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QUANDO A FONTE EVAPORA: ESTÉTICA EM PLANO DIGITAL

COM VAPORWAVE1
WHEN THE SOURCE EVAPORATES: AESTHETICS IN DIGITAL PLAN WITH
VAPORWAVE

Ícaro Estivalet Raymundo


Graduando/Universidade do Vale do Rio dos Sinos
icaro.estivalet@gmail.com

RESUMO
A aglutinação de elementos estéticos específicos em certas produções artísticas digitais, que por meio da internet
encontram vazão para expressão em formatos ainda pouco discutidos pela historiografia, provoca
questionamentos referentes às possíveis maneiras de operar com objetos de estudos virtuais. Dentro do
exponencial crescimento de novos gêneros e subgêneros musicais, este artigo foca no Vaporwave e seu discurso
contracultural cínico e irônico explorado por meio de som e imagem. A este recorte de expressão virtual que
inicia por volta de 2010, alvitra-se uma ponte de debate a respeito de como operar com objetos de estudos cujos
cernes são digitais e modificados pela tecnologia. A partir do Vaporwave, o pivô para debater a liquidez de
natureza do som e imagem é a característica técnica Glitch, que transcende a conceituação do formato orgânico
por constituir uma estética que é fruto da corrupção dos dados e do mal funcionamento da máquina que está
envolvida na expressão. Imagem e som por meio da tecnologia são transformados em texto puro, ao estarem no
plano digital organizado por código binário, e no erro da plataforma digital é que se extrai um valor estético e
simbólico que permeia o discurso do Vaporwave.

Palavras-chave: Vaporwave; Glitch; Estética; Digital; Virtual

ABSTRACT
The agglutination of specific aesthetics elements in certain artistic digital productions, that by the internet find
flow way to expression in formats not too discussed by Historiography yet, causes questionings about possible
ways of operate with virtual objects. Inside the exponential grow of new musical genres and subgenres, this
paper focus on Vaporwave and its cynical and ironic countercultural discourse explored by image and sound. To
this part of virtual expression that initiates around 2010, is sought a bridge to debate over how operate with study
objects whose cores are digital and modified by technology. Starting from Vaporwave, the pivot to debate the
liquidity of nature of sound and image is the characteristically Glitch technique, that transcends the conceptions
of the organic format by constituting an aesthetic that is result of the machine malfunction evolved in the
expression. Image and sound by technology are transformed in pure text, by being in the digital plan organized
by binary code, e in the mistake of the digital platform where is extracted an aesthetic and symbolic value that
permeates Vaporwave’s discourse.

Keywords: Vaporwave; Glitch; Aesthetics; Digital; Virtual

“Estamos com a história em nossos calcanhares


Ela nos segue como nossa sombra, como a morte.”
Marc Augé

Se a história está nos nossos calcanhares, como de acordo a Marc Augé (1994, p. 30),
lançar questões sobre o século 21 faz parte do processo de investigação do ser humano em sua

1
Este artigo é um recorte do Trabalho de Conclusão de Curso “Quando a fonte evapora”, orientado por José
Alberto Baldissera, neste ano de 2016, na UNISINOS.

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coletividade, individualidade, comportamentos e formações, continuidades e
descontinuidades, e como estão a se movimentar. O advento da internet e toda a assimilação
de habilidades e hábitos vinculados à tecnologia configuram a vivência de parte da
humanidade, assim como o período contemporâneo fruto do motor ideológico que coloca uma
ideia de progresso no horizonte da organização coletiva humana.

