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O Elefante de

O Elefante de Marfim
Libreto para Ópera em Três Atos
“As peças de marfim são
tão alheias ao abstracto xadrez
como essa mão que as rege.”
Jorge Luis Borges

12. Introdução ao Texto Dramático:

O Elefante de Marfim é uma fábula musical sobre a fundação de um teatro de ópera no local onde um
crime ocorreu, este teatro é abandonado e transformado em um museu da humanidade e sua relação com a arte,
onde a própria vítima do crime é leiloada como obra. Os artistas, prisioneiros do museu, com ajuda dela, se rebelam
e montam uma biblioteca no lixão, onde aguardam um terrível cataclisma enquanto decidem numa reunião o que
fazer com os marfins e obras de arte do mundo que juntaram em seu acampamento e uma série de fatos levam ao
ano do elefante. A trama se passa na cidade de Som Caos, o que sobrou de São Paulo depois que os caminhões não
conseguiram mais levar alimento para lá, na área entre Atlante Babelon (bairro nobre) e Lemúria Guantánamo
(bairro da periferia), divididos pelo pântano químico de Akakor à beira do Rio Morto.
Por se tratar de uma ópera sobre o fazer artístico, pedimos atenção especial das companias, que se
detenham frente ao texto, quanto à ironia de sua metalinguagem. A própria compania é o coro e a montagem da
cenografia é feita anamórficamente (sob a direta influência de Arcimboldo) com os figurinos e objetos que os
próprios personagens trajam e despem, compondo um elemento cênico (Um personagem retira um paletó onde
dentro há um sol bordado que funda uma janela cenográfica, por exemplo). Pedimos que as montagens se dêem da
maneira mais simples possível, com materiais e processos reciclados daqueles que a própria compania já utiliza em
seus repertórios, levando em conta a sensibilidade e a mitologia pessoal de cada intérprete-criador participante.
O texto dramático deve ser um ponto de partida e nunca um fim em si ou uma desculpa para a
sobreposição de desejos de uns sobre outros. A função dos atores-cantores-dançarinos é desvendar o que está sendo
realmente dito por detrás das palavras que nada dizem. Propomos que as companias se detenham a pesquisar o
projeto e a portitura junto à Orquestra e pensadores afiliados, vindo a compor um programa que inclua todos os
textos aqui contidos e ainda os seus e de outras versões prévias para a consulta pública aberta e gratuita. Expanda o
quanto possível o que encontrarem aqui, coloquem mais ruídos nas entranhas deste elefante.
Dito isto, convido-vos ouvintes a me seguirem por esses caminhos sinuosos que conduzem os seres humanos a
mascarar sob a alcunha da paz a barbárie. Não pretendemos manipular os fios da crueldade e do voyeurismo para
manter sua atenção. Mas não se trata, aqui, de encená-los, de construí-los como uma estética do horror. Pelo
contrário, procuremos desnudar - a frio - os processos que podem levar à destrutibilidade humana em massa.
13. Simbologia do Texto Dramático:
O texto em itálico trata sobre a dramaturgia e dá expicações sobre a obra.

~O NOME DA PERSONAGEM CANTANTE ESTÁ EM CAIXA ALTA.


O texto normal trata das falas de personagens.
“Os pensamentos dos personagens que devem ser apenas pensados, ditos em silêncio, se encontram
entre aspas.”

{As ações dos personagens se encontram entre chaves e em itálico.}

(Os aspectos de iluminação e imagética abstrata a serem projetadas, sejam por meio de cartazes ou de
tecnologia cinemática, se encontram entre parênteses e em itálico.)

[Os aspectos de montagem cênica, da ambientação e da dança dos objetos, se encontram entre colchetes e em
itálico.]

<A trajetória silente, sonora e musical da escuta se encontra entre chevrons e em itálico.>

14. Personmargens:
Todxs xs personagens são epicenes e se possível devem ser interpretadxs por um trio de artistas. Uma atriz
ou ator interpreta suas feições faciais e fala seu texto, umx dançarinx faz seus movimentos corporais & umx
cantorx canta seus trechos, mas nada impede de um ator interpretar mais de um personagem também. Tais
definições de sexo dos intérpretes devem ser decididas coletivamente pela compania.
A partir do Primeiro Ato, todxs xs personagens são disformes devido a diversos tipos distintos de
elefantíases e trazem consigo elementos de um ou mais animais, além de objetos que formam figurinos-escombros,
que podem aparecer das mais diversas maneiras de acordo com cada montagem.
14.0. Do Prólogo no Teatro:

~CATÃO MOEBIUS, atriz reserva do teatro que está na função de faxineira do teatro
de ópera neste espetáculo. Travesti índia velha cabocla mulata ex-prostituta, tida como
louca, de modos dóceis e serenos.

~OS OPERÁRIOS DO TEATRO, coro que varia de acordo com a casa onde a peça for
apresentada. É preferível que o coro seja composto pelos próprios funcionários da casa, mas
não sendo-o possível, que os atores interpretem-nos com fidedignidade e sem sarcasmo.
Dois personagens, porém, devem constar neste coro:
~A COMPOSITORA DA ÓPERA, tem pernas de fauno e traz consigo uma
pena de corvo que molha num pote de naquim cor de marfim.
~O DIRETOR DA CASA DE ÓPERA, usa um broche de leão e barbas cheias.

14.1. Do Primeiro Ato:

~CATARINA CLEMENTE, perde a memória e tenta reavê-la, motivo pelo qual se vê


transmutada em Ópera. Com a ajuda de Gilgameshivashtar se lembra de que é a
incorporação de Oefro, Orfeo através do espelho. Tem elefantíase entre os seios, como um
coração exposto do lado de fora. Nua.

~OS OPERÁRIOS DO TEATRO assistem a todo o desenrolar dos fatos realizando suas
funções sem intervir. Vão cada vez mais ficando desconfortáveis com o que se passa ali,
como se se tratasse deles próprios.
~OS CENOGRAFISTAS, obreiros que tomam os instrumentos da orquestra e
se põem a tocar. Ajudam também a transmutar os figurinos em cenografia.

~AS ESTRELAS DANÇARINAS: Forças que controlam com truculência o espaço do


palco. Têm todas buracos no peito. Cunham o pó de marfim que gera confusão das vísceras
de Catarina Clemente. Têm secreções de âmbar nas têmporas.
~DANTE POUND, polvo juiz romancista e jurista que se converte na estrela
vegetal. Arrasta livros. Tem elefantíase no olhos.
~FAUSTO GIOVANI, réptil executivo violinista que se converte na estrela
mineral. Careca. Tem elefantíase nas orelhas. Carrega lixo eletrônico.
~ORWELL KIPLING, inseto general escultor, que se converte na estrela
animal. Suas insígnias são pequenos ex-votos. Tem elefantíase nas mãos. Carrega
ferramentas.
~GUIMARÃES HUXLEY, pombo padre professor pintor, que se converte na
estrela orgonal. Tem elefantíase no falo. Carrega moedas e veste uma batina de
dinheiro.
~A ORQUESTRA, o inconsciente de Catarina Clemente composta de alquimistas e
filósofxs, pensadores de Rodin. Ao verem os cenografistas tocando os instrumentos, se
levantam e começam a atirar os objetos deixadas pelas Estrelas Dançarinas formando
uma paisagem. Estão tentando entender o que se passa na portitura, e aos poucos percebem
que o que tocam cria a história que é tocada ao palco. Se questionam se devem continuar,
quando das pausas. Mas retornam, por vício em música.

~GILGAMESHIVASHTAR, carroceiro preso debaixo dos destroços do acidente, sábio,


bondoso e de grande compaixão. Pode ser interpretado por um pianista que carrega
instrumentos diversos amarrados ao seu corpo como que preso debaixo do piano, tentando
alcançar as teclas para tocar um último lamento. Tem uma cobra tatuada em cada um
dos braços. Tem elefantíase no nariz, que se assemelha a uma tromba de elefante.

~ISIS LICHTENSTEIN, lavadeira tecelã esposa de Gilgameshivashtar, lúcida e forte.


Veste centenas de tecidos, que vai rasgando enquanto pranteia a morte do marido. Separa
a água da gasolina e dos corantes nas tintas do Rio Morto. Tem um broche de borboleta
entre os seios. Tem elefantíase nos ombros, que a deixa com a aparência de não ter pescoço.
Carrega tecidos.

~SATYRPAN ABRAXAS, filho fauno de Gilgameshivashtar e Isis, telepata de duas


cabeças. Anda nu e desce do barco de Socralistóteles e senta em postura de lótus sobre o
rinoceronte. É um galo e uma salamandra. Sua voz vem de outros cantores ou dos
alto-falantes em off. Parece ter anticorpos ao pó de marfim. Carrega frutos e vegetais
consigo. Tem elefantíase nas cabeças, sendo uma cônica e outra achatada.

~SOCRALISTÓTELES ENLIL, barqueiro aprendiz de Caronte e Sidharta que
aguarda que um elefante chegue do oriente. Sombrio e soturno. Bebe leite de rinoceronte
que vira sangue no contato com o pó de marfim. Carrega correntes e veste mortalhas. Tem
elefantíase nos pés que se assemelham a árvores pata-de-elefantes.

~OS CINCO RELIGIOSOS CEGOS: Nômades que ouvem os dizeres de Satyrpan


Abraxas e chegam sedentos por sugar a luz de seus quatro olhos. Estão amarrados uns aos
outros por um cordão dourado às cinturas. São ressurreições das Estrelas Dançarinas em
outra instância. Catarina Clemente os impede usando o cheiro de gasolina e um canto de
ablução.
~MERKA JAH ZOHAR, leão rabino surdo em vestes esquimós vermelhas.
Carrega carnes. Tem elefantíase nas bochechas.
~DAVI VUH CASTAÑEDA, abutre xamã mudo sem língua em vestes
vitorianas amarelas. Carrega cactos e plantas carnívoras. Tem elefantíase na
nuca.
~ALFIL ESÚ AVESTA, poupa muçulmano viking sem tato, xiita seminu em
vestes tupi-guaranis azuis. Carrega lâminas. Tem elefantíase no baixo ventre.
~CASSANDRA T’TAR SUPAYALAT, serpente hinduista cega, louca em kali
yuga. Traz ao corpo vestes africanas verdes. Carrega cinzas. Tem elefantíase no
nariz.
~SARAH CLARA GAJA, mamute freira missionária protestante sem olfato,
naiv. Traz ao corpo vestes de eróticas violeta. Carrega flores. Tem elefantíase no
coração como Catarina Clemente.

14.2. Do Segundo Ato:

~OS OPERÁRIOS DO TEATRO, seguem obedecendo o script até se verem transformados em:
~OS ARTISTAS, preguiças que trabalham sob tortura fazendo obras relacionadas aos
artistas da próera ‘O Elefante de Marfim’ até se rebelarem contra Os Tubarões Voadores
junto a José Merrick e Catarina Clemente.
~JESUS MOISÉS SADE & SHAMASH MOHAMMED, preguiça e tucano
jumento que se amam. Construíram o museu e querem entrar nele, sem consegui-lo.

~A ORQUESTRA, a consciência de Catarina Clemente percebendo que o que acontece no drama


provém da música que toca, passa a agir com especial presteza e sutileza. Porém, são obrigados
pelo Maestro (e seu duplo Nyemeyer Bo) sob ameaça dOs Operários do Museu (e dOs Tubarões
Voadores, seu duplo) a tocarem apenas questões formais.

~A COMPOSITORA DA ÓPERA, age como um narrador sentado na área mais cara, de modo
a explicar aos que pagaram mais caro o que ocorre. Veste uma roupa cotidiana, não deixando ao
público se ela é ou não uma participante oficial do espetáculo.

~OEFRO, Catarina Clemente totalmente incorporada pelo espírito do ruído espirituoso é


maquiadx para ser leiloadx como perfomance e ópera num leilão de obras de arte. Nudez.

~ORLAN ABRAMOVIC, maquiadora e carcereira muito bela que só fala substâncias químicas
e age sobre o corpo de Oefro como se estivesse pintando uma tela. Traz uma pena de pavão no
cabelo e uma bola de ferro amarrada aos pés. Está com os pés presos a uma bola de metal. Carrega
esquadros, compassos e instrumentos de desenho. Tem elefantíase no seios.

~ANANSE TEOTIHUACAN, figurinista e torturadora que só fala teceres. É uma espécie de


ressurreição de Isis Lichtenstein numa outra instância.Tem um broche de aranha entre os seios e
um corte de cabelo que se assemelha a um ninho de joão-de-barro. Carrega pincéis. Tem
elefantíase nos antebraços.
~OPERÁRIOS DO MUSEU, coro de atores que agem como um duplo de sexo invertido dos
Operários do Teatro dentro do palco, falam em libras. Vestidos em aventais brancos. Em um dado
momento eles se transmutam nos Compradores de Marfim:
~COMPRADORES DE MARFIM, libertinos se divertindo numa vernissage. São
onças, leopardos, tygres, panteras, hienas. Carregam presas de marfim. Carregam objetos
de consumo, eletrodomésticos, brinquedos, grifes, logos, etc. Riem e grunhem. Dentre eles se
ressalta:
~DAMIAN BANKSY BARNEY, pixador. Se diferencia dos outros
Compradores de Marfim por um boné com o desenho de um touro com um falcão
pousado em suas costas. É uma espécie de ressurreição de Satyrpan Abraxas
numa outra instância. Roupas de urso de materiais sintéticos. Carrega marfins.
Tem elefantíase nos joelhos.
~EMYR ELÉMER, olhos de camaleão num corpo de hipopótamo, falsificador
de obras. Cria uma cópia exata de Oefro, sobre a qual Os Compradores de
Marfim fazem um culto. É o único personagem que não canta, mas fala de
maneira pausada e profunda. Carrega notas de dinheiro fictício, com rostos de
artistas. Tem elefantíase no estômago.

~OS TUBARÕES VOADORES, milícia da arte estatal e privada. Trata artistas como
bandidos e se alguém lhes pergunta algo falam os nomes de artistas violentos como Antonin
Artaud, William Blake, etc. Usam uniforme de vinil. Alguns são amarelos. Seus cacetes são
revistas de arte enroladas. Eles mantêm A Orquestra tocando.

~NYEMEYER BO, duplo arquitetônico-expográfico do maestro da orquestra que faz orgiamis


de tsuru enquanto cria o espaço expositivo do museu. Sua roupa o torna parecido a um alce com
dentes de castor, minimalista. Carrega tabuleiros de jogos. Orelhas de Níquel Náusea. Carrega
molduras de quadro emaranhadas.

~WAGNER VERDI, leiloeiro e cornaca que só fala valores numéricos, duplo dA
Compositora da ópera. Tem barba só no pescoço e é careca apenas na frente da cabeça, se assemelha
a um abutre-porco. Alguns sussurram quando canta: “Falstaff!” Tem elefantíase nas orelhas.
Carrega instrumentos de eculpir.

~ADORNO MORIN FLÜSSER, crítico de arte e filósofo. É uma espécie de


ressurreição de Socralistóteles numa outra instância. Veste farrapos e traz ao ombro um pelicano.
É corcunda e caolho, com um ajna que se assemelha a um olho mesmo. Espécie de camelo lula.
Carrega cacos de mosaicos.

~SAATCHI PAX, maestro da orquestra de curadores que só fala máquinas e minérios,


duplo do diretor da casa de ópera. Traz em um ombro um corvo e no outro um pombo. Veste-se
entre um businessman e um maestro. É elegante e cínico. Se apaixona por Oefro, a compra no
leilão e a joga junto de outras ‘obras de artes’ na Torre de Marfim. Carrega moedas. Tem
elefantíase nos antebraços.

~OS ARTISTAS, escravos presos à torre De Marfim. São obrigados por Saatchi Pax a
inventarem mais e mais produtos artísticos para vender no centro de compras de arte Torre de
Marfim. Todos têm seus rostos cobertos por máscaras dos mais diversos materiais. São uma espécie
de ressurreição dOs Operários do Teatro numa outra instância. Entre eles se encontra:
~JOSÉ MERRICK, artista com elefantíase generalizada, preso no topo da torre
de marfim do shopping center de arte Jumbo Babel, único que conversa com Oefro (os
outros têm inveja por seu valor ser alto). Foi incumbido, sob severas torturas que
marcaram seu corpo já deformado com inúmeras cicatrizes, a criar a obra de arte mais
bela até então jamais realizada, mas não encontra inspiração e por isto é torturado. Se
apaixona por Catarina Clemente com quem se desnuda e faz sexo expurgando-lhe o
espírito de Oefro. É uma espécie de ressurreição de Gilgameshivashtar numa outra
instância. Humano, demasiado humano. Carrega paletas com cores.

14.3. Do Ato Final:

~A COMPOSITORA DA ÓPERA, está sentada à boca de cena com uma camiseta de cavalo,
tentando não deixar que O Diretor da Casa de Ópera interrompa a produção. Sua fala pode ser
improvisada, com excessão das marcadas no texto, que devem ser ditas nos momentos específicos.
Recebe um chifre de unicórnio com uma orelha na base dO Diretor da Casa de Ópera.

~O DIRETOR DA CASA DE ÓPERA, horrorizado com tudo que viu até agora, principia por
fazer severas críticas e ameaça o tempo todo interromper a produção. Se veste como Fitzcarraldo.
Sua fala pode ser improvisada, com excessão das marcadas no texto, que devem ser ditas nos
momentos específicos. Após fazer amor com A Compositora veste-se com uma máscara de olho.

~OS OPERÁRIOS DO TEATRO, ainda como preguiças dançam ao redor dA Orquestra, como
As Baratas e Formigas e Abelhas que atormentam Catarina Clemente.

~A ORQUESTRA, é o inconsciente da platéia soterrada por lixo, obras de arte e pedaços de


marfim. É o próprio corpo do elefante. Conforme A Nuvem de Faganhotos mata Os Operários da
Arte e Os Tubarões Voadores, eles começam formar uma camada de cadáveres que se soma a esta
pilha.

~ULL ZOUGO SEDNA CHALCHIUHTLICUE, neadertal que fica a datilografar durante


todo o ato final de fora dos eventos. Quando Musth Setoth Tiamat é morto, ela mostra o que
escrevia: o símbolo Om tibetano. Começa então a chover sapos que devoram A Nuvem de
Faganhotos. É uma ressurreição de Orlan Abramovic em outra instância. Ele se desnuda e deixa
ver seu corpo escamoso com tatuagens de peixes e animais marinhos. Carrega telefones e rádios.
~CATARINA (EVA) CLEMENTE, está grávida e sorumbática, pensativa. Faz uma dança
com os braços onde percebe-se a forma dos chifres de uma búfalo. Ratos, baratas e formigas ao chão,
abelhas vespas e morcegos ao ar, giram ao seu redor até que ela se mova. Ao matar Musth Setoth
Tiamat e José Merrick, ganha asas de libélula.

~JOSÉ MERRICK, usa uma máscara de cão de espelhos. Está meditativo, mas mais leve que
Catarina (Estamira) Clemente. Reuniu todos os marfins de elefantes do mundo, só lhe faltando
um par dO Último Elefante que está perdido. Nu. Não quer participar dos eventos de discussão do
que deve ser feito com os marfins. Alguns o pedem que o faça de vez em quando, mas ele nega com
um meneio de mão e volta a cuidar do jardim de areia. Se transforma, após levar um tiro, em:
~FENRIRX ANÚBIS, coiote lobo pantera com olhos de lince e costas de tartaruga de
jade. Ergue-se de sua corcunda e tem uma postura heróica diante de Musth Setoth
Tiamat. Destroça os membros de Musth Setoth Tiamat e os atira para conter a fúria de
Quetzacoatleviatan Seshalogryu Nagatum. Uma corça lhe pousa ao ombro esquerdo e um
cavalo lhe pede que o monte. Percebe quando finda o feitiço que prendem os personagens ao
palco e avisa ao público.

~OS OPERÁRIOS DA ARTE, coro dos mahouts mutantes. Espécies de ornitorrincos, misturam
feições dos mais distintos animais. Estão tentando decidir o que fazer com o marfim recolhido.
Não acreditam na ‘profecia’ do elefante de marfim e querem usar o marfim para diversos fins.
Olham com desdém para José Merrick. São uma ressurreição dOs Artistas em outra instância.
Fazem um conluio com Os Ratos Acadêmicos e Os Tubarões Voadores acreditando que assim se
safarão de Quetzacoatleviatan Seshanaga Longryu e Musth Setoth Tiamat. Os que não se
convertem em Tubarões Voadores se tornam:
~OS DOZE MACACOS, coro de ornitorrincos com máscaras de símios (gorilas,
chimpanzés, bonobos, mandris, babuínos, orangotangos, lêmures, micos, neandertal...)
feitas de papel. Alternadamente tapam o coração, o cérebro e o sexo. Carregam panfletos e
manifestos.

