Você está na página 1de 124

Nildo Viana

Inconsciente Coletivo
e
Materialismo Histórico

2ª edição, Revista e Ampliada


© by Nildo Viana

Coedição:
GPDS
Grupo de Pesquisa Dialética e Sociedade.
Universidade Federal de Goiás, Campus II, FCS –
Caixa Postal 131 – CEP: 74.001-970.

1ª edição: VIANA, Nildo. Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico. Goiânia:


Edições Germinal, 2002.

Ficha Catalográfica
VIANA, Nildo.
Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico/Nildo Viana. 2ª edição, Revista e
Ampliada. Florianópolis, Bookess, 2015.
216 p.
ISBN: 9788580452198

1. Inconsciente coletivo. 2. Psicanálise. 3. Materialismo Histórico. 4. Marxismo. 5.


Inconsciente. 6. Universo Psíquico.
CDD 150-195

Índices para catálogo sistemático:

1. Psicanálise. 2. Psicanálise Social. 3. Teoria psicanalítica.


Nildo Viana

Inconsciente Coletivo
e
Materialismo Histórico

2ª edição, Revista e Ampliada


SUMÁRIO

Introdução 07

A Concepção Junguiana de Inconsciente Coletivo 17

A Concepção de Inconsciente Social em Erich Fromm 39

A Concepção Materialista do Inconsciente 55

Inconsciente, Sombra e Persona 79

A Concepção Materialista do Inconsciente Coletivo 93

Observações Finais 113

Referências 119
“As pessoas que sabem demais
são atreitas à rebelião. Tanto o
explorado quanto o explorador
são impelidos a considerar o
saber como algo incompatível
com um bom escravo, obediente
e bem ajustado. Numa tal
situação, o conhecimento é
perigoso, muito perigoso”.

Abraham Maslow
Introdução

O presente texto discute a questão do inconsciente


coletivo a partir da concepção materialista da história. Isto
parece estranho, pois a concepção do inconsciente coletivo
sempre esteve ligada à tradição do pensamento
conservador (Jung, História das Mentalidades).
Buscaremos demonstrar que é possível, no interior do
materialismo histórico, desenvolver uma teoria do
inconsciente coletivo, o que, obviamente, provocará uma
ressignificação deste termo.
Assim, nosso texto será acusado de “pretensioso” e
“ousado”, pois não só trata de um tema espinhoso como
apresenta novos conceitos que visam expressar a realidade
concreta. Ora, vivemos num mundo onde a ousadia
(principalmente intelectual) foi condenada, em nome do
princípio da “humildade”1. Não precisamos retomar o que

1
Humildade é a virtude de reconhecer nossa fraqueza, modéstia,
submissão, pobreza, inferioridade e humilde é aquele que é singelo,
obscuro, pobre, baixo, submisso, rasteiro, segundo se pode ver nos
dicionários (...). Obviamente que é necessário reconhecer os próprios
Marx e Nietszche falaram a respeito da “humildade”, essa
qualidade de escravos. Muitos, na verdade, apenas
disfarçam seus limites com este discurso, ou, como diz
Schopenhauer, “o elogio geral da modéstia”,

“esta virtude astuta, inventada em favor


da vulgaridade insípida, que, contudo,
pela necessidade que se lhe apresenta de
poupar a miséria, revela justamente esta”
(SCHOPENHAUER, 1980, p. 200).
Schopenhauer também relaciona “maldade moral” e
“incapacidade intelectual”. Elas, segundo ele, não derivam
de uma raiz única, mas uma conduz à outra,

“para proveito recíproco, graças ao que se


produz este infeliz fenômeno tal como
apresentado por demasiadas pessoas, e o
mundo caminha do jeito que o faz”
(SCHOPENHAUER, 1980, p. 194).
Assim, “a perversidade do coração impede o
homem de reconhecer verdades perfeitamente acessíveis a
seu entendimento” (SCHOPENHAUER, 1980, p. 194).

limites e que o saber, o amor, etc., vem de um esforço pessoal e não


algo inato e que surge do nada. O saber teórico, por exemplo,
necessita esforço intelectual. E, nesse caso, é possível e benéfico
reconhecer o não-saber. No entanto, não significa humildade
reconhecer isso e sim prudência. O princípio da prudência é o da
autocrítica, da cautela e do reconhecimento dos limites, o que
significa uma autoconsciência desenvolvida e não imposição alheia
e/ou dúvida das próprias potencialidades e possibilidades.
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 8
Mas, ao invés de pensar em “perversidade do coração”, tal
como faz Schopenhauer, preferimos pensar nos interesses
e valores juntamente com a repressão e coerção com seu
papel inibidor do desenvolvimento da consciência
humana.
Hoje, na sociedade capitalista, se produziu todo um
processo de hierarquia intelectual, no qual apenas os
“grandes intelectuais”, obviamente dos países capitalistas
imperialistas, podem ser ousados e originais, mesmo que
tal originalidade seja mero “plágio” de ideias anteriores
apresentadas com linguagem nova ou então novas teses
destituídas de realidade concreta, ficções que assumem a
imagem de “verdades científicas”.
Para o resto, o que se deve fazer é seguir
acriticamente as modas acadêmicas, pois assim não se
perde espaço e financiamento de pesquisa. Também não é
aconselhável aceitar concepções excessivamente críticas,
pois é mais adequado reproduzir o status quo acadêmico.
Assim, devemos tomar como nossas as palavras que
Ésquilo colocou na boca de Prometeu, quando este se
dirigia a Hermes, o lacaio servil de Zeus: “prefiro mil
vezes minha desgraça do que tua servidão”.
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 9
O princípio da humildade, que alguns até incluem
entre os critérios de cientificidade (...), também está
intimamente ligado a um fenômeno contemporâneo, o
culto da autoridade, que, por um lado, revela a servidão de
alguns, e, por outro, a elitização e monopolização do saber
por parte de outros, sendo que a competência real na
maioria das vezes é substituída pela “competência” formal
(ser portador de um diploma, por exemplo).
Paradoxalmente se exige originalidade e
criatividade, principalmente nos últimos tempos. Ora, aqui
não se trata mais do que a originalidade do material
informativo (novos “dados empíricos”) ou então a
“criatividade” fundada na acomodação, no qual o
indivíduo apenas realiza uma justaposição entre teses ou
autores díspares sem acrescentar nenhuma crítica,
nenhuma síntese, nenhuma ideia derivada. O trabalho
intelectual como práxis é abolido, ele deixa de ser
assimilação para se tornar acomodação (VIANA, 2000).
Isto ocorre com o pensamento contemporâneo, que
enfrenta todo um conjunto de controle sobre o saber, bem
como o mercado e outros aspectos da sociedade moderna
se tornam obstáculos para o desenvolvimento da
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 10
consciência humana. Isto ocorre no “marxismo” e também
na psicanálise. No “marxismo”, o que predomina é a sua
estagnação. No entanto, trata-se aqui do marxismo oficial,
seja o pseudomarxismo acadêmico seja o pseudomarxismo
dos partidos políticos. Estas versões deformadas do
marxismo abandonam a perspectiva original do projeto
marxista para subordiná-lo aos interesses pessoais, grupais
ou partidários. O marxismo foi deformado por diversas
ideologias e assim já não é mais o mesmo e todas as
deformações estão ligadas à interesses de classe e
envolvidas na lógica da mercantilização e burocratização
das relações sociais.
Na psicanálise, o problema é semelhante, embora
assumindo forma diferente. A psicanálise não nasceu
revolucionária, mas fez uma descoberta revolucionária, a
do inconsciente, ao lado de outras descobertas
importantes. Mas por não ser uma teoria da revolução,
como o marxismo, ela teria que se institucionalizar e
perder o seu caráter crítico, se tornando cada vez mais

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 11


conservadora. Foi por isso que Fromm mencionou o
processo de “burocratização da psicanálise”2.
As Sociedades Psicanalíticas são as guardiãs do
saber psicanalítico e a psicanálise – com Freud e alguns de
seus seguidores – já tinha ido longe demais, ao descobrir o
inconsciente, e depois lançar alguns elementos para se
compreender o inconsciente coletivo, a sublimação,
complexo de inferioridade, repressão etc. No entanto, hoje
é retomada a discussão sobre a crise da psicanálise. Ela
não dá conta de resolver os desequilíbrios psíquicos dos
indivíduos, dizem uns. Houve uma estagnação teórica da
psicanálise, dizem outros. A razão disto é muito simples:
para realizar sua tarefa de “curar” (e também para
conseguir seu desenvolvimento teórico) seria necessário ir
além do indivíduo, ou seja, transformar a sociedade. Mas
ela não pode fazer e nem dizer isto. Isto seria suicídio.
Desta forma, o desenvolvimento da psicanálise na

2
Uma pesquisa interessante seria sobre a esfera psicanalítica,
entendendo-a como uma das esferas sociais, com sua especificidade.
Ela possui os elementos característicos de todas as esferas sociais
(VIANA, 2015a) e, ao mesmo tempo, elementos específicos, que
mereceriam pesquisa aprofundada.
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 12
atualidade só pode ocorrer efetivamente a partir do
marxismo.
Segundo o depoimento de uma psicanalista,

a nossa incapacidade de produzir novas


representações testemunha a solidez das
nossas fixações imaginárias. Há um medo
da irrupção do outro (dos outros e do
Outro – onde Lacan designa o
inconsciente) que condena a repetição do
mesmo. Mesmo se, de certo modo, nunca
se escapa por completo à repetição, a
capacidade de produzir discursos novos, e
talvez realidades novas, depende muito da
capacidade individual ou coletiva de ouvir
este Outro (CUNHA, 1981, p. 112-113).
Ela acrescenta, numa nota de rodapé, que, para
Pierre Castoriadis-Aulagnier, esta incapacidade é um dos
sinais da “pulsão de morte”, mas preferimos dizer que um
dos motivos desta incapacidade de ver o novo (que não é
só de produzir mas também de aceitar e desenvolver, pois
o novo, por definição, não é consensual ou “legítimo”, o
que o torna inaceitável para os cientistas “humildes”) se
encontra na sombra, derivada da mais-repressão da
sociedade capitalista. Este é apenas um dentre vários
motivos.

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 13


A descoberta de aspectos da realidade não
percebidos é um processo no qual um indivíduo é
constrangido pelas relações sociais e pela sua posição no
seu interior a fazê-la, tal como Fromm colocou (veja
capítulo 2). Mas no reino da ideologia, isto é obra de
gênios e não de pessoas “humildes”. Marx não era um
gênio, e sim um indivíduo que devido sua perspectiva
(interesses, valores, sentimentos etc.) se encontrou diante
da necessidade de desenvolver a teoria da sociedade e isto
tornou necessária a elaboração de novos conceitos
(VIANA, 2007a).
Sem dúvida, sua erudição e cultura contribuiu em
muito para isto. Naquela época, isto não era tão incomum,
pois as ciências humanas estavam nascendo e cada um
podia dar sua contribuição ou criar sua própria concepção,
constituindo diversas noções novas para explicar a
realidade social. Hoje, a situação é contrária, pois não só
se tem as construções deste período como a dos períodos
posteriores, embora as inovações fossem se tornando cada
vez menores. Assim, podíamos dizer que havia um imenso
espaço a ser descoberto e poucos recursos conceituais,

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 14


enquanto que hoje existe muito recurso “conceitual”
diante de pouco espaço perceptível a ser descoberto.
Esta situação é igual à do desenvolvimento
capitalista: no seu início, o capital está pouco concentrado
e centralizado, o que permite alguns indivíduos de origem
pobre, dentro de certas condições, acumular capital e se
transformar em capitalista, e, depois, já existe um alto grau
de acumulação, concentração e centralização, o que
impede que os “pequenos” se tornem “grandes”. O mundo
burocrático exige a manutenção da hierarquia, inclusive na
esfera da produção intelectual.
Hoje um intelectual deve gastar um tempo enorme
para ter acesso às diversas concepções de cada ciência ou
concepção. Um sociólogo deve conhecer os clássicos
(Marx, Weber, Durkheim) e todas as correntes
(funcionalismo, etnometodologia, etc.) e grandes
pensadores (Norbert Elias, Maffesoli, Simmel, Mannheim,
Giddens, Bourdieu, e mais uma centena...) posteriores.
Um psicanalista também se encontra na mesma posição
(deve conhecer as numerosas obras de Freud e também as
de Otto Rank, C. G. Jung, Erich Fromm, Wilhelm Reich,

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 15


Alfred Adler, Klein, Ferenczi, Laing, Lacan, Reik, Horney
e mais uma centena...).
Se quiser começar tudo a partir do zero, será
considerado um louco. Sem dúvida, não se trata de
começar do zero (e isto vale para a sociologia e para todas
as ciências, e também para o marxismo e a psicanálise) e
também não quer dizer que a consciência destas obras não
tenha importância ou não seja necessária. Obviamente,
hoje é necessário conhecer tais obras, mas não é possível
conhecer todas (um especialista limitado pode até
conseguir fazer isto, pois se limita a uma única ciência ou
parte dela, o que mesmo assim não deixa de ser difícil pela
quantidade de obras da produção mercantil capitalista).
É claro que quanto maior o saber sobre o maior
número de obras melhor para aquele que quer
compreender a realidade. No entanto, isto é válido desde
que ele assimile tais obras e não apenas faça o “exercício
de leitura” acrítico e isolado do contexto cultural e social,
das interrelações entre as obras e teses etc. Mas isto só
será proveitoso realmente dependendo da perspectiva do
qual se parte, pois isto é condição de possibilidade do
saber (VIANA, 2001).
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 16
Assim, lembrando Marx, precisamos de tudo ousar.
Também precisamos realizar a crítica desapiedada do
existente. Assim, vamos ousar e nossa ousadia começa
com a tentativa de elaborar uma teoria marxista do
inconsciente coletivo. Isto pressupõe uma teoria do
inconsciente e do universo psíquico. Para fazer isto numa
perspectiva marxista é necessário superar determinadas
concepções psicanalíticas e produzir novas e é aí que
reside a ousadia (expressa nos conceitos de mais-
repressão, persona, sombra, inconsciente coletivo, etc.).
Isto surge da necessidade de aprofundar aquilo que o
marxismo e a psicanálise apenas esboçaram. Os novos
conceitos são oriundos de uma perspectiva e da
necessidade que ela encontra em novos conceitos para
explicar uma determinada realidade. Uma concepção só
supera sua estagnação desta forma, pois sendo a realidade
infinita, a proliferação de conceitos é parte necessária de
seu desenvolvimento, pois novos aspectos da realidade
vão sendo integrados na teoria, o que requer novos
conceitos.
É isto que ocorre com o materialismo histórico, que
depois de um processo longo de deformação (que o
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 17
transformou em economicismo), precisa dar conta de
aspectos da realidade que não estavam ainda no seu campo
de percepção no passado, ou apenas se esboçaram. A
questão atual de uma sociedade altamente desenvolvida
tecnologicamente, que poderia abolir a fome e a miséria
mas que convive com cerca de um bilhão de pessoas sem
o que comer, que poderia trazer um alto grau de
desenvolvimento das potencialidades humanas e na
verdade as impede de vir à tona mais do que em qualquer
outra sociedade, que destrói o meio ambiente e este é
condição de sobrevivência da espécie humana e mesmo
assim continua o processo de destruição ambiental em alta
escala, nos faz pensar além do processo de exploração de
classe e observar como esta sociedade ainda permanece,
como a população não produz a transformação social e
funda uma sociedade radicalmente diferente.
Assim, a psicanálise forneceu elementos
fundamentais que contribuem com a compreensão deste
processo. Desta forma, é preciso dar atenção às
descobertas psicanalíticas, extrair da psicanálise o que ela
possui de verdadeiro e superar suas ficções, colocando-a
dentro de uma perspectiva de transformação social. É este
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 18
o motivo do presente trabalho, embora focalizando a
questão do inconsciente coletivo, apesar de referências a
outros elementos, mas que faz parte de um projeto mais
amplo que busca realizar tal feito.
Desenvolveremos, com nossa contribuição para a
formação de uma teoria marxista do inconsciente coletivo,
uma análise das duas tentativas mais elaboradas de
analisar este fenômeno, a de Jung e a de Fromm e depois,
com base no materialismo histórico, realizar uma
reformulação e ressignificação deste conceito, o que
significa desenvolver uma nova percepção da realidade da
qual ele é expressão.

