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I

! Coleçã o
HISTÓRIA & HISTORIOGRAFIA
v
S? Coordenação
I Elí ana de Freí fos Dutra
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V

s
Reinhart Koselleck
! Christian Meier
I Horst Günther
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I
Odilo Engels
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O conceito de História

Traduçã o
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Rene E Gertz

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Revis ã o técnica
Sérgio da Mata

aut ê ntica
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*• NOTA DO TRADUTOR
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áRÁ OA COIE ÇÀ O HISTÓ RIA f HISTORIOGRAFIA CAPA *
1
Ètiariç cfé FrèitâS Dutra Teco de Souza .1
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(Sobre imagem de Chaosdna)


:- .:': iv : íri: TT íTISA
Jvjvgv ^AôAftWGMAC
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V Ç&<bichte, Historie
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TftAOUÇÀO
.
DIAGRAMAçâO
Conrado Esteves 1 Este livro apresenta a tradução do verbete “ Geschichte, Historie”
René E Gertz
REVIS ÃO TÉCNICA f D £ TRADUÇÃ O
fitví sAo
Di!a Bragança de Mendonça
da obra Geschichtliche Grmdbegrijfe: historisches Lexikon ztirpolitisch -
Sé/g/o o'a Mata EOfTOPA RESPONSÁVEL sozialen Spmche in Deutschland, editado por Otto Brunner, Werner
Ra fan a Mac Conze e Reinhart Koselleck, e publicado pela editora Kiett Cotta, -
de Stuttgait /Alemanha, em 1975 (volume 2, p. 593-717). Na re-
produ ção dos nomes pró prios da Antiguidade e da Idade Média ,
Reviwdo conforme o Acordo Ortográ fico da Língua Portuguesa de 1930,
em vigor no Brasil desde Janeiro de 2009. fez-se um aportuguesamento na medida em que se constatou que
Todos os direitos reservados pela Aut ê ntica Editora. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduada, essa versã o é corrente entre historiadores de fala portuguesa espe-
seja por meios mecá nicos, efetròrfcos, seja via có pia xerográ f íca, sem a autoriza çã o prévia
da Editora. cializados no respectivo tema. Quando nao foi possível encontrar
AUTÊNTICA EDITORA LTDA. referências a uma versão aportuguesada, os nomes foram mantidos
na forma em que se encontram no original alemão. Nas referências
Belo Horizonte
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S ã o Paulo
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*

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. .
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-
01311 940 . Sã o Paulo SP .
Televendas; 0 Q 00 283 13 22
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Tel í (55 11) 3034 4468 .? possí vel realizar uma pesquisa para apresentar eventuais publica çõ es
www.autentkaeditora.com . br com traduções para o portugu ês. O sistema alem ão de referencia çã o
bibliográfica é diferente do brasileiro, nã o citando, via de regra , as
editoras que publicaram os respectivos textos, restringindo-se ao
Dados Internacionais de Catalogação na Publica ção (CIP) local de ediçã o. També m nã o foi possí vel sanar essa lacuna.
——
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
— -— — — .— . - —
O conceito de História / Reinhart Koselleck . .(et af . J ; tradu çã o Ren é
-
E. Gertz. Selo Horizonte : Autêntica Editora, 2013 (Cole çã o Hist ó ria )
Duas pessoas foram fundamentais na realizaçã o desta tradu-
ção: Temístocles Amé rico Corrê a Cezar ( UFRGS) e Sérgio da
e Historiografia , 10) Mata (UFOP). O primeiro por ter insistido durante anos para que
Outros autores: Christian Meier, Horst G ünther, Odifo Engeís a tradução fosse feita ; o. segundo, por ter feito uma minuciosa e
Título original: Geschichte, historie . enloquecedora revisão. Se o texto na versã o aqui apresentada possui
ISBN 978*85 8217-150 9 * *
algum mérito, ambos s ão correspons á veis. Pelos erros, o tradutor,
-
1. Conceitos 2. História Filosofia 3. História - Teoria I. Koselieck,
Reinhart. II. Meier, Christian . III . G ü nther, Horst. IV. Engels, Odilo. V. Série.
evidentemente, responde sozinho,

13 06383
*
-
CDD 901 * René Getlx h doutor cm Ciê ncia Política pela Frcie University Berlin (1980), onde tamb é m fez
índices para catá logo sistemá tico: -
cstigto de p ó$-doutorado (1995), Professor titular na Pontificia Universidade Cat ólica do Rio
1. História : Filosofia 901 -
Grande do $ul ( PUCRS) e prolesíor assodado (aposentado) da UFRGS, é organizador ô tradutor
dos voluntes A nova historiografia afemã (UPRGS, 1987), Max Weber & KartMarx (Hucttec, 1997)
e Htuorí cgnifia alemã p famuro: experiências t perspectivas ( UPF/ EDUNISC, 2007).
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SUMÁRIO
I

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I Prefácio
5:
Arthur Alfaix Assis
è Sérgio do Molo ^
i
O CONCEITO DE HISTÓRIA

í
* I. Introdução 37

I II. Antiguidade 41
í .
1 Terminologia 41
;;

ti 2, Conceito de historia e concep ções de "História" 49


V
HL Compreensã o do conceito na Idade Mé dia 63
I s 1. Sobre o significado das palavras
1V " historia" e " res gesta" 63
\y 2. A escrita da História, sua classificação e
o horizonte em que ela é experimentada óó
3
.
3 Lugar e função da Historie na rede do saber. 80

I IV. Pensamento histórico no inicio da Idade Moderna 85

Ii 1. Pressupostos
2. Darite e o Humanismo
.
3 O século XVI
85
88
92
4. O desafio da nova ciência 101
'

? 5. A respeito da altera ção no topos


de "Historia" e " Geschichte 109

1
I
1i
V. A configuração do moderno conceito de História
1.0 percurso histórico do termo
119
119
. 2. "A História" como Filosofia da Hist ória 135
1

Ai
. .
3 A "História" se define como conceito 165
'
•I

I
1


VI. '"História" como conceito mestre moderno 185 '
k PREFÁCIO
1. Funções sociais e politicos do conceito de História
2. Relatividade histórica e temporalidade
185 f O conceito de história lugar eo
191 i
3. A irrupção do distanciamento entre experiência dos Geschichtliche Grundbegriffe
e expectativa 202 1 na história da história dos conceitos*
4. "História" entre ideologia e crítica da ideologia 209
I
%
Vil. Perspectiva
VII. Referê ncias
223
227
íe Arthur Alfaix Assis
Sé rgio da Mata
n:=
%
| O profundo processo de reconfiguração vivido pela história dos
1% conceitos a partir de meados do século XX foi motivado, em larga
medida , pelo desejo daqueles que a ela se dedicavam de construir
s uma alternativa à antiga história das ideias. Meio século depois de
iniciados os primeiros grandes empreendimentos na Alemanha , não
I
" F] h á quem ignore a grandiosidade dos resultados obtidos e a virtual
i% globalizaçã o desse gê nero de pesquisa histórica e de historiografia.
-
Chega se, assim, como é natural, ao momento em que são produ -
I zidos os primeiros retratos retrospectivos, os primeiros esboços de
1V um gênero que , na ausê ncia de melhor palavra , se poderia chamar
“ história da hist ória dos conceitos” . De modo algo embara çoso,
poré m, a história da história dos conceitos talvez esteja condenada
•fl a se colocar muito mais nas proximidades da história das ideias e dos
4 intelectuais que da disciplina que toma por objeto. Ela deve situar
e reconstruir trajetórias individuais, constela çõ es intelectuais e um
S
Os autores deste prefiri ó, bem como o tradutor, gostariam de expressar sua gratid ã o para com
! o Prot Tem ístocles Am é rico Corrê a Cezar ( UPRGS) e a Profa , Eliana Regina de Freitas Dutra
(UFMG) pelo entusiasmo com que incentivaram e abraç aram , desde o início, a realização
i deste projeto editorial .
Arthur Ajfaí x Assis 6 doutor pela Universidade de Witten (2009) e professor de Teoria e Meto -
í .
dologia da Hist ó ria na Universidade de Bras í lia Especialista em Teoria da hist ória e História do
pensamento histó rico, com ê nfase em temas e autores alemã es do s é culo XIX, publicou entre
,
b outros, A teoria da história de Jótn Rfí sen: uma íntrcdtqdo ( Ed . UFC , 2010} e What is History for?
Johann Gustav Droysen and the Functions of Historiography (Berghahn , no prelo).
S érgio da Mala doutorou se em hist ó ria pela Umversitat zu Koln cm 2002. Professor de Teoria
-
e Metodologia da História na Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP), foi pesquisador
3 convidado do Instituto Max Weber para Ciê ncias da Cultura e Ci ê ncias Sociais da Univorsit á t
-
Erfurt (2008) e bolsista da Funda ç ao Alexander von Humboldt (2009 2010), É autor dos livros
Chào de Deus (Wissenschaftliche Verlag Berlin, 2002), História & uUgUio (Autê ntica , 2010) e
.
A fa*( ind( 2ô weberhtta ( Fino Tta ç o, 2013)

9
f
VV -
: •
O CONCEHO Dê HSTOâ IA

W30 o& altamente complexo de interconexões disciplinares, teóricas


I “ Geschichte, Historie” -vezé ,este
Pttf ÁOO

o título original do verbete que ora


^
W ÊÊZ& é á&üno políticas. Numa palavra: o aparato teórico-metodológico
'

e òs problemas perseguidos pela hist ó ria da história dos conceitos •b:


i
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I
se apresenta pela primeira em sua extensã o integral, ao leitor bra-
sileiro. Trata-se dos dois termos alem ã es que equivalem à palavra por-
«ã o se confundem com os da história dos conceitos. Se uma per- tuguesa “ história” . E é precisamente uma excelente história do con-
í '
'
segue as muta çõ es de termos e significados em sua relação com o ! ceito de história o que o conjunto dos textos dos quatro autores nos
• invólucro sociocultural, a outra se ocupa com o$ atores sociais e oferece. O seu fio condutor é a transforma ção que prepara a rede de
suas respectivas ideias e prá ticas científicas, assim como os grupos 3 significados característica da moderna utilização desse termo. A palavra
.
e instituições em tomo dos quais se organizam Se numa o sujeito
1 história , cujo primeiro registro conhecido remonta a Heródoto, no
eventualmente nao é personagem principal, na outra ele faz toda a T século V a.C., é um património de diferentes culturas ocidentais,
1I diferença. Se uma ainda nao logrou estabelecer um amplo consenso que há quase 2.500 anos é cultivado, expandido e ressignificado.
a respeito do que é o seu objeto, na outra tal dificuldade nem sequer O verbete acompanha de perto essa longa trajetória, analisando os
se apresenta. Caso seja verdade que todo confronto com o próprio usos do termo e as concepções de hist ória vigentes na Antiguidade

i
passado traz consigo um ganho de reflexividade, o lento surgimento
de uma Geschichte der Begriffsgesckichte poderá significar um ganho
substancial n ão apenas para a história das ideias e da historiografia,
i :
í
clássica, os rearranjos semâ nticos decorrentes da absorção do termo
no horizonte cultural cristão, os diferentes gêneros historiogr áficos
medievais, as reconfigura çõ es do pensamento histórico sob o$ influ -
devendo se estender à própria Begriffsgeschichte. :>
xos do Renascimento e da Reforma , entre diversos outros temas.
O argumento conflui para um exame da gesta ção do moderno
I. conceito de história, o que se teria dado entre 1750 e 1850, per ío-
I r do que Koselleck já havia caracterizado como a Sattel Zeit, a era da -
Ao contr á rio do que muitas vezes acontece com o estudo passagem .1 Por essa altura , Iluminismo, ascensão social da burguesia e
•V

de manuscritos antigos e medievais, na interpreta ção histórica de industrializa ção se combinam para, a partir do espaço cultural alemão,
textos contemporâ neos as questões relativas à atribuição de autoria estimular uma alteração sem precedentes no significado dos diversos
costumam ser ponto pacífico. Mas esse n ã o é exatamente o caso do I conceitos polí ticos fundamentais a partir dos quais se organizava a
texto que queremos aqui apresentar. Formalmente falando , trata se
- I experiência no mundo ocidental. Dessas transformações histó ricas
2

de um verbete de obra de referência. Cada uma das suas quatro 1


:> n ão escapa o pró prio conceito de história. Antes utilizado predomi-
grandes seçõ es possui um autor individual: Christian Meier (1929), 1:
*
nantemente ou na forma plural (“ as histórias” ) ou como indicador
especialista em culturas polí ticas da Antiguidade clássica; Odilo En- :Í
gels (1928-2012), medievalist* especializado em história da Espanha .
i 1 KOSELLECK , Roinhart. Richtlinlen fflr das Lcxikon poUtWch-sozialer Begriflfe dor Neuzcit
e na dinastia dos Hohenstaufen; Horst G ü nther (1945), filósofo e ArehtvJílr Befirljffsgeschfihu, vol. 11, p. 88-99, 1967 (cif . p. 82). No Brasil e em outros " ",
pa íses,
conhecedor das modernas teorias políticas e filosofias da história ; .
diTundiu- so a tradu çã o nada evocativa "tempo dc sela" De fato, Satlelsignifica literalmente sela
1 mas o termo cunhado por Koselleck também se associa a BergutUel, que se poderia traduzir por
alé m de Reinhart Koselleck (1923-2006) , historiador que se dedi
- . -
"passo de montanha” , "colo” , "porto” ou "portela” Trata se justamente de uma palavra que
de passagem de
cou ao estudo da trajetória dos conceitos formadores da linguagem remete ao terreno, em região montanhosa , situado entre duas elevações e que serve
uma à outra . O pr ó pjio Koselleck esclarece o significado do termo, ao mesmo tempo que chama
do
político-social moderna e contemporâ nea . Ao “ usuário” do texto a atenção para as suas limitações enquanto conceito organizador da interpreta ção histó rica
>
••• mundo moderno. Cf: Reinhart Koselleck Javier Fernandez Sebasti á n & Juan Francisco Fuentes
.
Entrevista com Reinhart Koselleck. In; JASMIN, Marcelo; FERES JR., Joio (Orgs.). Hist
resta decidir se este verbete deve ser referenciado como um ú nico :
• ória
des reñidlos: debates e perspectivas . R ío de Janeiro: Ed. PUC- Rio, p. 135 -169 (cit. p. 102
),
trabalho escrito por quatro autores, ou se, antes, cada uma das suas >
\ 1 KOSBLLECK, Reinhart. Futurepasusdo . Contribui çã o à sem â ntica dos tempos hist ó ricos . Rio
partes deve contar como uma entrada individual.
de Janeiro: Contraponto; Ed . PUC-Rio, 2006, p. 101.
V

10 V:
11
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.
O COtK UK> D£ HlSTÓUA r
i
PflfActO

de relatos particulares, o termo historia ganha, à luz da


experiencia í de hist ória e a prá tica da liistoriografia passaram por transformações
moderna, um grau de abstração e generalidade tão elevado que passa
a ser capaz de se referir a todas as histórias particulares
Em consequência disso, na variante alema do moderno conceito
possíveis. 1 fundamentais entre o final do século XV11I e a primeira metade do
século XIX . Na verdade , nos anos 1820, Hegel , na introdu çã o à
sua Filosofia da história^ já falava na então contemporâ nea transição
de história passa a predominar a forma singular Geschichtc
.
da flexão plural die Geschichíe( n) E a tal circunstâ ncia que
cm lugar
se refere
I» da “ história refletida ” para a “ hist ória universal filosófica ” , cujo
fundador seria ele próprio.5 No influente Mamai do método k ÍstÔricoy
-
a categoria gramatical “ singular coletivo ” ( Kollektivsingulat ,
) com
que o verbete qualifica o novo conceito de historia. Paralelamente, f
I de Ernst Bernlieim, publicado pela primeira vez em 1889, sugere -
se que a transição de uma concepção “ pragm ática ou instrutiva
a generalidade do conceito também é reforçada em decorrê
uma outra transformação semâ ntica, através da qual o termo Ges
ncia de

n ( lehrhafi )” de história para uma histó ria “ gené tica ou evolutiva ( en -
chichte passa a absorver os significados anteriormente reservados ao - ' twickelnd)” só há pouco se havia consolidado, com a adesão a esta
termo de origem latina Histor
s por parte da imensa maioria dos grandes representantes da ciê ncia
í e, que desde a Idade Média tendia a
ser associado primariamente à narrativa de acontecimentos e ão aos I histórica alemã oitocentista .6 Em 1936, Friedrich Meinecke des-
n $ tacava que por volta do fmal do s é culo XVIII teria se dado “ uma
acontecimentos propriamente ditos. No moderno campo sem â ntico
do termo Gcschichte se encontra , por isso, tanto a noçã o de história
4 das maiores revoluções espirituais” já vivenciadas pelo pensamento
como realidade ou síntese do processo de constituição do mundo
! ocidental . 7 A lista de registros poderia ser estendida , mas será sufi-
humano, quanto a referê ncia à história como forma de conhecimento
I ciente para ilustrar a preexistência da percep ção de que, ao menos
no espa ço cultural alemã o, modificaçõ es no conceito de histó ria
do passado dos seres humanos, isto é, como historiografia.3 1
.
similares à s descritas no verbete tiveram lugar ao início do que
O verbete foi escrito no contexto de um dos projetos de pes
*4
- chamamos de Idade Contemporâ nea , Ainda assim é importante
quisa coletivos que mais fortemente marcou a cena historiográ fica I% sublinhar a originalidade das interpretações de Koselleck acerca
alemã da segunda metade do século XX, os Conceitos his íóírcos fun
- da modernização do conceito de história , que sã o marcadas pela
damentais: Léxico histórico da linguagem político social na Alemanha.4
Editado entre 1972 e 1997 pelo próprio Koselleck em parceria
- 1
1
preocupa ção em entrecruzar contextos intelectuais, políticos e
sociais; pela distribuiçã o bem balanceada de aten ção analí tica entre
com outros dois importantes historiadores, Otto Brunner e Wemer
1js os grandes e os n ão t ão grandes autores que lhe servem de fonte;
Conze, o léxico abrigaria no seu segundo volume o verbete sobre
bem como pelo emprego inovador de dicion á rios e enciclop é dias ,
o conceito de história.
Quando da publicaçã o do verbete de At í antes largamente ignorados na história das ideias s .
óer, Engels , G ü nther
e Koselleck em 1975, já nao era inédita a tese central de que a
ideia 1

5
.
HEGEL, Georg Wilhelm Friedrich. Fiiosojia da história Brasilia : Ed . UnjB, 1999 p, 13 -21 ,
3
6
BERNHEIM, Ernst. Handbudi der historiuhen Methodc* l. Au ft. Leipzig: Dunckcr und Humblot,
Anteriormente ao verbete dos Gesdrlditlidic Crundbegriffe , tanto a catacteriza ç ao
do moderno 1889 p. 15 -21.
-
conceito de história como um termo “ singular coletivo" quanto a teje da absor o
nificados do termo Historie pelo termo Gesdmhte j$ haviam aparecido num
çã dos sig- 7 MEINECKE, Friedrich. Ei histor .
í nsmy su genesis Mé xico: Fondo de CutiuraEconomics, 1943, p. 11.
famoso ensaio de
autoria de Koselleck , publicado pela primeira vez em 1967. Ver: KOSELLECK,
Reinhart . 5 Desde meados da dé cada de 1950, Hans FreyeHnsUt í a nesta ampliação do repert ó rio das fontes.
Historia magistra vitae. Sobre a disjoluç Jo do topos na histó ria moderna em Ele se queixava da hist ó ria das ideias que “ geralmcnte se detém muito em grandes obras que,
movimento. In :
4
- .
Futuro postado* op. cat., p. 41 60
BRUNNER , Otto; CONZE, Werner; KOSELLECK, Reinhart . GeuhUhtlidit
de fato, s ão representativas mas que se elevam muito acima das cabeças". Freyer toma como
Gruitdbtg/ iffe. exemplo a ser segutdo o eítiido de 1927 de Bernhard Groethuyseo , sobre a formação da visã o
Historisches Lexikonzurpolkisch - sozlalen Sprache in Deutschland , 8 voh , Stuttgart de mundo burguesa na Fran ç a , o que ele caracteriza como uma “ história do espí rito an ó nimo"
: Klett-
-
Cotta, 1972 1997; HOFFMANN, Stefan-Ludwjg. Rdnhatt Koselleck (
1923-2006): The baseada em "sermões, livros did á ticos, cartas, literatura recreativa, documentos do cotidiano
.
Conceptual Historian . Gentian History, v. 24 , n 3, p. 475 -478, 2006 (cit . p 476).
. casualmente obtidos’ *. FREYER, Hans. 7><m<í da tpixa atual. Rio de Jaueiro: Zahar, 1965, p. 74.

12 13
O coNcero oç Hí STóíL\ IB PMJ Á.QQ

*
Salta aos olhos, em todo caso, que o segmento moderno da ao longo do século XVIII mudan ç as fundamentais ocorreram nas
formas de experiência e representação do tempo. Tais mudan ças,
y?
história do conceito de história parte de urna perspectiva alema tS
destes problemas, o que nao é de espantar, posto que o verbete se evocadas pela palavra-chave "temporalizaçao ” ( Verzeitlichung ) , se
insere numa obra de referê ncia dedicada a dar conta da história da
«* relacionam , por exemplo, à crescente disjun ção entre experiê ncias
e expectativas alimentada pela difusão da percepção da aceleraçã
linguagem sociopolí tica no espaço cultural alemã o. Recentemente, o
tal orientação deu azo ao surgimento de uma consistente cr ítica à a£ do tempo; à abertura do futuro, dantes fechado nos quadros de uma
tese-chave de que nas décadas finais do sé culo XVIII o conceito •Jf concepção escatológica de história; ao reconhecimento da natureza
êt
de histó ria teria ganhado a forma de um singular-coletivo, com a %i perspectiv ística da apreensão da experiê ncia ; à ê nfase no cará ter
absorçã o pelo termo germâ nico Geschichte das principais camadas de 4 individual dos sujeitos históricos; à admissão da "produtibilidade ”
.
significado relacioná veis ao termo história Uma importante matriz * ( Machbarkeit ) do processo histó rico; ao enfraquecimento do padrão
dessa cr exemplar de justificaçã o da historiografia. Todos esses e muitos
11
ítica é a demonstração feita por Jan Marco SawilJa de que no
espa ço lingu ístico francês o termo histoire já era , no ú ltimo terço do X outros processos são muito bem apresentados e analisados no verbete,
século XVII , comumente mobilizado na forma singular para conotar, $ e com uma abrangência e profundidade que, parece-nos, ainda nã o
:.sM
às vezes até mesmo simultaneamente, tanto o conhecimento histó- tê m rival na literatura especializada .
rico como a realidade dos acontecimentos passados. Com base em •s

citações de autores como Jean Bossuet, Jean Racine, Saint-Real e II.


Fontenelle, SawilJa busca refutar a interpretação de Koselleck de que :s
o velho conceito de história teria adquirido o cará ter de um conceito
•I Projetos coletivos das dimensões do lé xico dos conceitos po-
l í ticos só podem ser realizados com uma incomum disposi çã o para
>
A
coletivo-singular apenas no bojo das transforma ções da Satteízeit 9
A partir desses e de outros argumentos, Sawilla sugere que os elos o trabalho em conjunto , abdicando o$ envolvidos de veleidades
entre a história da palavra história e a história da ideia de história , .
"autorais” 12 Isso n ã o significa que na confecçã o de cada uni dos
t ão bem amarrados no texto de Koselleck, "precisamser desfeitos ” .10 .u
Decerto, a cr ítica de Sawilla coloca em questão um aspecto 1
, l JUNG, Theo. Zelchen des VtrfaUs, Semantischc Studien zur Bntstehung dcr Kulturkritik
importante da tese de Koselleck, nomeadamente, o de que a lí ngua .
Jra 18. und fiuhen 19 Jahrhundcrt . Gtíttíngen: Vandcnhoeck & Ruprecht, 2012, p. 68;
alema teria sido pioneira na disponibiliza çã o de um conceito coleti-
. 5

. .
STOCKHORST, Stcfanic Novus ordo temporum Reinhart KosclJccks These von
der Verzeitlichung dei Geschichtsbev/ uBtse í m dutch die Aufkl á rungsliistor íographk in
.
vo-singular de história Mas aqui seria sem dúvida apressado deitar £ .
methodenkritischec Perspektive. In: JOAS; VOGT (Hrsg ) Btgriffene Gtuhkhte, op. cit , p. .
:i . .
359-386 (cit. p. 379); FULDA , Daniel Rex ex historia Komodienzeit und verzeitliehte Zeit
.
fora o bebe junto com a á gua do banho e simplesmente afirmar que . -
In ‘Minna von Barnhdrn* DasachtzehntcJahrhimderi, v. 30, n. 2 , p 179 192, 2006 (cit p. 182):
. '
a tese central do verbete não mais dispõe de potencial explicativo. “ Von SawilUs Kritik bcuoflcn ist niche dieTemporalisieruugsthesc Insgesamt , sondem mu’
ihre Stutzung dutch Kosellecks Kollektivsingular 'Gejchichce ' ” .
Afinal de contas, continua, hoje como ontem, sendo inegável que Um depoimento do sociólogo í rancêsjulien Freund , por ocasiao do aparecimento do primeiro
volume do l éxico, nos d á uma vaga ideia do modus operatuil estabelecido pelos editores. Depois

SAWILLA, jan Mateo. ‘Geschichte*: Kin Produkt dcr deutschen Auflclarung? Eine Kritik
J de presenciar algumas das reunites de trabalho do grupo na Alemanha , Freund escreve que
com os pesquisadores encarregados de redigir o verbete Poder "estavam reunidos historiadores,
5

an Reinhart Kosellecks BegrifFs dcs 'Kollektmingulars Geschichte’. Zeitsehtjftfile hhtcrisehe


i .
sociólogos, filó sofos, economistas, juristas, cientistas pol íticos , te ó logos , etc (cerca de vinte e
,
.
Forschunfr v. 3t , p. 381- 428, 2004 (cit . p. 388 -394) !i . -
cinco pessoas). (.. ) Seguiu se um grande debate e uma confronta çSo que podia se basear na
maior parte, em um volumoso dossi ê composto de trechos fotocopiados de dicion á rios latinos,
10
SAWILLA , Jan Marco, ‘Geschichte’: Bin Produkt der deutschen Aufklá rung?, p. 419. Ver > .
alero àes, ingleses, franceses, italianos, etc , c que tratava do conceito do sé culo XVI a nossos
també m: SAWILLA , Jan Marco. Geschichte und Geschichten zwischon Providenz und .
dias Assim , foram reuni õ es de trabalho em equipo que permitiram ao autor designado para o
Machbarkeit. Oberlegungen zu Reinhart Kosellecks Semantik historischcr Zeiten. In:JOAS, !
• .
verbete obter o maior nú mero possível dc dados eruditos , liter á rios o cient íficos" FREUND,
Hans; VOGT, Peter (Hrsg.) Begtijftm Gnthithlt. Bcitrage zuro Wcrk Reinhart Kosellecks . .
Julien. Compic rendue de 'Geschíchtlichc GrundbegriftV Remte PtanfaUe de Socichgie, v. 15
,
-
Frankfurt am Main: Suhrkamp, 2011, p. 387 422. t . -
n. 2 p 287 289, 1974 (aqui p. 287-288) .

14 15
i '
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i O CONCHO 02 H-4T0S.'A i
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PfcEf ÂOO

i ví
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verbetes as preferencias e opções individuais tenham sido simples
mente eliminadas, nem que na distribuição das tarefas executadas
- n ã o se prestava fosse ao entendimento do presente, fosse ao das
pelos editores-chefes tetilla havido um perfeito equilíbrio. Se é •T instituições jur
ídicas e sociais da Idade Média ,
a Sv: Nesse sentido, foi particularmente influente para o léxico a sua
Koseíleck, indiscutivelmente, que se deve atribuir centralidade na 3
concepçã o geral dos Geschichtliche Gmndbegiifjc, in ú meros comenta rr tese a respeito de uma transi çã o epocal na histó ria do continente
ristas têm sido levados, porém, a ignorar a real importâ ncia de
- europeu . O conceito de “ nova Europa ** ganhara força no â mbito
Otto T- do pensamento nacional-socialista . Brunner adere a ela, desenvol-
Brunner e Werner Conze. Ocupemo-nos agora com algumas das

&
razões que levaram estes dois historiadores a dividir a editoria do vendo, por oposição, a noçã o de “ antiga Europa ” : nada menos o
íl
léxico com Koseíleck e com a influência por eles exercida sobre a espaço de tempo que se estende de Homero a Goethe , Brunner
arquitetura geral do projeto. propõe, assim, um esquema evolutivo tripartite: “ antiga Europa ” ,
Dos três, Brunner era , no começo da d é cada de 1970, o mais -P
“ era limítrofe” ( Schwellenzeit ) e “ sociedade moderna *'. Reinhard
conhecido. O já septuagen á rio medievalista austr Blã nkner acredita ser essa a concepção de fundo do léxico: “ sem
íaco não assumiu V a antiga Europa de Brunner [...] nem a Sattelzeít , nem o léxico
praticamente nenhuma tarefa organizacional importante na ediçã o *í
Geschichíiche Grimdbegriffe poderiam ser pensados” .15
do léxico, tendo aportado um ú nico verbete: "Feudalismo” 3 Se essa
' . 4r
Ao lado de Koseíleck, o grande animador do léxico de con-
muito modesta participa çã o se deveu à idade, a alguma idiossincra
sia pessoal ou a um possível constrangimento de natureza pol í tica ,
- 1Í
:P:
ceitos fundamentais é Werner Conze. Personalidade admirada
34

por amigos e alunos , Conze vinha de uma família do chamado
é uma questã o ainda em aberto. Em todo caso, a importâ ncia de =
Brunner se d á em outro plano, Seu livro Tena e dominação (1939) Bildungsbiirgeríum ~ o segmento da burguesia alemã mais direta-
é um clássico da moderna história dos conceitos e pode talvez ser s.. mente afeto à educa çã o e à cultura. Seu avô , o arque ólogo Ale-
considerado uma das primeiras tentativas bem-sucedidas de se in VS xander Conze, tinha sido aluno de Leopold von Ranke. Como
corporar o pensamento político-jur
-
ídico de Carl Schmitt à historio-
S
.Ü :
Koseíleck , Conze lutou e foi ferido na Segunda Guerra mundial .
grafia . À inova çã o teó rica e metodológica assim promovida se liga, Ambos tinham ainda em comum seu ceticismo em rela çã o à fun ção
.AD-

emancipatória que a geraçã o do maio de 1968 atribu ía à ciê ncia


porém, e de forma indissociá vel, uma inegá vel Belastmg polí tica
Sabe-se que desde 1937 Brunner estava entre os que acreditavam no
. 3
4 histórica. Para Conze a grande ruptura moderna se dera com o
advento de uma “ nova realidade ” na Alemanha ap ós a ascensã o do aparecimento de uma cesura e uma crescente polariza çã o entre
nacional-socialismo. Em consonâ ncia com Schmitt, ele constatava í. Estado e sociedade a partir de fins do século XVIII. Até então,
o esgotamento dos conceitos fundamentais at é então vigentes.14 Essa um nã o se dissociava nitidamente do outro . Com a Sclnvellenzeit,
á
convicçã o é projetada em Terra e dominação, onde se afirma que o
aparato conceituai do século XIX deveria ser “ destruído” porque

3
3 Freycr empregou o neologismo ZtitecfavtlU * praticamente idê ntico à SthwelUnzeil de Brunner.
$ Infelizmente n ü o nos foi possível verificar qual dos dois autores teve preced ê ncia nesse caso.

11
Dentre os aurores que escreveram verbetes para o lé xico, apenas vinte contribu í ram com mais
de 100 p á ginas . A lista é encabeç ada pot Conze e KoseUeck (nesta ordem)
Die ’ Geschichtliche GrundbegrifiV. Von der Begriflsgesehichte zur Thcorie
. DJPPER, Christof.
1í Cf. BLÃ NKNER , Reinhard . Bcgriffsgeschkhte in der Gcschichmvissenschaft Otto Brunner

.
*

101-107 2012 (cit . p. 106); SCHULZE, Winfcied. German historiography from the 1930 to
the 1950’s. In: LEHMANN , Harcmut; MELTON, James (eds.) Paths of continuity. Central
.
und die Geschichtliche Grundbegrifie. Fotnm lntirdiszipUndre 8egrijfsgesd\i( htet v I , n. 2, p.

Zeiten. In : JOA $; VOGT (Hrsg.) Begrijftne Gothithlt, op. c í t, p. 297.


der historischen
i eu rope an historiography from the 1930’$ to tho 1950’s. Cambridge: Cambridge University
Press, 1994, p. 40. Naimrodu çJoao primeiro volume do léxico, Koseíleck afirma que o objetivo
M O topos d ? “ nova realidade ” é analisado por OEXLB, Otto Gerhard
— . Wirklichkeit - Kiise der
Wirklichkeit Neue Wirklichkeit, Deutungjmuster und Pmdigmenkampfc in derdeutschcn
Wissenschafr vor und nach 1933. In: HAUSMANN, Frank Rutger ( Hrsg.) D/e Rolle der
-
i
§
ali perseguido era o de investigar o "desaparecimento do mundo antigo c o surgimento do
mundo moderno” . KOSELLECK , Reinhart . Einleiiung. In: BRUNNER , Otto, CONZE,
Werner ; KOSELLECK Reinhart . ( Hrsg.) Geuhtdiittclte Cnwdiegrlffc: Hhtorisches Lexlkon
-
Grhteswiutmdiafun im D/ itten Reiá 1933 1945. M ü nchen: Oldenburg, 2002, p. 1 20.
- $
:ê . .
zur poHtisch -sozialen Spraché in Deutschland , v. 1, Stuttgart: Klett-Cotta , 2004 , p xvi

16 l 17
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j: O cONano D£ Hsr
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surge a “ sociedade ” . Conze pretendia compensar analiticamente 1 É com razão que se costuma sublinhar a ascendência da socio-
I logia dos conceitos de Carl Schmitt sobre os editores do lé xico.
18

ji . ; essa divisã o ao promover uma aproximaçã o radical entre ciê ncia


hist ó rica e sociolog í a. I Curiosamente, pouco tem sido escrito fora da Alemanha sobre uma
j: i
Sua carreira se inicia na chamada Ostforschungy campo de I figura n ão menos influente que Sclnnitt naquele contexto o já
citado Plans Freyer. Da obra desse brilhante sociólogo e historiador,

j:
pesquisas dedicado ao leste europeu e sobre o qual pairou , por
muito tempo, a pecha de ser urna especie de ciencia auxiliar do
I Brunner assimilou o princípio segundo o qual os conceitos usados
expansionismo alem ã o. Estuda sociologia em Leipzig, tendo como
mestres o historiador Hans Rothfels e os sociólogos Hans Prcyer
I por um campo do conhecimento sempre estão “ historicamente
impregnados” , de que “ mesmo os conceitos mais gerais (...] têm
e Gunther Ipsen . 16 Conze se tornou assistente de Ipsen e escreve $ em si este elemento hist órico ” . De suma importâ ncia para Conze
seu doutorado sobre unia comunidade de lí ngua alemã na Livônia. I foi a tese de Freyer (desenvolvida em obras da década de 1930 e
Depois de aprender russo e polon ês, prepara sua tese de acesso à I<
• 1950) a respeito do surgimento moderno da oposição entre Estado
cá tedra ( Habilitation ) sobre a estrutura agrá ria e populacional da 1 e sociedade , assim como da “ ruptura histórico - universal de primei -
Litu â nia e Bielorr ú ssia. Esses trabalhos n ã o acompanham a tradi - ra grandeza ” ocorrida na passagem entre os séculos XVIIl XIX.
19
-
ção de alta contamina ção ideológica e geopolí tica da Ostforschung. -5
p
Apontado por WinfHed Schulze como um dos mais influentes livros
alemães da década de 1950, a Teoria da época atual (1955) de Freyer
Em 1938 Conze chega a ter um artigo vetado pela Zeitschrift fií r s

Volkskunde porque havia sido demasiado isento em suas an á lises.17 foi adotado por Conze como o ponto de partida dos trabalhos do
Mesmo num ambiente intelectual pouco favorá vel , ele se abriu à I Grupo de Trabalho em Hist ó ria Social Moderna Nessa obra , Freyer .
influ ê ncia da sociologia norte-americana e posteriormente à obra subscreve inteiramente a visã o de Karl Lõwith sobre a filosofia da
de Fernand Braudel. Em 1965 funda o Grupo de Trabalho em % história como uma forma de escatologia secularizada , e que sabemos
ter exercido forte influ ê ncia sobre Koselleck.
20
Histó ria Social Moderna, no qual Koselleck tomará parte entre :4
.
1960 e 1965 Tendo marcado época na historiografia alemã do pós - Não resta d ú vida, contudo, de que foi Reinhart Koselleck o
-guerra , esse grupo publica nada menos que 43 livros entre 1962 e :• v
£
grande propulsor do empreendimento de organização do léxico
1986 . A primeira incursã o de Conze pela hist ó ria dos conceitos se S de história dos conceitos na Alemanha ao qual o texto do verbete
dera antes, num artigo de 1954: “ Vom ‘PobeP zum ‘Proletariat ” , “ Geschichte , Historie ” foi originalmente destinado. Por isso, será
em que mostra quais processos sociais est ã o por detr ás da gradual 1 importante considerar, com especial aten çã o, a sua trajet ória bio -
gráfica e acad êmica.
s*
substitui çã o do termo “ ralé” ( Pòbel) pelo de “ proletariado” « A
hist ó ria dos conceitos abre para Conze um acesso novo ao estudo Segundo o pró prio testemunho , Koselleck cresceu num con-
da din â mica histórico-social; ela possibilita um controle lexical
que , com o auxílio da hermenê utica , deveria fundamentar histo-
1 texto familiar em que se valorizavam a leitura , a m úsica , as visitas

ricamente a an á lise cient ífico-social. Koselleck viu nesse estudo -i * lí


As linhas bá sicas de cal abordagem foram desenhadas ainda na d é cada de 1920. Cf, SCHMITT,
de Conze uma verdadeira “ obra de mestre” . Cari . Teohgfa política. Belo Horizonte : Del Rey, 2006 , p . 42- 43.
i;
• i
l) .
FREYER , Hans. La sociolog ía,ciencia de la realidad Buenos Aires , 1944 , p. 23, 108; FREYER ,
Teoria da tpoca aluai , p. 73.
n Tr¿$ tio mes que Koielteck classificou como “ conserva flores e nacional is tas” KOSELLECK .
10
SCHULZE , Winfricd . Deutsche CrschUhtswissenscha/t iiaeh 1945. MU when: DTV, 1993, p .
il 295-297. A import â ncia da visto de Lõwith para Koselleck e as dificuldades da í resultantes
.
Reinhart . Vom Stnn und Unsinn der Gesehichte Frankfurt am Main: Suhrkamp, 2010, p. 324. slo analisadas por JOAS , Hans. Die Konlingenz der Sâ kubrisicrung. Ü berlegungen 2 urn
11 SCH 1
EDER , Wolfgang. Sozialgeschichte zsvischen Sozlologie und Geschiehte . Das Problem derSã kularisierungim Work Reinhart Kosellecks . ln: JOAS; VOGT ( Hrsg.) Bcgnffenc
wisjenschaftlichc Lebcnswork Werner Conzes. Geschiehte und Gescliscluft , v. 13, n , 2, p. 244 - Geschichte , op. cit ., p. 319 -338. Ver també m; OLSEN . History in /Ac Plural. An Introduction
266, 1987 (p. 254). to the Work of Reinhart Koselleck . New York : Berghahn , 2012, p . 21-23.

