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ARTIGOS ORIGINAIS

SOCIOPOÉTICA E FORMAÇÃO DO
PESQUISADOR INTEGRAL

Jacques Gauthier*

* Doutor em educação. Professor de Estudos Culturais. Centro Universitário Jorge Amado (UNIJORGE).
E-mail: jacques.jupaty@gmail.com

Resumo

Ao considerar os limites cognitivos da entrevista e as relações de poder que caracterizam as pesqui-


sas acadêmicas foi criada a sociopoética, voltada para a constituição de grupos-pesquisadores atores
e sujeitos da pesquisa, com valorização das culturas populares e de resistência, mobilização do corpo
inteiro como fonte de conhecimentos, utilização de técnicas artísticas de pesquisa e dialogicidade na
interação entre a academia e as comunidades anfitriões da pesquisa. O autor justifica teoricamente
essa abordagem e expõe os passos de realização de uma pesquisa, desde a negociação inicial até a
socialização, insistindo sobre os diversos momentos, analíticos e intuitivos, sensíveis, emotivos e
racionais da criação coletiva e cooperativa do conhecimento. Além de uma forte referência à filosofia
de Deleuze e Guattari estão expostas técnicas e noções originais que, além dos problemas, conceitos
e personagens conceituais que encontramos em obras filosóficas acadêmicas, caracterizam as pes-
quisas sociopoéticas.
Palavras-chave: Sociopoética; Metodologia da pesquisa; Filosofia; Interculturalidade.

Abstract
When considering the cognitive limits of the interview and the power relations that characterize the
academic research was created sociopoetics toward the formation of groups-research actors and
research subjects, with appreciation of popular culture and resistance, mobilizing the whole body as
source of knowledge, use of artistic techniques and research in dialogical interaction between academia
and the research community hosts. The author theoretically justifies this approach and exposes the
steps of conducting a survey, from initial negotiation to socialization, insisting on the various moments,
analytical and intuitive, sensitive, emotional and rational, to the collective and cooperative creation of
knowledge. In addition to a strong reference to the philosophy of Deleuze and Guattari, techniques and
original ideas are exposed that caracterize sociopoéticas research - besides the problems, concepts and
conceptual personae we find in academic philosophical works.
Keywords : Poetics; Research methodology; Philosophy; Interculturalism.

• Artigo submetido para avaliação em 16/10/2015 e aceito para publicação em 07/07/2015 •


DOI: http://dx.doi.org/10.17267/2317-3394rpds.v4i1.459
A ORIGEM DA SOCIOPOÉTICA

A Sociopoética nasceu há 20 anos a partir da ne- trevistados, ou seja, os saberes implícitos que lhes
cessidade de superar obstáculos que limitam con- permitem compartilhar o modo de vida da comu-
sideravelmente as pesquisas qualitativas em ciên- nidade); tudo que não pode ser dito neste tipo de
cias humanas e sociais, principalmente nas áreas situação de comunicação, porque demais impor-
de antropologia, saúde e educação. Pode-se dizer tante, ou muito íntimo...
que todos esses obstáculos vêm da posição de Na sua experiência de vida, cada um de nós
poder do pesquisador e da unilateralidade da sua aprendeu que existem saberes que fundamentam
formação. seu ser, mas que ficam inacessíveis e/ou inexpres-
De fato, o questionamento radical, bastante de- síveis pela linguagem racional, por serem rigidifi-
sestabilizador, aconteceu quando, numa pesquisa cados em nós nervosos, tensões musculares, alte-
de doutorado, uma das maiores e mais respeitadas rações da voz, oriundos de traumas ou opressões
autoridades indígenas perguntou, após a finaliza- internalizadas. Outros, pelo contrário estão relacio-
ção da sua entrevista: “Respondi corretamente?” O nados ao prazer de viver, à boa saúde e fluem na-
entrevistador ficou com vergonha, pois um sábio turalmente, sem que se perceba que são saberes...
e cientista na sua cultura estava se colocando em Como fazer para ter acesso a essas camadas
posição de aluno frente ao professor, enquanto a cognitivas tão importantes, que entrevistas dificil-
posição ética do pesquisador pretendia o oposto, mente poderiam alcançar? Obviamente não pre-
ou seja, que os pesquisadores acadêmicos apren- tendemos chegar à transparência, tal pretensão se-
dessem com humildade dos seus informantes. Por ria apenas o efeito de uma onipotência ridícula, e
certo, o entrevistado estava igualmente querendo duvidamos fortemente de que a transparência exis-
verificar que suas respostas ajudavam o entrevis- te. Mas pelo menos, que um pouco do não cons-
tador na sua pesquisa, era uma forma de bonda- ciente e não verbalizável entre na pesquisa é uma
de cooperativa. Isso pode acontecer com qualquer exigência para quem quiser ir além da superfície
pesquisador: ao refletir sobre o assunto, fica claro da vida.
que numa entrevista, seja individual, seja coletiva, A Arteterapia mostrou o caminho, juntamente
os entrevistados controlam o que dizem, ao ten- com técnicas teatrais oriundas do Teatro do Opri-
tarem dizer o que imaginam ser o certo (em rela- mido de Augusto Boal.(1) Nos dois casos, a arte
ção ao entrevistador – como no caso citado, ou ain- permite a expressão de conteúdos não conscien-
da, aos interesses da sua comunidade, ou ainda, à tes (fundamentalmente, baseados em relações de
parte consciente da sua própria mente); de qual- desejo e de poder) e sua elaboração coletiva pelo
quer maneira, eles se colocam no plano racional grupo, num vai-e-vem entre o afetivo e o racional.
do autocontrole.
Vejamos o que perdemos: toda a parte não ra-
cional das informações que os entrevistados po- AS ORIENTAÇÕES BÁSICAS DA
diam dar, a qual contém, como se sabe, o que
SOCIOPOÉTICA
move de maneira visceral as pessoas (as emoções,
o inconsciente ou subconsciente etc.); tudo o que Quando nasceu a sociopoética, conforme Gau-
não disseram, porque muito óbvio para eles, de- thier,(2) o que nos preocupava mais era, antes de
mais óbvio para que surja na sua mente como in- tudo, a instituição de relações de poder que po-
formação pertinente (e o óbvio, frequentemente, demos chamar de “revolucionárias”, permitindo
pertence ao que estrutura uma comunidade, por- que os grupos “objetos” das pesquisas acadêmi-
tanto, é de grande relevância para um pesquisador cas se tornassem “grupos sujeitos”, com referên-
que não compartilha os etnométodos dos seus en-

