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“ O Preto no Branco “

Da granada deflagrada no meio


de nós, do fosso aberto, da vala
intransponível, não nos cabe
a culpa, embora a tua mão,
armada pelo meu silêncio,
lhe tenha retirado a espoleta.
De um lado o teu dedo indicador,
de outro a minha assumida neutralidade.
Entre os dois, ocupando o espaço,
que vai do teu dedo acusador
à minha mudez feita de medo e simpatia,
tudo quanto não quisemos, nem urdimos,
tudo quanto a medonha zombaria
de ódios estranhos escreve a sangue
e, irredutivelmente, nos separa e distancia.
Tudo quanto há-de gravar o meu nome
numa das balas da tua cartucheira.
Nessa bala hipotética, nessa bala possível,
que se vier, quando vier ( ela há-de vir )

melhor dirá o que aqui fica por dizer.

De “ Mangas Verdes com Sal “, 1969

Ensaio

Numa primeira abordagem, o título “ O Preto no Branco “ sugere-nos várias


interpretações, entre elas a inevitável questão racial não propriamente no sentido da
problemática do racismo em si, mas neste caso na coexistência de ambas as raças no
mesmo espaço territorial, ou seja, o problema da Colonização. Se repararmos na data da
edição do poema, em 1969, inserido na obra “ Mangas verdes com sal “, contemporâneo
da Guerra Colonial que havia rebentado em 1964, torna-se perceptível a temática do
texto, introduzindo um discurso de desocupação colonial.
Os primeiros versos apresentam então um ambiente de tensão, provavelmente o
mesmo que se sentia na altura em Moçambique, com a “ granada deflagrada “ como
valor figurativo da guerra, e uma “ vala intransponível “ que funciona como uma
barreira, como algo que nem a vontade nem a determinação parecem conseguir superar.
Estamos portanto perante um eu e um tu em conflito, mas como o poema explicita; “
não nos cabe a culpa “, ou melhor, a culpa caberá a outros, embora o eu (o branco)
assuma que a acção de ambos está implicada no conflito. É a “ …tua mão “ que retira a

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espoleta, mas esse gesto é armado pelo “ …meu silêncio ”, um silêncio que poderá ser
obtido pela força militar e por outro lado ser um silêncio consentido; “ De um lado o teu
dedo indicador, de outro a minha assumida neutralidade. ”.
Esta relação de auto-penetração entre o eu e o tu vai eclodir numa acusação que
já tinha sido introduzida no sétimo verso; “ …o teu dedo indicador, “, e que se vai
consumar no décimo verso; “ …teu dedo acusador…”, que coloca o tu ( o preto) numa
situação de acusador perante um eu que assume a neutralidade ou até mesmo a
imobilidade através de uma “ …mudez feita de medo e simpatia, “.
À medida que percorremos o poema vamo-nos aperceber que o conflito que cada
vez mais se generaliza pode ter tido origem em factos que são estranhos ao eu e ao tu, e
que de alguma forma os transcendem; “ tudo quanto não quisemos, nem urdimos, tudo
quanto a medonha zombaria de ódios estranhos escreve a sangue…”. Estes factos
continuam a separá-los; “ irredutivelmente nos separa e distancia “ remetendo para o “
fosso aberto “, a “ vala intransponível “.É plausível dentro deste contexto pensar que é a
esta entidade estranha ao eu e ao tu que o eu atribui a culpa pelo estado da situação.
A tensão aumenta nos últimos cinco versos com o sujeito da enunciação a
antever o futuro da História, mostrando certeza em relação ao que irá acontecer que
resultará de tudo aquilo que um dia fará revoltar o seu oponente; “ Tudo quanto há-de
gravar o meu nome numa das balas da tua cartucheira.”. O poema termina, nos três
versos finais, a evidenciar a marca do Tempo, ou seja, o início do conflito; “ Nessa bala
hipotética, nessa bala possível, que se vier, quando vier ( ela há-de vir ) melhor dirá o
que aqui fica por dizer. “. Neste último verso, é possível identificar o teor profético das
palavras, com Knopfli a predizer o futuro, algo que já acontecera na obra “ Máquina de
Areia “, editada em 1964.
Rui knopfli, que vem demonstrando ao longo da sua carreira literária uma certa
indefinição no que respeita à sua identidade poética, assume neste poema essa faceta,
questionando essa mesma identidade, a forma como idealiza os outros, o mundo e as
suas próprias origens.

