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TEORIA GERAL DO PROCESSO PENAL -

RESUMO

1 Formas de solução de conflitos:

Autotutela: solução dos conflitos pelas próprias partes envolvidas,


mediante o uso da força (prisão em flagrante – art. 302 do CPP) (estado de
necessidade e legítima defesa – arts. 24 e 25 do CP).

Autocomposição (art. 98, I, da CF e art. 76 da Lei 9.099/95): solução


negociada do conflito, podendo contar com o auxílio de mediadores ou
conciliadores

Heterocomposição: solução imperativa do conflito por um terceiro


imparcial, que substitui a vontade das partes, aplicando o direito objetivo ao
caso concreto. No processo penal, essa função é exercida privativamente
pelo Poder Judiciário, salvo a hipótese do art. 52, I, da Constituição Federal.

2O ESTADO

Existem diversas teorias de ordem jurídica, filosófica e sociológica a


respeito da origem do Estado. No âmbito da ciência política, muitos autores,
como Celso Ribeiro Bastos, asseveram que é o poder que constitui o Estado.
Os Estados passam a constituir unidades nacionais, sobrepondo-se
interna e internacionalmente a outras entidades, como as Corporações de
Ofício e ao Papado, a partir do Século XVI.

-Pessoa jurídica de direito público.

ESTADO: Entidade dotada de poder soberano, é o titular exclusivo


do direito de punir (pretensão punitiva).

O direito de punir (jus puniendi) é genérico e impessoal, porque não


se dirige a esta ou aquela pessoa.

No momento em que é cometida a infração, nasce para o estado uma


pretensão contra determinada pessoa. Surge então um conflito de interesses.
Atualmente, trata-se de lide e em que o contraditório é necessário.

Estados absolutistas- Governante sem controle  abuso do poder

SANTA INQUISIÇÃO utilização do processo inquisitivo

ILUMINISMO- Movimentos de resistência e contenção ao Poder:


Revolução Gloriosa, na Inglaterra, e Revolução Francesa

Caminho evolutivo: Estado absolutista  Estado de direito - Estado


democrático de direito

3A TEORIA DA TRIPARTIÇÃO DOS PODERES


- MONTESQUIEU: desenvolveu nova engenharia institucional, com
repartição dos Poderes conforme as funções típicas dos Estados (gerir,
legislar, fiscalizar e julgar), cabendo ao Poder Judiciário o julgamento das
causas, ao Legislativo a elaboração das leis e a fiscalização das contas
públicas e ao Executivo a gestão da coisa pública e a implementação das
políticas públicas.
Além disso, elaborou a chamado Sistema de Freios e Contrapesos, em
que os reciprocamente se fiscalizam, atenuando ou anulando os excessos
cometidos. Consiste em forma de limitação do Poder.

4CONSTITUCIONALISMO

Movimento político, social e cultural que, sobretudo a partir do século


XVIII, questiona nos planos político, filosófico e jurídico os esquemas
tradicionais de domínio político, sugerindo, ao mesmo tempo, a invenção de
uma forma de ordenação e fundamentação do poder político.

Exemplos: Magna Carta de 1215; Petition of Rights, de 1628; Bill of


Rights, de 1698;

Constitucionalismo moderno: constituições escritas Constiuição


norte-americana de 1787 e a francesa de 1791. Produtos do Iluminismo
contra o absolutismo.

-Intelectuais da época do Iluminismo, como Rosseau (“O contrato


social”), defendiam que a titularidade do poder residia no povo..

Evolução dos modelos constitucionais: Liberalismo clássico-Estado


de Direito Estado Democrático de direito: totalitarismo constitucional
(normas programáticas e de cunho social): direitos de primeiro, segunda e
terceira dimensão.
5CONSTITUIÇÃO

eficácia vertical e horizontal da Constituição

“Se perguntarmo-nos qual o objeto fundamental com que se defronta


uma Constituição, vamos encontrar uma só resposta: a regulação jurídica do
poder. Na verdade, é a configuração que vier a ser imprimida a ele, a sua
afetação a estes ou àqueles detentores, sua maior ou menor concentração, os
controles de que é passível, assim como as garantias dos destinatários do
poder que acabam por conformar o Estado e a sociedade.” (Curso de Direito
Constitucional, Celso Ribeiro Bastos, p. 12)