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cia aos Círculos de Cultura de Paulo Freire,(2) aos No plano teórico, esse aspecto foi recentemen-
Grupos Operativos de Pichon-Rivière,(3) à Análise te radicalizado em referência, tanto a experiências
Institucional e à Socianálise.(4) Também, ao tomar de vida em comunidades indígenas e afrodescen-
conhecimento de pesquisas envolvendo a arte e dentes como a leituras antropológicas de autores
baseadas na sociopoética, que aconteciam de ma- como Philippe Descola(5) ou Eduardo Viveiros de
neira, por certo, mais proveitosas e mais lúdicas, Castro.(6) A descolonização da academia – portan-
mais prazerosas, mas sem que o grupo pesqui- to, das nossas mentes – passa pelo reconhecimen-
sado tome poder algum na produção do conheci- to de que existem vários tipos de ciências, tanto
mento, foi necessário colocar como primeira orien- válidos como as ciências que cresceram no chão
tação caracterizando a sociopoética a formação do cultural europeu (que chamo de ciências “euro-
assim chamado “grupo-pesquisador”, autor coletivo descendentes”, para que possamos sair da impe-
da pesquisa, responsável pelo seu desenvolvimen- rialista pretensão à universalidade do saber acadê-
to e “dono” do conhecimento produzido. O acadê- mico – que criou a palavra “afrodescendente” ou
mico, no caso, é apenas o “facilitador” da pesquisa “indígena”, mas que se quer acima de todos esses
– veremos a seguir seu papel exato (de fato, é bom particularismos). A acupuntura é uma ciência, a fi-
ter dois facilitadores, pois não é fácil, ao mesmo toterapia indígena é uma ciência, a psicologia io-
tempo “facilitar” o trabalho e ficar atento a tudo ruba é uma ciência, pois, são saberes complexos
o que acontece no grupo-pesquisador). Um grupo e sistematizados, cuja pertinência é independente
vem se formando e se torna autor coletivo de uma da crença das pessoas ou não nas bases culturais
pesquisa sobre si próprio, sobre seu consciente e de onde surgiram. Não precisa ser taoísta para es-
inconsciente. tar curado pela acupuntura, nem participar de uma
Depois, e sempre em referência à preocupação comunidade indígena para estar curado por uma
política de se criar uma forma de “pesquisa do planta de poder. Esses saberes, tanto como as ciên-
oprimido”, para falar como Freire e Boal na épo- cias eurodescendentes, são universais. O que a
ca, colocamos como segunda orientação básica da contemporânea antropologia acrescenta é que não
sociopoética a valorização das culturas populares e de é suficiente respeitar os resultados dessas ciências
resistência. Dar poder ao povo na geração do saber (por exemplo, a cura), mas que temos de ter a hu-
científico significa ouvir e acolher modos não aca- mildade de acolher, também (o que não significa
dêmicos de se criar conhecimentos, seja através de necessariamente compartilhar e tornar nossos)
narrativas míticas, da intuição da fala certa no mo- os caminhos, os métodos que permitiram a pro-
mento certo, de afetos, do imaginário. O esquema dução dos referidos conhecimentos. Por exemplo,
de Jung colocando num eixo horizontal os sentidos quando um xamã nos diz que uma Planta-douto-
e as sensações de um lado, a intuição de outro, e ra, uma Planta-professora como a Jurema na Bahia
num eixo vertical as emoções de um lado e a razão ou a Ayahuasca na floresta amazônica, ou ainda,
de outro foi de grande ajuda, para que os facilitado- um sonho, lhe ensinou o remédio certo (e a hora
res de pesquisa avaliassem o equilíbrio, digamos, certa para colhê-lo) que curou seu paciente, aceita-
entre os conhecimentos produzidos, em termos de mos essa via não racional de constituição do saber,
razão, emoção, sensação e intuição. Gira o ima- não a julgamos nem folclórica nem inferior. Sim-
ginário, assim como, a gestualidade corporal, em plesmente, outra. Lévi-Strauss(7) já teorizou mui-
redor desse esquema bem prático... Em algumas to sobre o Pensamento selvagem e suas proximi-
pesquisas com indígenas Pataxó do Sul da Bahia, dade e diferença em relação com nossas ciências
dados foram até produzidos em estado ritual de acadêmicas.
transe, colocando seres não humanos em situação Colocar em posição de dialogicidade a leitura
de colaboradores das nossas pesquisas! dos dados da pesquisa – a partir dos referenciais
populares de um lado, e a partir dos referenciais