18 19
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O ccNO/ ro ot HSTó.íIA
m:
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iji a museus, a escrita de cartas , O seu pai foi professor ginasial e de


# a queda do HI Reich havia se tornado “ maldito” , o jurista Carl
institui ções de formação de professores. A mã e , de abastada familia
f Schmitt.22 E com a persona de Schmitt e com o diagnóstico do
jfj burguesa de origem hugenote, fez estudos superiores em francés, :§ mundo politico do século XX por ele desenvolvido que se trava
história e geografia, além de ter se formado como violinista de f o glande diá logo intelectual que estruturou a tese de doutorado
.
concerto Nascido em 1923, Koselleck n ão escaparia de vivencia $
diretamente a II Guerra Mundial. Foi recrutado para a artilharia* I defendida por Koselleck em outubro de 1953 e intitulada Crítica
%f e crise: um estudo sobre a patogénese do mundo burgués 2* .
; -
do exército nacional socialista em maio de 1941 e enviado para a
k Esse trabalho é muito mais do que uma erudita e desinteressada
frente leste de batalha, mas um pequeno acidente na marcha para investigaçã o do pensamento político moderno com foco no desen-
?%
Stalingrado ensejou a sua transferência para operações de suporte A volvimento da crítica iluminista à ordem absolutista. É também,
na Alemanha e na Fran ça , Em maio de 1945, foi capturado pelo f na expressão do próprio Koselleck , urna tentativa de “ explicar a
>
exé rcito sovi é tico e , depois de um curto período de trabalho na
desmontagem de instalações da planta da IG-Farben nos arredores *
1
r
formaçã o da utopia com a qual a sociedade burguesa se rompe” ?4
Trata , assim, tanto do passado setecentista quanto do cená rio presente
.
do campo de concentra çã o de Auschwitz, foi enviado para um Culag
no Cazaquistlo , de onde escaparia , depois de 15 meses, com a ajuda I
£
HS
que se desenhou com o final da II Guerra Mundial. Partindo de
postulados teóricos desenvolvidos por Carl Schmitt ~ como os de
de um médico que fora amigo de um dos seus t ío$~avôs Koselleck . 3$
que a soberania é o poder de decidir sobre o que constitui o caso
teve a vida fortemente marcada pela experiê ncia da guerra e da
derrocada da Alemanha em 1945 . O seu irmão mais velho inorreu
1 excepcional e de que a polí tica é uma arena marcada por um eterno
em combate , enquanto o mais novo faleceu em decorrê ncia de
um bombardeio . Uma de suas tias, que sofria de esquizofrenia , foi
Is
:?
áIS
.-
conflito que não pode ser anulado pela supressão do inimigo, Ko-
selleck pretende chamar a atençã o para a nocividade dos conceitos
estmturantes das ideologias polí ticas modernas. A sua critica incide
vitima do programa nacional-socialista de eutanásia.21
Com essa dupla bagagem fornecida pelo universo cultural
da burguesia educada e pela experiê ncia da guerra e da prisã o
i não somente sobre o nacional-socialismo, mas também sobre os
dois polos ideológicos da ent ão emergente Guerra Fria ; liberalismo
Koselleck iniciaria os seus estudos em 1947, aos 24 anos, na Uni
- i e comunismo. Para Koselleck, a vulnerabilidade propiciada pela afir-
mação de todos esses “ -ismos” configura uma crise política de dif ícil
versidade de Heidelberg. Frequentou cursos de importantes figuras
da vida acad ê mica de entã o, tais como o soci ólogo Alfred We
ber, o jurista Ernst Forsthoff, o mé dico Viktor von Weizsá ckcr,
- in resolu çã o. Tal crise seria o desdobramento de uma maneira utópica
e moralizante de lidar com as coisas polí ticas , iniciada com a crítica
os filósofos Hans-Georg Gadamer, Karl Jaspers e Karl Lõwith
* polí tica no contexto do Uuminismo e cristalizada nas modernas filo-
si
e os historiadores Johannes Kiihn e Hans Rotlifels , Contudo, a f sofias substantivas da histó ria . No diagnóstico schmittiano assimilado
por Koselleck, liberalismo, comunismo e nacional-socialismo seriam
principal influencia sobre o jovem Koselleck n ão seria exercida
:#
por nenhum desses professores; ao contrá rio, por um acad êmico
que no contexto da desnazifica çã o operada imediatamente após 1 22
Schmitt atuou , na prá tica , como um orientador da tese doutoral de Koselleck , ainda que
formalmente a orientação tenha sido assumida por Johannes Kiihn. Sobre 3 rela ção entre
if Kojelleck e Schmitt, ven MEP1R Í NG , Reinhard . BegrifFsgeschichte mit Carl Schmitt. In:
* KOSELLECK , Reinhart ; HETTLING , Manfred; ULRICH , Bernd . Formen der I JOAS; VOGT, ( Hrsg.) Begriffene Geschichte , op. dt; OLSBN, Niklas. Carl Schmitt, Reinhart
Bü rgerlichkeic . Ein Gesprach mil Remhatt Koselleck . In: HETTLING, Manfred; ULRICH , à Koselleck and the Foundations of History and Politics. History of European Ideas , n. 37, p. 197-
BcrrtdfHrsg.) Bilrgetlum nach 1945 Hamburg ; Hamburger Edition , 2005, p. 40 - 60 (cit . p. 46 - A 208, 2011.
52); OLSEN , Niklas. History in tht Plural, op. cit ,, p. 10 - 16; MEYER , Christian. Gedenhredeauf
Reinhart Koselleck . In: BULST, Neithard; STEINMETZ , Willibald (Hrsg.). Rchi Wf Kosdkck
I 11
KOSELLECK , Reinhart . Critica e crise . Uma contribuiçã o à patogê nese do mundo burgu ês .
Rio de Janeiro: Contraponto; Ed . PUC- Rio , 1999.
- .
1925 2006 Reden zur Gedenkfeier am 24. Mat 2006. Bielefeld, 2006, p. 7-34 (cit . p. H- I 2) . 24 KOSELLECK; HETTLING; ULRICH, Formen der Biugerlkhkeit , op. cit . , p. 54 .
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i-
i .
a cat á strofe da Segunda Guerra Mundial O fato é que a história da
. os frutos diretos do utopismo íluminista; donde a importancia de
se estudar este para se compreender aqueles.25 I4 histó ria dos conceitos se inicia muito antes.
i Nos anos I 960, Koselleck daria continuidade à sua reflexão i A despeito de algumas iniciativas no século XVIII e XIX, so-
sobre a natureza e os problemas da modernidade na sua tese de Ha- 4 mente em meados do XX a história dos conceitos iria se emancipar
e adquirir o estatuto de disciplina autó noma , compreendendo-se ,
'
Vi
bilitation sobre a histó ria constitucional e administrativa da Prussia ,s

entre 1791 e 1848, orientada por Conze. Publicada em 1967 , A • ¿si


’ ao longo da maior parte de sua história, como um instrumento
1
heurístico necessário ao desenvolvimento de uma teoria filosófica.
"
Prussia entre reforma e revolução é fruto de uma investiga çã o cuidadosa I Desde a dé cada de 1960 seu programa só fez se alargar, no sentido
em que a abordagem hermenê utica das fontes da época é comple- J
I seja de urna metaforologia , seja de uma tó pica histórica ou uma
mentada com an álises de corte estrutural e estatístico, para produzir
uma histó ria que abarca nao só conceitos polí ticos, mas também a 6
• história dos conceitos científico -naturais. Em nenhum outro campo
interface entre intelectuais, instituiçõ es e atores sociais na Prussia da historiografia se realizou tã o plenamente a concep çã o pioneira
£ .
da primeira metade do século XIX .26
:S
• de Ernst Cassirer da história enquanto um ramo da semâ ntica 28
Logo após publicar este livro, Koselleck se volta para um novo I Mas se o conceito é simultaneamente um fator e um indicador, nem
projeto, desta vez um grande empreendimento editorial coletivo que
% por isso se deve supor que seja capaz de produzir milagres. Como
marcaria época na cena historiográfica alemã da segunda metade do
i sublinhou Gunter Scholtz, a coisa muitas vezes existe antes do termo
.
século XX Em 1967, publica no Arquivo para a história dos conceitos i vV
que a designa - coisas nem sempre são feitas de palavras De fato, .
e como veremos a seguir, a história dos conceitos se coloca como
um artigo , redigido quatro anos antes, detalhando as linhas mestras I projeto e mesmo como uma incipiente prá tica disciplinar antes do
de um “ léxico dos conceitos polí ticos e sociais da modernidade” ,27 $
a surgimento do conceito “ hist ória dos conceitos” . Que a história
que em 1972, por ocasião da publica çã o do seu primeiro volume,
i jamais se esgota na linguagem, é algo que o próprio Koselleck nunca
seria rebatizado como Conceitos históricos fundamentais: Léxico histórico
deixou de ressaltar.29
da linguagem política c social na Alemanha. ‘

i Com seu Léxico flosójko (1726) , o teólogo luterano Johann


Ill Georg Walch foi o primeiro a insistir que o cará ter “ histórico ” dos
1 conceitos deveria ser estudado à parte do seu cará ter “ dogmá tico ” ,
A fim de adquirir uma compreensão mais ampla do significado I de modo a esclarecer os conceitos filosóficos . O esforço de ex-
do léxico dos conceitos fundamentais para a história da historio- % plicação e definição não poderia ser dissociado de uma “ narrativa
grafia , deve-se levar em considera ção a evolução da hist ó ria dos
:v histórica ” dos conceitos e controvérsias filosóficas. Em 1774, Jo-
I hann Georg Heinrich Feder (professor de filosofia em Gottingen) ,
conceitos dos seus primórdios at é a d écada de 1970. Esquivar-se
de tal tarefa significa de$istoricizá-la , reforçando a impressão de que defendia que, para a preparação de um dicioná rio filosófico, seria
essa disciplina é a expressão de um fiat ocorrido na Alemanha após imprescind ível o estudo histó rico daqueles conceitos em torno dos
quais se produziam polê micas. Christoph Gottfried Bardili, em
'
* 1788, elaborou urn programa de pesquisa dos principais conceitos
u DUARTE
. JoJoria .
de Azevedo e Dias Tempo e crise na teoria da modernidade dc Reinhart
¡
5
-
'

.
Koselleck Hist ó da Historiografia , n . 8, p. 70 90, 2012 (cit. p. 81 82); OLSEN, History in
-
. -
the Plural , op cit ., p. 46 48.
'


4
?
. .
n CASSIRER , Ernst Antropologiafilosifiea, México: Fondo dc Cultura Económica, 1992, p 287.
n KOSELLECK, Reinhart. Pitnatti ¿ivistken Reform mid Revolution , Allgemeines Landrecht , n SCHOLTZ, Gunter, Begrifisgeschichte ais historischc Philosophic imd phslosophische Historic.
Verwaltung und soziale Bewegung von 1791 bK 1848. M ü nchen: DTV, 1989, p 17. . 1 liuJOAS; VOGT(Hr$g.) Begrifftm Geuhkhte,op. cit., p.273. Para Koselleck , "Geschichte gehcnie
21
KOSELLECK, Reinhart. Rtchtlinien, op. cit., p. 81 99. -
••

. .
in Sprache auf \ Cf. KOSELLECK , Reinhart Vom Slnn itrJ Unsirtn der Geuhlchfe, op cit., p. 88.

22 23
O COMí mo o* R $rí*iA

filosóficos. Para Baidili também era importante investigar a presenç a


*mf ®r .
Ptíf ÁOO

individual ou a um anónimo trabalho de elaboração coletiva. Ela


dos termos filosóficos na linguagem cotidiana , na literatura e ñas mi permitiria avaliar em que medida a linguagem técnica dos filósofos
religiões. Helmut Meier identifica um evidente “ sotaque hist órico é
,'
| conceituai” percorrendo essas diversas obras, 30
- :**
e a linguagem do mundo da vida são mutuamente permeáveis. Eu-
cken percebe também a grande importâ ncia de se articular dinâ mica
Em 1806, é a vez de Wilhelm Traugott Krug, sucessor de Kant .' M .
liistó rica e din â mica conceituai: “ toda grande transformação da vida
| em Konigsberg, estabelecer seu plano de um Dicionário histórico í tico -cr i histórica faz com que conceitos e termos de cí rculos limitados se
1r
ciajilosofia nestes termos: “ Seria muito instrutivo caso houvesse um tomem o$ da coletividade ” .33 A história dos termos e conceitos fi-
dicioná rio dc todos os conceitos e proposiçõ es ( Satzen ) filosóficas » :-!i4*;
r losóficos espelha, assim , o movimento da história humana .
que os colocasse em ordem alfab é tica e indicasse suas origens , evo- 8 Para os argumentos de Eucken , tão ou mais importante que
lu çã o, transformações, contestações e defesas, deturpa ções e retifi-
& a de Trendelenburg foi a influência de Gustav Teichmü Uer, autor
ca çõ es, com indicaçã o de fontes, autor e das épocas at é o momento
de Estudos para a história dos conceitos (1874) e dos Nonos estudos para
atual ” .31 Em seu Do conceito da história da filosofa (1815) , Christian
a história dos conceitos (1876-1879) . TeichmüUer via na Geschichte
August Brandis chega ao ponto de conceber a história da filosofia v

der Begriffe a pré- condiçã o para o progresso da filosofia , na medida


como a história dos conceitos filosóficos. a
•if-
em que seria capaz de revelar os caminhos por meio dos quais um
Nao obstante todas essas declara ções de boas inten çõ es, na pri- dado conceito ascende à condição de “ conceito fundamental” . Para
meira metade do XIX a história dos conceitos se limitou a poucas x esse fim, a hist ó ria conceituai deveria levar em conta nã o apenas
iniciativas isoladas, n ã o chegando a conhecer nenhum empreendi- &
o estudo dos estados de consciê ncia individuais daquelas pessoas
.
mento sistemá tico Em 1870 , enfim, Friedrich Adolf Trendelenburg
*
V;
que formulam os conceitos, mas també m as “ condições sociais, da
- autor cujas marcas se fizeram sentir no pensamento de Dilthey - Ty
atmosfera religiosa e polí tica” em que isso acontece. TeichmüUer
escreveu uma história do conceito filosófico de “ pessoa ” . Com isso, concebia a história conceituai como uma tópica cronológica. Depois
Trendelenburg pretendia entender por que o conceito de persona, i de lecionar na Universidade de Basileia entre 1868 e 1879, decide
que para os antigos evocava uma m áscara, mera aparência, assumirá *
$
retornar à Alemanha. Os principais aspirantes a sua sucessã o sã o
mais tarde, com e a partir de Kant , o sentido daquela inst â ncia que -
£v ningu é m menos que Nietzsche e Eucken , sendo este (um ex-aluno
expressa a essência moral do homem 32 . de Teichm ü Uer) o escolhido.
O impulso decisivo só vem em 1872 com RudolfEucken, que -Í

i -
A O fracasso de Nietzsche significou , curiosamente » a continui-
ambiciona editar um léxico histórico da terminologia filosófica. Se-
dade do desenvolvimento da hist ó ria dos conceitos a partir de seu
guindo de perto as concepções de Trendelenburg, Eucken entende ?!
Vi
berço su íço. De fato, na virada para o século XX, diversos estudos
que a história dos conceitos não deve ser uma coleção de curiosidades,
mas revelar “ a história interna de cada termo específico ” . Somente <
histórico-conceituais viriam atestar a influ ê ncia do programa esta -
belecido por Eucken. Sua História e critica dos conceitos fundamentais
a pesquisa liistórico-conceitual estará em condi ções de decidir se
da atualidade (1878) passa a se chamar, na segunda ediçã o (1893), Os
um determinado termo filosófico deve sua origem a um ato criador
; conceitos fundamentais do presente e se estrutura a partir de uma série

II
-
de pares antit é ticos: subjetivo / objetivo; a priori / a posteriori; monis
3a
Estasc çSo it baseia ampla mente em MEIER , Helmut. Begriflsgeschichte. in: RITTER ,Joachim mo /dualjsnio; orgâ nico/ mec â nico; te óí rco/prá tico; imanência /
(Hrsg.) Hittõíruhes WttUtMt dir Phitowphie (vol. 1). Basel: Schwabe, 1971, cols. 788-808. transcendê ncia , etc.
. .
Apud MEIER Begfiffesgeschichtc, op clt., col. 792.
I
Publicado postumamente TRENDELENBURG , Friedrich. Adolf. ZurGeschichte des Wortes >.
Person. - . -
Studiett , v. 13, p. 1 17, 1908 (clt. p 3 4). u Apud MEIER, Begriftesgescbichte, op. cit, col. 795.
;i

24 25
O CONCOTO CE HtSrÓííA ife
Mm ir '
PkltAOO

Sí . - '

il Na introdu ção de seu livro » Eucken diz que os conceitos sr \



Guerra, lugar de destaque cabe a Erich Rothacker. Rothacker
“ nã o são filhos do momento, mas se enraízam no passado ” . Não se 0' :;
/ * iniciara seus estudos de filosofia em Kiel e ainda na gradua ção
l:É!¡ pode falar em história do conceito enquanto um de seus elementos
centrais se mant ém constante na diacronia , A tarefa da história do
M -
:
percorrera os livros de Karl Lamprecht e Kurt Breysig, os mais
controvertidos representantes da história cultural na Alemanha de
;{
tSf
fins do século XIX. Entre o$ professores que o marcaram estavam o
'
I Mr

.' : conceito estaria em identificar quais seriam esses elementos centrais


;;
• :
invariantes, Mas Eucken reconhece a historicidade dos conceitos e, m:
m sociólogo Ferdinand Tõnnies, o historiador da arte Carl Neumann
Vi':
portanto, a necessidade de adequ á-los ao tempo presente, a essa “ era Mt
V: e , em especial , o filósofo Max Scheler. Em sua tese de doutora-
l. f dos jornais di á rios e de má quinas” . Insistindo num ponto que será mento, concluída em 1911, Rothacker se dedicou ao pensamento
igualmente sublinhado pela gera çã o seguinte de historiadores dos M histórico de Lamprecht . Para a tese de Habilitation, se transfere para
! i conceitos, ele percebe com clareza a indissociabilidade entre experi- m Heidelberg e escreve uma Inlroduçdo às ciências do esp írito que é, em
Ií ê ncia histórica e vocabulá rio filosófico: “ uma intangível quantidade m Larga medida , uma história da escola histórica alemã. O trabalho
i! de novas experiências implodiu , junto com as antigas formas, os --u
:n n ão deixa de ser notado por historiadores de prest í gio como Georg
i\ antigos conceitos” . Assim, “ nao surpreende que hoje se negocie e .
M
vs
.
von Below e Friedrich Meinecke Em Heidelberg, cidade que viria
discuta tanto por causa de conceitos!” 34 É importante observar que a se tornar um dos principais centros irradiadores da história dos
Eucken fala em Geschichte des Begriffes e em Begriffsforschung. conceitos em sua acepçâo atual, Rothacker chega a atuar algum
Em 1899, surge o Dicion ário de conceitos filosóficos, do filósofo 1 tempo como Privatàozent > mas seu caminho à cá tedra não parece
'

austríaco Rudolf Eisler. Em sua segunda edição se lê que “ o objeto M muito promissor na “ aldeia mundial” de Baden.
; : deste dicioná rio é a histó ria , baseada nos escritos dos filósofos , dos I Em 1926 publica sua Lógica e sistemá tica das ciências do espírito,
f conceitos e expressõ es filosóficas” . Seu objetivo expresso era “ dar Ia

em que manifesta uma primeira aproximaçã o em rela ção à antro-
a conhecer esta mudança no sentido dos conceitos e expressõ es, pologia filosófica. Corno a obtençã o de um cargo universitá rio
esta altera çã o de quantidade, qualidade , valor e conteú do concei-
i
• V n ã o se apresentava ainda como uma possibilidade real, Rothacker
tuai ” . Para Eisler, seu dicioná rio “ de forma alguma pretende ser ou
substituir uma histó ria da filosofia ” , mas apenas “ completá-la ” , 35 A
I vê sua grande oportunidade na inten ção anunciada em 1927 pela
“ Sociedade alemã de apoio à ciê ncia” de editar um grande dicioná-
despeito de toda essa aparente sofistica ção, posteriormente se cri- IM rio filosófico cultural . Rothacker abra ça entusiasticamente a ideia .
-
ticou essa obra por se concentrar principalmente em definiçõ es e U Ele elabora um projeto no qual esse dicion á rio deveria se estruturar
em tomo de conceitos filosófico-culturais fundamentais e de uma
] :
na tentativa de solucionar problemas filosóficos, ficando o trabalho
especí ficamente histórico-conceitual praticamente obliterado. 1 concepção auténticamente interdisciplinar, uma vez que “ todo o
: trabalho de esclarecer filosoficamente os conceitos fundamentais
IV. b não dá em nada caso a filosofia não $e mostre capaz de colocar seus
conceitos numa rela çã o viva com os conceitos fundamentais da$
S*

Na transição entre essa titubeante primeira gera ção de trabalhos ci ê ncias específicas” .36 Em abril de 1927 esse projeto é enviado ao
i?
em hist ória dos conceitos e a que tomaria forma depois da Segunda
-

ministé rio da educaçã o. Para concretizá lo, Rothacker acreditava ser


v;
necessário fundar um instituto de pesquisa nos moldes dos Institutos
il
.
BUCKEN, Rudolf. Die Grundbegriffe der Gegtnwri Historisch und Kridsch Entwickeh . I
.
Leipzig: Veit & Comp., 1893, p 7-12.
. .
beatbtiUt.Berlin: Ernst Siegfried Mittler und Sohn , 1904, v I , p. iii vii
. - .
-
EiSLER , Rudolf Vorwort in; Wdrierbueh der philcsoyhiichcn íf egrtjfc historií ch qndktinirisflg ! ;?
.
Cludo por STÕV/ ER , Ralph. Etlch Rothacker Sein Leben und seine Wmensctuft vom
.
Menschen. Bonn: Bonn University Press 2012, p. 97.

j
26 I 27
r j .
O CCNaflQ OE H> 5 l 6?JA
wy
0
Psy Acó

S¿K'

, Kaiser-Wilhelm (atual Sociedade Max Planck ). Seu intento era in- m-.::
m
M:: razão ” . Insiste na importâ ncia de se explorar os conceitos filosófico-
j! i crementar o contato entre as diferentes disciplinas nas humanidades m
m culturais fundamentais e sonha com algo das dimensõ es da grande
j: e, simultaneamente, preparar o léxico em conjunto com urna equipe m enciclop édia protestante Religião na historia e no presente. Rothacker
M
i1 sob seu comando. Tal empreendimento, acreditava , seria condiçã o m toma o exemplo das obras de Troeltsch, Heussi e Meinecke para
iii necessá ria para se chegar a uma “ ciê ncia do homem ” assentada em mostrar que, nao obstante sua importancia , elas n ã o bastavam para
¿ I bases histórico -culturais e antropológicas. Seus planos, entretanto, mm se obter uma visã o ampla da história e do significado do conceito
n ã o sensibilizaram as autoridades educacionais prussianas. Ralph ;í
m > de “ historicismo” . Em ultima inst â ncia , o Arquivo deveria fornecer
Stower acredita que se tenha visto na ideia do léxico e do instituto as bases sobre as quais se erigiria, mais tarde, um grande dicionário
algo além das possibilidades de um pesquisador que sequer chegara -
- KS

&,
V de conceitos."10
.
à cá tedra ainda 37 Com sua nomea çã o para a Universidade de Bonn m
m Simultaneamente a esses movimentos de Rothacker, davam-se
em fins de 1928, Rothacker passa a se dedicar a outros temas, mas \
il os primeiros passos para o surgimento do primeiro e mais ambi-
fe
o desejo de levar adiante o dicioná rio permanece vivo. •• cioso l éxico de história dos conceitos do p ós-guerra: o Dicionário
jí Ainda que sejam evidentes os sinais de sua aproxima çã o com •a histórico da filosofia ( Historisches Wôrterbuch der Philosophic ) . Em 1957,
o regime nacional-socialista , Rothacker n ã o enfrentou maiores ü a editora Schwab , de Basileia, adquire os direitos do dicioná rio de
j
problemas para reiniciai sua vida acad êmica ap ós 1945.38 J á nos
*
-Ai
T ?
Eisler com a inten çã o de fazer uma reedição atualizada . Dois anos
anos posteriores ao fim da Segunda Guerra , ele percebe que há um depois, o projeto é assumido pelo filósofo Joachim Ritter. Ritter
clima favorá vel à retomada do seu antigo projeto. A partir de 1949, Jí coloca como condição que o trabalho seja realizado em conjunto
-
tenta viabilizá-lo através da recém fundada Academia de Ciê ncias com alguns de seus alunos na Universidade de Mü nster. Do grupo
.
de Mainz 39 Em 1955, finalmente funda o prestigioso Arquivo para a •; yr
inicial fazem parte, alé m do pró prio Ritter: Hermann Lübbe, Odo
história dos conceitos , primeiro periódico especializado nessa á rea . Para .‘¥fi Marquard , Robert Spaeniann, Karlfried Grü nder (que assumirá
[ •
A Y
m
-

Rothacker o dicioná rio de Eisler se limitava a um amontoado de Í V¡


r-751 a editoria depois da morte de Ritter), Ludger Oeing HanhofF,
cita ções e n ã o oferecia uma “ história do conjunto da terminologia Heinrich Schepers e Wilhelm Kambartel. Um protocolo de urna
relativa à filosofia e is visões de mundo [que fosse] realizada com
i das reuniões, realizada em 13 de agosto de 1959, mostra que nao
%
esmero histó rico -filológico ” , A nova história dos conceitos deveria
i se buscava apenas uma atualiza ção , mas urna total reestrutura çao
do antigo dicioná rio de Eisler. O novo lé xico deveria fugir das
aliar o rigor da pesquisa histórica à tradição da história dos problemas
(que remontava às pesquisas em hist ória da filosofia de Wilhelm
Ii definiçõ es até entã o existentes, inclusive da influ ê ncia de quaisquer
Windelband) , abrindo espa ço nã o apenas para a inova çã o no campo *
1
“ doutrinas” , com vistas a produzir “ uma hist ó ria dos conceitos a
partir da história lexical” .41
da história das ideias, mas também para uma “ aprofundada crítica da
1• Entre fins de 1959 e inicios de 1961, ainda durante os trabalhos
3 preparatórios, Ritter e seus alunos tentam trazer Hans-Georg Gada-
57
ys
.
STÕ WBR , Erieh Rothctcktr ©p. cu., p. 100 .
Embora tenha declarado num question á rio preparado pelas forç as de ocupaçio aliadas, em 19*16,
3_
!
mer (então presidente da “ Comissão de Investiga ções em História
que “ a pol í tica es t á , dentre as coisas que me interessam, quase no 12° lugar” , sabe -se que na d écada

i dos Conceitos da Sociedade Alemã de Pesquisa ” ) para o grupo, na
de 1920 Rothacker se sentia pr óximo do campo conservador. Nã o se sentiu atra ído pelo famoso

J)
c írculo intelectual mantido por Alfred Weber e Marianne Weber em Heidelberg, por cons [ der £-!o
.
demasiado liberal e mesmo “ impatrió tico” STÕWER , Eríé Rothacker, op. cit ., p. 53, 78
KRANZ, Margarita. Geistige Kontiauirft? Rothackers Projekt eines begrifTsgeschichtUchen
. i 40

41
. .
ROTHACKER, Erich. Gelcitwort ArchivJúr BzgiijJigtschichU , v, ) > p 5 ~9, 1955.
Citado por TINNER , Walter. Das Umernehmcn ‘Hmorischc Wôrterbuch der Philosophic'.
.
Woí terbu ç hs von 1927 \ md dessen Wiederaufnahme 1949 Forum JnUfdiszipUn ü re
'
•i
.
In: POZZO, Ricardo; SGARBÍ, Marco (Hrsg.) Elm T/ pologic der Formen der Btgiljfsgeschhhle
. -
Re$i{ ffsgesí híchte, v. 1, n . 2, p 46 48, 2012 . ! .
Hamburg: Meiner, 2010, p 10.

28
í
29
í
I
&
i
O CONCITO Oz HlSlÓé-R mm
m ' Psí f Àao

i
% condiçã o de editor-chefe ao lado do pr óprio Ritter. As negocia ções fto :: f entre ciência hist órica e história dos conceitos ocorreu, segundo
da década de 1930, confundindo-se com os
feí !
<) fracassam diante do volume dos honorá rios pedidos por Gadamer e
de sua demanda de que os direitos do dicion á rio fossem passados aos
mm ICoselleck, ao longo
nomes de Rothacker na filosofia, de Brunner na história45, de Cari
mm
Ir editores-chefes , e não à editora Schwab.42 Pato é que ao longo das
décadas de 1950 e I 960 ocorre uma evidente pluralização de concei-
Schmitt na ciência do direito e de Jose Trier na linguística. Significa
dizer: entre os principais inspiradores da virada teórico- metodológica

I
.
tos a respeito da história dos conceitos Em 1965, no seu conhecido
estudo sobre a história do conceito de secularização, Hermann Liibbe
defende a histó ria dos conceitos como uma história do uso das pa-
lavras (Wortgebrauchschichte), vendo nela um instrumento poderoso
«
ssfe-u

w ;:
y vivida por essa disciplina, n ão poucos estavam próximos do espec-
tro maís conservador da polí tica alema do per íodo entreguerras,
quando não do nacional-socialismo. Nas derradeiras páginas de
46

sua Filosofia da História (1934), Rothacker chega a evocar passagens


p
.i
no sentido de lançar luz sobre aquelas crises recorrentes na história Jf de discursos de Hitler com menções à “ mentalidade heroica da ra ça
da filosofia e das ciências humanas, situaçõ es “ caóticas” no uso de nórdica ” e insiste na “ necessidade de apoiar energicamente todas as
m
m
I! determinados conceitos. Ela serviria, portanto, como instâ ncia de
controle e de antídoto em épocas de anomia conceituai.45
Conclu ído em 2007, o Dicionário histórico da filosofí a abarca o w% T
medidas eugênicas” levadas a cabo pelas autoridades Antecipando
47

um argumento que seria empregado por Bmnner cinco anos mais


.

i
• i *
.
universo de 3,670 conceitos Para tanto, foi mobilizado um exército
de 1.500 autores (inclusive um presidente da Rep ú blica: Roman
mm
m
tarde em Terra e dominação, Rothacker afirma que diante da vit
da “ revolu ção nacional-socialista ( ) os conceitos ...
fundamentais
de encontrar a sua confirma ção nos acontecimentos recentes tanto
ória
tê m

íj Herzog), a um custo final estimado em quinze milhõ es de euros. m quanto nos preté ritos” .48 O próprio Koselleck, numa carta enviada
¡
¡;

Ante os outros grandes projetos similares, como o Léxico dos conceitos a Carl Schmitt em 18 de fevereiro de 1961, comenta as razões pelas
-
político sociais na França e os Conceitos históricos fundamentáis , a marca quais “ a irrupção revolucioná ria de 1933 se perdeu ” .45
i
I —
distintiva do Dicionário histórico da filosofia sua força, mas possivel-
ii

.

mente, tamb ém , sua fraqueza radica na não subordina ção a uma


í- tese constitutiva central ou a uma concepçã o unitá ria de história KOSELLECK, Reinhard. Sozialgeschichte und Begriffsgeschicbte. Ia: SCH Í EDER ,
$ Wolfgang: SELLIN , Volkcr (Htsg.) Soziaigeschhhtt in Dettisehhnd , vol. I. Gottingen:
. dos conceitos / 4 .
Vandenhoeck & Ruprecht, 1986 p. 91.
ff < s Da vasta íiteraturasobre Schmitt , cf. a excelente biografia esctiuporMBHRING, Rçinbartl.
V, 1 . .
Çatl sá miit Aufsrieg und Fali. M ü nchen: C. H Beck, 2009. Sobre as rela çõ es de Trier,
s -
Rothacker e Brunner com o nacional socialismo, ver os estudos de HUTTON, Christopher,
.
Lbrguistta and theThirdRíüh London: Rout!edge, 1999, p. 86-105:BÕHNIGK, Volkcr. Hakung,
Esta breve exposição sobre a histó ria da história dos conceitos
na Alemanha e pa íses de língua alemã nao poderia ser concluída sem
1
1
.
Stil , Typos, Kultur Rothackers begrifisgeschichtlicher Bnuvuif einer nationalsoziaBstisehcr
KuhujtheOric. Forum bitenUszlpUnitc Begrijfsgesátihte , v. 1, n. 2, p. 70-82, 2012; MELTON ,

que enfrentássemos uma questã o polêmica, mas da qual nao estamos Janies van Horn. Otto Brunner e as origem ideológicas da Begriffsgcschkhte. In: JASMIN,;
no direito de nos esquivar. O momento decisivo de aproxima ção í .
FERES JR.(Orgs.) História dos «muitos, op. cit., p. 55- 69; ALGAZI , Gadi Otto Brunner .
-h
.
Konkreter Ordnung und Sprachc der Zeit In: SCH ÔTTLER , Peter ( Hrsg.) Gcuhichte ah

§ - .
n ROTHACKER , Erich . GesákhispHilosophie M ü nchen: Oldenbourg, 1936, p. 147 148.
-
Legifimtionswissentihdfi , Í 9 Í & Í 945. Frankfurt am Main; Suhrkamp, 1998, p. 166 203,
-
°
TINNER , Das Untetnchmen, op. eic., p, 10-11.
L Ü QBE, Hermann. SãkufarisUrttng. Geschichtc eines ideenpolitischenBcgíifR Freiburg: Karl
Alber , 2003.
RITTER , Joachim. Leitgedanken und Grundsiitze des Histomchcn Wõrterbuchs der
s

4
« ROTHACKER , Gesákhlsphiksophíe , op, cit., p. 145-
” %..] wacumderrevolution'arc Aufbiuch von 1933 ver spick wurdc", Citado por MEHRING.
Begriffsgeschicbte mit Carl Schmitt , op. cit., p. 151. Sc levarmos em coma que o uso de
Philosophic. Archlvjiir Bcgnffsgeithtehte , v. 1 í , p. 75 80, 1967. Um bom exemplo das vantagens determinados conceitos permite , no interior dc um dado campo semâ ntico,¡mediatamente
-
e desvantagens da ausê ncia deliberada de uma tese “ Corte" subjacente ao dicionirio de Ritter 1 identificar e "localizar" um determinado interlocutor no espectro pol ítico, pode-se imaginar
ê o verbete escrito por SCHOLTZ, Gunter. Gcschichte, Historie. In: ttitforisthes W&rtcrbutk o que significa , sobretudo num pa ís como a Alemanha do pós-guerra, referir -sc â 1933 como
Ser Philosophic, vol. 3. Basel: Schwab, 1974, cois. 344 -398. !:5 uma "revolu ção".
1
30 "í
31
I
*
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r
£ O CONC ÉÍIO Di H>3 TÓ *W PrtMoo
fi . ..
mm
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- V •}
.

Essa associação entre historia dos conceitos e a chamada
“ Revolu ção conservadora ” da Rep ú blica de Weimar e a sua
do campo conservador ? A quest ã o está longe de ser simples, mas

£ continua çã o sob o nacional-socialismo terá contribuido para o imm


@ deve-se sublinhar aqui ao menos um aspecto importante. Uma
das dimensões da vida social sobre a qual o nacional socialismo -
I> : grau de reconhecimento relativamente modesto de que gozou o .
é® atuou de forma programada, e em proporções desconhecidas até

¡
í, projeto do léxico no meio historiogr á fico alem ã o entre as d éca
das de 1970 e 1990 ? Em seu balan ço da historiografia do século
- ent ã o , foi precisamente a esfera da linguagem Um precioso tes- .
: temunho de Ernst Cassirer nos d á uma pá lida ideia do que isso
XX, o papa da historia social da Escola de Bielefeld, Hans-Ulrich •
representou na prá tica . De seu exílio norte-americano, ele escre-
§
i Wehler, procurou inflacionar a influencia de Brunner (a quem
se refere como “ o historiador nazista mais influente até hoje” )
sobre o Grupo de Trabalho em Historia Social Moderna e sobre
# ve: “ Atualmente, se alguma vez acontece que eu tenha de ler um
livro alemao publicado nestes últimos dez anos [...], descubro com

1 os Geschichtliche Gnmdbegriffe, falando ainda em “ contaminaçã o”


1
'
grande surpresa queja n ão entendo o idioma alemão. Cunharam-
se palavras novas, e as antigas são empregadas com um sentido
A do lé xico pelo pensamento de Schmitt .50
1I

ú / novo; sofreram uma mudança profunda de significado” . Cassirer


E rigorosamente irrelevante para a história da historiografia , afirma que “ aquelas palavras que antes eram usadas num sentido
assim como para a história das ciências em geral, a tentativa de descritivo, l ó gico ou semâ ntico , se empregam agora como palavras
valorar a contribuiçã o dos pais fundadores da moderna história dos má gicas, destinadas a produzir determinados efeitos e a estimular
conceitos a partir de crité rios extracientíficos; mesmo porque os
inspiradores da Escola de Bielefeld (Theodor Schieder e Hans Ro
1 determinadas emoções” 52 »

thfels) tinham igualmente pertencido ao campo conservador. Nã o


- Í
:
ríp
Em um de seus mais importantes ensaios, Koselleck postula
M que transforma çõ es “ no meio social ou polí tico se correlacio-
é incomum , na história das ciências humanas, que justamente de nam com inova ções metodológicas” , transformações essas que
autores politicamente conservadores possam advir grandes avan ç os, ..-Ãi
V Ú não raro sao experimentadas de forma relativamente homogé nea
enquanto aqueles situados no campo liberal ou progressista se man-
têm, muitas vezes, firmes na sacralização da tradição. Os nomes de I no interior de “ unidades geracionais ” específicas.53 Tal conex ã o
ilumina bastante bem o nosso problema. Pois nã o resta dú vida
¡ Otto Bnrnner, de um lado, e de Gerhard Ritter, de outro, ilustram de que a gradativa tematiza çã o da linguagem enquanto pot ê ncia
.Ai-:í
esse “ paradoxo ” à perfeiçã o.51 histórico-social , embora já se manifestasse nos trabalhos de diver-
:
A pergunta que se deve colocar - sitie ira et studio - é de outra
natureza: por que a (re) descoberta da linguagem enquanto po-
I 4}
sos autores ligados à “ Revolu ção conservadora ” , ganha impulso
decisivo com o advento do nacional-socialismo e suas iniciativas
é
tência histórico-social foi originalmente realizada por acad ê micos mais ou menos sistem á ticas de criar um vocabulá rio pró prio. E
compreensível que, nessas condições , a linguagem se tornasse
I um dos mais privilegiados campos de an álise histórico-social para
-
WEHLER , Ham UJrich. Ijlstorisches Denken am Ende des 20.JM ¡undens. Gottingen: Walhtcin ,
1
iy

2002, p. 48- 49, Sobró as wnsõcj entte a h í st ó tia social de Bielefeld e a historia dos conceitos, a gera çã o de pesquisadores e intelectuais que viveu a ascensã o e
cf. DIPPER , Die ‘Geschichtliche GrimdbegrifiV, op. cit., p. 304 305.
-
51 Para Koselleek , Brunner c um bom exemplo de como “ interesses cognitivos politicamente
condicionados podem conduzir a novas ideias teó ricas e metodológicas, as quais sobrevivem
1 queda do nazismo. Sinal evidente disso. é que tal movimento se
estendeu inclusive aos crí ticos do regime nacional-socialista , entre
a seu contexto de origem” KQSEtXECK , SozUJgesduchte und Begriffsgescliichte, op,
.
cit ., p . 109 Gerhard Ritter foi um dos poucos historiadores alem ã es de prest ígio que S
$c op ôs resolutamente ao nazismo. No â mbito da disciplina , contudo, st
opôs de forma
igualmente decidida i recep çã o da Escola dos Amt â fcs na Alemanha , tendo ainda criado
dificuldades ao estabelecimento da história social na década de 1950. Cf. SCHULZE , Deulsdte
1 M

w
CASSIRER , Ernst . El mito del Estado. M é xico: Fondo <le Cultura Económica , 1992, p. 335.
. .
KOSEIXECK , Reinhart Erfahrungswatuiel und Methodenwechsel Bine historisch
.
anthropologisehe Sk¡2 ze In: ZeUsMiUn. Studien zur Historik , Frankfurt am Main: Suhrkamp,
-
Gesdikiuswvsett .
í dí aft naeh 1945 , p. 285-289
i ..
s
2000 p 3205.

32 33
éA.
m WM :l
n
£rjg
- L
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O CQNCUro DS HtSTÓfiA
-
mvvvsv .
'

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eles, os pioneiros da chamada crítica da linguagem ( Spmchkrí tik ) :
s Victor Klemperer , Dolf Stenberger , Eugen Seidel e Ingeborg ipr ./
i Seidel-Slotty , e cujas obras, por razõ es óbvias, $ó puderam ser
I publicadas depois de 1945.54 mm
¡a *** m
!.
mm
•. . '
Os leitores de Koselleck sabem que para ele a história - nos
éV ;

dois sentidos do termo - se constr ói numa dial é tica infinita de crise


i
«9
K
e continuidade. Aplicado à historia da historia dos conceitos, esse
princípio se deixa traduzir pela máxima Zukmft braucht Herkunft. Em
-
que pese o uso de uma retórica anti historicista em um ou outro de
m
§
iMs! i seus textos da década de 1960 , Koselleck parece ter evolu ído, em

\.
!
;
i i.

u
\
sua fase mais madura, para uma posição francamente conciliat ó ria a
esse respeito. Ele reivindicará para o léxico dos conceitos as rubricas
de “ historicismo sólido” e “ historicismo reflexivo” .55 Dono de uma
perspicácia e de uma sensibilidade que ainda hoje nos surpreendem,
* m
m
M
I
• :¿
Vi
L!
Sé rgio Buarque de Holanda foi, provavelmente, um dos primeiros
a se dar conta disso. Nos ú ltimos parágrafos de seu grande ensaio À
1!
sobre Leopold von Ranke, publicado em 1974 na Remia de His-
tória , ele comenta o aparecimento dos dois primeiros volumes dos
4
i O conceito de Historia
Geschichdiche Gnmdbegriffe e conclui que a “ notável vitalidade ” ali
f
manifestada era “ uma demonstra çã o de como se pode remo çar, sem t
! tra í-lo, o espí rito da ‘escola’ hist órica alemã ” .56
ã
I
I
;
t il
1
'

5
ii KLEMPERER , Victor. LTl * A UngHtigem do Terceiro Retch. Rio de janeiro: Contraponto,
3j
2009; STERNBBRGER , Dolf; STORZ , Gerhard; S ÜSKIND, Wilhelm. Aus don W ôtUrbtuh
.
des Urttnensrftett Hamburg: Claassen , 1957; SEJDEL, Eugen; SEIDEL-SLOTTY, Ingeborg.
1
6
Spracfnt'á ndtl ¡m Dritten Reich: eine krfc ísche Untersuchung feschistischer Emfíü sse. Halle:
Verlag Sprache und Liceratur, 1961. 4
5i “ Wir befleissigen uns eines soliden Histonsnius” “ reflekderien Historismus” . Citado por
DIPPER, Die 'GeschichtKche Gnmdbegriffe’, op. cit ., p. 290. I
HOLANDA , Sí rgio Buarque do. O atual e o inania!e Leopold von Ranke. In: HOLANDA ,

sjil
51

Sergio Buarque de (Org.) Ranke. São Paulo: Á tica , 1979, p. 60.