6 SISTEMAS PROCESSUAIS

Inquisitivo: “é caracterizado pela concentração de poder nas mãos do


julgador, que exerce, também, a função de acusador; a confissão do réu é
considerada a rainha das provas; não há debates orais, predominando
procedimentos exclusivamente escritos; os julgadores não estão sujeitos à
recusa; o procedimento é sigiloso; há ausência de contraditório e a defesa é
meramente decorativa” (Curso de Processo Penal, p. 71 – PACELLI) -
Sistema muito eficiente, contudo, o réu era vista como objeto de investigação
e não como sujeito de direito, sendo ainda permitida a tortura. Deu ensejo a
muitas arbitrariedades, como as praticadas pela Santa Inquisição contra os
hereges.

Acusatório: “Possui nítida separação entre o órgão acusador e o


julgador; há liberdade de acusação, reconhecido o direito ao ofendido e a
qualquer cidadão; predomina a liberdade de defesa e a isonomia entre as
partes no processo; vigora a publicidade do procedimento; o contraditório
está presente; existe a possibilidade de recusa do julgador; há livre sistema
de produção de provas; predomina a maior participação popular na justiça
penal e a liberdade do réu é a regra” (Curso de Processo Penal, PACELLI,
p. 71).

Misto: “Surgido após a revolução Francesa, uniu as virtudes dos dois


anteriores, caracterizando-se pela divisão do processo em duas grandes fases:
a instrução preliminar, com os elementos do sistema inquisitivo, e a fase de
julgamento, com a predominância do sistema acusatório. Num primeiro
estágio, há procedimento secreto, escrito e sem contraditório, enquanto, no
segundo, presentes se fazem a oralidade, a publicidade, o contraditório, a
concentração dos atos processuais, a intervenção dos juízes populares e a
livre apreciação das provas.” (PACELLI. Curso de Processo Penal, p. 72).
Há a figura do juiz de instrução, na fase de inquérito, do promotor acusador
e, por fim, do juiz que irá julgar. É o modelo adotado pelo CPP francês de
1808.

7 O MODELO BRASILEIRO

Origem do CPP brasileiro: 1941 – Governo Getúlio Vargas.

Sistema brasileiro: abstraindo-se o inquérito (de natureza inquisitiva,


na fase pré-processual), ainda assim o sistema brasileiro é misto, porque
permite poderes instrutórios ao juiz (art. 156 do CPP), bem como a
decretação, de ofício, da prisão do réu (art. 282, §2º e §4º)

8 CONCEITO DE PROCESSO PENAL


“É o conjunto de princípios e normas que disciplinam a composição
das lides penais, por meio da aplicação do Direito penal objetivo.” (CAPEZ,
Fernando. Curso de Processo Penal. 24.ed., p. 41).

- “ É o conjunto de princípios e normas que regulam a aplicação


jurisdicional do Direito Penal, bem como as atividades persecutórias da
Polícia Judiciária, e a estruturação dos órgãos da função jurisdicional e
respectivos auxiliares” (José Frederico Marques, p. 20, Elementos de direito
processual penal).

“O ramo do direito público que se ocupa da forma e do modo pelos


quais os órgãos estatais encarregados da administração da justiça
concretizam a pretensão punitiva, por meio da persecução penal e
consequente punição dos culpados” (MOUGENOT; Curso de Processo
Penal, p. 51)

O processo pode ser visto sob dois ângulos, mas intimamente conexos:
a) a sua forma extrínseca (procedimento) e b) as relações que vinculam os
sujeitos processuais.

O processo compreende o procedimento e a relação jurídica


processual.

Aspecto objetivo: procedimento

Aspecto subjetivo: relação jurídica processual.

9 - PROCEDIMENTO
O procedimento pode ser (art. 394 do CPP): ordinário, sumário e
sumaríssimo (art. 61 da Lei 9.099/95).

JÚRI: arts. 406 a 497 do CPP.

A relação jurídica processual se estabelece entre os sujeitos


processuais (autor, réu e Estado-Juiz), atribuindo-se a cada um direitos,
obrigações, faculdades, ônus e sujeições.