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acadêmicos de outro, não é apenas uma manei- mos esse termo de Paulo Freire: pode ser qualquer
ra de prolongar a obra de Paulo Freire no mundo noção), tal grupo-pesquisador (você não vai ne-
da pesquisa, mas também, de fecundar a pesquisa cessariamente utilizar a mesma técnica com crian-
acadêmica: tantas dissertações e teses são pouco ça e com pós-graduandos) e tal ambiente (certas
criadoras, por repetirem sempre as mesmas biblio- palavras podem ser tão carregadas em tal ou qual
grafias, verificando de maneira endógena e endó- comunidade que, apesar da pesquisa acadêmica
gama que mais uma vez tal ou qual grande autor puder ser descrita por essas palavras, é melhor
tem razão e permite admiravelmente explicar o ma- substitui-las por outras, como tema-gerador apre-
terial encontrado na pesquisa de campo! sentado ao grupo). É bom dizer, igualmente, que a
Agora chegam as terceira e quarta orientações segunda técnica de pesquisa depende muito dos
que caracterizam uma pesquisa sociopoética: mo- resultados da primeira. Pode ser interessante ex-
bilizar todos os recursos do corpo para produzir plorar outras zonas cognitivas do grupo-pesquisa-
dados: as sensações e sensibilidade, a intuição, as dor, ou quebrar dados demais unânimes, ou aplicar
emoções, a razão (de tipo matemática e mítica: o uma técnica que potencialmente revelará aspectos
logos – discurso racional lógico; o mythos – narrati- que o facilitador está intuindo (ou sabendo, pelas
vas das origens ou, mais simplesmente, narrativas suas leituras) e que a primeira técnica não revelou
populares como, por exemplo, as que os filmes de (e eventualmente, que ela permitiu, inconsciente-
Glauber Rocha encenaram; e o kairos – a percep- mente, esconder).
ção do momento certo para agir). E também, a ges-
tualidade, a dança, o imaginário etc. Para mobilizar
esses recursos utilizamos (e isso se constitui em COMO ACONTECE UMA
quarta orientação) técnicas artísticas de produção PESQUISA SOCIOPOÉTICA?
de dados – geralmente duas numa pesquisa de
mestrado e três num doutorado. Após a negociação da pesquisa (sobre qual tema,
A quinta orientação consiste na responsabilida- como, quando, onde, com quem etc.?) com a co-
de política, social, ética, cognitiva e espiritual do munidade ou a instituição, um grupo-pesquisador
grupo-pesquisador no desenvolver da pesquisa e é formado (de 6 a 16 pessoas, sendo desejável um
na sua exploração. O grupo-pesquisador tem direi- grupo de 8 a 12 pessoas, por causa da necessidade
to de pedir para certos dados não serem divulga- de se ouvir cada participante e haver diferenças o
dos, já que tocaram coisas por vezes muito sensí- suficiente: o que interesse a sociopoética é a singu-
veis; tem direito de pedir para a pesquisa servir aos laridade de cada membro do grupo-pesquisador e
interesses da comunidade, e não somente à carrei- não a busca de constantes ou tendências gerais).
ra do acadêmico: por exemplo ao desdobrá-la em Certas técnicas permitem ir até umas 20 pessoas
peça de teatro conscientizante, mostra fotográfica, – no caso algumas entre as análises são realizadas
vídeo, literatura de cordel etc. em pequenos grupos, para tornar o processo in-
vestigativo menos cansativo.
Falamos sempre de “produção de dados” e não
de “coleta de dados”, porque a prática de pesqui- Um relaxamento permite colocar cada copes-
sa evidenciou que, da mesma maneira que não se quisador em estado próximo ao recomendado
produzem os mesmos dados numa obra plástica pela psicanálise – cada um estando acolhendo e
e numa entrevista, toda técnica induz a produção expressando qualquer imagem ou ideia que sur-
de certo tipo de dados, e impede a produção de ja, sem censura nem reflexão crítica. Numa visão
outros. Uma das qualidades do bom facilitador mais “oriental”, pode-se dizer que esse relaxamen-
de pesquisa é intuir qual a técnica mais adaptada to permite as energias fluírem mais livremente no
para tal tipo de tema-gerador da pesquisa (toma- corpo de cada um em particular e no grupo em ge-
ral (com crianças, pode ser bom atingir o estado