~BUCKLUHAN CIOGRACIAN, médico ladrão com bico de íbis (máscara da peste negra),
penugens de papagaio e asas de morcego que carrega uma gaiola com um grilo falante mudo
chamado Orvalho. Tem elefantíase acima do nariz, carrega teares com aves mortas presas aos
fios. Passa o ato todo rindo, pregando peças e roubando os que acredita estarem roubando algo de
alguém. Ao ver a flauta de Ubugnu Ugnix cair ao chão a pega, sendo percebido por Shamash
Mohhamed, com quem a disputa. Antes de perdê-la percebe a platéia. Ajuda Ull Zougo Sedna
Chalchiuhtlicue, transformando-a numa sereia e com o resto de suas pernas alimentando Orvalho
que chama um vento de aves que destrói A Nuvem de Faganhotos para vingar O Último
Elefante.

~JOSEFINA HAMLIN, repórter-fotógrafa


com um vestido de ratazana e olhos de mosca.
Não pra de fotografar, sua câmera tem o som
de uma gota de água. Canta em xiados
espectrais que ressoam amplificando os fractais
harmônicos da voz de com quem ela fala. Os
Ratos Acadêmicos aplaudem, prometendo
diplomas e prêmios.

~CLARA CROCODILO, fugindo dos


Tubarões Voadores ela chega ao Cemitério de
Elefantes. Repete os discursos de Saatchi Pax
como a uma propaganda televisiva. Mas está
tão apavorada e viciada em pó de marfim que
tenta roubar os marfins que estão sob a
proteção de José Merrick a todo custo. Ubugnu
Ugnix a salva e em seus lábios verte o antídoto
para o pó de marfim. É uma ressurreição de
Ananse Teotihuacan em outra instância. Tem
elefantíase nos lábios e órgãos expostos como os
viciados em krokodil.

~UBUGNU UGNIX, pinguim com rabo de


raposa, chifres de gnu. Traz consigo uma
luneta que também é uma flauta, que usa para
avistar Quetzacoatleviatan Seshalongryu
Nagatum se aproximando. Ao perceber que os
interesses dOs Operários da Arte não são
dignos, se eviscera e atira as vísceras no
caldeirão de comida. Ao apontar sua luneta
para Os Ratos Acadêmicos, percebe que estes
são na verdade Os Tubarões Voadores. É uma
ressurreição de Emyr Elemér em outra
instância. Tem elefantíase nas canelas. Usa o
antídoto à loucura do marfim na comida
salvando a todxs menos Os Operários da Arte,
Os Ratos Acadêmicos e Os Tubarões Voadores
que são devorados pela Nuvem de Faganhotos.
~OS RATOS ACADÊMICOS, vestidos com roupas de pinguim, chegam com uma ordem de
despejo contra a ocupação do morro dO Cemitério de Elefantes e um mandado de busca por Clara
Crocodilo. Isto tudo é só uma desculpa para que entrem na reunião dOs Operários da Arte e
atrapalhem suas decisões. Carregam diplomas de carne com cachaça. Quando percebem que José
Merrick não pretende abrir mão de sua decisão de aguardar pelO Elefante de Marfim, decidem
por soltar A Nuvem de Faganhotos para “protegerem-se de Quetzacoatleviatan Seshalongryu
Nagatum”, o que só piora as coisas. Ubugnu Ugnix os desmascara como:
~OS TUBARÕES VOADORES, grande parte dOs Ratos Acadêmicos eram na
verdade tubarões, peixe-espadas, arraias, etc. Percebendo a tolice que fizeram ao trazer
A Nuvem de Faganhotos contra si mesmos, passam a enfrentá-los em vão.

~A NUVEM DE FAGANHOTOS, gafanhotos violentíssimos viciados em pó de marfim, que


foi usado para alterá-los geneticamente. Devoram Os Tubarões Voadores e Os Operários da Arte.

~CHACRA SOSA SPINOSA, coruja que cozinha o banquete com as páginas do projeto da
próera, do libreto da ópera, da cronologia da performance e a partitura da transfonia O Elefante
de Marfim. Tem elefantíase nas coxas. Como há muita gente e poucos ingredientes, usa pó de
marfim para temperar a comida. O resultado da receita é um pé de elefante radioativo,
Chernobyl. Ao ser curada por Ubugnu Ugnix derruba o caldeirão, que escorre assustando o Último
Elefante que se ergue, talvez tendo disparado o tiro na arma Catarina (Estamira) Clemente, por
acidente. Usa a lágrima do Último Elefante para ressucitar Fenrir Anúbis e ao receber o antídoto
ao pó de marfim de Ubugnu Ugnix se transforma em:
~MEREDITH PACHAVUELA, cisne beija-flor que ajuda no parto de Ozrú Íris
Tupã Selva. Arranca as suas carnes sobressalentes para dar de comer a todxs sob a casa de
Braba Yoga.

~MUSTH SETOTH TIAMAT, investidor caçador de elefantes, dragão da dependência. Não
tem elefantíase algum, é belo, forte e garboso. Tem uma série de cabeças penduradas ao redor do
pescoço, cada qual com uma expressão facial de afeto (alegria, tristeza, medo, angústia, ódio, etc).
Traz uma arma de elefantes consigo. Pele vermelha. Olhar de frieza. Vem montado sobre:
~O ÚLTIMO ELEFANTE, vermelho e mecânico. Sua voz é executada pela tuba, pelo
contrabaixo e pelo violoncello. Vê-se nele todo o sofrimento e ódio de todxs elefantes perante
a espécie humana.

~VÊNUS HOTENTOT, mulher belíssima tida na conta de escrava, que chega sendo arrastada
por Muth Setoth Tiamat. Mulher, demasiado mulher. Não tem elefantíase alguma, é bela, forte e
delicada. Colega de puteiro de Catarina (Estamira) Clemente, a olha com cumplicidade. Tem o
mais belo canto de toda esta ópera. Vestida com o vestido de casamento mais belo e transparente
dando a entrever suas curvas. Tem gozo escorrendo por suas pernas. Ao beijar Fenrir Anúbis nos
lábios, ri e se converte em:
~BRABA YOGA, feiticeira de cabelos brancos e parteira que suga as toxinas do sangue de
Musth Setoth Tiamat e dO Último Elefante. Tem elefantíase na vagina e nas nádegas.
Suas sombracelhas crescem e se torna como um texugo com chifres de antílope. Sua casa
surge vinda do horizonte caminhando sobre pernas de peru com a árvore Yggdrasil no
telhado e protege todxs.

~JESUS MOISÉS SADE, obeso com peito de pombo que anda numa cadeira de rodas que se
assemelha a tanque de guerra com presas de javalis. Traz Shamash Mohammed numa coleira,
enquanto segue a beleza de Vênus Hotentot. Tem deformidades no peito e veste uma coroa de
arame farpado. Ao ver Shamash Mohammed torturando Os Ratos Acadêmicos, o beija e
presenteia-o com o Peixe de Babel.
~SHAMASH MOHAMMED, iogue louva-deus com mão inchada que parece de caranguejo,
traja marionetes e bonecas, arrasta ex-votos. Pula numa perna só. A Vênus Hotentot seduz Jesus
Moisés Sade a libertá-lo e este pensa em vingar-se, mas ao ver o gozo de sua salvadora beijando o
deformado José Merrick, desiste e luta contra Buckluhan Ciogracian para retomar a
flauta-luneta de Ubugnu Ugnix. Com ela afasta A Nuvem de Faganhotos para dentro do
carrossel onde estão Os Ratos Acadêmicos.

~OEFRO, anjo índio de olhos claros separado de Catarina (Estamira) Clemente fica a
sussurrar-lhe aos ouvidos coisas que ninguém mais ouve. Conforme a situação vai ficando mais
tensa suas asas vão crescendo até que a abraçam por completo, logo antes que ela decida agir.
Quando da morte de Musth Setoth Tiamat, monta Quetzacoatleviatan Seshalongryu Nagatum
tentando contê-lo em vão, mas retirando-lhe as moedas que são suas chagas e atira-nas nO
Elefante de Marfim. Quando a serpente se vê convertida em Pyth Om Kundalini e o devora, ele
a empurra de modo a que engula O Elefante de Marfim também.

~QUETZACOATLEVIATAN SESHALONGRYU NAGATUM, a serpente gigante de


moedas que movimentam eletricidade. Faz danças em semi-lemniscatas, deixando um rastro de
fumaça tóxica no formato alfa (α). Pulveriza pó de marfim sobre O Cemitério de Elefantes antes
de devorá-lo. Pela atração de suas moedas é liberado do peso que o atormentava e obrigava a
devorar carne e marfim, transformando-se em:
~PYTH OM KUNDALINI, naja de cores e luzes que engole Oefro e é obrigada a
engolir também O Elefante de Marfim fazendo com que estes se convertam em Nu.

~EREPATO PIRIJETE, O Elefante de Marfim. É invocado por Catarina (Estamira)


Clemente. Gera um campo magnético em si que começa por fazê-lo levitar, a Lua e o Sol se
aproximam do solo, o lixo do Cemitério de Elefantes é sugado para junto do esqueleto de marfim
até formar um imenso elefante de lixo que se senta numa nuvem. Seu magnetismo é tão forte que
acaba por obrigar Quetzacoatleviatan Sesha Nagatum a devorá-lo ficando no formato ômega (Ω)
de um chapéu.

~OS TRÊS MENDIGOS CIENTISTAS, seguiam um satélite que caía e chegam
acompanhados de uma horda de gatos para o nascimento de Hozrú Íris Tupã Selva. Andam num
camelo, um avestruz e uma zebra. Trazem consigo três presentes que não se sabe o que são.
~ZUMBI C FITZCARRALDO, hacker de olhos puxados que vem montado numa
ovelha negra fazendo um mosaico de recortes de enciclopédias e jornais. Imprime desenhos
de sítios onde desenha mapas. Traz incenso de marfim. Traz de presente uma sítara de
tartaruga-vaca-carneiro.
~SHAKESPEAR MANDELBROT, coelho camaleão ilusionista semióptico. Parece
bêbado, se escora nA Compositora da Ópera e sobe ao palco. Está esperando Schröedinger
chegar. Traz de presente um órgão que espeta porcos que sangram e cantam.
~ENLIL CURIE, massagista com cabelos que a fazem parecer uma esfínge, se veste
como uma mariposa e só fala flores. Traz de presente uma flauta de vértbra de
dinossauro.

~HOZRÚ ÍRIS TUPÃ SELVA, feto escaravelho (com espinhos de ouriço) de olhar meigo, que
nasce de Catarina (Estamira) Clemente graças a Braba Yoga e Meredith Pachavuela.
Acreditam todxs que tenha nascido natimorto, posto que não se move. Só percebe-se sua vida
quando, apontando para o céu, fala a última palavra da ópera: “Nü”.

~NUN, baleia semitransparente com mil e um olhos de estrelas que emana águas vivas e sons
fluidos.

15. Prólogo no Teatro:

[A fila de entrada se forma na área externa do teatro.]

{Ocorre um atraso em relação ao horário marcado. O faxineiro Catão Moebius é o único funcionário
presente controlando a fila. Ele é amável, atencioso e curioso com o público.}

(Todas as luzes do teatro apagam.)

{Percebendo que algo está acontecendo, ele procura por uma vela, que acende. Insistindo que haja peça, ele
guia o público na penumbra até os assentos da plateia, onde os acomoda.}

{Catão Moebius permanece ali no silêncio da vela acesa por uns instantes. Decide-se então por ver o que se
passa e vai em direção ao palco. Como se algo estivesse por ocorrer, ele se volta para trás e num gesto pede silêncio à
plateia.}

[Ao que Catão Moebius se aproxima do primeiro degrau da escada que sobe ao palco, as primeiras cortinas
se abrem deixando entrever à pouca luminosidade, em frente a outras cortinas, Os Operários do Teatro nus
olhando a plateia nos olhos.]

{Catão Moebius deixa a vela se apagar. }

{Ele acende a vela de novo e se aproxima mais. As luzes da plateia se acendem. Os Operários do Teatro
observam com afinco as feições e os traços do público, escrutinizam com o olhar suas figuras e passam a se vestir
enquanto A Compositora da Ópera se ajoelha e fala olhando nos olhos de Catão Moebius e O Diretor da Casa de
Ópera fala com a plateia.}

~O DIRETOR DA CASA DE ÓPERA:
Gostaria de agradecer a todxs vós aqui presentes.
Agradecer os operários, atrizes e atores, maquiadores,
iluminadores, editores, filósofos, engenheiros,
cenógrafos, bibliotecários, programadores,
produtoras, escultores, loucos, atravessadores,
urbanistas, encenadores, cozinheiros, professores,
manicures, motoristas, impressores, seguranças,
matemáticas, crianças, agricultoras, pintores,
maquinistas, pedreiros, arquitetos, geólogos,
faxineiros, traficantes, médicos, dançarinos,
poetas, embaladores, serventes, bancárias,
farmacologistas, tecelões, administradoras,
cineastas, enfermeiros, eletricistas, prostitutos,
perfumistas, esportistas, aviadores, ladrões,
alfaiates, terapeutas, burocratas, jogadores,
estudantes, ecologistas, mendigos, lavradores,
dentistas, químicos, pedagogos, fonoaudiólogas,
artesãos, fotógrafos, pescadores, tradutores, físicos,
atendentes, psicólogos, massagistas, mascates,
tecelões, tipógrafos, geógrafos, motoristas,
contadores, astrônomas, ociosos, entregadores,
escritores, anciãos, músicos, soldados, regentes,
religiosos, zoólogos, políticos, ancestrais,
e a quem eu possa ter olvidado...

~A COMPOSITORA DA ÓPERA:
Preciso que nos perdoem todos vós aqui presentes.
Perdão por nossas ignorâncias, arrogâncias, medos,
fraquezas, estultícies, iniquidades, violências, luxúrias,
nojos, vergonhas, impiedades, injustiças, covardias,
profanações, mentiras, ganâncias, ilusões, invejas,
malícias, calúnias, vinganças, ódios, vaidades, friezas,
ascos, lascívias, presunções, preguiças, soberbas,
egoísmos, alienações, gulas, esquecimentos, preciosismos,
vileza, complicações, perfeccionismos, mendicâncias,
adicções, vícios, indecisões, hesitações, perfídias, roubos,
estupros, incontinências, torturas, assassínios, cobiças,
mentiras, soberbas, todas as nossas indiferenças...

~OS OPERÁRIOS DO TEATRO:


Platéia, cadeiras, carpete, luzes de emergência,
escada, cortinas, roldanas, cordas, iluminação,
cabos, caixas de som, fios, fusíveis, parafusos,
calhas, vidro, parede, tijolos, ranhuras, porta,
ribalta, metais, grelhas, focos, madeira, piso,
palco...
Gratidão! Perdão!
{Os Operários do Teatro deixam o palco se misturando ao público em suas funções corriqueiras enquanto
murmuram perdões e gratidões pela sala. O Diretor da Casa de Ópera e A Compositora da Ópera permanecem na
boca de cena. Agora eles começam a se vestir.}

~O DIRETOR DA CASA DE ÓPERA:


Gratidão a todas os animais que morrem e sofrem
por nossas necessidades e luxúrias,
e aos demais que tanto nos ensinam.
Gratidão a todos os conhecimentos,
técnicas, invenções, obras.
Gratidão às plantas que nos ensinam,
protegem, alimentam e purificam
nossos corpos e mentes.
Aos minérios, ao ar, à água, à terra, ao fogo,
às soluções e às substâncias,
ao planeta que nos acolhe em meio à caosmose,
às estrelas que mantêm a dança... Gratidão!

~A COMPOSITORA DA ÓPERA:
Perdão por nossos sofrimentos.
Perdão àqueles que buscam perdão,
debatendo-se contra si mesmos.
A céu perdoe o chão.
Perdão aos que claramente vêem e sofrem calados,
aos que tem seus gritos amordaçados.
Perdão aos cansados, aos dilacerados,
humilhados, mal-compreendidos e ignorados.
Às gerações que se degeneram,
à grande confusão da pobreza.
Perdão à fome dos que tem fome
e à cegueira dos que guardam e desperdiçam.
Perdão à ira dos oprimidos.
Aos animais que tolhemos com nossas demandas,
às plantas que não ouvimos,
aos pensadores e sua impotência,
nossas barrigas cheias e nossas consciências sem culpa,
ao ardil do fazedor de machados,
aos artistas e suas tolice.
Aos que ao perdão olham de lado.
A todo gesto em vão... Perdão!

{Durante a fala de ambos, a vela de Catão Moebius se apaga de novo, mas ele não tem mais fósforos para
acendê-la. Ao final em uníssono da fala dos dois, eles se põem a caminhar em direção a detrás das cortinas. O
Diretor da Casa de Ópera olha atrás num olhar de aviso para que ele se afaste do palco. A Compositora da Ópera
volta até ele e acende sua vela:}

~A COMPOSITORA DA ÓPERA:
Somos todxs diletantes. {Catarina Clemente olha para a platéia e lhes pede novamente silêncio. E pisa no
palco...}(As luzes do teatro vão se apagando todas.)

16. Prelúdio:

[As cortinas se abrem.]

<Soam duas presas de marfim chocadas uma contra a outra.>

(Pouquíssima luz, lusco-fusco.)

{A vela se apaga de novo.}

[O palco está absolutamente vazio.]

<Soa o prelúdio com sons de cortinas e véus ao vento, num resumo fragmentado da musicalidade da
ópera.>

{Catão Moebius anda até o centro do palco e passa a observar todos os elementos que compõem o teatro, um
a um, lentamente.}

{Ele então vai até os limites do palco, e descobre ali uma parede invisível. Eletenta voltar então à plateia,
mas percebe a parede que o separa de lá. Ele gesticula como se tentasse ver através de um vidro e procura pela
plateia, mas não a encontra.}

{Percebendo-se sozinho, ele vai ao meio do palco e volta a observar ao redor, mas agora é como se visse um
outro lugar. Ele fica erotizado e se desnuda, entra em um transe, dança e canta:}

~CATARINA CLEMENTE:
Música!
17. Ato Primeiro {Penetração}:
Homenagem às obras de José Agrippino de Paula, Joe Coleman, Jan Svankmajer e Luigi Nono.
Teatro abandonado, vazio.
Som Caos, Deserto Do Real à beira de um rio de merda e sangue que fede.
Do meio-dia ao poente. Úmido e frio, névoa.

<Soa A Preúsica que aos poucos vai cedendo a armas de guerra sendo engatilhadas, folhas de livros
abertos, moedas sendo depositadas e forjadas.>

(Imagens de quadros emoldurados de paisagens compõem o cenário.)

{Das diagonais, se aproximam Fausto Rosa e Gabriel Huxley por trás, e Leonardo Cervantes e Dante
Pound pelas costas.}

[Carregam sacos de lixo com imagens de um touro com cabeça de polvo, um urubu com cabeça de pombo,
uma barata com cabeça de jaguar, uma mula sem cabeça.]

{Catão Moebius vê um anel no chão. Vêm com más intenções, murmurrando de maneira violenta e
erótica para si mesmos:}

~DANTE POUND:
Código ata a priori prolabore sic
aberratio rei ad corpus abolitio crimines,
má-fé.
Occasio legis mandado fraus legis
tribunal mercancia ad quem sine die
quo ad hoc tollitur quaestio relações.
Ex locato precatório testis unus
benfeitorias de sub-rogação, sanctio iuris.
Intimação, testis nullus thema
direito consórcio modus aditamento enfiteuse decidendum.
Thema probandum rem à procuradoria
déficit concílio, caput ágio neminem
laedit comodato solve et repete.
Penhor, desobediência, taedium vitae.
Alvará tarifa inventário bis leasing liminar
arrendamento câmbio usufruto
ad valorem remedium iuris desacato.