34 it'
4
\ t'l
.
£ V

ill!
vi ;
ill
I; i ! :

M:
¡i I Introdução *
. *
OÁ v ::

RewWf Koselleck

v
i .
•í * V:

*
Vi

m:
m
‘ M O fato de “ Historia” ser um conceito histórico bá sico parece
decorrer da própria palavra. Mas a expressão possui sua própria

aii hist ó ria, a qual somente ao final do século XVIII lhe permitiu
. i
Vi ascender à condição de conceito mestre, político e social. Abran-
.\*¿ri í gendo tanto passado quanto futuro, “ a Hist ória” se transformou
>í;
num conceito regulador para toda a experiência já realizada e ainda
a ser realizada. Desde então, a expressão ultrapassa em muito os
M limites de simples narrativa ou de ciê ncia histó rica.
I. -Al '
Por outro lado, a “ Historie” , como conhecimento, narrativa
• s
e ci ê ncia , é um fen ô meno antigo da cultura europeia . Nao h á
a
i
m
duvida de que a narra çã o de histó rias faz parte da sociabilidade
dos homens . Mais: sem hist órias n ão h á memória , n ã o h á nada
m em comum , nã o há autodefinição de grupos sociais ou de uni-
i! T dades de a ção políticas, os quais só conseguem se constituir em
r
•i '
elementos agrcgadores através de mem órias comuns. Esse tipo
SI de “ hist órias” naturalmente n ã o sã o conceitos bá sicos, mas se
• Ni mantê m como narrativa daquilo que estava em jogo numa deter-
minada hist ória. Pode se tratar da história de uma batalha , de um
ato jurídico, de uma viagem, ou de um milagre, do assassinato
• v
de um rei, ou de um amor , Sempre se narra de quem trata e de
ê
f
i que trata a hist ória. At é esse ponto, a expressã o “ uma histó ria ”
i n ão constitui qualquer conceito básico, no m á ximo aquilo que ,
V

* Agradeç o aos estudantes de dois semin á rios por coment á


íí rios, ajudas e correções, em especial
aos senhores Horst Gilnther» Jõ rg Fisch , Rotí R.eichardt e Rejnhaid Stumpf!
1
*

1
. 37
• ! i

m .
O CONCHO 06 H STÔ.Í1*
Mmm: tf /IRCPOÇAO

umB como um somatório de urna narrativa, pode, ao $eu final, ser sub - mm reflete a conscientiza çâo daquilo que era vivenciado como nova era ,
$
Si ;
sumido num conceito,
O fato de que a História se refira à “ própria História ” [ Geschi -
li#
Ijte

justamente naquilo que se considerava como ú nico e diferente de


tudo aquilo que houvera até então. O in ício da Neuzeit , do novo
Ui
chte selbet], e nao a urna historia de algo, constitui uma formulação mm tempo, da Era Moderna , evidentemente, constitui um processo de
í da Era Moderna . Somente assim, pouco antes da Revolu ção Fran- longo prazo, e somente no seu final se encontra o reconhecimento
ív;: i
m cesa , a amiga palavra usual se transformou num conceito central #i do cará ter processual desse período: isto é, a descoberta da “ Hist ória
:

i l
da linguagem polí tica e social.
Esse conceito de “ História em si e para si ” [Geschichte m and
m
#
. •
como tal ” [Geschichte ilberhaupt ] , como resultado do Iluminismo.
Antes disso, existia uma multiplicidade de Histórias, que em
í! :
il
*-
fiirsich] incorporou uma teia de significados, seguidos como trilhas é
m
geral apresentavam similitudes entre si ou que até se repetiam -
i .:
neste texto: a Hist ó ria como acontecimento e sua narrativa , como histórias com alguns sujeitos que agiam ou eram objeto da ação,
;

M
y destino e como informa ção a seu respeito, como providência e
sinal a respeito, todo conhecimento da Historie como coletâ nea #
ou ainda (na narrativa) com objetos determin áveis. Desde o século
XVIII existe uma “ Hist ória propriamente dita” [ Geschichte schle-
u de exemplos para uma vida piedosa e justa, prudente e até sábia. chthin] , que parecia ser seu pró prio sujeito e seu próprio objeto, um
i
.

Iñ Sem renegar todas elas, o moderno conceito de Hist ória articulou


y» sistema e um agregado (como se dizia na época).


muitos dos sentidos antigos. m, Espacialmente corresponde-lhe a Hist ó ria mundial [Welt -
i i'
Em contrapartida , a novidade est á no fato de que o conjunto 1 geschiehte] ú nica, e temporalmente o cará ter ú nico do progresso,
do emaranhado de relações polí tico-sociais deste mundo, em todas
as suas dimensões temporais, deva ser entendido como “ História” .
1 o qual somente com a “ História” foi guindado a conceito - isso
antes que ambos os conceitos fossem se afastando um do outro ,
í[ j Em todos os sentidos em que antigamente se podia evocar justiç a 1 gradativa mente , no decorrer do século XIX ,
Uma das caracter ísticas estruturais dessa nova História é que
ou castigo, violência, poder, provid ê ncia ou acaso, Deus ou o des- II
tino, se podia recorrer, desde o final do século XVIII, à Histó ria .
Novos significados, que antes não se conseguiam resumir
IS ela reduziu a um mesmo conceito a contemporaneidade de coisas
não contempor â neas, ou a nao contemporaneidade de coisas con-
§ linguisticamente num conceito ú nico foram agregados: a História
1
$ temporâ neas — aproximando-se também aqui ao progresso. Isso é .
como processo, como progresso, como evolu çã o ou como necessi- M v álido não só no sentido evidente de que toda e qualquer narrativa
l!
dade. “ História” se transforma num amplo conceito de movimento . traz o passado para o presente, eliminando, dessa forma , as dife-
De outro lado, se abre um novo espa ço de significados: “ His- renç as temporais que tematiza. Muito alé m disso, a realidade da
II História moderna se compõe de uma multiplicidade de transcursos
!
tória” como campo de atua çã o e como a ção, como liberdade. A M
História torna-se planejável, produtível , factível , De “ História” que, pelo calendá rio, são contemporâ neos, mas que pela origem,
decorre também um conceito de ação. As duas variantes - o lado

objetivo e o lado subjetivo , que se excluem mutuamente, conferem
! pelo objetivo e pelas fases de desenvolvimento n ão são contem-
porâ neos. Disso decorrem tensões, perspectivas de retardamento
ao conceito uma ambivalê ncia que lhe é inerente desde ent ão. Sua 1 e de aceleraçã o, distorções e uniformizações, que fazem parte da
utilizaçã o como palavra de ordem, sua suscetibilidade à ideologia
e sua capacidade de critica da ideologia derivam desse fato. II tem á tica de nossa História mundial [ Weltgeschichte] .
A contemporaneidade do n ão contemporâ neo já se delineia
A configuração do novo conceito indica um processo de aden- sI —
na Historie antiga , quando os helenos descobriram a partir de sua
samento de um tipo de experi ência pelo qual se passou no período perspectiva -, entre os bá rbaros, formas de comportamento caracte -
da Revolução Francesa , criando novas expectativas. A expressã o I r ístico de está gios culturais que eles próprios já haviam percorrido.

i
ñ
38 vf
íil
39
r
Y- :- O CONCITO D £ HlSJ ÓJ.IA isr
P
.i \
í
A tensã o temporal foi reforçada pela expectativa da vivencia crista. I
w II
-
i;

Ela inclui a esperança em um futuro cuja promessa de salvação
i :.
:*

determina o pró prio presente, enquanto um pagão ficaria preso i


y. :
• i -.
ao passado pré-crist ão. I
É
Antiguidade
Desde a descoberta de que nossa Terra é urna esfera , a con-
temporaneidade do n ã o-contemporâ neo se transformou numa i Christian Meier
experi ê ncia de todos os povos que habitam este globo. Desde =ñ
i
ent ã o, a Histó ria é temporalizada, em um sentido genuino. O
i
i
tempo passa a ser estratificado, nã o mais so como vivenciado ao
natural , mas també m como forma de realizaçã o e resultado da
a ção humana , da cultura humana e sobretudo da técnica humana.
II
• •
-i Somente a partir do momento em que acelera çã o e retardamento
Vj 1. Terminologia
:
' conseguem medir diferen ças de experiencias, cuja equaliza çã o se
transforma em Leitmotiv de uma a çã o polí tico-social , e só a partir 3
n{
do momento em que isso se vincula à expectativa de um futuro A palavra iaxopiv se encontra nas nossas fontes pela primeira
vez em Heródoto, o pater historiae> desde o século V a.C.1 Al í ela
planejável, é que existe o conceito de Histó ria . “ História ” - como
-
conceito legitimador - vai muito além de sua aplicaçã o cient ífica .
I designa tanto saber quanto busca, pesquisa e resultado de pesquisa.
Ele conseguiu reunir as experiê ncias e as esperan ças da Era Moderna 4 Por essa razão, hoje em dia , muitas vezes se utiliza a palavra como
termo para designar as descobertas geográficas e etnogr á ficas levadas
numa só palavra , a qual conseguiu se tornar, desde ent ão, termo de m .
a efeito a partir da J ô nia (“ Historie jónica” ) Ela aparece especí fica-
t:
discordia e palavra de ordem em nossa linguagem polí tico-social. 4 mente para a investigaçã o atravé s da interrogação de testemunhas.2
n Decisivo para a continuidade da história dessa palavra foi o fato de
que Heródoto utilizou faxopiv como t í tulo para suas vá rias formas
i de pesquisa , nas primeiras linhas de seu Prooimion: “ esta é a apre -
r
i-
I
i
senta ção da investiga çã o ( ioxopí vç á xóôeÇiç) de Heródoto de Hali-
carnasso” Aparentemente lhe pareceu a mais importante forma de
obten ção de conhecimento, não por último com vistas ao complexo
i; ?
:4ã
especialmente amplo dos fatos do passado, cujo conhecimento só
?.
t.
poderia ser obtido através de testemunhas.3
1&
1
. . . . . .
HERODOT, Proocmuiin. Cf. 7, 96 1; 2 99 1; 2 118 1; 2, 119 3; 2, 44, 5. A referê ncia
i-y
.
• .
C Í CERO De legibus, 1, 5 . -
apresentada no fragmento de Herá clito (n 129) provavelmente nao é autêntica." Pater hí stôírae" ;

i
-71
2
Cf. SNELL, Bruno. Die Ausdrfí eke fiir den Begrtjf da ÍViutns in der vo/ platcnisehen Phihsophie
Berlim, 1924, p. 59 e segs. Mai í bibliografia em: K1TTEL, Gerhard. Theohgisdus V/ Merbudi
.
xuM Nenen Testament (vol 3). Stuttgart, 1967, p. 394 e segs ., tub verbo iaxopèo).
.
i 3
.
Talvez tamb é m se poderia ter pensado em Oçcapia (cf HERODOT, 1, 29, J ; 1, 30, 1 e scg.).
% -
Nesse caso, a Historie hoje se chamaria “ Teoria'’ e o discurso sobre a deficiê ncia te ó rica
ia

visaría a um d é ficit de Historie.

40
$
1 41
I
O COí KUTO es H*rófcA

If ANTKSUOACS

foi a explica ção histórica através da reconstrução de um aconte-


Com isso , nao havia sido dita qualquer coisa sobre o objeto
dessa pesquisa , o conte ú do da obra de Heródoto. Pelo contrario,
naquela época, a palavra era neutra em relação a qualquer conte údo.
$
m
cimento multissubjetivo, que se compunha de m ú ltiplas ações,
de mú ltiplos acontecimentos, de múltiplas ocorrê ncias, com seus
'Iaxopiv poderia se estender a tudo aquilo que era empiricamente W '.- respectivos entrelaçamentos, e isso ao longo de aproximadamente
.
pesquisável (e, provavelmente, além) Parece paradoxal que a palavra i #::
'

três gera ções. Esse procedimento era novo , e através dele a “ His -
que mais tarde viria a designar “ História” nao podia ser aplicada
m. torie” surgiu entre os gregos. Mas não est á claro em que medida
em seu significado espec í fico original à pesquisa sobre a maior !
1 Heródoto tinha consciê ncia de que , através da tentativa de assim
parte da História , porque, metodologicamente o passado, segundo m responder àquela pergunta , estava constituindo um objeto espe-
Heródoto, só é pesquisá vel para as duas ou três ú ltimas gera ções.4 cial, Em todo caso, ele n ão possu ía um termo para esse campo ou ,
Heródoto foi coerente ao adotar como t ítulo a designação dito de forma diferente, para a forma específica de entrela çamento
metodológica geral, aberta em rela çã o ao conte údo. Sua obra atingia ( histórico) entre a ções , acontecimentos e transcurso ao longo das
sua unidade no fato de que era o relato de pesquisa desse homem 5 . m gera ções por ele percebidos. Ele também não possu ía uma palavra
Tem á ticamente ela abrange uma multiplicidade de objetos que para a forma específica de perguntar, de explicar e de representar.
hoje em dia designar íamos como histó ricos, geográ ficos e etno- m Mas aparentemente nao sentia necessidade disso.
lógicos. Para o recorte especí fico que interessava a Heródoto, nós Heródoto chamou seu tratado de ¿ó yoç * Isso significava algo
mM
ainda n ão temos uma palavra até hoje e provavelmente nã o a tere- mmfc como representa ção em prosa. Ele utilizava essa palavra para si-
mos.6 O pr óprio Heródoto diz que lhe interessa preservar “ aquilo multaneamente designar o fio condutor, e, nesse sentido, de forma
que aconteceu a partir dos homens (rá ysvópeva éÇ á vQpchncov), e m indireta mas n ã o especí fica , o contexto “ histórico” mais geral que
de grandes e admirá veis obras (êpyd) que foram apresentadas por ele estabelecia .
gregos e por bá rbaros” , bem como “ descobrir por que raz ão e por
m Mais tarde , em Tucídides, o acontecimento polí tico-militar
que culpa (Si rjv ahnjv) guerrearam entre si ” .7 Entre as épya não está clara e rigorosamente descolado da multiplicidade bem mais
apenas se incluem ações polí ticas e militares, mas também obras .- O ampla dc experiê ncias humanas de que trata Heródoto. Isso ocorre
arquitetônicas, e quanto à s yevópsva éí ávOpcbrccov provavelmente .-í.iu de forma paralela à abordagem muito mais profunda e ao conheci-
de tamb ém pensava nas maneiras institucionalizadas em que fatos mento mais objetivo desse campo. Mas també m em Tucídides n ã o
acontecem, como costumes e organizaçõ es, formas de vida. se consegue enxergar que ele estivesse consciente da especificidade
Na busca pelas causas da guerra persa (e - complementando - do objeto “ História” ou que até tivesse pensado que sua forma
da vitória grega), est á contemplado aquilo que em termos modernos daquilo que chamamos de “ escrita da História” fosse a correta, ou
se chamaria interesse histórico. E verdade que essa pergunta podia que Hist ória fosse, na verdade, História polí tica.9 Na introdu çã o,
ser respondida de muitas maneiras. A maneira de Heródoto, poré m , ••
m
M
8
. . .
ibil , t 5, 3; 1, 95, 1; 2 , 3, 2; 2 , 123; ‘I , 30, J ; 6, 19, 2 e 3; 7 152 3; 7, 171; 7, 239, 1. Cf
THUKYDIDES, 1, 97, 2. Respectivamente, loyonoiôç (HERODOT, 5, 125), cm oposiçã o
.
* Cf. SHIM RON, B flpãnoç t . , .
ôvrjpeiç íômçv Eranos n. 71, 1973, p 45 e segs. .
a éno c fiooaonoióç e Aoyojpá yoç ( THUKYDIDES, 1, 21, 1) Tíic í dides fala dc Çuyypayr} (1,
-
4
.
A esse respeito, e també m sobre aquilo que segue, cf, MEIER , Christian DíeEntstchung der . . .
97, 2 Cf 1, 1, 1 Alé m disso, Çvyypaç e óç para o historiador; XENOPHON. Hellaiik á, 7, 2,

. .
and Brzãhltwg Munique, 1973, p 251 e segs . - . —
Historie. In; KOSELLECK, Reinhart ; STBMPÊ L, V/olf D í eter (Eds.) Gesthidt íe Emgnts mi 1; POLYBIOS 1 , 2, l e passim ). Historiadores posteriores designam suas obras como tratados
.
{ zpayfmefa , por exemplo, POLYBIOS 1, 1, 4; 4, 20, 5; ovvtaftç, ibid , 1, 4, 2; 8, 2 ( 4J , 5 e 11).
é
Em todo ciso, n3o é possível compreender esse conglomerado temático a partir de hoje como a l 9
Essa n$o é nenhuma sutileza , porque - para poder peusar qual é a escrita correta da História
m-S .

História entendida em sua verdadeira abrangência - assim acontecido cm STRASSBURGER , 'a no m ínimo, se precisa saber que existe escrita da “ História" E verdade que Tuc ídides quer
.
Hermann . Die Weumbestinmutg derGcsehkhttdHnh die aniikt GtícMehlstthiâburig Wiesbaden, 1966. f à zer algo melhor que todos os seus antecessores, sobretudo melhor que Heródoto, mas í tso
?
.
HERODOT Prooemium. s. significa apenas que de quer obtere apresentar, de forma objetiva , determinados conhecimentos

42 •

il
v:s
- 43
H!
i O comarco o HSTóíIA
* # rw :
, ANTIGUIDADE

Ml - fc :
m- !
y* em todo caso ele apenas diz estar descrevendo a “ guerra entre ate - mm Um nome espec ífico para a escrita da Histó ria se encontra ,
|
nienses e peloponésios” . A palavra ioropía n ão aparece no sen texto.
Na qualidade de termos gerais para os objetos do interesse m: peia primeira vez na Poética de Aristó teles.13 A ícnopía trataria da
reprodu çã o daquilo que aconteceu (rà yevópsva X é ysiv). Não se
% “ histórico” , aparecem apenas designações para coisas individuais, pretenderia “ apresentar a unidade de uma a çã o, mas a unidade de
como participios de yiyveodai para acontecido, evento, épyov, palavra
que, sobretudo em Heródoto, significa a ção, plano; em Tucídides, 1 ’ um tempo ( ôijXcoaiç ... isto é, aquilo que aconteceu
W num determinado tempo com um indivíduo ou com mais indi-
també m evento10, npá ypa , que abrange urna ampia gama que vai de
ação, plano, procedimento, passando por tarefa , incidente, propósi- m
m
víduos que se relacionavam entre si, como acontecia por acaso” .
Os acontecimentos n ão convergem para um mesmo objetivo (£v
to, acontecido, indo at é “ complexo de eventos” , transcurso , e que ú .
xéX ôç ) Objeto da Historie sã o, segundo Aristó teles, os transcursos de
• )
também pode ser traduzido por “ Historia” (como da complicada
descoberta de um t ú mulo). Em Poíí bio, a palavra npf
mI
.¿
acontecimentos pol í tico-militares. O termo para essa categoria ele
âiç aparece, |
í
• (ou algu ém antes dele) aparentemente buscou na primeira linha de
¡ com frequência, em acepção semelhante. O fato de que com isso
diversas designa ções para fazer e agir se transformaram simultanea -
M
I
Heró doto14, quando erroneamente tomou loropiv como designa çã o
para o “ conte ú do histórico” , ou melhor, para o gênero esté tico
mente em termos utilizados para um conjunto de acontecimentos,
parece indicar o alto grau em que a Historie grega envolvia a a ção I determinado pelo conteúdo dos “ transcursos de acontecimentos
pol ítico-militares dentro de um espa ço temporal ” . Em Aristó teles,
em contextos relativos a eventos , em transcursos multissttbjetivos. Ú tamb é m se encontra, pela primeira vez, o termo lowpncôç }'* Somente
Isso decorria do fato de que a experiê ncia com a ções pol íticas es-
tava amplamente difundida nas sociedades das poleis , e o interesse
3 a posteriori , isto é, tendo em vista um gênero amplamente divulgado
de representa çã o liter á ria , ioxopia parece ter adquirido um sentido
nessas a ções inclu ía o interesse em seus condicionamentos.11 Acon- i.

espec í ficamente “ histórico” . A responsá vel por essa situação foi a


tecimentos de tempos passados eram frequentemente chamados de
rà naXaiá; xà M>]ôitcá se referia à guerra persa , rà Kepicopaim aos
I necessidade de classifica çã o. Alé m disso, havia o velho sentido geral
da palavra : saber, ciê ncia , pesquisa , como em neri tpóoecoç loropia
acontecimentos em torno de Kerkyra12, e assim por diante. (Plat ão, Aristó teles), ou , em latim , na naturalis historia ou nos naturae
historiaram Ubri de Pl í nio,16
.
sobré a çõ es humanas , em especial a çõ es polí tico - militares, e seu desenrolar E i «o de faz O
. I Num passo seguinte , é que, então, ioxopia assumiu o significado
íuo de que , pata ele, ‘‘Hist ória" seja apenas pol í tica e guerra , ou que a Guerra do Peloponeso
representa “ a paite mats importante fa Historia” (STRASSBURGER, Die Wttmbesiimmwg
...,
| de “ História” (no sentido de acontecimento). E em Poií bio que
.
p, 23), isso s ó lhe é atribuido a partir de nosso conceito de Hist ó ria Tucfdides apenas chama
a guerra de “ o maior movimento" ou "abalo ” ( xí vrjotç, í , I , 2) . è
10 Cf.
1MMERWAHR, Henry R . Ergon: History as a monument in Herodotus and Thucydides. ° .
ARISTOTELES. Potdk , 1451 a 36 c segs. (tradu çã o de acordo com Gigon ) A esse respeito,
.
u Of. como
.
Amt / katiJournalojPhilology, n 81, i 960, p. 261 e segs .
contratmagem extremada o caso da concep çã o sobre a pá ticamente ilimitada
capacidade de agir e de fazer acontecer do rei egípcio. HORNUNG , Krik. QesthUhU ais Ftn.
4 “
cf, Rheiorik , 1360 a , 36,
Arist ó teles aqui tamb é m pensa , sobretudo, em Heródoto ( Poetik , 1451 b 2; 1459 a 25 t seg.) .
Alé m disso, era usual citar os livros dessa época que úào tinham títulos - JACOBY, Felix.
Darmstadt, 1966, p. 14 c segí. i Auiiii. Oxford, 1949, p. 82 - com as palavras iniciais , ou com uma das palavras iniciais Cf
NACHM ANSON, Ernst . Dcrgr .
. .
11 Os
comprovantes sao facilmente encontrá veis nos respectivos dicion á rios. Complementa rmente,
I í ediitche Budititei G õ tenbocg, 1941, p 46, 49 e segs, Exatamemc
.
cabe apontar ainda para os participios de oüppaivát (cf. ARISTOTELES Metayhyiik ,982 b 22;
.
POLYBIOS, 3, 4 , 13: TÒ xapáàoÇovréivofJpaiV ó vzíov ) Al é m disso, parecem muito interessantes
..
as indica ções no estilo rà . npò aóvx& v ràín «alalrepa (THUKYDIDES, 1, 1, 3). O neutro
« isso parece ter acontecido com a loropiv de Heródoto (como, mais tarde, ainda em Dionisio
de Hallc â rnASso [ Eylí tuia ad Powpeltwi , 3)), De fornia muito parecida , ouyypayívç deve ter sido
modificado para o termo que se refere aos historiadores contempor â neos, com vistas â linha
plural dos adjetivos de nomes de cidades ou de povos també m serve para designaras "Hist ó rias”
dessas cidades e desses povos (cf. adiante) . Her ó doto utiliza, por exemplo, AtfivxoiX ô yoi (2,
1
:.5 lS
.
.
inicial de Tucídides (¿¿/ro/id m Dionysii Thrads ArUtn GramnuUkam , íl, 4 166, 4, Hilgard).
ARISTOTELES, Pcdik , 1451 b 1 No sentido geral de "pesquisador*' ou “ perito” : RJidorik ,1359 b 32.
161, 3). Para o estudo dos per íodos mais remotos, parece que já no s éculo V apareceu o termo
.
“ Arqueologia ” ( PLATON Hiypins Maior, 285 d).
í li
.
PLATON. Phaldoii 96 a 7; ARISTOTELES. Oration, 298 b 2; a* referê ncias latinas em
.
TiuS ãtí tus Linguae Latinat vol. 6/3, p 1936- 42, 2833 e seg.

I
44 45
P 5
E- ,
m • O CONCéíTO os Kisróaw AKTOOOAM
’í
£'4:
encontramos pela primeira vez a palavra utilizada dessa forma17, e
fpr " historia” , acabaram por assumir o significado de “ Hist ória” , de
^ V
:

Éft
m
& V
=
Ai
:•
ali a transposi çã o sem â ntica possui um sentido todo especial. E que forma que essa palavra se transformou num conceito que agregava
tudo aquilo que estava na literatura histórica. Significava então a
jp®
¿‘
:\

A'
Polí bio pensava que os acontecimentos e os transcursos do mundo
soma de tudo aquilo que fora transmitido pela tradiçã o e , nesse
¿i.

V
(al TFJ ç oifcovftévqç xpá&iç) antes de 220 tivessem sido individuali-
zados, isolados entre si, mas depois disso a Historia (imô pía) teria
tomado, por assim dizer, a forma de um corpo ( aoyparoeiSjjg )
m
m
sentido, a soma dos acontecimentos. Fala-se , por exemplo, de èK
tf ç latopíaç pádrjatç, ou ent ão se diz: plena exemphmm est historia , ou
i -;
V

que significa que ela se transformou num todo inter-relacionado , ^ m ainda: docet ... historiai Os casos em que se pensa exclusivamente
V;
Aii fazendo com que as ações e os acontecimentos nas diferentes partes na História, e nem um pouco na Historie são muito raros. Cícero,
:i
:
^ do mundo se relacionassem entre si, e todos eles se voltassem para numa ú nica vez, diz que a historia Romana é obscura (porque não
,
existem referências a determinado nome). Agostinho, a partir de
w
I

i um mesmo objetivo (evréX ôç) }0 O todo apresentava um conjunto


Mi : de a ções (êv êpyov), uma peça de teatro ( sv Oèapo)> com começo, seus pressupostos teológicos, distingue entre narratio histórica e historia
meio e fim, 20 Numa referência direta a Aristóteles, mediante re-
curso a categorias estéticas, se reivindica aqui uma unidade para os m*
m ipsa,n Em geral, parece ter sido difícil distinguir entre “ Historie” e
“ Hist ória” . Uma coisa nã o era imaginável sem a outra , a História
acontecimentos da é poca da conquista mundial feita pelos roma-
nos, as características de unidade literá ria (ou melhor, po é tica) sao
ai estava contida na Historie, cuja função Cícero define muito clara-
mente como testis temponm , lux veritatis, vita memoriae, magistra vitae ,
.!
í vistas como concretizadas na História ; como autor figura Tique a .
ñ utida vetustatis ** Cabe destacar que a palavra muito frequentemente
!

(v. abaixo). Para isso, poré m , não havia nome provindo do â mbito ,4 aparece no singular e sem qualquer definição através de um genitivo
do objeto (que só conhecia npá&iç, ycvó peva etc.). Assim , Polí bio M ou de um adjetivo.24 (Em contrapartida obras históricas individuais
| muitas vezes são designadas pelo plural “ Historien” ) ,
designou a “ História” singular por ele constatada em sua é poca com 4P
o termo utilizado para a unidade literá ria “ Historie , Não se sabe se
"
Sem d ú vida , o conceito de “ História” existia , mas era utilizado
” li sobretudo para a forma, para o invólucro, e apenas secundariamente
ele tinha consciê ncia disso ou nã o, mas fato é que a História pô de
ser constitu ída pela primeira vez e somente no contexto liter á rio
* A
. 4 para todo o conjunto de ações, de acontecimentos e de transcursos
que ele continha . Do ponto de vista do conte údo, ele visava muito
E por isso que foi uma atitude coerente que a Hist ó ria constitu ída
Ú mais à soma dos acontecimentos do que à relação entre eles, que era
da e dentro da Historie tamb ém fosse denominada ioropla, quando if - estabelecida na forma das Historie(n). Não se visava um movimento
'

aparecia como singular (o que só aconteceu durante algum tempo!). 4í '


'

|
| din â mico, uma grande corrente, na qual se pudesse determinar
E verdade que Polí bio praticamente n ão fez escola. Mesmo
um lugar, cuja unidade se pudesse assumir, cujo sentido se pudesse
assim , faropía e a palavra latina que lhe correspondia de forma exata , |
-n
Vi

POLYBIOS, 1, a , 4. igualmente: 6, 58, 1; 8, 2 (4), II; 12, 25 a, 3; Cf. DIONYS VON


f
'

21
POLYBIOS I , í , 2; CICERO, De divinatiene, 1. 50; AUGUSTIN. De ( hítate Dei 5, 12, 13.
Cf. DIONYS VON HALIKARNASS, 1, 3, 1; CICERO, De divinal tone , 1, 38; De orator?> 1,
.
‘7
.
HALIK À RNASS, 1, 2, l Naturalmente o mesmo també m pod í a ser designado dc forma M
4 165; 2, 265; PROPERZ (Sextus Aurelius Propertius], 3, 4, 10; 3, 22, 20; PLINIUS. Epistolai,
plural (com xp á faç) (39, 8, 6. Cf. 1, 4, 1). 7.9, 8; FRONTO , 106* 4, Naher.
CICERO. De republica, 2 ,33; AUGUSTIN. De doctrina Christiana, 2, 28 (44). In: Corpus àristmwm,
a
n POLYBIOS, 1, 3, 3 e scg. Cf. 1, 4, 7 sobre a figura do corpo (o qual 22
tamb é m serve para caracterizar
oro/pmliter á rio), cf. PLATON. Pha ídros, 264 c; ARISTOTELES. Pcetik , í459 a 20; JDIODOR , Series Latina (vol. 32), 1962, p.63 (cf. AUGUSTIN, De tiritote Dei, 10, 32, 3, onde historia é utilizado
20, 1, 5; CICERO. Adfamiliares, 5, 12, 4: LUKIAN. Quomoài historia ( onscribenda sit , 23 55. mais ou menos como hoje em dia podemos falardo “ livro da História ', in qua ita narmUurpraelerita ).
1

” POLYBiOS, 1, 3, 4; 1> 4, 1 e seg. Cf. 3, 32, 7; 4, 28, 3 e seg.; 5, 105, 4 e scg., 9 e passim ,
.
*

rbi â i 3, 1, 4 e scg. Cf. 1, 1, 6; 1, 4, 5, onde, alé m de épyov,se fala de áycò viopa: provavelmente
também aqui se deve enxergar uma refer ê ncia ao drann (literá rio). Cf. ARISTOLTELES,
1I ”
Cf. CICERO. 0e jinlbut bonontm el materum, 5, 5; evenUtalmente Brutus , 44; GELLtUS, 3, 3, 8.
,
C Í CERO, D< oratore , 2 , 26- Cf. PLENIUS, Epistolas, 9, 27, 1:“ quanta potestas, quanta ¿ignitas,
quanta tnaiestas, quantum de ñique mimen sit historias\
Pottik , 1451 b 37. 21
Cf. as citações latinas em Thesaurus Linguae Latina , vol. 6/3, p. 2835 e seg.
|
: '
k
46
I 47
.
O CONCOTO Di H SlOíSX
V

mm ANUGUMDE
Mim
mPs-¿V
:
buscar. O significado liter á rio se manteve dominante , tanto no dR . Com toda certeza , ligava-se à palavra “ historia” sobretudo uma
geral quanto nos casos específicos, Aparentemente - abstraindo M -;:r grande pretensão literá ria. Cícero a chamava de “ opus ... oratiorium
de algumas exceções n ão podia existir um significado pró prio » máxime” , e Quintiliano de “ carmen quodammodo solutum” .31 Ela era
.
de “ História ” para “ historia” A História , como determinaçã o de
V
Pilfer:
rWM claramente diferenciada de simples “ apontamentos” sem cará ter
conteúdo, não conseguia se desvincular da forma Historie.
m .
art ístico (ónopvtipaza , commentarii) 32 Quando Cícero e Luciano,
A amplitude do objeto de“ historia” podia, assim, abranger toda
-
a humanidade. Fala se de KOIV í ) ioropia , Agostinho fala de historia
gentium (que teria muitos prefixos).25 Em geral KOIV í ) iaxopia designa
-m
mi ::: :
m
m:r- '
por exemplo, fazem reflexões teóricas sobre historia, eles o fazem
sobretudo a respeito de como ela deveria ser escrita. No caso, es-
tava em jogo també m o imperativo da verdade, mas muito mais
uma representa ção que abrange a História de v á rios povos.26 —m^ - fv - na perspectiva de que se deveria se ater a ela do que da perspectiva
A categoria historia abrangia as mais diferentes representa- f de como chegar a ela. 33
ções, incluindo genealogias e crónicas locais. Uma delimitação ú
clara nunca existiu.27 Como t ítulo, “ historia” concorre com muitos
outros sobretudo com formula ções do tipo EAÀ qviK á , Kopivdiaxá,
1 2. Conceito de historia e concepções de "Histó ria"
fM
etc , A Hist ó ria romana de Cássio Dio aparece citada tanto como
Vropa.wá quanto como Tcopam// iotopia , 28 Mas, por mais que a ca
tegoria “ sobretudo no tratamento de determinadas cidades e de
- n Não é possível imputar, a posteriori, um conceito de Hist
ria à Antiguidade. E verdade que lá encontramos determinadas
ó-
: m
determinados países - continuasse a incluir aspectos geográ ficos e correspond ê ncias para concepções que hoje em dia atendem pela
etnográ ficos, nao h á d ú vida de que dentro do â mbito histórico há
uma clara concentra çã o na Hist ória dos acontecimentos. O termo, 4I designa çã o de “ concepção de História” , e que ocupam algum es-
pa ço no conceito de História . Mas elas fazem parte da concepção
antiga de “ historia ” , na melhor das hipóteses , na medida em que
portanto, n ã o se estendeu à “ História” da Filosofia ou à “ Histó ria”
das invençõ es, e coisas parecidas.29 De urna forma geral, naquilo que a classificam determinados conte ú dos , e ajudam a entendê-los na
tange ao conte ú do, ele ficou restrito à s 7tpá&iç polí tico-militares. 54 forma em que estã o contidos na palavra Deve-se partir daquilo .
O que chama a atenção é que em Roma se sentisse a necessida- que a Antiguidade entendia por “ historia” .
de de distinguir “ historia” de “ amiales” , prá tica que, aliás, obedecia 4 O conte údo presente na forma “ historia” , e ao qual simultanea-
a crité rios muito diversificados.30 mente a palavra pode se referir, tinha em mente sobretudo a hist ória
í dos acontecimentos polí tico-militares. Por um lado, tratava-se das
25
DIOYNYS VON HAL1KARNASS, 1, 2, 1; AUGUSTIN, De Mate Dei, 6, 5 ( 7 ); 21, 8. Cf.
10, 16. Norm diz na “ Praefatio" de Epitome return Romanonwi, que Roma expandiu seu poder
1 :>
a ções, dos episódios, dos destinos sobre os quais cabia meditar (a

H
at é o ponto em que o fez, * Vl <¡iti res Ulitis tegunf , non imtuspopuU , sed generis hnmonijò ta condiswu'\
DIONYS VON HALIKARNASS, Epistufa od Pompe ium, 3; xoivai xpá&iç; DIODOR , 1, 1, *
I 31
-
CICERO, De ¡c¿ibus, 1 , 5; cf PBTZOLD, Kari Ernst. Cicero und Historie . Chiton , n . 2, 1972 ,
3; 5, 1, 4; H , 37, 6. f p. 253 t stp.; QUINTILIAN, 10, 1, 31; cf. STRASBURGER , Die Wesensbestimmm& p. 27;
.
POLYBIOS, 9, 1, 2 e segs .; JACOBY, Felix Ü ber die Entv/icklung der grieclmchcn
Historiographic imd den Plan einer neuen Sammlung der griechischen Hisioriketfragmente ,
a
6
-
.
KBUCK , Karl. Historia Geschichte des Wortcs und seiner Bedcutung in der Antikc und in
.
den romanischen Sprachen . M ü nster, 1934 , p 16 e segs. (tese de doutorado) .
.
Ktio, n 9, 1909, p. 88 (nota 4), 96 (nota 1) . n 3*
fsso fica especialmente claro na exceção, que confirma a regra: CICERO. Brutus 262. Cf. .
. .
w SCHWARTZ, E Verbete "Cassius Dio” In ; Realencydopddie (vol. 3), 1897, p 1685. . M LUKIAN, Quomodo historia ( onsaibenda sit , 16. For outro lado, Pol í bto podia chamar suas
w Mesmo quando tais progressos t é cnicos, que exerciam algum papel na histó ria pol í tica Historien de vnopvifoara , 1, 35, 6 .

.
naturalmente pudessem ser referidos na Historie Cf POLYBIOS, 9, 2, 5; 10, 47, 12
GELL1US, 5, 18; SERV1US. Commtntorii ad Aeneid, 373. GELZER, Matthias Der An & ng .
. 1 33 For exemplo, CICERO,
Dt crotore, 2, 15 e 62; QUINTILIAN, 10, 102; LUKIAN, Quomodo
historia eonieribaufasU ,39; a ú nica tarefa do historiador é “ dizer como foi” (íúçènpáxót¡cfirriV); sobre
rotnhch çr Gesch í chtsschteibuttg. In: STRASSBURGER , Hermann ; MEIER, Christian
.
(eds.) Kleinç Schrí fttn (vol . 3). Wiesbaden , 1964 , p 93 . . II i «o, no entanto, 50 c seg,; WEHRLI, Fritz. Die Geschicbtsscljreibung im Lichte der antiken
.
Theorie. fa: Ettmusic Festschrift fur Ermt Howatd. Erie nbach /Zurique, 1947, p. 54 e segs.

48 1 49
Inmr - O CONACHO Of KStôíiA S: -
HIF AMT*SI*OAO£
51 .
- i -i f lr
'

> '

r
W partir dos quais se podia aprender algo para a ação política - mas mm inimagináveis at é então. A ordem política repentinamente foi vista
também para os sofrimentos3* que em Roma eram interessantes mm como passível de ser configurada. Por essa razão, surgiu tuna nova
1
1
como exempla* ; é nesses “ detalhes” que se pensava quando falava
de historia magistm vítae; eles é que tornavam o genero esteticamente
dp
mm #
necessidade de orientação dentro da pol ítica : conhecimento de
causa e crítica a respeito se expandiram. A pol ítica não podia mais
atrativo36). Por outro lado, tratava-se da reconstru ção e da com-
»W
ser vista apenas como uma sé rie de grandes a çõ es, as mudanças não
a
YÍ 1
preensão hist órica de transcursos mais longos (literariamente, em Iff
m -
podiam mais aparecer como expressão de interconexõ es de sentido
í ete perpetuae37). Elas, no entanto consistiam
#l
-
monografias ou histor
sobretudo, ainda que nao de forma exclusiva como se mostrará — sp M
mais profundas (por exemplo, um entrelaçamento determinado pelo
destino entre crime e castigo ou de ascensão e queda) A partir de .

logo a seguir mas fundamentalmente no estabelecimento de IP então, a política també m não podia mais ser praticada como simples
conexõ es entre os acontecimentos. Isso significa , de forma con- rotina, sem qualquer compromisso. Dessa forma , a política podia e
!;! creta , que o todo de tais histó rias de cidades, de povos, de reinos devia ser avaliada de fora , mas de maneira competente , e relações tanto

i!
ou também da hist ória geral de varios povos n ão representava mais
do que a soma de suas partes. Ainda que com diferentes graus de fÈ as mais restritas quanto as mais amplas, agora “ só podiam ser explicadas
.
historicamente” 40 Assim, também a contingência do acontecimento
h consciência, aquilo que se fazia era encontrar um espaço de prática político-militar podia se transformar, de repente, no princípio para as
humana , sob condições bem específicas , com efeitos bem específi- 1 reconstru ções transgeracionais. E , então, consideraçõ es em torno de
cos, transformá ndolo em objeto de pesquisa c de representa ção. Esse }4 acontecimentos históricos acabaram conquistando status literá rio. A
tipo de percepção e de escrita da História correspondia , de forma i amplia ção do cará ter pú blico para amplos setores de homens livres e
i
bastante exata , ao tipo antigo de História e isso desde o começo.
Pois não foi simplesmente um acontecimento de cultura superior e
— Ifi
iguais correspondeu a publica ção de obras históricas cada vez maiores.
A concentração da Historie na História dos acontecimentos foi
de interesse científico mais amplo, ou ent ão um efeito retardado da
epopeia homé rica,30 mas foi sobretudo também uma consequ ê ncia mf fomentada , nos séculos seguintes, a partir dos modelos da epopeia
ou de Tucídides e atravé s das decorrentes regras para a categoria.
da peculiaridade da vida grega que, no século V, aparecesse um novo 5É
Mas ela não pode ser entendida simplesmente a partir da institucio-
interesse pela História do$ acontecimentos.351 Nos amplos cí rculos de
4Vi nalização de determinados interesses e de determinadas expectativas ,

cidad ãos que tinham responsabilidade e participa ção na pol ítica das
poleis - já parcialmente democratizadas surgiu um sentido especial
para acontecimentos pol í tico-militares. A polí tica recebeu - através
a entre historiadores e seus leitores. Pois a Hist ória dos eventos se
manteve - ainda que os cidad ã os tivessem uma participa çã o menos
ativa por um lado, como esfera central de destinos interessantes
do novo e descomunalmente forte destaque para o pertencimento 4 e de importantes identificações. O lado social e o lado pol ítico da
político - nova importâ ncia , ela se tomou mais intensa , e foram H
vida se mantiveram intimamente ligados entre si, para todos aqueles
abertas novas possibilidades de agir, de planejar e de modificar,
áI que exerciam alguma função importante, pertencimentos e identi-
54 POLYBIOS, 1, 1, 2.
n dades polí ticas concorrentes nã o exerciam papel significativo.41 Por
3S
.
í fitn (vol 3), p. 95 e seg. Cf. GBLZBR, Kltlnt Sduiften (vol. 2), 1963,
CELZBR , Kitiitt Sthr
.
p. 365; GBLZER , Kteine Sthrifun (vol 3), p. 234 (nota 48), 272.
iw .
*° A esse respeito, cf; LÜ BBE , Hermann Was heísse: “ Das kan » mau nuc histoiisch erktaren ? 4


H
CICERO, De cratore, 2, 36; cf. STRASBURGER , Die IVesembeftimmun , p 27
^. . . . .
In: KOSÊ LLECK /STEMPBL, Geahkhu (cf nota 5), p 542 e segs; MEIER , Die EmUehung

3S
CÍ CERO, Adfmiliares, S, 12, 2 .
Nene sentido, últimamente destacado por STR ASBURGER , Die Wtstnsbtstimmun$ ; e ...
i 41
.
der Historic, p. 265 c segs., 268 e segs , 295 e segs.
O conceito de “ pereencimemo” ser á esclarecido em outro lugar. À respeito desse tema:
STR ASBURGER , Hermann, Homer and die CesehUhtisthrdbmg. Heidelberg, 1972 . WEBER, Max. Wittsthafl rtttd GeseUsdtqfl . Colôma / Bcrí im , 1964 , p. 1026 c stgS ,; F Í NXEY,
39 Cf. MEIER , Die Entstehung der Historic (tamben naquilo que segue)
* . I . .
Moses í The undent tommy Londres, 1973.