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de relaxamento a partir de jogos que “esgotam” a uma primeira técnica e introduzir conflitos, dialo-
pessoa em lugar de pedir uma difícil concentração gicidade. Ela pede para alguns exercícios de aque-
de tipo ioga). Além disso, o relaxamento favorece a cimento teatral antes do relaxamento, para que se
constituição do grupo-pesquisador em “continen- alcance um bom nível expressivo e estético. Ob-
te suficientemente bom”, conforme Winnicott:(8) viamente é pedido para as imagens apresentadas
as pessoas se sentem à vontade para colocar coi- não serem descrições de uma situação e sim apre-
sas íntimas e vivenciar, até, conflitos, porque vi- sentações de afetos e emoções íntimas, ligadas ao
venciam o grupo como acolhedor e capaz de não tema-gerador.
emitir julgamentos. De fato, para “fazer” o grupo, - A técnica do Conto russo, assim chamada em
antes do relaxamento é bom instituir algumas brin- homenagem a Vladimir Propp,(10) um ancestre da
cadeiras, como as utilizadas na formação de ato- semiótica estruturalista. É muito pertinente em
res. Um diário de itinerância – tal como teorizado movimentos populares tentando mudar sua reali-
por René Barbier(9) – está colocado a disposição do dade. Imagine-se (e desenha-se em papel Canson
grupo, onde poder-se-á colocar escritos, poemas, com lápis-cera) 12 momentos: o herói da história; o
sonhos, desenhos, fotos etc. a qualquer momen- objeto de desejo deste herói; um lugar onde acon-
to. Esse diário é lido e grupalmente comentado no tece a história; um vilão que quer o mesmo objeto;
início de cada sessão: seus dados pertencem aos uma interdição (que está presente para ser trans-
dados da pesquisa. gredida); a luta entre herói e vilão, com derrota do
Em estado de relaxamento é pedido para os co- herói; a intervenção de um doador (humano ou
pesquisadores deixarem chegar uma imagem refe- não humano); um objeto dado (que pode ser ma-
rente ao tema-gerador da pesquisa. As técnicas de terial ou não); a vitória do herói; um aliado inespe-
inspiração artística são múltiplas e cada facilitador rado que favoreceu essa vitória; uma marca recebi-
pode inventar técnicas que correspondem ao seu da; o triunfo final.
gosto e saber-fazer. Entre elas vou citar cinco, que - A técnica do Jogo de Tarô, excelente em grandes
participaram do nascimento da sociopoética: grupos. Formamos 4 pequenos grupos, da Terra,
- A técnica dos Lugares geomíticos, que sempre do Fogo, da Água e do Ar e para cada elemento são
dá bons resultados: por exemplo, sobre o tema- distribuídos materiais diferentes para se realizar
-gerador da saúde, relaxados, os copesquisadores cartas de Tarô: papel tipo Canson, panos para lim-
deixam fluir neles uma imagem da saúde como peza das mãos, cola, água e tinta para todos, mais
Terra, depois, Ponte, depois, Poço, depois, Fluxos, argila para os integrantes do grupo da Terra (que
depois, Falha, depois, Cume, Labirinto etc. Pode- realizarão “esculturas” coladas no papel Canson),
-se criar vários tipos de lugares geomíticos. É im- canudos e bolas de soprar para os do grupo do Ar
portante pedir detalhes sobre as imagens mentais (que soprarão a tinta a partir dos canudos e bolas),
criadas, no caso de os copesquisadores não colo- fósforo e lápis-cera para os do Fogo (que deixarão
carem-nas em forma de desenhos. Evitar abstração derreter os lápis-cera sobre as folhas), o povo da
e sim, criar imagens bem concretas, o que é uma Água pintando com os dedos. Em cada carta as-
aprendizagem na nossa cultura... sim produzida deve constar um desenho, tal como
- A Técnica do Teatro-imagem, diretamente inspi- surgiu na imaginação, um número (depois será ne-
rada em Augusto Boal. Os copesquisadores criam gociado grupalmente a organização do jogo), um
imagens congeladas, com um a quatro atores, símbolo e um título.
apresentando um afeto potente relacionado ao te- - A técnica dos Sentidos: de olhos vendados, os
ma-gerador. Cada copesquisador encena sua ima- copesquisadores devem escolher 3 objetos reco-
gem congelada. Essa técnica é excelente para que- nhecidos pelo mero tato, ou 3 cheiros, ou 3 gos-
brar dados demais consensuais produzidos por tos etc. para qualificar o tema-gerador da pesquisa.