~FAUSTO GIOVANI:
Lorem ipsum nononononono
dolor sit nononononononono amet.
Eget nononono ligula eu nononono
Nononono virgo nonono lectus lobortis.
Nulla nonononono at nonononono nonono risus.
Quisque nononon purus nononononononono canc
magna nanaonãononononono voluntas.
Nam nononon gemin nononono
malesuada venenatis leo nononononono,
commodo ultricies nonononono lorem bibendum
libri ononononononononononoononononononono sapientia
nonononononononono afectum nononoonono vitae.
Sed in nononononono libido a ante congue
nonono facilisis id non felis pellentesque nononononono
vel ourifidius urna nononononononono metus,
in viverra nononononono aria ono concupiscentia.

~ORWELL KIPLING:
Ó dama de ferro, que farás com este dom
que lhe há dado tantos custos, brucutu,
cigarros na pele, rifle, serrote, estaca, chicote,
te impede que trabalhes na corrida dos ratos,
torções, berço de Judas, garfos, garras de gatos,
empalamentos, máscaras de aço, e que você
simplesmente
não
consegue
devolver
ao seu senhor?
~DANTE POUND:
Crime taxa fideicomisso legitimatio
ad causam excessão, avulsão reconvenção
sursis litis contestatio.
Julgamento causa mortis comunis opinio.
Petita impotentia generandi falência,
si vis pacem ecce homo,
corrupção nihil obstat naturalia negotii
fórum requiescat.
Apelação in pace fraude deserção
para bellum autarquia, in absentia hipoteca
meta iptata referendum,
usucapião meritum causae,
bens idem, consumidor grosso modo
honoris causa usura tabula rasa.

~FAUSTO GIOVANI:
Cras nonono egestas nonono porttitor nononono
nulla nononononono sagitas vehicula no commodo.
Curabitur nononono sodales porttitor nonononononono
risus et nonononono tempus.
Nunc lacus nonononono quarius,
scelerisque quis vulputate nonononono at pisc,
venenatis nononononono augue.
Suspendisse nonononono suscipit facilisis
nononononononono eros,
nonono taurid euismod nnonono
nonono purus aliquet quis noite.

~ORWELL KIPLING:
Paus e pedras, arma de elefantes, roda de Catarina.
Havia um selvagem, arrancar as unhas e os olhos,
em Aberdare, privação de sono e alimentação,
que se pôs a assassinar todo mundo, tanques,
fuzis, escudos, quando ele finalmente foi morto,
lâmina, porrete, espada, encontraram uma bala,
faca, torniquetes, camuflagem, dentro de sua presa.
Aviões atirados sobre os servidores, scimitarras,
napalm no café da manhã, despedaçamento por cavalos,
lanças, javelins, scimitarras, dardos. Bomba H de microondas,
bactérias e viruses, forjando derivas a marchas, câmaras de gás,
forcas, cadeiras elétricas, spray de pimenta.
Um outro mundo é poder nos dentes,
guilhotina, fogueiras, gotas na testa, solitárias,
jaguar cibernético, cacetetes.

~GUIMARÃES HUXLEY:
Abençoados os tolos, abençoados os violentos,
abençoados os vis, abençoados os maléficos,
abençoados os engenhos técnicos.
Abençoadas as armas, abençoados os venenos,
abençoada a guerra, os parricidas e trapaceiros,
mentirosos, aproveitadores, charlatões, invejosos,
cafetões, vendedores, usurários.
Políticos e alfandegários, publicitários e propagadores do vício.
Atravessadores, puxa-sacos, arrivistas, mal-intencionados,
parricidas, estupradores, ciumentos, vingadores,
justiceiros, abeçoados os que controlam o cabresto,
líderes, mestres, gurus.
Hierarcas e criadores de confusão.
Tiranos, déspotas, inquisidores,
torturadores,
menticidas de todo cunho,
abençoados sejam.

~ORWELL KIPLING:
Cavaletes, mesas de evicerações,
quebrados os joelhos e os nervos,
rezarás!
Cibervermes da lei.
Cepo, garrote, gaiola,
cruz, estiramento, choques,
sombrasas,
hsinbyuymashin.

(Imagens de homens substituem as paisagens às molduras que mudam em ritmo outro.)

{Catão recolhe o anel do chão.} (Quando estão a ponto de tocá-lo, as luzes se apagam.)

<Soam carnes, tiros, flechas, gumes, livros rasgados e queimados, moedas aos montes escorrendo, bate
estacas, máquinas registradoras.>

{Catão se converte numa mulher. Ela é violentada com enormes quantidades de ouro em todos seus
orifícios, é esfaqueada no ouvido com uma adaga de marfim e tem seu corpo atirado às margens de um rio de
merda onde cai de boca. Catarina grita:}

~CATARINA CLEMENTE:
Ópera!

<Silêncio do tempo de uma gota de sangue escorrer dos olhos ao chão. Catarina Clemente pode fazer este
gesto se o desejar.>

(Imagens de natureza morta substituem os retratos de homens.) {De dentro de seus sacos com cara de
animais, dois deles a pintam com urucum em gestos de arco enquanto os outros dois estendem um tecido vermelho
que cruza sua boca e sexo.}
[Eles desenrolam o tecido na diagonal do palco, criando uma linha divisória, um rio vermelho.]

<Soam As Metamorfoses Devocionais, onde todos os cantos religiosos de todas as culturas do mundo se
misturam.>

{ Ao entrar em contato com o corpo dela, os quatro violadores se convertem (ou se disfarçam) em estrelas
dançarinas. Estas estrelas (dos minerais, vegetais, energias e animais).}

<Soam flamas.>

(Imagens de retratos de mulheres tomam o lugar dos retratos masculinos.)

{Erguendo-se lentamente, Catarina entoa um lamento:}

~CATARINA CLEMENTE:
Lasciatemi...
Vazio... Vazio...
Vazio... Vazio... Vazio...
Vazio...
Vazio... Algo...

<Soam gotas sobre as flamas.>

~ESTRELA MINERAL:
Resguarda-te e conserva-se.

<Soam filetes de água.>

~ESTRELA VEGETAL:
Nutre-te e te cura.

<Soam gotas e filetes e um pequeno riacho sonoro.>

~ESTRELA ANIMAL:
Levanta-te e vinga-te.

<Soa uma cachoeira de fúria.>

{Uma loba amamenta duas crianças humanas saudáveis, uma menina e um menino.}

~ESTRELA ENERGÉTICA:
Mono No Aware, paixão das coisas,
resgate a empatia à efemeridade.
Siga o que há de seguir como o que se segue
nos seguimentos e perseguições
consigo e convosco.
Do que foi não é nem será,
o que não haveria sido.

<Soa um mar de memórias.>

~ESTRELAS DANÇARINAS:
Beba das águas do rio
Do Esquecimento.

(Imagens de retratos de casais tomam o lugar dos de mulheres.)

{Ela, ajoelhada, beija o chão e bebe a merda com gasolina.}

<Pausa e silêncio. O tempo de uma trovoada no horizonte.>

(Imagens de trios substituem as imagens de casais.)

~CATARINA (OFELIA) CLEMENTE:


Aria improvisada onde a cantora recita o que deseja esquecer
que finaliza com a pergunta ‘Quem sou eu?’

{Ela olha a platéia nos olhos. As estrelas dançarinas entoam


cantos sem sentido enquanto dançam musth ao redor de Catarina.}

~ESTRELAS DANÇARINAS:
Teu nome é Ópera.

<Pausa e silêncio.>

{Catarina Clemente soergue-se com a boca marrom terra e ergue


um sorriso, aliviada de seus sofrimentos ela se põe a dançar com as estrelas.
Elas se põem a dançar no meio dos carros na marginal cantando, um
carro atropela Catarina Clemente num berro.}

<Soam As Metamorfoses Bailantes onde danças folclóricas de


todas as culturas se mesclam.>

~ÓPERA (CATARINA CLEMENTE):


Mar!!! {Enquanto desvia dos carros.}

~ESTRELAS DANÇARINAS (TRANSMUTADAS EM


AUTOMÓVEIS):
Fim!!! {Quando a atropelam.}

<Soam ventos, que se somam de automóveis convergindo num furacão de metais, calibres, lâminas que
explodem.>

[Entulho e lixo sendo amontoado no palco.]

<Soam As Metamorfose Laborais, onde cantos de colheita de todas as culturas do mundo se mesclam.>
[Após alguns atropelamentos, um enorme engavetamento se forma. Carrinhos de brinquedos e peças de
carros podem ser utilizados aqui.]
<Sons metálicos, estalidos de pólvora somam-se ao fundo sonoro.>

{Os Cenografistas tocam os instrumentos, A Orquestra monta o cenário num monte que se assemelha à
forma de um elefante. Esta inversão de papéis deve ser natural e breve, tomando apenas o tempo necessário para
que Gilgameshivashtar faça uma dança, deixe o lugar do maestro, e se ponha debaixo da montanha.}

(Imagens pop de carros se chocando e propaganda de automóveis substitui os retratos de trios.)

<Pausa e silêncio no tempo do primeiro compasso do tema dO Elefante de Marfim.>

{A dança do dodô e a sagração da primavera de pragas prossegue.}

< Somam-se Às Metamorfoses Laborais As Metamorfoses Bailantes.>

(Imagens de madonas que dão lugar a pinturas de naturezas morta e automóveis.)

<Somam-se Às Metamorfoses Laborais e Bailantes as Devocionais.>

~OS OPERÁRIOS DO TEATRO:


Coro improvisado onde os cantores recitam o que estão executando naquele exato momento, suas funções,
utilizando o vocabulário próprio de sua área. O segurança, por exemplo, canta com sua própria melodia algo como
‘Eu estou aqui cuidando para que ninguém ponha os pés nas poltronas ou acenda um cigarro...’

{Acalmado o furor da dança, as estrelas dançarinas tentam jogar pó de marfim sobre Catarina, enquanto
o público está distraído com as conversas dOs Operários do Teatro.}

<Somam-se Às Metamorfoses Laborais, Bailantes, Devocionais as Bélicas.>

(Imagens de vanitas substituem o foco das naturezas mortas.)

<Todos os sons desvanecem em 22 segundos.>

~GILGAMESHIVASHTAR:
Orfeo!

<Soa uma brisa.>

{Catarina ouve um grito que a faz fugir do ardil das estrelas


dançarinas. Ela vai até a montanha de automóveis e encontra
Gilgameshivashtar, um carroceiro que está soterrado. Ele junta
suas últimas forças e fala com Catarina:}

<Soam terras.>

~GILGAMESHIVASHTAR:
Pelas metempsicoses! Tu, Oefro!
~ÓPERA (CATARINA CLEMENTE):
Quem sou eu?

<Soa um terremoto.>

~GILGAMESHIVASHTAR:
Pelos céus!
Te deram da água do esquecimento,
logo quando atravessavas o espelho!
Ao menos não tiraram-te a poesia
Da voz com o pó da confusão maquínica!
Dir-te-ei quem és.

<Soa o primeiro movimento dA Oefrica.>

~GILGAMESHIVASHTAR:
Após dilacerado pelas bacantes, Orfeo
Fostes ao submundo, mudo e errante
Buscando Eurídice, tua própria alma
Hades impediu findar tua falta

~ÓPERA (CATARINA CLEMENTE)


A morte impediu-nos nossa calma
Atravessado o espelho

~GILGAMESHIVASHTAR:
Não pudestes mais
Nem olhar para trás
Do passado te lembrar
Nem a morte te trouxe paz

À morte e à música, assim amaldiçoaste


E amaldiçoado, prometestes vingança
Eu era Pitágoras ainda criança
Quando os números me mostrastes

Dissestes-me das coisas futuras


E implorou-me fazer-te uma jura
De que quando este agora viesse
Eu lhe lembrasse, eu lhe dissesse

Beba do rio da memória!

Atravessaste toda a humana história


Ensinastes cantos sirenes a navegantes, glória
Libertou vozes e escutas escravizadas
Por legislações e ciências equivocadas
~GILGAMESHIVASHTAR:
Eu era São Francisco, e me ensinastes
A linguagem dos pássaros no canto de altar
Eu estava lá! Já não conseguias te lembrar!
Nunca porém uma melodia mais finalizastes

<Soam também arados e grilhões ao fundo sonoro.>

(Imagens de pinturas de toaletes dão lugar a pinturas de vanitas.)

{Uma mulher atravessa o rio com um barqueiro e uma criança montada num rinoceronte de jade. São Isis
Lichtenstein, Socralistóteles e Satyrpan Abraxas.}

~CATARINA CLEMENTE (ÓPERA):


Me encontravam antes de ti!
Fazendo-me olvidar e confundir!

<Soam também indústrias bem ao fundo do lado esquerdo.>

(Pinturas civilizatórias como guerras, cidades, paisagens urbanas, concílios, líderes se alternam em alta
velocidade.)

~GILGAMESHIVASHTAR:
Fizeste com o cadáver de um piano, {O pianista adentra o piano e é fechado lá.}
Asas para que um anjo do rio vienense
Abrisse mão do anel dos saturnenses
Explodindo a constelação dos corações humanos

Teu soar cada vez mais complexo


Tua alma cada vez mais tormentos
Implorou a Hefaísto e Silênio
O segredo das máquinas de nexo

(Imagens de toalete e de naturezas mortas se alternam.)

~GILGAMESHIVASHTAR:
Viajaste a Sirius, já feito ruído <Soa um latido de cão abafado atrás da platéia.>
Agora surge das entranhas da terra
Índio com os lábios cheios de merda
Ó, óbvio! Seja tua vingança bela, amigo!

<Soam as dúvidas dA Orquestra.>

{Uma conferência das aves mais distintas passa a ocorrer na outra margem do rio. Antes que
Gilgameshivashtar termine a última sentença, as estrelas dançarinas lhe jogam pó de marfim. Catarina Clemente
corre ao rio de petróleo que escorre do monte de carros e tenta beber um gole, enquanto Gilgameshivashtar canta:}

(Imagens de trípticos, multidões, massas de gentes.)


<Soam As Transtéticas Formais.>

~GILGAMESHIVASHTAR:
Ponto, pontos, linha, vertical, horizontal,
linhas, inclinada, perpendicular, oblíquo,
ângulos, agudo, reto, obtuso, raso,
curva, côncavo, convexo.
Arco, espiral, cruz,
triângulo, isóceles, tangente, equilátero,
seno, escaleno, superfície, plano, cosseno,
órbitas, quadrado.
Retângulo, losango, trapézio, pentágono,
hexágono, heptágono, octógono, eneágono,
decágono, círculos, concêntricos, excêntricos,
parabolóide hiperbólico, heliconíade, cilindro.
Cone, plinto, tetraedro, cubo, octaedro,
dodecaedro, isocaedro.
Pirâmides, prismas, paralelepípedos.
Torno, elipsóide, parabólica, hiperbólica,
serpentina, esfera, ovo.
Rizomas, geodésicos, iterações,
fractais, arbóreas, nests. senóide, serra, onda, ondas,
mares, massas, vórtices, redemoinhos, estrelas...

(Imagens antigas de mapas mundi e de cartas zodiacais.)

<Soa um terremoto, uma faísca, uma gota, um vento enquanto inicia A Dodecaelis.>

~GILGAMESHIVASHTAR:
Vega, alpha arae, alpheratz, sadal melik,
apodis, altair, zubenelgenubi, menkar,
arcturus, caeli, pyxids, diadema, chamaeleontis,
al giedi, acubens, canopus, hamal, schedar,
kitalpha, cor caroli, sirius, procyon, alderamin,
toliman, deneb, capella, circini, coronae austra,
alphecca gemma, alchiba, acrux, sualocin, doradus,
thuban, achenar, antares, scuti, sculptoris, gamma normae,
ankaa, sagittae, fornacis, castor, camelopardus, al nair,
rasalgethi, alphard, hydri, indi, lacertae, regulus,
46 lmi, arneb, lyncis, lupi, antilae, mensae,
microscopii, muscae, octantis, betelgeuse,
peacock, fomalhaut, volantis, alrescha,

~GILGAMESHIVASHTAR:
mirfak, markab, pictoris, phaet, naos,
vulpeculae, horologii, reticuli, rukbat,
ras alhague, unukalhai, sextantis,
alkes, telescopii, aldebaran,
rasalmothallah, atria, tucanae,
monocerotis, dubhe, polaris, suhail al muhlif,
spica, solaris...
{Catarina bebe um primeiro gole do rio da memória. As estrelas dançarinas, de modo a não permitirem
que ela se lembre de tudo, ateiam fogo na pilha de automóveis. Gilgameshivashtar canta sua própria morte num
lamento. Catarina tenta socorrê-lo enquanto, tomando apenas um gole, canta com ele. Um jacaré com uma cueca e
uma calcinha cruza a lateral esquerda do palco.}

(Imagens de pinturas do mar e do céu.)

~GILGAMESHIVASHTAR:
Plutão,
Netuno,
Urano,
Saturno...

~OEFRO (CATARINA CLEMENTE):


Caronte,
Proteu, Tritão, Nereida,
Miranda, Ariel, Umbriel, Titânia, Oberon,
Mimas, Ecélado, Tétis, Diane, Réia, Titã, Hipérion, Jápeto, Febe...

~GILGAMESHIVASHTAR:
Júpiter,
Marte,
Terra...

~OEFRO (CATARINA CLEMENTE):


Io, Europa, Ganimedes, Calisto,
Fobos, Deimos,
Lua...

~GILGAMESHIVASHTAR:
Mercúrio...

~OEFRO (CATARINA CLEMENTE):


Vênus...

~GILGAMESHIVASHTAR:
Sol!

~OEFRO (CATARINA CLEMENTE):


Vácuo!

<Soa um rumor de rinoceronte.>

{Isis Lichtenstein chega correndo desembarcando do barco onde está o rinoceronte, enquanto as estrelas
dançarinas fogem rindo e jogando o pó de marfim sobre a criança que está monada no rinoceronte e no barqueiro
que a leva. É Isis, a esposa de Gilgameshivashtar que carrega consigo tecidos. Ela se volta para Catarina Clemente e
lhe pergunta:}

(Imagens abstratas de pinturas feitas com manchas de tintas compõe a cena.)

<Soa o segundo movimento dA Oefrica.>

~ISIS LICHTENSTEIN:
Quem sois? Que passou a meu Gilgameshivashtar?

~OEFRO (CATARINA CLEMENTE):


Eu sou Oefro.
Teu amado Gilgameshivashtar me fez o ver.
Disse que bebesse do rio da memória.
Mas não consegui plenamente o fazer

As estrelas nos enganaram,


O confundiram com substâncias,
Vivo o queimaram
Eu serei sua vingança!

<Soa um trovão.>

~ISIS LICHTENSTEIN:
Ouvi ele chamando seu amigo, sim!
Por isto atravessei o rio e vim
Se de nada te lembras, enfim
Como te vingarás por mim?

(Luz intensa e nenhuma imagem.)

{O fogo cessa na montanha de automóveis. Uma girafa em chamas cruza o palco.}

~OEFRO (CATARINA CLEMENTE):


Um trovão antes do raio lampejou em mim
Lembro-me e não consigo esquecer-me de um verso
Este ressoa em meu corpo todo o universo
“Procure o Elefante de Marfim!”

~ISIS LICHTENSTEIN:
Gilgameshivashtar, meu digno e honroso amado,
tu cumpriste teu destino.
Não confundistes a água pura
com o corante da tinta
de nossos desejos, tua sacrinvência.

{Catarina se põe a olhar o público nos olhos. Isis então beija o cadáver de Gilgameshivashtar e é envenenada
com o esquecimento e a confusão das estrelas dançarinas. Ela tenta então separar no sangue de Gilgameshivashtar a
água pura da gasolina e canta:}

<Sons da produção de petróleo se mesclam fazendo uma passagem para A Transtética Cromática.)
(As imagens abstratas reaparecem e vão aos poucos dando lugar a pinturas concretas e formais.)

~ISIS LICHTENSTEIN:
Transparente branco cinza bege índigo
Vermelho âmbar marinho
amarelo marrom
Azul argila prata ciano
royal lavanda limão
Púrpura naval neve oliva
Ocre petróleo pêssego
Renda chocolate creme
abacate castanho curaçao uva goiaba
Coral rútilo canário turquesa
salmão cereja
Bandeira floresta musgo
militar magenta
Mostarda laranja primavera
dourado ruivo
Chumbo jade cobre camelo areia linho
Terracota tijolo castor acaju
jambo vinho

<Soa uma erupção e magma que escorre ao fundo cruzando o palco da esquerda à direita.>

~ISIS LICHTENSTEIN:
Pérola paris mel pastel grená cadete kháki
Rubro menta céu caramelo lilás amêndoa
Ametista anil abóbora roxo verde manga ameixa
Violeta sépia fúchsia ardósia rosa russet melancia
Esmeralda carmim cobalto carmesim açafrão
Bordeaux Escarlate café urucum
Marfim!

