrnéo-
gnósüco.
ERIC Berne, médico e psiquiatra no seminário de psiquiatria social de San Francisco: Analyse
Iransacüonnelle en psychothárapie (Evergreen, 1961); Games People P la y. Traduzido em francés sob o
tftulo: Desjeux et des hommes (Stock, 1964).

Acrescentamos, aqui, duas obras de nossa autoría que oontfim (por antecipação) o espirito
gnóstico: L'Animal, L’Homme, la Fonctíon Symbolique (Gallimard, 1964); Raradoxes de la consnence
et limites de /'automatismo (Albin Michel, 1966).

Durante estes últimos dois anoa/os Neognóstioos tãm se interessado sobretudo, pelo funciona­
mento e peto comportamento do cérebro. Neste porrto, também, eles p a rte n da obeervaçâo deMfflca
mais estrita, aparentemente mais ‘ materialista” . Mas estão, na verdade, realizando a “ reversãopxtoti-
ca". Não nos foi possfvei aprofundar esse assunto na presente obra p o is 6 por demais recente «mere­
ceria um estudo à parte. Os Neognóstioos também lém se dedicado a o s campos biopsíqulcos “çiase-
fnagnátjoQe", ao btofeed-òacdc, às ondas csrebrals. aos “ estados a lte ra d o s " de conedônda, à tunçâodo
rinsncéfato, ao sonho, à memória como fenômeno cerebral esupracerabraLe aos fenômenosdavisão
como hoiograma. Sobre estes assuntos, consultar:
A. H. Maslom, presidente do departamento de peiootogia d a Untyenidade de Brandas ReH-
gious Valúes and Peak Experiences (Ohto State Universtty Press, 1962); TowardaPsychotogyolBetng,
em francés pela Fayard, em 1972, sob o tftuto: Vers une paychotoge del'ê*e.
C. K Taht: AMerod States ofConsctousness (J. Wiiey. 1970).
j. Whtte: The HigherStatae otConadousness (Anchor/Doubledsiy. 1972).
V. Levy: Le Mystèredu Cerveau (ed. Mtr, Moecou-Paris. 1972).

* A primeira ediçfio de A Gnose de Princeton ê de 1974. (A/.T.)

221
A GNOSE DE PRINCETON
Cientistas em busca de uma reaproximação
entre ciência, filosofia e religião

Raymond Ruyer

M ovim ento discreto — quando não, secreto


a Nova Gnose nasceu há alguns anos ñas
Universidades de Princeton e de Pasadena,
nos meios científicos de físicos,
astrónom os, cosmólogos e biólogos.

Essa Nova Gnose pretende ser


religiosa em seu espirito — ao mesmo tempo
em que se m antém estritamente científica.

E urna ciéncia pelo avesso — ou, antes,


uma ciência recolocada no seu lado direito.
Este livro desconcertante lança por térra
muitas perspectivas, e tende a renovar as relações
entre ciéncia, filosofia e religião.