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 19


A Concepção Junguiana de Inconsciente
Coletivo

Carl Gustav Jung foi o primeiro psicanalista a


desenvolver uma concepção sistemática de inconsciente
coletivo. Sem dúvida, Freud em alguns momentos fornece
elementos que podem servir para uma concepção do
inconsciente coletivo, tal como veremos adiante, mas
coube a Jung o reconhecimento de sua existência e a
elaboração de uma concepção sistemática a seu respeito.
Por isso começaremos nossa análise com a contribuição de
Jung.
A obra de Jung surge a partir da fundação da
psicanálise por Freud. Freud foi, paulatinamente,
construindo a psicanálise a partir de seu afastamento da
medicina e das descobertas que proporcionaram a sua
elaboração teórica. A concepção de Freud é complexa e
inclui inúmeros elementos que vão se desenvolvendo e
dando corpo à psicanálise. As suas teses sobre os instintos
(ou “pulsões”), da repressão e do inconsciente formam a
base da concepção freudiana. No entanto, Freud buscará
compreender o “aparelho psíquico” a partir de dois
componentes (consciência e inconsciente) e,
posteriormente, três (id, ego e superego), entre outras
alterações que ele provocou em sua concepção original (a
ideia de existência de um “instinto de morte” é outro
exemplo, pois ela só foi sustentada por ele na última fase
de seu pensamento).
O grande mérito de Freud foi a descoberta do
inconsciente. Freud considerava que a mente humana, ou
“aparelho psíquico”, não era composto apenas pela
consciência, pois possuía uma camada profunda que ele
denominou inconsciente (em sua concepção tripartite do
aparelho psíquico – id, ego e superego – os dois últimos
elementos são conscientes e, portanto, a mudança na
concepção não desmente nossa exposição).
A origem do inconsciente se encontra na repressão
dos instintos. Para Freud, o ser humano possui dois
conjuntos de instintos: os sexuais e os de sobrevivência
(mais tarde acrescentaria o instinto de morte), embora
focalizasse sua concepção principalmente nos instintos
sexuais. Para ele, a civilização, para garantir sua
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 22
sobrevivência, deve coagir os seres humanos ao trabalho e
isto pressupõe a repressão dos instintos (sexuais). Esta
repressão dos desejos sexuais, que se inicia durante a
infância, é externa, realizada principalmente pelos pais.
Com o passar do tempo, esta repressão é introjetada, ou
seja, o próprio indivíduo, através de sua consciência moral
(“superego”) se “reprime”, realizando o recalcamento, ou
seja, apaga de sua consciência tais desejos.
Os desejos reprimidos, no entanto, não deixam de
existir, mas tão-somente de serem conscientes. Eles ficam
“escondidos” na mente humana, no inconsciente. O
inconsciente, por sua vez, sempre busca se manifestar. Ele
se manifesta quando a consciência fica enfraquecida, tal
como durante os sonhos ou nas fantasias, mas também em
outros momentos, como nos atos falhos, chistes, etc.
(FREUD, 1978).
Freud vai desenvolver sua concepção de problemas
psíquicos a partir desta elaboração. A neurose, por
exemplo, seria produto da frustração produzida pelo
recalcamento. Desta forma, a civilização e suas
necessidades produzem a repressão, o recalcamento e o
inconsciente (FREUD, 1978b).
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 23
Nasce, assim, a psicanálise e em torno de Freud se
agruparam diversos pesquisadores, dando origem à
primeira Sociedade Psicanalítica. No entanto, pouco
depois da constituição da psicanálise apareceram as
divergências. A concepção freudiana começou a ser
questionada e substituída por concepções rivais, embora o
freudismo ortodoxo continue forte até os dias atuais. A
primeira grande concepção alternativa foi a de Alfred
Adler. Adler discordava da centralidade fornecida por
Freud aos instintos sexuais e em seu lugar iria colocar a
“vontade de poder” e daí derivar um conjunto de teses,
sendo que algumas se tornaram populares, tal como a do
“complexo de inferioridade”, embora sua concepção tenha
se tornado marginal na história posterior da psicanálise. O
questionamento do “pansexualismo” de Freud realizado
por Adler seria apenas o primeiro de uma série, gerando
algumas dissidências, incluindo a de Jung.
A obra de Jung também é bastante complexa e nasce
a partir das contribuições de Freud e Adler, que ele julga
importantes, mas “unilaterais”. Jung era extremamente
conservador, ao contrário de Adler, que se autodeclarava
socialista. O conservadorismo de Jung era maior do que o
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 24
de Freud e está relacionado com o fato de que o último
tinha como preocupação fundamental a resolução de
problemas individuais enquanto que o primeiro dedicava
especial atenção aos problemas sociais. Daí sua
consideração pela obra de Adler, que se dedicou a explicar
o indivíduo pelo social.
Jung discorda de várias teses de Freud, tal como a
universalidade do incesto e a primazia do “erótico-sexual”.
Segundo ele, os instintos sexuais não formam a totalidade
da natureza humana, embora seja um de seus aspectos
principais. O erro de Freud, para ele, se encontra na sua
visão “unilateral” e “exclusivista” oriunda de sua teoria
sexual. Adler substituiu os instintos sexuais pelo princípio
de poder, apresentando, segundo Jung, uma concepção tão
unilateral e exclusivista quanto a de Freud. Jung diz que
esta tese também possui um momento de verdade, tal
como a de Freud, mas que elas são inconciliáveis. É
preciso, segundo Jung, partir de um ponto de vista
superior a elas para poder unificá-las. Para Jung, “ambas
contêm verdades fundamentais” e “uma não exclui a
outra”, sendo “certas, porém unilaterais” (1989, p. 33).

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 25


Jung explicará a diferença entre Freud e Adler por
uma “diferença de temperamento”. Trata-se de uma
diferença entre “dois tipos de espírito humano”, o tipo
introvertido (Adler) e o extrovertido (Freud), tal como se
encontra em sua tipologia psicológica1. Assim, segundo
Jung, o problema é que estas duas teorias são verdadeiras,
mas se aplicam apenas a casos especiais e transformá-las
em “teoria global da essência” é que é o grande erro. É a
partir desta “ruptura” com Freud e Adler, e ao mesmo
tempo da conservação de algumas de suas teses,
consideradas de “uso tópico”, que Jung elaborará sua
própria concepção.
A concepção de Jung tem como momento inicial a
libido. Para Freud a libido é energia sexual, concepção
considerada por Jung como sendo restrita. Segundo Nise
da Silveira,

enquanto Freud atribui à libido


significação exclusivamente sexual, Jung
denomina libido à energia psíquica
tomada num sentido amplo. Energia
psíquica e libido são sinônimos. Libido é
apetite, é instinto permanente de vida que

1
Jung dedica uma de suas principais obras ao problema dos tipos
psicológicos (JUNG, 1976).
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 26
se manifesta pela fome, sede, sexualidade,
agressividade, necessidades e interesses
os mais diversos. Tudo isso está
compreendido no conceito de libido
(SILVEIRA, 1981, p. 41).
A energia psíquica, portanto, possui diversas
manifestações. Para Jung, a mente humana é um

sistema energético relativamente fechado,


possuidor de um potencial que permanece
o mesmo em quantidade através de suas
múltiplas manifestações, durando toda a
vida de cada indivíduo. Isto vale dizer
que, se a energia psíquica abandona um
de seus investimentos virá reaparecer sob
outra forma. No sistema psíquico a
quantidade de energia é constante, varia
apenas sua distribuição (SILVEIRA,
1981, p. 44).
A libido, diz Jung, “já possui seu objeto no
inconsciente”, e o seu rumo não pode ser decidido pela
nossa vontade, seguindo seu fluxo. Assim, a libido,
seguindo seu curso natural, encontra “o caminho para o
objeto que lhe é destinado”, o que só não ocorre por
interferência da vontade ou por elementos externos.
Jung vai relacionar sua concepção de libido com a
questão do inconsciente. Para ele, o inconsciente possui
duas camadas, uma pessoal (individual) e outra coletiva.

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 27


A camada pessoal termina com as
recordações infantis mais remotas; o
inconsciente coletivo, porém, contém o
tempo pré-infantil, isto é, os restos da
vida dos antepassados. As imagens das
recordações do inconsciente coletivo são
imagens não preenchidas, por serem
formas não vividas pessoalmente pelo
indivíduo. Quando, porém, a regressão da
energia psíquica ultrapassa o próprio
tempo da primeira infância, penetrando
nas pegadas ou na herança da vida
ancestral, aí despertam os quadros
mitológicos: os arquétipos (JUNG, 1989,
p. 69).
Para Jung, tal como colocamos anteriormente, a
libido já possui seu objeto no inconsciente (pessoal). Mas
além desse inconsciente pessoal, existem “as imagens
primordiais”, isto é,

a aptidão hereditária da ação humana de


ser como era nos primórdios. Essa
hereditariedade explica o fenômeno, no
fundo surpreendente, de alguns temas e
motivos de lendas se repetirem no mundo
inteiro e em formas idênticas, além de
explicar porque os nossos doentes mentais
podem reproduzir exatamente as mesmas
imagens e associações dos textos antigos
(JUNG, 1989, p. 57).
Jung esclarece que tais imagens não são hereditárias.
O que é realmente hereditário é a capacidade de tê-las.
Jung denomina estas imagens universais e originárias

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 28


como “arquétipos”. Esta camada mais profunda do
inconsciente, o inconsciente coletivo, não chega à tona
facilmente. Somente através de um processo de
“regressão” é que ele surge na mente individual. O que
provoca tal “regressão”? Ela é produto da repressão2. Para
ele, a cultura ocidental racional nega o irracional. No
entanto, “o homem não é apenas racional, não pode e
nunca vai sê-lo” (JUNG, 1989, p. 64). “O irracional não
deve e não pode ser extirpado. Os deuses não podem e não
devem morrer” (JUNG, 1989, p. 64).
Assim, Jung encontra no racionalismo da cultura
ocidental a chave para explicar a regressão. Se
lembrarmos que para ele a libido é um conjunto múltiplo
de necessidades, então o desenvolvimento unilateral do ser
humano provoca a regressão. Segundo Jung, existe um
impulso ou complexo que concentra em si a maior parte da
energia psíquica e obriga o eu a ficar sob seu comando.

2
“Como é sabido, o processo cultural consiste na repressão
progressiva do que há de animal no homem; é um processo de
domesticação que não pode ser levado a efeito sem que se insurja a
natureza animal, sedenta de liberdade” (JUNG, 1989, p. 11). Ele
acrescenta que hoje sabe-se que não é só a natureza instintiva que é
atingida pela coerção cultural mas também “novas ideias”, as
paixões políticas e a religião.
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 29
Habitualmente, é tão intensa a força de
atração exercida por este foco de energia
sobre o eu que este se identifica com ele,
passando a acreditar que fora e além dele
não existe outro desejo ou necessidade. É
assim que se forma uma mania,
monomania, possessão ou uma tremenda
unilateralidade que compromete
gravemente o equilíbrio psicológico. O
poder de concentrar toda a capacidade
num ponto só é sem dúvida algumas o
segredo de certos êxitos, razão porque a
civilização se esforça ao máximo em
cultivar especializações (JUNG, 1989, p.
64).
Para Jung, o ser humano tem o direito de considerar
sua razão “bela e perfeita”, mas ela é apenas uma das
“funções espirituais possíveis”, sendo uma ilha rodeada
por todos os lados pelo irracional. A religião é uma
expressão irracional que faz parte da totalidade psíquica
humana. “O conceito de Deus é simplesmente uma função
psicológica necessária, de natureza irracional, que
absolutamente nada tem a ver com a questão da existência
de Deus” (JUNG, 1989, p. 63). Assim, ele diz: “estou
plenamente convencido da extraordinária importância do
dogma e dos ritos, pelo menos enquanto métodos de
higiene” (JUNG, 1987, p. 49).

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 30


Assim, a “receita de Jung” é aceitar as funções
psíquicas irracionais da mente e, visando evitar a
regressão, devemos nos entregar à “experiência religiosa”.
Mas por qual motivo Jung quer evitar a regressão ao
inconsciente coletivo? O que ele busca evitar é que a
libido retire seu objeto dos conteúdos do inconsciente
coletivo. As imagens primordiais contidas no inconsciente
coletivo

contém não só o que há de mais belo e


grandioso no pensamento e sentimento
humanos, mas também as piores infâmias
e os atos mais diabólicos que a
humanidade foi capaz de cometer. Graças
a sua energia específica (pois comportam-
se como centros autônomos carregados de
energia) exercem um efeito fascinante e
comovente sobre o consciente e,
consequentemente, podem provocar
grandes alterações no sujeito. Isso é
constatado nas conversões religiosas, em
influências por sugestão, e, muito
especialmente, na eclosão de certas
formas de esquizofrenia (JUNG, 1989, p.
62).
Consideramos que estes elementos são suficientes
para compreender a concepção junguiana de inconsciente
coletivo e por isso deixaremos de lado outros termos e
teses relacionados. Realizaremos, a partir de agora, uma

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 31


avaliação crítica de sua concepção para, posteriormente,
retomar os elementos que contribuem para a elaboração de
uma teoria do inconsciente coletivo na perspectiva do
materialismo histórico.
A preocupação fundamental expressa nos textos de
Jung é com a irrupção do lado obscuro da mente humana.
Sua grande preocupação é com as “piores infâmias e os
atos mais diabólicos que a humanidade pôde cometer”. De
onde surgiu tal preocupação? Como está explícito em suas
obras, sua origem se revela na ocorrência da Primeira
Guerra Mundial (reforçada pela Segunda Guerra Mundial)
e no temor do fascismo e do bolchevismo.
A base da preocupação junguiana com a guerra e os
fanatismos políticos, no entanto, reside em outro lugar.
Sem dúvida, a questão das guerras mundiais e da ascensão
do nazifascismo produziram uma preocupação em
diversos pesquisadores sobre como tal barbarismo pode
ocorrer. Contudo, a resposta específica fornecida por cada
pesquisador e o grau de importância fornecido a estes
fenômenos decorrem da mentalidade de cada um deles.
Erich Fromm e Theodor Adorno, para citar apenas dois

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 32


exemplos, desenvolveram outras teses e assumiram outras
posições sobre tal fenômeno.
Sem dúvida, a posição de Jung foi o resultado de um
complexo entrelaçamento de determinações. A primeira e
fundamental reside no conservadorismo de Jung, já
aludido anteriormente. Embora ele consiga identificar
alguns problemas da “civilização ocidental” (sociedade
capitalista), o seu conservadorismo não lhe permite
descobrir o processo de constituição das relações sociais
fundadas no antagonismo de classes. Isto se vê, por
exemplo, na sua afirmação ingênua de que a
especialização é incentivada pela civilização porque é “o
segredo de certos êxitos”. O processo de desenvolvimento
social fundado no processo de produção da vida material
produz a divisão social do trabalho e, no capitalismo, isto
se amplia numa escala extremamente elevada. A
especialização de Jung na psicanálise e seu
desconhecimento e desconsideração do marxismo, da
sociologia, etc., possibilitam sua explicação unilateral da
força da especialização na sociedade capitalista. A
unilateralidade intelectual é um problema que Jung não

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 33


percebeu, bem como o fato dela ser um produto de uma
subespecialização.
Mas além desta determinação, podemos dizer que a
sua experiência psíquica e seu envolvimento na primeira
guerra mundial contribuiu com isto. Ele “serviu durante a
primeira guerra mundial como comandante do campo de
prisioneiros de Chateau D’Oex” (SILVEIRA, 1981, p. 18).
Se a guerra impressiona pessoas distantes dela, o seu
efeito é muito maior naqueles que a presenciam,
provocando, em muitos casos, processos traumáticos. Foi
neste período que ele teve “intensas experiências
interiores”, “sonhos impressionantes”, “visões”. Assim,

pareceu-lhe que a melhor solução seria


esforçar-se por decifrar-lhes o sentido,
mantendo a consciência sempre vigilante
e não perdendo o contato com a realidade
exterior (SILVEIRA, 1981, p. 17).
Percebemos que Jung se encontrou numa
encruzilhada, no qual corria o risco de “perder o contato
com a realidade exterior”, o que significa que ele passou
por uma forte experiência de conflitos psíquicos que
poderiam ter desembocado em uma neurose. No entanto,
ele arranjou forças para superar tais conflitos e o risco que

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 34


correu lhe proporcionou um medo intenso de “cair nas
trevas”. A solução que ele deu foi considerar este “lado
sombrio” como um não-eu, tal como ele concebe o
inconsciente coletivo.
Assim, este medo intenso que Jung tinha de si
mesmo foi projetado para fora, para o inconsciente
coletivo. É por isso que ele fornece esta receita para as
demais pessoas e também concebe à religião um papel tão
importante, pois ela pode canalizar a energia psíquica e
impedir que “o mal” venha à tona. O medo de si mesmo é
transferido para a humanidade e é por isso que as guerras
mundiais, o fascismo e o bolchevismo se tornam suas
grandes preocupações. O seu conservadorismo pessoal e o
conservadorismo social se reforçam reciprocamente.
Até aqui explicamos a gênese da concepção
junguiana do inconsciente coletivo. Mas ainda resta a
tarefa de realizar a sua crítica. Jung critica Freud e Adler
por produzirem “teorias redutivas” com pretensão de
globalidade e não percebe que ele produz uma concepção
reducionista com igual pretensão globalizante. O
reducionismo se encontra em sua explicação unilateral dos
fenômenos se fundamentando apenas nas forças psíquicas,
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 35
deixando de lado toda a complexa totalidade e as múltiplas
determinações dos fenômenos. É o que se vê, por
exemplo, na sua interpretação do nazismo, considerado
por ele um “fenômeno patológico”, uma “irrupção do
inconsciente coletivo”. Segundo Silveira, para Jung,