{Isis olha Oefro nos olhos e se põe a dançar


rasgando os véus e se desnudando. Seu filho
Satyrpan Abraxas surge ao fundo sentado no
rinoceronte e se põe a meditar. Cada uma de
suas cabeças fala por si mesma:}

<Soam as Transtéticas Patéticas.>

(Imagens de gabinetes de curiosidades começam a


sobrepôr aquelas concretas e neo-concretas.)

~SATYRPAN (ABRAXAS):

Vazio pleno, pleno vazio.


Conatus. Distâncias, proximidades.
Emergências, temperaturas, variabilidades,
constâncias, durações, continuidades,
simultaneidades, movimentos, localizações.
Formas, moldes, matérias, formações,
rugosidades, brilhos, opacidades, repetições,
transparências, cromas, volumes, densidades,
contrastes, fissões, intensidades, luminâncias,
iterações, agrupamentos, profundezas, amplitudes,
entranhamentos, misturas, mesclas, dimensões,
texturas, vórtices, gamas, fricções, paletas,
nuências, alhures, timbres, pesos, valências,
pressões, cargas, magnetismos, similaridades,
ampliações, fusões, expelimentos.
Conectividades, ressonâncias, estruturas,
dinâmicas, fluências, choques, potências,
ruídos, harmonias, evoluções, angulações,
solubilidades, proliferações, funções, organizações,
consistências, onijetividades, imprevisibilidades, aderências.
Resistências, impressões, lembranças,
flutuações, esquecimentos, insistências.
Transduções, motivos, padrões, percepção,
cognições, causalidades, identidades, complexidades...

~ABRAXAS (SATYRPAN):
Nihil. Temor, fúria, angústia, interesse,
carinho, coragem, desatino, desapego,
volúpia, aborrecimento, alegria, repugnância,
curiosidade, euforia. Apatia, pressa, desgosto,
ansiedade, plenitude, calma, cólera,
náusea, vertigem, otimismo, ameaça,
cançasso, confiança, contenção,
empatia, submissão, contentamento,
pesar, antecipação,
tesão, desprezo, nojo, repugnância, energização,
afabilidade, nervosismo, afasia, remorso, confusão,
depressão, vigilância, tontura, sublimação,
submissão, riso, apreensão, feiúra, asco, beleza, tristeza,
maravilhamento, melancolia, apatia, êxtase, distração,
completude, afiliação, nutrição, deleite, irritação,
divertimento, rejeição, ressentimento, afetividade,
confiança, tensão, estima, satisfação, delírio, pânico,
prazer, engano, sobriedade, desordem, ternura, tédio,
intimidade, concentração, suavidade, reconhecimento,
surpresa, iluminação, ódio, terror, amor, serenidade,
gratidão...
(Imagens de câmaras de artistas vão se somando às de gabinetes de curiosidades.)

{As duas terminam a dança dos véus enquanto Oefro se volta para Satyrpan Abraxas e vai lhe fazer
uma pergunta, mas a chegada de cinco religiosos cegos a impede. O barqueiro Socralistóteles se põe a conversar

~SOCRALISTÓTELES:
Que dizes jovem Satyrpan? É teu pai morto e tua mãe enlouquecida.

<Soa O Ruíd’Om Sem Cor.>

{Satyrpan Abraxas medita. Um ser metade ovelha, metade gato cruza o palco.}

<O Ruíd’Om Sem Cor dilata e comprime-se até que soam As Transtética Formais.>

~SOCRALISTÓTELES:
A profundidade da barca
não é a mesma com e sem o elefante.
Todos os elefantes são símbolos, signos
Significantes, significados, ícones,
Codenotações, interpretantes, conceitos,
Relações, mecanismos
Pó de marfim! {Passando a mão no nariz que sangra petróleo.}

<Soa também O Qoro Confuso.>

~QORO DOS OPERÁRIOS DO TEATRO:


É? Quem? Como? Onde? Quanto? Quando? Por Que?

[Os Operários do Teatro ordenam as personagens de maneira linear, de modo a caber numa grade
imaginária.]

~SOCRALISTÓTELES:
Tertium non datur, satisfação das premissas
Se e somente se, então logo possíveis
Caso outro expressões algébricas
Sinais conectivos, frações distribrutivas
Predicados relativos paraconsistentes
Metalepses, sinédoques, aliterações

~QORO DOS OPERÁRIOS DO TEATRO:


Quem? É? Como? Onde? Quanto? Quando? Por Que?
~SOCRALISTÓTELES:
Semânticas, quantificadores, necessidades
Derivadas, funções, cláusulas, consistências
Vagas, objetos conceituais, modalidades
Aspectos substanciais, aparências contingentes
Metacategoremas, aliterações, onomatopéias
Metalexismos, noas, hipérboles, trivium

~QORO DOS OPERÁRIOS DO TEATRO:
Como? É? Quem? Onde? Quanto? Quando? Por Que?

[Os Operários do Teatro contam as personagens e o público na platéia.]

~SOCRALISTÓTELES:
Validações, preposições, códigos
Induções, transcordâncias, falstruísmos
Correspondências teórico-formais
Interpretações, tabelas de verificação
Admissibilidades, condicionamentos
Eufemismos, metonímias

~QORO DOS OPERÁRIOS DO TEATRO:


Onde? É? Quem? Como? Quanto? Quando? Por Que?

~SOCRALISTÓTELES:
Para elementos, conjunção disjuntiva
Modus ponens tollens, dupla negação
Difusão dos graus de pertinências
Silogismos hipotéticos, composição

~QORO DOS OPERÁRIOS DO TEATRO:


Quanto? É? Quem? Como? Onde? Quando? Por Que?

[Os Operários do Teatro se organizam e fazem um censo, tabelando as pessoas de acordo com seus aspectos
externos.]

~SOCRALISTÓTELES:
Conjuntos nebulosos, operadores
Cálculos sentenciais, léxicos gramaticais
Derivabilidade de regras, fórmulas atômicas
Proposições implicativas, dilemas
Epiquereas, subcodivisões transitivas
~QORO DOS OPERÁRIOS DO TEATRO:
Quando? É? Quem? Como? Onde? Quanto? Por Que?

~SOCRALISTÓTELES:
Tetralemas, base de análises, concomitâncias
Deduções, diferenciações, inferências
Comutações, associatividades, distributividades,
Transposições, valências, aporias, antonomásias
Sorites, metáforas, ironias, tautologias

~SOCRALISTÓTELES E O QORO DOS OPERÁRIOS DO TEATRO:


Por que?!

{Socralistóteles, com as duas mãos, tapa os ouvidos, tapa a boca e por fim tapa os olhos e dá as costas à ação,
recolhendo-se ao pequeno barco. Os cegos seguem como zumbis, procurando por Satyrpan Abraxas, iluminado que
dizem sentir estar próximo, do qual se alimentarão como vingança por ter falado de temas proibidos. Põem-se a
falar a Oefro:}

<Soam As Metamorfoses Devocionais, As Transtéticas Sensíveis e Os Qoros Impositivos.>

~MERKA JAH ZOHAR:


Por aqui! {Tapa os olhos cegos.}
O cheiro abominável da iluminação proibida.
Cessará nossa sede, calará-se estas ignomínias!

~SARAH CLARA GAJA:


Não existem aromas, flores! {Tapa os ouvidos.}
Somos o perfume da sabedoria, rio! {Cheira o rio.}
Nós, mestres ascencionados da fraternidade atlante
Lhe ensinaremos a hierarquia da pirâmide circular!

{Hárpias pousam na montanha de automóveis.}

~DAVI VUH CASTAÑEDA:


“É preciso que nos diminuamos para que algo exista.” {Fala muda, enquanto tapa a boca.}

<Somam-se As Metamorfoses Bélicas e As Transtéticas Formais.}

{Oefro percebe que os cegos estão se aproximando de Satyrpan Abraxas da mesma forma que as estrela
bailarinas fizeram com ela, então começa a desviar suas atenções com gasolina, cujo cheiro eles perseguem com
desejo.}

~ALFIL ESÚ AVESTA:


Seguimos pelos desertos, só há desertos {Tapa o peito com as mãos.}
Este aroma de iluminação nos guia à música herege.
Daqui ouvimos o canto da ave das aves,
Quem ousou em tempos de miséria entoar cantos (de sabedoria)?

~OEFRO (CATARINA CLEMENTE):
Cantava eu, Oefro, pois descobri minha busca, O Elefante de Marfim.

~CASSANDRA T’TAR SUPAYALAT:


Mentes dizendo a verdade.
Tua iluminação ainda virá e escuta-me:
Teu sacrifício será infindas vezes maior que o desta criança!
Onde está a criança que não se prde com o pó de marfim!?
Onde, esta que emana verdades simples e amor em cada gesto
Que ousam ir contra os pilares da interfé?!

{Um minotauro nada no rio.}

~OEFRO (CATARINA CLEMENTE):


Está no rio do esquecimento.

~MERKA JAH ZOHAR:


Por aqui!
A continuação natural de nossa linhagem pura.
Só necessita ter seu sangue extraído
purificado pela doutrina.
Nós e todos os outros animais
Somos máquinas devoradoras de máquinas.

{Merka Jah Zohar tenta subir no rinoceronte, mas Oefro impede.}

<Somam-se As Metamorfoses Laborais e As Transtéticas Patéticas.>

~DAVI VUH CASTAÑEDA:


“Sikh!”{Grito gutural emudecido enquanto decepa a cabeça de Isis Lichtenstein.}

~ISIS LICHTENSTEIN:
Preto!

<Somam-se As Metamorfoses Bailantes que vai tomando todo o espectro da emanação sonora até que se
torne O Ruíd’Om sem Cor.>

(Blackout.)

[Os Funcionários do Teatro ensanguentam-se também.]

<Soam carnes, vísceras, fezes, cabelos, corpos.>

(As luzes retornam mais fracas. Huva de pedaços de carne , ossos, pelos, órgãos.)

{Satyrpan Abraxas desce do rinoceronte de jade e se entrega aos cinco cegos que a destroçam e devoram o
coração e a cabeça. Os restos de seu cadáver, enfiam em todos os orifícios de Oefro enquanto lhe falam:}
<Soa A Proúsica.>

~SARAH CLARA GAJA:


Agora estão todos purificados e podem ser bons.

(Imagens de museus vão se somando às de câmaras de artistas e gabinetes de curiosidades.)

~ALFIL ESÚ AVESTA:


E tu, Oefro. {Em tom de desprezo.}
Queres que te tiremos os olhos
Para que não mais vejas as dores deste mundo
Nem tenha que vislumbrar sua terrível sina porvir?

~OEFRO (CATARINA CLEMENTE):


Não! Seguirei ouvendo até
encontrar O Elefante de Marfim.

~CASSANDRA T’TAR SUPAYALAT:


Blásfema! <Com voz diabólica, nonavadas acima e abaixo, num volume ensurdecedor.>

{Os cegos partem em direção de Oefro, que se desvencilha dos restos de Satyrpan Abraxas e atira o galão de
gasolina sobre a pilha de automóveis e sobe sobre o rinoceronte. Os cegos são atraídos pelo cheiro de gasolina até lá e se
põem a tatear e conversam entre si:}

~DAVI VUH CASTAÑEDA:


“A beleza há de salvar o mundo.
Mas há de para isto destruir a humanidade.” {Fala muda}

~CASSANDRA T’TAR SUPAYALAT:


Oefro! Teu corpo foi purificado!
Tens a forma de automóveis!

~MERKA JAH ZOHAR:


Um elefante!

<Pausa e silêncio no tempo que determinar o maestro.>

~ALFIL ESÚ AVESTA:


Que é um elefante?

<Pausa dramática.>
{Sangues sugas saem do rio que transborda bosta, sangue e petróleo sobre os pés de todxs. Uma lacraia cai
nos ombros de Socralistóteles.}

~CASSANDRA T’TAR SUPAYALAT:


As estruturas de um templo, um altar!

~SARAH CLARA GAJA:
Oefro se transformou pela disciplina e a submissão à doutrina em um elefante!
Mas o que é afinal um elefante? Oh! Armas de guerra! Não...

~OS CEGOS RELIGIOSOS: <Em um Qoro Imperativo.>


É marfim! Seu corpo se verteu numa enorme pilha de marfim! É meu!

<Soa o primeiro movimento da ciberfonia O Elefante de Marfim.>

{Ele começam a se digladiar entre si e se devorarem mutuamente. Socralistóteles rema o barco com o
rinoceronte e Oefro montada para a outra margem do rio enquanto vêem uma capivara morrer enforcada num
pneu sem que possam ajudá-la.}

{Ao final da ciberfonia, as cortinas se fecham.}


17.1. Interterzo:

{O público sai para o saguão.}

[Há uma mesa com um elefante feito de comida de todas as culturas humanas.]

{A Orquestra deve editar os melhores momentos da gravação do Ato Primeiro para sua
reexecução no começo do Segundo Ato.}

{Os Operário do Teatro devem manter uma postura de que algo estranho está ocorrendo,
parecendo receosos, zelosos e tomando cuidado com cada gesto e palavra.}

{A Compositora da Ópera chega atrasada para o espetáculo, não se importa com a comida e já
adentra à sala, onde se posiciona sentada e fica a observar com muita atenção todo o espaço e as pessoas que
estão ali e chegam até o começo do Segundo Ato.}

{A platéia é revistada antes de entrar no teatro para o segundo ato.}

<Enquanto eles se sentam soa O Trovão Silencioso.>



18. Segundo Ato {Rompimento}:
Homenagem às obras de Sousândrade, Paul Laffoley, Alejandro Jodorowsky e Karlheinz Stockhausen
Torre de Marfim, “o centro de compras da arte”, abandonado.
Atlante Babelôn, deserto de concreto.
Noite. Seco e quente, cheiro de verniz de embalagem.

[As duas cortinas estão fechadas.]

{A Compositora da Ópera começa a narrar tudo o que se passa no teatro inteiro de maneira fria e sem
comentários ou adjetivos, como se lesse o libreto, até o final do segundo ato.}

~A COMPOSITORA DA ÓPERA:
Inicia-se o segundo ato. Os espectadores se sentam e aguardam as cortinas se abrirem. Algumas
pessoas tossem. As luzes vão diminuindo e a primeira cortina se abre... etc.

{A primeira cortina se abre.}

<Soam as gravações do primeiro ato editadas pelA Orquestra junto aOs Filtros, que vão deixando o
material cada vez mais palatável até que se torne uma música pop de musical à moda da Broadway.>

{À frente desta, atada a uma cadeira de presas de marfim, Oefro é maquiada por Orlan Abramovic. A
luz desenha o reflexo do espelho de um camarim sobre as duas.}
~ORLAN ABRAMOVIC:
Um belo elefante há de ser rosa, para que sua brancura não se perca no museu.

~OEFRO (CATARINA CLEMENTE:


O elefante de marfim!

~ORLAN ABRAMOVIC:
Não existe tal coisa. {Com desdém.}

{Orlan Abramovic cheira pó de marfim. Uma barata de terno entra pela porta principal do teatro e
cruza até as cochias.}

<O som do pó de marfim pode ser executado com um carrilhão dos graves aos agudos.>

~ORLAN ABRAMOVIC:
Açúcares, absinto, álcool, amanitas,
amt, ayahuasca, peyote, café, cannabis,
anfetaminas, coca, datura stramonium...

{Oefro começa a cantar em dueto, com complacência e ternura num múrmurio que vai aos poucos se
tornando cinismo e ironia.}

~OEFRO:
hidrogênio, hélio, lítio, berílio,
boro, carbono, azoto, oxigênio, flúor,
néon, sódio, magnésio, alumínio, silício,
fósforo, enxofre, cloro, árgon, potássio,
cálcio, escândio, titânio, vanádio, cromo,
manganês, ferro, cobalto, níquel, cobre,
zinco, gálio, germânio, arsênio, selênio,
bromo, crípton, rubídio, estrôncio, ítrio,
zircônio, nióbio, molibdénio, tecnécio, rutênio,
ródio, paládio, prata, cádmio, índio, estanho,
antimónio, telúrio, iodo, xénon, césio, bário,
lantânio, cério, praseodímio, neodímio, promécio,
samário, európio, gadolínio, térbio, disprósio,

~OEFRO:
Hólmio, érbio, túlio, itérbio, lutécio, háfnio,
tântalo, tungsténio, rénio, ósmio, irídio,
platina, ouro, mercúrio, tálio, chumbo,
bismuto, polónio, astato, rádon, fâncio,
rádio, actínio, tório, protactínio, urânio,
neptúnio, plutônio, amerício, cúrio,
berquélio, califórnio, einstênio, férmio,
mendelévio, nobélio, laurêncio, rutherfórdio,
dúbnio, seabórgio, bório, hássio, meitnerio,
darmstádio, roentgênio, copernício, ununtrio,
ununquádio, ununpentio, ununhexio, ununséptio, ununóctio...

~ORLAN ABRAMOVIC:
Dmt, dob, dpt, dxm, efedrina, ghb, heroína,
aet, capsaicina, adrafanil, ibogaína, kava kava,
amt, ketamina, bufotenin, lsd, olanzapine, oxicodona,
mdma, heroína, mescalina, dipt, aniracetam, dmt, dob,
dom, alprazolam, bupropion, carisoprodol, codeína,
psilocibina cubensis, etilcatinone, bz, pramiracetamina,
amanita muscaria, ópio, ácido ascórbico, kratom,
alcalóides, pcp, betel, álvia divinorum, tabaco, 2cb, mbdb,
mate, mdai, mdpv, met, dmae, metiopropamina,
metoxetamina, nicotina, nitrina, fluoxetina, hidrocodona,
venlafaxine, fipexídia, piperazinas, meclofenoxatina,
modafinil, oxiracetam, fenitoína, fenilanina, endorfina,
dopamina, butanediol, peganum harmala,
piracetamina,
selegilina, chocolate, triptofan, teína, barbitúricos,
2ct2, bzp, vasopressina, vinpocetina, heroína, 2ct7,
5meo-dipt, diazepam, cristal, êxtase, glória da manhã...

{Ao final do canto de Orlan Abramovic, Oefro se ergue


da cadeira e brada:}

~OEFRO:
O elefante de marfim!

[Os Operários do Teatro atravessam o palco com obras


renomadas da história da arte.]

{A segunda cortina se abre.}

(Cubo branco bem iluminado.)

{Os Operários do Museu se separam dos Operários do


Teatro e se põem a limpar o palco. Oefro se vira e os observá
enquanto Ananse Teotihuacan costura a roupa de Oefro, uma
camisa de força.}

~ANANSE TEOTIHUACAN:
Fio, tinta, tom, trama, rapport, textura,
tingimento, costura, linha, fibra,
metragem, caimento, entrelaçamento, tear,
fiação, xadrez, linho, algodão, tricoline...

<Soa A Metaformose.>

(Imagens de diversas formas geodésicas com linhas prateadas moldam a profundidade e a forma da sala
em mapeamento de video.)
{Nyemeyer Bo fazendo origamis e Wagner Verdi se desprendem do maestro e dA Compositora da Ópera
e seguem ao palco cantando e analizando o espaço cênico a ser montado.}

~NYEMEYER BO (E WAGNER VERDI):


Prática arquitetônica (acústica sonora):
Planialtimetria (audiometria), programa (programação),
criação (transcriação), partido (orquestra), projeto (partitura),
aprovação (crítica), executivo (soação), cronograma (ensaios),
construção (gravação), ação (performance), azimutes (tons),
coordenadas (escalas), cotas (arranjo), desejos (escutas),
necessidades (ruídos), sensível (som), cognição (melodia),
organograma (harmonia), fluxograma (progressões harmônicas),
orientação (leitmotiv), antropologia (musicologia),
percepção (audição), proporção (radiação, propagação),
harmonia (estocástica), ritmo (pulso), função (música),
forma (transmetria), escala (ponto de escuta),
desenho (paisagem sonora), aprovação (duração)...

(As imagens mapeadas dos diversos projetos começam a ter fluência e o espaço vai se tornando fluido.)