O que vale para o mercado e o individualismo vale do mesmo modo para o domínio
propriamente cultural. Da mesma maneira que se constrói um hipercapitalismo
tentacular e globalizado, vemos desenvolver-se o que se pode chamar de uma
hipercultura, uma cultura mundo. [...] A cultura que caracteriza a época
hipermoderna não é mais o conjunto das normas sociais herdadas do passado e da
tradição (a cultura no sentido antropológico), nem mesmo o “pequeno mundo” das
artes (a alta cultura); ela se tornou um setor econômico em plena expansão, a tal
ponto considerável que se chega a falar, não sem razão, de “capitalismo cultural.
(LIPOVETSKY, 2011, p. 68)

Pós-guerra fria, pós-onze de setembro, pós-bolha imobiliária americana de 2008, a


primeira década deste século é marcada por uma pasteurização da sociedade dita ocidental no
que se refere a comportamento em virtude da lógica capitalista e consumista que nutre a
engrenagem da cadeira global de estruturação de ordenamento de vida.
A existência da internet e sua possibilidade de navegação massiva ficam estreitamente
atreladas aos processos capitalistas de compra e venda, dos equipamentos e serviços
telemáticos, investimentos e especulações sobre empresas e projetos, uma cadeia de eventos
contextuais tão rizomáticos quanto a própria WWW. A internet é campo de jogos
comunicacionais dinâmicos cujas naturezas são atravessadas por uma codificação numérica: o
cerne da funcionalidade da computação. Essa funcionalidade atravessa agenciamentos vastos
de comportamento e de ação, desde o fluxo monetário que fica instantâneo sob as potências
tecnológicas, ao da educação e da expressão artística, impulsionadas de determinados ângulos
pelo digital.

Se é verdade que cada período da história da arte no Ocidente é marcado pelos


meios que lhe são próprios, os meios do nosso tempo, neste início do terceiro
milênio, estão nas tecnologias digitais, nas memórias eletrônicas, nas hibridizações
dos ecossistemas com os tecnossistemas e nas absorções inextricáveis das pesquisas
científicas pela criação artística, tudo isso abrindo ao artista horizontes inéditos para
a exploração de novos territórios de sensorialidade e sensibilidade. (SANTAELLA,
2003, p. 176)

Tomando estas formas de expressão contemporâneas, oriundas e veiculadas no


ambiente virtual, como objetos de estudos, é inegável a transformação dos sentidos e

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percepções sociais pelos meios de comunicação e sua relação com a arte (LIESEN in
NUNES, 2009, p. 383). Esta arte por sua vez, mesmo atrelada ao contexto contemporâneo,
movimenta-se distintamente envolvendo dinâmicas de psique, de coletividade, de
interpretação, uma semioesfera calcada em relacionamento de processos cognitivos. O que se
entende por arte é o que permeia este tecido de relações comunicacionais que compõem a
história.

A arte produzida com meios contemporâneos flana pelo bios midiático e pode
constituir como uma forma de reflexão deste novo nível de existência. Ela se
constitui num aparelho investigativo que vai além dos determinismos tecnológicos e
das ideologias neoliberais que abraçam as tecnologias digitais. (LIESEN in NUNES,
2009, p.383)

Dentre as várias formas que o ser humano se apropria e opera a internet, aqui delimito
questões a respeito de um micro gênero musical eletrônico, chamado de Vaporwave, nascido
por volta de 2010. Músicas deste gênero apresentam certas características, de estética e de
conceito: comportamentos de sua produção e difusão.
Obras de Vaporwave são caracterizadas por serem feitas a partir de outras músicas,
recortadas, editadas, desaceleradas, a fim de obter-se uma experiência sonora distinta das
originais, majoritariamente com batidas devagares, instrumentais difusos, vozes distorcidas. A
autoria das músicas normalmente é reivindicada por pseudônimos alternantes (um mesmo
produtor de Vaporwave pode ter diversos nomes distintos) e que não fazem questão de
marketing e publicidade de suas obras; são divulgadas em plataformas virtuais de áudio,
voltadas para escuta de músicas e de artistas num geral, circunscritos dentro e fora da cadeia
massiva do entretenimento, de forma pública. As imagens e vídeos, músicas, álbuns,
compilados de obras diversas, podem ser facilmente encontrada no Youtube:

Produto de uma gigantesca corporação (o Google), que se expande no ambito do


turbocapitalismo; é programado para acelerar a rentabilidade do lazer e
entretenimento, mas transcende às limitações de um produto simplesmente
mercadológico. O site é, sobretudo, um poderoso rizoma, gerador de vasos
comunicantes que emanam imagens, idéias e discursos em todas as direções e
sentidos, e atuando sobre a percepção sensorial, a memória afetiva e a inteligência
cognitiva. (PAIVA in NUNES, 2005, p. 287)

As músicas tem muito reforço da imagem para compor a experiência sonora: imagens
coloridas, saturadas, distorcidas, com temáticas imagéticas que acabaram virando
emblemáticas, como estátuas de pedra crua, palmeiras, caracteres japoneses, marcas de
produtos tipicamente capitalistas, e Glitches. Os vídeosclipes de algumas músicas se
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apropriam de trechos de outras obras, filmagens de propagandas televisivas dos anos 80/902,
distorcidas e somadas ao som, tingindo objetos estéticos já existentes: distanciam-nos de sua
origem e aproximam-nos do conceito estético do Vaporwave3. Sua produção é feita em um
processo individual de manipulação dos arquivos de áudio e imagem, arquivos de pacotes de
dados, uma representação numérica que atravessa instantaneamente a internet e é aberta à
modelagem de sua forma pelo interator4. Uma interação que verte um produto estético à sua
própria rede de alimentação, na qual algumas formas discursivas e de expressão técnica entre
imagem/máquina ocorrem, em processos de significação e assimilação.

Figura 1 - Capa Aesthetic Memes | 1½ Hour Vaporwave Mix5

Sendo o objeto de análise um movimento de significação e interpretação de vestígios


estéticos numerizados, para este artigo atenho-me ao Glitch, um dos signos de identificação,
que é frequente em obras de Vaporwave, mas que por si só encerra uma natureza singular.

2
Saint Pepsi tem clipes de músicas como Cherry Pepsi e Private Cellar, que exploram propagandas televisivas
do refrigerante homônimo para ilustrar suas músicas, assim como de um comercial do MC Donald’s para a
música Enjoy Yourself disponíveis no Youtube (ver referência de vídeos no fim do artigo).
3
Mário Arruda mapeia características do gênero concebendo-os como enunciados estéticos e tecnológicos
atravessados, num cruzamento rizomático nascente de outros cruzamentos, neste caso, da ação humana e
operação maquínica, de poiética e poética, em contexto e comportamento, que se alinham para formar um
gênero: “Neste sentido, a produção do Vaporwave pode ser considerada um processo de aumento da
razoabilidade concreta. Ela coloca em xeque processos referentes à internet através de imagens, sons e mistura
de mídias, suscitando uma dúvida em relação às ações dentro do espaço virtual. A experiência resultante do
contato com o Vaporwave é de estranhamento, entretanto é no momento posterior a esse contato que se pode
entender qual conduta será fruto de tal interação.” (ARRUDA, 2015, p. 32).
4
O termo interator se encaixa neste âmbito hipermidiático permeado pela interação humano/máquina: “Em
geral, o atrelamento associa um homem e uma máquina. Mas certos sistemas são atrelados seja com outros
computadores (em rede), seja com máquinas tradicionais, seja com o meio ambiente. Essa abertura sobre o
mundo exterior, associada a ações físicas com retorno sobre esse mundo, modifica em profundidade a relação
tradicional dessa associação entre o homem e a máquina.” (COUCHOUT, 2003, p. 171)
5
Capa do vídeo do youtube Aesthetic Memes | 1½ Hour Vaporwave Mix, compilado de
diversas obras e de vários produtores. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=pp1NWRDl0pI
(1:25:08 duração) <acessado 24/07/2016>

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Considerado como “mal-funcionamento da máquina” o Glitch é um fenômeno que neste caso
depende de um ponto de vista contextual, pois é uma situação possível de erro no
equipamento tecnológico que nos circunda, desde em som ou imagem: é a corrupção de dados
que raspa a superfície comum de representação de dados do monitor, e exibe no fundo
fragmentos dos cálculos digitais que reproduzem o som/imagem. O próprio aspecto bruto e
mal acabado do tratamento da informação pode ser considerado Glitch, ao menos um aspecto
geral de degradação da superfície do objeto estético. Sua definição em pura essência factual
acaba influída pelo contexto, pela decodificação destes signos e do que eles representam.

