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Projeto Caminhante, não há estradas

Objeto

Imagine um túnel todo preto de aproximadamente três metros de comprimento,


no final desse túnel existe uma vídeo arte sendo projetada no chão. Para se chegar ao
final do túnel e assistir ao vídeo é necessário caminhar por toda sua extensão; no chão
será colocada terra e o espectador será convidado a retirar os sapatos antes de caminhar
pela instalação. A projeção a ser exibida é uma vídeo arte realizada pela própria artista
de seus pés caminhando descalços por uma trilha no Vale do Capão, Bahia.

O áudio escolhido para compor a instalação é o som do espaço “captado” pela


NASA, quando o expectador chega ao final do túnel e fica parado para assistir ao vídeo
vai ocorrer uma mudança no som; um sensor de presença ao captar presença no
ambiente muda o som do espaço para o som de passos. A vídeo instalação brinca com a
negação e a afirmação da ação do espectador, enquanto ele anda o áudio é um som que
originalmente não é captado pela audição humana, o som do espaço. Só é possível
escuta-lo pois a NASA capta as ondas eletromagnéticas através de antenas apontadas
para o espaço e as convertem para uma frequência sensível o suficiente para a audição
humana. Quando o espectador para de andar e assiste ao vídeo sendo projetado no chão
ele começa a escutar o som de passos e vê na vídeo arte os pés da artista caminhando
em frente enquanto ele próprio está parado; mais um vez a instalação induz o espectador
a afirmar e negar a sua própria ação, sem que ele escolha, em relação à ação da artista.
A tecnologia utilizada para exibir o vídeo, captar a presença e assim controlar a
mudança de som será o Processing.
Justificativa

Caminhante, não há estradas é uma obra que vem para confortar, surpreender,
transcender e refletir. Os constantes caminhos que os nossos pés trilham nos levam a
algum lugar, e que lugar é esse? Para onde estamos indo? Como o meu corpo pode
contribuir com o mundo? Essas são algumas questões levantadas no processo poético da
obra; as respostas ficam a cabo de todos.

Retirar os sapatos é o primeiro convite que se faz ao público, significa voltar ao


self natural e retirar a obrigação social de vestir os pés para que o corpo não sinta o
caminho que está trilhando; a refloxologia é uma técnica que se baseia na crença que
cada ponto do pé reflete uma parte do corpo, é preciso lembrar que nossos pés
sustentam nosso peso durante todo o dia, portanto estão submetidos a uma pressão
muito grande e sobre tudo com os inapropriados sapatos que usamos diariamente,
fazendo com que haja um desequilíbrio no nosso eixo de sustentação. Em Bali, as casas
mantêm uma tigela de água no canto do quarto cheia de flores e óleo de eucalipto para
um ritual de limpeza no término do dia. Lavar os pés também é uma parte simbólica dos
muitos ritos da passagem do Hinduísmo Balinês, como sinal de deferência a Cantou
Hyang Widhi, um dos deuses responsáveis pela ordem de equilíbrio e desequilíbrio em
nossas vidas. Na Índia também é tradicional que a dona da casa escalde pessoalmente os
pés de seus visitantes.

O segundo convite que se faz ao público é entrar por um caminho escuro onde só
há a luz no fim do túnel; é o convite para entrar na obscuridade de sua própria
subjetividade. É uma tentativa de instigar a curiosidade do espectador para que ele
mesmo questione para onde os seus pés o estão levando e se esse caminho ele escolheu
para si mesmo ou se foi escolhido por ele.

Foram realizados vários vídeos de caminhos, trilhas, estradas e paisagens, o


vídeo selecionado foi realizado em uma trilha no Vale do Capão, Bahia. A artista
performa no vídeo de maneira natural, precisa e continua; ela caminha com os pés
descalços pelo chão de terra e pedras, não se vê paisagens nem outros pés. Um simples
caminhar em frente.

Caminhante, não há estradas, apenas trilhas do vento sobre o mar, a trilha faz-se
caminhando.

Materiais

 Um projetor

 Um sensor de presença

 Terra

 Caixa de som

 7,10 m de tecido Oxford preto

Referências Bibliográficas

BANES, Sally. Greenwick Village-1963 Avant-Gardde, performace e corpo


efeverscente. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.
CANTONI, Rejane. Videoinstalação? Conheça melhor esta linguagem (que já foi
pro espaço). Discussão sobre o percurso da linguagem e reflexão sobre a obra do artista
Antoni Muntadas. São Paulo: Texto produzido para o ciclo de palestras Contatos com
Arte e Tecnologia, ed. ago-set 2004.
_______. Corpo e Vídeo: O Embate em Direto. São Paulo: SENAC São Paulo, 2004.
_______. Extremidades do Vídeo: Novas Circunscrições do Vídeo. São Paulo, 2005.

ESTÉS, Clarissa. Mulheres que correm com os lobos. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.

NOGUEIRA, Salvador. Som do espaço. Revista Super Interessante, Editora Abril,


Setembro de 2011.

< https://www.youtube.com/watch?v=jgQ9THRckJ0 >