50
II 51
i
a m.v
O «JNCííTO tí HSTóí Ií. mzm
:V
=; outro lado, a História dos acontecimentos se manteve como a ú nica
mm -
ANíIGUSUD É

a Hist ória sobretudo como um amplo processo de mudan ça , na


VI esfera de transformações importantes, interessantes e perceptíveis. Antiguidade tudo isso esteve desmembrado. Entre a Historie dos
É que a partir do aspecto intelectual , técnico, económico, social ,
as condições de vida da Antiguidade se modificaram relativamente Is acontecimentos (depois que ela surgira) e as grandes especulaçõ es

?J É históricas, do tipo da de Hesíodo sobre a idade do mundo ou a

11
pouco (depois dos primordios, decisivos, mas historicamente pouco
comprovados42). E verdade que algumas mudan ças processuais que m
xfc-
dos ciclos mundiais de Plat ão44, não houve qualquer aproximação,
quaisquer elementos que os interligassem. Nao havia perspectiva
iam surgindo foram registradas na historiografia , em geral, poré m,
apenas como resultado; mas isso era raro, ou , ent ã o, paralelo ao m
|
i =
superior sob a qual nem qualquer alternativa social a partir da qual
especula çõ es e expectativas históricas, acontecimentos e Historie
contexto hist órico. No todo, a din â mica hist ó rica era tã o fraca que
n ão conseguia romper o limite além do qual se poderia ter imposto
»m!
3 pudessem ter conflu ído. Ao menos no per íodo pagão da Antigui-
dade, nunca qualquer grupo social chegou ao ponto de entender
à Historie usual como parte da História. Praticamente n ã o havia m e legitimar sua ascensão de forma histórica, de determinar locais

jj
processos de mudanç a que fossem para além dos acontecimentos
f dentro da História (nem de poder estabelecer comparações en-
pol í tico-militares que se desenrolavam no palco da vida , e que
poderiam ter transformado setores mais amplos da humanidade - ê tre diferentes grandes transcursos) . Somente no século V a. C.,
encontramos em Tucídides o estabelecimento de um lugar com
independentemente de sua classificação política - em portadores
ou em tema de uma “ História” ,
-m1 vistas ao desenvolvimento das relações de poder e de grandeza na
hist ória grega .45 Mas essa foi uma exce çã o - como o movimento
¡V O fato de que a historiografia antiga encarasse o mundo de • r de inova çõ es revolucion á rias, dentro das quais esteve embutido46
¡ forma tao pouco hist órica esteve também determinado por um e ficou sem efeitos sobre a posteridade. Essa falta de senso histórico,
d éficit de História . E preciso tra ç ar, ao menos, um quadro simpli
ficado da “ posição intermediá ria” da Antiguidade. Ao contr á rio
- ii de mediatiza çao47 temporal esteve intimamente ligada a deter-
minada forma de contemporaneidade e de capacidade social , de
das velhas concepções orientais, n ã o se enxergava mais a política e M “ concretude” , e de baixa capacidade de ideologiza ção - isso sem
V;
a natureza como uma coisa só, n ã o se estabelecia uma vincula ção I falar de outras interdependências.
estreita entre tempo e ordem política . Pelo contrá rio, o mundo da
polis e da pol í tica era desvinculado da natureza circundante.43 O
Iâ 44 Cf. a esse respeito a se çã o “ Gcschichtc und Ontotogie ” ( Hist ó ria e ontologia], em GAfSER ,
tempo não era mais o tempo de determinadas configurações po- â Kowad . Phlons inigeseUrUbcnc Lehre. 2. Aufl , , Stuttgau, 1968 Especialmente interessante é
.
V
l íticas que se considerassem o mundo, e ainda n ã o era o tempo de
uma humanidade que, independentemente de classifica çã o política , I • •i
^
PLATON. NOMO ) , 677 c. d: a observa çã o de progressos como prova para a necessidade de
contar com catá strofes destruidoras de cultura , em vista da incomensutabilidade do tempo.
THUKYDIDES, 1.2 esegs.
aparentava estar no caminho do progresso. E, com isso, aquilo X* .
Cf. o verbete “ Fcrtíduitl” ( progresso), no vol 2, p. 355 e segs. (de GcfchúhtHche Gnwdbegrffi.
que na Era Moderna se integrou a partir de diferentes partes em Hhtorisches Lcxikon zur politisch -sozialcn Spxache in Deutschland , no qual est á també m o
presente texto ( N.T.)J.
um conceito de Hist ó ria , aquilo que fez com que se reconhecesse Ú 47
É verdade que foram reconhecidos muitos tipos de interconexõ es estruturais, como as entre

é% .
m úsica , moral e constitut ç Jo (SCHACHERMEIER , Fritz Damon. In: ST 1 EHL , Ruth ;
e STIER , Hans Erich (cds.). Betlrdge zur Alien GmhUhlt und deten Noehleben. Festschrift
** Interessaiuememe, eles ficam localizados entre as doutrinas constru ídas sobre o surgimento M .
f ü r Franz Aitheim (vol 1] , Bedim , 1969, p, 192 e segs .), entre Constituição o Retó rica
de culturas e os tempos historicamente mais bem testemunhados, como num tipo de terra de
..
ningu ém. Trata -se do tempo que fica mais ou menos entre o s é culo X e o s é culo VI a C , sobre | (TAC Í TUS. Ditifogus de OMforibus ), entre econom ía , técnica e formas de conduzir uma guerra

.
o qual ha relativamente poucos testemunhos na tradiçã o grega Mats tarde, os gregos encaravam n (THUKIDIDES, 1, 2 esegs.), entre demografia e Constituição (ARISTOTELES, Politlk , 1286
b, 8 e segs.), enue bem -estar geral c decad ência nos avanços cient íficos (PLIN 1US. Nafuralis

45
sua peculiaridade como tio natural que praticamente nâo se interessaram por seu surgimento.
.
MEIER, Christian Eatstthung des ^ Dtmokmtie". Fiankfurt , 1970, p Í 9 e segs.
. l historió, 14 [ pratfalla]}. Mas essas constata çõ es ficaram interesantemente isoladas e raras , e assim
n 5o h á como pensar que pudessem ter levado à pressuposi ção de uma mudan ç a geral .
3
52 II 53
§
i O CONCHO oí
•= i
£
-V .
•jv . AííTJCUOAOE
•V -

Os limites da percepçã o antiga de História também se refletem


:i - - -. :
JR ; •

A concep ção de muitos transcursos que se processam paralelos


nas concepçõ es gerais de transcursos e interconexões históricas.
M e sucessivos também se encontra em Pol í bio. A unidade da História
.
%M BA que ele observa teria sido criada por um plano (ofcovo/ / fa)5\ mas
• •

:r‘•
As suposições de Her ódoto sobre a relaçã o entre fazer e acontecer,
por exemplo, se referem exclusivamente às ascensões e aos des- ele é atribu ído a Tique.54 A interconexao dos processos de todo
censos individualizados de pessoas, de dinastias, de impérios.48 A
afirma çã o de que em Roma insucessos sempre eram sucedidos de
II o mundo foi a maior de todas as surpresas sempre inéditas que
Tique costuma preparar.55 Os pontos de partida eram sem d ú vida
novos sucessos apenas estabelecia rela ções entre acontecimentos
m- contingentes56, um sentido mais profundo n ão se enxergava no
individuais.49 Nessa e em outras concepções semelhantes, apenas “ drama” . Não se estabelece uma relação histórica com imp érios
se observam ou $e pressupõem relações um pouco mais amplas m:
t:
anteriores (apenas se faz uma compara ção est á tica com eles57). A
que no tratamento usual dos acontecimentos. Assim como ali se ?
m forma como a coisa irá continuar est á em aberto, não há nada que
procura entender a pol í tica, assim també m aqui se procura enten- a indique que a interconexao multilateral de a çõ es e de aconteci -
der interconexõ es peculiares e destinos de grandes polí ticos. Na if !
: SV: mentos durará por muito tempo.58 í ndependentemente de Pol í bio
pr á tica , não se pode falar de uma compreensão de História, apenas v* enxergar Tique mais como acaso ou mais como a ção de for ças
do acompanhamento de seu caminho através dos acontecimentos, divinas59, essa unidade de uma parte da Hist ó ria n ã o indica para
no geral ou nos detalhes. $
& uma unidade da Hist ória.
A história grega, desde o início, só podia ser concebida de Quem acreditou numa unidade dessas foi o continuador de
forma multissubjetiva - e isso correspondia à organização polí tica. sua obra , o estoico Posid ônio. Atribui-se a ele, aparentemente com
Não havia qualquer unidade, qualquer objeto cujas modificaçõ es de ;$
$ razã o, a seguinte manifestação; o historiador deve tentar “ enqua-
longo prazo pudessem ser apreendidas como “ História ” . O contexto drar toda a humanidade ( návxeç avBpojnoi) naquilo que tange a sua
A
dentro do qual todos os movimentos hist ó ricos se realizavam per- *

parentela , bem como a seu distanciamento espacial e temporal , sob


mnneceu mais ou menos igual.50 Dentro dele, impé rios podiam ser ¿i
uma ú nica ordem ( aóvm&ç) (representada), transformando-a, por
substitu ídos por outros impérios, situaçõ es e acontecimentos podiam * •••

i assim dizer, num órgã o da provid ência divina . Pois, da mesma forma
se repetir.5* O tempo nã o se prendia a configura ções especí ficas.
que ela unifica a ordem das estreias no cé u e as naturezas humanas
f

Nesse sentido, ele n ã o podia ser concebido como cíclico - a n ão ser numa analogia comum, fazendo-a $ circular numa mesma trajet ória
nas especula çõ es dos filósofos, que iam muito além dos objetos, e .\

abrangiam séculos. E se, mais tarde, ern Roma foi diferente, foram r
justamente os romanos aqueles que n ã o conseguiam compreender 1 - * POLYBIOS, 1, 4 , 3; 3, 32, 9; 8, 2 (4), 2; 9, 44, 2 .
sua História como um ciclo.52
‘'?
I
54
. .
ibil , 1 4 , 1 e segs. Cf. 1 1, 5; 3, 1, 10; 6, 2, 3; 8, 2 (4), 3 e seg.
Si
KCUVOKOTELOOAI: ibid ., 1 , 4, 5; 4, 2, 4; 9, 2, 4.
y
Cf. umbé m MOMOGLIANO, Time in Ancient Historiography, p. 18 e seg-
41 MEIER , Die Entstehung der Historie (cf. nota 5), p. 277 e segs. (com mais bibliografia),
st POLYBIOS, 1 , 2 .
AMM Í ANUS MARCELL1NUS, 33, 5, 10-16; VITTINGHOFF, Friedrich. ZumgeichichtHchen
54 Pol í bio at é já prevê uma nova
modificar ão profunda da Constituição romana (6, 9, 12 c segs.) Cf . .
” . .
Selbsc vemü ndnis der Spat andke Jiisforische Zeltschrift, n 198 , 1964 , p. 549 e seg,, 560; i-i 3, 4, 7 (onde sc perna no tempo em que o Imp ério Romano já 6 hist órico), bem como 3, 4, 12 5, -
PUHRMANN, Manfred. Die Romidcc der Spa tan(ike. Hlttoriuht ZtUithrifi,n. 207, 1968, p. 551. 6: depois da conquista aparece novamente xopax% Kal Kfvqt7tç (3, 4, 13), isto é, a peripetia , a mudanç a
Cf. ibid., p. 536 (nota 22), 553 e seg, (a respeto do c/esare posse malts, de Rutiláis* Naraatianus). brusca, já se anuncia. Pô r mais dif í cil que seja a interpretaçã o desta passagem - cf. WALBANK,
50 Naquilo que tange a Hccódoto, cf. MEIER, Die Entstehung der Historie, p. 286 c segs.

* y
Frank William. A historUal commentary on Poly bios (vol Í). Oxford , 1957, p. 302 e seg. esse tempo
51 Cf., por exemplo, AURELIUS VICTOR , Uber de Cattoribw , 35, 13.
>1 parece se localizar após 4‘o fim conscnsualmcnte constatado” da Histó ria unitá ria (3, 1, 4 e seg. Cf.
1, 4, 3: tfuwr&lç/a). Nada indica que Pol í bio contasse com uma sequê ncia de imp é rios mundiais.
Sí VfTT í NGHOEF, Zumgeschichtl ÍchetiSelb5 tvent ã ndnis..., p. 541, 572 e segs.; de formo geral; :5 w Cf. a re speito, FRITZ, Ku rt v. The theory of the mixed eoní titution in Antiquity, New York, 1954, p. 388
.
MOM Í GL Í ANO, Arnaldo, Time in Ancient Historiography History ar,d Theory, separate n . ri
.
6, 1966, p t e segs. e seg.; ZIEGLER , Konrat . Verbete "Polybios” , In; RealencydopSdic (vol. 21 /2), 1952, p. 1532 c segs.
i

54
I 55

! O coNccno os HsióaA 'i
AWNOIADAOE
3 vM :r :
por toda a eternidade, atribuindo a cada um aquilo que o destino n ¡m
lhe reserva , aqueles que registram os acontecimentos comuns do
mundo ( ai KOivai ríjç oiKovpè pç npá&K ), como se fossem de urna
if
: p
! :
bondade da constituiçã o romana 64 , e - n ão por ú ltimo - mostrar
os in ú meros exempla da virtus e da superioridade de comandantes
£* i :: e soldados , hem como a sabedoria dos homens de Estado roma-
ú nica cidade, transformam sua representação numa justificativa
unitá ria e num ato de administraçã o comum do acontecido ” .*0
mm nos.65 O desenrolar da História com essa longa lista de sucessos,

Nã o possu í mos um legado suficiente de Posid ônio para verificar


it: com a gradual conquista do mundo, fornecia simultaneamente a
confirma çã o sobre a correçã o dessas constatações religiosas, morais
em que medida ele transformou esse reconhecimento em programa mm .4

e político-militares. Nesse sentido, também a Historie romana no


de sua escrita da História , e como eventualmente colocou isso em .'
prá tica . A “ simpatia ” entre cosmos e Hist ória sugere que esta n ão mmÍ geral se manteve orientada pelos acontecimentos , distinguindo -se
mt - apenas pelos interesses especí ficos projetados sobre eles, e pelo fato
caminha em dire çã o a um fim. Nesse caso, sua ordem unit á ria m de enxergar neles e na sua sucessão um sentido especial.
deveria antes significar a regra dentro da sucess ã o de fases. Nes-
se caso, estar íamos diante de uma concepção de Hist ória muito m- Mas foi justamente após os sucessos, e a certeza de sucesso da í
> resultante,66 que se começou a pensar sobre a interdepend ê ncia
parecida com a de Heródoto. Isso combinaria com o fato de que, X- '
fi
da expansã o crescente com a crise e a decadê ncia dos costumes
na época , a crescente unificação do mundo entã o conhecido sob :L
"y da rep ú blica romana tardia , bem como sobre a transiçã o da
o domí nio de Roma estava relacionada com a crise crescente da constituiçã o romana , que estava no auge de seu prest ígio, para
rep ú blica .61 Aparentemente, Posid ônio se restringia, portanto, h o império.
histórias - como parte e no â mbito de uma ordem mais geral, que :AK
Xf?
Para a concepção de “ História” , sobretudo uma das respostas
ele postulava filosoficamente. Dessa forma , ele estaria pressupondo i encontradas nessa situaçã o é interessante: a compara çã o com a idade
mais ordem , mais provid ê ncia , mas menos interconexao entre os ill
de pessoas. Desde a rep ú blica tardia , h á registros da classifica çã o da
&
acontecimentos do que Polí bio. v? História romana de acordo com as etapas de vida de pessoas.67 Elas
As coisas se apresentavam de modo um pouco diferente em possibilitavam uma classifica çã o e em especial uma definiçã o da
Roma. A historiografia dali, desde o in ício, esteve concentrada
na história de um objeto unitário. Ela deveria explicar os sucessos mm pró pria posiçã o dentro da História romana . Nas versões variantes
dessa História abrangente, encarada em si mesma, aparentemente
de Roma, legitimar sua expansão e suas reivindica ções (e , alé m existia uma necessidade para isso. Parece que a comparaçã o com a
disso , transmitir os exemplos dos pais).62 Para isso, a Histó ria era •
Jt idade de pessoas também possibilitava uma valorização da pr ó pria
utilizada , sobretudo, como arsenal . Ela continha a anuncia ção do •
> idade tardia, valorizando as vantagens da idade, na qual a História
Rômulo deificado: cáeles( es ita ve He , ut mea Roma caput orbis terramm iV \
%\ i
sil 6* ; alé m disso, lhe cabia fornecer a justificativa histórica para a
:
44 CICERO, De repubUdt , 2, 1 e segs.
cS
-
Cf , por exemplo, L1VIUS 9, 17 19; ( pratfatb) 9 e segs.; DREXLER , Ha tu . Die morabsche
.
GeschichtsaufTassungdcr Rõroer. Gymnasium , n 61, 1954, p. 168 c segs., em especial p. 172 e
60
.
D Í ODOR , 1, I , 3. Of. REINHART, Karl Poseidonios , Munique, 1921, p. 32 e segs.; y
0i
, segs.; PÔSCHE, Viktor. Die rdmische Auftassimg der Gescbichte. Gymnasium , rt. 63, 1956,
. .
REINHART, Karl . Kostwsund Sympathk Munique, 1920 , p, 18*1 A tradu ção est ã no anexo .
p. 190 e segs. Paca os efeitos sobre 3 posteridade, cf. BUCHHEIT, Vinzenz ChristUche
. . . .
em REINHART, e em POHLENZ, Max Dk Stoa Gottingen 4. Aufl , 1970, p 213 e seg.
H Cf.
.
. v-
i - .
Romideologie im Lourentius Hymnm des Prudent í us In: W íRTH, Peter (Ed .). Polyí hrotmn.
STRASBU.RGER , H Poseidonios on problem* of Roman Empire Journal of Roman. .
Festschrift (Ur Franz Dõ lger Heidelberg, 1966, p. 128 e seg3.
. .
Studies, n 55, 1965, p. 40 e segs & M Cf. LIVIUS, 1, 16, 7.
.
w CELZBK , Kleine Schriften (vol 3), p. 51 « segs , 95 e segs.,
. .
258 TIMPB, Dieter. Fabius Pictor ZR
J
47
. .
H ÃUSSLER, Rein ha rd Vom Ursprung und Wandel des Lebensahetvetgleichs Hetmes , n .
und die An finge der ô r ndschen Geschtchwichreibung. In: TEMPORIN 1, Hildegacd (ed.). .
92, 1964, p. 313 e segs.; V1TTÍ NGHOFF, Zum geschichtlichen Seibstverstandnis..,, p 557
.
sUfstitg und NUdeyang derrtmisditn Welt (vol. 1/ 2). Bwiim / New York, 1972, p. 928 e segs íí;
"

e segs.; TRUYOL Y SBRRA, Antonio. The idea of man and world History from Seneca to
4J
. . .
LIVIUS, 1 , 16, 7 Cf. 1 , 55, 5 c seg; 5 54 , 7
%\
í
O rosins and Saint Isidore of Seville . Oshiers d'histoirt , n. 6, I 960, p. 698 e segs.
'
~
e=1
5Ó 57
:V¿;U
m
O CONCCRO DS HSTÓÍtA £- mV- - ANHGUTDADE
s h :+V

romana chegava à sua perfeição. Nã o se faia da morte de Roma - Srt T; foi eliminado no pensamento romano, e em que medida se dava a
V
í -- '
ç .v:
ao menos n ão durante o período pagão.*8 identificação do imperio romano com o quarto reino , na suposiçã o
Outra resposta para a suspeita de que se estava ficando para trás de que no imperio romano a “ História” $e consumava - ou em
em rela ção ao grande per íodo anterior consistiu na relativizaçã o - m*
m ¿ que medida essa doutrina visava apenas a urna classifica ção externa
das vantagens desse tempo a favor de uma avaliação histórica que km. da história do mundo.
distinguia entre prós e contras: 11nisi fortes rebus cund ís inest quídam Mas no tempo da monarquia aparentemente se contava em
velut orbis, ut qtmmdmodum temporum vices, ita mourn vertantur; nee m; diferentes oportunidades com a consumaçã o da Historia no imperio
omnia apud priores metiora, sed nostra qtioque aetas multa huí di$ ae artium ::W ;: romano. Essa ideia com certeza estava ligada com a consciencia
- Ym -
m
imitanda posteris tulit ” , lê-se em Tá cito.69 presente no sé culo II d.C. de que sob os abençoados efeitos da pax
:

&
Após os temores de desaparecimento da rep ú blica tardia e do Mix Romana se alcançara, em muitas á reas, uma posição que n ão existira
per íodo das guerras civis — Lucrecio até pensava que os campos .
nunca antes 73 Essa ideia se vinculava com as v á rias concepçõ es sobre
perderiam sua fertilidade70 afirmou-se que Augusto restabele -
cera a “ aurea aetas” . Virgílio atribuiu a J ú piter a promessa de um
1
i
a eternidade de Roma e de seu domí nio, que, numa petrifica çã o
ideológica , continuou sendo nutrida e defendida quando, havia
" imperium sine fine” , que seria ilimitado, tanto temporal quanto i% muito tempo, os sintomas da decadê ncia do império eram vis íveis
espacialmente. A incumbê ncia de u regere império populas ... pacique :
:X por todos os lados.74
imponere morem” \ aparentemente, visava a um dom í nio eterno.71 m Foi exatamente no confronto com os cristãos que se recorreu
:Y-
Já num per íodo anterior, no in ício do século II a. C., tinha mi a ela . Dentro do imp é rio romano, que abrangia todo o mundo
sido trazida para Roma outra concepçã o de Hist ória , a doutrina
‘ m
m (mediterrâ neo), aparentemente a concepção de História se vinculara
dos quatro reinos, que teve sua expressão mais conhecida no livro m
H
• de tal forma com Roma que dificilmente se conseguia imaginar
de Daniel, a qual, porém, na verdade, parece ter sido desenvolvida . y uma História n ã o romana ou pós- romana . Até para os cristã os, era
entre os persas, sob dom ínio grego, em continuidade ao esquema difícil fugir desse dado fundamental. “ Si Roma peril , quid salimn
dos três reinos, dentro do qual o grego Ctésias, no século IV a. C., - est?” - perguntou Jerónimo.75 Os crist ã os opunham aos pagã os a
em Persik á, havia escrito a História assí ria , médica e persa . Em sua finitude da Hist ória . Eles enxergavam na compara ção com a idade
:• JJ
forma original, persa e judaica , essa doutrina inicialmente opo- :*
dos homens uma confissão sobre o desaparecimento iminente do
sicionista fazia especula ções sobre o declí nio do quarto e ú ltimo ó?
v.tU impé rio romano.76 Mas o ponto de vista escatoiógico foi recuando,
reino.72 Nã o se pode reconstituir como e em que medida esse final -

no decorrer do tempo, deixando , no m ínimo, algum espaço para

:x a interpreta ção da Histó ria dentro d.a apologé tica crist ã.
vi
.
Lívio (o qual nao apresenta essa compara çã o) disse, certa vez que se deveria cuidar para que as
forças do conjunto de cidad ã os [der BUgentltaft ] , que deve ser imortal, não envelhe çam (6 , 23, 7).

i
69
.
TACITUS. Annates , 3, 55, 5; cJf o Dialogas de eiater Ibas. e segs., em especial sobre a continuidade da doutrina em Orósio e em Agostinho. A respeito de
70
LUKREZ (Titus Lucretius Carusj, 2, 1173 e seg. .
Pompcío Trogo: SEEL, Otto. Eítieròmische WcUgesehidile N ü rnberg, 1972 .
7
‘ . .
VERGIL. /letteis , 1, 279; 6, 851 a seg ; a respeito da "atirta actas” , cf ibjd ,, 6, 791 c segs. Cf.
74 Vide o verbete" Portschritt" ( progresso], vol. 2, p. 361 (dc GwhichtUriie Crundbegr .
í jfe Hntorischcs
.
LIV1US, 4, 4, 4; 6 23, 7. Lexikon zur politisch-soziale» Sprache in Deutschland , no qual está também o presente texto
( NT.)).
71
-
Kccsias, citado por DIODOR , 2, 1 34. Cf LESKY, Albí n , Qesekfthtt def grUchixhen Uuratar, 3 . í
. .
Aufl., Berna / Munique, 1971, p 697 eseg.; SWAIN,JosefWard The theory of the four monarchies. p .
74 MOMMSEN , Theodor E. St Augustine and the Christian idea ofprogress.
JoHMrf / of the History
.
Classical Philology, n. 35, 1940, p. 1 e segs,; KOCH, Ktaus Spatkraelitbches Geschichtsdenken
• rx . .
of Ideas, n 12, 1951, p 347; V1TT1 NGHOFP, Zum getchichtlklien Selbstverstandnis.. , p . .
.
am Beispifct des Buches Daniel. Hhtonsdic Zcitschrift , n 193, 1961, p. 1 e segs.; LORBNZ, Kurt . .
547 e segs ; FUHRMANN, Die Romidcc..., p. 529 c segs. Cf nota 71 . .
.
UiU â/siichangén xuttt Gttthkhtnvak des Polybios. Stuttgart , 1931, p 15 (a respeko do colaborador 74
HIERONYMUS. Bpiituhe, 123 16, 4. .
..
judaico da coleçã o sibilina); VITT1 NGHOFF, Zum gescliicht ü chen Selb & tvciifá ndms. , p. 551 •'t -. .
?s VITTINGHOFF, Zum geschictlichtn SelbstverstSudnis .., p. 538, 550 c seg, , 560 e seg.

58 59
-3í .
*i :
m 5?- í -f;- Á. v- :
."
V *
O CONCEITO DE H>5TÓ2tA
f¿ . ri AttnGUDAD É

¿¡ Essa interpreta çã o se manifestou inicialmente na cronografía mi messi â nicas ao Imperio Romano.81 Em alguns casos, ele aparece
í: j crist ã , que continha um tipo cie Filosofia da História.77 Nela se
como a concretização do reino de Deus na terra.82 Desde o final
y\ configurou um modelo de Historia providencial, que se desenrolava
do século II , encontramos a doutrina dos quatro reinos, que se
j? í desde a criaçã o do mundo, passando pela Historia judaica, indo em Sil!
lili encontra em Daniel, de tal forma modificada que Roma constitu ía
direção ao nascimento de Cristo, para desembocar na História do
o quarto reino, a fase final da Historia guiada por Deus, o mréxov
.
Império Romano Nesse modelo, se tentava fazer uma sincroniza ção n%
mm
íl i.
gtfU:
da Carta de Paulo aos Tessalonicenses.83 Imaginava-se que esse
entre Histó ria bí blica e História pagã. Assim, se tornou possível t
é ; gvA ;
M fe reino duraria até o aparecimento do Anti-Cristo. Nesse sentido,
determinar seu próprio lugar dentro da História guiada por Deus.
Como nova categoria , surgiu a História eclesi ástica , que enca - mi muitos crist ãos participavam da venera ção pagã a Roma84 ainda -
i
rava os cristãos como um povo próprio, cuja Historie ela pretendia
- S J ;
que nao conseguissem acreditar seriamente na eternidade de Roma .

Através da cristianizaçã o do imperio, sob Constantino, as expecta-
ser. Nesse contexto, as perseguiçõ es e as disputas dogmá ticas exer
ciam um papel todo especial - elas eram aproximadas à Historie,
- tivas depositadas no império romano foram fortalecidas, e a fe na
:
'-í P - sua determina ção através da providencia certamente se expandiu.
mesmo quando a historiografia da Igreja se mantivesse como um Frente as derrotas do imperio, que se seguiram , no confronto
si
'
í
.
*

gê nero próprio 73 Aí í com o problema se elas decorriam da ira dos deuses pagã os que
v .- '

A História terrena foi entendida por alguns apologetas como *


2X
foram abandonados, a questã o sobre a direçã o divina da Histó ria
j '
unit á ria e carregada de sentido , porque era guiada por Deus. Apa- foi reavivada . Orósio chegou a integrar os vitoriosos ataques dos
recia como providê ncia divina especial o fato de que o nascimento II-:% s
i
X
germanos e suas conquistas ao plano salvífico de Deus.85
de Jesus Cristo coincidiu com a consolida ção do Impé rio Romano ,
m Mas, apesar desses e de outros registros, n ão se deve esque-
sob Augusto. A unifica çã o do mundo sob seu dom í nio aparecia m cer que a medita çã o sobre a Histó ria - sobre isso que Tertuliano
como um pressuposto planejado por Deus para a missã o crist ã.79
mV .
chamava “ peregrinar no mundo estranho'’ ocupava um lugar -
-
Por outro lado, a paz e o bem estar do impé rio eram atribu í dos à
ação de Deus. Exatamente o fato de que o império ia relativamente
m
m limitado dentro da cristandade da é poca .86
bem desde Augusto era visto como ind ício da ação de Deus a fa-
i- M Fazendo um balanço, as concepções cristas da Historia não vão

vor de Roma. Prometiam-se mais melhorias, através da expansão


Ü muito alé m das concepçõ es pagãs . Em grande parte, as concep ções

do cristianismo, através das ora ções dos crentes Desenvolveu-se . ‘3?

l
81 MOMMSEN, St. Augustine and the Christian idea of progress, p. 361 e segs.
certa fé no progresso.80 Or í genes e Eusébio aplicaram profecias n STRAUB, Johannes. Christliche Geschichtsapologetik in der Krise dei rowischen Reiches.
•Vft
Historia, n. 1, 1950, p, 61 e seg.
3

55
MOMMSEN , St, Augustine and die Christian idea of progress, p. 3«í $ e scg.; V Í TT1 NGHOFF,
71
MOMIGLIANO, A . Pagan and Christian historiography in the 4 th century, in: Zum geschichdichen Selbstverstandnis.,., p. 554 e scg.
MOMIGLIANO, A_ (Ed ) . The {onflict bctwen Paganism and Christianity. Oxford , 1963, p. S3
e segs.; ef. VITTINGHOFF, Zum geschichtlichenSelbstverstSndnls,., , p. 53$ esegs.
t
viTTINGHOFP, ZumgeschichdichenSelbstverstandnis..., p. 562; BUCHHEIT, ChrmLiehe
Ji

di Romideologie... (cf, nota 65).


7:
1

MOMIGLIANO, Time in Ancient Historiography, p. 88 c segs. ' Ã n ÍS


STRAUB, Chrisdiche Geschichtsapologetik ..., p. 75.
5>
.
Vide o verbete " Forlsdiritt” [ progresso), vol 2, nota 53 [de Gesritlriulirite Gnwdbegtijfe . f*
TERTULL Í AN , Á pologetiíum , 19, 7. Cf. FUNXENSTE ÍN, Amos. Htihphm wild naUirikhe
presente texto ( N.T.)].
-
Hmorisches Lexikon zur politisch iozialen Sprúche in Deutschland , no qua ) est á tamb é m o
Enttoiriilung.Formen der GcgenwartsbesummungimGeschichtsdenken des hohen Mittelalters.
K‘
.
Vide o voibete “ Pcrtiihritt" [ progresso], vol. 2, nota 54 e seg. [de Gesdudttlúhe Grundbegtljfe V: iT -
Munique, 1965, p. 30. Em Hipólito, manifesta -se - para dar um exemplo ‘'desconfianç a
em rela çã o a um impé rio que reivindica uma ecumenickhde que só compete i Igreja”.
Hlstor -
íschcs Lexikon tur pol í tisch so2¡alen Sprache in Deutschland , no qual est á també m
o preseme texto ( N.T.)). A cs$e respeito, OROSIUS, Historia advenus paganos, í. 14 e segs.;
M í .
PETERSON, Erich . Theológlsehe ThtkUtU Munique, 1951, p. 85 e seg. Cf. sua interpret ólo
de que o impé rio romano se desmembrará em "dea democracias” , as quais estariam indicadas
COCHRANE , Charles Noris. Christianity and riassleat ( triture. Oxford, 1940, p. 243 e segs. a n ôs dez dedos dos p é s na est á tua do sonho de Nabucodonozor. MA 2 ZAR1 NO, Santo. Das
respeito do sentido enrí o surgido para transforma ções abrangentes da Historia.
Ende deraniiken Writ. Munique, 1961, p. 38 (tradu çã o de Fritz Jaff
m é).

Ó0 %
:i Ó1
m ..
V
mv :
O CONOCO D 2 HíSIÓWA &y
m
wyyv
pagas sao assumidas e cristianizadas. O que é novo é a fe de que a • III

História é finita. ísso juntamente com as esperan ç as escatológicas
S

I - modifica a posição dos homens dentro da História. Novas são as
suposições de uma melhoria generalizada das condições terrenas ,
-. V
1 II Compreensão do conceito na Idade Média
de um “ progresso” em Eusebio , Grosius e alguns outros, as quais, wSÊ .

i. - durante o período constantiniano, tiveram uma resson â ncia maior, ff Odilo Engels
mas que aparentemente já antes de Agostinho começaram a recu- mm
ar diante da pressã o exercida por evid ências contrá rias. Tamb é m mm
é novo o entendimento de que a Histó ria é obra de Deus. ísso,
poré m , levou, na Antiguidade tardia, a uma nova fundamenta ção
m í i íií
' p^ .v/. :

da concepção pagã de que o império romano seria o ponto final


da Hist ória (ao menos na medida em que ela transcorre na terra).
« ], Sobre o significado das palavras
Somente com o tempo, resultaria da í um novo potencial para o
"historia" e " res gesta"
!; pressupor um sentido.
Com um significado triplo (da mesma forma quejá fora usual
•y

em Cícero), Isidoro de Sevilha (cerca de 560 a 633) legou à Idade


m Mé dia o conceito de “ historia” , através de sua Enciclopédia 87 Ele .
!i mi- buscou a delimita çã o do conceito empreendida pelos veteres nas
! mm Nodes Atticae do gramá tico Gélio e no comentário sobre Virgílio do
V
j
m y
gramá tico Servio:“ Historia” é o registro exclusivamente daquilo que
j. ' o pró prio autor vivenciou , representando, portanto, conhecimento
h seguro, que, por consequ ê ncia , possui altíssimo grau de veracidade.
n :
C& n :
m
'

Esse aspecto da verdade - característico do conceito - pode ser


seguido até a alta Idade Média: “ historia est res visa, res gesta; historia
5: enim grece latine visio dicitur; imde historiografí a rei vise scriptor dicitur ”:88
Mas Isidoro recusava a ideia de restringir a historia à Hist ória
y
'
1 ?
* contemporâ nea - isso em consonâ ncia com a tradi ção educacional

.S? í :
de seu tempo subsumindo os armales à historia Em consequ ê ncia , .
“ historia” referia-se a: (a) forma de conhecer tudo aquilo que era
passado -“ historia est narrado rei g e s t a e p e r quae ea inpraeterito fada
l
A
í-
.
- ¿ir1 '

•:•>. c:
. . . .
Isidoro de Sev í iiia , In: LINDSAY, M W (Ed .) Elytnologiae (vol I ), Oxford , 1911, em especial
- .
1, 41 44
.
w Konrad von Htrsau In: HUYGENS R. B. C. (Ed .). Dtahgus super auetores. Berchem /
.
.
Bruxehs 1955, p, 17; cf. também FREISING, Otto von. Gesta Friderici jmperatoris 2 , 41.
. .
In: Montuinnta Germantee Seriptoris return Gemtanicamm in usum sdtoin/ ium (vol. 46). 3 ed ,
-
. .
1912, p 150; TYRUS, Wilhelm von Historia return inpartíbits iransmarims gestorum ( Prolojtts);
y

y
VJZENZ VON BEAUVAIS, Speculum doctrí nale, 3, 127,
:
y
- -V
T -
Ó2 63
tffcíy- .
m- .
O cctxtno CE H 5T
¥\ CaVififFN &O DO CONCSTO NA bfDS MfoA
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stmt, dinoscmtuf ' * 9 Comi$$ o, o destaque dado porSempronio Asélio


:
41* - Vv
! xr
i
£

:
:
v'
.
evento histórico individual bem como a própria totalidade desses
: ! de distinguir entre os anuales (como puta enumeração de aconteci
- i acontecimentos.
-
V -j"

mentos exclusivamente externos, e n ão mais pcssoalrnente vividos) a


e a historia (como materia autovivenciada e, por isso, apresent á vel i Vi:


Nao é possível afirmar que no in ício da Idade Mé dia se ti-
3 a partir de motiva çõ es internas), essa distin çã o se perdeu , em certa -yl
; vesse perdido de todo a necessidade por um conhecimento seguro
ii ii do passado, mas ela foi superada pela preocupa çã o com aquilo
f medida , na Idade Mé dia. E isso aconteceu , em parte, so porque o m fe -:
que merecia ser conhecido como tal. O acontecimento estava em
detalhamento no relato se manteve como característica da historia, ! primeiro plano, e nao tanto a pergunta pela confiabilidade do co-
tí com a tendencia de, para al ém da apresenta çã o narrativa, vincular :
mMñ .
nhecimento sobre acontecimentos Só assim se consegue explicar
aos relatos a transmissão de valores pedagógicos.90 mm a intercambialidade entre “ historia” e “ gesla” , que do neutro plural
A atribuiçã o de verdade à quilo que foi vivenciado por algu é m se transformou em uma flexão de feminino singular.
;
se estendeu por consequência como um problema sobre o passado O objetivo em conhecer aquilo que merecia ser conhecido
.
localizado mais distante; o lugar dos testemunhos oculares91 passou m-¥ -
:

contribu í a para romper a dimensã o histórica do objeto de conhe-


a ser ocupado pela tradiçã o oral ou pela escrita dos antepassados.92 -
ft .
; ri

cimento , como se pode mostrar à m ão de três exemplos Desde


O conhecimento recorreu àquilo que já era conhecido, e, com ->,Y ;i:v-
'

o s éculo IX, “ historia” podia se referir tanto a um acontecimento


isso, “ história” ( b) como conhecimento seguro do passado, podia If registrado em um quadro quanto ao pró prio quadro, de onde
ser estendida aos depoimentos de um conhecimento mais antigo.95 m
-.
. Í R. surgiram, desde o século XIII, “ historiare” , “ historiei* ou “ sforia-
Como as fontes reivindicavam a condiçã o de veracidade ou
até só eram exploradas por causa disso , (c) també m o próprio
— — *m
m re” , no sentido de “ confeccionar uma representa çã o pict órica ” ou
simplesmente "enfeitar ” No entendimento de Amalá rio de Metz
objeto do conhecimento fazia parte do conceito: “ historiae stint res &
m: (falecido em 850), “ historia” se referia a um relato retirado da Bí blia ,
it
vente quaefactae suntAssim , “ historia” era o conhecimento seguro
m * e a responsó rios compostos para serem apresentados na forma de
de acontecimentos históricos ou o testemunho do passado, ou o &
Vi. c â nticos, na sequ ê ncia da leitura de passagens de relatos bí blicos; no
& século XII , porém , já aparece todo o Ojficiam , independentemente
. .
IS ( DOR, Etymologic, 1 41 1. do dia festivo, abarcado pela palavra “ historia” .9& Isidoro de Sevi-
w FREISING, Otto von. Chron í k 2 ( Prolog)
.In: Monutntnia Gtnnanuu - Seriptores rerunt
mi Iha declarou: “ ( historiones) autem saltando etiam historias et res gestae
.
Gentuttiicarum in usum s àiotArUim (vol. 45) 2. t á . . 1912, p. 68: “ Nemo atuem a nobis sententias aut
demonstraban?* 96 Também glossá rios posteriores nao deixam claro o
ntmlitoto expeeui**; cf. íbid . 6, 23, p. 286. .u
n Beda. In: Ç OLGRAVE, Bertram; r-ii
MYNORS, R. A. B. (£ds ,). Historia eedesiasiiai ( Pmfa í h) . 5 que era encenado; somente desde o sé culo X Í I / XIII, " historia” foi
Oxford , 1969, p. 6: “ ma kx historiae at , simpUciter ea quaeJama vá lgante eolkghms ad insfrmf (orient &*
se cristalizando como peça teatral religiosa e tamb é m se estendeu
postentatis litteris mandare stttduiinus". m para a imagem viva , quando esta se separou da peç a teatral 97
Guilherme de Malmesbury. In: STUBBS, William (Ed .). Cuta region Angbrum . Londres, 1889 m
(rdmpressio Londres, 1964), 5, 445, p. 518: ” £go emm verai » kgem seeutus historiae nlhll ntiqtutm
:VÍÍ Na mesma medida també m o significado da palavra se pluralizou.
A
posai nisi quod Jidetibus relationlbus vel scrip ¡atibas addidiei” .
.
CÍCERO De invenlione , t , 27: " historia est gesta res ab aciaiis nos trae memoria remota" , m i
O conceito geral, inicialmente aplicado ao próprio acontecimento e
í4
.
TSIDOR , Etymologic, 1, 44, 5. Cf tamb é m Ranulf Higgen . In: BABINGTON, Churchill
.
( Ed .). PolychonUon (vol. 2) Londres, 1869, 2, 18, p. 362 e segs Cf. sobre tudo isso, KEUCK ,
.
.
Historia (cf, rtoU 31), p. 6 e segs ; BOEHM , Laetitia , Der wissenschaftstheoretische Oit der
.y - . .
KEUCK, Historia , p , 47 e legs .; LEHMANN Paul MmcUUerKchc Biichertitcl in: .
historia im frilhenMitteklter. Die Geschichte aufdem Wcg zur „Ge5chicht$w í s$cnsehaft“ In; .
%

.
Sitzur.gsberkht der Bayetisehen Ak á demk der Wissenuhafttn , phüosopHisih’ hisiojisótt Kfasse , n
.
BAUER , Clemens; BOEHM , Laetitfa ; c M Ü LLER , Max (£ds.) Speotlum Historíate. Geschichte .
3, 1953, p. 16 c segs ; retmptosso em LEHMANN, Paul. Erforschung des Mmclalteis. In:
im Spiegel von Geschichtsschreibung und Geschichtsdeutung. Festschrift fü r Johannes Sport . .
Ausgeiviihfte Abhattâiungen und Aufeõtze (vol 5) Stuttgart, 1962, p. 65 e segs.
.
Freibutgo/Mumque, 1965, p. 672 e aegs ; corn muitas cita çõ es, mas com menos clareza , cf. ,4
1
IS1DOR , Etymologise, 18, 48.
.