Wotan havia tomado posse da alma do


povo alemão. E que é Wotan? É o Deus
pagão dos germânicos, um Deus das
tempestades e da efervescência,
desencadeia paixões e apetites
combativos’. Num ensaio publicado em
1936, Jung traça o paralelo entre Wotan
redivivo e o fenômeno nazista. Wotan é
uma personificação de forças psíquicas –
corresponde a ‘uma qualidade, um caráter
fundamental da alma alemã, um ‘fator
psíquico de natureza irracional, um
ciclone que anula e varre para longe a
zona calma onde reina a cultura’. Os
fatores econômicos e políticos pareceram
a Jung insuficientes para explicar todos os
espantosos fenômenos que estavam
ocorrendo na Alemanha. Wotan reativado
no fundo do inconsciente. Waton invasor,
seria a explicação mais pertinente
(SILVEIRA, 1981, p. 23).
O reducionismo de Jung não é nem um pouco
melhor do que o de Freud e Adler. Isto se torna mais
perceptível quando notamos que o seu fundamento é
metafísico. Por qual motivo “Wotan foi reativado”? Isto só

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 36


pode ser explicado pelo complexo processo social
ocorrido na sociedade alemã (a derrota na primeira guerra
mundial, as tentativas de revolução socialista, as
dificuldades de reprodução da acumulação capitalista, a
fome etc.). No entanto, Jung desconsidera o processo
social e se refugia em “arquétipos” imutáveis e universais.
As “provas” que ele apresenta para a existência de
tais arquétipos não provam nada, pois os mitos, contos de
fada, lendas, etc. por mais que possuam semelhanças, não
significa que expressam “imagens primordiais”, além do
fato de que grande parte das semelhanças são produtos da
interpretação de Jung. Da mesma forma que um
matemático pode encontrar “elementos matemáticos” na
base de toda construção humana (ciência, arte etc.), um
maniqueísta pode ver a “luta do bem contra o mal” em
tudo que existe, um darwinista pode ver a “luta pela
existência” e a “sobrevivência dos mais aptos” em todas as
esferas da vida, um pseudomarxista pode ver “causa
econômica” em tudo que existe, Jung pode encontrar o
inconsciente coletivo em todas as manifestações culturais.
Contudo, todas estas concepções são reducionistas e
produtos de mentes engenhosas, mas que não passam de
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 37
modelos mentais, nos quais a realidade é encaixada à
força, e servem muito mais para ocultá-la do que para
revelá-la.
Desta forma, Jung apresenta uma concepção
igualmente reducionista, tal como acusava em Freud e
Adler. No entanto, existem alguns “momentos de verdade”
na concepção junguiana (da mesma forma que ele afirmou
existir nas concepções de Freud e Adler). Essa breve
análise da concepção junguiana do inconsciente coletivo é
importante para adiante podermos resgatarmos os seus
momentos de verdade.

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 38


A Concepção de Inconsciente Social em
Erich Fromm

Erich Fromm iniciou sua carreira de psicanalista na


Alemanha. Ele foi um dos fundadores do Instituto de
Pesquisa de Frankfurt, de onde sairia o conjunto de
pensadores que foram identificados por pertencerem a
“Escola de Frankfurt” (Marcuse, Benjamin, Adorno,
Horkheimer, entre outros), mas foi no período de ascensão
do nazismo e sua ida para os Estados Unidos que ele
começou a produzir suas grandes obras, entre as quais O
Medo à Liberdade, Análise do Homem, Psicanálise da
Sociedade Contemporânea.
A posição de Fromm em relação à Freud 1 também se
caracteriza por negar o seu “pansexualismo”. Fromm
busca em Marx e na antropologia moderna elementos de

1
“A descoberta central de Freud foi a do inconsciente e a do
recalcamento. Ele ligou este conceito central com a sua teoria da
libido e admitiu que o inconsciente era a base dos desejos do instinto
sexual” (FROMM, 1992, p. 54). “Restrita à libido, a grande
descoberta de Freud, na verdade, perde muito de seu caráter crítico e
desmascarador” (FROMM, 1992, p. 55). Para ver a crítica de Fromm
a Freud sob forma mais detalhada: Viana ().
análise que permitam a construção de uma concepção
histórica, social e cultural do ser humano. É por isso que
muitos vão considerá-lo como um “neofreudiano”, um
“freudo-marxista” ou como um “culturalista”. Sem dúvida,
podemos considerar Fromm como um dos representantes
do freudo-marxismo, tendo em vista que as duas grandes
fontes inspiradoras foram as ideias de Marx e Freud.
A síntese que Fromm realizará entre as ideias de
Freud e Marx é bastante interessante. Fromm realizará a
recusa e critica de várias teses de Freud (VIANA 2010) e
vai se desvencilhar de várias deformações da obra de
Marx, ou seja, do “marxismo” positivista de Lênin,
Bukhárin e outros (FROMM, 1983). Assim, devido a
influência de Marx, ele possui uma concepção muito mais
abrangente do ser humano, em relação às concepções de
Freud e Jung. Fromm parte de uma concepção que pode
ser denominada “socialismo humanista”, bem distinto das
concepções pseudomarxistas de socialismo, tal como a de
Lênin, concretizadas no “socialismo real”. Fromm
qualifica, da mesma forma que os marxistas autênticos
(Korsch, Pannekoek, Rühle, etc.), o falso “socialismo
realmente existente” como sendo um capitalismo de
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 40
estado (FROMM, 1983)2. Isso lhe permite apresentar uma
concepção crítica do capitalismo, embora muitas vezes
reserve ao indivíduo o processo de transformação pessoal
sem a devida mudança social, o que vai tornar possível a
crítica de Marcuse3.
Erich Fromm elaborará sua concepção de
inconsciente social em seu livro Meu Encontro Com Marx
e Freud. A sua obra póstuma, A Descoberta do
Inconsciente Social pouco acrescenta em relação à
anterior. Erich Fromm afirma que entende por
inconsciente social

as áreas de repressão comuns à maioria


dos membros de uma sociedade; os
elementos habitualmente reprimidos são
aqueles de cujo conteúdo a sociedade não
deve permitir que seus membros tenha
consciência, para que possa, com suas
contradições específicas, funcionar com
êxito (FROMM, 1979, p. 86).

2
Em outras obras Fromm cede ao léxico dominante e utiliza
novamente “socialismo”, embora com adjetivos, para se referir aos
países de capitalismo estatal.
3
Marcuse (1988) vai criticar Fromm em alguns pontos injustamente
(VIANA, 2008) e em alguns aspectos com acerto, principalmente
quando ele fala do estilo de Fromm e de sua solução, muitas vezes
próxima ao do “poder do pensamento positivo”, o que, aliás, rende
certa popularidade aos escritos de Fromm.
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 41
Fromm fundamentará sua concepção de inconsciente
social (ele utiliza este termo ao invés de inconsciente
coletivo para distinguir sua concepção da de Jung) a partir
das contribuições de Marx e Freud. Marx apresentou a
determinação da consciência pelas forças sociais e o
objetivo de Fromm é mostrar como esta determinação
opera concretamente. Segundo ele,

para que qualquer experiência chegue à


consciência, deve ser compreensível
segundo as categorias em que o
pensamento consciente está organizado.
Só posso adquirir consciência de qualquer
ocorrência, dentro ou fora de mim,
quando ela se relaciona com o sistema de
categorias dentro do qual se fazem as
minhas percepções. Algumas dessas
categorias, como tempo e espaço, podem
ser universais, e constituir categorias de
percepção comuns a todos os homens.
Outras, como a causalidade, podem ser
válidas para muitas, mas não para todas as
formas de percepção consciente. Outras
categorias são ainda menos gerais e
diferem de cultura para cultura (FROMM,
1979, p. 109).
Assim, segundo Fromm, a experiência só se torna
consciente através de um “sistema conceptual” (seria
melhor dizer “universo linguístico”). Tal sistema

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 42


conceptual é produto da evolução social e produz um
“filtro socialmente condicionado”.
Mas antes de continuarmos seria importante
esclarecer o que Fromm entende por “inconsciente”,
embora isso já tenha ficado subentendido em sua definição
de inconsciente social. Para ele, esta expressão é uma
“mistificação” e só é utilizada por questão de
“conveniência”. “Não existe o inconsciente; há apenas
experiências que temos consciência, e outras de que não
temos, ou seja, de que estamos inconscientes” (Fromm,
1979, p. 95). Fromm acrescenta que o recalcamento não
atinge apenas os impulsos sexuais e os sentimentos, mas
também a consciência de fatos que entram em contradição
com ideias ou interesses que não queremos que sejam
ameaçados. Fromm cita o exemplo de milhões de alemães
que alegaram “desconhecer” as atrocidades nazistas. Desta
forma, Fromm questiona, transforma e alarga o conceito
de inconsciente e é isto que lhe permite fornecer a
definição de inconsciente social acima apresentada.
Assim podemos entender o “filtro socialmente
condicionado” que possui três elementos, a saber: a
linguagem, a lógica e os tabus sociais. Algumas
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 43
experiências são facilmente percebidas pela consciência
(fome, dor etc.) enquanto que outras, como ver um “botão
de rosas” ou o “nascer do sol” são facilmente percebidas
em algumas culturas e em outras não.
A linguagem é um dos elementos do filtro
socialmente condicionado. Assim, as palavras criadas para
indicar certas experiências afetivas variam com a língua.
Além disso, sua sintaxe, sua gramática e sua etimologia
também diferem em culturas diferentes. “A totalidade da
linguagem representa uma atitude de vida, é uma
expressão congelada da vida de um certo modo”
(FROMM, 1979, p. 112). Fromm apresenta o exemplo da
primazia, em nossa cultura, do substantivo, que se refere a
uma coisa, sobre o verbo, que manifesta uma atividade,
devido ao fato de que a sociedade capitalista privilegia o
ter em detrimento do ser4.
A lógica é o segundo elemento do filtro socialmente
condicionado. Todo o pensamento se organiza a partir de
uma lógica que lhe governa. Assim como as pessoas

4
Erich Fromm dedicou seu livro Ter ou Ser (1987) exclusivamente a
esta questão e abordou ela em várias outras oportunidades (FROMM,
1976; FROMM, 1992b).
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 44
pensam que sua língua é “natural”, também pensam que
sua lógica é “natural” e “universal”. A lógica
predominante em nossa sociedade é a lógica aristotélica
também chamada de lógica formal. Mas, mesmo em nossa
sociedade, existe uma outra lógica, a paradoxal ou
dialética. A lógica formal (aristotélica) afirma o princípio
da não-contradição: A é A e não pode ser não-A. A lógica
dialética (paradoxal), ao contrário, parte do princípio da
contradição: A é A e ao mesmo tempo não-A. A lógica
formal predomina na cultura ocidental desde sua
sistematização por Aristóteles enquanto que a lógica
dialética desenvolvida por Hegel e Marx é marginalizada5.

5
Essa interpretação de Fromm a respeito da lógica e sua força na
sociedade moderna é questionável, pois interpreta as representações
cotidianas e sua semelhança com a lógica formal (aristotélica) como
predomínio de uma lógica. No fundo, o que ocorre é que Aristóteles
sistematizou, sob a forma de lógica formal, as representações
cotidianas de sua época e que mantém elementos permanentes em
épocas seguintes. As representações cotidianas se caracterizam por
realizar um processo de simplificação, naturalização e regularização
(VIANA, 2008; VIANA, 2015b) que resolve as dissonâncias mentais
e a lógica formal é sua sistematização filosófica. Outro problema
nessa abordagem de Fromm é sua interpretação da “lógica dialética”,
que é hegeliana, mas não marxista. Marx não elaborou ou
compartilhava a concepção hegeliana de lógica, pois ela, tanto
quanto a lógica formal, é abstrato-metafísica. O que poderia ser
considerado “filtro social” seria o “modo de representar cotidiano”
(VIANA, 2015b).
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 45
O terceiro elemento do filtro socialmente condicionado é
constituído pelos tabus sociais.

Embora a língua e a lógica sejam partes


do filtro social que dificulta ou
impossibilita a uma experiência passar à
consciência, a terceira parte desse filtro é
mais importante, pois não permite certos
sentimentos chegarem à consciência real e
procura expulsá-los daí, se conseguirem
segui-la. É constituída pelos tabus sociais
que declaram certas ideias e sentimentos
como impróprios, proibidos, perigosos e
que os impedem de chegar mesmo ao
nível da consciência (FROMM, 1979, p.
114).
Assim, segundo exemplo de Fromm, se o dono de
uma loja de roupas vê uma pessoa necessitada e sente o
desejo de lhe doar a roupa, ele irá recalcar este sentimento,
pois sua consciência provocaria conflitos psíquicos e seria
uma ameaça para as relações sociais mercantis.
O que provoca o recalcamento? Para Fromm é o
medo mas não se trata, como para Freud, do medo da
castração nem o de ser assassinado, preso ou de fome. É
um medo mais sutil, tal como o medo do fracasso na
competição, devido suas consequências. “Mas há uma
outra razão que me parece constituir o motivo mais
poderoso do recalque: o medo do isolamento e do
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 46
ostracismo” (FROMM, 1979, p. 119). Ele expõe sua tese
da seguinte forma:

para o homem, como homem, – ou seja,


quando transcende a natureza e tem
consciência de si e da morte – a sensação
de solidão e isolamento completos está
próxima da loucura. O homem como
homem tem medo da loucura, tal como o
animal teme a morte. Ele tem de estar
correlacionado, tem de encontrar-se em
união com os outros, para ser sadio. Essa
necessidade de conviver com os outros é a
sua paixão mais forte do que o sexo e
mais forte mesmo que o desejo de viver.
É o medo do isolamento e do ostracismo,
e não da ‘castração’, que faz com que a
consciência do tabu seja recalcada, pois
representaria ser diferente, isolado e,
portanto, sofrer ostracismo. Por esse
motivo, o indivíduo cega-se a si mesmo,
deixa de ser aquilo que seu grupo afirma
não existir, ou aceita como verdade o que
a maioria diz que é verdade, mesmo que
seus próprios olhos lhe possam convencer
de que é falso. O rebanho é tão importante
para o indivíduo que suas opiniões,
crenças e sentimentos, são para ele a
realidade, mais do que aquilo que seus
sentidos e sua razão lhe indicam. Tal
como no estado hipnótico de dissociação
a voz e as palavras do hipnotizador
tomam o lugar da realidade, assim o
padrão social constitui a realidade para a
maioria das pessoas. O que o homem
considera verdadeiros, reais e sadios são
os clichês aceitos pela sua sociedade, e o
que neles não se enquadra é excluído da
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 47
consciência, permanece inconsciente
(FROMM, 1979, p. 119-120).
O ostracismo como base da repressão pode provocar
a ideia de que a sociedade pode deformar o homem como
quiser. Mas o homem, segundo Fromm, também pertence
à humanidade. “Ser completamente inumano é
atemorizador, mesmo quanto a sociedade adota normas
inumanas de comportamento” (Fromm, 1979, p. 120). Na
proporção em que o indivíduo sente sua solidariedade com
a humanidade, a partir de seu desenvolvimento intelectual
e mental, ele pode tolerar o ostracismo social.

A capacidade de agir de acordo com a


própria consciência depende do grau em
que o homem transcendeu os limites de
sua sociedade e tornou-se cidadão do
mundo (FROMM, 1979, p. 121).
Fromm afirma que o “indivíduo comum” está
subjugado pelos padrões de sua cultura e por isso é
constrangido a recalcar os sentimentos e pensamentos
incompatíveis com eles. Assim, o que pode ser
considerado consciente ou inconsciente depende da
estrutura social e dos padrões de pensamento e
sentimentos gerados por ela. O conteúdo do inconsciente,
por sua vez, não pode ser generalizado, mas

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 48


ele sempre representa a totalidade do
homem, com todas as suas
potencialidades, para as trevas e para a
luz, encerra sempre a base para as
diferentes respostas dadas pelo homem à
indagação que a existência suscita
(FROMM, 1979, p. 121).
Fromm apresenta, assim, uma visão dual do ser
humano. Ele é “bom” e “mau”. Nas sociedades
“regressivas”, o inconsciente representa o “positivo” e nas
sociedades “progressistas” representa as “trevas”.