10. TEORIAS SOBRE A NATUREZA JURÍDICO DO


PROCESSO PENAL (doutrina de AURY LOPES JR)

2.Breve história do processo civil

Durante a período romano, a Idade Média e até o início da idade


moderna, as leis processuais eram vistas como ancilares ao direito material.
As leis do final da Idade Média e início da Era Moderna em Portugal, a
exemplo das Ordenações Afonsinas, Manuelinas e Filipinas trataram, muitas
vezes, do regramento do processo juntamente com disposições de direito
material. Nesse sentido, é o disposto nos Livros I e V das Ordenações
Filipinas.

A esse estado de coisas no ambiente processual a doutrina


convencionou chamar de fase do sincretismo processual.
2.1 Sincretismo processual

Nesse sentido, é importante destacar, como o faz Elpídio Donizetti (p.


26), que, nos primórdios, o “(...) sistema processual era vista como simples
fração do direito privado, desprovido de qualquer autonomia. Mencionado
período ficou conhecido como sincretismo processual ou praxismo.” (p. 26).

O direito e ação eram vistas como uma única realidade, considerando-


se o Direito Processual Civil como uma projeção do Direito Civil em juízo.1

No entanto, em função dos ideais defendidos no Iluminismo, que,


posteriormente, foram incorporados pelas Constituições Americana (1787) e
Francesa (1789), como a previsão das Tripartição dos Poderes e do Sistema
de Freios e Contrapesos, assim como a titularidade do Poder pelo povo, a
percepção a respeito do sistema processual mudou por inteiro.

Isto porque, com o advento do constitucionalismo moderno e, por


conseguinte, de constituições escritas, o Poder passou a sofrer maior
regulamentação, o que se traduziu, na seara jurídica - uma das funções típicas
do Estado (a jurisdição é a expressão de uma parcela da soberania estatal) -,
na edição de novos Códigos, como se viu na França.

Por outro lado, as partes passaram a ser vistas como sujeitos de direito
contra o Estado, como os direitos de primeira geração ou dimensão, como a
igualdade, o contraditório e a ampla defesa; devido processo legal e direito
de petição.2 Portanto, a velha ordem processual não se adequava a esses

1
ALVIM, Arruda. Manual de direito processual civil. – 15. ed. rev., atual. e ampl. – São Paulo: Editora
Revista dos Tribunais, 2012, p. 125.
2
SARLET, Ingo Wolfgang. A eficácia dos direitos fundamentais. 4. ed. rev. atual. e ampl. – Porto Alegre:
Livraria do Advogado, 2004, P. 55
postulados, motivo pelo qual novos Códigos foram editados e novas teorias
surgiram a respeito do direito processual.

2.2 Fase científica do processo civil ou processualismo


(teorias sobre a natureza jurídica do processo)

A partir do início do século XIX intensificam-se os estudos em torno


da legislação processual, sendo publicada em 1868 uma obra, considerada
por muitos, a certidão de batismo do direito processual (CÂNDIDO
DINAMARCO, Instituições, vol. I, p. 258). Trata-se do livro publicado por
Oscar Von Bülow (Teoria das exceções processuais e os pressupostos
processuais), em que se distinguiu o direito material controvertido do
processo.

Com efeito, o autor destaca nessa obra a relação jurídica de natureza


pública que se estabelece entre as partes e o juiz, dando origem a uma
reciprocidade de direito e obrigações processuais. É uma relação jurídica
autônoma e complexa, tendo métodos e objetos materiais próprios, quais
sejam, as categorias jurídico-processuais (jurisdição, ação, defesa e
processo), portanto, distintos do direito material. Nesse sentido, os
processualistas perceberam que o processo não era um modo de exercício
dos direitos, mas o caminho para se obter a tutela jurisdicional.
 Mérito: sistematização da relação jurídica processual,
distinguindo-a da relação jurídica material. Percepção do
processo como ciência.

Processo como situação jurídica (JAMES GOLDSCHMIDT): o


processo é visto como um conjunto de situações processuais. É pautado pelo
risco e pela incerteza. O processo é uma complexa situação jurídica, no qual
a sucessão de atos vai gerando chances, que, bem aproveitadas, permitem
que a parte se libere das cargas (por exemplo, probatórias) e caminhe em
direção a uma sentença favorável (expectativas). Toda a carga probatória
pertence à acusação (AURY LOPES Jr, Direito Processual Penal).