LACROIX, Benoit. Uhistorien au Moyen Age , Mom roa I / Paris, 1971 , p. 16 e segs . .v:i
fj }
.
KEUCK , Historia , p. 66 e segs. » 87 e segs

m
64
I
A
65
. ’.V
¿> K

O CGNCPIO DE HlSIÓfi'A
*
i COMttCtNSÍO OO CONCflTO fU IpAOE Mí (XA

à comunicação sobre o acontecimento, se estendeu pata a atividade 339) e Jerónimo (ca. 347 a 419/20) desenvolveram , dentro da crónica
de comunicar. E se for levado em consideração o fato de que desde íi
universal, o tipo da “ series tempomm” , que encarava como sua tarefa
'

:S5 •
'
v; :
11 '

*
mais digna a de colocar todas as not ícias numa rela çã o temporal.
'
o século XII o francés “ geste” (“ chanson de geste” ), em alguns casos, r
%
É de Orósio (falecido em 418) o estilo “ mare historicum” , o qual,
.

passou para o objeto da canção (“ geste” = “ família” , “ povo” , etc.), então


também a identificação de “ historia * deve ser inclu ída nessa plurali- v
y. m- recorrendo ao maior volume possível de matéria, parece ter tido
zaçao, como parte importante do acontecimento a ser comunicado. • vi como ú nico objetivo o entretenimento. E o terceiro tipo é a “ imago
Com certeza, nao constitui acaso o fato de que també m desde vr tmmdi” , desenvolvido por Isidoro de Sevilha , de fornia consciente,
o século XII novamente se passou a questionar com muito mais M - - que entendia a História como apenas uma parte da realidade total;
ê nfase o conte údo de verdade da comunica çã o. Os conceitos de
'

ill essa intenção fica muito clara na tripartição de “ speculum historí ale” ,
mm. ” , que Vicente de Beauvais
“ historia” , “ fabula” , “ vita* ,“ chroniqtte” ,“ conte” ou “ roman” podiam
9
“ speculum mturale” e “ speculum doctrí nale
significar a mesma coisa , no sentido de um simples relato. Mas já (1184/94 a ca . 1264 deu
) a $ ua obra .99

no século XIII , a expressão “ geste” foi sendo desclassificada como Enquanto a perspectiva histórico- universal se estreitava , foi
relato com fins de entretenimento. A pretensão de apresentar afir-
i possível que analogamente surgissem Crónicas de objetos parciais,
Mil como a de Cassiodoro (ca. 485 a depois de 580), com sua Histó ria
maçõ es coerentes com a verdade foi se restringindo ao conceito -
i popular sobre os godos (origo gentis) , a crónica de cidades, de ordens
V

“ estoire” ou “ histoire” , urna evolução que naturalmente só chegou i -


a um desfecho depois do século XV. O retorno à restrição t í pica m religiosas, etc.
da Antiguidade tardia do significado da palavra “ historia” partiu ,
m Sob alguns aspectos, como imagem invertida em rela ção a
isso está a annalistica. Em geral, redigida por vá rios autores n ão
• :-:5
,
portanto, da escrita da História em sentido mais restrito.
conhecidos nem prevista para uma difusã o mais ampla, a própria
ll
m construção esquem á tica , classificada por anos, registrava somente
2. A escrita da História; sua classificação i
notícias contemporâneas e jamais recuava até a $ origens, faltando-
e o horizonte em que ela é experimentada mi
lhe necessariamente uma ideia mestra que a perpassasse.

a) As “ categorias” . O quadro das categorias da bibliografia m


ñ Nas teorias antigas, a biografia n ã o est á inclu ída na historio -
grafia , mas independentemente disso foi se infiltrando nas formas
historiográfica que possu í mos da Idade Média parece estabelecida de representação da escrita da Hist ória , desde Plutarco e Suet ônio,
de forma inabalá vel. “ Crónica ” , “ anuales” ,“ vita” ,“ gesta ” , “ hist ória ;v.v • sob a forma de uma sequência de biografias de governantes. A
popular" e “ poesia histórica” constituem hoje em dia conceitos m-.
• fc
deficiente fundamenta çã o teórica e a exigência amplamente aceita
bem definidos da ciê ncia do ramo.98 • É
S do autor da Vita Sancti Martinit Sulpício Severo (ca . 363 a ca. 420),
A crónica , escrita por um ú nico autor, em geral conhecido -i i

de que somente a vida de um santo poderia ser descrita , porque
pelo nome, e destinada a um p ú blico amplo, tentava abarcar uma * somente seu exemplo direcionaria o olhar do leitor para o alé m ,100
mat é ria histórica abrangente , desde o in ício at é o momento em h
que se escrevia , a partir de uma ideia mestra . Dentro desse quadro
'
í
M Vicente de Beauvais, citado por BR í NKEN, Anna Doiothee von den. Die lateinischc
CR
geral, existem possibilidades de diferencia ção. Eusebio (ca. 265 a Wdtchrontaik. In: RANDA , Alexander (Ed.). Mcnxli imd IVrtyadiUhte. Zur Geschichte der
UniversatgeschkhUscíueibung.Salzburgo/Munique» 1969, p.57; cf.BRINJCEN, Anna Dorotbee
i von den. S í udteti zuriateinlschtn iVtUttwhistik bis in dm ZiiUhtt Ottos von Freising, D ü sseldorf, 3957.
Cf. o quadro geral de GRUNDMANN, Herbert . Geschichtsscbreibung im MitUlalter In: . >> w SEVERUS, Sulpicius. Vila Sanai Martini, 1, 1; alé m disso, o extenso comentí rio de Jacques

p. 2221 e segs, (ediçã o revisada: Gottingen , 1965) .


. .
STAMMLER , Wolfgang (Ed.). DeutscJte Philologit Un Aufitss (vol. 3). 2 Aufi , Berlim , 1962,
1- • y-
Fontaine, em sua edi çã o bil í ngue Sulplte Sévlre, Vir de Saint Martí n (t , I ). Paris, 1967, cm
.
especial p 72 c segs.

.V-
óó 67
: -

O CONCISO ce H íMóí IA se- .


CO.vWEf N5AO DO CONCtf íO NA íOADí MéOIA

impediu que na Idade Mé dia ocorresse um desenvolvimento linear


da abordagem corrente. Biografias de governantes sao impressionan-
ú
as m¿
m se perdia nas profundezas do tempo, e a escrita latina da Hist ória
temente raras na Idade Média.101 E a rica bibliografia hagiográfica
Aí# é unicamente a rima; ela surgiu da necessidade de enriquecer as
nao visava em geral apresentar uma história pessoal no sentido de
mWW . leituras escolares, dedicando-se preferencialmente a uma pessoa
'

f fê&í ou a um episódio, com tendências ao exagero panegí rico, o qual


mostrar o desenrolar de açõ es ou de movimentos ( por exemplo , podia ser utilizado para fins propagandísticos .
porque essa forma de representa çã o fosse totalmente desconhecida) As características diferenciais dessas classificações em categorias
- ela procurava justamente mostrar, através de todas as ações do ipp- : se localizam em variados n íveis e só foram descobertas pela pesquisa
santo, sua voca çã o ã santidade desde o princípio. ygj-yfe

- - - -. i
através da fenomenología , no século XIX. Aquilo que se entende
Mesmo assim, houve sé ries de minibiografias. Sua designação l .- .
.

mb vi; por “ crónica” foi sendo estabelecido a partir da inten ção daquele que
-
de "gesta” ~ derivada de “ res gesta” indica a inten çã o de registrar
II escreveu a Hist ória e a partir do objeto; a " vita” só é compreensível
acontecimentos. As “ a ções” relatadas concentram-se , poré m, sobre a partir da pessoa descrita, enquanto a característica mais destacada
pessoas que ocupam cargos, cuja sucessão, através de vá rias gera- . vm dos“ atmales” e da “ gesta” parece ser o princípio classificatórío que se
ções, mostra a interconexao de institui çõ es no longo prazo. Dois a àv4:
orienta na sucessão anual ou na sucessão do cargo. Diante dos muitos
aspectos podem ser destacados: ou a enumera çã o de determinadas
características da a çã o dos detentores de cargos - repetida como se
m
' ^. V

mi
É
"

S ísfei!
;~

:
• espaços de transição na realidade historiográ fica , essas características
estruturais poré m parecem se referir apenas a tipificaçoes estabeleci-
, ,
fosse um catá logo - destaca os aspectos está ticos de uma instituição das postfestum.Já naquilo que tange ao conceito dos “ anuales” , não se
juridicamente normatizada , o que muitas vezes se d á através da rm pode ignorar o fato de que Semprônio Asélio, 11a sua caracterização,
inserção de documentos legais , em cita çã o verbal;102 ou ent ão, a empregou critérios bem diferentes dos da linguagem científica atual.
it
massa de acontecimentos diferenciados destaca a efic á cia das a çõ es & Por isso, é incontorn á vel apresentar as afirmações dos próprios autores
desses detentores de cargos, cuja a ção passa , assim, a corporificar
a import â ncia da pr ópria instituição. Ambos os casos nao excluem
m $X l : -
que escreveram História na Idade Mé dia .
b) Crit é rios de classifica çã o na Idade Mé dia. A antiga
a possibilidade de que a descrição fique cada vez mais detalhada , I &
distinção entre historia como relato de acontecimentos contem-
à medida que se aproxima da atualidade do autor, desembocando, porâ neos e anuales como a representa çã o de acontecimentos mais
ti*
3 .
no final, numa ampla biografia. distantes no passado foi rechaçada por Isidoro de Sevilha - como já
O que há de comum entre a poética de canções populares, cuja m 3

foi dito; mesmo assim, ele se viu obrigado a levar em consideração


perspectiva cronológica, tanto para ouvintes quanto para apresentadores,
m o conceito de anuales. E que às medidas de tempo em dias , meses
M
& e anos corresponderiam ephemer í da, kakndaria e atmales ; o genus
§
ICI Cf. BEUMANN, Helmut. Die Historiographic a í s Quelle fut dio Idee« g«chichte des historiae apresentaria uma classifica çã o tripla ,103 Ele aceitava esse
.
Kouigtums. Hittorifche Ztiluhrifi , n ISO, 1955 , p. 456 e segs.; reimpresso cm BEUMANN , crit é rio de diferencia çã o orientado por um princípio classificatório
Helmut . Id<aigtschithl¡kiu Studien zu Einhard utui twderen Ctsehldtlssthftibem dei frithtren ni formal , mas aparentemente n ã o era fundamental para uma divisã o
. . .
MitieiaJters 2 , Aufl , Darmstadt , 1969, p 47 e segs. Sua opiniao de que as biografias de
governantes influenciadas pela Hist ó ria dos saxões de Widukind von Cotvey mostrariam no
m
-K v em categorias. A baixa Idade Mé dia seguiu esse padrã o, na medida
geral uma concep ção de História profana latente, precisar ía ser confrontada com a pergunta •
-
&j*
ern que as muitas obras de atmales, via de regra, n ã o são classificadas
por que biografias de governantes s ó foram escritas quando as estruturas de domina çã o se M
tomavam inst á veis, e se na vis ã o, muitas vezes, conscientemente “ profanada * n ã o estamos
1 % ã com esse conceito nos tí tulos.
diante de uma adapta ção do autor à ainda pouco desenvolvida concepção crista da nobreza .
Seria poss ível pensar aqui em partes posteriores do Liber Pontifiealis ~ cf. ENGELS, Odilo .
.
Kard í nal Boso a!s Geschichtsschreiber. in: Payst und Kctizil Festschrift fur Hermann Tíich í e. S 103 ÍS Í DOR , Etymologlae, 1, 44. Cf, a respeito: FONTA Í NE » j. Isidore de $éviUe et lá ( allure
-
Munique, 1975 ou na Historia Ccwpostellana. ( bsí fque dons VEspacie wislgõ thiqu é (c. 1). Paris, 1959, p. 180 e segs.

68 f - ó9
Ml
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>. O COíJCcTCO P£ Hitf &A.
’ è CC.Ví«6NSAO DO ccM-cmo HA IOAK Mte\
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. .
2 i ;v:
- -
¡ 1
’•
ammy: dilatare et fimbrias magnificare delectant. Dum enim cronkam compilare
J •
;¥ - 5;
> « • > ¡ , .

J Qu árido Isíd òro diz que Sal ústio escreveu uma historia e que
I: ^ -
Éi às de Lívio, Éusébio e Jerónimo se constituiriam de historia e
'
cupiimt , historiei more incedunt et , quod breviter semoneque hmnuli de
no
í antialesi isso não representava mais que uma concessão a definiçõ es Ul - cXÜ
"
modo scribendi dicere debuerant, verbis ampuUosis agravare conantur”
H Usuais. É que em outro lugar'04 ele cita a crónica; na tradu ção latina,
ela se chamaria tempomm series , a qual teria sido escrita por Eusébio,
Já que são muitas - como escreve Gervasio se deveria pensar
aqui num fenômeno de decad ê ncia , que tenderia a eliminar a íorina
1P$ m e Jerónimo a teria traduzido para o latim. Juntar historia e anuales
vs l ;;\S
1 de representação mais compactada ou a mais ampla como sendo as
r numa mesma obra era , portanto, algo novo, frente ao qual a carac-
ter mm:: L': v: VV ;
'
verdadeiras caracter ísticas distintivas entre Crónica /anuales e historia.
Naquilo que tange à massa da maté ria e simplesmente por causa
Ir ística diferenciadora representada pela proximidade cronológica
em rela çã o ao autor perdia import â ncia e ia sendo substituída pelo mm do espa ço temporal abordado, Ot ã o de Fresing (ca . 1112 a 1158)

:f m
I conceito de crónica . A distinção entre cron ística e annalistica, hoje teve de fazer uma restriçã o maior na sua Crónica mundial que em
Ip usual, orientada pelo princípio de classificaçã o, aqui, precisamente sua Gesta Friderici Imperatoris, por é m , em rela ção ao estilo n ão se
b n ã o era feita,105 portanto h á bons motivos para que se possa designar
a annalistica, que foi dominante até o final do século XI, como a
*
ai»f

observam diferenças significativas. Se, apesar disso, a Crónica mundial


leva o título original “ historia” e a Cesta o tí tulo “ Crónica” f 1 isso
m
forma de representação da Crónica propriamente dita 106 . ap aparentemente ocorre em razão das diferenças no espaço tempo-
* Mesmo assim, a diferenç a entre historia e anuales não se perdeu , i ral abrangido. A caracterização da abordagem mais ampla como
Vi
%
e isso numa outra perspectiva, que Isidoro n ã o levou etn conside-
ra çã o. Cícero107 e Quintiliano108 haviam caracterizado os anuales
m
mm
historia permaneceu , mas $e deslocou - e isso não apenas em Otao

de Freising de critérios internos para características externas.
-
*
s .1

wm
'
1

ij como uma forma menos pretensiosa de representação, pelo fato de O genus historiae triádico citado por Isidoro també m n ão era
que se tratava predominantemente de um arrolamento de datas e
.
de nomes Cassiodoro já identificava - sem dizê-lo de forma ex-
pressa - a Crónica com a obra dos anuales , já que ele a define como

Jp im:
.
desconhecido na alta Idade Média . Roberto de Torign í (= de
- -
Mont Saint Michel, finai do século XII) observa , no prólogo de
i .
sua crónica sobre Sigisberto de Gembloux, seu modelo: “ de ducibus
“ imagines historiaram breuissimaeqtte commemorationes temporum’\m A i
>>- I :-.. Normanonim nihil autparum dicit , Nant tatúen hoc fecit negligente?, sed quia
m
*

distin ção inclusive é encontrá vel na alta Idade Média . Assim, Ger- carebat his tribus historiisV 12 Teria sido costume da é poca apresentar a
vasio de Canterbury (século XIII) apresenta a seguinte polê mica :
“ Crónicas autem anuos et principium quae itt ipsis eveniunt breviter edocet,
m

Historia dos duques normandos conforme su a sucessão no cargo. A
partir da antiga teoría do princípio de classifica çã o, aquilo que nós
%&
mm
eventus etiain , pórtenla vel miracula commemorat Sunt autemplurimi, qui . hoje costumamos designar com o conceito de“ gesta” ainda nao havia
crónicas vel anuales scribentes limites sitos excedan! , nam philacteria sua sido incorporado; por isso, Roberto desculpa a falha de seu modelo.
I! Esse exemplo clareia duas coisas, tendo por base as observaçõ es
1SIDOR , Etymologise, 5, 28.
m precedentes. A teoria da Antiguidade n ã o foi adaptada às transfor -
M EACROIX, JJhtrioikn eui Aíoyen Àge, p. 34 escgs., em contrapartida, mediante recurso a excitações,
tema cristalizar historia , mules c cr ónica como as três categorias propriamente ditas da Idade Média,
masse emaranha em dificuldade evidentes, ao tentar tra ç ar os limites entre Cr ó nica e cwnales
* .
»
; > f- y.
[ «
ma ções entrementes ocorridas, procurando-se, pelo contrá rio, com
evidente esforço frustrado, enquadrar a realidade historiogr áfica nas
.
Encontra-se dessa forma cm POOLE , Reginald L. Chronicles and Armais A brief outline of • 4
thdir origin and growth . Oxford, 1926. , GcrvSsio de Canwtbury, in Chronica maior (Prologas). In: STUBBS, William (Ed .). The historical
1,7 yt 10
CICERO, De ontore , 2, 12. warki (vol. 1). Londres, *• d . [1879]; reimpresso, sem indica çã o de lugjr, em 1965, p. 87 e seg,
QUINTILIAN, 10, 2, 7.
? Cassiudoro. In: MYNORS,
R. A. B. ( Ed.). Insiitmionts divinarían et hmtananmi Htlnalum ,
M
y m Pranz
- , .
Joscf Schmale, em sua introdução a Biuhof Oito von Freising ttnei Rahtwln Die Teten
Pfk óiUhf . Darmstadt, Í 965, p. 75 e seg. (teadusido por Adolf Schmidt) .
Oxford , 1963, 1, 17, p. 56.
m
m
.
m Robeuo de Torigm. In: DESLJSLB, Lé opold (Ed .) ChmUa ( Prologus) (t. 1). Rouen, 1872, p , 94.

70
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v
,
71
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O meio De HUTôSIA
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COWKKNSâO ex? CONCEITO MA bxw MéDIA

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normas transmitidas. Isidoro já tinha aplicado o conceito "amales” mantendo -se apegado à congruê ncia de imp é rio e religião, já que
I
? a elemento de classificação e de categorizaçao, sem sinalizá-lo, a expansão da salvação, segundo o plano da providência divina , só
e em Roberto de Torigni vemos os três elementos básicos buscados poderia ser garantida peio quarto grande impé rio .
numa medida de tempo (dia, mês, ano) sumariamente designados por
;

j!

“ historiaeNaquilo que tange ao assunto, se fazia uma distinção clara


entre principios de classifica ção e de categoria , mas o mesmo não se
Aw Somente no imaginá rio de Isidoro de Sevilha , o império uni-
versal romano encolheu a um regnum ao lado de outros regna, dando
lugar à ecclesia como ú nica unidade que abrangia todos os povos.116
fazia na escolha das palavras, com que se teria achado outra expli-
cação para a tentativa da moderna pesquisa histórica de determinar
yv
5 ;.

-

Como consequê ncia , ele retomou no lugar de uma sequ ê ncia de
quatro imp é rios mundiais o princípio classificat ório que havia
diferenças de categoria , ao menos em parte, a partir da classificaçã o. am sido concebido por Agostinho com “ aetates” , entendendo-as no
c) Formas de experiência e capacidades de formatação. mm
*Í $9ê Nfy ; sentido de um amadurecimento do corpo da humanidade como
Antes que se conclua , de forma apressada, que a continuidade pre- m- m
r.v,:.
V -o
• etapas da idade do mundo 117 .
domina desde a Antiguidade tardia até a alta Idade Média , deve -se Tamb ém ainda na Antiguidade tardia surgiram listas de pa-
dar uma olhada na experiê ncia da historiografia medieval sob o SI lí- pas , em analogia aos antigos fasti consulares , que iam se ampliando
aspecto de sua riqueza , naquilo que tange às suas formas histó ricas,
incluindo suas principais ra ízes. ••
I> cora o acr éscimo de dados biográ ficos, transformando se no Liber
pon ( ificalis.m Da perspectiva das formas hist óricas, esse protótipo da
-
A escrita da Histó ria paga da Antiguidade n ã o pensava de gesta possui a mesma raiz da mnalislica antiga , naquilo que tange ao
forma cíclica , mas sim linear;115 com isso, a introdu çã o de um telos . *
objeto » pois representou a continuidade das antigas biografias de im-
crist ão n ão significou nenhuma ruptura total com a historiografia :ÍH ft í
• y
;
*
5’ peradores, mas, por causa da forma constante em relação aos dados a
anterior.11* Aquilo que a crónica mundial de Eusébio/Jerônimo, serem registrados, se entendia como uma história institucional oficial .
3
preocupada com estrutura ordenada de dados, ainda n ão conseguiu ix Com isso , todos os princípios de classificação adotados depois estavam
fazer, Orósio, o discípulo de Agostinho, conseguiu.115 Nos sete m configurados: a sucessã o de quatro impé rios ou monarquias mundiais
: :Z í
'

livros de sua “ Historiae adversas paganos” , desvinculou do rei assí rio yv


ou de fases et á rias do mundo, o esquema atmalistico subjacente às eras
Ninus, o fundador de Ní nive, o início de toda e qualquer história do mundo e a lista de sucessão dos detentores de cargos. Mesmo
palpá vel , que tinha sido descoberto a partir do grande impé rio da :V : assim, nem todos tiveram continuidade óbvia na Idade Média.
Antiguidade tardia e, como primeiro, começou sua representa ção : •
Beda (672/ 73-735)119 conhecia as Crónicas de Jerónimo e de
com o relato bí blico da criação. Mas ele não conseguiu romper de 1
*

Isidoro, e utilizou a divis ão em fases da idade da terra. Mas n ã o
r?
todo com a visão de que o império romano constituiu o ápice, e .v-y
r
com a consequente irrepetibilidade do impé rio mundial romano ou ,
com a invertibilidade da orienta çã o hist órica que existiu até então;
::r 15
-
ROMERO, Jos é Luis. San Isidoro de Sevilla. Su pensamiento hist ó rico polí tico y sus relaciones
, . ,
con li historia visigoda Cuadernos de Historia de Espa ña n . 8, 1947, p. 51 o segs -
ele simplesmente identificou a pax Augusta com uma / Mx Christiana , Í3
17
Mais do que na Cró nica de Isidoro, esse sentido fita claro nas suas Etyrttc logias, como mostrou
.
Arno Borst em “ Das Bild der Geschichte in der Enzyklop’adie Isidore von Sevilla ” ( Deutsehss
, .
Auhiv n 22 1966, p. 21 e segs .) .
1,1

-
m Cf VITTINGHOFF, Zum gcschicUtlichen
Sdbstvent ...
â ndnis (cf. nota 49). $
,
BERTOLINI , Ottorino. II “ Liber Pontifiealis" In: Stoticgrajia vot . 1, p. 387 e segs ; .
MELVILLE , Gett. De gestis jive stands romanorum pontificum ... Rechtssatze in

IN MOMlGL
Í ANO, Arnaldo. L'et à dei trapajso fia storlografia anttca e storiografta med í evale .? .
Papstgeschichtswerken. Auhlvum HUtomt Pontifidae , n 9, 1971, p. 377 c segs.
- .
i:

.
(320 550) In: La sforiognififl alfomedievak (vol. 1). Spoleto, 1970, p. 89 e segs 119 .
Entre os melhores, continua estando LEV 1SON, Wilhelm Bede as historian. In: THOMPSON,
115
SCHONDORF, Kurt A. Die Geuhkhtstktolegie dei Owíi /f. Munique, 1952 (tese de doutorado); . .
A Hamilton (ed .). Bede ,hh life,times and uvitbigs Essays in commemoration of the twelfth centenary
.
LACROIX, Benoit. Orne et ses id ées Montreal / Paris, 1965; MARROU, Heitri Ir é n é e . Saint of his death . Oxford , 1935, p. UI e sega . (Reimpresso com amplia ções cm LEV ÍSON , W. Aus
Augustin , Or óse et PAugimhmme his tonque. In: Storiogafia (vol. 1), p. 59 e segá. .
rheinischer und frankiseher Fr ü hzeit . In: AusgeuKikfte Aiifiãtzâ, Dusseldorf, 1948, p 347 t segs.).
/•
: >x
y
V
-
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72
1 := .

73
r
i: . . .
O CttíCfcTO OE ‘
IflÉ#
?. .
> •• •••

COMíSííNSAO CO CONCHO tu lew* MíDIA

¡p foi ela que teve influ ência duradoura no continente , mas sim seu
cálculo das datas da páscoa , at é o ano de 1063. A anmí istica que

.••.‘.iCí g.
fe- v-:;.

••
uma concep ção de História determinada pela romanidade. A cró-
nica de Regino de Priim (aproximadamente 840-915) já percebe o
i predominou na escrita da Historia carolí ngia se desenvolveu a «»
Ur surgimento dos impérios germanos como uma ruptura decisiva .
121

* partir de uma necessidade prá tica: tabelas com as datas das páscoas ) mwm
vjp-m Paulo Diá cono e Freculfo, porém, tamb ém não eram mais
& ofereciam oportunidade para registrar, nas margens, acontecimentos capazes de adotar o esquema classificatório de seu modelo ou de
importantes do ano corrente, um costume que foi se autonomi - i estabelecer outra classifica ção para o material histórico-mundial,
V:
zando e ampliando. Aqui a cronologia melhorada deBeda oferecia mm que fosse mais adequada ao tema. A Vita Karoli Magni, de Einhard
uma ajuda bem-vinda. Seria possível argumentar que, com isso, a -Vê l&v
:: (aproximadamente 770-840), comprova que a razã o para isso não
partir de Beda , tamb ém estava estabelecida uma liga çã o da ama - Wm
mm estava na perda demasiada de conhecimentos sobre a educa ção
l
;
.
listica carol í ngia com Eusébio/Jerônitno Na verdade, porém, essa antiga .122 Chama a atenção que o tipo de vida de santo, muito
*
i
ligação foi muito secund á ria , pois, apesar de seu formato igual ao 1m •
realista , que os missioná rios anglo-saxões haviam difundido no
do antigo precursor, a anmlhticú medieval tinha suas próprias ra- continente, pôde se manter ao lado da “ vita” > que recorria ao
í zes. E nao se pode excluir a possibilidade de que Paulo Diácono
(720/24-799?) tenha utilizado a lista de governantes langobardos
mm
<r
postulado de Sulpício Severo e tipologizada para fins lit ú rgicos125,
até que na alta Idade Média (com a exceçã o da Á ustria) també m
— m:
:
que precede ao Édito de Rothari mais uma vez, uma fonte nao
buscada na Antiguidade tardia - como modelo para o esquema de
classificação determinado pela sucessã o nos cargos, para sua Cesta
m
:4 l?-v
.
aquela anmíistica que n ão se misturara com outros elementos de
classificação novamente desaparecesse. Nessa medida , est á correto
enxergar na escrita carolí ngia da Hist ória uma nova abordagem, a
episcoporutn Mettesiim }20 ’
>: iw : qual evidentemente n ã o evoluiu para uma configuraçã o mais ampla.
iI

. De qualquer forma , a crescente soma de possibilidades de for- Tanto a vita quanto a annalistica n ão foram capazes de produzir, na
mula çã o se reduziu aos dois princípios classificatórios, o do registro : alta Antiguidade, uma imagem realista da vida, ou algo mais que
anual e o da lista de sucessão, os quais no início foram os ú nicos a :? Á ::
uma simples montagem de dados; mas eram exatamente eias que
sobreviver; e isso se deu à s custas do horizonte hist órico -mundial. pi * pareciam apropriadas para isso. Aqui parece ter se manifestado o
A crónica de Orósio serviu de base tanto para a Historia Romana v ç: efeito da forma desenvolvida de raiz própria, originalmente ima-
de Paulo Diá cono quanto para a crónica mundial de Freculfo de
Lisieux (aproximadamente 825 -852/64?). Mesmo assim, ambos os
m
.'M
V*
ginada para o registro daquilo que tinha a ver com a atualidade.
Somente a partir do final do século XI, se foi retornando
autores n ão conseguiram fazer muito mais que um simples enfi- gradativamente à reda çã o de crónicas mundiais mais elaboradas.
leiramento cronol ógico de episódios individuais, e ambas as obras m
m 9í. ; Isso não se devia apenas à leitura de autores antigos, mas também
terminam com a apresentação de Justiniano ou de Gregorio o Gran- a -:. à s novas experiê ncias. No contexto da querela das investiduras, se
*

de, isto é, com o colapso total do Império Romano no ocidente.


Na impossibilidade de prosseguir com a apresentação da Hist ória
Is
',
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í&
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,
.- u\£\??;-
,
;
•: >V
i • J|
L ÕWE, Heinz. Regino voa Priim und da$ historische WehbildderKâ rolingerzeit. Rheinfsthe
mundial até a atualidade do autor, reflete-se a depend ê ncia dos fc VUruljahnibtotUr* n . 17, 1952, p. 151 o segs, em especial p. 173 e segs. ( Nova impressã o in:
historiadores em relação a um contexto em que nã o mais vigorava
mn
• M ív LAMMBRS, V/ahhor [ed.]. Gtuhkhtsdtnktn und GesdiUhtsbitd im MUutatto* Darmstadt , 1965,
fc p. 91 o segs ., cm especial p, 125 e segs ,).
' '

Ji<: f - )-
m m HELLMANN, Sicgmund. Einhards literarische Stcllung, Histormho Vittteljahicssfhrift, n. 2?,
1932, p. 40 e segs. (Nova impressã o cm BEUMANN, Helmut. Ausgaví fhlte Abhandlungen zur
.
SESI AN, Ernesto , La storiografia dell’í talia í angobarda: Paofo Di á cono. Stonograjia, vol. 1, p

as- ir* .
Historiographic des Aíiitelalters Darmstadt , 1961, p. 159 e segs.); BEUMANN, Helmut. Topos
.
357 e segs Comprovada mente, Pan lo Diá cono també m conhecia o Liber PcnilficaUs t a Hist ória
v
í -- und Gedankengefugebei Einhard . Arduo fir Kuhtt /gtschichie , n. 33, 1951, p. 337 e segs.
.
ccleftfsUca do povo inglés de Beda; por essa razao, unia decis ã o a respeito fica em aberto • £ ?: m Cf. a bibliografia em GRUNDMANN, Geschichtsschreibung, p. 2252 , sobre o § 6 (nota 98}.

A3 r ñ
74 -
: y j* ; 75
.m m
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Vfv - v.
O CONCETTO OE HiJIÓí tA. -
í.
COWtt&TSAO DO CCNttfTO NA fOAOC WiétfA
- mm
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i :
5:> ¡
>
.
reavivou a concep çã o das duas potencias supremas> na forma da |
,
continuadas pelos franciscanos, se contentavam com a sequ ência
doutrina das duas Irmas, construindo, assim, uma ponte em relação vi| v
em que os papas exerceram seus cargos.
=: i
& .
à Antiguidade tardia 124 Era sobretudo o ocidente que negava a
sl| d) Doutrina da representa çã o. Sob a influ ê ncia de uma pres-
M;
ÍV
-
função histórico mundial central de um império que se estende
- SM i são cada vez maior da experiê ncia histórica , no decorrer do sé culo
ria da Antiguidade até a atualidade , como contrapolo legí timo ao
sacerdotium, mas também ele encontrava no papado um referencial ip» XII, a discussão teórico-cient ífica foi reavivada. Não é necessá rio
t

Vi
••
.;

geral como sendo o ápice integralmente realizado da ecdesia,m Ao


ijfe
Mr
explicar que a teoria da Antiguidade tardia, desde o início, fez parte
dessa discussão. A discussã o se concentrava sobretudo na pergunta
- «11
1 ’
:v
mesmo tempo, novos objetos que enriqueciam a visão dos histo a respeito de como o material com informaçõ es históricas deveria
riadores movimentaram a escrita da Hist ória, no século XII ,126 A mê ser trabalhado em cada caso.
I
; despertando a atenção do historiógrafo para novos temas, como mm Como parte da Retórica , a historia també m era narrado de
cruzadas, fam ílias nobres, territórios de prí ncipes ou cidade.127 V acontecimentos do passado,128 o historiogmphus exercia um ojfiáum
:
O n ú mero de classificaçõ es conhecidas n ão aumentou com narradotthi cujo produto era visto como um opus narrationis }29 Tanto
;
isso; continuava-se a utilizar listas de sucessão e registros anuais, mas
agora numa mistura crescente, e também a sequência de monarquias
iii no século VII quanto no século XII, a historia, invocando seu altís-
; V.
simo grau de veracidade, começou a se distanciar da fabula (“ ñ eque
mundiais teve nova aceita ção, através do estabelecimento de uma y:
V
íi VM -. verutn ñ eque verisimile" ) , do argumentum (“ non verum sed verlsitnile” ) e
ponte com a Antiguidade. No final, o princí pio peculiar da gesta m
Vrlfr í --
’ '
-
da poesia.130 Mas e esse aspecto parece ter se transformado num
problema de difícil solução -“ gesta temporum injitdta pene sunti mt
*
;

acabou dominando; na alta Idade Média , as Marihuanas utilizadas Wm


%

pelos dominicanos - de acordo com o modelo de Martinho de mm


M r-
por isso uma sele ção do material a ser inclu ído na narrado se tornou
incontorn á vel .132 Somente foi levado em considera ção aquilo que
P.
::
• Troppau - mantiveram uma classificação dos materiais referentes MP;
à História mundial, através de listas de sucessão sincrónicamente seria in “ rebus tnagnis memoriaque dignis” .m Na visão de Hugo de
enfileiradas de imperadores e papas, enquanto as Flores tempomm> èv.v: Sao Vitor (falecido em 1141), ainda eram esquematicamente trê s
;Í W
mr fatores: a pessoa que era dominante no acontecimento, o lugar do
Ui O impé rio aiemao aparece , peia primeira ves? , àt forma clara , como continuidade do imp ério
w* acontecimento, e o tempo que envolv ía o acontecimento.134 No
mundial romano cm Frutolfo de Michelsbcrg. Uma ajuda muito importante que o orientou «•Tt
: i-:-; -:
: século XIV, em contrapartida, já eram citadas sete famosa aedonum
na redaçã o foi buscada na Crónica de Jerónimo. Mas o esquema â iuiatistico mostrou frá gil ,
.¡ mm
:, ;.3

em pontos nodais; cf. SCHM ÀLE, Franz-Josef; t SCHMAL£ OTT, Irene. Pruiolfs und
-
* :

.
Ekkihardt Chroniken und die astonyate Kâiscnkrontk Darmstadt , 1972, p. 8 e segs ( introduçã o). .
m 1 SIDOR , .Etymologise , 1 , 41; BEAUVAIS , Vinzenz von. Speeuhmi jMUhiatt , 3, 127.
Juntamente com Lamberto de Hetsfeld , Frutolfo faz parte do período de transição em que se
procura substituir o princípio annaUstico em favor de interconexõ es mais abrangentes.
tm- m LACROIX , Uhiuorien a\t Moyeii p . 15 e seg.
,w ISJDOR , Etymologise, I , 44; cf. SALISBURY,
Johannes von . Policraticus, 2, 19; Rauulf
Í Ji
Hugo dc Fleury foi o primeiro a escrever uma Historia eccleshsiuo , Joã o de Salisbury foi o vu íKi . .
Hlgden In: BABINCTON (Ed .) , Polychrotticon, 2, IS.
primeiro a identificar a história da igreja com a história dos papas; cf. ZIMMERM À NN, • v r.
Vi; l
m Hugo de S ão Vitor. In: GREEN , William M . (ed .). De tribus maximis drcunswnriis gestorum.
Harald . Ecclcsia a í s Objekt der Historiographic Studien zur Kircliengeschichtsschieibung ;
T Speculum, n . 18 , 1943, p . 491 .
im MitteUltertmd In der friihen Neuzeit . In: Slteungsberldtt der ÕsternUhischen Akadcmle dei &
.

V:: ; 133 Otao de Freising , na carta a Rainald von Dassel por ocasi ão do envio de sua Cró nica ao
Wifstnuhafttti, philosophisctulí islorhche Klasse, 235/4. Viena, 196Q; JED1 N, Hubert. Handbuch imperador Frederico I: “ Sr/t /r enfm, <¡ucd onutls doctrina in duobus ( omitlit , in fuga et eketiene, ...
der Klrdengeschiclut (vol. I ). Freiburgo , 1963, p . 28 e seg.
-
SP ÕRL, Johannes. WatidddesWek undGeichichtsbildesim 12. J í hrhundert? ZurKcnnzeichnung
.
M
;;|
-
N VR:
fev
j g;;> :
ipsa est , <ptr> e scctmdum suam disciplinam dccet eligen ea , quae conueniimt proposito, eifugcn, quae
impediuntproposition . . . Sk el ( hronoguipkorumfacultas habit , qitac purgandofugiat , qttae inslniendo
der hochmitteí alterllchen Historiographic . In: RÜ DINGER , Car ) (cd .). Unsir Gesthúhtsbild (vol .
1). Munique, 1955, p. 99 e segs. (reeditado em LAMMERS, Gcsdiuhtsdenken ... p. 278 e segs .) .
.
•vi s : .
eligat; figit enlnt mendacia , digit wtiatm" Chromk (cf. nota 90). In; Monumento Gernumiae
Scriptons return Gennanicartun in mumscholarittni (vol . 45). p. 4 c seg. Cf. também Wilhelm von
-
127
Cf. PATZE, Hans . Adeí und Stifterchronik. Fríihformen territorialer Gesch í dmsehreibung Malmesbury. In: STUBBS (ed), Gesta regum Anglomm, 5, 445.
im hochm í tte í a í terli ç hen Reich . Bt
óturfilr Deutsche Londesgcschkhte, n . 100, 1964, p. Sesegs. j í- K\

IJJ CICERO, Df orators , 2 , 63.
ibid . , n. 101 , 1965, p. 67 e segs. ml :
I3
.
‘ Cf non 131.