O conteúdo do inconsciente não é,


portanto, nem o bem nem o mal, o
racional ou o irracional – é ambos, é tudo
o que é humano. O inconsciente é a
totalidade do homem – menos aquela
parte que corresponde à sua sociedade
(FROMM, 1979, p. 121).
A partir disto Fromm passa a discutir os fatores que
influenciam o desenvolvimento de um grau maior ou
menor de “consciência do inconsciente social”. Para
Fromm, certas experiências individuais exercem uma forte
determinação neste processo. Um filho de um pai
autoritário que se rebelou contra a autoridade paterna está
mais apto para perceber as racionalizações sociais do que
a maioria, desenvolvendo, assim, uma consciência da
realidade social que para muitos permanece inconsciente.

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 49


Os indivíduos provenientes de grupos oprimidos (raciais,
religiosos, sociais) também estão mais aptos para
questionar os padrões culturais dominantes. Os indivíduos
pertencentes a uma classe explorada e sofredora também
se enquadram entre os que possuem maior possibilidade
de romper com os padrões dominantes. No entanto, nem
todos os indivíduos desta classe se tornam mais críticos e
independentes, pois sua posição social tende a tornar os
seus membros mais inseguros e tendentes a aceitar tais
padrões para superar sua insegurança. Outro obstáculo,
segundo Fromm, para a superação dos tabus sociais é a
falta de esperança na transformação social.

Se uma sociedade, ou classe social, não


tem possibilidades de utilizar suas
percepções, porque não há,
objetivamente, esperança de uma
modificação para melhor, é provável que
todos nessa sociedade se apeguem às
ficções, já que a consciência da realidade
só os faria sentirem-se pior. As
sociedades e classes decadentes são
habitualmente aquelas que mais se
apegam às ficções, já que nada têm a
ganhar com a verdade, inversamente, as
sociedades – ou classes sociais – com
perspectivas de futuro melhor oferecem
condições que tornam mais fácil a
consciência da realidade, especialmente
se esta consciência mesma pode ajudar a
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 50
realizar as modificações necessárias
(FROMM, 1979, p. 123).
Fromm acrescenta que existe uma interação
recíproca entre inconsciente individual e social e que o
último obscurece a consciência de si:

se uma pessoa numa determinada


sociedade não é capaz de ver a realidade
social, e, ao invés disso, tem a cabeça
cheia de ficções, sua capacidade de ver a
realidade individual em relação a si
mesmo, sua família, seus amigos, também
é limitada, vive num estado de
semiconsciência, pronta a receber
sugestões de todos os lados, e acredita que
as ficções sugeridas são verdades
(FROMM, 1979, p. 123).
A concepção de Fromm sobre o inconsciente social
tem o mérito de reconhecer sua constituição social, mas
tem o defeito de lhe fornecer um conteúdo igualmente
social. Por isso, qualquer teoria do inconsciente coletivo
deve ir além de Jung e Fromm. Mas antes de discutirmos a
constituição de uma teoria do inconsciente coletivo no
interior do materialismo histórico, devemos fazer uma
análise da concepção de inconsciente social em Erich
Fromm.
As principais influências no pensamento de Fromm
foram as de Freud e Marx. No entanto, nas suas últimas
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 51
obras se afastou de uma das mais importantes
contribuições de Freud, isto é, a teoria freudiana do
inconsciente, ou, mais especificamente, a do seu caráter
pulsional6. No entanto, trataremos disto adiante.
A gênese da preocupação de Fromm também se
encontra na ascensão do nazismo, mas sua posição política
aponta no sentido de um “socialismo democrático e
humanista” e por isso não caiu nos equívocos de Jung. O
seu conhecimento da obra de Marx e da antropologia
cultural lhe permitiu superar o reducionismo que
geralmente se vê nos psicanalistas.
No entanto, Fromm acaba centralizando sua análise
na repressão cultural e não no recalcamento psíquico, que
são coisas distintas. Assim, a língua, a “lógica” e os tabus
sociais efetivam uma repressão cultural, mas não – na
maioria dos casos – um recalcamento psíquico. A “lógica
formal” (o modo de representar cotidiano), por exemplo,
enquanto elemento regulador do pensamento pode impedir

6
Freud trabalha com uma concepção pulsional ou instintual porque
concebe os fenômenos psíquicos como “energéticos” (ASSOUN,
1983). Marcuse critica Fromm e os neofreudianos justamente por
transferir a ênfase do nível biológico para o cultural (MARCUSE,
1988).
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 52
a emergência de certas ideias enquanto que o desejo
sexual reprimido provoca um recalcamento psíquico,
sendo que o primeiro cria uma limitação no
desenvolvimento da consciência que pode ser removida
por outra “lógica” (ou seja, basta um “esclarecimento” ou
desenvolvimento do “modo de representar”)7 enquanto
que o segundo não pode vir à consciência através de mera
informação, pois neste caso existe a resistência, tal como
coloca Freud, e esta, uma vez superada, pode criar outros
conflitos, o que significa que é bem mais complexa.
Desta forma, a concepção de Fromm sobre
inconsciente social tem algumas vantagens sobre a de
Jung, mas, no entanto, apresenta também algumas
desvantagens. Tal como no caso de Jung, ambos devem
ser repensados a luz do materialismo histórico,
aproveitando seus momentos de verdade e descartando

7
Cabe colocar aqui que tanto a lógica formal quanto a dita “lógica
dialética” (paradoxal) são metafísicas e produtos da sociedade
capitalista. Ambas são hipóstases e somente uma lógica concreta
pode superar as limitações produzidas por elas. Marx não elaborou
nenhuma lógica dialética, tal como esta nos é apresentada, sendo que
esta é produto das concepções de seus epígonos. No entanto, Fromm
trata mais de um determinado “modo de representar” do que de
lógica, ou seja, das representações cotidianas e não do pensamento
complexo ou, mais especificamente, da filosofia.
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 53
seus momentos de falsidade. Este é o nosso objetivo nos
próximos capítulos.

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 54


A Concepção Materialista do
Inconsciente

As diversas tentativas de síntese entre marxismo e


psicanálise, com exceção de Fromm, nunca abordaram a
questão do inconsciente coletivo. Aliás, as concepções
freudo-marxistas pouco desenvolveram a ideia de
inconsciente individual. Alguns (REICH, 1973;
MARCUSE, 1988) apenas reproduziram a definição
freudiana do inconsciente, enquanto outros lhe retiraram o
significado pulsional, enviando-o para o domínio cultural.
Tanto em um caso quanto em outro, não houve
nenhuma avanço nem para a psicanálise nem para o
marxismo. A elaboração de uma teoria marxista do
inconsciente é condição de possibilidade de uma teoria
materialista do inconsciente coletivo. No entanto, uma
teoria materialista do inconsciente só pode ser constituída
a partir da teoria marxista da natureza humana e não pela
justaposição entre a concepção freudiana de natureza
humana e a concepção materialista da história.
A natureza humana, na concepção marxista, é
composta por um conjunto de necessidades-
potencialidades. Tais necessidades-potencialidades
expressam um conjunto de forças físicas e mentais dos
seres humanos. Além das necessidades primárias
apontadas por Marx (comer, beber, dormir, amar etc.)
existem as necessidades que são produtos histórico-
sociais. Segundo Marx, os seres humanos, para
satisfazerem suas necessidades primárias, precisam
trabalhar e se relacionar, sendo que tais atividades se
tornam novas necessidades. Estas, mesmo sendo produtos
histórico-sociais, são absorvidas pela mente humana e
tornam-se parte do processo de humanização, ou seja, são
elementos constitutivos da natureza humana a partir da
transição da animalidade para a humanidade1.

1
A transição da animalidade para a humanidade é o processo de
humanização. Alguns pensadores (LÉVI-STRAUSS; 1982) julgam
que houve um “salto”, que significou a passagem da “natureza” à
“cultura” e o próprio Freud defende esta tese quando trata do
“assassinato do pai” na “horda primeva” que, devido ao sentimento
de culpa derivado deste ato, instauraria o “tabu do incesto”, a cultura
(FREUD, 1974). Essas teses são apenas ficções que cobrem o vazio
de material informativo histórico sobre o processo de humanização e
nisto a ciência se assemelha à religião, pois tudo que não possui
material informativo e explicação é substituído pela “criação” súbita,
a partir de uma ruptura ou uma explosão. É assim que nos explicam a
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 56
Assim, a natureza humana é composta por uma
totalidade de necessidades-potencialidades que inclui tanto
o que o freudismo delimitou (sem, obviamente, suas
ficções, tais como a do “Complexo de Édipo”, entre
outras) como vai muito além, incluindo diversos outros
elementos, tais como o trabalho como objetivação ou
práxis e a socialidade2. O trabalho como objetivação é
toda atividade humana no qual o ser humano se exterioriza
e se realiza, sendo teleológico, ou seja, possuindo uma
finalidade antes de sua execução. Este trabalho teleológico
consciente, ou práxis, realiza, ao lado da socialidade, o
processo de humanização do mundo.

“origem do universo” e a “origem da cultura”. Segundo a mitologia


grega, a cultura foi doada aos homens pelos deuses, através da ação
de Prometeu e, segundo alguns ideólogos, se deve a um “salto”. Ora,
a tese da origem do universo pelo Big Bang ou da cultura devido ao
“tabu do incesto” são meras especulações. Se existisse no mundo
animal, de forma universal ou majoritária, relações incestuosas, seria
sensato pensar que é a cultura que instaura o “tabu do incesto”, mas
não é isto que ocorre e mesmo no reino da animalidade (e isto pode
ser estendido à pré-humanidade) não existe incesto e, por
conseguinte, não foi tal tabu que gerou o processo de humanização.
Somente na fantasia se poderia pensar que o processo de
humanização ocorreu de um só “golpe”, sendo um “salto”, pois o
mais provável é que tal processo durou um longo período, talvez
séculos, ao invés de pensar que a “natureza” se transformou em
“cultura” do dia para a noite.
2
O termo “socialidade” significa associação, o vínculo de um ser
humano com os demais no interior de uma sociedade.
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 57
A socialidade é uma necessidade humana devido ao
fato do ser humano ter a necessidade psíquica de viver
socialmente. Isto foi apontado por Fromm, tal como
colocamos anteriormente, como “medo de isolamento e
ostracismo”. O ser humano é um ser social, não só por
somente existir em sociedade e ser formado socialmente,
mas por necessitar das relações sociais, da associação com
os demais seres humanos, sendo uma necessidade psíquica
(outros diriam: “existencial”).
O que seria, neste contexto, o inconsciente? Ele seria
o locus das necessidades-potencialidades reprimidas, o
que significa uma ampliação da concepção freudiana
(juntamente com a exclusão dos aspectos fictícios
presentes nela). Para Freud, o que é reprimido são os
“instintos” (principalmente os sexuais). No entanto, o
processo de transição da animalidade para a humanidade,
processo longo e penoso, significou um abrandamento da
força dos instintos e sua suplantação por necessidades-
potencialidades. Um instinto é uma programação vital que
comanda as ações dos seres vivos, o que significa a
ausência de decisão e escolha, enquanto que uma
necessidade-potencialidade é um impulso que se encontra
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 58
subordinado à dinâmica do universo psíquico, coordenado
pela consciência e constituído socialmente.
A compreensão do universo psíquico, nesta
perspectiva, se torna radicalmente diferente. Para uma
concepção materialista não há separação entre corpo e
mente3 e com isso os processos mentais deixam de ser
compreendidos como apenas processos conscientes para
abranger um conjunto bem mais amplo de fenômenos.
Além dos processos conscientes (razão, valores etc.), os
processos psíquicos complexos4 incluem o conjunto de
exigências somáticas e psíquicas que se concentram no seu
interior.
Desta forma, a concepção psicanalítica que melhor
contribui com esta perspectiva é a de Jung. Isto é
aparentemente contraditório, mas esta aparente

3
O pensamento ocidental, desde Platão e Aristóteles, passando pelo
cristianismo e pelas ideologias burguesas, se fundamentam numa
separação entre corpo e mente, que contemporaneamente se
manifestam nas “ideologias do cérebro” (VIANA, 2010) que
simplesmente, além de falsas, estão intimamente ligadas aos
interesses de dominação de classe.
4
Processos psíquicos complexos diferem dos processos psíquicos
simples, sendo que estes últimos são compostos pelos reflexos,
sentidos, sensações enquanto que os outros estão ligados à razão, aos
valores, sentimentos, inconsciente, etc.
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 59
contradição se desfaz quando acrescentamos que a
contribuição de Jung se limita à sua definição de libido.
Recordemos a concepção de libido em Jung.

A libido manifesta-se como um contínuo


impulso vital, que mantém tanto a
preservação do indivíduo como, através
dela, a criação e continuação das espécies.
A libido tem que ser relacionada a todo
desejo. É ‘vontade’. Por isso, a libido não
pode ser corretamente caracterizada pelos
traços de qualquer instinto determinado,
pelo contrário, é subjacente a todos eles
(MULLAHY, 1986, p. 160)5.
Segundo Mullahy, Jung modificou sua definição de
libido, tornando-a equivalente a “energia indiferenciada”
(concepção que apresentamos anteriormente).

Nesse sentido, o significado de energia


libidinal ou psíquica é análogo ao
significado de energia em física, a qual
pode considerar-se como suscetível de
manifestação sob várias formas:
potencial, cinética etc. devido a
modificação evolucionária, a libido, que
era originalmente e em grande parte de
caráter primordialmente sexual, torna-se
dessexualizada. Assim, a libido
manifesta-se em diversas atividades e
formas – na nutrição, no jogo, no
sentimento sexual e no amor, etc. Para

5
A palavra “vontade” aparece entre aspas por não ser tratar de
vontade no sentido consciente e racional.
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 60
Jung, o valor real da teoria da libido
assenta não em sua definição sexual, mas
na concepção ‘enérgica’ que se lhe
empreste. Diz Jung, ‘devemos à
concepção enérgica a possibilidade de
ideias e relações dinâmicas, que são de
valor inestimável para nós, no caos da
vida psíquica’. Por outras palavras, os
‘processos de energia’ psíquica são
processos de vida (MULLAHY, 1986, p.
161).
Assim, a concepção energética permite compreender
a dinâmica dos processos psíquicos complexos e a unidade
entre mente e corpo numa concepção marxista. Aqui
também temos uma ruptura tanto com o mecanicismo
quando com o biologismo. A concepção de Freud, sem
dúvida, também tem um caráter energético (ASSOUN,
1983), mas sua redução da energia psíquica aos instintos é
limitada.
A concepção de Jung também tem o mérito de
compreender que no universo psíquico existe uma
totalidade de manifestações, que é a totalidade da natureza
humana, o que corresponde à concepção marxista do
conjunto de necessidades-potencialidades que a

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 61


constituem6. Outra contribuição de Jung, assimilável pelo
marxismo, reside em sua análise do desenvolvimento
unilateral do indivíduo na sociedade moderna e da
necessidade de desenvolvimento onilateral. Essa posição
coincide com a de Marx, pois este critica a divisão social
do trabalho e propõe sua abolição para que em lugar do
indivíduo submetido à especialização surja um ser humano
onilateral7.
Assim, o inconsciente é o locus das necessidades-
potencialidades humanas reprimidas. A emergência das
sociedades de classes produz um processo de repressão
dos indivíduos. A divisão social do trabalho produz uma
limitação intransponível ao desenvolvimento pleno dos
indivíduos. Em todas as sociedades classistas existe uma
divisão social do trabalho fundamental que gera todas as
outras formas de divisão social do trabalho. Trata-se das
relações de produção dominantes, que institui as duas
6
A semelhança ou correspondência entre a concepção de Jung e Marx
se manifesta no fato de que, para ambos, o universo psíquico (a
“essência humana” em Marx) é constituído por uma totalidade de
manifestações. A diferença, por sua vez, reside na concepção de
quais são os componentes desta totalidade.
7
Esta concepção de Marx pode ser vista nos Manuscritos de 1844
(MARX, 1983) ou em alguns analistas de suas obras (FROMM,
1988; MANACORDA, 1991; VIANA, 2008).
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 62
classes sociais fundamentais de uma sociedade, sendo uma
relação de classes (VIANA, 2007a).
No capitalismo, as relações de produção dominantes
são relações entre a classe capitalista e p proletariado, na
qual há a produção de mais-valor pelo último e sua
apropriação pela primeira, que constitui a forma específica
de exploração capitalista. Esta divisão social do trabalho
fundamental determina as demais formas de divisão social
do trabalho, pois é ela que vai gerar não só a classe
capitalista e a classe proletária como também as suas
divisões internas (capital industrial, comercial, agrário,
financeiro, etc.; proletário industrial, da construção civil,
agrícola, etc.), as demais classes sociais (burocracia,
campesinato, intelectualidade, latifundiários,
lumpemproletariado, etc.), bem como as categorias
profissionais e um amplo processo de especialização do
trabalho intelectual e manual. Outras formas de divisão
social do trabalho (expressa também em sua divisão
espacial), tal como a divisão entre cidade e campo (que
cria, segundo Marx, animais limitados no campo e animais
limitados na cidade) e a divisão do espaço urbano, são
oriundas do modo de produção capitalista.
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 63
Neste tipo de sociedade, o indivíduo está
impossibilitado de um desenvolvimento pleno de suas
necessidades-potencialidades. Além disso, o processo de
exploração realizado no processo de produção e as
necessidades da dominação de classe provocam um
processo intensivo de controle e repressão social. O
trabalho, no capitalismo, é alienado, ou seja, caracterizado
pela direção do não-trabalhador sobre o trabalhador8. O
trabalho alienado gera um conjunto de consequências para
o trabalhador, entre os quais o estranhamento, a
insatisfação, empobrecimento psíquico e material, etc.
Segundo Marx,

quanto mais o trabalhador se desgasta no


trabalho tanto mais poderoso se torna o
mundo dos objetos por ele criado em face
dele mesmo, tanto mais pobre se torna a