Uma das principais características do Vaporwave é a deterioração da superfície dos


produtos midiáticos com que se trabalha. O exercício de estetização ocorre de uma
maneira muito incisiva, transformando completamente os arquivos de origem a
ponto de esses muitas vezes perderem sua característica representativa e referencial.
Assim, deixam de ser índices de um mundo visto, tornando-se puras superfícies
digitais formadas por pontos infinitos. (ARRUDA, 2015, p.38)

O termo glitch surgiu como apelido para definir problemas nos equipamentos dos
programas espaciais americanos, nos anos 60, e sedimentou-se como designação para o erro
do funcionamento digital na medida em que a vida cotidiana ocidental se entrelaçou à
tecnologia6. O meio em que existe a mensagem e o jogo de assimilação a partir da perspectiva
do intérprete configura o tecido comunicável. O Glitch no Vaporwave tem uma roupagem
específica, pois é uma técnica de operação sobre arquivo digital, e explora isto esteticamente.
Os pacotes de dados numerizados são distorcidos com processos conhecidos como databend e
datamosh, torções e destruições de informação7. Estes termos se referem à técnica para se
conseguir o efeito de Glitch, que sendo concebido como “mau funcionamento”, encontra
viabilidade audiovisualmente. Os Glitches em questão tentam conversam com suas
características e formatos imagéticos, sonoros e em movimento, na convergência híbrida
digital.

A estética Glitch aparece quase sempre em meios e ambientes digitais, seja nas
expressões sonoras ou visuais, porém, não está limitada a criações e manifestações
da Glitch Art digital. Representando visualmente corrupção de dados, esta estética
do erro, pode ser utilizada em criações visuais por designers, para ilustrar capas de

6
Sobre isso, Gazana et al se apoiam nas investigação de Ivan Moradi (2004) e Fernandes (2010) sobre o glitch,
sendo o termo primeiramente usado no campor artístico nos anos 2000, com Ant Scott e seu artigo intitulado
“anti-fractal”, e com Kim Cascone no ensaio “the asthetics of failure. (GAZANA et al, 2013)
7
Sobre o datamosh: “Através de uma mudança de formatos e de usos de codecs específicos, é possível que se
estabeleça a criação de keyframes em partes aleatórias do arquivo de vídeo. O keyframe é a partícula mínima
temporal que define os pontos de início e fim de qualquer transição entre imagens. O resultado dessa intervenção
na programação da imagem gera uma mutação no seu desenvolvimento e afeta a plástica do vídeo como aqui
descrito.” (ARRUDA, 2015, p. 49).

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livros, CDs, matérias em revistas, cartazes, websites, entre outros. Sem falar dos
sound designers que podem utilizar a estética do erro para criações de trilhas sonoras
de filmes, documentários, etc. E, por fim, não esgotando seus agentes, os músicos
experimentais em criações dos mais diversos estilos musicais, não se limitando
somente aos artistas da Glitch Music. (GAZANA et al, 2013, p.85)

O Glitch é uma evidência de mau funcionamento da máquina, e uma sombra do seu


próprio processamento interno computacional. Gazana versa sobre o Glitch em um campo de
fruição estética delimitado no conceito de arte contemporânea, cuja estrutura é uma malha
elástica, e vinculada entre, outros fatores, a relações e especulações de caráter financeiro, o
contexto que permeia e coexiste. Delimitar a experiência humana coletiva em esferas
econômicas, políticas e culturais é sistemática de abordagem que auxilia nos focos de debate e
investigação, embora não compreenda a não-linearidade dos fluxos de ação e repercussão a
nível global. As esferas são pivôs para sustentação argumentativa, mas não esqueçamos suas
interconexões.