Processo como procedimento em contraditório (ELIO


FAZZALARI): supera a visão formalista-burocrática da concepção de
procedimento até então vigente, resgatando a importância do contraditório
que deve orientar todos os atos do procedimento até o provimento final
(sentença).

O contraditório é visto em duas dimensões (informazione e reazione),


como direito a informação e reação (ciência e participação).

Características do relação jurídico-processual penal atualmente:


trilateralidade, autonomia, caráter público da relação jurídica processual,
progressividade, complexidade (ora a parte é titular de direitos e poderes, ora
de ônus de obrigações), marcada pela contraditório e ônus probatório do
órgão acusador.
11 PROCESSO PENAL E PROCESSO CIVIL

O art. 3º do CPP permite a integração analógica das lacunas da


legislação processual penal com normas de outros ramos do direito, como,
por exemplo, o direito processual civil (Código de Processo Civil).

Ex: punição à má-fé processual (art. 80 do CPC)

Ex 2: art. 387, IV, do CPP (fixação do valor mínimo a título de


indenização cível

12 PROCESSO PENAL E DIREITO PENAL

Princípio da Necessidade: o Direito Penal, ao contrário do direito


civil, não admite solução extraprocessual. Toda aplicação de pena há de ser
feito (nulla poena et nulla culpa sine iudicio).
O processo penal é um caminho necessário para chegar-se
legitimamente à pena.

Instrumentalidade do processo penal : o processo penal não pode


ser visto como simples instrumento a serviço do poder punitivo. Há
necessidade de respeito às garantias fundamentais.

13 FONTES DO PROCESSO PENAL

Fontes materiais (CRIAM o direito):


- Em direito processual: UNIÃO (art. 22, I, da CF) :
competência privativa, mas não exclusiva. Lei estadual, autorizada por lei
complementar federal, pode versar sobre o tema (art. 22, parágrafo único, da
CF).

Competência concorrente: legislação sobre Juizados


Especiais (art. 24, X, e 98, I, da CF) e sobre direito penitenciário (art. 24, I,
§1º e §2º, da CF).

Fontes formais (modo como é revelado o direito): CF, CPP, leis


especiais e precedentes vinculantes do STF, costumes, princípios gerais do
direito.

- Fontes formais imediatas: os precedentes (art. 927 do


CPC e art. 102, §2º, da CF c/c arts. 1º a 3º da Lei nº 11.417/2006), a CF e a
legislação processual infraconstitucional

- Fontes formais mediatas (art. 4º da Lei de Introdução


ao Código Civil): costume (normas de comportamento que as pessoas
obedecem de maneira uniforme e constante, pela convicção de sua
obrigatoriedade jurídica). OBS: o costume nunca poderá revogar uma lei.
Art. 2º, §1º, da LICC) e princípios gerais de direito

14 JURISDIÇÃO
A palavra jurisdição é uma tradução da expressão em latim
“jurisdictio”, que significa o ato de dizer o que é o direito (MOUGENOT,
Curso de Processo Penal, p. 61).

Trata-se de uma das funções típicas do Poder Judiciário. Já Aristóteles,


em sua obra “A política”, e, posteriormente, Montesquieu, em sua obra, “O
espírito das leis”, trataram dessa função típica. O primeiro divisou-se como
um Poder do Governo, convivendo com os outros dois. O outra empregou-
lhe uma configuração original, como um Poder independente dos demais.

O exercício dessa função pressupõe um órgão revestido de poder, para


que se garanta a sua produção de efeito. (“a lei, sem a força coativa, é uma
mera declaração de vontade”).

A jurisdição, portanto, consiste em um poder atribuído a um órgão, em


verdade, uma parcela da soberania estatal.

Conceito: “o poder de aplicar o direito objetivo a um caso concreto,


com respeito ao devido processo legal, e com caráter de definitividade.”
(ALEXANDRE MOTA).

Para o professor Paulo Rangel (Direito Processual Penal), é a função


do poder soberano do Estado de aplicar a lei ao caso concreto.