76 77
%
. ii
f í9 -w. b
' Vi

s O CONCHO DC H íSTóA íA
rét : - -
CoVifi&üÁO DO CONNOTO NA Í0AK Mtou


*

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i
v;:-
genera das respectivas figuras estamentais.135 Enumera ções desse
tipo136 decorriam da tentativa de corresponder entrementes à am-
plitude crescente do material a ser utilizado e de sistematizar o
m
it Pi
?
- século XII , no t í tulo ( LiberJioridus) da coletâ nea de excertos de
Lamberto de São Omer.140 A quantidade crescente desses novos
títulos de livros não tem nada a ver com uma multiplicação de
¡«
?!
i instrumental do historiador, m
à ::-
, -
-
categorias historiográficas, mas eles denotam uma reflexão mais
intensa sobre o próprio trabalho histórico.
;
Poder-se-ia pensar que uma descrição estil ísticamente des- - 141

I pretensiosa teria sido suficiente para apresentar fatos do passado


através de afirma ções n ã o falsificadas. Mas como parte da Retórica , vi
-
v ., Daqui se pode estabelecer mais uma vez uma ponte para a
'i
:
i :

. a historia se sentia comprometida com a virtus bene scribendi; conse-


quentemente, o historiógrafo deveria se esforçar para conquistar
m
sil
SÉ»
história vocabular. O século XII aparece como um momento de
inflexã o em vá rios níveis. O campo histórico ampliado do historia
dor começou a focar novamente, com mais atenção, o passado mais
-
a benevolencia do leitor em rela ção à matéria , através da arte da
fak. Por essa razao, ele costurna envolver o anuncio da materia
ispffi remoto, relativizando, assim, a proximidade em relação à atuali-
iíStSí » dade que predominava desde os séculos VII /IX. Os limites pouco
em figuras de linguagem trópicas; a metá fora no título do livro já
claros existentes desde o século VIII entre “ res gestae” e “ historia''
: i .

deveria indicar aquilo que normalmente era explicado no exordio.137


Também nesse â mbito, o problema da escolha do material era leva- começaram a se clarear; o destaque se deslocou do acontecimento
y- í num sentido pouco diferenciado para um relato com uma clara
do em conta , De forma alguma , era nova a atividade de expressar
reivindicação de ser verdadeiro. Para isso, se reservou a palavra
metaforicamente a dedica ção que visava a juntar numa coroa de
flores aquilo que originalmente estava disperso,138 e apresentá-lo ’3i “ historia” ', aquilo que não conseguia responder a essa exigê ncia
!;
como um todo novo,13* isto é, escolher elementos individuais de
uma infinidade desordenada e, com a ajuda desse reducionismo,
111
| :
começou a se separar sob outro nome. Os esforços de , enquanto
isso, conseguir estabelecer uma vinculação com a discussão teórica
chegar a um quadro racionalmente constru ído; mas nao constitui da alta Antiguidade fizeram com que fosse dada maior atençã o à
iu I
'
i

utiliza ção das maté rias dispon íveis. Foi retomada a ideia de redigir
:
. acaso que isso aconteceu, pela primeira vez, na passagem para o ifi
o relato de maneira art ística e atraente para o leitor. Naquilo que
5S -li:
:
m Ranulf Higden. In: BABINGTON (Ed ,) , Polyriiron
icon, 1 , 4 (cf nota 94); (vol . 1 ) p. 34): "... Mm tange à classificação da matéria e à divisã o em categorias historio-
nctíi quod stptem Ugunturpersonae , quorum gesta etebiíus in historiis momerantur, videlicet principfs in £ \yj5 '.v:
.v grá ficas, a vinculação não foi bem-sucedida. E verdade que, sob a
regno, mil!tis in btUo, ludicis in foro, pratsuUf in ( tero, politic } in populo, eetouomid in domo, monastics in
templo, A i <50 correspondem septemfamosa actiortum genera,quaesunt construetlonesutbitim , devhthnes
lite impressão da crescente multiplicidade de objetos a serem levados

,w
hosrium,matones inr ím, tomeiiones trim futí m ,( empando rei populan s, dispositío reifamí liaris,adqulsitio
merí ti solutarit , el in his jugiitr reluunt pmemhuhnesptobomm el puntifones pervcrsorum" .
Cf. a esse respeito a coletâ nea de comprovantes etn LACROIX , Uhistoiicn au Moyen Age , p. 16 e $egs .
ü
# '
em considera ção, foram feitas reiteradas tentativas de diferenciaçã o e
de sistematização, mas aparentemente n ã o foi possí vel compreender
IJ BRINK MAN N, Henning
’ . Dcr Prolog im Mitte í aker ais l üerarischc Erjç hemung. Bao como constituindo algo novo os princípios estruturais que ainda
und Aussage. Wirkendts IVort , n. 14, 1964, p, 1 e segs; cf em especial sobre a quest ão dos
7- : eram desconhecidos à Antiguidade tardia ou sobre a $ quais nao se
refletira na época para inclu í-los de forma profunda na discussão.
¡opoi: SIMON, Gertrud , Uiuenuclnmg 2 ur Topik der
Widinu ngsbricfc miltclaltcrlicher
Geschichtsschreiber bis zum Ende des 12 . Jahrhurtdcrts. Atdrivfiir Diplomadle, n. 4 , 1958 , p.
52 e segs .; ibid ., n . 5/6, 1959/60 e segs.
J K
|
, J * O rei Atalaríco, numa carta de 535, pao. 73senado :0 m -
romano sobre a Histó ria dos godos de Cassiodoro,
M>MELVILLE , Gerr. “ Zar Floies - Metaphotik " in der iniUcbherliçhen Geschichtsschreibung.
formulada peto pró prio Casstodoro: ‘' Originem Goihitam historiam feat esse Romanara, cúliigens
quasi \n unom totonamgt onenforldum , quod per libro mm campos passim\ fue rot ante dispersim", Variae,
-
9, 25 , 5. In: Monumento Germania historia Anclotes aniiqulssimi (vol. 12), 1894 , p. 292.
* *
4i Ausdrack cines Formungsprimips. Histor í sthes Jahtbuch , n . 90 , 1970, p. 65 c segs, resumido
cm p. 77 e segs.
n> ISIDOR , Etymologise , 1 ,
41, 2: " Series atilem dicta per tfanslationem a sertis forum invicein i 1! '
m Os novos tirulos de livros sií o, por exemplo: Margarita Derreti (Marúnlio de Troppau), Flores
.
( omprehensorunT * Cf tamb é m BREMEN ,
Adam von. Gesta Hammaburgcnsis ecclcsiae Klv.M historiar um ( Rogério de NVendover), Euiogiurn historiaram ( Anónimo de Malmesbury), Gemma

pontificam, (Prolog). lo: Monumento Gemí ante Scriptores tetum Gennanhanim in usumseholarinm
(vot . 2). 3 ed . , 1917, p. 3: “ fatter tibi, qufbus ex pratis deforavi hoc sertum"
*
.
Mm
i- m
cedesia frica (Gira Id o Cimbre ns is) , Compilalio degest ís (século XV ), etc . (citados por MELVILLE ,
Fhres Melaphorik , p. 65 e seg., 73).
^

78
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79
& T v.
O COíKfJTO CS HsitaA
£-’i COMMKNSXO co coHCtno MA kw MéCXA
m *

: & K:

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M
;v? *
V( ; Sabe-se que a historiografía da alta Idade Média ainda não pagãos, Agostinho distingue duas institutiones:Ui a $ que decorrem
foi suficientemente estudada , para que se possam fazer afirmaçõ es da prá tica humana, e que, por isso, são dispensáveis ainda que
v. ; seguras. Por isso , só se pode dizer que a impressão que se tem é que ¿êM ú teis; e aquelas que o Criador institui a favor do homem , e que,
>

a intensa reflexão que reiniciou na alta Idade Média ficou no meio um .


por consequê ncia , n ã o são cambi áveis. Nesse contexto, é verdade
«ll
do caminho, porque nao conseguiu se desvincular suficientemente !;:
.
§ que os acontecimentos hist óricos se devem a a çõ es humanas, mas
da autoridade do modelo antigo. --

!

I V
se concretizam dentro de uma dada fordo) tempomm quorum e$t
1

&&
i j m: conditor et administrator Deus” . A historia, portanto, pertence aos dois
3. Lugar e função da Historie na rede do saber ::
ui:
umu. - â mbitos, e isso lhe garante uma importâ ncia dupla na expans ão do
i.
tf; V; conhecimento humano em direçã o à verdade eterna. Como cor-
I Dentro do antigo triuium, a historia era vista como campo au - mmm. V7
rente de fatos, irreversíveis, portanto dados, ela serve ao aprendiz
xiliar tanto da gram á tica quanto da retórica .142 A gramá tica ensina wmm como auctoritas e como primeira etapa necessá ria no caminho da
methodice escrever e falar correto, mas histor ice também comentar mm salva çã o; os exemplos retirados da Hist ória servem de alimento
obras antes lidas. O aspecto hist inicial para a alma , para , num patamar superior, ser substituída pela
órico se referia aqui apenas à ocu-
pação com a tradição literá ria no sentido mais amplo, não a uma Sffe ratio. Quem cria essa auctoritas é a prouidentia Deiy que foi quem deu
determinada forma de conhecimento; como o material literá rio m .
origem a esses exemplos. Com isso, a historia , no seu conjunto, nao
provinha do passado , Agostinho podia chamar o grammaticus de m • V
era apenas ú til para a pedagogia salvífica, mas recebeu também um
custos historiae.m Em contrapartida , a retórica tentava avançar em m mm ponto de referê ncia transcendental. Transcurso e concretizaçã o de
mm todas as correntes de acontecimentos não se referiam mais a um

direção ao bene dicendi, à arte de falar, cuja força de convencimento
d e v e r i a ser ampliada . As species nor rationis separavam a historic como
a» objetivo imanente ao mundo - motivo pelo qual se havia acreditado
relato fiel à verdade, de acontecimentos do passado, do argumentam
e da fabula. Mas, como o objetivo ultimo da fala era o sucesso em 4 até entã o no cará ter definitivo do império romano mas toda a
História da humanidade (també m aquela transcorrida fora de um
termos de efeitos , todas as species namtiones podiam ser empre- |
s í•>
grande imp é rio) convergia para uma unidade, cujo contexto inde-
gadas, dependendo das necessidades. Diante desse pressuposto, pendia de todo da permanê ncia de fatores imanentes ao mundo.145
o conhecimento do passado nao ia além dos limites daquilo que Desde ent ã o, a historia (também)146 era “ Hist ó ria da salva ção”
era exemplarmente ú til; como vitae magistra a Historie se colocou a
serviço de normas gerais de vida. íB e parte imprescind ível do pensamento teológico. Todos os fatos
salv í ficos foram enquadrados nela , de fornia sucessiva ; o texto bí-
Método e função dos antigos instrumentos educacionais não im m# mm..- blico - como $e pode ver sobretudo emBeda - necessitava, por isso,
de uma cronologia segura . E a partir daí , História bí blica e Histó ria
se modificaram com a cristianização, mas a historia n ã o conseguiu
ficar imune frente ao novo objetivo educacional. Se na convic ção
-m
P .\ . :
:
geral podiam ser localizadas num mesmo n ível , urna maneira de ver
de Agostinho era possível avan çar até a verdade eterna atravé s das
- Bi . .
forças sensoriais e espirituais de uma pessoa, ent ão tamb ém hie "'
mu Ml
AUGUSTINUS. De doctrina Christiana , 2, 19 (29), 28 (44). In: Corpus thristí attofum, Setics
rarquia e posiçã o da Historie deveriam mudar. Entre as doctrinae dos mu
• */ •
Latina (voL 32), p. 53 e scg., p. 63.
m Cf. KOSELLECK , Reinhart. Geschichte, Gescbichten und fó rmale Zeitstrukturcn. In:
s
mm KOSEJLLBCK /STEMPJEL, Çwhichít (cf. nota 5), p. 211 , 217 e segs.
-
m Cf , sobretudo, BOEHM, Der wmensehaftUiche Ort der Historia (cf. nota 94), p. 675 e segs., m.
M m m Sobretudo a patr ística conhecia i doutrina do sentido diversificado da escrita que, na sua
com abundante bibliografia, ibid., p. 692 e seg. m&m interpretação, admitia certa diferencia ção de momentos mundanos e espirituais de um mesmo
115
AUGUSTINUS. Dt musUa , 2 , t acontecimento .
m mu -
um
m
80 81
Sflllí .
p:- &
•\. y:
in;: :.;. •

O CdKÍ/TO « hkSTÒ.U\
-“
i
Cova^ffiSAo CO CONCGTO tCA lOACí MÍWA

.m

mi que desde o sé culo XII vinha ganhando atualidade , Mediante o Ser imut ável.
149
Dentro dessa perspectiva de conhecimento, todo
I
s$ pressuposto de que toda a História deveria ser vista como uma obra Site: acontecimento terreno poderia convergir para uma unidade; foi
ti salvífiça de Deus, tamb é m a Sagrada Escritura podia ser entendida em conexão com o pensamento agostiniano que estavam dadas as
u como um livro histórico igual a qualquer outro. A repetiçã o veri- -
pré condições para urna História Universal, mesmo que ela , com
& ficada em tempos pós- bí blicos de combina ções numé ricas bí blicas isso, ainda n ã o fosse realizável
150 .
m ou de acontecimentos an á logos permitiu , então, que a “ intelligent
-
- - -Síijl f£¡'‘ ;Ki* V‘ «
'•

Quando essa forma de ver chegou ao auge no século XII, em


151
•••• ;
tia spititualis" fizesse uma interpreta ção do sentido da verdadeira obras de grande força criativa, també m já come çaram a aparecer
sintomas de sua dissolu ção; um primeiro degrau da compreen-
i
. i? 152
realidade total . Assim como a cria çã o teria descido da condiçã o

hs;
:’ ¡
:
divina através da espiritual até a material , assim tamb é m o olho
humano deveria avançar do substancial, através da apreensão de
mvi- •
;
s ão moderna de Histó ria deve ser localizado aqui . Na trilha da
recensão de Arist ó teles, a Escol á stica fundamentou sua atividade
«safes
de conhecimento na ratio, às custas da auctoritas - sob a premissa
í
rela çõ es simbólicas, para a imagem do divino.147 Nesse sistema de
5

Slpf :
simbolismo histórico148 - uma variante predominantemente alem ã de que a ordem do conhecimento e a ordem do ser deveriam ser
do in ício da Escolástica n ã o existia História bí blica e História M mn conformes; para avançar até a verdade eterna , era complicado
ItvV-y ;
£!
;: ¡ profana, n ão existia realidade natural e realidade sobrenatural , mas
apenas uma capacidade de conhecimento nã o crist ã , e outra que
era peculiar aos crist ãos. De forma mais evidente que na patr ística
m
is
partir de realidades mut áveis. Isso simplesmente levou a certo
desleixo para com as duas artes no trivium. Lidar com a historia
n ã o se tornou supérfluo com isso, mas a referência ao objetivo
tardia, manifesta-se aqui a ausê ncia de autonomia da História , A
if BK espiritual do seu conhecimento perdeu parte de sua obviedade.
corrente de acontecimentos vista isoladamente continha pouca
iff if :i
: M| Sua função dentro da rede do conhecimento foi por assim dizer
; verdade, somente como parte constitutiva da realidade total ima- m secularizada . Como ela deixava de estar a serviço da sapientia > seu
V‘ nente e transcendente é que se abria seu significado pleno. Assim objetivo de conhecimento podia ser recuado até aquele limite em
;:

: ••;
como na Antiguidade, também agora bons exemplos históricos
i pi
4 te - que todas as coisas ficam submetidas a lima modificação; liberou -
!

deveriam incentivar a fazer o bem ou a evitar o mal; a apresentação m -se, com isso, uma disponibilidade para a indiferença religiosa .
da História pregressa deveria justificar a situa ção atual ou ajudar a mm Além disso, ela foi fomentada com o crescente enriquecimento e
corrigi-la ; no fundo, tudo isso não constitu ía nenhuma novidade.
Mas o objetivo do conhecimento havia sofrido um deslocamento
m m a diferenciação das á reas de conhecimento no século XII1-XIV,
que começaram a se desvincular de um enquadramento em uma
i. i ]
:
significativo, na medida em que agora se enxergavam ações de I T- i • ordo. A posiçã o da historia, no in ício, continuou indefinida ; esta é
.
Deus nos acontecimentos históricos Em função disso, até a mu- mr . . a contraface teórica da crescente quantidade de t í tulos de livros e
tabilidade de transcursos históricos parecia viabilizar o acesso ao de seus novos temas emp í ricos.
mm
mm *

, rt A respeito da posiçã o teórico-cientí fica de Hugo de $20 Vitor - fundador da forma hist órico ' hi v: -
simb ó lica de trabalhar , sem que de próprio tivesse escrito uma representação histórica desse U i
m Cf. SALISBURY , ..
-
tipo cf. SCHNEIDER , Wilhelm August . GesdiidUc ttnd Ceichiditjphiiosoph11 bet Hugo vow
. .
St . Victor. M ü nster, 1933 (tese de doutorado); EHLERS, Joachim. Hugo van St Victor Studien
: %H : 2, 43, p. 119.
Johannes von. Historio pontificaU í FREISING , Otto voit . Chionlk ,t

iumGesdiichtsdenken und 2urGeschjchtfcschceibung des 12 . jahrhunderts. Wiesbaden , 1973. apt 150 CC o argumentos fc BORST, Arno . Wdtgeschichten im Mtue í al í er? In; KOSELLECK /
<
.. ,
.
146 BAUER Clemens. Die mktelaltcrlichen Grundlagendeshistorischen Denkens
. Hochtawd , n .
a gi
.
STEMPEL, Gesdiichte , p , 452 c segs .

1m
55 , 1962/63, p. 24 e segs .; PUNICBLSTEIN, Htllsplan (cf, nota 86); BERNARDS, MaithHm . tM Cf. SP ÕRL ,
Johannes . Grundfinuett hodimittdnUilidterGesd\( ( htsanid:ming.Studienzum WeltbUd
Geschichtsperiodischcs Dcnken in der Thcologie des 12 . Jahrhunderts . Kóí rter Domblnlter, n. der Geschichtsschreiber des 12. Jahrhundcctt . Munique , 1935 , em especial p. 39 esegs.
:

26 / 27, 1967» p. 115 e segs .


Mif !;m. • •
452 Cf BOEHM ,
. Der w í sjçnjchaftithcorctische Ort der Historia... , p. 667 c segs.
• a
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«§ no início da Idade Moderna
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Horst G ünther
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III
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if 1. Pressupostos
it Si
aw
: vS|" v : , ; ser
O pensamento histórico do in ício da Idade Moderna nao pode
adequadamente entendido enquanto permanecer submetido
;
$$ to ao veredicto do Historicismo, para o qual teria representado uma
I!
*
visã o provisória e insuficiente ou até falsa do mundo histórico.
Constitui reflexo de um momento de sua própria crise o fato de
ills=
. r-
;V.v :
que o Historicismo foi incapaz de reconhecer a rica consciê ncia
H
de História de um outro período, manifestada em contrové rsias
amplamente documentadas e apaixonadas , travadas com as forças
;& Pito
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$
motoras da época, e traduzi-la para seu pr óprio tempo, a fim de
*¿á ÍW; utilizá-la como instrumento da própria História. As obras de
; :

;
• ; •
Ü P
M \i
? ;
to . - Dilthey, Troeltsch , Croce , Collingwood e Meinecke empurra -
ram o início da Idade Moderna para uma Pré-Hist ória - cada
vez mais precá ria - do pensamento histórico, enquanto alguns
trabalhos cient í ficos bá sicos sobre aquela época conseguiram
contornar o preconceito. Ainda que o n ú mero de monografias
TS; sobre historiadores e teóricos da Hist ória , bem como os estudos
antiqu á rios dos filólogos e dos juristas - sobretudo do século XVI -

ill; v

•;

i:
• mm
m
• V;-i;
to
•"
esteja crescendo, continuam faltando pesquisas que tentem inter-
pretar trabalhos e pensamentos hist óricos dentro do contexto da
Hist ó ria política e social, em suas funções e em sua proje çã o; e
mais, que consigam enfrentar o desafio teórico de representar - ao
ill
;• '
. :

III
« to
se preocupar com aquele tempo - o nosso tempo ou , dito de outra

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111
it p 1 ,
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ft.:
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i t O conceito Oí forósiA :
p- '
PíHíA.SVENIO K3TÔ3CO 1*0 itfOO OA ÍDA0E MoOÊÍÍttÀ
M. i
sli para as obras imaginadas como corpus de toda Antiguidade , e essa
Ú\
forma, tentar representar no seu objeto “ a forma da Historia como
tal ” [Geschichte iiberlumpt ] ' 5i im 1» k
suposição ainda pode motivar a mais dura critica . A historiografia
antiga era tida como insuperá vel, e estava vinculada à ideia de que
ü
!
Tã o pouco quanto a tarefa do historiador do pensamento
histórico pode ser cumprida aqui , t ão imprescindível é essa pers-
pectiva para uma semâ ntica histórica , uma história do conceito de
« . historiografia seria , na essê ncia, descriçã o dos acontecimentos de
um tempo que o pró prio autor vivenciou. A ciê ncia histórica via
“ Históxia” ou de “ historia” , que se distinguisse de outros conceitos llpi -
sua tarefa em comentar as obras existentes, através da pesquisa an-
j. pelo seu maior grau de generalidade. Ele designa todas as a çõ es tiquaria sob pontos de vista sistemá ticos - resultando na doutrina
e todos os fatos que alguma vez foram relatados ou descritos, ou
m jurídica das instituições e na numismá tica e em descrever épocas —
; ainda podem vir a ser, mesmo os da natureza , da qual a Hist ó ria só fe® sobre as quais ainda n ão se tinha nada mais contextualizado.155 Os
relativamente tarde se afasta , de forma estritamente terminológica, resumos gerais sobre Hist ória escritos com finalidade did á tica ou
em todo o mundo visí vel. Essa generalidade do significado faz com
que o conceito raramente possa ser utilizado de forma operativa e
«if
111
de entretenimento são bem menos representativos para o trabalho
histórico do que seu grande nú mero pode fazer crer.
argumentativa , e, em vez disso travam-se discussõ es no entorno
da História e dentro dela em nome dos objetos individuais e das
mv
ap
A consequê ncia foi que a importante pesquisa antiquaria
desse tempo e a escrita da Hist ó ria propriamente dita coexisti-
fP
mm
i :
categorias. Por isso, tamb ém as definiçõ es e as classifica ções dos ram de forma impressionantemente paralela , e que a bibliografia
dicion á rios e das enciclopédias transportaram seus elementos cunha
dos na Antiguidade e na Idade Média com muito poucas variantes
- mn
-
V ' ii&JS üvt Ñ

mm
metodológica , que visava a fazer a intermediaç ao entre ambas, $e
desenvolveu em direção a uma categoria própria, metade retóri-
-.
li yv ca , metade teoria e que, sem d ú vida , influenciou o pensamexito
para dentro da Idade Moderna, de forma que suas afirmações muitas
vezes ficam inespecíficas e perdem espa ço frente a outras fontes.
Na verdade , alguns pressupostos - apesar de todas as modifi-
¿ill
"•f
ii. A :
histó rico, influ ê ncias que , no entanto, s ã o dif íceis de comprovar,
ao menos como determinantes, nas representações históricas que
«:;
ca çõ no conceito, at é o século XVIII - se mantê m relativamente
es mm deixaram marcas.
est áveis, mesmo que possam ser objeto de discussão, sob enfoques Aquilo que é novo e diferente em rela ção à Antiguidade - e
I bí de que se adquire consciê ncia cada vez maior - acontece menos
:
cada vez diferentes. Encontramos a í, em primeiro lugar, o cará ter
escrito e a autoridade que aparentemente da í decorre. Na tradição
m na descrição e no encadeamento causal de acontecimentos que
ñW
dos diferentes sentidos da escrita , o “ sensus hist óricas” ou < liltemlis”
se refere a esse dado expresso da tradição escrita , que está aberta
(

miXi ?

- podem ser apresentados dentro de um contexto visto sob variados
â ngulos entre indivíduos descritos com maior diferenciação, do
•v -itf ; v - v
;; .v ri que através de uma visão perspectivista do passado, possibilitada
a vá rias interpreta ções espiritualistas ou que pode ser cumprida mm
de forma figurativa por algo igualmente real, hist órico.154 Assim ,
muitas vezes , de forma tá cita , até o século XVIII , se transfere auto-
mi Hi
pelo distanciamento cronológico e através de uma Antiguidade
supostamente produzida na reconstru ção de um mundo fechado
.>
m
i
r

ridade e suposi ção de correspond ê ncia interna dos escritos sagrados m


mmm
em si, com o qual se pode fazer uma compara çã o com o próprio

í;
'5J HUMBOLDT, Wilhelm von . Ü ber die Aufgabc des .
»iM 1[ $
mundo. Ver essa Antiguidade em seu percurso temporal, con-
trapor seus exemplos, suas experiê ncias e instituições, colocá-
.
Gesdiichtschrejbers (1821) In:
Akartantc Ausgabe ( vol 4), 1905, p, 41; cf , BENJAMIN, Walter, Literaturgeschichte und
Mí lo$ dentro ou contra o pró prio tempo e, a partir daí , planejar sua
V
• .
Liler â turwissenschâ ft. Die ¡iUrarisdte Wèít, 17/4 /1931
mm
.
151 LUBAC, Henri de Bxégh . .
? tnêdlhaU (t. 1) Paris, 1959 passim; AUERBACH , Erich . Figura.
.
In: AUERBACH , Erich . Gtsammtlte AuJsHtet ztir romnisdicn PtMogíc Berna, 1967, p 55 e .
mm
.w
,J Cf. MOM ÍGL Í ANO, Arnaldo. Ancient History and the Antiquarian. Journal of Warburg
Í

segs, (editado por Gustav Konrad). M Institute, n. 13, 1950, p. 285 e segs .
m
8Ó ¥m 87
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O CONOfTO 0 Hk - 1 M
-
PéNSAMíNTO HISTÔÍJCO NO ttfOO 0A ÍDADc MoM?itA

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m ^ fcV -V
mm
'

j ; pró pria configura çã o é a primeira coisa que caracteriza o pensa- ponto em que a pesquisa costuma localizar seu in ício. Petrarca e
! mento histórico da Idade Moderna. o humanismo atribu í ram sua visão ao pr
IIAi
.
: óprio objeto: permitiram
que a continuidade se rompesse, ou ent ã o se sentiram incapazes
í| 2. Dante e o humanismo ;}@ de colocar o mundo posterior à Antiguidade como equivalente e
: ; paralelo ao antigo - como Dante o fizera. Eles criaram, a partir
Dante, de quem Vico diria que “ ele n ão cantava outra coisa do passado fá tico, um ideal o mais distante possível do pensamen-
y senão historias (chepure non canto altro che istorie)” ,15* representa um to antigo, o qual separaram de sua época de suposta renova ção,
ponto alto n ão $ó da interpretação figurai do transcurso geral da I ; através de um per íodo intermediá rio obscuro159, e, nesse sentido
í. História , na qual, a partir das circunstâ ncias de abalo contemporâ neas, “ partid á rio” e pol ê mico, talvez se tivesse falado pela primeira vez
se projeta um império crist ã o , que deve corresponder ao impé rio iifeifcii •

de “ toda a História” : “ Quit est enim aliud omnis historia quam Romana
romano do passado. Mas tamb ém representa uma presentificaçao •

nunca havida antes de indivíduos históricos e de suas ações, os quais . . - r» - -.- - -


lau$?” m Algumas pretensões universais, “ ex omnibus tenis ac seculis
illustres viros in utntm contrahendi illa mihi solitudo dedil animum” ,i 6i
aparecem na ficção como julgados para toda a eternidade segundo :
Vi : »

® Sli constitu íam muito mais um exagero retórico, pois , como aqui
um sistema de valores tanto teológicos quanto polí ticos muito pes- em De viris ittustribus, se tratava de biografias isoladas retiradas da
soais , mas que continuam perpetuando, fora do tempo, justamente M NS
Bí blia ou da Antiguidade clá ssica , que a posteriori foram como que
sua paixão temporal sem arrependimento, sua nostalgia sem fim. A
enquadradas na Antiguidade romana . Aquilo que foi determinante
perspectiva de uma Hist ória que começ a com o mundo é partilhada
para toda a Era Moderna e a consciê ncia da modernidade foi o
por Dante com contemporâ neos, como seu mestre Brunetto Latim, •• rtf ijlB fato de que Petrarca , ao abrir o espa ço histó rico interno, liberou
cuja enciclopédia Li livres dou tresor promete uk ele traite dou comencement
}

i. du sieclc, et de Faneieneté des vielles istores et de 1’establissement dou monde et Si


•jfirt;
1 a possibilidade de fuga de um presente mal-amado rumo ao pas-
] s7 sado, que se mantinha insolú vel, e confundia a nostalgia com a
de la nature de touttes coses em some” ; a interpreta ção figurai n ã o podia
adquirir, numa segunda vez , uma imagem convincente, a proposta

I sensação delicada ainda motivada pelo cará ter cristã o e moraimente
superior do pró prio tempo. Fora abandonada a universalidade e a
de um mundo visto historicamente a partir da consciência de uma * ml continuidade da Hist ória que se atribu ía, de forma autoritativa e
responsabilidade polí tica se manteve singular por muito tempo, e
só no in ício do século XVI algo parcialmente comparável se tornou m- incontorn ável, ao cronista medieval , ou se tornara incompreensível;
as condições para uma visã o pol ítica muito ampla tinham acabado,
possível , com base em fundamentos bem diferentes.
Caso se encarasse o pensamento histórico pelo esquema de :
s rti e em princípio ela ficou tã o sem consequ ências quanto, no mesmo

-
“ desenvolvimento” e n ão h á d ú vida de que Dante agrega e va-
loriza a formação do tempo que o antecedeu -, ent ão se deveria lip!
iii século XIV, no â mbito do islamismo ocidental, a aplicação de con-
ceitos sociológicos à História , como na surpreendente obra de Ibn
Khaldun.162 Mas essa fragmenta ção teve um resultado duradouro
constatar a ruptura desse desenvolvimento158 exatamente naquele ff if V fe - ela fundou as ciências filológico-históricas.
M
kjSK
w Giambattista Vico , la: NICOUNI , Fausto ( Ed .). LA sdtnxa
.
twova ( 17*14) (vol. 2) . Bari , 1928 , MR
*1> 1 » ti p 6.
lw
MOMMSEN, Theodor E. Petrarch’5 conception of te “ Dark Ages". Speculum , n. 17, 1942, p.
. I ge
>
mS 226 e segs.
Ii ?
Brunette Lacini . In: CARMODY , P. J . (cd . . Li livres dou iresor Berkeley / Los Angeles , 1948 , .

. . PETRARCA . Apologia . In: Opera omnia . Basileia . 1554. p. 1187.


1 , 1 I p. 17.
m
IW

Cf. AUERBACH , E , Utmiwputche md Pubtlkim In der fotdnlsihm SpHumtike and im Mi( leialter. 16
‘ PETRARCA . Familiares. 7, 3. In: ibid . , p. 767.
Berna , 1958. p. 242; BECKER , Marvin B. Dame and his literary contemporaries as political tí 2
KH ALDÜN, Ibn. TheMuqaddimah. An introduction to History (3 vok). Londres, 1958 (versao inglesa
men . Speiulupf , n. 41 , 1966, p . 665 esegs.
- de Franz Rosenthal); cf. Encyclopedia of Islam (vol . 3). Londres, 1965 (nova edi ção) , p. 825 fi segs.

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líí !í As restrições a aspectos individuais e a representa ção aned ó tica
ym
A contradiçã o já est á visível em Valla . Como fil ólogo bri-
ym Xb

bem como a liga ção tida como evidente da Historie com a ret ó- & .
lhante, desenvolveu a capacidade de perceber rela ções históricas
rica modificam o cará ter exemplar do fato histórico. Enquanto
o transcurso geral da História entre a criaçã o e o ju ízo final II l na tradição literá ria e a utilizá-las de forma erudita, e por mais que
não consiga ser convincente como historiador, tenta dar destaque
era considerado como tendo sentido, sem qualquer contestaçã o, ao papel da historia. Afirmando que Moisés teria sido o primeiro
111
'

Is-
:
a çõ es individuais maldosas podiam ser justificadas como parte historiador, com que a historia seria mais antiga que a Poesia , e
da economia do todo, bem como pelas ordens antagónicas nos n ã o menos universal que esta (que muitas vezes apenas relata epi-
valores representados pelas duas “ civitates” de Agostinho. Com a mmim. sódios individuais), superaria em termos de sabedoria cidad ã até a
mi "
'

dissolu ção da imagem histórica universal , n ã o só figuras hist ó- .


Filosofia .164 Mais aceit á vel é a precisão reabilitada e elogiada por
ricas individuais e seus atos constitu íam exemplos para a funda- life© ; Poliziano sobre a exatid ão dos estudos históricos: “ Felix hisioriae
mentaçã o de princípios é ticos, mas qualquer fato podia , em tese , Jides renatae“ l65> com esse conceito de “ fides histórica” , os humanis-
ser moralizado , E mesmo que a Hist ória pol ítica , que ocupava tas, de Valla at é Bud é, definem seu objetivo metodológico. Ela se
refere à pesquisa sobre a Antiguidade, que se reflete em coletâneas
um lugar de maior destaque, praticamente nao fizesse uso dessa
situa çã o, a Historie foi subordinada à filosofia moral, dentro do lite
m ti de miscel â nea, tradu ções dos antigos historiadores, e recebendo —
ordenamento da ci ê ncia que estava em constituiçã o nas escolas e mfó
.« í
il: em Bud é, pela primeira vez, uma unidade na reconstru ção de —
nas universidades, at é o século XVIII, enxergando sua utilidade todo o sistema de moedas da Antiguidade: “ non in unum genus Warn
no fornecimento de exemplos para a retórica - a qual deveria ip quídam editam aut disciplinaram, aut artium: sed in universum pertinen -
fundamentar decisões - exemplos que, ao contrá rio da poesia ,
apresentavam o status da factícidade.
tel
¿
tem ad antiquitatis ¡nterpretationem, et per cmine prope genus auciorum
probiomm atraque linguapatentem' V 66 A Antiguidade clássica , em sua
«B íV
Contra esse sentido do acontecimento individual de funcionar
mmm tradi ção escrita em duas l í nguas, colocada à disposição através da
V: como exemplo para um princípio geral, a distinção aristotélica en-
tre (simples) verdade histórica e veracidade poé tica (filosófica)163 se
:w
:
&
tipil
coleta e da edi ção dos humanistas, aparece agora como objeto de
conhecimento, com a pretensão de ser estudado como um todo.
; *
tornou inaplicá vel, fazendo com que a longa disputa entre Poesia é Dessa forma , surge uma forma ção unitá ria, descolada da história
Historie perdesse sua base conceituai. Mas a disputa sempre reaparece bí blica e da duvidosa história oriental bem como do per íodo pos-
;
v- :
lii gf
«
ü
quando a poesia se apossa da representa ção do real, intrometendo- • terior à Antiguidade, uma entidade que em $ i mesxna , como um
se no campo da Historie ou, ent ã o, quando a Historief do alto de X todo, constituiu um plano de verifica çã o. N ã o é mais a passagem
;i: sua configuração, faz parecerem irrelevantes os produtos poé ticos individual, como no texto sagrado, que possui validade autoritativa,
e, através da interpretaçã o do acontecido, tenta chegar até o geral. mmm
st V
mas apenas na medida em que coincide com o corpus da tradição.
Esse é um problema apenas aparente, mas que n ã o pode ser solucio- Tra çamos essa linha do conceito humanista de História até
nado por causa da intercambialidade dos conceitos e é apropriado liM
m o in ício do século XVI, quando ele deixou de ser incontestado e
08
mm
"

quando começam a aparecer diversas concepções bastante diferentes.


Üí VrV
para desencadear a discussão, dependendo se a Poesia ou a Historie
i; conseguem expressar os mesmos interesses fundamentais, ou ent ão
E
i -
apenas tentam fazê lo, quando as obras das duas categorias devem iif
VA ÍXA , Lorenzo. Historia Ferdinand! T egis Aragoniae (Proocmium ). In: Opera ointifo (t , 2) ,
^
K responder pelas pretensõ es da teoria. Paris, 1528 (reimpressio em TUrim, 1962), p. 6.
i.
\: Ivil .
I Ite

.
341 POL ÍZLANO, Angeta. Optra omnia.Basileia , 1553, p 621; cf Valla para FhvioBlondo (Optra cumia
!'

! . . .
[t. 2), p. U9); BU £> Ê, Guillaume. De Asse (1514). In: Opera omnia (t 2) Basileia , 1557, p 66
ARISTOTELES, Penile , I 45 Í b. . ..
BUDÉ, De Asse ( Praefatio) Jn: ibid. (t . 2), p 1
..mh
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90 m Si 91
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O CCNCfcTO De HlSTÓfiA
ii\- :
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PajSAMíNTO K Sf ÔJuCO NO fti'ClO DA|0 A£>

tf*
$i :
¡i }. : ’
A constru ção apaixonada de um outro tempo, o qual se contrapu
rtha ao próprio tempo, distingue o humanismo de outras épocas
- * da Histó ria de um tempo exemplar e ser transpostas para o presente,
de pensamento histórico e explica suas conquistas metodológicas,
V-! que um caminho leva do essencial da Hist ória para o necessá rio
ji? [ <
NX na política atual.
como a da consciencia sobre distância temporal e sobre inter-
A outra direção foi tomada por Guicciardini, partindo da
¡l j - rela ções, o sentido dificilmente determin á vel para anacronismos,
decep ção a respeito da possibilidade de uma política sensata para a
.;V ; 3 diferencia çã o entre fontes originais e derivadas, o que explica , ao * v:

w.$
aná lise dos mecanismos causais e, alé m disso, para a representa çã o
mesmo tempo, que sua própria produtividade não podia consistir V2
n
objetiva da não explicável instability*7 das coisas humanas. O abalo
• cm grandes representações históricas , mas que, através da tentativa
dos pequenos estados italianos e a invasão de forças externas, fatos
; de identifica çã o e de intermedia çao nas biografias retóricas e nas ã S KS que nã o podiam ser fundamentados pela ficção de um impé rio,
vj
*
histórias de cidades dos humanistas-cidad ãos, se colocava numa
r e l a ç ã o com a Antiguidade.
Is V
o levaram a descrever, de forma detalhada , a ação polí tica que se
estende para além dos limites do Estado e, sem tomar partido,

3. O século XVI
4i ;4 > ?
’ •
numa unidade geográ fica bem maior. Algo comparável não se
pode imaginar para a Alemanha até o século XVIII. Tanto quan-
im

to Maquiavel , ele também n ão d â ao conceito de “ Histó ria ” uma


n .
a) Maquiavel e Guicciardini Dois pontos altos de pen- M Èfi definiçã o determinante; dedicado exclusivamente à s coisas (cose ),
samento histórico surgem, a partir de uma consci ê ncia pol ítica ,
pela primeira vez, novamente comparável a Dante, consciência
m alé m do t ítulo, ele praticamente n ão o utiliza.
b) A concep ção de História na Alemanha da Reforma.
que representa a frustra çã o de esperanç as pol í ticas - mas mais Iffp j Enquanto, simultaneamente , Commines escreve a primeira obra
só brio e secularizado contra toda e qualquer transcend ência ffl f “ moderna ” de memórias , que sã o expressã o de vivência própria
;
após o final da repú blica florentina , a partir de condições criadas
pelo humanismo. E isso se d á através de um conhecimento que se
Ifiil
mm - por mais “ medievais” que nos pareçam hoje suas categorias his-
tó ricas e os crit é rios morais de julgamento e enquanto Sabélico
.
desenvolve em duas dire çõ es opostas Maquiavel ainda argumenta pode redigir uma História universal secularizada de qualquer ordem
totalmente dentro do estilo dos humanistas , recorrendo ao conceito
de imita çã o dos exempla retirados das obras históricas ( Istorie) dos
antigos, e isso possibilitava a igualdade das características essenciais
«:3Ülf ou objetivo histórico-salv íficos , resultante de uma incumbê ncia
oficial de Veneza, a situa çã o é totalmente diferente na Alemanha ,
ainda que todos esses escritos sejam lidos e até traduzidos alí, no

1*
da natureza humana e dos demais pressupostos do agir. Mesmo
assim , ele tem consciência das profundas transforma ções - como na li
: - ;5f
século XVI .
Também na Alemanha , o interesse histórico fora despertado,
técnica militar, por exemplo no decorrer de poucas gera ções , e mú
¿ fr
e se manifestara em crónicas populares e em ambiciosas tentativas
demonstra seu senso histórico justamente na constru çã o de formas
de transcurso típicas nos acontecimentos históricos, funcionais em 1p de escrever uma Histó ria nacional ( Renano , Wimpheling). Obra
representativa foi a Chronica de Carion, escrita sob influ ência de
rela ção a determinadas situações iniciais e as influ ê ncias corretivas.
E , com isso, ele apresenta sugestõ es de a çã o a partir dessa an á lise,
que lhe permite comparar, ao menos em parte, a situa ção antiga
Im i^i
m
Melanchton , o qual mais tarde a revisou, transformando-a em um
manual did á tico utilizado por longo per íodo, ordenando o conhe-
cimento daquele tempo em três eras e quatro monarquias, tentando,
:;
*
'
com a contempor
.
.
â nea Mas o sucesso dessas ações, por sua vez,
depende de determinadas condiçõ es também históricas. Aqui , no mm
m através desse material , evidenciar uma Histó ria da Igreja , ou até - na

entanto, se pressupõe que experiê ncias podem ser obtidas a partir . In: PANIGADA, Coswntmo (cd.). Stcnid rf7talla (voí.1). Bari, 1929, p. t.
M Fiancejco Guicciardini
. :v.

