Você está na página 1de 23

O CONCEITO DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL EM

SISTEMAS ABERTOS
(PUBLICADO EM POEMATROPIC, V.1, N.1, JAN/JUN 1998)
NORBERT FENZL1

Introdução
Desenvolvimento Sustentável não é somente um modismo intelectual que surge no
final do milênio, em conseqüência dos graves problemas ambientais que a humanidade está
enfrentando. A teoria de sistemas mostra que a sustentabilidade é a força motriz fundamental
do desenvolvimento de todo sistema aberto, auto-organizado e capaz de evoluir.
Todos os sistemas abertos precisam importar energia e matéria com a quantidade e
qualidade adequada e exportar energia e matéria desvalorizada para poder garantir sua
reprodução. No caso da sociedade em pleno processo de globalização e integração sócio-
econômica esta questão se torna cada dia mais evidente. Em primeiro lugar, porque a nova
economia global nascente está chegando aos limites dos recursos naturais, que o nosso
planeta é capaz de oferecer. Em segundo lugar, os princípios desta integração mundial
produzem um nível de injustiça social, que começa a assumir traços apocalípticos. A
percepção destes limites traz conseqüências profundas na maneira de encarar o futuro da
humanidade e pergunta-se: nossa forma de desenvolvimento tem futuro? A resposta é
complexa porque requêr uma nova abordagem baseada na interdisciplinariedade, quebrando
com nossas tradições positivistas e lineares de pensar.
Entretanto, a quebra geral dos velhos paradigmas produz o substrato do novo, que está
nascendo em todas as áreas do conhecimento humano. O novo, ainda aparentemente frágil, já
começa a demostrar sua vitalidade. Pela primeira vez surgem formas de pensar o complexo,
os sistemas abertos longe do equilíbrio. O absoluto, o determinado, o reversível, se tornam
casos particulares de um universo em evolução, onde predominam a irreversibilidade e a
probabilidade.
Neste contexto surgem novas propostas de refletir nossa realidade sócio-econômica, o
modo de produção, o mercado e a relação da sociedade com a natureza não humana. As
tentativas de integrar os conhecimentos das ciências tradicionais numa teoria mais ampla de
sistemas abertos, tem como objetivo criar parâmetros e indicadores, capazes de produzir uma
imagem mais holística do processo sócio-econômico que estamos vivendo. Essas propostas
2

buscam novos conceitos mais abrangentes e mais transparentes, onde o mercado deixa de ser
uma nebulosa força da natureza, que justifica o massacre social de milhões de seres humanos
e a voracidade crescente com que as bases energéticos e materiais da reprodução humana
estão sendo destruídas.
Neste texto apresento alguns conceitos e indicadores, tais como Metabolismo
sócio-econômico (MSE) e Eficiência Energético-Material (EEM) que estão sendo discutidos
em vários países do mundo e que estamos envidando esforços para que as ciências produzidas
na Amazônia participem ativamente neste processo de conhecimento.

1. Generalidades
O conceito Desenvolvimento Sustentável vem sendo interpretado das maneiras mais
diversas, sempre dependendo dos interesses específicos do usuário. Os problemas decorrentes
deste conceito se devem ao grande numero de pontos de vista, do alto nível de abstração e da
falta de elementos operacionais capazes de medir concretamente o grau de sustentabilidade de
um processo de desenvolvimento. A literatura recente tenta traçar algumas linhas gerais neste
sentido. De um modo geral, define-se desenvolvimento sustentável levando em conta as
seguintes metas e objetivos básicos:
- A taxa de consumo de recursos renováveis não deve ultrapassar a capacidade de
renovação dos mesmos.
- A quantidade de rejeitos produzidos não deve ultrapassar a capacidade de
absorção dos ecossistemas.
- Recursos não renováveis devem ser utilizados somente na medida em que podem
ser substituídos por um recurso equivalente renovável. (Fischer-Kowalski,M & Haberl,H,
1993). Resumindo, podemos dizer que em última instância, o conceito de desenvolvimento
sustentável descreve um processo sócio-econômico ecologicamente sustentável e socialmente
justo.
Apesar de ser uma diretriz bastante vaga, a discussão em torno desta temática avançou
nas ultimas décadas e assistimos o surgimento de novas abordagens metodológicas que
parecem promissoras. Por exemplo, a Holanda desenvolveu um programa interessante
chamado Sustainable Technology Development. Este programa pede que os fluxos
antropogênicos devam ser pequenos (20%) em relação aos fluxos naturais. No caso dos
recursos não renováveis, o programa propõe que o uso somente deva ser permitido se há uma

1
Dr. em Geologia e Geoquímica Ambiental. Coordinador do Núcleo de Meio Ambiente (NUMA), UFPA,
Belém, Pará
3

perspectiva de reservas pelo menos por 50 anos. Neste período precisam ser realizados
investimentos para sua substituição.
Todas as tentativas de vislumbrar um desenvolvimento sustentável, decorrem da
esperança de poder combinar crescimento e desenvolvimento econômico com justiça social
e domínio dos problemas ambientais.
Nos últimos anos, surgem tentativas cada vez mais promissoras em relação a
necessidade de quantificar e qualificar os fluxos energético-materiais através dos sistemas
sócio-econômicos. O objetivo é de encontrar um acesso empírico mais preciso aos processos
de desenvolvimento sócio-econômicos, algo que a visão exclusivamente monetarista dos
atuais modos de produção é incapaz de fornecer.
Neste sentido, o presente artigo tenta responder as seguintes questões:
a) O que é um processo sustentável ?
b) Com quais parâmetros a sustentabilidade pode ser medida e quantificada?
c) Qual é a importância social e política de tais parâmetros e em que medida estes
podem contribuir para melhorar a qualidade de vida dos seres humanos?
A primeira pergunta pode ser respondida pela teoria de sistemas abertos. Estes
sistemas, não-lineares e longe do equilíbrio, apresentam uma característica fundamental:
eles são obrigados a importar (assimilar) energia e matéria do seu ambiente relevante,
utilizar este input para manter em funcionamento sua organização interna, e são obrigados a
exportar as sobras ou rejeitos, que não podem ser aproveitados. Este processo, chamado
metabolismo energético material (MEM), é uma característica fundamental de todos os
sistemas auto-organizados, capazes de evoluir.
Portanto, não há sistemas abertos, em equilíbrio. Todos são estados estacionários, em
permanente transformação, aparecem e desaparecem ao longo da evolução, de acordo com
suas capacidades de adequar seu metabolismo energético-material às mudanças incessantes
do seu ambiente relevante.