Figura 2 - Trecho do video vaporwave mix8

Segundo o texto de Gazana e Bertolomeu, que se apoiam em Iman Moradi, artista e


investigador, concebe-se o Glitch como possível de ser primordialmente dividido entre duas
categorias: entre os que surgem aleatoriamente e aqueles que são fruto de manipulação do
arquivo pelo interator, sendo o Pure Glitch e o Glitch A-like, respectivamente. O Pure Glitch
é a evidência estética da falha aleatória de operação maquínica exibida pela interface digital
do monitor, seja uma tela para imagem quanto para o dispositivo de reprodução de áudio. O
interator, aquele que submete os softwares e até hardwares de processamento a operações

8
Trecho do vídeo do youtube Aesthetic Memes | 1½ Hour Vaporwave Mix, compilado de
diversas obras e de vários produtores. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=pp1NWRDl0pI
(1:25:08 duração) <acessado 24/07/2016>

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erradas e/ou corrompe a base codificada dos dados sem previsão de resultado estético, fica
incerto se pode ser considerável um Pure Glitch, pois há a intenção do interator para o
produto. O Glitch A-like seria a utilização de softwares específicos que possibilitam filtros e
modulações dos arquivos de forma instantânea, mas não corrompendo os dados em si, e sim
somente dando o aspecto de degradação. (ARRUDA, 2015)
A utilização do databend e datamosh transitaria entre estas práticas de operação sobre
pacotes de dados e que buscam novas codificações imagéticas neste âmbito tecnológico e
virtual. De acordo com Gazana et al, o Glitch tem alguns aspectos principais na sua estética,
delimitados por Moradi, como a fragmentação, repetição, linearidade, e a complexidade. Suas
imagens são compostas por pixels, códigos binários de posicionamento e aspecto: o Glitch
será a leitura equivocada dos códigos, que seguem uma ordem. Com os dados corrompidos,
algarismos repetidos ou ausentes, a imagem será lida de uma determinada forma de acordo
com o seu formato de arquivamento. A imagem fragmenta-se, pedaços se repetem, e tem certa
lógica de leitura, uma linearidade calculada para a operação. Manipulando pixels e bites, sua
reprodução no monitor é um complexo mosaico de unidade de composição de um arquivo
digital.

As criações infográficas estão fundadas sobre os conceitos da Imagem Digital e


Imagem Numérica, quer dizer, uma imagem onde sua especificidade básica é a de
ser redutível aos pequenos elementos que a constituem, chamados de pixels. Assim,
cada pequeno ponto ou pixel é qualificável e quantificável separadamente quanto a
sua cor, textura, luminosidade e a localização a que se refere. Toda imagem, no
sentido de unidade de representação, se encontra decomposta e recomposta segundo
sua unidade de base pontual. (PLAZA in PARENTE, 1993, p. 73)

É valido frisar que este texto de Gazana trata de questões do Glitch mais voltadas para
a lógica do campo artístico acadêmico. Mas como este universo virtual foi assimilado ao
cotidiano ocidental, tais fenômenos9 surgem como reflexos culturais populares de interação
com o virtual. No livro de Rosa Menkmen, The Glitch Moment(un), refere-se às maneiras e
usos desta distorção de informação como Databend, ou Databending, e exemplifica os passos
de corrupção de dados.

9
Aqui fenômeno pode ser entendido segundo a lógica de Charles Peirce, na qual é “tudo aquilo que aparece à
mente, corresponda a algo real ou não” (SANTAELLA, 1983, p 42).