~NYEMEYER BO (E O MAESTRO DA ORQUESTRA):


Espera (pausa). Desenvolvimento (pesquisa),
impressão (allure), cópias (fractais),
burocracias (métodos).
Restrições (limites do audível).
Alvarás (estilos) e etapas (modas).
A coreografia do possível (dança sem coreografia).
Maestria (aura), equipes (redes), previsão (devir),
duração (improviso), terceirização (samples, citações),
limpeza (decupagem), canteiro (entrescuta),
gerenciamento (cibernética), ponto zero (silêncio),
estacas (axiomas), infra-estruturas
(harmonias contextuais),
estruturas (nanoharmonias espectrais),
lajes (ressonâncias espectrais),
vedação (reverberação)....

(Imagens de projetos arquitetônicos de museus do mundo se somam.)

~NYEMEYER BO (E O MAESTRO DA ORQUESTRA):


Atrasos (delays, ecos).
Aberturas (barulhos), elétrica (estática),
hidráulica (paixões musicais), caixilharia (percussão, fonomia),
piso (cultura aural pública), pintura (fonótica),
louças (modulações), metais (sopros, cordas),
acabamentos (libretos e videos), paisagens sociais (audível),
ocup-ação (bioeco, interferência)...

{Percebendo a presença de Oefro ali amarrada, decorada e embrulhada para presente, Wagner Verdi
toma os origamis que Nyemeyer Bo vinha dobrando e se põe a anotar sobre as linhas da dobradura.}

(Em cima do espaço fluido, começam a flutuar palavras de editais e legislações de arte.)

~WAGNER VERDI:
Jabá!

(Cartas urbanisticas começam a se somar sobre o cenário, como linhas de forças cruzando o espaço.)

{Orlan Abramovic se põe a maquiá-lo, Wagner Verdi cheira pó de marfim e Ananse Teotihuacan lhe
põe uma peruca de coruja. Ananse Teotihuacan beija Orlan Abramovic.}

(Imagens de notícias de jornais se somam nas projeções.)

<Soa A Transônica e um som binaural que se movimento no espaço como um fio saido da cloaca de uma
aranha.>

{Ananse Teotihuacan faz a dança da aranha com fios que saem do cabelo de Wagner Verdi.}

[ Os Operários do Museu passam a montar um púlpito de leilão de marfim.]

{Jesus Moisés Sade e Shamash Mohammed, ao ver que não podem entrar começam a brigar. Ananse
Teotihuacan finaliza sua dança com um movimento de braço que vai
do teto ao chão. Oefro tenta escapar, mas...}

~ANANSE TEOTIHUACAN:
Alfaiataria, moulage, estampa,
padrão, flanela, urdume, cala,
pente, sarja, cetim, jacquard,
engomagem, trançado, agulha,
alfinete, pigmento, corante, seda,
cochonilha, indigueiro, alúmen, cromo,
anilina, malha...

[Um véu semi-transparente branco desce entre o público e a


platéia que impede Oefro de fugir.]

(O cenário arquitetônico fluido retorna ao fundo, mas agora


começa a adquirir transparência deixando entrever um urbanismo
também fluido.)

(Infográficos de física são


projetados entre a platéia e o palco.)
{Nyemeyer Bo, se põe a
observar o público, olhando- com
distância. Wagner Verdi sobe ao
púlpito e gesticula como um maestro
regendo o palco e o público.}
~NYEMEYER BO:
Zoológicos, astrolábios, palácios, senzalas,
plataformas, galpões, casas, arranha-céus,
praças, cassinos, bangalôs, canais, domos,
cais, coretos, castelos, lagos, páteos,
pirâmides, bibliotecas,
aquedutos, hospitais, castelos,
pontes, escolas, piscinas, ocas,
andares, usinas, torres, arenas,
labirintos, bares, mesquistas,
ginásios, cofres, teatros...

<A Orquestra se nega a tocar, pausa e silêncio de 1


minuto.>

{O Maestro da Orquestra chama Os Tubarões


Voadores cercam A Orquestra.}

~NYEMEYER BO:
Portais, hotéis, estaleiros, iglus, fóruns,
aedícula, moinhos, estufas, molhes,
fortes, faróis, edifícios, templos,
estradas, mausoléus, estádios, palhoças, cabanas,
barragens, tetos, portos, museus, fontes, fornos,
cemitérios, cárceres...

[Os Funcionários do Teatro passam com animais


enjaulados, culminando numa estante com frangos e galinhas.]

{Uma esteira com cem jaulas com humanos sem canto começa a girar, enquanto aves lhes colocam trombas.
Os Tubarões Voadores vão em direção de Nyemeyer Bo e a espancam. Ela geme de prazer cantando enquanto a
orelha é pendurada. Aproveitando o afastamento dOs Tubarões Voadores, A Orquestra toca livremente.}

<Soam As Critifonias Procedurais.>

~NYEMEYER BO:
Cantoneira, gesso, policloreto de vinila, betume,
tégula, cerâmicam macuti, tufa, fibra de vidro,
cal, telha, calcária, vermelha, cobogó,
metal expandido, painel canaletado, plastificante, estuque,
veda-rosca, vergalhão, fritas, bloco, pedraornamental,
luva de correr, telha romana, grama, aglomerante, areia,
brita, concreto, revestimentos, adobe, escória, vidros,
revestimento, ferro, cob, vidros forjado, taipa, celular,
tirante, portas, tijolos, isolante térmico,
carbono, coprocessamento, poliestireno,
concreto, valor, ferro, cimento...

[Uma orelha é pendurada num gancho e é erguida acima do púlpito como primeiro produto da noite.]

(Infográficos de química são projetados entre a platéia e o palco.)

{Sob proteção dOs Tubarões Voadores, Os Operários do Museu vestem ternos pretos, se transformam nos
Compradores de Arte e tomam seus lugares ao redor do púlpito. Saatchi Pax entra sussurrando, acompanhado de
Adorno Morin Flüsser. Wagner Verdi faz um prâmbulo ao leilão, repetindo a gesticulação dO Diretor da Casa
de Ópera ao agradecer no começo da ópera:}

~SAATCHI PAX:
Belezas, missionários, papai e mamãe, barrigas,
de quatro, bundonas, pica grande e negra,
clitóris grande, pau gigante, peitões naturais,
mamilos grandes, buceta na bicicleta,
biquínis, rapidinhas, bissexuais, cadelas,
bizarro, com os olhos vendados, loiras,
boquetes, olhos claros, no barco,
pintura corporal, lingeries, servidão, botas,
saques, chefes, garrafas, sutiãs, suspensórios,
noivas, morenas, correias, cócegas,
apertadinho, humilhação higiênica, língua...

~WAGNER VERDI:
Mais-valia, banco central, renda
anistia, capital, produção,
título de capitalização, imposto,
caixa, bens de consumo duráveis,
bird, papel-moeda, ombudsman,
país, juros de mora per capita, {Apontando Adorno Morin Flüsser.}
boicote econômico, alca,
frete, abertura, tabela price,
paraíso fiscal, marketing,
crash, escravagismo,
fazenda, taxa de câmbio, fatura,
alienação fiduciária, produtividade,
economia solitária de escala...

(Infográficos de biologia são projetados entre a platéia e o palco.)

{Os Tubarões Voadores voltam a cercar A Orquestra. Adorno


Morin Flüsser se prosta ao lado do púlpito, aponta à orelha e passa a
explicar a obra om citações. Os Compradores de Arte prestam atenção com
interjeições entre si:}

<Soam As Metamorfoses Devocionais.>

(Infográficos de astronomia são projetados entre a platéia e o palco.)


~OEFRO (CATARINA CLEMENTE):
Os deuses do crepúsculo!

~ADORNO MORIN FLÜSSER:


Magnetismo, banditismo, paralelismo, evangelismo,
ablativismo, favoritismo, realismo, feudalismo,
pára-quedismo, puxa-saquismo, expansionismo,
nazismo, igualitarismo, pós-modernismo, ilusionismo,
estrelismo, existencialismo, escravismo, alarmismo,
derrotismo, bipartidarismo, cinismo, behaviorismo,
paganismo, anabatismo, escapismo, construtivismo,
catolicismo, atomismo, liberalismo, saudosismo,
hebetismo, regionalismo, antipapismo, africanismo,
canibalismo, maneirismo, chauvinismo, funcionalismo,
aristofanismo, malabarismo, gongorismo, congruísmo,
sadismo, sionismo, materialismo, arminianismo,
simbolismo, deísmo, montanhismo, analfabetismo,
alpinismo, iluminismo, cubismo, concretismo, mutismo...

~COMPRADORES DE ARTE:
666%
4,669
13/1
mil e uma

<Soam As Critifonias Subservientes.>

~ADORNO MORIN FLÜSSER:


Tropicalismo, nomadismo, ufanismo, machismo,
ruidismo, altruísmo, cacografismo, racionalismo,
patriotismo, protestantismo, grecismo, sonambulismo,
hedonismo, pluralismo, truísmo, companheirismo,
nervosismo, fatalismo, enciclopedismo, despotismo,
sentimentalismo, populismo, parasitismo, inatismo, unicismo,
erotismo, sectarismo, capitalismo, modismo, oportunismo,
tabagismo, iatismo, marxismo, estrangeirismo,
paisagismo, automobilismo, cristianismo, antagonismo,
vandalismo, pessimismo, academicismo, classicismo,
secularismo, comunismo, reformismo, masoquismo,
conformismo, arabismo, egotismo, profissionalismo,
psicologismo, cromatismo, futurismo, humanismo,
militarismo, mundanismo, parlamentarismo, nanismo,
anarquismo, paludismo, empreguismo, peristaltismo,
neologismo, curandeirismo, atletismo, ocultismo...

{Um humano que parece um caracol de tantas coisas que carrega usa um instrumento de caçar borboletas
enquanto tenta capturar as informações do vídeo. Murmurra sobre “Leda e os naturalistas”.}

~OS COMPRADORES DE ARTE:
Anúncio, budget, embalagem, celebridade,
cliente, mostruário, royalty, slogan, spot,
swot, teaser, top, fechamento, horáro nobre,
matéria, reportagem, apresentação, design,
promoter, ícone, agitador cultural,
trendsetter, modelo, luxo, decoração,
imagem, produção, layout, conforto, perfil, referência...

{Wagner Verdi começa o leilão, apontando aos apostadores cada vez mais depressa. Os Compradores de
Arte respondem com grunhidos:}

(Fórmulas matemáticas são projetadas entre a platéia e o palco. Números se somam à projeção espacial ao
fundo, criando uma arquitetura numérica.)

~WAGNER VERDI:
Brainstorming, produto interno bruto, custos,
pensão, demanda, juros, trabalho, sazonalidade,
boleto, cartão de débito, incentivo fiscal, oferta,
capital de giro, commodities, serasa, custos sociais,
leasing, informal, merchandising, debênture, macroeconomia,
organização, cartão de crédito, liquidez, fluxo de caixa,
lobby, tigres asiáticos, cartel, autarquia,
erário, falência, custos fixos, hipoteca,
capitalismo, desequilíbrio, logística, royalty, hot money...

~OS COMPRADORES DE ARTE:


Produto, mercado, concorrência,
target, público-alvo, mailing, marketing,
verba, patrocínio, posicionamento, apoio,
público-alvo, peça, assessoria, imprensa,
clipping, veículação, mídia básica,
eletrônica, impressa, mix, marca,
valor agregado, conceito, tendência,
formato, identidade, status, tática...

{Ao conseguir a compra, Damian


“Banksy” Barney bate no peito e salta como
um macaco demarcando território. Ruge
como um leão enquanto é erguido nos ombro
pelos outros Compradores de Arte. Emyr
Elemér percebe Oefro e passa a fazer uma
escultura igual a ela.}

{Ananse Teotihuacan repete o gesto


de braço do teto ao chão enquanto entoa um
lamento:}
~ANANSE TEOTIHUACAN:
Navete, lã, cânhamo,
bordado, ponto cruz, palha, rede,
retalho, sisal, gobelin, chita, urdidura,
morim, bainha, barra, ziguezague,
ponto, cruz, cheio, nó, corte, hardanger,
desenho, bastidor, cadarço, molde,
organdi, cambraia, juta, alinhavo,
amarra...

[A orelha é baixada.]

{Damian “Banksy” Barney devora a orelha de arte. Emyr Elemér lhe canta:}

~DAMIAN BANKSY BARNEY:


Propaganda!

~EMYR ELEMÉR:
Isto está de pé aqui a milênios, {Apontando para o teatro todo.}
Infinitamente ancestrais, sem nenhuma assinatura...
Uma celebração à gloria divina e à dignidade humana,
Elefantes...
Só o que a maioria dos artistas conseguem perceber são humanos, nus
Pobre saco de sem fundo, não há celebrações,
Os cientistas seguem nos dizendo que esta vida é descartável,
Vocês sabem, pode ser exatamente isto,
Esta floresta de moléculas, uma glória anônima,
Este cântico épico esvaziado, este coral desafianando o silêncio,
Que escolhemos que ressoe aos ouvidos quando nossas cidades
se converteram em prisões desertas, e a guerra cobrou o preço do preço
Os de bom coração, choram os artistas mortos do passado presente
Todas as nossas canções serão silenciadas
Mas e então?
... Seguir cantando!

(Infográficos da história da humanidade são projetados entre a platéia e o palco em alta velocidade.)

{Os Compradores de Marfim discutem e Damian “Banksy” Barney tem seus próprios ouvidos devorados
pelos outros Compradores de Marfim.}

~OS COMPRADORES DE ARTE:
Ad hoc, SPAM, arte final, vale brinde, promoção, mostruário,
logomarca, gôndola, deadline, SPAM, cupom, biombo,
SPAM, briefing, cartaz, SPAM, anúncio, SPAM
audiência bruta, caixa alta, circuito aberto, SPAM
workstation, SPAM, zoom, SPAM, tiragem
timing, SPAM, SPAM, telemarketing, SPAM
superposição, story board, SPAM, release,
penetração, SPAM, mala direta, imagem de marca
SPAM, sellout, fusão, editora, gravadora, diferencial, desconto
SPAM, SPAM, SPAM, central de mídia...

~DAMIAN BANKSY BARNEY:


Antimultipoliextragransupermegahipermaxultraintertransautopósprópropaganda!

{Ananse Teotihuacan ri enquanto o enfaixa, Orlan Abramovic serve uma bandeja de pó de marfim a
fim de acalmar Os Compradores de Marfim.}

(Infográficos da história da arte e da ópera são projetados entre a platéia e o palco. Alguns grifos de tigres
voam na lateral do palco.) <Soam bolsas sonificações de dados: terremotos, bolsas de valores, dados populacionais.>

{Orlan Abramovic puxa Oefro e a pendura no gancho. Ela é erguida enquanto Emyr Elemér acena-lhe e
finaliza sua cópia. Ao vê-la, Saatchi Pax se apaixona. Ele não tirará os olhos dela até que termine o leilão,
lambendo os beiços. Os Tubarões Voadores se dirigem a Emyr Elemér, mas não ousam tocá-lo, porém destroem sua
cópia de Oefro. Adorno Morin Flüsser apresenta-na:}

~ADORNO MORIN FLÜSSER:


Autodidatismo, concretismo, relativismo, automorfismo,
adventismo, positivismo, judaísmo, tecnicismo, otimismo,
astigmatismo, dadaísmo, triunfalismo, cavalheirismo, microssismo,
neocolonialismo, esoterismo, diletantismo, fetichismo,
pedagogismo, expressionismo, individualismo, apriorismo, socialismo,
mecanismo, metamagnetismo, epicurismo,
aforismo, panteísmo, eufemismo,
expressionismo, hibridismo, feminismo,
evangelicalismo, conceitualismo, autoritarismo, biotropismo,
nacionalismo, virtuosismo, quixotismo, silogismo,
artificialismo, latinismo, espiritismo, umbandismo,
helenismo, puritanismo, botulismo, casuísmo,
silabismo, heroísmo, narcisismo, isomorfismo,
fanatismo, nepotismo, comensalismo, caudilhismo,
antropocentrismo, corporativismo, dimorfismo,
mercantilismo, amadorismo...

{Emyr Elemér deixa o palco, escoltado pelOs Tubarões Voadores, sussurrando. Wagner Verdi reinicia o
leilão, os Compradores de Marfim estão agitados e grunhem:}

~EMYR ELEMÉR:
Welles, Welles, Welles...
~WAGNER VERDI:
Empresa, capital aberto, câmbio, renda, dumping,
grilagem, casa da moeda, joint-venture, subsistência,
competência, ágio, orçamento, custo de vida,
caixa econômica, sociedade anônima, custo benefício,
dívida, autarquia, depreciação, balança comercial,
isenção, capital fechado, penhor, regime, inflação,
taxa de câmbio, custos indiretos, factoring, deságio,
bolsa de valores, remissão, dívida, spread, cesta básica,
carga tributária, moratória, insolvência...

~OS COMPRADORES DE MARFIM:


SPAM, SPAM, SPAM,
SPAM, SPAM,
SPAM, SPAM, SPAM, SPAM, SPAM,
SPAM, SPAM, SPAM,
SPAM, SPAM

(Ao fundo as arquiteturas e urbanismos em linhas, mas agora ambos se transparentizam deixando
entrever estrelas negrar no fundo branco.)

{Saatchi Pax aumenta vertiginosamente os valores, fazendo com que todos os outros Compradores, à
excessão de Damian Banksy Barney, desistam do leilão.)

~WAGNER VERDI:
Estatal, terras devolutas, terceiro setor,
penhora, monopólio, microeconomia,
socialismo, risco, consignação, inadimplência,
cancelamento de lançamento de tributo,
contribuição de melhoria, dividendo, mercotudo,
bens de capital, oligopólio, bens,
serviço de proteção ao crédito, duplicata,
dívida eternal…

~SAATCHI PAX:
Adorável, africanos, idosos, alienígenas,
todos buracos, amadores, amputados, anal,
gozo anal, dilatação anal, punho anal,
uniformes, bundas, cu na boca,
dedo no cu, anal com história, fezes, animais,
bebês, babás, sentada no colo, banana,
espancamento, barras, trotar, taco,
banheiro, espancamento, tortura,
contas de vidro, ursos, anões, topless, feios,
vegetais, molhadinhas, chicote, selvagem, exercício, adoração, luta...

~DAMIAN BANKSY BARNEY:


Antimultipoliextragransupermegahipermaxultraintertransautopósprópropaganda!

(Infográficos sobre o mercado da arte são projetados entre a plateia e o palco.)

{Adorno Morin Flüsser explica. Saatchi Pax e Damian Banksy Barney dançam
um pas de deux. Que termina com a vitória de Saatchi Pax:}

~SAATCHI PAX:
Brutal, bukkake, mulher de negócios, adolescentes,
gaiolas, capôs de fuscas, desenho animados,
roupas de vinil, tortura de caralhos, celebridades,
acorrentados, orgias, chefes de torcida,
gordos, cigarros, braçadeiras, salas de aula,
clitóris, closes, palhaços, colegiais, universitárias,
competição, policiais, espartilhos, calcinhas de algodãos,
casais, vaqueiros, trios, crianças, chicote,
pós porns, pepinos, espermas, gargantas profundas,
secretárias, fraldas, dildos,
sujeiras, palavras feias, médicos, cachorrinhos,
bonecas, dominação, anal duplo, boquete duplo, fisting duplo, penetração dupla,
bebida alcoólica, drogadas, babando, masmorra,
emos, enemas, exibicionistas, sentado no rosto,
seios falsos, gordas velhas, pés,
ejaculação feminina!

~WAGNER VERDI:
Custo, just in time is,
companhias, bitributação, esquema pirâmide,
nota fiscal, fundo monetário,
holding, custos variáveis, depreciado,
externa, anônima, pública, deflação,
comissão interna, carência, apreciado,
bolsa de mercadorias, tributo,
custo de oportunidade,
seguro, monopólio…

~ADORNO MORIN FLÜSSER:


Vocalismo, ciclismo, islamismo, estrabismo,
extremismo, nudismo, absintismo, evolucionismo,
abstracionismo, teísmo, platonismo, equilibrismo,
jornalismo, dadaísmo, empirismo, sincretismo,
protecionismo, papismo, criacionismo,
eletromagnetismo, traumatismo, cinismo, totalitarismo,
imperialismo, formalismo, presidencialismo, rotacismo,
ativismo, gregarismo, electrogalvanismo, transsexualismo,
autometamorfismo, halterofilismo, monoteísmo,
esnobismo, budismo, cubismo, holismo, mecanicismo,

(Imagens de televisores sendo desligados no fundo.)