92 93
M
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w
yZ
p£N Í AV. EHTO H5STÔS1CO K'O li MODERNA
O CONOnO Of
^ClO DA Í D/Df

&:
:
j versão de Melanchton - a justificativa para as opiniõ es expressas na its
ñ
da Reforma é vinculada aos fatos históricos da Historia da salva çã o,
¡ i| doutrina protestante. Na comparação com Otão de Freising, não o que motivou a cr ítica dos “ entusiastas” : “ Os luteranos possuem
se constata nenhum avanço na consciência da problem á tica histó- um Cristo hist ó rico / quem secundum literam cognosamt , que elcs
ÜÍ rica , e, em contraposiçã o à coetâ nea historiografia italiana , chama i %: reconhecem pela letra, / pelas suas historias, / pela doutrina , /

s t

a aten ção 0 Fato de que os autores ficam cada vez mais inseguros e pelos milagres e pelos atos, / não como ele hoje está vivo e age.
menos concretos à medida que se aproximam do pró prio tempo. if / Assim como eles tamb é m tem uma fé racionai hist órica e uma
Mesmo que ela forneça em casos concretos exemplos morais, para ^
ft km
I ÍVV:
.
justificação histó rica” 172 Consequências profundas foram trazidas
Melanchton , a abrangência temporal universal se destina â com- % pm pela atualização da doutrina de Agostinho sobre os dois reinos ,
% mr
preensão das profecias bí blicas: “ Ut libri propketí ci melius intelligantur, m- . rVy
cuja parte atemporal , mas sempre presente, a civitas Dei, pode se
omnium tempomm historia compleclenda estProfecia, fim do mundo mostrar naquilo que ê historicamente cambiante, a civitas terrena .
e expectativa de um encurtamento ou de uma aceleração dos ú ltimos Mas, com isso, surgiu a tenta ção de - diante de crimes, loucuras e
tempos , que ocorrerão em benefício da salvação (segundo Mateus, sofrimentos, que $6 podem adquirir sentido quando interpretados
cap. 24), servem como pontos de vista unificadores também da
concepçã o de História em Lutero. Ela pode ser atualizada através
como inversão dos valores terrenos justificar acontecimentos
individuais relacionando-os com a própria posição de poder ou de

de uma consciê ncia viva das mudanças temporais e da unicidade de .
posição partid á ria Alé m disso, procurou-se fixar historicamente
um momento histórico. “ A palavra de Deus e sua gra ça constituem uma era exemplar que serviria de parâmetro para uma renovação e,
aguaceiro que se desloca , e não volta mais para o lugar onde já es - como os humanistas fizeram com a Antiguidade, aqui se projetou
teve... E vocês, alemã es, n ã o devem pensar que a ter ão para sempre, uma igreja primitiva ainda n ão corrompida , dos primeiros sé culos
pois a ingratid ão e o desprezo não permitirão que permaneça” .169 da cristandade, e aquilo que condicionava sua situa ção de ent ão, em
A esse modelo da “ translatio" só é relacionada a fé e , na melhor das consequência de opressão externa e falta de poder, foi transformado
hipóteses, o destino da igreja, mas o transcurso do mundo de forma em norma , e toda mudança foi condenada , segundo crit érios morais,
alguma é passível de qualquer interpretação racional , pois revelaria .
como culpa individual Mais problemática ainda foi a muitas vezes
a surpreendente ação de Deus: “ que provavelmente se possa dizer tentada, mas nunca esclarecida equaliza ção dos dois reinos com Q
que o andar do mundo e sua maravilhosa realidade sao uma m áscara mundo interior e exterior, quando a tendência luterana de subordinar
de Deus, atrás da qual ele se esconde, para reinar e rumorejar de
forma maravilhosa no mundo” .170 Neste mundo, também atuam leis
o mundo exterior às autoridades sem qualquer questionamento
— fortalecí a a tendência de, no caso de erros ou de expectativas

pró prias, que já foram adequadamente formuladas pelos filósofos frustradas, se refugiar na pureza da consciê ncia e dos sentimentos e
pagã os, e nele os crentes aparecem “ como se nao existisse nenhum relegar o mundo histórico-político à irresponsabilidade .
deus, obrigados a se salvar e a se governar a si próprios” .175 A doutrina Isso significou , sobretudo para a Alemanha, que, até meados
do século XVIII, a História eclesiá stica garantisse a supremacia. Isso
vale para a obra dos Centuriatores de Magdeburgo (1559-1574),
149 MELANCHTON. Chronicon Car í
,w LUTHER.. An die Rathfrren a Heronis. Corpus Reformatorum (vol. ) 1844 p .
In: 12 , , . 7 i4
Stadte dcuLsclics Lands , djss $ie chfistlichc Schulcn
. Weimarer Ausgabe (vol. ) 1899 p. .
aufrichten und halten solicit {1524) In:
,w LUTHBR. Der 127. Pwlrn ausgelegt
15 , , 32

.
an die Christen zo Riga in Lfefland (1524). In: ibid.,
p 373. “ D<ff man u*ol mag segett , der jwilt laujft und sonde / lfdt seyncr heyligen ivesen sty Galles
1>2
.
SCHWENCKFELDT Caspar. Der 93. Scndbrief (1550). Epistolar (vol 1). S. I , 1566, p. 812 .
" Die Lutheriuhen halen finen hhtonsdun Christum / quem mmdum literam (Ognoseunt , den sk mseh dem
.
miwm/ ey, danuritr tr stth verblrgt und yim der wetU so wundaiich right und rhumort11. Bachs( elm ttkenmn / noth seinettgadiiehicn / lehre / mlmekefn und lh alien / niritt tide erf ,cut kbendig 1st
.
Ibid , "dir tvere k è yn Gott da und mUsttn sith selbs emiten und sells ngirtri' und tulrckt / Wit sit awh eintn frisiorischen wtnunfff Gfoubai / urntd hlstorisiheJustification IMBEJJ \

94 95
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ij .v PtNSÀV Í Nro hiSlÓíiOQ NO i' ÍCO ÜA (OÂ CÍ MOOCftNA.
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realizada atravé s de uma not á vel organização de trabalho coletivo,
:
ív ; demonstrando interesse amplo, polê mico e mediante utiliza çã o mim$ se desencadeou depois da morte de Henrique II em 1559, em tomo '

¡i:?
sistem á tica de fontes , e para seu contraponto católico, at é a hist ória '"M -
iÈk ¿. y
--
- , y . dos direitos dos estados gerais, da nobreza e da regente fez com
que sa ísse em busca de argumentos e de princípios historicamente
:• eclesiástica de Mosheim, na qual o aspecto confessional foi ameni-
.
m fmm-
fundamentados. Eles estavam documentados na rica bibliografia
zado, e cuja tradu çã o alema se transformou no mais difundido livro
L

panflet á ria huguenote174 e numa sequê ncia densa de obras históricas


I
;
.
L ;
.
de História de seu tempo Mas isso também determinou o papel e teó ricas. Nesse contexto, o ponto de partida jurídico-romano
*

autónomo do “ mundo espiritual duplo” 175, e das “ negocia çõ es” em


mim p ôde levar a uma muito incisiva recusa das Pandectas* - como no
J I torno dele, que nao parecia ser passí vel de integraçã o numa Hist ó- -i-. Anti lHbonian , de Hotman
m mm ^ e motivar, além da reconstru çã o do
;•
t

i

.
:
;
ria geral, e a import â ncia das “ Histó rias de hereges” , nas quais foi
constru ída uma contratradiçã o dos oficialmente oprimidos, com mm Direito dos mais antigos sobretudo do período republicano, o estudo
da própria tradição jur ídica e de suas instituições. As concepçõ es
destaque para Sebastian Franck e Gottfried Arnold. Também as
versõ es apocalípticas e as tentativas de fixar os ú ltimos dias para SJI! universais e a abordagem “ comparatista ” no estudo do Direito e da
sociedade nao puderam evitar que na prá tica as histórias nacionais
um futuro próximo ainda tiveram representantes destacados em
Johann Albrecht Bengel e Heinrich Jung-Stilling.
Mesmo para a annaiistica do imp é rio e para a escrita da His-
atei
ill
fossem inclu ídas. A concepçã o ampla de Histó ria , porém , apresen-
tava vantagens que muitas vezes faltaram aos escritos posteriores,
iipf restritos ao â mbito nacional ou que só se enquadravam de forma
tória pol ítica - quando n ão a confessional , ao menos a din ástica
teve efeito negativo o fato de que Melanchton tinha tornado
m m- tmm
extensiva na moldura universal.
-
Contentemo nos com uma refer ê ncia a duas obras que mo-
mm dificaram
obrigatório, nos programas de estudo das universidades protestantes,
o “ mos ifalicus” da interpreta ção dogmá tica do Direito Romano. i§ m - f /.-#::
í

o conceito de História. A partir de estudos histórico-
jurídicos e a partir de experiê ncias em pol ítica e em diplomacia
Dessa forma , a doutrina jur ídica hist órica , fundada por Bud é, e k Wã confessional, Fran çois Baudouin elaborou um plano para uma
que se desenvolvera sobretudo na França, pela metade do século
História abrangente, historia universa ^ como conhecimento de todo
XVI , isto é, o “ mos gallicus” , que fomentava de forma decisiva a
pesquisa e o pensamento históricos , nã o conseguiu se difundir na Hf li o mundo, naquilo que diz respeito a espa ço, tempo e assuntos rela-

Alemanha , e suas principais obras $ó foram levadas novamente em ü : tivos aos seres humanos , “ me ágete âe historia integra ” 17S, a qual seria
conta e reeditadas uns 150 anos depois de seu surgimento; o mesmo Ü W vinculada à ciência do Direito - que forneceria os critérios para
V *?:& n o agir correto -, com vistas a uma prá tica verdadeira , E - numa
aconteceu com Maquiavel e Bodin , no Direito P ú blico, quando
referê ncia à quilo que Maquiavel teria tentado com Lívio - acenou
se abstrai de algumas exceções, como Conring, que os introduziu
com a perspectiva de que, a partir de uma abordagem comparativa
antes disso, no ensino acad ê mico.
da História , se pudesse obter dividendos para a pol í tica . De forma
;
c) Interpreta ção histórica do direito e teoria da Histó ria .

.
A interpretaçã o hist órica do direito romano apresentava um co - ,7* CAPRARJIS, Vitiorio de. Propaganda t
perulero politito h Frauda durante U gueru di tdigione
nhecimento preciso e tinha produzido um instrumentarlo muito
.:
-
desenvolvido para a pesquisa parecido com o Humanismo floren- HII
;
(vol. 1: 1559-1572). N á poles, 1959, passim (fbi publicado apenas um volume].
L ffw “ Obra esbo ç ada por incumbencia do imperador [romano] Justimano (em 533 d . C ], (...)

'
.
tino , que, em momentos de crise, possibilitava ampla discussã o
;
as Pandectas deveriam ser um guia para a ciencia jur ídica” , sens 50 livros “ enfocam , em
princípio, todas as á reas do direito, mas o direito privado constitui a parte fundamental ” .
hist órico-polí tica . A agudiza çao das disputas religiosas e a luta que * % hr. HE1 KELMANN, Horst Otto. Pandectas , [ n : FRANÇ A , Rubens Limomgl (Çoord.)
.
Entielopédia Saraba de Direito (vol. 56) SAO Paulo: Saraiva, 197?, p. 523 (N. T.} .
.
m im BAUDOUIN, Fran çois . De institotfonc histoihe mivtrsút et cí us cum iuritpmdeniia «miunaionc,
.
w FR.ANCK, Sebastian. C/WWM, Zeilbtuh und GesíhichtbibtU S. 1., 1536, 3*
parte, p. í lv-
mm Paris, 1561, p. 22 .

96 97

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3

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O cortetno w PtivSAwtNro h$rô3Co KO V<OO DA IDADê MQCESKA
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í
grandiosa , se esquematizou aqui o estudo daquilo que é e daquilo
que deveria ser na consciência do todo, conciliando História an -
•J
IK
- coletâ nea,178 o que mostra o interesse crescente para essa disciplina ,
na qual atuam poetas, retóricos, teólogos, juristas e filósofos, e cujo

s desenvolvimento, no sé culo XVI, permite visualizar uma clara ten-


;
tiga e bí blica, sagrada e profana , abrindo urna perspectiva para a
*,

pesquisa sobre a “ bá rbara” Idade Média, na qual estão enraizadas


as instituiçõ es modernas, incluindo tradiçõ es orais, Ocidente e
mWL dência que vai das instru ções para a escrita e a tradicional louvação
da "historia” para sua fundamenta ção científica e a epistemología
I; Novo Mundo, e separando a História humana daquela da natu - :l
y m orientada para a ação. A dificuldade de estabelecer a influê ncia da
reza, sob o ponto de vista iríais elevado do agir, o qual deveria ser : Ret órica está no fato de que a Historie, em ambas as etapas, sem
W kL
'

7 avaliado a partir de $ua legalidade. Esse esbo ço da Hist ó ria - que m; d úvida, é retórica, só que uma vez como matéria n ão obrigatória
!f n ão é menos “ moderno” que Vico e que faz o leitor posterior se m •
dentro de um exercício convencional, depois como motiva ção res-
:
lembrar, surpreendentemente, de Heg él e de Droysen nao é obra
de um precursor. Ele formulou da forma mais incisiva possível e
— MM
m is .

ponsável para as decisões mais importantes em assuntos do Estado,
ou para ensinar a entender sua situação amea çadora.
:

numa perspectiva mais ampla aquilo que, ao pensamento histórico-


m Quase simultaneamente a Baudouin, Francesco Patrizi tentou
político responsável de seu tempo, parecia a tarefa mais premente examinar o objeto, pela primeira vez, em dez diá logos, a partir da
da ciência. Antes da Noite de São Bartolomeu (1572), aquilo que Ilf pergunta sobre que seria História: “ che cosa , o quale saí Vhistoriú” }1*
é representativo para a França nao é a decep çao de Guicciardini,
mas a esperanç a desesperada de Maquiavel por uma configuração :

Os tratados tinham identificado e continuavam a faz ê-lo
Hist ória com escrita da História , em vez de fazer interpreta çõ es

racional da polí tica, com base num conhecimento hist órico e ge- \i -w conceituais, haviam recorrido às ciê ncias auxiliares , como cro-
ogr á fico muito amplo.176 iS l v [

'
M h nologia , geografia e genealogia. Patrizi foi filósofo, platónico
A chave para a utiliza ção desses novos conhecimentos foi W: decidido, influente na prepara ção da nova física , realizou uma
m rr
m
*

fornecida por Jean Bodin , com seu Methodus, alguns anos mais “ virada copernicana ” das coisas em direçã o à consciê ncia, e de-
tarde ,177 no qual n ã o fornecia instru çõ es nem esquemas para uma M
m fô
'
í
fo - finiu “ História” como “ memória das coisas humanas” : “ la historia
sí ntese histórica , e també m n ã o uma teoria da História , mas um :& è memoria delle cose lnunanaeyi.m Isso exige uma determinação do
it
mé todo muito aguçado - na compara çã o com anteriores - para
a an á lise de desenvolvimentos históricos e para a comparação do e -
tempo, e desse fato decorre que como do aparecimento antigo
de esquemas cíclicos de transcurso da História - ela n ã o pode ser
Direito P ú blico e das instituições. Deve ser dif ícil encontrar em
Montesquieu elementos metodológicos que Bodin nã o tivesse
w restrita à s coisas passadas e presentes, mas abrange a antecipaçã o
memorizada daquilo que ainda é futuro.181 Se o conhecimento
discutido, em alto n í vel, seja no Methodus seja nos Six livres de Ia mt
republique, nos quais constrói sua estrutura doutriná ria da política , s% m
histórico é isso, então a Hist ória se concretiza apenas na transposição
para ações históricas, cujo objetivo é ser e permanecer, e (na media-
a partir da História. ção do conhecimento especifico com o geral) felicidade humana.
A obra de Baudonius - da mesma forma que o Methodus de
Bodin - teve nova ediçã o, junto com dois antigos e uma d ú zia de 14 1?i WOLFF, Johann (Ed.). Artis h í stodeae pauis , 2. Aufi., Basileia, 1579. A respeito, cf.
tratados contemporâ neos sobre a metodologia da Historie , em uma REYNOLDS, Beatrice . Shifting current* in historical criticism , Joiir /id / of History of ideas ,
-
v v- 1
ill &
n. 14, 1953, p. 471 e segs.
m PATRIZI, Francesco. Della historia died diatioghi. Veneza, 1560. Reimpresso em KESSLER ,
, 7Í
. . .
Cf. ATKINSON, GeoJfroy L<s nouveaux horizons At la unatsscnKfrançaise Paris \955 passim;
IS Eckhacd. Thcondkcr humanistischer CesctuctUsschtdbitng. Munique, 1971, p. lv.

m
f

MOREAU-REIBEL, Jan.Jean Bodin et U droit public comparé. Paris, 1935, passim. ft »


mi , p. i 8v.
.
BODIN, Jean. Meihodus adfiritzm histoiianwr cortilthrum Paris, 1566, passim. tv:
Ul Ibid ., p. 15 e segs,,
41 e segs.
rii:
98 ISi
. :
99
ii
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ílfSS'SS ;: :.: .:
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O conato K H STô .IA mmm . -
PtíJSA Vii ílO KíSTÓfcCO NO IM’OO OA I DADE
^ HTA T - ', ®® .• .

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IvV Y;-/.; ' -

s critérios de verdade foram discutidos no sentido do pirro-


nismo que estava surgindo e que havia sido antecipado por Agripa His
° simultaneamente, adquirindo atualidade até o século XVIII , e
I Ki^
• i:
v.
de Nettesheim, num
,
ceticismo radica),
uma geraçã o antes Aqui
Hist .182
mais alé m .185 A ampia abertura , o estreitamento perspectivista e a
liberdade em jogar com o mundo histórico podem ser encontrados
- H
mi
, '
eles sao agrupados em tomo da quest ã o p ú blica, menos pela au em Shakespeare, ainda que, na su a Antiguidade, o Heitor troiano
ó dica das fontes seja autorizado a citar Aristóteles, para consternação dos eruditos.186
i h í -f t&r
senda de urna crítica met
-
experiencia
" com uma pol ítica que , ao
do que a partir de urna
final do s éculo XVI, cada
vez mais se distanciava de uma discussão e de uma justifica ção
11 4. O desafio da nova ciência
if
$
i
p ú blica. Desejar a verdade n ã o basta ali onde as causas do agir
permanecem encobertas como “ arcana" a não ser que o próprio
pr í ncipe escrevesse Historia .
A teoria da Hist ória atingiu nesses anos um n ível que ela n ão
- m
ñ ¡í
a) Problematizaçã o da Historie. A mudança decisiva da imagem
sobre o mundo í f sico e a consequente mudança dos conceitos de ma-
téria, movimento , tempo , infinito, cuja consolidaçã o foi avançando
> .

•* ;
pôde sustentar, apesar de algumas outras diferenciações. Também
chama a atenção o fato de que não há registros de representaçõ es
m m
mpi
at é meados do século XVIII, as tentativas de uma temporalização
e dinamização generalizadas das visões sobre o mundo trouxeram
i históricas desse padr ão ou de obras compará veis às dos grandes vv r ®: .
muito mais desafios do que impulsos de desenvolvimento para o
florentinos. Uma espiada no século XVI por mais superficial que - i conceito de Historia nessa é poca. Na comparação com Baudouin,
seja - mostra que o conceito de História se constitui de maneira sufi- && c?Vv Bodin e Patrizi, os teóricos da História , bem como os historiadores
cientemente “ expressivo” para não sucumbir a definiçõ es unilaterais, e as enciclopedias lidam com um conceito reduzido de História ,
.V .:.-: r®:
que, como fantasmas, perpassavam a bibliografia científica. Assim limitado à narraçã o ou à descrição de fatos. Essa conotação de uso
como Montaigne procurava algo geral no ineditismo da experiência:
It restrito à exatidão fáctica , sem argumentação, se mantém até hoje
“ l’ homme en general, de quije cherche Ja cognoisssance” ,m La Popeliniè- M its na língua francesa com “ histoire” , “ historien” e os contraconceitos
re, após uma crítica de toda a História escrita at é então, procurou 1 : .
negativos de “ fabel” ,“ roman” Típica para a polê mica desqualificaçã o
esquematizar uma Histó ria geral perfeita , abrangendo de maneira da “ historia” frente à “ ciência” produtiva é a posição de Descartes:
integral a sociedade e seus costumes: “ l’ Histoire sera Generóle, qimid m
p
:
“ Per Historiam intelligo itlud omne quodjam inventum est> atque in libris
Vautheur luy aura donnê la substance entière et acocomplie des Etats” m E, . V is continetur Per Scíentiam vero, peritiam quaestiones omnes resolvendi, atque
mesmo que ao final do século se alastrassem um pessimismo estoico adeo inveniendi propria industria itlud omne quod ab humano ingenio in ca
e um clima de decad ê ncia , pelos motivos indicados, as concepções
complementares, muito mais que as contraditórias, de progresso e
iI
; pG

:
vim:
scientia potest invemirc; qmm qui habet, non sane multum aliena desiderata
atque adeo valde proprie omnápkrjç appclatw*' ,187 E verdade que Des-
de plenitude da natureza , por um lado, e de transcurso cíclico, de VvV U
i y - cartes blefa sobre quanto ele pr óprio deve à tradição filosófica , mas
monotonia e de decad ê ncia, por outro lado, podem ser constatadas its > ® seu conceito de “ scientia” levar á ainda Vico a escrever uma “ Scienza
:é®V:
ip i : nuova” em vez de uma teoria da História, e ela caracteriza a situa ção
-
}

’y y da Historie depois da ruptura metodológica necessária, ainda que n ão


- f = -;::
; -• t -.
NETTESHBÍM, Heinrich Cornelius Agrippa vem. De ineertitudine ct van í tate sclcntiarum
155 •
Mi i:
.
atque artiurn, decbmaio (1530). In: Opera onmia (t. 2). Lyon , s d . (reimpresso em Hildesheim , 1i
.
1970 p. 22 e segs.). 1 JS
Cf. WEIS1 NGER , Herbert . Ideas of History during the Renaissance.Journal of the History of
.
m Montaigne In: TH Í BAUDET, Albert ;
.
RAT, Maurice (Eds ) Suais (1580). Paris, 1962, 2 , m tv .
n 6, 1945, p. 415 e segs.
III
,

10, p 396. . .
SHAKESPEARE . Troilus atui Oessiâo 2, 2 , 166.

Paris, 1599, p. 85.


-
POPELIN ÍÈRE, Henri L-ancelot Voisin d é la , L'id ée <ie Phistoire accomplie. in: Ufiistoht , VV
•:-
M it Descartes a HogeJande, em 8 de fevereiro de 1640. In: ADAM , Ciiatles; TANNERY, Paul
V« iV
.
(Eds.). Oeums (volume suplementar) Paris , 1913, p. 2 e seg.
V :

100 v1- 101


Uv V:
*

1
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O corjcknò Oí HSTóOV " ;
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;• . • . .
••
.. . • -d
m¡¡¡is
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i Mycderánte e totalmente convincente, com a autoridade da tradição.


^ ^^ W
“ Newphilosophy calls all in doubt" ym e ela nã o se detém diante da dig-
ordens religiosas , por causa de seus milagres, suas lendas sobre
santos e seus documentos falsificados , cuja comprova çã o antes
Pjff £\VV nidade da Historia , que apenas serve como material para utilização


sip® fora fundamentada pela filologia cient í fica , mas agora reforçava
/ cientí fica e, no mais, como “ depósito”.
Esse foi o período de mais ampia pesquisa hist órica ,,s9 mas seu
a*hr o ceticismo generalizado. Os jesu ítas afastaram a História quase
por completo dos planos de ensino obrigat ó rios de seus colégios,
h resultado não foi aquilo que mais tarde se chamar ía de “ Historia” , em toda a Europa. E as Hist órias universais protestantes nao
mas uma coleção tendencialmente sistemá tica e completa de “ an
- Ilf
m conseguiram atingir maior prestígio , nem se igualar às de Cariou
m tiguidades estatais e privadas” , de restos e de fontes, ajeitados com
te V vte e Melanchton , quejá eram um tanto anacr ó nicas.
M!
te exatid ão, sob o ponto de vista antiqu á rio e filológico. Tentou-se
preencher todas as seções da extensiva “ historia universalis" , enquan
^?
atp
-

A História era - como na imagem emblem ática - uma coluna


partida, como na tragédia barroca , onde, em vez do mito antigo,
-
::
.- •i to junto com a coisa també m se perdeu por completo a intensiva
" historia universa" ou “ integra" do nosso saber. Mesmo tendo se steg fftjss
site agora fornecia a matéria (uma ruí na, um cen á rio) para a medita ção
sobre a decad ência inevitável, que, em cada um de seus exemplos, per-
tornado metodologicamente dependente, a ampla bibliografia sobre
| S lite mitia uma avaliação moral, capaz de uma transfigura çã o recíproca .591
-I tes;
verifica ção histórica e credibilidade ficou a reboque da tentativa Nã o tratar da História como ciê ncia no novo sentido leva-
’ i

jurídica de estabelecer a verdade, sem chegar a princípios próprios siR ria for çosamente a uma prov í ncia insegura dentro da rep ú blica
de um conhecimento histórico. sSitel
tetetes® dos eruditos. A ausê ncia de um cará ter pú blico na a çã o polí tica
A historiografia nao melhorou essa impressão. A história an
-
:
tes
tete
m a empurrou , mais do que at é ent ã o, na dire ção do serviço aos
tiga, que até o final do século XVII foi comentada , mas não re pr í ncipes ou para espaços privados, onde a “ historia literária” , a
presentada, além da doutrina sobre as instituições elaboradas nas
-
cole ção de conhecimentos eruditos, se tornou a disciplina mais
Í /ÍÍ
Histórias nacionais mais antigas, haviam , entrementes, perdido
seu interesse mais substancial , pois aqueles que se dedicavam ao
. v;? tete -
w#
Vstete tete:

- ' '
benquista. A rela ção com a História sacra , que metodologicamente
s- - :,
era dif ícil de ser explicada ou só podia ser explicada mediante
Direito P úblico e os teó ricos da pol ítica faziam suas construções 11® te algum risco , foi t ão problem á tica para os historiadores quanto
na perspectiva jusnaturalista, em vez de derivá-lo historicamente. Ate : a “ moral provisória” de Descartes designa um fim temporá rio
Uma história mais recente das guerras religiosas encontrava se em - da retórica , da qual s ó restou a declama çã o. Aqui o Discours sur
obras que se contradiziam entre si e eram mutuamente excludentes , M / 7listoire universelle , de Bossuet , se transforma numa representa çã o
cujas fontes em geral n ão eram publicamente acess íveis e cujo fervor V :¡ m grotesca , quando ele , num brilhante serm ã o , ocupa um espa ç o
confessional parecia torn á-las inócuas, enquanto o brilho literá rio mm m que a pesquisa contemporâ nea nã o conseguiu preencher, fazendo-
se localizava nas memórias de Retz e até do duque Saint-Simon. sr ®s . '
. o sem conhecimento e sem ju í zo hist órico , recorrendo a uma
-
A Idade Média , umedium aevum ” como, desde Justo Lipsio , se S SS
m. teleologí a primitiva para transformar a Antiguidade num veículo
chamava o per íodo cristão a partir de Augusto,190 - n ão se livrava para Hist ó rias bí blicas.
mais do escá rnio, nem mesmo entre os homens mais cultos das
V:m tei
mm '
b) Tentativas de fundamenta ção e quantifica ção do tem -
po. As tentativas de fundamentar cientí ficamente a História con-
DONNE , John. An anatomic of the wofide, First Anniversary (1611). In:
Poems with elegies on i f t c authors death. Londres, 1633, p. 241 (editado por
DONNE, John.
tete ® : tribu í ram para a redução de seu próprio conceito. Dessa forma ,
I » MOM John Marriotj. Keckermann quer conquistar para a Historie aquilo que Bodin
IGUANO, Time in Ancient History (cf nota 155).

WEGELE, Franz Xaver v. Geuhiehte dtr dculschen Historhgraphu. Munique, 1885, . 482
Si - &
segs.; VOSS, J ü rgen. Das Mitte falter im hitter ischen Dtnktn FranheUhs. p c ;
.
Munique, 1972, pusswi m Cf. BENJAMIN , Walter. Ursprung des deulschen Trattcrspieis. Frankfurt, 1963, p. 197 e segs.
; r; .
S; S
102 I ® 103
M
mI-
Ms:* . . m
|í: ' O CONCHO 0! H srÓít4
PeM$A.VlNrO WSTÔRCQ HO IN'etO t>A lOADi MODttHA

^l :
|
¥§
• | vW
M1
í

m-
'
nao ceria conseguido fazer no Methodus - um ?:
- prodit veteribus anauditum , incognituni, tamquam proficiente mundo” .
tratamento meto 107

Ü
dológico, e isso significa para ele um tratamento ló
filiação rigorosamente binaria, a Historie é
gico.192 Numa
apresentada em todas
iI Mas 3 perspectiva temporal dupla de uma Antiguidade que Urespectu
nostri antiqua et major, respecta mundi ipsius nova et minorJuit” m só foi
m as suas partes tradicionais. Ela é definida
,
return singulamm sive indmduomm
como “ explicatio et notitia Uppfi -
mostrada por Bacon, o qual també m quanto à amplia ção da His -
/ Vi
I mt
” mas deve permanecer como torie para aquilo que ainda precisa ser descoberto e feito - concebe
conhecimento imperfeito, 11notitia imperfecta” , porque os fatos
sao o futuro de forma mais concreta do que em antecipa ções profé ticas
I numericamente infinitos e indefinidos quanto ao género, vagae
indefinitae.m Através de induçã o lógica pode “
-
et m
mmte; e progn ósticas dentro de um conceito de “ historia experimentali$”
m .
! mar sentenças gerais, sobretudo na Etica, mas na
se obter ou confir-
WêMm
Uma concepção semelhante de experiências de um tempo
i . !:
pol í tica elas possuem um cará ter particular.195
economia e na
hW-: que vai se adicionando e de uma "generado aequivoca” também está
I
'
Essa determinação pM v
na raiz da moderna tomada de partido na “ querelle des anciens et des
:l ; K-
conceituai permite reconhecer algumas das principais .

- riSKf sS'A -
..
-


te que caracterizan! inclusive per íodos posteriores
tend ê ncias : modernes” Mas, alé m do fato de ser, desde Richelieu , doutrina ofi
.
i! De forma gené rica , a busca de uma verdade filosó
rebaixada , no conhecimento histórico, para uma corre o
fica foi ute
li
ciosa, o comprometimento dos dois lados com o paradigma estético
trouxe dificuldades consideráveis. Pois se o louvor do presente à s
çã parcial lite custas do passado era quest ão de gosto, enquanto o Classicismo
dos fatos, e sua aplicação passou da mudança pol í tica para
cimento privado. Com isso, a Historie no in ício só faz
o conhe - te %
francês produziu grandes obras, ele se tomou pouco digno de fé
uso muito desde o começo do século XVIII, tendo em vista seu próprio pas -
limitado do espa ço criado através da despolitiza ção,
qual a nova ciê ncia se desdobra , e s ó ela vai
dentro do Si sado. Isso teve como consequ ência a exclusão das artes mecâ nicas
e mé todos cuja validade e cujo alcance ~ que
desenvolver conceitos pi e das ciências do sistema de ‘'artes” , sua agregaçã o às ciê ncias da
vai muito alé m dela tv ivY
® natureza e à matem á tica , que estavam progredindo, enquanto as
-
própria permite se servir deles. Assim , a redução a
fatos isolados
Á
permite sua quantifica çã o e sumariza çao dentro
de vivência , com que Bacon consegue derrubar a
de um tempo
inquestionada
m it “ belas artes” foram localizadas numa atemporalidade, que acelerou
sua historiciza ção, mas entravou a an á lise histó rico-filosófica .
autoridade da Antiguidade, definindo-a como juventude e c) O conceito de verdade. Ao mesmo tempo, havia mudado
in ício tete; UP o uso das palavras “ verdade” e “ verossimilhança ” . Se , na tradição
de um transcurso de tempo que vem se sucedendo desde
qual s ó lentamente vai desvendando a verdade.196
então, o
E certo que toda I! aristotélica, a verdade da situação (historicamente) individual se
a Renascenç a e, em especial, Vives, conhece uma
crescente, na compara ção com a Antiguidade: uquotidie
clara consciência 1
if s
contrapunha à verossimilhan ç a da situa çã o ( poeticamente) geral ,
essa relação se modificou agora . A verossimilhança histórica ,
enim aliquid W s discutida de forma lógica ou jurídica , se confrontava com os
$ limites indicados por Keckermann, os quais Tomásio modifi-
,
1 3
KECKERMANN, BartholomSus. D:natura et proprletatibns hisloriae ( cou um pouco: “ De coisas ausentes nunca podemos apreender
..
1610 p 5.
otiutienlarius. Hannover,
«i
154
.
ibid. p. 8.
te: s '
157 .
VIVES, Juan Luis. De prima philosophic (liber I). In: Optra omnia (t . 3). Valencia 1782;
Ibid.t p. 23 c segs.

151
. -
ibid , p. 19, 13.

|
!Í 9
:m % .
reimpresso em Londres , 1964, p, 214; cf BARON , Hans. The querelle ofanc í ents and m ódems.

BACON, Francis. Novum organon 1, Aphoiisrnus 84. In: Works (


. .
Journal of the History of hitas, n 20, 1959, p 13 e seg.
154
vol. 1} (1858), p. 190 e seg.; teg $ .
m BACON. Novum organon In: Works (vol. Í), p. 190 .
cf. LEYDEN, William v. Antiquity and authority.
Journal ofthe History of Ideas, n. 19, 1958,
p. 473 e segs.; SAXL, Fritz . Veritas Filia teinporis. In:
.
BACON. Parasceve ad historiam n at u ralem et experimentalem (1620) In: ibid., p. 391 e segs .
PATON , H. ,; SAXL, Fciu (eds.) .
Philosophy and History. Essays presented to Ernst Cassirer. Oxford , J , ,
20 . .
KRISTELL£R , Paul Oskar The modern system of the arts In : KRISTELLER , Paul Oskar.
1936 p 197 e segs. Renaissance thought (vol. 2). New York , 1965, p. 163 e segs.

104
- ,:
m

HA :
105
.
. . O CCXVCé TO Dí HOTóBA JR
v
tejiste tete PfMSÀWNTO M$IÔ*'CO V¿CJO DA Í DAPÍ MODffAtA

.fl:
jÈ fflÊÊSÊ$ÊÈk&,
: # .: :í.unia verdade incontestá vel por meio de um conhecimento claro finalmente num desaparecimento da credibilidade de fatos histó-
^
' :

Pp g
^^ ——
em ítidó, / mas t üdo / que aprovamos / é ou apenas verossí mil ou
e confuso” ;201 e ele acrescenta: “ aquilo que
m u K v obscuro '
entã o muito
lV- o homem entende de maneira certa e nítida a respeito da essência
v daquilo que passou / isso n ão é outra coisa do que uma lembran
ça de tais coisas / que ele antes captara por ter estado presente .
:

¡
1P
afeite
- m mm
~
ricos e também da revela ção crista, numa proporção ao quadrado
do tempo,207 a qual somente Hume conseguiu refutar, de forma
convincente.208
d ) A caminho do moderno conceito de Histó ria . Como
I .. . life revolu çã o do século XVII no campo da Física , foi necessá-
#§ fe:
E , por isso, na avaliação das coisas verossí meis, tanto aquilo ; na
que rio recorrer ao infinito e a um modelo que nao era acessível à

«11i»
P ‘

fe passou quanto aquilo que vem no futuro deve estar


orientado experiência,209 a fim de abrir o caminho para o conceito moder-
por aquilo que é presente” 202 Conhecimento histórico, portanto
no de História . Partindo do pressuposto de que o homem “ n e$l
}
,
w
\k-
até nã o atinge a simples verdade de urna certeza f
á tica , a qual ate . ::- :r4 ñ iiP&Ü
produit que pour l’ infinité” , e que sua memória permite a cada um
te
í
então aparecia como objetivo dentro da definiçã
de uma verossimilhan ça que se firma apenas parcialmente
o, mas se trata
como
m P
mis e a todos em conjunto “ tm continuei progrès” Pascal concebeu um
ú nico “ homme universel” de todos os homens em toda a sequ ência
y

vf
!
.
certeza, 203 enquanto, na tradição neoplatônica, a Poesia
uma verdade própria, 204 que, filosoficamente, se refere a algo
Assim Diderot afirma , em Eloge de Richardson, de forma
reivindica
geral .
a
mm
si :.lv
dos tempos, “ qui subsiste toujours el qui aprend continuellement ” 210
Leibniz , que conhecia esse manuscrito , criou , em continuadas
: i * enfá tica, mm tentativas, um instrumentarlo filosófico para ver o mundo como
"que ’I histoire Ia plus vraie est píeitte de mensonges , et que ton
est plein de vèrités. Uhistoire peint quelquers ittdiuidus; tu
Roman mm um processo global din á mico, em constante evolu ção.215 Mas ele
É ii
J;
peins fespèce n ã o conseguiu transferir esse reconhecimento para o conceito de
humaine” .205 A reivindica ção de verdade por parte da Poesia ganha
Historia ou mesmo concretizá-lo em suas obras históricas por meio
M -:
espa ço no século XVIII; a da História dependerá do fato de
ser
tef f de interpreta ções individuais harmonizadoras; seu trabalho histó-
P
i compreendida e interpretada como um todo.
m ite rico se restringiu basicamente a aplicar a fontes alemãs os m étodos
Analogamente à prá tica judiciá ria inglesa de uma credibilida
de decrescente dependendo do nú mero de etapas de - M W
i® nP
desenvolvidos por Mabillon e pelos maurinos.
A " historia mturalis” desta vez também serve a Spinoza, para
i
i
sua tradição,
na qual Locke insiste em rela ção àquilo que tange à Hist ó ria,206
ocorreu um curioso cá lculo que resultou numa diminuição, e
mm
m« submeter a interpretação da Bí blia à razão: “ Nam sicuti methodus
:
interpretandi naturam in hoc poíissimum consistit , in cotuintumda scilicet
!;Kf historia naturae, ex qua , utpote ex certis datis, rerum natimlium defini -
251
-
THOMASIUS, Christian. Einkíttwgzuder Vemunfft Lehrt. Halle, 1691, 11, 6, III !:if tioncs concludimus: sic etiam ad Scripturam interpretandam necesie est” .2U
abwesenden Ditigen k $nnen wir nicmahkn tuislreitige Warheiien
§ p. 243." Vou m reí E$$a intençã o de uma incansá vel correçã o de opiniõ es erradas , de
dock seht dnnckei and toufas".
Ibid . , 11, §§ 20 23, p 247. " Was de hí tnuh von dan
vtmiltth cinerkfarin and deuflUhen
Etktinttsilss begreiffen / sondem alies / was u>lr davon bejahen i ist
entweder nur wahmheinlidi oder M
li f derrubada de autoridade presumida , foi perseguida por Bayle sem ,
10i
. . Wcsen des Vergangenen gewlss and deutlidi m
m ímfe
m
verstehcl / das ist nhht anden ais cine Et innerting solcher Dinge / die
..
begrifftn . Undmuss also auch in Envegung der wahrsthmlUken Dingc das
erzuvor aís gigenwàrlig allbireit 207
CRAIG,John. Thcofogíae (iuistianaeprincipia mathematUa.Londres, 1699, passim (parcialmente
nath dem Gegenwd / tigen gerUhlet werdtn** . Vergangene and Zukiinfdge
m .
reimpresso em History and Theory, n 3, separate 4 , em especial , 1969, p. 26).
Cf. BERNOUILLI, Jakob. Ars conjcetandi. Basileia, 1733, 4, :
1 " probabilifas cslgradas certitudinii
. .
Ki HUME A treatise of human nature. In: Works (vol . 1), 1886 1, 3, 13, p. 441 e seg.

.
et ab fiat differs at pars a loto" m w- y/ }
Cf. KOY.RÉ, Alexandre. Études d'histoire de la philosophic. Paris, 1961, p, 239.
2 ,0
PASCAL. Fragment de pré faee pourlc traite du vide. In: STRQWSK!, Fortunat (Ed , ). Oeuvres
401 Por
exemplo, MAÇROBIUS. Sonmiiun jciptonis 1, 2, 7: "
l!l
*s DIDEROT É loge de Richardson (176Í). In: Oeuvres
.
.
LOCKE An essay concerning human understanding. In: Works (
p. 108 e scg.
modus perJigwentum vera reft rendi ,
.
completes (t. 5) Paris, 1875, p. 221
.
.

vol 3), 1823, 4 , § 10 cseg.,
m
m
:;
i-
( ompUtes (t. 1). Paris , 1923, p. 403.

2.1 Cf.
LOVEJOY, Arthur O. The great chain oj being (1936). Cambridge/ Mass., 1966, p. 242 e scg >.
2.2 SPINOZA . Traetatus theologico -politicus 7. In: GEBHARDT, Carl ( Ed.). Opera (t. 3).

i ¡Vi: Heidelberg , s . d., p. 98.