Importante observar que o poder deve ser visto sob o ângulo funcional,
isto é, como um dever-poder, portanto, a serviço da sociedade, com o escopo
de manter a paz e a ordem social.

Escopos do processo (CÂNDIDO DINAMARCO, Instituições de


Processo Civil): social, político e jurídico. O escopo social é a educação da
população para a observância da lei e, com isso, atingir-se a pacificação. O
político refere-se ao fato de que o processo deve concorrer para a estabilidade
das instituições políticas e também para a participação dos cidadãos no
cotidiano e nos destinos do Estado3, a exemplo do que ocorre na ação popular
e nas ações diretas de in/constitucionalidade propostas por entidades
representativas. O escopo jurídico é a atuação da vontade concreta do
direito4.

O processo penal é o instrumento da jurisdição

Pretensão acusatória: reservada, preferencialmente, ao Ministério


Público (art. 129, I, da CF), admitindo-se excepcionalmente a ação penal
privada (queixa-crime), ou a atuação subsidiária do particular, na hipótese
de inércia do órgão ministerial (ação subsidiária da pública).

A jurisdição penal é monopolizada pelo Estado. “Realiza a relevante


função de aplicação do Direito Penal aos fatos violadores de bens, direitos e
valores reconhecidos pelo corpo social, na exata medida e proporção
indicadas em lei.” (PACELLI, p. 206).

OBS: Há uma exceção ao monopólio estatal da administração da


justiça, em virtude do disposto no art. 57 da Lei nº 6.001/73 (Estatuto do
Índio): “será tolerada a aplicação, pelos grupos tribais, de acordo com as
instituições próprias, de sanções penais ou disciplinares, contra seus
membros, desde que não revistam caráter cruel ou infamante, proibida em
qualquer caso a pena de morte”.

Repartição de competências:

3
DINAMARCO, Cândido Rangel. Instituições de direito processual civil. Vol. I, p. 129.
4
Idem, ibidem, p. 134.
“No exercício dessa complexa atividade e sobretudo em atenção aos
critérios constitucionais de distribuição do poder político adotados na
Constituição de 1988, também o poder jurisdicional foi objeto de repartição
de competências, com o objetivo de bem e melhor operacionalizar a
administração da Justiça.” (PACCELI, p. 206).

Critérios de distribuição das competências, para fins de racionalização


do exercício da função jurisdicional. - serão estudados mais à frente.

Por outro lado, é importante destacar que “parcelas da jurisdição” são


conferidas, por razões de organização política do Estado, a outros órgãos que
não integram o Poder Judiciário. Nesse sentido, compete ao Senado Federal,
a sob a presidência do presidente do STF, o julgamento de processo de
impeachment do Presidente da República (art. 52, I, parágrafo único, da CF).

Importante observar, a propósito, que os Tribunais de Contas não


exercem jurisdição, tampouco podem ser qualificados como órgãos
jurisdicionais. Isto porque eles são órgãos auxiliares do Poder Legislativa,
na função típica de fiscalização das contas públicas.

Órgãos que a exercem: Poder Judiciário e, excepcionalmente, Poder


Legislativo.

Configuração (ou elementos) do poder jurisdicional:

cognitio ou notio (conhecimento): “Trata-se do poder atribuído ao juiz


para que conheça do processo, isto é, determine a prática de atos que o
ponham em contato com os fatos que compõem o litígio, para que possa
aplicar o direito aplicável a cada caso concreto, não só por meio da prolação
de decisões de mérito, mas também exercendo o controle sobre a
regularidade do processo, investigando a ocorrência dos pressupostos de
existência e de validade da relação processual, das condições de
procedibilidade e das condições da ação;” (MOUGENOT, p. 64).

vocatio (chamamento): é o poder do órgão investido da jurisdição de


fazer comparecer em juízo as pessoas cuja presença revela-se necessária ao
andamento do feito.

coertio ou coertitio (coercitividade ou medidas coercitivas): o poder


de determinar medidas coercitivas, ou seja, o poder de impor a realização de
certos atos necessários para que sejam eficazes os provimentos judiciais,
mediante a cominação de medidas coativas (MOUGENOT, p. 64).