8
O conceito de trabalho alienado remete a esse processo de controle.
Trata-se do controle da atividade em si, do processo de trabalho, que,
por sua vez, gera o controle do produto. A alienação do trabalho gera
a alienação do produto. Uma vez que o trabalho é controlado por
outro que não o trabalhador, então este se torna alheio, bem como o
produto. A alienação gera o alheamento (VIANA, 2012). A
consequência desse processo é o estranhamento, a insatisfação, a
infelicidade. Isso nada tem a ver com as intepretações ideológicas e
deformadoras do conceito de alienação, geralmente de caráter
idealista (que confunde alienação com uma de suas consequências, o
estranhamento), e que agora até deforma traduções para poder se
impor e aparecer como verdadeiro.
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 64
sua vida interior, e tanto menos ele
pertence a si mesmo (MARX, 1983, p.
91).
Assim,

o trabalho humano produz maravilhas


para os ricos, mas produz privação para o
trabalhador. Ele produz palácios, porém
choupanas é o que toca ao trabalhador.
Ele produz beleza, porém para o
trabalhador só fealdade. Ele substitui o
trabalho humano por máquinas, mas atira
alguns dos trabalhadores a um gênero
bárbaro de trabalho e converte outros em
máquinas. Ele produz inteligência, porém
também estupidez e cretinice para os
trabalhadores (MARX, 1983, p. 92).
O trabalho alienado é negação da práxis (trabalho
como objetivação), sendo algo externo ao trabalhador e
compulsório, pois “não faz parte de sua natureza”. Isso
significa que o trabalho alienado é negação da natureza
humana. A práxis permite a autorrealização do ser
humano, a manifestação da totalidade de suas
necessidades-potencialidades. A alienação impede esse
processo de autorrealização. Daí o trabalhador

não se realizar em seu trabalho mas negar


a si mesmo, ter um sentimento de
sofrimento em vez de bem-estar, não
desenvolver livremente suas energias
mentais e físicas mas ficar fisicamente

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 65


exausto e mentalmente deprimido
(MARX, 1983, p. 93).
Marx expressa o estranhamento e sofrimento
gerados pelo trabalho alienado:

essa é a relação do trabalhador com sua


própria atividade humana como algo
estranho e não pertencente a ele mesmo,
atividade como sofrimento (passividade),
vigor como impotência, criação com
emasculação, a energia física e mental
pessoal do trabalhador, sua vida pessoal
(pois o que é a vida senão atividade?)
como uma atividade voltada contra ele
mesmo, independente dele e não
pertencente a ele (MARX, 1983, p. 94).
A alienação surge no processo de trabalho capitalista
(que é processo de produção de mais-valor) e se generaliza
para o conjunto das relações sociais, provocando
sofrimento e insatisfação geral. Isto atinge a todos os
indivíduos na sociedade capitalista, pois a alienação
existente no plano do trabalho produtivo se generaliza para
toda a sociedade9, sendo que existe variação apenas na sua
extensão e grau de intensidade.

9
A burocratização das relações sociais mostra esse processo de
alienação além do trabalho produtivo. Obviamente que nem todos
são atingidos da mesma forma e intensidade e nem todos estão
submetidos à alienação, pois a burguesia e a burocracia escapam
desse processo em sua forma mais pura, embora, de certa forma,
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 66
Além disso, a manutenção da dominação de classe
precisa realizar um intensivo controle sobre a sociedade
para prevenir ou impedir um processo revolucionário ou
garantir a continuidade e aumento da exploração e também
a estabilidade social e manutenção do poder. Assim, o
capitalismo institui uma determinada estrutura familiar,
uma forma de controle da produção cultural e um conjunto
de relações sociais fundadas na competição,
burocratização e mercantilização, que exerce uma ampla
coerção sobre os indivíduos, constrangendo-os a gastarem
suas energias em atividades unilaterais em detrimento de
outras necessidades-potencialidades. Alguns exemplos
podem esclarecer isso: dedicação exclusiva ao trabalho
intelectual em detrimento do desenvolvimento físico;
dedicação intensiva do trabalho intelectual em detrimento
da vida sentimental; dedicação diária ao cuidado com a
beleza ou aparência física em detrimento do
aperfeiçoamento intelectual etc.

ficam submetidos a um certo grau de controle (especialmente a


burocracia e em seus extratos mais baixos da hierarquia). No entanto,
a alienação é apenas um dos diversos motivos de sofrimento
psíquico, pois a especialização, para citar apenas um exemplo, é
outro.
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 67
O controle burocrático das instituições (fábricas,
lojas, escolas, igrejas, partidos, etc.), a necessidade de
competição social no trabalho, escola, lazer, esportes etc. e
a mercantilização que transforma a aquisição de bens
materiais, o consumo e o ter em valores fundamentais (e
os meios para sua satisfação, incluindo a submissão ao
trabalho alienado e burocracia), são outras fontes de
repressão e recalcamento.
Assim, o indivíduo na sociedade capitalista
geralmente realiza um desenvolvimento unilateral
enquanto sua plena realização exige a onilateralidade.
Alguns indivíduos conseguem um desenvolvimento maior
(“bilateral”, ou, em casos mais raros, “multilateral”), mas
são exceções. A repressão tem um caráter quantitativo
(que se refere à quantidade de necessidades-
potencialidades reprimidas) e um caráter qualitativo (que
se refere à intensidade com a qual uma necessidade-
potencialidade é reprimida).
Este processo de repressão social produz o
recalcamento, o que significa que as necessidades-
potencialidades são expulsas da consciência, mas não do
universo psíquico, pois ela se torna uma energia represada
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 68
que tenta se manifestar a todo custo. Tal energia represada
é o inconsciente. Freud teve o mérito de identificar as
formas de manifestação do inconsciente: através dos
sonhos, chistes, fantasias, atos falhos. Mas, mesmo quando
se manifesta, ele entra em confronto com a consciência, o
que significa que ele nunca se manifesta livremente, pois,
se assim fosse, ele se tornaria consciente. O inconsciente,
por exemplo, se manifesta nos sonhos, mas ainda enfrenta
a censura da consciência, que, apesar de enfraquecida pelo
sono, ainda atua. É por isso que os sonhos são como uma
representação simbólica da realidade psíquica, escondendo
e revelando simultaneamente o inconsciente através do
símbolo.
Em alguns casos, o inconsciente se torna consciente
e caso não seja concretizado, ou seja, a energia represada
seja liberada com sua manifestação concreta, ele gera
determinados mecanismos de defesa, tal como a
razoabilização10, ou seja, tornar razoável, justificando

10
Ernst Jones usou “racionalização” e Freud retomou este termo em
alguns casos raros e Anna Freud (1982) desenvolveu o seu uso,
algumas vezes traduzido como “intelectualização”. No entanto, este
termo acaba gerando confusão com o outro sentido da palavra, como
o significado atribuído por Max Weber (1987), entre outros. Por isso
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 69
através de argumentos racionais, ações ou ideias
percebidas como despropositadas. Um tratado teórico
sobre as necessidades humanas pode trazer à tona a
consciência de certos leitores de algumas delas que não
são concretizadas. O resultado disso é a tentativa de sua
realização, que, caso existam forças externas atuando,
significa a substituição do recalcamento pela consciência
da repressão. No entanto, a mente humana não suporta
essa situação de insatisfação e isso gera outros processos
psíquicos derivados, inclusive a possibilidade do retorno
do recalcamento e deslocamento.
Aqui se revela uma concepção do inconsciente que
se diferencia das concepções de Freud, Jung e Fromm. A
diferença remete a um conjunto de elementos. No entanto,
cabe aqui destacar uma diferença que é fundamental. No
caso de Freud, trata-se principalmente da concepção
expressa na última fase do seu pensamento, no qual ele
postulou a existência de um “instinto de morte”. No caso
de Fromm e Jung, tal diferença fundamental está na defesa
da tese, defendida por ambos, sob formas diferentes, da

o uso de razoabilização ao invés de racionalização, para distinguir o


significado psicanalítico do significado social ou “sociológico”.
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 70
existência de “luzes e trevas” no inconsciente e que no ser
humano reside o bem e o mal.
Assim, estas posições apresentam uma concepção
dual da natureza humana que tem como fundamento uma
concepção metafísica do ser humano provocada pelo
espanto diante do retorno da barbárie na “civilização”.
Todos os três psicanalistas foram afetados mentalmente
pela eclosão de uma guerra mundial (a primeira, no caso
de Freud, e a segunda, no caso de Fromm e Jung, que
ainda presenciaram o horror da ascensão do nazismo).
Freud defendia a tese de que o ser humano possuía
instintos sexuais e de autoconservação. Já num estágio
avançado de sua concepção postulou a existência do
instinto de morte. O que provocou a nova “descoberta” de
Freud? Foi a experiência da Primeira Guerra Mundial que
fez Freud criar sua tese do instinto de morte (FREUD,
1970). Aliás, a psicanálise como um todo foi atingida pela
guerra. Freud queria fornecer uma explicação para o
assassínio coletivo realizado no interior de uma sociedade
“civilizada” e desenvolvida tanto do ponto de vista moral
quanto intelectual. A conclusão que ele chegou foi a de
que existe no indivíduo civilizado um indivíduo primitivo
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 71
e assassino, que só não se revela devido a moral e a
educação, isto é, devido à repressão. Desta forma, o
instinto de morte, assim como os demais instintos
reprimidos, está presente no inconsciente.
Esta tese de Freud foi relegada ao esquecimento até
mesmo pelos “freudianos ortodoxos” e, quando foi
recordada e defendida pela psicanalista Melanie Klein, foi
novamente rejeitada (SEGAL, 1983)11. Mas Fromm e
Jung também defenderam a dualidade da natureza
humana, na qual existiria o bem e o mal. No entanto, eles
não postularam a tese da existência de um instinto de
morte. Jung nos remete ao aspecto sombrio da psique

11
Hanna Segal cita a polêmica entre Klein e os demais psicanalistas
da Sociedade Britânica de Psicanálise: “Os dois lados envolvidos na
controvérsia citaram Freud repetidamente, mas as citações eram
diferentes. Poder-se-ia indagar: Qual Freud? O Freud de quem?
Rivière comenta que os opositores de Klein eram propensos a referir-
se às primeiras obras de Freud, enquanto que ela e seus
colaboradores se referiam mais frequentemente às obras mais
recentes. Isso é particularmente claro em relação ao instinto de
morte. Os ‘freudianos’ afirmaram que a teoria do instinto de morte
era, como assinalou um dos contendores, ‘uma teoria puramente
biológica em que concepções psicológicas não têm, até agora, lugar’;
mas os kleinianos citaram trabalhos como ‘The Economic Problem
of Masochism’ [O Problema Econômico do Masoquismo] (1924) e
‘Negation’ [Negação] (1925) e referiam-se às opiniões de Freud de
que o masoquismo e a depressão suicida derivam diretamente do
instinto de morte” (SEGAL, 1983, p. 83).
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 72
humana oriunda da herança do inconsciente coletivo, que
revive experiências das sociedades arcaicas. Fromm
postula que existe, na natureza humana, duas
potencialidades, a primária e a secundária (FROMM,
1965). Quando a potencialidade primária não se manifesta
emerge a potencialidade secundária.

Em sua obra O Coração do Homem,


baseando-se em considerações anteriores,
distingue entre agressividade benigna, a
que direta ou indiretamente está a serviço
da vida, e outras formas malignas de
agressividade, ‘que caracteriza o
impotente e o débil, o que é incapaz de
criar e viver autonomamente (LA
FUENTE, 1989, p. 51).
É por isso que Fromm pode conceber “luz e trevas”
no inconsciente. No entanto, a concepção de Fromm
possui alguns problemas. A “incapacidade de criar e viver
autonomamente” não é uma “potencialidade secundária”
da natureza humana e sim um efeito da repressão dela, ou
seja, a “existência malograda”, para utilizar linguagem
existencialista de Binswanger (1977), é um produto social.
Assim como é insustentável a existência de um instinto de
morte ou de um metafísico inconsciente coletivo
carregado de “trevas”, também é indefensável a tese de

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 73


uma potencialidade secundária da natureza humana. Todas
estas posições naturalizam a suposta “maldade humana”,
sendo que a solução pode ser a “repressão” (Freud), o
apelo ao “irracionalismo”, seja o da religião ou qualquer
outro (Jung), ou a defesa de desenvolvimento das
potencialidades primárias (Fromm), o que apresenta um
nítido caráter conservador nas duas primeiras abordagens.
A tese de Fromm segundo a qual o inconsciente é
tudo que é reprimido pela sociedade também não se
sustenta, tal como a tese dos instintos de Freud ou dos
arquétipos de Jung. O inconsciente não pode ser
compreendido como tudo que é reprimido. A razão disso é
que o universo psíquico é mais complexo do que pensa
Fromm. O recalcamento de uma potencialidade humana,
por exemplo, a sexualidade, pode gerar desequilíbrios
psíquicos no universo mental do indivíduo, tal como o
feiticismo 12 ou a neurose. O feiticismo e a neurose, por sua

12
A tradução comum é “fetichismo”. Embora exista certa relação
entre o conceito marxista de fetichismo (usado por Marx para
analisar a mercadoria) e o conceito freudiano, também existem
diferenças. No fundo, existem mais diferenças que semelhanças e
por isso são dois conceitos distintos. No sentido psicanalítico, que foi
atribuído por Freud, feiticismo significa a transformação de objetos
ou outros elementos (roupas, partes do corpo humano) em “objetos
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 74
vez, geram comportamentos não aceitos socialmente e, por
isso, são reprimidos.
O indivíduo, nesses casos, tende a recalcar o que foi
reprimido e, assim, gera um novo recalcamento. Isso, por
sua vez, gera ainda mais desequilíbrio psíquico. A
tendência, nesse caso, é gerar ainda mais repressão e
recalcamento, aumento o número de elementos reprimidos
e recalcados. O feiticismo e a agressividade ligada à
neurose são objetos de repressão e recalcamento e assim
ocorre uma mais-repressão no caso dos indivíduos nessa
situação. Em síntese, a sombra e a persona (conceitos que
serão discutidos adiante) também podem ser reprimidas e
isso gera uma mais-repressão.
Esses aspectos reprimidos podem ser considerados
parte do “inconsciente”? Obviamente que não, pois o
inconsciente é energia represada que tem sua origem nas
necessidades e potencialidade humanas e isso exclui os
processos derivados. A sociedade não reprime apenas o

de desejo” e fetichismo, no sentido marxista, o processo que ocorre


na consciência que é o de não perceber a constituição histórica e
determinações de um ser, como se ele fosse autônomo ou tivesse
vida própria. Usamos a termo feiticismo para não confundir o
significado psicanalítico com o marxista.
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 75
que é bom, nem apenas o que é ruim. Ela reprime tanto
coisas construtivas quanto destrutivas, dependendo das
relações sociais concretas existentes. A agressividade
neurótica é algo que deve ser realmente reprimida, bem
como diversos outros comportamentos13. A compreensão
disto ficará mais fácil quando tratarmos da persona e da
sombra, no próximo capítulo.
A tese dos instintos de Freud possui um momento de
verdade, que é a existência de necessidades orgânicas. No
entanto, essas necessidades orgânicas (ou “instintos”) são
abrandadas no ser humano e isso está ausente em sua tese,
bem como sua redução da determinação do universo
mental a alguns poucos instintos e deixando de lado o que
é especificamente humano.
A tese dos arquétipos, de Jung, é a mais frágil de
todas e seu caráter metafísico e semirreligioso é por
demais evidente para termos que refutá-lo. É
13
Obviamente que se uma determinada sociedade reprime todas as
manifestações de energia destrutiva, sem a possibilidade de
transbordamento da energia construtiva, cria um risco de seu
crescimento ao invés de sua limitação. Assim, a censura para
manifestações humorísticas (como no caso do politicamente correto)
ou jogos violentos de videogame, ao invés de proporcionarem uma
situação social mais equilibrada, tende é fortalecer a sombra coletiva,
tal como mostraremos adiante.
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 76
simplesmente uma ficção sem base real. O inconsciente
não é composto por arquétipos (nem apenas por instintos
ou por “tudo que é reprimido”), e sim por energia
represada que são as necessidades-potencialidades
humanas recalcadas.
Desta forma, o primeiro passo foi dado com o
conceito de inconsciente aqui apresentado. Para chegar ao
inconsciente coletivo, no entanto, é preciso ainda avançar
mais na análise do universo psíquico.