2. Características básicas de sistemas abertos


Historicamente um sistema foi definido como o objeto da análise empírica, entendido
no sentido da mecânica newtoniana clássica. Uma das primeiras definições da palavra sistema
apareceu em 1874, na Alemanha, no dicionário „Meyers Konversationslexikon“: .... "sistema
é um conjunto de partes organizadas em um todo...". Enquanto subentendia-se ainda as
„partes“ como sendo objetos macroscópicos (Europäische Enzyklopedie zu Philosophie und
Wissenschaft, 1990).
4

Com o surgimento da termodinâmica estatística, no final de século passado, Ludwig


Boltzmann , introduz uma primeira ampliação importante a este conceito: ele estabelece uma
relação entre as dimensões macro- e microscópicas de um sistema, através da famosa equação
S = k.log.W. Sendo (S) a entropia de um sistema, (k) uma constante e (W) um fator de
probabilidade que indica quais estados microscópicos correspondem à um determinado estado
macroscópico estacionário. Para Boltzmann os estados macroscópicos e microscópicos já
eram dimensões de espaço-tempo com qualidades diferentes. Assim, com esta equação, o
conceito de sistema ganhou uma nova dimensão e a probabilidade deu sua entrada nas
ciências exatas.
O outro grande passo no sentido da ampliação do conceito de sistema foi dado com as
novas formas de enfrentar e compreender a natureza não humana, ou seja, com o surgimento
da ecologia. Assim, o conceito de ecossistema surgiu em 1935, com os trabalhos do botânico
inglês Sir Arthur Tansley. A partir desta época, o ambiente tornou-se o centro das atenções e
o conceito de sistema foi de certa maneira „aberto para fora“, ganhando mais uma dimensão,
o seu ambiente (Odum E.P., 1991, Atkins P.W., 1986. R.Mocek, 1986. I.Prigogine &
I.Stengers, 1993).
Para definir sistemas, é necessário inicialmente distinguir entre sistemas isolados,
fechados e abertos. Enquanto os primeiros fogem do nosso acesso empírico, porque não
trocam nem energia, nem matéria com seus ambientes, os sistemas fechados trocam somente
energia com seu entorno. Entretanto, nosso interesse se concentra aqui basicamente na
terceira categoria: os sistemas abertos que trocam energia e matéria com seus ambientes.
Estes sistemas são de fato aqueles que dominam nos processos da evolução biológica e
apresentam características que desafiam a visão newtoniana do universo: eles estão longe do
equilíbrio, apresentam a capacidade de auto-organização e se desenvolvem de maneira
irreversível. Em outras palavras o futuro de um sistema aberto somente pode ser uma
probabilidade.
Uma definição atualizada de um sistema aberto deve, portanto, cobrir um conjunto de
características pouco comuns à lógica da mecânica clássica. De início uma definição deve ser
capaz de relacionar o „espaço interno“ e o „espaço externo“ do sistema. Assim, podemos
distinguir pelo menos três dimensões de espaço-tempo em sistemas abertos:
a) Uma dimensão microscópica que descreve o espaço interno no nível dos elementos
do sistema.
5

b) Uma dimensão mesoscópica de referência que se situa no nível das fronteiras


estruturais do sistema. O termo mesoscópico foi escolhida porque designa um plano
intermediário.
c) Uma dimensão macroscópica, constituída pelo espaço externo, além das fronteiras
estruturais do sistema. A dimensão macroscópica é o ambiente especificamente relevante para
a manutenção da coerência estrutural ou seja, da reprodução energético-material do sistema.
Esta região é chamada campo de interação e faz parte do sistema Assim, sistemas abertos
são constituídos por uma estrutura e um campo de interação, ambos intermediados por um
plano de referência, a fronteira estrutural.
Com já foi mencionado anteriormente, um sistema aberto requer uma determinada
quantidade e qualidade mínima de energia e matéria de entrada para a manutenção da
coerência estrutural. Estas entradas são transformadas e aproveitadas pela estrutura do sistema
e eliminadas na forma de saídas energético-materiais desvalorizadas e de qualidade inferior.
Podemos dizer que sistemas abertos extraem energia e matéria do seu campo de
interação e devolvem energia e matéria desvalorizada ao mesmo. Este processo de feed back
entre campo de interação e estrutura, o metabolismo energético-material, depende diretamente
da forma específica do modo de organização (reprodução da coerência) estrutural.
Este processo de feed back entre a estrutura e o campo de interação obriga o sistema :
a) de „formatar“ (ou informar!) constantemente seu próprio ambiente relevante de
acordo com seu padrão específico de organização estrutural.
b) de adaptar sua organização interna (o espaço microscópico) ás mudanças que
ocorrem no espaço macroscópico, no campo de interação.
Assim, o campo de interação forma, junto com a estrutura do sistema, uma unidade
em permanente interação e transformação. As dimensões macroscópicas e microscópicas
interagem desta maneira através das fronteiras estruturais e possibilitam ao sistema de reagir
internamente á mudanças que ocorrem ao exterior de sua fronteira estrutural. Partindo das
considerações feitas até aqui, podemos propor a seguinte definição:
Um sistema aberto é composto por um número finito de elementos que interagem de
maneira coerente, formando uma estrutura que engendra o surgimento de um campo de
interação em permanente feedback com a estrutura, através do qual o sistema se integra com
seu ambiente, adquirindo a capacidade de auto-organização e de evoluir de maneira
irreversível (Bunge M.,1979, Fenzl, 1993).
6

3. Esclarecimentos conceituais
O conceito auto-organização descreve os parâmetros que regem a organização
interna (estrutural) de um sistema. De acordo com H.Haken, os elementos do sistema são
sincronizados por estes parâmetros ( Ebeling,W,1989. Haken,H.,1992. Beckenbach,F. und
Diefenbacher,H.D., 1994).
O conceito estrutura (lat. structura e do verbo struere, construir, juntar, formando
„ordem“) é utilizado aqui no sentido da definição latina, ou seja como plano arquitetônico de
um edifício, como ordenamento dos órgãos de um corpo ou como relação coerente entre
palavras e idéias de um discurso, etc. Em ultima instância podemos dizer que a característica
do conceito de estrutura se baseia na maneira como os seus elementos se ligam e relacionam.
O conceito substância apresenta uma historia lingüística mais complexa. Em geral ele
é entendido como „natureza de uma coisa“, de maneira que estrutura indica a organização e
substância o caráter do sistema considerado. Por exemplo, a estrutura da água se refere a
forma de organização das moléculas de água e a substância descreve suas características
físico-químicas (Europäische Enzyklopedie zu Philosophie und Wissenschaften,
Sandkühler,H.J, 1990).
Da mesma maneira devemos diferenciar entre fronteira estrutural e fronteira de
sistema. A primeira é a fronteira ou o limite do espaço físico da estrutura, enquanto a segunda
necessariamente inclui o campo de interação. Esta distinção é fundamental para dar ênfase ao
fato de que um sistema aberto tem semelhança as partículas da física, um duplo caráter de
corpo e de campo.
Fronteiras estruturais emergem quando um determinado número de partes começa a
agir (movimentar-se) de forma coerente, formando uma unidade estrutural e uma fronteira
entre o „espaço interno“ e o espaço externo“ da nova estrutura emergente. Esta fronteira
possui características e funções específicas: Por um lado ela é interface intermediadora da
troca de energia entre as dimensões micro- e macroscópicas do sistema e por outro lado,
assume uma função protetora para a manutenção da coerência das partes e de uma superfície
sensorial. Um exemplo é a pele de organismos ou do ser humano. Como a acupuntura
demonstra, praticamente todos os órgãos do nosso corpo são representados por pontos
específicos, localizados na nossa pele. A fronteira estrutural da dimensão microscópica de um
sistema, a forma, a gestalt, é o principal plano de referência do sistema e constitui o nível
mesoscópico do sistema. No caso de interações entre sistemas (qualquer seja sua natureza), o
quadro semântico, sempre se situa na dimensão mesoscópica dos sistemas em interação. O
7