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É importante os facilitadores proporem objetos, paradoxo. Já nasce o grupo-pesquisador como filó-
cheiros, gostos, sons etc. bem diferenciados sen- sofo mesmo!
sitivamente, entre os quais deve-se fazer sua es- Além disso, vão aparecer perfetos (misturas de
colha. E sobretudo, explicitar que não se trata de perceptos e de afetos: os perfetos são característicos
reconhecer e identificar (logo, de ficar no mundo das obras de arte; podemos dizer que os artistas
utilitário da vida prática), e sim de poetizar, no sen- são potentes criadores de perfetos), confetos (mis-
tido de se envolver na pura sensação, de se deixar turas de conceitos e de afetos; na vida comum,
penetrar e submergir... pensamos por confetos, somente os filósofos pro-
Qualquer que seja a técnica, conforme a me- fissionais tentam pensar por puros conceitos!) e in-
todologia de Boal, cada um comenta o dado que tuicetos (misturas de intuição e conceitos).
produziu, relacionando-o (o que, às vezes, é um É prático tecer confetos em forma de rizomas. Por
desafio!) com o tema-gerador da pesquisa, sem in- exemplo, em Salvador foram criados estes confe-
terferência, neste momento, dos demais membros tos de saúde: - a saúde como energia-respeito-equilí-
do grupo-pesquisador. brio-paz, com afrodescendentes integrantes de um
Em seguida, os copesquisadores analisam “na terreiro de candomblé; - a saúde como tranquilida-
hora” o conjunto dos dados produzidos, em con- de pessoal e social-caos institucional-responsabilidade
versa livre, devendo o facilitador ser o guardião do individual e coletiva-brincadeira num grupo-pesqui-
tempo e da repartição igual das falas dentro do sador principalmente constituindo de alunos e alu-
grupo. Ele evita comentários próprios, obviamen- nas afrodescendentes evangélicos de um colégio
te nunca avalia, mas questiona as pessoas, o gru- público. Os intuicetos são delicados, mas sempre
po, se for necessário. No meu ver, é bom exercitar estão encontrados-criados, já que mexemos com
os copesquisadores a melhorar sua percepção e dimensões não racionais da inteligência humana,
suas sensações imediatamente antes dessa análi- ligadas ao cérebro direito. São intuições colocadas
se grupal, pois na nossa cultura, a tendência é de em forma discursiva, “conceitual”. Existem técni-
“não perceber as percepções”, de não ficar aten- cas que facilitam o despertar e a atuação da intui-
to às suas sensações e substituí-las por projeções ção, geralmente ignorada pela cultura acadêmi-
sentimentais ou imaginárias. Gosto de instituir o ca, no processo de pesquisa. O próprio facilitador
“jogo-de-bichos”, onde cada um brinca de se colo- deve confiar muito na sua intuição quando estuda
car na pele de um animal, vivenciando com intensi- os dados da pesquisa, “em casa”. Como ele con-
dade a perspectiva, o mundo sensitivo e perceptivo fia a priori na criatividade e inteligência coletiva do
do mesmo. Muitos risos, e muitas aprendizagens grupo-pesquisador.
também. Imediatamente após esse jogo realiza- Metodologicamente, realizamos uma “análise
mos a análise coletiva e cooperativa pelos copes- por categorização” dos dados em grandes “catego-
quisadores dos seus próprios dados. rias” que se opõem, diferenciam, conforme a tra-
Em casa, tranquilamente, o facilitador estuda o dição analítica do pensamento eurodescendente.
conjunto dos dados e tenta apontar as regularida- Depois, ao avesso, relacionamos o que a análise
des e divergências que existem no grupo-pesqui- separou, no assim chamado “estudo transversal”
sador pensado como sendo um cérebro coletivo, dos dados, que dá um ponto de vista mais “orien-
um filósofo com ideias em conflito, divergência ou tal”, ou “feminino” sobre esses dados, ao privile-
convergência, desdobramento ou isolamento etc. giar o elo sobre a distinção: muitas vezes o estudo
Essa é a tarefa mais difícil. O objetivo é apontar transversal toma forma de poemas, individuais e/
o ou os problemas filosóficos que o grupo-pesqui- ou coletivos. Depois vem a análise filosófica: o fa-
sador elaborou, sendo um problema caracterizado cilitador coloca essa produção em diálogo com as
por uma contradição, um conflito cognitivo ou um teorias, academicamente valorizadas, dos pensa-