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 77


Inconsciente, Sombra e
Persona

A partir das reflexões anteriores fica evidente a


necessidade de apresentar uma concepção adequada de
inconsciente e dos “aspectos sombrios” do universo
psíquico para se constituir, posteriormente, uma teoria do
inconsciente coletivo. Se, tal como colocamos
anteriormente, o inconsciente é constituído pelas
necessidades-potencialidades humanas reprimidas e
recalcadas, sendo “energia represada”, então resta apenas
explicar o “lado sombrio” do universo psíquico.
É possível duvidar da existência de um “lado
sombrio”. Basta retomar a ideia do ser humano “bom por
natureza”, de Rousseau (1989), para percebermos a
possibilidade deste questionamento. Sem dúvida,
Rousseau tem razão, mas apenas parcialmente. O ser
humano, mesmo o primitivo ou em “estado de natureza”,
não é somente “bom”, para usar linguagem semirreligiosa.
As guerras, que impactaram tanto Freud, Jung e
Fromm, os assassinatos, a destruição em massa, a
crueldade, que alguns seres humanos manifestam na
sociedade moderna, é suficiente para entendermos que
existe realmente um lado “sombrio”. Porém, não foi a
civilização que gerou isso, como pensa Rousseau. No
fundo, o ser humano, no suposto “estado de natureza”, já
realizava a guerra, praticava o canibalismo, cometia
infanticídio. Mesmo se regressarmos antes das sociedades
simples, ou seja, antes da passagem da animalidade para a
humanidade, os seres humanos não só entravam em
confronto com os outros animais, como com os demais de
sua espécie. Então é preciso explicar esse processo e não
supor que os seres humanos são bons por natureza.
A explicação deste lado “sombrio” não pode ser
fornecida nem se apelando para uma linguagem
semirreligiosa (o “bem” e o “mal”) tal como fazem Jung e
Fromm, nem apelando para os instintos, tal como faz
Freud. É necessário que a psicanálise se desvencilhe da
religião e da biologia.
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 80
A linguagem semirreligiosa de Fromm e Jung
apenas revela a incapacidade de superar o misticismo e
fornecer uma verdadeira explicação dos problemas
humanos. A discussão sobre se o ser humano é “bom” ou
“mau” é mística, pois tais termos revelam entidades
misteriosas que seriam da essência dos seres, sendo uma
tradução entre a divisão, também mística, entre o “bem” e
o “mal”. Assim, os seres humanos não seriam explicados
por suas necessidades-potencialidades e as relações sociais
nos quais estas se desenvolvem ou não e sim por uma
misteriosa entidade, para uns, o “bem”, para outros, o
“mal” (ou por ambas, tal como para Fromm e Jung).
Isto produz limites a uma análise do ser humano,
pois tais construtos nos colocam no interior de uma
ideologia que não pode trazer nenhuma solução a não ser
optar por uma ou outra alternativa ou por mesclá-las.
A ideia de maldade é de origem religiosa. O mal,
assim como o bem, é inexplicável, pois tem uma origem
inumana e misteriosa1. O bem e o mal são entidades que

1
Aqui se revela um processo psíquico que é uma forma de
razoabilização: a comutação, na qual se transfere para algo externo
aquilo que é interno. Ao dizer que alguém está “possuído” pelo
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 81
agem através do indivíduo e o ser humano é apresentado
por diversas ideologias como sendo a manifestação de um
ou de outro, ou de ambos. Sartre, tratando do
antissemitismo, abordou a falta de liberdade presente no
mal:

estranha liberdade que, em vez de


preceder e constituir a essência, lhe
permanece inteiramente submetida, que
não passa de uma qualidade irracional e
continua sendo, não obstante, liberdade.
Só há uma criatura, que eu conheça, tão
absolutamente livre e acorrentada ao Mal:
é o próprio espírito do Mal, é Satã
(SARTRE, 1960, p. 26).
Os deuses são representantes do bem e os demônios
são representantes do mal. Deus é amor e o diabo é o mal.
Eles são seres destituídos de liberdade e vontade, o que
significa que possuem uma única determinação misteriosa:
a sua essência benigna ou maligna. Na verdade, os deuses
e demônios são projeções dos atos e sentimentos humanos
em seres imaginários, que, uma vez constituídos, passam a
“explicar” tais atos e sentimentos, numa inversão da

demônio ou dizer que está sendo “tentado” por ele, apenas se


responsabiliza um outro imaginário por aquilo que é próprio do
indivíduo que o faz. A comutação religiosa, em Jung e Fromm, se
torna metafísica.
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 82
realidade, que, curiosamente, é reproduzida por alguns
psicanalistas, bem como por diversos cientistas que se
julgam “ateus”, “materialistas”, “agnósticos” e coisas do
gênero.
Olhando o mundo animal é possível entender melhor
esse processo. Um tigre tem, como todos os animais,
necessidade de alimentação e outros animais são os
alimentos que ele procura. Quando um tigre ataca e devora
uma presa, ele não está sendo nem bom, nem mau. Está
satisfazendo suas necessidades. Os seres humanos, quando
matam animais para se alimentar, também se encontram
na mesma situação. Mas muitas espécies animais possuem
confrontos entre si, tal como os seres humanos. Nesse
processo, o que ocorre é a busca de satisfação de
necessidades e confronto por ter poucos recursos para
satisfazer a todos.
Assim, o bem e o mal, ou o bom e o mau, são
atribuições que os seres humanos oferecem aos seres,
comportamentos, ideias, etc. Se um ser humano matar
outro é visto negativamente, será chamado de maldade. É
a moral e a ética que estabelecem essas divisões. A
religião teve um papel fundamental no estabelecimento
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 83
dessas oposições com a emergência da moral religiosa e
por isso teve um papel positivo no processo de
humanização, apesar de suas contradições e
desdobramentos negativos. Porém, a religião gerou uma
moral não racional, fundada em um processo de origem
mítica, marcada pela personificação do que é condenado e
do que é adotado. As superstições acrescentadas criaram
outros problemas.
Tradicionalmente, o positivo e o negativo passaram
a ser entendidos como bem e mal e essencializados. No
entanto, no processo de humanização e avanço da
consciência humana, a possibilidade de superação dessa
dicotomia abstrata e essencialista, em todas as suas
formas, começou a se tornar possível. Um filósofo do
século 19 avançou no processo de compreensão do “lado
sombrio” dos seres humanos. A tese maniqueísta começa a
ser superada. A existência de atos e/ou sentimentos
“maldosos” dos seres humanos provocam tal tese, mas,
como já colocava Schopenhauer, a “maldade humana”
deve ser procurada na “miséria da existência humana”
(SCHOPENHAUER, 1980). Segundo ele:

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 84


portanto, no coração de cada um repousa
efetivamente um animal selvagem, apenas
à espera de uma oportunidade para bramir
com fúria e devastação, na pretensão de
prejudicar outros e a si mesmo, quando se
lhe opõem, de aniquilá-los; daqui se
origina todo o prazer guerreiro e
combatente, e justamente isto, para ser
domado e mantido em determinados
limites, requer a ocupação integral do
conhecimento, seu zeloso acompanhante.
(...). Eu, porém, afirmo: é o querer-viver,
que, amargurado mais e mais pelo
contínuo sofrimento da existência,
procura aliviar seu próprio padecimento
causando o dos outros
(SCHOPENHAUER, 1980, p. 198).
O inconsciente, entendido como energia represada,
gera, quando acumulada em excesso, dois fenômenos
distintos. Por um lado, gera a energia construtiva, o que
Freud denominou sublimação e Adler chamou
compensação. A energia construtiva produz um
desenvolvimento (ou melhor, superdesenvolvimento) de
alguma necessidade-potencialidade humana e é por isso
que Jung afirma que a especialização pode produzir
“grandes êxitos”. Por outro lado, a energia destrutiva, que
pode tanto se voltar para o interior gerando os
desequilíbrios psíquicos (neurose, psicose etc.) quanto
para o exterior (ódio, agressividade etc.), embora possam

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 85


se mesclar (tal como na psicopatia, no qual há um duplo
processo de destruição, interno e externo) e na realidade
concreta andam juntos, sendo que um ou outro predomina.
Freud denominou esta energia redirecionada como
deslocamento. No entanto, o deslocamento, na concepção
freudiana, se refere apenas ao objeto enquanto que para
nós há não apenas a mudança de objeto, mas também na
própria energia deslocada, ganhando caráter destrutivo.
A representação gráfica abaixo apenas ilustra estas
relações, sendo que, obviamente, não possuem localização
seja no cérebro ou em qualquer outro lugar. Esta
representação apenas mostra que existem mecanismos
repressores que pressionam para “baixo” a energia
psíquica, que fica represada, no inconsciente, e quando ela
é muito forte, ela se desvia pela “direita” como energia
destrutiva e/ou pela “esquerda” como energia construtiva2.

2
O conceito de energia, aqui, significa “força propulsora”, isto é,
força motriz da ação humana e dos acontecimentos psíquicos.
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 86
Universo Psíquico
Mentalidade

(Consciência)

Mecanismos
Repressores

Persona
Sombra
(Energia
(Energia
Construtiva)
Destrutiva)

Inconsciente

Estas formações energéticas derivadas do


inconsciente podem ser denominadas como persona e
sombra. O conceito de sombra é semelhante ao
apresentado por Jung:

a sombra é uma espessa massa de


componentes diversas, aglomerando
desde pequenas fraquezas, aspectos
imaturos ou inferiores, complexos
reprimidos, até forças verdadeiramente
maléficas, negrumes assustadores
(SILVEIRA, 1981, p. 92).
Na concepção junguiana, na sombra também
existem “aspectos positivos”, o que inexiste em nossa
concepção. A sombra é a energia destrutiva que está na

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 87


origem dos desequilíbrios psíquicos e da agressividade
vinculada a eles, duas faces da mesma moeda. A formação
da sombra, no entanto, ocorre quando existe um alto grau
de repressão tanto no sentido quantitativo (quantum de
potencialidades reprimidas) quanto qualitativa
(intensidade).
Porém, numa sociedade repressiva (dividida em
classes sociais), todos os indivíduos possuem em seu
universo psíquico um certo quantum de sombra, só que em
proporções insignificantes nas pessoas que possuem um
baixo grau de recalcamento ou uma persona forte, ou,
ainda consegue se satisfazer parcialmente com as
satisfações substitutas produzidas pela sociedade.
No entanto, as pessoas que se enquadram nos dois
últimos casos ficam no limiar de possuírem uma sombra
forte, sendo casos “fronteiriços”, que o processo histórico
de vida pode desencadear. Nas pessoas que não
conseguem estas condições de desenvolvimento psíquico,
que estão submetidas à mais-repressão (para utilizar

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 88


expressão de Marcuse)3, isto é, a uma repressão extensiva
e intensiva, a sombra não só existe como exerce grande
influência sobre elas. Assim, somente um quantum
considerável de sombra produz uma neurose ou um
indivíduo agressivo 4. A mais-repressão forma um acúmulo
de energia na sombra que a faz transbordar e a pessoa, em
muitos momentos, deixa de ser controlada pela sua
consciência e passa a ser controlada pela sua energia
destrutiva.
O conceito de mais-repressão aqui se inspira e ao
mesmo tempo se diferencia da concepção de Marcuse,
expressando uma repressão excedente, isto é, que é mais
intensa do que a vivida por grande parte das pessoas e que
excede a capacidade humana de suportá-la sem provocar

3
Marcuse utiliza a expressão mais-repressão em Eros e Civilização
(1988), mas apresentamos uma definição diferente deste conceito,
como sendo uma repressão excedente, tal como se vê adiante.
4
Não devemos, contudo, esquecer que os conflitos e dilemas
conscientes também contribuem para a formação da sombra, como,
por exemplo, um indivíduo dominado por valores burgueses, que,
por conseguinte, coloca como meta de sua vida a ascensão social, a
riqueza, o poder, e fracassa, tende a ter sua “sombra” fortalecida,
embora isto também signifique o recalcamento de determinadas
necessidades-potencialidades autênticas via não-realização de
pseudonecessidades, ou seja, o desejo de riqueza e poder (e outros
semelhantes) expressa tão-somente o desejo de aprovação social.
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 89
desequilíbrios psíquicos. A mais-repressão, geralmente,
produz a sombra.
Uma das formas de evitar isso é a formação da
persona. Por isso é importante abordar esta outra
consequência da repressão e outra forma de energia, nesse
caso, construtiva. A persona é semelhante ao termo
“sublimação” tal como elaborado por Freud.

Freud, ao longo de toda a sua obra,


recorre à noção de sublimação para tentar
explicar, de um ponto de vista econômico
e dinâmico, certos tipos de atividades
alimentadas por um desejo que não visa,
de forma manifesta, um objetivo sexual:
por exemplo a criação artística, a
investigação intelectual e, em geral,
atividades a que uma dada sociedade
confere grande valor. É numa
transformação das pulsões sexuais que
Freud procura a causa última destes
comportamentos (LAPLANCHE e
PONTALIS, 1999, p. 495)5.

5
A distinção entre a persona e sombra, em alguns casos, é difícil de
perceber. Alguns casos de fixação podem ser interpretados como
persona (sublimação, compensação) ou como sombra e, em alguns
casos concretos, alguns indivíduos (devido às suas relações sociais
concretas e acontecimentos em sua vida) podem transformar a
persona em sombra e vice-versa. Jung concebe a persona como parte
da psique coletiva, sendo uma “máscara” (JUNG, 1978). Adler, por
sua vez, define compensação como um “mecanismo de luta”
utilizado pela alma para tentar neutralizar “o torturante sentimento
de inferioridade” (ADLER, 1939).
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 90
Claro que aqui não se trata de “transformação das
pulsões sexuais” e sim das energias represadas e sua
“produção” não é necessariamente valorada socialmente e
nem se limita à atividades artísticas e intelectuais6.
Existem casos em que a energia represada vasa por
dois lados simultâneos, gerando, concomitantemente,
sombra e persona. Nesses casos, pode haver equilíbrio
entre ambas e o indivíduo desenvolver uma persona aceita
e respeitável socialmente e, ao mesmo tempo, possuir uma
sombra que lhe revela o lado obscuro. Esse seria o caso
expresso ficcionalmente na obra O Médico e o Monstro,
de Robert Stevenson. Um indivíduo pode ter suas
capacidades intelectuais desenvolvidas simultaneamente
com o desenvolvimento de sadismo, entre diversas outras
possibilidades. Em certas situações, pode ocorrer o
predomínio de uma ou outra, dependendo do caso.

6
Assim como uma represa retém uma grande quantidade de água, o
inconsciente retém uma grande quantidade de energia, e da mesma
forma que a represa possui “válvulas de escape”, o inconsciente
também possui, sendo que em seu caso, são três saídas, que podem
ser simbolizadas espacialmente: no centro, se descarrega a energia
represada em sua forma pura; à direita, se descarrega a energia
destrutiva; à esquerda, se descarrega a energia construtiva.
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 91
Esta discussão tem o objetivo de deixar explicitada a
distinção entre o inconsciente e a sombra e mostrar que o
conteúdo do inconsciente são as necessidades-
potencialidades recalcadas, energias represadas. A partir
desta compreensão do inconsciente individual é possível
elaborar uma teoria do inconsciente coletivo rompendo
tanto com a concepção metafísica de Jung quanto coma
concepção culturalista de Erich Fromm.