Judicium (julgamento): Consistente no poder de julgar

executio (efetivação ou cumprimento): o poder de fazer cumprir as


sentenças ou acórdãos proferidos jurisdicionalmente.

Características:

Substitutividade: salvo em casos expressamente autorizados por


lei, é defeso às partes a autotutela para a solução de seus conflitos. Assim, o
que o Estado determinar ser o direito, diante do caso concreto, substitui-se à
vontade das partes. A solução do conflito apresentado pelas partes é
determinado pelo Estado e imposta coativamente.

Definitividade: uma vez proferida uma decisão e exauridas as


possibilidades recursais, ela adquire imutabilidade. As decisões
jurisdicionais fazem coisa julgada (res judicata).

Importante destacar, a propósito, que, não obstante uma decisão


absolutória adquira o atributo da imutabilidade quando transitada em
julgado, o mesmo não se pode dizer em relação às decisões condenatórias,
na medida em que, mesmo transitadas em julgados, poderão ser atacadas pela
chamada revisão criminal, com fundamentos em novos fatos aptos a
favorecer o condenado. (artigos 621 e 622 do CPP)

Inércia: O pronunciamento do Estado, exercendo a jurisdição,


não se dá espontaneamente, visto que depende da provocação do interessado
em obter a manifestação desse poder. Essa inércia do Judiciário, na seara
penal, verifica-se apenas na ação penal (processo de conhecimento).

Com relação às medidas cautelares (art. 282, §4º, do CPP), nas ações
de habeas corpus (art. 654, §2º, do CPP) e na fase de execução penal (art.
105 do LEP) o juiz atua de ofício.

Indivisibilidade: A jurisdição, como manifestação do poder


soberano, é uma e indivisível. A referência que se costuma fazer à jurisdição
penal, civil, militar etc., tem apenas o efeito de facilitar a distribuição do
trabalho entre os diversos órgãos do Estado.
Não há, portanto, conflito de jurisdição, mas sim de
competência.

Princípios:

Princípio do juiz natural: juiz natural é aquele cuja competência


deriva de dispositivo constitucional (art. 5º, VII e LIII, da CF), configurando-
se, portanto, não órgão jurisdicional instaurado previamente à ocorrência dos
fatos que serão submetidos à sua apreciação.

Trata-se de pressuposto de validade do processo.


Desse modo, o princípio representa uma vedação a que seja o acusado
julgado por um tribunal ad hoc, constituído ex post facto. A vedação consta
no art. 5º, XXXVII, da CF: não haverá juízo ou tribunal de exceção.

Princípio da investidura: somente as pessoas regularmente investidas


de jurisdição, nos termos dos artigos 93 e seguintes da CF, podem exercê-la.
No caso dos Juízes de Direito, por exemplo, o ingresso na carreira depende
de aprovação em concurso de provas e títulos.

Princípio da inércia ou princípio da demanda: a jurisdição somente


será exercida no processo de conhecimento (sistema penal acusatório), após
o Judiciário ser provocado pelo Ministério Público ou pelo particulares, nas
exceções legais.

Princípio da improrrogabilidade da jurisdição e princípio da


aderência: A jurisdição não se prorroga à autoridade que não tem
competência delineada em lei, salvo as hipóteses de conexão, continência
(arts. 76 e 77 do CPP) e desaforamento (art. 427 do CPP).

Princípio da indeclinabilidade: o juiz não pode declinar do seu


ofício jurisdicional. Mesmo que não haja norma expressa, deve julgar a lide,
podendo se valer, sobretudo, dos princípios constitucionais.

Princípio da indelegabilidade: o juiz não pode delegar a outro


órgão, que não o Judiciário, o poder de julgar, salvo a hipótese prevista no
art. 52, I, da CF. OBS: carta precatória não é delegação. Isto porque o juiz
deprecante não tem competência para praticar o ato. Ele solicita a
colaboração de outro órgão.

Divisões:
Quanto à graduação: instâncias
Quanto à matéria: penal ou cível
Quanto à função: ordinária ou especial
Quanto ao objeto: contenciosa ou voluntária

15 PRINCÍPIOS CONSTITUCIONAIS APLICÁVEIS AO


PROCESSO PENAL

Devido processo legal (“nulla poena sine iudicio”): feição


procedimental e substancial (proporcionalidade e razoabilidade).