í

106 II
4 II
.. 107
m PM
:
» V
O CONCOTO « HISTóíJA
«life
li

ií p- T
PtNSAVfNTO H ÍTÔfJCO NO &¿QO DA lOAOc MODEÜ NA

no entanto, enxergar na Hist ória outra coisa do que “ le portrait de de luiy\2 X7 A internaliza ção da História na consciê ncia e - em Rousse-
la misere de Vhomtne” ,21* III -
au o rompimento do espaço hist órico interno, onde a natureza do
E foi a natureza comum dos povos que Vico torna inteligível 11 homem (historicamente corrompida, mas ao mesmo tempo tornada
através do conceito do infinito e da concepçã o de transcurso ideal SP consciente) deve ser reconciliada consigo mesma no mundo histórico,
do tempo, e o apresenta como urna Historia ideal eterna , una Mp
storia ideal eterna” , de acordo com a qual as hist órias individuais dos
“ Í-M v
trouxe consigo dificuldades que não podiam ser solucionadas com
os meios existentes. A expansão espacial e a exatid ão derivadas da
povos - ule stone di tutte te nazioni” -
transcorrem. Com o salto
£
*.
“ histoire naturelle” podiam enxergar “ desenvolvimento” no detalhe
epistemológico de que ‘77 mondo civile” , que mais tarde se chamada i fel
| - na arte e na ciência e, com isso, uma História com sentido. Mas
“ mundo histórico” , em contraposição à natureza, e que - por ter êm n ã o eram capazes de compreender História como um todo, por meio
sido criado por homens - també m deve ser reconhecido por eles, & Mí do moderno conceito de tempo. Voltaire transforma em objeto de
ja que os principios para isso podem e devem ser encontrados na$ '
rM pesquisa hist ó rica - com um singular coletivo -“ Vhistoire de Vespril
estruturas de nosso espí rito humano, Vico conclui a “ guinada
mm .
humain” E, numa analogia cosmológica - correspondente à ordem
copemicana” das coisas em direção à consciencia. Na História , o lp do universo, que antigamente só podia ser imaginada , mas cujas leis
homem se compreende a si mesmo e , ao narrada para si mesmo, ele
a cria para si mesmo, de acordo com suas pró prias lei$.2 H Por estar
Si agora teriam sido reconhecidas ele reivindica como objetivo até
SB então n ã o alcançado:“ C’est done Vhistoire de Vopinion qtVilfattut écrire; et
preocupado com coisas gerais, com regularidades, Vico consegue
interpretar épocas distantes, de cujos in ícios s ó h á uma tradição
poé tica , com uma intensidade desconhecida até entã o, ele conse
i
- m
-m * •
»
L &;;
par là ce chaos d’événements , de factions, de revolutions, et de crimes, devenait
digne d'etre presente aux regards des sages” 219 .
Na Alemanha, o singular coletivo “ Historia” aparece inicial-
Wv
gue reconhecer a verdade de ideias poé ticas, “ universali fantastic?' ,
e , ao mesmo tempo, transformar a Historie numa ciê ncia filosófica.
m m.
m li
mente no contexto teológico da justificaçã o do mal , 2 i9 mas permanece
como objeto subordinado à capacidade teológica deju ízo, até o Kant
Vico ficou isolado e praticamente sem influê ncia no seu tempo, sii já idoso, que pressupõe o conceito de Newton de tempo absoluto e
mas o mesmo relativismo histórico - apenas em menor escala e numa MM homogéneo. A irrupção de outra experiencia de tempo, junto com a
perspectiva diminu ída - guia Fontenelle em sua tentativa “ de faire Si experiencia de uma ação pol ítica modificada, permitiu que se falasse ,

Vhistoire de VIustoire même” 2is A mesma acuidade para a multiplici


dade de circunstâ ncias individuais e de diversidades, desenvolvida
- mm de “ História” num novo sentido, o qual fora preparado e, em alguns
casos, quase que coneeitualmente antecipado.
através da “ histoire naturelle” , liga Buffon a Montesquieu e Diderot , e
permite distinguir o próprio método do“ point de vue de Vhistoire” de 5, A respeito da alteração no topos
procedimentos estritamente dedutivos ou rigorosamente classifica - I® '

III- de "Historia" e "Geschichte"


torios.216 Diderot pode compreender consciê ncia e identidade como
uma histoire, produzida pela “ mémoire, (q< ui) lie les impressions qtVil reçoit , V: Os tratados sobre a “ arte histórica” e os pre á mbulos das obras
forme par cede liaison une histoire qui est cále de as vie, et acquiert concierne v :-h de História transmitem desde a Antiguidade determinadas fórmulas
fifi
.

Vsf Ifl
.
, ;:k ,
<1. 3), 5 ed., 1740, 548 b. mm . .

J J BAYLB DIDEROT Reve de d’Alembert (1769). In : Oeuvres comptttcs (t 2), 1875, p. U 3.
J
í ?
,
31 VICO. Sctenza nuoua. (vol. 1). Bar í . 1928, t , 4; 1, 3, p. 128, 117, 91 (cf. nota 156). m VOLTAIRE. Remarques de l’essaisurles moeun (1763). In: Oeuvres competes (t. 24), 1879, p, 547.
.
FONTENELLB, SurThistoite. In: Oenws ( omptiles ( x 2). Paris, 1818 (reimpresso cm Genebra ,
|
|' I l:
’ 3l >
Albrcebtvon Haller* en> " Ü berden Ursprungdes Ü beJs” (1734 ), modifica, na 4’ edição (1748),
1968* p. 424 c segs .). v i l l.i o plural uGes<IticlU ( n" [ Historias) para o coletivo singular: "Oh verdade! Diga você mesma ,
ns DIECKMANN, Herbert. Çinq k çotss sur Diderot. Gentbra , 1959, p. .
49 .
testemunha da Hist ó ria" In ; C« frYhtct 5. Aufl., Zurique, 1750, p. 88.
ill
108 109
t -
m; : -
Hsiôsu.
m te - PcNSAM ÊHlO K15TÓ&CO NO íMCO DA lOADt MoC**í tA

-
'

K
m pa a delinear a essência c a tarefa da escrita da Historia de uma lil para enquadrá-la num tipo de sistema” .222 E aquilo que aqui é des-
m^
-

i mmí- a
|
: maneira geral, irias, aó mesmo tempo, t ão concisa quanto possível.
| ÍÍPf Ímeim:pfessupost6 Í nquestionado foi que a História não era prati -
iS m
i# lp
* crito como decorrente do mé todo, ou até só da did á tica , Gatterer
atribui , alguns anos depois, à pró pria coisa: “ A rigor, existe apenas
«s
• ?
mesilla ^ coisa que somente o Historicismo, mais tarde, uma Historie, a História dos povos, e esta é a verdadeira e efetiva
iililü^
|j
pédé pleitear -;mas para um fim. Queria se obter algum ganho
í cõm ela , e imaginava-se encontrá-lo no fato de que ela ensinaria e . : História universal; uma obra que ainda não foi escrita” . Ele pode.
afirmar que “ a História ... deve ser toda ela uma interconexão” , e
8P mmS tornaria aplicáveis as experiências dos outros. A maior dificuldade
ii - - se encontrava na pesquisa e na representa çã o da verdade , e um mm
mm manifestar o desejo de que “ o mais alto grau de pragmatismo na
Hist ó ria seria a ideia da interconexã o geral das coisas no mundo
I objetivo que ia além do$ citados estava na memória, que a escrita
Hp ;
( nexus mum universalis). Pois nenhum acontecimento no mundo é,
i da História possibilitava reproduzir.
« m.
por assim dizer, insular” .223
I A mudança do conceito de “ História” pode ser
utiliza çã o e na interpretaçã o dos topoi. Restringimo nos
verificada na ¿
b) Magistm vitaes capacidade de ensinar e utilidade. Só
::í - aqui a agora “ a História” pode ensinar, comprovar ou exigir, e a mais
esquematizar essa mudan ç a , alé m dos temas capacidade de
verdade e memória.
ensinar, 1 Ü «
Ui
recortada parte do topos ciceroniano -“ historia magistra vitae” y que
serviu de epígrafe para as disputas seculares em torno da capaci -
j citada
a) Das “ Historien” para a “ Geschichte Nenhuma

com tanta frequ ê ncia na bibliografia histórica quanto a
louvaçã o de Cícero sobre as cinco utilidades da Historie
. frase é

para o
-[ dade de ensinar e de servir de exemplo, da experiência histórica,
e cuja dissolu çã o pode ser interpretada pela teoria histó rica
essa parte agora é parafraseada da seguinte forma: “ A História é
224

retórico: “ Historia vero testis tempomn, lux veritatis, vita


memoriae,
Sf
mP a mais confiável mestra da moral ” .225 Essa fixação daquilo que é
magistm vitae, nuntia vetustatis , qua voce alia nisi oratoris Vp: p
commendaiur 220 No alem ã o do final do século XVI , a primeira
immorUilitati :m 0 historicamente possível ensinar à moral identifica uma tend ência
'

W‘ 0 importante, mas nã o é representativa do todo. Na década de 1730,


#

®

'

metade (em geral citada sozinha) diz assim: Historien sao


“ um tes- ;
:S

fv
• Schmauss classificou a Historie num sentido polêmico, contra seu
temunho dos tempos, / uma luz da verdade, / a vida da memória, abuso edificante - como “ uma escola dos servos do Estado” ,226 e
/ uma indicaçã o da antiga forma de ser, / e mestra e

tura correta do texto, e, ao mesmo tempo, a concepção



educadora da
vida humana” .221 E, nesse caso, o plural “ Historien indica uma
lei - «
; !I
111
quase um século antes , encontramos a seguinte feliz formula çã o:
“ E a vida política nao sobrevive sem Historien” 227 .
dominante As diferentes tradu ções indicam , que nao só o conceito de
de História no início da Era Moderna , isto é, que são os relatos de “ Histó ria” havia mudado, mas também o de vida , e o daquilo que
acontecimentos individuais que trazem esse benefício. A unidade •
- m &í‘ i
da Hist ó ria e sua tradição, formulada bastante cedo, como v:!
vimos, $
s ó se torna palpável, na ciência histórica da
Alemanha, a partir dos
ui .
p ÇfTTER , Johann Stephan . Gnuufriss der StdflUVC(iiuÍ emngen des Tcuischen ReUhs 2 . Au íi.,
Gtfuingen, 1755 ( Vorrede 2 ur 1. Auflage, 1752), p. V.
anos 1750. Assim, Piitter refere, em 1752: “ Fiz um grande
para enquadrar a História em certo nexo, de um modo adequado
esforço II IlJ
GATTERER , Johann Christoph. Vom histoflschen Plan und der darauf sí ch gr í indenden
Zusamrnen í ugung der Entahlung . In: GATTERER . Bistoiisehe Bibliothek (vol . 1) , 1767. p.
para apresentação em aulas acadêmicas, e, não sei se posso 25, 26. 28, 85.
dizer, ,í 4 KOSELLECK , Reinhatt . Historia magistra viue . In: BRAUN, Hermann ; RIEDEL, Manfred
Mv (eds .). NaUtr tind Genhichie . Festschrift ftir Karl L õwith . Stuttgart , 1967, p. 196 c segs .

CICERO. De oratore , 2, 36; cf. 3, 51.
FORBERGER , Gcorg (tradutor). Prancisà Gui« fordlni CnVi âiikhc utntd mhrhaffil
&t btxhaibiwg
mk
:m
m ADELUNG (vol . 2), 1775, p. 601.
m JohannJakob Schmauss, num parecersobre a funda çã o da Universidade de Gottingen , citado por
- -
SELLE , Gdu v. Die Gecig Augiist UTTIMRSLIHTZH GfttiHgen / 737- /537- Gottingen, 1937, p. 21 e seg
.
allerjünsemeti historiem Basileia, 1574 ( Dedikaúon), p. 2V.
227
GARZONI , Thomas. Piazza univeisali Frankfurt, 1641» p. 408.
,

no
Ml
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-A-Ç:!-

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:\ O CONCITO DH Htft órJA

fm
PíNSA/ZíMO wsiôfcco NO OA IDADE MOOESMA

era ensin á vel ou digno de ser ensinado. No pr óprio Cícero, “ ma


-
'

SPK em situa ções semelhantes, deva voltar a ser aplicado. Assim, Patrizi
^ v:
gistra vitae” não é uma distinção exclusiva da Historia - em outro mi?
lugar se atribui o mesmo à Filosofia. 228 Mas a Historia conquista , |
¡ lü
| pode sugerir que, ao contrá rio do surgimento do Estado e da ma-
i dessa forma , um lugar dentro da Retórica, e isso significa , para a | :; Ê 1: È S
¡
Wm I
nutenção da dominação, se relate apenas resumidamente, ou nem se
relate, sua decadência , já que n ã o se consegue derivar daí nenhum
i-
íu
Antiguidade e para as rep ú blicas do Renascimento, que, ao lado
'

ensinamento para a felicidade do Estado (aWaltruifelictà civile).2** E


?|í
V* -
I
da Estrategia e da Economia, as três possuem a capacidade, junto
com a É tica , de estar subordinadas à Ciência Polí tica 229 Por causa .
" - IE aqui que o interesse do tempo de Montesquieu e de Gibbon sofrerá
um deslocamento significativo. E já os poli-historiadores do século
de sua abund â ncia de exemplos, a Historie fornece a parte empí rica XVII n ã o querem mais transformar conhecimento histórico em
?í , C
i
viva da Filosofia moral, menos para os historiadores que para o
ensino, complementando a parte dogmática. Sé neca reduziu a coisa HI a çã o (como propunham Baudouin, Patrizi e Bodin), mas enxergam
o objetivo da Historie no fato de que os acontecimentos se tornem
à curta , mas muito citada, fórmula: “ longum iter est per praecepta , conhecidos ( ut sciantur).23*
.1 - •

n
:

'i ?
.
breve et efficax per exempla" 2 Aquilo que aqui recebe uma funda-
menta ção did á tica , porém , nã o deve ser generalizado; o próprio mm É por esse caminho que vai $e preparando lentamente uma
transforma ção na compreensão daquilo que é ensin á vel na Histó-
Séneca alerta contra o recurso irracional a exemplos: ‘‘Inter casttas ria. Má ximas para a açã o eia nao pode mais fornecer, depois das
tttalomm nostromm est , quod vivimos ad exempla ; »ec raiione componimur, experiências vividas com a Revoluçã o Francesa. “ Mas aquilo que
sed consuetudine adducimur\2 M Contra o cientificismo que acredita a experiê ncia e a Histó ria ensinam é que povos e governos nun-
m mm
em exemplos , Roger Bacon ainda - ou já pode se servir dessa
arma.222 De maneira geral, talvez seja Sir Philip Sidney quem, na
- mm i
mm ca aprenderam algo a partir da História* * é o que Hegel pode
constatar. “ Aquilo que, na História , tem alguma serventia para a

.V# Att;
Idade Moderna , contesta , pela primeira vez, o valor de exemplos forma çã o está na atividade do Espí rito, no reconhecimento da-
M9
históricos: “ The Historian wanting the precept , is so tyed not do what
shoulde bee, but to what is, to the particular truth of things , and not to the
, -1 quilo ... que ele é: esse processo de auxiliar o Espí rito a chegar a
ele pró prio, a seus conceitos, isto é História” .236 Continuidade na
general reason of things , that hys exemple draweth no necessary consequence ,
and therefore a lesse fruitful doctrine” 2 .
i *m - conscientiza çao histórica do espí rito é a Historie como “ História
compreendida” .237 “ Com isso, també m a frase ' Historia magistra vitae'
adquire um sentido superior, mas ao mesmo tempo mais modesto.
m:mw Iu
Por essa época , os teóricos da Hist ória do final do século XVI
haviam desenvolvido critérios que iam além da utilidade expressa no i
Através da experiência, queremos nos munir de prudê ncia ( para uma
topos de Cícero. Mas aquilo que se mantém é a conclusã o possível outra vez) , mas de sabedoria ( para sempre) ” .238 Dessa forma , Jacob
Mm Burckhardt tenta resolver a contenda , mas mesmo assim , economia
de que é um direito do historiador fazer um julgamento sobre seu , -m.
W
\- -&= pol í tica e sociologia tentarão prever transformações estruturais a
objeto, partindo do passado em dire çã o ao futuro, e se mant é m ffn V:
!

igualmente o pressuposto óbvio de que o conhecimento do passado, 11 >•


partir da an á lise de acontecimentos históricos, e, assim , fundamentar
.
: :'Pv KV:
m CICERO. Tuswlanat disputai fones Nicomachea ahita , 2 , 16; cf. 2 , 49; 5, 5, PATRIZI , Della ftisloria died diabghi (cf. nota 179), p. 34w.
m ARISTOTELES. Niiomuhw critica , 1094 b. II 3JX
.
Típico para o CíSO é VOSS Gerhard. Ars ( ustótka (1623); 2. c <L, Lcidcu, 1653, p. 15.
Hegel. In: HOFFMEISTERJohmnei (Ed .). Die Vtrmtft In ditGeuhlthte. 5. Áuff . Hamburgo,
sw SENECA . Eptstaiae ,
.
6 5, mm . .
1955, p, 19 183, 72; cf. Droyscn. In: H ÜÍ3 NER , Rudolf (ed .). Hhtorik 4. Au íl., Darmstadt ,
SENECA , Bphtuke , Í 23, 6. .
3 )1
.
BACON , Roger. Opus ter / turn Londres, 1859, c. 22, p. 72 (ditado por J. S, Brewer). w. m 1960, p 353 e segj.
u > HEGEL. Phanomenoíogie dcjGebtes. In:Samtliche Werke (vol. 2), 1964, p. 620,
ÍU
.
SIDNEY, Sir Phjlip. An apologie for pocirie Londres , 1595; reimpresso em Anucerd & ni / Ncvv

Mi !;v:
York , 1971, D 3'.
mJacob Burckhardt. In: OERI , Jacon ( Ed .), WtlfysehUhtlUhe B( ( radU\iH£en. 2. Aufi., Berlim /
Stuttgart, 1910, p. 9.
N. -
I-
112 Jí & 1 )3
mm m
íífc -
•• vi .
.
7:
*

m
lv

O CONCITO DE Hi$ró&< VW : .
PINSAMí NTO HJSTôSKO NO I 'OO OA IOAPI MootP.hA
^
científicamente ações possíveis. E praticamente nenhum dos his
toriadores mais importantes do século XIX resistiu à tenta ção de
- íj daí o “ espelho criador” , que Fausto exige de Mefisto;246 e com essa
imagem Friedrich Meinecke pensava dever caracterizar o Histo-
atuar, ao menos por algum tempo, na política , e assim prestar ao
ricismo como a evoca çã o do passado praticada por ela mesma . 247
topos aJgum tributo em sentido passado . Mas, em meio à preocupaçã o em torno da inevit á vel intromissão da
c) Lux veritatis, verdade e reprodutibilidade. De uma ma
- individualidade do historiador, també m h á que distinguir atitudes
neira geral, o historiador moderno se dedica sobretudo ao presente,
enquanto o antigo trabalha em especial para o mundo posterior
e sua utilidade ou seu conhecimento.239 Com isso,
a busca por
mm contrárias. A fé de Ranke na objetividade de uma “ História mundial
ainda desconhecida” ,248 que primeiro deveria ser descoberta , era
t ão forte que só a contragosto aceitou a expressão provavelmente
objetividade se desloca. A pergunta de Cícero se n ã o seria óbvio
utilizada pela primeira vez por Goethe em meio à consciê ncia de um
para o historiador “ ne quid falsi dicere audeafí deinde ne quid
attdeaÜ 2 A0 é muito formal para que a segunda parte n ão motivasse
veri non m
y*sM M “ tempo progressivo” de que “ a História mundial [Weltgeschiehté], de
tempos em tempos, deveria ser reescrita ” .249 Ele ansiava por tomar,
uma cr ítica fundamentada.241 Mas a exigência pela verdade faz
,

Mm
que Luciano elaborasse o ideal de um historiador tão imparcial
não consegue ser socialmente localizado em lugar algum:
estranho, se encontra só nos livros, não se sente em casa em ne-
com
que
“ como
m “ através de uma visã o baseada em simpatia , uma co ciência do
universo” 250: “ gostaria de, por assim dizer, apagar o meu próprio
eu , e deixar aparecer apenas as coisas , as forças poderosas” .251 Em
-

3111 contrapartida , Jacob Burckhardt diz , em vista da “ cegueira de nossos


nhuma cidade, est á comprometido unicamente com sua pró pria
lei, e com nenhum senhor, não avalia as opiniões deste ou
daquele, as desejos” frente ao futuro: “ Se pud é ssemos abrir mao por completo
de nossa individualidade e encarar a História do tempo que vem
mas apenas constata fatos” .242 Para isso , se prestava a met á
espelho,243 que se manté m como um topos permanente, na qual
fora do mm com tanta tranquilidade e intranquilidade quanto ... o espet á culo
a da natureza então talvez viveiteraríamos, de forma consciente,
epistemolog ía se transforma na imagem do espelho vivo, em que : m mm um dos maiores capítulos da História do espí rito” . E diante das
primeiro se interpreta Deus ( uspeculum aeternitatis vivum quod
> est profundas transforma ções - sem temer ou depositar esperança
forma formarum” )Ui e depois o homem em seu posicionamento
frente ao mundo: “ et in quocunque loco cuneta mundi statueris entia:
: devido à importâ ncia do objeto, fica-se praticamente obrigado a
in 7 buscar apenas “ conhecimento” .252
eius opposite abs te collocandus et recipiendus est homoí utsit universonm Mais subjetividade se encontra na comparaçã o com o dese-
speculum” .245 No circuito nebuloso de concepções m ágicas, m3 nho, a pintura, o tableau. Nas discussões esté ticas do século XVIII,

. .
.
MOMIGLl ANO, Arnaldo Tradition and the classical historian
297 c segs , em especial p 291, 1972 .
surge

. .
History and Theory* « 11, p.
m
i
existe uma preferência por explicar a peculiaridade da literatura

mm .
240

M
CICERO, De crotore 2, 62 ,
VOLTAIRB. Verbete “ HistoriogrAphc". In; Oeuvres coniplètcs (i. 19 .
.
) Í 879, p. 372
m
MM M
.
em LBIBNIZ , Nouveaux essais sur Tentendcmcm humain In: GERHARDT, C . J . (Ed .).
.
Philwphistht Sdnjftcn (vol , 5) Berlim , 1882, 2, 21, § 72 , p. 196.
542 LUKIAN, Qtiont
õdo historio consmbcnda sit, 41, 1: Çé çé
“ vo v toTç fitfiXiQiç* Kai faoXiç, aóxówjioç,
ó ftaaiXcuwç, oú rí r 3<5c, / / x§ôe õóÇCf , Àoyi{ópew ç, á )JA rircisrpaxteuXeyeav 1
mM “
2 GOETHE
. Fault 1» Paraltpomcnon n . 11. ta: lVebtuiret Ausgabe (vol. 14), 1887, p. 291.
w MEINECKE, Friedrich . Sthoffender Spiegel. Stuttgart , 1948, p. 7.
< ' [na tradu çã o dejacyntko
-
Lins Brand ã o, Ic se: “ estrangeiro nos livros e apá trida , aut ónomo,
sem rei, n ã o so preocupando
'
M '
' w Leopold von Ranke, em carta a Heinrich Ritter , de 22 de março de 1828 In: . SdmtIUhe WetUe
com o quo adiará este ou aquele, mas doendo o que so passou LUCIANO . " ..
(vol. 53/ 54). 2‘c 3* eds 1890, p. 195 .
.
Como se deve atrever a história Belo Horizonte: Tessitura ,
-
DE SAMÓSATA.
2009, p. 71 nota de Sé rgio da Mata } . mm m M
GOETHE . Ge 5chichte der Parben íehre, 4* se çí o, século XVI , Baco von Veiulam (1810). In :
.
242 Ibid , ,
51 1. ® iI . .
Die Sehtifien zur NaUirwbsenstUaJt (vol 6/1). Weimar, 1957, p 149.
244
24 í
.
KUES, Nikolaus von De visiono Dei . In: Optra (t. 1). Paris, 1514, p
.
BOVILLUS, Carolus. Liber desapunte Par ü /Amiens, 1510, reimpresso
. 1077,
in: CASSIRER , Ernst.
m m! 250

.
.
RANKE. TagebuchblStccr In : S ânitlidic JVctkt (vol. 53/54 ), p, 569 cseg
.
RANKE Engtische Geschichte. In: Samtluhe IVerke (vol 15), 1870, p. 103.
.
.
htdividmim und Kostnos lit tier Renaissance 3. Aufl., Darmstadt ,
. .
1969, p 353; cf “ miroir vivant" :&-$ zb

B 251

252
.
BURKHARDT, iYdfgeschitlicke Brlnuhtungen , p 273 e seg.
\v k& :

*¡H
114 p ®;
® ®VÁ
•y 115
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Jm;
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fe
O coseno ex H>STó?íA.
w
tea
PtNSAMÍNTO HISTÔFKO HO INÍOO DA lOACE MODfftHA

mediante recurso à pintura , isso mesmo depois que Lessing no


seu Laokoon - havia postulado, em 1766 , a incomparabilidade
- as ‘revolutiones, eventus return' pode-se ver ali °.257 Isso indica para
Jí f uma espacializa çao, que tamb é m se encontra na ciência natural ,
& através das categorias temporais de sucess ã o e simultaneidade. onde se deve estudar dentro de um bem ~ montado “ cabinet dfhisoire
i>8 Ramler, na tradu çã o de Batteux, parte do pressuposto de que
tanto Lebrun quanto Curdo Rufo tenham ‘'pintado0 as batalhas ft r
-
mturelk ° o “ systéme de la nature eUe méme” ? -
Com a representa çã o pictórica, liga-se a imagem da “ verdade

-¡ i
de Alexandre: “ Este com sinais arbitrá rios e inventados, isto é,
com tintas e pinceladas; aquele com sinais naturais e imitativos, ¿Í
nua n ã o enfeitada0259 que o historiador deve tentar atingir, mas ao
,
lado tamb ém est á a concepção corrente na Antiguidade de uní a
isto é, com palavras. Se eles se mantiveram fiéis à verdade, ambos verdade s ó gradativamente desvendada no decorrer do tempo
sã o autores de Historien* \ E de forma muito vaga, pode-se falar
m mm í asfilia tetnporis” .2* 0 Met á foras ó pticas e espacializa çao
1: í
Ü “ da pintura geral do gênero humano” .253 Bodmer, na comparação m
Mm mr -
(chronos): “ vert
levam Comenitis a elaborar uma caricatura dos historiadores, na
entre acontecimentos histó ricos e ficcionais, atribui aos primeiros qual eles estariam olhando “ com um tipo de trombones retorci-
:

[
a vantagem “ de que sao pintados exatamente de acordo com a
natureza , e são menos enganosos0.254 O uso das palavras sugere
Afts
mm
dos ... por sobre os ombros, olhando para trás” situa çã o em que
cada um enxerga um quadro diferente, motivado pela perspectiva
que o car á ter de alguém seja pintado, que se forneça um quadro de i retorcida (= binó culos).261 Enfocado de forma positiva , na tradi-
;
!
uma personalidade hist órica . Saint-Evremond enxerga a vantagem
r I :
ção da doutrina das monadas de Leibniz , Chiadenius $ó consegue
r
dos historiadores romanos sobre os posteriores nessa arte, no fato -Siflf
rp a® ¿ enxergar a História através de determinados “ pontos de vista” , e
de que lá aqueles que escreviam a História també m participavam mmk m
represent á veis através de “ imagens rejuvenescidas0.262
mm
;
Por mais plausível que seja, essa comparação contradiz o fun -

dela, e que a carreira administrativa em Roma levava a um amplo


zm
• i
conhecimento dos homens, atravé s da religião, do comando do
exé rcito e da polí tica . Por isso, a “ grande délicatesse de discemement”
mm mm-
cionamento da memória humana , e exatamente também o efeito
: ! de exemplos históricos, que podem ser muito mais eficientes que
Mm fi
'

na “ peinture° de um Salú stio ou Tá cito: " C’ cst une certame difference, aqueles que são conhecidos por serem do tempo presente.263 As
dont chaqué vice ou chaqué verta est tnarqnée par ¡’ impression particuliè re Up ® metá foras óptico-espaciais s ã o substitu ídas por met á foras mecâ nicas
qu’elle prend dans les esprits ou elle se trouvé0255 Numa compara çã o «
m1 m e din â micas, das quais basta citar aqui o Tríebwerk der Begebenheiten
[motor dos acontecimentos] de Gatterer.264
panorâ mica, o cardeal de Retz pode conduzir seu leitor de uma
antessala insuficientemente iluminada - que contém o esbo ço dos
antecedentes da guerra civil - para a galeria dos quadros em tama- ,S7 GUNDUNG , Nicolaus Hieronimus . AusfiihrlUhtr nnd mit ¡Ilustren Bxmptln aus der Historie
nho natural.256 Mais geral é a concep ção de Gunling: “ A Historie utid Staaten Notiz eríauterter Diucurs tí berja. Franc, Buddei Phí fosophiae Practicas Part. III . Die
Politic . Frankfim /Leipzig , 1733 ( Prolegomena), p. 4.
é um gabinete onde $e pode ver tudo aquilo que aconteceu ; todas mm 2W
BOMARE , Valmontde . Dictionnairemsonnt universel d’ histoire tutiurelk (t . 5) . [Su íç a], 1780, p .
414; cf. p. 430.

í SJ
RAMLBR, Karl Wilhelm . Binkifung in die Schâtten Wiaenschafttn Nach dem Frauzosischen
*

des Herrn Batteux (vol . 4) . 4. Aufl . , Leipzig , 1774, p. 263 e seg. , 276 .
mm im. , 55 BODMER , Erz ahlungen . . . , p. 73.
'

2 </> CF. nota 196; PANOFSKY, Erwin . Studies in iconofogy (


e
York , 1972, p. 691 segs .
1939) (cap. 3: “ Bather time*'). New
VA BODMER ,
Johann Jacob. Hisrorisdte EtzSlilungen, die Deokungsart und Sitten ebr Alten
2 U entdecken (1769). In: ERNST, Fritz (JEd .) . Sch tifien. FrauenfeId / Zutique, 1938 , p. 73.
II 2 il
COMENfUS, Johann Amos. Das Labyrinth dtr Welt und das Paradles des Httzens (1631). Jena ,
ÍU
SA Í NT- É VREMOND, Discours sur Ies historien Fran çois. In: Oeuvres (t . 3) . Amsterdam ,
*
M|
am
; ; 1908 , p. 107 [traduzido do tcheco por Ztjenko Baudnick].
CHLADBN 1US , Johann Martin. BlnUUnng 2air rUhtigen AusUgung verniinftiger Reden und
1726, p. 219, 223. Sebifuti . Leipzig , 1742; reimpresso eni Dü sseldorf, 1969, §§ 309, 353.
au CARDINAL DE RETZ . Mémoires . In: ALLEM ,
1956 , p. 152 .
Maurice; THOMAS , Edith ( Eds .). Paris,
1!
m
rm v v
|
CARDINAL DE RETZ . M émoires, p. 161.
m GATTfiRER , Vom historischen Plan .. . (cf . nota 223) , p. 68.

•• •

116 117
mm
:
V - P7 .;
•• • 1

.. O ÇONCÍITO DE H íSTÔttA
i:, ; Xi W : : '•
J
d) Vita memoriae, lembrança do n â o passado. Se as metá fo- V

ill
ras pticas estão relacionadas com a etimologia correta da ioropía
ó
grega , que deriva de oída, ía/ tev (“ eu sei ” , aparentado com “ video ) ,
as met á foras din á micas estao relacionadas à etimologia de Plat ão,
” A configuração do moderno
pintada em tons irónicos.265 A transição de urna forma de concep
- wm mm conceito de História
çã o para outra est á esclarecida em Besold: “ Est vita memoriae, quia ,
quae priscis novique secutis acdderunt , facile e momoria excidere solent.
Reinhart Koselleck
Proinde memoria sahtiare quase remedium snae infirmitatis et mconstantiae • .•
ex Historia haurlt: et veluti reviviscit, cum in illa tanquam in ampl í ssimo )
flpi
aliquo theatre et specula tersissimo nitidissmique, praeteritorum temporum
acta contemplatur, Unde Historiam à nò TOO ioxácdai xt ) v zfjç pvfjpt ç : \
¡)i)otv Platonem derivasse qjunt, quod memoriam labilem ac varilian tem} , S
:

1 . O percurso histórico do termo


)
ceu perennem jitmum, sistat” 266 . il I y

É nesse deter e segurar a memória queja se pode compreen


- Í¡gf|s Quando hoje se fala de “ Hist ória ” , estamos diante de uma ex-
der a intenção de Tucídides de criar, para além da utilidade e do =.3m M; :. .
: pressão cujo significado e cujo conteúdo só se consolidou no último
prazer, uma “ posse para sempre” “ Kxijpa ze èç ale ) .267 Faz parte terço do sé culo XVIII. “ A História” é um conceito moderno que
” M i¡ si
da teoria do conhecimento da Era Moderna afastar-se da teor
da reprodução e encarar aquilo que é reconhecido como urna
ía ¡ mm - apesar de resultar da evolu çã o continuada de antigos significados
da palavra na prá tica , corresponde a uma configura ção nova .
construção, como produto criado pelo espirito que reconhece . No Naquilo que tange à História do termo, o conceito se cristaliza a
conhecimento histórico, essa visão deve ser atribuída primeiro a partir de dois processos de longa duração, que no final v ão confluir
Vico , e depois sobretudo a Hegel e a Humboldt. Conseguir que
Mi
ela também $e impusesse na pesquisa histórica, esse foi o esforço
: e, assim , desbravar um campo de experiência que antes nã o podia
ser formulado. Por um lado, trata-se da criação do coletivo sin-
apaixonado de Droysen. “ Não um quadro do acontecido, mas gular, que reú ne a soma das hist órias individuais em um conceito
aquilo que do passado... ainda é n ão passado” constitui o objeto da comum. Por outro lado, trata-se da fusão de “ História” (como
pesquisa que deve ser obtido através do processo da compreensão. E
“ o fato pesquisado encontra -se numa relação com as condições em
vm i -/
Sm tmr
- conjunto de acontecimentos) e “ Historie” (como conhecimento,
narrativa e ciência hist óricos).
que ele se insere, seu contraponto, sua crítica e seu julgamento” . 266 a) O surgimento do singular coletivo. A configuraçã o fe-
sm
minina no alem ão antigo “ gisciht” e no alem ão medieval “ geschiht ”
as

(ao lado de “ sdhl” ou “ schiht” ) deriva do alem ão arcaico “ scehan*\
verbo que deu origem a “ geschehen” [acontecer] e significa “ acon-
' ::Pm tecimento, acaso, processo” ; e no alem ã o medieval, significa ainda:
M '
“ aquilo que faz parte de uma coisa , característica, modo” [Weise] ,
2W
. .
FRISK , Hjalmar, Gtiethisdies elymcloglaha IVòrtabuth (vol 1) Heidelberg , I , ,
.
2 ) 1970, p 357; PLATON. Knttylos , 437 b.
960 p 7*10; (voK mm
mm e, de forma mais geral: “ essência [Wesen] , coisa” ; e ainda , sobretu -
246
Ü ESOLD, edição de 1697, p 394. . do no alem ã o do in ício da Era Moderna : “ acontecimento , coisa”
w THUKYDIDES, t 22. . WM [Sache] , mas também “ aquilo que acontece a partir de alguém,
.
DROYSEN Histotik (c (. nota 236), p. 316, 20 c seg., 166.
m
íft
i ato, obra” , além disso: “ uma sequência de acontecimentos , acaso,
mm Um
¡i
.

118
a 119
O CCNCMO DC HsJÔítA
1
A CONnGOMÇÂO DO MOD5WO CONCHO D 2 HtfTÓSlN
i '

k
designio **; e, finalmente, no alemão do inicio da
í]
definindo gradativamente o â mbito humano do fazer e do padecer
Era Moderna ,
como “ historie” : “ narrativa daquilo que aconteceu **. Com isso,
foi se
;
Ü
mi m
Em 1775, Adelung registra os dois empregos paralelos:; “ À; V: -:
História , plur[al] et nominativo] singular]... Aquilo que aconte ; V:
ceu , uma coisa acontecida , tanto em sentido mais amplo, qualquer . V
^ ‘

a expressão podia substituir pragma ( a , res gestae, gesta


, fada , accidens> \Éf|Kl mudança , tanto ativa quanto passiva , que acontece a uma coisa” ; .
casus, eventus, fortuna, e outros equivalentes. Em torno do TM ftk
ano 1300, : mm te :; Em sentido “ mais restrito e mais usual **, a palavra visa a “ diversas: -
veio se juntar à forma neutra “ daz geschichte” , que foi se
e ainda constitui a forma usual em Lucero, corn
difundindo isis wm*
:“ 8v VI .: mudanças interligadas , as quais, tomadas em conjunto , perfazem
“ acontecimento, classifica ção, ordem **.269
os significados de; mm m
,

um todo... E exatamente nessa compreensão, ela se encontra , muitas


A partir da í, “ die Geschichte” [“ a História**] (ao lado de m vezes, de fornia coletiva e sem plural, para vá rios episódios acon -
isp m tecidos, de uma mesma espécie’*.274
Geschicht” , e, desde o século XV, “ die Geschkhten” [“ as Hist “ * *
die
m
foi, até pleno século XVIII, uma forma plural, que designava
de histó rias individuais. “ A Histó ria são* * - lê se em
órias ])
a soma
mm
Sik
í:
Quando Adelung se deu conta do novo coletivo singular ,
acabou definindo também sua função, qual seja , a de unificar
- Jablonski ,270 em
11: fe um série de acontecimentos em um todo inter-relacionado. A
-
1748 “ um espelho das virtudes e dos v ícios através da qual
se pode
11 18 “ Histó ria ** recebeu um significado que ultrapassava os diagnós -
aprender, a partir da experiência alheia, aquilo que se pode
se deve deixai de fazer; elas sã o um monumento tanto das
*

quanto das louváveis**. Da mesma forma, Baumgarten


fazer ou
m ás ações » «m
- SM1
ticos e os fatos individuais, como a Historie ihiminista gostava de
destacar. Assim , em 1765, Carl Friedrich Flõgel escreveu uma
define, em 1744, 0â Geschichte des menschlichen Verstandes [História da razão huma -
na velha tradiçã o271: “ A História sã o, sem d ú vida , a
parte mais educativa na], na qual examinava as causas “ que a levavam a evoluir e a se
e ú til, o mais engraçado da erudição**. E inclusive Willi
Herder utilizou , aperfeiçoar” .275 Em termos modernos, se diria que se tratava de um
eventualmente, “ a História” no seu significado aditivo, plural.272
Do ponto de vista gramatical, a velha forma plural “ a Histó * m mí ;® -
esboço antropológico e social histórico, que pretendia explicar o
ria’ surgimento do homem racional. Que tais processos e sua an á lise
podia agora ser lida também como feminino singular. Mas do WB fossem chamados de “ Histó ria** soou estranho, no in ício. Ainda
vista conceituai, é possível reconhecer um ato consciente
ponto de
na migração
m
mm em 1778, um resenhista criticava: “ A palavra ‘História *, que está
do vocábulo “ a História * * do plural para o singular. Essa
migração, na moda , constitui um abuso formal da linguagem , já que na obra
porém, começou apenas na segunda metade do século XVIII a
(de Flõgel), no m á ximo, aparecem narrativas nos exemplos* *. O
276
de um grande n ú mero de escritos histórico-teó ricos. E
é o coletivo singular que designa a soma das Histórias
, partir
desde ent ão, Hl significado narrativo ou exemplar da palavra , que fora dominante
individuais até então, e se referia a histórias individuais, foi perdendo espa ço.
como “ essência de tudo aquilo que aconteceu no mundo* * (
Grimm).275 111 £
® V; :
O novo slogan expresso pela palavra “ História” identificava um
grau de abstração mais elevado, que podia caracterizar unidades
.
'
fS % sobrepostas de movimento histórico.
.
GRIMM , vol. 4/1,2 1897, p. 38S7 c seg .; cf. BENECKE; Ü

2>i
2/ 2), 1864, p. 115 e segs . *
JABLONSKI 2. ed., vol. 1, 1748, p. 3S6. 2. Aufl.
,
M LLER; ZARNCKB ( vot .

Tradu çã o da Hislotie gerai do mundo, cm alem à o por Sicgrmmd


as a. -
•.• ; :;1
“ A Hist ó ria ” tinha uma complexidade maior que aquela das
histórias individuais com que se lidava até ent ã o. O conceito subja-
1) , Halle, 1744, p. 59 ( Vorrede); cf. GEIGER , Paul E.
.
Jacob Baumgarten (vol.
Dos Wort MGe$thUh( tn nud stint
j 11 cente à “ palavra da moda ” pretendia apreender essa complexidade
3,2
Zusammenseizung. Freiburg 1908, p. 16 (tese de doutorado).
HERDER. Ü bcr die nettere Deutsche Literatur (1767/68). í n: Sdmtlichc Woke (
vol. 1). 1S77,
llffi
•S!8 í :
p. 262.
37J
...
Cf. GEIGER , Dos Won "CíIíWWIíí" 9; GRIMM, vol 4 ,
MM M< ADELUNG , vol . 2, 1775, p. 600 e seg.
.
. /1 2, p 3863 e seg; cf. HENNIG , FL ÕGEL, Carl Friedrich. Ctschhhie des menschlichen Verstandes. Brcíhu , 1765 ( Vorrede).
Johannes. Die Geschichte des Wortos "Geschichte*1. Deutsche Vitrteljahrcsschrifl ¡ir m Resenha da 3* edi çã o (1776) da obra citada na nota 275. Allgemeltie deutsche Bibifolhek , n. 34 ,
,
Uteraturtvhsensckafi und GtiitesgeschtchU n . 16, 1938, p. 511 esegs. / 8:
1778, p. 473.

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