Relatório de leitura

Em consequência das leituras que efectuei para realizar este trabalho, enumerei
três questões que penso serem pertinentes quando se fala da poesia de Rui knopfli.
A primeira questão é incontornável e prende-se com a nacionalidade literária do
poeta. Neste sentido podemos por um lado inserir Rui knopfli no universo da literatura
moçambicana, ou seja, num projecto colectivo com as suas próprias raízes e a sua
própria cultura, identificando na sua obra o sentido da moçambicanidade, mas por outro
lado podemos olhar para o seu trabalho pela sua especificidade e pela sua própria
identidade artística.
No seguimento da questão anterior outra questão se coloca, a do “
enraizamento/desenraizamento “ da poesia de Knopfli. Desde a obra “ O País dos
Outros “ até à obra “ A Ilha do Próspero “ identificamos um sujeito perfeitamente
enquadrado e identificado com a realidade de África. A partir de “ O Escriba Acocorado

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“ o centro de gravidade do sujeito passa a ser a Europa e esta deslocação associa-se a
um desenraizamento afectivo, geográfico e cultural de África gerando no sujeito
knopfliano um sentimento de auto-exclusão.
Estas duas questões foram observadas na obra de Francisco Noa, “ Literatura
Moçambicana: Memória e conflito. Itinerário Poético de Rui Knopfli “, presente na
bibliografia.
Outra questão que importa referir é a dos modelos literários em Knopfli e uma
deambulação entre as formas clássicas e o Modernismo. Como um dos poetas mais
importantes dos anos 60 e 70 em Moçambique, recebendo influências do Neo-Realismo
e da Negritude, Knopfli joga tanto com os géneros e as formas clássicas como com os
extensos poemas tipicamente modernistas.
Esta última questão está presente na obra “ Literaturas Africanas de Expressão
Portuguesa “ de Pires Larangeira, também presente na bibliografia.
Por último, achei interessante o paralelo que alguns autores estabelecem entre
Knopfli e Fernando Pessoa e tentei elaborar um esquema de um possível projecto de
investigação sobre esta questão.

Projecto

Tema: “ A confluência entre Knopfli e Pessoa “

1. O sensacionismo
1.1. A poesia como espaço de sensações
1.2. A configuração das sensações
1.2.1. Experiências concretas
1.2.2 .Artificialidade poética
1.3. A tensão estética das sensações
1.4. O real que se torna poético
2. A poética do ver
2.1. As consequências nos poetas
3. A poética do conhecer
3.1. As consequências nos poetas
4. Inconformismo em relação ao mundo
4.1. Relação entre a existência das coisas e a inquietação do poeta
5. A natureza
5.1. A presença da Natureza em Pessoa e em Knopfli
5.2. Os motivos da Natureza
6. A problemática existencial
6.1. O fingimento em Pessoa
6.2. A nacionalidade em Knopfli
7. O espaço
7.1. A universalidade do espaço
8. O tempo
8.1. A tarde e a noite

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Bibliografia

KNOPFLI, Rui, “ Mangas Verdes com Sal “, 2ª edição, Minerva Central, Lourenço
Marques, 1972.

KNOPFLI, Rui, “ Obra Poética”, Escritores dos países de Língua portuguesa, 31,
Imprensa Nacional – Casa da Moeda, Fevereiro 2003.

LABAN, Michel, “Moçambique. Encontro com Escritores”, II volume, Edições


Fundação Engº António de Almeida, Abril 1998.

LARANGEIRA, Pires, “ Literaturas Africanas de Expressão Portuguesa “,


Universidade Aberta, Lisboa, 1995

MARGARIDO, Alfredo, “ Estudos Sobre Literaturas das Nações Africanas de Língua


Portuguesa ”, A regra do jogo – edições, 1980.

MONTEIRO, Fátima, “ O País dos outros. A Poesia de Rui Knopfli “, Escritores dos
países de língua portuguesa, 32, Imprensa Nacional – Casa da Moeda,
Setembro 2003.

NOA, Francisco, “ Literatura Moçambicana. Memória e Conflito. Itinerário Poético


de Rui Knopfli “, Livraria Universitária, Maputo, 1997

VVAA, «Les Literatures Africaines de Langue Portugaise», Actes du Colloque


International, Paris, 28-29-30 Novembre, 1 Decembre 1984, 2ª édition,
Fundação Calouste Gulbenkian, 4 de Outubro de 1989.

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Universidade do Algarve

Faculdade de Ciências Humanas e Sociais

Departamento de Letras Clássicas e Modernas

Seminário - Métodos de Investigação em Literatura

Docente – Prof. José Paulo Pereira

Rui Knopfli

“ O Preto no Branco “

Discente:
Álvaro José Ferreira Gradeço
Nº - 17513
L.L.M. – Variante de Estudos Portugueses

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