{Saatchi Pax toma Oefro em seus braços e sai do palco recebendo tapinhas nas costas de Nyemeyer Bo e
Wagner Verdi. Os Compradores de Marfim revoltados arrancam o púlpito e destroem-no, rindo. Dos destroços,
Damian Banksy Barney faz uma estátua de Oefro tosca. Os Compradores passam a adorá-la e imitam os
movimentos e as roupas e os trejeitos de Wagner Verdi. Adorno Morin Flüsser segue explicando-na:}

~ADORNO MORIN FLÜSSER:


Psiquismo, aeromodelismo, egoísmo, onanismo,
aspermatismo, coletivismo, preciosismo,
actinomorfismo, misticismo, egocentrismo,
raquitismo, satanismo, neopentecostalismo,
charlatanismo, colonialismo, absolutismo, aristotelismo,
fascismo, reumatismo, charadismo, imediatismo,
xenofobismo, alcoolismo, calvinismo,
consumismo, abismo...

[O tecido entre público e plateia é recolhido.] <Soam telejogos.>

{Uma lesma sobe a escultura tosca. Ananse Teotihuacan e Orlan


Abramovic, aproveitam enquanto eles se abaixam em reverência e roubam
a “obra de destroços”. Ao perceberem, Os Compradores de Marfim
devoram Damian Banksy Barney.}

~ANANSE TEOTIHUACAN:
Caseado, laço, dedal, novelo, teia,
tecido, botão, renda, crochê, fita,
velcro, veludo, gorgurão, entretela,
lantejoula, franja, babado, viés,
prega, bolso, cós, forro, gola, punho, roca.

(Blackout.)

<Soam apitos e chamarizes de animais diversos.>

(O negror dá lugar a uma mensagem em código morse estroboscópico: “..-. . ... - .-


-- .- ... ... .- -.-. .-. . “, sendo seguida de imagens de códigos de barras, que agem como grades de uma prisão.)

{Oefro está nua de novo e retira pedaços de obras de arte famosas de seus orifícios. Os Artistas estão de
quatro escrevendo em minúsculos papéis, do tamanho de ecrãs de telefones celulares. Eles entoam um lamento
escravo para manter o ritmo:}

~OS ARTISTAS:
Marfim! Marfim! Marfim!
Marfim! Marfim!
Marfim! Marfim! Marfim!

~OEFRO:
O Elefante de Marfim!

<Uma sirene toca e música eletrônica pop soa


em volume ensurdecedor.>

{Os Tubarões Voadores entram e espancam Os


Artistas.}

{Os Artistas olham para Oefro com raiva e voltam a cantar, como que mostrando para ela como se faz.}

~OS ARTISTAS:
Marfim! Marfim! Marfim!
Marfim! Marfim!
Marfim! Marfim! Marfim!

~OEFRO:
O Elefante de Marfim!

<Uma sirene toca e música eletrônica pop soa em volume ensurdecedor.>

{Os Artistas param de trabalhar e a cercam, com


excessão de José Merrick que segue carregando água
numa peneira. Eles a intimidam com um profundo
silêncio.}

~A COMPOSITORA DA ÓPERA:
Senhoras e senhores, eu gostaria de
apresentá-los o Senhor José Merrick, o Homem
Elefante. Antes de fazê-lo eu peço-lhes que por
gentileza preparem-se, se segurem para presenciar o que
talvez seja o mais impressionante ser humano a jamais
ser trazido à respiração da vida.
<Pausa de um minuto.>

~OS ARTISTAS:
Marfim! Marfim! Marfim!
Marfim! Marfim!
Marfim! Marfim! Marfim!

~OEFRO:
Mar!

{Sentido que a sirene irá soar caso ela não termine a


sentença, José Merrick se levanta e brada:}

~JOSÉ MERRICK:
Fim!

{Os Artistas vão ficando em segundo planto enquanto


cantam mais alto o lamento obrigatório, de modo a que as
máquinas não percebam que Oefro e José Merrick conversam:}

~JOSÉ MERRICK:
Ainda sonhas!

~OEFRO:
Como o sabes?

~JOSÉ MERRICK:
O Elefante de Marfim!

{Eles se olham com paixão. Wagner Verdi entra com um prato


servido com merda do Rio Morto. Para não serem notados, Oefro e José
Merrick passam a falar como se estivessem tomados pelo pó de marfim.}

~WAGNER VERDI:
Tomem! Bebei e comei, é mais do que merecem!

~OEFRO (E JOSÉ MERRICK):

{Wagner Verdi os percebe conversando e mostra o rosto de José


Merrick a Catarina Clemente, que sai do transe do espírito de Orfeu.}

~WAGNER VERDI:
Olhai-o nos olhos! Teu espírito! Teu corpo amado!

(Infográficos sobre a própia ópera “O Elefante de Marfim” são projetados entre a platéia e o palco.)

~OEFRO:
Por que te prenderam?

{Alguns Operários do Museu vestem máscaras de Hienas e se colocam a chorar aos fundos uma canção que
se soma aos demais sons:}

<Soa D’Emons.>

~JOSÉ MERRICK:
Eu compunha uma ópera singela.
E a ti, musa amável,
por que te tiraram a poesia dos lábios?

~OEFRO:
Por ser.
Que querem de mim?
Que querem de ti?
Que querem de nós?

~JOSÉ MERRICK:
Querem querer!
Que aparentes e pereças
Toda felicidade será castigada
Querem apenas a ópera
Geram o sofrimento
Então vendem o alento
Mas que não haja vida
Isto é tudo e não é nada
Veja-os!
Não percebem que estão no espetáculo! {Apontando para
Os Operários do Museu.}

~A COMPOSITORA DA ÓPERA:
Notem a metalinguagem tomando proporções inusitadas
na ópera... etc.

~OEFRO:
Por que não se rebelam?

~OS ARTISTAS: {Uma palavra por voz.}


Aqui há conforto
Lá fora lixo e esgoto
Nossas belobras podem mudar
O mundo daqui de dentro, depois lá

~OEFRO:
Por que ainda não o mudaram?
Se vossas mãos não estão atadas,
Por que cobrem seus rostos?
Como perderam seus focos?

<Soa A Vingança dos Elefantes e pausa.>


~JOSÉ MERRICK:
Eles me pediram uma obra prima!
Te aprisionaram para ser musa, mas não minha
Ó destino! A única obra que minhalma avista
É a fuga e a luta! Contra estes desejos exacerbados
Que nos unem aos que nos tolhem, anestesiados
Abramos os olhos e o coração, Artistas!

(Imagens de cortinas se fechando.)

<Soa O Tempus Fugit.>

{Os Artistas retiram seus capuzes e por baixo eles têm máscaras de elefantes brancos. José Merrick se
desnuda, deixando entrever seu corpo todo deformado. Oefro o beija e depois o recobre com uma roupa de espelhos,
ele então canta um brado a todos os Operários do Teatro junto aOs Artistas:}

<Soa A Operária.>

~JOSÉ MERRICK:
Todas nós, operárias!
Uma só. A mesma obra!
O mundo todo, nossa fábrica!
Cidades carcerárias, nossas senzalas!
Escravos de nossos produtos!
Alimentando-nos das sobras
De nossos padtrões brutos!
Sempre operantes, com medo e ódio!
Ócio! Todos nós, operários!

{José Merrick e Catarina Clemente se abraçam dentro da vestes de espelhos, uma centelha de luz se esvai
dela. As cortinas começam a se fechar enquanto Os Artistas invadem as cadeiras da ópera caminhando sobre a
platéia. Os Operários do Teatro continuam entoando o hino enquanto as portas se abrem.}

{Hienas devoram Os Operários vestidos de hiena rindo. Catarina Clemente vestida em flores, para na
boca de cena e canta a canção de Museu e as Musas para a plateia à capella. É como se ela visse o espírito de Orfeu
pairando sobre a plateia, atravessando-lhes:} <Soa A Muséica ou A Oéfrica Inumana.>

~CATARINA (DIOTIMA) CLEMENTE:


Juras disse antes que ouvisse.
Todas as musas enamoradas de meu Museu!
Canções de Eumênides, Hárpias e Fúrias!
Ouvi então os augúrios seus.
Não me deixam jamais esquecer!
Por todas as vidas que me venham ainda!
Sou eu a Górgona pelas Sereias maldita
Coração arrogante de amor em paixão pura
Antes de ouvir já terno disse:
Eurídice! Eurídice! Te acompanho no inferno! {Com voz gutural e grotesca.}

18.1. Interterzo:

{A Compositora da Ópera permanece na sala. O Diretor da Casa de Ópera se aproxima dela.}

{O público é proibido de sair da sala de espetáculo e música de festa começa a tocar.

~JOSÉ MERRICK:
Quando perguntam, digo que não sei..

~CATARINA CLEMENTE:
Quando respondem, duvido.

~OEFRO:
Nenhum deles percebe, podem ser honestos.
19. Ato Final {Muito Rápido}:
Homenagem às obras de Hilda Hilst, Julie Mehretu, Andrei Tarkovsky e Masami Akita
Cemitério de Elefantes, favela no morro de Lemúria Guantánamo que é cercado pelo lixão.
Biblioteca na Ocupação dos Sem-Arte.
Madrugada à alvorada. Temperatura altamente variável, odores diversos.

{Os Funcionário do Teatro convidam o


público a subir no palco, onde uma mesa de banquete
os espera, vazia. Ull Zougo Sedna Chalchiuhtlicue
está à esquerda do palco digitando aleatórias teclas
num aritmo. Chacra Sosa Spinosa prepara uma
comida e com a chegada do público se alarma.
Ubugnu Ugnix observa as estrelas e monta uma
maquete da cidade enquanto a ajuda. Catarina
(Pagu) Clemente está soturna, de cócoras chocando
um ovo, ao fundo e centro do palco, sobre um monte
de lixo, cercada por baratas que giram em círculos ao
seu redor a impedindo de se mover. Oefro está de asas
abertas atrás dela, velando-lhe. José Merrick, ora se
põe a recompor a figura de um elefante com uma
pilha de marfim que pegaram de museus e noutra
cuida de um jardim de pó de marfim.}

[Todos os objetos reais são aumentados com


dados sobre eles o tempo inteiro, como poesias flutuado
sobre seus sentidos gerando uma internet das coisas.]

{A Compositora da Ópera e O Diretor da


Casa de Ópera começam a discutir:}

~O DIRETOR DA CASA DE ÓPERA:


Isto está saindo dos limites!
Precisamos parar a ópera agora mesmo!

~A COMPOSITORA DA ÓPERA:
Vai terminar tudo bem...

~O DIRETOR DA CASA DE ÓPERA:


Como assim!? Estamos presos aqui agora!

Sem contar esta desmesura de violência gratuita!
~A COMPOSITORA DA ÓPERA:
Você bem sabe que nada aqui é gratuito...
{O olhando nos olhos.}

(Neste ato, todos os vídeos são chuvas que também são cachoeiras, ao mesmo tempo cobrindo as paredes do
teatro de ópera e caindo como um abismo sobre a mesa do banquete. A chuva inicia com comida.)

~CHACRA SOSA SPINOZA:


Não há comida para todxs.

~OS OPERÁRIOS DA ARTE:


Pó de marfim, pra manter a horda
de ovelhas zumbis, aqui e ali, trabalhando.

~CATARINA (HELENA) CLEMENTE:


Nós nos naufragamos.
As artes de Circe nos transformam em porcos.

[Todos os materiais usados no cenário dos outros atos


passam a ser amontoados no palco, aberto à interação do público.]

{Uma centopéia pousa nos ombros de Catarina (Hilda)


Clemente. Os Operários da Arte passam a discutir o que será feito
com o marfim e Chacra Sosa Spinosa prossegue a alertar da falta
de comida:}

~OS OPERÁRIOS DA ARTE: {Uma palavra por voz.}


Semear o pó na água, na terra e nos ares
Fazendo crescer os coelhos que geram sangue e carne.

(Nuvens de lixo se movem por todo o espaço,


vagarosamente. A cachoeira segue sendo de comida,
preferencialmente com embalagens agora, como bom-bons.)

~CHACRA SOSA SPINOZA:


Mal há comida para nós.

~CATARINA (ESTAMIRA) CLEMENTE:


As crianças de Clitemnestra bailam as lápides...
Demôndeva asuragni harappan! Fogorio, essência
d’água...

~JOSÉ MERRICK:
Que ritmos seguram-nos em nossas redes?

~OS OPERÁRIOS DA ARTE:


Pensam tanto que se esquecem.
<Ode Ao Lixo.>

(Chuva e cachoeira de lixo.)

~CHACRA SOSA SPINOZA:


Quem limpa a louça?
Haveria sido o primeiro impuro?
Quem varre o chão? Face animal...
Quem cuida do lixo de todos nós?
Ao cuidador sempre a servidão voluntária
Cadeia de poderes!

{Chacra Sosa Spinosa joga pó de marfim na comida e a serve, como ela experimenta se vê entorpecida de
confusão. José Merrick ao perceber isto, eviscera-se e põe suas tripas no caldo e continua guardando o marfim para
que nenhum dOs Operários da Arte se aproximem dele.}

~JOSÉ MERRICK:
Esquivar-me da gangue
a goela aberta das feras
de acordes gramaticais
e instrumentações musicais.

~OS OPERÁRIOS DA ARTE QUE SE TORNARÃO OS DOZE MACACOS:


Entre lobos uive.

~OS OPERÁRIOS DA ARTE QUE SE TORNARÃO OS TUBARÕES VOADORES:


Falas suaves
poesias de pássaros
de árvores intumescido
como se à república idônea
dos colóquios sufis...
E não entre a escória dos descedentes de Esopo!

{Um panda e um koala, transando, devoram quatro besouros.}



~CHACRA SOSA SPINOZA:
Fígado, pulmão, veia, cloaca, artéria, guelra,
mandíbula, coxa, glândula, unha, garra,
bico, pena, pele, útero, costas, membrana,
dedo, rabo, pata, pé, ventre, vesícula,

Focinho, cabeça, dentes, boca, labirinto,


umbigo, falo, ombros, dedos, estômago,
córnea, barbatana, tromba, pescoço, crina,
casco, escama, pelo, esqueleto, baço, ânus,

Braço, pulso, bexiga, crânio, ovário, sangue,


saliva, orelha, asa, púbis, testículos...

{Devorando a cabeça de um Rato Acadêmico, fazendo-os parar.}

{Clara Crocodilo chega correndo, segundo ela, fugindo dOs Tubarões Voadores que a perseguem. Ela corre
na direção de Chacra Sosa Spinosa. Ubugnu Ugnix a observa com cuidado e vai acolhê-la. Ela se encontra alterada
devido ao pó de marfim. Logo após, chegam Os Ratos Acadêmicos com mandato de desocupação da favela e de
captura de Clara Crocodilo.}

~CLARA CROCODILO:
Fetiches, primeira vez, fisting, carícias,
quatro dedos, sardas, homossexual,
glamour, óculos, buraco da glória, luvas,
chuveiro dourado, deslumbrantes,
góticos, vovózinhas, grupal, carecas,
sem pêlos, cabeludos, braços peludos,
algemada, masturbação, gostosas,

(Os personagens são focados em recortes,


como quadrinhos. Chuva e cachoeira de jóias e
brilhantes.)

~CLARA CROCODILO:
fortes, hardcore,
hentai, hermafroditas,
salto alto,
prostitutas, enfermeiras,
donas de casa, humilhação,
hipnotizado, indianos, inocentes,
inserção, penetração, prisão...

{Uma lhama conta corvos.}


~CHACRA SOSA SPINOSA:
Cauda, retina, joelho, crista, ovo,
óvulo, esperma, placenta, veneno,
glândula parotóide, neurotoxina,
costela, nuca, artérea, cabelo, intestino,
Músculo, olho, juba, nadadeira, cotovelo,
sobrancelha, cílio, tímpano, cerebelo, córtex,
coxis, clitóris, antena, língua, celoma,
fêmur, tarso, tíbia, tubulos, traquéia...

~UBUGNU UGNIX:
De códigos há mar!

~OS RATOS ACADÊMICOS:


Fim nosso! Meu! Nosso, todo meu!

{Os Operários da Arte se dividem a favor (Os Doze Macacos) e contra (mais Ratos Acadêmicos), que
passam a opinar na discussão do que fazer com o marfim. Clara Crocodilo tenta roubar o pó de marfim e Ubugnu
Ugnix a contém. Já sem saber como a conter, ele a beija. Os Ratos Acadêmicos ameaçam toda a ocupação por causa
da presença de Clara Crocodilo. Entorpecido pelo pó de marfim dos lábios dela, Ubugnu Ugnix tenta a defender em
vão:}

~UBUGNU UGNIX:
Modelização, culturalização, assimetria,
dialogismo, estranhamento, gênero,
ecologia cognitiva, memória,
interação social, estruturalidade, logosfera,
língua, linguagem, máquina...

~OS RATOS ACADÊMICOS:
Marfim! Cangurus sem bolsas!
Sementes para frutos sem semente!

(Chuva de engrenagens e peças de máquinas. A cachoeira é o olho de um triturador ligado.)

~CLARA CROCODILO:
Suculento, selva, bucetas peludas, oleosos,
beijos, lactantes, travestis, látex, couro,
pernas, lésbicas, batom, pirulitos,
máquinas, empregadas, máscaras, massagens,
punhetas, minissaia, modelos, mumificação,
musculosos, nerds, nus, freiras, ninfas,
de joelhos, oral, beber mijo,
punks, arrombamentos, lábios,
exame retal, ruivas, retro, equitação,
seios caídos, timidez, silicone,
escravos, cadelas, pica pequena,
fumantes, sofá, espancamentos,
esguicho, submissos, sucção, banhos de sol,
swingers, doenças, bronzeadas,
tatuagem, professoras...

(Joaninhas pousam em seu corpo.)

~OS RATOS ACADÊMICOS:


Pombinha branca, que estás fazendo...

~UBUGNU UGNIX:
Culturas, comportamento, recodificação,
heurística,
caixa-preta, semioticidade, sociosfera,
sincretismo, sistema, modelo,
convencionalidade, texto, ideologia,
programa, refração, cibernética,
relatividade, tipologia, tradução,
transferência, universais, códigos...
Códigos!

<De Superficialis.>

(Chuva de papéis. Cachoeira de vômito. Os papéis,


viram roteiros, viram gibis, viram balões com onomatopeias.)

{Chacra Sosa sente a abstinência do pó de marfim e


passa a beijar Ubugnu Ugnix.}

~OS RATOS ACADÊMICOS:


Fim! Budas plásticos!
{Ubugnu Ugnix vira sua luneta contra Os Ratos Acadêmicos e contra Os Doze Macacos. Alguns dOs
Doze Macacos e dOs Ratos Acadêmicos mostram ser, na realidade, Os Tubarões Voadores. Clara Crocodilo
desmaia nos braços de Ubugnu Ugnix. Chacra Sosa Spinosa a olha nos olhos e, vencendo seu ciúmes por Ubugnu
Ugnix, passa a sugar-lhe as feridas do pó de marfim e a cuspir numa taça de cristal.}

~OS TUBARÕES VOADORES:


Imperador, rei, rainha, regente, princesa,
príncipe monarca, príncipe imperial, príncipe real,
grão-príncipe, príncipe, infante, arqueduque,
grão-duque, duque, conde-duque, marquês,
conde, conde-barão, visconde, barão,
comendador, senhor, baronete, cavaleiro, escudeiro...

~OS DOZE MACACOS:


Na ponta da água escura há o verme esticado.

{Ubugnu Ugnix mistura pó de marfim

~CHACRA SOSA SPINOSA:


Palpo, articulação, tendão, faringe,
laringe, cérebro, pênis, vagina, coração...

<Aracnomania em paralelo.>

~OS RATOS ACADÊMICOS:


A Dona Aranha quis desenrolar uma bola de cabelo em uma linha reta e seguiu destecendo por tanto
tempo que já não se lembrava onde começou toda aquela conta de incontáveis matemas...

(Chuva de satélites. E a cachoeira faz a mesa parecer uma parabólica com água turva.)

{Clara Crocodilo desperta, beija os dois e canta a todxs o real motivo pelo qual todos estão chegando na
favela:}

~CLARA CROCODILO:
Escutem, seus vermes! {Rindo dOs Tubarões Voadores e Ratos Acadêmicos.} A
Aqui é o último refúgio contra o inominável,
Que tudo que parece humano destrói.
Mesmo Tiamat foge dela com medo.
Estes covardes já não servem a ninguém
Como ele querem atirar os cadáveres de inocentes para acalmar a besta.
Não há sacrifício que seja aceito de mãos sujas.
Mas por este amor que aqui encontro,
Nestes que assim me olham sem cobranças ou culpas
Estou disposta a deixar de fugir e resistir convosco! {Dando as mãos a Ubugnu Ugnix e Chacra Sosa
Spinosa. Esta última abre os braços como asas e numa transmutação visível a todxs se converte em Meredith
Pachavuela.}

<Soa uma gravação de rádio da sirene do segundo ato, bem ao fundo.>



~OS TUBARÕES VOADORES:
Presidente, vice-presidente, governador, vice-governador,
secretário, prefeito, vice-prefeito, deputado,
senador, vereador, papa, cardeal,
patriarca, arcebispo, bispo, padre,
vigário, monsenhor, cónego, arquimandrita,
freira, beata, almirante, marechal, vice-almirante, general...

(Chuva de todas as notas de dinheiro do mundo. Cachoeira de dinheiro elefante. Fogo de mariposas.)

{Laika cai dos céus junta a um satélite. Clara Crocodilo vê e se põe a caminhar sobre Os Ratos Acadêmicos
para pegá-la em seus braços.}

~OS DOZE MACACOS:


Somos todxs cobaias!
A arca de noisé feita câmara de tortura...

<Soa O Sotaque Fonético ou Os Qoros Imprevistos.>

~UBUGNU UGNIX:
Quetzacoatleviatan Seshanaga Longryu!

~OS RATOS ACADÊMICOS:


Perdoem-nos! Precisamos de vossa ajuda!
Trazemos uma solução, porém!

(Chuva de borboletas que viram chaves. Cachoeira de Origamis que viram flores de parafusos.)

{Alguns entram em pânico e todos passam a discutir como se proteger da ameaça. José Merrick e Ubugnu
Ugnix enfrentam Os Tubarões Voadores. Ubugnu Ugnix cospe o veneno de marfim na maquete da cidade e José
Merrick volta ao seu ofício. Os Tubarões Voadores se enfurecem e agitam seus cacetetes, Os Ratos Acadêmicos
agitam seus diplomas, Os Doze Macacos se entrealgemam. Ubugnu Ugnix é intimidado e Os Tubarões Voadores
comemoram sua vitória, enquanto Os Ratos Acadêmicos dizem, montados em seus ombros, o que deve ser feito:}

~OS RATOS ACADÊMICOS:
Vamos soltar
A Nuvem de Faganhotos!

~OS DOZE MACACOS:


Tão incompleto quanto um virus, nós.
Tudo pronto para a solução inicial.
O sofrimento fictício há de ser nosso
Faremos obras magníficas a este respeito. {Olhando
para A Compositora da Ópera.}

~OS RATOS ACADÊMICOS:


Mono ateísmo!

{Cometas cruzam o céu sobre áries que atravessam o


palco. Todos olham à cena perplexos. José Merrick encontra uma espada de marfim fincada no lixo.}

<Soa Kyrie Walk Iris.>

~OS TUBARÕES VOADORES:


Major, brigadeiro, capitão, coronel,
tenente, aspirante, cadete, subtenente,
cabo, grumete, soldado, bruxa, feiticeira,
cornaca, aspirante, pai de santo, monge,
lama, dalai lama, mestre, profeta, professor,
bedel, domador, maestro, diretor, acessor,
vigia, sábio, xamã, santo, deus...

~OS DOZE MACACOS:


Areias movediças para o possibilismo...

{Musth Setoth Tiamat chega montado em flor de lótus sobre O Último Elefante, arrastando Vênus
Hotentot detravés da platéia. Os seguindo vem Jesus Moisés Sade arrastando Shamash Mohammed, que
conversam entre si nas cadeiras, como se estivessem no deserto. Meredith Pachavuela senta-se ao chão, em posição
de lótus, ao lado de Ull Zougo Sedna Chalchiuhtlicue e medita, Clara Crocodilo a segue. Ubugnu Ugnix estuda O
Último Elefante com sua luneta-flauta.}

<A Vingança dos Elefantes terminando com um mantra OM.>

~MUSTH SETOTH TIAMAT:


Sabem quem sou.
Que me traz.
Aonde vou.
Os que lutarem matarei mais depressa.

~VÊNUS HOTENTOTH: {Lunática.}


Dragões de Éden e Putas de Elêusis!
Esculturas arrancadas do Parnaso por... {Se cala engasgando com um puxar das correntes em seu pescoço.}
(Chuva de dígitos zero e um. Cachoeira goteja sangue.)

{Contra seu comando, O Último Elefante se aproxima de José Merrick, afastando os insetos ao redor de
Catarina (Anita) Clemente que se levanta e lhe toca à tromba. Os Operários do Teatro passam a dançarao redor
do público. O animal se prostra em reverência. Musth Setoth Tiamat berra ao animal que solta grunhidos contra
este. Oefro se ergue e abre as asas sobre todxs. Apaixonado por Catarina (Carmen) Clemente, Musth Setoth
Tiamat, declara desistir de destruir a todxs se ela fugir com ele:}

~MUSTH SETOTH TIAMAT:


O mar vindo do céu!!!
Fogo lento, água seca..
Poeira de luz em magnetes
Náufragos, não ouvimos seus gritos!
~VÊNUS HOTENTOTH: {Louca.}
Micróbios químicos e ceifas bélicas
Enxofres e mercúrios
Albedos e nigredos
Vesséis de larva viva!

~CATARINA (CURIE) CLEMENTE:


É inevitável!

<A Vingança dos Elefantes terminando com trovão e raio.>

{Chuva de raízes fractais. Cachoeira escorre sangue.}

~MUSTH SETOTH TIAMAT:


Nas margens não há abrigo
Sangue negro, coração mecânico
Sonhos sem imagens, peste sem delírio
E nos engole o som das trevas

<O Massacre Elefantino.>

~CATARINA (SAFO) CLEMENTE:


É inevitável!

{Musth Sethoth Tiamat aponta sua arma de elefante contra o


sexo de José Merrick. Josefina Hamlin percebe a chegada de
Quetzacoatleviatan Seshanaga Longryu. Os Ratos Acadêmicos dançam o carrossel vertical blindado (rodinha de
camundongos) erguendo a bandeira com o rosto de um dodô, brindando e produzindo sua solução química ao redor
dOs Operários do Teatro. Catarina Clemente se despede de José Merrick:}

~OS RATOS ACADÊMICOS:


Fantasmas sem fantasias, o marfim é nosso!

(Números se somam à chuva de raízes fractais. A mesa está quase tomada por sangue.)

~OS DOZE MACACOS:


Aquele que, ignorando à pintura
Entra no ateliê de alguém que pinta
E fala de pintura
Torna-se objeto de muitas zombarias.

~CATARINA (DIOTIMA) CLEMENTE:


Você merece uma escrava como amante, monstro,
Para que te lembres, e nunca esqueças, de tua deformidade.
Não a conseguirás largar nem mirar-lhe a beleza, tua lascívia
é teu pior vício.
E não hás de saciar-te nunca com ela! E eu hei de ser feliz!

~OS RATOS ACADÊMICOS:


Aquele que, sem ter sido eleito,
Ingressa numa confraria de artistas ‘profissionais’
E se faz de gênio em grandes gestos bondosos
É objeto de zombaria!

~JOSÉ MERRICK: {Sussurrando.}


Melhor não trazer um leão para dentro da cidade
podem haver cavalos dentro a este
Mas se necessário fôr,
Então agrademos-no em todos os seus humores.

~OS DOZE MACACOS:


Aqueles que se apresentam à arte
{Catarina Clemente pede que Musth Setoth Tiamat se desfaça de Vênus Hotentot:}

~JESUS MOISÉS SADE:


Cara ave, alegra-te{Conversando com o corvo pousado na cabeça de Shamash Mohammed.}
Por glorificar tua criatura.
Lança tua rosa no alto dos céus
Como uma pedra sobre o tosão.
Animal dos céus,
Prepara tua ração.
Por que te afligires com isto?
Por que criticar à natureza?
Por não ter-te feita humana?
Muitas coisas coabitaram-te a nascência.

(Chuva de mel e abelhas, cachoeira de vômito e dentes.)

~SHAMASH MOHAMMED:
Não poderias apontar
com teu canto a todas.

~UBUGNU UGNIX:
A amizade do urso é temível
Quando este se esquece
quem é ou somos
Nos abraça e esmaga.
Pior quando se lembra...

~JESUS MOISÉS SADE:


Silencias e ouve-me cantar, ave.
Tua voz sábia... Tua voz sábia...
Aprendo a te contemplar
Aprendendo a te contentares.

<Josefina Hamlin canta A Canção de Macabéa Woolf para uma fotografia de seu marido falecido,
Storm Applethorn.>

~SHAMASH MOHAMMED: {Afastando o corvo que pousa sobre O Último Elefante.}


Pobre lavra da terra, que fazer?
Disputar com os grãos
de areia e as estrelas?
Por que te perturbas tanto, ave?
Te adentrando aos doze nomes do átomo
Fazendo-os dançar nos quatro elementos
Na roda de cinco aros
Sobre as pedras, mundo cascalhado
Dunas! A areia cresce a cada dia!

~OS RATOS ACADÊMICOS:
Um brinde à espécie humana!
Chegamos tão longe!

~JESUS MOISÉS SADE:


Não te lamentes
Por não seres império, seiva
Reconheço teu nome em mim
Não há algo que te despreze aqui
Os grilhões estão abertos
se me ensinares a paz
Há um reflexo turvo no olho do lago

(Chuva de cinzas até a chuva de sapos, quando haverá dunas de cinzas. Cachoeira de souvenirs de
divindades diversas.)

~JESUS MOISÉS SADE E SHAMASH MOHAMMED: {levemente descompassados em oitavas distintas.}


Se há uma indivindade,
Nos atravassa a tudo
e não podemos enganá-la.

~OS RATOS ACADÊMICOS:


Somos todos diferente,
Só que alguns são mais diferentes que
outros...

~CATARINA (D’ARC) CLEMENTE:


Não dividirei-te com uma escrava.

~SHAMASH MOHAMMED:
De acordo com as necessidades do ocaso.

(Chuva de números e funções


matemáticas. Cachoeira de conchas.)

{O rinoceronte surge agora com uma


armadura verde toda pixada.}
<Soa A Cicada sobre as outras demais
soações.>

~VÊNUS HOTENTOTH:
Agora que tens uma amada,
deixai ir o que restou das xibatadas.

~CATARINA CLEMENTE:
Tu, vil escrava.
Beija-o! {Apontando a José Merrick.}
~VÊNUS HOTENTOT:
Grande honra morrer ao lado deste {Com nojo.}
Já tu! Triste puta sem clientes!
Tua deformidade tomou-te a alma!
Se é que já tenhas tido uma
Serei teu pesadelo após
estupros grotescos
pelos quais passarás!

{Vênus Hotentot seduz Jesus Moisés Sade a libertar Shamash Mohammed também, este se põe a olhar
com ódio para aquele que o humilhara:}

~VÊNUS HOTENTOT:
Mór(m)on! Dei Opus!

(Quetzacoatleviatan Seshanaga Longryu. Chuva de borboletas.)

<A Vingança dos Elefantes terminando com pausa de 7 segundos.>

{Quetzacoatleviatan Seshanaga Longryu desponta no horizonte. Shamash Mohammed desiste de atacar


Jesus Moisés Sade e se põe a limpar a maquete da cidade. Os Tubarões Voadores se desesperam (eles são os que mais
temem a serpente), soltam Ubugnu Ugnix que é acolhido por Chacra Sosa Spinosa e Clara Crocodilo. Ele finaliza o
antídoto com elas e Chacra Sosa Spinosa se converte em Braba Yoga ao tomá-lo. José Merrick recusa, mas termina
por tomar também o antídoto.}

<Aeon Yuga.>

~JOSÉ MERRICK:
Este último elefante há de matá-los ambos! {Olhando nos olhos
dO Último Elefante.}
Matei cada um dOs Colecionadores,
Retomei toda a arte para os artistas
Todo o marfim, porque elx quis assim. {Aponta para Catarina
(Elizabeth) Clemente rindo de sua traição.}
Só falta tu, último elefante, meu coração é o teu,
Mas tua vida é minha.
Alimento o amor que te torna servil! <A Operária.>
~SHAMASH MOHAMMED:
Tenho sido humano,

~JESUS MOISÉS SADE:


Demasiado humano.
Há mais precisão no martelo que nos sinos.

<A Campanária.>

~UBUGNU UGNIX, CLARA CROCODILO & MEREDITH PACHAVUELA:


Espectro livre!
Espectro livre! Espectro livre! Espectro livre! Espectro livre! Espectro livre!
Espectro livre!

(Chuva de códigos de programação, aquários e estilhaços de vidro. Cachoeira de relógios.)

{Centauros passam ao fundo do palco. Ull Zougo Sedna Chalchiuhtlicue termina o texto que digitava desde
o princípio do ato:}

~ULL ZOUGO SEDNA CHALCHIUHTLICUE:


OM! {Extremamente longo enquanto se despe.}

{Musth Setoth Tiamat vira-se para ela e lhe atira, arrancando a parte de baixo de seu corpo. José
Merrick, impassível acolhe a ferida com preces. Sentindo a dor e a dignidade de José Merrick, Vênus Hotentot o
beija. Ao entrar em contato com o antídoto, ela se transforma em Meredith Pachavuela. Os Ratos Acadêmicos
soltam A Núvem de Faganhotos. Jesus Moisés Sade, enfurecido, passa a matar Tubarões Voadores e Shamash
Mohammed, ao contrário do que este esperava, o ajuda.}

~JESUS MOISÉS SADE:


Não sou nem a aranha que tesce a rede
Nem a mosca que é capturada.
(Chuva de penas. Cachoeira de chifres.)

~SHAMASH MOHAMMED:
Se eu compreendesse seus ou meus símbolos,
Me tornaria um idólatra.
~OS RATOS ACADÊMICOS:
Amor da flor profundo mar,
Vasto espaço pesado como um elefante,
Brilhante estrela diamante, quente como sol,
Vil metal, Palidez cadavérica, Silêncio mortal,
Selva de pedra, olhar fatal, cigarro em cena,
Depois, enfim, melodia, clichê, rima e beijo
A lua é um queijo!

~UBUGNU UGNIX:
Um peguim comendo maçãs na janela em
Xanadu...
{Jesus Moisés Sade beija Shamash
Mohammed enquanto eles prendem Os Ratos
Acadêmicos com A Nuvem de Faganhotos como
cobaias.}

~VÊNUS HOTENTOT:
Vão embora! Nos deixem ao menos morrer
em paz! {A Catarina (Antonieta) Clemente.}

~CATARINA (FRIDA) CLEMENTE:


Deixemos estes pedaços de gente, amado.
Livrai-te do peso do medo,
Deixai comigo teu fardo
Dá-me tu’arma, que eu a carrego...

~MUSTH SETOTH TIAMAT:


Do mundo... É claro!

(Chuva de ferraduras.)

~JESUS MOISÉS SADE:


Buraco negro no espectro
Andorinhas e lesmas
Fontes e predadores
Toda carne sucumbirá
À água em sua sede
De escutas.
Nada lhes será ouvido,
Assim falou a cachoeira.

{Jesus Moisés Sade segue matando Faganhotos. O grilo de


Buckluhan Ciogracian, Marsias, sai da sua jaula para proteger
as pessoas da Nuvem de Faganhotos. Ubugnu Ugnix ajudam
Jesus Moisés Sade:}

~OS DOZE MACACOS:
É seguro? É político? É popular?

~UBUGNU UGNIX:
É correto!

~OS TUBARÕES VOADORES:


Vociferar, esgoelar, berrar,
Latir, vagir, piar,
Deblaterar, vaiar... {Seguem por algum tempo em metalinguagem de urros...}

(Chuva de moedas de prata, cachoeira de moedas de ouro, ondas de moedas de cobre.)

<A Vingança dos Elefantes terminando com A Marfinesa.>

{Quetzacoatleviatan Seshanaga Longryu chega. O Último Elefante se assusta, Catarina Clemente dispara
um tiro de rosa na nuca de Musth Setoth Tiamat que atravessa este, O Último Elefante e vai ter no peito de José
Merrick que, estarrecido a fita fundo aos olhos.}

~CATARINA (MARIA) CLEMENTE:


José!

~JOSÉ MERRICK:
{Moribundo.}
Lira de ouro,
a quem obedece o passo?

<O Cordão Panóptico


das Supercordas.>

~TODOS:
Como “ISTO” é
possível? {Sussurando para si
mesmos.}

(Chuva de flores.)

~MUSTH SETOTH
TIAMAT:
Penhascos marmóreos,
Vagas do fim do mar,
Agora não há porquês!

{Musth Setoth Tiamat se transforma num dragão, depois num leão, depois num camelo, depois numa
criança natimorta. Ubugnu Ugnix corre para socorrer José Merrick, deixando cair sua flauta-luneta. Vênus
Hotentot beija José Merrick, que se levanta tirando o tiro de rosa do peito deixando sangrar pétalas com pó de
marfim, ao qual está imune. Buckluhan Ciogracian pega a flauta-luneta e vê a platéia. Shamash Mohammed
tenta tomá-la dele. Chacra Sosa Spinosa arranca as presas dO Último Elefante.}

<O Cometa Vindo da Nebula da Tromba.>

~BUCKLUHAN CIOGRACIAN:
Como um cometa do Ocidente ao Oriente
É Jesus que renasce já crucificado por suas igrejas
Alienígena no seio da miséria
Ó buda de ouro em trono de plástico devorando estrelas! Ó arte!
Liberte os sentidos dos desejos.

~UBUGNU UGNIX:
O latido do latido!

~OS DOZE MACACOS:


O centésimo! {De Anubis, que estes chamam de Hanuman.}

{Catarina (Maria Madalena) Clemente entra em trabalho de parto. Quetzacoatleviatan Longryu


Nagatum devora o que resta dA Núvem de Faganhotos e dOs Ratos Acadêmicos. Os Tubarões Voadores buscam
guarida entre com Meredith Pachavuela que não os ouve. José Merrick tinha o libreto da ópera em marfim ao
bolso, o que o protegeu da morte completa, renascendo como Fenrirx Anúbis.}
~CATARINA (MEDÉA) CLEMENTE:
É preciso que se leve em conta todos os mortos para se cantar.

<Pneuma Baphomet.>

~MEREDITH PACHAVUELA:
Inútil cantar canções de ninar para quem não consegue dormir.
Inútil prantear os mortos, plantear pesadelos,
Inútil violentar os corpos, violar os sonhos, zelos
Inútil semear lógicas, planejar estruturas,
Coagir espelhos, polinizar conceitos, arquear metametas,
Culpar naturezas...

{Buckluhan Ciogracian se põe a usar lixo com pó de marfim para costurar um rabo de sereia a Ull Zougo
Sedna Chalchiuhtlicue.}

~ULL ZOUGO SEDNA CHALCHIUHTLICUE:


OM!

(Uma cachoeira de sangue se soma à chuva de flores.)


<Dutos e Chaminés.>

{O Diretor da Casa de Ópera veste um chifre de unicórnio de marfim nA Compositora da Ópera. Jesus
Moisés Sade, cessa o extermínio, sendo acolhido por Shamash Mohammed. Os Doze Macacos prendem Os
Tubarões Voadores restantes para servirem de espantalhos para A Nuvem de Faganhotos. Shamash Mohammed
vira sua luneta para Jesus Moisés Sade e se apaixona por ele. }
~MEREDITH PACHAVUELA:
Quem acerta
na mosca
perde o enxame

{Um coelho branco com um relógio passa correndo e desce pelo alçapão do palco.}

~OS RATOS ACADÊMICOS:


Vasto, como o espaço
pesado, como elefantes
brilhante, como estrelas
quente, como o sol
Longo, como o tempo

(Chuva de relógios. Cachoeira de cartografias.)

~OS DOZE MACACOS:


Fazendas de sangue para insetos...

~MEREDITH PACHAVUELA:
Sara, sara, sara...
O silêncio é para o ouvido o que a noite é para os olhos
A paz é para o mundo o que o fermento é para o pão...