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Figura 3 - Vaporwave10

São várias as táticas possíveis para se submeter uma imagem, som ou vídeo a um
Glitch, codificando e descodificando o arquivo, ou data, em etapas não convencionais; o erro
funcional digital, ás vezes atingido com o desgaste da máquina, e segue alguns padrões
dependendo do funcionamento de seus formatos. O Glitch do Vaporwave está circunscrito na
tecnologia e expressão de um campo de disputa de vários agentes em distintas escalas.
Com isso, o vapor simula universos que saturam sua própria característica essencial,
de mimese num ambiente artificial. O Glitch é só mais um elemento de identificação , assim
como as imagens BYM (Blue, yellow, magenta), estátuas, palmeiras, caracteres japoneses,
entre outros (ARRUDA, 2015)

Vaporwave stands in opposition to the sleek production of contemporary music and


can also call attention to the artifice of music production with oddly cut loops
(causing the jagged samples to resist turning over on the downbeat of a measure),
and continuous the repetition, an by exposing the audible ‘click’ of the sample
looping over the remix. The ostentatious display of art of sampling on its head;
vaporwave artistis tend to disregard the invisible editing of mass-produces,
massively consumed pop fodder. Vaporwave’s glitch aesthetic is particulary eerie,
with its CUT-and-paste editing and pitch-shifted vocals. This “haunted” quality of
the genre’s overall sound is perhaps its greatest strength in producing an uncanny
emotional response. (TANNER, 2016, p.11)

O Glitch é uma das técnicas empregadas para isso e que remete ao ambiente e
contexto de experiência, do digital e virtual instaurado no cotidiano, e na sua falibilidade.
Trazido para uma discussão historiográfica, instiga a repensar nossas fontes, nossos suportes
para debater o que convencionamos de real em busca de um acordo adequado e consistente
para entendê-lo.
10
Prinstscreen tirado de uma imagem obtida através da inscrição do verbete Vaporwave no Google imagens,
disponível em https://pbs.twimg.com/media/CYwD30uUMAERIMS.jpg. <Acessado 29/07/2016>

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O ponto chave da discussão é o grau de possibilidade de criação que foi estimulada
pela tecnologia, com a modelagem do pixel como partícula constituinte do objeto estético, e
do código de reprodução sonora, (que permite distorção e sobreposição de sons, o tratamento
final e a difusão simplificada). A tinta meticulosamente plantada em pontos, como numa tela
pontilhista de Georges Seurat, foi transformada num material linguístico residual que reverte
esteticamente para o mundo através da plataforma tecnológica, automática, expandida. Os
cálculos e procedimentos sistemáticos de codificação/descodificação de uma imagem são
passiveis de enganos e distorções, e sua ocorrência empregada como fenômeno poético
lembra a dimensão artificial que se apresenta.
Estas imagens foram coletadas a partir de sistemas de buscas de navegadores de
internet, com acesso doméstico a rede. Através da palavra chave Vaporwave, uma série de
imagens são relacionadas, oriundas de sites, blogs, redes sociais, num filtro virtual de
operação do sistema de busca. Além destas imagens estáticas, abordo os Glitches de dois
vídeo específicos, disponíveis online. Sites como youtube, soundcloud, bandcamp, e até
facebook e twitter, podemos conceber, se em consonância a Paiva, como ferramentas tecno-
sociais que produzem “significações que podem favorecer novas experiências sensoriais,
cognitivas e comunitárias” (PAIVA in NUNES, 2005, p. 291)
Os caracteres japoneses, as cores, o som, o jogo com marcas, são significantes,
existem como fenômeno e podem ser recebidos e interpretados, assim tendo significado, que
estará de acordo com pares que detém relações sobre o objeto. Esse acordo é uma estrutura,
cujo núcleo motor é um capital simbólico, a legitimidade pela estética que cumpre um
discurso. Os sons desacelerados, o Glitch, a saturação de cores, são indícios que podem ser
interpretados, corroborando para a relação com o enunciado.