mesmo ocorre com nossa aproximação empírica aos sistemas: ela é ligada a uma dimensão de
referência, que aparentemente sempre é situada „no meio“, no nível mesoscópico. Assim,
nossos parâmetros de descrição e observação são ligados a uma dimensão espaço-temporal
definida e as dimensões complementares (micro- e macroscópico) se tornam difusas (fuzzy).
A fronteira do sistema é mais ampla e mais difusa. Por exemplo, a membrana de uma
célula (a fronteira estrutural) pode ser definida com precisão do ponto de vista espacial. Ao
contrário, o campo de interação desta célula encerra todo o espaço externo que de alguma
maneira foi transformado e utilizado pela célula durante sua vida. Assim, as fronteiras do
campo de interação não representam um espaço geométrico preciso, apesar de ser um
conceito com um claro aspecto espacial.
A evolução de um sistema aberto e auto-organizado, é vinculado a dois conceitos cuja
relação é cronológica: o campo de emergência e o campo de interação. Enquanto campo de
emergência precede e reúne as condições de uma emergência, o campo de interação é a
conseqüência histórico-evolutiva desta nova coerência. O campo de emergência designa uma
determinada „região“, num espaço de fase, na qual a emergência de uma nova coerência entre
partes diferentes é potencialmente possível. Neste campo existem as condições necessárias
para a emergência de uma nova estrutura (ordem de elementos). Vejamos uma analogia: No
ovo (campo de emergência) se desenvolve um embrião, a nova estrutura. Na medida em que a
estrutura se consolida e cresce, ela cria seu campo de interação, inicialmente dentro do corpo
materno, posteriormente no seu ambiente concreto de vida. O campo de emergência reúne os
parâmetros determinantes de uma nova emergência, enquanto o campo de interação é um
produto da interação entre a estrutura emergente e seu entorno relevante. Podemos dizer que o
campo de interação é a expressão da liberdade de um sistema, ou seja, o grau de capacidade
de um sistema de transformar seu ambiente relevante de acordo com sua própria necessidade
energético-material, que por seu lado é conseqüência de sua organização estrutural.
Uma estrutura complexa, composta de um número muito grande de elementos, é
considerado estacionária enquanto a coerência entre os elementos é mantida. Esta coerência
á nível microscópico corresponde a aquilo que todos os elementos, apesar de todas as
diferenças, em última instância possuem e fazem em conjunto. Coerência é, portanto, algo
comparável a um padrão médio de comportamento, ou em outras palavras o menor
denominador comum.
Os conceitos da teoria de sistemas somente tem sentido se forem relacionados a um
sistema concreto. Assim, se falamos de elemento ou campo de interação devemos estabelecer
uma relação com a estrutura concreta do sistema que estamos tratando. Por exemplo, uma
8

sociedade de formigas pode ser considerada um sistema. Neste caso, os elementos são as
formigas e a coerência do comportamento entre elas forma a estrutura do sistema. A
coerência, entretanto é dinâmica; os elementos estão em movimento permanente e o sistema
se transforma continuamente em tamanho, densidade, ou seja, na sua distribuição espaço-
temporal. As formigas, entretanto, não ocupam somente o espaço do formigueiro, senão
também um determinado entorno relevante para sua reprodução. Este entorno sofre a
influência da atividade das formigas, mas ao mesmo tempo impõe ao sistema determinados
limites e condições de sobrevivência. Esta região é chamada campo de interação. O espaço
além das fronteiras deste campo é o espaço externo ou a rede do sistema. Falar em sistema
ou em elemento somente tem sentido se a dimensão mesoscópica, o limite estrutural do
sistema ,for definida. Por exemplo, o elemento químico Carbono que faz parte da substância
corporal da formiga não pode ser considerado um elemento do sistema formigueiro. Se
quisermos definir uma formiga individual como sistema, os conceitos de elemento, estrutura e
campo de interação mudam de conteúdo e devem ser redefinidos concretamente para o caso.
Em outras palavras, o elemento é somente a parte menor de um sistema específico e não pode
ser confundido com o conceito químico de elemento.
O surgimento de redes de sistemas somente ocorre em dimensões equivalentes. Por
exemplo, moléculas se relacionam na dimensão espaço-temporal das moléculas para poder
formar redes mais complexas. Por outro lado, a interação entre sistemas abertos somente
pode ocorrer através da superposição dos campos de interação em dimensões espaço-tempo
equivalentes.
Sistemas abertos são formados de um lado por uma estrutura, como expressão de sua
„corporalidade“, descrita por parâmetros tais como massa, substância, forma e gestalt, etc., e
por outro lado, por um campo de interação que se relaciona a conceitos como energia, forças,
etc.. Assim, podemos estabelecer uma analogia entre as relações do tipo corpo - mente,
partícula - onda e estrutura - campo de interação.

4. Desenvolvimento Sustentável de Sistemas Abertos


Para estabelecer uma relação entre Desenvolvimento Sustentável e a dinâmica da
evolução de sistemas abertos devemos enfocar os seguintes aspectos:
A relação entre os estados micro- e macroscópicos de um sistema e
A necessidade de sistemas abertos de importar e exportar matéria e energia para
garantir a auto-organização e sua capacidade de evoluir.
9

A relação entre o estado microscópico e macroscópico de um sistema deve ser de tal


forma que a coerência interna dos elementos e a manutenção estado estacionário possam ser
garantidas . Isto é o primeiro princípio que deve ser respeitado para garantir a sustentabilidade
de um sistema aberto. Como analogia podemos dar o exemplo de um ser humano individual
como sistema aberto. O funcionamento dos órgãos internos (coerência interna dos elementos,
espaço microscópico) e a manutenção do estado estacionário (a integridade estrutural do seu
corpo) somente poderão ser garantidas se a relação entre o ambiente do indivíduo (a
dimensão macroscópica) e o espaço interno tenha um mínimo de compatibilidade. Neste caso,
isto significa alimentação, proteção de extremos climáticos insuportáveis e um certo nível de
relações sociais.
Por outro lado, para que sistemas abertos possam evoluir, é necessário que o input
energético e material tenha a qualidade certa. Isto é o segundo princípio que precisa ser
garantido para que um sistema aberto possa desenvolver-se de maneira sustentável. Na prática
isto significa:
a) Que sistemas abertos evoluem na medida em que são capazes de aperfeiçoar
permanentemente sua capacidade de reagir estruturalmente às modificações das
fontes energético-materiais, mantendo a coerência interna.
b) Que sistemas abertos evoluem na medida em que são capazes de aperfeiçoar
permanentemente sua capacidade de agir sobre seu ambiente relevante para
garantir a quantidade e melhorar a qualidade das fontes de energéticos e materiais.
A evolução da biosfera mostra que estes dois princípios foram respeitados desde o
surgimento dos primeiros organismos.

5. Metabolismo Sócio-Econômico e Eficiência Energético-Material


Metabolismo de um sistema significa de um modo geral: „Apropriação vitais do
ambiente, transformação físico-químico interna para sustentação da auto-organização e
liberação de energia e/ou matéria transformadas.“ (Fenzl,N.,1993).
Em princípio, todos os sistemas abertos são sustentáveis, enquanto são capazes de
sustentar seu metabolismo energético-material. A maneira como cada sistema cumpre com
esta necessidade básica, depende fundamentalmente da forma como este metabolismo é
organizado. Se esta organização se torna incompatível com as condições gerais do seu
ambiente relevante, o sistema é condenado a desintegrar-se e a desaparecer. Enquanto o
sistema é capaz de adequar sua organização metabólica às mudanças do ambiente externo,
este sistema é sustentável.
10

Bem mais complexo é verificar se a sociedade humana pode criar os instrumentos


científico - técnicos e políticos capazes de medir concretamente a sustentabilidade do seu
próprio processo evolutivo e tomar as decisões políticas corretas para garantir nossa
sustentabilidade futura. Neste sentido, surgem na década de 90 dois conceitos que parecem
marcar um avanço nas discussões sobre o problema do desenvolvimento sustentável:
Metabolismo Sócio-Econômico (MSE) e Eficiência Energético-Material (EEM) (Fischer-
Kowalski,M & Haberl,H., 1993).
O primeiro conceito se refere ao funcionamento geral do sistema, ou seja, é uma
maneira de caracterizar seu modo de (re)produção do ponto de vista basicamente energético-
material e sociocultural.
O segundo descreve um parâmetro para medir o grau de „racionalidade“ dos diversos
processos produtivos que compõem o MSE do sistema. O conceito de metabolismo
energético-material (MEM) é mais amplo e se aplica á todos os sistemas abertos, tanto
orgânicos como inorgânicos, enquanto o conceito MSE é a aplicado somente a sociedade
humana.
As relações sociais, culturais, e econômicos no seu conjunto, por mais diversas que
possam ser, garantem a reprodução do sistema como um todo. Para manter a coerência, a
sociedade humano, precisa, como todo sistema aberto, de recursos que ela importa do seu
ambiente (água, matéria prima, nutrientes, energia, oxigênio, etc.), os transforma em
materiais, substancias que possam sustentar a reprodução do „corpo social“ e exporta o que
não serve mais.
A quantidade total de substancias e materiais que um sistema importa não pode,
segundo as leis da termodinâmica, sumir. Ela é em parte usada em forma de trabalho de
reprodução do sistema, em parte reciclada e em parte transformada em detritos e rejeitos mais
ou menos perigosas para o sistema. Por esta razão, as substancias que não são aproveitados
dentro das fronteiras estruturais do sistema, devem ser recicladas, eliminadas ou „exportadas“
para não comprometer o funcionamento (p.ex. intoxicar) do metabolismo. Os problemas que
surgem em conseqüência disto, são:
a) Do lado do input. Esgotamento dos recursos e substancias necessárias que leva a
um aumento constante da energia necessária para aquisição do input. Isto implica em
migrações, redução das populações, modificações nos hábitos alimentares, conquistas,
guerras, comercio, e surgimento de uma agricultara extremamente intensiva.
b) Do lado do output. Se as substâncias usadas não podem (devido a quantidade e/ou
qualidade) ser reintegradas ao ambiente ou depositadas de maneira discreta. O problema dos
11

rejeitos e do lixo não é novo: as cidades do Império Romano já tiveram problemas com o
saneamento básico. O problema crucial das sociedades industriais modernas é o input de
substâncias que não derivam do ciclo biológico recente, senão de processos industriais e de
reservas geológicas (carvão, petróleo, gás natural, minérios, etc.). Estas substâncias produzem
emissões e tipos de rejeitos com grande potencial tóxico e muito difíceis de eliminar.
Por outro lado o MSE é composto por um conjunto de processos produtivos (no
sentido mais amplo da palavra) que podem ser identificados individualmente. Exemplos: a
indústria de derivados de petróleo, a indústria de celulose, ou processos somente
indiretamente produtivos, como o transporte, etc. Cada processo econômico pode ser avaliado
em relação a quantidade e a qualidade de energia e material gasta para atingir os seus
objetivos.
Em princípio a sociedade humana atua da mesma maneira como todos os sistemas
abertos que evoluíram ao nosso redor. Até pouco tempo (em termos da evolução) atrás a
diferença no sentido da destruição ambiental entre nós e os outros não era muito grande.
Entretanto, para a humanidade, que praticamente já ocupou o espaço disponível do planeta,
globalizando um determinado tipo de modo de produção, o ambiente se tornou fonte de
recursos vitais e depósito de detritos ao mesmo tempo. A conseqüência mais importante
deste processo é o fato que um sistema historicamente aberto (a humanidade) acabou
ocupando todo o espaço físico de um sistema fechado (o planeta Terra). Por esta razão, a
globalização sócio-econômica atual representa uma mudança de qualidade profunda na
evolução da nossa espécie que nos obriga inexoravelmente a mudar os fundamentos do nosso
metabolismo se quisermos sobreviver enquanto sistema, ou seja, se quisermos garantir a
sustentabilidade do nosso próprio desenvolvimento.
Para ilustrar esta nova situação, podemos utilizar uma analogia: No passado
morávamos numa casa, buscávamos nossos recursos energético-materiais fora da casa e
jogávamos os rejeitos por cima do muro. Ampliamos a casa e hoje o lado „de fora“ faz parte
do nosso próprio quintal e nos somos obrigados de buscar os recursos e depositar os rejeitos
dentro da própria casa. Esta nova situação nos obriga evidentemente de repensar e reavaliar a
maneiro como nós nos apropriamos e utilizamos os recursos que precisamos.
Podemos concluir então, que o ambiente deve ser entendido como parte do nosso
sistema e cada vez mais como produto das nossas próprias atividades sócio-econômicos.
12

6. As dimensões do MSE

A dimensão do MSE de um sistema é no mínimo igual à somatória do metabolismo de


todos os seus integrantes (ou seus elementos). Entretanto, o MSE é também resultado dos
modos de produção e reprodução do conjunto de todos os seus integrantes e esta interação
complexa constitui uma qualidade nova do sistema. Da teoria de sistemas sabemos que as
características macroscópicas de um sistema aberto, não podem ser diretamente deduzidas das
características de cada parte individual. Assim, por exemplo, devemos diferenciar entre a
quantidade e a qualidade de energia e substancias que um indivíduo consome e „metaboliza“
durante sua vida e aquilo que todo um MSE assimila e transforma durante seu funcionamento.
Esta diferença qualitativa entre o metabolismo individual e coletivo é uma das razões da super
- exploração dos recursos naturais.
O fenômeno da super - exploração do ambiente natural (esgotamento de certos
recursos naturais) não é novo. Conhecemos da história casos em que sociedades de caçadores
exterminaram algumas espécies de animais sem ter a capacidade de consumir grande parte da
caça. Estes fenômenos sempre levaram á implosão ou á adaptações e processos de
aprendizagem destas sociedades. Em casos positivos este „aperto energético“ leva á um salto
de qualidade do metabolismo e o sistema adota novos modos de produção, mais adequados á
nova realidade.

7. Características do MSE e da EEM na sociedade industrial


moderna.
Desde algumas décadas, o consumo energético faz parte da contabilidade econômica
geral dos países industrializados. Entretanto, sobre os fluxos materiais há poucas informações
e geralmente incompletas. Até agora, os dados mais consistentes foram levantados, na
Alemanha, Áustria, Holanda, Suécia, Finlândia e no Japão. Mesmo nos EUA, cujo descaso
com problemas ambientais é conhecido, já existem trabalhos consistentes sobre fluxos
energéticos e materiais para determinados processos econômicos, inclusive há uma primeira
tentativa recente de realizar uma contabilidade nacional (Wernick,I.K, Ausubel,J.H, 1995).
Mesmo ainda incompletos, em muitos aspectos, o conjunto dos dados disponíveis, até
hoje, já permitem traçar um perfil bastante preciso das características gerais do metabolismo
energético-material das sociedades industrializados.
13

A primeira e mais destacada característica é, sem dúvida, o enorme consumo de


matéria e energia do metabolismo industrial (Fischer-Kowalski et al, 1997). Comparando com
dados dos países do chamado terceiro mundo, a intensidade material dos processos produtivos
nos países industrializados é de 4 á 6 vezes superior, em termos de consumo material -
energético per capita. O aspecto inquietante é a atração que este modelo de desenvolvimento
exerce sobre os países atualmente emergentes, como a China, Indonésia, Coréia, etc., onde o
novo „estilo de vida“ é extremamente intensivo do ponto de vista material (Kaltenegger,
Ch.,1995, Smil,V.,1993).
Atualmente, todo conceito de qualidade de vida é ainda diretamente vinculado com
um consumo de elevada intensidade material. O aspecto importante entretanto é o fato de que
a grande parte deste consumo não se deve a novas demandas históricas dos países
industrializados, senão servem apenas simplesmente para satisfazer necessidades básicas da
população, tais como a construção civil, os hábitos alimentares, e as formas e métodos do
abastecimento energético. Uma fato interessante é que produtos intensivos em termos
energético-materiais, tais como eletrodomésticos, computadores e carros assumem um papel
relativamente pequeno no balanço energético-material dos países industrializados.
Essencialmente são as necessidades básicas da população (habitação, alimentação, etc.) que
são responsáveis pela elevadíssima intensidade material destas economias. Isto demostra que
a dependência da sociedade industrializada á natureza não diminuiu através da
industrialização; o que mudou foram as dimensões do intercâmbio material com a
natureza.
O metabolismo industrial é atualmente caracterizado pelo uso massivo e abusivo dos
seguintes materiais: água, recursos minerais, energéticos fósseis, ração animal, adubos,
cimento, madeira e aço. O desenvolvimento econômico (medido em PIB) e o aumento da
intensidade material é diretamente vinculado com o uso crescente (em termos absolutos)
destes materiais.
A água, um recurso natural, a pesar de renovável, é superexplorado na maioria dos
países industriais. A intensidade do consumo d'água se deve principalmente ao uso
para refrigeração na produção de energia elétrica térmica, como meio de
transporte para todas as formas de emissões e dejetos, irrigação em países com
intensa agroindústria, e como solvente nos mais diversos processos industriais. O
uso doméstico é, comparado a estes itens, relativamente pequeno.
A construção civil é uma atividade intensiva em matérias minerais não
energéticos e o aço, é intensiva no uso do espaço físico territorial e caracterizada
14

pela acumulação de grandes quantidades de materiais não recicláveis e de difícil


remoção.
O conhecido uso abusivo de energéticos fósseis se deve sobretudo aos sistemas de
abastecimento energético e meios de transporte baseados na cultura do transporte
individual.
Outra característica dos países industrializados são os enormes quantidades de
madeira consumidas pela construção e a indústria de papel.
Finalmente, surpreende a intensidade do uso de rações para a produção de carne, a
matéria prima principal da industria de alimentos.
Em geral podemos constatar que a composição estrutural do metabolismo industrial
dos países industrializados é ainda baseado no uso crescente e intensivo de recursos não
renováveis. No caso da água e da biomassa (usada enquanto matéria prima) a intensidade do
uso não corresponde na maioria dos casos aos critérios mínimos da sustentabilidade.
As taxas de reciclagem (excluindo água e ar) são muito baixas e sensivelmente
inferiores a 10% do material anualmente usado.
A implementação crescente de tecnologias chamadas end-of-pipe, com a função de
estimular sistemas mais eficientes de remoção de emissões e resíduos, consegue modificar em
muitos países as estruturas dos sistemas de remoção e eliminar algumas emissões altamente
prejudiciais. Entretanto, em termos absolutos, a quantidade e a toxicidade dos resíduos (em
geral) aumentou e continua aumentando.
Surpreende também o fato dos países industrializados serem muito dependentes dos
recursos dos seus próprios territórios. Em média o Japão, Alemanha e a Áustria consomem
em torno de 20 toneladas de materiais per capita/ano provenientes do próprio território
nacional e importam em torno de 6 t/h/a. Entretanto, é importante notar, que as importações
materiais carregam as chamadas „mochila ecológicas“ devido aos serviços embutidos no
material importado. Exemplo é o alumínio exportado pelo Brasil. Em cada tonelada estão
embutidas energia elétrica, energia social, custo ambiental e muitas outras coisas que não se
refletem diretamente no valor monetário concreto do produto. Esta parte não contabilizada é
chamada mochila ecológica (Schmidt-Bleek, 1994)
Uma pesquisa sobre o estado do Metabolismo Sócio-Econômico realizada no início da
década de 90´´ na Áustria mostram os seguintes resultados:
80% do input material é proveniente do próprio território nacional e 20% é
importado.
Dos materiais importados 50% são energéticos fósseis.
15

Dos recursos internos 2/3 são matéria prima abiótica e 1/3 são recursos bióticos.
A exportação material é de 22 milhões de toneladas, ou seja 10% da totalidade do
material utilizado durante um ano. Os materiais exportados são compostos por
minerais, madeira, produtos acabados e semi-acabados e representam 22% do PIB.
Do total do input material cerca da metade (115 milhões de t) é aplicado em
construções, infra-estrutura e investimentos fixados a longo prazo.
Do total dos recursos minerais não energéticos consumidos (areia, calcário, argila,
etc..) 2/3 são usados na construção civil.

8. A questão do desencaixe do crescimento econômico dos fluxos


energético materiais
Uma análise dos diversos programas de contenção do uso de energia, desenvolvidos
em alguns países industrializados, mostra que as metas de reduzir em 50% os gastos
energéticos nos processos tecnológicos (não contando a energia gasta em produção de
alimentos) são, pelo menos em princípio, praticáveis. Assim, por exemplo, uma pesquisa da
Comissão de Enquete do parlamento alemão (Bundestag) demostrou que o consumo de
energia pode ser reduzido em 30 a 40 % até o ano 2011, contando com um crescimento
econômico de 2 % por ano. Resultados semelhantes foram obtidos em pesquisas realizadas
na Áustria, Suécia e no Japão (Enquete Komission, 1994).
Entretanto, o mercado energético mostra alguns aspectos contraditórios. De acordo
com a teoria econômica, os consumidores racionais deverão ser interessados em maximizar o
uso e diminuir os custos. De fato, não é assim devido à barreiras do próprio mercado, uma
grande parte do usuário não tem interesse em racionalizar o uso de energia. Por exemplo, em
imóveis alugados, nem o inquilino, nem o dono estão interessados em investir dinheiro para
isolar janelas, portas e paredes para racionalizar o uso de energia gasta em refrigeração ou
calefação. O dono, porque não é ele que paga a energia, o inquilino, porque não pode
recuperar os seus investimentos realizados em propriedades alheias. De um modo geral
constata-se uma grande deficiência em regulamentos e leis nos mercados que possam levar os
consumidores a economizar energia.
As criticas ambientalistas desenvolvidas na década de 70 denunciaram como causa
determinante da destruição ambiental, o contínuo crescimento econômico. Hoje a discussão é
centrada nas perspectivas e possibilidades de um crescimento econômico desencaixado do
aumento contínuo das quantidades de energia e materiais empregadas nos processos
econômicos. Em outras palavras, trata-se da tentativa de desencaixar o crescimento físico do
16

crescimento Sócio-Econômico da sociedade moderna. Binswanger (1993) demostra que as


economias nacionais tradicionais apresentam uma contabilidade econômicas e demonstrativos
de crescimento do PIB, que desconsideram por completo as limitações dos recursos naturais.
Um papel importante nesta discussão assume atualmente a chamada „revolução da
eficiência“, segunda a qual energia e matéria estão sendo utilizadas de forma cada vez mais
eficientes nos diversos processos produtivos. Desta maneira, alguns atores econômicos
consideram que esta eficiência possa reduzir as quantidades de emissões e dejetos. Ao mesmo
tempo teríamos um aumento da produtividade energético-material, ou produtividade dos
recursos.
Weizsäcker (1992) define este termo como relação entre o agregação de valor e
quantidade de recursos empregados. A agregação de valor se refere aos bens produzidos e
aos serviços prestados, enquanto os recursos empregados são medidos em quantidades de
kWh, m3 de água, toneladas de aço, etc. O termo produtividade de recursos corresponde ao
conceito de unit value, empregado nas pesquisas empíricas da economia.
Há outros autores, tais como Schmidt-Bleek (1994) que utilizam o conceito „intensidade
material por unidade de serviço“ como medida da intensidade em que determinados produtos
ou serviços prejudicam o ambiente. Esta medida contêm toda a mochila ecológica de um
produto ou de um serviço.
Outra maneira de abordar a questão é considerar as entradas energético-materiais em
setores da produção e categorias de demandas. O Instituto de Wuppertal da Alemanha já está
trabalhando vários anos neste sentido.
De um modo geral, é possível medir a produtividade material específica de uma
atividade econômica através da relação entre o input energético-material (de um produto, uma
linha de produção, de um setor econômico ou de uma economia nacional, etc.) e a agregação
de valor obtida. Assim, a produtividade material pode ser considerado um indicador útil para
o grau de „carga ambiental“ de um determinado modo de produção de uma sociedade, ou em
outras palavras, um indicador da sustentabilidade de um Metabolismo Sócio-Econômico.
A grande utilidade desta abordagem não é que, automaticamente ela resolva os
problemas sociais, mas revela empiricamente a disfunção de um modo de produção e permite
a criação de perspectivas e saídas muito mais praticáveis.
A qualidade realmente nova das sociedades modernas é, portanto, a velocidade e a
globalidade em que aumentam os problemas ambientais. Os fluxos de substâncias
antropogênicas já superam de longe as capacidades de absorção do nosso ambiente Exemplos
claros são o aumento da temperatura global, buracos de ozônio e outros fenômenos de caráter
17

global. Não quero dizer que, na historia geológica do nosso planeta, não houve mudanças
radicais de parâmetros climáticos com todas as conseqüências que conhecemos. Entretanto
não conhecemos situações em que um sistema individualmente seja capaz de causar
transformações globais, como parece ser o caso da humanidade. Apesar de estarmos tomando
consciência deste fato, não temos ainda a capacidade de reagir e de redirecionar os nossos
processos econômicos, no sentido de evitar o choque do futuro, como alguns autores gostam
de se expressar.
O problema central das nossas economias é que somente a circulação monetária
constitui um cíclo fechado, enquanto a base material da economia (fluxos energético-
materiais , mercadorias, força de trabalho) é parte de uma rede de interações complexas com
os cíclos biogeoquímicos do planeta e até do nosso sistema solar.
Neste sentido, a eficiência energético-material aparece como um parâmetro
importante que mede num processo produtivo a relação entre a quantidade total de energia
e material usado e a quantidade efetivamente embutido no produto final desejado. Se
avaliarmos os processos produtivos por este angulo, pode-se perceber que, atualmente, na
economia mundial se reconhece somente um único critério de eficiência: a eficiência
monetária, ou seja, um processo é considerado eficiente se ele é lucrativo. Esta situação leva
à uma visão bastante distorcida sobre a realidade do nosso modo de produção. Assim, por
exemplo, foram efetuados cálculos sobre a indústria petroleira e a indústria de papel, na
Áustria. O resultado foi assustador: a indústria petroleira produz cada ano (base dos cálculos
foi 1988) cerca de. 231 t de dejetos materiais por cada empregado !. Na indústria de papel o
resultado era 137 t de rejeitos por ano e por cada empregado (Payer,H.; 1991).
Os autores desta pesquisa demostraram claramente como um processo produtivo pode
ser monetariamente lucrativo e por outro lado completamente insustentável do ponto de
vista da EEM. Esta ênfase nos aspectos monetários da economia é uma das maiores entraves
para a modificação dos nossos modos de produção.
A EEM se torna assim, um parâmetro, capaz de medir a sustentabilidade de um
processo de transformação, ou em outras palavras, uma medida para avaliar a „saúde“ do
metabolismo geral de um sistema. Um metabolismo é saudável, quando ele é capaz de
produzir um mínimo de rejeitos com um máximo de aproveitamento do input.
Há outras implicações na utilização do parâmetro EEM, que são de caráter político.
Hoje, a grande palavra de ordem da economia global é racionalização, eliminar as „gorduras“
na economia. A EEM de um processo produtivo é composto de dois ingredientes básicos: a
força de trabalho humano e a quantidade de energia e materiais (incluindo os serviços)
18

utilizada. Numa economia que somente é capaz de medir sua eficiência em termos
monetários, a tendência é até hoje reduzir a força de trabalho, aumentando muitas vezes os
fluxos energético-materiais. Em termos políticos isto significa aumentar os lucros através do
arrocho salarial, o desemprego e continuar o desperdício e o esbanjamento energético
materiais dos processos produtivos.
Aplicando os critérios aqui expostos, se torna mais fácil definir o que é „bom ou ruim“
para o ambiente. Em princípio, os critérios que qualificam ou „medem“ os problemas
ambientais dependem:
a) De fatores materiais que dizem respeito á quantidade e periculosidade das
substâncias liberadas pelo MSE.
b) De princípios éticos e político-económicos que caracterizam nossa relação com a
natureza não humana. Atualmente podemos distinguir 4 tipos principais de abordagens, cada
uma fundamentada em critérios próprios:
- Critérios toxicológicos, geralmente usados por médicos, químicos e grande parte da
opinião pública.
- Critérios do equilíbrio natural dos ecossistemas, geralmente usados por biólogos,
ecologistas e profissionais das ciências da terra. Estes critérios ganharam popularidade com a
discussão sobre a evolução do clima global e das idéias do desenvolvimento sustentável.
- Critérios da Termodinâmica empregados historicamente por físicos e nas ultimas
décadas cada vez mais por economistas.
- Critérios éticos e morais, crescentemente difundidos na opinião pública em geral,
que clama por mais respeito pela vida.
Todos estes critérios tem suas argumentações, sua tradição política e científica e seus
seguidores. Todas tem suas contribuições a dar para poder criar uma percepção mais realista
da dimensão daquilo que podemos chamar de perigo ambiental socialmente produzida.

9. Conclusões
Da exposição anterior, podemos deduzir que o principal desafio para poder
efetivamente implantar processos de desenvolvimento sustentável é a necessidade de se
buscar métodos e maneiras capazes de medir e propor mudanças para regulamentar os fluxos
energético materiais através dos sistemas econômicos. Em outras palavras, uma
aparentemente velha discussão está ressurgindo em torno do modo de produção capitalista. Se
antigamente as matrizes da argumentação, a favor de mudanças dos modos de produção, eram
19

basicamente políticas e ideológicas, hoje enfrentamos a necessidade de argumentar também, e


sobretudo, em bases empíricas.
As perguntas que sempre são levantadas em relação a estas preocupações são: a) as
necessidades e desejos dos seres humanos podem ser satisfeitas sem aumentar o consumo?
b) uma economia é capaz de crescer sem aumentar os fluxos energético-materiais?
Atualmente, o modo do desenvolvimento é economizar força de trabalho pelo preço
de um aumento em valor absoluto de material e energia. A principal proposta alternativa é de
inverter o procedimento economizar matéria e energia pelo preço de um aumento da
utilização da força de trabalho. Alguns exemplos tímidos demostram que este desencaixe do
crescimento econômico é principalmente possível:
- Os „choques“ de petróleo da década de 70 mostraram que, mesmo com uma queda
das importações de petróleo, o crescimento econômico dos países industrializados não
diminuiu.
- Vários países da Europa registraram uma diminuição significativa do uso industrial
das águas, conseqüência de legislações mais modernas e dos altos custos das obrigações com
a despoluição das águas usadas. A pesar das eternas lamentações e falsos argumentos dos
políticos e grandes empresas contra a legislação ambiental cada vez mais severa, esta baixa do
fluxo hídrico, não implicou em rebaixamento do nível de vida, nem em aumentos sensíveis de
preços.
- A passagem das sociedades industriais para sociedades de serviços, provocou na
maioria dos países industrializados uma queda da relação entre o fluxo de massa (água, aço,
cimento, adubos, pesticidas, etc.) e a unidade de valor da produção social. (Jänike et al.,
1991).
Estes efeitos, se bem que podem diminuir um pouco o ritmo geral da sobrecarga
ambiental, ou empurrar certos problemas para o futuro próximo, não são resultado de
estratégias políticas ou econômicas conscientes, senão efeitos colaterais das necessidades de
racionalização e fruto de grandes mobilizações da sociedade civil em relação aos problemas
ambientais. Mesmo que, o MSE dos países desenvolvidos tenha melhorado um pouco na
ultima década, isto se deve, também aos efeitos do deslocamento dos processos produtivos
mais prejudiciais (ferro, alumínio, química, papel, etc.). para os países do Terceiro Mundo.
Por outro lado, temos fatos que comprovam que mesmo com o surgimento das
chamadas sociedades de serviços, onde há uma tendência de substituir matéria por serviços e
informação, não há diminuição do fluxo energético-material. Pelo contrário, a quantidade
absoluta da energia e matéria empregada atualmente aumentou mundialmente. Assim, maior
20

eficiência energético-material não implica automaticamente uma diminuição global do uso


dos recursos naturais. (Fischer Kowalski, M., 1996).
Como foi mencionado anteriormente, a maior intensidade material se registra nos
hábitos de alimentação mais especificamente no consumo de carne e na construção civil. O
intenso consumo de carne produz transformações de paisagens, aumentos consideráveis das
concentrações de nitrogênio e de fósforo nos ciclos dos nutrientes e engendra o
desaparecimento de espécies animais e vegetais. A construção civil movimenta enormes
quantidades de materiais com todos os problemas de ocupação espacial que conhecemos e
gera problemas sérios de eliminação no futuro.
Das reflexões apresentadas aqui decorre que uma condição básica para que possamos
implementar um desencaixe consciente é a criação de bancos de informações sobre a
verdadeira dimensão energético-material dos processos econômicos, ainda amplamente
desconhecida.
Sabemos por exemplo quantos carros, escovas de dentes ou calcinhas são produzidos
ano por ano. Conhecemos as quantidades de dinheiro investidos, taxas de juros, fluxo de
capital especulativo e produtivo, etc. Desconhecemos entretanto por completo as quantidades
de matérias primas, produtos químicos e outros materiais que precisam ser movimentados e
empregados para produzir tudo aquilo que estamos consumindo e que aparecem nas
estatísticas econômicas exclusivamente sob seu aspecto monetário.
Os conceitos de MSE e EEM podem ser aplicados tanto à nível nacional, regional, ou
de micro-regiões, como para processos produtivos em geral, produtos específicos ou grupos
de produtos. Também há exemplos de aplicação para unidades produtivos ou empresas.
Assim, por exemplo, uma empresa transforma materiais e energia em produtos e rejeitos. A
idéia é relativamente simples, apesar de uma certa complexidade operacional. Primeiramente,
realiza-se um balanço input - output dos fluxos energético-materiais do processo a ser
analisado. Em seguida, determinam-se as quantidades de energia e material efetivamente
embutidos nos produtos finais e as quantidades de rejeitos acumulados. Finalmente, se
relaciona a EEM com a quantidade de força de trabalho empregado e o balanço monetário do
processo. Assim, é possível gerar uma visão mais clara sobre o custo ambiental e a „saúde“
do MSE da empresa.
Concluindo, podemos dizer que o principal desafio para as instituições de pesquisa,
que trabalham com a problemática do desenvolvimento sustentável, é a produção e o
levantamento dos dados necessários, que sejam capazes de visualizar o estado atual da saúde
do nosso MSE e de formular propostas concretas para melhorar de maneira planejada o
21

conjunto dos processos sócio- econômicos. Este é um caminho possível para inverter a atual
dinâmica do desenvolvimento, que apresenta claros sinais da possibilidade de ser fatal para a
humanidade.

Bibliografia
Atkins P.W., The Second Law, 1986.
Beckenbach,F. und Diefenbacher,H.D. (Hsg.): Zwischen Entropie und Selbstorganisation,
Metropolis, 1994.
Binswanger,M (1993): Gibt es eine Entkoppelung des Wirtschaftswachstums von
Naturverbrauch und Umweltbelastung? Daten zu ökologischen Auswirkungen
wirtschaftlicher Aktivitäten in der Schweiz von 1970 - 1990. Diskussionsbeitrag Nr. 12 am
IÖW - Institut für Wirtschaft und Ökologie an der Hochschule St. Gallen.
Bunge M.: Treatise on Basic Philosophy, p. 4, Vol.4, Reidl Pub. Comp., 1979.
Ebeling,W.: Chaos-Ordnung-Information, Vlg. H. Deutsch, 1989.
Enquete-Komission „Schutz des Menschen und der Umwelt“ des Deutschen Bundestages
(1994): Die Industriegesellschaft gestalten. Perspektiven für einen nachhaltigen Umgang mit
Stoff- und materialströmen. Bonn: Economia Verlag.
Enquete-Komission „Vorsorge zum Schutz der Erdeatmosphäre“ des Deutschen Bundestages
(HG.) Energie und Klima. Bonn/Karlsruhe: Economia Verlag/CF Müller Verlag.
Environment Agency (1995): Unveröffentliche Daten der japanischen Regierung, Tokio.
Europäische Enzyklopedie zu Philosophie und Wissenschaften, Hsg.: Sandkühler,H.J., Band
4, Felix Meiner Verlag, 1990.

Fenzl,N. et al.: On the Genesis of Information Structures . In: Kornwachs,K., Jacoby,K.(ed.):


Information, New Questions to a Multidisciplinary Concept. Akademie Verlag, Berlin, p.
271-283. 1966.

Fenzl,N., Hofkirchner,W.: Information Processing in Evolutionary Systems. In:


Schweitzer,F.(ed):Self-Organization of Complex Structures: From Individual to Collective
Dynamics. Gordon and Breach, London, p.59-70. 1997

Fenzl,N & Stockinger,G.: A inversão dos tempos, o movimento inteligente, Cejup, 1991.
Fenzl,N.:Die Wiederentdeckung der Evolution, Fortschrittliche Wissenschaft, nr. 37, p.19-
32,1993
Fischer-Kowalski, M. et al.: Gesellschaftlicher Stoffwechsel und Kolonisierung von Natur,
Verlag Fakultas. 1997
22

Fischer-Kowalski,M & Haberl,H.: Metabolism and colonisation: modes of production and the
physical exchange between societies and nature, Research Report, IFF-Soziale Ökologie,
Nr.32, Vienna,1993.
Fischer-Kowalski,M & Haberl,H.: On the cultural evolution of social metabolism with nature:
sustainibility problems quantified. Research Report, IFF-Soziale Ökologie, Nr.40,
Vienna,1994.
Fischer-Kowalski,M & Haberl,H.: Metabolism and Colonization. Modes of Production and
the Physical Exchange between Societes and Nature. Innovation in Social Research,
Vol.6,nr.4, p.415-442, 1993.
Haken,H.: Springer Series in Synergetics, Vol. 1-35.
Harris,M.: Cultural Antropology, Campus, 1989
Hüttler, W. et al (1995,): Nationale Materialbilanzen als Instrument einer ökologischen
Ressourcenpolitik, in WIFO Monatsberichte, 11, p.713-718.
Jänike et al (1991): Ecological Dimensions of Industrial Changes, Research Report of the
Research Center for Environmental Policy, Free University Berlin,
Kaltenegger, Ch.(1995): Der Reformprozeß in der VR China. Aktueller Stand der
Wirtschaftsreformen und Aussichten. In: CA Quaterly I. p. 38-44.
Krohn,W., Krug,H.J., Küppers,G.: Selbstorganisation, Jb. Für Komplexität in den Natur-,
Sozial- und Geisteswissenschaften, Bd.3. Duncker & Humboldt, 1992.
Mocek, R.Systemdenken zwischen Dialektik und Konstruktivismus, Dialektik, Bd.12, 1986.
Odum E.P., Ecologia 1991,

Payer,H.: Indikatoren für die Materialintensität der österreichischen Wirtschaft, IFF, Nr. 14,
Wien, 1991.
Prigogine, I & Stengers, I.: A nova aliança: a metamorfose da ciência, Ed. Universidade de
Brasilia, 1984.
Prigogine I., I.Stengers,(1993). Time, Chaos and the Quantum. Towards the Resolution of the
Time Paradox,.
Schmidt-Bleek, F. (1994): Wieviel Umwelt braucht der Mensch? MIPS - Das Maß für
ökologisches wirtschaften. Berlin, Basel, Boston, Birkhäuser.
Schütz und Bringezu (1995): Wie mißt man die ökologische Zukunftsfähigkeit einer
Volkswirtschaft? Ein Beitrag zur Stoffbilanzierung am Beispiel der Bundesrepublik
Deutschland. In: Wuppertal Papers, Nr. 34;
23

Smil,V.(1993): China´s Environmental Crisis. An inquiry into the limits of national


development. New York: East Gate.
Steurer, A. (1992) : Stoffstrombilanz Österreich, Schriftenreihe Soziale Ökologie, Bd. 26,
Wien.
Weizsäcker,E.U. (1992): Erdpolitik. Ökologische Realpolitik an der Schwelle zum
Jahrhundert der Umwelt. Darmstadt
Wernick,I.K.: (1995): National Materials Flows and the Environment, A.Rev.Environ. 20.