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dores da área. É um momento forte na escrita de educação baseadas nos saberes dos Encantados. Es-
uma tese ou dissertação. E por fim, podemos reali- ses personagens podem ser e devem ser discuti-
zar, a título de experiência e brincadeira, um estudo dos, obviamente, com o grupo-pesquisador, a fim
“surreal” dos dados: para cada copesquisador será de detalhar suas características.
pedida uma nova produção, a partir do mais estra- Neste momento, já estamos prontos para apli-
nho e singular do que ele já produziu. Por exemplo, car uma segunda técnica artística de pesquisa.
se isso acontecer na produção de um integrante do
Após a segunda ou terceira técnica, é bom rea-
grupo-pesquisador, o que pode ser a saúde como
lizar entrevistas, individuais e/ou coletivas, basea-
sendo, ao mesmo tempo, Ponte e Poço? Ou Cume e
das na originalidade das colocações de cada um. Aí
Falha? Ou Terra e Vento?
as entrevistas recebem sentido pleno, já que estão
Vem a sessão de contra-análise, em que o gru- presentes os afetos íntimos de cada um, e não ape-
po-pesquisador avalia problemas, perfetos, confetos nas a superfície racional das coisas.
e intuicetos – tais como foram apontados pelo faci-
A experiência mostrou que com oito sessões de
litador. Geralmente, para facilitar o debate, os mes-
2 horas cada uma, mais entrevistas que podem
mos estão apresentados a partir de questionamen-
ser programadas com mais flexibilidade, podemos
tos. Se o grupo não concordar com as “conclusões
realizar um bom trabalho, de tipo pesquisa de mes-
hipotéticas” do facilitador, pode ser realmente que
trado ou até, doutorado. A quantia de dados rele-
este não percebeu aspectos importantes do mun-
vantes produzida é assustadora, sendo o mais difí-
do da comunidade em que ocorre a pesquisa, ou
cil decidir quais os mais pertinentes!
que o grupo-pesquisador “resiste” ao desvelamen-
Todos saem da pesquisa, tanto o facilitador
to de parte do seu inconsciente. A contra-análise
como os copesquisadores, transformados. Não
tem o mérito de tranquilizar o facilitador, já que
é raro vivenciarmos emoções fortíssimas, ligadas
suas “conclusões” (de fato, sua elaboração teóri-
ao surgimento de fatos recalcados, de histórias de
ca a partir dos dados coletivamente criados – sem
vida comoventes, e choros e risos alternam. Por
nenhuma projeção, seja pessoal, seja a partir de
isso o grupo-pesquisador deve imperativamente
teorias conhecidas) estão assim “verificadas” pelo
ser um continente bom, e o facilitador uma pessoa
grupo-pesquisador. Esse momento sempre permi-
que traz uma energia amorosa livre de qualquer
te um aprofundamento da pesquisa em direções
julgamento ou preconceito, no sentido do “sonhar
geralmente inesperadas. É um momento muito
com” cada membro do grupo-pesquisador, no sen-
rico.
tido da capacidade de devanear segundo Winni-
Assim vem se definindo o perfil do personagem
cott. O facilitador é o mestre das técnicas de pes-
conceitual criado pelo grupo-pesquisador na pró-
quisa, o guardião do tempo e do direito igual de
pria atividade de pesquisa. A teorização do per-
cada um se expressar. Ele deve possuir uma grande
sonagem conceitual encontra-se em Deleuze e
vigilância amorosa, emanando carinho, poesia e crí-
Guattari(11) e em Gauthier(2) no que diz respeito às
tica, conforme enfatiza Gauthier.(12)
pesquisas sociopoéticas. É só pensar no “Amigo”
em Platão, no “Investigador” em Hume, no “Pro-
letário” em Marx ou no “Idiota” em Descartes. Por
O LUGAR DA SOCIOPOÉTICA NA
exemplo, personagens conceituais em relação ao
tema-gerador da saúde, em dois grupos-pesquisa-
INSTITUIÇÃO ACADÊMICA: RUMO
dores indígenas Pataxó da Bahia, foram identifica- AO PESQUISADOR INTEGRAL
dos, respectivamente, como Marginalizado em bus-
O lado inovador da sociopoética permite-lhe encon-
ca da terra, do básico, da autonomia e do mundo de
trar a pesquisa-ação e as várias formas de pesquisa
fora e como Demarcador de terra-mãe com saúde e
participante. Ela é uma intervenção na realidade so-