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Figura 3 - Trecho de SIMPSONS WAVE | 1 Hour Mix!11

A técnica Glitch sozinha não caracteriza ou aglomera significados para identificar uma
obra de Vaporwave, mas sim corrobora para toda a aura e conduções de associações
estimuladas pelo audiovisual. Essa capacidade de explorar dimensões imagéticas e sonoras é
alicerçada no refinamento tecnológico que ao mesmo tempo é assimilada pela sociedade,
permitindo a expressão popular e massiva em dimensão virtual com recursos estéticos mais
sofisticados.
No processo de operação com o virtual, a literal torção do código, databend, é um
processo de manipulação de dados numéricos, ficheiros de arquivos que podem ser forçados a
serem corrompidos por reformatações e acessos não convencionais as informações. Segundo
Menkman, uma das técnicas mais acessíveis é abrir o arquivo de imagem em sua forma
codificada textual em um editor de texto, apagar trechos, repetir outros, inserir códigos novos,
quando reformatado reverterá num produto estético infográfico num limiar entre aleatoriedade
e intenção.
A corrupção dos dados é explorada como direção de formações audiovisuais que
assumem certas lógicas ou como ocorre uma interpretação maquínica que não é de acordo
com o esperado, o convencional, o seu propósito existencial, já que é um produto humano.
Por mais que o código deva estar em sincronia com os demais, seguindo protocolos e acordos,
a lógica em que o PC segue para ter sucesso em sua operacionalidade é distinta da
humana.(MENCKMAN, 2011)

11
Printscreen tirado do vídeo de uma hora de várias músicas de Vaporwave acompanhadas de imagens do
desenho animado Os Simpsons, editadas de acordo à temática. Há uma vasta gama de vídeos que somam o som
Vaporwave ao desenho animado, sendo conhecido também como Simpsonwave. Disponível em
https://www.youtube.com/watch?v=jeEU3cWwVRw <Acessado 30/07/2016>

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O Glitch, assim como o Vaporwave em si, é um sinal da ambiência virtual que a
sociedade conseguiu propor para si mesma, e de como esta artificialidade faz parte do real,
pois não se descola do real, e sim representa novas formas e consequências. Eles são fruto e
ao mesmo tempo nutrem as lógicas que circundam a vida ocidental do século XXI, do
capitalismo, do virtual. As imagens digitais somadas ao som vago e repetitivo, constituídos de
pedaços sobrepostos de outros objetos estéticos (passados por novas recodificações ao serem
editadas), somados aos nomes de marcas, tonalizam o discurso pendendo a um cinismo e
ironia12 estética.
O comportamento do Vaporwave como fenômeno cultural contemporâneo corre junto
aos panoramas contextuais modernos ocidentais (no plural, já que uma só explicação não
basta para conceber o fluxo e cadeia de eventos que interferem uns nos outros). A estética
infográfica subversiva, anônima, distorcida do micro gênero rasga a máscara do que o
individuo contemporâneo está mais acostumado: a própria tecnologia, a busca pelo belo e
refinado, a apuração técnica e funcional que se alinha a ideia de progresso que rege as rotinas
massivas urbanas.
A degradação estética do virtual, somados aos demais signos, trazem novas auras para
a rotina e estilo de vida ocidental, urbana, consumista. Perturbando a rotina, a expectativa é
que algo brote deste embaralhamento, ao menos um olhar de espanto, uma fagulha de
mudança e indagação, um possível caminho para um olhar produtivo para o que nos cerca. O
que vem embutido com estas formas estéticas virtuais é sua substância do ponto de vista
material: sua tradução e sistemática calculada, seja de som ou imagem (as letras e sinais
gramáticos apresentados pelo monitor digital sendo também concebidas como imagem) e que
no mundo contemporâneo se dinamizaram em virtude dos processos científicos e tecnológicos
ao longo da história.
Através de uma perspectiva historiográfica, tomando estas artes virtuais
hipermidiáticas como fontes para estudos contemporâneos, suas características essenciais de
simulação e difusão constituem mais do que a evaporação de suas pegadas e rastros de
origem, mas o próprio ethos social contemporâneo influído pela presença tecnológica. As
vivências individuais, cujas experiências constituem os processos de significação da

