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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA

CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS


PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM CIÊNCIAS DA COMUNICAÇÃO

Julia do Carmo

Os Meios de Comunicação como Extensões do Homem


Marshal MacLuhan

O teórico canadense Marshal McLuhan vislumbrava já nos anos 1960 questões


que hoje desafiam os pensadores/as da área de comunicação. Com o interesse crescente
na área da Cibercultura e de análise de novos meios, muitas ideias levantadas pelo autor
são reapropriadas e o debate sobre o seu legado se torna cada vez mais atual.
Em “Os meios de Comunicação como Extensões do Homem” (1964) o autor
apresenta suas principais ideias sobre a comunicação de massa e seus efeitos na vida da
humanidade. Descolando-se das propostas de análise de conteúdos, em voga no
momento, ele destaca o meio como elemento essencial da comunicação, além de um
mero canal de passagem. Para McLuhan cada meio, independente do conteúdo, traria
características e efeitos próprios que vão justamente independer do conteúdo que
trazem.
Trazendo essa importância da observação do meio, ele insere sua ideia de meio
como mensagem. Isso significa, nas palavras do autor:

O meio é a mensagem. Isto apenas significa que as consequências


sociais e pessoas de qualquer meio – ou seja, de qualquer uma das
extensões de nós mesmos – constituem o resultado do novo estalão
introduzido em nossas vidas por uma nova tecnologia ou extensão de
nós mesmos. (1964, p. 19)

Para o autor, a mensagem de qualquer meio ou tecnologia é a mudança que ele irá
introduzir nas coisas humanas. Hábil em metáforas, ele usa o exemplo da estrada de ferro
e da luz elétrica. A estrada não introduziu o movimento e o transporte, mas acelerou
processos anteriores, criando relações de trabalho e lazer totalmente novas. A luz elétrica
A luz elétrica não é percebida como meio de comunicação por não possuir conteúdo, mas
elimina os fatores de tempo e espaço, exatamente como o rádio ou a televisão. Essas
metáforas servem para reafirmar como o meio é de fato a mensagem, pois é ele que
modela e controla a escala e forma das associações e trabalho humanos.
E os meios já criaram ambientes totalmente novos. E McLuhan vai falar dos
reflexos disso na área educacional. O autor dispensa grande parte de seu trabalho para
tratar sobre essas questões envolvendo os meios e a educação. Para ele, o/a estudante
tem dificuldade em unir o conteúdo ensinado nas instituições de ensino ao mundo da
prática, das experiências processadas. McLuhan já previa um momento, uma nova era da
educação, que passaria a ser programada no sentido da descoberta, mais que no sentido
da instrução.
Mesmo antes de termos salas de aula extremamente conectadas, ele já havia
proferido que "Uma rede mundial de ordenadores tornará acessível, em alguns minutos,
todo o tipo de informação aos estudantes do mundo inteiro”. McLuhan via a necessidade
de se superar o mundo visual fragmentário de nosso sistema educacional e, assim,
minimizar a frustração dos estudantes em relação à sua participação no processo de
ensino, algo frequente e que tenderia a piorar com o tempo.
Outro ponto fundamental para entendermos as ideias do autor é seu conceito de
meios de comunicação como extensões do homem – que dá nome à versão em
português do livro. Para McLuhan os meios irão funcionar como uma extensão, uma
prótese técnica, de sentidos, mentes e corpos, com a possibilidade de prolongar,
intensificar ou ampliar um órgão, sentidos ou função.
Assim como a roupa é extensão da pele e o carro das pernas, o rádio é extensão
de nossa voz (para quem fala) e ouvidos (para quem ouve) e a televisão uma extensão de
nossos olhos, ouvidos e vozes, só para citar esses dois meios.
Nessa lógica, telefones podem ser considerados extensões dos dedos. Se
conectados a internet e todas suas potencialidades e meios em seu interior, podem se
tornar verdadeiras extensões de nosso cérebros e, consequentemente, de nós mesmos.
Os estudos sobre telefones celulares e suas relações simbólicas com as pessoas podem
ter muito a se beneficiar dos pensamentos de McLuhan.
De acordo com Diocsianee Moura (2014):

Quando McLuhan colocou que os meios se tornaram a mensagem a


partir do momento em que ocorreram novos padrões da associação
humana, não poderíamos pensar em uma época tão perfeita para
refletir essa exposição feita em 1964. Afinal, com o uso do celular as
pessoas mudaram seus comportamentos sociais. Hoje por exemplo,
cada indivíduo pode ser localizado em qualquer tempo ou lugar. Pode
realizar transações bancárias e pagar o táxi a partir de um aparelho que
cabe no bolso. Deste modo, cada dia mais, torna-se inquestionável que
a atual sociedade desenvolveu uma dependência de tais tecnologias.
(2-14, p. 6)
O trabalho de McLuhan aparece, então, como um frutífero suporte para
compreender as novas dinâmicas sociais causadas pelo avanço dos meios de
comunicação e da internet . Ainda seu conceito de aldeia global, usado para explicar essa
nova configuração do mundo perpassada pelo encurtamento das fronteiras de tempo e
espaço encontra um forte eco se olharmos a internet e suas possibilidades.
Autores como Castells vão ressaltar a importância do pensador. Carina Rufino
(2009) entende que o próprio conceito de sociedade em rede desse autor pode ser
entendido como uma superação, considerando o fluxo de mão dupla da comunicação, da
ideia de aldeia global de McLuhan:

“A aldeia global foi um tema forte e interessante na época em que foi


definida, mas foi uma predição completamente errônea. Não é uma
aldeia, mas uma rede de casas individuais, o que é completamente
diferente”, afirma Castells em entrevista publicada no periódico Global
Media and Communication (2009, p. 4)

http://www.abrapcorp.org.br/anais2009/pdf/GT3_Carina.pdf

RUFINO, Carina Ferreira Gomes. A sociedade em rede e a segunda geração da


internet: reflexões para o campo da comunicação organizacional. In:III
ABRAPCORP–Congresso Brasileiro Científico de Comunicação Organizacional e
Relações Públicas, São Paulo. Anais.São Paulo, ECA/USP. 2009. p. 1-16.

MCLUHAN, Marshall. Os meios de comunicação: como extensões do homem. Editora


Cultrix, 1974.

MOURA, Diocsianne. Cibercultura: notas sobre smartphone, adolescência e


memória. Temática, v. 9, n. 7, 2014

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