Cuida-se de uma cláusula geral de conteúdo complexo, cujo


conteúdo será revelado pelo acúmulo histórico da jurisprudência
(historicidade). Afirma-se que possui conteúdo complexo, por abranger uma
série de outros princípios. O direto fundamental ao processo devido é uma
obra em enterna construção.

Trata-se, portanto, de um sobre ou superdireito. Exs de concretização


do devido processo legal: contraditório, duração razoável do processo,
fundamentação das decisões judiciais, proibição de provas ilícitas,
efetividade da tutela jurisdicional, etc.
Em um sentido formal, o devido processo legal significa o direito de
processar e de ser processado de acordo com as normas processuais vigentes.
A propósito, Cândido Rangel Dinamarco assevera que processo devido é
aquele “regido por garantias mínimas de meios e de resultado, com emprego
de instrumental técnico-processual adequado e conducente a uma tutela
adequada e efetiva.” (Instituições de direito processo civil, p. 247).

Devido processo legal em sentido formal: observância ao correto


procedimento e das garantias e direitos constitucionais.

Devido processo legal em sentido material: em face do conflito


entre bens constitucionais contrapostos, a decisão judicial dever
proporcional e razoável, isto é:

adequada (apta a produzir o resultado desejável),

necessária (insubstituível por outro meio menos gravoso e


igualmente eficaz)

proporcional em sentido estrito (isto é, estabelece-se uma


relação ponderada entre o grau de restrição de um princípio e o
grau de realização do princípio contraposto).

Para Elpídio Donizetti o devido processo legal, na sua dimensão


substancial, constituiu “(...) verdadeira forma de se controlar o conteúdo das
decisões judiciais (o justo no caso concreto) e das leis.” (Curso Didático de
Direito Processual Civil, p. 35)

Princípio da dignidade da pessoa humana


Cuida-se de princípio que encontra previsão expressa no art. 1º, III, da
CF. Porém, antes mesmo de o constituinte erigir a dignidade humana ao seu
status atual, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, aprovada em
1948, já a consagrava como um direito inerente a todos os membros da
família humana. Como se verifica, essas previsões afastam a
patrimonialização do direito, uma vez que colocam o ser humano no centro
do ordenamento e o protegem em face do próprio Estado (ED, p. 47).
Em razão de sua crescente importância tanto no contexto jurídico
nacional, quanto no internacional, a dignidade da pessoa humana passou a
ser considerada como o fundamento para todos os demais princípios
constitucionais.
Esse princípio também encontra previsão expressa no art. 8º do CPC.

“Art. 8º Ao aplicar o ordenamento jurídico, o juiz atenderá aos fins sociais e às


exigências do bem comum, resguardando e promovendo a dignidade da pessoa
humana e observando a proporcionalidade, a razoabilidade, a legalidade, a
publicidade e a eficiência.”

O processo deve ser estruturado, interpretado e aplicado de forma


suficientemente capaz de garantir os direitos fundamentais decorrentes do
princípio da dignidade da pessoa humana (ED, p. 48).
- CITAR precedentes do STJ e do STF a respeito do princípio da
dignidade da pessoa humana

Princípio da igualdade

Cuida-se de importante princípio, previsto no art. 5º, caput, da


Constituição Federal. Implica a obrigatoriedade de ser dispensado idêntico
tratamento às partes em posição de igualdade, e tratamento diferente às
partes em situação desigual, conforme a máxima Aristotélica.
Nesse sentido, convém trazer à colação a lição de Mougenot:

“Essa igualdade, no entanto, não é absoluta, sofrendo temperamentos,


principalmente pelo princípio do favor rei. De fato, o processo penal caracteriza-
se por uma desigualdade essencial entre as posições de acusador e acusado,
evidenciada principalmente quando se tem por paradigma o processo civil, no
qual prevalecem disputas entre particulares.” (p. 102).

Exemplos de tratamento diferenciado ao réu: art. 386, VII, do CPP;


somente competir à defesa o uso dos embargos infringentes e de nulidade
(art. 609, parágrafo único, do CPP); não existe a revisão criminal pro
societate.