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 92


A concepção materialista do inconsciente
coletivo

O inconsciente coletivo, neste caso, só pode ser


compreendido como elementos inconscientes presentes
numa determinada coletividade, num determinado grupo
social (classe social, grupos raciais, étnicos, etários,
sexuais, etc. ou mesmo o conjunto da sociedade). O
inconsciente individual não coincide, em sua totalidade,
com o inconsciente coletivo, pois as necessidades-
potencialidades reprimidas em um indivíduo não coincide
com a do grupo, mas tão-somente com alguns de seus
elementos.
Desta forma, se as mulheres, em uma determinada
sociedade, possuem, em seu conjunto, determinadas
necessidades-potencialidades recalcadas, então podemos
falar de um inconsciente coletivo feminino e se o mesmo
ocorre com os homens, obviamente atingindo às
necessidades-potencialidades diferentes, então podemos
falar em inconsciente coletivo masculino.
Seguindo o mesmo raciocínio, também podemos
pensar em inconsciente coletivo proletário, burguês,
burocrático, camponês, feudal, servil, infantil, juvenil,
negro, etc. Assim, o conjunto de indivíduos que compõem
um grupo social têm recalcados as mesmas necessidades-
potencialidades, mas o indivíduo concreto possui outras
necessidades-potencialidades recalcadas, que são
derivadas das relações sociais específicas nas quais ele
está inserido.
Todos os grupos sociais (étnicos, raciais, religiosos,
etários, etc.) e as classes sociais possuem um inconsciente
coletivo derivado do recalcamento de algumas de suas
necessidades-potencialidades.
Este inconsciente coletivo, tal como o inconsciente
individual, se manifesta nos sonhos, fantasias, atos falhos,
etc. As crianças que em uma determinada sociedade
possuem sua criatividade recalcada têm em comum este
conteúdo do inconsciente coletivo e provavelmente terão
sonhos e fantasias que revelam, simbolicamente, tal
necessidade-potencialidade e o desejo de realizá-la.
A diferença de repressão produz uma diferença no
inconsciente e por isso existem semelhanças e diferenças
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 94
entre o inconsciente individual e o coletivo. O
inconsciente coletivo pode ser percebido através de suas
manifestações, tal como o individual, bem como pode ser
percebido ao desenvolvermos a consciência das
necessidades-potencialidades recalcadas em um grupo
social.
O processo de análise do inconsciente coletivo
fundado no materialismo histórico-dialético (teoria da
história e método dialético) aponta para, num primeiro
momento, identificar o que é reprimido e recalcado num
determinado grupo social e, num segundo momento,
descobrir as suas manifestações (sonhos, fantasia, arte,
etc.). Isto pressupõe utilização do processo de abstração
com base no material informativo disponível.
Sem dúvida, existem dificuldades para conseguir
informações, que são maiores ou menores, dependendo do
caso, tanto no que se refere ao recalcamento quanto às
manifestações do inconsciente coletivo. Sem dúvida, a
partir do processo de abstração é possível reconstituir,
com base em apenas um dos dois conjuntos de
informações (sobre recalcamento ou manifestações
oníricas, artísticas etc.), o outro. Assim, tal como um
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 95
psicanalista busca descobrir numa obra de arte ou nos
sonhos o inconsciente de um artista/indivíduo, um
psicanalista social busca descobrir em obras artísticas,
manifestações culturais ou oníricas de um grupo social seu
inconsciente coletivo. Um processo idêntico ocorre
quando um psicanalista busca descobrir o processo de
repressão/recalcamento de um indivíduo e ao fazê-lo
consegue compreender as manifestações do seu
inconsciente, e quando um psicanalista social analisa a
repressão/recalcamento que atinge o grupo social para
entender suas manifestações como inconsciente coletivo.
Outra forma de tentar descobrir o inconsciente
coletivo é a análise do inconsciente individual de um
integrante de um grupo social. Se a
repressão/recalcamento do indivíduo pertencente ao grupo
é comum aos demais integrantes do mesmo, então é
possível perceber através desse caso aspectos do
inconsciente coletivo. Nesse caso, isso ocorre sob forma
hipotética, pois o que é atribuído ao grupo pode ser
individual e, por isso, para a hipótese se tornar mais
provável, seria necessária a análise de diversos casos
concretos. De qualquer forma, a análise do inconsciente
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 96
individual esclarece aspectos do inconsciente coletivo e
vice-versa.
O inconsciente coletivo, no caso do conjunto da
sociedade, remete ao processo de repressão social e
recalcamento coletivo dessa repressão. Em uma sociedade
muito repressiva, não somente o inconsciente coletivo é
mais presente, como, também, o transbordamento
energético destrutivo e construtivo1. Nesse sentido, é
possível analisar a sombra coletiva e a persona coletiva em
uma determinada sociedade marcada por um alto grau de
repressão social (e, por conseguinte, de recalcamento
coletivo).
Em certos momentos de uma sociedade, a repressão
social pode se intensificar, tal como ocorre eclosão de
crises e radicalização de conflitos, gerando um

1
É necessário esclarecer, no entanto, que a sombra (energia
destrutiva) e a persona (energia construtiva) não são os únicos
elementos explicativos das explosões de violência e destruição ou de
produções sociais relevantes. A destrutividade humana possui outras
determinações além da repressão acompanhada de recalcamento e
transbordamento, como os interesses, as necessidades, as crises, a
luta de classes. Contudo, geralmente o transbordamento está presente
e é uma de suas determinações. Inclusive, ele é muitas vezes
manipulado e o exemplo clássico desse processo é o nazismo, que
soube manipular os sentimentos e energias psíquicas para seu projeto
de dominação.
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 97
transbordamento que forma uma sombra e persona
coletivas poderosas. A crise na sociedade alemã, depois do
fracasso da esperança revolucionária de 1918-1921, que
gerou o enfraquecimento do bloco revolucionário, e a
situação de penúria material e desespero psíquico, abriram
brecha para o uso da sombra coletiva a serviço da escalada
nazista, que criou um inimigo imaginário (especialmente
os judeus) que se tornou alvo da energia destrutiva.
Assim, sociedades com alto grau de repressão social
ou determinadas épocas de uma sociedade, produzem uma
forte sombra coletiva. Essa, em vários aspectos, tende a
ser reprimida, o que por sua vez tende a gerar mais sombra
e, por conseguinte, repressão. A energia destrutiva, uma
vez canalizada pelos detentores do poder, seja através da
ideologia da identidade (e unidade) nacional ou qualquer
outra forma, se direciona para um inimigo imaginário e
assim anula a luta de classes interna e oferece um processo
social de alívio coletivo da repressão social. A criação de
um inimigo imaginário é uma das estratégias mais
utilizadas para conseguir concretizar tal processo e a
guerra é uma das formas que esse processo pode assumir
(VIANA, 2007b).
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 98
A persona coletiva pode se desenvolver em grande
escala simultaneamente junto com a sombra coletiva. Esse
seria um caso de equilíbrio social, mas que é raro,
especialmente quando a sombra coletiva é muito forte2.
Geralmente, quando a persona coletiva é forte, então a
energia construtiva acaba se sobrepondo à destrutiva. Isso
ocorre em certos momentos históricos ou mesmo em uma
determinada sociedade. Claro que essa não é a única
determinação desse processo, pois o desenvolvimento
social em geral, as necessidades da época, entre diversas
outras, podem incentivar o desenvolvimento da
criatividade, do humanismo, etc. Esse processo pode,
inclusive, tornar mais forte a tendência do crescimento da
persona coletiva em detrimento da sombra coletiva.
Voltando ao inconsciente coletivo, a sua existência e
intensidade dependem da repressão social e do
recalcamento coletivo. Alguns grupos sociais são mais
2
A sombra, como energia psíquica destrutiva, também gera produções
culturais, como a persona, mas sua qualidade e veracidade é mínima,
pois os indivíduos dominados por ela geralmente são acometidos de
simplificação e cegueira diante dos outros. No caso de alguns
indivíduos, nos quais esse processo significa também manifestação
de energias construtivas (não no conteúdo, mas no próprio ato
criativo de produzir uma ideia, por exemplo), pode aliviar um pouco
sua força.
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 99
atingidos pela repressão social, tal como as crianças,
jovens, mulheres, etc. A repressão social sobre as crianças
é intensa, mas a possibilidade extravasar suas energias
através da brincadeira, serve de compensação para o
processo repressivo. No entanto, para as crianças
impossibilitadas de atividades lúdicas, desenvolvimento da
criatividade, etc., seja por pura repressão ou escolarização
ou trabalho, são casos específicos e que podem gerar,
dependendo da intensidade, desequilíbrios psíquicos.
Os jovens, época em que há o despertar de novas
potencialidades-necessidades, tal como a sexualidade e a
racionalidade, o processo repressivo tende a gerar
elementos comuns que expressam o inconsciente coletivo
juvenil. A repressão da sexualidade feminina, que é forte
nas sociedades de classes devido à questão da transmissão
da propriedade privada, ou a repressão dos sentimentos
simpáticos nos homens, são dois exemplos desse
processo3. Isso também se manifesta no caso de mulheres,
homens, entre diversos outros grupos sociais.

3
O processo de socialização masculino, nas sociedades classistas,
aponta para o incentivo de formação de sentimentos antipáticos
(relacionados ao ethos social masculino, tal como iniciativa,
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 100
Porém, existem diferenças no interior desses grupos
sociais, derivadas da divisão de classes, religião e cultura,

agressividade, etc.) e o processo de socialização feminino aponta


para o incentivo aos sentimentos simpáticos (relacionados ao
processo de reprodução). Essa socialização diferencial gera, por sua
vez, uma repressão de sentimentos simpáticos nos homens e
sentimentos antipáticos nas mulheres. Devido ao ethos sexual
diferenciado e cristalizado numa determinada sociedade, isso gera a
identificação desses elementos como sendo “feminino” ou
“masculino”. Isso, uma vez existindo, também pode envolver a
sexualidade e gera novo motivo para diferenciação e repressão.
Quando há uma mais-repressão, isso pode se inverter. Nesse caso, as
mulheres podem desenvolver sentimentos antipáticos e os homens
podem desenvolver sentimentos simpáticos. Isso gera uma
contradição psíquica, que ocorre quando a repressão ou recalcamento
promove o efeito contrário ao pretendido, mas sob forma de sombra,
ou seja, energia destrutiva. A contradição psíquica é perceptível na
nossa vida cotidiana e pode ser exemplificada quando fazemos algo
que conscientemente não queremos fazer e o ato é gerado por essa
própria consciência e negação. Um exemplo simples de contradição
psíquica é quando não queremos olhar para algo e olhamos. Essa
contradição psíquica assume contornos muito mais complexos na
mente humana, bem como diversas formas e produzindo diversos
efeitos e com distintas intensidades. Muitas vezes o que é negado
pelo indivíduo acaba se tornando uma necessidade para ele, apesar
de originalmente não ter esse caráter necessário. Essa é uma das
formas de manifestação da contradição psíquica, na qual a repressão
ou o recalcamento gera o seu contrário. Esse é um dos elementos que
demonstram a complexidade do universo psíquico e que as
concepções simplistas, predominante na psiquiatria, psicologia e
psicanálise, não conseguem perceber. Até mesmo Fromm, que
avançou em muitos aspectos na compreensão do universo psíquico e
criticou a psicologia por ser uma ciência alienada que trata de seres
alienados usando métodos alienados e alienantes (FROMM, 1977),
cai muitas vezes nessa simplificação, tal como se vê na sua tese
dualista da natureza humana anteriormente criticada.
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 101
entre outros processos que promovem uma repressão
diferenciada, em alguns casos mais intensa, geralmente
promovendo distinção no recalcamento coletivo do grupo.
As crianças e jovens das classes privilegiadas muitas vezes
possuem uma relação fria com os pais, o que significa a
repressão da afetividade, gerando, por sua vez, pessoas
frias. Essa frieza, quando é marcada por uma mais-
repressão, pode desembocar em crueldade. Afinal, não são
jovens proletários e lumpemproletários que queimam
mendigos nas ruas da cidade.
O recalcamento coletivo só pode ser compreendido a
partir de uma concepção de natureza humana e por isso a
psicanálise sempre adotou uma determinada concepção a
esse respeito. O problema é quando a concepção de
natureza humana cai no reducionismo, como no caso de
Freud. A recusa ideológica da existência de uma natureza
humana, que se tornou moda com a hegemonia do pós-
estruturalismo, é um retrocesso intelectual e um obstáculo
a ser superado. É a partir da compreensão da natureza
humana que é possível a análise do recalcamento
(individual e coletivo).

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 102


A percepção de que a socialidade é uma necessidade
humana ajuda a compreender que o isolamento dos
indivíduos é algo que poucos conseguem suportar sem
gerar desequilíbrios psíquicos. Aqueles poucos que
conseguem suportar desenvolvem algum processo de
compensação. O isolamento pode ser tanto social (falta de
contatos e relações concertas, como no caso de uma
pessoa que mora sozinha e em lugar distante e sem
presença de outras pessoas) quanto psíquico (um indivíduo
pode estar rodeado de pessoas sem ter afinidade com elas
ou ter relações inamistosas).
Outra forma de analisar o inconsciente coletivo é
quando se trata de uma repressão social generalizada e,
portanto, o inconsciente coletivo é o de uma sociedade em
sua totalidade. Nesse caso, a percepção de necessidades-
potencialidades humanas reprimidas numa determinada
sociedade ao lado da análise de suas manifestações
culturais, artísticas, oníricas, permite entender o
inconsciente coletivo. É possível partir das produções
oníricas e culturais para se chegar ao que é reprimido ou o
contrário. Os mitos das sociedades simples, bem como os
sonhos e as produções ficcionais, podem ser analisadas e
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 103
depois comparadas com as relações sociais concretas e
processos perceptíveis de repressão e recalcamento.
A análise do recalcamento coletivo, por sua vez,
fornece pistas para a compreensão do inconsciente
coletivo. Quando o recalcamento coletivo é derivado de
uma mais-repressão, aí se tem pistas para compreender a
sombra e/ou a persona coletiva. Desta forma, os conceitos
de natureza humana, repressão social, mais-repressão,
recalcamento, são fundamentais para compreender o
inconsciente e seus derivados, sombra e persona, tanto
individuais quanto coletivos.
Uma tentativa de análise do inconsciente coletivo
nesta perspectiva foi realizada por nós em um pequeno
livro que tinha como tema os super-heróis das revistas em
quadrinhos, ou seja, o gênero superaventura (VIANA,
2005), bem como em um artigo sobre a manifestação do
inconsciente coletivo feminino nas histórias em
quadrinhos da Mulher-Maravilha (VIANA, 2015C).
Retomaremos brevemente esta análise da superaventura
para explicitar uma forma de abordagem marxista do
inconsciente coletivo.