~OS DOZE MACACOS:


Quando gozar da vontade do tirano se torna tão perigoso quanto merecer seu rancor...

~SHAKESPEAR MANDELBROT:
Quando o acontecimentos tem múltiplas causas,
É impossível conhecer a causa do acontecimento...

~JESUS MOISÉS SADE:


Cântico de insetos enredados
Nuvens metálicas de cromas e exoescalas
Informática infralógica da precisão programática
Como os brados das aves iluminando as engrenagens
Do vapor, das temperaturas
Nós, meras rodas
De água e moinhos, fogueiras de carne e jardins de sangue
Tudo isto cala quando canta a cachoeira.

<Cidade Elétrica.>

{Catarina Clemente realiza um parto com a ajuda de Meredith Pachavuela e Incontáveis gatos surgem
de todos os lados e se prostram ao redor do recém nascido imóvel. Atrás deles surgem Os Três Mendigos Cientistas
tirando máscaras totêmicas africanas de símios, que vêm conversando entre si. Fenrirx Anúbis com a ajuda de
Ubugnu Ugnix e dOs Doze Macacos, reúnem todos os marfins. Buckluhan Ciogracian termina de costurar o rabo
de sereia em Ull Zougo Sedna Chalchiuhtlicue, que geme:}

~FENRIRX ANUBIS:
Baixava a voz até a diminuição do sopro
{Com olhar de culpa para Catarina (Sheela) Clemente.}
Até o ensurdecimento de minha percepção,
Para me confiar cada desejo. Um cervo ileso pedindo perdão
Coelhos se atirando ao fogo
Seus lábios se mexiam para meu ouvido.
E ainda, surdez.

<Cachoeira de Dados, Chuva de Espinhos.>

~SHAKESPEAR MANDELBROT: {Botando uma pitada de pó de marfim no ouvido.}


Volteiam ânimos em sacrofício
Ao vulcão Heroé de Ourifídios
Mito rito mito mito,
Tagma, taxe, doxa, signo,
Semimântica, símbolo,
Mito, mito, pathos, rito,
Ficado, ficação, arché, tipo...

(Campos de força magnética começam a surgir em diversos lugares do palco.)

~ENLIL CURIE:
Vritu, pedralma vidárvore
Asynus ad lyram...

~ZUMBI C FITZCARRALDO:
Quetzacoatl guerrear,
Águia de prata mo disse
Na torre rádio nem coruja de cristal

{Fenrirx Anúbis toma a luneta de Ubugnu Ugnix e olha o libreto de marfim, falando para a descrença e
escárnio de alguns:}
~FENRIRX ANÚBIS:
Eu vi como termina! Em pouco tempo a ópera terminará e morreremos todxs!

~ENLIL CURIE:
A pedra ri da pressa das plantas... {Se senta em posição de lótus e a luz se esvai sobre si.}

~JESUS MOISÉS SADE:


Relógios são souvenirs.

~UBUGNU UGNIX:
Quem acerta
Na mosca perde
O enxame

~SHAKESPEAR MANDELBROT:
Entendo porque Shamash Mohammad
Permaneceu com Sarah Khali no deserto.

~ENLIL CURIE:
Nós que aqui estamos por vós esperamos.

~ULL ZOUGO SEDNA CHALCHIUHTLICUE:


OM!

~FENRIRX ANÚBIS:
É inevitável!

~OS TRÊS MENDIGOS CIENTISTAS:


Dravídicos, sumérios, egípcios,
Atlantes, babilônicos, fenícios,
Minoanos, aztecas, tupis, toltecas,
Hellas, hindis, homaos, hinos, persas
Mu...

{Surge O Elefante de Marfim. Todas as personagens


calam, pois que todas as vozes são sua à excessão de Meredith
Pachavuela e Braba Yoga que estão em transe acolhendo Hozrú
Irís Tupã Selva num mantra sussurrado:}

~MEREDITH PACHAVUELA E BRABA YOGA:


Polymorphism, assignment, systems exception double symbol grammar,
member, visibility, ANSI, initialize, unit, return type, block, overload,
long copy library, forward enumerator, generic arithmetic, run-time,
inline descent method, label, do, char_t, variable, access reference,
conversion, statement, cin, case, constant, type macro,
class, dialect, declarator, C-style template temporary, end...

~ENLIL CURIE:
Não cessamos nem
por um dia de sofrer
as fadigas e misérias
de desejar o que
não nos cabe.

(Os magnetes comaçam a criar rodamoinhos que fazem o espaço tremer. As flores viram sementes.)

~O ELEFANTE DE MARFIM:
Oefro,
Caos musia esûtra cosmo'foro ephphata daimöns
kotodama ovo ilhâm gnosophia dan corpus hermórphisis
dodecamegisto pistinris kether sufi ifá maskilim aedo eliri
ipin pluto zen nefesh malkut halabbak égarés
yód onisüs nstasis sophrosyné númes óracles
vishnu dna ta’lîm kýkeôn bangalafumengá.

~MEREDITH PACHAVUELA E BRABA YOGA:


Control, programming, checking, layout, inline, static union,
dominance, handler, implementation-dependent checking, syntax, OOP,
pointer parser, name, break, trigraph, PT, header class fundamental explicit,
file, prefix, function class, library, integral specifier, enumeration,
argument, old-style base access, while, declaration argument,
literal, semantic store, lvalue, struct, continue, placement,

{Quetzacoatleviatan Seshanag Longryu tenta atacar a todxs, mas Oefro os protege com sua harpa.}

~UBUGNU UGNIX:
Não é um elefante.
~O ELEFANTE DE MARFIM:
Logumaré aiye awe ma'aseh urania
muladhara bereshit
ha makom hod aurif pitagogia zoroalter
arthru dee sukyo mahikari patañjali
amorc prometheos parâmpara tyr papus
thule quetzacoatl betel asa-vahista telestérion ogam.

~ENLIL CURIE:
nem durante uma
noite de sermos
consumidos pelas angústias
de não conseguir
parar de sentir
e pensar, pesar.

~MEREDITH PACHAVUELA E BRABA YOGA:


Bitwise unsigned, float, declaration, NULL,
string, const_cast, value, type set_new_handler,
storage constant declaration, class, else,
table, global efficiency, operator smart name,
stack cast, unwinding, global environment,
namespace, deprecate, class typeid, directive,
promotion, local class enum, member function...

(O espaço começa a se distorcer em video-mapeamento.)

~O ELEFANTE DE MARFIM:
Oshossioux tzadikim neptu yesod chiroman
raiatea buda mithra pantamor blatsky fenrir
heliopagita dharma sílex böhme xenodea
arúspices sion kephalaïa teagenes haqâ’iq
hanan kay tetraktys boanergges
abracadabra tartar hierúrgio

~MEREDITH PACHAVUELA E BRABA YOGA:


Name container data call handling, parameter,
pointer, safety, analysis, operator, delete data register,
string, browser, space, cast, system, storage,
standard namespace mixed-mode using name pointer by object,
separate exception vector, int, try, reinterpret_cast,
exception, member, conversion, type function,
conversion, expression, resolution, instantiation...

{Um demônio com cara de polvo vestindo cabrestos pisoteia um humano com cabeça de cobra que comia
uma vaca. A vaca se sente massageada, o humano é esmagado.}

~O ELEFANTE DE MARFIM:
Oyá’n elohim tripitaka sacr ruasch ad netzah
svadhisthana numenapan catar y myst
bâtini tantra parsengrin protocyph
athená isis astarte sah gee ann famnitatis
nêmesis hosanna haqq sybil
emet yâska kuyuchyi filófilos dagda

~MEREDITH PACHAVUELA E BRABA YOGA:


Call storage, namespace, template inheritance,
void, run-time double, expression, global parsing,
type, variable, lifetime, object-oriented, class, public,
short, virtual local, allocation, array, library, operator,
template, bit parameterized deallocation, finalization,
demotion, function, programming specialization,
derived value, memberwise multiple built-in qualification...

~O ELEFANTE DE MARFIM:
Omolobaluayê trag’gem achra satrun
sitra daat noir ching satori érebo avalon
endopia medsinai kali lemniscata ts’ang-t’ong-k’i
fakir herald ni diwân cruzeus evemer berserks
mairya odin ep’if’anyi vulcanelli
toth hades crono de’mter wissen

(O teatro desaba, dando a entrever o cenário do segundo ato. Chuva de remédios.)

<Soa A Prima.>

~O ELEFANTE DE MARFIM:
Ossaim baale merkabah speculum chesed
manipura mércura tupã nasea dhawq
magnma yewá reiki hiperbóreas jiva
licorn apocrypholipsia tamga fatermatria
l’âme picatrix mîmâmsâ hanuman
amón ksathra-varya aether apolö

~UBUGNU UGNIX:
Chegas à cidade pela primeira vez
O Zoo sofreu um ataque de artivistas
As primeiras dez pessoas que vês, são animais
A cidade é habitada por animais?

~ZUMBI C FITZCARRALDO
Quando cem de vós compreenderem isto, quê então?

(Cachoeira de peças de jogos de tabuleiro.)


~MEREDITH PACHAVUELA E BRABA YOGA:
Asm, dynamic template local recursive pointer, nested function,
overloading, pointer, implicit information, class goto, layout,
stream, using keyword, integral by const, operator, class,
preprocessor, new-style function, template parser,
virtual parameter, access module, linkage, scope, private,
class, name, header, calling member, stack debugger...

~O ELEFANTE DE MARFIM:
Yrôco oko yggdrasil neshamah jahphe et mana
zohar mandla bib oethe esô yuga hé
jo-rei paracaelum laots’e myōhō rengekyō
râzi micrômacro rhombes síva rna nôus
dantes oxyrhynchos vohu-mano
karma rapsode sêmelo rûna baha’i

(O cenário do segundo ato desaba dando a entrever


o cenário do primeiro ato. As sementes viram mamonas.)
~MEREDITH PACHAVUELA E BRABA YOGA:
Operator, conversion, free alias, member, using field,
comments, operator, lookup, heap char, default class,
variable, new user-defined limit, to storage, aggregate,
member, constructor, cerr, long, sizeof, encapsulation,
unit, abstraction, switch, new resumption, statement...

(Chuvas de todos os tipos de objetos em todas as direções.)

~SHAKESPEARE MANDELBROT: {Apontando para Catarina (Shiva) Clemente.}


Têmporas brancas.

~O ELEFANTE DE MARFIM:
Ox’ümm sòi dá g'òi vê hoa lan venus
tifereth yin eléasys anahata nirvadhi
evola namah h’erá alchilux sian avanthöv
aun nymphaea kung attar perennis
râma ibeji eunome târiqah zartosht
potentia per sais phône arcana

{Quetzacoatleviatan Seshanaga Longryu perde todas as suas moedas, e livre do peso se torna Pyth Om.
Alegre ela dança com Oefro.}

~MEREDITH PACHAVUELA E BRABA YOGA:


Destructor, conversion, pure volatile, auto,
class, initializer, template, abstract false, global dynamic_cast,
name type, point, constructor, cfront, promotion,
try base statement, static, function, cast, OOA class,
namespace copy, pragma, object, copy...

~O ELEFANTE DE MARFIM:
Xang’o ur ayrá talmud ha-din
geburah ares éthos yang ta’limites
visudha rotzenkraut vedas graal
oh lymp sprit thor dô tahu’a-ra’au osiris
bodhivitam muhammad nahasimra
iexodica kallpa hauvartat teleté

(O cenário do primeiro ato desaba e desaba e desaba, mil e uma camadas hipervelozmente. Cachoeira de
personagens da ópera.)

{Pyth Om passa a destruir tudo e quase arranca as asas de Oefro.}

~MEREDITH PACHAVUELA E BRABA YOGA:


Garbage static null translation virtual definition,
throw, front reference, class, type frame, handler,
class to declaration, floating mutable, signed,
pointer programming, type to expression static typedef,
member, assignment new repository, template template,
user-defined semantics, helper preprocessing...

~O ELEFANTE DE MARFIM:
Nnhanã torah chayyah binah nahasimra
lumoon daseintopia y druido yung signius
devas vau shaktiknah aeor djinn ganapaty
padmé namaha fache kânphata pachamãma
acroama stromata eisôtheô rá adonai aeon gaia

{Os Três Mendigos Cientistas dão seus presentes para Hozrú Irís Tupã Selva. Um jumento chamado
Kardeck Xavier se põe sob as pernas de Catarina (Flora) Clemente para que a criança se acomode. Meredith
Pachavuela e Braba Yoga a acolhem. Fenrirx Anúbis e Ubugnu Ugnix tentam em vão proteger as pessoas contra a
chuva apontando a flauta luneta para todos os lados.}
~MEREDITH PACHAVUELA E BRABA YOGA:
Extern, bool, protected, IO, translation tag,
argument, run-time compilation, linkage,
type initialization, embedded conversion, linker,
mangling, postfix, file, catch, type, external stream instantiation,
argument standard RTTI, object rvalue, scope, OOD...

~O ELEFANTE DE MARFIM:
Iiemanjá mania rarxs bahir assyr yetsirah
imame ast hochmah tlantis symbanalo
éti mahâyâna y pox ídon palas ajña
anjglow atárgatis cornucópia pravarti
gymnotacit el shaddai magist
pneuma clemens killa p’unchay
avesta spenta-armaiti réa, ishtar

(Os sapos que choveram viram chorume de olhos brilhantes. Cachoeira de cobras com plumários.)

<Soa Pyth Om.>

~MEREDITH PACHAVUELA E BRABA YOGA:


This, class, collection, static for,
table, compiler, hierarchy,
virtual type-safe unwinding,
template declaration, friend,
object static_cast, namespace,
matching,ARM, overload system,
class, layout, mangling, cout,
true, behavior, compilation type,
termination, inheritance,
resolution, return, conventions, hiding...

~O ELEFANTE DE MARFIM:
Ocsalá zohar ododua lufanguian
ibn tahu’a-parau-tumu-fenu ayehidah
divinitaes krishna moses sol ha-rahamim
kether androfania humilitas hyód
fotômita sahasrâra mahikari apu
kun tafari tiqsi wiraqutra abraxás
ahura mazda shaman avalokhistevara
atmã amén

~MEREDITH PACHAVUELA E BRABA YOGA:


If... if... if... if... if... if... if... if... if... if... if...

~UBUGNU UGNIX:
Aliá!

~O ELEFANTE DE MARFIM:
Mu aho tao hemptha axé ein-sof ohm
Mu aho tao hemptha axé ein-sof ohm
Mu aho tao hemptha axé ein-sof ohm
Mu aho tao hemptha axé ein-sof ohm

{Fenrirx Anúbis aponta a luneta-flauta para


Marsias, o grilo de Buckfuller Ciogracian, que lhe
mostra a platéia. Oefro toca a canção dOs Encantadores
de Serpente. O elefante é engolido pela serpente e Oefro
diz:}

~OEFRO:
São só palavras!

(Chuva de sapos sobre camaleões. Cachoeira de


morcegos.) [Máscaras caem para o público.]

{Hozrú Irís Tupã Selva pisca e os instrumentos que lhe foram dados entram em combustão expontânea.
Os pedaços de animais mortos da ceia são misturados pelos atores enquanto voltam a ser quem são desprendendo-se
de suas personagens, até formarem uma escultura de quimera que canta o amanhecer:}

(Os chorume vira medusas brilhantes que são atraídas pelO Elefante de Marfim.)

<Cantagalo espectral da saciação da serpente Pyth Om Kundalini.>

(Furacão de ADN’s. Cachoeira de personagens de histórias em quadrinhos e da história humana.)

{Os Doze Macacos, ao ver a plateia, a vaiam por longo tempo mas calam diante da beleza da música. O
Elefante de Marfim engolido por Pyth Om se transforma em Nun. Só Hozrú Irís Tupã Selva a vê, aponta-lhe
sobre as cadeiras da platéia e diz:}

<A Beleza.>

~HOZRÚ IRÍS TUPÃ SELVA:


Nu!

<Um ronronar surdo, doce e grave: um sopro amortecido de um suspiro. Fim.>

{Todxs xs personagens saem de cena, enquanto O Diretor da Casa de Ópera e A Compositora da Ópera se
põem a falar com a platéia se vestindo.}(Uma filmagem da ópera inteira em movimento reverso é projetada sobre o
palco em velocidade cada vez maior até o momento em que Catarina Mariantônia Clemente entrou no palco.}

~A COMPOSITORA E DIRETORA DA ÓPERA:
Gostaria de agradecer a todxs vós aqui presentes.
Agradecer os operários, atrizes e atores, maquiadores,
iluminadores, editores, filósofos, engenheiros,
cenógrafos, bibliotecários, programadores,
produtoras, escultores, loucos, atravessadores,
urbanistas, encenadores, cozinheiros, professores,
manicures, motoristas, impressores, seguranças,
matemáticas, crianças, agricultoras, pintores,
maquinistas, pedreiros, arquitetos, geólogos,
faxineiros, traficantes, médicos, dançarinos,
poetas, embaladores, serventes, bancárias,
farmacologistas, tecelões, administradoras,
cineastas, enfermeiros, eletricistas, prostitutos,
perfumistas, esportistas, aviadores, ladrões,
alfaiates, terapeutas, burocratas, jogadores,
estudantes, ecologistas, mendigos, lavradores,
dentistas, químicos, pedagogos, fonoaudiólogas,
artesãos, fotógrafos, pescadores, tradutores, físicos,
atendentes, psicólogos, massagistas, mascates,
tecelões, tipógrafos, geógrafos, motoristas,
contadores, astrônomas, ociosos, entregadores,
escritores, anciãos, músicos, soldados, regentes,
religiosos, zoólogos, políticos, ancestrais,
e a quem eu possa ter olvidado...

~O DIRETOR DA CASA DE ÓPERA:


Preciso que nos perdoem todos vós aqui presentes.
Perdão por nossas ignorâncias, arrogâncias, medos,
fraquezas, estultícies, iniquidades, violências, luxúrias,
nojos, vergonhas, impiedades, injustiças, covardias,
profanações, mentiras, ganâncias, ilusões, invejas,
malícias, calúnias, vinganças, ódios, vaidades, friezas,

~OS OPERÁRIOS DO TEATRO: {Exaustos.}


Platéia, cadeiras, carpete, luzes de emergência,
escada, cortinas, roldanas, cordas, iluminação,
cabos, caixas de som, fios, fusíveis, parafusos,
calhas, vidro, parede, tijolos, ranhuras, porta,
ribalta, metais, grelhas, focos, madeira, piso,
palco...
Gratidão!
Perdão!
~A COMPOSITORA E DIRETORA DA ÓPERA:
Gratidão a todas os animais
que morrem e sofrem
por nossas necessidades e luxúrias,
e aos demais que tanto nos ensinam.
Gratidão a todos os conhecimentos,
técnicas, invenções, obras.
Gratidão às plantas que nos ensinam,
protegem, alimentam e purificam
nossos corpos e mentes.
Aos minérios, ao ar, à água, à terra, ao fogo,
às soluções e às substâncias,
ao planeta que nos acolhe em meio à caosmose,
às estrelas que mantêm a dança...
Gratidão!

~O DIRETOR DA CASA DE ÓPERA:


Perdão por nossos sofrimentos.
Perdão àqueles que buscam perdão,
debatendo-se contra si mesmos.
A céu perdoe o chão.
Perdão aos que claramente vêem
e sofrem calados,
aos que tem seus gritos amordaçados.
Perdão aos cansados, aos dilacerados,
humilhados, mal-compreendidos e ignorados.
Às gerações que se degeneram,
à grande confusão da pobreza.
Perdão à fome dos que tem fome
e à cegueira dos que guardam e desperdiçam.
Perdão à ira dos oprimidos.
Aos animais que tolhemos com nossas demandas,
às plantas que não ouvimos,
aos pensadores e sua impotência,
nossas barrigas cheias e nossas consciências sem culpa,
ao ardil do fazedor de machados,
aos artistas e suas tolice.
Aos que ao perdão olham de lado.
A todo gesto em vão...
Perdão!

...
~A COMPOSITORA E DIRETORA DA ÓPERA:
Eu não te disse que ia acabar tudo bem?

19.1. Epílogo:

{Quando todos saem do teatro, a atriz e o ator que interpretaram Catarina Clemente e José Merrick estão
nu entrada do teatro pergunta a quem sai:”

CATARINA CLEMENTE E JOSÉ MERRICK:


Por gentileza, quantos precisaram morrer para que vislumbrasses o elefante de marfim?