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cial, de tipo crítico e poético. Daqui seu nome. Mas ela é um método, no sentido apontado por Edgar
ela não tem o propósito direto de transformar essa Morin,(15) de caminho se fazendo caminhando, e não
realidade. Primeiro, ela trabalha com as pessoas uma teoria (ao avesso da etnometodologia, que é
membros do grupo-pesquisador, e essas mudam uma teoria do social e não um método). Mas acon-
no processo de pesquisa, segundo seu livre-arbí- tece que muitos entre os sociopoetas de hoje se
trio. Em consequência, as mesmas pessoas muda- reconhecem em Deleuze e Guattari, além de Fou-
rão a realidade na qual estão inseridas. Principal- cault ou Lourau e Lapassade (criadores da Análise
mente ativa nas áreas de Enfermagem e Educação, Institucional) que sempre fertilizaram nossa refle-
a sociopoética pode criar configurações inéditas xão. A tendência, de fato, é continuarmos o aporte
de pesquisa-ação, como ficar na mera perspectiva de Gilles Deleuze e de Félix Guattari, notadamente,
da criação de conhecimentos novos, atravessados quando os grupos-pesquisadores criam novos se-
pela percepção, pelos afetos e pela intuição. res filosóficos, nunca elaborados por filósofos pro-
Existem numerosas dissertações de Mestrado fissionais, já que diretamente oriundos das suas
e teses de Doutorado, além de TTC e pós-douto- experiências existenciais. Mas a sociopoética aco-
rados, uma revista – Entrelugares,(13) mantida pela lhe teóricos de várias tendências, pois os conhe-
Faculdade de Educação na Universidade Federal cimentos cocriados vêm diretamente do grupo-
do Ceará – e múltiplos artigos e livros, referentes a -pesquisador e apenas no momento chamado de
pesquisas desenvolvidas na abordagem sociopoé- “filosófico” os colocamos em diálogo com tal ou
tica. O reconhecimento acadêmico já é forte. Re- qual teoria de que gostamos (e, geralmente, para
centemente, um congresso acolheu na Escola de enriquecer essa teoria, não apenas para aplicá-la).
Enfermagem da UERJ pesquisadores de várias re- Para ser facilitador, é preciso, além da vigilância
giões do Brasil e dos Estados Unidos para a come- amorosa já citada, ousadia (gosto pelo desconhe-
moração de 20 anos de sociopoética. cido e arriscado) e confiança, muita confiança na
Podemos dizer que os grandes eixos da socio- inteligência coletiva, povoada de afetos e intensida-
poética, hoje em dia, dizem respeito à exploração des maravilhosas, do grupo-pesquisador. Um certo
dos caminhos para a autonomia de comunidades gosto para com a arte, as técnicas corporais, além
e movimentos sociais instituindo um mundo mais da ciência. É neste sentido que podemos enfatizar
justo, à pesquisa inter e transcultural, ao cuidar in- o papel da sociopoética na formação do que cha-
tegral e à pedagogia libertadora. A exploração das mamos de Pesquisador Integral, que sabe unificar
potências criativas do corpo tem um papel central ciência e arte, despertar as múltiplas e escondidas
nos dispositivos sociopoéticos. As alianças com potências cognitivas do corpo e, assim, reconciliar
movimentos populares, indígenas, afrodescenden- saber e sabedoria, ciência e espiritualidade.
tes, comunidades urbanas e rurais, é forte. A socio- Não se trata de desprezar outras dinâmicas de
poética está criando rizomas que perpassam a aca- pesquisa, sejam quantitativas, sejam qualitativas,
demia e essas comunidades. Rizomas existenciais mas com outro direcionamento. Trata-se de inte-
e rizomas de saber. grar o mundo da pesquisa, ao trabalharmos em ní-
O tempo e a experiência mostrou o quanto a fi- veis diferentes, cada um com suas potências e seus
losofia de Deleuze e Guattari(14) é útil para pensar- limites. Escolhemos a sociopoética porque pensa-
mos o que acontece no grupo-pesquisador. Even- mos e achamos ter experimentado que é a mais
tos, linhas de fuga, Corpo sem Órgão (CsO), rizomas potente abordagem existente em termos cogniti-
e devires são conceitos criados pelos referidos vos, mas é só uma opção, obviamente criticável.
autores que descrevem bem o que vivenciamos A questão é muito mais ampla que um gosto ou
em pesquisas sociopoéticas. Nunca queríamos uma preferência. Urgente é, com efeito, a injeção
fundamentar a sociopoética numa teoria particular, da espiritualidade no conhecimento, de maneira

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metódica e complexa. Não queremos conhecer 3. Freire P. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro:
sem, ao mesmo tempo, afirmar a solidariedade, Paz e Terra; 1987.
o amor e a compaixão com os outros seres vivos. 4. Instituto Pichon-Rivière de São Paulo. O
Isso passa pelo enfrentamento com nossos mons- processo educativo segundo Pichon-Rivière &
tros interiores, os monstros interiores do grupo- Paulo Freire. Petrópolis, RJ: Vozes; 1989.
-pesquisador, os monstros sociais etc. Importante 5. Lourau R. Análise institucional e práticas de
neste sentido é o devir do grupo-pesquisador, prin- pesquisa. René Lourau na UERJ. Rio de Janeiro:
cipalmente quando nos sentimos atravessados por Universidade do Estado do Rio de Janeiro,
Departamento de Extensão; 1993.
afetos que atravessam também outros copesquisa-
dores, quando nos sentimos múltiplos, ao mesmo 6. Descola P. Par-delà nature et culture. Paris:
tempo infra e supra-individuais. Aí estão em jogo Gallimard; 2005.
coisas fundamentais, que mexem com nosso es- 7. Viveiros de Castro E. A inconstância da alma
tar-no-mundo e acontece que a pesquisa, apesar selvagem. São Paulo: Cosac Naify; 2013.
de não ser feita para isso (nunca é instituído um 8. Lévi-Strauss C. La pensée sauvage. Paris: Plon;
contrato de cura, e sim de criação de saber), tem 1962.
efeitos de cura. 9. Winnicott DW. Jeu et réalité. L´espace
Neste sentido, somos integrais porque integra- potentiel. Paris: Gallimard; 1975.
dos. O grupo é o continente dessa integração pes- 10. Barbier R. A pesquisa-ação. Brasília: LiberLivro;
soal e coletiva, integração em si mesmo e com os 2006.
outros. Essa integração, sem dúvida alguma, per- 11. Deleuze G, Guattari F. Qu´est-ce que la
mite lutas eficientes a favor de um mundo mais philosophie ? Paris: Minuit; 1991.
comprometido com valores essenciais de amor, 12. Gauthier J. Do mar ao orvalho: aprendendo a
justiça e solidariedade. Pelo menos, a sociopoéti- vigilância amorosa. In: Grando BS, Passos LA.
ca participa, assim, do processo de espiritualiza- O eu e o outro na escola: contribuições para
ção da vida. incluir história e a cultura dos povos indígenas
na escola. Cuiabá: EdUFMT; 2010. p. 17-19.
13. Entrelugares. Revista de sociopoética e
REFERÊNCIAS abordagens afins. Disponível em: www.
entrelugares.ufc.br
1. Boal A. O teatro do oprimido e outras poéticas 14. Deleuze G, Guattari F. Mille plateaux. Paris:
políticas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira; Minuit; 1980.
1988.
15. Morin E. Introduction à la pensée complexe.
2. Gauthier J. O oco do vento: metodologia da Paris: ESF; 1990.
pesquisa sociopoética e estudos transculturais.
Curitiba: CRV; 2012.

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