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 104


Por um lado, temos os produtores das
superaventuras, por outro, o seu produto, a própria
superaventura. Isso torna possível reconstituir o
inconsciente coletivo (que coincide com o de outros
grupos sociais, sendo quase que geral em nossa sociedade
e por isso se vê o sucesso da superaventura em nossa
sociedade) por detrás do “mundo dos super-heróis”.
A produção da superaventura é um processo
consciente e não inconsciente. No entanto, junto com a
mensagem consciente, geralmente axiológica (VIANA,
2005), ocorre uma manifestação do inconsciente. As
produções artísticas e fictícias possuem um maior
quantum de manifestação de inconsciente, pois nelas a
“imaginação” é liberada (parcialmente) e assim o
inconsciente pode se manifestar4. Mas junto com o
inconsciente individual se manifesta o inconsciente
coletivo. Isto se deve ao fato de que o recalcamento
individual gera o inconsciente individual, mas quando um
aspecto deste recalcamento é coletivo, ou seja, comum a

4
E junto com ele, ou contra ele, a sombra. Este é o caso dos filmes de
terror, no qual temos a manifestação da sombra. Veja o artigo
Psicanálise dos Filmes de Terror (Viana, 2002).
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 105
um grupo social ou a toda sociedade, temos a formação do
inconsciente coletivo.
Vemos que os produtores das superaventuras (apesar
de possuírem certa direção sobre o seu processo de
produção e desenvolver a sua criatividade, pois mesmo
assim permanece o controle burocrático e mercantil)
possuem suas atividades controladas, estando submetidos
ao processo de produção capitalista. Aqui nos referimos
aos produtores das grandes fábricas de super-heróis:
Marvel, DC e Image Comics. Essas são grandes empresas
capitalistas, que promovem uma ampla divisão social do
trabalho, exercem controle sobre a produção (visando
vendagem e lucro, o que leva também a buscar atender ou
criar público, bem como seguir a dinâmica do mercado),
estão submetidas a contratos, etc. O futuro e características
dos personagens, bem como o trabalho dos quadrinistas,
são coisas secundárias e submetidas aos seus interesses
capitalistas.
Este processo de controle gera a repressão e
recalcamento de algumas potencialidades humanas ou a
reduz, o que provoca o desejo inconsciente de liberdade e
esta se manifesta na superaventura. O super-herói é aquele
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 106
ser humano que rompe com os limites (naturais e sociais)
tornando-se um “super-homem”. Aliás, Superman é o
protótipo do super-herói e em sua identidade comum é um
jornalista submetido ao trabalho editorial controlado
burocraticamente. Assim, a impotência diante deste
mundo burocrático e mercantil gera, na imaginação, um
ser humano poderoso, acima destes limites. Clark Kent é o
Super-Homem, ou seja, o indivíduo tímido, desajeitado,
subordinado na empresa capitalista de jornalismo, ao
entrar numa cabine, se fantasia e se transforma em outro,
deixa de ser um mero “homem”, para se tornar um “super-
homem”, um ser poderoso, quase invencível. A liberdade
é conquistada imaginariamente, já que sua manifestação
concreta está impedida.
Assim, os super-heróis (Super-Homem, Batman,
Homem-Aranha, Hulk, Thor, Namor, Ciclope, Spawn,
Goku) são expressões do desejo inconsciente de liberdade,
pois a liberdade foi recalcada no mundo mercantil e
burocrático. A atração pela superaventura por parte do
público revela o mesmo desejo de liberdade, o que
significa que tanto os produtores quanto os leitores da
superaventura manifestam o desejo inconsciente de
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 107
liberdade, e a superaventura é uma manifestação do
inconsciente coletivo e o seu sucesso também é uma
manifestação do desejo inconsciente de liberdade, do
inconsciente coletivo, que se realiza imaginariamente, o
que revela sua força de atração.
Este é apenas um exemplo de manifestação do
inconsciente coletivo, que está presente em diversas outras
produções culturais. A música, por exemplo, também
manifesta o inconsciente coletivo, embora isso ocorra sob
forma indireta, mais no plano dos sentimentos despertados
por sons, entonação de voz, letra, etc. O mesmo ocorre
com o cinema. O filme Sociedade dos Poetas Mortos
(Peter Weir, EUA, 1989), por ser uma produção fílmica
mais rica, pode exemplificar esse processo. Ele apresenta,
no seu universo ficcional, o desejo de liberdade e de
realização da criatividade, bem como o processo de
repressão social. No entanto, a cena final, na qual os
estudantes conseguem prestar homenagem ao professor
demitido contrariando as ordens do professor autoritário,

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 108


subindo nas carteiras, manifesta um sentimento reprimido
na sociedade capitalista, a compaixão5.
O ato dos alunos expressa compaixão em relação ao
professor demitido e desperta naqueles que assistem o
filme, o mesmo sentimento. O sentimento despertado pela
cena do filme é mal compreendido e logo esquecido na
grande maioria dos casos, devido ao recalcamento gerado
pela repressão desse sentimento. Na vida cotidiana, a
compaixão é abandonada e quem se emocionou com o
filme, tal como um professor autoritário, pode realizar
práticas que contrariam aquilo que sentiu. O sentimento
despertado, apesar de ser uma ficção e os assistentes do
filme sabem disso, mostra, no fundo, o retorno do
recalcado, que logo é novamente objeto de recalcamento.
A cena mostra um jovem, o primeiro a se levantar em

5
Compaixão aqui não expressa o significado comum, próximo de
“piedade” (que é um elemento derivado dela), e sim um sentimento
equivalente ao “amor fraterno”, gerado pela necessidade de
socialidade. A sociedade capitalista, competitiva por natureza, e que
para se reproduzir deve garantir que os indivíduos possam ser frios o
suficiente para poder realizar o processo de exploração, realização de
injustiça, atos desonestos, defender apenas os interesses pessoais
(egoísmo), etc. Para isso, a compaixão deve ser reprimida e sua
existência traz um conjunto de penalidades para quem a possui,
mesmo porque a recíproca nem sempre é verdadeira.
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 109
protesto e homenagem ao professor demitido, que rompe
com o recalcamento e com a repressão (expressa no
professor autoritário), ato logo reproduzido pelos demais,
se tornando coletivo. O sentimento individual recalcado é
expresso e como é um sentimento recalcado
coletivamente, se manifesta também coletivamente. Os
assistentes do filme compartilham o sentimento
despertado. Nesse sentido, podemos dizer que a
compaixão é um dos elementos presentes no inconsciente
coletivo na sociedade moderna.
Esses exemplos apenas mostram a existência do
inconsciente coletivo e que as análises e pesquisas sobre
os fenômenos culturais, sobre a repressão e recalcamento
coletivos na sociedade moderna, podem tornar o que é
inconsciente e consciente, fazendo a necessidade se tornar
ainda mais necessária. A compreensão do inconsciente
coletivo, por sua vez, em toda sua complexidade, requer
não só o marxismo e todo seu arsenal teórico-
metodológico, bem como, mais especificamente, a teoria
do capitalismo, como também a psicanálise e suas
contribuições mais profundas para a compreensão do
universo psíquico individual e processos coletivos.
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 110
Observações Finais

O nosso trajeto começou pela análise das teses do


inconsciente coletivo em Jung e Fromm, para depois
apresentarmos uma concepção de inconsciente coletivo
fundada no materialismo histórico.
Assim, observamos que o inconsciente coletivo não
pode ser concebido seja como uma “herança arcaica”, seja
como tudo que é “reprimido” numa sociedade, e sim como
o conjunto das necessidades-potencialidades reprimidas
em comum nos membros de determinados grupos sociais.
Também não se deve conceber o inconsciente coletivo
como possuindo “luzes e trevas”, mas sim o locus de
necessidades-potencialidades reprimidas e nada mais, por
mais que isto doa aos moralistas. A origem de outros
elementos, as ditas “trevas” que estariam no inconsciente
(individual e coletivo) são na verdade produtos da mais-
repressão que gera uma nova formação energética no
universo psíquico, a sombra.
Assim, Marx, Freud, Fromm, Jung, cada qual à sua
maneira e com linguagens diferentes, contribuem para a
compreensão deste processo. Marx (1983) assume um
papel fundamental ao abordar a questão do conjunto das
necessidades-potencialidades humanas e das “energias
físicas e mentais” às quais se refere nos Manuscritos de
1844.
Sem dúvida, alguns podem perguntar qual é a
diferença em conceber o inconsciente como Jung ou
postular a existência de uma sombra. Parece apenas uma
distinção de linguagem, mas não é. Trata-se de uma
distinção de concepção, pois no caso de Jung existe uma
“naturalização” da “sombra” e assim ela não seria
derivada da mais-repressão, o que é simultaneamente um
retorno ao misticismo. O mesmo ocorre com a concepção
de Freud a respeito do instinto de morte e a tese da
potencialidade secundária da natureza humana de Fromm.
Neste sentido, a compreensão do fenômeno nos
remete para a percepção da constituição social da sombra
e da persona, bem como do inconsciente, mas uma vez
constituídos, se tornam energias psíquicas, ou seja,
móbiles da ação psíquica e concreta dos seres humanos.
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 113
Não um produto biológico, como na concepção freudiana,
pois para sustentar sua concepção energética ele teve que
apelar para os instintos, a base biológica e orgânica de sua
concepção. As energias psíquicas são constituídas não
apenas pelo organismo, mas por tudo o mais que habita o
universo psíquico.
Desta forma, podemos perceber que a explicação de
diversos fenômenos individuais e sociais muda de foco a
partir desta concepção. Não se trata mais de apelar para
um instinto destrutivo, para um metafísico inconsciente
coletivo ou para uma potencialidade humana de um
indivíduo malogrado e sim para as relações sociais e o
processo de mais-repressão instituído por uma sociedade
repressiva, o que faz nascer, também, a percepção da
necessidade de transformação social, a única forma de se
superar o atual estado de coisas e a manifestação da
sombra em proporções gigantescas, tal como se vê nas
atrocidades cotidianas ou nos períodos de guerra.
O inconsciente coletivo aponta para as necessidades-
potencialidades reprimidas e que precisam ser liberadas, o
que só pode ocorrer com a abolição do capitalismo e a
instauração de uma sociedade radicalmente diferente, na
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 114
qual seja possível o desenvolvimento do ser humano
onilateral.
É preciso deixar claro que essa realização das
necessidades-potencialidades humanas não se confunde
com a sombra, ou seja, com o produto negativo da
repressão. Em momentos revolucionários, a sombra tende
a acompanhar o processo de libertação e pode ser
manipulada pela contrarrevolução. As explosões de
violência são apenas um sintoma disso, bem como certos
indivíduos, em processos revolucionários, agem de forma
destrutiva. Sem dúvida, num processo revolucionário,
quando a opção pode ser vida ou morte, a violência acaba
eclodindo por ambos os lados. Mas junto com a violência
necessária devido ao processo social, uma violência
desnecessária e oriunda da sombra ocorre, também em
ambos os lados. Contudo, a manipulação dos sentimentos
e a canalização da sombra para inimigos imaginários são
formas que a classe dominante utiliza para a manutenção
do seu poder.
Da mesma forma, muitas coisas que são
consideradas “reprimidas” e “normais”, são, no fundo,
manifestação da sombra. Como ela é destrutiva e
Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 115
antissocial, então é reprimida socialmente, mas nem por
isso deve ser liberada. Uma vez realizada a transformação
social e as necessidades-potencialidades humanas
poderem ser satisfeitas em sua maioria (a sua totalidade é
o ideal, mas existem obstáculos, inclusive os recursos
naturais existentes, que dificultam sua concretização
plena), o recalcado é reduzido ao mínimo, e assim a
sombra e a persona também recuam e seus sintomas e
manifestações desaparecem.
Em síntese, a análise do inconsciente coletivo é
fundamental para compreender a sociedade capitalista,
bem como as possibilidades e obstáculos para a
transformação radical do conjunto das relações sociais, a
constituição de uma sociedade humanizada, a autogestão
social. Somente numa sociedade autogerida, a sombra
tende a desaparecer e a felicidade, para usar uma palavra
reprimida (MARCUSE, 1982; SILVA, 2015), ou seja, a
realização do conjunto das necessidades-potencialidades
reprimidas, torna-se possível.

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 116


Referências

ADLER, Alfred. A Ciência da Natureza Humana. São


Paulo: Nacional, 1939.

ASSOUN, Paul-Laurent. Introdução à Epistemologia


Freudiana. Rio de Janeiro: Imago, 1983.

BINSWANGER, Ludwig. Três Formas de Existência


Malograda. Extravagancia, Excentricidade e
Amaneiramento. Rio de Janeiro: Zahar, 1977.

CUNHA, Brigitte Cardoso. Texto, Contexto. In: LACAN,


Jacques. A Família. 2a edição, Lisboa: Assírio & Alvim,
1981.

FREUD, Anna. O Ego e os Mecanismos de Defesa. 6ª


edição, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1982.

FREUD, Sigmund. Esboço de Psicanálise. Col. Os


Pensadores, São Paulo: Abril Cultural, 1978.

FREUD, Sigmund. O Futuro de Uma Ilusão. Col. Os


Pensadores, São Paulo: Abril Cultural, 1978b.

FREUD, Sigmund. Psicanálise da Guerra. São Paulo:


San Remo, 1970.
FREUD, Sigmund. Totem e Tabu. In: Obras Psicológicas
Completas de Freud. Vol. XIII. Rio de Janeiro: Imago,
1974b.

FROMM, Erich. A Crise da Psicanálise. 2ª edição. Rio de


Janeiro: Zahar, 1977.

FROMM, Erich. A Descoberta do Inconsciente Social.


São Paulo: Manole, 1992.

FROMM, Erich. Análise do Homem. 2a edição, Rio de


Janeiro: Zahar, 1961.

FROMM, Erich. Conceito Marxista de Homem. 2a edição,


Rio de Janeiro: Zahar, 1988.

FROMM, Erich. Do Ter ao Ser. São Paulo: Manole,


1992b.

FROMM, Erich. Meu Encontro com Marx e Freud. 4a


edição, Rio de Janeiro: Zahar, 1979.

FROMM, Erich. O Coração do Homem. Rio de Janeiro:


Zahar, 1965.

FROMM, Erich. Psicanálise da Sociedade


Contemporânea. 2a edição, Rio de Janeiro: Zahar, 1976.

FROMM, Erich. Ter ou Ser? 4a edição, Rio de Janeiro:


Guanabara, 1987.

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 119


JUNG, Carl Gustav. O Eu e o Inconsciente. Petrópolis:
Vozes, 1978.

JUNG, Carl Gustav. Psicologia do Inconsciente. 6a edição,


Petrópolis: Vozes, 1989.

JUNG, Carl Gustav. Psicologia e Religião. 3a edição,


Petrópolis: Vozes, 1987.

JUNG, Carl Gustav. Tipos Psicológicos. Rio de Janeiro:


Zahar, 1976.

LA FUENTE, Rámon. El Pensamiento Vivo de Erich


Fromm. México: FCE, 1989.

LAPLANCHE e PONTALIS, J-B. Vocabulário da


Psicanálise. 3a edição, São Paulo: Martins Fontes, 1999.

LEVI-STRAUSS, Claude. As Estruturas Elementares do


Parentesco. Petrópolis: Vozes, 1982.

MANACORDA, Mario. Marx e a Pedagogia Moderna.


São Paulo: Cortez, 1991.

MARCUSE, Herbert. Eros e Civilização – Uma


Interpretação Filosófica do Pensamento de Freud. Rio de
Janeiro: Zahar, 1988.

MARX, Karl. Manuscritos Econômicos e Filosóficos. In:

FROMM, Erich. Conceito Marxista do Homem. 2a edição,


Rio de Janeiro: Zahar, 1983.

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 120


MULLAHY, Patrick. Édipo: Mito e Complexo. Uma
Crítica da Teoria Psicanalítica. Rio de Janeiro: Zahar,
1986.

REICH, Wilhelm. Materialismo Dialético e Psicanálise.


Lisboa: Presença, 1973.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Discurso Sobre a Origem e os


Fundamentos da Desigualdade entre os Homens. São
Paulo: Ática, 1989.

SARTRE, Jean-Paul. Reflexões Sobre o Racismo. São


Paulo: Difel, 1960.

SCHOPENHAUER, Arthur. Textos Escolhidos. São


Paulo: Abril Cultural, 1980.

SEGAL, Hanna. As Ideias de Melanie Klein. São Paulo:


Cultrix, 1983.

SILVEIRA, Nise da. Jung – Vida e Obra. Rio de Janeiro:


Paz e Terra, 1981.

VIANA, Nildo. A Alienação Como Relação Social.


Revista Sapiência (UEG). Vol. 01, num. 02, 2012.

VIANA, Nildo. A Consciência da História. Ensaios Sobre


o Materialismo Histórico-Dialético. Goiânia: Edições
Combate, 1997.

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 121


VIANA, Nildo. A Invenção do Inimigo Imaginário.
Antítese. Revista de Marxismo e Cultura Socialista. Ano
02, num. 04, Outubro de 2007b.

VIANA, Nildo. A Pesquisa em Representações


Cotidianas. Lisboa: Chiado, 2015a.

VIANA, Nildo. As Esferas Sociais. A Constituição


Capitalista da Divisão do Trabalho Intelectual. Rio de
Janeiro: Rizoma, 2015b.

VIANA, Nildo. Cérebro e Ideologia. Uma Crítica do


Determinismo Cerebral. Jundiaí: Paco Editorial, 2010.

VIANA, Nildo. Escritos Metodológicos de Marx. 2a


edição, Goiânia: Edições Germinal, 2001.

VIANA, Nildo. Fromm Crítico de Freud. Revista Espaço


Acadêmico (UEM), v. 10, p. 9-17, 2010.

VIANA, Nildo. Heróis e Super-Heróis no Mundo dos


Quadrinhos. Rio de Janeiro: Achiamé, 2005.

VIANA, Nildo. Inconsciente Coletivo Feminino e Valores


Contraditórios na Mulher-Maravilha. In: VIANA, Nildo
(org.). Os Valores nas Histórias em Quadrinhos. Brasília:
Kíron, 2015C.

VIANA, Nildo. Os Valores na Sociedade Moderna.


Brasília: Thesaurus, 2008.

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 122


VIANA, Nildo. Práxis, Alienação e Consciência. In: A
Filosofia e Sua Sombra. Goiânia: Edições Germinal, 2000.

VIANA, Nildo. Psicanálise dos Filmes de Terror. In:


QUINET, Antonio e outros. Psicanálise, Capitalismo e
Cotidiano. Goiânia: Edições Germinal, 2002.

VIANA, Nildo. Universo Psíquico e Reprodução do


Capital. Ensaios Freudo-Marxistas. São Paulo: Escuta,
2008.

VIANA, Nildo. Universo Psíquico e Reprodução do


Capital. Ensaios Freudo-Marxistas. São Paulo: Escuta,
2008.

WEBER, Max. A Ética Protestante e o Espírito do


Capitalismo. 5ª edição, São Paulo: Pioneira, 1987.

Nildo Viana - Inconsciente Coletivo e Materialismo Histórico 123


Leia Também: