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Reflexões no Salmo 119

COMO DESEJO CUMPRIR TEUS MANDAMENTOS!


Como desejo obedecer às tuas ordens e cumpri-las com fidelidade! (Sl 119:5,
BÍBLIA versão NTLH)
C. S. Peirce (1838-1914), filósofo norte-americano original na
abordagem da filosofia da linguagem, no texto “Ideais de Conduta”1, fala de
três modos nos quais os ideais de conduta insinuam-se. Em primeiro lugar,
certos tipos de conduta têm uma qualidade estética. Aquele ou aquela que a
contempla considera-a bela. Em segundo lugar, o homem se esforça por
montar uma imagem ou diagrama no qual seus ideais tenham coerência para a
ação. Em terceiro lugar, ele avalia quais consequências acarretariam seus
ideais. Essas considerações de Peirce nos ajudam a compreender as palavras
do salmista de modo cristalino. Nos versos anteriores ele contempla a beleza
da conduta guiada pela lei de Deus. Essa conduta produz bem-aventurança. A
imagem da vida feliz é a obediência à lei de Deus. E por fim, ele avalia essa
conduta e julga que ela é elevada demais para ele conseguir atingi-la. E
quando chega a essa conclusão ele ora.
Uma coisa é contemplar a beleza do ideal de conduta da Bíblia, outra
bem diferente é atingi-lo por si mesmo. Paulo expressou essa angústia em
Romanos 7. “Sei que nada de bom habita em mim, isto é, em minha carne.
Porque tenho o desejo de fazer o que é bom, mas não consigo realizá-lo. Pois
o que faço não é o bem que desejo, mas o mal que não quero fazer, esse eu
continuo fazendo” (Rm 7:18-19, NVI). Quando tentamos atingir o ideal de
conduta bíblico com a finalidade de tornar Deus nosso devedor, ou seja, pagar
a nossa obediência com justiça, fracassamos. “O salmista, sensível à sua
própria incapacidade, como é todo homem bom, para manter os mandamentos
de Deus, ora pela graça, orientação e assistência nela; que os caminhos de
sua mente, seus pensamentos, afeições e inclinações possam ser direcionados
para a observância dos preceitos divinos” (GIL). E como Deus faz isso?
Somente pelo novo nascimento, implantando sua própria vida em nós. “Porque
somos criação de Deus realizada em Cristo Jesus para fazermos boas obras,
as quais Deus preparou de antemão para que nós as praticássemos” (Ef 2.10,
NVI).
Não estamos debaixo da lei, mas da graça. Sob a graça, a oração do
salmista assume uma nova perspectiva. É o anseio de todo servo e serva de
Deus cumprir sua lei, pois expressa a sua vontade. Mas para eles, a lei é o
horizonte a nossa frente, o padrão para o qual Deus está nos conduzindo. É
isso que ocorrerá conosco quando Ele terminar a sua obra em nós (Fl 1.6).
Seremos santos como Ele é santo. Seremos semelhantes à imagem de seu
Filho Jesus. Até lá, que oremos as palavras do salmista e de Paulo, que
humildemente reconhece “não que eu já tenha obtido tudo isso ou tenha sido
aperfeiçoado, mas prossigo para alcançá-lo, pois para isso também fui
alcançado por Cristo Jesus. Irmãos, não penso que eu mesmo já o tenha
alcançado, mas uma coisa faço: esquecendo-me das coisas que ficaram para
trás e avançando para as que estão adiante, prossigo para o alvo, a fim de
ganhar o prêmio do chamado celestial de Deus em Cristo Jesus” (Fl 3.12-14).
O que hoje é apenas um ideal, na eternidade será realidade.
Jânio da Cunha Bastos

1PEIRCE, C. S. Ideais of conduct. Trad . e introd . de Ivo Assad Ibri. Trans/Forml Ação, São
Paulo, 8: 79-95, 1985.

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