12
Utilizo os termos cinismo e ironia não de forma a definir um padrão de categorização nem de julgamento do
gênero, mas apontar certos aspectos comportamentais de sua apresentação, no que provocam ao serem sentidos
(pela audição e visão) no recebedor. A degradação da imagem e som, as apropriações, a concatenação e
apresentação de idéias e referências, evocam um estranhamento do que é usual e conhecido. “Ironia, distância
crítica, reelaboração lúdica são três traços fecundos das práticas culturais modernas em relação aos desafios pré-
modernos e à industrialização dos campos simbólicos.” (CANCLINI, 2000, p.141)

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realidade, estão estreitamente ligadas ao digital/virtual, seja na forma de se informar a respeito
do que acontece ao redor do planeta, seja para se comunicar com os colegas de trabalho e
família, seja para fruir artes como música e cinema: a percepção da dinâmica cada vez mais
familiarizada, e menos espantosa.
Quanto ao que os historiadores farão com estas novas condições de fonte histórica, o
debate é contínuo e necessário, enquanto nos encaminhamos para a segunda década do século
XXI, já mergulhados, longe da superfície, em um oceano de enunciados.

Referências

ARANTES, Priscila. @rte e mídia: Perspectivas da estética digital – 2ª ed. – São Paulo: editora
Senac São Paulo, 2012.

ARRUDA, Mario Alberto Pires de. Vaporwave: estetização da tecnologia pelo atravessamento
de enunciados. Trabalho de conclusão de curso (Comunicação social: habilitação em jornalismo)
Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Oritentador: Alexandre Rocha da Silva. UFRGS,
2015.

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COUCHOT, Edmond. A tecnologia na arte: da fotografia à realidade virtual. Porto Alegre:


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Vídeos e imagens da internet:

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BRAZIL - Publicado em 15 de maio de 2016 por Average Asi4n/Categoria: Pessoas e


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https://www.youtube.com/watch?v=dDNu1tVtxnc <acesso em 30/07/2016>

Imagem sem nome – Disponível em https://pbs.twimg.com/media/CYwD30uUMAERIMS.jpg.


<acesso em 29/07/2016>

SAINT PEPSI – Cherry Pepsi/ Publicado em 13 de junho de 2013 por David Dean Burkhart/
Categoria: Entretenimento/ Licença: Licença padrão youtube/ Duração: 3 min 3 7 seg / Disponível
em https://www.youtube.com/watch?v=OrR1TGQY20Y <acesso em 04/08/2016>

SAINT PEPSI – Enjoy Yourself/ Publicado em 5 de setembro de 2014 por Sun Levi/ Categoria:
Música/ Licença: Licença padrão youtube/ Duração: 1 min 57 seg/ Disponível em
https://www.youtube.com/watch?v=_hI0qMtdfng <acesso em 04/08/2016

SAINT PEPSI – Private Cellar - Publicado em 4 de maio de 2013 por ElFamosoDemon/


Categoria: Música/ Licença: Licença padrão youtube/ Duração: 3 min 40 seg/ Disponível em
https://www.youtube.com/watch?v=Ki-fATpXa00 <acesso em 04/08/2016>

SIMPSONS WAVE | 1 Hour Mix! - Publicado em 12 de junho de 2016 por Taylor W/


Categoria: Jogos/ Licença: Licença Padrão Youtube. Duração: 59 min 50 seg/ Disponível em
https://www.youtube.com/watch?v=jeEU3cWwVRw <acesso em 30/07/2016>

Zadig The Jasp - TV In 1987 ( + Vaporwave Video Clip ) Publicado em 27 de agosto de 2016 por
Zadig the Jasp/ Categoria: Entretenimento/ Licença: Licença padrão youtube. Duração: 1 min e 12
seg/ Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=Crp8lovi4dM <acesso em 02/09/2016>

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